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PARA PENSAR COM FREUD E OS POETAS

Flaviad’aves

Desfazer mundos, trabalhos.


Sentar-se num terraço lá atrás.
Tomar conta uns dos outros.

Víveres
Miguel Cardoso

“A felicidade individual e a de união com outros seres têm de lutar uma com a
outra no interior de cada indivíduo”, escreve Freud no texto Mal-Estar na Civilização,
de 1930. Esta afirmação aponta para a divisão entre a vida privada e a vida em comum.
Uma luta que estará sempre em nós, assim como a tendência para amar e para destruir.
Segundo o autor, a natureza, o corpo e a vida social são fontes de sofrimento para as
pessoas. Tais fontes estão interligadas e podem afetar umas às outras. É o caso da
pandemia que estamos vivendo. Não há controle das forças da natureza, há uma relação
possível. Desprezar esse fato afeta nosso corpo e traz graves consequências para nossa
comunidade.

“A questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua
evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum
pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição.”1

Freud, no mesmo texto, descreve possíveis saídas para o nosso sofrimento: a


religião, o entorpecimento, a ciência, a arte e a beleza. Cada um de nós tentará encontrar
sua maneira de lidar com o imprevisível. Os crentes buscam a fé, outros buscam o saber

                                                                                                                       
1
Sigmund Freud. Mal-Estar na Civilização, p. 122. Tradução de Paulo César de Souza. São
Paulo: Companhia das letras, 2010. O tradutor usou o termo instinto que tomei a liberdade de
substituir pelo termo pulsão.
da ciência ou mesmo as informações mais diretas nos jornais e nas mídias. Alguns se
entorpecem. Há aqueles que encontram na beleza e na arte um alívio para as
desventuras. Para muitos, existe a possibilidade de mesclar essas saídas. Enfim, cada
qual tentará construir sua resposta ao mal-estar.

“E bem podemos dar um suspiro, ao perceber que a alguns indivíduos é dado


retirar sem maior esforço, do torvelinho dos próprios sentimentos, os
conhecimentos mais profundos, aos quais temos que chegar em meio a
torturante incerteza e incansável tatear.”2

O momento que atravessamos exige uma resposta coletiva: entre outras, o


isolamento torna-se essencial. Estaremos a sós para estar com o outro, para minimizar
os efeitos devastadores do vírus que escapou do nosso controle, migrou para o corpo
humano e revirou nossas vidas. É hora de voltar para a casa.

“É mesmo o cumprimento de todos os desejos dos contos, isso que o homem,


por meio de sua ciência e técnica, realizou nesta Terra onde ele surgiu
primeiramente como um fraco animal, e onde cada individuo de sua espécie tem
que novamente entrar (ó, polegada da natureza!) como uma desamparada
criança de peito.”3

Voltamos para o refúgio primeiro. Sabemos que retornar não é fácil. Estamos
acostumados a frequentar as ruas, o fora nos chama.

“Saudamos como civilizado as pessoas se preocuparem com coisas que


absolutamente não são úteis [...] quando numa cidade os parques, necessários
como área de lazer e reservatórios de ar, possuem também canteiros de flores.”4

Voltar à casa é nos privar dos canteiros de flores nos parques, é também voltar à
estranheza de nossa convivência, aos fantasmas de nossos traços originários. Mas é
                                                                                                                       
2
Sigmund Freud. Mal-Estar na Civilização, p. 105.
3
Sigmund Freud. Mal-Estar na Civilização, p. 51.
4
Sigmund Freud. Mal-Estar na Civilização, p. 53.
numa casa que a gente se sente só.5 E a solidão é nossa aliada, cria a oportunidade de
deixar cair por terra a ilusão da onipotência. Ao retornarmos ao nosso desamparo,
começamos de novo, repensamos nossa forma de estar no mundo. Lemos, escrevemos,
contamos histórias, cantamos como os italianos, nos encorajamos como os chineses,
cuidamos uns dos outros, dançamos e enviamos mensagens carinhosas como brasileiros
que somos.
É fundamental pensar na civilização e nas formas de estar nela. Viver é
impreciso. Necessárias são as palavras para contornar o que nos invade. É impossível
dizer tudo, mas uma frase é uma alma crescendo, nos diz a escritora Maria Gabriela
Llansol. A voz de outros poetas ressoa: – Passa ave passa e ensina-me a passar 6 ainda
que viver seja perigoso.7
Passar8 é a senha, verbo transitivo, palavra viva.

                                                                                                                       
5
Marguerite Duras.
6
Fernando Pessoa.
7
Guimarães Rosa.
8
Passar de uma margem a outra; atravessar, transpor.

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