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Renato Accetta

CIRURGIA RADICAL NO
ADENOCARCINOMA
GÁSTRICO
Trabalho de Revisão Bibliográfica

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - UNIRIO


CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE
HOSPITAL UNIVERSITÁRIO GAFFRÉE E GUINLE
ESCOLA DE MEDICINA E CIRURGIA

RIO DE JANEIRO – RJ
2004
2

Renato Accetta

CIRURGIA RADICAL NO
ADENOCARCINOMA GÁSTRICO
TRABALHO DE REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Internato realizado em convênio com a Universidade Federal Fluminense no


Hospital Universitário Antônio Pedro, Niterói RJ.

Trabalho Monográfico de Conclusão de Curso apresentado ao término do


curso de graduação em medicina da Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (UNIRIO), como parte dos requisitos necessários para obtenção do
título de Médico.

Orientador: Prof. Pietro Accetta

RIO DE JANEIRO – RJ
2004
3

SUMÁRIO

RESUMO...........................................................................................................3
ABSTRACT.......................................................................................................4
INTRODUÇÃO.................................................................................................5
CONSIDERAÇÕES GERAIS...........................................................................8
Incidência...................................................................................................8
Patogênese e Fatores de Risco..................................................................10
Diagnóstico Precoce e Rastreamento.......................................................14
PATOLOGIA...................................................................................................16
Macroscopia.............................................................................................17
Microscopia..............................................................................................22
Disseminação do Carcinoma Gástrico......................................................29
ESTADIAMENTO..........................................................................................33
Sistema TNM............................................................................................34
Estadiamento Japonês...............................................................................39
CIRURGIA RADICAL....................................................................................41
Histórico...................................................................................................42
Indicações Cirúrgicas Gerais....................................................................43
Estadiamento Per-operatório....................................................................45
Cirurgia Curativa......................................................................................48
Tipos de Cirurgia......................................................................................50
Linfadenectomia.......................................................................................54
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................64
4

RESUMO

O carcinoma gástrico é a segunda causa mais comum de morte por câncer


no mundo, perdendo apenas para o carcinoma broncogênico. Mesmo com o
declínio das taxas de incidência e mortalidade registradas nas últimas décadas,
continua sendo uma doença de alta prevalência, principalmente em países
orientais; no Brasil, foi a quarta de maior ocorrência entre os homens e a
quinta entre as mulheres, no ano de 2003. Acomete mais os homens que
mulheres principalmente na sexta e sétima décadas de vida. Sua patogênese
parece estar relacionada principalmente a fatores ambientais e a uma série de
condições patológicas predisponentes, associados a certas características
genéticas.
A análise histopatológica desses tumores é extremamente complexa e,
por isso, diversos tipos de classificação já foram propostos. O câncer gástrico
precoce é aquele que não se estende além da submucosa, independente do
acometimento linfonodal; quando diagnosticado nessa fase, o prognóstico é
melhor e, se tratado adequadamente, a taxa de sobrevida em cinco anos é
elevada. Para a escolha de um tratamento cirúrgico adequado, é fundamental
um estadiamento pré-operatório acurado através de exames complementares
de imagem, assim como videolaparoscopia para casos selecionados; porém,
apenas o estadiamento histopatológico fornece dados mais precisos quanto ao
prognóstico e o verdadeiro resultado final de uma cirurgia com intenção
curativa.
A cirurgia radical do estômago é a melhor forma de oferecer uma maior
sobrevida para os doentes; ainda existe grande controvérsia quanto à extensão
da linfadenectomia, apesar de uma certa tendência à maior aceitação da
ressecção linfonodal mais estendida pela maioria dos cirurgiões. O objetivo
deste trabalho atualizado de revisão bibliográfica é exatamente tentar
esclarecer esta questão: qual tipo de cirurgia proporciona melhores benefícios?
Atualmente, a gastrectomia radical com ressecção nodal extensa é considerada
o padrão quando o tratamento cirúrgico tem finalidade curativa; para executar
este procedimento é necessário o amplo conhecimento da complexa drenagem
linfática do estômago, ainda não muito bem entendida por um número grande
de cirurgiões.
5

ABSTRACT

The gastric carcinoma is the second most common cause of cancer-


related death in the world, losing only against the bronchogenic carcinoma.
Despite the decline in the incidence and mortality registered in the latest
decades, it continues to be a disease of high prevalence, especially in the
oriental countries. In Brazil, it was the fourth most common in men and the
fifth in women in the year of 2003. It attacks most men than women especially
in the sixth and seventh decades of life. Its pathogenesis seems to be related to
environmental factors and a series of diseases, associated with certain genetic
characteristics.
The histopathologic analyses of these tumors are extremely complex
and for that, various types of classification have been proposed. The early
gastric cancer is considered as not cross over the submucous, independent of
the lymph node commitment. When diagnosed in this stage the prognosis is
better and, when treated adequately, the rate of survival in five years is high.
To get the best surgery treatment it is fundamental an accurate preoperative
staging through out complementary image exams and videolaparoscopy in
some selected patients. Thus, only the histopathologic staging gives more
accurate information about the prognosis and the truth final result of an
intentional curative surgery.
The radical surgery of the stomach is the best way to offer a higher
survival chance to the patients; still there is a great controversy about the
extent of lymphadenectomy, even with a certain tendency of acceptance of a
more extended lymph node resection by most surgeons. The goal of this actual
bibliographic review is exactly to try to figure out this matter: What
kind of surgery gives out better results? Nowadays, the radical gastrectomy
with extended lymph node resection is considered the standard when the
surgery has curative intention. To perform this procedure it is necessary a
wide knowledge of the lymphatic drainage of the stomach which is very
complex and not well understood by a number of surgeons.
6

INTRODUÇÃO
O câncer gástrico é, em todo mundo, um dos tumores malignos letais

mais comuns e, em alguns países, o câncer mais freqüente e a principal causa

de mortalidade por neoplasias malignas. Apesar do declínio na incidência e

mortalidade, observados em quase todas as regiões do mundo, nos últimos 50

anos, continua sendo motivo de preocupação na área de saúde pública,

determinando gastos anuais muito elevados. O adenocarcinoma gástrico é a

segunda causa de morte no mundo relacionada à doença maligna, apenas

superado pelo carcinoma broncogênico 1,2,3.

O adenocarcinoma representa aproximadamente 95% dos tumores

malignos primitivos do estômago. Os outros tipos são de ocorrência mais rara,

sendo que a doença de Hodgkin e os linfomas não-Hodgkin correspondem a

apenas 2 a 4%, mas mesmo assim é o sítio extranodal mais freqüentemente

acometido pelo linfoma não-Hodgkin. Os tumores estromais do estômago

(GIST) representados pelos sarcomas, incluindo o leiomiossarcoma, o

lipossarcoma, sarcoma neurogênico e fibrossarcoma também são raros 4.

Representado por uma condição patológica que se apresenta de forma

assintomática ou oligossintomática na maioria absoluta dos casos, em sua fase

inicial, quando são potencialmente curáveis, os pacientes quase sempre


7

procuraram assistência médica tardiamente, com a doença em fase avançada.

Em países onde existem programas de rastreamento em massa, como no

Japão, as taxas de diagnóstico na fase precoce são bem expressivas e refletem-

se nos resultados; enquanto a taxa de sobrevida global em cinco anos é de 20 a

30% no ocidente5, no Japão, seu patamar é superior a 50 % e, quando

diagnosticado precocemente, pode ultrapassar 90% em cinco anos 6.

O tratamento mais eficaz para esta doença é o cirúrgico, e representa a

única chance de cura quando realizada de forma radical. Mesmo nas fases da

doença considerada incurável, a cirurgia continua sendo a melhor alternativa

paliativa pelos benefícios traz à qualidade de vida desses indivíduos, quando a

condição clínica geral for favorável.

Este é um trabalho de revisão bibliográfica atualizado. Seu objetivo é

apresentar os conceitos atuais sobre a cirurgia do carcinoma gástrico com

finalidade curativa, tendo como base principal recomendações da Japanese

Gastric Cancer Association (antiga Japanese Research Society for Gastric

Cancer), cada vez mais aceitas no mundo todo. Primeiro, serão descritos os

principais aspectos relacionados à patologia e estadiamento, pela influência

que têm no entendimento de algumas condutas adotadas e nas análises de

prognóstico. Em seguida, apresentamos os principais modelos de ressecção


8

gástrica e linfadenectomia, cotejando diversas experiências e estudos

publicados por especialistas neste assunto.


9

CONSIDERAÇÕES GERAIS

INCIDÊNCIA

A incidência do câncer gástrico varia consideravelmente em diferentes

regiões do planeta. Atualmente, maiores taxas são observadas no Japão,

China, Costa Rica, Chile e Rússia, com o Brasil participando deste cenário 7.

Nos Estados Unidos, Canadá e Austrália sua incidência é menor 1. Variações

podem ocorrer dentro de um único país e estão relacionadas principalmente

aos diferentes graus de urbanização, desigualdades sócio-econômicas de cada

região e origens étnicas distintas da população. O pico de incidência encontra-

se na sexta e sétima décadas de vida, sendo rara sua ocorrência antes dos 30

anos de idade. É mais prevalente nos homens do que nas mulheres, com uma

relação próxima de 2:1. Segundo informações do Ministério da Saúde 7, as

taxas de incidência no Brasil foram de 15,67 para homens e 7,81 para

mulheres, por 100.000 habitantes no ano de 2003, sendo maiores nas regiões

Sul e Sudeste; dentre as neoplasias malignas, foi a quarta de maior ocorrência

entre os homens e a quinta entre as mulheres (tabelas 1 e 2). No Japão, é o

câncer mais freqüente em ambos os sexos, representando 20 a 30 % das

neoplasias malignas 8.
10

Tabela 1: Número de casos de neoplasias malignas por 100.000 habitantes, por


localização, segundo Região
Sexo masculino
Brasil, 2003
Região Pulmão, Esôfago Estômago Cólon, junção Próstata Lábio e Melanoma Outras
traquéia e retossigmóide, cavida maligno da neoplasias
brônquios reto e ânus de oral pele malignas
da pele

Brasil 17,41 7,81 15,67 10,96 40,49 8,93 2,46 44,84

Região
7,21 1,28 7,89 1,21 5,80 2,78 0,28 7,13
Norte

Região
5,09 2,02 5,81 2,27 17,69 3,04 0,32 14,14
Nordeste

Região
22,86 11,35 22,36 18,71 62,16 14,11 3,85 70,63
Sudeste

Região Sul 31,70 12,61 18,58 10,50 38,74 10,68 4,04 42,21

Região
Centro- 14,92 6,79 17,14 10,79 43,41 4,39 1,70 59,52
Oeste

Fonte: Ministério da Saúde/Instituto Nacional do Câncer - Inca

Tabela 2: Número de casos de neoplasias malignas por 100.000 habitantes, por


localização, segundo Região
Sexo feminino
Brasil, 2003
Região Pulmão, Esôfago Estômago Cólon, junção Mama Colo Lábio e Melanoma Outras
traquéia e retossigmóide, do cavidade maligno neoplasias
brônquios reto e ânus útero oral da pele malignas
da pele

Brasil 7,72 2,33 7,81 11,73 46,35 18,32 3,22 2,40 47,80

Região
2,85 0,38 3,61 2,41 7,41 12,91 1,73 0,24 6,99
Norte

Região
3,10 0,69 3,06 3,63 21,02 14,16 2,05 0,41 10,92
Nordeste

Região
10,13 2,89 11,43 19,17 73,68 20,00 4,93 3,90 72,50
Sudeste

Região Sul 11,86 5,25 8,19 11,15 39,58 17,65 1,96 3,39 54,84

Região
Centro- 8,15 1,38 8,44 9,84 36,61 32,26 1,67 1,44 74,04
Oeste

Fonte: Ministério da Saúde/Instituto Nacional do Câncer - Inca


11

Como já foi comentado, o número global de casos novos vem diminuindo

progressivamente nos últimos 50 anos e no Brasil não é diferente. O principal

motivo para esse quadro é a diminuição da incidência dos tumores distais do

estômago (corpo e antro). Contudo, vários registros têm demonstrado taxas

constantemente elevadas para os tumores proximais e da junção

gastroesofágica, o que acaba resultando em aumento proporcional significante

destes tipos de tumores 9, principalmente em classes sócio-econômicas mais

favorecidas. Esses achados sugerem que o câncer proximal gástrico apresenta

características patológicas e epidemiológicas distintas daquele originado nas

porções distais do estômago, tendo assemelhando-se mais semelhante com o

adenocarcinoma do esôfago inferior 4.

PATOGÊNESE E FATORES DE RISCO

A prevalência dos diversos tipos de câncer gástrico varia bastante entre

populações de diferentes regiões, indicando que os habitantes de um

determinado lugar possuem peculiaridades importantes que os tornam mais

suscetíveis à doença ou que fatores etiológicos ambientais estejam presentes

em níveis diferentes 10. Essa última tese é fortalecida quando se constata que

os índices de ocorrência do câncer de estômago, entre as populações que

migram, tendem a assumir gradativamente as taxas relativas às populações dos


12

países que as recebem. Sua etiologia é muito complexa, mas parece não haver

dúvidas que fatores hereditários e ambientais (quadro 1) exerçam papel

fundamental no seu aparecimento e desenvolvimento 4. Atualmente, muitas

evidências sugerem que os fatores exógenos são predominantes na patogênese

deste tipo de tumor 11.

Quadro 1: Fatores de risco para câncer gástrico

FATORES GENÉTICOS E AMBIENTAIS


História familiar de câncer gástrico
Grupo sanguíneo tipo A
Câncer Colorretal Hereditário Não-polipóide
Baixas condições sócio-econômicas
Consumo de alimentos salgados, defumados ou mal-conservados
Baixa ingesta de frutas e vegetais
Tabagismo

CONDIÇÕES PATOLÓGICAS PREDISPONENTES


Gastrite atrófica crônica com metaplasia intestinal
Anemia Perniciosa
Infecção pelo Helicobacter pylori
Gastrectomia parcial para doença benigna
Doença de Ménétrier
Pólipos gástricos adenomatosos

O papel da dieta já foi amplamente pesquisado e pode fornecer uma

explicação aceitável para as diferenças existente entre certos países. Alimentos

ricos em nitratos e nitritos sempre foram relacionados, epidemiologicamente,

na base do modelo de carcinogênese gástrica. O consumo de alimentos

excessivamente salgados, defumados ou com preservação deficiente também

estão associados com risco maior 12,13. Por outro lado, frutas e vegetais frescos

ricos em vitaminas A e C possuem associação negativa com câncer gástrico,


13

14
assim como alta ingestão de fibras cereais . Algumas análises têm

demonstrado forte correlação entre o uso difundido de refrigeradores e

declínio da incidência do câncer gástrico em países desenvolvidos, podendo

ser um reflexo do aumento da disponibilidade de frutas e vegetais frescos,

redução do uso de conservantes e menor contaminação do alimento por

bactérias ou fungos capazes de ativar procarcinógenos dietéticos. O tabagismo


15
é um fator relacionado a um maior risco , enquanto que a associação com
16
consumo de álcool permanece inconclusiva . Outros fatores ambientais

relatados são baixa classe sócio-econômica, vida urbana e irradiação.

Evidências consideráveis têm dado suporte à importância dos fatores

genéticos na patogênese do câncer de estômago 4. A ocorrência de vários

casos em determinadas famílias é relatada há muito tempo e parentes de

primeiro grau de um paciente afetado apresentam risco maior de

desenvolverem a doença. Além disso, pacientes com Câncer Colorretal

Hereditário Não-Polipóide e, em menor grau, com Polipose Adenomatosa

Familiar, também são doenças que aumentam o risco para adenocarcinoma

gástrico quando comparados com a população geral. Mais evidências sobre a

influência genética são observadas em diversos estudos que demonstram uma

maior ocorrência em indivíduos com tipo sanguíneo A, principalmente para

câncer do tipo intestinal. Alterações em oncogenes e genes supressores


14

tumorais específicos foram identificadas recentemente, sendo algumas

similares àquelas observadas no câncer colorretal.

O adenocarcinoma gástrico também pode se desenvolver a partir de

outras condições patológicas 4, associadas à ocorrência aumentada de tumores

distais. As principais condições precursoras são representadas pela gastrite

crônica atrófica com metaplasia intestinal, gastrite atrófica auto-imune

(anemia perniciosa), infecção pelo Helicobacter pylori, gastrectomia parcial

como tratamento de doença benigna, gastropatia hipertrófica (doença de

Ménétrier) e pólipo gástrico adenomatoso. As associações de câncer gástrico

com doença ulcerosa benigna e com acloridria induzida por drogas, como os

inibidores da bomba de próton, por exemplo, permanecem incertas e, por isso,

merecem estudos adicionais.


17
Um modelo para a carcinogênese gástrica foi proposto por Correa ,

sendo representado por um processo multifatorial. A princípio, uma gastrite

crônica superficial causada por H. pylori ou de origem autoimune evoluiria

para gastrite crônica atrófica e metaplasia intestinal após um longo período de

doença. Essa gastrite atrófica é acompanhada por perda da massa de células

parietais e conseqüente redução na produção de ácido clorídrico, diminuição

de ácido ascórbico intraluminal assim como um aumento compensatório dos

níveis de gastrina sérica, teoricamente um potente indutor da proliferação de


15

células epiteliais do estômago. A ressecção gástrica resulta em hipocloridria,

hipergastrinemia secundária e refluxo de bile, especialmente após anastomose

a Billroth II. O aumento no pH gástrico pode permitir a colonização por

bactérias capazes de converter nitratos da dieta em potentes compostos

mutagênicos N-nitroso. Finalmente, a inflamação crônica da mucosa gástrica

pode resultar em danos para as células epiteliais com aumento de radicais

livres, maior redução de vitamina C (antioxidante) intraluminal e também

aumento no turnover celular. O papel das alterações genéticas específicas

permanece desconhecido.

DIAGNÓSTICO PRECOCE E RASTREAMENTO

Um dos principais problemas relacionados ao adenocarcinoma gástrico é

a grande dificuldade de identificação dos pacientes que apresentam a doença

ainda na fase potencialmente curável. Quando o diagnostico é precoce, a

ressecção gástrica radical pode mudar a história natural da doença e oferecer

até chance de cura. Programas de rastreamento em massa, com radiografia ou

endoscopia em indivíduos com idade acima de 50 anos, são efetivos na

detecção do câncer gástrico precoce em regiões que apresentam elevada

incidência, como no Japão, onde mais da metade dos tumores diagnosticados

são precoces. Este fato foi o grande responsável pelo declínio da mortalidade
16

observado neste país. A incidência relativamente menor em outras áreas, como

na maioria dos países do ocidente, torna essa estratégia inviável. Contudo,

alguns indivíduos que apresentam risco elevado podem ser candidatos

apropriados para o rastreamento; do mesmo modo, a avaliação precoce de

pacientes sintomáticos pode contribuir para o aumento do diagnóstico de

câncer em fase inicial.


17

PATOLOGIA
Anatomicamente, o estômago é dividido em três partes: terço superior,

médio e inferior. Essa divisão é fundamental para a escolha do tipo de

ressecção, visto que a drenagem linfática do tumor primário é diferente em

cada uma destas possíveis localizações. O endoscopista e posteriormente o

patologista devem descrever todas as áreas acometidas, informando onde se

localiza a maior massa tumoral assim como possível extensão para o esôfago

ou duodeno. Os adenocarcinomas gástricos se localizam mais comumente na

pequena curvatura do antro, ou seja, no terço inferior. Os tumores de cárdia e

corpo são menos freqüentes e os tumores confinados ao fundo gástrico são

raros.

Observar o nível de penetração do carcinoma na parede gástrica faz

parte da avaliação, sendo um aspecto muito importante, pois está relacionado

à freqüência de metástases ganglionares e à sobrevida dos pacientes. Quando a

infiltração do tumor não ultrapassa a submucosa, denominamos Câncer

Gástrico Precoce, independente do acometimento de linfonodos; nesse estágio,

o tratamento cirúrgico adequado proporciona um tempo de sobrevida

considerável. O câncer é considerado avançado quando infiltra a partir da

camada muscular própria.


18

MACROSCOPIA

Classificação de Borrmann

A primeira classificação macroscópica do câncer de estômago (figura 1)


18
foi descrita por Borrmann em 1926 , sendo utilizada até hoje, tanto por

patologistas como por endoscopistas. Inicialmente, os carcinomas gástricos

foram agrupados em quatro formas fundamentais, com o objetivo principal de

auxiliar os cirurgiões a determinar os limites de ressecção do tumor através da

observação a olho nu e pela palpação. Atualmente, os tumores avançados são

divididos em cinco formas macroscópicas clássicas, incluindo o tipo misto:

Figura 1: Classificação de Borrmann

Tipo I

Tipo II

Tipo III

Tipo IV

Tipo I ou vegetante ou polipóide: é o menos freqüente, sendo observado

em menos de 10% dos casos. Consiste tipicamente de massas polipóides,

friáveis e de base larga, que se projetam para dentro da cavidade gástrica, e

também costuma ser bem demarcado com áreas de tecido normal em toda sua
19

volta. Tende a ocorrer mais no corpo gástrico, na grande curvatura, parede

posterior ou fundo. Na época do diagnóstico, geralmente são grandes e

possuem ulcerações superficiais assim como pontos de sangramento.

Tipo II ou ulcerado: é uma lesão que se caracteriza como úlcera com

margens bem demarcadas e nenhuma infiltração, geralmente localizada no

antro ou na região da pequena curvatura. Distinguí-lo da úlcera péptica

somente pelo aspecto macroscópico pode ser muito difícil, daí a

obrigatoriedade de biopsia durante a endoscopia, mesmo quando se apresentar

em processo de cicatrização.

Tipo III ou úlcero-infiltrativo: é a apresentação mais comum do câncer

gástrico, sendo caracterizado por lesões ulceradas e infiltrativas de bordas

mais comumente rasas e mal definidas; geralmente há infiltração da

submucosa, muscularis, e serosa.

Tipo IV ou infiltrativo: apresenta-se como lesão mal definida que

geralmente envolve toda espessura do estômago, podendo se estender por

todas as direções. Raramente, a infiltração é tão extensa a ponto de produzir a

“linite plástica” ou “estômago em garrafa de couro”.

Tipo V ou misto: consiste em lesões que não se enquadram em nenhum

dos quatro tipos clássicos, pois apresentam várias características comuns em

um mesmo tumor.
20

Classificação macroscópica do câncer gástrico precoce

A Sociedade Japonesa de Endoscopia Gastroenterológica formulou a


19
classificação macroscópica para o câncer gástrico precoce , em 1962.

Representa uma boa sistematização das lesões observadas na endoscopia, no

estudo radiológico e no exame da peça cirúrgica, mas só pode ser aplicada

com propriedade depois do exame completo mediante um número adequado

de cortes histológicos, demonstrando que o tumor não infiltra além da

submucosa. O termo precoce foi utilizado pelos autores japoneses para

descrever um câncer gástrico num estágio curável e não está relacionado à

duração ou tamanho da lesão. Esta classificação reconhece os seguintes tipos e

subtipos básicos (figura 2):

Figura 2: Classificação macroscópica do câncer gástrico precoce

Tipo I

Tipo IIa

Tipo IIb

Tipo IIc

Tipo III
21

Tipo I ou protuso: essa modalidade que ocorre em 10% dos casos, é o

carcinoma polipóide, geralmente séssil, de superfície lobulada ou vilosa; a

lesão tem altura de mais de duas vezes a da mucosa gástrica normal.

Tipo IIa ou superficial elevado: observado em 10 a 20% dos casos,

apresenta-se discretamente elevado em relação à superfície da mucosa

adjacente, sendo esta elevação igual ou menor que o dobro da espessura da

mucosa normal.

Tipo IIb ou superficial plano: não apresenta diferença de nível em relação

à mucosa que o rodeia, sendo uma lesão pouco freqüente, representando

menos de 10% dos casos. Este subtipo é o mais difícil de identificar, pois

geralmente não se observa nenhuma lesão macroscópica, mas apenas alguma

alteração na coloração da mucosa.

Tipo IIc ou superficial deprimido: é uma lesão discretamente deprimida

com profundidade de, no máximo, duas vezes a espessura da mucosa

adjacente, não sendo classificada como úlcera. É o tipo mais freqüente,

ocorrendo em mais da metade dos casos em algumas séries.

Tipo III ou escavado: é uma lesão ulcerada de profundidade variável, cuja

espessura é maior que o dobro da espessura da mucosa normal;

freqüentemente se apresenta associado a um ou mais tipo e sua ocorrência

isolada um é evento raro.


22

Em cerca de 40 a 70% dos carcinomas precoces, a forma do tumor

corresponde a uma combinação de dois ou mais tipos. Neste caso, o

endoscopista ou o patologista deve indicar, primeiro, o tipo que predomina e,

em seguida, os tipos associados. Como comentamos, esta classificação

endoscópica deve ser sempre confirmada por minucioso exame macroscópico

e microscópico das peças de gastrectomia pelo patologista.

O câncer gástrico precoce tem origem predominantemente no terço

inferior ou na metade distal do estômago, principalmente na região

antropilórica e ao longo da pequena curvatura. Tanto os tumores precoces

como os tumores avançados podem surgir em várias áreas do estômago

simultaneamente, com cerca de 10% das peças de gastrectomia apresentando

lesões multifocais 20. A multicentricidade dessas lesões pode colaborar para a

coexistência de diferentes tipos histológicos e, também, pode ser responsável

por registros pós-operatórios de recorrência em cotos gástricos de pacientes

operados.

Uma interpretação equivocada comum é a associá-lo com o tamanho da

lesão. Embora o carcinoma precoce não costume medir mais que dois

centímetros em diâmetro, ele pode ser muito maior na ocasião do diagnóstico,

com lesões medindo mais de cinco centímetros. A possibilidade que esse

tumor se estenda horizontalmente na mucosa, mais do que invadir


23

profundamente, é uma característica bem conhecida. Daí, mesmo aumentando

de tamanho, continua sendo classificado como precoce, desde que a invasão

da parede não ultrapasse a submucosa. Os carcinomas gástricos precoces são

classicamente conhecidos como minute carcinoma (menores de 5mm) e small

carcinoma (entre 5 e 10mm).

MICROSCOPIA

A classificação histopatológica do câncer gástrico não é uma tarefa fácil

devido à estrutura complexa da mucosa do estômago, onde tanto a normal

quanto a que apresenta metaplasia intestinal pode originar uma diversidade de

tumores. Além de diferenças importantes entre cada tipo de carcinoma, existe

também uma variedade considerável dentro de um mesmo tipo, tanto na

estrutura quanto no grau de diferenciação. Por esse motivo, nos deparamos

com diferentes tipos de classificações, que são baseadas em aspectos

puramente descritivos, como diferenciação glandular, quantidade e tipo de

estroma e produção de mucina. Não fica claro na literatura se diferentes

autores, usando um determinado termo, estão se referindo ao mesmo tipo de

tumor. As principais classificações em uso serão expostas a seguir:


24

Classificação de Lauren
21
Esta classificação data de 1965 e agrupa os adenocarcinomas

gástricos em dois tipos principais, intestinal e difuso, com base na histologia e

na citologia, na secreção de mucina e na forma de crescimento tumoral.

Os carcinomas do tipo intestinal geralmente têm um padrão glandular,

usualmente acompanhado por formações papilíferas ou componentes sólidos,

constituídos por células grandes, pleomórficas com núcleos volumosos,

mostrando mitoses freqüentes; quando a secreção está presente, tende a

ocorrer focalmente no citoplasma de células isoladas ou, se extracelular,

localizada principalmente na luz glandular. O tumor geralmente é bem

delimitado, seu padrão glandular se assemelha ao encontrado no carcinoma de

cólon e observa-se infiltração com células inflamatórias e metaplasia

intestinal.

Em contraste, os do tipo difuso são constituídos de células isoladas

esparsas ou de pequenos grupos de células, sem um padrão glandular bem

definido e apresentam acentuada secreção de mucina que se dispersa no

estroma. As células são pequenas e uniformes, com citoplasma pouco nítido e

núcleo pouco hipercromático, sem apresentarem muitas mitoses. Esse tipo de

tumor não apresenta um padrão de crescimento bem delimitado como no tipo

intestinal, ao contrário, apresentam uma tendência de ampla disseminação pela


25

mucosa. A proliferação do tecido conjuntivo é mais marcada e o infiltrado

inflamatório é bem menos proeminente. Tumores mucinosos e sólidos

ocorrem em ambos os grupos, mas podem ser diferenciados por critérios

estruturais.

Das 1344 peças de gastrectomias estudadas por Lauren, 53% eram

adenocarcinomas do tipo intestinal, 33% do tipo difuso e os 14% restantes não

foram classificados e incluíram tumores atípicos ou muito pouco

diferenciados. A análise mostrou que os tumores que ocorrem em pessoas

mais jovens e os que apresentam localização proximal tendem a ter histologia

do tipo difuso, enquanto que os de localização distal e que ocorrem em

indivíduos com mais de 40 anos apresentam histologia do tipo intestinal. Os

tumores do tipo difuso apresentaram menor sobrevida. Com base nestas

características, foi sugerido que os dois tipos estão relacionados a diferentes

etiopatogenias 4. Atualmente sabemos que o carcinoma de tipo intestinal

geralmente é precedido por algum estado de risco para carcinogênese durante

anos e ocorre duas vezes mais no sexo masculino.

Esta classificação é amplamente utilizada em investigações

epidemiológicas e tem mostrado que a proporção dos tumores do tipo

intestinal é maior nas áreas de incidência elevada de câncer gástrico. Quando a


26

ocorrência da doença é reduzida numa população, é este tipo de tumor que

contribui com a maior parte da redução.

Classificação de Mulligan e Rember

Comparada à classificação de Lauren, a principal diferença é o

reconhecimento do carcinoma de glândulas pilorocárdicas como um grupo

distinto 22. Esses tumores geralmente são bem delimitados e projetam-se para

dentro da luz do estômago. Ao exame microscópico observam-se glândulas de

variados tamanhos revestidas por células cilíndricas. Tendem a se localizar no

antro ou na cárdia e se originam presumivelmente de células epiteliais da

mucosa pilórica e cárdica. A ocorrência em homens foi quase duas vezes

maior que nas mulheres.

Esta classificação tem sido pouco usada na prática devido à grande

dificuldade em distinguir o carcinoma de glândulas pilorocárdicas do

carcinoma de tipo intestinal, em um número considerável de casos.

Classificação de Ming

Separa os adenocarcinomas gástricos em tipo expansivo e tipo

infiltrativo, que apresentam uma ocorrência de 67 e 33% respectivamente 23. A

principal ênfase nesta classificação é o comportamento biológico do tumor

representado pelo seu padrão de crescimento.


27

No tipo expansivo, as células tumorais crescem em massa, por expansão

resultando na formação de discretos nódulos tumorais. Tendem a ser

circundados por tecido fibroso e infiltrado inflamatório, independente do grau

de diferenciação das células. Em relação ao aspecto macroscópico, se

apresentam freqüentemente na forma vegetante e raramente na forma difusa.

Além disso, sempre existe metaplasia intestinal associado a esse tipo de

tumor.

No tipo infiltrativo, ao contrário, as células penetram individualmente

através da parede do estômago resultando em acometimento difuso, às vezes

de todo o órgão. Essas células normalmente estão embebidas em tecido

conjuntivo rico em colágeno e relativamente acelular. Esses tumores se

apresentam na maioria das vezes com padrão macroscópico difuso e raramente

observa-se metaplasia intestinal associada. O carcinoma expansivo foi duas

vezes mais comum em homens do que nas mulheres enquanto que o

carcinoma infiltrativo apresentou distribuição igual entre os sexos. Nos

indivíduos com menos de 50 anos de idade, o tipo infiltrativo foi mais comum,

principalmente em mulheres.

Esta classificação, embora baseada em padrões biológicos muito mais do

que nos padrões estruturais, na prática é semelhante à classificação de Lauren,


28

mas tem a vantagem de poder ser aplicada naqueles casos em que os tumores

permanecem não-classificados.

Classificação da Organização Mundial de Saúde (OMS)

Esta classificação reconhece quatro padrões comuns a carcinomas de

outros órgãos e é baseada no componente predominante em cada tumor,

separando os adenocarcinomas gástricos em tipo papilífero, tipo tubular, tipo

mucinoso e tipo célula em anel de sinete. O tipo papilífero é composto por

projeções com eixos fibrosos e tipicamente cresce como uma massa polipóide

para dentro da luz gástrica; o carcinoma tubular se caracteriza por

ramificações glandulares em meio a estroma fibroso; o tipo mucinoso é aquele

em que encontramos grande quantidade de mucina, que pode ser visível a olho

nu; o adenocarcinoma com células em anel de sinete é composto

principalmente por células tumorais isoladas, que apresentam grande

quantidade de mucina intracelular e, geralmente, está associado a importante

fibrose. Todos esses tipos de tumores podem ser graduados como bem,

moderadamente ou pouco diferenciados. Os carcinomas indiferenciados e os

não-classificados são agrupados separadamente.

É de fácil aplicação por diferentes patologistas e serve como base para

alcançar uma uniformidade internacional na classificação dos carcinomas


29

gástricos. O principal problema é que uma proporção considerável de tumores

é enquadrada no grupo dos indiferenciados ou não-classificados.

Classificação de Broders

Proposta no ano de 1942, esta classificação tem como base a organização

da arquitetura das células e o grau de diferenciação celular do tumor,

independente do aspecto macroscópico ou padrão de crescimento. Sendo

assim, os adenocarcinomas do estômago podem ser divididos em:

Grau 1: arranjo celular semelhante ao de glândulas gástricas normais,

com células apresentando núcleos com dimensões maiores que as normais.

Grau 2: as células também apresentam núcleos com dimensões grandes

com arquitetura glandular, porém não se encontram alinhadas.

Grau 3: as células apresentam pouca tendência à formação glandular e

grande variação no tamanho de seus núcleos.

Grau 4: não há formação glandular e as células apresentam núcleos

hipercromáticos e contornos irregulares. Observa-se também a presença de

células em anel de sinete e células gigantes e disformes.

Classificação Japonesa
24
Esta classificação leva em consideração o padrão predominante do

tumor, e, embora seja considerada a mais completa, é pouco utilizada em

nosso meio. O exame patológico inclui o exame macroscópico na peça


30

gástrica ressecada, além de exame histológico do tumor e de todos os

linfonodos regionais. Em relação ao tipo histológico, os tumores são divididos

em adenocarcinoma papilífero, adenocarcinoma tubular (bem diferenciado e

moderadamente diferenciado), adenocarcinoma pouco diferenciado,

carcinoma com células em anel de sinete e adenocarcinoma mucinoso. Outros

tipos histológicos mais raros também são classificados, mas separadamente. A

relação câncer-estroma também é classificada de maneira quantitativa e divide

os tumores em tipo cirroso (estroma abundante), tipo intermediário e tipo

medular (estroma escasso). Outros aspectos importantes dessa classificação

consistem na avaliação do padrão de infiltração tumoral para tecidos

adjacentes, da profundidade da infiltração na parede gástrica, do grau de

invasão linfática e venosa e, finalmente, das metástases para linfonodos.

DISSEMINAÇÃO DO CARCINOMA GÁSTRICO

Disseminação Direta

A disseminação do tumor pode ocorrer diretamente, por contigüidade,

para órgãos ou estruturas adjacentes como o pâncreas, fígado, baço, cólon

transverso, omento, diafragma e parede abdominal, assim como para

estruturas vasculares. Também há a disseminação por continuidade, que pode

atingir o esôfago ou duodeno dependendo da localização do tumor. A


31

observação macroscópica e a palpação não são capazes de definir as margens

dos cânceres gástricos, tanto precoce quanto avançado, no per-operatório.

Sendo assim, os exames de congelação das margens cirúrgicas devem ser

realizados para assegurar que a recorrência não ocorrerá no coto gástrico,

principalmente quando a margem de ressecção for menor que 4cm.

Disseminação Linfática

As metástases para linfonodos (figura 3) estão presentes em 90% das

necropsias e em 70% das peças cirúrgicas, distribuindo-se de acordo com a

localização do tumor. O envolvimento dos grupamentos ao longo da grande e

pequena curvaturas é muito comum e a extensão para os linfonodos do tronco

celíaco e para-aórticos é freqüentemente observada. Os tumores na porção

média do estômago podem dar origem a metástases para linfonodos

pancreáticos e esplênicos, assim como os tumores da porção alta podem

atingir os linfonodos mediastinais. O acometimento dos gânglios

supraclaviculares esquerdos é incomum, mas pode ocorrer através de

disseminação pelo ducto torácico e clinicamente não é comum. É fundamental

que o cirurgião remova, e o patologista examine, todos os linfonodos, mesmo

os menores e sem acometimento macroscópico, já que o grau de envolvimento

nodal é um importante fator prognóstico isolado, influenciando diretamente na

sobrevida dos doentes.


32

Figura 3: Disseminação linfática do câncer gástrico

Disseminação Hematogênica

A disseminação via sanguínea resulta da invasão de tributárias da veia

porta e pode ocorrer, mesmo na ausência de envolvimento linfonodal,

principalmente para o fígado.


33

Disseminação transperitoneal

Depósitos secundários são comuns no omento, peritônio e mesentério,

mas são raros sobre o baço. Quando localizado no ovário é conhecido como

tumor de Krukemberg.
34

ESTADIAMENTO
Estadiar um câncer significa enquadrar as características de apresentação

da doença em categorias que conferem um prognóstico comum para cada uma

delas. A escolha da melhor terapia para indivíduos que apresentam câncer

depende principalmente de uma adequada avaliação da extensão da doença e

para o carcinoma gástrico não é diferente. Além disso, o estadiamento

uniforme é importante na troca de informações entre instituições diferentes e

na contribuição para pesquisa contínua do câncer, a fim de melhorar as taxas

de sobrevida da população doente. O estadiamento clínico, realizado no pré-

operatório através de exame físico e exames complementares é essencial para

selecionar e avaliar a terapêutica, porém, somente o estadiamento

histopatológico da peça cirúrgica fornece dados mais precisos para estimar o

prognóstico e avaliar os resultados finais da uma cirurgia radical. O

estadiamento per-operatório é um dos momentos mais importantes para definir

o tipo de ressecção cirúrgica (cirurgia com finalidade curativa ou ressecção

paliativa) a ser realizada e, por razões didáticas, este assunto será abordado no

próximo capítulo deste trabalho.


35

SISTEMA TNM

No final da década de oitenta, a American Joint Committee on Cancer

(AJCC) definiu o estadiamento do adenocarcinoma gástrico com base no

sistema TNM, sendo a princípio, utilizado também pela Sociedade Japonesa

de Pesquisa para o Câncer Gástrico. Em 1997, houve uma modificação na

classificação inicial, quando a extensão anatômica do acometimento nodal foi

substituída pelo número de linfonodos acometidos. Para cumprir esta meta, o

cirurgião deve realizar uma linfadenectomia da forma mais eficaz possível,

para que a doença seja adequadamente classificada e o prognóstico seja

definido com melhor acurácia. A sexta edição sistema TNM (quadro 2) é a

mais recente e foi publicada no ano de 2002 pela AJCC 25.

Quadro 2: Sistema TMN


Tumor (T)
TX Tumor não avaliado
T0 Sem evidência de tumor primário
Tis Carcinoma in situ: restrito à mucosa
T1 Tumor invade lâmina própria ou submucosa
T2 Tumor invade muscularis propria (T2a) ou subserosa (T2b)
T3 Tumor invade serosa, sem invasão de estruturas adjacentes
T4 Tumor invade estruturas adjacentes
Linfonodos (N)
NX Linfonodos regionais não avaliados
N0 Ausência de metástase para linfonodos regionais
N1 Metástases em 1 a 6 linfonodos regionais
N2 Metástases em 7 a 15 linfonodos regionais
N3 Metástases em mais de 15 linfonodos regionais
Metástases à distância (M)
MX Metástases à distância não avaliadas
M0 Ausência de metástases à distância
M1 Presença de metástases à distância
36

O uso do sistema TNM, método consagrado para classificar a maioria

das neoplasias malignas, é uma maneira de agrupar a doença de acordo com

sua extensão anatomopatológica, seja de através de exames complementares

após o exame físico, seja pelo exame histopatológico da peça cirúrgica.

Baseia-se na avaliação de três componentes: a extensão do tumor primário (T),

o número de linfonodos regionais acometidos (N); e a ausência ou presença de

metástases à distância (M). A classificação histopatológica pós-operatória

(estadiamento pTNM) reúne as evidências conseguidas antes do tratamento

(estadiamento cTNM), com as obtidas através da cirurgia e do exame

histopatológico. É importante ressaltar que o sistema TNM só deve ser

aplicado para adenocarcinomas gástricos com confirmação histopatológica

através de endoscopia digestiva alta e biopsia da lesão.

Estadiamento Clínico (cTNM)

A avaliação do paciente sob o ponto de vista clínico é importante, pois

fornece informações importantes que permitem suspeitar de doença avançada

e até contra-indicar a realização de cirurgia curativa em algumas ocasiões.

Esta avaliação pré-operatória é iniciada com exame físico geral, dando

atenção especial para o exame do abdômen, pelve, reto, vagina e linfonodos,

onde devemos pesquisar rotineiramente a presença de ascite, massas

abdominais e pélvicas, hepatomegalia, gânglios supraclaviculares (linfonodo


37

de Virchow-Troisier), caquexia e implantes peritoneais no fundo de saco de

Douglas (prateleira de Blumer), assim como nódulos periumbilicais (nódulos

de Sister Mary Joseph). O exame físico deve ser corroborados por exames

complementares como radiografia de tórax, ultra-sonografia abdominal e

pélvica, provas de função hepática, tomografia computadorizada abdominal e

ultra-sonografia endoscópica quando disponível. O exame radiográfico do

trato gastrintestinal superior (SEED) é pouco usado atualmente.

A ultra-sonografia endoscópica vem ganhando cada vez mais valor na

avaliação da extensão locorregional da doença, pois, além de fornecer uma

definição clara e precisa da invasão da parede gástrica, pode determinar o

comprometimento linfonodal perigástrico; além disso, permite a aspiração


26
transgástrica por agulha fina de massas locais e de linfonodos regionais .

Diversos estudos já demonstraram a superioridade deste exame em relação à

tomografia computadorizada na determinação da invasão do tumor e do status


27
nodal , porém, ainda são raros os hospitais em nosso meio que possuem

equipamento e profissionais experientes para sua realização.

Na detecção de metástases em órgãos distantes, a tomografia

computadorizada é o exame a ser solicitado e, em casos selecionados, o exame

videolaparoscópico vem ganhando cada vez mais importância.


38

O Papel da Videolaparoscopia

O estadiamento laparoscópico, apesar de mais invasivo que os exames já

citados, possui a vantagem de visualizar diretamente o fígado, o peritônio e

linfonodos locais permitindo, também, a realização de biopsias das lesões

suspeitas. É capaz de identificar metástases até então não detectados pelos

exames de imagem, em especial os implantes peritoneais. Porém, o valor da

videolaparoscopia na conduta do câncer gástrico tem sido menor do que para

outras doenças gastrintestinais, uma vez que a ressecção gástrica costuma ser

realizada mesmo na presença de doença metastática, pois representa a melhor

terapia paliativa para estes doentes em nosso meio.

Atualmente, alguns estudos relatados na literatura apóiam o uso de

laparoscopia na avaliação de pacientes com câncer gástrico avançado, sendo

um meio mais preciso de se detectar doença metastática e que consegue evitar


28,29
aproximadamente 25% das laparotomias exploradoras . Os autores

constataram que os dados de sobrevida após paliação cirúrgica na presença de

doença metastática eram insatisfatórios e não justificavam tal escolha. A

melhor conduta neste estágio da doença, segundo estes estudos, é o uso

combinado de técnicas endoscópicas, radioterapia e quimioterapia, na

ausência de hemorragia ou obstrução. Observou-se que a sobrevida destes

doentes era tão baixa que poucas vezes evoluíam com complicações locais do
39

tumor; logo, poucas vezes necessitavam de laparotomia exploradora e cirurgia

paliativa, se manejados de forma adequada. Nos protocolos neo-adjuvantes, a

videolaparoscopia é instrumento fundamental para estadiar precisamente a

doença. Estas condutas fogem do objetivo deste trabalho, logo, não serão

discutidas.

Estadiamento Histopatológico (pTNM)

O estadiamento do componente T (tumor) depende basicamente da

invasão tumoral de maior profundidade através da parede gástrica; mesmo as

lesões que invadem órgãos adjacentes (T4) são potencialmente curáveis por

ressecção em monobloco. O status nodal (N), representado pelo número de

linfonodos acometidos é um aspecto de extrema importância prognóstica e sua

correta classificação deve ser sempre perseguida pelo cirurgião e pelo

patologista. Infelizmente, em nosso meio, muitos pacientes são enquadrados

em estágios errados da doença, devido à inadequada avaliação do

acometimento nodal, resultado da combinação de cirurgia insuficiente com a

falta de experiência por parte de alguns patologistas. As metástases à distância

devem ser avaliadas microscopicamente para que entrem no sistema de

estadiamento histopatológico. Como já comentado anteriormente, somente

através do exame anatomopatológico adequado da peça ressecada, o


40

patologista pode estimar mais precisamente o prognóstico e avaliar os

verdadeiros resultados de uma gastrectomia radical com intenção curativa.

O novo sistema TNM da AJCC é o método de estadiamento mais

utilizado internacionalmente e representa um passo importante na unificação

da linguagem para classificar o adenocarcinoma gástrico, principalmente por

ser de fácil execução. Infelizmente, este sistema não nos fornece um

prognóstico inteiramente confiável, visto que dados importantes como a

localização do tumor e seu tipo histológico não são considerados.

ESTADIAMENTO JAPONÊS

O estadiamento japonês do câncer gástrico é mais complexo, parecendo

ser o mais completo para determinar o prognóstico com mais exatidão. Sua

primeira edição em inglês, baseada na décima segunda edição japonesa, foi

publicada em 1995; em 1997, a Sociedade Japonesa de Pesquisa do Câncer

Gástrico se transforma na Associação Japonesa de Câncer Gástrico e lança a


24
13ª edição de classificação . Enriquecida de diversos fatores prognósticos,

teve como objetivo dar uniformidade à linguagem para a avaliação cínica e

patológica do câncer gástrico, além de contribuir para a pesquisa continuada

no aprimoramento do seu tratamento. Este método avalia o tumor primário

(T), as metástases linfonodais (N), metástases hepáticas (H), metástases


41

peritoneais (P) e outras à distância (M); os achados devem ser classificados

em quatro fases seqüenciais e são divididos em:

Achados Clínicos: são definidos como quaisquer características

encontradas durante a fase de avaliação diagnóstica pré-operatória, através de

exame físico, exames de imagem, endoscopia digestiva alta com biopsia,

avaliação laparoscópica com biopsia e citologia, exames laboratoriais

bioquímicos e até estudos genéticos.

Achados Cirúrgicos: são os achados obtidos durante o per-operatório

através do inventário completo da cavidade abdominal, incluindo exames de

congelação e citologias.

Achados Patológicos: constituem quaisquer achados baseados em exame

microscópico de materiais obtidos por endoscopia, ressecção cirúrgica ou

ressecção laparoscópica.

Achados Finais: agrupa todos os achados clínicos, cirúrgicos e

patológicos. Quando há conflito entre esses achados, prevalecem os obtidos no

exame patológico.

A classificação pré-operatória é feita se forma semelhante ao sistema

TNM, já discutido resumidamente acima. O estadiamento per-operatório e os

resultados finais serão abordados no próximo capítulo. A classificação

histopatológica já foi comentada no capítulo anterior.


42

CIRURGIA RADICAL
A cirurgia radical do estômago representa, atualmente, a melhor chance

de uma maior sobrevida para os portadores de carcinoma gástrico. A taxa de

sobrevida global em cinco anos, após uma gastrectomia com intenção

curativa, dificilmente ultrapassa 30% nos Estados Unidos, enquanto que, no

Japão, estudos recentes demonstraram que essa taxa é superior a 50% 30. Essa

diferença significativa pode ser explicada pelo diagnóstico precoce,

procedimento cirúrgico mais agressivo, possível característica biológica

diferente do tumor, tratamento adjuvante mais efetivo e por um estadiamento

mais acurado que só a linfadenectomia realizada de forma estendida permite


31
. Quando a linfadenectomia é realizada de forma inadequada, observamos o

chamado fenômeno de migração do estágio. Na realidade, a doença é

classificada de forma equivocada como menos avançada em conseqüência de

um número insuficiente de linfonodos ressecados.

Apesar das taxas de sobrevida superiores do câncer gástrico no Japão,

controvérsias persistem nos países do Ocidente em relação à extensão da

ressecção gástrica, importância da linfadenectomia, significado da

esplenectomia e pancreatectomia e contribuição da terapia adjuvante. A partir

desse momento, serão discutidas as condutas em relação à cirurgia curativa do


43

adenocarcinoma gástrico, baseadas nas orientações publicadas pela Japanese


32
Gastric Cancer Association , cada vez mais aceitas por diversos autores

ocidentais 30,31.

HISTÓRICO

A primeira ressecção gástrica para câncer foi realizada no ano de 1881,

por Theodore Biliroth 33, em Viena. Desde o início do século XX, mudanças

vêm ocorrendo nos princípios desta cirurgia; porém, somente durante os 30

anos que sucederam a 2ª Guerra Mundial foi que a extensão da ressecção

gástrica ampliou-se, a linfadenectomia foi introduzida e o número de

ressecções de órgão adjacentes foi incorporada.

33
Em 1951, McNeer publicou achados detalhados de seu estudo em

necrópsias e registros operatórios de 92 pacientes submetidos à gastrectomia

subtotal curativa, focando predominantemente a recidiva local em 80% dos

casos. Os achados induziram a uma tática cirúrgica mais agressiva com

ressecção de todo o estômago, pâncreas distal e baço. Em 1954, utilizando o

second look, Wangensteen 33 demonstrou a recidiva em nível de tronco celíaco

e leito esplênico. Desta forma, a cirurgia foi alargada, passando a incluir a

esplenectomia de rotina e a dissecção linfonodal em torno do tronco celíaco e


33
aorta. A partir dos anos 60, Jinnai recomendou a dissecção linfonodal
44

extensa como forma de melhorar os resultados do tratamento cirúrgico para o

câncer gástrico, desenvolvendo-se, então, um amplo consenso entre os

cirurgiões japoneses que aderiram à linfadenectomia padronizada publicada

nas Regras Gerais para Estudo do Câncer Gástrico em Cirurgia e Patologia,

pela Sociedade Japonesa. Os benefícios da linfadenectomia radical foram


34
confirmados por Kodama em uma publicação de 1981, que demonstrou

melhora na sobrevida em pacientes com invasão da serosa ou acometimento

linfonodal submetidos à gastrectomia radical à D2 ou D3. Atualmente, a

inclusão da pancreatectomia caudal e da esplenectomia no bloco ressecado é

excepcional.

INDICAÇÕES CIRÚRGICAS GERAIS

Na avaliação da melhor proposta cirúrgica, são imprescindíveis os

estadiamentos pré e per-operatórios adequados. O paciente com diagnóstico de

câncer gástrico, comprovado pelo exame histopatológico de biópsias, deve ser

inicialmente avaliado com exame físico completo à procura de sinais de

doença avançada, que deverão ser corroborados com exames complementares

de estadiamento pré-operatório. Ainda que a identificação desses achados

permita suspeitar de doença adiantada, eles não são totalmente confiáveis

quanto ao grau de invasão tumoral extragástrica ou doença metastática, nem


45

na determinação de irressecabilidade. Em última análise, a decisão de se

realizar ressecções, com finalidade curativa ou paliativa, deve estar apoiada


31
em resultados histopatológicos . Exceto na presença de acentuada

deterioração clínica, mesmo nos casos de doença avançada, a laparotomia com

exploração pode estar indicada, já que a ressecção gástrica paliativa é a

melhor forma de aliviar os sintomas decorrentes da disseminação local do

tumor. Como veremos a seguir, a cirurgia com finalidade curativa só deve ser

indicada na ausência de metástases à distância 31.

O inventário cuidadoso da cavidade abdominal é essencial para definir a

extensão do procedimento cirúrgico. Quando algum critério de incurabilidade

for identificado (disseminação à distância), a cirurgia com finalidade curativa

não deve ser realizada, pois não acarretará nenhum benefício para estes

pacientes. Apesar da importância da exploração abdominal, a impressão

macroscópica da doença pode resultar em uma interpretação equivocada pelo


31
cirurgião . Algumas lesões hepáticas, como por exemplo, hamartomas,

hemangiomas e cistos, podem ser confundidas com metástases hepáticas,

estando indicado, nestes casos, exame histopatológico das lesões através da

técnica de congelação. De maneira semelhante, a avaliação per-operatória de

acometimento da serosa, invasão por contigüidade de órgãos adjacentes e


46

comprometimento nodal pode não ser precisa e por vezes é superestimada,

resultando apenas de processo inflamatório 31.

ESTADIAMENTO PER-OPERATÓRIO

O estadiamento per-operatório é um procedimento fácil que não consome

tempo da cirurgia, auxilia o cirurgião na escolha da melhor forma de

tratamento no momento da cirurgia. Serve ainda para o grupo ou serviço,

como parâmetro no estabelecimento de normas e condutas de tratamento,

possibilitando estudos comparativos dos resultados obtidos.

O modelo de estadiamento exposto a seguir é o proposto pela Associação

Japonesa de Câncer Gástrico (antiga Sociedade Japonesa de Pesquisa para o

Câncer Gástrico), através da 13ª edição da Classificação Japonesa do Câncer

Gástrico 24, publicada no ano de 1998. A técnica de estadiamento atualmente

empregada é visual e palpatória. Visual na observação da serosa gástrica, da

superfície hepática, das cadeias nodais e da superfície peritoneal; para melhor

observação, recomenda-se iniciar a cirurgia com pequena incisão através da

qual se avalia a ressecabilidade e, quando necessário, a incisão é ampliada

para proceder à ressecção. A palpação hepática, dos sítios linfonodais e das

superfícies peritoneais como os espaços subfrênicos, goteiras parietocólicas e

pelve, complementa esta avaliação. Deve-se evitar a palpação direta do tumor


47

a fim de se prevenir disseminação peritoneal, principalmente nos casos

suspeitos de invasão serosa.

Modelo Simplificado de Estadiamento Per-operatório


1º- Localizar o tumor:
U: terço superior (upper third)
M: terço médio (middle third)
L: terço inferior (lower third)
E: esôfago
D: duodeno

2º- Classificar o grau de invasão serosa (T):


T1: tumor invade no máximo até a submucosa
T2: tumor invade a muscular própria ou subserosa
T3: tumor penetra na serosa sem invadir estruturas adjacentes
T4: tumor invade estruturas adjacentes
TX: tumor primário não avaliado

3º- Classificar a extensão das metástases linfonodais (N):


N0: sem evidências de acometimento linfonodal
N1: metástases para linfonodos do nível 1
N2: metástases até linfonodos do nível 2
N3: metástases até linfonodos do nível 3
NX: acometimento linfonodal não avaliado

4º- Classificar o grau de disseminação peritoneal (P):


P0: ausência de metástases peritoneais
P1: presença de metástases peritoneais
PX: metástases peritoneais não avaliadas

5º- Classificar as metástases hepáticas (H):


H0: ausência de metástases hepáticas
H1: presença de metástases hepáticas
HX: metástases hepáticas não avaliadas

6º- Classificar a citologia do lavado peritoneal (CY):


CY0: lavado peritoneal benigno ou com células indeterminadas
CY1: presença de células malignas no lavado peritoneal
CYX: não foi realizado lavado peritoneal

7º- Classificar outras metástases à distância:


M0: ausência de outras metástases à distância
M1: presença de outras metástases à distância (especificar)
MX: não avaliado

8º- Estadiar conforme os achados acima:


48

9º- Documentar o tipo de linfadenectomia realizada:


D0, D1, D2, D3

10º- Documentar o status final da cirurgia:


R0: ausência de doença residual
R1: doença residual microscópica
R2: doença residual macroscópica

Finalmente, uma vez estadiada a doença, especificados o tipo de

linfadenectomia e o status final da cirurgia quanto à presença ou não de

doença residual, podemos classificar a cirurgia realizada em:

Curativa e Radical: quando toda doença macroscópica é ressecada,

incluindo órgãos adjacentes invadidos por contigüidade, com margens livres

de doença na congelação e linfadenectomia com extensão de um nível além do

último acometido, na ausência de metástases à distância.

Curativa Relativa: sempre que houver invasão da serosa ou quando a

extensão da linfadenectomia for no mesmo nível dos linfonodos acometidos.

Paliativa: na presença de tumor residual ou metástases à distância.

Orientações Conforme o Estadiamento Per-operatório

Os pacientes agrupados nos estágios I, II e III são sempre candidatos à

terapêutica cirúrgica com finalidade curativa, enquanto que aqueles no estágio

IV devem ser submetidos à cirurgia paliativa, de preferência ressecção

gástrica, se o estado clínico geral não for proibitivo. As exceções de conduta,

no estágio IV, são os casos com poucas metástases hepáticas passíveis de

ressecção e, também, a presença de metástases em linfonodos do nível N3,


49

quando podemos estender a ressecção para um nível além (linfadenectomia a

D4). A invasão de órgãos adjacentes não contra-indica a realização da cirurgia

com finalidade curativa 31.

CIRURGIA CURATIVA

O câncer gástrico é uma doença locorregional e apresenta drenagem

linfática bem conhecida, que depende da sua localização. Na ausência de

metástases à distância, está indicada a ressecção cirúrgica com finalidade

curativa (gastrectomia radical). A verdadeira natureza curativa ou não-curativa

da ressecção apenas poderá ser determinada pelo exame anatomopatológico da

peça cirúrgica. A cirurgia radical do estômago consiste em:

1. ressecção do tumor com margens cirúrgicas livres;

2. remoção de sua drenagem linfática regional;

3. remoção de pequeno e grande omentos, folheto anterior do

mesocólon transverso e do peritônio pré-pancreático;

4. ressecção de órgãos ou segmentos de órgãos envolvidos por

contigüidade, em monobloco com o tumor.

De modo geral, as ressecções gástricas podem ser classificadas de

acordo com os seguintes critérios:


50

Curativas Absolutas: quando a linfadenectomia é mais extensa que o

acometimento linfonodal e quando não há invasão da serosa.

Curativas Relativas: quando a remoção dos linfonodos é igual ao número

de linfonodos acometidos ou quando há invasão serosa.

Não-Curativas Relativas: quando todas as lesões metastáticas distantes

são removidas, não restando nenhuma evidência macroscópica de tecido

tumoral.

Não-Curativas Absolutas: quando permanece doença macroscópica

evidente.

Os fatores que tornam a cirurgia tecnicamente impossível de ser

realizada são denominados critérios de irressecabilidade. Eles incluem a

invasão do pedículo hepático, vasos mesentéricos, raiz do mesentério,

retroperitônio e aorta. Os fatores que, quando presentes, contra-indicam o

tratamento cirúrgico radical são conhecidos como critérios de incurabilidade,

sendo exemplos a presença de metástases hepáticas múltiplas, implantes

peritoneais, ascite neoplásica e comprometimento linfonodal acima do nível

N3. Na presença destes critérios, a cirurgia com finalidade curativa não

beneficia o paciente e não aumenta o tempo de sobrevida 31.


51

TIPOS DE CIRURGIA

Como já foi destacado, o tipo específico de ressecção gástrica, assim

como o tipo de linfadenectomia dependerá exclusivamente da localização do

tumor, de acordo com o padrão de disseminação da doença. Além disso, a

presença de invasão de órgãos adjacentes é indicação para ressecá-los no todo

ou em parte.

Tumor Proximal

A abordagem cirúrgica ideal no câncer gástrico proximal ainda é motivo

de controvérsia e inclui duas opções: gastrectomia total e gastrectomia

subtotal proximal. Como esses tumores geralmente são mais avançados por

ocasião do diagnóstico, o prognóstico é pior e as ressecções paliativas são

mais freqüentes que as realizadas nos tumores mais distais. Por este motivo,

alguns autores afirmam que qualquer cirurgia seria, na verdade, um

procedimento paliativo, recomendando a realização de gastrectomia subtotal

proximal, especialmente porque a gastrectomia total não aumentaria a


35
sobrevida dos pacientes com doença nos estágios III e IV . Porém, em

pacientes com estádios I e II da doença, alguns estudos tem demonstrado que a

gastrectomia total, além de melhorar a qualidade de vida, aumenta a sobrevida

e diminui o índice de recorrência 32.


52

Atualmente, para esses tumores proximais, a maioria das instituições e

cirurgiões prefere realizar a gastrectomia total com esofagectomia distal e

linfadenectomia regional, reconstruindo o trânsito com através de

esofagojejunostomia em Y de Roux, conduta também adotada pelo Hospital

do Câncer – INCa 31. Este procedimento tem a vantagem de evitar a gastrite

alcalina que pode resultar da gastrectomia subtotal proximal, sem aumentar a

morbidade e mortalidade. Independente do tipo de cirurgia, as margens de

segurança devem ser respeitadas.

Tumor de Terço Médio

Com base nos mesmos argumentos, nesses tumores recomenda-se a

gastrectomia total com esofagojejunostomia em Y de Roux e linfadenectomia

regional, neste caso sem esofagectomia distal 31, principalmente para lesões de

dimensões maiores ou doença infiltrativa. Nessas situações, uma gastrectomia

subtotal para esses tumores exigiria uma secção gástrica muito alta,

preservando um coto pequeno e sem função reservatória. Além disso, como os

linfonodos cárdicos esquerdos estão freqüentemente comprometidos, devem

ser ressecados 31.

Tumor Distal

A cirurgia padrão para o câncer distal do estômago é a gastrectomia


30,31,32
subtotal distal e linfadenectomia regional , com ressecção de
53

aproximadamente ¾ do estômago, incluindo toda a pequena curvatura e

ligadura da artéria gástrica esquerda em sua origem. Este procedimento

permite uma remoção linfonodal adequada, pois os linfonodos cárdicos

esquerdos, do hilo esplênico e ao longo das artérias esplênica e gastroepiplóica

esquerda normalmente não são acometidos. A margem de ressecção proximal

recomendada é de cinco a seis centímetros, já que estudos demonstraram ser

improvável existir invasão microscópica além dessa margem macroscópica 31.

Porém, mesmo quando este limite é respeitado, o exame de congelação das

margens deve ser realizado. Em uma parte considerável dos tumores

antropilóricos, existe invasão do duodeno, sendo recomendada a ressecção de

três a quatro centímetros da alça duodenal 31.

Alguns autores ainda defendem a gastrectomia total por julgarem que

apenas este procedimento garante margens livres de invasão microscópica e

remoção adequada de linfonodos. Deve-se considerar, entretanto, que é uma

cirurgia mais extensa e acarreta mais complicações nutricionais pós-

operatórias, além de não aumentar a sobrevida quando comparada a

gastrectomia subtotal 36.

Esplenectomia

A indicação da esplenectomia como parte do tratamento cirúrgico

curativo para o câncer gástrico, atualmente, esta cada vez menos controversa.
54

Realizada de forma rotineira no passado, não acrescentava nenhum benefício

sobre o prognóstico da doença; ao contrario, alguns demonstraram sobrevida

menor nos esplenectomizados 37,38. Tecnicamente, este procedimento facilita a

linfadenectomia do hilo e artéria esplênica na cirurgia radical para tumores do

terço médio e superior do estômago, porém, na maioria dos casos, a retirada

do baço não é necessária para atingir este objetivo. Logo, a esplenectomia só

deve ser realizada quando o tumor adere ou invade o baço e/ou corpo e cauda

do pâncreas 31,32.

Pancreatectomia Distal

A pancreatectomia corpo-caudal pode ser necessária quando se pretende

uma adequada linfadenectomia do hilo e artéria esplênica. Além disso, deve

ser sempre indicada quando existe invasão do pâncreas, se o objetivo for


31,32
curativo . Em termos gerais, a ressecção combinada de órgãos adjacentes

invadidos pelo tumor melhora a sobrevida nos casos potencialmente curáveis,

sem aumento significativo da mortalidade cirúrgica 39. Embora o prognóstico

seja pior nesses casos, a invasão de órgãos adjacentes não é critério de

incurabilidade.

Ressecção de Metástases Hepáticas

A metástase hematogênica hepática é um evento de prognóstico bastante

reservado, podendo requerer cirurgias mais ampliadas que implicam em


55

elevada morbimortalidade. Assim, não há consenso na literatura quanto à

indicação destes tipos de cirurgias. Pacientes com metástases hepáticas

raramente sobrevivem por mais de um ano e, quando não tratados, geralmente

falecem em três meses. Devido à alta letalidade, são poucas as publicações

encontradas na literatura sobre tratamento cirúrgico desse tipo de metástase


40,41,42
secundária ao carcinoma gástrico . Ainda assim, esses estudos sugerem

que a ressecção de metástases hepáticas sincrônicas limitadas a um lobo ou

segmento pode acarretar benefícios na sobrevida dos pacientes, desde que não

apresentem comprometimento peritoneal, linfático extenso, ou seroso.

LINFADENECTOMIA

Provavelmente, a grande controvérsia no tratamento cirúrgico do câncer

gástrico é a importância da linfadenectomia e a sua extensão. O grande motivo

para tal controvérsia é a divergência de resultados observados em diversos

estudos realizados, que são significativamente melhores nas séries japonesas

quando comparados com resultados publicados em séries de países do


30
ocidente, principalmente nos Estados Unidos . A tendência atual é a

aceitação, pela maioria dos cirurgiões, da linfadenectomia estendida como

parte da cirurgia com finalidade curativa para o câncer gástrico 30,31.


56

Aspectos Anatômicos

A drenagem linfática gástrica é extensa e alcança variados grupos

linfonodais, definidos de acordo com sua relação com o estômago e seu

suprimento sanguíneo. Os linfonodos regionais do estômago podem ser

divididos em perigástricos e extra-perigástricos (figura 4). Para entender a

ressecção linfonodal adequada para cada tipo de tumor segundo sua

localização, é fundamental o conhecimento da atual divisão das cadeias

linfonodais, de acordo com a classificação japonesa 24.

Figura 4: Linfonodos perigástricos

Após a divisão do estômago em três terços (proximal, médio e distal),

cada cadeia de drenagem linfática é classificada de acordo com a localização

original do tumor, respeitando a via natural de fluxo da disseminação linfática.


57

Seguindo esta regra, os grupamentos linfonodais são divididos em quatro

níveis, sendo designados N1, N2, N3 e N4. Os dois grupamentos do último

nível (vasos cólicos e para-aórticos) não são considerados regionais e, quando

presentes são classificados como metástases à distância.

Ressecção Linfonodal

A linfadenectomia será denominada D1, D2, D3 ou D4, dependendo de

sua extensão. É importante lembrar que estes diferentes tipos de

linfadenectomia variam de acordo com a localização do tumor no estômago

(tabela 3).

Tabela 3: Classificação dos níveis linfonodais (N) e linfadenectomia (D)


Classificação Todo Terço Terço Terço
Estômago Superior Médio Inferior
N1/D1 1, 2, 3, 4, 5, 6 1, 2, 3, 4 1, 3, 4, 5, 6 3, 4, 5, 6
N2/D2 7, 8, 9, 10, 11 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 2, 7, 8, 9, 10 11 1, 7, 8, 9
N3/D3 12, 13, 14 12, 13, 14 12, 13, 14 2, 10, 11, 12, 13 14
N4/D4 15, 16

A ressecção completa dos linfonodos dos níveis N1 e N2, denominada

linfadenectomia D2 (figura 5), é considerada o procedimento padrão para

cirurgia com intenção curativa; linfadenectomia D3 indica ressecção completa

dos linfonodos N1, N2 e N3; a remoção completa apenas dos linfonodos do

primeiro nível é representada pela ressecção a D1, e, quando realizada de

forma incompleta recebe o nome de D0; na linfadenectomia D4, o último nível


58

de linfonodos também é removido. Havendo metástase linfonodal, a intenção

é retirar sempre um nível acima do último que apresenta acometimento 31,32.

Figura 5: Linfadenectomias D1 e D2
59

Efeitos na Sobrevida

Nas duas últimas décadas, muitos resultados apresentados por estudos

comparativos entre os tipos de linfadenectomia têm sido contraditórios,

quando analisados os benefícios na sobrevida de cada procedimento. Nos

Estados Unidos, a ressecção limitada dos linfonodos (D0 ou D1) é uma prática

rotineira no tratamento do câncer gástrico, fato que pode explicar,

parcialmente, uma taxa geral de sobrevida em 5 anos baixa, em torno de 23%,

bem inferior à encontrada no Japão, onde a linfadenectomia estendida é

realizada de rotina 30.

Mesmo tendo em vista que a proporção de carcinoma precoce é maior

na série japonesa, a taxa de sobrevida em cinco anos em cada estágio também

é diferente nos dois países, muito embora estes melhores resultados entre os

japoneses são de difícil explicação. Tem-se argumentado que o tipo de

paciente e tumor seriam diferentes entre os países ocidentais e o Japão, onde a

doença é endêmica e os pacientes são em torno 10 anos mais jovem, associado

ao fato que a proporção de tumores proximais e de carcinomas do tipo difuso

ser menor. Ainda que tais situações possam contribuir para um melhor

resultado nas séries japonesas, a diferença é muito grande para que seja essa a

única explicação. Autores japoneses creditam estes resultados superiores à sua

estratégia cirúrgica mais agressiva, particularmente no que concerne a


60

32
dissecção linfonodal . Os defensores da dissecção linfonodal radical

argumentam que o procedimento determina melhores taxas de sobrevida do

que nos controles históricos, além de diminuir a incidência de recidiva local,

sem aumentar a morbimortalidade. Cirurgias mais econômicas, principalmente

para tumores em estágios avançados, estão associadas a maior possibilidade

de doença residual e a taxas de recidiva mais elevadas, como foi demonstrado

recentemente pelo estudo INT-0116 43. Neste ensaio controlado multicêntrico

e randomizado, realizado nos Estados Unidos, as taxas de recorrência local e

regional foram bastante superiores nos pacientes submetidos apenas à

gastrectomia a D1 ou D0; por outro lado, pacientes submetidos à gastrectomia

com linfadenectomia mais extensa (D2 ou D3) apresentaram taxas de recidiva

bem menores em publicações não-randomizadas, não apenas no Japão 6, mas

também na Europa 44.

Com a publicação, em 1999, de dois grandes ensaios randomizados


45,46
europeus , que falharam em demonstrar os benefícios da linfadenectomia

mais extensa sobre D1, a ressecção linfonodal limitada continuou sendo

realizada amplamente para tratamento do câncer gástrico nos países do

ocidente; outras séries também haviam falhado 47,48,49. Dois fortes argumentos,

baseados nesses estudos europeus, foram usados contra a realização da

linfadenectomia extensa para tratamento do câncer gástrico; primeiro, houve


61

aumento das taxas de morbimortalidade pós-operatória; segundo, não houve

melhora nas taxas de recorrência da doença, nem na sobrevida dos pacientes.


50,51,52
Entretanto, outros estudos igualmente importantes, publicados

mais recentemente, apresentaram evidências mais claras e confiáveis sobre a

segurança e eficácia da linfadenectomia mais extensa, como fator de aumento

da sobrevida. Este fato pode ser um importante passo para a mudança na

conduta cirúrgica para tratamento da doença, com aceitação maior da

ressecção linfonodal mais agressiva, como recomendam os autores japoneses.

Muitos outros autores já haviam relatado os benefícios da cirurgia mais


53,54,55
agressiva no tratamento do câncer gástrico e, numa análise

retrospectiva, foi demonstrado que taxa média de sobrevida de cinco anos

após gastrectomia à D2 e D3 foi significativamente maior (63,8%), do que

após D1 (41,2%) ou D0 (20,3%), com resultados mais significativos ocorrendo

na dissecção linfonodal estendida nos estágios II e IIIa. Críticos da ressecção à

D2 sugerem que a suposta taxa de sobrevida superior nos pacientes submetidos

à ressecção linfonodal extensa se deve à migração de estágios ou "fenômeno

de Will Rogers", onde pacientes com N2 acometido por metástases são

superestadiados; assim, mau prognóstico no estágio I se tornaria bom

prognóstico no estágio II; o efeito total da migração de estádio seria a melhora

da sobrevida, simplesmente por migração de paciente de um estádio para


62

outro.

Morbimortalidade Pós-operatória

A linfadenectomia sistemática estendida não é tão simples e deve ser

realizada somente por cirurgião experiente neste procedimento cirúrgico. A

cirurgia com dissecção a D2 descrita pelos japoneses dura em torno de três

horas, em uma gastrectomia subtotal, e quatro horas, nas gastrectomias totais.

As séries japonesas demonstraram a segurança da linfadenectomia mais

extensa no tratamento do câncer gástrico, não sendo observado aumento das

taxas de morbiletalidade em relação à linfadenectomia limitada. Infelizmente,

as taxas encontradas na maioria dos estudos ocidentais são bem superiores

para os pacientes submetidos à ressecção a D2. Contudo, como já foi

discutido, grandes séries recentes, publicadas na Europa, demonstraram que os

índices de morbidade e mortalidade pós-operatórias não aumentam

significativamente quando a linfadenectomia extensa é realizada por

cirurgiões experientes em centros especializados, sendo considerado um

procedimento seguro 30.

Conclusão

A experiência japonesa, assim como opiniões de especialistas ocidentais,

juntamente com estudos atuais refletem a tendência de aceitação mundial da

linfadenectomia extensa (D2 ou mais) como tratamento inicial de escolha para


63

os portadores de câncer gástrico. Sugerem que sua larga aplicação pode ter

impacto importante na melhoria dos resultados pessimistas observados nos

países ocidentais, principalmente por determinar diminuição da recidiva

locorregional. Mesmo sabendo que a dissecção linfonodal leve a um melhor

controle local da doença, é importante selecionar os pacientes nos quais a

linfadenectomia venha a ser benéfica, ou seja, realizá-la nos casos onde não

haja doença celômica ou metástases à distância.

As diferenças apresentadas entre os resultados japoneses e os ocidentais

parecem estar relacionadas intimamente à experiência dos cirurgiões, sendo de

grande importância o conhecimento da técnica acurada e treinamento

especializado para realizar a linfadenectomia radical. Embora o tempo de

cirurgia seja prolongado, as taxas de morbimortalidade não diferem

significativamente daquelas cirurgias de menor porte. Uma boa medida seria o

estabelecimento de centros especializados no tratamento da doença, assim

como um sistema de treinamento contínuo para cirurgiões menos experientes,

com o objetivo de assegurar uma linfadenectomia efetiva e segura.

Embora a melhoria na sobrevida global de pacientes com câncer gástrico

ainda careça de desenvolvimento de métodos diagnósticos mais precisos e de

tratamentos sistêmicos adjuvantes, a sistematização da linfadenectomia

proposta pelos japoneses permite o estadiamento adequado e oferece potencial


64

de cura, ao erradicar focos da doença dos linfonodos.

Perspectivas para a Linfadenectomia

Um dos novos tópicos com respeito à linfadenectomia é a ressecção

linfonodal para-aórtica (D4) nos casos de doença mais avançada. Apesar de

não ter sido avaliada clinicamente por estudos de grande impacto, alguns

autores demonstraram benefício na sobrevida destes pacientes, sem aumento


56,57
na morbiletalidade pós-operatória . A mobilização extensa da cabeça do

pâncreas e de sua porção distal é essencial para a realização deste

procedimento, assim como a remoção da glândula adrenal esquerda é

necessária com freqüência para completar a dissecção em torno da artéria

renal esquerda.

Outro tópico é a remoção de linfonodos, guiada por técnica de


58
mapeamento linfático e biópsia de linfonodo sentinela , que parece ser

promissora, além ajudar na completa remoção de linfonodos ao redor do

tronco celíado, artéria mesentérica superior e aorta abdominal.


65

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