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Título: Em torno da Banalidade

Autor: Raul Melo

Pensar o papel da escola como complemento à família no processo preventivo colocou-


me perante um inesperado conjunto de problemas existênciais.

A primeira questão foi o que poderia eu ter para vos dizer que não vos tivesse já dito em
ocasiões anteriores com os mais diferentes formatos, e nas sequências mais
diversificadas. Não é uma questão da pertinência dos conteudos nem da forma. É uma
questão de sentido. É aquilo que traduz um significado que vai muito para além do
plano formal da informação que eu pudesse ter para partilhar convosco. Por outras
palavras, como poderia eu dizer-vos da prática preventiva transmitindo-vos um pouco
de mim, da razão pela qual me deixo mexer por esta área e porque tento, através dela
chegar a outros? Mais, como poderia fazer disso um desafio para mim e não apenas
mais uma repetição de coisas que já disse e pensei centenas de vezes?

É evidente que poderia passar em revista todo um conjunto de directrizes que nos
orientam desde os anos 60 e que são repetidas em cada encontro científico, curso rápido
ou livro técnico da especialidade. Podia falar-vos da precocidade da intervenção
preventida, da universalidade ou da especificidade, podia desenvolver o pensamento em
torno do caracter sistémico da prevenção, de como deve envolver mais do que o grupo
identificado como alvo e alargar-se a todos aqueles que com ele interagem e que
naturalmente serão abrangidos pelas mudanças promovidas. Ainda neste domínio
poderia argumentar em torno da importância das parcerias para que a mudança iniciada
na escola, tenha um caracter global, alargando-se para fora dos muros, tocando as
diferentes realidades em que se movem os jovens e as crianças. Que os diferentes níveis
de escolaridade devem estar ligados por uma linha comum de intervenção, garantindo o
acompanhamento progressivo do processo de desenvolvimento pessoal. Sei que o
poderia fazer e que de nada serviria uma vez que a escola resiste a misturar niveis,
grupos disciplinares e que, quando o fazem, fazem-no por determinação superior e com
muito mau feitio... a maior parte das vezes. Podia falar de como o processo preventivo
não pode nem deve ser uma sobrecarga para a escola, que não é sua obrigação exclusiva
nem tem de acontecer desarticuladamente, que há quem consiga fazê-lo integrando na
abordagem os conteudos curriculares. Podia repetir aquela frase batida, não que hoje é o
primeiro dia do resto das vossas vidas, mas que o principal instrumento preventivo é a
relação. Poderia, de facto, dizer-vos tudo isso e ainda muito mais, mas, tenho
dificuldade em fazê-lo.

Quando me sentei à frente do computador para preparar a comunicação, senti-me


desconfortávelmente constrangido. Não me apetecia dizer-vos o que provavelmente a
organização deste encontro desejou que eu fizesse. E não foi por oposição mas por uma
estranha sensação de cansaço. De facto falar-vos de tudo o que enunciei anteriormente é
o que eu venho fazendo há alguns anos. Soa-me a banal, desprovido de vida, um
receituário que está algo gasto de usado. Daí que tenha dado comigo a pensar “Em torno
da Banalidade”. Atraido pelo tema entreguei-me à leitura de Sami-Ali e do seu livro
sobre o Banal para me descobrir em muito do que colhi naquelas linhas. Nas palavras
deste autor”o banal é o familiar que, por força da familiaridade, nada mais tem a ver
com o estranho” é aquilo que pela força da repetição perde volume, e ganha contornos
de generalidade, resultando num consensual abanar de cabeça. Ocorreu-me pensar
quanto do meu entusiasmo se esbateu nesta repeticão? Ocorreu-me também quantas
vezes terão já vocês ouvido coisas como estas nos multiplos momentos organizados
para o efeito? E como tal o que há de estranho no que vos tenho para dizer? O que vos
pode espantar que também ainda me espante?

“Mas quanto muito o tema pode ter-se banalizado para si, não para nós” poderiam vocês
afirmar com todo o propósito. É um facto. A repetição dos textos e pretextos é minha, o
esvaziamento será meu. Mas daí o constrangimento. É estranho pensar em preencher-
vos de entusiamo a partir do meu vazio. Esse é um paradoxo central de quem pretende
provocar a mudança. Na rua, no bairro, na escola, todos os dias, centenas de agentes de
mudança procuram transmitir a jovens e crianças sentidos que se esgotam dentro deles,
na repetição do quotidiano. Preencher de vazio é a base daquilo que Sami-Ali denomina
como Patologia do Conformismo Social... a Patologia do Banal. Somos modelos, quer
queiramos quer não, quer tenhamos consciencia disso ou não. O modo como nos
relacionamos está impregnado do sentido que nos move e a prevalência ou não desse
sentido é aquilo que desloca a palavra do concreto para o imaginário. Não me agrada a
ideia de poder fazer convosco o que me preocupa que erradamente se faça na nossa
prática. Gostaria antes que o meu sentido fosse provocador de novos sentidos, uns por
ressonancia positiva, outros por dissonância.

Olhando para os acetatos que se acumulavam lá em casa, percebi-me que eles reuniam
palavras sérias, frases coerentes que transmitiam ideias acertadas... à espera que as
preenchessem. Por si só eram ocas... por muito que formalmente correctas. Assustou-me
a ideia de, com elas contribuir para um tipo de sentimento generalizado de pertinência
da prevenção e da sua mensagem, baseado em algo que sinta como oco. Gostava de vos
passar que a prevenção mais do que fazer sentido, tem de ter sentido ou melhor, tem de
ser sentida.

Aqui chegando, compreendi que estava em maus lençois. Não só não conseguia avançar
com uma estrutura coerente, como desembocava numa temática algo hermética. Tinha
feito o percurso da banalidade que eu sentia na abordagem do tema para a banalização
da prevenção que por vezes se assiste nas práticas e nos discursos. Qual o sentido disso?
Havia um sentido, ténue mas consistente. Na retrospectiva do caminho que percorri
nesta área frequentemente me confrontei com a estranha sensação de por vezes trabalhar
com pessoas para quem o sentido de participarem num projecto de prevenção se
resumia a integrarem algo com sentido social. Por outras palavras, o sentido era-lhes
externo, baseado na sua boa formação pessoal, nos princípios da cidadania ou coisa que
o valha, mas com muito pouco de pessoalização. Vi muita gente investir, dar do seu
tempo para construir com os seus jovens e crianças uma razão para todo aquele
aparato... e vi muita gente a ler as instruções, conduzir as acções com rigor e seriedade
mas vazias de si. Vi gente fazer da intervenção um espaço de relação consigo e com os
outros, colegas e miudos, construir teias de relações, que faziam do processo preventivo
um espaço de pertença que independentemente do que trazia de bom para a comunidade
garantia um claro espaço de crescimento do próprio... e vi gente gerir este processo com
um rigor cirugico, eficaz mas acéptico. No concreto, todos participavam à sua maneira,
o que em princípio seria bom. Mas numa segunda análise, os primeiros faziam a festa
que os outros povoavam de forma cinzenta e foi com frequencia que vi gente bonita não
resistir à racionalidade da gestão de tempos e recursos que sempre faltam em meio
escolar. Não cabe no horário nem no curriculo, sai da responsabilidade, está para além
do campo de acção. Como se a relação tivesse campos, como se prevenir não fosse obra
de todos.
Nos últimos tempos, quando penso na prática preventiva, mais do que o não fazer
assuta-me que, com o mal fazer, possamos esvaziar algo que nos faz sentido e pelo qual
lutamos. Mais, assusta-me que o mal fazer nos dê a ilusão de se ter feito e que com isto
se perca a oportunidade de o fazer.

Não sei explicar melhor mas é um sentimento semelhante ao que o sistema imonulógico
poderia sentir, - caso sentisse alguma coisa -, quando, no caso da SIDA, vê a destruição
do organismo de que deveria cuidar, vir de dentro, de si próprio. Confesso que me
assusta particularmente que, mais do que não ter recursos para prevenirmos, possamos
estar a desperdiçá-los através da banalização das mensagens e dos fazeres.

David Le Breton, no seu livro Du Silence, fala-nos de uma sociedade que vive sobre o
primado da comunicação sem que isso signifique necessáriamente um primado
relacional. A palavra é investida como organizador, assumindo cada vez mais um papel
directivo, concreto, na clareza e na funcionalidade. A acessibilidade garante a resposta
rápida, a técnologia alarga o controlo por parte do indíviduo. Nesta transformação o
tempo pessoal e colectivo é acelerado, retirando espaço à interioridade. Face à
necessidade de objectividade, celeridade, fluidez de informação, “a força significante da
palavra perde crédito ou esvai-se no imperativo de TUDO DIZER, que nada seja
retraido, que reine a transparência sem defeito, que não permita nenhuma zona secreta,
nenhum silêncio.”

A procura de saberes que vos possa ter conduzido a esta sala não pode resultar na
armadilha de vir aqui recolher informação sobre como fazer. Gostava que vocês saíssem
deste encontro com mais silêncios do que palavras ditas, pois só assim o não dito poderá
povoar a vossa curiosidade, fantasia, reverie que empreste interpretação mais do que
acuidade perceptiva. A objectividade da informação recebida, organizando-vos no
sentido da acção, não traduz, necessariamente, um sentido próprio que elaboraram no
silêncio que se estabelece entre os dizeres, mas representa sobretudo um dever, uma
urgência, uma necessidade. Quem trabalha na área da toxicodependência ou dos
comportamentos aditivos sabe que há uma grande distância entre a necessidade e o
desejo. A primeira impõe-se num plano de sobrevivência, pobre de fantasia e de
afectividade, económica em conflito. A segunda reveste-se de interioridade, de sonho,
de projecção. É instável e imprevisível, feita de tensão pulsional. Mas é viva. A
prevenção enquanto necessidade traduz a consciência social mas não a implicação
pessoal, a paixão.

Se o agente de prevenção se afunda neste processo de banalização da mensagem


preventiva, ele traduzirá na sua forma de intervir, este movimento que frequentemente
lhe é inconsciente. Deste modo, estabelece uma relação centrada em ensinamentos e
orientações. Assumindo as suas raizes profissionais, o professor parte para a intervenção
preventiva procurando a segurança no que sabe. Aposta em abordagens de tipo
formativo, pesquisa, tratamento de informação, debate. A palavra mantem-se central
neste processo. E se o sentimento de insegurança é grande, então “o imperativo de
TUDO DIZER resulta na ficção de que tudo foi dito, mesmo quando deixa sem voz
aqueles que teriam outra coisa a dizer ou teriam escolhido um discurso diferente”.

Este movimento traduz a preocupação de controlar um mundo cada vez mais complexo.
Le Breton descrevia o homem moderno como um ponto de passagem para uma
mensagem infinita, procurando traduzir deste modo a sobrecarga que resulta da
constante necessidade de gerir estimulos provenientes de um universo cada vez mais
alargado. A internet permite-nos ter acesso a informação de todos os domínios,
referentes a cada canto do mundo. A rapidez tecnológica, a circulação da notícia, resulta
num excesso de presente, na estranheza de um passado longínquo e na incerteza do
futuro. A impossibilidade de gestão do manancial de informação conduz à simplificação
do real que ao extremo resulta na confusão entre o significante e o significado. O mundo
reduz-se cada vez mais ao agora. A realidade é o que é, sem tempo nem espaço à
fantasia. Este é o inunciado da sociedade moderna geradora de superficialidade. Este é o
processo patologico social que assistimos e ao qual procuramos reagir. Este é o cenário
no qual a família se incere e que desagua na escola como espaço formativo por
excelência, o espaço para enformar as nossas crianças para um funcionamento comum.

Sami-Ali fala-nos do conformismo social que se acompanha de uma assinalável perda


de interesse por tudo o que não é real e que trai uma sensibilidade marcada por esforços
de adaptação... uma adaptação que se baseia no recalcamento de toda a actividade do
sonho e que modifica de forma durável a organização caracterial. Paul Blanquart
relatava no seu livro a História da Cidade, como assistira ao desespero de um professor
de geografia esforçando-se para mobilizar os seus estudantes para as características do
relevo de uma determinada região quando a exclusividade da atenção deles se centrava
no GPS onde a realidade se reduzia a traços e manchas, sinais simples e desapaixonados
de um mundo onde apenas pretendem não se perder e garantir um referencial por muito
externo que seja.

Voltando a Sami-Ali e à patologia do conformismo, este instala-se por consequência da


felicidade administrada. Na procura de comodidade e de bem estar, no evitamento da
dor, do feio do incomodo, o homem descobre artificialidades que geram novas
artificialidades. A minha avó costumava-me dizer que não mentisse porque atrás de uma
mentira tem sempre que vir outra e outra que alimentem e confirmem as anteriores. O
mundo actual é uma mentira tecnológica que se autoperpectua com os avanços da
ciencia, retirando espaço ao não saber, ao mistico, ao sagrado. No seu desejo de
controlar o que o rodeia, o homem moderno criou Mundo de riscos calculados, onde o
inacabado do imaginário é substituido pela prudência do previsto e do previsível. É-se
aí mais produto do que se produz. Recordo Italo Calvino que das suas Cidades
Invisiveis nos falava de uma cidade que aprisionava os seus habitantes tranformando-os
em seus produtos, mantendo a ilusão de ser por eles produzida. Recordo igualmente
Marc Augé na sua espantosa reflexão sobre os espaços da pós modernidade, os não-
lugares, espaços não podem ser definidos para além do transitório e funcional,
transitário e superficial. Falo, curiosamente, dos espaços de confluencia do cidadão
moderno, lugares de serviços que concentram as respostas mas não convidam a ficar,
são impessoais, sem função identitária, opondo-.se aos centros históricos. Mas são
espaços de fluencia, catedrais de consumo, espaços de passagem para qualquer outro
lado... porque é para qualquer lado que constantemente nos encontramos em
movimento, senão real, pelo menos virtual.

É aqui que me assusto e me apercebo da baralhação em que me meti. É um facto que da


banalização da mensagem preventiva cheguei à banalidade como patologia social. Mas
para quem devia falar do contexto escolar como complemento preventivo à família... Na
realidade ocorre-me a ideia da herança familiar, versus a herança cultural. O papel
preventivo da escola resume-se, à devolução/construção de sentidos. Num cenário social
esvaziado de história e de estórias, a escola é um guardião da memória, da dúvida, das
sensações que existem para além da visão. Mas tem de o ser numa perspectiva de uma
produção individual de sentidos, mais do que uma fábrica massificada de saberes. A
própria transmissão da história não pode ser enquanto o relato de algo que nunca
seremos, mas o explorar de pontes para o futuro com base na descoberta do passado.

Quando o indivíduo se confunde com o mundo o espaço perde memória. A


RESTAURAÇÃO DO SENTIDO, OBRIGA, NECESSÁRIAMENTE À restauração
DA PALAVRA, QUE POR SUA VEZ OBRIGA À DO SILÊNCIO.
Resumo de Comunicação:
Título: Em torno da Banalidade
Autor: Raul Melo

O que é que ainda há a dizer sobre a prevenção em contexto escolar? O que é que ainda
não foi dito e redito, por qualquer bem falante ou bem pensante deste tema? Que a
prevenção é precoce e deve ser iniciada com os níveis escolares mais baixos,
nomeadamente ao nível do jardim infantil? Que a prevenção é sistémica e deve envolver
o todo e não apenas a parte denominada grupo alvo? Que a prevenção é muito mais do
que informação, isto é, que é saber ser e saber estar, mais do que a compilação de dados
por muito correctos que sejam? Que a prevenção é promoção e que mais do que falar da
doença pode e deve agir em torno da saúde e do que a protege? Que a prevenção se “faz
com” e não “para” e que mais do que influenciar é fundamental acompanhar os jovens e
as crianças na exploração das suas competências e dos recursos que os envolvem?

Podia continuar a enunciar todo um conjunto de directrizes básicas da prevenção,


conceitos e chavões e preencher facilmente o texto ou o tempo de escuta, mas... é
mesmo isto que interessa? Soa-me a oco, palavras ditas e custa-me fazer desta nossa
conversa uma tarefa que cumprirei a preceito com uma destas receitas. Acho que se
merece mais.

Não que todos estes aspectos não sejam fundamentais, importantíssimos como
orientadores, básicos para quem quer participar em todo este movimento que é a
prevenção. Mas de tanto os repetir gastei-os um pouco dentro de mim. E a repetição, o
automatismo, a massificação, esvazia a acção de sentido. Senão de sentido, claramente
de profundidade. É esse o processo de banalização. Repetir directrizes formações a fio,
encontros a fio, campanhas a fio, garante a familiarização com a linguagem, metodos e
acções mas torna-os também rotineiros, triviais. Concordamos com um ar
compenetrado, difundimos religiosamente, até praticamos, mas sentimos? Vibramos?
Reconhecemos-lhe um sentido? É disso que gostava de trocar impressões convosco. É
deste fenómeno social que é a banalização de que gostava de vos falar. O preço do
desenvolvimento dos canais de comunicação deslocou a questão da informação do
acesso à qualidade, do conteudo à capacidade de gerir e digerir. Integrar o muito só é
possível pela rama e disso padece a nossa juventude. Para não perder o ritmo, para
manter em contacto com o presente, larga-se o lastro do passado, da história que se
herdou, dos significados que nos deram identidade e áqueles que nos precederam.
Adquirimos o cartão de cidadão que não sabemos praticar e passeamo-nos por caminhos
de todos e de ninguém. É este o fenómeno de banalização que retira o preenchimento a
seres cada vez mais a duas dimensões.

Um dia perguntaram-me o que considerava ser o papel do interventor na promoção da


saúde. Não pensei muito. Achei que era o de devolver volume à comunidade.
Pretencioso? Talvez. Mas muito necessário.