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Dinâmicas Sociais e Culturais na Era Digital

Tema 1 – SOCIABILIDADES EM REDE – IDENTIDADES, COMUNIDADES E REDES


SOCIAIS.

Preâmbulo

A cultura, no sentido sociológico ou antropológico, refere-se a um conjunto de hábitos,


valores, representações ou práticas sociais que são partilhadas por determinadas
comunidades ou grupos. Acresce todo o ambiente construído pelo homem em
comunidade, no qual participam a arquitetura, os artefactos, a tecnologia, etc. A cultura
não é uma entidade cristalizada no tempo, mas está sujeita à mudança. As invenções
tecnológicas, por exemplo, alteram hábitos, práticas e valores. Pensemos na invenção da
imprensa, do telefone, da fotografia ou do computador. Todas estas tecnologias abriram
espaço a novas práticas sociais e alteraram muitas outras. Como tal, não é difícil imaginar
como o universo constituído pelas tecnologias digitais alterou certos aspetos da nossa
cultura.

As tecnologias atravessam hoje o nosso quotidiano e influenciam decisivamente na forma


como pensamos o mundo e como interagimos nele. As imagens e informações acerca da
realidade são-nos em grande medida transmitidas por tecnologias diversas (rádio,

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televisão, internet, etc.). A forma como interagimos com as pessoas depende não apenas
de situações contextuais face-a-face mas, cada vez mais, de contextos mediados por
tecnologias diversas (telefone, telemóvel, smartphone, computador, tablet, etc.). Numa
realidade crescentemente digitalizada, estamos conectados em permanência,
funcionando em rede. Esta situação condiciona a forma como nos relacionamos
socialmente, como gerimos o trabalho, a aprendizagem, o lazer, etc. Falamos de
implicações profundas e há muita literatura académica que se tem debruçado sobre estas
questões, analisando os impactos culturais destas transformações.

Partimos, por isso, de dois pressupostos. Por um lado, a tecnologia é parte da cultura, pois
constitui-se como um conjunto de artefactos e de sistemas produzidos pelo homem com
o intuito de responder a um conjunto de demandas coletivas. A tecnologia tem um
objetivo e cumpre uma função. Por outro lado, a tecnologia também tem impactos
diversos na cultura, transformando-a. Pensemos em invenções tecnológicas tão antigas
como o telescópio, o microscópio, o automóvel ou o rádio e no reflexo que tiveram na
vida da humanidade. Tenhamos, também, em consideração que este impacto é não só
diversificado e complexo como, muitas vezes, inesperado e não controlado.

A internet está a revolucionar a comunicação humana. Com ela abrem-se novas formas
de intercâmbio de informações, de forma interativa, assíncrona ou síncrona, com
intimidade mesmo que sem proximidade física. A diversificação das tecnologias digitais,
nomeadamente de natureza móvel, torna a experiência de comunicação completamente
diferente, na medida em que estamos constantemente conectados a uma rede que
alimenta um circuito ininterrupto de troca de conteúdos (textos, imagens, sons, etc.).
Esta conectividade parece diluir as fronteiras espácio-temporais, facilitando o contacto
com diferentes pessoas e comunidades em diversos pontos do planeta. Desta forma,
estamos perante um processo desterritorializado de interacção e comunicação,
fomentando a criação de laços que não dependem da proximidade geográfica e da
partilha do território. De alguma forma, esta nova condição, abala as noções tradicionais
de comunidade que assentavam, em grande medida, na copresença e na partilha de
fronteiras. Uma comunidade virtual pode ser composta por indivíduos vivendo em
continentes diferentes e falando idiomas diversos.
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Cultura, identidade e comunidade, são conceitos que estão estreitamente associados à
noção de território, na perspectiva mais clássica das ciências sociais. Actualmente as
formas de interacção e encontro online contribuem para o aparecimento de outros
formatos de agregação colectiva. Daí que se fale da formação de “comunidades virtuais”,
de formas de sociabilidade mediadas pelas tecnologias. Estas novas realidades alteram
também a forma como podemos conceber e debater as identidades pessoais e culturais,
na medida em que o universo online favorece fenómenos de anonimato, de construção
de novos perfis, “máscaras” e papéis que não dependem dos posicionamentos sociais das
pessoas e dos seus traços individuais e culturais (idade, género, etnia, classe social,
residência). Ou seja, simplificando, em terrenos online podemos ser criativos, reinventar-
nos, podemos ser quem quisermos ou idealizarmos. Tal não significa que a presença no
universo online represente um corte com a realidade offline, uma emancipação das
nossas posições estruturais. As comunidades que se estabelecem no mundo digital
dependem de redes, conexões, comunicação e interacção entre indivíduos. De acordo
com Inês Amaral (2016: 173):

Existem padrões de conectividade na e em rede que transformaram a cultura


digital. O conteúdo é o laço relacional de comunidades e redes. Efectivamente, é
interessante verificar que, na Internet, os indivíduos não estão ligados apenas por
relações sociais mas essencialmente pelo contexto, experiências partilhadas e
interesses comuns. Os novos laços centram-se no conteúdo e conversação,
destacando-se os grafos de interesse e de actividade das redes de amizade.

O conceito de comunidade tem evoluído desde os primeiros estudos de comunidade.


Este é um conceito em contínua reconfiguração, uma vez que diversas alterações sociais,
culturais e tecnológicas nos obrigam a olhar de forma diferente para as relações entre as
pessoas. A tecnologia é especialmente relevante a este nível pois, como referimos, altera
grandemente as relações com o “espaço” e o “tempo”. As fronteiras geográficas são hoje
bem mais fluídas e permeáveis, não apenas pelos meios de transporte existentes (avião,
automóvel, etc.), mas também pelas tecnologias de comunicação (telefone, internet,
etc.).

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O termo “comunidade”, pode ser entendido no âmbito das ciências sociais, da seguinte
forma (Sociology Guide):

The term community is one of the most elusive and vague in sociology and is by now largely
without specific meaning. At the minimum it refers to a collection of people in a
geographical area. Three other elements may also be present in any usage.

(1) Communities may be thought of as collections of people with a particular social


structure; there are, therefore, collections which are not communities. Such a notion often
equates community with rural or pre-industrial society and may, in addition, treat urban or
industrial society as positively destructive. (2) A sense of belonging or community spirit. (3)
All the daily activities of a community, work and non work, take place within the
geographical area, which is self contained. Different accounts of community will contain
any or all of these additional elements.

We can list out the characteristics of a community as follows:

Territory
Close and informal relationships
Mutuality
Common values and beliefs
Organized interaction
Strong group feeling
Cultural similarity

Talcott Parsons defined community as collectivity the members of which share a common
territorial area as their base of operation for daily activities. According to Tonnies
community is defined as an organic natural kind of social group whose members are bound
together by the sense of belonging, created out of everyday contacts covering the whole
range of human activities. He has presented ideal-typical pictures of the forms of social
associations contrasting the solidarity nature of the social relations in the community with
the large scale and impersonal relations thought to characterize industrializing societies.
Kingsley Davis defined it as the smallest territorial group that can embrace all aspects of

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social life. For Karl Mannheim community is any circle of people who live together and
belong together in such a way that they do not share this or that particular interest only but
a whole set of interests.

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DESCRIÇÃO DA ATIVIDADE

Esta é uma actividade individual que se realiza em três fases.

1ª Fase – Para além da bibliografia obrigatória que o estudante deve ler, nesta fase deve
procurar outras leituras que tratem das temáticas das comunidades
virtuais/cibercomunidades.
2ª Fase – Leitura dos textos e eventual discussão com colegas. Fase onde se devem
colocar no fórum as dúvidas. Colocar no wiki conceitos importantes a reter (trabalho
colaborativo).
3ª Fase - Trabalho escrito. Redação de um trabalho final, que reflicta as leituras feitas e
que responda a uma das seguintes questões (selecionar e indicar claramente qual a
questão selecionada no documento final):

a) “As comunidades virtuais: como entender o conceito de comunidade na era


digital?”.
b) “Internet, media digitais e redes de sociabilidade”
c) “Redes sociais digitais: o que são e que impactos têm?”

O texto deverá ter entre 1.500 a 3.000 palavras. Deverá ter uma introdução,
desenvolvimento da reflexão e terminar com uma conclusão (e bibliografia final). Não se
pretende que o estudante faça um mero resumo dos textos, mas que os debata de forma
original, crítica e fundamentada, recorrendo quando necessário a outras referências
bibliográficas. Aconselhamos ainda a consulta de outros recursos propostos,
nomeadamente os vídeos.

Notas importantes a considerar:

Atenção às citações longas. Por princípio as citações não devem ultrapassar 10-15% do
texto. Atenção ainda a excertos retirados de outras fontes, sem a menção ao referido
autor, situação que configura plágio. Utilize as regras formais sugeridas no documento
disponível na plataforma da UC (Amante e Pereira, 2008).
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RECURSOS DE APRENDIZAGEM

Textos obrigatórios:

Raquel da Cunha Recuero (2004) “Comunidades virtuais - Uma abordagem teórica”


http://www.bocc.ubi.pt/pag/recuero-raquel-comunidades-virtuais.pdf
Eliana Santana Lisbôa, Clara Pereira Coutinho (2011) “Comunidades Virtuais: Sistematizando
Conceitos“
https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/15714/1/161-996-2-PB.pdf
Amaral, Inês (2016). Redes Sociais na Internet: Sociabilidades Emergentes, Covilhã, Editora
LabCom.IFP – Capítulos 4 e 5
http://www.labcom-ifp.ubi.pt/ficheiros/201701311021-201619_redessociais_iamaral.pdf

Outros recursos sugeridos:

Van Dijk, Jan (1997) “The reality of virtual communities” in Jo Groebel (ed.) Trends in
Communication I. pp. 39-63. Amsterdam: Boom Publishers.
https://www.utwente.nl/bms/vandijk/publications/the_reality_of_virtual_communi.pdf
Rogério da Costa (2005) “Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades
pessoais, inteligência coletiva”
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832005000200003
Luísa Aires (2007) “Comunidades e Relações Interpessoais Online: reflexões no âmbito do
projecto “@prende.com”, pp 17-29
https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/79614/2/118430.pdf
Alan Delazeri Mocellim (2011) “A comunidade: da sociologia clássica à sociologia
contemporânea” http://www.revistas.usp.br/plural/article/view/74542/78151
Maria Júlia Goldwasser (1974) "Estudos de Comunidade": Teoria e/ou
Método?” http://www.rcs.ufc.br/edicoes/v5n1/rcs_v5n1a6.pdf
M. Fátima Brandão e Rui Graça Feijó “Entre textos e contextos: os estudos de comunidade
e as suas fontes históricas” Análise Social, vol. XX (83), 1984-4.°, 489-503
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223475052Z2aQS2ru7Fv41NY6.pdf
SANTOS, Francisco Coelho dos, & CYPRIANO, Cristina Petersen. (2014). Redes sociais, redes
de sociabilidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 29(85), 63-78.

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https://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092014000200005

“Social Community : Meaning, Types and Features”


http://www.sociologydiscussion.com/social-community/social-community-meaning-types-and-
features/2266

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