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UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE

FACULDADE DE DIREITO

Direito Bancário e dos Seguros

Tópicos das Lições proferidas ao 4º e ao 5º anos jurídicos do ano


académico de 2019

Por Boaventura Gune, PhD


Apresentação do Autor

Docente de carreira desde 1977, Boaventura Gune iniciou a sua actividade de leccionação na UEM a partir
da Faculdade de Economia em 1991, onde, desde então tem vindo a leccionar sucessivamente, nos cursos
de licenciatura em Economia, em Gestão e em Contabilidade e Finanças, as cadeiras de Introdução ao
Estudo do Direito, Direito Comercial, Direito Económico, Direito Económico e Comercial e, por último,
Direito Empresarial, sempre como Regente. Na mesma Faculdade, foi Regente da cadeira de Direito
Empresarial no curso de Mestrado em Gestão, – MBA –, durante as suas primeiras nove edições, até ao
mesmo ano académico de 2016.

A sua colaboração com a Faculdade de Direito iniciou em 1992 e, a partir de 1993, assumiu a regência da
cadeira de Introdução ao Estudo do Direito até ao ano de 2008, altura em que, a pedido da Direcção da
Faculdade, passou a assumir a regência do Direito das Obrigações, situação essa que prevalece até hoje.

No âmbito desta colaboração e enquanto Regente do Direito das Obrigações, assumiu também por dois
anos académicos consecutivos a regência da Teoria Geral do Direito Civil, participou em numerosas e
sucessivas vezes, como regente ou em co-regência, na leccionação do Direito Bancário e, como
Assistente, na do Direito Internacional Económico.

Para além das Faculdades de Economia e de Direito, colabora igualmente com a Faculdade de Letras e
Ciências Sociais, também da UEM, desde 2014, precisamente nos cursos de Ciência Política e de
Administração Pública, regendo a cadeira de Introdução ao Estudo do Direito.

Ao longo deste percurso de 28 anos consecutivos de docência na UEM, a sua actividade de leccionação
foi extensiva também ao ISCTEM, à USTM, à Universidade Católica de Moçambique (ao nível de
Mestrado) e ao ISPU, hoje Universidade Politécnica, onde foi também Coordenador (Director) do Curso
de Ciências Jurídicas, por 2 anos, onde hoje não só lecciona as cadeiras de Direito Bancário e Direito
Económico, como também é Coordenador do Mestrado em Direito Empresarial e é igualmente regente das
cadeiras de Direito dos Contratos I e II neste Curso.

Desde 24 de Janeiro de 2018, é Director da Faculdade de Direito da Universidade Wutivi (UniTiva), e


também lecciona o Direito das Obrigações no 3º ano jurídico, o Direito dos Contratos no 4º ano jurídico e
o Direito Empresarial no Curso de Mestrado.

No presente ano académico, ao nível da Faculdade de Direito da UEM, assume a regência do Direito das
Obrigações tanto na turma diurna como na nocturna e integra também a equipa que ministra as aulas do
Direito Bancário e Seguros ao 4º e ao 5º anos jurídicos.

1
Em termos de habilitações, é licenciado em Direito pela FDUEM desde de 1991; é mestrado em Ciências
Jurídico-Empresariais, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, – a Clássica –, desde 21 de
Janeiro de 2004; é mestrado em Ciências Jurídicas, pela Faculdade de Direito da UEM, desde 13 de
Setembro de 2005; é Doutor em Direito pelas Faculdades de Direito da UEM e da UL, desde 26 de Abril
de 2016.

Fora da academia, é advogado em exercício, Carteira Profissional nº 012 e é Membro-Fundador da Ordem


dos Advogados de Moçambique, – OAM –, onde já exerceu as funções de Presidente do Conselho
Jurisdicional e de Presidente da Comissão Nacional de Avaliação do Estágio Profissional.

Para além de Docente e de Advogado, é Agente Oficial da Propriedade Industrial e é Presidente em


exercício da Comissão Paritária dos Bancos de Moçambique.

2
Dedicatória

A todos os meus alunos


com que pude trocar impressões sobre estas matérias,
nos anos académicos de 2000 a 2018,
na Faculdade de Direito da UEM e na Universidade Politécnica
e a todos aqueles com que neste ano académico de 2019, vou discutir estas temáticas.

3
Agradecimentos

À Direcção da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane, pela indicação para integrar a
equipa do Direito Bancário e dos Seguros no presente ano académico.
Ao Banco de Moçambique, à Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane, à Universidade
Politécnica, à Universidade São Tomás de Moçambique e ao Instituto Superior de Ciências e Tecnologia
de Moçambique, pelas facilidades concedidas no acesso às suas magníficas bibliotecas, onde encontrei
uma significativa parte da bibliografia usada nesta pesquisa.
À minha esposa e aos meus filhos, pelo apoio moral e pelo correlactivo incentivo para prosseguir com o
esforço de produção destes tópicos.

4
Índice Geral
Apresentação do Autor...................................................................................................................................1
Dedicatória......................................................................................................................................................3
Agradecimentos..............................................................................................................................................4
Das circunstâncias da elaboração destes tópicos..........................................................................................10
Plano de exposição adoptado........................................................................................................................11
PRELIMINARES.........................................................................................................................................16
1. Do Direito Bancário enquanto Disciplina Curricular e enquanto Ramo de Direito..............................16
1.1. Denominação da Disciplina e do Ramo de Direito........................................................................16
1.2. Acepções da Expressão “Direito Bancário”...................................................................................16
1.3. Conceitos de “Direito Bancário”....................................................................................................18
1.4. Enquadramento sistemático do Direito Bancário...........................................................................19
1.4.1. Posição do Direito Bancário na Sistemática Geral do Direito................................................20
1.4.2. Posição Direito Bancário no Sistema das Ciências.................................................................22
1.5. Razões da Inserção do Direito Bancário no Curso Jurídico...........................................................23
1.6. Autonomia do Direito Bancário.....................................................................................................24
1.7. Posição do Direito Bancário no Curricula da FDUEM..................................................................26
1.8. Relações do Direito Bancário com outros Ramos de Direito.........................................................27
1.8.1. Direito Bancário vs. Direito Público.......................................................................................27
1.8.2. Direito Bancário vs. Direito Privado......................................................................................28
1.8.3. Direito Bancário vs. Ramos de Classificação Híbrida............................................................29
1.9. Relações do Direito Bancário com outras Disciplinas Curriculares..............................................29
2. Do Objecto e da Relevância Prática do Direito Bancário.....................................................................30
2.1. Objecto do Direito Bancário como Ramo de Direito.....................................................................30
2.2. Relevância Prática do Direito Bancário como Ramo de Direito....................................................31
2.3. Objecto do Direito Bancário como Disciplina Curricular..............................................................31
2.4. Relevância Prática do Direito Bancário como Disciplina Curricular............................................32
3. Das Fontes do Direito Bancário.............................................................................................................32
3.1. Acepções da Expressão “Fontes do Direito Bancário”..................................................................32
3.2. Ideia de Fonte do Direito Bancário................................................................................................33
3.3. Tipologia das Fontes do Direito Bancário......................................................................................33
3.4. A Constituição da República como Fonte do Direito Bancário.....................................................34
3.5. O Código Comercial como Fonte do Direito Bancário..................................................................35

5
3.6. O Código Civil de 1966 como Fonte do Direito Bancário.............................................................36
3.7. A Legislação Avulsa como Fonte do Direito Bancário..................................................................38
3.8. Os Tratados Internacionais como Fontes do Direito Bancário......................................................38
3.9. A Relevância do Costume como Fonte do Direito Bancário.........................................................39
3.10. A Jurisprudência como Fonte do Direito Bancário....................................................................48
3.11. A Doutrina como Fonte do Direito Bancário.............................................................................49
3.12. Os Princípios Gerais do Direito como Fontes do Direito Bancário...........................................50
3.13. Hierarquia ou Pirâmide Nacional das Fontes do Direito Bancário............................................53
DIREITO BANCÁRIO INSTITUCIONAL.................................................................................................55
2.1. Noção.................................................................................................................................................55
2.2. Função ou papel.................................................................................................................................55
2.3. Do Sistema Financeiro...................................................................................................................57
2.3.1. Ideia geral................................................................................................................................57
2.3.2. Características de um sistema financeiro................................................................................58
2.3.3. Composição do sistema financeiro.........................................................................................59
2.3.4. Noção de sistema financeiro moçambicano............................................................................59
2.4. Banco de Moçambique......................................................................................................................62
2.4.1. Da Criação..................................................................................................................................62
2.4.2. Da Natureza Jurídica..................................................................................................................64
2.4.3. Do Direito aplicável....................................................................................................................64
2.4.4. Do Âmbito territorial..................................................................................................................65
2.4.5. Da Missão e da Visão estratégica...............................................................................................65
2.4.6. Dos Valores organizacionais......................................................................................................66
2.4.7. Dos Objectivos...........................................................................................................................66
2.4.8. Do Sistema Orgânico..................................................................................................................66
a) Conselho de Administração...........................................................................................................67
b) Conselho de Auditoria....................................................................................................................68
c) Conselho Consultivo......................................................................................................................68
2.4.9. Da Posição no Sistema Financeiro Moçambicano.....................................................................69
2.4.10. Das Funções do Banco de Moçambique.....................................................................................69
a) Banqueiro do Estado......................................................................................................................70
b) Conselheiro ou Consultor do Governo no domínio financeiro......................................................71
c) Orientador e Controlador das Políticas Monetária e Cambial........................................................71

6
d) Gestor das Disponibilidades Externas do País...............................................................................74
e) Intermediário das Relações Monetárias Internacionais..................................................................75
f) Supervisor das Instituições Financeiras.........................................................................................75
g) Serviço de Caixa de Tesouro..........................................................................................................76
2.4.11. Do Regime disciplinar dos seus trabalhadores...........................................................................77
2.4.12. Do Regime contabilístico...........................................................................................................78
2.4.13. Do Arquivo e da força probatória dos documentos....................................................................78
2.4.14. Do Estatuto Fiscal.......................................................................................................................79
2.4.15. Do Quadro sinóptico...................................................................................................................80
ANEXO I – 1ª LOBM - Dec. n.º 2/75, de 17 de Maio.................................................................................82
ANEXO II – 2ª LOBM - Lei nº.01/92, de 3 de Janeiro................................................................................93
CAPÍTULO I.............................................................................................................................................93
ARTIGO 1.................................................................................................................................................93
ARTIGO 2.................................................................................................................................................93
ARTIGO 3.................................................................................................................................................93
ARTIGO 4.................................................................................................................................................94
ARTIGO 5.................................................................................................................................................94
ARTIGO 6.................................................................................................................................................94
ARTIGO 7.................................................................................................................................................94
ARTIGO 8.................................................................................................................................................95
ARTIGO 9.................................................................................................................................................95
ARTIGO 10...............................................................................................................................................95
ARTIGO 11...............................................................................................................................................95
Da reserva monetária....................................................................................................................................95
ARTIGO 12...............................................................................................................................................95
ARTIGO 14...........................................................................................................................................96
ARTIGO 15...............................................................................................................................................97
ARTIGO 16...............................................................................................................................................97
ARTIGO 17...............................................................................................................................................97
ARTIGO 18...............................................................................................................................................97
ARTIGO 19...............................................................................................................................................97
ARTIGO 24...............................................................................................................................................98
ARTIGO 25...............................................................................................................................................98

7
ARTIGO 26...............................................................................................................................................99
ARTIGO 27...............................................................................................................................................99
ARTIGO 30...............................................................................................................................................99
ARTIGO 31...............................................................................................................................................99
ARTIGO 32...............................................................................................................................................99
ARTIGO 33.............................................................................................................................................100
SECÇÃO VI............................................................................................................................................100
ARTIGO 34.............................................................................................................................................100
ARTIGO 35.............................................................................................................................................100
ARTIGO 36.............................................................................................................................................100
ARTIGO 37.............................................................................................................................................100
ARTIGO 38.............................................................................................................................................101
ARTIGO 39.............................................................................................................................................101
ARTIGO 41.............................................................................................................................................101
ARTIGO 42.............................................................................................................................................102
ARTIGO 43.............................................................................................................................................102
ARTIGO 44.............................................................................................................................................102
ARTIGO 45.............................................................................................................................................103
ARTIGO 46.............................................................................................................................................103
ARTIGO 47.............................................................................................................................................104
ARTIGO 48.............................................................................................................................................104
ARTIGO 49.............................................................................................................................................104
ARTIGO 50.............................................................................................................................................105
ARTIGO 51.............................................................................................................................................105
ARTIGO 52.............................................................................................................................................105
ARTIGO 55.........................................................................................................................................106
ARTIGO 56.............................................................................................................................................107
ARTIGO 57.............................................................................................................................................107
ARTIGO 58.............................................................................................................................................107
ARTIGO 60.............................................................................................................................................107
CAPÍTULO VIII.....................................................................................................................................107
Balanço e contas de resultados................................................................................................................108
ARTIGO 61.............................................................................................................................................108

8
ARTIGO 62.............................................................................................................................................108
ARTIGO 63.........................................................................................................................................108
ARTIGO 64.............................................................................................................................................108
ARTIGO 65.............................................................................................................................................108
ARTIGO 66.............................................................................................................................................108
CAPÍTULO IX........................................................................................................................................108
Disposições diversas...............................................................................................................................108
ARTIGO 67.............................................................................................................................................108
ARTIGO 69.............................................................................................................................................109
ARTIGO 70.............................................................................................................................................109
ARTIGO 71.............................................................................................................................................109
ARTIGO 72.............................................................................................................................................109
ARTIGO 75.............................................................................................................................................110
ARTIGO 76.............................................................................................................................................110
ARTIGO 77.............................................................................................................................................110
ARTIGO 78.............................................................................................................................................110
ARTIGO 79.............................................................................................................................................110
ARTIGO 80.............................................................................................................................................110
ARTIGO 81.............................................................................................................................................110
ARTIGO 82.............................................................................................................................................110
DIREITO BANCÁRIO MATERIAL.........................................................................................................147
3.1. Características do Direito Bancário..............................................................................................147
3.2. Quadro Sinóptico desta Unidade, na forma de Questionário.......................................................148
3.3. Situação jurídico-bancária............................................................................................................149
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................................................151

9
Das circunstâncias da elaboração destes tópicos
A elaboração deste texto ocorreu em determinadas circunstâncias e num dado contexto histórico, pelo que
tem interesse clarificar, à partida, essas mesmas circunstâncias, bem como apresentar o respectivo
contexto e a razão justificativa dessa elaboração.

Na distribuição do serviço docente do ano académico de 2018, na Faculdade de Direito da Universidade


Eduardo Mondlane, fui indicado para integrar a equipa docente do Direito Bancário e dos Seguros,
acumulando assim com a leccionação e regência do Direito das Obrigações. Essa situação mantêm-se
hoje, 2019.

Não é a primeira vez que assumo esta tarefa, pois de 2000 a 2010 também a assumi e até como regente.
Entretanto, o facto de ser já longínquo o tempo em que assumi a regência desta disciplina, obriga-me a
actualizar e a sistematizar as lições proferidas nesse período remoto, por forma a dar público testemunho
da planificação que tenho seguido e dos principais elementos de estudo que tenho sugerido aos meus
estudantes.

Partindo do Plano Temático em vigor, sempre tenho vindo a aperfeiçoar este texto, sempre com o
propósito de oferecer mais e melhores subsídios ou elementos de estudo aos meus estudantes, em ordem a
aprofundar o estudo das matérias e melhorar a qualidade do respectivo ensino, bem como dos próprios
formandos.

Assim, por me ter parecido a mais acertada didacticamente, em atenção aos objectivos que tenho em vista,
adoptei, na explanação das matérias preliminares constantes do Programa, a sistemática que se segue.

Primeiro tratei da denominação da disciplina curricular, seguindo-se a do ramo de Direito de cujo estudo
esta se ocupa. Depois cuidei dos sentidos ou acepções da expressão “Direito Bancário” e, sucessivamente,
do conceito, da relevância prática e das razões materiais e didácticas da inserção desta disciplina no Plano
Curricular do Curso Jurídico.

No seguimento da minha pesquisa, discuti a problemática do enquadramento do Direito Bancário nos


sistemas em que se insere, nomeadamente o sistema normativo e o sistema científico, terminando depois
com a localização do seu lugar no Curricula da nossa Faculdade, a FDUEM.

Esclarecida já esta questão do seu posicionamento no Plano Curricular da nossa Faculdade, passei para o
tratamento da temática das suas fontes – as fontes do Direito Bancário –, o que me permitiu localizar
depois o assento legal e a sistemática deste ramo de Direito no nosso desenho legislativo.

Maputo, aos 7 de Março de 2019

10
Plano de exposição adoptado
1. Do Direito Bancário enquanto Disciplina Curricular e enquanto Ramo de Direito
1.1. Denominação da Disciplina e do Ramo de Direito
1.2. Acepções da Expressão “Direito Bancário”
1.3. Conceitos de Direito Bancário
1.4. Enquadramento do Direito Bancário nos Sistemas em que se insere
1.4.1. Posição do Direito Bancário na Sistemática Geral do Direito
1.4.2. Posição Direito Bancário no Sistema das Ciências
1.4.3. Localização das normas do Direito Bancário
1.5. Razões da Inserção do Direito Bancário no Curso Jurídico
1.6. Autonomia do Direito Bancário
1.6.1. O problema
1.6.2. Teses em voga
1.6.3. Posição dominante
1.7. Posição do Direito Bancário no Curricula da FDUEM
1.8. Relações do Direito Bancário com outros Ramos de Direito
1.8.1. Direito Bancário vs. Direito Público
1.8.2. Direito Bancário vs. Direito Privado
1.8.3. Direito Bancário vs. Ramos de Classificação Híbrida
1.9. Relações do Direito Bancário com outras Disciplinas Curriculares
2. Do Objecto e da Relevância Prática do Direito Bancário
2.1. Objecto do Direito Bancário como Ramo de Direito
2.2. Relevância Prática do Direito Bancário como Ramo de Direito
2.3. Objecto do Direito Bancário como Disciplina Curricular
2.4. Relevância Prática do Direito Bancário como Disciplina Curricular
3. Das Fontes do Direito Bancário
3.1. Acepções da Expressão “Fontes do Direito Bancário”
3.2. Ideia de Fonte do Direito Bancário
3.3. Tipologia e enumeração das Fontes do Direito Bancário
3.4. A Constituição da República como Fonte do Direito Bancário
3.5. O Código Comercial como Fonte do Direito Bancário
3.6. O Código Civil de 1966 como Fonte do Direito Bancário
3.7. A Legislação Avulsa como Fonte do Direito Bancário

11
3.8. Os Tratados Internacionais como Fontes do Direito Bancário
3.9. O Costume (uso) como Fonte do Direito Bancário
3.10. A Jurisprudência como Fonte do Direito Bancário
3.11. A Doutrina como Fonte do Direito Bancário
3.12. Os Princípios Gerais do Direito como Fontes do Direito Bancário
3.13. Outras Fontes
3.14. Hierarquia ou Pirâmide Nacional das Fontes do Direito Bancário
4. Do Direito Bancário Institucional
4.1. Sistema Financeiro Moçambicano
1. Noção e caracterização do sistema financeiro em geral
2. Noção e caracterização do sistema financeiro em Moçambique
3. Formação e evolução
4. Caracterização
5. Composição
6. Instituições financeiras
7. Sociedades financeiras
8. Seguradoras
9. Correctoras
10. Agentes de intermediação
11. Casas de câmbio
4.2. Banco de Moçambique
1. Criação
2. Natureza jurídica
3. Âmbito territorial
4. Sistema Orgânico
5. Posição no sistema financeiro moçambicano
6. Funções do Banco de Moçambique
7. Avisos
8. Despachos
9. Recursos
4.3. A Supervisão Bancária
1. Noção e espécies
1.1. Supervisão prudencial

12
1.2. Supervisão comportamental
2. Importância
3. Registo dos actos praticados
4. Normas
5. Avisos
6. Recomendações
5. Do Direito Bancário Material
5.1. Generalidades
5.1.1. Noção e extensão do Direito Bancário Material
5.1.2. Objecto e importância do Direito Bancário Material
5.1.3. Características do Direito Bancário Material
5.1.4. Principal legislação bancária material
5.2. Situação Jurídico-Bancária
5.2.1. Conceito
5.2.2. Elementos
5.2.3. Estrutura
5.3. Partes da Relação jurídico-bancária
5.3.1. O Banco
- Noção
- Requisitos e processos de constituição
- Tipologia
- Natureza jurídica
- Actividade bancária
5.3.2. Cliente Bancário
- Noção
- Tipologia
 Pessoas singulares
 Pessoas colectivas publicas
 Pessoas colectivas privadas
 Grupo de empresas
- Requisitos
5.4. Operações bancárias em geral
5.4.1. Conceito ou noção de operação bancária

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5.4.2. Tipologia ou principais operações bancárias
5.4.3. Classificação das operações bancárias
5.4.4. Direito aplicável
5.4.5. Títulos de crédito: conceito, tipologia e funções
5.5. Contratos Bancários
5.5.1. Noção e formação
5.5.2. Princípios dos contratos bancários
5.5.3. Tipologia e caracterização dos contratos bancários
5.5.4. Cláusulas contratuais gerais
5.5.5. Direito aplicável
5.6. Garantias Bancárias
5.6.1. Noção e importância
5.6.2. Tipologia
- Garantias Pessoais: enumeração e caracterização
- Garantias Reais: enumeração e caracterização
5.6.3. Caracterização
5.6.4. Diferença entre a garantia bancária e a pessoal
5.6.5. Diferença entre a garantia bancária e a garantia patrimonial
5.7. Informação, Segredo e Responsabilidade Bancária
5.7.1. Caracterização da informação bancária
5.7.2. Caracterização do segredo bancário ou sigilo bancário
- Âmbito
- Limites
- Problemas que suscita
5.7.3. Diferença entre sigilo profissional, sigilo bancário e segredo de justiça
5.7.4. Responsabilidade decorrente da violação do dever de segredo
- Disciplinar
- Criminal
- Civil
5.8. Recuperação do crédito mal parado
5.8.1. Conceito
5.8.2. Processo de recuperação
- Processo extrajudicial

14
- Processo judicial:
a) Execução das garantias
b) Execução do património em geral

15
CAPÍTULO I
PRELIMINARES
1. Do Direito Bancário enquanto Disciplina Curricular e enquanto Ramo de Direito
1.1. Denominação da Disciplina e do Ramo de Direito
O estudo de qualquer fenómeno natural ou social, nas diferentes academias, é levado a cabo, sempre,
através de uma determinada disciplina a que se atribui uma certa designação, que é escolhida em atenção
ao respectivo objecto de estudo.

No caso vertente, temos logicamente uma disciplina que vai ocupar-se de um determinado fenómeno
social, – as leis que regulam a organização, a estrutura e o funcionamento do sistema financeiro, bem
como a actividade bancária em geral –, e essa disciplina tem, como é óbvio, a sua própria designação,
importando agora dizer qual é, daí que a indicámos a seguir.

Segundo o nosso Plano Curricular 1, a aludida designação é “Direito Bancário e dos Seguros”. É pertinente
indagar o porquê da mesma. A razão é que o ramo de Direito de cujo estudo esta disciplina se ocupa é
baptizado pela Doutrina com este nome de “Direito Bancário”. E porque a actividade bancária tem uma
relação directa e uma conexão muito estreita com a actividade seguradora, entendemos nós, na FADUEM,
que podemos acoplar ao Direito Bancário o dos Seguros, para efeitos didácticos.

Porém, por conveniência da exposição e para os propósitos em vista neste estudo, vamos separar o Direito
Bancário do dos Seguros, na explanação que se segue.

1.2. Acepções da Expressão “Direito Bancário”


O facto de a nossa disciplina curricular designar-se “Direito Bancário” e o ramo do Direito objectivo de
cujo estudo esta se ocupa também designar-se “Direito Bancário”, significa que esta expressão comporta
duas acepções, sendo uma normativa, objectiva ou técnico-jurídica e outra académica, científica ou
epistemológica. Em razão disso, a qualificamos como equívoca.

Tomada no sentido normativo, objectivo ou técnico-jurídico, a expressão reporta-se ao ramo do Direito


objectivo, – mais concretamente, ao sub-ramo autónomo do Direito Comercial –, que regula a
organização, a estrutura e o funcionamento do sistema financeiro e toda a actividade bancária. É, portanto,
a totalidade das leis2 que regulam o sistema financeiro e a actividade bancária em sentido lato: é este o
sentido que a expressão assume quando a tomamos no âmbito da sistemática geral do Direito, portanto,
quando a vemos como ramo autónomo do Direito em geral e como sub-ramo do Direito Comercial em
especial.
1
Entenda-se, “Curricula ou Curriculum em vigor hoje, na FDUEM”.
2
Tomado o termo “lei” em sentido material, integrando, portanto, todos os instrumentos normativos, independentemente da sua fonte orgânica e do seu valor,
desde que contenham matéria bancária.
16
Mas quando tomada na sua acepção epistemológica, científica ou académica, a expressão “Direito
Bancário” reporta-se já a uma disciplina curricular ou ramo da Ciência Jurídica que se ocupa do estudo
das tais normas jurídicas reguladoras do sistema financeiro e das situações jurídico-bancárias, disciplina
encarregue, portanto, de fazer a elaboração sistemática das soluções que são facultadas por aquelas
normas: é este o sentido que a expressão assume como disciplina juscientífica e dogmática.

Da equivocidade desta expressão resulta concluir-se que ela não tem em si mesma um sentido próprio, ela
não possui uma significação específica concreta. O seu sentido exacto, em cada caso em que é empregue,
só pode ser extraído do respectivo contexto frasal, como adiante se demonstra.

Se, por exemplo, nos limitarmos a pronunciar a expressão “Direito Bancário”, sem a fazermos anteceder
nem posceder por nenhumas outras, não se poderá entender se com ela nos referimos a um certo ramo do
Direito ou a um ramo da Ciência Jurídica. Nos precisos termos em que a expressão se apresenta, neste
caso, ela é neutra ou seja, não tem nenhum sentido, pelo que pode, convencionalmente, ser preenchida
com qualquer dos dois significados possíveis acima indicados: “Direito Bancário” como ramo de Direito
ou “Direito Bancário” como disciplina curricular, i.e, como ramo da Ciência Jurídica.

Mas já em contextos como: “A Lei Orgânica do Banco de Moçambique bem como a das Instituições de
Crédito e Sociedades Financeiras, constituem o núcleo central do nosso Direito Bancário”, facilmente se
entende que a expressão se reporta a uma parte das leis que formam o Direito Bancário moçambicano.

De igual modo, num contexto frasal como: “No novo Plano Curricular do nosso Curso, o Direito
Bancário está localizado no 4º ano”, o sentido desta expressão, que decorre deste mesmo contexto, já não
é o de legislação, é sim o de disciplina do curso de Direito. Portanto, a expressão é a mesma mas o
significado que assume é indiscutivelmente diferente nas duas frases, em razão do respectivo conteúdo.

Poderíamos passar em desfile uma interminável lista de frases ilustrando essa equivocidade, mas julgamos
bastantes os exemplos apresentados para comprovar, por um lado que a referida expressão não tem em si
mesma um significado ou sentido próprio e, por outro, que ela só ganha algum significado ou sentido
específico no contexto de uma frase concreta, porque só nesta é que se pode vislumbrar se o seu uso, no
caso vertente, se reporta ao ramo do Direito objectivo3 ou à correspondente disciplina juscientífica4.

Assim, podemos dizer, em jeito de conclusão que a expressão “Direito Bancário” admite dois prismas de
perspectivação, o que a torna de conteúdo variável.

3
Sobre a noção de “Direito Bancário” em sentido normativo, maiores desenvolvimentos em todos os manuais de Direito Bancário citados neste estudo, e
quaisquer outros a que se tiver acesso, ainda que não tenham neste texto expressa referência.
4
No que se refere à noção de Direito Bancário em sentido académico, reina um silêncio absoluto na doutrina jurídica romano-germânica e mesmo na anglo-
saxónica, justificando-se a necessidade de estudos sobre isso.
17
1.3. Conceitos de “Direito Bancário”
A já visualizada ambiguidade desta expressão leva-nos a constatar que à pergunta “o que é o Direito
Bancário” não se pode dar uma só resposta, pois, há que conceber esta expressão na sua acepção
normativa ou técnico-jurídica e há que igualmente a tomar na sua acepção epistemológica, científica ou
académica.

Do prisma de análise em que ela fôr tomada resultará, em cada caso, um conceito de Direito Bancário
conectado com esse ângulo de análise adoptado. Teremos assim, por um lado, um “Direito Bancário -
normas”, que é o sub-ramo autónomo do Direito Comercial, disperso por vários ramos de Direito e, por
outro, um “Direito Bancário - ciência”, que é uma disciplina curricular, quer dizer, uma cadeira do curso
jurídico.

Na acepção normativa, a expressão “Direito Bancário” corresponde ao ramo do Direito que estrutura o
sistema financeiro, regula o seu funcionamento e disciplina as situações jurídico-bancárias em geral ou
seja, o exercício da actividade bancária. Significa isso que, visto nesta perspectiva objectiva, o Direito
Bancário nada mais é senão o segmento normativo que disciplina a constituição, a modificação, a
transmissão e a extinção das situações jurídico-bancárias. Portanto, neste plano técnico-jurídico ou
legislativo, o Direito Bancário assume-se como subsistema ou complexo de normas jurídicas reguladoras
das relações financeiras, i.e, da organização e do funcionamento do sistema financeiro, bem como da
regulação da actividade bancária latamente considerada. É, assim, o ramo de Direito objectivo que, como
acervo normativo, tem como seu escopo de regulação o sistema financeiro e a actividade bancária.

Como ramo de Direito, o Direito Bancário é objecto de estudo de uma determinada disciplina dogmática
também designada “Direito Bancário”. Assim, tomada a expressão “Direito Bancário” nesta acepção
académica, ela reporta-se não ao ramo do Direito ou ao subsistema de normas jurídicas e princípios que
regulam a estrutura do sistema financeiro e fixam as funções deste e das instituições vocacionadas para o
exercício da actividade bancária, bem como as relações jurídicas que se estabelecem entre tais instituições
e entre estas e os seus clientes, no exercício dessa actividade bancária. A expressão reporta-se sim ao ramo
da ciência jurídica que estuda essas tais normas jurídicas reguladoras do comércio bancário.

Assim entendido, o Direito Bancário é uma disciplina curricular, juscientífica e dogmática, que se ocupa
do estudo das normas jurídicas reguladoras das relações jurídico-bancárias, dispondo de modo sistemático
e em termos de ciência, dos elementos que são facultados por aquelas mesmas normas.

Visto nesta perspectiva epistemológica, o Direito Bancário assume-se como um ramo do conhecimento
juscientífico que tem a função de delimitar rigorosamente as situações jurídico-bancárias a partir do
estudo da origem, da evolução, da aplicação e da eficácia das normas jurídico-bancárias, de forma a
18
sistematizar os conceitos do fenómeno bancário. Portanto, visto como disciplina curricular, o Direito
Bancário é uma área do conhecimento científico5 e, mais concretamente, uma parte do saber jurídico.

Chegados aqui, cumpre rematar apresentando o seguinte quadro sinóptico: da dupla significação da
expressão decorre que o respectivo conceito é também bipolar, porque entendível como subsistema
normativo e como disciplina curricular. Significa isso que a expressão “Direito Bancário” apresenta dois
prismas de entendimento possível, consoante o que se tem em vista com o seu uso. Por um lado, no prisma
ou acepção normativa ou legislativa, a expressão reporta-se ao conjunto de normas e princípios jurídicos
que, – na terminologia do senhor Prof. Menezes Cordeiro –, suscita o predicativo “bancário”. Ela
configura-se assim como um ramo de Direito ou subsistema de normas jurídicas regulador da actividade
bancária. Por outro, a expressão “Direito Bancário” na acepção epistemológica é empregue para significar
o ramo da Ciência Jurídica que se ocupa do estudo das normas e princípios jurídico-bancários, quer dizer,
a ciência jurídico-bancária.

Desta dupla acepção decorre a ilação de que a expressão não possui em si mesma um sentido, só o alcança
quando apreciada num dado contexto frasal. Assim, consoante o contexto, a expressão “Direito
Bancário” poderá significar ou um subsistema de normas jurídico-bancárias ou uma disciplina curricular.

1.4. Enquadramento sistemático do Direito Bancário


Vimos já que o Direito Bancário tem uma dupla existência: por um lado existe como um ramo do Direito
objectivo e, por outro, existe como ramo da Ciência Jurídica. Dessa dupla acepção da expressão “Direito
Bancário”, extrai-se também a ilação de que o Direito Bancário é objecto de um duplo enquadramento
sistemático.

Enquanto subsistema de normas jurídicas ou seja, ramo do Direito objectivo, o Direito Bancário insere-se
num sistema6, que é o sistema normativo, o sistema do Direito. Em razão deste enquadramento, tem uma
certa posição dentro do referido sistema.

Mas quando apreciado como disciplina juscientífica e dogmática, o Direito Bancário insere-se noutro
sistema, o das ciências. Em razão deste novo enquadramento, ele adquire, obviamente, uma certa e nova
posição, dentro destoutro sistema.

5
Sobre a noção de “Ciência do Direito” ou “Ciência Jurídica”, de que o Direito Bancário é parte, veja-se: JOSÉ DE OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direito:
Introdução e Teoria Geral, cit., pp. 209 e ss; SÍLVIO MACEDO, Introdução à Ciência do Direito, vol. I, 1970, toda a obra; J. BAPTISTA MACHADO, in
Enciclopédia Polis Verbo da Sociedade e do Estado, vol. I, pp. 846 e ss; MARIA HELENA DINIZ, Compêndio de Introdução à Ciência do Direito, Editora
Saraiva, 12ª ed., 2000, pp. 13 e ss.
6
Sobre o conceito de “sistema”, bem como a respectiva caracterização e tipologia, visite CLAUS-WILHELM CANARIS, Pensamento Sistemático e Conceito
de Sistema na Ciência do Direito, Introdução e tradução de MENEZES CORDEIRO, 2ª ed., 1996, pp. 25 e ss, 103 e ss e 127 e ss . Sobre o conceito de sistema
jurídico, veja-se DÁRIO MOURA VICENTE, Direito Comparado, cit., pp. 68 e ss; JOSÉ DIAS MARQUES, Introdução ao Estudo do Direito, 2ª ed., 1994,
Lisboa, pp. 185 e ss; INOCÊNCIO GALVÃO TELLES, Introdução ao Estudo do Direito, 10ª ed., Lisboa, pp. 230 e ss; R. LIMONGI FRANÇA, Instituições
do Direito Civil, Editora Saraiva, 5ª ed., 1999, p. 9.
19
Identificados já os sistemas em que ele se insere, há que saber qual é então a sua posição, num e noutro
sistema.

1.4.1. Posição do Direito Bancário na Sistemática Geral do Direito


É ponto assente7 na doutrina e na jurisprudência, pelo menos no quadro da Família Jurídica Romano-
Germânica, que o Direito desdobra-se, para efeitos do seu estudo e aplicação a casos concretos, em dois
grandes8 hemisférios, nomeadamente o Direito Público e o Direito Privado9.

Sendo o objecto de regulação do Direito Bancário as relações jurídico-bancárias que se estabelecem entre
o Estado, – representado pelo Banco de Moçambique –, e as demais instituições financeiras, ele assume-se
como ramo do Direito Público, qualquer que seja, como já dissemos, o critério empregue para a sua
qualificação, i.e, quer seja o da natureza dos interesses que tutela ou o da posição dos sujeitos nas
situações jurídicas em que ele intervém, quer seja ainda o da qualidade desses sujeitos nessas mesmas
situações jurídico-bancárias, ou mesmo o misto, que é a combinação dos últimos dois critérios. Falamos
então do Direito Bancário Institucional.

Sendo o objecto de regulação do Direito Bancário as situações jurídico-bancárias que se estabelecem entre
sujeitos que agem em pé de igualdade ou de coordenação, ele assume-se como ramo do Direito Privado,
qualquer que seja o critério empregue para a sua qualificação, i.e, quer pelo da natureza dos interesses que
tutela, quer pelo da posição dos sujeitos nas situações jurídicas em que ele intervém, quer ainda pelo da
qualidade desses sujeitos nessas mesmas situações jurídico-bancárias, ou mesmo pela combinação dos
últimos dois critérios. Falamos então do Direito Bancário Material.

Do exposto decorre a ilação de que na sistemática geral do Direito moçambicano, o Direito Bancário
assume-se como segmento normativo inserido no Direito Público como um dos seus ramos e inserido no
Direito Privado igualmente como um dos seus ramos. Portanto, ele é um ramo do Direito Público e é-o do
Direito Privado, já que as relações que ele regula estabelecem-se por um lado entre o Estado, representado
pelo Banco de Moçambique e as outras instituições financeiras e, por outro, entre estas e entre elas e os
seus clientes: é esta a sua posição na sistemática geral do Direito ou, tão-só, no sistema do Direito, no
sistema normativo: posicionamento híbrido.

7
O debate a este respeito parece continuar. Sobre isso, maiores desenvolvimentos em NUNO MANUEL PINTO OLIVEIRA, Princípios de Direito dos
Contratos, 1ª ed., Coimbra Editora, 2011, pp. 8 a 14.
8
Dizemos “grandes”, porque existe um terceiro hemisfério, pequeno, compreendendo os ramos de classificação híbrida, mista ou duvidosa, que são os que
não aceitam filiar-se totalmente nem no Direito Público nem no Direito Privado. Sobre esta problemática da divisão e ramificação do Direito, bem como dos
critérios que para isso servem de base, maiores desenvolvimentos em todos os manuais de Direito Bancário citados neste estudo, e quaisquer outros a que se
tiver acesso, ainda que não tenham neste texto expressa referência.
9
Qualquer que seja o critério que se tomar como base para esse desdobramento, designadamente o da natureza dos interesses, o da qualidade dos sujeitos da
relação jurídica, o da posição dos sujeitos nessa mesma situação jurídica e o misto.
20
Em cada ordem jurídica romanística, o Direito Bancário tem um assento legal próprio e uma certa
sistemática. Pretendemos agora localizar esse assento e essa sistemática no nosso quadro jurídico, no caso
específico do nosso Direito Bancário.

Ora, é ponto assente na nossa doutrina que no desenho legislativo moçambicano, à semelhança do que
sucede em todos os outros de matriz romano-germânica, o Direito Bancário é sub-ramo do Direito
Comercial. Embora seja um ramo de Direito solidificado, o Direito Bancário não se mostra codificado,
estando as normas que o formam dispersas pelos outros ramos, o que lhe confere a natureza
interdisciplinar e a característica de dispersão.

Dentre os vários ramos de Direito que contêm algumas normas do Direito Bancário, destacamos: o Direito
Constitucional, o Direito Administrativo, o Direito Económico, o Direito Penal ou Criminal, o Direito
Processual Civil, o Direito Processual Penal, o Direito Civil, o Direito Comercial, o Direito dos Seguros, o
Direito dos Valores Mobiliários e o Direito Contabilístico e Fiscal.

No Direito Constitucional, por exemplo, localizam-se as normas jurídicas que tratam da organização do
sistema financeiro, quais sejam os arts. 126 e 127 da nossa Constituição 10, pois, fixam a estrutura e as
funções do sistema financeiro, matéria esta que é naturalmente do Direito Bancário.

No Direito Administrativo, encontramos as normas jurídicas que definem a organização e o


funcionamento do Banco de Moçambique enquanto Banco Central. Encontramos igualmente as normas
jurídicas relativas à constituição das instituições de crédito e das sociedades financeiras, as relativas à
caducidade e revogação da autorização da constituição das instituições de crédito e das sociedades
financeiras, bem como as relativas ao registo das referidas instituições de crédito. Todas estas normas
constam, presentemente, da Lei Orgânica do Banco de Moçambique 11, da Lei Bancária Moçambicana12 e
da que introduz alterações a esta última13.

No Direito Penal ou Criminal, concretamente no CP e na legislação avulsa, todas as normas que tipificam
crimes no domínio da banca integram-se também no Direito Bancário.

10
O texto integral do art. 126 da Constituição moçambicana de 2004 prescreve que “o sistema financeiro é organizado de forma a garantir a formação, a
captação e a segurança das poupanças, bem como a aplicação dos meios financeiros necessários ao desenvolvimento económico e social do país”. Por sua vez
o art. 127 da mesma Constituição estabelece que “1. O sistema fiscal é estruturado com vista a satisfazer as necessidades financeiras do Estado e das demais
entidades públicas, realizar os objectivos da política económica do Estado e garantir uma justa repartição dos rendimentos e da riqueza. 2. Os impostos são
criados ou alterados por lei, que determina a incidência, a taxa, os benefícios fiscais e as garantias dos contribuintes. 3. Ninguém pode ser obrigado a pagar
impostos que não tenham sido criados nos termos da Constituição e cuja liquidação e cobrança não se façam nos termos da lei. 4. No mesmo exercício
financeiro, não pode ser alargada a base de incidência nem agravadas as taxas de impostos. 5. A lei fiscal não tem efeito retroactivo, salvo se for de conteúdo
mais favorável ao contribuinte.”
11
Lei n.º 1/92, de 3 de Janeiro.
12
Lei nº 15/99, de 1 de Novembro, publicada no BR nº 43, I Série, 4º Suplemento.
13
Lei n.º 9/2004, de 21 de Julho, publicada no BR nº 29, I Série.
21
No Direito Processual Civil, concretamente no CPC, localizam-se as normas sobre letras, livranças,
extractos de factura e outros títulos executivos, conforme consta do art. 46 do CPC. Estas normas jurídicas
relevam para o Direito Bancário.

No Direito Processual Penal situam-se as disposições relativas ao âmbito do sistema financeiro em geral e
ao bancário em particular, que salvaguardam o dever de segredo e o da colaboração das pessoas com a
justiça.

O Direito Civil é o ramo do Direito Privado que regula de modo geral as relações entre os particulares, daí
a sua qualificação como Direito Privado geral ou Direito Privado comum. Nessa qualidade, ele é
subsidiário do Direito Bancário, no sentido de que preenche as suas lacunas em matéria de contratos, de
garantias das obrigações bancárias e da responsabilidade civil. Neste sentido, há muitas disposições no CC
que relevam para o Direito Bancário, designadamente as que se reportam às garantias dos contratos e à
responsabilidade civil.

Porque as operações bancárias são actos de comércio e, ainda, porque as pessoas que exercem a actividade
bancária são qualificadas como empresárias comerciais ou comerciantes, o Direito Bancário é qualificado
como ramo do Direito Comercial, pelo que grande parte das normas constantes do C.Com e da legislação
que o complementa aplicam-se ao comércio bancário, integram o Direito Bancário.

O Direito Económico também contém normas bancárias. É que a actividade bancária, em toda a sua
plenitude e extensão, está submetida ao Direito Económico, que é o Direito da organização económica
pelos poderes públicos. As normas jurídico-bancárias regulam um sector relativamente importante da
economia e, neste sentido, parte delas está integrada no Direito Económico, justamente as que tratam da
organização, das funções e do funcionamento do sistema financeiro, concretamente as que integram
também o Direito Administrativo Bancário.

O Direito dos Seguros é todo ele relevante para o Direito Bancário, pela conexão existente entre a
actividade seguradora e a actividade bancária.

De todo o exposto decorre que o Direito Bancário, em Moçambique, apresenta-se disperso e


interdisciplinar. Vejamos agora a sua posição no sistema das ciências.

1.4.2. Posição Direito Bancário no Sistema das Ciências


Como ramo do saber jurídico, o Direito Bancário insere-se no subsistema da Ciência Jurídica e, portanto,
no sistema geral das ciências, porque a Ciência Jurídica é, como qualquer outra, parte deste sistema14.
14
Sobre a classificação das ciências, vide: MARIA HELENA DINIZ, Compêndio de Introdução à Ciência do Direito, cit., pp. 22 e ss; A. FRANCO
MONTORO, Introdução à Ciência do Direito, Vol. I, 3ª edição, Livraria Martins Edições, São Paulo, 1972, pp. 65-85; VAN ACKER, Introdução à Filosofia –
lógica, p. 28 e ss; FAUSTO E. VALLADO BERRÕN, Teoria General del Derecho, Mexico, Universidade Nacional Autónoma de México, 1972, pp. 228-33;
FRANCISCO UCHOA DE ALBURQUERQUE e FERNANDA MARIA UCHOA, Introdução ao Estudo do Direito, Editora Saraiva, São Paulo, 1982, p. 17;
22
Dentre as diversas classificações das ciências 15, vamos adoptar para o nosso propósito a que as distingue
em naturais16, sociais17 e técnicas18, porque ela facilita a percepção do posicionamento do Direito Bancário
no quadro deste sistema. Assim, dentro do sistema das ciências e em atenção a esta classificação adoptada,
a Ciência Jurídica em geral e a do Direito Bancário em particular inserem-se no subsistema das Ciências
Sociais, porque ocupam-se do estudo das leis19, as quais são fenómenos sociais porque são parte da cultura
humana, são produtos da sociabilidade humana.

No caso específico do Direito Bancário, ele ocupa-se do estudo das normas jurídicas reguladoras das
situações jurídico-bancárias e estas normas são também, como todas as outras, partes da cultura humana 20,
pelo que são fenómenos sociais.

No sistema das ciências, o Direito Bancário apresenta-se como uma ciência social porque estuda um
fenómeno social, composto pelas normas jurídico-bancárias, mas é ao mesmo tempo uma ciência técnica
em certa medida, porque fornece métodos e procedimentos para a resolução de problemas concretos.

Decorre disso a ilação de que no sistema geral das ciências, o Direito Bancário localiza-se na família das
Ciências Sociais, como sucede com toda a Ciência Jurídica: esta é, portanto, a posição do Direito Bancário
no sistema das ciências.

Servindo-nos do Direito Bancário como disciplina ou ciência jurídico-bancária, vamos estudar o Direito
Bancário como normas e princípios, o que significa que o Direito Bancário vai estudar o Direito Bancário.

1.5. Razões da Inserção do Direito Bancário no Curso Jurídico


O Plano de estudos do Curso de Direito na nossa Faculdade contempla o Direito Bancário. O facto suscita
a questão de saber o porquê dessa inclusão, se terá sido casuística, se foi um erro ou se foi de propósito.

ABELARDO TORRÉ, Introduccion al Derecho, 6ª ed., Buenos Aires, Abeledo-Perrot, 1972, pp. 46 e ss. LUÍS MENDIZÁBAL E MARTIN citado por
MIGUEL SANCHO IZQUIERDO, Princípios de Derecho Natural como Introducción al studio del Derecho, 5ª ed. Zaragoza, 1955, pp. 25 e 26.
15
Existe a classificação do COMTE, que distingue as ciências em abstractas, gerais ou teóricas e concretas, particulares ou especiais. Os critérios que servem
de base são: o da dependência dogmática, o da sucessão histórica, o da generalidade decrescente e o da complexidade crescente. Sobre esta matéria, maiores
desenvolvimentos em AUGUSTO COMTE, Cours de Philosofie Positive, Paris, 1949. Existe também a classificação de WILHELM DILTHEY, que distingue
estas em ciências da natureza ou físico-naturais e ciências do espírito, humanas ou culturais. Esta classificação assenta no critério dicotómico, que se inspirou
por sua vez na classificação de AMPERE. Sobre ela, vide mais subsídios em Introduction à L etude des sciences humanines, Paris, 1942, Cap. 2, Introducción
a las Ciências del espiritu, México, Fundo de Cultura Económica, 1944, p.69; V. MIGUEL REALE, Lições Preliminares do Direito, cit., p. 86 e ss. Sobre toda
a problemática da classificação das ciências, vide MARIA HELENA DINIZ, Compêndio... cit. pp. 22 e ss e a bibliografia ali citada. A mais famosa
classificação das ciências é a aristotélica, enriquecida com as alterações introduzidas pelo pensamento científico e filosófico ulterior. Essa classificação baseia-
se no critério da função de cada ciência e subdivide as ciências em teóricas ou especulativas (físicas ou naturais, matemáticas ou formais e metafísicas), práticas
(artísticas ou produtivas, (música, escultura, pintura, engenharia, medicina, arquitectura) e morais. Sobre estas matérias, maiores desenvolvimentos em
Metafísica, 1025, b, 25; W.D. ROSS, ARISTOTE, Paris, Payot, 1930, pp. 34 e 91; G. VICO, Scienza Nova, Padova CEDAM, 1953; MIGUEL REALE,
Filosofia do Direito, cit., cap. 17.
16
As que se ocupam do estudo dos fenómenos da natureza.
17
As que se ocupam do estudo dos fenómenos sociais.
18
Ciências de invenção, ciências de fabricação de bens.
19
Tomado o termo na sua acepção material.
20
Sobre os conceitos de “cultura” e de “civilização”, vide Enciclopédia Polis Verbo da Sociedade e do Estado, vol. I, pp. 876 e ss. Em sentido idêntico,
MIGUEL REALE, Lições Preliminares de Direito, cit., pp. 25 e ss.
23
Entendemos que essa inserção não foi nem podia ter sido uma obra do acaso, como não foi erro de quem
concebeu o Plano em alusão, foi mesmo intencional e isso resultou de determinadas razões materiais e
didácticas que cumpre, aqui e agora, apontar.

Dentre várias razões materiais que relevam para essa inserção, destacamos: i) a existência de um sistema
financeiro e de um crescente comércio jurídico-bancário no nosso país, que reclamam por uma regulação
cada vez mais abrangente e moderna; ii) a existência, ainda no nosso país, de um segmento normativo que
organiza esse sistema financeiro e regula não só o funcionamento das instituições financeiras como
também a actividade bancária em geral, no quadro do referido comércio jurídico-bancário e iii) a
necessidade e a conveniência de regulação das situações jurídico-bancárias decorrentes do aludido
comércio jurídico.

No plano didáctico relevam como razões dessa inserção: i) a necessidade do ensino do Direito Bancário
para facilitar essa aplicação a casos concretos relativos a operações bancárias e ii) a necessidade de formar
juristas qualificados para intervirem na área financeira, quando necessário, como Juízes, Procuradores,
Advogados, Consultores, Notários, Conservadores, Docentes e Investigadores.

Assim, esta inserção é justificada pela pertinência de que se reveste para a organização, a estrutura e o
funcionamento do sistema financeiro e para a operacionalização do comércio jurídico-bancário, a
compreensão das normas de cujo estudo ele se ocupa.

Chegados aqui, resta-nos apenas dizer, em jeito de síntese, que a inserção do Direito Bancário no Plano
Curricular do Curso é plenamente justificável, em razão da sua utilidade no estudo do acervo normativo
regulador do comércio jurídico e dos institutos de matriz financeira cuja compreensão é imperiosa para a
sua correcta aplicação, no âmbito deste comércio jurídico. Há, pois, pertinência dessa inserção.

1.6. Autonomia do Direito Bancário


No Direito moçambicano, como na generalidade dos ordenamentos, o Direito Bancário encontra-se
disperso por uma pluralidade de fontes normativas, que vão dos tradicionais códigos de Direito privado,
como o civil e o comercial, à sua serie infindável de leis avulsas, quais sejam, a título de exemplo, a Lei
n.º 3/96, a Lei n.º 15/99, a Lei n.º 1/92, a Lei n.º 9/2004, a Lei n.º 14/2013, a Lei n.º 6/2015. Deste modo,
não se pode dizer que exista um Direito Bancário como unidade jurídico-positiva de modelação, embora
se possa construir como ramo dogmático autónomo.

A esta diversidade de fontes normativas acresce uma multiplicidade de negócios que a prática vai
sucessivamente dando origem e que vai suscitando problemas cada vez mais complexos com uma

24
dificuldade, se não mesmo impossibilidade, de rápida adaptação do legislador às constantes inovações da
prática bancária.

Do exposto, decorre a necessidade de discutir a questão da sua autonomia ou não.

Falar da autonomia do Direito Bancário significa questionar se tem sentido considerar a existência deste
ramo de Direito relativamente aos já existentes ou se, diversamente, as suas regras deveriam dissolver-se
dentro do Direito Comercial, de que historicamente nasceu, visto que as suas especificidades não
justificariam considerá-lo à parte deste último ramo.

O nosso posicionamento é que tem sentido sim considerar a existência deste ramo de Direito como uma
realidade, o que pode fazer-se em três planos, designadamente: i) o da existência de instrumentos em que
se contêm as regras que o formam; ii) o da possibilidade do seu estudo ou ensino e análise da matéria em
separado de outros ramos e iii) o do reconhecimento ou não de que ele regula situações jurídicas que não
são assimiláveis, nem enquadráveis noutras regras ou conjuntos de regras preexistentes.

Referimo-nos assim aos três níveis de autonomia de que o Direito Bancário goza, concretamente o da
autonomia legislativa ou formal, o da autonomia substancial e o da autonomia didáctica ou pedagógica.

A autonomia formal ou legislativa revela-se ou exprime-se através da existência de uma vasta legislação
estritamente bancária que não se aplica às situações jurídico-comerciais que não são de natureza
estritamente bancária. É o caso, por exemplo, dos instrumentos normativos acima indicados como
legislação avulsa, os quais constituem fontes próprias das normas jurídico-bancárias.

A autonomia substancial manifesta-se através não só da qualidade dos sujeitos das situações jurídico-
bancárias como também da natureza dos actos ou negócios que constituem o objecto de regulação do
Direito Bancário. Na verdade, o Direito Bancário não regula todos e quaisquer actos de comércio mas tão-
só aqueles que têm natureza bancária e integram-se na prática habitual massificada dos bancos, o que
justifica que esta actividade seja regulada por regras próprias. Tais actos são, em tese geral, todos os que
entram na qualificação de operações bancárias, de contratos bancários e de títulos cambiários ou de
crédito.

Recorrendo a essas regras próprias e específicas, realiza-se uma tutela mais efectiva dos negócios do
mercado e, desse modo, assegura-se que o crédito indispensável ao seu adequado funcionamento não
desapareça, não comprometendo o seu normal desenvolvimento.

Há assim, como demonstraremos adiante, um conjunto de princípios e de normas que justificam que se
reconheça a autonomia substancial deste ramo de Direito.

25
A autonomia didáctica é a expressão prática da autonomia científica que pressupõe, por sua vez, a
autonomia dogmática, o que significa que só se afirma como ciência o que alcançou um certo
desenvolvimento dogmático e, em razão disso, conquista a autonomia didáctica ou pedagógica.

É claro que a questão da autonomia didáctica suscita ainda, pelo mundo fora, um debate sobre a sua
existência ou não. Em Moçambique, justifica-se que a Academia reserve um espaço nos seus curricula
para o Direito Bancário como uma disciplina autónoma tanto na licenciatura como na pós-graduação.

A autonomia substancial de que o Direito Bancário goza, combinada com a autonomia legislativa ou
formal, justificam plenamente a autonomia didáctico-pedagógica, porque o ramo alcançou um
desenvolvimento dogmático de que lhe nasce a dignidade científica que aconselha a sua autonomização
em termos do seu estudo/ensino.

1.7. Posição do Direito Bancário no Curricula da FDUEM21


O ensino do Direito Bancário é levado a cabo na maioria das Escolas de Direito 22 do nosso país, mas o
posicionamento curricular desta disciplina não tem sido o mesmo em todas essas Escolas e em cada uma
delas, ao longo dos anos.

Nos planos curriculares da FDUEM, o Direito Bancário sempre situou-se tradicionalmente no 4º ano do
período laboral e no 5º do pós-laboral.

A inserção desta disciplina no Plano Curricular e no ano jurídico indicado do Curso, justificou-se, como
dissemos, por razões de ordem material e outras de natureza didáctica que, em sede própria foram
suficientemente expendidas.

Como oportunamente dissemos, quer nos antigos planos curriculares, quer no novo, o Direito Bancário
tem estado sempre a ser ministrado depois do Direito Comercial, em alinhamento sequencial, pelas
relações de parentesco existentes entre estas duas cadeiras, decorrente das matérias de que elas se ocupam.

Na verdade, existe entre o Direito Comercial e o Direito Bancário uma relação de continuidade e outra de
contiguidade nos respectivos objectos de estudo e no próprio estudo23.

21
Esta abordagem justifica-se pelo facto de o presente estudo ter sido produzido no âmbito da docência nesta Faculdade, embora as mesmas matérias tenham
sido também abordadas na Universidade Politécnica, onde contribuímos no respectivo curso jurídico.
22
Dentre várias, indicamos, a título meramente exemplificativo, as seguintes: Universidade Eduardo Mondlane, Universidade Politécnica, Universidade
Técnica de Moçambique, Universidade Católica de Moçambique, Universidade São Tomás de Moçambique, Universidade Mussa Bin Bique, Unilúrio,
Unizambeze e Universidade Nachingweia, além do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique, do Instituto Superior de Tecnologia e Gestão,
do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia Alberto Chipande, da Escola Superior de Economia e Gestão e, finalmente, da Escola Superior de Ciências
Náuticas.
23
Esta afirmação que acabamos de fazer, carece naturalmente de ser explicada, dada a sua complexidade, o que fazemos nos termos que se seguem.
26
1.8. Relações do Direito Bancário com outros Ramos de Direito
O Direito Bancário, entendido como subsistema normativo ou sub-ramo do Direito Comercial, relaciona-
se com todos os outros subsistemas jurídicos, sejam eles de natureza pública, privada ou híbrida. Quer
dizer, o subsistema do Direito Bancário penetra em muitos outros subsistemas do Direito Público e do
Direito Privado, bem como nos dos ramos de classificação hibrida, mista ou duvidosa, para regular as
obrigações emergentes da aplicação das normas que o compõem. Mas, ainda que assim, ele apresenta
relações mais estreitas com alguns desses ramos, ou desses subsistemas.

Do mesmo modo, quando apreciado como ramo da Ciência Jurídica ou seja, como disciplina juscientífica
e/ou dogmática, o Direito Bancário tem conexões com os ramos da Ciência Jurídica que se ocupam do
estudo dos ramos de Direito com que ele, enquanto subsistema normativo, tem igualmente conexão.

Vejamos primeiro as suas relações com outros ramos de Direito, tanto públicos como privados e até
híbridos.

1.8.1. Direito Bancário vs. Direito Público


Ao nível do Direito Público, entendemos que o Direito Bancário apresenta-se mais conectado, em
primeiro lugar com o Direito Constitucional.

Como é do domínio público, a Constituição é a Lei Fundamental do nosso Estado, em razão do que tem
força jurídica máxima no quadro do sistema jurídico em que ela se insere. Disso resulta que o Direito
Bancário, como conjunto de normas jurídicas e, portanto, como ramo de Direito, deve conformar-se com
os princípios desta Constituição, facto esse que é condição necessária e em princípio suficiente para a
validade e eficácia de cada uma das normas que o integram e de todas elas em conjunto.

Situando-se a Constituição no Direito Constitucional, facilmente se entende que o Direito Bancário esteja
conectado com o Direito Constitucional. E a conexão existente entre um e outro traduz-se numa relação de
subordinação: o Direito Bancário deve conformar-se com o Direito Constitucional ou seja, subordinar-se a
este, porque essa sua conformidade com os princípios constitucionais é o pressuposto de validade e de
eficácia das normas que o integram. É nisso que consiste a conexão entre o Direito Bancário e o Direito
Constitucional. Qualquer conflito entre uma norma jurídico-bancária com um princípio constitucional,
redunda na ineficácia dessa norma jurídico-bancária, em razão da força jurídica máxima das normas
jurídico-constitucionais, que prevalecem sobre quaisquer outras, em quaisquer circunstâncias.

Merece destaque em segundo lugar, ao nível do Direito Público, a conexão entre o Direito Bancário e o
Direito Administrativo.

27
No âmbito da actividade administrativa, o Estado moçambicano pratica actos administrativos de matriz
bancária que se orientam no sentido de organizar, regular, dirigir e fiscalizar o sistema financeiro. Assim,
o Direito Administrativo, que é o ramo do Direito Público regulador da administração pública, acaba
conectando-se com o Direito Bancário no quadro dessa administração do sistema financeiro, o que
significa que a actividade administrativa do Estado chama à colação o Direito Bancário.

Ainda ao nível do Direito Público, entendemos que o Direito Bancário apresenta-se igualmente mais
conectado com o Direito Financeiro e com o Direito Económico, por razões que se prendem com a
conexão existente entre os seus objectos.

1.8.2. Direito Bancário vs. Direito Privado


Ao nível do Direito Privado, o Direito Bancário tem relações mais estreitas não só com o Direito
Comercial mas também com o Direito das Obrigações, com o Direito dos Seguros e com o Direito dos
Valores Mobiliários.

Como sub-ramo do Direito Comercial, o Direito Bancário está naturalmente conectado com todos os
outros ramos do Direito Privado, devido ao facto de ambos assentarem nos mesmos princípios, quais
sejam o princípio da Autonomia Privada, o princípio da Boa-fé nas relações negociais, o princípio da
Universalidade e da Igualdade do género perante a lei e o princípio da Propriedade Privada dos meios de
produção.

O princípio da Autonomia Privada consiste na faculdade que é reconhecida às pessoas pelo Estado
moçambicano de poderem constituir, modificar ou extinguir efeitos jurídicos a partir de actos de vontade,
o que se manifesta ou se concretiza no domínio dos contratos. Consagrado no art. 405º CC sob a epígrafe
“liberdade contratual”, este princípio representa a aplicação nos contratos, do princípio da liberdade
negocial, que tem limitações gerais nos arts. 280º e 398º do mesmo Código e limitações especiais, em
cada contrato típico24. Portanto, este princípio traduz-se na liberdade de celebração e de estipulação nos
negócios jurídicos, o que se aplica inteiramente no Direito Bancário.

O princípio da Boa-fé, consagrado genericamente no art. 227º CC mas aflorado em muitos outros
preceitos deste Diploma, traduz a ideia de que nas negociações para celebrar contratos e na sua execução
uma vez já celebrados, as partes devem ser leais umas às outras e colaborar de forma a permitir que cada
uma alcance os seus objectivos. Essa lealdade traduz-se, em rigor, no cumprimento escrupuloso do dever
de respeito, do dever de informação e do dever de colaboração. A aplicação deste princípio nos
negócios jurídico-bancários é uma exigência absoluta, não admite nenhuma excepção.

24
Cfr. arts. 874º a 1250º do CC e arts. 458º a 633º do CCom de 2005.
28
O princípio da Universalidade25 assenta na ideia de que todas as pessoas são iguais perante a lei. Este
princípio contém dentro dele o da igualdade entre homens e mulheres perante a lei, o que significa que
estes têm à luz da lei os mesmos direitos e deveres, pelo que devem ter igual tratamento e as mesmas
oportunidades em todas as instituições e fora delas. Trata-se de um princípio também aplicável às relações
jurídico-bancárias.

O princípio da Propriedade Privada dos meios de produção consiste no reconhecimento e tutela da


propriedade privada, o que significa admissão deste tipo de propriedade e atribuição a ela de um papel
importante no desenvolvimento da nossa economia 26, já que se baseia nas leis de mercado. Mas não se
deve, no entanto, entender que este é o único tipo de propriedade admitido, pois, coexistem com esta a
propriedade cooperativa27 e social28, a propriedade pública29 e a propriedade pessoal30. Na verdade, o
princípio é o da coexistência de diferentes tipos de propriedade 31, mas salienta-se a propriedade privada,
em razão da sua predominância no nosso sistema económico, que é o da economia de mercado 32. A
privatização da banca a partir de 1991 através da Lei nº 28/91, de 31 de Dezembro surgiu no contexto da
aplicação deste princípio, legitimado pela Constituição de 1990. É pois, verdade que, como sucede com
todos os outros ramos do Direito Privado, o Direito Bancário é fundamentado, penetrado e desenvolvido
por estes princípios.

1.8.3. Direito Bancário vs. Ramos de Classificação Híbrida


Ao nível dos ramos de classificação híbrida, o Direito Bancário relaciona-se mais estritamente com o
Direito Económico e com o Direito Contabilístico e Fiscal, em razão da natureza dos respectivos objectos.

1.9. Relações do Direito Bancário com outras Disciplinas Curriculares


Como dissemos, quando apreciado como ramo da Ciência Jurídica, o Direito Bancário tem conexões com
os outros ramos da mesma ciência que se ocupam do estudo dos ramos de Direito com que ele tem
conexão enquanto subsistema normativo. Quer dizer, a ciência do Direito Bancário tem relação com as
outras ciências como a do Direito Comercial, a do Direito das Obrigações, a do Direito dos Contratos, por
exemplo. Vejamos a seguir.
25
Cfr. arts. 35º e 36º da Constituição de 2004, cujo texto é: “Artigo 35 - Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos
aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos
pais, profissão ou opção politica. Artigo 36 - O homem e a mulher são iguais perante a lei em todos os domínios da vida politica, social e cultural”.
26
Conforme resulta dos arts. 97º al. d) e) e 99º nº 3 da Constituição de 2004.
27
São as cooperativas de produção, de comercialização e de outros serviços.
28
Bens que pertencem às Comunidades.
29
Empresas do Estado, Empresas públicas e o domínio público do Estado, nos termos fixados no art. 98º da Constituição de 2004, segundo os quais, esse
domínio público compreende os recursos naturais situados no solo e subsolo, nas águas interiores, no mar territorial, na plataforma continental e na zona
económica exclusiva, designadamente a zona marítima, o espaço aéreo, o património arqueológico, as zonas de protecção da natureza, o potencial hidráulico, o
potencial energético, as estradas e linhas férreas, as jazidas minerais e outros bens que a lei classificar como integrantes desse domínio público.
30
A propriedade pessoal não se confunde com a propriedade privada na medida em que ela refere-se aos bens de uso pessoal no dia-a-dia e que não são
investidos no processo de produção. É o caso do vestuário, do calçado, da casa de morada, da viatura de transporte pessoal ou familiar, etc.
31
Cfr. art. 97º alínea d) e art. 99º da Constituição de 2004, in toto.
32
Cfr. alíneas b) e c) da Constituição 2004.
29
Antes de abordarmos a problemática das outras Disciplinas dogmáticas, merecem referência em primeiro
lugar, pela sua particularidade, as relações entre o Direito Bancário (ciência) e a Introdução ao Estudo do
Direito, bem como as entre o Direito Bancário (ciência) e a Teoria Geral do Direito Civil (ciência).

O estudo do Direito Bancário tem uma relação de continuidade e de contiguidade com o destas duas
disciplinas.

Enquanto que a Introdução ao Estudo do Direito sobrevoa todo o sistema jurídico e busca os conceitos
gerais ou comuns nos hemisférios público, privado e híbrido, para os fornecer aos iniciantes de estudos
jurídicos, a Teoria Geral do Direito Civil aborda genericamente as quatro partes que formam o Direito
Civil segundo a sistematização germânica, nomeadamente o Direito das Obrigações, o Direito das Coisas,
o Direito da Família e o Direito das Sucessões, sem descurar o Direito das Pessoas, localizado na parte
geral do CC, uma abordagem que abrange também o resto do Direito Privado.

O Direito Bancário busca na Introdução ao Estudo do Direito, por exemplo, a teoria geral da norma
jurídica, a estrutura interna e externa da situação jurídica, enquanto que na Teoria Geral do Direito Civil
busca a teoria geral do negócio jurídico e os princípios gerais do Direito Civil que relevam para a
actividade bancária.

Para além destas especiais relações com estas disciplinas propedêuticas, o Direito Bancário tem, enquanto
ciência, conexões com as ciências do Direito Constitucional, do Direito Administrativo, do Direito das
Obrigações, do Direito das Coisas, do Direito dos Seguros, do Direito Comercial e do Direito dos Valores
Mobiliários. Trata-se de relações de auxílio e de complementaridade no estudo dos seus objectos. O
Direito Bancário socorre-se do acervo conceitual das outras e estas do do Direito Bancário para o
tratamento do seu objecto.

2. Do Objecto e da Relevância Prática do Direito Bancário


2.1. Objecto do Direito Bancário como Ramo de Direito
O objecto do Direito Bancário pode ser visto em dois planos, nomeadamente o normativo e o
epistemológico. No primeiro verificamos o objecto de regulação e no segundo, o de estudo.

No prisma normativo, o Direito Bancário é um instrumento de regulação de um determinado objecto. Esse


objecto é todo o comércio jurídico-bancário ou seja, toda a actividade bancária, com excepção das
matérias reservadas ao Direito Comercial, ao Direito dos Seguros e ao Direito dos Valores Mobiliários.

De todo o exposto resulta constatar que o “âmbito infra-jurídico 33” do Direito Bancário apresenta unidade,
não é diversificado ou seja, é homogéneo, já que abrange matérias situadas no mesmo campo jurídico.

33
Expressão de MENEZES CORDEIRO, in Direito das Obrigações, cit, p. 13.
30
Na verdade, sempre que surge estruturalmente a vinculação de uma pessoa a uma outra à adopção de
determinada conduta no quadro da actividade bancária, essa situação é potencialmente regulada pelo
Direito Bancário, o que só não se verifica se ocorrer a absorção dessa situação por um instituto
pertencente a um outro ramo do Direito, como sejam o Direito Comercial, o Direito dos Seguros e o
Direito dos Valores Mobiliários.

Em suma, o Direito Bancário regula a organização e o funcionamento do sistema financeiro, bem como a
actividade financeira lactamente considerada e as relações entre as instituições financeiras e entre elas e os
seus clientes. Este é, em síntese, o objecto de regulação deste ramo de Direito.

2.2. Relevância Prática do Direito Bancário como Ramo de Direito


Tem interesse demonstrar a importância do Direito Bancário na nossa vida. Essa importância é grande,
tanto no plano normativo ou técnico-jurídico, como no científico ou epistemológico.

Pensando no Direito Bancário como segmento normativo ou subsistema de normas, a sua importância ou
relevância prática resume-se no seu objecto de regulação.

O Direito Bancário constitui, do ponto de vista de aplicação prática, um dos mais importantes ramos do
direito: pode dizer-se que todo o comércio ou tráfico jurídico-bancário se faz sob a sua égide.

Com efeito, a circulação jurídica do dinheiro ou serviços, que constitui o tecido da vida financeira
quotidiana, desenrola-se quase toda sob o signo de contratualidade bancária.

As instituições financeiras entre si ou elas com os seus clientes, estabelecem em condições de igualdade e
de liberdade relações financeiras no âmbito da aplicação de poupanças de uns nos investimentos de outros,
permitindo por essa via a circulação dos bens e do dinheiro, bem como a prestação de serviços.

Significa isso que o Direito Bancário é relevante do ponto de vista prático.

2.3. Objecto do Direito Bancário como Disciplina Curricular


Para além do objecto de regulação desenhado acima, o Direito Bancário, quando visto como disciplina
juscientífica e dogmática, tem um objecto de estudo, que cumpre indicar: são as normas jurídicas
reguladoras das situações jurídico-bancárias.

O Direito Bancário estuda essas normas com o propósito de fazer a elaboração sistemática dos elementos
ou soluções que são facultados por aquelas mesmas normas.

Significa isto que no plano académico, o Direito Bancário apresenta-se como ramo da ciência jurídica que
se ocupa do estudo daquelas normas jurídicas reguladoras da actividade bancária. O Direito Bancário
estuda, pois, o Direito Bancário.

31
2.4. Relevância Prática do Direito Bancário como Disciplina Curricular
Pensando no Direito Bancário como área do conhecimento ou do saber jurídico, é possível também
vislumbrar a sua importância ou relevância prática. E esta sua importância como Ciência Jurídica decorre
da extensão do seu objecto de regulação enquanto ordenamento normativo. O Direito Bancário é,
enquanto Ciência, importante porque prepara os formandos para a vida profissional fornecendo-lhes os
conhecimentos relativos à legislação bancária de que carecem para resolver os problemas de natureza
financeira ou estritamente bancária que enfrentarem na sua actividade profissional.

Chegados aqui, resta-nos dizer que o objecto do Direito Bancário enquanto acervo normativo ou
subsistema de regras é diferente do seu objecto enquanto ramo da Ciência Jurídica. Do mesmo modo, a
sua importância ou relevância prática como acervo normativo ou subsistema de normas, concretamente
sub-ramo do Direito Comercial, é diferente da sua importância ou relevância prática enquanto Disciplina
juscientífica e dogmática ou seja, como ramo da Ciência do Direito.

3. Das Fontes do Direito Bancário


3.1. Acepções da Expressão “Fontes do Direito Bancário”
Do título deste capítulo aqui expresso, resulta clarificado que a expressão “Direito Bancário” está
empregue no sentido normativo ou técnico-jurídico, significando portanto “ramo de Direito”34.

Com a abordagem desta temática das fontes, pretendemos saber como se formam as regras jurídicas 35 que
integram este ramo de Direito: o Direito Bancário.

Como todos sabemos, é ponto assente na doutrina que o Direito nasce de determinados modos dentro da
sociedade, modos esses usualmente designados “fontes do Direito”.

Também todos sabemos que a expressão “fontes do Direito” admite uma pluralidade de sentidos 36,
portanto está dotada de uma larga densidade semântica, podendo por isso o seu estudo ser realizado sob
uma diversidade de pontos de vista, segundo os objectivos que se perseguem ou que se têm em vista.

34
Tem interesse revisitar as obras de Introdução ao Estudo do Direito que tratam da divisão do Direito, para relembrar os critérios, os hemisférios, os ramos do
Direito Público, os ramos do Direito Privado e os ramos de classificação híbrida. Este exercício é eternamente necessário, pela importância de que se reveste
esta matéria em toda a formação jurídica e na vida prática, no processo da aplicação do Direito, qualquer que seja a saída profissional escolhida.
35
Sobre a noção, a estrutura e a tipologia de regras jurídicas, vide qualquer manual de Introdução ao Estudo do Direito, particularmente os indicados na nota
que se segue.
36
Tem interesse relembrar as fontes do Direito em sentido filosófico, em sentido político ou orgânico, em sentido instrumental, em sentido sociológico,
material ou histórico. Sobre esta temática das fontes do Direito, recomenda-se revisitar manuais de Introdução ao Estudo do Direito, dentre os quais
salientamos, pela sua relevância, os dos seguintes autores: JOSÉ DE OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direito: Introdução e Teoria Geral, cit, pp. 45, 239 e ss, 571;
MARIA LUÍSA DUARTE, Introdução ao Estudo do Direito: sumários desenvolvidos, AAFDL, 2003, pp. 161 e ss; JOHN GILISSEN, Introdução Histórica
ao Direito, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1986, pp. 25 e 413 e ss; JOSE DIAS MARQUES, Introdução ao Estudo do Direito, 2ª edição, Lisboa,
1994, pp.79 e ss; MIGUEL REALE, Lições Preliminares de Direito, cit, pp. 139 e ss e 155 e ss. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES, Introdução ao Estudo do
Direito, Vol I, 11ª edição, 2001, pp. 61 e ss e 230 e ss; GERMANO MARQUES DA SILVA, Introdução ao Estudo do Direito, Universidade Católica, 3ª
edição, Lisboa, 2009, pp. 86 e ss. ANTÓNIO MARIA M. PINHO TORRES, Introdução ao Estudo do Direito, Editora Rei dos Livros, 1998, pp. 41 e ss; LUÍS
CABRAL DE MONCADA, Lições de Direito Civil, cit, p. 81; MANUEL DE SOUSA DAS NEVES PEREIRA, Introdução ao Direito e as Obrigações,
Almedina, 1ª edição, 1992, pp. 93 e ss. MANUEL DE SOUSA DAS NEVES PEREIRA, Introdução ao Direito e as Obrigações, Almedina, 2ª edição, 2001,
pp. 87 e ss; JOÃO DE CASTRO MENDES, Introdução ao Estudo do Direito, 1994, Lisboa, pp. 77 e ss.
32
É evidente que no contexto do Direito Bancário falamos de fontes deste ramo de Direito e não de fontes
do Direito em geral. Assim, a expressão “fontes do Direito Bancário”, à semelhança da de “fontes do
Direito”, comporta os sentidos filosófico, orgânico ou político, sociológico, histórico ou material,
instrumental e formal.

Naturalmente que para os objectivos do nosso estudo, não são chamados à colação todos os sentidos que a
expressão admite37, interessando-nos apenas, dentre todos eles, o seu sentido formal, segundo o qual, as
fontes do Direito Bancário são os modos de formação e de revelação das regras jurídico-bancárias ou seja,
as formas de exteriorização e de manifestação das regras desse ramo de Direito, i.e, os modos pelos quais
as normas do Direito Bancário vêm à tona da vida para compôr o subsistema jurídico-bancário38.

Com o estudo das fontes do Direito Bancário pretendemos, pois, saber quais os modos de formação e de
revelação das regras jurídico-bancárias.

Por impossibilidade de acesso às fontes sobre a matéria, não nos pronunciamos sobre fontes do Direito
Bancário no sistema muçulmano e nos sistemas jurídicos residuais. Deste modo, este estudo das fontes do
Direito Bancário circunscreve-se tão-só ao sistema jurídico moçambicano, com alguma referência
casuística a outros sistemas de base romanística.

3.2. Ideia de Fonte do Direito Bancário


É ponto assente na doutrina e na jurisprudência que as fontes do Direito Bancário são os modos de
formação e de revelação das regras jurídico-bancárias ou seja, as formas de exteriorização e de
manifestação das regras desse ramo de Direito, i.e, os modos pelos quais as normas do Direito Bancário
vêm à tona da vida para compôr o subsistema jurídico-bancário39.

Estas fontes apresentam uma diversidade de espécies, daí que pretendemos adiante saber quais são eles.

3.3. Tipologia das Fontes do Direito Bancário


A enumeração e o estudo das fontes do Direito Bancário passa necessariamente pela visualização das
fontes nacionais ou comuns do Direito, sabido que o Direito Bancário é um segmento do Direito em geral,
para depois falar das fontes internacionais.

37
No plano filosófico, a expressão refere-se aos sistemas ideológicos e de pensamento que servem de base para a produção normativa. No plano orgânico, a
expressão refere-se aos órgãos do Estado com competência normativa e legislativa. No plano sociológico, histórico ou material, a expressão refere-se à ocasio
legis, i.é, ao circunstancialismo politico, económico, social ou outro que rodeou a produção de determinados instrumentos normativos e influenciou o legislador
nesse sentido e na respectiva aprovação. No plano instrumental, a expressão refere-se aos meios físicos em que se encontram impressas as leis.
38
Cfr. R. LIMONGI FRANÇA, op cit, p. 9.
39
Cfr. R. LIMONGI FRANÇA, op cit, p. 9.
33
No elenco das fontes nacionais tradicionais 40 do Direito, – que são as comuns a todos os seus ramos –,
constam a lei, o costume, a jurisprudência, a doutrina e os princípios gerais do Direito. Cumpre explicitar
cada uma destas fontes, a começar naturalmente pela lei.

O termo “lei” é semanticamente denso no quadro da Ciência Jurídica, mas vamos nos cingir ao seu sentido
que releva para o propósito em vista no contexto das fontes normativas.

Neste plano, são de considerar, ao nível interno do país, a Constituição de 2004, a Lei Orgânica do Banco
de Moçambique, a Lei Cambial, a Lei n.º 15/99, de 1 de Novembro (com as alterações introduzidas pela
Lei n.º 9/2004, de 21 de Julho), o Código Comercial, o Código Civil, os Códigos de Conduta, o Código
Penal, o Código de Processo Penal e o Código de Processo Civil. No plano do costume, são de considerar
os usos bancários.

As fontes de origem internacional são os tratados internacionais, sejam eles gerais, regionais ou bilaterais,
desde que contenham matéria bancária. É o caso, designadamente, da Lei Uniforme de Letras e Livranças
e a Lei Uniforme do Cheque.

É pertinente justificar porquê e em que medida estes instrumentos normativos se assumem como fontes do
Direito Bancário.

3.4. A Constituição da República como Fonte do Direito Bancário


O que significa que a Constituição 41 é fonte do Direito Bancário”? Significa que, como Lei Fundamental
do Estado, a Constituição é o coração do sistema jurídico e neste sentido, todas as leis ordinárias devem
dispor em conformidade com ela, sob pena da consequente invalidade 42 e ineficácia desta, em razão da
inconstitucionalidade43 daí decorrente.

Dizer que a Constituição é fonte do Direito Bancário significa que o subsistema das normas jurídicas que
formam o Direito Bancário, como lei ordinária, deve conformar-se religiosamente com os princípios dessa
Constituição, porque é essa conformidade que condiciona a sua validade e a sua eficácia. Deste modo, o
subsistema das normas jurídicas que formam o Direito Bancário deve conformar-se com os princípios
políticos e patrimoniais constitucionais, pressuposto de que decorrerá a sua validade e, por conseguinte, a

40
Por contraposição às fontes modernas, que surgem em determinados ramos, como o Direito Económico.
41
Sobre a noção, a importância, a caracterização e a tipologia da Constituição, vide JORGE MIRANDA , Direito Constitucional, Tomo II, 3ª edição,
Reimpressão, Coimbra, Almedina, 1996, p. 7 e ss; do mesmo autor, Direito Constitucional, Coimbra Editora, 2008, 3ª ed., Tomo VI, toda a obra. No mesmo
sentido, FERNANDO LOUREIRO BASTOS, Ciência Política, Guia de Estudo, vol I, AAFDL, 1999, p. 119; MARCELO CAETANO, Manual de Ciência
Política e Direito Constitucional, Tomo I, Almedina, Coimbra, 1996, 6ª edição, pp. 178 e ss; ADRIANO MOREIRA, Ciência Política, 7ª Reimpressão,
Almedina, Coimbra, 2003, pp, 129 e ss.
42
Sobre a problemática da invalidade das leis, vide JOSÉ DIAS MARQUES, Introdução ao Estudo do Direito, cit, pp. 117 e ss; MARCELO REBELO DE
SOUSA, Introdução ao Estudo do Direito, cit, pp. 123 e ss; JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO, Direito Constitucional, op cit, p. 1055.
43
Sobre a problemática da inconstitucionalidade, vide JORGE MIRANDA, Direito Constitucional, Coimbra Editora, 2008, 3ª ed., Tomo VI, toda a obra. No
mesmo sentido, vide JORGE MIRANDA, Direito Constitucional, Tomo II, 3ª ed., Reimpressão, 1996, toda a obra; JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO,
Direito Constitucional, 5ª ed., 1992, p. 1055; MARCELO CAETANO, Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, cit, pp. 178 e ss.
34
respectiva eficácia. Esta é a razão que justifica o facto de a Constituição se situar no topo da pirâmide
nacional das fontes do Direito Bancário.

Com efeito, da natureza patrimonial privada do Direito Bancário resulta a sua sujeição ao conjunto de
normas e princípios que regulam as situações jurídico-privadas de conteúdo económico e que estão
contidos na Constituição do respectivo país.

No nosso caso, a Constituição moçambicana de 2004 é fonte do nosso Direito Bancário, porque ela
consagra os princípios directores do nosso sistema financeiro44.

São estes princípios que formam a Constituição financeira que é parte da Constituição Económica 45. São
estes os princípios a que as normas jurídico-bancárias devem obediência, sob pena de
inconstitucionalidade, invalidade e ineficácia, em caso contrário.

Como sucedeu com a de 197546 e com a de 199047, esta Constituição de 2004 não autonomiza no seu texto,
– no quadro da regulamentação dos direitos económicos dos particulares –, as diversas formas e técnicas
de tratar as situações jurídico-bancárias, pelo que não existe no seu articulado uma referência específica a
estas situações. Mas não se pode com isso concluir que esta Constituição não é fonte do nosso Direito
Bancário só porque nela não existe a consagração expressa das tais situações. Ela é fonte sim porque é a
matriz do nosso sistema jurídico e como tal, contém os princípios directores do nosso Direito, – de que o
Direito Bancário é segmento –, princípios esses que formam a nossa Constituição Financeira, i.e, a
Constituição Financeira moçambicana.

Para além da Constituição de 2004, que é fonte primeira do Direito Bancário e de qualquer outro ramo do
nosso Direito, – porque é coluna vertebral do nosso sistema jurídico, já que, contém os princípios maiores
da organização desse nosso sistema –, existem leis ordinárias que são também fonte do Direito Bancário
porque contêm uma regulação específica das situações jurídico-bancárias. É o caso do Código Comercial.

Vejamos a seguir em que medida o é.

3.5. O Código Comercial como Fonte do Direito Bancário


O Direito Bancário em sentido normativo apareceu historicamente ligado ao Direito Privado porque a
actividade bancária está centrada na intermediação financeira realizada por particulares.

44
Cfr. arts. 126 e 127 CRM.
45
Sobre o conceito de Constituição Económica, vide MENEZES CORDEIRO, Direito da Economia, 1994, 3ª Reimpressão, pp. 137 e ss. No mesmo sentido,
EDUARDO PAZ FERREIRA, Lições do Direito da Economia, Reimpressão, AAFDL, Lisboa, 2001, pp. 57 e ss; Igualmente, ANTÓNIO CARLOS DOS
SANTOS et all, Direito Económico, 5ª ed., Almedina, pp. 31 e ss; ANTÓNIO SOUSA FRANCO, Noções de Direito da Economia, vol. I, AAFDL, Lisboa,
1982/83, pp. 67 e ss; GUILHERME D’OLIVEIRA MARTINS, Constituição Económica, vol. I, AAFDL, Lisboa, 1983/84, toda a obra. LUÍS CABRAL DE
MONCADA, Direito Económico, 2ª ed., Coimbra Editora, p. 91.
46
Tem interesse revisitar esta Constituição para efeitos de estudo comparado. Pode ser encontrada no vol. II, da Principal Legislação, editada em 1978,
Localizável nas Bibliotecas do Tribunal Supremo, do Ministério da Justiça e do Ministério da Administração Estatal e Função Pública.
47
Tem interesse revisitar também esta Constituição, para efeitos de estudo comparado com a de 2004.
35
E no quadro do Direito Privado, o Direito Bancário está conectado de forma particular com o Direito
Comercial, porque a actividade bancária é comercial por excelência48, daí que o Direito Bancário é sub-
ramo já autónomo do Direito Comercial e daí que todas as regras e os princípios do Direito Comercial se
apliquem às operações bancárias.

A natureza comercial da actividade bancária é reconhecida unanimemente na doutrina e está consagrada


em todas as legislações. Em Moçambique, o CCom vigente considera comerciais todas as operações
bancárias orientadas para a obtenção do lucro sobre o numerário, como sejam, por exemplo, as que se
reputam aos fundos públicos (descontos), às operações de câmbio (cobranças), aos empréstimos (abertura
de crédito) e outras.

O CCom é a expressão legislativa ou normativa do Direito Comercial, justificando-se que este Código seja
tomado como fonte do Direito Bancário. O que significa que o CCom é fonte do Direito Bancário? Qual o
CCom a que fazemos alusão, considerando que até 2005 vivíamos regulados pelo CCom de 1888 49 e dali
até hoje regulamo-nos pelo CCom de 2005? Ambos são fontes do nosso Direito Bancário, o de 1888 no
concernente ao Comércio Marítimo, através do seu Livro III e o de 2005 nos restantes aspectos.

Portanto, o CCom moçambicano é fonte do nosso Direito Bancário porque contém o núcleo normativo
mais significativo que regula as relações jurídico-bancárias enquanto relações comerciais no país.

Para além do CCom que é fonte do Direito Bancário porque regula as situações jurídico-comerciais de que
as bancárias são uma espécie, existe uma outra fonte do Direito Bancário, que é o Código Civil. Vejamos
a seguir em que medida o é.

3.6. O Código Civil de 1966 como Fonte do Direito Bancário


O que significa que o CC de 1966 é fonte do Direito Bancário, no nosso caso específico50?
Para esclarecer esta questão, precisamos de passar em revista a origem deste nosso CC e clarificar o
processo da sua moçambicanização, sabido que, do ponto de vista da sua elaboração, é produto português.
Segue-se então esse desenvolvimento histórico.

O movimento de codificação51 que se afirmou no princípio do séc. XIX na Europa, como produto das
revoluções liberais, conduziu, no quadro da Família Jurídica Romanística 52, à formação de duas linhas de
48
Cfr. art. 3º al. d) CCom.
49
Em consequência do seu passado de colónia portuguesa, Moçambique adoptou como seu CCom este CCom português de 1888, por força do princípio da
recepção automática consagrado no art. 71º da Constituição d 1975. Assim se tornou moçambicano o CCom de 1888, assim nasceu o CCom moçambicano que
vigorou até à sua revogação parcial (derrogação) pelo CCom de 2005, mantendo-se ainda actualmente vigente através do seu Livro III, sobre o comércio
marítimo.
50
Assim nos exprimimos porque este Código é igualmente fonte do Direito Bancário em qualquer país dos PALOP e da CPLP.
51
Sobre esta matéria, maiores desenvolvimentos em JOSÉ DE OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direito: Introdução e Teoria Geral, cit., pp. 351 e ss; No mesmo
sentido, MARCELO REBELO DE SOUSA, Introdução ao Estudo do Direito, cit, pp. 318 e ss; MENEZES CORDEIRO, Teoria Geral do Direito Civil, cit, pp.
53 e ss e, 108º e ss.
52
Os sistemas jurídicos da Família Anglo-Saxónica, da Família Muçulmana e os do extremo oriental, bem como os marxistas-leninistas têm características
diferentes entre si e também diferentes das do sistema romano-germânico. Este último sistema, sob o ponto de vista da codificação, desdobra-se em duas linhas,
36
técnicas diferentes de versar o Direito Civil, expressas nos modelos ou matrizes de sistematização
adoptados.

Formou-se assim, por um lado, a civilística francesa, napoleónica ou gaulesa, também designada latina,
que tomou a obrigação como forma essencial de aquisição da propriedade, daí que se centrou em torno do
contrato. Partindo então do binómio “pessoa-propriedade” como seu conceito-quadro, a França construiu a
sua linha de codificação estruturando o respectivo CC em 3 (três) Livros53.

Formou-se também, por outro lado, a civilística germânica ou alemã, também designada pandectística, que
desenvolveu como seu conceito-quadro a “relação jurídica” e concebeu também a sua própria linha de
codificação estruturando o seu BGB54 em 5 Livros55, no qual, tomando a obrigação como aspecto essencial
da situação jurídico-obrigacional, tratou da relação jurídica desde a sua génese ou constituição até à sua
extinção, passando obviamente pelo seu conteúdo, pela sua modificação e pela sua transmissão.

O CC francês de 1804 e o alemão de 1896 ou 1900 56, ambos da Família Jurídica Romano-Germânica, são
as expressões legislativas mais emblemáticas destas duas linhas de codificação.

Neste processo de codificação do Direito, Portugal inspirou-se inicialmente na matriz francesa, para a
concepção e elaboração do seu CC de 1867, mas veio depois adoptar o modelo alemão, na concepção e
elaboração do CC de 1966, divorciando-se assim da matriz gaulesa, daí em diante, em todo o seu Direito
em geral e na sistematização deste seu CC em particular.

Em consequência do seu passado de colónia portuguesa, Moçambique adoptou como seu CC 57 este CC
português de 1966, o qual está, como dissemos, assente na matriz germânica de codificação, que coloca as
normas jurídico-obrigacionais em Livro próprio e autónomo, dedicado às obrigações, diferentemente do
que sucede com os Códigos da linha napoleónica, francesa ou gaulesa. Assim se tornou moçambicano o
CC de 1966, assim nasceu o CC moçambicano actualmente vigente.

nomeadamente a linha latina, encabeçada pela França, e a linha germânica, encabeçada pela Alemanha.
53
Alguns dos países que seguem a linha de codificação francesa: Bélgica, Espanha e todos os países sul-americanos de expressão castelhana ou espanhola, bem
como todos os países africanos de expressão francesa. Sobre esta matéria, maiores desenvolvimentos em DÁRIO MOURA VICENTE, Direito Comparado,
vol. I, cit, pp. 95 e ss.
54
Designação do CC alemão.
55
Alguns dos países que seguem a linha de codificação germânica ou alemã são: Suíça, Áustria, Portugal, Brasil e todos os países africanos e asiáticos de
expressão portuguesa. Sobre esta matéria, maiores desenvolvimentos em DÁRIO MOURA VICENTE, Direito Comparado, cit., pp. 95 e ss, para além das pp.
416 a 419.
56
Os autores não são unânimes na indicação do ano de aprovação deste Código, daí o não se saber ao certo se é de 1896 ou de 1900.
57
A formação dos sistemas jurídicos de países que ascendem à independência começa sempre com a recepção da totalidade ou parte da ordem jurídica até
então localmente vigente, ou transplante das ordens jurídicas estrangeiras, actuais ou passadas. Daí que Moçambique, ao ascender à independência, tenha
recebido o Direito português que o regia antes. Assim, o CC moçambicano hoje é o CC português de 1966, que se tornou nosso, i.e, moçambicano, por força do
princípio da recepção automática contido na Constituição Política de Moçambique de 1975, segundo o qual, “Toda a legislação anterior no que for contrário à
Constituição fica automaticamente revogada. A legislação anterior no que não for contrário à Constituição mantém-se em vigor até que seja modificada ou
revogada”. Sobre esta problemática da evolução dos sistemas jurídicos através de fenómenos de recepção ou transplante de ordens jurídicas estrangeiras, vide
DÁRIO MOURA VICENTE, O lugar dos Sistemas Jurídicos lusófonos entre as Famílias Jurídicas, in Homenagem ao Prof. Doutor MARTIN DE
ALBURQUERQUE, Vol. I, pp. 403 e 404 e a Bibliografia aí citada.
37
Esclarecida a questão da origem do CC de 1966 e a da sua moçambicanização, podemos já resolver o
problema antes suscitado: o de saber o que significa que o CC de 1966 é fonte do nosso Direito Bancário.

Isso significa que as normas jurídico-bancárias que constam do referido CC fazem parte do nosso Direito
Bancário. Mas o CC de 1966 é a fonte subsidiária porque contém o acervo normativo que se aplica
subsidiariamente às situações jurídico-bancárias, por contraposição ao CCom, que é a fonte principal na
medida em que esta consagra o acervo normativo geral em que o Direito Bancário, enquanto sub-ramo do
Direito Comercial, assenta.

Portanto, o CC moçambicano é fonte do nosso Direito Bancário porque contém o acervo normativo que
regula subsidiariamente as relações jurídico-bancárias no país.

Para além do CC que é fonte do Direito Bancário, ainda que subsidiariamente, existe uma outra fonte que
é a legislação avulsa. Vejamos em que medida o é.

3.7. A Legislação Avulsa como Fonte do Direito Bancário


O que é legislação avulsa? O que significa que a legislação avulsa é fonte do Direito Bancário e qual é a
legislação que tem esse valor? Significa que essa legislação contém regras ou normas de conteúdo
bancário, contém normas jurídico-financeiras.

É evidente que não é toda a legislação extravagante que é fonte do Direito Bancário, só aquela que contém
dispositivos de conteúdo bancário. No nosso caso concreto, a legislação avulsa que é fonte do Direito
Bancário é, principalmente, a seguinte: a Lei n.º 1/92, de 3 de Janeiro, a Lei n.º 15/99, de 1 de Novembro,
a Lei n.º 9/2004, de 21 de Julho, a Lei Cambial, os Códigos de Conduta e os Avisos do Banco de
Moçambique.

Para além da aludida legislação avulsa, que é fonte do Direito Bancário, existem outros instrumentos
normativos que também o são, quais sejam os tratados internacionais. Vejamos a seguir em que medida o
são.

3.8. Os Tratados Internacionais como Fontes do Direito Bancário


O que significa que os Tratados Internacionais são fontes do Direito Bancário?
Para resolver esta questão, é pertinente clarificar, à partida, o conceito de “tratado internacional” e
explicitar como é que o mesmo, sendo parte do Direito Internacional, ingressa na nossa Ordem Jurídica,
até chegar a servir de fonte do nosso Direito Bancário.

Os tratados internacionais são acordos entre Estados e/ou organizações internacionais sobre determinadas
matérias. Tendo em conta o número de Estados e/ou Organizações internacionais intervenientes na sua

38
celebração, os tratados internacionais 58 podem ser bilaterais ou multilaterais e, ainda, de carácter regional
ou universal.

A eficácia destes tratados na Ordem Jurídica de cada Estado pressupõe a sua ratificação, que é o acto
normativo pelo qual se admite o ingresso de um certo instrumento normativo transnacional numa certa
ordem jurídica, i.e, é o acto de legitimação desse instrumento no país. Uma vez ratificados pelos órgãos
competentes de cada Estado, nos países signatários, os tratados internacionais ingressam pela ratificação
na ordem jurídica interna de cada um desses Estados e passam a vincular, portanto, são legitimados. Neste
sentido, tornam-se fontes do Direito e, por conseguinte, do Direito Bancário se contiverem normas que
intervêm na regulação da actividade financeira.

São exemplos destes tratados a Lei Uniforme de Letras e Livranças e a Lei Uniforme do Cheque.

3.9. A Relevância do Costume como Fonte do Direito Bancário


No período anterior à dominação estrangeira, existiam em Moçambique vários Direitos costumeiros
consoante os povos então existentes. O costume era, durante esse período, única fonte do Direito.

A penetração árabe59 nesta zona, por razões comerciais ou outras, introduziu alguns valores culturais
árabes, sobretudo a religião, sem contudo extinguir os usos e costumes locais, o que fez com que os
Direitos costumeiros locais se misturassem com os valores árabes.

Apesar desta influência asiática em algumas zonas do país, os costumes locais permaneceram fonte única
do Direito existente, que era todo ele costumeiro.

Em boa verdade, eram vários Direitos costumeiros, vigorando cada um em cada povo 60, sendo nalguns
casos islamizados e noutros não.

Em consequência dos chamados Descobrimentos Marítimos e da ocupação efectiva 61 da África, a partir da


Conferência de Berlim, nasceu o país denominado Moçambique com a configuração geográfica que hoje
apresenta, integrando vários povos, cada um com a sua cultura, a sua língua e portanto, o seu próprio
Direito costumeiro ou consuetudinário.

Mais do que isso, a ocupação efectiva de Moçambique trouxe consigo um Direito escrito, de origem e de
base romanística62, que de mãos dadas com o Direito Canónico, numa acção combinada entre o Estado
58
Acreditamos que a integração regional está a dar origem a outras fontes internacionais, dentre as quais se destaca o Direito Comunitário da SADC, em
formação. Sobre o conceito de tratado internacional, maiores desenvolvimentos em manuais de Direito Internacional Público, Direito da Integração Regional e
Direito Comunitário.
59
Antes da chegada dos portugueses em Moçambique os árabes já tinham cá estado, daí que a ocupação portuguesa teve de enfrentar também a resistência
árabe, além da dos naturais.
60
Os principais eram os Direitos costumeiros ronga, changane, chope, bitonga, sena, chona, ndau, nhanja, maconde e macua.
61
Os descobrimentos marítimos iniciaram na Europa, nos sécs. XIV e XV, tendo cabido a Vasco da Gama a “descoberta” de Moçambique. A ocupação
efectiva foi depois de 1885, após a Conferência de Berlim.
62
O Direito português.
39
ocupante e a Igreja Católica Romana, foi se implantando no país, sem contudo eliminar os usos e
costumes locais que, em certa medida, haviam já sofrido a asiatização.

Este Direito de base romanística, que só ia tendo implantação nos locais que se urbanizavam, não
reconhecia o costume como sua fonte no país de origem, daí a não colocação do mesmo no quadro das
fontes63 em Moçambique.

A coexistência do Direito do Estado ocupante, do Direito Canónico e do Direito muçulmano com os


Direitos costumeiros locais, deu lugar ao nascimento do pluralismo jurídico em Moçambique, que
compreende hoje estes Direitos costumeiros dos povos bantu agora unificados num só povo, – o
moçambicano –, o Direito de índole muçulmano introduzido e a predominar em zonas islamizadas do
litoral de Nampula, de Cabo Delgado e do Niassa sobretudo, o Direito romanístico introduzido por
Portugal e predominante nos locais em urbanização, e o Direito Canónico, vigente nas instituições da
Igreja Católica Romana.

A partir da ocupação efectiva, Moçambique viveu sob esse signo da coexistência 64 destes sistemas
normativos acima indicados.

O avanço da luta de libertação de Moçambique e as mudanças políticas ocorridas em Portugal em 1974 65,
criaram as condições para a assinatura, dos Acordos de Lusaka, de que resultou a formação e a tomada de
posse do Governo de Transição em 20 de Setembro de 1974, como primeiro passo para a independência
de Moçambique.

Neste processo de preparação da sua ascensão à independência, Moçambique iniciou a criação do seu
próprio Direito, dando os seguintes passos: i) foi produzindo instrumentos normativos preparatórios da
formação e da operacionalização do Governo de Transição, em materialização dos entendimentos fixados
nos Acordos de Lusaka66; ii) o Governo de Transição foi produzindo e aplicando a legislação que se
mostrou então pertinente, no quadro da materialização da Transição Política; iii) o Comité Central da
FRELIMO produziu e aprovou a Constituição de 1975, como Lei Fundamental, que veio entrar em vigor à
data da independência e iv) o Comité Central da FRELIMO incorporou nessa Constituição o princípio da
recepção automática67 do Direito anterior, do que resultou a conversão daquele Direito em nacional a
partir da proclamação da independência e da entrada em vigor daquela Constituição.
63
O Código Civil Português de 1867 não reconhecia o costume como fonte do Direito senão o secundum legem, conforme esclarece o Prof. MENEZES
CORDEIRO, no seu texto sobre o costume, inserido na Enciclópédia Pólis Verbo, vol. I, p. 1347.
64
Cfr. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS - Conflitos e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique, Edições Afrontamento, 1º
vol., pp. 47 e ss.
65
A Revolução dos Cravos, de 25 de Abril de 1974, de que nasceu o Estado de Direito em Portugal, que ainda hoje está em construção neste país.
66
Os Acordos de Lusaka foram assinados a 7 de Setembro de 1974, entre Portugal e a FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE, através dos quais
Portugal reconheceu o direito de Moçambique e do seu povo à independência e transferiu os respectivos poderes de representação para a FRELIMO, o então
braço politico e armado deste povo.
67
Cfr. art. 71º, cujo texto é “Toda a legislação anterior no que for contrário à Constituição fica automaticamente revogada. A legislação anterior no que não
for contrário à Constituição mantém-se em vigor até que seja modificada ou revogada”.
40
Moçambique ascendeu então à independência a 25 de Junho de 1975, com o seguinte desenho legislativo:
i) uma Constituição de inspiração socialista que, apesar disso, continha um preceito que recebia
automaticamente o Direito do Estado ocupante até então vigente no país; ii) o Direito do Estado ocupante,
que vigorou no país durante essa ocupação e que agora estava transformado em nacional por força do
princípio da recepção automática; iii) o Direito Canónico, vigente na Comunidade Religiosa Católica
Romana; iv) o Direito Internacional, aplicado nas relações entre o país e outros Estados, constituído pelos
tratados internacionais até então ratificados pelo Estado português no interesse de Moçambique, e que
também eram recebidos no Direito nacional pelo princípio da recepção automática; v) o Direito
Muçulmano, vigente na Comunidade Religiosa Muçulmana e vi) vários Direitos Costumeiros vigentes nas
diferentes nações que formam o Povo moçambicano.

À excepção do Direito estrangeiro já recebido e transformado em nacional, cada um destes Direitos


disciplinava a vida de um segmento da população, mas os Direitos costumeiros predominavam, tendo em
conta que a maioria dos moçambicanos é de origem bantu.

Proclamada a independência68, Moçambique continuou com o esforço do Governo de Transição de


produzir as suas próprias leis e começou a revogar e/ou derrogar os instrumentos jurídicos recebidos do
Estado anterior, bem como complementar o quadro jurídico com a legislação necessária sobre matérias
não reguladas no Direito anterior.

Na sua Constituição, Moçambique definiu-se como uma República Popular em que todas as camadas
patrióticas se engajavam na construção de uma nova sociedade, livre da exploração do homem pelo
homem, um Estado em que o poder pertencia aos operários e camponeses unidos e dirigidos pela
FRELIMO e era exercido pelos órgãos do poder popular69.

Caracterizou-se ainda como um Estado de Democracia Popular orientado e dirigido pela linha política
definida pela FRELIMO, a então força dirigente do Estado e da Sociedade, porque traçava a orientação
política básica do país, dirigia e supervisionava a acção dos órgãos estatais, a fim de assegurar a
conformidade da política do Estado com os interesses do povo70.

Em razão desta sua natureza política, o Estado moçambicano fixava como seus objectivos fundamentais: i)
a eliminação das estruturas de opressão e exploração coloniais e tradicionais e da mentalidade que lhes
estava subjacente; ii) a extensão e o reforço do poder popular democrático; iii) a edificação de uma
economia independente e a promoção do progresso cultural e social; iv) a defesa e a consolidação da
independência e da unidade nacional; v) o estabelecimento e desenvolvimento de relações de amizade e
68
A primeira Constituição de Moçambique foi elaborada e aprovada na Praia do Tofo, Província de Inhambane.
69
Cfr. art. 2º da Constituição de 1975.
70
Cfr. art. 3º da Constituição de 1975.
41
cooperação com outros povos e Estados e vi) o prosseguimento da luta contra o colonialismo e o
imperialismo71.

Para a prossecução destes objectivos, impunha-se que o Estado moçambicano realizasse um combate
enérgico contra o analfabetismo e o obscurantismo e promovesse o desenvolvimento da cultura e
personalidade nacionais, além de divulgar internacionalmente o conhecimento da nossa cultura para, em
troca, fazer beneficiar o povo moçambicano das conquistas culturais revolucionárias dos outros povos72.

Deste modo, a Constituição e a legislação ordinária que fosse aprovada reflectiam a essência do que foi a
luta de libertação de Moçambique, pelo que legitimavam a criação de um Estado independente, de
natureza democrático-popular, em que os operários e camponeses e com eles todas as camadas patrióticas,
sob a direcção da FRELIMO, se engajavam na construção de uma sociedade livre de exploração do
Homem pelo Homem, bem como do obscurantismo e das estruturas tradicionais e da mentalidade que lhes
estava subjacente.

Nenhum dos instrumentos normativos produzidos durante o Governo de Transição e após a independência
legitimou o costume como fonte do Direito em Moçambique, porque estava-se num processo de
construção de um Estado de modelo marxista-leninista, em cujo quadro jurídico o costume não tinha e
nem podia ter espaço.

Os objectivos em vista impunham uma transformação radical da sociedade, o que não podia salvaguardar
o costume, porque caminhava-se, como dissemos, para a construção de um Estado, baseado nos princípios
do Marxismo-Leninismo, incompatíveis, portanto, com o costume como fonte do Direito.

As estruturas tradicionais que tinham de ser eliminadas incluíam as instituições normativas conexas, que
eram os usos e costumes, a mentalidade que lhes estava subjacente e o aludido obscurantismo.

E na verdade, os anos que se seguiram à proclamação da independência, caracterizaram-se por um


combate enérgico aos valores culturais e tradicionais então considerados retrógrados e nocivos à
Revolução, porque associados ao obscurantismo e ao analfabetismo: entre estes estava a tradição e os
costumes.

Foi assim que o lobolo, os ritos de iniciação, as estruturas tradicionais e outros costumes dos diversos
povos moçambicanos foram politicamente reprimidos, por se considerar incompatíveis com os valores da
Revolução, um processo que, em certa medida, quebrou a base social da FRELIMO e do seu Estado e
justificou a intensificação do conflito armado73.
71
Cfr. art. 4º da Constituição de 1975.
72
Cfr. art. 15º da Constituição de 1975.
73
O conflito armado, iniciado em 1977 entre o Estado moçambicano e o MNR, hoje Renamo, teve origem exterior mas o combate aos valores costumeiros em
nome da Revolução, associado a outros erros de governação e de concepção da relação “Estado-cidadão”, criou uma certa base social à guerrilha da Renamo
42
Esta situação prevaleceu até à década de noventa, altura em que o Estado tomou consciência da
necessidade de reconhecer e valorizar a tradição, e, daí em diante, os usos e costumes foram se
manifestando livremente sem serem reprimidos, a ponto de, ao nível legislativo, aparecerem sinais de
abertura74, no momento e na medida em que a própria governação moçambicana se humanizava cada vez
mais e, por isso, não só reconhecia e valorizava a liberdade humana, como até proclamava os próprios
direitos do Homem75.

Dali em diante e de maneira expressiva, foram reconhecidas e investidas as autoridades tradicionais,


concretamente os régulos e passou a haver o reconhecimento e a permissão de cerimónias tradicionais, o
reconhecimento dos direitos costumeiros sobre a terra, o reconhecimento e a permissão de casamentos
tradicionais, assim como passaram a ser implicitamente reconhecidos os chamados médicos tradicionais 76
e permitido a eles o exercício das suas actividades, a ponto de ser organizarem em associação77.

Embora o costume tenha continuado sem constar do elenco das fontes do Direito, ele recuperou
grandemente a sua relevância como regulador da vida social da maioria dos moçambicanos, dos meados
da década de 90 até hoje, porque deixou de ser considerado um valor retrógrado e portanto nocivo à
sociedade.

Em 2005 entrou em vigor uma nova Constituição e a situação que prevalece actualmente no nosso país
continua a ser a do pluralismo jurídico, na medida em que coexistem: i) o Direito estadual de base
romanística, recebido do Estado português e acrescido da componente produzida pelo Estado
moçambicano no seio da qual se inclui a Constituição; ii) o Direito Internacional recebido na Ordem
Jurídica interna; iii) o Direito Canónico, vigente na Comunidade Religiosa Católica Romana; iv) o Direito
muçulmano, vigente na Comunidade Religiosa Muçulmana e v) vários Direitos Costumeiros vigentes nas
diferentes nações que integram o povo moçambicano.

Dentre estes sistemas normativos, o Direito estadual é o que oficialmente regula genericamente a vida dos
cidadãos e é oficialmente aplicado nos tribunais do país, mas outros são materialmente mais intervenientes
nessa vida social.

O CC em vigor78, como Direito repositório que contém os princípios gerais do Direito, continua sem
consagrar o costume como fonte de Direito no seu capítulo I, dedicado a essa matéria.

mas esta não soube viabilizar esta vantagem para os seus objectivos, justamente por ela ter estado a agir como braço armado de forças estrangeiras hostis à
liberdade e independência do povo moçambicano.
74
A abertura ao multipartidarismo, a Constituição de 1990, que proclamou o Estado de Direito e o reconhecimento das autoridades tradicionais, eram outros
sinais.
75
Um conceito que até aquele momento, embora várias vezes empregue em discursos políticos escritos e orais, era utópico.
76
Que são verdadeiramente os Curandeiros.
77
AMETRAMO – Associação dos “Médicos” Tradicionais de Moçambique.
78
O CC moçambicano actual é o CC Português de 1966, cuja vigência no país iniciou em 1967, por força da Portaria n.º 22869, de 4 de Setembro desse mesmo
ano.
43
O seu art. 1º estabelece, no que se refere às fontes do Direito que “1. São fontes imediatas do direito as
leis e as normas corporativas”, “2. Consideram-se leis todas as disposições genéricas provindas dos
órgãos estaduais competentes, são corporativas as regras ditadas pelos organismos representativos das
diferentes categoriais morais, culturais, económicas ou profissionais, no domínio das suas atribuições,
bem como os respectivos estatutos e regulamentos internos” e que “3. As normas corporativas não podem
contrariar as disposições legais de carácter imperativo”.

Decorre daqui a ilação de que o costume não é, pelo menos directamente, fonte do Direito no país.

Entretanto, o art. 3º do mesmo Código estabelece, no que se refere aos usos que “os usos que não forem
contrários aos princípios da boa-fé são juridicamente atendíveis quando a lei o determine”79.

Decorre da leitura desse preceito o entendimento de que os usos têm acolhimento ou que podem ser
positivados desde que não sejam contrários aos princípios da boa-fé. Mas essa positivação dos usos não
equivale à positivação dos costumes, na medida em que o uso e o costume são conceitos distintos. E a
positivação dos usos não significa o seu acolhimento como fonte do Direito mas tão-só que eles podem ser
utilizados como elementos de integração da norma legal, o que vale dizer que o seu valor jurídico decorre
da norma da lei que permite a sua positivação.

Assim, não consideramos que o acolhimento dos usos não contrários à boa-fé signifique acolhimento dos
costumes como fontes do nosso Direito, porque os conceitos de uso e de costume distinguem-se.

O nº 1 do art. 7º do mesmo CC estabelece, no que se refere às causas de cessação da vigência da lei que
“Quando se não destine a ter vigência temporária, a lei deixa de vigorar se for revogada por outra lei”.

No que se refere ao assunto em estudo, quer isto dizer que o costume não pode determinar a cessação da
vigência da lei. A prática reiterada da não aplicação de uma lei, isto é, o desuso, não pode conduzir essa
lei à caducidade, o que vale dizer que o costume derrogativo não é relevante, portanto, não pode revogar
uma lei que caiu em desuso.

O art. 10º do mesmo CC estabelece, no que se refere à integração das lacunas da lei, que “1. Os casos que
a lei não preveja são regulados segundo a norma aplicável aos casos análogos”, “2. Há analogia sempre
que no caso omisso procedam as razões justificáveis da regulamentação do caso previsto na lei” e que “3.
Na falta de caso análogo, a situação é resolvida segundo a norma que o próprio intérprete criaria, se
houvesse de legislar dentro do espírito do sistema”.

Igualmente no que refere ao tema em estudo, quer isto dizer que a integração de lacunas processa-se com
recurso à analogia e nunca ao costume, porque da análise individual ou combinada dos preceitos aqui

79
Cfr. nº 1 do aludido artigo.
44
passados em desfile, resulta óbvio concluir que o costume não consta, de facto, do elenco das fontes do
Direito. Portanto, o CC afastou a eventual relevância integrativa do costume, pelo que este não pode, em
nenhum caso, servir de meio de integração de lacunas à luz deste preceito e do nosso sistema jurídico,
enquanto vigorar este preceito.

Considerando este facto e a circunstância de o art. 3º do CC se referir tão-só aos usos, – que não são
mesma coisa que costume –, significará isso que a nossa lei civil nega ao costume o valor de fonte do
Direito?

Poderíamos, numa análise linear, concluir que sim nega-lhe esse valor, mas a leitura do art. 348º do CC,
leva-nos a uma conclusão diferente. O preceito em alusão estabelece o seguinte: “1. Aquele que invocar
direito consuetudinário, local ou estrangeiro, compete fazer a prova da sua existência e conteúdo, mas o
tribunal deve procurar, oficiosamente, obter o respectivo conhecimento. 2. O conhecimento oficioso
incumbe também ao tribunal, sempre que este tenha de decidir com base no direito consuetudinário, loca
ou estrangeiro e nenhuma das partes o tenha invocado, ou a parte contrária tenha reconhecido a sua
existência e conteúdo ou não haja deduzido oposição. 3. Na impossibilidade de determinar o conteúdo do
direito aplicável, o tribunal reconhecerá às regas do direito comum moçambicano”.

Da leitura deste preceito resulta concluir que o costume, seja ele nacional ou estrangeiro, é reconhecido
como fonte do Direito, desde que quem o invoca prove a sua existência. E se as partes não o invocarem e
o tribunal entender que tem que decidir com base nele, então este deverá provar o seu conhecimento
oficioso. Se fôr invocado e a parte contrária reconhecer a sua existência ou não deduzir oposição, deve o
tribunal, mesmo assim, provar o seu conhecimento oficioso. Na impossibilidade de fixar o seu conteúdo,
aplica-se o Direito escrito, que é o Direito comum.

Por outro lado, o costume é referido expressamente pelo art. 1400º do CC, sobre a divisão de águas.
Parece que estamos, neste caso, perante uma cláusula de reconhecimento expresso do costume em sentido
próprio mas um reconhecimento casuístico, não generalizado. Trata-se, com efeito e neste caso, de uma
norma cuja generalidade pode não ser contestada pelo facto de se tratar de uma prática estabelecida entre
pessoas concretamente determinadas: essa prática vinculava aquelas pessoas em função de uma qualidade
objectiva, a de co-utente da água, que pode ser transacionada através da transmissão do DUAT. Quer isto
dizer que embora a nossa pirâmide das fontes compreenda apenas as leis e as normas corporativas,
excluindo por conseguinte o costume, a verdade é que em certos e determinados casos, o costume é fonte
do Direito, embora, em tese geral, não o seja, em Moçambique.

45
Para compreender a relevância prática actual do costume, é preciso analisar a extensão da eficácia do
sistema de justiça oficial. O Direito estadual recebido 80 dava, à data da independência, escassa importância
ao costume como fonte de Direito81. Na verdade, a tradição do positivismo legalista deste Direito revelava,
tanto no CC como no CCom uma verdadeira fobia ao costume 82. Por outro lado, o processo preparatório
da independência de Moçambique e a própria independência trouxeram um quadro jurídico cujo conteúdo
era um projecto revolucionário que levaria à transformação total e completa da sociedade, o que era
incompatível com a valorização do costume, daí que, para além de combatido, este foi mantido fora do
elenco das fontes do Direito em Moçambique.

Deste modo, o Direito estadual produzido após a independência não dava inicialmente nenhuma
relevância ao costume como fonte do Direito 83 até meados da década de noventa, altura em que surgiram
sinais do seu reconhecimento expresso, mas casuístico.

Assim, ao nível do Direito público, precisamente no Direito Agrário, foi aprovada a Lei de Terras 84 que,
através do seu art. 12º permite a aquisição do DUAT85 por via costumeira 86.

A mesma Lei, através da alínea b) do seu art. 24º 87, permite às comunidades participar da resolução de
conflitos usando normas e práticas costumeiras, o que significa reconhecer o costume como fonte do
Direito, como meio de resolução de conflitos.

Um outro domínio onde há relevância do costume é o do Direito Internacional Público, por força das
alíneas a) e b) do art. 38º do TIJ, cuja Convenção foi ratificada pelo Estado moçambicano.

Ao nível do Direito Privado, foi aprovada a Lei da Família 88, que no seu art. 16º reconhece o casamento
tradicional e no seu art. 25º fixa-lhe o respectivo regime jurídico89.

Estranhamente, um domínio tão importante na vida social dos moçambicanos como é o sucessório, não foi
ainda objecto de reforma. Trata-se de um domínio em que, a nosso ver, o costume terá um papel de peso,

80
Concretamente o CC de 1966 e hoje apenas o Livro III do CCom. de 1888.
81
Vide arts. 348º, 1323º, nº 1 in fine e 1400º, todos do CC.
82
Existe, no entanto, uma tese que sustenta ilegitimidade da lei para fixar as fontes de Direito e defende a equivalência, no plano hierárquico, das normas legais
e normas consuetudinárias.
83
Em razão da natureza socialista de tipo marxista-leninista do poder político constituído e, portanto, do sistema do Direito.
84
Cfr. Lei nº 19/97, de 1 de Outubro, publicado no BR nº 40, III Suplemento.
85
Nos termos do art. 109 da Constituição vigente, a terra é propriedade do Estado, mas, como meio universal de criação da riqueza e do bem-estar social, o seu
uso e aproveitamento é direito de todo o povo, neste sentido, não deve ser vendida, ou qualquer outra forma alienada, nem hipotecada ou penhorada. O direito
de uso e aproveitamento da terra designa-se abreviadamente por DUAT, na terminologia jurídica moçambicana.
86
O art. 12º, alínea a) da Lei de Terras estabelece que “o direito de uso e aproveitamento da terra é adquirido por pessoas singulares e pelas comunidades
locais, segundo as normas e práticas costumeiras que não contrariem a Constituição”.
87
Este preceito estabelece que as comunidades locais, nas áreas rurais, participam na resolução de conflitos.
88
- A Lei nº 10/2004, de 25 de Agosto. Em Moçambique, o Livro IV do CC de 1966, relativo ao Direito da família foi revogado e a matéria por ele antes
regulada, é agora coberta por esta lei.
89
- O art. 16 da Lei de Família estabelece o seguinte: O casamento é civil, religioso ou tradicional. O casamento monogâmico, religioso e tradicional é
reconhecido o valor e eficácia igual à do casamento civil, quando tenham sido observados os requisitos que a lei estabelece para o casamento civil ”. O art. 25
estabelece que “ A celebração do casamento tradicional segue as regras estabelecidas para o casamento urgente em tudo o que não se achar especialmente
consagrado por lei.”
46
tendo em conta a natureza patrilinear da sociedade moçambicana na zona sul, por contraposição à natureza
matrilinear dessa mesma sociedade na zona norte, o que supomos que poderá determinar esquemas de
sucessão completamente diferentes.

Dada a larga extensão do país 90, o sistema de administração pública e o respectivo aparelho judicial não se
mostram presentes em todo o território nacional e onde existem não operam com a eficácia esperada. Os
tribunais que aplicam a lei escrita ou seja o Direito estadual, funcionam nas capitais provinciais e
distritais, bem como nas povoações e postos administrativos, sendo que a maior parte do povo não habita
estas áreas e rege-se pelos usos e costumes. Assim, o Direito estadual só está confinado nestas zonas
territoriais cobertas pelas 11 capitais provinciais e pelas capitais distritais, para além das povoações e
postos administrativos.

O resto do território nacional e, portanto, a maioria do seu povo, não conhece em absoluto o Direito
estadual, não só devido ao analfabetismo, como até pela falta da divulgação deste Direito. Na sua
condição de país subdesenvolvido, Moçambique não dispõe de recursos para estender a administração a
toda a sua extensão, nem para operacionalizá-la, por forma a divulgar e aplicar a todos a sua legislação.

Podemos assim concluir pela ineficácia do Direito estadual ou seja, que a eficácia do Direito estadual no
território nacional é restrita, na medida em que só cobre vinte porcento da população 91, quer pelo número
restrito de tribunais devido ao problema de instalações, quer pela insuficiência de Magistrados.

A posição que defendemos é que embora reconheçamos a predominância do costume na regulação da vida
social, em face da ineficácia do Direito estadual, somos de opinião que no caso específico do Direito
Bancário e em atenção ao actual nível de desenvolvimento da nossa sociedade, parece que do costume
brotam pouquíssimas condutas com o valor de normas bancárias, que são exactamente os chamados usos
bancários.

Na sua modalidade contra legen, o costume não pode ser fonte do Direito Bancário. Configurando-se
como praeter legen, o costume não pode ter vinculatividade autónoma que o confira esse estatuto de
fonte. Como costume secundu legen, não pode relevar como fonte, já que a lei se sobrepõe a ele.

Entendemos, assim, que só a lei escrita, a jurisprudência 92, a doutrina93 e os princípios gerais do Direito é
que têm essa relevância. Em atenção a este entendimento, não incluímos o costume no conjunto das fontes
do Direito Bancário mas reconhecemos os usos bancários como tal.

90
Moçambique, cuja maioria do povo é analfabeta e vive no campo, é um país extenso, com uma superfície de 799.380 Km 2, divididos em 11 províncias e mais
de 128 distritos, classificado como um dos países mais pobres do mundo, com um rendimento per capita muito baixo.
91
Segundo a estatística do Censo de 1997, oitenta por cento do povo vive no campo, onde a influência da lei escrita é muito reduzida.
92
Excepcional ou residualmente.
93
Apenas nos casos em que o legislador a acolhe para a produção legislativa.
47
Para além da lei e dos usos, existe outra fonte deste ramo de Direito, que é a jurisprudência, cuja
caracterização se faz abaixo.

3.10. A Jurisprudência como Fonte do Direito Bancário


O que significa que a Jurisprudência94 é fonte do Direito Bancário? Ora, para chegar à percepção do
sentido e alcance deste termo, é pertinente partir da etimologia da palavra e do respectivo conceito.

O termo “jurisprudência” pode ser entendido na sua acepção epistemológica de Ciência do Direito e pode
também ser entendido na sua acepção técnico-jurídica como conjunto das decisões dos tribunais. No
primeiro sentido, o termo refere-se aos estudos jurídicos e no segundo sentido aos assentos.

Para o nosso objectivo releva o sentido técnico-jurídico, i.e, o de decisões dos tribunais.

É neste último sentido que o devemos tomar, no contexto do estudo que estamos a fazer. Assim, por
“jurisprudência” se entende neste contexto, o conjunto de orientações seguidas pelos tribunais no
julgamento de casos concretos, orientações essas definidas pelo Tribunal Supremo ao abrigo do art. 2º do
CC, que fixa o princípio de que nos casos declarados na lei, podem os tribunais fixar doutrina com força
obrigatória geral, que se apresenta sob a forma de assentos.

Isto significa que a jurisprudência só é fonte do Direito enquanto se consubstanciar em assentos, porque só
estes têm força obrigatória geral95.

Como dissemos, na nossa Ordem Jurídica a emissão dos assentos cabe ao Tribunal Supremo, reunido em
Plenário.

Como doutrina com força obrigatória geral, vinculando todos os tribunais e todos os membros da
comunidade jurídica, os assentos visam superar as dificuldades decorrentes da independência de cada Juiz
ou de cada tribunal na aplicação da lei aos casos concretos, dificuldades traduzidas em soluções diversas
para questões idênticas.

Os assentos resultam, pois, da simbiose jurídica de dois ou mais Acórdãos contraditórios ou diferentes de
Secções do Tribunal Supremo, sobre uma mesma questão de Direito, simbiose que opera no quadro do
funcionamento desse mesmo Tribunal, reunido em Plenário.

94
Não cabe aqui o tratamento aprofundado da jurisprudência, por o tema possuir a sua sede na Introdução ao Estudo do Direito. O que fazemos é apenas
relembramos este conceito, para explicar em que circunstâncias é fonte do Direito Bancário. Sobre o tema, vide quaisquer manuais de Introdução ao Estudo do
Direito.
95
Este é o caso específico de Moçambique, diferentemente do que se passa hoje no Direito Português.
48
Assim, a jurisprudência não é, em regra, fonte do Direito 96 em geral, nem o é do Direito Bancário em
particular, só o é excepcionalmente através dos assentos, porque estes têm força vinculativa que não
provém deles próprios mas da lei que os permite, que é o CC moçambicano97.

Quer isso dizer que o Juiz não pode criar ou modificar uma norma jurídica nem fazer cessar a sua eficácia.
E porque é que não pode? Não pode em decorrência do princípio da separação de poderes, que determina
que o julgador seja apenas aplicador da lei, cabendo ao órgão legislativo ou com poder legislativo
delegado criar ou modificar uma norma de Direito, bem como fazer cessar a sua eficácia.

Chegados aqui, resta-nos dizer, em jeito de conclusão, que em Direito Bancário, a jurisprudência só se
torna fonte através dos assentos, única e exclusivamente nos casos em que estes versam sobre matéria
financeira.

Para além da Jurisprudência, existe outra fonte não normativa do Direito Bancário, que é a Doutrina.
Vejamos a seguir a medida em que o é.

3.11. A Doutrina como Fonte do Direito Bancário


O que significa que a Doutrina98 é fonte do Direito Bancário? Para apreensão da explicação da questão
formulada há que delimitar antes o respectivo conceito.

A Doutrina compreende os estudos e os pareceres dos jurisconsultos, expressos em manuais, monografias,


revistas jurídicas, teses e outros textos em que eles apresentam, com fundamentação científica, as suas
investigações e conclusões sobre questões jurídicas.

No Direito Romano Clássico a doutrina era fonte imediata, vinculando não apenas nos casos concretos
para cuja solução essa doutrina havia sido solicitada em forma de parecer, mas também em todos os outros
casos similares. Hoje já não é assim, não vincula nem nos casos concretos para cuja solução ela foi
solicitada como parecer nem em quaisquer outros similares, i.e, não é fonte imediata.

Contudo, a sua importância, em virtude do labor científico que a define, pode a tornar válida não apenas
como subsídio ao qual a jurisprudência recorre para melhor aplicação do jure constituto, como ainda para
melhorar a legislação. Significa isto que a doutrina torna-se fonte do Direito nos casos em que o legislador
a acolhe, em razão da sua força persuasiva, para o seu aproveitamento na actualização legislativa.

96
Embora na essência válida, esta argumentação não invalida a regra de que há um momento de criação do Direito pelo Juiz, quando ele decide no caso
concreto. Não invalida também o princípio de que as orientações jurisprudenciais são consideradas nas questões semelhantes subsequentes, pelos tribunais
inferiores, o que não significa que um tribunal inferior na estrutura orgânica judicial nacional, seja obrigado a seguir o modo de solução duma questão adoptado
por um tribunal superior, à excepção dos assentos.
97
Através do seu art. 2º cuja redacção é a seguinte: “Nos casos declarados na lei, podem os tribunais fixar, por meio de assentos, doutrina com força
obrigatória geral”.
98
Não cabe aqui o tratamento aprofundado da Doutrina, por o tema possuir a sua sede na Introdução ao Estudo do Direito. O que fazemos é apenas
relembramos este conceito nos seus aspectos gerais, para explicar em que circunstâncias é fonte do Direito Bancário. Sobre o tema, vide quaisquer manuais de
Introdução ao Estudo do Direito.
49
Chegados aqui, resta-nos, em jeito de conclusão, dizer que em Direito Bancário, a doutrina como conjunto
de opiniões dos jurisconsultos, só se torna fonte quando o legislador a acolhe e a transforma em normas
jurídico-bancárias.

3.12. Os Princípios Gerais do Direito como Fontes do Direito Bancário


O que significa que os Princípios Gerais do Direito são fontes do Direito Bancário?
Tem interesse para o esclarecimento desta questão, delimitar préviamente o conceito de “princípio” e o de
“Princípio Geral do Direito”.

Tomamos a palavra “princípio” apenas no seu significado lógico, sem nos referirmos à sua acepção ética,
ou qualquer outra.

Ora, tomado o termo neste sentido lógico, podemos dizer que um princípio é uma verdade fundamental de
um sistema de conhecimento, que é admitida por ser evidente ou ter sido comprovada como pressuposto
exigido pelas necessidades da pesquisa e da praxis. Logo, podemos definir os “princípios” como verdades
fundamentais de um sistema de conhecimento, que são admitidas por serem evidentes ou terem sido
comprovadas como pressupostos exigidos pelas necessidades da pesquisa e da praxis.

Explicado o conceito de “princípio”, impõe-se-nos agora explicar o de “princípio geral”. Devemos


entender por este qualquer consagração legal genérica que tem a função de fixar a disciplina das relações
jurídicas que se estabelecem na área da vida social por ele reguladas. Assim, os princípios gerais do
Direito são consagrações legais genéricas que têm a função de fixar a disciplina das relações jurídicas que
se estabelecem na área da vida social por ele reguladas.

Explicados os conceitos de “princípio” e de “princípio geral”, julgamos útil indagar da sua relevância no
domínio da pesquisa e do conhecimento A relevância destes princípios, neste domínio, é que são
enunciados lógicos admitidos como condição de validade das demais asserções que compõem um certo
campo do saber, pelo que toda e qualquer forma de conhecimento pressupõe e implica a sua existência
como fundamento de validade das ilações de um determinado campo de saber.

Os princípios gerais ou verdades fundamentais agrupam-se em três categorias, nomeadamente os


omnivalentes, os plurivalentes e os monovalentes.

Designamos “princípios omnivalentes” os enunciados lógicos que são válidos para todas as formas do
saber, como é o caso dos princípios da identidade e da razão suficiente.

Diferentemente dos anteriores, os “princípios plurivalentes” caracterizam-se por serem enunciados


lógicos aplicáveis a vários campos do conhecimento mas não extensivos a todos, como é o caso do
princípio de causalidade, que é essencial para as ciências naturais.
50
Diferentemente dos dois anteriores, já os “princípios monovalentes” são aqueles enunciados lógicos que
só valem no âmbito de uma determinada área do conhecimento ou de uma determinada ciência, como é o
caso dos princípios gerais do Direito, que só são válidos para a Ciência Jurídica.

Na concepção da Ana Prata, “princípio” é, no campo da Ciência Jurídica, a “orientação que informa o
conteúdo de um conjunto de normas jurídicas, que tem de ser tomado em consideração pelo intérprete,
mas que pode, em alguns casos, ter directa aplicação”99.

Segundo esta, os princípios são extraídos das fontes e dos preceitos e constituem uma orientação para a
definição de novos regimes pelo legislador100.

No nosso Direito positivo, concretamente no CC de 1966, temos um preceito que coincide com o vigente
na maioria dos sistemas jurídicos de matriz romanística: é o art. 10º do CC, que confere ao juiz, – quando
a norma jurídica fôr omissa –, o poder de decidir o caso de acordo com a analogia e, na falta desta, criar
ele próprio a norma que criaria, se houvesse de legislar dentro do espírito do sistema 101. Quer isto dizer
que o legislador do CC moçambicano reconhece que o nosso sistema jurídico não cobre e nem podia
cobrir todo o campo da experiência humana, por isso, ele deixou muitas situações não reguladas porque
não as podia prever no momento da feitura da lei: essas situações são chamadas lacunas do sistema e têm
de ser integradas.

Para a integração destas lacunas, o legislador fixou a regra de que devemos recorrer ao princípio da
analogia, e na falta de casos análogos, aos princípios gerais do Direito102.

Não se deve, no entanto, entender que aos princípios gerais do Direito só cabe apenas essa tarefa de
preencher ou suprir as lacunas, pois, eles fazem muito mais do que isso: como enunciações normativas de
valor genérico, condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico, quer para a aplicação
das suas normas e integração das suas lacunas, quer ainda para a elaboração de novas normas, o que
significa que eles cobrem, deste modo, tanto o campo da pesquisa pura do Direito, como o da actualização
legislativa.

Importa agora identificar os princípios monovalentes da Ciência Jurídica.

Estes não são enumeráveis mas podemos, a título exemplificativo passar em desfile alguns deles,
sobretudo os que se revestem de tamanha importância que o legislador nacional lhes conferiu a dignidade
99
Cfr. PRATA, Ana, Dicionário Jurídico, 3ª ed., Almedina, Coimbra, 1999, p. 764.
100
Ibidem idem.
101
Estabelece o referido preceito que: “1. Os casos que a lei não preveja são regulados segundo a norma aplicável aos casos análogos. 2. Há analogia sempre
que no caso omisso procedam as razões justificativas da regulamentação do caso previsto na lei. 3. Na falta de caso análogo, a situação é resolvida segundo a
norma que o próprio intérprete criaria, se houvesse de legislar dentro do espirito do sistema”.
102
Sobre o conceito, a tipologia e a caracterização dos princípios gerais do Direito, vide maiores desenvolvimentos em MENEZES CORDEIRO, Princípios
Gerais do Direito, in Enciclopédia Polis Verbo da Sociedade e do Estado, vol. IV, pp. 1490; OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direito: Introdução e Teoria Geral,
1984, pp. 365 e ss; JOSE JOAQUIM GOMES CANOTILHO, Constituição Dirigente e Vinculação do Legislador, 1982, pp. 277 e ss.
51
constitucional ou força de lei, assumindo-se então como estruturantes de modelos jurídicos. Situamos
neste plano, por exemplo o princípio da Universalidade103, o da Igualdade de todos perante a lei104, e o da
não retroactividade da lei105 para protecção dos direitos adquiridos106.

Para além destes, existem tantos outros princípios que não constam de textos legais, apenas são modelos
doutrinários ou dogmáticos fundamentais que de uma de outra forma influem na vida jurídica.

Como se pode verificar, os princípios gerais do Direito são eficazes independentemente da sua
consagração legislativa, mas quando a lei os consagra, dá-lhes maior força sem lhes alterar a substância,
constituindo então um ius prévio e exterior à lex.

Por outro lado, os princípios gerais do Direito não têm a mesma amplitude, pois, existem os que se
manifestam em todos os ramos de Direito mas existem outros que só se manifestam apenas nalguns deles,
sendo por isso objectos de estudo das respectivas disciplinas dogmáticas. É por essa razão que falamos de
princípios gerais do Direito Constitucional, princípios gerais do Direito Administrativo, princípios gerais
do Direito Financeiro, princípios gerais do Direito Fiscal e Aduaneiro, princípios gerais do Direito
Criminal, princípios Gerais do Direito Civil, princípios gerais do Direito Comercial, princípios gerais do
Direito do Trabalho, princípios gerais do Direito Bancário, e muito mais.

O Direito Bancário é parte do Direito Privado, pelo que os seus princípios integram-se nos do Direito
Privado. Os princípios gerais do Direito Privado são os seguintes: i) o da universalidade ou da igualdade
de todos perante a lei; ii) o da igualdade do género; iii) o da legalidade dos actos das pessoas como
condição da sua validade; iv) o da autonomia privada; v) o da boa-fé ou colaboração intersubjectiva; vi) o
do não enriquecimento indevido; vii) o da pontualidade; viii) o da proibição da onerosidade excessiva nas
relações contratuais; ix) o da responsabilidade civil ou do ressarcimento de danos e x) o da
responsabilidade patrimonial.

Dentre estes princípios gerais do Direito Privado, os que relevam mais para o Direito Bancário como sua
fonte são o da autonomia privada107, o da boa-fé ou colaboração intersubjectiva108, o do não
enriquecimento indevido ou da repetição ou restituição do indevido109, o da responsabilidade civil,
ressarcimento ou imputação de danos110 e o da responsabilidade patrimonial111.

103
Cfr. art. 35º da CRM de 2004.
104
Cfr. art. 36º da CRM de 2004.
105
Cfr. nº 2 do art. 60º da referida CRM de 2004.
106
Cfr. art. …º CRM.
107
Cfr. art. …º CC.
108
Cfr. art. 227º CC.
109
Cfr. art. 473º CC.
110
Cfr. art. 4º a 481º CC.
111
Cfr. art. 601º CC.
52
Em Direito Bancário, estes e outros princípios gerais não expressamente referidos neste estudo são fontes
porque são enunciações normativas de valor genérico, que condicionam a compreensão do subsistema
normativo jurídico-bancárias, quer para a aplicação das suas normas e integração das suas lacunas, quer
para a reforma legislativa e elaboração de novas normas jurídico-bancárias. Portanto, estes princípios
cobrem, como dissemos, tanto o campo da pesquisa pura do Direito Bancário, como o da reforma e o da
sua actualização legislativa.

Para além das fontes estudadas, são de considerar também os Códigos de Conduta e os Avisos do Banco
de Moçambique, que em sede própria serão objecto de tratamento especializado.

Em qualquer país, as fontes do Direito local têm uma certa hierarquia. Terminado o estudo das fontes do
Direito Bancário, há que abordar a problemática dessa hierarquia, a partir da qual se constitui a respectiva
pirâmide. Vejamos a seguir como se apresenta essa pirâmide no nosso caso.

3.13. Hierarquia ou Pirâmide Nacional das Fontes do Direito Bancário


Moçambique não é e nem podia ser excepção quanto à hierarquização das fontes do seu Direito. Significa
isso que o Direito Bancário moçambicano possui a sua própria pirâmide das fontes 112, que apresenta a
sistemática que se segue. Temos assim: i) a Constituição de 2004; ii) o Código Comercial de 2005; iii) o
Código Civil de 1966; iv) a Legislação avulsa ou extravagante contendo matéria bancária; v) os Tratados
Internacionais contendo matéria bancária; vi) a Jurisprudência na forma de assentos; vii) a Doutrina; viii)
os Princípios Gerais do Direito e ix) outras fontes, quais sejam, os Códigos de Conduta e os Avisos do
Banco de Moçambique.

A Constituição de 2004 é o topo da pirâmide nacional das fontes do Direito e, por conseguinte, das do
Direito Bancário. Como Lei Fundamental do país, contém os princípios maiores com que as normas
jurídico-bancárias – e não só –, se devem conformar, em razão da sua força jurídica máxima, daí que se
qualifica como fonte primeira do Direito Bancário.

O Código Comercial contém o principal acervo normativo aplicável às relações jurídico-comerciais, de


que as bancárias são uma sub-espécie, mas estas últimas têm a sua legislação mais específica.

O Código Civil de 1966 contém o acervo normativo de aplicação subsidiária às relações jurídico-
bancárias.

Por sua vez, a Legislação Avulsa ou Extravagante, portanto, aquela que não está codificada, é fonte do
Direito Bancário desde que verse sobre matéria bancária ou seja, desde que contenha disposições que
relevem para o Direito Bancário.

112
Da hierarquia das fontes do Direito Bancário, excluímos o costume, por entendermos que ele não o é e substituímo-lo pelos usos bancários.
53
Os Tratados Internacionais ingressam na nossa Ordem Jurídica uma vez ratificados pelos órgãos
competentes do Estado moçambicano e tornam-se fontes do Direito Bancário desde que contenham
normas jurídico-bancárias.

Diferentemente das anteriores, a Jurisprudência só serve de fonte do Direito Bancário quando se


apresenta na forma de assentos e se contiver conteúdo financeiro porque tem força obrigatória geral, tem
valor normativo ou força de lei.

A Doutrina, uma vez constituída pelos pareceres e opiniões dos estudiosos do Direito, só se torna fonte
do Direito Bancário, quando ela versar sobre matéria financeira e o legislador a acolher, aproveitando-a
para a produção de novas normas jurídico-bancárias.

Os Princípios Gerais do Direito, finalmente, são enunciações normativas de valor genérico que
condicionam e orientam a compreensão do subsistema normativo jurídico-bancário. Eles apresentam-se
como enunciados lógicos admitidos como condição de validade das demais asserções e, como tal,
constituem linhas de força do nosso sistema jurídico, justificando-se, por isso serem qualificados como
fontes do Direito Bancário, no caso vertente.

54
CAPÍTULO II
DIREITO BANCÁRIO INSTITUCIONAL
2.1. Noção
Para identificar a natureza das normas jurídicas do Direito Bancário é preciso partir da análise do seu
objecto de regulação. Procedendo desse modo, constatamos que o Direito Bancário cruza o hemisfério do
Direito Público e o do Privado porque compreende as normas relativas à composição, organização e tutela
(orientação, coordenação e supervisão) do sistema financeiro, bem como as relativas à criação, à
organização, à modificação, à transformação, à liquidação e à extinção das instituições financeiras.

Na verdade, analisando cada uma das normas do Direito Bancário, constata-se que todas elas têm um
determinado conteúdo, como adiante se demonstra: i) algumas normas jurídicas caracterizam as
entidades que integram o sistema financeiro, designadamente o Ministério da Economia e Finanças, o
Banco de Moçambique, as instituições de crédito e as sociedades financeiras; ii) algumas outras regulam a
criação, a organização, a transformação, a liquidação e a extinção das instituições financeiras; iii)
outras ainda tutelam o sistema ou seja regulam a orientação, a coordenação e a supervisão das
instituições de crédito e sociedades financeiras; iv) finalmente, algumas normas jurídicas são relativas à
tipificação das infracções bancárias e ao seu sancionamento.

Todas estas espécies de normas constituem o Direito Bancário Institucional na medida em que ocupam-se
da organização do sistema financeiro. Neste caso, o Direito Bancário fixa a tipologia das instituições
financeiras e as condições de acesso à sua actividade, além de regular a supervisão bancária. Portanto, a
missão do Direito Bancário Institucional é organizar e disciplinar o sistema financeiro.

2.2. Função ou papel


Embora historicamente o Direito Bancário tenha surgido primeiro como parte do Direito Comercial, a
crescente importância do dinheiro na economia mundial conduziu à formação, em cada país, de
instituições financeiras de carácter público que se encarregam de: i) fixar as condições de acesso à
actividade bancária; ii) regular a constituição das outras instituições financeiras especializadas no
tratamento do dinheiro; iii) disciplinar a supervisão e fiscalização dessas outras instituições e iv) tipificar
as infracções e fixar as sanções conexas.

Foi a formação destas instituições financeiras que deu lugar ao surgimento de um conjunto de regras
encarregues da sua disciplina, as quais passaram a constituir esta vertente institucional do Direito
Bancário.

55
O Direito Bancário Institucional é, pois, o subsistema de normas jurídicas que regula a organização e a
disciplina jurídica do sistema financeiro, quer dizer a organização, a direcção e a coordenação das
instituições especializadas no tratamento de dinheiro.

Assim sendo, entende-se que o primeiro tema a estudar seja o âmbito do Direito Bancário Institucional e
depois, o sistema financeiro, pelo que vamos daí começar.

Assim, o âmbito do Direito Bancário Institucional compreende: i) a Lei Orgânica do Banco Central; ii) a
Lei Bancária Nacional; iii) a Lei Cambial; iv) Direitos instrumentais e acessórios; v) Regras de registo; vi)
Regras contra-ordenacionais e vii) Avisos.

Para além das normas acima analisadas que formam o Direito Bancário Institucional, há outras relativas
ao funcionamento das instituições de crédito, como sejam as de liquidez, reserva, riscos e limites de
produções e outras que regulam o relacionamento entre as instituições de crédito e as sociedades
financeiras, bem como entre todas estas e os seus clientes, no âmbito das actividades financeiras
estritamente consideradas.

Diferentemente das anteriores, estas formam o Direito Bancário Material, na medida em que ocupam-se
da regulação da actividade das instituições de crédito e das sociedades financeiras, disciplinando
concretamente as relações entre: i) as instituições de crédito entre si; ii) estas e as sociedades financeiras;
iii) as sociedades financeiras entre si; iv) as instituições de crédito e os seus clientes e v) as sociedades
financeiras e os seus clientes.

Ao segmento do Direito Bancário encarregue de disciplinas as relações inter-bancárias e as relações entre


a banca e os particulares ou seja, o Direito encarregue da regulação da actividade das instituições de
crédito e das sociedades financeiras, se designa por Direito Bancário Material. Portanto, a tarefa do
Direito Bancário nesta área é harmonizar as relações inter-instituicionais e as relações entre estas e os seus
clientes, no âmbito da actividade bancária.

Portanto, para além da componente institucional, compreende as normas jurídicas relativas ao


funcionamento das instituições financeiras, ao exercício da actividade financeira estritamente considerada
e ao relacionamento entre as instituições financeiras e os seus clientes, as quais formam a componente
material.

Resulta do exposto que o Direito Bancário apresenta uma natureza híbrida, porque contém uma vertente
de natureza pública e outra de natureza privada. A sua vertente pública denomina-se Direito Bancário
Institucional e a sua vertente de natureza privada denomina-se Direito Bancário Material.

56
2.3. Do Sistema Financeiro
2.3.1. Ideia geral
A elaboração de considerações mais aprofundadas do sistema financeiro pressupõe, antes de mais, que
clarifiquemos o conceito filosófico de sistema.

Por sistema entende-se o conjunto de elementos materiais ou espirituais unidos em volta de um princípio
ou fim, no qual se possa encontrar uma relação.

Sistema ocorre, portanto113, quando há proposições ordenadas em função dos pontos de vista unitários.
Assim entendido, o conceito de sistema é aplicável à própria Natureza e também à Sociedade.

A Ordem Natural, como Ordem da necessidade, é um sistema. Entretanto, dentro da Natureza existem
vários outros sistemas.

A Ordem Social, apesar de ser uma Ordem da liberdade, é também um sistema e igualmente, dentro dela
existem vários outros sistemas. Particularmente neste mundo social, encontramos o sistema económico.
Em paralelo com este, temos os sistemas político, ideológico, jurídico, cultural e religioso, por exemplo.

Dentro do sistema económico, – que é o que nos interessa no presente estudo –, temos os sistemas
monetário, financeiro, tributário e outros. Assim, podemos concluir que a expressão “sistema” é dotada de
uma pluralidade de sentidos, dependendo dos adjectivos que lhe forem apostos o sentido exacto que
assume em cada caso concreto.

No âmbito do Direito Bancário, o objectivo que temos em vista é o sistema financeiro, pelo que é dele que
nos vamos ocupar, abstraindo-nos de todos os outros. O conceito de sistema financeiro pode ser entendido
em sentido formal e em sentido material.

Em sentido formal ou dogmático, por sistema financeiro se deve entender o conjunto ordenado das
entidades que um Estado entende incluir nesta noção de sistema financeiro, porque se ocupam do
tratamento do dinheiro.

Em sentido material, sistema financeiro é o conjunto ordenado de bancos ou entidades similares


especializadas no tratamento do dinheiro ou seja, instituições que asseguram a canalização de poupanças
para o investimento. Portanto e em síntese, sistema financeiro é o segmento do sistema económico
constituído por instituições financeiras, – públicas e privadas –, que têm a responsabilidade de assegurar a
canalização dos recursos para o investimento e para o desenvolvimento equilibrado de um país. Tais
instituições são: i) os Bancos em sentido restrito; ii) outras instituições de crédito; iii) as sociedades
financeiras e iv) as normas relativas à actividade financeira latamente entendida.
113
Na acepção kantiana divulgada por Canaris, in Pensamento Sistemático e Conceito de Sistema na Ciência do Direito ,
Introdução e tradução de MENEZES CORDEIRO, 2ª ed., 1996, pp. 25 e ss, 103 e ss e 127 e ss.
57
Em suma, o sistema financeiro abrange todas as normas e as instituições que asseguram o funcionamento
dos mercados monetário, financeiro e cambial, num país.

Entende-se por mercado monetário o segmento do mercado do Metical no qual as instituições


autorizadas trocam fundos representados por saldos das suas contas de depósitos à ordem no BM ou
valores mobiliários desmaterializados inscritos em contas-título neste mesmo Banco, com a finalidade de
equilibrar os excedentes e necessidades de moeda entre as instituições de crédito114.

Entende-se por mercado financeiro o ponto de encontro entre a procura e a oferta de produtos
financeiros, quer sejam os de curto prazo quer sejam os de capitais que são, em regra de médio e longo
prazo. É no mercado financeiro onde todos os aforradores ou investidores procuram encontrar formas de
investimento que os satisfaça, sejam quais forem os volumes que pretendem aplicar, os prazos por que
querem investir ou os riscos que estão dispostos a correr.

Entende-se por mercado cambial o segmento de mercado em que fazem parte as instituições de Crédito
ou entidades convidadas e/ou autorizadas pelo BM, onde se realizam operações de compra e venda de
moeda externa. Estas transacções não são presenciais ou seja, os operadores autorizados realizarem entre
si transacções de compra e venda de moeda estrangeira em sessões por via electrónica115.

2.3.2. Características de um sistema financeiro


Como parte do sistema económico, o sistema financeiro apresenta determinadas características. Há, assim,
umas caraterísticas de ordem geral e outras de ordem particular que fixam a fisionomia do sistema
financeiro de qualquer país. As de ordem geral são a dignidade constitucional e a natureza intermediária.
Relevam também nesta perspectiva, a internacionalização, a desintermediação financeira, a inovação, a
universalização, a desregulamentação, a liberalização, a titularização e a concorrência.

A dignidade constitucional de um sistema financeiro consiste no facto de o texto constitucional dos


Estados consagrar expressamente as principais normas do seu sistema financeiro, sendo no nosso caso os
arts. 126º e 127º116.

A natureza intermediária de um sistema financeiro consiste no facto de esse sistema financeiro


assegurar a transferência dos fundos dos que poupam para os que investem, intermediando assim entre os
agentes económicos que são as famílias, as pessoas, as empresas e o próprio Estado.

Quanto às características específicas, o sistema financeiro apresenta apenas dois em cada país, quais
sejam, a respectiva estrutura e o sistema de supervisão.

114
Sobre o mercado monetário, maiores desenvolvimentos no estudo do Banco de Moçambique enquanto orientador e controlador da política monetária.
115
Sobre o mercado cambial, maiores desenvolvimentos no estudo do Banco de Moçambique enquanto orientador e controlador da política cambial.
116
Sobre o sistema financeiro moçambicano, maiores desenvolvimentos em manuais de Finanças Públicas e Direito Financeiro.
58
A estrutura de um sistema financeiro varia de país para país, em função da actividade económica de cada
Estado. O esforço de investimento, a pretensão de melhorar a eficácia e a qualidade dos serviços, bem
como a elevação da concorrência entre as instituições, são alguns dos factores que determinam a estrutura
do sistema financeiro de cada Estado.

O sistema de supervisão, como processo de acompanhamento e controlo do cumprimento da


regularização, varia também no modo, na extensão e na periodicidade, de país para país, porque é
determinado pelas políticas económicas dos Estados.

Concluído o estudo das características, segue o da composição do sistema financeiro.

2.3.3. Composição do sistema financeiro


O sistema financeiro de cada Estado difere do dos outros do ponto de vista estrutural mas confunde-se
com eles do ponto de vista da respectiva composição, pois, apresenta três tipos de instituições, quais sejam
as instituições tutelares, as instituições financeiras propriamente ditas e as instituições auxiliares.

As instituições tutelares têm poderes de regulação, direcção, disciplina e fiscalização das demais
instituições e dos respectivos mercados monetário, cambial e financeiro.

As instituições financeiras propriamente ditas são as indicadas nas leis bancárias de cada Estado, de
forma taxativa. Significa isso que a tipologia dessas instituições não é igual nos diferentes Estados.

As instituições auxiliares não desempenham funções de organização, coordenação e tutela do sistema


nem de agentes ou operadores financeiros ligados ao exercício da actividade bancária ou financeira, são
meras intermediárias, com a função de tornar mais eficiente ou seguro o exercício das atribuições das
outras instituições, do que resulta ser acessório o seu objecto. A sua tipologia é variável em função do
grau desenvolvimento de cada país e do respectivo sistema financeiro.

2.3.4. Noção de sistema financeiro moçambicano


Partindo destas noções gerais, podemos abordar o sistema financeiro moçambicano, fixando a sua noção
e a sua estrutura. Embora o nosso sistema financeiro tenha dignidade constitucional, a nossa Constituição
não o define. Na falta da noção constitucional moçambicana de sistema financeiro, só é possível a
construir com recurso à doutrina e ao Direito Comparado.

Sabido que a matéria do sistema financeiro tem dignidade constitucional, o nosso ponto de partida para a
delimitação do conceito de sistema financeiro moçambicano é a Constituição de Moçambique.

Assim, do ponto de vista doutrinário, podemos entender por sistema financeiro moçambicano o conjunto
das instituições que actuam nos mercados monetário, financeiro e cambial nacionais, desenvolvendo

59
actividades relativas ao crédito e/ou à intermediação em valores mobiliários ou quaisquer outras
actividades com elas conexas. Estas instituições estão ordenadas e submetidas ao mesmo regime jurídico,
e visam realizar a função social de intermediação de fundos disponíveis entre os detentores destes e os que
deles necessitam, no quadro da política definida pelo Governo moçambicano e executada pelo Banco de
Moçambique.

Formação e evolução
A evolução do sistema financeiro moçambicano pode ser periodizada de modo seguinte: i) o período
colonial de 1877 a 1960; ii) de 1960 a 1975 e iii) de 1975 em diante.

O período colonial de 1877 a 1960 caracterizou-se: i) pelo início da actividade do Banco Nacional
Ultramarino em Moçambique; ii) pela abertura de espaço para operação de bancos estrangeiros, daí que
veio em Lourenço Marques um Banco sul-africano, o “African Banking Corporation e o Standard Bank” e
iii) pelo surgimento de caixas económicas e caixas de crédito.

Diferentemente, no período ainda colonial compreendido entre 1960 e 1975, operou-se uma verdadeira
reestruturação do sector financeiro, pois, houve: i) alargamento da actividade comercial bancária; ii)
criação do Instituto de crédito de Moçambique; iii) criação do Banco de Fomento e iv) o Banco Nacional
Ultramarino continuou Banco Emissor e Tesouro do Estado (D-L n.º 652996, de 1963).

Assim, à data da independência, existiam em Moçambique as seguintes instituições bancárias: i) o Fundo


Bancário; ii) o Banco Standard Totta de Moçambique; iii) o Instituto de Crédito e iv) o Banco Comercial
de Angola.

Como se vê, predominavam bancos privados, porque o sistema económico assentava na propriedade
privada.

Em 1975 em diante, a constituição do sistema financeiro moçambicano começou verdadeiramente com o


Dec. n.º 2/75, que criou o Banco de Moçambique e veio a ter seguimento com a reestruturação da Banca
em 1977, através da Lei n.º 5/77 que, determinou a cessação das actividades das casas bancárias, dos
departamentos do banco de crédito, das caixas económicas, do BCA, sendo integradas no Banco de
Moçambique.

Seguiu-se-lhe a Lei n.º 6/77, que criou o Banco Popular de Desenvolvimento a partir dos activos e
passivos do Instituto de Crédito.

O sistema bancário moçambicano ficou assim reduzido ao Banco de Moçambique como Banco Central e
Comercial, ao Banco Popular de Desenvolvimento e ao Banco Standard Totta de Moçambique, que eram
também, como aquele, bancos comerciais.
60
A convergência de factores de ordem política, económica e social, no plano interno e externo ditou a
necessidade de reforma global de toda a economia. Assim: i) foi concebido o PRES e implementado a
partir de 1987, contendo elementos de peso para a reintrodução da economia de mercado; ii) veio a
Constituição de 1990 proclamar formalmente a reintrodução da economia de mercado; iii) foi aprovada
em 1991 a Lei n.º 28/91, de 31 de Dezembro, que era a Lei das Instituições de Crédito, que deu lugar à
reprivatização da Banca estatal e à proliferação de outros novos bancos privados; iv) foi aprovada a Lei n.º
1/92, de 3 de Janeiro, que pós em vigor a nova Lei Orgânica do Banco de Moçambique; v) foi neste
âmbito que a função comercial do Banco de Moçambique se autonomizou, passando a constituir um banco
separado, o Banco Comercial de Moçambique; vi) foi aberta a Sucursal do Banco de Fomento; vii) foi
criado o Banco Comercial Internacional; viii) foi criado o Banco Mercantil e de Investimentos, que
posteriormente passou a designar-se “Nosso Banco” até à sua extinção; ix) foi aprovada a Lei n.º 3/96, de
4 de Janeiro, Lei Cambial; x) foi aprovada a Lei n.º 15/99, de 1 de Novembro, que regula o
estabelecimento e o exercício da actividade das instituições de crédito e sociedades financeiras, e por força
desta revogada a Lei n.º 28/91, de 31 de Dezembro; xi) foi aprovado o Regulamento da Lei n.º 15/99 e xii)
a dinâmica do desenvolvimento conduziu à reforma da Lei n.º 15/99, de 1 de Novembro, o que foi feito
através da Lei n.º 9/2004, de 21 de Julho.

Actualmente o sistema financeiro moçambicano é regido pelo seguinte quadro normativo: i) a


Constituição; ii) a Lei Orgânica do Banco de Moçambique; iii) os regulamentos aprovados no âmbito da
aplicação da LOBM; iv) as normas internacionais aplicáveis ao Banco Central, a que a República de
Moçambique aderiu; v) a Lei Bancária moçambicana, que abrange as alterações introduzidas pela Lei nº
9/2004, de 21 de Julho e vi) a Lei Cambial.

Uma viagem histórica pelo tecido constitucional moçambicano desde 1975, permite-nos constatar o
seguinte: i) a Constituição de 1975 não tinha qualquer referência ao sistema financeiro; ii) a Constituição
de 1990 consagrava no seu art. 50, o princípio da legalidade dos impostos, – que é um aspecto ligado ao
sistema financeiro –, e para além disso, não continha nenhum outro preceito que referisse, ainda que de
forma indirecta, ao sistema financeiro e iii) a Constituição de 2004 prescreve no seu art. 126 que o
sistema financeiro está organizado de forma a garantir a formação, captação e segurança das poupanças,
bem como a aplicação dos meios financeiros ao desenvolvimento do país. Consagra ainda no seu art. 127
o conceito e o papel do sistema financeiro.

61
2.4. Banco de Moçambique
2.4.1. Da Criação
O Banco de Moçambique, daqui em diante tratado abreviadamente por BM, foi criado a 17 de Maio de
1975, através do Dec. n.º 2/75, como materialização dos entendimentos alcançados entre a Frente de
Libertação de Moçambique (FRELIMO) e o Estado Português, que se consubstanciaram no Acordo de
Lusaka117, para a Independência de Moçambique, tendo este Banco herdado o activo e o passivo do
Departamento de Moçambique do Banco Nacional Ultramarino.

117
O Acordo de Lusaka foi assinado a 7 de Setembro de 1974, e por força do mesmo Portugal reconheceu o direito de Moçambique e do seu povo à
independência e transferiu os respectivos poderes de representação para a FRELIMO, o então braço político e armado deste povo. O texto integral do aludido
Acordo, que pode ser encontrado no Diário do Governo (Portugal) nº 210, I Série, publicado a 9 de Setembro de 1974, é o seguinte: “ Reunidas em Lusaka
de 5 a 7 de Setembro de 1974, as delegações da Frente de Libertação de Moçambique e do Estado Português, com vista ao estabelecimento do
acordo conducente à independência de Moçambique, acordaram nos seguintes pontos: 1. O Estado Português, tendo reconhecido o direito do povo
de Moçambique à independência, aceita por acordo com a FRELIMO a transferência progressiva dos poderes que detém sobre o território, nos
termos a seguir enunciados. 2. A independência t o t a l e completa de Moçambique será solenemente proclamada em 25 de Junho de 1975,
dia do aniversário da fundação da FRELIMO. 3. Com vista a assegurar a referida transferência de poderes, são criadas as seguintes estruturas
governativas, que funcionarão durante o período de transição que se inicia com a assinatura do presente Acordo: a) Um Alto-Comissário de
nomeação do Presidente da República Portuguesa; b) Um Governo de Transição nomeado por acordo entre a Frente de Libertação de
Moçambique e o Estado Português; c) Uma Comissão Militar Mista nomeada por acordo entre o Estado Português e a Frente de Libertação de
Moçambique. 4. Ao Alto-Comissário, em representação da soberania portuguesa, compete: a) Representar o Presidente da República Portuguesa e
o Governo Português; b) Assegurar a integridade territorial de Moçambique; c) Promulgar os decretos-lei aprovados pelo Governo de Transição e
ratificar os actos que envolvam responsabilidade directa para o Estado Português; d) Assegurar o cumprimento dos acordos celebrados entre o
Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique e o respeito das garantias mutuamente dadas, nomeadamente as consignadas na
Declaração Universal dos Direitos do Homem; e) Dinamizar o processo de descolonização. 5. Ao Governo de Transição caberá promover a
transferência progressiva de poderes a todos os níveis e a preparação da independência de Moçambique. Compete-lhe, nomeadamente: a) O
exercício das funções legislativa e executiva relativas ao território de Moçambique. A função legislativa será exercida por meio de decretos-lei; b) A
administração geral do território até à proclamação da independência e a reestruturação dos respectivos quadros; c) A defesa e salvaguarda da
ordem pública e da segurança das pessoas e bens; d) A execução dos acordos entre a Frente de Libertação de Moçambique e o Estado
Português; e) A gestão económica e financeira do território, estabelecendo nomeadamente as estruturas e os mecanismos de contrôle que con tribuam
para o desenvolvimento de uma economia moçambicana independente; f) A garantia do princípio da não discriminação racial, étnica, religiosa ou com
base no sexo; g) A reestruturação da organização judiciária do território. 6. O Governo de Transição será constituído por: a) Um Primeiro-
Ministro nomeado pela Frente de Libertação de Moçambique, a quem compete coordenar a acção do governo e representá-lo; b) Nove Ministros,
repartidos pelas seguin tes pastas: Administração Interna; Justiça; Coordenação Económica; Informação; Educação e Cultura; Comunicações e
Transportes; Saúde e Assuntos Sociais; Trabal ho; Obras Públicas e Habitação; c) Secretários e Subsecretários a criar e nomear sob proposta
do Primeiro-Ministro, por deliberação do Governo de Transição, ratificada pelo Al to-Comissário; d) O Governo de Transição definirá a repartição
da respectiva competência pelos Ministros, Secretários e Subsecretários. 7. Tendo cm conta o carácter transitório desta fase da acção governativa, os
Ministros serão nomeados pela Frente de Libertação de Moçambique e pelo Alto-Comissário na proporção de dois terços e um terço respectivamente.
8. A Comissão Militar Mista será constituída por igual número de representantes das Forças Armadas do Estado Português e da Frente de
Libertação de Moçambique e terá como missão principal o contrôle da execução do acordo de cessar-fogo. 9. A Frente de Libertação de Moçambique
e o Estado Português, pelo presente instrumento, acordam em cessar-fogo às zero horas do dia 8 de Setembro de 1974 (hora de Moçambique) nos termos
do protocolo anexo. 10. Em caso de grave perturbação da ordem pública, que requeira a intervenção das Forças Armadas, o comando e coordenação
serão assegurados pelo AltoComiisisá1rio, assistido pelo Primeiro-Ministro, de quem dependem directamente as Forças Armadas da Frente de Libertação de
Moçambique. 11. O Governo de Transição criará um corpo de polícia encarregado de assegurar a manutenção da ordem e a segurança das
pessoas. Até à entrada em funcionamento desse corpo, o comando das forças policiais actual mente existentes dependerá do Alto-comissário, de
acordo com a orientação geral definida pelo Governo de Transição. 12. O Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique
comprometem-se a agir conjuntamente em defesa da integridade do território de Moçambique contra qualquer agressão. 13. A Frente de
Libertação de Moçambique e o Estado Português afirmam solenemente o seu propósito de estabelecer e desenvolver laços de amizade e
cooperação construtiva entre os respectivos povos, nomeadamente nos domínios cultural, técnico, eco nómico e financeiro, numa base de
independência, igualdade, comunhão de interesses e respeito da personalidade de cada povo. Para o efeito, serão constituídas durante o período de
transição comissões especializadas mistas e ulteriormente celebrados os pertinentes acordos. 14. A Frente de Libertação de Moçambique declara-se
disposta a aceitar a responsabilidade decorrente dos compromissos financeiros assumidos pelo Estado Português em nome de Moçambique desde que
tenham sido assumidos no efectivo interesse deste território. 15. O Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique comprometem-se a agir
concertadamente para eliminar todas as sequelas de colonialismo e criar u ma verdadeira harmonia racial. A este propósito, a Frente de Libertação de
Moçambique reafirma a sua política de não discriminação, segundo a qual a qualidade de moçambicano não se define pela cor da pele mas pela
identificação voluntária com as aspirações da Nação Moçambicana. Por outro lado, acordos especiais regularão, n uma base de reciprocidade, o
estatuto dos cidadãos portugueses residentes em Moçambique e dos cidadãos moçambicanos residentes em Portugal. 16. A fim de assegurar ao Governo
de Transição meios de real izar u ma política financeira independente, será criado em Moçambique um Banco Central, que terá também funções de
banco emissor. Para a realização desse objectivo, o Estado Português compromete-se a transferir para aquele Banco as atribuições, o activo e o passivo
do departamento de Moçambique do Banco Nacional Ultramarino. Uma comissão mista entrará imediatamente em funções, a fim de estudar as
condições dessa transferência. 17. O Governo de Transição procurará obter junto de organizações internacionais ou no quadro de relações
bilaterais, a ajuda necessária ao desenvolvimento de Moçambique, nomeadamente a solução dos seus problemas urgentes. 18. O
Estado Moçambicano independente exercerá integralmente a soberania plena e completa no plano interior e exterior, estabelecendo
as instituições políticas e escolhendo livremente o regi me político e social que considerar mais adequado aos interesses do seu povo.
19. O Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique felicitam-se pela conclusão do presente Acordo, que, com o fim da
guerra e o restabelecimento da paz com vista à independência de Moçambique, abre uma nova página na história das relações entre os
dois países e povos. A Frente de Libertação de Moçambique, que no seu combate sempre soube distinguir o deposto regime colonialista do
62
Para além de criar o BM, este Decreto aprovou a primeira Lei Orgânica deste Banco, no âmbito da qual o
mesmo foi definido como Banco Central e Comercial de Moçambique118_119.

De Maio de 1975 a Janeiro de 1992, o BM operou como árbitro e jogador ao mesmo tempo, no nosso
sistema financeiro, porque era Banco Central e Comercial, o que dificultava o seu funcionamento.

O processo de liberalização da economia moçambicana levou à reforma do sistema financeiro nacional,


que teve o seu ponto mais alto na separação das funções de Banco Central das de Banco Comercial. Esta
separação foi concretizada em 1992, com a aprovação da Lei nº 1/92, de 3 de Janeiro, actual Lei Orgânica
do Banco.

A função comercial passou para uma nova entidade, o então Banco Comercial de Moçambique, criado
através do Dec. nº 3/92, de 25 de Fevereiro. Significa isso que a partir de Fevereiro de 1992, a função
comercial do BM autonomizou-se porque passou a constituir um novo Banco, o Banco Comercial de
Moçambique, entretanto agora extinto120. Assim, desde a entrada em vigor da Lei nº 1/92, de 3 de Janeiro,
o BM passou a exercer exclusivamente as funções de Banco Central.

povo português, e o Estado Português desenvolverão os seus esforços a fim de lançar as bas.es de uma cooperação fecunda, fraterna e
harmoniosa entre Portugal e Moçambique. Pela Frente de Libertação de Moçambique: Samora Moisés Machel (Presidente). Pelo Estado
Português: Ernesto Augusto M elo Antunes (Ministro sem Pasta). Mário Soares (Ministro dos Negócios Estrangeiros). António de Almeida
Santos (Ministro da Coordenação Interterritorial). Victor Manuel Trigueiros Crespo (Conselheiro de Estado). Antero Sobral (Secretário do
Trabalho e Segurança Social do Governo Provisório de Moçambique). Nuno Alexandre Lousada (Tenente-Coronel de Infantaria). Vasco
Fernando Leote de Almeida e Costa (Capitão-Tenente da Armada). Luís António de M oura Casanova Ferreira (Major de Infantaria). Aprovado,
depois de ouvidos a Junta de Salvação Nacional, o Conselho de Estado e o Governo Provisório, nos termos do artigo 3.º da Lei1n.º 7/74,
de 27 de Julho. 9 de Setembro de 1974. Publique-se. O Presidente da República, ANTÓNIO DE SPÍNOLA.”
118
O texto integral do aludido Decreto é o seguinte: “A proximidade da data da Independência Nacional e o processo de descolonização em curso impõem a
criação em Moçambique, desde já, de um banco central e emissor que também desempenhará, além de outras, as funções de banco comercial. A sua função
principal será a de criar e manter uma solida estrutura e estabilidade monetária interna, bem como as necessárias reservas de meios de pagamento externos,
e a de permitir, ao mesmo tempo, mercê de uma política dinamizadora e disciplinadora do crédito, o máximo grau de aproveitamento dos recursos reais do
território e da comunidade nacionais. Teve-se a preocupação, ao elaborar a infra-estrutura jurídica do novo Banco, de lhe conferir maleabilidade e
capacidade de adaptação à conjuntura e às circunstâncias e realidades com que, porventura, se venha a deparar, reservando-se a regulamentação de não
poucos aspectos da sua estruturação, formas e modalidades de actuação ou condições de funcionamento para legislação avulsa a promulgar oportunamente.
Nestes ternos, e de acordo com o disposto no Decreto-Lei n.º 53/75, de 14 de Maio, o Governo de Transição decreta: Artigo 1.º É criado o banco central,
emissor e comercial denominado Banco de Moçambique, adiante designado por «Banco» e aprovada a sua Lei Orgânica, que faz parte integrante deste
diploma e entra imediatamente em vigor. Art. 2.º - 1. A Lei Orgânica será obrigatoriamente revista até 31 de Dezembro de 1976. 2. As modificações parciais e
avulsas que de futuro se fizerem sobre a matéria contida na Lei Orgânica serão consideradas como fazendo parte dela e inseridas no lugar próprio, devendo
ser sempre efectuadas por meio de substituição dos artigos alterados, supressão dos artigos inúteis ou aditamento dos que forem necessários. Art. 3.º Até final
do ano de 1978, pelo menos metade da importância que atingirem os lucros líquidos de cada exercício será destinada à constituição e reforço das reservas
que, sob proposta da Administração do Banco, o Governo determinar. Art. 4.º As operações efectuadas até à sua extinção pelo Departamento de Moçambique
do Banco Nacional Ultramarino continuarão a reger-se pelos seus títulos constitutivos, sem prejuízo das modificações de ordem processual e administrativa
determinadas pela Administração do Banco. Art. 5.º Os registos provisórios e definitivos efectuados em nome do Departamento de Moçambique do Banco
Nacional Ultramarino serão averbados oficiosamente pelos competentes conservadores após a extinção daquele Departamento em nome do Banco de
Moçambique. Art. 6.º - 1. O Banco pode remeter à competente conservatória do registo predial os requerimentos, acompanhados dos necessários documentos,
em que solicite a prática de quaisquer actos de registo ou a passagem de certidões respeitantes aos mesmos actos. 2. Recebido o requerimento, o conservador
fará a apresentação deste no «Diário» no início do período de serviço imediato ao da recepção e independentemente de preparo. 3. Efectuado o registo ou
passada a certidão, o conservador enviará os documentos ao Banco, juntando nota dos emolumentos e despesas, que a Administração do Banco mandará
satisfazer. Art. 7.º As disposições da Lei Orgânica poderão ser aplicadas retroactivamente, mediante deliberação da Administração do Banco, desde que não
resulte dessa aplicação ofensa de direitos legitimamente adquiridos. Art. 8.º Enquanto não forem nomeados administradores que hão-de constituir o Conselho
de Administração, o Governo do banco exercerá a competência atribuída ao mesmo Conselho. Visto e aprovado em Conselho de Ministros. – Joaquim Alberto
Chissano – Armando Emilio Guebuza – Rui Baltasar dos Santos Alves – Mário Fernandes da Graça – António Joaquim Paulino – Eugénio Baptista de
Figueiredo Picolo – Luís Maria Alcântara Santos – Graça Simbine – José Luís de Oliveira Cabaço – Jorge Mabay Tembe – Salomão Munguambe – Júlio
Eduardo Zamith Carrilho – Samuel Rodrigues Dlhakama. Publique-se. O Primeiro-Ministro, Joaquim Alberto Chissano.”
119
O texto integral da primeira LOBM constitui o Anexo I desta publicação.
120
A expurgação da função comercial das atribuições do BM operou-se com a entrada em vigor da Lei nº 1/92 de 3 de Janeiro, mas a sua autonomização e
conversão em Novo Banco foi através do Dec. nº 13/92, de 25 de Fevereiro. O texto integral da Lei nº 1/92, de 3 de Janeiro e o do Dec. nº 13/92, de 25 de
Fevereiro, constituem, respectivamente, os Anexos II e III desta publicação.
63
A Lei Orgânica do BM é o principal instrumento jurídico pelo qual se rege toda a actividade desta
instituição. É esta Lei que define a natureza deste Banco, fixa as funções que ele exerce e define os
objectivos que persegue como Banco Central do país.

Mas, como é óbvio, esta Lei não é o único instrumento jurídico de que ele se rege, também rege-se pelos
princípios constitucionais e pelos regulamentos e avisos emitidos no âmbito da aplicação desta Lei e pelas
normas internacionais a que a República de Moçambique está vinculada e lhe são aplicáveis.

Em suma, o BM foi criado a 17 de Maio de 1975, através do Dec. n.º 2/75, como resultado da
implementação do Acordo de Lusaka, no quadro do processo de descolonização de Moçambique, rumo à
sua Independência.

O BM herdou o património do Departamento de Moçambique do Banco Nacional Ultramarino. No acto da


sua constituição foi definido como Banco Central e Comercial. Porém, o processo de liberalização da
nossa economia levou à reforma do nosso sistema financeiro e desta resultou a expurgação da função de
banco comercial, que passou a constituir uma nova instituição bancária, – o então Banco Comercial de
Moçambique –, criada através do Dec. n.º 3/92, de 25 de Fevereiro.

2.4.2. Da Natureza Jurídica


O Dec. nº 2/75, de 17 de Maio, além de ter criado o BM, aprovou a sua primeira Lei Orgânica,
determinando ainda a entrada desta em vigor. Esta Lei Orgânica definiu este Banco como “pessoa
colectiva de Direito Público, dotada de autonomia administrativa e financeira, com a natureza de
empresa pública”121.

Portanto, à face do Decreto em alusão, o BM tinha a natureza de empresa pública. A Lei nº 1/92, de 3 de
Janeiro, que aprovou a actual Lei Orgânica do BM, mantém esta qualificação de pessoa colectiva de
Direito Público, dotada de autonomia administrativa e financeira, com a natureza de empresa pública.
Significa isso que, à face desta nova Lei, o BM continua a ser pessoa colectiva de Direito Público, com
autonomia administrativa e financeira, bem como a natureza de empresa pública122.

Desta qualificação não se deve entender que o BM é uma empresa pública porque não é, mas tem com ela
alguma afinidade ou assemelhança de regime nalguns aspectos.

2.4.3. Do Direito aplicável


O BM é, nos termos do art. 132º da CRM, o Banco Central da Republica de Moçambique. Consagra ainda
esta Constituição que o BM rege-se por lei própria e pelas normas internacionais a que Moçambique está

121
Cfr. art. 1º da primeira LOBM, que é parte integrante do Dec. nº 2/75, de 17 de Maio.
122
Cfr. art. 1º nº 1 da Lei nº 1/92, de 3 de Janeiro.
64
vinculado e que lhe sejam aplicáveis. Essa lei própria é a sua Lei Orgânica, neste momento a Lei nº 1/92,
de 3 de Janeiro, a qual reproduz123 este princípio constitucional no nº 2 do seu art. 1º.

Para além da Lei Orgânica, o BM rege-se também pelos instrumentos 124 que se adoptam no âmbito da
aplicação desta lei e, ainda pela legislação internacional de natureza financeira ratificada pelo país125.

2.4.4. Do Âmbito territorial126


O BM tem cobertura nacional. A sua sede foi sempre e continua a ser a cidade do Maputo mas ele tem
representações na forma de Filiais na Maxixe, na Beira, em Nampula, em Pemba e em Lichinga, estando
em curso o processo de criação e entrada em funcionamento das Filiais de Xai-Xai e de Chimoio, facto
este que completará a representatividade desta instituição em todas as Províncias do País, à excepção da
de Maputo, que está sob o controlo da sede. Entende-se por Filial uma unidade orgânica que representa
um banco127 ao nível de uma província ou região.

As Filiais do BM têm uma grande importância no contexto da realização da sua missão e na concretização
dos seus objectivos enquanto Banco Central. Nas suas zonas de jurisdição, elas desempenham, entre
outras, funções como: i) receber depósitos do Estado e das instituições de crédito e das sociedades
financeiras; ii) efectuar pagamentos ao Estado e às instituições de crédito e sociedades financeiras; iii)
receber, escolher, contar e valorizar as notas e moedas de Metical; iv) recolher e destruir as notas de
Metical impróprias para a circulação e v) assegurar a troca física dos documentos compensáveis.

2.4.5. Da Missão e da Visão estratégica


Como sucede com qualquer outra instituição, o BM tem uma missão e uma visão estratégica para o
exercício das suas funções.

A missão do BM128, é a preservação do valor da moeda nacional através da tomada de medidas com vista a
manter uma inflacção baixa e estável. Significa isso que para além da preservação do valor da moeda
nacional, o BM tem como outra componente da sua missão a promoção de um sector financeiro sólido e
eficiente.

O que significa preservar o valor da moeda nacional? Significa manter baixo e sem grandes flutuações o
nível geral de preços no mercado doméstico e, ao mesmo tempo, tornar a moeda cada vez mais forte nas
operações cambiais, que são operações de troca de moedas.
123
Em sentido idêntico, o art. 79 da Lei nº 7/2012, de 8 de Fevereiro, que prescreve o seguinte: …
124
Os aludidos instrumentos jurídicos adoptados no âmbito da aplicação da LOBM, dentre os quais relevam os regulamentos e os Avisos, podem ser
encontrados no site www.bancomoc.mz do BM, cuja consulta é recomendada.
125
Dentre a legislação internacional acima aludida, releva a seguinte: …
126
Cfr. art. 3º nº 1 da primeira LOBM, que era parte integrante do Dec. nº 2/75, de 17 de Maio; Em sentido idêntico o nº 3 do art. 1º da Lei nº 1/92, de 3 de
Janeiro.
127
Neste caso o BM.
128
À luz do Plano Estratégico 2015-2017.
65
A visão estratégica do BM consiste em este banco esforçar-se por ser uma instituição de excelência que
não só assegura a estabilidade de preços e a expansão dos serviços em todo o território nacional, como
também promove um sector financeiro sólido, saudável e competitivo que, em razão dessa sua robustez,
enfrente com êxito os desafios da integração regional e da dinâmica do desenvolvimento internacional.

2.4.6. Dos Valores organizacionais


Como sucede igualmente com qualquer organização, o BM tem os seus valores organizacionais. Os
valores organizacionais do BM são, por um lado, a base da cultura institucional e, por outro, princípios
reitores do desempenho almejado pela instituição. Neste contexto, a operacionalização da visão estratégica
do BM passa necessariamente pela observância escrupulosa dos tais valores fundamentais, que são, em
concreto, a assiduidade dos seus recursos humanos, nomeadamente os trabalhadores e dirigentes, o auto-
desenvolvimento, a competência dos seus gestores, o envolvimento, a honestidade e a transparência de
todos os seus colaboradores.

2.4.7. Dos Objectivos129


De acordo com a sua Lei Orgânica em vigor, o BM persegue, em estreita observância das políticas do
Governo, os seguintes objectivos gerais: i) organizar um sistema financeiro forte, são, competitivo e
abrangente; ii) preservar o valor da moeda nacional; iii) promover a aplicação correcta da política
monetária por forma a atingir a maior eficácia da mesma; iv) orientar a política de crédito com vista à
promoção do crescimento e desenvolvimento económico e social do país; v) gerir as disponibilidades
externas de forma eficiente, para manter adequado o volume de reservas e/ou de meios de pagamento
necessários ao comércio internacional; vi) instalar um Sistema Nacional de Pagamentos eficiente e
moderno; vii) disciplinar a actividade bancária em geral; viii) introduzir, manter e desenvolver uma gestão
institucional baseada em boas práticas e ix) modernizar o sistema de gestão de recursos humanos.

2.4.8. Do Sistema Orgânico130


Como pessoa colectiva que é, o BM apresenta um sistema orgânico próprio que compreende três órgãos,
quais sejam o Conselho de Administração, o Conselho de Auditoria e o Conselho Consultivo, sendo certo
que o Conselho de Administração tem a função executiva ou administrativa, o Conselho de Auditoria tem
a função fiscal131 e o Conselho Consultivo a função de apoio ao Conselho de Administração, a quem este
consulta sobre várias matérias132. Tanto a primeira como a actual Lei Orgânica deste Banco consagram
estes três órgãos.

129
Cfr. art. 3 da LOBM.
130
Cfr. art. 44 da LOBM.
131
Cfr. nº 1 do art. 44 da LOBM.
132
Cfr. art. 44 nº 2 da LOBM.
66
a) Conselho de Administração
O Conselho de Administração do BM é composto por um Governador, – que preside as suas sessões –,
por um Vice-Governador e por um certo número de Administradores. O Governador e o Vice-Governador
são nomeados, exonerados e demitidos pelo Presidente da Republica133, enquanto que os Administradores
são-no pelo Primeiro-Ministro134.

No âmbito das sessões do Conselho de Administração, o Governador tem as seguintes competências 135: i)
representar o BM junto do Governo; ii) presidir as sessões do Conselho de Administração; iii) definir a
constituição de pelouros e proceder à sua distribuição pelos Administradores; iv) exercer o direito de
suspensão de deliberações do Conselho de Administração; v) representar o BM em todos os actos junto de
organismos nacionais e internacionais; vi) decidir sobre as características e o valor facial das notas e
moedas do Metical; vii) decidir sobre a emissão e recolha de notas e moedas; viii) ordenar as inspecções
que reputar convenientes; ix) apresentar ao Governo os assuntos que lhe devam ser submetidos e informá-
lo sobre a situação do BM; x) assinar a correspondência oficial com os órgãos superiores do Estado e xi)
intervir em todos os actos que a lei ou o regulamento, explícita ou implicitamente, lhe cometam e
superintender em tudo o que se relacione com os interesses do Banco e com as suas actividades136.

Do texto da Lei Orgânica não consta qualquer indicação relativa às competências do Vice-Governador,
embora essa mesma Lei faça referência à sua existência na composição do Conselho de Administração 137 e
o indique como quem pode substituir o Governador nas suas faltas ou impedimentos138.

Quanto aos Administradores, cada um responde pelo seu pelouro, nos termos definidos na nomeação e em
regulamento próprio.

Ao Conselho de Administração, cuja periodicidade de reuniões ordinárias é de uma vez por semana 139,
compete140, em tese geral, a prática de todos os actos necessários à prossecução dos fins que ao BM são
cometidos nesta lei e, em especial: i) deliberar sobre a organização geral do Banco e sobre o
estabelecimento ou encerramento de qualquer sua representação e nomeação de correspondentes; ii)
definir a política de gestão do seu pessoal e aprovar o respectivo Quadro e vencimentos; iii) aprovar os
regulamentos internos; iv) aprovar o seu orçamento anual; v) elaborar o relatório de contas de gerência e
propôr a aplicação dos resultados nos termos desta lei; vi) autorizar a aquisição e alienação de bens

133
Cfr. art. 160 nº 2 al. d) da CRM. Em sentido idêntico o art. 45 nº 4 da LOBM.
134
Cfr. art. 45 nº 5 da LOBM.
135
Cfr. art. 47 nº 1 da LOBM.
136
Para além das competências aqui indicadas, outras atribuições do Governador do Banco, podem ser encontrados no arts. 47 nº 2, 48 e 49 da LOBM.
137
Cfr. art. 45 nos 1 e 4 da LOBM.
138
Cfr. art. 48 nº 1 da LOBM.
139
Cfr. art. 50 nº 1 da LOBM.
140
Cfr. art. 46 nos 1 e 2 da LOBM.
67
móveis e imóveis; vii) aprovar o programa monetário; viii) orientar e controlar o sistema bancário, bem
como fixar as reservas de liquidez obrigatórias das instituições de crédito; ix) aprovar o plano de contas do
sistema bancário; x) estabelecer o regime de taxas e comissões das operações activas e passivas, bem
como os serviços a praticar pelo sistema bancário; xi) deliberar sobre a regulamentação dos câmbios; xii)
emitir pareceres ou deliberar acerca das matérias que lhe sejam cometidas por lei ou apresentadas pelo
Governo ao BM ou quaisquer outras acerca das quais entenda dever pronunciar-se e xiii) delegar poderes
em trabalhadores do Banco, quando o entender necessário141.

b) Conselho de Auditoria
O Conselho de Auditoria do BM é composto por quatro membros, dos quais três são nomeados pelo
Ministro que responde pela pasta das Finanças e um é eleito pelos trabalhadores do BM, por um período
de três anos renováveis. O Presidente deste órgão deve ser um dos membros nomeados pelo Ministro das
Finanças.

O Conselho de Auditoria acompanha o funcionamento do BM e o cumprimento das leis e regulamentos


que lhes são aplicáveis142, o que significa que fiscaliza as actividades do BM, podendo nesse âmbito os
seus membros efectuar, individual ou colectivamente, as inspecções, sempre que julgarem necessário.

Assim, ao Conselho de Auditoria, cuja periodicidade de reuniões ordinárias é de uma vez por mês e
extraordinariamente, sempre que o seu Presidente ou o Conselho de Administração o tenham por
necessário143, compete, especialmente144: i) acompanhar o funcionamento do BM e o cumprimento das leis
e regulamentos que lhe são aplicáveis; ii) verificar, sempre que julgue conveniente, o estado da tesouraria
e a situação financeira e económica do BM; iii) assegurar-se de que as diligências respeitantes à cobrança
coerciva de dívidas ao BM se realizam em conformidade com o previsto no presente diploma; iv) assistir
por delegação, um dos seus membros, quando o considerar necessário ou seja convocado, às reuniões do
Conselho de Administração, podendo participar nos debates, quando convocado e sempre sem direito de
voto; v) dar parecer sobre as propostas de orçamento, as contas de gerência e os relatórios referentes a
cada ano; vi) verificar a execução das deliberações do Conselho de Administração do BM; vii) dar parecer
sobre os assuntos que lhe forem submetidos pelo Conselho de Administração ou pelo Governo e viii)
pedir a atenção do Conselho de Administração para as questões que entenda merecerem ponderação145.

c) Conselho Consultivo
141
Para além das competências aqui indicadas, outros aspectos do regime funcional e disciplinar do Conselho de Administração e dos seus membros, podem
ser encontrados no art. 50 nos 1 a 4 e no art. 51 nos 1 a 4 da LOBM.
142
Cfr. art. 52 nos 1 e 2 da LOBM.
143
Cfr. art. 54 nº 1 da LOBM.
144
Cfr. art. 53 nº 1 da LOBM.
145
Para além das competências aqui indicadas, outros aspectos do regime funcional e disciplinar do Conselho de Auditoria e dos seus membros, podem ser
encontrados no art. 53 nos 3 e 4 e no art. 54 nos 1 e 2 da LOBM.
68
O Conselho Consultivo é composto pelos membros do Conselho de Administração, Directores do BM e
Gerentes das Filiais. O Governador pode convidar para sessões do Conselho Consultivo quadros
superiores146 do Banco e representantes de outras instituições públicas e privadas, tais como Ministérios,
Instituições de Crédito, Sindicatos, Instituições de Ensino, entre outras147.

O Conselho Consultivo é um órgão alargado de consulta do Conselho de Administração, ele reúne


ordinariamente uma vez por ano e, extraordinariamente, sempre que convocado pelo Governador do
Banco148. Ao Conselho Consultivo compete149: i) apreciar as questões de interesse relevante para as
actividades do Banco e para a economia nacional; ii) apreciar as questões relativas à organização e
funcionamento do Banco; iii) apreciar os assuntos que lhe forem expressamente cometidos pelo Conselho
de Administração e iv) fazer o balanço das actividades e programar as acções futuras.

2.4.9. Da Posição no Sistema Financeiro Moçambicano


Em cada país, o sistema financeiro estrutura-se a partir de um Banco Central. O BM é o Banco Central da
República de Moçambique, tal como prescreve o nº 1 do art. 132º da CRM 150. Daí resulta que o BM é uma
instituição financeira do Estado encarregue de gerir a política monetária do país, por forma a garantir a
estabilidade do sistema financeiro e da moeda nacional.

Assim, em parceria com o Ministério da Economia e Finanças, o BM é órgão tutelar do sistema financeiro
nacional, cabendo-lhe nesse âmbito a responsabilidade de organizar, normar, dirigir e supervisionar o
referido sistema, além de sancionar as infracções que constatar ou que lhe forem participadas.

2.4.10. Das Funções do Banco de Moçambique151


Como oportunamente explicamos, o Dec. nº 2/75, de 17 de Maio e a LOBM que é sua parte integrante,
não são hoje lei positiva no nosso ordenamento mas têm um evidente interesse histórico.

À luz daquele Diploma legal, o BM, enquanto Banco Central, tinha as seguintes funções: i) era Banqueiro
do Estado; ii) era Conselheiro ou Consultor do Governo no domínio financeiro; iii) era Orientador e
Controlador das Políticas Monetária e Cambial; iv) era Gestor das Disponibilidades Externas do País; v)
era intermediário das Relações Monetárias Internacionais; vi) era Supervisor das Instituições Financeiras;
vii) era Caixa de Tesouro e viii) era banco comercial.

146
Colaboradores com formação universitária.
147
Cfr. art. 55 nos 1 e 2 da LOBM.
148
Cfr. art. 56 nº 2 da LOBM.
149
Cfr. art. 56 nº 1 da LOBM.
150
Texto do art. 132º da CRM: “O Banco de Moçambique é o Banco Central da República de Moçambique”.
151
Cfr. art. 16 da LOBM.
69
Portanto, para além daquelas primeiras sete funções, próprias de um Banco Central, o BM tinha também a
função de banco comercial, o que o tornava “árbitro e jogador no mesmo jogo”, situação essa de que
resultava o seu funcionamento deficiente.

A situação mereceu a censura da própria realidade e a reforma legislativa subsequente determinou a


autonomização da função comercial, que passou a constituir um novo banco exclusivamente comercial,
ficando atrás um BM que só é Banco Central.

Hoje, à luz da Lei Orgânica em vigor, o BM, como Banco Central, tem as seguintes funções 152: i) é
Banqueiro do Estado; ii) é Conselheiro ou Consultor do Governo no domínio financeiro; iii) é Orientador
e Controlador das Políticas Monetária e Cambial; iv) é Gestor das Disponibilidades Externas do País; v) é
Intermediário das Relações Monetárias Internacionais; vi) é Supervisor das Instituições Financeiras e vii)
é Caixa de Tesouro.

Para além das funções acima descritas, compete ainda ao BM, enquanto Banco Central: i) assegurar a
centralização e compilação das estatísticas monetárias, financeiras e cambiais que julgue necessárias para
a prossecução de uma política eficiente naqueles domínios e ii) controlar a actividade dos mercados
monetário, financeiro e cambial153.

Cumpre explicitar cada uma das funções, a começar pela de Banqueiro do Estado.

a) Banqueiro do Estado
O que significa que o BM é banqueiro do Estado? Isso equivale a dizer que esta instituição é depositária
das contas do Estado, dentro e fora do País154. Para o efeito, as instituições do Estado têm contas junto do
BM, em que fazem depósitos, levantamentos, transferências e outras operações bancárias 155. Neste âmbito,
o BM concede ao Estado anualmente um crédito sem juros, sob a forma de conta-corrente e em moeda
nacional, até ao montante máximo de dez por cento das receitas ordinárias do Orçamento Geral do Estado
arrecadadas no penúltimo exercício156.

Os levantamentos do Estado na mesma conta são feitos unicamente em representação das receitas
orçamentais do respectivo exercício e esse crédito deverá estar liquidado até ao último dia do ano
económico em que tiver sido aberto e, não o sendo, o saldo vencerá juros à taxa de redesconto do
Banco157.

152
Cfr. art. 16 nº 1 da LOBM.
153
Cfr. art. 16 nos 2 e 3 da LOBM.
154
Cfr. art. 17 da LOBM.
155
Cfr. art. 17 da LOBM.
156
Cfr. art. 18 nº 1 da LOBM.
157
Cfr. art. 18 nº 2 da LOBM.
70
Além do caso previsto no número anterior, o limite de concessão de crédito pelo BM ao Estado fica, em
cada ano, dependente da definição, pelo Governo, das necessidades de financiamento público, as quais são
ajustadas à programação referida no art. 11158 da LOBM.

No âmbito desta função de Banqueiro do Estado, o BM não pode159: i) aceitar depósitos e conceder
crédito a pessoas singulares; ii) aceitar depósitos e conceder crédito a quaisquer pessoas colectivas, salvo
quando se trate de instituições de crédito e ainda, iii) realizar outras operações próprias de bancos
comerciais mas pode fazer a compensação de cheques e de outros títulos de crédito nos termos fixados em
regulamento próprio160.

Percebida esta função, segue a explicação da de Conselheiro ou Consultor do Governo no domínio


financeiro.

b) Conselheiro ou Consultor do Governo no domínio financeiro


O que significa que o BM é Conselheiro ou Consultor do Governo no domínio financeiro? Significa que
nesta qualidade de Conselheiro do Governo no domínio financeiro, o BM emite pareceres e dá
informações ao Governo sobre as questões de natureza monetária, financeira e cambial, além de o
aconselhar em assuntos relacionados com acordos para financiamentos externos, quando solicitado.

Em rigor, compete ao BM, neste âmbito: i) prestar informações e pareceres sobre as questões de natureza
monetária, financeira e cambial; ii) aconselhar o Governo nas negociações sobre acordos e financiamentos
externos e iii) participar em reuniões “ad hoc” sobre as matérias da política monetária, financeira e
cambial161.

Percebida esta função, segue a da de Orientador e Controlador das Políticas Monetária e Cambial.

c) Orientador e Controlador das Políticas Monetária e Cambial


O que significa que o BM é Orientador e Controlador das Políticas Monetária e Cambial? Isso quer dizer
que no âmbito desta função, o BM orienta as políticas monetária e cambial, realizando um conjunto de
acções que visam influenciar a quantidade da moeda em circulação, o que pode concorrer para baixar ou
estabilizar o nível geral de preços no mercado doméstico.

158
Cfr. art. 19 da LOBM. O texto integral do art. 11 a que se faz alusão aqui é o seguinte: “ A emissão monetária, representada pelas notas e moedas em
circulação e demais responsabilidades à vista em moeda nacional, é objecto de um programa anual, com revisões periódicas sempre que se julgar necessário,
o qual deverá prever a evolução dessa emissão e respectivos factores, de maneira a coordenar a gestão das reservas cambiais e o crédito a conceder pelo
banco com as necessidades de estabilização e desenvolvimento da economia”.
159
Cfr. art. 42 da LOBM.
160
Cfr. art. 43 da LOBM.
161
Cfr. art. 20 al. a), b) e c) da LOBM.
71
Em concreto: i) ele regula o funcionamento do mercado monetário 162; ii) ele regula o funcionamento do
mercado financeiro e estabelece a ligação entre a actividade das instituições financeiras e as directivas da
política monetária e financeira163; iii) determina, segundo as conveniências da política monetária e
financeira, as modalidades qualitativas e quantitativas de empréstimos ou créditos às instituições
financeiras, e o respectivo formalismo jurídico164; iv) fixa a taxa de redesconto165; v) regulamenta, fixando
limites, prazos e outras condições, as operações de redesconto 166; vi) fixa e aplica taxas diferentes das
normais nas operações de redesconto que excedam os limites quantitativos fixados ou as regras
qualitativas estabelecidas167; vii) fixa as taxas e comissões aplicáveis às demais operações próprias 168; viii)
fixa o regime das taxas de juro, as comissões e quaisquer outras formas de remuneração para as operações
efectuadas pelas instituições financeiras169; ix) emite, quando necessário, instruções respeitantes ao
volume, à estrutura, aos termos e às condições do crédito a conceder pelas instituições financeiras,
controlando ainda a sua aplicação 170; x) estabelece para as instituições de crédito um limite mínimo de
depósitos obrigatórios a serem recolhidos ao Banco, proporcional aos valores dos depósitos à ordem, com
pré-aviso e a prazo, e de outras responsabilidades à vista dessas instituições, bem como a percentagem
mínima das suas responsabilidades de caixa 171 e xi) altera, quando se justificar, o limite mínimo e a
percentagem mínima referidos acima172.

Todas estas acções consubstanciam-se, fundamentalmente na intervenção no mercado monetário com a


compra ou venda de títulos e divisas, bem como subindo ou descendo as taxas de juro de referência. Os
mercados interbancários representam o maior campo de actuação do Banco Central.

São de dois tipos os mercados interbancários, nomeadamente o Mercado Monetário Interbancário e o


Mercado Cambial Interbancário.

O Mercado Monetário Interbancário, abreviadamente designado por MMI, é um segmento do mercado


monetário, – que no nosso caso é o Metical –, no qual as instituições autorizadas trocam fundos
representados por saldos das suas contas de depósitos à ordem no BM ou valores mobiliários

162
Cfr. art. 21 nº 1 da LOBM.
163
Cfr. art. 21 nº 2 da LOBM.
164
Cfr. art. 22 da LOBM.
165
Cfr. art. 23 nº 1 da LOBM.
166
Cfr. art. 23 nº 2 da LOBM.
167
Cfr. art. 24 da LOBM.
168
Cfr. art. 25 nº 1 da LOBM.
169
Cfr. art. 25 nº 2 da LOBM.
170
Cfr. art. 26 da LOBM.
171
Cfr. art. 27 nº 1 da LOBM.
172
Cfr. art. 27 nº 2 da LOBM.
72
desmaterializados inscritos em contas-título neste mesmo Banco, com a finalidade de equilibrar os
excedentes e necessidades de moeda entre as instituições de crédito173.

O MMI permite ao BM injectar ou absorver liquidez através das operações de mercado aberto, com vista a
influenciar a quantidade de liquidez no sistema e, por sua vez, influenciar o comportamento dos preços
dos bens e serviços.

Neste mercado, o BM pode intervir absorvendo ou cedendo liquidez através da compra ou venda de
títulos, as chamadas operações de mercado aberto. A lógica é que existe uma relação directa entre a oferta
de moeda e os preços de bens e serviços, ou seja, quanto maior for a oferta de moeda (isto é quando a
quantidade de moeda em circulação cresce) aumenta a pressão sobre os preços dos bens e serviços que
tendem a aumentar.

As transacções envolvendo títulos no MMI podem ocorrer no Mercado Primário de Títulos ou no Mercado
Secundário de Títulos. No mercado Primário de Títulos participam as instituições de Crédito e outras
autorizadas pelo BM. No mercado Secundário de Títulos as instituições de Crédito e as sociedades
financeiras autorizadas pelo BM podem transaccionar entre si títulos transaccionados no mercado
primário, podendo, por vezes, repassar ao público.

O Mercado Cambial Interbancário, abreviadamente designado por MCI, é o segmento de mercado em que
fazem parte as instituições de Credito ou entidades convidadas e/ou autorizadas pelo BM, e se realizam
operações de compra e venda de moeda externa. Estas transacções não são presenciais ou seja, os
operadores autorizados realizarem entre si transacções de compra e venda de moeda estrangeira em
sessões por via electrónica174.

Os participantes neste segmento de mercado são, para além do BM, os Bancos Comerciais que operam no
País e entidades ou instituições convidadas pelo BM.

O MCI visa prover o mercado de moeda externa para os diversos fins como importação de bens e serviços,
viagens e turismo, mas sempre conjugado com os objectivos da Política Monetária.

O Comité de Política Monetária, abreviadamente designado por CPMO, é o órgão responsável pela
coordenação em matéria de política monetária. É neste fórum que são desenhadas, analisadas e
implementadas decisões de política monetária, permitindo ao Conselho de Administração do Banco o
cumprimento do seu principal objectivo de preservação do valor da moeda nacional.

173
O MMI foi criado pelo Aviso nº 12/GGBM/97, de 29 de Setembro, que aprovou também o seu Regulamento.
174
O MCI foi criado pelo Aviso 16/GGBM/97, de 29 de Setembro, que aprovou também o seu Regulamento.
73
A sua importância consubstancia-se no facto de ser neste fórum em que se tomam decisões sobre a melhor
forma de intervenção do BM nos mercados interbancários (MMI e MCI), bem como sobre as taxas de juro
de política aplicáveis.

Entendida já esta função, segue a explicação da de Gestor das Disponibilidades Externas do País.

d) Gestor das Disponibilidades Externas do País


O que significa que o BM é Gestor das Disponibilidades Externas do País? Isso quer dizer que o BM é a
autoridade cambial do país175 pelo que, salvo disposição legal expressa em contrário, não podem em
princípio ser efectuados quaisquer pagamentos externos sem que sejam devidamente autorizados pelo BM.

As reservas internacionais são os activos que o Banco Central possui sob a forma de títulos, moeda
estrangeira ou ouro.

É papel e responsabilidade do BM gerir esses activos, por forma a preservar e rentabilizá-los, bem como
garantir que o país disponha de divisas para a cobertura financeira das importações e do serviço da divida
externa.

Neste âmbito, compete-lhe: i) definir, para a defesa da moeda nacional, os princípios reguladores das
operações sobre o ouro e divisas estrangeiras; ii) fixar os limites das disponibilidades em ouro e divisas
estrangeiras que podem ser detidas pelas entidades autorizadas a exercer o comércio de câmbios; iii) fixar
os câmbios e dar-lhes divulgação diária; iv) licenciar e fiscalizar toda e qualquer actividade de
recuperação, por meios químicos ou mecânicos, de ouro, prata e platina que se encontram incorporados
em ligas metálicas ou outros produtos176; v) celebrar, em nome próprio ou do Estado e por conta e ordem
deste, com estabelecimentos congéneres, públicos ou privados, domiciliados no estrangeiro, acordos de
compensação e pagamentos ou quaisquer contratos que sirvam as mesmas finalidades 177; vi) autorizar
previamente a abertura, no exterior, de contas em moeda estrangeira, por residentes nacionais; vii)
autorizar previamente a abertura de contas em moeda nacional por entidades não residentes 178; viii) gerir,
em coordenação com o Ministério das Finanças, a dívida externa, efectuar o seu registo e intervir na sua
contratação e renegociação, de conformidade com as orientações do Governo179.

É importante perceber-se que até ao séc. XIX as reservas eram feitas exclusivamente em ouro, mas após
os Acordos de Bretton Woods, os EUA indexaram o valor do Dólar ao do ouro, o que permitiu a
conversibilidade de Dólares em ouro, sendo a única moeda vista como um equivalente do ouro.

175
Cfr. art. 28 da LOBM.
176
Cfr. art. 30 da LOBM.
177
Cfr. art. 31 da LOBM.
178
Cfr. art. 32 da LOBM.
179
Cfr. art. 33 da LOBM.
74
Actualmente, tanto o ouro, como o Dólar e outras moedas como o Euro e Yene são usadas na constituição
de reservas dos bancos centrais.

As reservas de um país são rentabilizadas e utilizadas para fazer face a compromissos financeiros, como
sendo o serviço da divida externa, pagamento de despesas com importações e para fins de politica
monetária e cambial. Um banco central com um grande nível de reserva é sinal de que o País esta em
condições de suportar turbulências económicas e minimizar a instabilidade da moeda.

Percebida a explicação desta função, segue a da de Intermediário das Relações Monetárias Internacionais.

e) Intermediário das Relações Monetárias Internacionais


O que significa que o BM é Intermediário das Relações Monetárias Internacionais? Ora, o BM relaciona-
se sempre com instituições financeiras estrangeiras e internacionais, o que significa que tem relações
económicas bilaterais ou multilaterais com o resto do mundo, tanto de índole comercial como financeiro.
Infere-se daí que ele assume, neste âmbito, o papel de intermediário entre o Estado moçambicano e outros
Estados, bem como entre o Governo de Moçambique e instituições financeiras internacionais nas
negociações sobre acordos financeiros internacionais180.

Neste âmbito, ele celebra contratos e assina acordos bancários ou de cooperação com instituições
congéneres, públicas ou privadas de outros países e organizações internacionais 181, ele participa no capital
de instituições internacionais com atribuições monetárias e cambiais e faz parte dos respectivos órgãos
sociais182.

Concluída a explicação desta função, segue a da de Supervisor das Instituições Financeiras.

f) Supervisor das Instituições Financeiras


O que significa que o BM é Supervisor das Instituições Financeiras? Significa que no âmbito desta função,
compete ao BM realizar as inspecções necessárias nos estabelecimentos das instituições financeiras
sujeitas à sua supervisão nos termos da lei183, dai que todas as instituições a esta sujeitas são obrigadas a
enviar ao BM, de harmonia com as instruções por este transmitidas, os balancetes mensais e demais
elementos relativos à sua situação e às operações que realizem184.

A supervisão das instituições de crédito é o processo através do qual o BM fiscaliza directa ou


indirectamente a actividade de todas as instituições por si autorizadas a operar no sector bancário em
Moçambique.
180
Cfr. art. 34 da LOBM.
181
Cfr. art. 35 da LOBM.
182
Cfr. art. 36 da LOBM.
183
Cfr. art. 38 da LOBM.
184
Cfr. art. 39 da LOBM.
75
A supervisão das instituições financeiras visa conferir uma maior segurança aos depósitos do público,
proteger os consumidores de serviços financeiros e conferir uma maior estabilidade e solidez ao sistema
financeiro.

O BM possui no seu Quadro de pessoal, inspectores especificamente treinados para realizar a supervisão
directa, através de inspecções realizadas junto das instituições de crédito. Por outro lado, o BM realiza a
supervisão indirecta, solicitando às instituições de crédito um conjunto de informações contabilísticas e
extra-contabilísticas que são analisadas e sistematizadas de modo a ter uma visão correcta sobre a solidez
financeira dessas entidades supervisionadas.

Estão subordinadas à supervisão do BM, à luz da LOBM, todas as instituições de crédito e outras que a lei
lhe confere, com a excepção das companhias de seguro185.

Para assegurar essa supervisão, o BM186: i) aprecia e dá parecer sobre os pedidos de constituição das
referidas instituições, bem como sobre a sua fusão, cisão ou transformação, e propor a revogação das
autorizações concedidas, quando for caso disso; ii) define as condições de abertura de filiais, agências,
delegações e outras formas de representação das mencionadas instituições, no território nacional ou no
estrangeiro e decidir dos respectivos pedidos; iii) aprecia a idoneidade dos titulares de participações
sociais nas instituições em que representem mais de dez por cento do respectivo capital social, bem como
a aptidão técnico-profissional dos seus administradores ou directores e define as condições imperativas do
exercício dessas funções; iv) estabelece as directivas para a actuação dessas instituições e v) assegura os
serviços de centralização de informações e de riscos de crédito. É no âmbito desta função que o BM,
enquanto regulador e supervisor do sistema financeiro, pode dissolver uma instituição bancária, substituir
o Conselho de Administração e tomar quaisquer outras medidas visando impedir a degradação dos
indicadores prudenciais e de rendibilidade dos bancos.

No âmbito da supervisão bancária, o BM é a entidade que analisa e decide sobre os pedidos de


constituição, transformação ou alteração dos estatutos das Instituições de Crédito e Sociedades
Financeiras. Compete igualmente ao BM emitir normas para regulamentar as actividades do sector, bem
como velar pelo seu cumprimento.

Concluída a explicação desta função, segue a da de Serviço de Caixa de Tesouro.

g) Serviço de Caixa de Tesouro

185
Cfr. art. 37 nº 1 da LOBM.
186
Cfr. art. 37 nº 2 da LOBM.
76
O que significa que o BM é Caixa do Tesouro? BM desempenha o serviço de Caixa de Tesouro onde
exerce as funções bancárias, pagando por conta do Estado187, – incluindo às instituições subordinadas ao
Estado, e aos órgãos locais do Estado, estabelecidos 188 –, até ao limite dos fundo entregues à sua guarda,
todas as suas despesas, recebendo as suas receitas, realizando todas as suas operações bancárias e
arrecadando ou restituindo todos os depósitos, para garantia ou sob guarda do Estado.

Pelos serviços prestados ao Estado, neste âmbito, o Banco cobra uma comissão que é determinada pelo
Conselho de Administração189.

2.4.11. Do Regime disciplinar dos seus trabalhadores


Os trabalhadores do BM, como empregados bancários que são, têm os seus direitos e obrigações
determinadas em estatuto próprio, sem prejuízo dos ajustamentos resultantes das grandes linhas de política
laboral definidos pelo Governo190.

Os trabalhadores no activo e os reformados do BM, mantêm todos os direitos e obrigações adquiridos à


luz do Dec. nº. 2/75, de 17 de Maio, do Governo de Transição 191 e os adquiridos à data da entrada em
vigor da actual LOBM192.

O pessoal está organizado em colectivos de trabalho a todos os níveis de gestão, com vista á participação
activa e constante de todos os trabalhadores na vida do BM193.

O BM possui um sistema permanente de formação e desenvolvimento dos seus recursos humanos 194,
concede empréstimos aos seus trabalhadores para facilitar a aquisição de bens móveis e utensílios, a
construção, a ampliação ou beneficiação de habitação própria permanente, em condições fixadas pelo
Conselho de Administração.

Para além disso, o BM pode adquirir ou construir prédios destinados a fins de natureza social ou à
habitação própria dos seus trabalhadores mediante renda-amortização, em condições a estabelecer pelo
Conselho de Administração.

O BM apoia as iniciativas dos trabalhadores nos domínios social, cultural e recreativo, de reconhecido
interesse e viabilidade e que se mostrem compatíveis com a natureza da instituição, segundo o
regulamento aprovado pelo Conselho de Administração195.
187
Cfr. art. 40 nº 1 da LOBM.
188
Cfr. art. 40 nº 2 da LOBM.
189
Cfr. art. 40 nº 3 da LOBM.
190
Cfr. Art. 57º nº 1.
191
Cfr. art. 82 da LOBM.
192
Cfr. art. 80 da LOBM.
193
Cfr. art. 57 nº 2 da LOBM.
194
Cfr. art. 58 da LOBM.
195
Cfr. art. 59 da LOBM.
77
O BM tem um fundo especial e com regulamentação apropriada, financiado com recursos provenientes da
participação de trabalhadores e dele próprio, em complemento ao sistema de previdência social em vigor,
de forma a garantir a totalidade dos salários correntes, bem como a sua actualização a partir da data da
reforma196.

2.4.12. Do Regime contabilístico


O BM rege-se pela sua legislação e regras próprias em tudo o que respeite à organização do orçamento, à
execução dos seus serviços, ao pagamento das suas despesas e à apresentação, fiscalização e julgamento
das suas contas197.

Anualmente o BM elabora um orçamento de exploração, o qual é comunicado ao Ministro das Finanças


até 30 de Novembro do ano anterior198.

O BM tem Livros de escrita, principais e auxiliares, que a lei determina para as instituições de crédito.
Estes Livros de escrita e outros elementos de contabilidade, bem como quaisquer processos, não saem da
sede do BM ou das suas dependências, ainda que requisitados por qualquer autoridade199.

As contas do BM, referidas a 31 de Dezembro de cada ano, são encerradas e enviadas ao Ministério das
Finanças até ao fim de Março do ano seguinte200.

Os lucros líquidos apurados em cada exercício são distribuídos pela forma que é aprovada pelo Governo,
sob proposta do Conselho de Administração201.

Sempre que o valor do activo se tornar inferior à soma do valor do passivo e do capital realizado, o
Ministério das Finanças, sob proposta do Conselho de Administração do BM, emitirá títulos de dívida
pública a favor deste Banco, pelo montante que se mostrar necessário para sanar a situação.

Os títulos de dívida pública então emitidos são resgatados no fim de cada exercício, numa percentagem
proposta ao Ministro das Finanças pelo Conselho de Administração do BM e deduzidos dos lucros
líquidos do referido exercício, depois de deduzido o valor da reserva legal202.

196
Cfr. art. 60 da LOBM.
197
Cfr. art. 61 da LOBM.
198
Cfr. art. 62 da LOBM.
199
Cfr. art. 63 da LOBM.
200
Cfr. art. 64 da LOBM.
201
Cfr. art. 65 da LOBM.
202
Cfr. art. 66 da LOBM.
78
2.4.13. Do Arquivo e da força probatória dos documentos
O BM conserva em Arquivo próprio os elementos da sua escrita principal, a correspondência, os
documentos comprovativos das operações realizadas e os Livros de contas correntes onde os mesmos se
encontrem escriturados.

O Arquivo pode ser total ou parcialmente microfilmado, mediante a autorização do Conselho de


Administração, podendo os originais ser destruídos após essa microfilmagem, decorridos dez anos203.

As reproduções autenticadas de documentos arquivados no BM têm a mesma força probatória dos


originais, mesmo quando se trate de ampliações dos microfilmes204.

2.4.14. Do Estatuto Fiscal


O BM goza de isenção de todas as contribuições, impostos, taxas, licenças administrativas, imposto de
justiça, imposto de selo e demais imposições gerais e especiais, nos mesmos termos que o Estado205.

Para as questões em que o BM seja parte, são competentes os tribunais comuns, podendo a sua
representação forense ser assegurada por advogado, local ou contratado.

Não poderá ser oposta a qualquer acção proposta pelo BM a excepção da incompetência relativa, mas
quando as acções sejam propostas nos tribunais territorialmente incompetentes a dilação mínima será de
vinte dias206.

Os actos e contratos realizados pelo BM e, bem assim, todos os actos que importem a sua revogação,
rectificação ou alteração, podem ser titulados por documento particular.

Quando se trate de actos sujeitos a registo, o documento particular deve conter o reconhecimento autêntico
das assinaturas.

Os documentos através dos quais o BM formaliza quaisquer negócios jurídicos ou contratos servem
sempre de título executivo contra quem por ele se mostre devedor a este Banco, independentemente de
outras formalidades exigidas pela lei comum.

Com respeito aos negócios jurídicos ou contratos em que participar, os créditos do Banco gozam do
privilégio creditório e independentemente das garantias que tiverem sido constituídas, são graduados logo
após os créditos do Estado207.

203
Cfr. art. 67 da LOBM.
204
Cfr. art. 68 da LOBM.
205
Cfr. art. 69 da LOBM.
206
Cfr. art. 70 da LOBM.
207
Cfr. art. 71 da LOBM.
79
O BM dispõe de Cartório Notarial Privativo, onde são lavradas as escrituras e demais actos em que
outorgue ou seja interessado e necessite de intervenção notarial.

O Notário e seus ajudantes são nomeados pelo Ministro da Justiça, mediante proposta do Governador do
BM, e a sua competência é cumulativa e em tudo idêntica à dos funcionários dos Cartórios Notariais
públicos com categoria equivalente.

Os documentos lavrados ou autenticados pelo Notário e seus Ajudantes são, para todos os efeitos,
considerados autênticos.

Os elementos e compensações de despesas devidos pelos actos efectuados no Cartório Privativo ou pela
extracção de certidões e fotocópias, são contados de harmonia com a legislação notarial vigente,
considerados receita do BM e como tal escriturados208.

Considera-se de natureza confidencial e a coberto de sigilo bancário tudo quanto diga respeito a depósitos,
operações de crédito, garantias, relações com o exterior ou quaisquer outras operações efectuadas no BM,
só podendo extrair-se certidões ou prestar-se informações nos seguintes casos: a) a pedido do titular das
referidas operações; b) mediante despacho do juiz de direito, depois de previamente ouvido, por ofício, o
Governador do BM.

Constituem ainda matéria coberta pelo sigilo bancário informações sobre medidas de política monetária e
segurança do BM, as quais só poderão ser prestadas exclusivamente pelo seu Governador209.

O BM concede donativos ou subsídios, dentro dos limites para o efeito fixados no respectivo orçamento210.

O BM dispõe de um sistema privativo de segurança e protecção. Ainda assim, o Estado garante a


segurança e a protecção dos estabelecimentos e do transporte de fundos e valores do BM211.

Os membros do Conselho de Administração e trabalhadores do BM não devem aceitar, directa ou


indirectamente, quaisquer comissões ou presentes por prestação de serviços, quer destinados a sí quer a
cônjuges, ascendentes, descendentes e demais parentes em 1º grau212.

As instituições financeiras que deixarem de acatar quaisquer das instruções do BM serão sujeitas às
sanções pecuniárias ou taxas cominatórias fixadas em lei213.

208
Cfr. art. 72 da LOBM.
209
Cfr. art. 75 da LOBM.
210
Cfr. art. 76 da LOBM.
211
Cfr. art. 77 da LOBM.
212
Cfr. art. 78 da LOBM.
213
Cfr. art. 79 da LOBM.
80
O BM sucedeu automática e globalmente ao Departamento do Banco Nacional Ultramarino e conservou a
universalidade dos direitos e obrigações integrantes do património de que este era titular, até 17 de Maio
de 1975.

2.4.15. Do Quadro sinóptico


Depois deste estudo profundo sobre o BM, resolva as seguintes questões em forma de auto-avaliação.
Posteriormente apresente as suas dúvidas sobre o tema e sobre aquelas questões que não entende e/ou não
consegue responder. Ei-las:

1. O que é um Banco Central? 2. O que é o BM? 3. Quando é que foi criado o BM? 4. Qual era a natureza
jurídica do BM aquando da sua criação e qual é hoje? 5. Quando é que o BM tornou-se exclusivamente
Banco Central? 6. Quais os instrumentos que regulam a actividade do BM? 7. Como é que o BM está
geograficamente distribuído pelo País e qual é a função das suas Filiais? 8. Qual é a missão e a visão
estratégica do BM? 9. Quais os valores organizacionais do BM? 10. Quais as semelhanças e diferenças
entre o Dec. nº 2/75, de 17 de Maio e a Lei nº 1/92, de 3 de Janeiro? 11. O que é a LOBM? 12. Quais os
objectivos gerais e específicos do BM? 13. Apresente o sistema orgânico do BM, à luz da LOBM. 14.
Explique a composição do Conselho de Administração e as suas atribuições, bem como as de cada um dos
seus membros. 15. Quem é que nomeia os Membros do Conselho de Administração do BM? 16. Explique
a composição do Conselho de Auditoria e as suas competências, bem como as de cada um dos seus
membros. 17. Quem é que nomeia os Membros do Conselho de Auditoria do BM? 18. Explique a
composição do Conselho Consultivo e as suas competências, bem como as de cada um dos seus membros.
19. Quem é que nomeia os Membros do Conselho Consultivo do BM? 20. Indique a posição e o papel do
BM no sistema financeiro moçambicano. 21. À luz da LOBM enumere as funções do BM. 22 O que é que
significa “preservar o valor da moeda nacional”? 23. O que significa que o BM é “Banqueiro do Estado”?
24. Que actividades o BM realiza na sua qualidade de “Conselheiro do Governo no domínio financeiro”?
25. Como é que o BM orienta as políticas monetária e cambial? 26. O que são e quais os mercados
interbancários? 27. O que é o Mercado Monetário Interbancário (MMI) e qual é a sua importância? 28.
Que operações podem ser realizadas no MMI? 29. Quem são os operadores no MMI? 30. O que é o
Mercado Cambial Interbancário (MCI) e qual é a sua importância? 31. Quem são os participantes no
MCI? 32. Qual é a finalidade do MCI? 33. O que é o Comité de Política Monetária (CPMO) e qual é a sua
importância? 34. Apresente as atribuições do BM enquanto Conselheiro ou Consultor do Governo no
domínio financeiro. 35. Qual é o papel do BM na sua qualidade de “Gestor das Disponibilidades Externas
do país”? 36. Como são constituídas as reservas de um Banco Central? 37. Para que servem as reservas
externas de um país? 38. Quais são as atribuições do BM na sua qualidade de “Intermediário nas Relações
Monetárias Internacionais”? 39. O que significa que o BM é “Supervisor das Instituições Financeiras”?
81
40. Como é que o BM efectua a supervisão das Instituições de Crédito? 41. Quais são as actividades do
BM, no âmbito da supervisão bancária? 42. Quais são as atribuições do BM no exercício do serviço de
“Caixa de Tesouro”? 43. Refira-se desenvolvidamente ao regime contabilístico do BM. 44. Explique o seu
estatuto fiscal. 45. Refira-se à utilidade do Arquivo no BM e à força jurídica dos documentos nele
arquivados. 46. Explique o regime disciplinar dos trabalhadores do BM. 47. Trace um paralelismo entre as
duas leis orgânicas que regularam a organização e as actividades do BM. 48. Explique o que é uma lei
orgânica e qual é a sua diferença com uma lei de valor reforçado.

82
ANEXO I – 1ª LOBM - Dec. n.º 2/75, de 17 de Maio
LEI ORGÂNICA DO BANCO DE MOÇAMBIQUE
CAPÍTULO I

Da natureza, objecto e fins

ARTIGO 1.º

O Banco de Moçambique, neste diploma designado por «Banco», é uma pessoa colectiva de direito
público, dotada de autonomia administrativa e financeira, com a natureza de empresa pública.

ARTIGO 2.º

O Banco rege-se pelas disposições do presente diploma e dos regulamentos que venham a ser adoptados
em sua execução, bem como pelas normas, aplicáveis da legislação reguladora da actividade das
instituições de crédito.

ARTIGO 3.º

1. O Banco tem a sua sede em Lourenço Marques e manterá ou criará filiais ou agencias designadas
por dependências, em território nacional ou estrangeiro onde as necessidades do exercício das suas
atribuições o justifiquem.
2. O Banco poderá promover a sua representação por outras instituições de crédito nacionais ou
estrangeiras, bem como utilizar, para o mesmo efeito, mediante acordo aprovado pelo Governo, a
colaboração de quaisquer serviços públicos.

ARTIGO 4.º

O Banco tem por objecto o exercício das funções de Banco central, de exclusivo emissor de notas e
moedas, de caixa do Tesouro e de banco comercial.

ARTIGO 5.º

O Banco tem como principais fins, em conformidade com a política económica do Governo, promover a
realização de correcta politica monetária, procurar, através de critérios e controlos do crédito à economia,
assegurar estabilidade interna e externa do valor da moeda, gerir disponibilidades externas de forma a
manter adequado volume de meios de pagamento necessários ao comercio internacional, fornecer recursos
financeiros ao Estado, disciplinar a actividade bancária e orientar a politica de crédito do Pais com vista ao
seu desenvolvimento e à realização dos interesses do Povo.

CAPITULO II
Dos fundos próprios e outros recursos financeiros
ARTIGO 6.º

1. O Banco disporá dos seguintes recursos:

83
a) O património e os valores do Departamento de Moçambique do Banco Nacional Ultramarino
que vierem a ser transferidos para o Banco e nele integrados ao abrigo e por força do
compromisso assumido pelo Estado Português no Acordo de Lusaka, de 7 de Setembro de 1974,
e nos acordos subsequentes;
b) Os valores que advenham da integração no Banco de fundos públicos existentes em
Moçambique;
c) As reservas constituídas por transferência de todo ou de parte dos lucros líquidos apurados em
cada exercício, nas condições que vierem a ser fixadas;

d) Quaisquer outros bens, rendimentos ou receitas que lhe sejam atribuídos.

2. O capital do Banco é de mil milhões de escudos, integralmente subscrito pelo Estado de


Moçambique.

ARTIGO 7.º

O Departamento de Moçambique do Banco Nacional Ultramarino, que será integrado no Banco,


considerar-se-á extinto logo que tal integração seja efectuada.

ARTIGO 8.º

Para o financiamento das operações compreendidas no seu objecto, além da utilização dos recursos
indicados no artigo 6.º, o Banco poderá:

a) Aceitar depósitos;
b) Utilizar fundos provenientes de empréstimos concedidos por pessoas singulares ou colectivas
estrangeiras ou internacionais;

c) Realizar quaisquer outras operações passivas que foram autorizadas pelo Governo, sob proposta da
Administração do Banco.

ARTIGO 9º

1. Os depósitos em moeda moçambicana efectuados no Banco não serão remunerados.


2. O Estado garante o reembolso dos depósitos feitos no Banco.

CAPITULO III

Da função emissora

SECÇÃO I

Disposições gerais

ARTIGO 10.º

1. O Banco terá o exclusivo e a obrigação da missão de notas e de moeda divisionária em


Moçambique.

84
2.Os valores de emissão e facial serão fixados de harmonia com os interesses da economia nacional e
publicados no Boletim Oficial, reservando o Estado, para si, o direito emissão de moeda comemorativa.
3. As notas têm curso legal em todo o Pais, têm poder liberatório ######### e de quaisquer outros
impostos.
4. Não podem circular em Moçambique notas e moedas estrangeiras.
5. As características das notas e moedas a emitir pelo Banco terão de ser aprovadas pelo Governo e
publicadas no Boletim oficial.
6. O Banco tem a obrigação de fornecer à comunidade nacional, nas melhores condições de segurança
e comodidade, notas e moedas de boa qualidade e dificilmente imitáveis.

ARTIGO 11º
l. Decorridos cinco anos após ter expirado o prazo fixado para serem retiradas da circulação as notas
de certo tipo ou chapa, o Banco abaterá ao quantitativo da circulação a importância das que não tenham
sido recolhidas.
2. As notas recolhidas serão devidamente relacionadas e, depois, inutilizadas pela forma que vier a ser
regulamentada.

ARTIGO 12.º

O volume da circulação fiduciária deve corresponder às necessidades do esforço produtivo da economia


do País, pelo que adequada orientação e controlo devem ser dados ao crédito e à mobilização do aforro
líquido do Povo.
ARTIGO 13.º
O Banco e o Estado assumem a responsabilidade pelas notas emitidas nos termos do artigo 12.º

SECCAO II

Da reserva monetária

ARTIGO 14.º

l. As responsabilidades à vista do Banco, compreendendo a circulação fiduciária, os depósitos nele


constituídos e os saldos credores de contas correntes, terão uma cobertura mínima de um terço em reserva
monetária, constituída pelas espécies indicadas no artigo seguinte.
2. Por circulação fiduciária entende-se o total das notas fora das caixas do Banco.

ARTIGO 15.º

1. A reserva a que se refere o artigo anterior será constituída por:


1.º Ouro amoedado, em barra ou lingote;
2.º Prata fina e platina;
3.º Direitos especiais de saque;
4.º Moeda estrangeira convertível noutra moeda estrangeira a forma de:
a) Créditos exigíveis à vista ou a prazo não superior a cento e oitenta dias e representados por
salda de contas abertas em bancos de primeira ordem domiciliados no estrangeiro:

85
b) Cheques e ordens de pagamento emitidos por entidades de reconhecido crédito sobre
bancos de primeira ordem domiciliados no estrangeiro;
c) Letras em carteira, pagáveis à vista ou a prazo não superior a cento e oitenta dias, aceites
por bancos de primeira ordem domiciliados no estrangeiro;
d) Títulos do Tesouro ou outras obrigações análogas de Estados estrangeiros, vencidos ou a
vencer dentro de cento e oitenta dias;
e) Notas e moedas estrangeiras;

5.º Títulos da dívida pública do Estado reembolsáveis no prazo máximo de três anos.
2.º O Banco poderá incluir na reserva monetária qualquer outra espécie de valores activos sobre o
exterior que considere adequados, de acordo com normas internacionais e depois de devidamente
autorizado pelo Governo.
3.º Os activos líquidos externos devem assegurar as necessidades do comércio internacional.
4.º Transitoriamente, até integral reembolso, poderão continuar a ser contados na reserva de valores
da natureza dos mencionados em 1-5.º deste artigo e outros créditos, directos ou indirectos, sobre o
Estado, serviços autónomos e outras pessoas colectivas de direito público, ainda que pagáveis em prazos
superiores aos indicados, actualmente existentes no Departamento de Moçambique do Banco Nacional
Ultramarino.

ARTIGO 16.º

No cálculo do nível da reserva serão deduzidos os compromissos ou responsabilidades do Banco, à


vista ou exigíveis a prazo não superior a cento e oitenta dias, quando expressos em ouro, moedas
estrangeiras ou unidades de conta utilizadas em compensações internacionais.

ARTIGO 17.º

As responsabilidades à vista que ultrapassem o nível da reserva monetária deverão ter cobertura
integral constituída pelos seguintes valores:

a) Os da mesma natureza e prazo dos afectos à reserva monetária;


b) Créditos que o Banco tenha sobre o Estado e sobre Estados ou territórios estrangeiros;
c) Créditos resultantes de empréstimos garantidos pelo Estado e outros Estados ou territórios
estrangeiros;
d) Empréstimos concedidos a outras instituições de crédito com caução de títulos do Estado ou de
efeitos comerciais, desde que estes não excedam o prazo de cento e oitenta dias;
e) Empréstimos caucionados com garantia real, nomeadamente de produtos agrícolas, a prazo não
superior a cento e oitenta dias;
f) Carteira comercial do Banco a prazo não superior a cento e oitenta dias;
g) Cheques em moeda moçambicana de que o Banco
seja dono e portador e pelo tempo necessário à sua apresentação a pagamento;
h) Títulos emitidos pelo Fundo Monetário da Zona do Escudo para realização do capital do mesmo
Fundo e que o Departamento de Moçambique do Banco Nacional Ultramarino tenha adquirido.

CAPITULO IV
86
Das funções de banco central

SECÇÃO I

Disposições gerais

ARTIGO 18.º

1. Como banco central, o Banco será o banqueiro do Estado, consultor do Governo no domínio
financeiro, orientador e controlador da política monetária e do crédito, gestor das disponibilidades
externas do Pais e intermediário nas relações monetárias internacionais.

2. No exercício destas funções o Banco subordinará sempre a sua actuação à política económica
definida pelo Governo com quem manterá para o efeito estreitos contactos.

SECÇÃO II

Das funções do banqueiro do Estado

ARTIGO 19.º

O Barco será o banqueiro do Estado, dentro e fora do


Pais.

ARTIGO 20.º

l. O Banco abrira ao Estado, todos os anos, um crédito gratuito, sob a forma de conta corrente, em
moeda moçambicana até ao limite de 10% da média mensal das responsabilidades à vista do Banco nos
primeiros nove meses do ano anterior.

2. Esse crédito gratuito devera estar liquidado até ao último dia do ano económico em que tiver sido
aberto, e, não sendo, o saldo vencera juros à taxa de redesconto do Banco.

ARTIGO 21.º

O Banco poderá ainda conceder empréstimos a curto prazo do Tesouro, sob a forma de descoberto,
até ao limite de um duodécimo das receitas ordinárias do Orçamento Geral do Estado, com juro a taxa não
superior à de redesconto e por período até três meses.

ARTIGO 22.º

l. O Banco poderá, ainda, adquirir títulos do Tesouro, conceder crédito sobre os mesmos e fazer
empréstimos excepcionais ao Estado, serviços autónomos e outras pessoas colectivas de direito público,
directa ou indirectamente, até ao montante máximo de 20% do Orçamento Geral do Estado.

2. Estes créditos devem ter por objecto o fomento do sector agrário e a criação ou desenvolvimento de
infra-estruturas e de equipamentos colectivos.

87
SECÇÃO III

Da Politica monetária e do crédito

ARTIGO 23.º

O Banco determinará, segundo as conveniências da política monetária, as modalidades, em termos


qualitativos e quantitativos, em que poderão ser concedidos empréstimos ou créditos a cada uma das
outras instituições de crédito, bem como o formalismo jurídico dessas operações.

ARTIGO 24.º

O Banco poderá, quando necessário, emitir instruções respeitantes ao volume, estrutura, termos e
condições do crédito a conceder pelas outras instituições de crédito e controlar a sua aplicação.

ARTIGO 25.º

O Banco fixará as taxas de desconto e redesconto, bem como as taxas e comissões aplicáveis as
demais operações, activas e passivas, próprias e do sistema bancário.

ARTIGO 26.º

Nas operações de redesconto e de refinanciamento às instituições de crédito que excedam os limites


quantitativos fixados ou as regras qualitativas estabelecidas poderá o Banco aplicar taxas diferentes das
normais.

ARTIGO 27.º

1. O Banco fixara as instituições de crédito um limite mínimo de depósito no Banco proporcional aos
valores dos depósitos à ordem, com pré-aviso e a prazo, e de outras responsabilidades à vista dessas
instituições, bem como a percentagem das suas disponibilidades de caixa.

2. O Banco poderá alterar, por razoes de conjuntura monetária, o limite mínimo e a percentagem
referidos no número anterior.

ARTIGO 28.º

Todas as instituições de crédito são obrigadas a enviar ao Banco, de harmonia com as instruções por
este transmitidas, os balancetes mensais e demais elementos relativos à sua situação e às operações que
realizem, com vista ao estudo da situação do sistema bancário, de sectores da economia e das principais
empresas, do que o Banco assegurará conveniente informação.

ARTIGO 29.º

O Banco imporá as instituições de crédito que não efectuem o mínimo de depósito por ele
determinado, ou que deixem de acatar quaisquer outras das suas instruções, sanções pecuniárias ou taxas
cominatórias, a fixar pelo Governo.

88
ARTIGO 30.º

No Banco funcionará, também, a compensação de cheques.

SECÇÃO IV

Das relações monetárias internacionais

ARTIGO 31.º

O Banco poderá celebrar, por si em nome do Estado ou por conta e ordem deste, com
estabelecimentos congéneres, públicos ou particulares, domiciliados no estrangeiro, acordos de
compensação e de pagamentos, bem como contratos destinados a facilitar a realização da compra ou da
venda de ouro, prata e divisas, tais acordos e contratos implicar a obtenção de créditos dentro de certos
limites de tempo ou de valor e, outrossim, efectuar, com os mesmos estabelecimentos ou com instituições
internacionais, quaisquer operações cambiais e as demais necessárias ao cumprimento das obrigações
decorrentes quer dos mencionados acordos e contratos, quer de outros análogos directamente concluídos
pelo Estado.

ARTIGO 32.º

O Banco deverá assegurar, mediante adequadas operações de crédito, os meios necessários à


comparticipação, autorizada pelo Governo, no capital de organismos internacionais, nomeadamente os
destinados a facilitar compensações e pagamentos internacionais.

ARTIGO 33.º

1. O Banco poderá contrair empréstimos a médio e longo prazos, mediante autorização do Governo,
junto de quaisquer instituições de crédito ou outras pessoas singulares ou colectivas, estrangeiras ou
internacionais.

2. O Banco é autorizado a redescontar no estrangeiro ou a dar em garantia a sua carteira comercial ou


a sua carteira de títulos com vista à obtenção de créditos ou empréstimos no estrangeiro.

ARTIGO 34.º

A abertura, no País ou no exterior, de contas em moeda estrangeira depende de autorização especial e


prévia do Banco, sendo observados, para a respectiva movimentação
os termos e condições estabelecidos na autorização.

ARTIGO 35.º

Só o Banco poderá comprar ou vender ouro e prata, em moeda, em barra e em lingote.

ARTIGO 36.º

Compete ao Banco a fixação de câmbios e a sua regular divulgação.

CAPITULO V

89
Das funções de caixa do Tesouro e de caixa dos serviços autónomos do Estado e de outras
pessoas colectivas de direito público

ARTIGO 37.º

l. O Banco desempenhará, sem juro, comissão ou remuneração de qualquer natureza, mesmo no que
respeita a transferência de fundos, o serviço de caixa do Tesouro em todas as localidades onde exerça as
funções bancárias, pagando por conta do Estado, até ao limite dos fundos entregues à sua guarda, todas as
suas despesas, recebendo as suas receitas, realizando todas as suas operações bancárias e arrecadando ou
restituindo todos os depósitos para garantir ou sob guarda do Estado.

2. O disposto no n.º 1 deste artigo é extensivo aos serviços autónomos do Estado, autarquias locais e
outras pessoas colectivas de direito público, nos termos que vierem
a ser acordados, sem prejuízo dos depósitos que, por lei, devem ser efectuados noutras instituições de
crédito.

ARTIGO 62.º

1. O Conselho Administração é responsável pelas deliberações que forem contrárias à lei só lhe sendo
licito invocar determinador superior quando for escrita e se refira especificamente à deliberação.

2. A responsabilidade referida no número anterior é restrita aos membros do Conselho de


Administração que tenham votado a favor da deliberação ilegal De Conselho de Auditoria.

ARTIGO 63.º

l. O Conselho de Auditoria do Banco será constituído por três membros.

2. O Governo designara de entre os seus membros o respectivo presidente.

ARTIGO 64.º

Compete especificamente ao Conselho de Auditoria:

a) Verificar, sempre que o julgue conveniente, o estado de tesouraria e a situação financeira e


económica do Banco;
b) Assegurar-se de que as diligências respeitantes à cobrança coerciva de dívidas ao Banco se
realizam em conformidade com o previsto no presente diploma;
c) Assistir por delegação, quando o considere necessário ou seja convocado, às reuniões do Conselho
de Administração e outra órgãos colegiais do Banco, podendo participar nos debates, quando
convocado, e sempre sem direito de voto;
d) Dar parecer sobre as propostas de orçamento, as contas de gerência e os relatórios referentes a
cada ano;
e) Verificar execução das deliberações dos órgãos colegiais do Banco;
f) Dar parecer sobre os assuntos que lhe forem submetidos pelo Conselho de Administração ou pelo
Governo;

90
g) Pedir a atenção do Conselho de Administração do Banco para as questões que entendam
merecerem ponderação.

ARTIGO 65º

1. O Conselho de Auditoria reunira obrigatoriamente uma vez por mes e, ainda, sempre que o seu
presidente ou o Conselho de Administração o tenham por necessário, e só se considerara constituído de
forma a poder deliberar se estiverem presentes, pelo menos, dois dos seus membros.

2. As deliberações tomadas deverão constar de acta.

SECÇÃO V

Do pessoal

ARTIGO 66.º

1. Os trabalhadores do Banco, como empregados bancários, terão os seus direitos e obrigações


determinados em estatuto próprio, na elaboração do qual serão tidos em conta
direitos estabelecidos por legislação em vigor, sem prejuízo dos ajustamentos resultantes das grandes
linhas de política laboral definidas pelo Governo
2. O pessoal será organizado em sociograma, a partir do Conselho de Administração e a todos os
níveis de gestão com vista à participação activa e constante de todos os trabalhadores na vida do Banco.

3. Sempre que haja necessidade de realizar tarefas que saiam do esquema normal de actuação do
Banco, serão formados grupos de trabalho para estudo e realização das
mesmas, os quais integrarão os elementos necessários, independentemente da sua hierarquia e dos grupos
regulares em que se integrem.

ARTIGO 67.º

Será mantida dentro do Banco uma acção de formação permanente, coordenada e dinamizada por um
grupo de trabalho especial.

ARTTGO 68.º

l. Será distribuído regularmente pelo serviço de pessoal um boletim contendo toda a informação que
interesse aos trabalhadores do Banco, nomeadamente as admissões, colocações, transferências,
promoções, suspensões, exonerações, demissões, despedimentos, aposentações, regalias e suas alterações
e acção de formação.
2. Poderão ser chamados a colaborar na elaboração do boletim grupos de trabalho especiais.

3. O boletim será, distribuído a todos os trabalhadores, não aproveitando a qualquer deles a alegação
de ignorância do seu conteúdo.
91
CAPITULO IX.

Do orçamento e das contas

ARTIGO 69

O Banco reger-se-á pela sua legislação e regras próprias em tudo o que respeite e dos seus serviços,
ao pagamento das suas despesas e à apresentação, fiscalização e julgamento das suas contas.

ARTIGO 70.º

1. Anualmente será elaborado um orçamento do Banco compreendendo a previsão de todas as receitas


e despesas, bem como resultado provável.
2. Tal orçamento constitui um simples elemento de gestão e informação, devendo porém os desvios
sensíveis ser objecto de relatório justificativo a apresentar ao Governo no fim do exercício.

3. O orçamento do ano seguinte será comunicado ao Governo até 30 de Novembro do ano anterior.

ARTIGO 71.º

l. O Banco terá os livros de escrita, principais e auxiliares, que a lei determina para as instituições de
crédito.
2. Os livros de escrita principais não carecem de ser selados e terão termos de abertura e encerramento
assinados e rubricados, por meio de chancela, pelo governador.
3. Os demais livros de escrita e os outros elementos de contabilidade não obedecem a formalidades
especiais, salvo as determinadas pela Administração.

4. Os livros de escrita e outros elementos de contabilidade, bem como quaisquer processos, não
poderão sair da sede do Banco ou das suas dependências, ainda que requisitados por qualquer autoridade.

ARTIGO 72.º

1. As contas do Banco, referidas a 31 de Dezembro de cada ano, deverão ficar encerradas até ao fim
de Março do ano seguinte.

2. O balanço e a conta «Ganhos e Perdas», uma vez aprovados pela Administração, serão submetidos,
até 30 de Setembro, a julgamento do Tribunal Administrativo, acompanhados sem prejuízo de elementos
complementares julgados necessários, dos seguintes documentos:

a) Relação dos membros dos Conselhos de Administração e de Auditoria;


b) Nota dos saldos, no último dia do ano, do numerário em cofre e dos depósitos em instituições de
crédito estrangeiras, bem como dos títulos de crédito próprios ou de conta alheia;
c) Discriminação dos valores afectos à reserva monetária;
d) Cópias das actas das reuniões dos Conselhos de Administração e de Auditoria relativas à
aprovação das contas;

e) Relatórios dos Conselhos de Administração e de Auditoria.

CAPITULO X
92
Disposições diversas

ARTIGO 73.º

1. O Banco deverá conservar em arquivo os elementos da sua escrita principal, correspondência,


documentos comprovativos de operações realizadas e livros de contas correspondentes onde os mesmos se
encontrem escriturados.
2. O arquivo poderá ser, total ou parcialmente, microfilmado mediante autorização do Conselho de
Administração, podendo os originais ser destruídos após a microfilmagem.

ARTIGO 74.º

As reproduções autenticadas de documentos arquivados no Banco têm a mesma força probatória dos
originais, mesmo quando se trate de ampliações dos microfilmes.

ARTIGO 75.º

O Banco goza de isenção de todas as contribuições, impostos, taxas administrativas, imposto de


justiça e imposto do selo e demais imposições, gerais e especiais, nos mesmos termos que o Estado, salvo
os impostos directos ainda devidos, respeitantes o exercício de 1974 do Departamento do Banco Nacional
Ultramarino em Moçambique.

ARTIGO 76.º

Para as questões em que o Banco seja parte serão competentes os tributais comuns, a representação
forense do Banco ser assegurada por advogado.

ARTIGO 77.º

1. Os actos e contratos realizados pelo Banco e, bem assim todos os actos que importem a sua
revogação, rectificação ou alteração podem ser, e titulados por documento particular.
2. Quando se trate de actos sujeitos a registo, o documento particular deverá conter o reconhecimento
autêntico das assinaturas.
3. Os documentos através dos quais o Banco formalizar quaisquer negócios jurídicos ou contratos
servirão sempre de título executivo contra quem por ele se mostre devedor ao Banco, independentemente
de outras formalidades exigidas pela lei comum.

ARTIGO 78º

Considera-se de natureza confidencial e a coberto de sigilo bancário tudo quanto diga respeito a
depósitos, empréstimos ou quaisquer outras operações efectuadas no Banco, só podendo extrair-se
certidões ou prestar-se informes nos seguintes casos:

a) A pedido do titular das referidas operações;


b) Mediante despacho de juiz de direito ou equiparado, depois de previamente ouvido, por ofício,
o governador do Banco;
c) c) A solicitação do Governo, por meio de despacho do Ministro responsável pelos assuntos
económicos e financeiros.
93
ARTIGO 79.º

O número de votos de que o Banco porventura disponha, como accionista ou obrigacionista, nas
assembleias gerais de quaisquer sociedades anónimas, não pode ser limitado pelos respectivos estatutos.

94
ANEXO II – 2ª LOBM - Lei nº. 01/92, de 3 de Janeiro
Define a natureza, os objectivos e funções do Banco de Moçambique como Banco Central da República
de Moçambique.
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Lei nº. 01/92, de 03 de Janeiro
A actual conjuntura política e económica do país impõe às instituições de crédito uma nova dinâmica na
sua actuação como impulsionadoras do desenvolvimento económico.
A implementação do Programa de reabilitação económica e Social e o relacionamento cada vez mais
alargado do Banco de Moçambique com instituições financeiras internacionais vieram a acelerar a
necessidade de uma maior operacionalidade do Banco Central no seu papel de formulador e gestor da
política monetária e de crédito e de supervisor do sistema financeiro nacional.
A materialização desses objectivos passa, necessariamente, pela separação institucional das funções de
Banco Central das de Banco Comercial, por forma a permitir que o Banco de Moçambique assuma
plenamente as suas funções de Banco Central e a conferir maior competitividade aos bancos comerciais.
Nestes termos, ao abrigo do disposto no nº.1 do artigo 135 da Constituição, a Assembleia da República
determina:
CAPÍTULO I
Da natureza, sede, objectivo e fins
ARTIGO 1
1. O Banco de Moçambique, neste diploma designado por “banco” é uma pessoa colectiva de direito
público, dotada de autonomia administrativa e financeira, com a natureza de empresa pública.
2. O Banco rege-se pelas disposições do presente diploma e dos regulamentos que venham a ser
adoptados em sua execução.
3. O Banco tem a sua sede em Maputo e criará filiais ou agências, genericamente designadas por
dependências, onde as necessidades do exercício das suas funções o justifiquem.
ARTIGO 2
O Banco de Moçambique é o Banco Central da República de Moçambique.
ARTIGO 3
1. O Banco tem por objectivo principal a preservação do valor da moeda nacional.
2. No prosseguimento do seu objecto, o Banco visa ainda alcançar os seguintes fins:
a) promover a realização de correcta política monetária;
b) orientar a política de crédito com vista à promoção do crescimento e desenvolvimento económico
e social do país;
c) geriri disponibilidades externas de forma a manter adequado volume de meios de pagamento
necessários ao comércio internacional;
95
d) disciplinar a actividade bancária;
3. Na realização dos objectivos definidos nos nºs. 1 e 2 do presente artigo, o banco observa as políticas
do Governo.
CAPÍTULO II
Dos fundos próprios e outros recursos financeiros
ARTIGO 4
1. O capital do Banco é de cinquenta mil milhões de meticais, integralmente subscrito pelo Estado.
2. O capital do banco poderá ser aumentado mediante proposta do Conselho de Administração do
Governo.
3. O Banco dispõe ainda de fundos que resultarem da aplicação dos lucros nos termos do artigo 65 deste
diploma.
ARTIGO 5
Para o financiamento das operações compreendidas no seu objecto, além da utilização dos recursos
indicados no artigo 4, o banco poderá:
a) aceitar depósitos à vista do Estado e das instituições de crédito;
b) utilizar fundos provenientes de empréstimos concedidos por pessoas singulares ou colectivas,
estrangeiras ou internacionais;
c) utilizar fundos provenientes de depósitos obrigatórios das instituições de crédito;
d) realizar quaisquer outras operações passivas que não forem vedadas por lei.
ARTIGO 6
1. Os depósitos efectuados no Banco pelas instituições de crédito, ainda que se refiram a depósitos
obrigatórios, poderão ser remunerados.
2. O Estado garante o reembolso dos depósitos feitos ao Banco.
CAPÍTULO III
Da emissão monetária e das reservas internacionais cambiais
SECÇÃO I
Da emissão monetária
ARTIGO 7
1. O Banco tem o exclusivo e a obrigação da emissão de notas e de moeda divisionária em Moçambique.
2. Os valores de emissão e facial serão fixados de harmonia com os interesses da economia nacional,
reservado o estado, para sí, o direito à emissão de moeda comemorativa.

96
3. As notas e moedas têm curso legal em todo o país e poder liberatório ilimitado e são isentas de selo e
de quaisquer outros impostos.
4. As características e o valor facial das notas e moedas a emitir pelo Banco serão decididas pelo
governador do banco, depois da prévia aprovação do Presidente da República, nos termos da Lei
nº.1/91, de 09 de Janeiro.
5. As notas têm a data da emissão geral e são assinadas, por chancela, pelo Governador do Banco.
6. O banco tem a obrigação de fornecer à comunidade nacional, nas melhores condições de segurança e
comodidade, notas e moedas de boa qualidade e dificilmente imitáveis.
7. Os actos do Governador do Banco no exercício das competências atribuídas no nº.4 deste artigo
observarão a forma de aviso a publicar no Boletim da República.
ARTIGO 8
1. Compete ao banco fixar o prazo em que devem ser trocadas as notas e moedas de qualquer tipo ou
chapa que venham a ser retiradas de circulação, cuja divulgação deverá ser através de aviso público.
2. Findo o prazo fixado nos termos do número anterior, as notas e moedas tiradas de circulação perdem o
poder liberatório e o seu curso legal em todo o território nacional.
3. As notas recolhidas serão devidamente relacionadas e, depois, inutilizadas pela forma que vier a ser
regulamentada pelo Banco.
ARTIGO 9
O Banco assume a responsabilidade pelas outras notas e moedas emitidas nos termos do artigo 7.
ARTIGO 10
O Banco superintende as actividades ligadas à numismática, competindo-lhe regulamentar a
comercialização das moedas e a actividade dos respectivos agentes.
ARTIGO 11
A emissão monetária, representada pelas notas e moedas em circulação e demais responsabilidades à vista
em moeda nacional, é objecto de um programa anual, com revisões periódicas sempre que se julgar
necessário, o qual deverá prever a evolução dessa emissão e respectivos factores, de maneira a coordenar a
gestão das reservas cambiais e o crédito a conceder pelo banco com as necessidades de estabilização e
desenvolvimento da economia.
SESSÃO II
Da reserva monetária
ARTIGO 12
1. As reservas cambiais serão constituídas por:
1º. Ouro amoedado ou em barra;
2º. Prata fina e platina;
3º. Direito de saque especiais;
97
4º. Moeda estrangeira e outros activos expressos em moeda estrangeira de convertibilidade assegurada
sob a forma de:
a) créditos exigíveis à vista ou a prazo não superior a cento e oitenta dias e representados por saldos
de contas abertas sobre bancos de reconhecido crédito domiciliados no estrangeiro e em
instituições ou organismos monetários internacionais;
b) cheques e ordens de pagamento emitidos por entidades de reconhecido crédito sobre bancos de
primeira ordem domiciliados no estrangeiro;
c) letras em carteira, pagáveis à vista ou a prazo não superior a cento e oitenta dias, aceites por
bancos de primeira ordem domiciliados no estrangeiro;
d) títulos de tesouro ou outras obrigações análogas de Estados estrangeiros, vencidos ou a vencer
dentro de cento e oitenta dias;
e) Notas e moedas estrangeiras;
2. O Banco poderá incluir na reserva cambial qualquer outra espécie de valores activos sobre o exterior
que considere adequados, de acordo com as normas internacionais e depois de devidamente autorizado
pelo Governo.
ARTIGO 13
1. Os activos líquidos externos devem assegurar as necessidades do comércio internacional.
2. Se tais activos externos baixarem ou estiverem em vias de diminuição a ponto de pôr em risco a sua
adequação em relação às transacções internacionais do país, o Conselho de Administração do Banco
informará ao Governo da posição das reservas e das causas que levaram ou poderão levar a tal
situação, com as recomendações que reputar necessárias para a sua cobertura.
ARTIGO 14
1. Verificando-se uma alteração no valor dos activos ou do passivo do Banco em decorrência de
ajustamentos da moeda nacional em relação a outras moedas, o banco contabilizará os lucros ou
prejuízos numa conta especial de flutuação de valores.
2. Caso se verifique no final do exercício económico do Banco, um saldo devedor na conta especial de
flutuação de valores, o estado regularizará esse saldo por emissão de títulos da dívida pública a favor
do Banco ou outra modalidade proposta pelo Conselho de Administração do Banco.
3. Qualquer saldo credor na conta especial de flutuação de valores no final de cada exercício económico
será creditado numa conta cativa em nome do Estado em relação à qual o Banco poderá pagar juros à
taxa que o Conselho de Administração determinar.
4. O saldo referido no número anterior só poderá ser utilizado para a liquidação das responsabilidades
decorrentes do n.º 2 deste artigo.
5. Tanto os lucros como os prejuízos referidos neste artigo não serão incluídos no resultado final de cada
exercício.
6. A conta especial de flutuação de valores não poderá ser movimentada a crédito ou a débito excepto
nos casos previstos neste artigo.

98
ARTIGO 15
A emissão monetária do Banco, na parte que ultrapassar o nível das reservas cambiais, deverá ter
cobertura integral constituída pelos seguintes valores:
a) créditos sobre o estado decorrentes das operações previstas nos artigos 18 e 19;
b) títulos que constituam a carteira comercial do banco;
c) créditos resultantes de operações de empréstimos concedidos às instituições de crédito nos termos
da alínea b) do artigo 41;
CAPÍTULO IV
Das funções do Banco Central
SESSÃO I
Disposições gerais
ARTIGO 16
1. Como Banco Central, o Banco será o banqueiro do Estado, consultor do Governo no domínio
financeiro, orientador e controlador das políticas monetária, financeira e cambial, gestor das
disponibilidades externas do país, intermediário nas relações monetárias internacionais, supervisor das
instituições financeiras.
2. Compete ao Banco, assegurar a centralização e compilação das estatísticas monetárias, financeiras e
cambiais que julgue necessárias para a prossecução de uma política eficiente naqueles domínios.
3. Compete igualmente ao Banco controlar a actividade dos mercados monetário, financeiro e cambial.
SESSÃO III
Das funções de banqueiro do Estado
ARTIGO 17
O Banco será o banqueiro do Estado, dentro e fora do país:
ARTIGO 18
1. O Banco poderá conceder ao Estado anualmente, crédito sem juros sob a forma de conta corrente, em
moeda nacional, até ao montante máximo de dez por cento das receitas ordinárias do Orçamento Geral
do Estado arrecadadas no penúltimo exercício.
2. Os levantamentos do Estado na mesma conta serão feitos unicamente em representação das receitas
orçamentais do respectivo exercício e o crédito deverá estar liquidado até ao último dia do ano
económico, em que tiver sido aberto e não o sendo, o saldo vencerá juros á taxa de redesconto do
Banco.
ARTIGO 19
Além do caso previsto no número anterior, o limite de concessão de crédito pelo Banco ao Estado fica, em
cada ano, dependente da definição pelo Governo das necessidades de financiamento público, as quais
serão ajustadas à programação referida no artigo 11.
99
SESSÃO III
Das funções de consultor do Governo no domínio financeiro
ARTIGO 20
Como consultor do Governo, cabe ao Banco:
a) prestar informações e pareceres sobre questões de natureza monetária, financeira e cambial;
b) aconselhar nas negociações sobre acordos e financiamentos externos;
c) participar em reuniões “ad hoc” em matéria da política monetária, financeira e cambial.
SECÇÃO IV
Da política monetária e financeira
ARTIGO 21
1. Como orientador e controlador da política monetária, compete ao Banco, regular o funcionamento do
mercado monetário.
2. Como supervisor das instituições financeiras, compete ainda ao Banco regular o funcionamento do
mercado financeiro e estabelecer a ligação entre a actividade daquelas e as directivas da política
monetária e financeira.
ARTIGO 22
O Banco determinará, segundo as conveniências da política monetária e financeira, as modalidades, em
termos qualitativos e quantitativos, em que poderão ser concedidos empréstimos ou créditos a cada uma
das instituições financeiras, bem como o formalismo jurídico dessas operações.
ARTIGO 23
1. O Banco fixará a taxa de redesconto.
2. Compete ao Banco regulamentar, fixando limites, prazos e outras condições, as operações de
redesconto.
ARTIGO 24
Nas operações de redesconto que excedam os limites quantitativos fixados ou as regras qualitativas
estabelecidas poderá o Banco aplicar taxas diferentes das normais.
ARTIGO 25
1. O Banco fixará as taxas e comissões aplicáveis às demais operações próprias.
2. O Banco fixará o regime das taxas de juro, comissões e quaisquer outras formas de remuneração para
as operações efectuadas pelas instituições financeiras.

100
ARTIGO 26
O banco poderá, quando necessário, emitir instruções respeitantes ao volume, estrutura, termos e
condições do crédito a conceder pelas instituições financeiras e controlar a sua aplicação.
ARTIGO 27
1. O Banco estabelecerá às instituições de crédito um limite mínimo de depósitos obrigatórios, a serem
recolhidos ao Banco, proporcional aos valores dos depósitos à ordem, com pré-aviso e a prazo, e de
outras responsabilidades à vista dessas instituições, bem como a percentagem mínima das suas
responsabilidades de caixa.
2. O Banco poderá alterar, por razões de conjuntura monetária, o limite mínimo e a percentagem mínima
referidos no número anterior.
SECÇÃO V
Das funções de gestor das disponibilidades externas do país e da política cambial
ARTIGO 28
O banco é autoridade cambial da República de Moçambique.
ARTIGO 29
Salvo disposição de lei expressa, não podem ser efectuados quaisquer pagamentos externos sem que sejam
devidamente autorizados pelo Banco.
ARTIGO 30
Compete do Banco:
a) definir, para defesa da moeda nacional, os princípios reguladores das operações sobre o ouro e
divisas estrangeiras;
b) fixar os limites das disponibilidades em ouro e divisas estrangeiras que podem ser detidas pelas
entidades autorizadas a exercer o comércio de câmbios;
c) fixar os câmbios e dar-lhes divulgação diária;
d) licenciar e fiscalizar toda e qualquer actividade de recuperação, por meios químicos ou mecânicos
de ouro, prata e platina, que se encontram incorporados em ligas metálicas ou outros produtos.
ARTIGO 31
O Banco pode celebrar, em nome próprio ou em nome do Estado e por conta e ordem deste, com
estabelecimentos congéneres, públicos ou privados, domiciliados no estrangeiro, acordos de compensação
e pagamentos ou quaisquer contratos que sirvam as mesmas finalidades.
ARTIGO 32
1. A abertura, no exterior, de contas em moeda estrangeira por residentes nacionais depende de
autorização especial e prévia do Banco, sendo observados, para a respectiva movimentação, os termos
e condições estabelecidos na autorização.

101
2. A abertura de contas em moeda nacional por entidades não residentes depende de autorização prévia
do Banco que definirá os termos e condições da respectiva movimentação.
ARTIGO 33
Compete ao banco, em coordenação com o Ministério das Finanças, gerir a dívida externa, efectuar o seu
registo e intervir na sua contratação e renegociação de conformidade com as orientações do Governo.
SECÇÃO VI
Das relações monetárias internacionais
ARTIGO 34
O Banco poderá relacionar-se com instituições financeiras estrangeiras e internacionais.
ARTIGO 35
O Banco poderá celebrar contratos e assinar acordos bancários ou de cooperação com instituições
congéneres, públicas ou privadas de outros países e organizações internacionais.
ARTIGO 36
O Banco poderá participar no capital de instituições estrangeiras ou internacionais com atribuições
monetárias e cambiais e fazer parte dos respectivos órgãos sociais.
SECÇÃO VII
Das funções de supervisor das Instituições financeiras
ARTIGO 37
1. Para efeitos deste diploma, consideram-se subordinadas à supervisão do Banco Central todas as
instituições de crédito e outras que a lei lhe confere, com a excepção das companhias de seguro.
2. Para assegurar a supervisão das instituições a ela sujeitas, compete ao Banco, nomeadamente:
a) apreciar e dar parecer sobre os pedidos de constituição das referidas instituições , comvista á sua
operação bem como sobre a sua fusão, cisão ou transformação e propor a revogação das
autorizações concedidas, quando for caso disso;
b) definir as condições de abertura de filiais, agências, delegações e outras formas de representação
das mencionadas instituições, no território nacional ou no estrangeiro e decidir dos respectivos
pedidos;
c) apreciar o idoneidade dos titulares de participações sociais nas instituições em que representem
mais de dez por cento do respectivo capital social, bem como a aptidão técnico-profissional dos
seus administradores ou directores e definir as condições imperativas do exercício dessas funções;
d) estabelecer directivas para a actuação dessas instituições;
e) assegurar os serviços de centralização de informações e de riscos de crédito;

102
ARTIGO 38
1. Compete ao Banco realizar inspecções nos estabelecimentos das instituições financeiras sujeitas à sua
supervisão nos termos da lei.
2. Os trabalhadores do Banco encarregues de acções de inspecção deverão apresentar-se devidamente
credenciados e gozam dos atributos e poderes dos agentes de autoridade do Estado quando no
exercício das suas funções.
ARTIGO 39
Todas as instituições sujeitas á supervisão são obrigadas a enviar ao Banco, de harmonia com as
instruções por este transmitidas, os balancetes mensais e demais elementos relativos à sua situação e às
operações que realizem.
CAPÍTULO V
Das funções de Caixa de Tesouro
ARTIGO 40
1. O Banco desempenhará o serviço de caixa de tesouro onde exerce as funções bancárias, pagando por
conta do Estado, até ao limite dos fundo entregues à sua guarda, todas as suas despesas, recebendo as
suas receitas, realizando todas as suas operações bancárias e arrecadando ou restituindo todos os
depósitos para garantia ou sob guarda do Estado.
2. O disposto no nº.1 deste artigo é extensivo às instituições subordinadas ao Estado, e aos órgãos locais
do Estado, nos termos que vierem a ser estabelecidos.
3. Pelos serviços prestados ao Estado, nos termos do nº.1 do presente artigo, o Banco cobrará uma
comissão que for determinada pelo Conselho de Administração.
CAPÍTULO VI
Das operações do Banco
ARTIGO 41
De acordo com a política de crédito, o Banco pode efectuar as operações que justifiquem por força da sua
qualidade de Banco Central e, nomeadamente, as seguintes:
a) redescontar e descontar, por prazo que não exceda cento e oitenta dias, letras, livranças, extractos
de facturas, warrants e outros títulos de natureza análoga, provenientes das actividades produtivas
ou comerciais, devidamente garantidas pela entidade redescontante, nas condições a definir pelo
Banco;
b) conceder às instituições de crédito, empréstimos, por prazo que não exceda cento e oitenta dias,
nas modalidades e condições que considerem aconselháveis, caucionados por: ouro; títulos do
Tesouro e outros títulos de Estados estrangeiros cotados nas bolsas dos principais mercados
financeiros; títulos emitidos por outras pescas de direito público nacionais, quando possuam os
privilégios e garantias atribuídos pagáveis no país ou no estrangeiro, em moeda nacional ou
estrangeira;
c) aceitar depósitos à vista do estado e das instituições de crédito;

103
d) aceitar depósitos de títulos do Estado pertencentes às instituições financeiras;
e) emitir títulos á prazo não superior a um ano, com o objectivo de intervir no mercado monetário;
f) efectuar todas as operações sobre ouro e divisas estrangeiras;
g) fazer, por conta própria ou alheia, cobranças, pagamentos e transferências de fundos e quaisquer
outras operações bancárias que não sejam expressamente proibidas nesta lei.
ARTIGO 42
É vedado ao Banco:
a) aceitar depósitos e conceder crédito a pessoas singulares;
b) aceitar depósitos e conceder crédito a pessoas colectivas, salvo quando se trate de instituições de
crédito;
c) realizar outras operações próprias de bancos comerciais.
ARTIGO 43
No Banco funcionará a compensação de cheques e de outros títulos de crédito nos termos a fixar por
regulamento próprio.
CAPÍTULO VII
Da administração e fiscalização do Banco de Moçambique
SECÇÃO I
Disposições gerais
ARTIGO 44
1. São órgãos de administração e fiscalização do Banco o conselho de administração e o conselho de
auditoria.
2. Constitui órgão de apoio e consulta ao conselho de administração do Banco, o conselho consultivo.
3. Não podem ser membros dos órgãos indicados no nº.1 deste artigo:
a) os indivíduos que revelem nas fichas de informação do sistema bancário nacional, ser faltosos no
cumprimento das suas obrigações contratuais;
b) os que tiverem sido judicialmente condenadas por crimes dolosos contra a propriedade do Estado
ou privada, seja qual for a pena aplicada;
c) os declarados judicialmente responsáveis de irregularidades no exercício de funções públicas ou
privadas;
d) as pessoas com posição de chefia em quaisquer instituições de crédito ou financeiras.
SECÇÃO II
Do conselho de administração

104
ARTIGO 45
1. O conselho de administração do Banco é composto por um Governador, que preside as suas sessões,
por um Vice-Governador e por quatro a seis administradores.
2. O Governador do Banco poderá determinar a participação no conselho de administração de outros
elementos cuja presença considere conveniente.
3. Os membros do conselho de administração exercem as suas funções por períodos renováveis de cinco
anos.
4. O Governador e Vice-Governador do Banco, são nomeados, exonerados e demitidos pelo Presidente
da República, nos termos da constituição da República.
5. Os administradores são nomeados, exonerados e demitidos pelo Primeiro-Ministro, devendo a
nomeação incidir sobre pessoas de reconhecida competência em matéria monetária e financeira,
económica ou jurídica.
6. Os membros do conselho de administração só podem ser demitidos havendo justa causa.
ARTIGO 46
1. Ao conselho de administração compete em geral a prática de todos os actos necessários à prossecução
dos fins que ao Banco são cometidos nesta lei.
2. Compete especialmente:
a) deliberar sobre a organização geral do Banco e sobre o estabelecimento ou encerramento de
qualquer filial, agência ou dependência do banco e nomeação de correspondentes;
b) definir a política de gestão do pessoal do Banco e aprovar o respectivo quadro e vencimentos;
c) aprovar os regulamentos internos;
d) aprovar o orçamento anual do banco;
e) elaborar o relatório e as contas de gerência e propor a aplicação dos resultados nos termos desta
lei;
f) autorizar a aquisição e alienação de bens móveis e imóveis;
g) aprovar o programa monetário;
h) orientar e controlar o sistema bancário e fixar reservas de liquidez e obrigatórias das instituições de
crédito;
i) aprovar o plano de contas do sistema bancário;
j) estabelecer o regime de taxas e comissões das operações activas e passivas e serviços a praticar
pelo sistema bancário;
k) deliberar sobre a regulamentação dos câmbios;
l) emitir pareceres ou deliberar acerca das matérias que lhe sejam cometidas por lei ou apresentadas
pelo Governo ao Banco ou acerca das quais entenda dever pronunciar-se;

105
m) delegar poderes em trabalhadores do banco quando o entender necessário;
ARTIGO 47
1. Compete, em especial, ao Governador:
a) representar o Banco junto do Governo;
b) presidir as sessões do conselho de administração;
c) definir a constituição de pelouros e proceder à sua distribuição pelos membros do Conselho de
Administração;
d) exercer o direito de suspensão de deliberações do Conselho de Administração;
e) representar o Banco em todos os actos junto de organismos nacionais e estrangeiros ou
internacionais;
f) decidir sobre as características e o valor facial das notas e moedas do Metical;
g) decidir sobre a emissão e recolha de notas e moedas;
h) ordenar as inspecções que reputar convenientes;
i) apresentar ao Governo os assuntos que lhe devam ser submetidos e informá-lo sobre a situação do
Banco;
j) assinar a correspondência oficial com os órgãos superiores do Estado;
k) intervir em todos os actos que a lei ou o regulamento explícita ou implicitamente lhe cometam e
superintender em todo o que se relacione com os interesses do Banco e com as suas actividades;
2. O Governador do Banco poderá delegar em cada um dos membros do Conselho de Administração
ou em trabalhador superior do Banco, se as conveniências de serviço o exigirem, qualquer acto da
sua competência, salvo as competências referidas nas alíneas c), d), f), e g) do nº.1 deste artigo.
ARTIGO 48
1. O Governador será substituído, nas suas faltas ou impedimentos, pelo Vice-Governador e na falta
deste, por um administrador escolhido pelo Governador.
2. O substituto legal do Governador só poderá decidir sobre as matérias das alíneas c), d) e g) do nº.1 do
artigo anterior, sob o parecer do conselho de administração;
3. O substituto legal não poderá decidir sobre a matéria da alínea f) do nº.1 do artigo anterior.
ARTIGO 49
1. O Governador tem sempre voto de qualidade nas reuniões a que preside e pode suspender, nos termos
da alínea d) do artigo 47 da presente lei, o cumprimento das deliberações do conselho de
administração quando considere manifestamente contrárias á lei, regulamentos ou aos interesses do
país.
2. As deliberações suspensas nos termos do número anterior serão apreciadas definitivamente pelo
Conselho de Administração em sessões seguintes.

106
ARTIGO 50
1. O conselho de administração reunirá ordinariamente pelo menos uma vez por semana e,
extraordinariamente, sempre que o Governador o convoque, devendo, para poder deliberar, estar
presente mais de metade dos seus membros em efectividade.
2. As deliberações do Conselho de Administração serão sempre exaradas em acta e serão tomadas por
mais de metade dos votos presentes, não sendo permitidas abstenções, salvo os casos previstos no nº.4
do artigo seguinte.
3. Os membros do conselho de administração poderão ditar para a acta a súmula das suas intervenções,
sendo-lhes ainda facultado votar «vencido» quanto às decisões de que discordem.
4. Os membros do conselho de administração são colectivamente responsáveis pelas decisões tomadas e
individualmente pela sua implementação.
ARTIGO 51
1. É vedado aos membros do conselho de administração do Banco, fazer parte dos corpos gerentes de
outra instituição de crédito ou nesta exercer cumulativamente quaisquer funções, salvo quando em
representação do Banco.
2. Os membros do conselho de administração não poderão exercer quaisquer funções profissionais
remuneradas fora do Banco ou ser membros dos corpos sociais de qualquer sociedade, salvo prévia
autorização do Governador do Banco.
3. Os membros do conselho de administração não poderão usar da sua qualidade e posição para alcançar
benefícios pessoais ou de seus familiares.
Sempre que o conselho de administração tiver que discutir um assunto em que estejam envolvidos
interesses de ordem comercial, financeira, agrícola, industrial ou de quaisquer outras actividades
lucrativas de um membro do conselho de administração, seu cônjuge, ascendentes, descendentes e
demais parentes em 1º grau, este deve declarar-se impedido de participar.
4. Ocorrendo situação do conflito de interesses referidos no número anterior, o membro do conselho de
administração visado abster-se-á de votar.
SECCÃO III
Do conselho de auditoria
ARTIGO 52
1. O conselho de auditoria exercerá a fiscalização das actividades do Banco e os seus membros podem,
em conjunto ou separadamente, efectivar tais inspecções sempre que julguem necessário.
2. O conselho de auditoria será composto por quatro membros, dos quais três nomeados pelo Ministro
das Finanças e um eleito pelos trabalhadores do Banco, por um período de três anos renováveis.
De entre os membros nomeados pelo Ministro das Finanças, será designado o presidente do conselho
de auditoria.
3. Os membros do conselho de auditoria devem ser escolhidos de entre personalidades de reconhecida
competência em matéria monetária, financeira, económica ou jurídica.

107
ARTIGO 53
1. Compete especialmente ao conselho de auditoria:
a) acompanhar o funcionamento do Banco e o cumprimento das leis e regulamentos que lhe são
aplicáveis;
b) verificar, sempre que julgue conveniente, o estado da tesouraria e a situação financeira e
económica do Banco;
c) assegurar-se de que as diligências respeitantes à cobrança coerciva de dívidas ao Banco se
realizam em conformidade com o previsto no presente diploma;
d) assistir por delegação, um dos seus membros quando o considerar necessário ou seja convocado, às
reuniões do conselho de administração, podendo participar nos debates, quando convocado, e
sempre sem direito de voto;
e) dar parecer sobre as propostas de orçamento, as contas de gerência e os relatórios referentes a cada
ano.
f) Verificar a execução das deliberações do conselho de administração do Banco;
g) Dar parecer sobre os assuntos que lhe forem submetidos pelo Conselho de Administração do
Banco ou pelo Governo;
h) Pedir a atenção do conselho de administração do Banco para as questões que entenda merecerem
ponderação;
3. O conselho de auditoria pode ser coadjuvado por técnicos especialmente designados ou contratados
para esse efeito ou por empresas especializadas em trabalho de auditoria.
4. Os membros do conselho de auditoria têm direito à gratificação mensal fixada pelo Governo.
ARTIGO 54
1. O conselho de auditoria reunirá obrigatoriamente uma vez por mês, e ainda, sempre que o seu
presidente ou o conselho de administração o tenham por necessário, e só se considerará constituído de
forma a poder deliberar se estiverem pelo menos, dois membros.
2. As deliberações tomadas deverão constar de acta.
SECCÃO IV
Do conselho consultivo
ARTIGO 55
1. O conselho consultivo é um órgão alargado de consulta do conselho de administração e é constituído
por membros do conselho de administração, directores do Banco e gerentes de filiais.
2. O Governador do Banco pode convidar, para as sessões do conselho consultivo, quadros superiores do
Banco, representantes de ministérios económicos, de outras instituições de crédito, e bem assim de
sindicatos do ramo bancário.

108
ARTIGO 56
1. Compete ao conselho consultivo:
a) apreciar questões de interesse relevante para as actividades do Banco e para a economia nacional;
b) apreciar questões sobre a organização e funcionamento do Banco;
c) apreciar os assuntos que lhe forem expressamente cometidos pelo conselho de administração;
d) fazer balanço de actividades e programar acções futuras.
2. O conselho consultivo reúne ordinariamente uma vez por ano e extraordinariamente sempre que
convocado pelo Governador do Banco.
SECÇÃO V
Do pessoal
ARTIGO 57
1. Os trabalhadores do Banco, como empregados bancários terão os seus direitos e obrigações
determinadas em estatuto próprio, na elaboração do qual serão tidos em conta direitos estabelecidos
por legislação em vigor, sem prejuízo dos ajustamentos resultantes das grandes linhas de política
laboral definidos pelo Governo.
2. O pessoal será organizado em colectivos de trabalho, a todos os níveis de gestão, com vista á
participação activa e constante de todos os trabalhadores na vida do Banco.
ARTIGO 58
Será mantido no Banco um sistema permanente de formação e desenvolvimento de recursos humanos.
ARTIGO 59
1. O Banco pode conceder empréstimos destinados a facilitar aos seus trabalhadores a aquisição de bens
móveis e utensílios, construção, ampliação ou beneficiação de habitação própria permanente, nas
condições que vierem a ser estabelecidas pelo conselho de administração.
2. O Banco pode adquirir ou construir prédios destinados a habitação própria dos seus trabalhadores
mediante renda amortização, nas condições a estabelecer ou a fins de natureza social.
3. O Banco apoiará as iniciativas dos trabalhadores nos domínios social, cultural e recreativo, de
reconhecido interesse e viabilidade e que se mostrem compatíveis com a natureza da instituição e
segundo regulamento a ser aprovado pelo conselho de administração.
ARTIGO 60
O Banco poderá criar um fundo especial e com regulamentação apropriada, financiado com recursos
provenientes da participação de trabalhadores e do próprio Banco, em complemento ao sistema de
previdência social em vigor ou que vier a vigorar, de forma a garantir a totalidade dos salários correntes,
bem como a sua actualização a partir da data da reforma.
CAPÍTULO VIII
Do orçamento e dos registos contabilísticos,
109
Balanço e contas de resultados
ARTIGO 61
O Banco reger-se-á pela sua legislação e regras próprias em tudo o que respeite à organização do
orçamento, à execução dos seus serviços, ao pagamento das suas despesas e à apresentação, fiscalização e
julgamento das suas contas.
ARTIGO 62
1. Anualmente será elaborado um orçamento de exploração do Banco.
2. O orçamento de cada ano será comunicado ao Ministro das Finanças até 30 de Novembro do ano
anterior.
ARTIGO 63
1. O Banco terá os livros de escrita, principais e auxiliares, que a lei determina para as instituições de
crédito.
2. Os livros de escrita e outros elementos de contabilidade, bem como quaisquer processos, não poderão
sair da sede do Banco ou das suas dependências, ainda que requisitados por qualquer autoridade.
ARTIGO 64
As contas do Banco, referidas a 31 de Dezembro de cada ano, deverão estar encerradas e enviadas ao
Ministério das Finanças até ao fim de Março do ano seguinte.
ARTIGO 65
Os lucros líquidos apurados em cada exercício serão distribuídos pela forma que vier a ser aprovada pelo
Governo sob proposta do Conselho de Administração.
ARTIGO 66
1. Sempre que o valor do activo se tornar inferior à soma do valor do passivo e do capital realizado, o
Ministério das Finanças, por proposta do conselho de administração do Banco, emitirá títulos de
dívida pública a favor do Banco pelo montante que se mostrar necessário para sanar a situação.
2. Os títulos de dívida pública emitidos nos termos do número anterior e do artigo 14, serão resgatados
no fim de cada exercício numa percentagem a propor ao Ministro das Finanças, pelo conselho de
administração do Banco e a deduzir dos lucros líquidos do referido exercício depois de deduzidos o
valor da reserva legal.
CAPÍTULO IX
Disposições diversas
ARTIGO 67
1. O Banco deverá conservar em arquivo os elementos da sua escrita principal, correspondência,
documentos comprovativos de operações realizadas e livros de contas correntes onde os mesmos se
encontrem escriturados.

110
2. O arquivo poderá ser total ou parcialmente, microfilmado, mediante autorização do conselho de
administração, podendo os originais ser destruídos após a microfilmagem, decorridos dez anos.
ARTIGO 68
As reproduções autenticadas de documentos arquivados no Banco tem a mesma força probatória dos
originais, mesmo quando se trate de ampliações dos microfilmes.
ARTIGO 69
O Banco goza de isenção de todas as contribuições, impostos, taxas, licenças administrativas, imposto de
justiça, imposto de selo e demais imposições gerais e especiais, nos mesmos termos que o Estado.
ARTIGO 70
1. Para as questões em que o Banco seja parte serão competentes os tribunais comuns, podendo a
representação forense do Banco ser assegurada por advogado.
2. Não poderá ser oposta a qualquer acção proposta pelo Banco a excepção da incompetência relativa,
mas quando as acções sejam propostas nos tribunais territorialmente incompetentes a dilação mínima
será de vinte dias.
ARTIGO 71
1. Os actos e contratos realizados pelo Banco e, bem assim, todos os actos que importem a sua
revogação, rectificação ou alteração podem ser titulados por documento particular.
2. Quando se trate de actos sujeitos a registo, o documento particular deverá conter o reconhecimento
autêntico das assinaturas.
3. Os documentos através dos quais o Banco formaliza quaisquer negócios jurídicos ou contratos servirão
sempre de título executivo contra quem por ele se mostre devedor ao Bano, independentemente de
outras formalidades exigidas pela lei comum.
4. Com respeito aos negócios jurídicos ou contratos em que participar, os créditos do Banco gozarão de
privilégio creditório, independentemente das garantias que tiverem sido constituídas, e serão
graduados logo após os créditos do Estado.
ARTIGO 72
1. O Banco dispõe de cartório notarial privativo, onde serão lavradas as escrituras e demais actos em que
outorgue ou seja interessado e necessite de intervenção notarial.
2. O notário e seus ajudantes serão nomeados pelo Ministro da Justiça mediante proposta do Governador
do Banco e a sua competência é cumulativa e em tudo idêntica à dos funcionários com categoria
equivalente dos cartórios notariais públicos.
3. Os documentos lavrados ou autenticados pelo notário e seus ajudantes serão, para todos os efeitos,
considerados autênticos.
4. Os elementos e compensações de despesas devidos pelos actos efectuados no cartório privativo ou
pela extracção de certidões e fotocópias serão contados de harmonia com a legislação notarial vigente,
considerados receita do Banco e como tal escriturados.

111
ARTIGO 75
1. Considera-se de natureza confidencial e a coberto de sigilo bancário tudo quanto diga respeito a
depósitos, operações de crédito, garantias, relações com o exterior, ou quaisquer outras operações
efectuadas no Banco, só podendo extrair-se certidões ou prestar-se informações nos seguintes casos:
a) a pedido do titular das referidas operações;
b) mediante despacho do juiz de direito depois de previamente ouvido, por ofício, o Governador do
Banco;
2. Constitui ainda matéria coberta pelo sigilo bancário informações sobre medidas de política monetária e
segurança do Banco, as quais só poderão ser prestadas exclusivamente pelo Governador do Banco.
ARTIGO 76
O Banco poderá conceder donativos ou subsídios, dentro dos limites para o efeito fixados no respectivo
orçamento.
ARTIGO 77
1. O Banco dispõe de um sistema privativo de segurança e protecção.
2. Sem prejuízo do referido no número anterior, o Estado garante a segurança e a protecção dos
estabelecimentos e do transporte de fundos e valores do Banco.
ARTIGO 78
Os membros do conselho de administração e trabalhadores do banco não poderão aceitar, directa ou
indirectamente, quaisquer comissões ou presentes por prestação de serviços, quer destinados a sí quer a
cônjuges, ascendentes, descendentes e demais parentes em 1º grau.
ARTIGO 79
As instituições financeiras que deixarem de acatar quaisquer das instruções do Banco serão sujeitas às
sanções pecuniárias ou taxas cominatórias fixadas em lei.
ARTIGO 80
1. O Banco sucede automática e globalmente ao actual Banco de Moçambique e conserva a
universalidade dos direitos e obrigações integrantes do património de que este é titular até a entrada
em vigor da presente lei.
2. Os trabalhadores ao serviço, os pensionistas e reformados do actual Banco de Moçambique, mantêm
todos os direitos e obrigações adquiridos à data da entrada em vigor da presente lei.
ARTIGO 81
Compete ao Conselho de Ministros, sob proposta do Banco de Moçambique, definir os recursos humanos,
materiais e financeiros a serem afectos ao Banco Comercial a criar.
ARTIGO 82
A presente lei revoga o Decreto nº.2/75, de 17 de Maio, do Governo de Transição.
Aprovada pela Assembleia da República
112
O Presidente da Assembleia da República, Marcelino dos Santos.
Promulgada em 3 de Janeiro de 1992.
Publique-se.
O Presidente da República, JOAQUIM ALBERTO CHISSANO

113
Segunda-Feira, 01 de Novembro de 1999 I SÉRIE – Número 43

BOLETIM DA REPÚBLICA
PUBLICAÇÃO OFICIAL DA REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE

4º SUPLEMENTO
SUMÁRIO
Assembleia da República
Lei nº 15/99:
Regula o estabelecimento e o exercício da actividade das instituições de crédito e das Sociedades Financeiras
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Lei nº 15/99
De 01 de Novembro
A dinâmica do funcionamento do sistema financeiro, caracterizada pelo surgimento constante de novos
produtos e instituições, recomenda a revisão da legislação actualmente aplicável às instituições de crédito,
auxiliares de crédito e de intermediação financeira não monetárias.
Para além da introdução de uma nova classificação das instituições tendo em conta o seu objecto, urge adoptar
certas medidas tendentes a melhor disciplinar a sua actividade, no sentido de garantir uma adequada gestão dos
fundos a elas confiados, oferecendo assim maior segurança aos utentes do sistema financeiro.
Nestes termos, ao abrigo do disposto no nº 01 do artigo 135 da Constituição, a Assembleia da República
determina:

CAPÍTULO I
Disposições Gerais
ARTIGO 1
(Objecto da Lei)
A presente Lei regula o estabelecimento e o exercício da actividade das instituições de crédito e das sociedades
financeiras.
I SÉRIE – Número 43
ARTIGO 2
(Definições)
Para efeitos da presente Lei, entende-se por:
a) Instituições de Crédito: empresas cuja actividade consiste em receber do público depósitos ou outros
fundos reembolsáveis, a fim de os aplicarem por conta própria mediante a concessão de crédito;
b) Sociedades Financeiras: empresas que não sejam instituições de crédito e cuja actividade principal consiste
em exercer uma ou mais das actividades referidas nas alíneas b) a g) do nº1 do artigo 4 da presente Lei.
2. Ainda para efeitos desta Lei, entende -se por:
a) Agência: Estabelecimento, no país, de instituição de crédito ou sociedade financeira com sede em
Moçambique, ou estabelecimento suplementar a sucursal, no país. De instituição de crédito ou sociedade
financeira com sede no estrangeiro, desprovido de personalidade jurídica e que efectue, directamente, mo todo
ou em parte, operações inerentes à actividade da empresa:
b) Autorização: Acto emanado das autoridades das autoridades competentes e que confere o direito de exercer
a actividade de instituição de crédito ou de sociedade financeira;
c) Casas de Câmbio: Sociedades financeiras que têm por objecto principal a compra e venda de moeda
estrangeira e cheques de viagem podendo ainda realizar outras operações cambiais nos termos estabelecidos
por lei;
d) Crédito: Acto pelo qual uma entidade, agindo a título oneroso, coloca ou promete colocar fundos à
disposição de uma outra entidade contra a promessa de esta lhos restituir na data de vencimento, ou contrai, no
interesse da mesma, uma obrigação por assinatura;
114
e) Cooperativas de crédito: instituições de crédito constituídas sob forma de sociedades cooperativas, cuja
actividade é desenvolvida a serviço exclusivo dos seus sócios;
f) Depósito: contrato pelo qual uma entidade recebe fundos de outra, ficando com o direito de deles dispor
para os seus negócios e assumindo a responsabilidade de restituir outro tanto, com ou sem juro, no prazo
convencionado ou a pedido do depositante;
g) Filial: pessoa colectiva relativamente à qual outra pessoa colectiva, designada por empresa-mãe, se encontra
em relação de domínio, considerando-se que a filial de uma filial é igualmente filial da empresa mãe de que
ambas dependem;
h) Participação Qualificada: detenção numa sociedade, directa ou indirectamente, de percentagem não
inferior a 10% do capital ou dos direitos de voto. Consideram-se equiparados aos direitos de voto da
participante:
i)Os direitos detidos pelas entidades por aquela dominadas ou que com ela se encontrem numa relação de
grupo;
ii) os direitos detidos pelo cônjuge não separado judicialmente ou por descendente de menor idade;
iii) os direitos detidos por outras entidades, em nome próprio ou alheio, mas por conta da participante ou das
pessoas atrás referidas.
iv) os direitos inerentes a acções de que a participante detenha o usufruto.
i) Relação de domínio: relação que se dá entre uma pessoa singular ou colectiva e uma sociedade, quando a
pessoa em causa se encontre numa das seguintes situações:
i) detenha, directa ou indirectamente, a maioria dos direitos de voto da participante os direitos de qualquer
outra sociedade que com ela se encontre numa relação de grupo;
ii) seja sócia da sociedade e controlo por sí só, em virtude de acordo concluído com outros sócios desta, a
maioria dos direitos de voto;
iii) detenha uma participação não inferior a 20% do capital da sociedade, desde que exerça efectivamente sobre
esta uma influência dominante ou se encontrem ambas sob direção única;
iv) seja sócia da sociedade e tenha o direito de designar ou destituir mais de metade dos membros do órgão de
administração ou de fiscalização;
v) possa exercer uma influência dominante sobre a sociedade por força de contrato ou estatutos desta;
j) Relação de grupo: relação que se dá entre duas ou mais pessoas singulares ou colectivas que constituam
uma única entidade do ponto de vista de risco assumido, por estarem de tal firma ligadas que, na eventualidade
de uma delas deparar com problemas financeiros, a outra ou todas as outras terão, provavelmente, dificuldades
em cumprir as suas obrigações. Com excepção das empresas públicas ou de outra natureza controladas pelo
Estado, considera-se que existe esta relação de grupo, nomeadamente, quando:
i) Há relação de domínio de uma sobre a outra ou sobre outras;
ii) existiam accionistas ou associados comuns, que exerçam influência nas sociedades em questão;
iii) existiam administradores comuns;
iv) haja interdependência comercial directa que não possa ser substituída a curto prazo;
k) Sociedades administradoras de compras em grupo: sociedades financeiras que têm por objectivo
exclusivo a administração de compras em grupo. Entende-se por compras em grupo o sistema de aquisição de
bens ou serviços pelo qual um conjunto determinado de pessoas designadas participantes, constitui um fundo
comum, mediante a entrega periódica de prestação pecuniárias, com vista à aquisição, por cada participante,
daqueles bens ou serviços ao longo de um período de tempo previamente estabelecido.
l) Sociedades correctoras: sociedades financeiras que tem por objecto principal o exercício da actividade de
intermediação em bolsa de valores, através do recebimento de ordens dos investidores para a transacção de
valores mobiliários e respectiva execução, podendo, no âmbito do mercado de valores mobiliários, realizar
outras actividades que lhes sejam permitidas por lei;
m) Sociedades de capital de risco: sociedades financeiras que tem por objecto o apoio e promoção do
investimento em empresas, através da participação temporária no respectivo capital social.
n) Sociedades de factoring: instituições de crédito que têm por objecto exclusivo o exercício da actividade de
factoring ou cessão financeira o contrato pelo qual uma das partes (factor) adquire, da outra (aderente), créditos
a curto prazo, derivados da venda de produtos ou da prestação de serviços a uma terceira pessoa (devedor).

115
o) Sociedades de investimento: instituições de crédito que têm por objecto principal a concessão de crédito e
a prestação de serviços conexos, nos termos que lhes sejam permitidos por lei;
p) Sociedades de locação financeira: instituições de crédito que tem por objecto exclusivo o exercício de
actividade de locação financeira. Entende -se por locação financeira o contrato pelo qual uma das partes
(locador) se obriga, mediante retribuição, a ceder à outra (locatário) o gozo temporário de uma coisa, móvel ou
imóvel, adquirida ou construída por indicação do locatário e que este pode comprar, decorrido o período
acordado, por um preço determinado ou determinável mediante simples aplicação dos critérios fixa dos no
contrato.
q) Sociedades financeiras de corretagem: sociedades financeiras que tem por objecto principal o exercício da
actividade de intermediação em bolsa de valores, quer através do recebimento de ordens dos investidores para
a transacção de valores mobiliários e respectiva execução, quer através da realização de operações de compra e
venda de valores mobiliários por conta própria, podendo realizar outras actividades, no âmbito do mercado de
valores mobiliários, que lhes sejam permitidas por lei;
r) Sociedades gestoras de patrimónios: sociedades financeiras Que têm por objecto exclusivo o exercício do
da actividade de administração de conjuntos de bens pertencentes a terceiros;
s) Sociedades gestoras de fundos de investimento: sociedades financeiras que têm por objecto exclusivo a
administração, em representação dos participantes, de um ou mais fundos de investimento .
Entende-se por fundos de investimento o conjunto de valores resultantes de investimentos de capitais recebidos
do público e representados por unidades de participação;
t) Sucursal: Estabelecimento principal, em Moçambique, de instituição de crédito ou sociedade financeira
com sede no estrangeiro, ou estabelecimento principal, no estrangeiro, de instituição de crédito ou sociedade
financeira com sede em Moçambique, desprovido de personalidade jurídica e que efectue directamente, no
todo ou em parte, operações inerentes à actividade da empresa.
ARTIGO 3
(Espécies de instituições de crédito)
São instituições de crédito:
a) os bancos;
b) as sociedades de locação financeira;
c) as cooperativas de crédito;
d) as sociedades de factoring;
e) as sociedades de investimento;
f) outras empresas que, correspondendo à definição da alínea a) do nº 1 do artigo 2, como tal sejam
qualificadas por diploma legal específico.
ARTIGO 4
(Actividade das Instituições de Crédito)
1. Os bancos podem exercer as seguintes actividades:
a) recepção do público, de depósitos ou outros fundos reembolsáveis;
b) operações de crédito, incluindo concessão de garantias e outros compromissos, excepto locação financeira e
factoring;
c) operações de pagamentos;
d) emissão e gestão de meios de pagamento, tais como cartões de crédito, cheques de viagem e cartas crédito;
e) transações, por conta própria ou alheia, sobre instrumentos do mercado monetário, financeiro e cambial;
f) participação em emissões e colocações de valores mobiliários e prestação de serviços correlativos;
g) consultoria, guarda, administração e gestão de carteira de valores mobiliários;
h) operações sobre metais preciosos, nos termos estabelecidos pela legislação cambial;
i) tomada de participações no capital de sociedades;
j) comercialização de contratos de seguro;
k) aluguer de cofres e guarda de valores;
l) consultoria de empresas em matéria de estrutura de capital, de estratégia empresarial e questões conexas.
m) Outras operações análogas e que a lei lhes não proíba.
2. As restantes instituições de crédito só podem efectuar as operações que lhes sejam permitidas pelos
diplomas legais específicos que rejam a sua actividade.
116
ARTIGO 5
(Espécies de sociedades financeiras)
São sociedades financeiras:
a) as sociedades financeiras de corretagem;
b) as sociedades corretoras;
c) as sociedades gestoras de fundos de investimento;
d) as sociedades gestoras de património;
e) as sociedades de capital de risco;
f) as sociedades administradoras de compras em grupo;
g) as casas de câmbio;
h) outras empresas que correspondendo à definição da alínea b) do nº1 do artigo 2, sejam como tal qualificadas
por diploma específico.
2 . Para efeitos desta lei, não se consideram sociedades financeiras as seguradoras e as sociedades gestoras de
fundos de pensões.
ARTIGO 6
(Actividades das sociedades financeiras)
As sociedades financeiras só podem efectuar as operações que lhes sejam permitidas pelos diplomas legais
específicos que regem a respectiva actividade.
ARTIGO 7
(Princípio da exclusividade)
1. Só as instituições de crédito podem exercer a actividade de recepção do público, de depósitos ou outros
fundos reembolsáveis.
2. Só as instituições de crédito e as sociedades financeiras podem exercer, a título profissional, as actividades
referidas nas alíneas b) a g) do nº1 do artigo 4.
3. O disposto no nº1 não obsta a que as seguintes entidades recebam, do público, fundos reembolsáveis, nos
termos das disposições legais, regulamentares ou estatuárias aplicáveis:
a) Estado e autarquias locais;
b) Fundos e institutos públicos dotados de personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira;
c) Seguradoras, no respeitante a operações de capitalização.
4. O disposto no nº2 do presente artigo não obsta a que as seguintes entidades realizem a actividade de
concessão de crédito:
a) as pessoas referidas na alínea b) do número anterior;
b) pessoas singulares e outras pessoas colectivas não previstas nos números anteriores, nos termos aprovados
pelo Conselho de Ministros;
ARTIGO 8
(Fundos reembolsáveis recebidos do público e concessão de crédito)
1. Para efeitos da presente lei, não são considerados como fundos reembolsáveis recebidos do público os
fundos obtidos mediante emissão de obrigações, nos termos do código Comercial.
2. Para efeitos desta lei, não são considerados como concessão de crédito:
a) os suprimentos e outras formas de empréstimos e adiantamentos entre uma sociedade e os respectivos
sócios.
b) Empréstimos concedidos por empresas aos seus trabalhadores no âmbito da sua política de pessoal;
c) As dilações ou antecipações de pagamentos acordados entre as partes em contratos de aquisição de bens ou
serviços;
d) As operações de tesouraria, quando legalmente permitidas, entre sociedades que se encontrem numa relação
de domínio ou de grupo;
e) A emissão de senhas ou cartões para pagamento dos bens e serviços fornecidos pela empresa emitente.
ARTIGO 9
(Entidades habilitadas)
Estão habilitadas a exercer as actividades a que se refere a presente Lei as seguintes entidades:
a) instituições de crédito e sociedades financeiras com sede em Moçambique;
b) Sucursais em Moçambique, de instituições de crédito e de sociedades financeiras com sede no estrangeiro.
117
ARTIGO 10
(Verdade das firmas ou denominações)
1. Só as instituições de crédito e sociedades financeiras podem incluir na sua firma ou denominação, ou usar no
exercício da sua actividade, expressões que surgiram actividade própria das instituições de crédito ou das
sociedades financeiras, designadamente “banco”, “banqueiro”, “de crédito”, “de depósitos”, “locação
financeira”, “leasing” e “factoring”.
2. As referidas expressões são sempre usadas por forma a não induzirem o público em erro quanto ao âmbito
das operações que a entidade em causa possa praticar.
CAPÍTULO II
(Instituições de crédito e sociedades financeiras com sede em Moçambique)
SECÇÃO I
Princípios gerais
ARTIGO 11
(Requisitos gerais)
1. As instituições de crédito com sede em Moçambique devem satisfazer os seguintes requisitos:
a) corresponder a uma das espécies previstas na lei Moçambicana;
b) adoptar a forma de sociedade anónima;
c) ter por objectivo exclusivo o exercício da actividade legalmente permitida nos termos do artigo 4.
d) Ter o capital social não inferior ao mínimo legal.
e) Ter o capital social representado obrigatoriamente por acções nominativas ou ao portador registadas.
2. Para além dos requisitos previstos nas alíneas a) e d) do número anterior, as sociedades financeiras com sede
em Moçambique devem ter por objecto principal uma ou mais das actividades referidas nas alíneas b) a g) do
nº1 do artigo 4 ou outra prevista em lei especial.
3. Na data da constituição, o capital social das instituições de crédito e sociedades financeiras deve estar
inteiramente subscrito e realizado em montante não inferior ao mínimo legal.
4. O capital das mesmas entidades deve ser integralmente realizado no prazo de 6 meses a contar da data da
constituição ou da data da subscrição, quando se trate de aumento de capital.
ARTIGO 12
(Composição do órgão de administração)
O órgão de administração das instituições de crédito e das sociedades financeiras que, por imposição legal,
adquiram a forma de sociedades anónimas , deve ser constituído por um mínimo de três membro, com poderes
de orientação efectiva da actividade da instituição.
SECÇÃO II
Processo de Autorização
ARTIGO 13
(Autorização de constituição)
A constituição de instituições de crédito e das sociedades financeiras depende de autorização a conceder, caso
a caso, pelo Ministro do Plano e Finanças, ouvido o Banco de Moçambique.
ARTIGO 14
(Instrução do pedido)
1. O pedido deve ser apresentado no Banco de Moçambique e instruído com os seguintes elementos:
a) caracterização do tipo de instituição a constituir e exposição fundamentada sobre a adequação da estrutura
accionista à sua estabilidade;
b) projecto de estatutos;
c) programa de actividades, implantação geográfica, estrutura orgânica e meios humanos, técnicos e materiais
a serem utilizados;
d) contas provisionais para cada um dos três primeiros anos de actividade.
e) Identificação dos accionistas fundadores, com especificação do capital por cada um subscrito.
f) Declaração de compromisso de que no acto da constituição e como sua condição, se demostre estar
depositado numa instituição de crédito a operar no país o montante do capital social exigido por lei.
2. Devem ainda ser apresentadas as seguintes informações relativas a accionistas fundadores que sejam pessoas
colectivas detentoras de participações qualificadas na instituição a constituir:
118
a) estatutos e relação dos membros do órgão de administração ;
b) balanço e demonstrações de resultados dos últimos três anos;
c) relação dos sócios da pessoa colectiva participante que nesta sejam detentores de participações qualificadas;
d) relação das sociedades em cujo capital a pessoa colectiva participante detenha participações qualificadas,
bem como exposição ilustrativa da estrutura do grupo a que pertença.
3. O Banco de Moçambique pode solicitar aos requerentes informações complementares e levar a cabo as
averiguações que considere necessárias.
ARTIGO 15
(Decisão)
1. A decisão sobre o pedido deve ser tomada no prazo de noventa dias a contar da recepção do pedido ou, se
for o cas, das informações complementares e deve ser notificada, por escrito, aos requerentes.
2. o pedido é indeferido sempre que:
a) não estiver instruído com todas as informações e documentos exigidos:
b) a sua instrução enfermar de inexactidão e falsidades.
c) A instituição não obedecer aos requisitos dos nºs 1 e 2 do artigo 11;
d) A instituição não dispuser de meios técnicos e recursos financeiros suficientes para o tipo e volume das
operações que pretenda realizar.
ARTIGO 16
(Caducidade da autorização)
1. A autorização caduca se os requerentes a ela expressamente renunciarem, se a instituição não for constituída
no prazo de 3 meses a contar da data da autorização ou se não iniciar a actividade no prazo de 12 meses.
2. em circunstâncias excepcionais, mediante requerimento da instituição devidamente fundamentado, pode o
Banco de Moçambique, prorrogar, uma única vez, por mais 6 meses, o prazo de início de actividade.
3. A autorização caduca ainda se a instituição for dissolvida, sem prejuízo da prática dos actos necessários à
respectiva liquidação.
ARTIGO 17
(Revogação da autorização)
1. A autorização de instituição de crédito ou de sociedade financeira pode ser revogada com os seguintes
fundamentos alé m de outros legalmente previstos:
a) se tiver sido obtida por meio de falsas declarações ou outros expedientes ilícitos, independentemente das
sanções penais que ao caso couberem;
b) se deixar de se verificar algum dos requisitos estabelecidos no artigo 11;
c) se a sua actividade não corresponder ao objecto estatuário autorizado;
d) se cessar a sua actividade por período superior a 6 meses;
e) se violar as leis e regulamentos que disciplinam a sua actividade ou não observar as determinações do Banco
de Moçambique, de modo a pôr em risco os interesses dos depositantes e demais credores ou as condições
normais de funcionamento dos mercados monetário, financeiro ou cambial.
2. A revogação da autorização implica a dissolução e liquidação da instituição de crédito ou da sociedade
financeira.
ARTIGO 18
(Competência e forma de revogação)
1. A revogação da autorização é da competência do Ministro do Plano e finanças, ouvido o Banco de
Moçambique.
2. A decisão de revogação deve ser fundamentada e notificada à instituição de crédito ou sociedade financeira
em causa.
SECÇÃO III
Administração e fiscalização
ARTIGO 19
(Idoneidade dos membros dos órgãos de administração e fiscalização)
1. Dos órgãos de administração e fiscalização de uma instituição de crédito ou de uma sociedade financeira,
apenas podem fazer parte pessoas cuja idoneidade dê garantias de gestão sã e prudente, tendo em vista, de
modo particular, a segurança dos fundos que lhes forem confiados.
119
2. Entre outras circunstâncias atendíveis, considera-se indiciador de falta de idoneidade o facto de a pessoa ter
sido:
a) declara, por sentença nacional ou estrangeira, falida ou insolvente ou responsável por falência ou
insolvência da empresa por ela dominada ou de que ela tenha sido administradora, directora ou gerente;
b) Condenada no país ou no estrangeiro, por crimes de falência dolosa, falência por negligência, falsificação,
furto, roubo burla por defraudação, extorsão, abuso de confiança, usura, fraude cambial e emissão de cheques
sem provisão, tráfico de drogas, branqueamento de capitais e outros crimes de natureza económica.
c) Administradora, directora ou gerente de empresa, no país ou no estrangeiro, cuja falência ou insolvência
tenha sido prevenida, suspensa ou evitada por providências de saneamento ou outros meios preventivos ou
suspensivos, desde que seja reconhecida pelas autoridades competentes a sua responsabilidade por essa
situação.
d) Condenada, no país ou no estrangeiro, pela prática de infracções às regras legais ou regulamentares que
regem a actividade das instituições de crédito e das sociedades financeiras, a actividade seguradora e o
mercado de valores mobiliários, quando a gravidade ou reincidência dessas infracções o justifique.
ARTIGO 20
(Experiência profissional)
1. Os membros dos órgãos de administração de uma instituição de crédito ou de uma sociedade financeira
devem possuir experiência adequada ao desempenho dessas funções.
2. Presume-se existir experiência adequada quando a pessoa em causa tenha anteriormente exercido funções no
domínio financeiro ou disponha de reconhecida competência em matéria económica ou jurídica e de gestão.
3. A verificação do preenchimento do requisito de experiência adequada pode ser objecto de um processo de
consulta prévia.
ARTIGO 21
(Falta de requisitos dos membros dos órgãos de administração e fiscalização)
1. Se por qualquer motivo, deixarem de estar preenchidos os requisitos legais ou estatutários do normal
funcionamento do órgão de administração ou fiscalização de uma instituição de crédito ou de uma sociedade
financeira, o Banco de Moçambique fixa o prazo para ser alterada a composição do órgão em causa.
2. Não sendo regularizada a situação no prazo fixado, pode ser revogada a autorização nos termos do artigo 17.
ARTIGO 22
(Acumulação de cargos de funções)
1. Os membros dos órgãos de administração das instituições de crédito e sociedades financeiras não podem,
cumulativamente, exercer cargos de gestão ou desempenhar quaisquer funções em outras instituições de
crédito e sociedades financeiras.
2. O disposto no número anterior não se aplica ao exercício cumulativo de cargos de gestão ou ao exercício de
funções em outras instituições de crédito e sociedades financeiras com quem a instituição em causa se encontre
numa relação de domínio ou de grupo.
3. Os membros dos órgãos de administração de instituições de crédito e sociedades financeiras, que pretendam
exercer cargos de gestão noutras sociedades, que não as referidas no número anterior, devem, com
antecedência mínima de quinze dias úteis, comunicar a sua pretensão ao Banco de Moçambique, o qual pode
opor-se se entender que a acumulação é susceptível de prejudicar o exercício de funções na instituição de
crédito ou sociedade financeira.
4. A falta de comunicação prevista no número anterior é fundamento de cancelamento do respectivo registo.
SECÇÃO IV
Alterações estatutárias
ARTIGO 23
(Alterações estatutárias em geral)
As alterações dos estatutos das instituições de crédito e sociedades financeiras estão sujeitas a prévia
autorização do Ministro do Plano e Finanças ouvido o Banco de Moçambique.
ARTIGO 24
(Fusão, cisão e dissolução)
1. A fusão de instituição de crédito, de instituições de crédito e sociedades financeiras, ou destas últimas entre
sí, depende de autorização prévia do Ministro do Plano e Finanças, ouvido o Banco de Moçambique.
120
2. Depende igualmente de autorização prévia do Ministro do Plano e Finanças, ouvido o Banco de
Moçambique, a cisão e a dissolução de instituições de crédito e sociedades financeiras.
CAPÍTULO III
(Actividade no Estrangeiro de Instituições de crédito e Sociedades Financeiras com
sede em Moçambique)
ARTIGO 25
(Sucursais)
1. As instituições de crédito e sociedades financeiras com sede em Moçambique que pretendam estabelecer
sucursal no estrangeiro devem solicitar a autorização do Banco de Moçambique, especificando os seguintes
elementos:
a) país onde se propõem estabelecer sucursal;
b) programa de actividades, na qual sejam indicados nomeadamente, o tipo de operações a realizar e a estrutura
de organização da sucursal.
2. O Banco de Moçambique, pode, no prazo de trinta dias, recusar a pretensão se as estruturas administrativas
ou a situação financeira da instituição forem inadequadas ao projecto.
3. A sucursal não pode efectuar operações que não constem do objecto social da instituição ou do programa de
actividades referido na alínea b) do nº 1 do presente artigo.
4. A gestão corrente da sucursal deve ser confiada a gerentes, sujeitos a todos requisitos de idoneidade e
experiência exigidos aos membros do órgão de administração das instituições de crédito e das sociedades
financeiras com sede em Moçambique.
ARTIGO 26
(Escritórios de representação)
O estabelecimento no estrangeiro de escritórios de representação de instituições de crédito e sociedades
financeiras com sede em Moçambique carece de registo prévio no Banco de Moçambique.
CAPÍTULO IV
Actividade em Moçambique de Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras com sede no
Estrangeiro
SECÇÃO I
Princípios Gerais
Artigo 27
(Observância da Lei Moçambicana)
A actividade em território nacional, de instituições de crédito e sociedades financeiras com sede no estrangeiro
deve observar a lei Moçambicana.
ARTIGO 28
(Idoneidade dos Gerentes)
Os gerentes das sucursais ou dos escritórios de representação de instituições de crédito e sociedades financeiras
com sede no estrangeiro estão sujeitas a todos os requisitos de idoneidade e experiência que a lei estabelece
para os membros dos órgãos de administração das instituições de crédito e sociedades financeiras com sede em
Moçambique.
ARTIGO 29
(Uso da firma ou denominação)
1. as instituições de crédito e sociedades financeiras com sede no estrangeiro estabelecidas em Moçambique
podem usar a firma ou denominação que utilizam no país de origem.
2. se esse uso fôr susceptível de induzir o público em erro quanto às operações que as instituições podem
praticar, ou de fazer confundir as firmas ou denominações com outras que gozem de protecção em
Moçambique, o Banco de Moçambique
determina que a firma ou denominação seja aditada uma menção explicativa, apta a prevenir equívocos.
ARTIGO 30
(Revogação e caducidade da autorização no país de origem)
1. Quando o Banco de Moçambique for informado de que no país de origem foi revogada ou caducou a
autorização para o exercício da actividade de instituição de crédito ou de sociedade financeira que dispunha de

121
uma sucursal em Moçambique, toma as providências adequadas para impedir que a entidade em causa inicie
novas operações e para salvaguardar os interesses dos depositantes e de outros credores.
2. A revogação ou caducidade da autorização para o exercício da actividade no país de origem, determina a
cessação do exercício da actividade em Moçambique.
SECÇÃO II
Sucursais
ARTIGO 31
(Disposições aplicáveis)
O estabelecimento, em Moçambique, de sucursais de instituições de crédito e sociedades financeiras fica
sujeito ao disposto na presente secção e nos artigos 14 e 18 da presente Lei, com as necessárias adaptações.
ARTIGO 32
(Autorização)
1. O estabelecimento da sucursal fica dependente de autorização a ser concedida, caso a caso, pelo Ministro do
Plano e Finanças, sob parecer do Banco de Moçambique.
2. A concessão da autorização nos termos do número anterior fica sujeita ao preenchimento dos seguintes
requisitos.
a) que a entidade que pretenda estabelecer a sucursal corresponda a uma das espécies previstas na lei
Moçambicana.
b) Que a sucursal tenha por objecto exclusivo ou principal, conforme se trate de instituição de crédito ou
sociedade financeira, o exercício das actividades previstas na lei Moçambicana;
ARTIGO 33
(Gerência)
A gerência da sucursal deve ser confiada a uma direcção com um mínimo de dois gerentes, com poderes
bastantes para tratar e resolver definitivamente, no país, todos os assuntos que respeitem a sua actividade.
ARTIGO 34
(Capital afecto)
1. As operações a realizar pela sucursal deve ser afecto capital adequado a sua garantia, que não deve ser
inferior ao mínimo previsto na lei Moçambicana para as instituições de crédito e sociedades financeiras da
mesma natureza com sede em Moçambique.
2. O capital deve ser depositado numa instituição de crédito a operar em Moçambique antes de efectuado o
registo especial da sucursal no Banco de Moçambique.
ARTIGO 35
(Responsabilidade)
1. A instituição de crédito ou a sociedade financeira responde pelas operações realizadas pela sua sucursal em
Moçambique.
2. Por obrigações assumidas, em outros países, pela instituição de crédito ou pela sociedade financeira pode
responder o activo da sucursal, mas só depois de satisfeitas todas as obrigações contraídas em Moçambique.
3. A decisão de autoridade estrangeira que decretar falência ou liquidação de instituição de crédito ou
sociedade financeira só se aplica às sucursais que ela tenha em Moçambique, ainda que revista pelos tribunais
Moçambicanos, depois de cumprido o disposto no número anterior.
ARTIGO 36
(Contabilidade e escrituração)
A sucursal mantém uma contabilidade própria, de acordo com as regras estabelecidas pelo Banco de
Moçambique e com utilização obrigatória da língua portuguesa.
SECÇÃO III
Escritórios de representação
ARTIGO 37
(Requisitos de estabelecimento)
1. A instalação e o funcionamento, em Moçambique, de escritórios de representação de instituições de crédito
e sociedades financeiras com sede no estrangeiro dependem, sem prejuízo da legislação aplicável em matéria
de registo comercial de registo especial prévio no Banco de Moçambique, mediante apresentação de

122
certificado emitido pelas autoridades de supervisão do país de origem que especifique o regime da instituição
por referência à lei que lhe é aplicável.
2. O início da actividade dos escritórios de representação deve ter lugar nos 3 meses seguintes ao registo no
Banco de Moçambique, podendo este, se houver motivo fundado, prorrogar o prazo por igual período.
3. Caso o escritório de representação não observe os prazos referidos no número anterior, o direito ao exercício
da actividade caduca, e, bem assim, o correspondente registo.
ARTIGO 38
(Âmbito de actividade)
1. A actividade dos escritórios de representação decorre na estrita dependência das instituições de crédito ou
das sociedades financeiras que representem, apenas lhes sendo permitido zelar pelos interesses dessas
instituições em Moçambique e informar sobre a realização de operações que elas se propunham realizar.
2. É especialmente vedado aos escritórios de representação:
a) realizar operações que se integrem no âmbito da actividade das instituições de crédito e sociedades
financeiras;
b) adquirir acções ou partes de capital de quaisquer sociedades nacionais;
c) adquirir imóveis que não sejam os indispensáveis à sua instalação e funcionamento.
ARTIGO 39
(Poderes de gerência)
Os gerentes dos escritórios de representação devem dispor de poderes bastantes para tratar e resolver
definitivamente, no país, todos os assuntos que respeitem à sua actividade.
CAPÍTULO V
Registo
ARTIGO 40
(Sujeição a registo)
1. As instituições de crédito e sociedades financeiras não podem iniciar a sua actividade enquanto não se
encontrarem inscritas em registo especial no Banco de Moçambique.
2. Os factos sujeitos a registo e bem ainda o prazo para a sua efectivação são estabelecidos por decreto do
Conselho de Ministros.
ARTIGO 41
(Recusa de registo)
1. Além de outros casos legalmente previstos, o registo é recusado nos seguintes casos:
a) quando for manifesto que o facto não está titulado nos documentos apresentados;
b) quando se verifique que o facto constante do documento já está registado ou não está sujeito a registo;
c) quando for manifesta a nulidade do facto.
d) Quando se verifique que não está preenchida alguma das condições de que depende a autorização necessária
para a constituição ou para o exercício da actividade de instituição de crédito ou sociedade financeira;
2. Quando se trate de registo dos membros dos órgãos de administração e fiscalização, a recusa pode ainda
fundamentar-se na falta de idoneidade e experiência profissional dos mesmos.
CAPÍTULO VI
Regras de conduta
SECÇÃO I
Deveres gerais
ARTIGO 42
(Competência técnica)
As instituições de crédito e sociedades financeiras devem assegurar aos clientes, em todas as actividades que
exerçam, elevados níveis de competência técnica, dotando a sua organização empresarial com os meios
materiais e humanos necessários para proporcionar condições apropriadas de qualidade e eficiência.
ARTIGO 43
(Relação com os clientes)
Nas relações com os clientes, os gestores e empregados das instituições de crédito e sociedades financeiras
devem proceder com diligência, neutralidade, lealdade, descrição e respeito pelos interesses que lhes são
confiados.
123
ARTIGO 44
(Regime de taxas de juro e comissões)
O Banco de Moçambique define o regime das taxas de juro, comissões e quaisquer formas de remuneração
pelas operações efectuadas pelas instituições de crédito e sociedades financeiras.
ARTIGO 45
(Dever de informação)
1. As instituições de crédito e sociedades financeiras devem informar as taxas a praticar nas operações activas
e passivas que estejam autorizadas a realizar.
2. As instituições de crédito e sociedades financeiras devem informar os clientes sobre o preço dos serviços
prestados e outros encargos por eles suportados.
3. O dever de informação abrange ainda esclarecimentos sobre as cláusulas gerais bancárias e informações
sobre o extracto da conta bancária, neste caso quando solicitadas pelo cliente.
4. O Banco de Moçambique regulamenta, por aviso, os requisitos mínimos que as instituições de crédito e
sociedades financeiras devem satisfazer na divulgação ao público das taxas praticadas e das condições em que
prestam os seus serviços.
ARTIGO 46
(Defesa de concorrência)
1. É proibido às instituições de crédito e sociedades financeiras efectuar transações ou implementar práticas
concretas que lhes possibilitem, individual ou conjuntamente, o domínio do mercado monetário, financeiro ou
cambial.
2. É igualmente proibido às instituições de crédito e sociedades financeiras impor aos seus clientes, como
condição para beneficiar dos seus serviços, a utilização dos serviços de uma outra sociedade que seja sua filial
ou na qual ela detenha participação qualificada.
3. Para efeitos do nº1 do presente artigo, não se consideram restritivos da concorrência os acordos legítimos
entre instituições de crédito ou sociedades financeiras e as práticas concertadas que tenham por fim as
operações seguintes:
a) participação em emissões e colocação de valores mobiliários ou instrumentos equiparados;
b) concessão de crédito ou outros apoios financeiros de elevado montante a uma empresa ou a um conjunto de
empresas.
ARTIGO 47
(Códigos de Conduta)
1. O Banco de Moçambique deve estabelecer, por aviso, regras de conduta que considere necessárias para
complementar e desenvolver as fixadas no presente diploma.
2. Os códigos de conduta elaborados pelas associações representativas das instituições de crédito e sociedades
financeiras são, obrigatoriamente, remetidos ao conhecimento do Banco de Moçambique.
SECÇÃO II
Segredo profissional
ARTIGO 48
(Dever do Segredo)
1. Os membros dos órgãos de administração ou de fiscalização das instituições de crédito e sociedades
financeiras, os seus empregados, mandatários, comissários e outras pessoas que lhes prestem serviços a título
permanente ou ocasional não podem revelar ou utilizar informações sobre factos ou elementos respeitantes à
vida da instituição ou às relações desta com os seus clientes cujo conhecimento lhes advenha exclusivamente
do exercício das suas funções ou da prestação dos seus serviços.
2. Estão, designadamente, sujeitos a segredo os nomes dos clientes, as contas de depósitos e seus movimentos
e outras operações financeiras.
3. O dever de segredo não cessa com o termo de funções ou serviços.
ARTIGO 49
(Excepções ao dever de segredo)
1. Os factos ou elementos das relações do cliente com a instituição podem ser revelados, mediante autorização
do cliente, transmitida por escrito à instituição.

124
2. Fora do caso previsto no número anterior, os factos e elementos cobertos pelo dever de segredo só podem
ser revelados:
a) ao Banco de Moçambique, no âmbito das suas atribuições.
b) Nos termos previstos na Lei Penal e no Processo Penal;
c) Quando existia outra disposição legal que expressamente limite o dever de segredo.
ARTIGO 50
(Informações sobre riscos)
Independentemente do estabelecido quanto á centralização dos elementos informativos respeitantes ao risco de
crédito, as instituições de crédito podem organizar, sob regime de segredo, um sistema de informações
recíprocas com o fim de garantir a segurança das operações.
SECÇÃO III
Conflitos de interesses
ARTIGO 51
(Crédito a membros dos órgãos sociais e detentores de participações qualificadas)
1. As instituições de crédito e sociedades financeiras não podem conceder crédito, sob qualquer forma ou
modalidade, incluindo a prestação de garantias e, quer directa, quer indirectamente, aos membros dos seus
órgãos de administração, ou de fiscalização, nem a sociedades ou outros entes colectivos por eles directa ou
indirectamente dominados.
2. Presume-se o carácter indirecto da concessão de crédito quando o beneficiário seja cônjuge, perante até ao 2º
grau ou afim em 1º grau de algum dos membros dos órgãos de administração ou fiscalização ou uma sociedade
directa ou indirectamente dominada por alguma daquelas pessoas.
3. Para efeitos deste artigo, é equiparada à concessão de crédito a aquisição de partes de capital em sociedades
ou outros entes colectivos referidos nos números anteriores.
4. Ressalvam-se do disposto nos números anteriores as operações de carácter ou finalidades social ou
decorrentes da política de pessoal.
5. O disposto nos nºs 1 a 3 deste artigo não se aplica às operações de concessão de crédito de que sejam
beneficiárias instituições de crédito e sociedades financeiras participadas pela instituição em causa.
6. Os membros dos órgãos de administração ou de fiscalização não podem participar na apreciação e decisão
das operações de concessão de crédito e sociedades ou outros entes colectivos não incluídos no nº1 de que
sejam gestores ou em que detenham participações qualificadas, exigindo-se em todas estas situações a
aprovação de pelo menos dois terços dos membros do órgão de administração e o parecer favorável do órgão
de fiscalização.
7. As instituições de crédito e sociedades financeiras só podem conceder crédito, sob qualquer forma ou
modalidade, às pessoas que nelas, directamente ou indirectamente, detenham participações qualificadas, nos
termos e condições fixadas pelo Banco de Moçambique.
ARTIGO 52
(Outras operações)
Os membros dos órgãos de administração, os directores e outros empregados, os consultores e mandatários das
instituições de crédito e sociedades financeiras não podem intervir na apreciação e decisão das operações em
que seja directa ou indirectamente interessados os próprios, seus cônjuges, parentes até ao 2º grau ou afins em
1º grau, ou sociedades ou outros ente colectivos que uns ou outros directa ou indirectamente dominem.
CAPÍTULO VII
Normas prudenciais e supervisão
SECÇÃO I
Princípios gerais
ARTIGO 53
(Superintendência)
A superintendência do mercado monetário, financeiro e cambial e designadamente a coordenação da actividade
dos agentes do mercado com a política económica e social do governo. Compete ao Ministro do Plano e
Finanças.
ARTIGO 54
(Orientação e fiscalização do mercado)
125
Compete ao Banco de Moçambique a orientação e fiscalização do mercado monetário, financeiro e cambial,
tendo em atenção a política económica e social do governo.
ARTIGO 55
(Supervisão)
1. A supervisão das instituições de crédito e das sociedades financeiras com sede em Moçambique, bem como
a supervisão das sucursais e escritórios de representação em Moçambique de instituições de crédito e
sociedades financeiras com sede no estrangeiro, incumbe ao Banco de Moçambique, de acordo com a sua Lei
Orgânica e o presente diploma.
2. No exercício das funções de supervisão, os funcionários do Banco de Moçambique são equiparados aos
funcionários públicos, gozando dos poderes e atributos dos agentes de autoridade, sendo-lhes também
aplicável o respectivo regime penal.
3. Os funcionários do Banco de Moçambique não podem ser responsabilizados pelos actos que pratiquem á luz
da presente Lei, desde que sejam de boa-fé.
ARTIGO 56
(Dever de segredo das autoridades de supervisão)
1. As pessoas que exerçam ou tenham exercido funções no Banco de Mocambique, bem como as que lhes
prestem ou tenha m prestado serviços a título permanente ou ocasional, ficam sujeitas a dever de segredo sobre
factos cujo conhecimento lhes advenha exclusivamente do exercício dessas funções ou da prestação desses
serviços e não podem divulgar nem utilizar as informações obtidas.
2. Os factos e elementos cobertos pelo dever de segredo só podem ser revelados mediante autorização do
interessado, transmitida por escrito ao Banco de Mocambique ou nos termos previstos na Lei Penal e no
Processo Penal.
ARTIGO 57
(Cooperação com outras entidades)
1. O disposto nos artigos anteriores não obsta, igualmente, que o Banco de Moçambique troque informações
com as seguintes entidades:
a) autoridades intervenientes em processos de liquidação de instituições de crédito e sociedades financeiras.
b) Pessoas encarregadas do controlo legal das contas das instituições de crédito e sociedades financeiras;
c) Autoridades de supervisão de outros estados, em regime de reciprocidade, quanto às informações
necessárias à supervisão das instituções de crédito e sociedades financeiras com sede em Moçambique e das
instituições de natureza equivalente com sede naqueles estados, no âmbito de acordos de
cooperação que o banco haja celebrado.
2. O Banco de Moçambique pode também trocar informações com autoridades, organismos e pessoas que
exerçam funções equivalentes às das entidades mencionadas nas alíneas a) e b) do número anterior em outros
países, devendo, neste caso, observar-se o disposto na alínea c) do mesmo número.
3. Ficam sujeitas a dever de segredo todas as autoridades, organismos e pessoas que participem nas trocas de
informações referidas nos números anteriores.
4. As informações recebidas pelo Banco de Moçambique nos termos do presente artigo só podem ser
utilizadas:
a) para exame das condições de acesso à actividade das instituições de crédito e das sociedades financeiras.
b) Para supervisão da actividade das instituições de crédito e sociedades financeiras, nomeadamente quanto à
liquidez, solvabilidade, grandes riscos, organização administrativa e contabilística e controlo interno.
c) Para aplicação de sanções;
d) No âmbito de recursos interpostos de decisão de decisões do Banco de Moçambique, tomadas nos termos
das disposições aplicáveis às entidades sujeitas à supervisão deste.
ARTIGO 58
(Cooperação com outros países)
Os acordos de cooperação referidos na alínea c) do nº1 e nº2 do artigo anterior, só podem ser celebrados
quando as informações a prestar beneficiem de garantias de segredo pelo menos equivalentes à estabelecidas
no presente diploma.
ARTIGO 59
(Garantias de depósitos)
126
O Conselho de Ministros criará, por decreto, tão logo que existam condições para o efeito, um fundo com o
objectivo de garantir o reembolso de depósitos constituídos nas instituições participantes, e fixará as normas
para o seu funcionamento.
SECÇÃO II
Normas prudenciais
ARTIGO 60
(Princípio geral)
As instituições de crédito e sociedades financeiras devem aplicar os fundos de que dispõe de modo a assegurar
a todo o tempo níveis adequados de liquidez de solvabilidade.
ARTIGO 61
(Capital)
1. Compete ao Banco de Moçambique fixar, por aviso, o capital social mínimo das instituições de crédito e
sociedades financeiras.
2. As instituições de crédito e sociedades financeiras constituídas por modificação do objectivo de uma
sociedade, por fusão de duas ou mais ou por cisão, devem ter, no acto da constituição, capital social não
inferior ao mínimo estabelecido nos termos do número anterior, não podendo também os seus fundos próprios
serem inferiores àquele mínimo.
ARTIGO 62
(Fundos próprios)
1. O Banco de Moçambique, por aviso, fixará os elementos que podem integrar os fundos próprios das
instituições de crédito e sociedade financeira com sede no estrangeiro, definindo as características que os
mesmos devem revestir.
2. Os fundos próprios não podem tornarem-se inferiores ao montante do capital social exigido nos termos do
artigo 61.
3. Verificando-se diminuição dos fundos próprios abaixo do referido montante, o Banco de Moçambique pode,
sempre que as circunstâncias o justifiquem, conceder à instituição um prazo limite para que regularize a
situação.
ARTIGO 63
(Reservas)
1. Uma fracção não inferior a 15% dos lucros líquidos apurados em cada exercício pelas instituições de crédito
e sociedades financeiras deve ser destinada à formação de uma reserva legal até ao limite do capital social.
2. Devem ainda as instituições de crédito e sociedades financeiras constituir reservas especiais destinadas a
reforçar a situação líquida ou a cobrir prejuízos que a conta de lucros e perdas não possa suportar.
3. O Banco de Moçambique pode estabelecer critérios, gerais ou específicos, de constituição e aplicação das
reservas mencionadas no número anterior.
ARTIGO 64
(Relações e limites prudenciais)
Compete ao Banco de Moçambique, definir, por aviso, as relações a observar entre as rubricas patrimoniais e
extra patrimoniais e estabelecer limites prudenciais à realização de operações que as instituições de crédito e
sociedades financeiras estejam autorizadas a fazer.
ARTIGO 65
(Aquisição ou aumento de participação qualificada)
1. A pessoa singular ou colectiva, directa ou indirectamente, pretenda deter participação qualificada numa
instituição de crédito ou sociedade financeira, deve comunicar previamente ao Banco de Moçambique o seu
projecto e o montante da participação.
2. O disposto no número anterior aplica-se também aos já detentores de participação qualificada que pretendam
aumentá-la de tal modo que atinja 33% ou 50%, ou que a instituição participada se transforme em sua filial.
3. O Banco de Moçambique pode opor-se à aquisição ou aumento de participação qualificada com os seguintes
fundamentos:
a) se for inadequada a situação económico-financeira da pessoa em causa, em função do montante da
participação que se propõe deter;

127
b) se o Banco de Moçambique tiver fundadas dúvidas sobre a licitude da proveniência dos fundo utilizados na
aquisição da participação ou sobre a verdadeira identidade do titular desses fundos;
c) se a estrutura e característica do grupo empresarial em que a instituição de crédito e sociedade financeira
passaria a estar integrada inviabilizarem uma supervisão adequada.
d) Se a pessoa em causa tiver sido, nos últimos dois anos, objecto de sanções previstas na alínea e) do nº 1 do
artigo 109;
e) Tratando-se de pessoa singular, se verificar relativamente a ela alguns dos factos que indiciem falta de
idoneidade nos termos do nº 2 do artigo 19.
ARTIGO 66
(Comunicação subsequente)
Sem prejuízo da comunicação prevista no artigo anterior, os factos de que resulte, directa ou indirectamente, a
detenção de participação qualificada numa instituição de crédito ou numa sociedade financeira, ou o seu
aumento, devem ser notificados pelo interessado ou pela instituição, ao Banco de Moçambique, no prazo de
quinze dias a contar da data em que os mesmos factos se verificarem.
ARTIGO 67
(Comunicação pelas instituições)
Em Maio de cada ano, as instituições de crédito e sociedades financeiras comunicam ao Banco de
Moçambique a identidade dos detentores de participações qualificadas e o montante das respectivas
participações.
ARTIGO 68
(Inibição dos direitos de voto)
Sem prejuízo das sanções aplicáveis, a aquisição ou o aumento de participação qualificada, sem que o
interessado tenha procedido a comunicação prevista no artigo 65 ou aos quais o Banco de Moçambique se
tenha oposto, determinam inibição do direito de voto na parte que exceda o limite mais baixo que tiver sido
ultrapassado.
ARTIGO 69
(Cessação da inibição)
em caso de inobservância do disposto no nº 1 do artigo 65, cessa a inibição se o interessado proceder
posteriormente à comunicação em falta ao Banco de Moçambique não deduz oposição.
ARTIGO 70
(Registo de acordos parassociais)
1. Os acordos parassociais entre accionistas de instituições de crédito e sociedades financeiras relativos ao
exercício do direito de voto estão sujeitos a registo no Banco de Moçambique, sob pena de ineficácia.
2. 2. O registo pode ser requerido por qualquer das partes do acordo.
ARTIGO 71
(Regras de contabilidade e publicação)
Compete o Banco de Moçambique estabelecer normas de contabilidade aplicáveis às instituições sujeitas à sua
supervisão, bem como definir os elementos que as mesmas instituições lhe devem remeter e os que devem
publicar.
SECÇÃO III
Supervisão
ARTIGO 72
(Procedimentos de supervisão)
No desempenho das suas funções de supervisão, compete em especial ao Banco de Moçambique:
a) acompanhar a actividade das instituições de crédito e sociedades financeiras;
b) Zelar pela observância das normas que disciplinam a actividade das instituições de crédito e sociedades
financeiras;
c) Emitir recomendações para que sejam sanadas as irregularidades detectadas;
d) Tomar providências extraordinárias de saneamento;
e) Sancionar as infracções.
ARTIGO 73
(Gestão sã e prudente)
128
Se as condições em que decorre a actividade de uma instituição de crédito ou de uma sociedade financeira não
respeitarem as regras de uma gestão sã e prudente, o Banco de Moçambique deve notificá-la, para no prazo que
lhe afixar tomar providências necessárias para restabelecer ou reforçar o equilíbrio financeiro ou corrigir os
métodos de gestão.
ARTIGO 74
(Dever de informação)
1. As instituições de crédito e sociedades financeiras são obrigadas a apresentar ao Banco de Moçambique as
informações que este considere necessárias à verificação do seu grau de liquidez e solvabilidade, dos riscos em
que incorrem, do cumprimento das normas legais e regulamentares que disciplinem a sua actividade, da sua
organização administrativa e da eficácia dos seus controlos internos.
2. As entidades que detenham participações qualificadas no capital de instituições de crédito e sociedades
financeiras, e que não estejam abrangidos pelo número precedente, são obrigadas a fornecer ao Banco de
Moçambique todos os elementos ou informações que o mesmo considere relevantes para supervisão da
instituição em que participam.
3. As instituições de crédito e sociedades financeiras facultam ao Banco de Moçambique a inspecção dos seus
estabelecimentos e o exame da escrita no local, assim como todos os outros elementos que o Banco de
Moçambique considere relevantes para a verificação dos aspectos mencionados no artigo anterior.
ARTIGO 76
(Centralização de riscos de crédito)
O Banco de Moçambique promove a centralização dos elementos informativos respeitantes ao risco da
concessão e aplicação de créditos os quais poderão ser facultados às instituições de crédito e sociedades
financeiras, nos termos estabelecidos em regulamento específico.
ARTIGO 77
(Auditores externos)
1. A actividade das instituições de crédito e sociedades financeiras deve estar sujeita a auditoria externa de uma
empresa reconhecida em Moçambique, a qual deve comunicar ao Banco de Moçambique as infracções graves
às normas legais e regulamentares relevantes para a supervisão, que detecte no exercício da sua actividade.
2. Sem prejuízo do disposto no número anterior, o Banco de Moçambique pode, sempre que julgue necessário,
mandar efectuar auditoria externa à uma instituição de crédito ou uma sociedade financeira, ficando os custos
referentes a essa actividade por conta da instituição em causa.
ARTIGO 78
(Actuação contra entidades não habilitadas)
1. Quando haja fundadas suspeitas de que uma entidade não habilitada exerce ou exerceu alguma actividade
reservada às instituições de crédito e sociedades financeiras, o Banco de Moçambique deve exigir que ela
apresente os elementos necessários ao esclarecimento da situação, bem como realizar inspecções no local onde
indiciariamente tal actividade ou tenha sido exercida, ou onde suspeite que se encontrem elementos relevantes
para conhecimento da mesma actividade.
2. Sem prejuízo da legitimidade atribuída pela lei a outras pessoas, o Banco de Moçambique pode requerer a
dissolução e liquidação de sociedade ou outro ente colectivo que, sem estar habilitado, pratique operações
reservadas às instituições de crédito e sociedades financeiras.
ARTIGO 79
(Colaboração de outras autoridades)
As autoridades policiais devem prestar ao Banco de Moçambique a colaboração que lhes solicite no âmbito das
suas atribuições de supervisão.
ARTIGO 80
(Apreensão de documentos e valores)
No decurso das inspecções a que se refere o nº 1 do artigo 78, pode o Banco de Moçambique proceder à
apreensão de quaisquer documentos ou valores que constituem objecto, instrumento ou produto de infracção
ou que se mostrem necessários à instrução do respectivo processo.
CAPÍTULO III
Saneamento
ARTIGO 81
129
(Finalidade das providências de saneamento)
1. Tendo em vista a protecção dos interesses dos depositantes, investidores e outros credores e a salvaguarda
das condições normais de funcionamento do mercado monetário, financeiro ou cambial, o Banco de
Moçambique pode adoptar, relativamente às instituições de crédito e sociedades financeiras com sede em
Moçambique pode adoptar, relativamente às instituições de crédito com sede em Moçambique, providências
extraordinárias de saneamento.
2. Não se aplicam às instituições de crédito e sociedades financeiras os regimes gerais relativos aos meios
preventivos de declaração de falência.
ARTIGO 82
(Dever de comunicação)
1. Quando uma instituição de crédito ou sociedade financeira se encontre impossibilitada de cumprir as suas
obrigações, ou em risco de o ficar, o órgão de administração ou de fiscalização deve comunicar imediatamente
o facto ao Banco de Moçambique.
2. Os membros dos órgãos de administração e de fiscalização estão individualmente obrigados à comunicação
referida no número anterior, devendo fazê-lo por só próprios se o órgão a que pertencem a omitir ou a definir.
3. A comunicação deve ser acompanhada ou seguida, com maior brevidade, de exposição das razões
determinantes da situação criada e da relação dos principais credores, com indicação dos respectivos domicílio.
ARTIGO 83
(Providências extraordinárias de saneamento)
Quando instituição de crédito ou sociedade financeira se encontre em situação de desequilíbrio financeiro,
traduzido designadamente, na redução de fundos próprios na a um nível inferior ao legal ou inobservância dos
rácios de solvabilidade ou de liquidez, o Banco de Moçambique pode determinar, no prazo que fixar, a
aplicação de algumas ou de todas as seguintes providências extraordinárias de saneamento:
a) apresentação pela instituição em causas de um plano de recuperação de saneamento;
b) restrições ao exercício de determinados tipos de actividades;
c) restrições à concessão de créditos e à aplicação de fundos em determinadas espécie de actividade;
d) restrições à recepção de depósitos, em função das respectivas modalidades de remuneração;
e) imposição da constituição de provisões especiais;
f) proibição ou limitação da distribuição de dividendos;
g) sujeição de certas operações ou certos actos à previa aprovação do Banco de Moçambique.
ARTIGO 84
(Designação de administradores provisórios)
No decurso do processo de saneamento o Banco de Moçambique pode designar para a instituição de crédito ou
para sociedade financeira um ou mais administradores provisórios que têm, de entre outros, poderes e deveres
conferidos pela Lei e pelos estatutos aos membros do órgão de administração.
ARTIGO 85
(Designação de comissão de fiscalização)
1. O Banco de Moçambique pode, juntamente ou não com a designação de administradores provisórios,
nomear uma comissão de fiscalização.
2. A comissão de fiscalização é composta por:
a) um elemento designado pelo Banco de Moçambique, que preside a comissão;
b) um elemento designado pela assembleia geral;
c) um auditor de contas independente, designado pelo Banco de Moçambique.
3. A falta de designação de um elemento referido na alínea b) do número anterior não obsta o exercício das
funções da comissão de fiscalização.
4. A comissão de fiscalização tem os poderes e o deveres conferidos por lei ou pelos estatutos ao conselho
fiscal ou ao auditor de contas, consoante a estrutura da sociedade, os quais ficam suspensos pelo período que
durar a sua actividade.
ARTIGO 86
(Subsistência das providências extraordinárias)
As providências extraordinárias reguladas no presente capítulo subsistem apenas enquanto se verificar a
situação que as tiver determinado.
130
ARTIGO 87
(Suspensão de execução e prazos)
Quando for adoptada providência extraordinária de designação de administradores provisórios, e enquanto ela
durar, ficam suspensas todas as execuções, contra a instituição, o que abranjam os seus bens, sem excepção das
que tenham por fim a cobrança de créditos com preferência ou privilégio, e são interrompidos os prazos de
prescrição ou de caducidade oponíveis pela instituição.
ARTIGO 88
(Aplicação de Sanções)
A adopção de providências extraordinárias de saneamento não obsta a que em caso de infracção, sejam
aplicadas as sanções previstas na lei.
ARTIGO 89
(Regime de liquidação)
verificando-se que, com as providências extraordinárias adoptadas, não foi possível recuperar a instituição, é
revogada a autorização para o exercício da respectiva actividade e segue-se o regime de liquidação
estabelecido na legislação aplicável.
ARTIGO 90
(Sucursais)
O disposto no presente capítulo, é aplicável, com as devidas adaptações, às sucursais de instituições de crédito
ou sociedades financeiras com sede no estrangeiro.
CAPÍTULO IX
Infracções
SECÇÃO I
Disposições gerais
ARTIGO 91
(Direito aplicável)
As infracções previstas no presente capítulo regem-se pelas disposições nele contidas e, subsidiariamente, pela
lei penal legal.
ARTIGO 92
(Aplicação no espaço)
Para além do disposto no código penal, em termos de aplicação da Lei Penal no espaço, as disposições do
presente capítulo são aplicáveis aos actos praticados em território estrangeiro de que sejam responsáveis
instituições de crédito ou sociedades financeiras com sede em Moçambique e que ali actuem por intermédio de
sucursais, bem como indivíduos que, em relação a tais entidades e independentemente da sua nacionalidade, se
encontre em algumas situações previstas no nº 1 do artigo 95.
ARTIGO 93
(Responsáveis)
Pela prática da infracção a que se refere a presente secção podem ser responsabilizados, conjuntamente ou não,
pessoas singulares ou colectivas, ainda ou irregularmente constituídas, e associações sem personalidade
jurídica.
ARTIGO 94
(Responsabilidade dos entes colectivos)
1. As pessoas colectivas, ainda que irregularmente constituídas, e as associações sem personalidade jurídica
são responsáveis pelas infracções cometidas pelos membros dos respectivos órgãos e pelos titulares de cargos
de direcção, chefia ou gerência, no exercício das suas funções, bem como pelas infracções cometidas por
representantes de ente colectivo em actos praticados em nome e no interesse desta.
2. A ineficácia jurídica dos actos em que se funde a relação entre agente individual e o ente colectivo não obsta
a que seja aplicado o disposto no número anterior.
ARTIGO 95
(Responsabilidade dos agentes individuais)
1. A responsabilidade do ente colectivo não exime de responsabilidade individual os membros dos respectivos
órgãos, que exerçam cargos de gestão ou os que actuem em sua representação, legal ou voluntária.

131
2. Não à responsabilidade dos agentes individuais que representem outrem o facto de o tipo legal de ilícito
requerer determinados elementos pessoais e estes só se verificarem na pessoa do representado, ou requerer que
o agente pratique o acto no seu interesse tendo o representante actuado no interesse do representado.
ARTIGO 96
(Tentativa e crime frustrado)
Nas infracções previstas na presente Lei a tentativa e o crime frustrado são sempre puníveis, mas a pena não
pode, em qualquer dos casos, exceder metade do máximo legalmente previsto para infracção consumada.
ARTIGO 97
(Cumprimento do dever omitido)
Sempre que a infracção resulte da omissão de um dever, a aplicação da sanção e o pagamento da multa não
dispensam o infractor do seu cumprimento, se este ainda for possível.
SECÇÃO II
Crimes
ARTIGO 98
(Actividade ilícita de recepção de depósitos e outros fundos reembolsáveis)
Aquele que exercer actividade que consista em receber do público, por conta própria ou alheia, depósitos ou
outros fundos reembolsáveis, sem que para tal tenha a necessária autorização e não se verificando nenhuma das
situações no número 3 do artigo 7, será punido com pena de prisão de um a dois anos de prisão e multa
correspondente.
ARTIGO 99
(Exercício de outras actividades reservadas às instituições de crédito ou às sociedades financeiras)
Incorrem em crime, punível com a pena prevista do parágrafo segundo do artigo 236 do Código Penal, os que,
não estando para tal autorizados exercerem as actividades reservadas às instituições de crédito ou às sociedades
financeiras.
ARTIGO 100
(Desobediência)
São consideradas desobediência, punível nos termos do artigo 188 Código Penal, as seguintes acções:
1. O exercício de quaisquer cargos ou funções em instituições de crédito e sociedades financeiras, em violação
de proibições legais ou à revelia da oposição expressa do Banco de Moçambique;
2. A inobservância da inibição do exercício de direito de voto.
ARTIGO 101
(Residência)
A recusa ou obstrução ao exercício da actividade de inspecção do Banco de Moçambique é punível nos termos
do artigo 186 do Código Penal.
ARTIGO 102
(Violação de sigilo profissional)
É aplicável a disposição do artigo 290 do Código Penal à violação das normas de sigilo profissional fixadas na
presente Lei.
ARTIGO 103
(Falsificação da contabilidade e outros documentos inerentes à actividade bancária)
Os gestores e empregados de instituições de crédito e de sociedades financeiras que falsifiquem a
contabilidade, bem como outros documentos relativos à sua actividade serão punidos com a pena prevista no
artigo 219 do Código Penal.
ARTIGO 104
(Gestão ruinosa)
Os membros dos órgãos sociais das instituições de crédito e sociedades financeiras que pratiquem actos
dolosos de gestão ruinosa em detrimento dos depositantes, investidores e demais credores serão punidos com a
pena aplicável à falência fraudulenta.
ARTIGO 105
(Falsas declarações)
A prática de falsas declarações ao Banco de Moçambique, no exercício das funções que lhe são conferidas pela
presente Lei, é punível nos termos do artigo 242 do Código Penal.
132
SECÇÃO III
Contravenções
SUBSECÇÃO I
Classificação e sanções
ARTIGO 106
(Contravenções em geral)
Constituem contravenções, puníveis com multa de cinco a cinquenta milhões de meticais ou de vinte a
duzentos milhões de meticais, consoante seja aplicada a pessoa singular ou colectiva, as infracções adiante
referidas:
a) exercício da actividade com inobservância das normas sobre registo no Banco de Moçambique;
b) a violação das normas relativas à subscrição ou realização do capital social, quanto ou prazo, montante e
forma de representação;
c) infracção às regras sobre o uso de denominações constantes dos artigos 10 e 29 da presente Lei;
d) a omissão, nos prazos legais, de publicações obrigatórias;
e) a omissão de informação e comunicações devidas ao Banco de Moçambique, nos prazos estabelecidos, e a
prestação de informação incompleta;
f) a violação dos preceitos imperativos desta lei e a da legislação específica que rege a actividade instituições
de crédito e sociedades financeiras, não prevista nas alíneas anteriores, bem como dos regulamentos emitidos
pelo Banco de Moçambique, em cumprimento ou execução dos referidos preceitos.
ARTIGO 107
(Contravenções especialmente graves)
São puníveis com multas de dez a cem milhões de meticais ou cinquenta a quinhentos milhões de meticais,
conforme se trate de pessoas singulares ou colectivas, as infracções adiante referidas:
a) exercício, pelas instituições de crédito ou pelas sociedades financeiras, de actividades não incluídas no seu
objectivo legal, bem como a realização das operações não autorizadas ou que lhes esteja especialmente
vedadas;
b) a realização fraudulenta do capital social;
c) a realização de alterações estatutárias previstas nos artigos 23 e 24, quando não precedidas da devida
autorização;
d) a inexistência de contabilidade organizada, bem como a inobservância de outras regras contabilísticas
aplicáveis, determinadas por lei ou pelo Banco de Moçambique, quando essa inobservância prejudique o
conhecimento da situação patrimonial e financeira da entidade em causa;
e) inobservância de relações e limites prudenciais constantes do nº 2 do artigo 62, sem prejuízo do disposto no
nº 3 do mesmo artigo, bem como do artigo 63 ou de outros determinados pelo Banco de Moçambique nos
termos do artigo 64, quando dela resultem ou possa resultar grave prejuízo para o equilíbrio financeiro da
entidade em causa;
f) as infracções às normas sobre conflitos de interesses referidos nos artigos 51 e 52;
g) a prática, pelos detentores de participações qualificadas, de actos que impeçam ou dificultem de forma
grave, uma gestão sã e prudente da entidade em causa;
h) a omissão da comunicação imediata ao Banco de Moçambique da impossibilidade de cumprimento de
obrigações em que se encontre, ou corra risco de se encontrar, uma instituição de crédito ou sociedade
financeira, bem como a comunicação desta impossibilidade com omissão das informações requeridas pela lei;
i) não cumprimento de determinações do Banco de Moçambique ditadas especificamente, nos termos da lei,
para o caso individualmente considerado;
j) a omissão da comunicação ao Banco de Moçambique de factos previstos no nº 2 do artigo 19, posterior ao
registo da designação de membros de órgãos de administração ou fiscalização de instituições de crédito ou
pelas sociedades financeiras;
k) a prestação de informações incompletas susceptíveis de conduzir a conclusões erróneas;
l) a efectivação das transacções ou a utilização das práticas a que se refere o artigo 46.
ARTIGO 108
(Actualização das multas)

133
O Conselho de Ministros pode por decreto, actualizar os montantes das multas previstas nos números
anteriores.
ARTIGO 109
(Sanções acessórias)
1. Conjuntamente com as multas, nos termos do disposto nos artigos anteriores, podem ser aplicadas aos
infractores as seguintes sanções acessórias:
a) apreensão e perda do objecto da infracção, incluindo o produto económico desta;
b) a suspensão, até um ano, das autorizações das instituições de crédito e sociedades financeiras;
c) publicação pelo Banco de Moçambique da punição definitiva, às custas do condenado;
d) quando o arguido seja pessoa singular, inibição de exercício de cargos sociais e de funções de gestão em
instituições de crédito e sociedades financeiras, por período de três meses ou um ano, em casos previstos no
artigo 106 ou de seis meses a três anos, em casos previstos no artigo 107;
e) suspensão de exercício de direito de voto atribuído aos sócios das instituições de crédito ou e sociedades
financeiras, por um período de seis meses a três anos;
2. A publicação a que se refere a alínea c) do número anterior é feita num dos jornais mais lidos na localidade
ou do estabelecimento permane nte do arguido ou, se for uma pessoa singular, na sua residência.
SUBSECÇÃO II
Processo
ARTIGO 110
(Competência)
1. Compete ao Banco de Moçambique a tramitação e decisão do processo das contravenções previstas na
presente Lei e a aplicação das sanções correspondentes pertencem ao Banco de Moçambique.
2. No decurso da averiguação ou da instrução, o Banco de Moçambique pode solicitar às entidades policiais e a
quaisquer outros serviços públicos ou autoridades toda a colaboração ou auxílio que julgue necessários para a
realização das finalidades do processo.
3. Se da instrução resultar existência de matéria de infracção, é deduzida a acusação a qual é notificada ao
arguido, designando-se-lhe o prazo de dez dias para apresentar defesa por escrito.
4. A notificação faz-se pessoalmente ou por carta registada e com aviso de recepção e, quando o arguido não
seja encontrado ou se recuse a receber a notificação ou não seja conhecida sua morada, seguem-se as regras da
citação edital.
ARTIGO 111
(Apreensão de valores)
1. Quando necessário, à averiguação ou instrução do processo, podem ser apreendidos documentos ou valores
que constituam objecto da infracção.
2. Os valores apreendidos devem ser depositados numa instituição bancária, à ordem da entidade instrutora,
para garantia do paga mento da multa e custos processuais.
SUBSECÇÃO III
Recursos
ARTIGO 112
(Impugnação judicial)
1. As decisões condenatórias por contravenções previstas na presente Lei são passíveis de processo, para
Tribunal Judicial de Província onde tiver ocorrido a infracção, a ser interposto no prazo de quinze dias a partir
do seu conhecimento pelo arguido.
2. O recurso tem efeito suspensivo quando o arguido deposite, previamente, numa instituição bancária à ordem
da entidade instrutora, a importância da multa aplicada, salvo se os valores apreendidos se mostrem suficientes
para o efeito.
ARTIGO 113
(Decisão judicial por despacho)
1. O juiz pode decidir por despacho, quando não considere necessária audiência de julgamento, o arquivamento
do processo, a absolvição do arguido ou a manutenção ou alteração da condenação.

134
2. Em caso de manutenção ou alteração da condenação, deve o juiz fundamentar sumariamente a sua decisão,
tanto no que concerne aos factos como ao direito aplicado, e as circunstâncias que determinaram a medida da
sanção.
3. Em caso de absolvição deve o juiz indicar porque não considera os factos provados.
ARTIGO 114
(Intervenção do Banco de Moçambique na fase contenciosa)
O Banco de Moçambique pode sempre participar, através de um representante, no decurso do processo.
CAPÍTULO X
Disposições finais e transitórias
ARTIGO 115
(Regime especial para as sociedades financeiras)
Por legislação especial, as sociedades financeiras podem ser isentas da aplicação de certas regras referentes à
administração e fiscalização, regras de conduta e normas prudenciais e de supervisão.
ARTIGO 116
(Forma e publicidade dos actos do Banco de Moçambique)
Os poderes regulamentares conferidos ao Banco de Moçambique nos termos da presente Lei são exercidos
mediante aviso a publicar no Boletim da República.
ARTIGO 117
(Recurso)
1. Das decisões tomadas no âmbito da presente Lei, em tudo que nela não esteja especialmente regulado, cabe
recurso contencioso ao Tribunal Administrativo.
2. O recurso tem efeitos meramente devolutivos, salvo o disposto no artigo seguinte.
3. Quando se trate de recurso sobre decisão de revogação da autorização de instituição de crédito ou sociedade
financeira, a sua interposição faz cessar o processo de dissolução e liquidação da instituição.
ARTIGO 118
(Disposição transitória)
As instituições de crédito e sociedades financeiras já autorizadas à data da publicação da presente Lei têm
prazo o prazo de um ano para se conformarem com as disposições nela contidas.
ARTIGO 119
(Poder regulamentar)
Compete ao Conselho de Ministros regulamentar as matérias contidas na presente Lei.
ARTIGO 120
(Disposições revogatórias)
São revogadas a Lei nº 28/91, de 31 de Dezembro, o Decreto nº 34/92, de 26 de Outubro, e o Decreto nº 43/89,
de 28 de Dezembro, e a demais legislação que contrarie a presente Lei.
Aprovada pela Assembleia da República, aos 30 de Setembro de 1999.
O Presidente da Assembleia da República, Eduardo Joaquim Mulémbwé
Promulgada em 1 de Novembro de 1999
Publique-se.
O Presidente da República, Joaquim Alberto Chissano.

135
Lei nº 9/2004, de 21 de Julho de 2004 1 SÉRIE • Número 29 : Altera os artigos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 10, 11, 12, 13.
14, 15, 17, 18, 19, 20,21,23,24,32,40,41,49,51,52,55,59,65,66,68, 73, 77, 78, 79,81, 83.84, 106, 107, 108, 110, 116, 117, 116,
119e 120, da Lei nº 15/99, de 1 de Novembro.

Havendo necessidade de actualiz11r 11 Lei n." 15199, de 1 de Novembro, Lei d11s Instituições de Crédito e Sociedades
Financeiras, a Assembleia da República, ao abrigo do disposto no nº 1 do artigo 135 da Constituição detem1ina:
ARTIGO)
(Alteração de artigos)
São alterados os artigos I, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 17, 18, 19,20,21,23,24,32,40,41,49,51,52,5~ 59,65, 66,68, 73,
77, 78, 79,81, 83,84, 106, 107, 108, 110, 116, 117, 118, 119 e 120, da Lei n" 15/99, de 1 de Novembro, que passam a ter a
seguinte redacção: "Artigo 1 (Objecto da Lei) ...................................................................................... . 2. Não são a brangid11s
por esta Lei as seguradoras e as sociedades gestoras de fundos de pensões. Artigo 2 (Definições) 1. Para efeitos da presente Lei,
entende-se por: ti) Instituições de crédito: empresas que integrem uma das espécies previstas no artigo 3 d esta Lei, cuja
actividade consiste, nomeadamente, em receber do público depósitos ou outros fundos reembolsáveis, quando o regime jurídico
da respectiva espécie expressamente o permita, afim de os aplicarem por conta própria. mediante a concessão de crédito;
h) ............................................................................. .. 2. Ainda para efeitos desta Lei, entende-se por:
(/) ................................................................................. ; h) ................................................................................. ;
e) C11sns de câmbio: sociedades financeiras que têm por objecto principal a compra e venda de moeda estrangeira e cheques de
viagem, podendo ainda realizar outras operações cambiais nos termos estabelecidos na legislação aplicável;
d) Casas de desconto: sociedades financeiras que têm por objecto principal o desconto de títulos e operações afins, nos tem1os
estabelecidos na legislação aplicável;
e) Crédito: acto pelo qual uma entidade, agindo a título oneroso, coloca ou promete colocar fundos à disposição de uma outrn
entidade contra a promessa de esta lhos
j) Cooperativas de crédito: instituições de crédito constituídas sob fomlll de sociedades cooperativas, cuja actividade é
desenvolvida a serviço exclusivo dos seus sócios;
g) Depósito: contrato pelo qual uma entidade recebe fundos de outra, fic1mdo com o direito de deles dispor para os seus
negócios e assumindo a responsabilidade de restituir outro tanto, com. ou sem juro, no prazo convencionado ou a pedido do
depositante;
li) Filial: pessoa colectiva relativamente â qual outra pessoa colectiva, designada por empresa-mãe, se encontra em relação de
domínio, considerando-se que a filial de uma filial é igualmente tililll da empresa mlle de que ambas dependem;
i) lnsfitulçiies de moeda electrónlca: instituições de crédito que têm por objecto princip11l a emissão de meios de pagamento
sob 11 forma de moeda electrónica, nos tem1os estabelecidos na legislação aplicável. Entende·se por moeda electrónica o valor
monetário representado por um crédito sobre o emitente e que:
1. se encontre 11nn11zenado num suporte t'leclrónico;
li. seja aceite como meio de pagamento por outras entidades que não a emitente.
j) Mlcrobancos: instituições de crédito que têm por objecto principal o exercício da actividade bancária restrita, operando,
nomeadamente em microfinanças, nos tem10s definidos na 1 egislação a plicável. Entende-se por microfinanças a actividade
que consiste na prestação de serviços financeiros, essencialmente em operações de reduzida e média dimensão.
k) Participação qualincada: detenção numa sociedade, directa ou indireclamente, de percentagem não inferior a 10% do capital
ou dos direitos de voto. Consideramse equiparados nos direitos de voto d11 participante:
i. os direitos detidos pelas entidades por aquela dominadas ou que com e la se encontrem numa relação de grupo; ·
ii. os direitos detidos pelo cônjuge não separado judicialmente ou por descendente de menor idade;
iii. os direitos detidos por oulras entidades, em nome próprio ou alheio, mas por conta d11 participante ou das pessoas atrás
referidas;
iv. os direitos inerentes a acções de que a participante detenha o usufruto.
/)Relação de domlnio: relação que se dá entre uma pesson singular ou colectiva e uma sociedade, quando a pessoa em causa se
encontre numa das seguintes situações:
i. detenha, dirccta ou indirectamente, Q maioria dos direitos de voto, considerando-se equiparados aos direilos de voto da
participante os direitos de qunlquer outra sociedade que com ela se encontre nltma relação de grupo;
ii. seja sócia da sociedade e controle por si só, em virtude de acordo concluído com outros sócios desta, a maioria dos direitos
de voto:
iii. detenha uma participação não inferior a 20% do capitõll da sociedade, desde que exerça efectivamente sobre esta uma
mfluência dominante ou se encontrem ambos sob direcção t'lnica;
1v. seja sócia da sociedade e tenha o direito de designar ou destituir mais de metade dos membros do órgão de administração ou
de flscalizaçilo;
m) Relação de grupo: relação que se-dá entre duas ou mais pessoas singulares ou colectivas que constituam uma única entidade
do ponto de vista do risco assumido, por estarem de tal forma ligadas que, na eventualidade de uma delas deparar com
problemas financeiros, a outra ou todas as outras terão, provavelmente, dificuldades em cumprir as suas obrigações.

136
Comexcepção das empresas públicas ou de outra natureza controladas pelo Estado, considera-se que existe esta relação de
grupo, nomeadamente quando:
i. há relação de dominio de uma sobre a outra ou sobre as outras;
1i. existam accionistas ou associados comuns, que exerçam influência nas sociedades em questão;
iii. existam administradores comuns;
iv. haja interdependência comercial directa que não possa ser substituída a curto prazo.
n) Relação de.proximidade: relação entre duas ou mais pessoas, singulares ou colectivas:
!.Ligadas entre si através:
i) de~ participação, entendida como detenção, directa ou indirecta, de percentagem não inferior a 20% do capital ou dos direitos
de voto de uma empresa;
ii) de uma relação de donúnio.
II. Ligadas- a -uma terceira pessoa através de uma relação de do!JlÍnio.
o) Sociedades administradoras de compras em grupo:
sociedades financeiras que têm por objectivo exclusivo a administração de compras em grupos. Entende-se por compr.lls em
grupo o sistema de aquisição_ de bens ou serviços pelo qual um conjunto determinado de pessoas, designadas participantes,
constitui um fundo comum, mediante a entrega periódica de prestações pecuniárias com vista à aquisição, por cada participante,
daqueles beQs ou serviços ao longo de um período de tempo previamente estabelecido;
p) Sociedades corretoras: sociedades financeiras que têm por o bjecto principal o exercício d a actividade de intermediação em
bolsa de valores, através do recebimento de ordens dos investidores para a transacÇão de valores mobiliários e respectiva
execução, podendo, no âmbito do mercado de valores mobiliários, realizar outras actividades que lhes sejam pennitidas pela
legislação aplicável;
q) Sociedades de capital de risco: sociedades financeiras que têm por objecto principal o apoio e promoção do investimento em
empresas, através da participação temporária no r~spectivo capital social, nos termos definidos pela legislação aplicável;
r) Sociedades de factoring: instituições de crédito que têm por objecto principal o exercício da actividade de factoring ou
cessão financeira. Entende-se por factoring ou cessão fmanceira o contrato pelo qual uma das partes (factor) adquire da outra
(aderente) créditos a curto prazo, derivados da venda de produtos ou da prestação de serviços a uma terceira pessoa (devedor);
s) Sociedades de investimento: instituições de crédito que lêm por objecto principal a concessão de crédito e a nrPJ:.t:.r~n tfp
c::Prvi~nc:: rnnPvn~ nnc:: tPnnn.c:: 1"111,::a lh,:.c27:5
t) Sociedades de loÇaçio financeira: instituições de ~rédito que têm por obje.cto pdncipal o exercício da actividade de locação
fi~ceira. Entende-se por locação financeira o contrato pelo qual uma das partes (locador} se obriga, mediante retrib\lição,.a
ceder à outra (locatário) o gozo temporário de uma coisa, móvel pu imóvel, adquirida ou construída por indicação do locatário,
a qual poderá, ou não, ser afecta a um investimento produtivo ou a serviços de manifesto interesse económico ou social, e que o
locatário poderá comprar, decorrido o período acordado, por um preço determinado ou determinável mediante simples
aplicação dos critérios fixados no contrato;
u) Sociedades financeiras de corretagem: sociedades financeiras que têm por objecto principal o exercício da actividade de
intermediação em bolsa de valores, quer através do recebimento de ordens dos investidores para a transacção de valores
mobiliários e respectiva execução, quer através da realização de operações de compra e venda de valores mobiliários por conta
própria, podendo realizar outras actividades no âmbito do mercado de valores mobiliários, que lhes sejam pem1itidas pela
legislação aplicável;
v) Sociedades gestoras de patrimónios: sociedades financeiras que têm por objecto principal o exercício da actividade de
administração de conjuntos de bens pertencentes a terceiros, nos termos permitidos pela legislação aplicável;
w) Sociedades gestoras de fundos de investimento:
sociedades financeiras que têm por objecto principal a administração, em representação dos participantes de um ou mais fundos
de investimento. Entende-se por fundos d e investimento o conjunto de valores resultantes de investimentos de capitais
recebidos do público e representados por unidades de participação;
x) Sociedades emitentes ou gestoras de cartões de crédito:
sociedades financeiras que têm por objecto principal a emissão ou gestão de cartões de crédito, nos termos definidos na
legislação aplicável;
y) Sucursal: estabelecimento principal, em Moçambique, de instituição de crédito ou sociedade financeira com sede no
estrangeiro, ou estabelecimento principal no estrangeiro, de instituição de crédito ou sociedade financeira com sede em
Moçambique, desprovido de personalidade jurídica e que efectue directamente, no todo ou em parte, operações inerentes à
actividade da empresa;
z) Supervisão em base consolidada: supervisão efectuada pelo Banco de Moçambique às instituições de crédito e sociedades
financeiras o brigadas, nos termos da legislação aplicável, à apresentação de contas consolidadas, nomeadamente pelo facto de
as mesmas serem consideradas empresas-mãe de outras pessoas colectivas suas filiais ou nelas deterem participações
financeiras, ou ainda estaren1 a elas ligadas por alguma outra relação ou interesse considerado relevante, nos termos da
legislação aplicável. Sem prejuízo de outros elementos complementares exigidos pela legislação aplicável, consideram-se
contas consolídadas o balanço …
Artigo 3
(Espécies de Instituições de crédito)
137
São instituições de crédito:
a) ................................................................................. ;
b) ................................................................................. ;
e) ................................................................................ ;
d) .................................................................................. ;
e) ................................................................................. ;
j) os microbancos, nos diversos tipos admitidos na legislação aplicâvel;
g) as instituições de moeda electrónica;
h) outras empresas que, correspondendo à definição da alínea a) do nº 1 do artigo 2, como tal sejam qualificadas por Decreto do
Conselho de Ministros.
Artigo 4
(Actlvidade das instituições de crédito)
1. Os bancos podem exercer as seguintes actividades:
a) .............................................................................. ,
b) operações de crédito, incluindo concessão de garantias e outros compromissos;
e) .............................................................................. ;
d) .............................................................................. ;
e) .............................................................................. ;
j) .............................................................................. ;
g) .............................................................................. ;
h) .............................................................................. ;
. i) .............................................................................. ;
J) ............. : ................................................................ ;
k) .............................................................................. ;
l) .. , ........................................................................... ;
111) ............................................................................. ..
2. Os bancos podem ainda ser autorizados a exercer as actividades de locação financeira e factoring.
3. As restantes instituições de crédito só podem efectuar as operações que lhes são permitidas pela legislação que rege a sua
actividade.
Arllgo 5
(Espécies de sociedades financeiras)
São sociedades financeiras:
u) .............................................................................. ;
b) .............................................................................. ;
e) ........................................... ., ................................. ;
d) .............................................................................. ;
e) .............................................................................. ;
f} .............................................................................. ;
g) as sociedades emitentes ou gestoras de cartões de crédito;
h) as casas de câmbio;
i) as casas de desconto;
j) outras empresas que, correspondendo à definição da alínea b) don.0 l do artigo 2, sejam como tal qualificadas por Decreto do
Çonselho de Minislros.
Artigo 6
(Actividades das sociedades financeiras)
As sociedades' financeiras só podem efectuar as operações que …
Artigo 7
(Principio da exclusividade)
1. Só as instituições de crédito podem exercer a actividade de recepção, do público, de depósitos ou outros fundos
reembolsáveis, para utilização por conta própria.
2 ...................................................................................... .
3 ...................................................................................... .
4. O disposto no n.0 2 do presente artigo não obsta a <jUe as seguintes entidades realizem a actividade de concessão de crédito:
li) .............................................................................. ;
b) pessoas singulares e outras pessoas c oleclivas não previstas nos números anteriores, nos termos da legislação aplicável.
Artigo 10
(Verdade das firmas ou denominações)
1. Só as instituições de crédito e sociedades financeiras podem incluir na sua firma ou denominação, ou usar no exercício da sua
actividade, expressões que sugiram actividade própria das instituições de crédito ou das sociedades financeiras, designadamente
"banco", "banqueiro", "microbanco", "de crédito", "de depósitos", "locação financeira", "leasing'' e "factoring".
138
2 ........................................................................................ .
Artigo 11
(RequMtos gerais)
! ....................................................................................... .
2. Para além dos requisitos previstos nas alíneas a) e d) do número anterior, as sociedades financeiras com sede em
Moçambique devem ter por objecto principal uma ou mais das actividades referidas nas alíneas b) a g) do nº 1 do artigo 4 ou
outra prevista na ,legislação aplicável.
3 ........................................................................................ .
4. O capital das instituições de crédito e sociedades financeiras deve ser integralmente realizado no pra20 de 6 meses, a contar
da d11ta de constituição ou da data da subscrição, qu11ndo se trate de
aumento de capital.
5. A realização do capital social, tanto no âmbito da constituição
como nos casos de aumento, faz-se mediante depósito do respectivo
montante numa instituição de crédito a operar no país e que não
seja a própria.
6. Sempre que a situação o justifique, nomeadamente tendo
em atenção a respectiva dimensão e âmbito de implantação,
mediante requerimento prévio dos proponentes devidamente
fundamentado, o Banco de Moçambique pode autorizar a
constituição de microbancos com dispensa do requisito da
alínea b) do n.º 1 do presente artigo.
Artigo 12
(Órgão de administração ou equiparado)
1. A gestão das instituições lle crédito e sociedades financeiras
é confiada a um conselho de 11dministração ou órgão equiparado.
2. A criação de qualquer órgão, colegial ou individuo!, a que
se atribua a gestão corrente da instituição de crédito ou sociedade
financeira, designadamente direcção executiva ou director
executivo, comissão executiva, conselho directivo ou equiparados.
deve e onstar ou estar nrevista nos estatutos. com indicacào
Artigo 13
(Autorização de constituição)
A constituição de instituições de crédito e sociedades financeiras
depende de autorização a conceder, caso a caso, pelo Governador
do Ban:::o de Moçambique.
Artigo 14
(Instrução do pedido)
1. O pedido, dirigido ao Governador, deve ser apresentado no
Banco de Moçambique e instruído com os seguintes elementos:
~ ::::: :.:.:· ::::::. :·::· :: ::::::: ..: ::·::: .::·: :~i
e) identificação dos sócios ou accionistas fundadores, com
especificação do capital por cada um subscrito,
devendo juntar declâraçào de que os fundos a afectar
e mobilizar não são de proveniência ilícita ou
criminosa e declaração emitida pela autoridade
competente ou, na sua 1mpossibihdade, compromisso
de honra em como não verifica nenhuma das
circ'μnstancias referidas nas alíneas a) a d) do Q.º 4 do
artigo 19, bem ainda, tratando-se de pessoa singular,
certificado de registo crimmal váhdo;
f} ............................................................... : ............. .
2 ...................................................................................... .
3. O Banco de Moçambique pode solicitar aos requerentes
informações complementares e levar a cabo as averiguações que
considere necessárias, nomeadamente quanto à ongem e
proveniência dos fundos a alocar à mstituição de crédito ou
sociedade financeira a constituir, entre outras.
Artigo 15
(Decisão)
) ........................................................................................ .
139
2. O pedido é indefendo sempre que:
a) .............................................................................. ;
b) ............................................................................. ;
e) ............................................................................. ;
d) ............................................................................. ;
e) o Banco de Moçambique não considerar demonstrado
que todos os detentores de participações quàlificadas
satisfazem os requisitos estabelecidos no artigo 65A;
j} a adequada supervisão da instituição a constituir seja
mviabilizada por uma relação de proximidade entre a
instituição e outras pessoas, ou pelas disposições legais
ou regulamentares de um país tercelfO a que esteja
SUJeita alguma das refendas pessoas, ou ainda poJ
dificuldades inerentes à aplicação de tais disposições;
g) houver fundadas dúvidas ou razoáveis suspeitas relativas
à idoneidade; experiência ou competência dos
requerentes, ou quanto à licitude da ongem e
p1ovemência dos fundos a alocar à actividade.
3. Em caso de mdeferimento, o Banco de Moçambique, se
entender necessá1 io para reserva da confidencialidade das fontes
e do sigilo, pode abster~se de comunicar especificadamente as
causas da recusa, bastando, se for caso disso, a mvocação genérica
dos preceitos legais aphcáve1s.
4. Não obstante o preenchimento dos requisitos foIDJais, o pedido
de autorização pode ainda ser indeferido se- a anáhse da situação
específica do mercado onde se pretende implantar a entidade a
277
5. Constitui factor positivo d e ponderação a existência d a
experiência adequada i:eferida no artigo 20, por parte dos requerentes
ou dos titulares dii.órgãos sociais.
.................................... ,. ................................................... .
Àrtigo 17
(Revogação e suspensão preventiva da autorização)
) ...................................................................................... .
2 ..................................................................................... .
3. Independentemente da dedução de acusação por qualquer ?as inftacções previstas no capítulo IX da presente Lei, mas
podendo
igualmente ser preliminar ou incidente da mesma o Banco de
Moçambique pode determinar a suspensão p;eventiva da
autorizaçãó quando a gravidade da situação o justifique havendo
fundado receio da verificação de alguma das seguintes ~ituações.
a) perturbação do mercado monetário, financeiro ou cambial;
b) grave prejuízo para a confiança no sistema financeiro;
e) continuação da prática de grave irregularidade.
4. Determmada a suspensão, são iínediatamenle encerrados
todQS os estabelecimentos e suspensa a àctividade da instituição
de crédito ou sociedade financeira, podendo, contudo, manter-'Se
os serviços mínimos indispensáveis ou necessários. se o Banco
de Moçambiq~e o considerar conveniente. ·
Artigo 18
(Competência e forma de revogação)
1. A revogação da autorização é da competência do Governador
do Banco de Moçambique.
2 ...................................................................................... .
Artigo 19
(Idoneidade dos membros dos órgãos sociais)
1. Salvo quando o contrário da própria situação resultar o
disposto na presente Lei, quanto aos titulares de órgãos wcia1~, é
extensivo, com as necessárias adaptações, aos titulares de outros
órgãos não obrigatórios criados pela instituição d e crédito ou
140
sociedade financeira à 1 uz dos seus estatutos, bem como a os
titulares de cargos relevantes de gestão, nos termos definidos ~lo
Banco de Moçambique.
2. Dos órgãos sociais de uma instituição de créduo ou de uma
sociedade financeira, designadamente de administração e
fiscalização, apen~s podem fazer parte pessoas cuja idoneidade
dê garantms de gestão sã e prudente, tendo em vista, de modo
particular, a segurança dos fundos que lhes forem confiados..
3. Na apreciação da idonoidade deve ter-se em conta o modo
como a pessoa gere habituahnente os negócios ou exerce a profissão,
em especial nos.aspectos que revelem incapacidade para decidir
de forma ponderada e criteriosa, ou tendência para não cumpnr
pontualmente as suas obrigações ou para ter comportamentos
incompatíveis com ·a preservação da confiança do mercado.
4. Entre outras circunstâncias atendíveis, considera-se indiciador
de falta de idoneidade o facto de a pessoa ter sido:
a) declarada, por sentença prefenda em tribunais nacionais
ou estrangeiros, falida ou insolvente, ou responsável
por falência ou insolvência de empresa por ela dominada
ou de que ela tenha sido admm1stradora, directora ou
gerente;
b) condenada, no país ou no estrangeiro, por crimes de
falência dolosa, falência por negligência, falsificação,
furto, roubQ, burla por defraudação, extorsão, abuso
de confiança, usura, fraude cambial e e missão de
278
e) administradora, directora ou gerente de empresa, no país
ou no estrangeiro, cuja falência ou insolvência tenha
sido prevenida, suspensa ou evitada por providências
de saneamento ou outros meios preventivos ou
suspensivos, desde que seja reconhecida pelas
autoridades competentes a sua responsabilidade por
essa situação;
d) condenada, no pais ou no estrangeiro, pela prática de
infracções às regras legais ou regulamentares que regem
a actividade das instituições de crédito e das sociedades
financeiras, a actividade seguradora e o mercado de
valores mobiliários, quando a gravidade ou reincidência
dessas infracções o justifique.
5._0 Banco de Moçambique, para efeitos deste artigo, troca
informações com outras autoridades de supervisão bancária e dos
mercados segurador e de valores mobiliários, quer no pais, quer
no estrangeiro.
Artigo 20
(Experiência profissional)
1. Os titulares de cargos sociais de instituições de crédito e
sociedades financeiras, em especial do órgão de administração e
de fiscalização, nomeadamente aqueles a quem caiba assegurar a
sua gestão corrente, devem possuir experiência adequada ao
desempenho dos respectivos cargos e funções.
2. Presume-se existir experiência adequada quando a pessoa
em causa tenha anteriormente exercido, de forma competente,
funções de responsabilidade no domínio financeiro ou disponha
de reconhecida competência em matéria económica, jurídica ou
de gestão.
3. A duração da experiência anterior, a natureza e o gn~u de
responsabilidade das funções previamente exercidas devem estar
em consonância com as características e dimensão da instituição
de crédito ou sociedade financeira de que se trate.
4. A verificação do preenchimento do requisito de experiência
141
adequada pode ser objecto de consulta prévia.
Artigo 21
(Falta de requisitos dos órgãos sociais)
1. Se, por qualquer motivo, deixarem de estar preenchidos os
requisitos legais ou estatutários do normal funcionamento de um
órgão social de uma instituição de crédito ou de uma sociedade
financeira, o Banco de Moçambique fixa o prazo para ser alterada
a composição do órgão em causn.
2 .............................................................................................. ..
Artigo 23
(Alterações estatutárias em geral)
As a Iterações dos estatutos das instituições de crédito e
sociedades financeiras estão sujeitas a prévia autorização d o
Governador do Banco de Moçambique.
Arllgo 24
(Fusão, cisão e dissolução)
Qualquer fusão, cisão ou dissolução que envolva instituições
de crédito ou sociedades financeiras carece de autorização prl-via
Artigo 32
(Autorização)
1. O estabelecimento da sucursal fica dependente de autorização
a ser concedida, caso a caso, pelo Governador d o B anca d e
Moçambique.
2 ....................................................................................... .
............................ , ................................................................. .
Artigo 40
(Sujeição a registo)
1 ...................................................................................... .
2. Os factos sujeitos a registo e bem ainda o prazo para a sua
efectivação são estabelecidos nos tennos do artigo J 1 8 da presente
Lei.
Artigo41
(Recusa de registo)
Além de outros casos legalmente previstos, o registo é recusado
nos seguintes casos:
a) ............................................................................. ;
b) .............................................................................. ;
e) ............................................................................. ;
d) quando se verifique que não está preenchida alguma
das condições de que depende a autorização necessária
para a constituição ou para o exercício da actividade
de instituição de crédito ou sociedade financeira.
Artigo 49
(Excepções''ao dever de segredo)
) ..................................................................................... ..
2. Fora do caso previsto no número anterior, os factos e elementos
cobertos pelo dever de segredo só podem ser revelados:
a) .............................................................................. ;
b) : ............................................................................ ;
e) .............................................................................. ;
d) a o Fundo d e Garantia d e Depósitos, no âmbito d as
respectivas atribuições;
e) quando haja ordem judicial, assinada por um juiz de
direito.
3. É lícita, designadamente para efeitos estatísticos, 11
divulgação de informações em forma sumária ou agregada e que
não permita identificação individualizada de pessoas ou
instituições.
Artigo 51
(Crédito çorrelacionado)
142
1. As instituições de crédito e sociedades financeiras não podem
conceder crédito, sob qualquer fonna ou modalidade, incluindo
a prestação de garantias e, quer directa quer indirectameme, aos
membros dos seus órgãos sociais, nem a sociedades ou outros
entes colectivos por eles directa ou indirectamente dominados.
2 ....................................................................................... .
3 ....................................................................................... .
4 ...................................................................................... .
5. O disposto nos n °• 1 a 3 não se aplica às operações d e
concessão de crédito de que sejam beneficiárias instituições de
crédito e sociedades financeiras que se encontrem incluídas no
p~rimetro de supervisão em base consolidada'. a que esteja sujeita
7. As instituições de crédito e sociedades financeiras só podem
conceder crédito, sob qualquer forma ou modalidade, quer às
entidades que nelas, CÍirecta ou indirectªmente. detenham
participações qualificadas, quer às entidades onde detenham
participações qualificadas, nos termos e condições fixados pelo
Banco de Moçambique.
Artigo 52
(Operações com entidades correlacionadas)
Os membros dos órgãos sociais, os directores e outros
empregados, os consultores e mandatários das instituições de crédito
e sociedades financeiras, são considerados entidades
correlacionadas, não podéndo intervir na apreciação e decisão
das operações em que sejam directa ou indirectamente interessados
os próprios, seus cônjuges, parentes até ao 2º grau ou afins em l º
grau, ou sociedades ou outros entes colectivos que uns ou outros
directa ou indirectamente dominem.
Artigo 55
(Supervisão)
1 ...................................................................................... .
2. Compete ao Banco de M oçarhbique definir os termos e
condições em que as instituições de crédito e sociedades
financeiras, bem como as entidades a elas ligadas por relações de
proximidade, de domínio ou de grupo, são sujeitas a supervisão
em base consolidada.
3. No exercício das funções de supervisão, os funcionários do
Banco de Moçambique são equiparados aos funcionários públicos,
gozando dos poderes e atnbutos dos agentes de autoridade, sendo-
lhes também aplicável o respectivo regime penal.
4. Os funcionários do Banco de Moçambique não podem ser
responsabilizados pelos actos que pratiquem à luz da presente
Lei, desde que ajam de boa-fé.
5. O disposto no presente artigo aphca-se às acções de
supervisão levadas a cabo por terceiros, individuais ou empresas,
contratados pelo Banco de Moçambique e agindo em seu nome.
Artigo 59
(Fundo de Garantia de Depósitos)
Compete a o Governo criar um Fundo com o objectivo d e
garantir o reembolso de depósitos constituídos nas instituições
participantes, bem assim a fixar as normas para o seu
funcionamento.
Artigo 65
(Autorizações e comunicações relativas à .alienação.de
participações qualificadas)
1. Os sócios ou accionistas que pretendam alienar partes sociais
em instituições de crédito e sociedades financeiras, consideradas
participações quahficadas nos tennos da presente Lei, devem
requerer a autorização prévia do Banco de Moçambique,
indicando no seu pedido o montante da p1_1rticipação e instrumdoo,
143
para além do projecto, com os elementos rçferidos na
").Hn.o~ n\ l"ln n O 1 nu nn n ° ') rln ":lrf;,,.,I"\ lA ,..n.tu.•n.~nt-3 n o:1rlrtn;r~:u,,ta.
279
2. Quando se trate de aumento de participação ou entrada de
novo sócio ou accioaista ~ecorr~nte de aumento.do capital social,
a solicitação previa de aútorização réferida no número anterior é
feita pela própria instituição de crédito ou sociedade financeira.
3. O disposto neste artigo-aplica-se ainda à transmissão de
participações que possibilitem aos que pretendem aumentá-la,
atingir 10% ou 50% do capital social ou dos direitos de voto, ou
ainda a transformação da-instituição participada em filial da
entidade adquirente, ou ainda, com as necess1Írias adaptações,
quando provoque naqueles que alienam uma diminuição da sua
participação a um nível inferior a qualquer dos limiares acima
indicados ou de tal modo que a instituição deixe de ser sua filial.
Artigo 66
(Comunicação subsequente)
Sem prejuízo do disposto nos artigos 65 e 65A, os factos de
que resulte, directa ou indirectamente, a detenção de participação
qualificada numa i nsfituição de crédito ou numa sociedade
financeira, ou o seu aumento, devem ser notificados pelo mteressado
ou pela instituição ao Banco de Moçambique, no prazo de 30
dias, a contar da data em que os mesmos factos se verificarem.
Artigo 68
(Inibição dos direitos de voto)
Sem prejuízo d as sanções a plicáveis, a transmissão, ou o
aumento ou diminuição nos termos do nº 3 do artigo 65, de
participação qualificada, sem autorização prévia do Banco de
Moçambiqúe ou que o Banco de Moçambique tenha recusado,
determinam inibição do direito de voto na parte que exceda o
limite mais baixo que tiver sido ultrapassado.
Artigo 73
(Gestão sã e prudente)
1. Sem prejuízo da aplicação das sanções que ao caso cmbam,
se as condições em que decorre a actividade de uma instituição
de crédito ou de uma sociedade financeira não respeitarem as
regras de uma gestão sã e prudente, o Banco de Moçambique
deve notificá-la para, no prazo que lhe fixar, tomar as providências
necessárias para restabelecer ou reforçar o equilíbrio financeiro,
ou corrigir os métodos d e gestão, podendo inclusivamente
recomendar a substituição ou o afastamento do gestor responsável,
se for caso disso.
2. Sempre que tiver conhecimento do projecto de uma operação
por uma instituição de crédito ou sociedade financeira que, no
seu entender, seja susceptível de •mplicar a violação ou o
agravamento d a violação d e regras p rudenciais aplicáveis ou
infringir as regras d e uma gestão sã e prudente, o Banco d e
Moçambique deve notificar essa instituição para se abster de realizar
tal operação.
Artigo 77
(Auditores externos)
1 ....................................................................................... .
2. Sem prejuízo do disposfo no número anterior, o Banco de
Moçambique pode, excepcionalmente, mandar efectuar aud1tona
externa a uma instituição de crédito ou uma sociedade financeira,
280
Artigo 78
(Actuação contra entidades não habilitadas)
1 ....................................................................................... .
2. Sem prejuízo da legitimidade atribuída peh1 lei a outras pessoas,
144
o Banco de Moçambique pode requerer a dissolução e liquidação
de sociedade ou outro ente colectivo, bem como a extinção e
encerramento de estabelecimento que, sem estar habilitado, pratique
operações reservadas às instituições d e crédito e sociedades
financeiras.
Artigo 79
(Actuaçilo e colaboração das autoridades policiais)
1. Se~ prejuízo do disposto no artigo antermr, as autoridades
policiais, no quadro das suas atrjbuições e competências, devem
garantir o cumprimento rigoroso da presente Lei, actuando contra
as entidades não habilitadas que exerçam actividades reservadas
às instituições de crédito e sociedades financeiras.
2. As autoridades policiais devem igualmente prestar ao Banco
de Moçambique a colaboração que este lhes solicite no âmb.ito
das suas atribuições de supervisão.
Artigo 81
(Finalidade das providências de saneamento)
1 ..................................................................................... ..
2 ....................................................................................... .
3. O saneamento inicia-se com a determinação, pelo Banco
de Moçambique, de alguma das providências extraordinárias de
saneamento indicadas no artigo 83, devendo informar-se
expressamente a instituição de crédito ou sociedade financeira
em causa do saneamento financeiro a que ficas ujeíta a partir
daquela data, bem como notificá-la aquando do seu termo, quando
se ultrapassem as causas que o ditaram.
Artigo 83
(Providências extraordinárias de saneamento)
1. Quando uma instituição de crédito ou sociedade financeira
se encontre ern situação de d~sequilíbrio financeiro, traduzido,
designadamente, na redução dos fundos próprios a um n ivel
inferior a o mini mo lega 1 ou na inobservância dos nícios d e
solvabilidade ou d e 1 iquidez, o Banco d e Moçambique pode
determinar, no prazo que fixar, a aplicação de algumas ou de todas
as seguintes providências extraordinárias ~e saneamento:
a) apresentação pela instituição em causa de um plano de
recuperação e saneamento;
b) restrições ao exercício de determinados tipos de
actividades;
e) restrições à concessão de crédito e à aplicação de fundos
em determinadas espécies de activos;
d) restrições à recepção d e depósitos, em função das
respectivas modalidades de remuneração;
e) imposição da constituição de provisões especiais;
j) proibição ou limitação da distribuição de dividendos;
g) sujeição de certas operações ou certos actos à prévia
aprovação do Banco de Moçambique.
2. O Banco de Moçambique pode estabelecer as condições
que entenda convenientes para a aceitação do plano de
recuperação e saneamento referido na alínea a) d o número …
Artigo 84
(Designação de administradores provisórios)
1. No decurso do processo de saneamento, o Banco de
Moçambique pode designar para a instituição de crédito ou para
a sociedade financeira um ou mais administradores provisórios
que têm, de entre outros, os poderes e deveres conferidos pela lei
e pelos estatutos aos membros do órgão de administração.
2. Sempre que considere que a continuidade em funções de
algum, vários ou todos os membros do órgão de administração é
susceptível de perturbar ou prejudicar o trabalho dos administradores
145
provisórios, o Banco de Moçambique pode recomendar o seu
afastamento.
Artigo 106
(Contravenções em geral)
Constituem contravenções, puníveis com multa de dez a cem
milhões de meticais ou de quarenta a quatrocentos milhões de
meticais, consoante seja aplicada a pessoa singular ou colectJVa,
as infracções adiaJ!te referidas:
a} .................................................................................. ;
b) .................................................................................. ;
e) .................................................................................. ;
d) .................................................................................. ;
e) .................................................................................. ;
j) ................................................................................ ..
Artigo 107
(Contravenções especialmente graves)
São puníveis com multa de vinte a duzentos milhões de meticais
ou de cem a mil milhões de meticais, conforme se trate de pessoas
singulares ou rnlcctivas, as infracções adiante referidas:
a) .................................................................................. ;
b) .................................................................................. ;
e) .................................................................................. ;
d) .................................................................................. ;
e) .................................................................................. ;
j) .................................................................................. ;
g) .................................................................................. ;
h) .................................................................................. ;
i) .................................................................................. ;
j} .................................................................................. ;
k) .................................................................................. ;
/) ................................................................................. .
Artigo 108
(Cobrança coerciva, destino e actuallzação de multas)
1. As multas previstas na presente Lei, quando não pagas
voluntariamente dentro dos prazos 1 egais, são o bjecto dos
procedimentos de cobrança coerciva de dívidas ao Estado.
2. Compete ao Conselho de Ministros, por decreto, actualizar os
montantes das multas previstas nos artigos anteriores.
3. As multas cobradas ao abrigo da presente Lei constituem
receita do Estado, competindo ao Ministro do Plano e Finanças
definir as percentagens a reverter para o Banco de Moçambique
Artigo JlO
(Competência)
1. A competência para a tramitação e decisão do processo das
contravenções previstas na presenle Lei e a aplicação das sanções
correspondentes pertence ao Banco de Moçambique.
2 ....................................................................... ,. ............ ..
3 ...................................................................................... .
4 ...................................................................................... .
5. Sempre que a multa a aplicar não exceda um quinto dos
valores máximos indicados nas molduras penais dos artigos 106
e 107, o Banco de Moçambique pode prescindir da dedução prévia
da acusação, conforme previsto no nº 3 deste artigo.
6. Quando use da faculdade conferida pelo número anterior, o
Banco de Moçambique notifica o infracfor para pagamento da
multa no prazo de 1 O dias, ou reclamar dentro do mesmo prazo
para o Banco de Moçambique, por escrito, querendo, mediante
apresentação do comprovativo de dep~sito de caução no valor da
multa, dentro do referido prazo.
7. Em caso de reclamação, esta equivale, para todos os efeitos,
146
à defesa 1eferida no nº 3 deste artigo, podendo recorrer-se da
decisão que recair sobre a mesma, nos termos do artigo 112.
Arllgo 116
(Forma e publicidade dos actos do Banco de Moçambique)
Os poderes por esta Lei conferidos ao Banco de Moçambique,
de emilir normas para o sistema financeiro, são exercidos por
meio de Aviso, a p ubhcar na p nme1ra série d o Boletim da
R epzí blica
Artigo 117
(Recurso)
Das decisões tomadas no âmbito da presente Lei, em tudo que
nela não esteja especialmente regulado, cabe recurso contencioso
para o Tnbunal Admmistrativo, com efeitos meramente
devoluuvos.
Artigo 118
(Competência Regulamentar)
Compete ao Conselho de Minist1os 1egulamentar as matérias
contidas na presente Lei.
Artigo J 19
(Prazo para regulamentação)
1. A regulamentação da presente Lei deve ser aprovada no prazo
de 90 dias, a contar da data da sua publicação.
2. Salvo quando contrarie as disposições da p1esente Lei, até à
aprovação da regulamentação referida no nº 1 deste artigo, mantémse
a regulamentação actualmente em vigor.
Artigo 120
(Disposição transitória)
Sem prejuízo do disposto no artigo 119, as instituições de
crédito e sociedades financeiras, bem como as demais entidades
abrangidas, têm o prazo de 9 O dias para se adequarem às
disposições da presente Lei.
ARTIGO 2
(Eliminação)
É ehmmado o artigo 53.
ARTIGO 3
Artigo IA
(Superintendência-pelo Ministro do Plano e Finanças)
1. A superintendência d o mercado monetário, financeiro e
cambial é da competênciª do lylj~i1;trQ que superintende a área
do P !ano e Finanças, devendo intervir sempre que se registe
alguma perturbação nesses mercados.
2. Na execução e implementação da presente Lei, o Banco de
Moçambique observa as políticas do Governo.
Artigo 24A
(Comunicação ao Ministro do Plano e Finanças)
Os actos praticados no âmbito das competências estabelecidas
nos artigos 13, 17, 23, 24 e 32 devem ser dados a conhecer ao
Ministro que superintende a área do Plano e Finanças no prazo
de 30 dias.
Artigo 65A
(Decisão sobre pedido de autorização para alienação
de participações qualificadas)
1. O Banco de Moçambique deve comunicar ao requerente,
no prazo máximo de 45 dias, a decisão sobre o pe(lido de
autorização de alienação de participação qualificada.
2. A autorização não é concedida quando não se considerar
demonstrado que o adquirente em causa ou as características do
seu projecto reúnem condições que garantam uma gestão sã e
prudente da instituição de crédito ou sociedade financeira.
3. Considera-se que tais condições não existem quando se
147
verifique alguma das seguintes circunstâncias:
a) se o modo como a pessoa em causa gere habitualmente
os seus negócios ou a natureza da sua actividade
profissional revelarem propensão acentuada para
assumir riscos excessivos;
b) se for inadequada a situação económico-financeira da
pessoa em causa, em função do montante da
participação que se propõe deter;
e) se o Banco de Moçambique tiver fundadas dúvidas sobre
a licitude da proveniência <los fundos utilizados na
aquisição d a parllcipaçào, ou sobre a verdadeira
identidade do titular desses fundos;
d) se a estrutura e as caiacterísticas do grupo empresarial
em que a instituição de crédito ou sociedade financeira
passaria a estar integrada inviabilizarem uma
supervisão adequada;
e) se a pessoa em causa recusar condições necessárias ao
saneamento da instituição de crédito que tenham sido
previamente estabelecidas pelo Banco de
Moçambique;
f) se a pessoa em causa tJver sido, nos últimos cinco anos,
objecto de sanção prevista na alínea e) do nº 1 do
artigo 109;
g) tratando-se de pessoa singular, se se verificar
relativamente a ela algum dos factos que indiciem falta·
de idoneidade, nos tennos do artigo 19.
4. Quando a entidade adquirente seja instituição de crédito ou
sociedade financeira com sede no estrangeiro ou empresa-mãe
de instituição nestas condições, ou pessoa smgular ou colectiva
que domine instituição de crédito ou sociedade financeira com
sede no estrangeiro' e se, por força da operação projectada, a
instituição de crédito ou sociedade financeira em que a
participação venha a ser detida se transformar ení sua filial, o
5. Quando autorize a alienação, o Banco de Moçambique pode
fixar prazo razoável para a. realização da operação projectada,
entendendo-se, nos casos em que nada disser, que aquele é de um
ano.
6. Para além dos elementos de informação.referidos no nº l do
artigo 65, com que os interessados devem instruir o pedido prévio
de iiutorização para alie·nação de.participação qualificada, o Banco
de Moçambique pode ainda exigir quaisquer outros que considere
necessários à sua apreciação.
7. Uma vez celebrados os actos de concretização da alienação
ou aumento de participação sujeita a autorização prévia nos termos
do artigo 65, devem os mesmos ser comunicados ao Banco de
Moçambique, no prazo de 15 dias."
ARTIGO 4
(Disposição revogatória)
São revogadas as normas jurídicas da Lei n.º 15/99, de 1 de
Novembro, e demais legislação que contrariem a presente Lei.
ARTIGOS
(Entrada em vigor)
A presen~e Lei entra em vigor na data da sua publicação.
Aprovada pela Assembleia da República, aos 28 de Abril de
2004.
O Presidente da Assembleia da República, Eduardo Joaquim
Mulémbwe.
Promulgado em 19 de Junho de 2004.
Publique-se.
O Presidente da República, JOAQUIM ALBERTO Ci11SSANO.
148
CAPÍTULO III
DIREITO BANCÁRIO MATERIAL
3.1. Características do Direito Bancário
O Direito Bancário apresenta traços característicos próprios que o distinguem dos outros ramos incluindo
o comercial. Entre esses traços merecem destaque:

A Personalização - as operações bancárias são realizadas com base na relação pessoal entre o Banco e o
cliente, relação baseada na confiança e na boa-fé negocial. É a chamada relação intuítu persoanae por
excelência. As operações bancárias são realizadas com base na relação pessoal entre o Banco e o cliente,
baseado na confiança e boa-fé negociais – intuíto persoanae.

A Massificação e a celeridade - o comércio bancário exige negociações simples e céleres, sem muito
tempo de espera, ele exige rapidez das suas operações, daí que muitas vezes se recorra ao uso massivo de
cláusulas contratuais gerais, às quais os clientes se limitam a aderir. O comércio bancário exige
negociação nem complexos, nem casuísticos, tempo de espera.

A Desformalização - as operações bancárias não são dotadas de muito formalismo. Elas são despidas de
especiais formalismos a tal ponto que uma simples assinatura é bastante para a manifestação de vontade
num negócio jurídico-bancário. As operações bancárias não são dotadas de muito formalismo. Elas são
despidos de especiais formalismos.

A Desmaterialização - as operações bancárias tendem para a utilização cada vez menos do dinheiro físico
e caminham para uma utilização mais frequente de valores, de títulos, de cartões bancários e de outras
formas modernas de circulação do dinheiro. As operações bancárias tendem para a utilização cada vez
mais de dinheiro e cada vez mas de valores, títulos, cartões, etc.

A Flexibilidade - o Direito Bancário tem a capacidade de adoptar soluções e respostas rápidas para os
novos desafios, criando assim novas figuras e institutos ou renovando e adaptando os mesmos. O Direito
Bancário tem capacidade de adoptar soluções e respostas rápidas para os entes, criando novas figuras e
instituições, renovando ou adoptando outros. É o caso da uniformização de garantia bancária, da
existência de organismo interno e do estabelecimento de Sucursais.

A Internacionalização - no plano internacional, há uma expansão cada vez maior da actividade bancária,
como consequência da expansão do comércio internacional e da mundialização da economia, do que
decorre a uniformização de práticas bancárias, a criação de organismos internacionais, para além do
estabelecimento de sucursais, filiais, agências ou outras formas de representação

149
A Tecnicidade – as operações bancárias são muito técnicas, sendo essa tecnicidade doptada de
universalidade, o que significa que as operações bancárias seguem, em todo o mundo, os mesmos
procedimentos práticos.

A Instabilidade – carácter dinâmico da actividade bancária leva a mudança constante das suas normas, o
que significa instabilidade legislativa.

A Imperatividade – a actividade bancária exige a observância escrupulosa das normas que a regem.

A Imprecisão e indeterminação – Os negócios jurídicos bancários têm um carácter aberto e indefinido,


contém conceitos indeterminados porque assentam em realidades económicas ou em práticas bancárias até
não reguladas ou pré-jurídicas, portanto conceitos jurídicos assentes no substracto económico. Por
exemplo os conceitos: movimentos a débito e a crédito, operação de crédito, crédito, transferência,
empréstimo. Os negócios jurídicos bancários têm um carácter aberto e indefinido, contém conceitos
indeterminados porque assentam em realidades económicas ou em práticas bancárias até não reguladas
(pré-jurídicas. Por exemplo os conceitos: i) movimentos a débito; ii) movimento a crédito; iii) operação de
crédito; iv) transferência; v) empréstimo; vi) crédito - são compostos jurídicos e vii) assentes nos sub-
contratos económicos.

3.2. Quadro Sinóptico desta Unidade, na forma de Questionário


1. Comunga ou não da ideia de que a expressão “Direito Bancário” não tem em si mesma nenhum
significado ou sentido? Porquê?
2. Confirma ou não que a expressão “Direito Bancário” é equívoca?
3. Aponte os conceitos possíveis de “Direito Bancário”.
4. Demonstre que a inserção do Direito Bancário no curso jurídico foi um erro de concepção do plano
curricular.
5. Apresente as razões materiais da inserção desta disciplina no curso jurídico.
6. Apresente as razões didácticas da inserção desta disciplina no curso jurídico.
7. Identifique os sistemas em que o Direito Bancário se enquadra, visto como ramo de Direito e como
disciplina curricular.
8. Indique, justificando, a posição em que o Direito Bancário se encontra em cada sistema onde está
inserido.
9. Na sistemática geral do Direito, o Direito Bancário é uma ciência social. Concorda? Porquê?
10. Na enciclopédia jurídica (sistema de conhecimentos), o Direito Bancário é um ramo do Direito
Privado e sub-ramo do Direito Comercial. Concorda?

150
11. O Direito Bancário, visto como ramo de Direito, não tem qualquer relação com os ramos que não
fazem parte do Direito Comercial. Concorda? Porquê?
12. Embora tenha relação com todos os outros ramos do Direito, o Direito Bancário está conectado de
forma mais particular com determinados ramos. Quais?
13. Indique o aspecto de conexão que existe entre o Direito Bancário e cada um dos ramos de Direito
Publico, de Direito Privado e do hemisfério hibrido.
14. Mostre que a ciência do Direito Bancário está conectada com outras e indique quais.
15. Apresente as relações que existem entre a Introdução ao Estudo do Direito, a Teoria Geral do Direito
Civil e o Direito Bancário.
16. Distinga objecto do âmbito do Direito Bancário enquanto ramo de Direito.
17. Distinga objecto do âmbito do Direito Bancário enquanto disciplina de Direito.
18. Indique o objecto de regulação e o objecto de estudo do Direito Bancário.
19. Distinga relevância prática da importância do Direito Bancário como ramo de Direito.
20. Distinga relevância prática da importância do Direito Bancário como disciplina.
21. Demonstre que a expressão “Direito Bancário” comporta dupla significação e indique o sentido que
releva para o nosso estudo.
22. Elenca as fontes comuns do Direito e as do Direito Bancário em particular, justificando porque é que
as considera como tais estas últimas.
23. Comunga da ideia de que o costume não é fonte do Direito Bancário? Justifique.
24. Dentre as fontes do Direito Bancário, indique, justificando, a que é primeira e a que é principal.
25. A pirâmide nacional das fontes do Direito Bancário mostra a hierarquia que existe entre essas fontes.
Concorda? Porquê?
26. Visto como ramo de Direito, o Direito Bancário possui um certo assento legal. Concorda? Justifique.
27. O Direito Bancário caracteriza-se pela integração no Direito Administrativo e no Direito Comercial e
nada mais. Concorda? Porquê?
28. Para além da integração no Direito Comercial, a hibridade é uma das características do Direito
Bancário. Será isso verdade?

3.3. Situação jurídico-bancária


O conceito de situação jurídica sucede e substitui na doutrina jurídica ao conceito de relação jurídica.

A doutrina jurídica moderna entende que o conceito de relação jurídica é já inapto para retratar todas as
situações da vida que têm relevância para o Direito, devendo no seu lugar usar-se o de sistema jurídico.

A expressão assume uma diversidade de sentidos em função do campo de vida social a que se aplica.

151
Podemos assim falar em situação jurídica pública e situação jurídica privada, conforme se o seu campo de
incidência é o hemisfério público ou privado da vida social.

No plano marcadamente público, teremos situação jurídica constitucional, administrativa, penal, fiscal,
processual, económica e outros.

No plano privado, teremos a situação jurídica civil, comercial, laboral e internacional privada.

As situações da vida que pelos seus traços fisionómicos não se filiam integralmente num e noutro
hemisfério, têm natureza híbrida, são regulados por normas híbridas.

As situações jurídicas reguladas pelo Direito Bancário são designadas situações judiciais bancárias e têm
natureza híbrida, configurando-se então em parcialmente públicas e privadas.

Vamos estudar as situações jurídicas bancárias na vertente material, portanto, as situações bancárias
privadas.

A situação bancária, neste contexto traduz a realização do Direito Bancário, o Direito que rege ou
disciplina os actos das instituições que se ocupam de dinheiros.

Deve assim, ser entendida como aquela que é regulada pelo Direito bancário.

É evidente que não é qualquer acto de uma instituição financeira que se assume como situação jurídico
bancária, só aquela que pelas suas características, cabe no âmbito das normas bancárias, portanto só
aquela que é praticada com o envolvimento de uma instituição financeira e no âmbito da actividade
bancária.

A situação bancária apresenta um determinado quadro de classificações e um conjunto de elementos.

Nota: o texto continua mas por enquanto paramos aqui.

FIM

152
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Doutrina
1. ABRÃO, Nelson, Direito Bancário, 6ª ed. revista e actualizada, Editora Saraiva, S. Paulo, 2000.
2. ASCENSÃO, José de Oliveira & Correia, Ferrer, Direito Comercial (Títulos de Crédito).
3. ATHAYDE, Augusto Albuerquerque et all, Curso de Direito Bancário, vols. I, II e III, qualquer
edição.
4. BANCO DE PORTUGAL, Crédito Mal-Parado: Meios Jurídicos de Prevenção, Lisboa, qualquer
edição.
5. CAMPOS, Diogo Leite de et al, Sigilo Bancário, in Edições Cosmos, Lisboa, qualquer edição.
6. CORDEIRO, António Menezes, Das Cartas de Conforto no Direito Bancário, Lex, Lisboa, última
edição.
7. CORDEIRO, António Menezes, Direito Bancário, Relatório, Almedina, Coimbra, qualquer
edição.
8. CORDEIRO, António Menezes et al, Estudos de Direito Bancário, Coimbra Editora, qualquer
edição.
9. CORDEIRO, António Menezes, Leis da Banca, Almedina, Coimbra, qualquer edição.
10. CORDEIRO, António Menezes, Manual do Direito Bancário, reimpressão, Almedina Coimbra,
1999, qualquer edição.
11. CAMINHO, Paula Ponces, Do Contrato de Depósito Bancário, Almedina, Coimbra, qualquer
edição.
12. CORREIA, António Ferrer, Notas para o Estudo do Contrato de Garantia Bancária: Os
Administradores de Sociedades Anónimas, Almedina, Coimbra, qualquer edição.
13. CORTEZ, Francisco, A Garantia Bancária Autónoma, Alguns problemas, Revista da Ordem dos
Advogados de Portugal, qualquer edição.
14. COSTA, Mário Júlio de Almeida e PINTO MONTEIRO, António, Garantias Bancárias, O
Contrato de Garantia à Primeira Solicitação, Colectânea de Jurisprudência, qualquer edição.
15. CUNHA, Paulo, Da Garantia nas Obrigações, Apontamentos das aulas de Direito Civil do 5.º
Ano da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, qualquer edição.
16. DECOSTER, Emile, Iniciação Bancária, 3ª ed. Revista e Actualizada, Clássica Editora.
17. GOMES, Fátima, Garantia Bancária Autónoma à Primeira Solicitação, Direito e Justiça, qualquer
Edição.
18. GUNE, Boaventura, Sigilo Bancário na Ordem Jurídica moçambicana: extensão e limites, tese de
Mestrado em Ciências Jurídico-Empresariais.

153
19. INSTITUTO DE FORMAÇÃO BANCÁRIA DE MOÇAMBIQUE, Commercial Bank Training -
Seminário Direito Bancário, Maputo, qualquer edição.
20. INSTITUTO DE FORMAÇÃO BANCÁRIA, Leis Uniformes, qualquer edição.
21. ISSÁ, Abdul Carimo Mahomed et al, Temas de Direito Bancário, Edição da Mediateca de MBCI,
Maputo, qualquer edição.
22. LOPES, J. M Júnior, Introdução ao Direito Bancário, vol. I, Vislis Editores, qualquer edição.
23. MENDES, Evaristo, Garantias Bancárias. Natureza, Revista de Direito e de Estudos Sociais,
XXXVII, qualquer edição.
24. MATIAS, Armindo Saraiva, Direito Bancário, Coimbra Editora, qualquer edição.
25. MAZIVE, José Julai, Legislação Bancária e Financeira, qualquer edição.
26. NUNES, Fernando Conceição, Direito Bancário, Vol. I, AAFDL, qualquer edição.
27. NUNES, Fernando Conceição, Recepção de Depósitos e/ou outros Fundos Reembolsáveis,
qualquer edição.
28. PINHEIRO, Jorge Duarte, Garantia Bancária Autónoma, Revista da Ordem dos Advogados de
Portugal, qualquer edição.
29. PIRES, José Maria, Direito Bancário “As operações Bancárias”, vols. I, II e III, Rei dos Livros,
Lisboa, qualquer edição.
30. PIRES, José Maria, O dever de segredo na actividade bancária, Editora Rei dos Livros, qualquer
edição.
31. PRATA, Ana, Dicionário Jurídico, 3ª ed., Almedina, Coimbra, 1999.
32. SÁ, Almeno de, Responsabilidade Bancária, Coimbra Editora, qualquer edição.
33. SILVA, João Calvão da, Direito Bancário, Almedina, Coimbra, qualquer edição.
34. SOUSA, Rabindranath Capelo de, O Segredo Bancário, Almedina, qualquer edição.
35. VASSEUR, Michel, Droit et Economie Bancaires, Les Operations de Banque, Fascículo III, Cours
de Droit, Paris, 1988/1989.
36. VEIGA, Vasco Soares da, Cartas de Conforto ou declarações de Patrocínio, Revista da Banca, n.º
24, 1992.
37. VEIGA, Vasco Soares da, Direito Bancário, 2ª ed., Almedina Coimbra.
38. WATY, Teodoro Andrade, Introdução ao Direito Bancário, Vol. I, W&W Editora, Maputo, 2004.

Legislação
a) Constituição da República de Moçambique, publicada no BR nº 51, Iª Série, de 22 de Dezembro de
2004;

154
b) Código Comercial da República de Moçambique, aprovado pelo D-L nº 2/2005, de 27 de
Dezembro;
c) Código Civil da República de Moçambique, aprovado pelo D-L nº 47344/1966, de 25 de
Novembro de 1966, actualizado pelo Decreto-Lei nº 3/2006 de 23 de Agosto, 3ª ed., Plural
Editores;
d) Lei de Defesa do Consumidor, aprovada pela Lei n.º 22/2009 de 28 de Setembro e publicada no
BR nº 38, I Série;
e) Principal Legislação Bancária – Banco de Moçambique, Departamento de Supervisão Bancária.
CDI.2002;
f) Principal Legislação Bancária – Banco de Moçambique, Departamento de Supervisão Bancária.
CDI. 2005;
g) Código Penal.

155

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