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Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178

Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-


0420
23 e 24 de setembro de 2014

AS ATITUDES TERAPÊUTICAS NO CONTEXTO DO PROCESSO


PSICOTERÁPICO DE DIBS.
Marina de Barros Saroba Prof(a). Dr(a). Vera Engler Cury
Faculdade de Psicologia Programa de Pós Graduação em Psicologia
Centro de Ciências da Vida Centro de Ciências da Vida
marina.bs2@puc-campinas.edu.br vengler@puc-campinas.edu.br
Resumo: Este estudo objetiva analisar as atitudes do empatia e aceitação incondicional por parte do
terapeuta centrado no cliente a partir da leitura da obra terapeuta.[2] Algum tempo após o encerramento da
de Virgínia Axline, “Dibs em busca de si mesmo”. Tendo terapia, Axline reencontra a família de Dibs e descobre
como referência a psicologia humanista, visa apreender que o mesmo passou a estudar em um colégio para
elementos significativos da relação terapeuta-cliente a superdotados e que se destacava como um dos
partir do relato de Axline sobre sua experiência ao longo melhores alunos da escola.
deste processo terapêutico. Trata-se de reconstruir o
vivido no acontecer clínico para lançar luz sobre o 2. OBJETIVO
modo de ser terapeuta no atendimento a uma criança. Apreender elementos terapêuticos significativos
Consiste em um estudo teórico com base nos presentes nas atitudes da terapeuta ao longo do
norteadores conceituais da Abordagem Centrada na processo psicoterápico de Dibs, a partir da narrativa de
Pessoa, desenvolvida pelo Psicólogo Americano Carl Virginia Axline na obra “Dibs em busca de si mesmo”.
Rogers.
3. DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA
Palavras-chave: Atenção Psicológica Clínica em
A pesquisa, embora teórica, foi desenvolvida de
Instituições; Prevenção e Intervenção Psicológica; maneira qualitativa e exploratória, com inspiração
Abordagem Centrada na Pessoa. fenomenológica husserliana. O procedimento de análise
Área do Conhecimento: Ciências Humanas – consistiu na leitura minuciosa da obra literária e de
Psicologia. artigos que permitiram a elucidação das atitudes
terapêuticas desenvolvidas por Axline com base nos
1. INTRODUÇÃO princípios da Ludoterapia Centrada na Criança.
A Ludoterapia Centrada na Criança foi desenvolvida
por Virginia Mae Axline, uma psicoterapeuta norte 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
americana de orientação humanista, na década de 50 A Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) proporciona
do século XX. Em função de sua reconhecida um ambiente caloroso e aceitador que facilita o
competência profissional foi convidada por uma escola processo de crescimento psicológico do cliente ao
a cuidar de Dibs, um menino “problema”,assim viabilizar o encontro consigo mesmo a partir da relação
considerado pelos pais e pela escola. Filho de um terapêutica. [3] Carl Rogers propõe três atitudes por
cientista e de uma médica, o menino intrigava os parte do terapeuta que considerava necessárias e
professores por alternar momentos de completa apatia suficientes para auxiliar o cliente em sua busca por
com interesse por livros e brinquedos que manipulava seus próprios significados: consideração positiva
com habilidade. Retraído, não interagia com as outras incondicional, compreensão empática e congruência.
crianças, tampouco com adultos. Como última Quando essas atitudes terapêuticas estão presentes
tentativa de ajudar Dibs antes de resignar-se com em relacionamentos interpessoais, promovem a
mais um fracasso escolar, a professora procura Axline, liberação da tendência atualizante. [4] A consideração
que após a autorização dos pais do menino, inicia positiva incondicional é caracterizada por uma
sessões terapêuticas no Centro de Orientação Infantil, aceitação do cliente como ele se apresenta,
local onde realizava pesquisas clínicas. Durante os respeitando-o, acolhendo-o e transmitindo-lhe confiança
atendimentos, Dibs vai manifestando seu potencial: de que é capaz de integrar os diferentes elementos de
possuía grande conhecimento sobre diversos sua personalidade. A compreensão empática é a
assuntos, apesar da pouca idade, cinco anos; sabia ler capacidade do terapeuta de apreender o mundo do
e escrever com perfeição e sua inteligência espanta cliente da forma como ele o vivencia, como se estivesse
Axline. No entanto, emocionalmente era uma criança em seu lugar. A congruência ou autenticidade diz
totalmente perdida em seu mundo de fantasias no qual respeito a atitude do terapeuta em ser ele mesmo
buscava proteção em relação à rejeição dos pais. A quando está com o cliente, de vivenciar seus
partir da convicção na existência da “tendência sentimentos e não assumir uma postura de autoridade
atualizante”, ou seja, a potencialidade do ser humano em relação ao cliente. [3] Desde seu primeiro encontro
em compreender-se a si mesmo e desenvolver com Dibs, Axline utiliza-se de todos os princípios
capacidades para resolver seus problemas de forma fundamentais da ACP e, também, utiliza-se dos
socialmente aceito [4], Axline trabalha com Dibs e princípios elaborados por ela no contexto da
estabelece como primeiro objetivo incentivar o menino Ludoterapia Centrada na Criança. Tais princípios são:
a confiar em seu potencial e expressar-se por meio do estabelecimento de rapport; aceitação da criança como
brincar. Aos poucos, Dibs vai revelando seus conflitos ela é; permissividade no relacionamento do terapeuta
internos e aprendendo a lidar com eles. O menino, com o cliente; identificação e reflexo de sentimento
antes calado e desajustado, passa a conversar e como atitude terapêuticas; profundo respeito pela
interessar-se pelas coisas e pessoas ao seu redor. capacidade da criança; permissão para que a criança
Aproxima-se dos colegas na escola e desenvolve um indique o caminho; considerar que o processo
bom relacionamento com seus pais. Liberta-se das terapêutico é gradativo e estabelecer limites de
amarras que antes o prendiam. A terapia centrada na realidade para nortear a relação com a criança. [2]
criança enfatiza o processo de auto aceitação do Axline encontra o menino Dibs e passa colocar em
cliente, ao facilitar a emergência de suas próprias prática as atitudes terapêuticas. Por meio da reiteração,
formas de expressão e de sentimentos num clima de buscava mostrar a Dibs que o estava compreendendo
e acompanhando, criando assim um vínculo afetivo Ao CNPq pela concessão da bolsa de pesquisa.
significativo com ele. Mesmo quando Dibs apenas
enumerava as coisas, ou soletrava rótulos, Axline REFERÊNCIAS
mostrava-se atenta, o que logo fez com que o menino [1] Axline, V. M. (1986) Dibs em busca de si mesmo.
passasse a expressar-se mais.A ludoterapia utiliza-se Rio de Janeiro: Agir
de uma sala com brinquedos e do brincar para fazer [2] Axline, V. M. (1984) Ludoterapia: A dinâmica
com que a criança se expresse e comunique interior da infância. Belo Horizonte: Interlivros.
sentimentos e emoções. Ao brincar, Dibs confirmava
sua grande frustração com seus pais e irmã, sempre [3] Colovini, C. E. Bertolin, R. R. (s/d). Ludoterapia
comunicando um sentimento de tristeza e centrada na criança. In:
desapontamento, apontados por Axline por meio do http://guaiba.ulbra.br/seminario/eventos/2012/ar
reflexo de sentimentos.Ou seja, pela brincadeira, a tigos/psicologia/salao/942.pdf.
criança expressa aquilo que deseja, vive e experiencia. [4] Rogers, C. R. (1983) Um jeito de ser. São
[2] Aos poucos, com suas atitudes terapêuticas, Axline Paulo: EPU.
ajuda Dibs a compreender seu mundo subjetivo e, [5] Roger, C. R. (1992) Terapia Centrada no
assim, poder organizá-lo. Cliente. Martins Fontes. São Paulo.
“Queria que sentisse e vivenciasse o seu eu
total em nosso relacionamento. Queria que
aprendesse que era uma pessoa com seus
múltiplos aspectos, seus altos e baixos, seus
amores e seus ódios, seu atos de pavor e
coragem, seus desejos infantis e seus
interesses maduros. Queria que aprendesse
pela experiência a responsabilidade de
assumir a iniciativa de usar suas
capacidades no relacionamento com as
pessoas. Não desejava dirigi-lo para um
único canal por meio de elogios, sugestões
ou perguntas insinuadoras. Poderia perder a
essência da personalidade dessa criança, se
lhe impingisse conclusões prematuras. [1]
Assim, sem moldar nem dirigir e sem eliminar
comportamentos, a ludoterapia vai fazendo seu
trabalho, sempre acompanhando o ritmo imposto pelo
cliente, ou seja, não o força a tratar seus problemas, o
mesmo só ocorre quando este se sente capacitado para
isso. Dibs, aos poucos, foi mostrando como vivenciava
seu relacionamento com a família, sempre com portas e
janelas fechadas para esconder-se e a seus interesses
das críticas que lhe causavam sofrimento. Um das
brincadeiras preferidas dele na sala de ludoterapia
consistia em enterrar o pai e a irmã na areia e mantê-
los lá até o final da sessão. Também mostrou sua
necessidade de proteger-se das atitudes autoritárias e
invasivas dos pais que exigiam que se comportasse
como adulto. O excesso de exigências não permitia a
Dibs explorar sua curiosidade infantil legítima e
vivenciar trocas afetivas espontâneas com outras
pessoas. Ou seja, não lhe permitiam exercer sua
criatividade. Quando estabeleceu um vínculo de
confiança com Axline e foi lhe mostrando sua rotina
diária, Axline pode ajudar Dibs em sua tomada de
consciência, elucidando seus sentimentos implícitos
nas falas e nas brincadeiras. Ao ir compreendendo seu
mundo, Dibs passa a sentir-se mais confiante e
expansivo, demonstrando muita alegria.[2] Em sua
experiência na sala de ludoterapia, com o apoio
facilitador de Axline, Dibs cresceu, amadureceu. O
menino que se encontrava perdido e isolado finalmente
pode abrir as portas para o auto-conhecimento e auto-
realização.

AGRADECIMENTOS