Você está na página 1de 20

Corporificação dos direitos humanos e território: desafios da geografia

do presente

Resumo

O presente artigo discute os nexos entre corporificação dos direitos humanos e


território, isto é, do modo como os direitos podem ser respeitados ou violados, no
contexto da globalização.

Palavras-chave: Corporificação dos direitos humanos, terrtório e globalização


Introdução

A discussão acerca das determinações gerais do capitalismo no período histórico


atual, construída a partir da consideração dos arranjos e impactos da globalização em
dimensões que consideramos centrais para circunscrição dos desafios que transpassam
as lutas pela corporificação dos direitos humanos : ancora-se na orientação
metodológica de que a compreensão de qualquer fração do planeta não pode prescindir
da totalidade do processo que a molda, pois, “a relação social, por mais parcial ou mais
pequena que pareça, contém parte das relações que são globais” (idem).
Para efeito de argumentação acerca das consequências perversas da globalização e
dos respectivos desafios que se impõem à luta pela promoção, garantia, efetivação e
proteção dos direitos humanos, proponho, neste capítulo, abordar os impactos da
globalização nas instâncias cultural, econômica, institucional, política, social e
territorial.
Por meio deste percurso analítico, acreditamos circunscrever os efeitos da
globalização empreendida pelos atores hegemônicos no que tange ao agravamento das
condições de vida das populações nos diferentes espaços geográficos e à insurgência de
ações sociais voltadas à reivindicação dos direitos humanos – ou, ainda, da
“corporificação” dos direitos humanos –, uma vez que estes não traduzem uma
concessão eminentemente política; são, antes de mais nada, direitos positivos – leis que
precisam ser seguidas para que conquistas sejam objetivadas e ampliadas, contribuindo
para o exercício da cidadania – já que “[...] a cidadania é constituída por um conjunto de
instituições de direitos e instituições; é produto de histórias sociais diferenciadas
protagonizadas por grupos sociais diferentes” (SANTOS, 2005, p. 244).

1. Globalização e território: lugar de encontro entre o passado e o futuro

“Como o território é unidade privilegiada da reprodução social, denominador


comum, desembocadura, encarnação de processos diversos e manifestação de
conflitualidades”, consideramos indispensável analisar quais são os impactos da
globalização na dimensão territorial, pois “as hierarquias, hegemonias, tensões e
conflitos são reforçadas em todas as escalas espaciais e as determinações mais gerais do
movimento da acumulação de capital estão cada dia mais explícitas, inclusive em sua
manifestação territorial” (BRANDÃO, 2008, p. 1-2).
Tendo em vista que o processo de globalização “deve ser visto como produto de
dinâmicas internas e, simultaneamente, em relação com as novas modalidades de
subordinação das economias periféricas, da reestruturação transnacional dos mercados
de bens materiais e de comunicação” (CANCLINI, 2008, p. 16), e ocorre em ritmos
distintos, de modo diferencial e contraditório, temos que “as mudanças que estão se
operando nas temporalidades e espacialidades da riqueza capitalista na dinâmica
societária em escala mundial apresentam uma série de desafios para a análise da
expressão espacial das densas e rápidas alterações sócio-econômicas e políticas em
curso” (BRANDÃO, 2008, p. 9).
“No mundo da globalização, o espaço geográfico ganha novos contornos, novas
características, novas definições. E, também, uma nova importância, porque a eficácia
das ações está estreitamente relacionada com a sua localização. [...]” (SANTOS, 2010,
p. 79). Daí a importância de se transcender as análises acerca dos impactos da inserção
da ciência, da informação e da tecnologia em todos os níveis de produção e da vida que
privilegiam apenas os enfoques cultural, econômico, institucional e/ou político,
isoladamente, sem articulá-los ao revelador dos movimentos de fundo da sociedade – o
território. Como afirma Milton Santos (2010), é no espaço geográfico que se
materializam os elementos vitais da globalização imprescindíveis à leitura e à
compreensão das especificidades do atual período histórico, a saber: a) a unicidade
técnica; b) a convergência dos momentos; c) a unicidade do motor.
Segundo este autor, esses fenômenos asseguram dois processos paralelos da
globalização: a produção de uma materialidade e a produção de novas relações sociais
entre países, classes e pessoas2. O mesmo sustenta que a “unicidade técnica” é a
responsável pela garantia da capacidade de instalação de qualquer instrumento técnico
produtivo – resguardadas as diferenças quanto ao grau de complexidade e as
características do espaço herdado – em qualquer parte do globo terrestre no período
atual. É por meio dela que não apenas tornou-se possível a fragmentação do processo
produtivo à escala internacional, como também o controle e/ou comando dos conjuntos
técnicos, antes locais e/ou regionais, a partir de uma única fonte responsável, tendo em
vista que “na história da humanidade é a primeira vez que tal conjunto de técnicas
envolve o planeta como um todo e faz sentir, instantaneamente, sua presença” (idem, p.
25).
Isso equivale a dizer que os progressos científicos e técnicos possibilitam a
utilização do território com o conhecimento simultâneo 3 das ações empreendidas nos
diversos lugares geográficos, bem como “a implantação de sistemas de cooperação bem
mais largos, amplos e profundos, agora associados mais estreitamente a motores
econômicos de ordem não apenas nacional, mas também internacional”4, visto que “o
sistema possui uma intersetorialidade marcante. Apresenta ramificações, porém que se
encontram em permanentes interações dinâmicas” (BRANDÃO, 2008). Essa
“convergência dos momentos” ou “unicidade do tempo” assegura a imposição da ordem
dominante “como nova espacialidade; difusa e, ao mesmo tempo, hiperconcentrada”
(RIBEIRO, 2005a, p. 12464), já que “[...] a informação instantânea e globalizada por

2 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 19ª edição. Rio de
Janeiro/São Paulo: Record Editora, 2010.

3 De acordo com Santos “o fenômeno da simultaneidade ganha, hoje, novo conteúdo. Desde sempre, a mesma hora
do relógio marcava acontecimentos simultâneos, ocorridos em lugares os mais diversos, cada qual, porém, sendo não
apenas autônomo como independente dos demais. Hoje, cada momento compreende, em todos os lugares, eventos
que são interdependentes, incluídos em um mesmo sistema de relações. Os progressos técnicos que, por intermédio
dos satélites, permitem a fotografia do planeta, permite-nos uma visão empírica da totalidade dos objetos instalados na
face da Terra. [...]. A simultaneidade retratada é fato verdadeiramente novo e revolucionário, para o conhecimento do
real e o correspondente enfoque das ciências do homem, alternado-lhes, assim, os paradigmas”. SANTOS, Milton. A
revolução tecnológica e o território: realidades e perspectivas, p. 10-11. TERRA LIVRE-AGB, São Paulo, pp. 7-17, n. 9,
jul-dez. 1991.

4 Op cit.
enquanto não é generalizada e veraz porque atualmente intermediada pelas grandes
empresas da informação”5.
Essas materialidades possibilitaram a existência de um motor único, expresso por
uma mais-valia universal garantida através de uma produção à escala mundial mediada
pela competitividade acirrada das grandes corporações mundiais6.
a lógica que preside a acumulação capitalista impôs aos territórios, como em
nenhum outro período da história, uma racionalidade extrema a serviço dos atores
hegemônicos mediada pelas normas como instrumento organizacional e veículo da
homogeneização técnica. Nesse sentido,

Os territórios tendem a uma compartimentação generalizada, onde se


associam e se chocam o movimento geral da sociedade planetária e o
movimento particular de cada fração, regional ou local da sociedade
nacional. Esses movimentos são paralelos a um processo de
fragmentação que rouba às coletividades o comando do seu destino,
enquanto os novos atores também não dispõem de instrumentos de
regulação que interessem à sociedade em seu conjunto (SANTOS,
2010, p. 79-80).

As faces material (técnica) e política (ação) da globalização revelam um “processo


causal e multissustentado, pleno de contingências e incertezas, ao mesmo tempo em que
‘é um processo de desenvolvimento desigual que tanto fragmenta 7 quanto coordena’”
(GIDDENS, 1990 apud OLIVEIRA, 1998, p. 262), tem a sua dimensão espaço-
temporal expressa por e a partir do estabelecimento de interconexões e
interdependências nas diversas escalas do planeta – do local ao global –, cujas relações,
não necessariamente, são mediadas pelo nível do Estado-nação, se compartilhamos da
afirmação de que a regulação do território não é matéria exclusiva do Estado (ANTAS
JR., 2004). A esse respeito, Santos esclarece que

[...] o Estado perde centralidade e o direito oficial desorganiza-se


passando a coexistir com o direito não oficial de múltiplos
legisladores fácticos, os quais, pelo poder econômico que comandam,
transformam a facticidade em norma, disputando ao Estado o
monopólio da violência e do direito (SANTOS, 2002a, p. 18).

Com base no discutido até o presente, afirmamos que

5 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 19ª edição. Rio de
Janeiro/São Paulo: Record Editora, 2010.

6 De acordo com Milton Santos, “concorrer e competir não são a mesma coisa. A concorrência pode até ser saudável
sempre que a batalha entre agentes, para melhor empreender uma tarefa e obter melhores resultados finais, exige o
respeito a certas regras de convivência preestabelecidas ou não. Já a competitividade se funda na invenção de novas
armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista da melhor posição. A competitividade é uma espécie
de guerra em que tudo vale e, desse modo, sua prática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao
exercício da violência” (2010, p. 57).

7 Milton Santos (2010) argumenta que “hoje, com a globalização, pode-se dizer que a totalidade da superfície da Terra
é compartimentada, não apenas pela ação direta do homem, mas também pela sua presença política. [...] Redefinida
em função dos característicos de uma época, a compartimentação atual distingue-se daquela do passado e
frequentemente se dá com fragmentação”. [...]. “A fragmentação revela um cotidiano em que há parâmetros exógenos
sem referência ao meio. A assimetria na evolução das diversas partes e a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de
regulação, tanto interna quanto externa, constituem uma característica marcante” (p. 81).
Está-se diante de um campo complexo de determinações:
paradoxos, tendências e contra-restações de tendências, um jogo de
negações e reafirmações que envolve a enorme contradição dialética
entre fixidez-fluidez do movimento concreto do capital e os usos que
este faz do território em suas múltiplas e variadas escalas espaciais
(BRANDÃO, 2008, p. 9).

Essa dialética entre razão global e razão local do/no movimento concreto do
capital, a qual Santos (2010) e Brandão (2008) nos chamam a atenção, contribui para
que se instale uma multiplicidade de situações e variedade de quadros de vida que
conduzem a

[...] um potente e perene tensionamento de forças, lógicas,


mecanismo, etc. entre a volatilidade, hipermobilidade e fluidez; entre
a flexibilidade dos movimentos do capital vis-a-vis a sua ancoragem
em dado sítio (apegando-se, conjunturalmente, a um ambiente
previamente construído); entre os processos de mobilidades e de re-
territorializações (BRANDÃO, 2008, p. 10).

Consideramos que esta é uma das formas pelas quais os territórios são convertidos
em lócus de funcionalização da globalização, isto é, dos diversos usos do movimento
concreto do capital na atual etapa do sistema capitalista – visto que muitas das suas
frações são organizadas para atender às demandas e às necessidades de fluidez da
globalização –, ainda que seus interesses estejam em desacordo com as exigências das
populações locais.
A personificação de interesses corporativos constitui exemplo de como “[...] a
instrumentalização que é feita do espaço, com a utilização de recursos coletivos serve ao
aumento de produtividades individuais e ao agravamento dos desequilíbrios, [...]”,
(SANTOS, 2000, p. 105-106). Deste modo, ao penetrar de forma cega nas relações
sociais, contrapondo-se às territorialidades estabelecidas nos lugares onde firmam suas
bases, o capital financeiro ignora a experiência social e o cotidiano de parcelas
significativas da população mundial8.
“Visto que o espaço também reúne recursos e símbolos, pequenas e grandes marcas das
experiências vividas, tramas sociais” (VILLORIA, 1999 apud RIBEIRO, 2005b, p.
269), a tentativa de controle de todas as esferas da vida pelo capital “[...] não se dá sem
tensões, ações recalcitrantes e contra-movimentos que procuram erguer projetos
utópicos, reforçar historicidades e lutar pela construção coletiva de direitos aos
territórios” (BRANDÃO, 2008, p. 11)
Essa faculdade inerente aos lugares nos ajuda a compreender como as
verticalidades no território – por meio de um conjunto de pontos formando um espaço
de fluxos9 – encontram no seu oposto, as horizontalidades 10 – um espaço de (re)

8 RIBEIRO, Ana Clara Torres. Corpo e imagem: alguns enredamentos urbanos, pp. 105-117. In: Cadernos PPG-
AU/FAUFBA/Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Ano 5, nº. especial, (2007) – Ana
Clara Torres Ribeiro (Org.). Salvador: PPG-AU/FAUFBA, 2007. Disponível em: <
http://www.corpocidade.dan.ufba.br/arquivos/Ana_Clara.pdf>. Acesso em: 10 mai. 2008.
afirmação da solidariedade orgânica, das territorialidades e da emergência de ações
sociais confrontantes e opositoras à força destrutiva do capital hegemônico.
Neste contexto, o lugar tem um papel determinante, pois “ele não é apenas um quadro
de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite,
ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro”
(SANTOS, 2010, p. 115). Em outras palavras, o lugar constitui o ponto de referência
para a não aceitação da racionalidade hegemônica e, respectivamente, da descoberta da
alteridade, da ampliação da consciência e da construção do desejo de ser outra coisa e
construir outra história. Para Ribeiro,

É a compreensão da gravidade destes processos que transparece em


tantas lutas de resistência ao ordenamento dominante do espaço; lutas
travadas por sujeitos sociais conscientes dos encadeamentos
(estruturais e estruturantes) entre: apropriação do território,
oportunidades de conquista da soberania e reinvenção da democracia,
(RIBEIRO, 2005a, p. 267).

Destacamos que sob as condições da globalização, no que diz respeito às


consequências diretas sobre a dignidade da pessoa humana, parece-nos oportuno
chamar atenção para alguns aspectos elucidados por Boaventura Sousa Santos: a
crise do contrato social das sociedades modernas, o significado da nova
contratualização das relações sociais e a emergência do fascismo social.

2. Notas sobre a crise do contrato social

Boaventura (2007) defende a tese de que o paradigma do contrato social 11 que


presidiu a organização da vida econômica, política e cultural das sociedades modernas
9 Milton Santos (2010) afirma que “esse espaço de fluxos seria, na realidade, um subsistema dentro da totalidade-
espaço já que para os efeitos dos respectivos atores o que conta é, sobretudo, esse conjunto de pontos adequados às
tarefas produtivas hegemônicas, características das atividades econômicas que comandam este período histórico.
O sistema de produção que se serve desse espaço de fluxos é constituído por redes – um sistema reticular –, exigente
de fluidez e sequioso de velocidade. Tais espaços de fluxos vivem uma solidariedade organizacional, isto é, as
relações que mantém a agregação e a cooperação entre agentes resultam em um processo de organização, no qual
predominam fatores externos às áreas de incidência dos mencionados agentes. [...]. O fato de que cada um deva
adaptar comportamentos locais aos interesses globais, que estão sempre mudando, leva o processo organizacional a
se dar sem continuidades, [...].
Por intermédio dos mencionados pontos do espaço de fluxos, as macroempresas acabam por ganhar um papel de
regulação do conjunto do espaço. Junte-se a esse controle a ação explícita ou dissimulada do Estado, em todos os
níveis territoriais. Trata-se de uma regulação frequentemente subordinada porque, em grande número de casos,
destinada a favorecer os atores hegemônicos. Tomada em consideração determinada área, o espaço de fluxos tem o
papel de integração com níveis econômicos e espaciais mais abrangentes. Tal integração, todavia, é vertical,
dependente e alienadora, já que as decisões essenciais concernentes aos processos locais são estranhas ao lugar e
obedecem as motivações distantes.
Nessas condições, a tendência é a prevalência dos interesses corporativos sobre os interesses públicos, quanto à
evolução do território, da economia e das sociedades locais. Dentro desse quadro, a política das empresas – isto é,
sua policy – aspira, e consegue, mediante uma governance, a tornar-se política; na verdade, uma política cega, pois
deixa a construção do destino de uma área entregue aos interesses privatísticos de uma empresa que não tem
compromissos com a sociedade local” (p. 105-107).

10 As horizontalidades são zonas de contiguidade que formam extensões contínuas. Idem.


vêm sofrendo uma grande crise que afeta não só os seus dispositivos operativos como
também os pressupostos em que se assenta: um regime geral de valores 12, um sistema
geral de medidas13 e um tempo-espaço privilegiado14.
Com relação às asserções deste autor, apontamos que, a despeito do modelo de
contrato social fundado na ideia de bem comum não ter se constituído numa prática
universal, é fato que, no contexto atual, esse fundamento vê-se cada vez mais ameaçado.
Ademais,

[...], os valores da modernidade – liberdade, igualdade, autonomia,


subjetividade, justiça, solidariedade – e as antinomias neles contidas
mantêm-se, mas estão sujeitos a uma crescente sobrecarga simbólica,
na medida em que significam coisas cada vez mais díspares para
diferentes pessoas ou diferentes grupos sociais, com o resultado de
que o excesso de significado gera trivialização e, consequentemente,
naturalização (IANNI, 2005, p. 14).

No que se refere ao segundo pressuposto do contrato social – o sistema comum de


medidas –, ocorre que as diferenças qualitativas entre as categorias tempo e espaço são
ignoradas ou reduzidas a um conjunto de indicadores quantitativos que conseguem
explicá-las de forma aproximada, em que “o dinheiro e as mercadorias são as
concretizações mais puras do sistema comum de medidas. Por meio desse sistema, o
trabalho, os salários, os riscos e os danos tornam-se facilmente mensuráveis e
comparáveis” (op. cit., p. 14), em um período histórico que “[...] quadros temporais ou

11 Santos (2002b) explica que “o contrato social é a grande narrativa em que se funda a obrigação política moderna,
uma obrigação complexa e contraditória porque foi estabelecida entre homens livres e, pelo menos em Rousseau, para
maximizar e não para minimizar essa liberdade. O contrato social é assim a expressão de uma tensão dialéctica entre
regulação social e emancipação social que se produz pela polarização constante entre vontade individual e vontade
geral, entre o interesse particular e o bem comum. O Estado nacional, o direito e a educação cívica são os garantes do
desenrolar pacífico e democrático dessa polarização num campo social que se designou por sociedade civil. O
procedimento lógico que estabelece o carácter inovador da sociedade civil reside, como é sabido, na contraposição
entre esta e o estado de natureza ou estado natural. [...]. O contrato social é a metáfora fundadora da racionalidade
social e política da modernidade ocidental” (p. 5-7).

12 “O regime geral de valores baseia-se na ideia de bem comum e de vontade geral, que são princípios segundo os
quais se processa a agregação das sociabilidades individuais e das práticas sociais. Deste modo, torna-se possível
chamar ‘sociedade’ ao universo de interacções autônomas e contratuais entre sujeitos livres e iguais” (BOAVENTURA,
2003 apud BOAVENTURA, 1998, p. 12-13).

13 O sistema comum de medidas baseia-se numa concepção de tempo e espaço como sendo entidades homogêneas,
neutras e lineares que funcionam como menores denominadores comuns para a definição do que sejam diferenças
relevantes. Partindo desta concepção, “é possível, por um lado, separar o natural do social e, por outro lado,
estabelecer um meio quantitativo de comparação entre interações sociais gerais e interações altamente diferenciadas”
(idem, p. 14).

14 “O espaço-tempo privilegiado é o espaço-tempo estatal, nacional. É neste espaço-tempo


que se consegue a máxima agregação de interesses e é ele que define as escalas e a
perspectiva em que podem ser observadas e mensuradas as interacções não-estatais e não
nacionais. [...]” (SANTOS, 2002a, p. 9).
ritmos totalmente incompatíveis com a temporalidade do Estado nacional no seu todo
estão a tornar-se cada vez mais importantes. [...]” (op. cit., p. 16).

2.1 Notas sobre a nova contratualização

Quanto aos discursos acerca “da contratualização das relações sociais, das relações
no âmbito da segurança social e da parceria entre o Estado e as organizações sociais”,
Santos (2003) afirma que “esta nova contratualização pouco tem a ver com a
contratualização fundada na ideia moderna do contrato social” (Op. cit., p. 17), pois,
como vimos, “a ideia de contrato social e os seus princípios reguladores são o
fundamento ideológico e político da contratualidade real que organiza a sociabilidade e
a política nas sociedades modernas” (SANTOS, 2002a, p. 10-11). Santos (2003)
esclarece que

[...], a nova contratualização é, enquanto contratualização social, um


falso contrato, uma mera aparência de um compromisso constituído
por condições impostas sem discussão ao parceiro mais fraco no
contrato, condições tão onerosas quanto inescapáveis. Sob a aparência
do contrato, a nova contratualização configura a reemergência do
status, ou seja, dos princípios de ordenação hierárquica pré-moderna,
onde as condições das relações sociais estavam directamente ligadas
às posições das partes na hierarquia social. De facto, não se trata de
um regresso ao passado. O status é agora apenas o efeito da enorme
desigualdade de poder econômico entre as partes no contrato
individual e na capacidade que tal desigualdade dá à parte mais forte
para impor sem discussão as condições que lhe são mais favoráveis
(SANTOS, 2002a, p. 21).

Boaventura sustenta que

A crise da contratualização moderna consiste no predomínio estrutural


dos processos de exclusão sobre os processos de inclusão. Estes
últimos continuam em vigor, assumindo mesmo formas avançadas que
vão permitir a reconciliação dos valores da modernidade, contudo
confinam-se a grupos cada vez mais restritos, que impõem formas
abismais de exclusão a grupos muito mais vastos. O predomínio dos
processos de exclusão assume duas formas aparentemente
contraditórias: o pós-contratualismo e o pré-contratualismo. O pós-
contratualismo é o processo por meio do qual grupos e interesses
sociais até aqui incluídos no contrato social se vêem excluídos deste
sem qualquer perspectiva de regresso. Os direitos de cidadania, até
agora considerados inalienáveis, são confiscados e, sem eles, os
excluídos passam de cidadãos aos servos. [...]. Quanto ao pré-
contratualismo, consiste em impedir o acesso à cidadania a grupos que
anteriormente se consideravam candidatos à cidadania e tinham
razoáveis expectativas de a ela aceder. É esse o caso, por exemplo, das
classes populares da semiperiferia e da periferia (SANTOS, 2002a, p.
18).

Como os efeitos perversos da globalização não se distribuem de forma homogênea


no tempo e no espaço, temos que “em termos sociais, o efeito cumulativo do pré-
contratualismo e do pós-contratualismo15 é o surgimento de uma subclasse de excluídos,
que será menor ou maior consoante a posição central ou periférica de uma dada
sociedade no contexto do sistema-mundo. [...]” (Op. cit., p. 19). Em outras palavras,
apontamos que a nova contratualização tem contribuído fortemente para a erosão de um
conjunto de direitos outrora alcançados – ainda que de forma precária e/ou incompleta –
que, de certa forma, atribuía algum estatuto de cidadania às populações.
Outro aspecto por nós considerado de capital importância para a análise acerca das
articulações entre globalização território e corporificação de direitos humanos consiste
no regime social e civilizacional denominado por Boaventura Sousa Santos de fascismo
social. Este, por seu turno,

Em vez de sacrificar a democracia às exigências do capitalismo,


ele trivializa a democracia a ponto de se tornar desnecessário, ou
sequer vantajoso, sacrificá-la para promover o capitalismo. É
um tipo de fascismo pluralista, produzido pela sociedade e não
pelo Estado. Este comporta-se, aqui, como mera testemunha
complacente, se não mesmo como culpado activo. [...]. Trata-se,
por conseguinte, de uma forma inaudita de fascismo. (SANTOS,
2003, p. 20-21).

15 Boaventura sustenta que A crise da contratualização moderna consiste no predomínio


estrutural dos processos de exclusão sobre os processos de inclusão O predomínio
dos processos de exclusão assume duas formas aparentemente contraditórias: o pós-
contratualismo e o pré-contratualismo. O pós-contratualismo é o processo por meio do
qual grupos e interesses sociais até aqui incluídos no contrato social se vêem
excluídos deste sem qualquer perspectiva de regresso. Os direitos de cidadania, até
agora considerados inalienáveis, são confiscados e, sem eles, os excluídos passam
de cidadãos aos servos. [...]. Quanto ao pré-contratualismo, consiste em impedir o
acesso à cidadania a grupos que anteriormente se consideravam candidatos à
cidadania e tinham razoáveis expectativas de a ela aceder. É esse o caso, por
exemplo, das classes populares da semiperiferia e da periferia (SANTOS, 2002a, p.
18).
O fascismo social, tal como apresentado por Santos (2010), “[...] se refiere a
relaciones sociales de poder tan estremadamente desiguales que, en el contexto social y
político en el que se producen, la parte – individuos o grupos – más poderos ejerce un
poder de veto sobre aspectos esenciales de la vida de la parte menos poderosos”
O fascismo social, em todas as suas vertentes, contribui para que o território que,
de alguma forma, poderia ser utilizado como instrumento de reversão das desigualdades
e exclusões aprofundadas no período atual, contribui para o processo de alienação
territorial do qual salientou Ribeiro (2005a), na medida em que este constitui um
componente imprescindível à materialização dos sistemas de objeto e de ações. Dito de
outra forma, é assim que o fascismo social contribui para que “[...] tanto o território
quanto o lugar sejam esquizofrênicos, porque de um lado acolhem os vetores da
globalização, que nele se instalam para impor sua nova ordem, e, de outro, neles se
produz uma contraordem, porque há uma produção acelerada de pobres, excluídos,
marginalizados” (SANTOS, 2000, p. 114).
Nesse contexto em que as condições culturais, econômicas, políticas, sociais e
territoriais nas quais os indivíduos se constituem e se desenvolvem mesclam formas
antigas, renovadas e/ou novas que envolvem mediações, articulações e tendências da
realidade social simultaneamente micro e macro que têm acirrado os dilemas da não
corporificação dos direitos humanos cuja correspondência direta é a ausência de
cidadania.

3. Mas, em que consistem, afinal, os direitos humanos?

No dizer de Dornelles

Para alguns trata-se de direitos inerentes à vida, à segurança


individual, aos bens que preservam a humanidade. Para outros é a
expressão de valores superiores que se encarnam nos homens. Outros,
ainda, entendem que são o produto da competência legislativa do
Estado ao reconhecer direitos e estabelecer um equilíbrio na
sociedade.
Uns entendem serem direitos inerentes à natureza humana; outros
afirmam serem a expressão de uma conquista social através de um
processo de luta política.
Enfim, é um tema – [...] – que tem recebido uma série de significados
e interpretações as mais contraditórias possíveis. (DORNELLES,
1993, p. 09-10).
Em seu clássico livro A Era dos Direitos, Norberto Bobbio sustenta que os direitos
humanos não nasceram de uma única vez e, muito menos, de uma vez por todas. Tal
afirmativa destaca um aspecto fundamental, diríamos, imprescindível aos esforços
analíticos nessa matéria: a historicidade desse conjunto de direitos que tem como
fundamento o valor atribuído à pessoa humana 16, cuja concepção é influenciada pelo
contexto histórico.
De modo correspondente ao que afirmara Bobbio (2004), Hannah Arendt assevera
que “os direitos humanos não são um dado, mas um construído, uma invenção humana,
em constante processo de construção e reconstrução. Compõem um construído
axiológico, fruto da nossa história, de nosso passado, de nosso presente, a partir de um
espaço simbólico de luta e ação social” (ARENDT, 1979 apud Piovesan, 2009, p. 16).
Diante da miríade de significados que este conjunto de direitos encerra, nos
perguntamos: o que são direitos inerentes à vida, à integridade pessoal? Quem define os
bens que preservam a humanidade? O que se entende por estabelecimento de equilíbrio
na sociedade?
É certo que, dependendo dos atores indagados, as respostas serão bastante
dissonantes, não!? O que diriam os “atores hegemônicos”? O que diriam aqueles que
flertam com os atores hegemônicos? O que diriam os homens lentos e/ou aqueles cujos
gestos-fio lhes permitem exis-resistir? Estas inquietações nos levam a concordar com
Dornelles ao afirmar que

Cada um de nós, individualmente ou como parte de um segmento


social, poderia indicar aqueles direitos que consideramos os mais
importantes, os fundamentais para a realização das nossas
necessidades, desejos, vontades individuais ou coletivas,
(DORNELLES, 1993, p. 11-12).

Em razão da sua historicidade, a conceitualização dos direitos humanos é objeto


de uma pluralidade de significados e interpretações que, até o presente, contribuem para
que se estabeleçam recortes e/ou clivagens quanto aos seus significados e variáveis
internas, ainda que “especialmente no tocante aos direitos humanos, reconhece-se hoje
que eles constituem um sistema ‘objetivo de valores’, formando a base ética da
sociedade” (COMPARATO, 1999, p. 14).

16 LAFER, Celso. A reconstrução histórica dos direitos humanos. 1ª reimpressão. São Paulo: Companhia das
Letras, 1991.
Esta prerrogativa atribui um claro conteúdo político a esse conjunto de direitos
que se constituíram em objeto de disputas sociais, políticas, ideológicas, econômicas e
territoriais por parte de diferentes atores sociais – visto que a sua promoção, garantia,
efetivação e proteção não podem prescindir da conjugação dos sistemas de ação (dentre
os quais as normativas jurídicas nessa matéria constituem um exemplo significativo) e
de objetos (territorialização dos princípios, normas e instrumentos) que deveriam ser
assegurados pela execução das chamadas políticas públicas, em particular as políticas
sociais voltadas à corporificação dos direitos humanos.

3.1 Dos fundamentos históricos e filosóficos à pretensa universalização dos direitos


humanos: algumas notas

Embora saibamos que a amplitude e a extensão conceitual e normativa dos direitos


humanos, no atual período histórico, não se traduziram, igualmente, na sua
corporificação, dado que “no mundo contemporâneo continuam a persistir situações
sociais, políticas e econômicas que contribuem para tornar os homens supérfluos e,
portanto, sem lugar no mundo” (LAFER, 1991, p. 118), não podemos deixar de
reconhecer que o processo de construção e afirmação dos direitos humanos, ainda que
permeado por contradições, refutações e limitações, foi marcado por avanços
significativos.
Ao conferir lastro axiológico e unidade valorativa aos direitos humanos, com
ênfase na sua universalidade, indivisibilidade e interdependência, a Declaração
Universal consolidou as tendências de afirmação dos direitos do homem anunciados
outrora, para além do âmbito particular do Estado, mas numa perspectiva de positivação
universal que caracteriza a fase contemporânea de internacionalização dos direitos
humanos. Marramao acrescenta que

[...], a Declaração de 1948 contém em si um elemento dinâmico que


encontra a sua expressão mais incisiva no art. 28, o qual dispõe que:
“todo indivíduo tem direito a uma ordem social e internacional na qual
os direitos e as liberdades enunciados nesta Declaração possam ser
plenamente realizados”. Trata-se de uma passagem muito importante,
na medida em que a implementação, isto é, a projeção em direção a
uma dinâmica de realização histórica, dos princípios contidos no
texto, não é simplesmente colocada como problema, mas, sim,
enunciada como direito. (MARRAMAO, 2007, p. 02).
3.2 Desafios ao potencial emancipatório dos direitos humanos

Acordando com o que apontara Bobbio (1992), “o problema fundamental em


relação aos Direitos do Homem, hoje, não é tanto o de justificá-los, mas o de protegê-
los. Trata-se de um problema não filosófico, mas político” (p. 23). Um problema
político complexo em um período histórico onde se verifica a diversificação das formas
de violação, a erosão e a cooptação seletiva do Estado: principal responsável pela
garantia, promoção, proteção, efetivação e corporificação dos direitos humanos.
Estamos, assim, diante do desafio de tornar os direitos humanos efetivos em um cenário
onde “o próprio Estado, por vezes, não é capaz de prover uma efetiva proteção aos
direitos humanos, quer contra violações oriundas de agentes econômicos ou entes não-
governamentais, quer contra ofensas de entidades estatais” (SCHNEIDER, 2009, p.
287).
As ambivalências, dificuldades e/ou tensões em matéria de direitos humanos, tanto
do ponto de vista substantivo quanto dos procedimentais, na ordem contemporânea, não
demandam apenas o enfrentamento da injustiça, da marginalização, da desigualdade
econômica, da objetivação das relações sociais, do fetichismo do espaço, por exemplo,
por meio da transformação nas estruturas socioeconômicas, institucionais, territoriais, a
partir de uma política de redistribuição e/ou reconhecimento17 ou, ainda, mediante o
enfrentamento da injustiça cultural, dos preconceitos e dos padrões discriminatórios.
Outrossim, faz-se necessária a afirmação da democracia. Como sublinhou Piovesan
(2009), “não há direitos humanos sem democracia, tampouco há democracia sem
direitos humanos. O regime mais compatível com a proteção dos direitos humanos é o
regime democrático” (PIOVESAN, 2009).
Não temos dúvidas, portanto, que as normativas jurídicas em matéria de direitos
humanos, embora sejam instrumentos hegemônicos, podem ser utilizadas para fins
contra-hegemônicos, isto é, como fator de mudança social (SANTOS, 2011a), no
sentido de reverter essas formas de pré-contratualização e/ou pós-contratualização
aparentemente irreversíveis nas democracias de baixa intensidade; e, igualmente,
contribuir para a construção de contextos democráticos onde o respeito à diversidade
constitua um princípio, e se realize a mediação ativa entre experiências sociais e direitos

17 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 4ª edição. São Paulo: Saraiva, 2010.
garantidos e usufruídos; e, com isso, os projetos democráticos possam alimentar os
corpos e não somente as leis, como o fizera tantas vezes (RIBEIRO, 2000).
Trata-se, verdadeiramente, de empreendermos esforços para que se constitua o que
denominamos de corporificação dos direitos humanos, isto é, a materialização na
dimensão individual irredutível do corpo, do sujeito de direitos previsto e garantido nas
normativas jurídicas em matéria de direitos humanos, aqui e agora. Ou, como aludiu
Ribeiro (2000), “que o sujeito de direitos – previsto e garantido em lei – se materialize
em sangue, carne e cultura, permitindo a radical superação do idealismo e do
materialismo objetivante”. Pois, os sofrimentos decorrentes da violação de direitos são
sempre nos corpos e indivíduos (SANTOS, 2011a), dado que “a homogeneidade
estrutural do corpo humano – [...] – é portadora de elementos de generalização
indispensáveis à ideia de direitos” (RIBEIRO, 2000).
Considerando que os direitos humanos possuem uma dimensão individual
irredutível – não são as sociedades que sofrem, mas sim o indivíduo, cotidianamente,
nos espaços onde habita –, a ideia da corporificação dos direitos humanos, desenvolvida
no âmbito desta investigação científica, se alicerça na formulação de Ribeiro (2000)
sobre o corpo em situação e, também, na articulação corpo-sujeito – aquela atribuída à
situação imediatamente vivida e, indiscutivelmente, associada ao território que, segundo
Milton Santos “é o lugar em que desembocam todas as ações, todas as paixões, todos os
poderes, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem
plenamente se realiza a partir das manifestações da existência”.
Quando falamos em corporificação dos direitos humanos, estamos considerando
que:
 o corpo é mais que aquilo que se observa externamente: ele é o espelho e a
forma adquirida por muitas das aspirações pessoais;
 é parte visível do desejo humano na busca pela melhoria das condições de
existência (pessoas reivindicando);
 é um mediador privilegiado de representações sociais sensíveis à criação e
à potência da vida (RIBEIRO, 2012, p. 105);
 ele é considerado símbolo pessoal e social de identidades;
 por ser simultaneamente matéria e subjetividade, reúne espaço e tempo,
transitoriedade e permanência, história e geografia, linguagem e natureza,
fragilidade e força [...], (idem, p. 105)
 é usado como estratégia para dar sentido ou negarmos a nós mesmos;
 é um veículo metafórico de significados onde são grafadas e/ou
experimentadas diretamente as marcas das violações dos direitos humanos;
 é um mediador da relação entre corpo físico e corpo social nos contextos
de construção, disputas, lutas e disputas de significado;
 o corpo como mediador das experiências cotidianas por e a partir do
espaço vivido;
 é o abrigo do território mental que guarda as orientações e leituras acerca
do mundo e das experiências concretas;
 é o primeiro lugar da experiência social, o lugar onde a vida social se
transforma em experiência vivida;
 é portador de códigos que devem ser lidos ou entendidos como tentativa de
responder à busca por identidade;
 codifica as representações sociais na multiescalaridade e espacialidade;
 é uma metáfora fundamental no contexto da construção social da realidade
no qual essa realidade é analisada;
 o corpo é condicionado e funciona como um código representacional
dotado de significados específicos em cada época e lugar;
 o corpo é o lugar onde se localiza o indivíduo, onde se estabelece uma
fronteira entre o eu e o outro;
 o corpo possui capacidade de ação e energia;
 o corpo imprime no espaço uma série de pistas, traços e pegadas que nos
informa dos acontecimentos políticos, sociais, culturais, institucionais
acerca;
 o corpo é acionado como estratégia na disputa de sentidos dos fazeres e das
ações.

Sustentamos, portanto, que a corporificação dos direitos humanos adere à situação


imediatamente vivida e/ou experimentada cotidianamente pelos sujeitos – que dialoga
com o conjunto dos atores e de agentes que tecem as tramas e os dramas inerentes às
disputas, ações e lutas políticas em torno dos usos, contornos e controles sobre o
território. Nesse sentido, a corporificação dos direitos humanos considera a vida de
relações (RIBEIRO, 2011) onde despontam ações dirigidas à defesa do efetivo
cumprimento dos direitos humanos, contrariando, desta forma, práticas discursivas e
operacionais que fazem referência ao sujeito de direitos na sua forma abstrata e a um
território vazio de relações – ao conceberem o território como palco da materialização
de ações estratégicas dirigidas a fins estranhos às demandas das populações locais,
incrementando, por vezes, o quadro de violação de direitos existentes.
Neste sentido, pensar a corporificação dos direitos humanos utilizando o território
usado como chave de leitura parece-nos muito oportuno, sobretudo porque no período
atual, cada vez mais, a regulação do território deixa de ser matéria exclusiva do Estado.
Há um pluralismo jurídico produzido a partir de lógicas modernas variadas e distintas,
provenientes, em especial, das ações das grandes corporações (ANTAS JR., 2004) 18 em
aliança com o Estado. Estas, por seu turno, reforçam o fascismo social típico das
democracias de baixa intensidade.

4 Considerações finais

O exposto nas linhas precedentes nos ajuda a compreender porque “[...] a


instrumentalização que é feita do espaço, com a utilização de recursos coletivos serve ao
aumento de produtividades individuais e ao agravamento dos desequilíbrios, [...]”. E,
que, “dessa maneira instrumentalizado, o território é causa de maior desigualdade entre
firmas, instituições e, sobretudo, entre os homens” (SANTOS, 2000, p. 105-106). É
contra esse território da ação estratégica, da forma dominante do poder (RIBEIRO,
2011) que a corporificação dos direitos humanos se coloca, pois, considerando a
perspectiva da indivisibilidade, interdependência e universalidade de tais direitos, há
que se contribuir para desmistificação das ações estratégicas travestidas em políticas
públicas supostamente voltadas ao combate das violações de direitos.
Essa instrumentalização que é feita no território tem agravado e/ou produzido
tensões entre as verticalidades e as horizontalidades, constituindo, assim, agravos às
muitas vezes já frágeis possibilidades de corporificação dos direitos humanos. Temos
que, quase sempre, as ideologias, os sentidos e os valores que instituem os meios para
que se alcance as finalidades da racionalidade dominante, inclusive por intermédio da
materialização das formas sociais não geográficas (por exemplo, as leis), estão em
desacordo com as necessidades das populações locais.

18 Para este autor, “conceber o Estado como detentor de toda regulação social, econômica e política
produz análises lógicas mas não proficientes”. ANTAS Jr., Ricardo Mendes. Elementos para uma
discussão epistemológica sobre a regulação no território. In: GEOUSP: Espaço e Tempo. São Paulo, nº
16, pp. 91-96, 2004.
A corporificação dos direitos humanos dificilmente se constituirá sem a tomada de
consciência e a respectiva implicação dos sujeitos corporificados – independente das
ofensivas à sua dignidade serem ou não constantes – nas ações, práticas e/ou lutas
sociais que se fizerem (fazem) necessárias à sua garantia e reconhecimento imediatos,
visto que “sem sujeitos, que articulem sociedade e política, os direitos ou inexistem ou
são letra morta, sendo reproduzido o afastamento entre lei e experiência social
concreta”, bem como “as referências à democracia e à cidadania” (RIBEIRO, 2000).
Ainda que os direitos humanos constituam “[...] um programa que pode guiar ou
orientar as políticas públicas dos Estados e contribuir ao fortalecimento das instituições
democráticas, particularmente em processos de transição ou em democracias deficitárias
ou débeis” (ABRAMOVICH, 2006), “os direitos humanos, [...] precisarão, para isto,
suportar transformando-se, a pressão do economicismo e da objetivação das relações
sociais” (Ribeiro, 2000). Mencionando Badiou, a autora afirma que “de outra forma,
permanecerão, [...], com um teor moralista, perdendo a sua influência sobre as práticas e
sendo utilizados, como instrumento de controle, pelos países hegemônicos e culturas
dominantes” (idem, p. 3).
Sendo assim, se “todo ser humano é, ao mesmo tempo, um início e um iniciador.
Ainda que a morte acene à finitude, [...]”, conforme nos ensinou Hannah Arendt,
acreditamos na força normativa dos direitos humanos

[...] como fundamento ético para a construção de uma nova cidadania


que vislumbre as condições de possibilidade de recriar novas
categorias morais e políticas, a fim de manter a esperança de que a
problemática do existir humano se resolverá com escolhas plausíveis,
capazes de conduzir à concórdia e à felicidade e não, ao ódio e à
destruição (SILVA, 2009, p. 76).

Referências bibliográficas

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 10ª reimpressão. Rio de Janeiro: Elsevier
Editora Ltda, 2004.
BRANDÃO, Maria Adélia. (org.). Milton Santos e o Brasil. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 2004.
COMPARATO, Fábio Konder. “Comentário ao artigo 1º”. In: ANNAN, Kofi. Direitos
humanos: conquistas e desafios. Brasília: Letraviva, 1999.
______. A afirmação histórica dos direitos humanos. VII edição. São Paulo: Editora
Saraiva, 2010.
______ Comentário ao artigo 1º. In: Direitos humanos: conquistas & desafios. 2ª
edição. Brasília: Letraviva, 1999.

GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Processos planetários e fronteiras móveis. In:


BRANDÃO, Maria de Azevedo (Org.). Milton Santos e o Brasil: território, lugares e
saberes. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2004.
HAESBAERT, Rogério. Territórios alternativos. 2ª edição. São Paulo: Contexto,
2009.
HAESBAERT, Rogério. Dos múltiplos territórios à multiterritorialidade. Porto
alegre, set., 2004b. Disponível em: http://www6.ufrgs.br/petgea/Artigo/rh.pdf. Acesso
em: jun. 2010.
HAESBAERT, Rogério. Globalização e fragmentação no mundo contemporâneo. In:
HAESBAERT, Rogério (Org.). Globalização e fragmentação no mundo
contemporâneo. Niterói: EDUFF, 1998.
HARVEY, David. Espaços de esperança. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
IANNI, Otávio. A sociedade global. 12ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2005.
LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento
de Hannah Arendt. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1988, p. 125 a 127.
MARRAMAO, Giacomo. Passado e futuro dos direitos humanos: da "ordem pós-
hobbesiana" ao cosmopolitismo da diferença. Edição: Flaviane de Magalhães BARROS
e Marcelo Andrade Cattoni de OLIVEIRA. Tradução: Lorena Vasconcelos Porto. Minas
Gerais, 2007
MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história
na modernidade anômala. São Paulo: Contexto, 2ª edição, 2008.
MASSEY, Doreen. Pelo espaço. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 4ª edição. São Paulo: Editora
Saraiva, 2010.
PIOVESAN, Flávia; PIOVESAN, Luciana; SATO, Priscila Kei. Implementação do
direito à igualdade, pp. 239-249. In: PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos.
4ª edição. São Paulo: Saraiva, 2010.
PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos: desafios da ordem internacional contemporânea.
In: PIOVESAN, Flávia (Coord). Direitos humanos. Vol 1. 2ª reimpressão. Curitiba:
Juruá Editora, 2009.
PIOVESAN, Flávia. Tratados internacionais de proteção dos direitos humanos:
jurisprudência do STF. In: http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/.... Acesso
em: 26 mai. 2010.
RIBEIRO, Ana Clara Torres. Corpo e imagem: alguns enredamentos urbanos, pp.
105-117. Cadernos PPG-AU/FAUFBA/Universidade Federal da Bahia. Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Ano 5, nº especial, (2007) - Ana Clara Torres Ribeiro (Org.).
Salvador: PPG-AU/FAUFBA, 2007. Disponível em: <
http://www.corpocidade.dan.ufba.br/arquivos/Ana_Clara.pdf>. Acesso em: 18 mar.
2009.
______________________. Sujeito corporificado e bioética: caminhos da democracia.
In: Revista Brasileira de Educação Médica, v. 24, nº. 1, jan./abr. 2000.
ROLNIK. Raquel. Exclusão territorial e violência. In: FERNANDES, Edésio e
SADER, Emir; GENTILI, Pablo. La trama del neoliberalismo. Mercado, crisis y
exclusión social. Ciudad Autónoma de Buenos Aires / Argentina: CLACSO, Consejo
Latinoamericano de Ciencias Sociales,. 2003. ISBN: 950-23-0995-2. Disponível em:
http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/trama/anderson.rtf>. Acesso em: 12 jan.
2011.
SANTOS, Boaventura Sousa. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação
social. 1ª edição revista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
______. Poderá o direito ser emancipatório. Disponível em:
<http://www.boaventuradesousasantos.pt/media/pdfs/podera_o_direito_ser_emancipat
orio_RCCS65.PDF>. Acesso em: 7 mar. 2009.
______. El derecho, la política y lo subalterno en la globalización contrahegemónica,
pp. 7 - 28. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; GARAVITO, César A. Rodríguez (Eds.).
El derecho y la globalización desde abajo: hacia una legalidad cosmopolita. Rubí
(Barcelona): Anthropos México: UAM – Cuajimalpa, 2007.
______. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo:
Cortez, 10ª edição, 2005.
______. Desigualdad, exclusión y globalización: hacia la construcción multicultural de
la igualdad y la diferencia. In: SANTOS, Boaventura de Sousa. La caída Del Ângelus
Novus: ensayos para uma nueva teoria social. Colección Em Clave de Sur. 1ª ed.
ILSA, Bogotá D. C. Colômbia, enero de 2003.
______. Reinventar a democracia. Coleção Cadernos Democráticos, nº 4. Fundação
Mario Soares / Gradiva, 2002b.
______. Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2002c.

______. Por uma concepção multicultural de direitos humanos. Contexto


internacional. Rio de Janeiro, vol. 23, nº 1, p. 7-34, jan/jun, 2001.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. 19ª edição. Rio de Janeiro / São Paulo:
RECORD Editora, 2010.
SANTOS, M. et al. Território, territórios: ensaios sobre o ordenamento territorial.
Rio de Janeiro: Lamparina, 3ª edição, 2007.
________.. Pensando o espaço do homem. São Paulo: EDUSP, 5ª edição, 2004.
________. O espaço do cidadão. São Paulo: Studio Nobel, 5ª edição, 2000.
________. A natureza do Espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. 3ª edição. São
Paulo: Editora HUCITEC, 1999a.
TOURAINE, Alan. Igualdade e diversidade: o sujeito democrático. São Paulo:
EDUSC, 1998.
TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. O legado da declaração universal dos direitos
Vilhena, O. A Moralidade dos Direitos. Revista Themis Gênero e Direito. São Paulo,
v. 2, nº 2, 2001.

Você também pode gostar