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1) A partir da excursão teórica elaborada por MacPherson (1979), fica claro que

houve um esforço intelectual por parte dos teóricos analisados para superar os desígnios
da natureza e a vontade divina como elementos de justificação da igualdade entre os
homens e da autoridade política. Buscava-se uma nova razão justificadora. Essa razão é
encontrada pelos autores da teoria política inglesa em elementos econômicos. As bases
econômicas – mais especificamente as bases do mercado – presentes nas relações
humanas são o fator-comum inerente a todos os indivíduos da sociedade. Esse era o
elemento fundamental de todos os teóricos analisados, mas cada um deles observa a
relação entre a teoria política e a teoria econômica em angulações levemente diferentes.
Em Hobbes há a inauguração do debate teórico que relaciona teoria política e
teoria econômica de forma mais robusta. Ao incorporar elementos sobre a fisiologia e a
psicologia do homem civilizado, Hobbes elabora sobre a sociedade de mercado
possessivo e baseia a necessidade da autoridade política em princípios que se
relacionam à propriedade e à insegurança. Nos niveladores, encontramos outra
angulação: a essência humana é a propriedade de si mesmo. A partir da noção de posse
da individualidade, os niveladores constroem um debate sobre sufrágio, distinções de
classes e trabalho. Harrington, por sua vez, ao discorrer sobre a estabilidade política,
traça uma teoria do equilíbrio institucional baseada nas relações de interesses e
propriedades entre as diferentes, econômica e demograficamente, classes da Inglaterra
do século XVII. Por fim, em Locke, são revisitadas as lições do sistema teórico
hobbesiano, já mencionadas, mas abordadas em uma tentativa de incorporar o dever
moral ao dever político prudencial de Hobbes. É notório que em Locke há tanto um
reconhecimento da sociedade de mercado possessivo, quanto um esforço de superar as
bases morais que ela implicava.
O desenvolvimento da Teoria Política inglesa foi conduzido por uma razão
justificadora ligada às relações de mercado e de propriedade, presentes em diferentes
medidas em todos os autores. Sendo inevitável a subordinação às relações de mercado
era esse o elemento que constitui a igualdade fundamental entre todos os homens
(MACPHERSON, 1979).
2) Individualismo possessivo é um termo cunhado por MacPherson para apontar
uma noção de unidade comum presente no pensamento dos principais autores da teoria
política inglesa do século XVII a XIX (MACPHERSON, 1979). Esse seria o ponto
nodal entre os autores, vinculado a um aspecto possessivo na ideia de liberdade. As
suposições básicas em que se baseiam o individualismo possessivo podem ser reduzidas
a: a) “o ser é livre e humano em virtude de sua exclusiva propriedade de sua própria
pessoa” e b) “a sociedade humana é essencialmente uma série de relações de mercado”
(MACPHERSON, 1979, p. 282); a partir delas, outras suposições são derivadas: o
indivíduo ser proprietário de si mesmo e das suas capacidades, a possibilidade de
alienação do trabalho e essa como restrição de parte da liberdade, e a artificialidade da
sociedade política como dispositivo de garantia de proteção à propriedade (liberdade
humana e posses) e manutenção dos tipos de relações travadas nas sociedades de
mercado possessivo.
É a noção de individualismo possessivo e as condições que desenha ao
fenômeno político a partir do econômico que dão sustento ao estado liberal
constitucional; afinal, a regulamentação da autoridade política, feita para ela e também
feita por ela para os indivíduos, respondem às suposições que MacPherson relaciona ao
individualismo possessivo de proteção à propriedade e manutenção dos tipos de relação
no mercado possessivo. E é essa a relação que ele mantém bem conformada com o
liberalismo, seja econômico ou político. Já quanto à teoria do estado democrático-
liberal, o individualismo possessivo não apresenta uma justificativa, mas estabelece uma
relação que clarifica as condições precárias que se constituem as bases teóricas desse
modelo. Ao abordar o rompimento da coesão “economia-classes-política” com o
sufrágio democrático, a organização política das classes dominadas e a guerra,
MacPherson (1979) argumenta que o problema da teoria democrático-liberal se tornou
não enfrentamento do impasse entre a continuidade das suposições do individualismo
possessivo e a modificação das condições sócio-políticas da nossa sociedade em relação
ao estado liberal constitucional.
REFERÊNCIAS

MACPHERSON, C. B. A Teoria Política do Individualismo Possessivo. Rio de Janeiro: Paz


Terra, 1979.