Você está na página 1de 6

O plágio, a cópia e a intertextualidade na produção acadêmica

Ivy Judensnaider*

Resumo
A ocorrência cada vez mais frequente do plágio nos trabalhos discentes
enseja a discussão sobre a sua prática, em especial quando resultante da falta
de compreensão sobre o real significado do caráter intertextual da produção
acadêmica. Na investigação sobre os possíveis diálogos entre as várias
camadas do texto cientifico, esse artigo procura estabelecer distância entre
eles e a prática do plágio ou da cópia, assim o fazendo por meio da análise
da construção de sentido a partir da leitura e da escrita como exercício da
leitura de mundo e do processo dialógico entre discursos e sujeitos.
Palavras-chave: plágio, intertextualidade, produção acadêmica.

Plagirism, copying and intertextuality in academic production


Abstract
The increasing occurrence of plagiarism in student works gives us the
opportunity to discuss about its practice, especially when it is the result of
the lack of understanding about the real meaning of the intertextual nature of
academic production. Investigating the possible dialogue between the many
layers of scientific text, this article intends to establish the distance between
them and the practice of plagiarism or copying by the analysis of the
construction of meaning from the reading and writing as an exercise of the
reading of world and the dialogic process between the speeches and
subjects.
Key words: plagiarism, intertextuality, academic production.

*
IVY JUDENSNAIDER é economista e mestra em História da Ciência. Professora nos cursos
de Administração de Empresas e Ciências Econômicas, coordena o curso de Ciências Econômicas da
UNIP/Campus Marquês.
133
Considerações iniciais: a prática do leitor, passando a fazer parte da sua
plágio e da cópia e a responsabilidade fala, de seus textos” (SILVA, 2008, p.
diante do conhecimento gerado por 360).
outros Nenhum texto é construído por apenas
O plágio nos trabalhos acadêmicos nos um autor porque ele é resultado de
chega sob diversas formas mas, em camadas e camadas de outros textos,
geral, é resultado ou da cópia pura e anteriores, que com ele conversam e
simples de texto de autoria alheia, sem a dialogam. Não há, para o texto,
devida referência, ou da troca de qualquer possibilidade que não seja a de
palavras para escamotear a fonte ser intertextual, já que ele sempre nos
original de um texto, criando “falsas remete a outros. “Todo o texto é um
paráfrases”. A penalidade para a sua intertexto; outros textos estão presentes
prática é a recusa do trabalho (em geral nele, em diversos níveis, sob formas
quando o plágio é detectado por algum mais ou menos reconhecíveis”
software1) e, evidentemente, esse é um (BARTHES, 1974 apud CHAGAS,
resultado que não resolve o problema. A 2009, p. 134). O texto é resultado da
questão que se coloca, acima de soma entre “o elemento verbalmente
qualquer outra, é como ensinar2 aos exposto e os elementos contextuais
alunos a importância da produção advindos das relações sociais e
acadêmica sem a históricas dos sujeitos
recorrência ao plágio na comunicação”
ou à cópia. (FERREIRA, 2008,
Essa tarefa passa, p. 7). Isso significa,
necessariamente, pela evidentemente, que
discussão do próprio quanto mais se lê,
conceito de autoria, mais sentido se pode
cuja noção hodierna atribuir aos textos
pressupõe, em lidos; significa que
qualquer texto, a quanto maior o
existência de um ou mais autores: “o repertório do sujeito-leitor, maior a
discurso nunca é constituído de uma possibilidade de diálogo com outros
única voz; é polifônico, gerado por textos e outras ideias.
muitas vozes, muitos textos que se
cruzam e se entrecruzam no espaço e no
Em relação às práticas de plágio ou de
tempo; resultado que flui para dentro do
cópia, é fundamental, portanto, o
1 reconhecimento da necessidade de
Com a mesma intensidade com que facilitou a
prática do plágio, o desenvolvimento
“construir e dialogar com o
tecnológico também nos minuciou de conhecimento gerado por outros, (...)
instrumentos para identificá-lo. No entanto, é não nos eximindo da responsabilidade
importante um alerta: geralmente, os softwares de reconhecer os méritos intelectuais
“iluminam” trechos que são coincidentes a dos outros e tampouco nossa
outros já publicados: cabe ao docente, nesse
caso, identificar as citações e as paráfrases que,
responsabilidade diante de nossas
quando corretamente realizadas, não configuram próprias ideias” (GRECO, 2007, p.
prática de plágio. 120).
2
Este trabalho privilegia a hipótese de o plágio
ocorrer por incompreensão do seu significado;
portanto, estaremos nos referindo, ao longo do
texto, ao plágio e à cópia não intencionais.
134
A intertextualidade e o um todo, e entre as diferentes
reconhecimento das inúmeras perspectivas de movimento possíveis de
camadas que compõem um texto serem identificadas. Preste atenção,
agora, na releitura da obra de Da Vinci:
Observe o quadro Monalisa3, pintado
pelo italiano Da Vinci nos primeiros o homem vitruviano não é mais o
homem perfeito e matematicamente
anos do século XVI. Há muita
proporcional, mas Homer Simpson6,
controvérsia a respeito do quadro,
personagem de um desenho animado.
especialmente em relação ao nome da
mulher que teria servido de modelo para Seria possível apreciar a figura de
Da Vinci; inclusive, alguns afirmam ser Simpson disposto como o Homem
a obra um autorretrato de Leonardo, já Vitruviano sem a referência da obra de
que alguns traços aos dele se Da Vinci? Talvez, mas, exatamente
como no exemplo anterior, perder-se-ia
assemelhariam. Agora, observe a peça
publicitária de um fabricante de produto a maior parte do significado da
de limpeza4: o texto que acompanha a releitura. Afinal, Homer Simpson é o
imagem do garoto-propaganda vestido protótipo do fracasso: péssimo pai,
trabalhador preguiçoso e incompetente,
como Monalisa diz: “Mon Bijou deixa
sua roupa uma verdadeira obra prima”. marido desinteressado, amigo egoísta e
ausente. Apresentado como símbolo de
Seria possível entender o conteúdo da “perfeição” e “correta
peça publicitária sem que se conhecesse proporcionalidade”, o Homer
a famosa pintura de Da Vinci? Talvez Vitruviano adquire outros significados.
sim. No entanto, o sentido maior do Não à toa, nas mãos e pés de Simpson
conteúdo estaria perdido: tratando-se de encontramos os signos que o tornam tão
uma referência a uma obra prima, não “moderno”, tão “caótico” e tão
ficaria clara a relação entre o sabão, o simbólico do mundo em que vivemos: a
personagem vestido de Mona Lisa e o cerveja, o cachorro-quente, o controle
texto que acompanha a imagem. remoto da televisão e o doce. Essa é a
Preste atenção em outro quadro de Da matemática proporção moderna que o
Vinci, O Homem Vitruviano5, pintado autor do desenho de Simpson nos
na década final do século XV. Essa propõe, e essa atribuição de significado
obra, igualmente discutida e debatida seria impossível sem a referência da
por cientistas das mais variadas áreas do obra na qual o desenho se inspirou.
conhecimento, pretendia discutir as Analisemos mais um exemplo de
dimensões ideais do corpo humano do intertextualidade, dessa vez entre uma
ponto de vista matemático. No desenho, obra de arte e o cinema. Partiremos de A
pode-se perceber a preocupação do Criação de Adão7, obra de
pintor com razões matemáticas entre Michelangelo de 1511, que embeleza a
partes do corpo e o corpo visto como Capela Sistina. Muitos são os
pesquisadores que descobriram
3
Disponível em
http://www.brasilescola.com/imagens/artes/mon
6
alisa1000.jpg. Acesso em 25.07.2011. Disponível em http://thewhimsiad.ca/wp-
4
Disponível em content/uploads/2009/12/lgsb0015+da-vincis-
http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/cadern vitruvian-man-homer-simpson-the-simpsons-
o09-02(2).gif. Acesso em 25.07.2011. art-print.jpg. Acesso em 25.07.2011.
5 7
Disponível em: Disponível em
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/common http://www.wga.hu/art/m/michelan/3sistina/1ge
s/c/c5/Anatomia_homem_leonardo.jpg. Acesso nesis/6adam/06_3ce6.jpg. Acesso em
em 25.07.2011. 25.07.2011.
135
desenhos anatômicos escondidos em alusão ou estilização – resultam em
detalhes da obra, especialmente rabiscos plurissignificação, construindo a
do que seriam partes do cérebro polissemia e a polifonia de todo texto.
humano. Michelangelo era um profundo Assim sendo, construir um texto a partir
estudioso de anatomia e poderia ter do diálogo com outros textos não
tentado, dentro dos limites impostos equivale à apropriação indevida da obra
pelo seu tempo (que entendiam como de outrem, caracterizando-se tão-
sacrílego o trabalho de dissecação), somente como dialogismo entre
“esconder” suas descobertas no desenho discursos e sujeitos.
da Criação. Outro aspecto chama a
atenção: não há, no texto bíblico, A intertextualidade no texto
qualquer referência à cena criada por científico: as paráfrases, as citações e
Michelangelo. Afinal, o Homem teria os equívocos
sido feito de barro e, posteriormente, Enquanto no mundo das artes, ou nas
recebido de Deus o sopro da vida. Em manifestações do cotidiano, a
qual momento os dedos de ambos se intertextualidade não precisa ser
tocam? explicitada, tal não ocorre no ambiente
Vejamos agora uma das fotos da acadêmico. Ao se fazer ciência e ao se
campanha publicitária do filme ET, O (re)produzir conhecimento, todas as
Extraterrestre8 (dir. Steven Spielberg, referências precisam ser dadas: o
115 minutos, 1982). O enredo do filme caminho percorrido por outros deve ser
é simples: um alienígena é encontrado e respeitado e referendado, mesmo
protegido por um garoto e seus amigos. porque faz parte do fazer científico o
A cena retratada na imagem mostra o recaminhar pelas trilhas anteriormente
momento em que os dois, cada um trilhadas.
buscando superar o próprio medo, se Esse trajeto exige a sinalização e a
tocam. Embora seja possível admirar a identificação de todas as camadas de
imagem mesmo sem saber da referência texto que o compõe, sob o risco de
que se faz à obra de Michelangelo, é acusação de plágio ou de outra qualquer
evidente que o desconhecimento da forma de apropriação intelectual
Criação de Adão impede uma leitura indevida: se a ciência se constrói a
mais rica em significado. Sem esse partir de trabalhos anteriores, esse
conhecimento prévio, não haveria como processo deve ser inequivocamente
se perguntar: no encontro entre o visível. É bem provável que da
Homem e o Extraterrestre, quem sopra incompreensão dessa necessária
ao outro a vida e o conhecimento? transparência surja a maior parte dos
Quem é o Criador e quem é a Criatura? problemas quando da construção do
A discussão acima nos remete à texto científico, bem como a
conclusão: nenhum texto nasce só, não perplexidade dos alunos apanhados
existindo, portanto, “pureza” textual. As plagiando um texto ou um autor:
várias formas em que a “embora possa parecer incompreensível
intertextualidade ocorre – como citação, para muitos, atualmente não são poucos
os estudantes universitários que não
8
entendem do que os acusa o professor
Disponível em quando indicado plágio em seu trabalho
http://3.bp.blogspot.com/_Swh1Zrk-
rhc/TQfwaDmL02I/AAAAAAAAANA/nxioN-
acadêmico” (GRECO, 2007, p. 119).
Km-0M/s1600/_et-oextraterrestre_1.jpg. Se o diálogo entre discursos e sujeitos
Acesso em 25.07.2011. está construído a partir de citações e
136
paráfrases (as formas de interpretação: aquele que constrói o
intertextualidade mais comuns quando texto científico deve perceber que os
da produção científica),9 por que então a textos em que se apoia podem
acusação de plágio? apresentar falhas na sua lógica; deve
perceber que esses textos contêm vieses
Tentemos esclarecer a questão: um
introduzidos pela posição ideológica de
texto que apenas “costura” uma
quem os escreveu; deve reconhecer seus
sequencia de citações não pode ser
próprios vieses ideológicos na produção
considerado fruto do trabalho de quem
textual, admitindo que “linguagem e
pretendeu construir um texto, já que a
realidade se prendem dinamicamente. A
seleção dos trechos a serem citados é
compreensão do texto a ser alcançada
obra de quem leu e compreendeu. Ler é
por sua leitura crítica implica a
compreender, e a compreensão requer a
percepção das relações entre o texto e o
construção de significado. Segundo
Krás (2008), a leitura é um processo que contexto” (FREIRE, 1989, p. 9).
envolve “fatores linguísticos (a Essa leitura da palavra da qual estamos
contribuição do texto) e falando não é apenas aquela precedida
extralinguísticos (decorrentes do pela leitura do mundo, mas a que inclui
conhecimento prévio e das vivências do “uma certa forma de ‘escrevê-lo’ ou de
leitor e do autor)” (idem, p. 2). Por meio ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de
da leitura, o leitor selecionará o que é transformá-lo através de nossa prática
relevante, formulará hipóteses consciente” (idem, p. 13). Ler, portanto,
explicativas, estabelecerá conexões com não pode prescindir a consciência de si
o já lido/visto anteriormente, preencherá mesmo como agente capaz de ler e
lacunas. Para que isso ocorra, portanto, modificar o mundo. Isso significa que a
não é suficiente que o leitor junte letras, paráfrase não é a mera troca de palavras
formando palavras, ou junte palavras, (a substituição por sinonímia é uma das
formando sentenças: essa é uma formas mais equivocadas de entendê-
atividade necessária, mas não suficiente. la), da mesma forma que a citação não é
Da mesma forma, não é suficiente mera colagem de trechos quaisquer:
“juntar” uma série de citações, já que para a realização de ambas, é
isso não caracteriza um processo de pressuposta a construção do
diálogo. Se o texto resulta numa conhecimento a partir de um sujeito do
sequência de citações, não há porque conhecimento ativo, capaz de ler,
supor qualquer intervenção do sujeito interpretar e modificar o mundo.
do conhecimento. Entender isso com clareza é o melhor
mecanismo para evitar a produção
Por seu turno, parafrasear exige o
textual maculada pelo plágio ou pela
exercício autoral oriundo da
cópia.
9 Considerações finais: o papel dos
A citação é uma dessas formas de diálogo
intertextual na produção acadêmica: trazemos educadores
para o nosso o texto de outro autor. Geralmente, O plágio ocorre quando aquele que está
isso ocorre porque identificamos aquele texto
como fundamental para a compreensão do
produzindo o texto não percebe que a
nosso; porque, de maneira única, ele contém autoria envolve posicionamento,
uma informação que necessitamos no trabalho. exigindo do sujeito se perceber capaz,
A paráfrase é outra forma, configurando-se por meio da linguagem, de se constituir
como uma interpretação de algo já escrito, como alguém que “lê” o mundo e o
requerendo, portanto, além da menção à fonte, o
julgamento e a marca de quem leu.
interpreta, à sua própria maneira.

137
A construção do conhecimento a partir Referências
de camadas textuais implica na CHAGAS, Carmen Elena das. A
comunicação intertextual com o já intertextualidade na formação do leitor crítico.
produzido e, no caso do texto In: ANAIS DO CNLF, 13., 2009, Rio de
Janeiro. Cadernos do CNLF volume 13
acadêmico, essas camadas textuais
número 4. Rio de Janeiro: Cifefil, 2009. p.132-
devem ser explícitas. A paráfrase mal 138. Disponível em
feita e a “colcha de retalhos” são http://www.filologia.org.br/xiiicnlf/XIII_CNLF
recursos dos que abdicam da condição _04/a_intertextualidade_na_formacao_de_um_l
de sujeito, dos que assumem a própria eitor_carmen_elena.pdf. Acesso em 25.07.2011.
incapacidade de ler, criticar, interpretar FERREIRA, Hilma Ribeiro de Mendonça. A
e produzir conhecimento. Renunciando intertextualidade e seus desdobramentos em
à competência de ler, renuncia-se alguns gêneros textuais. Extraído de
<http://filologia.org.br/>. Disponível em
também à competência de escrever. Na http://www.filologia.org.br/iiijnlflp/textos_com
ausência do sujeito-leitor, é menor a pletos/pdf/A%20intertextualidade%20e%20seus
possibilidade de surgir o sujeito-autor. %20desdobramentos%20em%20alguns%20g%
C3%AAneros%20textuais%20-
Aos que não se percebem senão como %20HILMA.pdf. Acesso em 25.07.2011.
agentes passivos, não resta outra
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler:
alternativa senão a cópia ou a colagem. em três artigos que se completam. 23. ed. São
Copiando e colando, limitam o seu Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.
repertório de conhecimento de mundo. (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo). Volume
Limitado o conhecimento de mundo, só 4.
lhes sobra continuar reproduzindo o que GRECO, Lourdes C. Sifontes. El plagio en el
já está feito e dito. contexto de la honestidad académica: ¿problema
académico o problema de. Revista Informe de
Se nós, docentes, formos capazes de Investigaciones Educativas, [s.l.], v., n., p.117-
transmitir essa ideia aos alunos, 123, 2007. Disponível em
estaremos avançando no trabalho de http://biblo.una.edu.ve/ojs/index.php/IIE/article/
ensiná-los a produzir texto com view/549/530. Acesso em 25 de julho de 2011.
autonomia, sem a recorrência à cópia ou KRÁS, Cléa Silvia Biasi. Processos de
ao plágio. A nós, educadores, cabe a compreensão em leitura e escrita: leitura e
tarefa de fazer com que eles se prática. II Simpósio Internacional 2008 - V
Forum Nacional de Educação 2008. Disponível
percebam agentes capazes de ler e em
transformar o mundo. http://forum.ulbratorres.com.br/2008/mini_curs
o_texto/M-CURSO%203%20-%20KRAS.pdf.
Acesso em 25 de julho de 2011.
SILVA, Obdália Santana Ferraz. Entre o plágio
e a autoria: qual o papel da universidade.
Revista Brasileira de Educação, [s.l.], v. 13, n.
38, p.357-414. Maio/ago. 2008. Disponível em
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v13n38/12.pdf.
Acesso em 25 de julho de 2011.

138