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Nasceu a 10 Dezembro 1920

(Tchetchelnik, Ucrânia)
Morreu em 09 Dezembro 1977
(Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil)
Haya Pinkhasovna Lispector foi uma escritora e jornalista nascida na
Ucrânia e naturalizada brasileira. Quanto à sua brasilidade, Clarice
declarava-se pernambucana.
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Meu Deus, me dê a Coragem

Meu Deus, me dê a coragem


de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido


até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:


Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,


entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

A Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

ALMA LUZ

MINHA ALMA TEM O PESO DA LUZ


TEM O PESO DA MÚSICA
TEM O PESO DA PALAVRA NUNCA DITA,
PRESTES QUEM SABE A SER DITA
TEM O PESO DE UMA LEMBRANÇA
TEM O PESO DE UMA SAUDADE
TEM O PESO DE UM OLHAR
PESA COMO PESA UMA AUSÊNCIA
E A LÁGRIMA QUE NÃO CHOROU
TEM O IMATERIAL PESO DE UMA SOLIDÃO
NO MEIO DE OUTROS

Amor à Terra

Laranja na mesa.

Bendita a árvore

que te pariu.
Quero Escrever o Borrão Vermelho de Sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue


com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro


me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções


sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande


que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer


vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que


- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,


porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Tentação

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas,
ela era ruiva. Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina
flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua,
só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não
bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento
a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer
de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento
contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de
morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia
futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por
enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O
que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a
com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos. Foi
quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú.
A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina
acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset
lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo. Lá vinha
ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento.
Desprevenido, acostumado, cachorro. A menina abriu os olhos pasmados.
Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava.
Ambos se olhavam. Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem
donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele
cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos,
fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a
desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço
e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos. Que foi que
se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente,
pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam.
Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos. No meio de
tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança
vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores,
de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua
ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais
um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com
que se pediam. Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância
impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma
mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. A dona esperava impaciente sob
o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu
sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa
mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos
pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo
dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou
para trás. ("Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)

Estrela Perigosa

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia


nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

Nossa Truculência

Quando penso na alegria voraz


com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha


e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.

As pessoas que se preocupam demais com a ordem externa é porque


internamente estão em desordem e precisam de um contraponto que lhes
sirva de segurança.

As pessoas que falam da minha inteligência estão na verdade confundindo


«inteligência» com o que chamarei agora de «sensibilidade inteligente».
Esta, sim, várias vezes tive ou tenho. E, apesar de admirar a inteligência
pura, acho mais importante, para viver e entender os outros, essa
sensibilidade inteligente.

Às vezes eu me coloco numa situação de ver um pouco antes de ver


mesmo. Eu pressinto o instante que se segue e cadencialmente minha
respiração acompanha o ritmo do tempo. Eu que sinto antes de sentir. A
harmonia é pressentir a próxima frase, o próximo som, a próxima visão.

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não
posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que
tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma
lentamente no que eu digo.

O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo o que é humano no homem,


mas a tecnologia não atinge a loucura: e nela então o humano do homem se
refugia.
A realidade é inacreditável.

Acho que sábado é a rosa da semana.

No acto de escrever eu atinjo aqui e agora o sonho mais secreto, aquele que
eu não me lembro dele ao acordar. No que eu escrevo só me interessa
encontrar meu timbre. Meu timbre de vida.

A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro.

À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a


tendência da gente é continuar a ser enorme.

Aliás - descubro eu agora - eu também não faço a menor falta, e até o que
escrevo um outro escreveria.

Ali estava uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais poderia
imaginar.
Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não
pára, viver parece ter sono e não poder dormir – viver é incómodo. Não se
pode andar nu nem de corpo nem de espírito.

Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande
responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e
não a ama.

Afianço que só se vive, vida mesmo, quando se aprende que até a mentira é
verdade. Recuso-me a dar provas. Mas se alguém insistir muito em
«porquês», digo: a mentira nasce em quem a cria e passa a fazer existirem
novas mentiras de novas verdades.

Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso
da palavra falada e escrita é como a música, duas coisas das mais altas que
nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.

Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do


corpo. Letargia. A sensibilidade trémula tornando tudo ao redor mais
sensível e tornando visível, com um pequeno susto e impalpável.

Acho que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos. Mas sem
sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.

Acho que Deus não sabe que existe. Tenho quase a certeza de que não. E
daí vem a sua veemente força.
Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir -
esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a


medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: «pertencer é
viver». Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego
os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto
mesmo que caminho.

A vida mal e mal me escapa embora me venha a certeza de que a vida é


outra e tem um estilo oculto.

A vida é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.

A vida é dura para quem é mole.

A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no


entanto vivo dela.
A saudade é a prova que o passado valeu a pena.

A realidade não me surpreende. Mas não é verdade; de repente tenho uma


tal fome de «coisa acontecer mesmo» que mordo num grito a realidade com
os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E
por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego a
viver da imaginação.

Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande
responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e
não a ama.

Afianço que só se vive, vida mesmo, quando se aprende que até a mentira é
verdade. Recuso-me a dar provas. Mas se alguém insistir muito em
«porquês», digo: a mentira nasce em quem a cria e passa a fazer existirem
novas mentiras de novas verdades.

Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso
da palavra falada e escrita é como a música, duas coisas das mais altas que
nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.

Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do


corpo. Letargia. A sensibilidade trémula tornando tudo ao redor mais
sensível e tornando visível, com um pequeno susto e impalpável.
Acho que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos. Mas sem
sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.

Acho que Deus não sabe que existe. Tenho quase a certeza de que não. E
daí vem a sua veemente força.

Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir -


esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a


medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: «pertencer é
viver». Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego
os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto
mesmo que caminho.

A vida mal e mal me escapa embora me venha a certeza de que a vida é


outra e tem um estilo oculto.

A vida é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.

A vida é dura para quem é mole.


A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no
entanto vivo dela.

A saudade é a prova que o passado valeu a pena.

A realidade não me surpreende. Mas não é verdade; de repente tenho uma


tal fome de «coisa acontecer mesmo» que mordo num grito a realidade com
os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E
por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego a
viver da imaginação.

A realidade é mais inatingível que Deus – porque não se pode rezar para a
realidade.

A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se


eu não acho um modo de falar a mim mesmo a palavra me sufoca a
garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter
acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e
entra. Não quero ser vítima do acaso libertador.

A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto


o maior desamparo.
A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que
tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de
meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por
profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande
medida do silêncio.

A gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos.
Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso
da palavra falada e escrita é como a música, duas coisas das mais altas que
nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.

Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do


corpo. Letargia. A sensibilidade trémula tornando tudo ao redor mais
sensível e tornando visível, com um pequeno susto e impalpável.

Acho que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos. Mas sem
sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.

Acho que Deus não sabe que existe. Tenho quase a certeza de que não. E
daí vem a sua veemente força.

Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir -


esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a
medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: «pertencer é
viver». Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego
os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto
mesmo que caminho.

A vida mal e mal me escapa embora me venha a certeza de que a vida é


outra e tem um estilo oculto.

A vida é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.

A vida é dura para quem é mole.

A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no


entanto vivo dela.

A saudade é a prova que o passado valeu a pena.


A realidade não me surpreende. Mas não é verdade; de repente tenho uma
tal fome de «coisa acontecer mesmo» que mordo num grito a realidade com
os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E
por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego a
viver da imaginação.

A realidade é mais inatingível que Deus – porque não se pode rezar para a
realidade.

A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se


eu não acho um modo de falar a mim mesmo a palavra me sufoca a
garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter
acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e
entra. Não quero ser vítima do acaso libertador.

A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto


o maior desamparo.

A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que
tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de
meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por
profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande
medida do silêncio.

A gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos.
Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
A eternidade é o estado das coisas neste momento.

A dor não é motivo de preocupação. Faz parte da vida animal.

Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso
da palavra falada e escrita é como a música, duas coisas das mais altas que
nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.

Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do


corpo. Letargia. A sensibilidade trémula tornando tudo ao redor mais
sensível e tornando visível, com um pequeno susto e impalpável.

Acho que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos. Mas sem
sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.

Acho que Deus não sabe que existe. Tenho quase a certeza de que não. E
daí vem a sua veemente força.

Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir -


esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a
medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: «pertencer é
viver». Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego
os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto
mesmo que caminho.

A vida mal e mal me escapa embora me venha a certeza de que a vida é


outra e tem um estilo oculto.

A vida é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.

A vida é dura para quem é mole.

A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no


entanto vivo dela.

A saudade é a prova que o passado valeu a pena.

A realidade não me surpreende. Mas não é verdade; de repente tenho uma


tal fome de «coisa acontecer mesmo» que mordo num grito a realidade com
os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E
por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego a
viver da imaginação.

A realidade é mais inatingível que Deus – porque não se pode rezar para a
realidade.

A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se


eu não acho um modo de falar a mim mesmo a palavra me sufoca a
garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter
acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e
entra. Não quero ser vítima do acaso libertador.

A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto


o maior desamparo.

A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que
tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de
meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por
profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande
medida do silêncio.

A gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos.
Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

A eternidade é o estado das coisas neste momento.


A dor não é motivo de preocupação. Faz parte da vida animal.

A vida é dura para quem é mole.

A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.

A vida é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

A vida mal e mal me escapa embora me venha a certeza de que a vida é


outra e tem um estilo oculto.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a


medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: «pertencer é
viver». Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego
os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto
mesmo que caminho.

Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir -


esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.
Acho que Deus não sabe que existe. Tenho quase a certeza de que não. E
daí vem a sua veemente força.

Acho que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos. Mas sem
sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.

Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do


corpo. Letargia. A sensibilidade trémula tornando tudo ao redor mais
sensível e tornando visível, com um pequeno susto e impalpável.

Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso
da palavra falada e escrita é como a música, duas coisas das mais altas que
nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.

(...) Ângela é doida. Mas tem uma lógica matemática na sua doidice
aparente. E se diverte muito a escandalosa. Aguça-se demais e depois não
sabe o que fazer de si. Que se dane. Entre o

(...) Atravessei a rua e tomei um táxi. A '''brisa''' arrepiava-me os cabelos da


nuca. E eu estava tão feliz que me encolho no canto do táxi de medo
porque a felicidade dói. E isto tudo causado pela visão do homem bonito.
Eu continuava a não querê-lo para mim – gosto é de pessoas um pouco
feias e ao mesmo tempo harmoniosas, mas ele de certo modo dera-me
muito com o sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. Tudo
isso eu não entendia. :A coragem de viver: deixo oculto o que preciso ser
oculto e precisa irradiar-se em segredo. Calo-me. (...) Clarice Lispector,
''in: Água Viva, Círculo do Livro, 1973 p. 76-7'' *
(...) Me lembro bem da carta que eu lhe escrevi, sobre deixar os outros em
paz. Realmente o tom geral devia estar pessimista. O pessimismo passou,
mas o bom propósito não: '''farei o possível para não amar demais as
pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa,
quase como responsabilidade na pessoa que o recebe.''' Eu tenho essa
tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o
mínimo. É uma forma de paz... Também é bom porque em geral se pode
ajudar muito mais as pessoas quando não se está cega pelo amor. (...)

(...) tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não
exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu
digo. (...) CL [Perto do coração selvagem] *

(...)Pois em mim mesma eu vi como é o inferno...(...) p. 143 (...) E porque


minha alma é tão ilimitada que já não sou eu, e porque ela está tão além de
mim - é que sempre sou remota a mim mesma, sou-me inalcançável como
me é inalcançável um astro... (...) p. 146 (...) O mistério do destino humano
é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal:
de nós depende realizarmos o nosso destino fatal... (...) mas de mim
depende eu vir a ser o que fatalmente sou... p.148 (...) E não preciso sequer
cuidar da minha alma, ela cuidará fatalmente de mim, e não tenho que fazer
para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher viver. Somos livres,
e este é o inferno. p. 148, ''Clarice Lispector, In: A Paixão Segundo GH, 5
ed. Rio de Janeiro, J. Oliympio 1977 páginas diversas'' *

...há impossibilidade de ser além do que se é - :no entanto eu me ultrapasso


mesmo sem o delírio, :sou mais do que eu, quase normalmente - :tenho um
corpo e tudo que eu fizer é continuação :de meu começo...... :a única
verdade é que vivo. :Sinceramente, eu vivo. :Quem sou? :Bem, isso já é
demais....
...os bichos me fantasticam. Eles são o tempo que não se conta. Pareço ter
certo horror daquela criatura viva que não é humana e que tem meus
próprios instintos embora livres e indomáveis. Às vezes eletrizo-me ao ver
bicho. Estou agora ouvindo o grito ancestral dentro de mim: parece que não
sei quem é mais a criatura, se eu ou o bicho.

[...] talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo


aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se
vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o
único estudo é mesmo escrever.

A desistência é uma revelação.

A diferença entre o doido e o não-doido é que o não-doido não diz nem faz
as coisas que pensa.

A dor não é motivo de preocupação. Faz parte da vida animal.

A eternidade é o estado das coisas neste momento.

A gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos.
Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que
tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de
meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por
profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande
medida do silêncio.

A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. É quando sinto


o maior desamparo.

A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se


eu não acho um modo de falar a mim mesmo a palavra me sufoca a
garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter
acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e
entra. Não quero ser vítima do acaso libertador.

E de tal modo haviam se disposto as coisas que o amor doloroso lhe


pareceu felicidade.

É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é


livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma
grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre-arbítrio.

É indigno do ser humano não ser capaz de entender nada da vida. Sim. Mas
misteriosamente a gente cumpre os rituais da vida.
E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão.

E ninguém é eu. E ninguém é você. Esta é a solidão.

É preciso coragem. Uma coragem danada. Muita coragem é o que eu


preciso. Sinto-me tão desamparada, preciso tanto de proteção...porque
parece que sou portadora de uma coisa muito pesada. Sei lá porque
escrevo! Que fatalidade é esta?

É preciso me amar como involuntariamente sou. Apenas me responsabilizo


pelo que há de voluntário em mim e que é muito pouco.

É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas


violências salvam-nos das grandes.

É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que


só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

E receber o telefonema de um amigo, e a comunicação de vozes e alma ser


perfeita? Quando se desliga: que prazer de os outros existirem e de a gente
se encontrar nos outros. Eu me encontro nos outros.
É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos
a saber.

É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde

Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam.

Em cada palavra pulsa um coração. Escrever é a tal procura de íntima


veracidade de vida. Vida que me perturba e deixa o meu próprio coração
trémulo sofrendo a incalculável dor que parece ser necessária ao meu
amadurecimento – amadurecimento? Até agora vivi sem ele!

Em uma outra vida que tive, aos 15 anos, entrei numa livraria, que me
pareceu o mundo que gostaria de morar. De repente, um dos livros que abri
continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo.
Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! Só depois vim a saber que
a autora era considerada um dos melhores escritores de sua época:
Katherine Mansfield.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.

Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma
grande subida na escala humana.
Entre a palavra e o pensamento existe o meu ser. Meu pensamento é puro
ar impalpável, insaisissable. Minha palavra é de terra. Meu coração é vida.
Minha energia electrónica é mágica de origem divina. Meu símbolo é o
amor. Meu ódio é energia atómica.

Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é


sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e
sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada

Escrever para jornal não é tão impossível: é leve, tem que ser leve, e até
mesmo superficial: o leitor, em relação a jornal, não tem nem vontade nem
tempo de se aprofundar. Mas escrever o que se tornará depois um livro
exige às vezes mais força do que aparentemente se tem.

Escrever pode tornar a pessoa louca. Ela tem que levar uma vida pacata,
bem acomodada, bem burguesa. Senão a loucura vem. É perigoso. É
preciso calar a boca e nada contar sobre o que se sabe e o que se sabe é
tanto, e é tão glorioso.

Escrever sem estilo é o máximo que, quem escreve, chega a desejar.

Escrevi nove livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe. Mas ser
cronista tem um mistério que não entendo: é que os cronistas, pelo menos
os do Rio, são muito amados. E escrever a espécie de crónica aos sábados
tem me trazido mais amor ainda.
Escrevo por ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na
terra dos homens.

Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não
sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando
e cantando, às vezes chorando...

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com


achados e perdidos.

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.

Esperar que algo amadureça é uma experiência sem par: como na criação
artística em que se conta com o vagaroso trabalho do inconsciente.

Essa tendência actual de elogiar as pessoas dizendo que são «muito


humanas» está-me cansando. Em geral esse «humano» está querendo dizer
«bonzinho», «afável», senão meloso.

Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o


imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor.
Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma
escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro
desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim.
Eu o estaria lendo e de súbito, uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria
em êxtase de dor e de enfim libertação: Mas é que eu não sabia que se pode
tudo, meu Deus!

Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao


telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um
retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim
mesma.

Estou livre? Tem qualquer coisa que ainda me prende. Ou prendo-me a ela?
Também é assim: não estou toda solta por estar em união com tudo. Aliás
uma pessoa é tudo. Não é pesado de se carregar porque simplesmente não
se carrega: é-se o tudo.

No âmago onde estou, no âmago do É, não faço perguntas. Porque quando


é – é. Sou limitada apenas pela minha identidade. Eu, entidade elástica e
separada de outros corpos.

Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida
inteira.

Nós estamos tão longe de compreender o mundo que nossa cabeça não
consegue raciocinar senão à base de finitos.

Nos meus livros quero profundamente a comunicação profunda comigo e


com o leitor. Aqui no jornal apenas falo com o leitor e agrada-me que ele
fique agradado.
Nós não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa
completa que nos é dada ao nascimento: o génio da vida.

Nós, os macacos de nós mesmos, nós, os macacos que idealizaram tornar-


se homens, e esta é também a nossa grandeza. Nunca atingiremos em nós o
ser humano: a busca e o esforço serão permanentes. E quem atinge o quase
impossível estágio de Ser Humano, é justo que seja santificado. Porque
desistir de nossa animalidade é um sacrifício.

O autor que tenha medo da popularidade, senão será derrotado pelo triunfo.
Tem uma hora em que se deve tirar retrato de si mesmo. A fome é sempre
igual à primeira fome. A carência se renova inteira e vazia.

O bagulho é louco e o processo é lento.

O contacto com o outro ser através da palavra escrita é uma glória. Se me


fosse tirada a palavra pela qual tanto luto, eu teria que dançar ou pintar.
Alguma forma de comunicação com o mundo eu daria um jeito de ter. E
escrever é um divinizador do ser humano.

Toda a compreensão súbita é a revelação de uma aguda incompreensão.


Todo cidadão tem o direito de ir e vir. Desde que seja a pé, de outra forma
paga pedágio.

Todo o caso de loucura é porque alguma coisa voltou. Os possessos, eles


não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta.

Todo prazer intenso toca no limiar da dor.

Tornar-se humano pode-se transformar em ideal, e sufocar-se de


acréscimos... ser humano não deveria ser um ideal para o homem que é
fatalmente humano, ser humano tem que ser o modo como eu, coisa viva,
obedecendo por liberdade ao caminho do que é vivo, sou humana.

Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor: é a minha largueza. É
com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que não sei é que constitui a
minha verdade.

Tudo o que poderia existir, já existe. Nada mais pode ser criado senão
revelado.

Um dos gestos mais belos e generosos do homem, andando vagarosamente


pelo campo lavrado, é o de lançar na terra as sementes.
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

Viajo porque gosto, volto porque te amo.

Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem foi a de


um sonâmbulo que simplesmente vai.

Viver me deixa tão nervosa, tão à beira de. Tomo calmantes só pelo facto
de estar viva: o calmante me mata parcialmente e embota um pouco o aço
demasiado agudo da minha lâmina de vida. Eu deixo de fremir um pouco.
E passo a um estágio mais contemplativo.

Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é,
pode-se ser chamado e não saber como ir

Só trabalho com achados e perdidos.

Só uma raiva, no entanto, é bendita: a dos que precisam.

Sofremos por ter tão pouca fome, embora a nossa pequena fome já dê para
sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome
maior.
Sofro se isso acontecer, que alguém leia meus livros apenas no método do
vira-depressa-a-página dinâmico. Escrevi-os com amor, atenção, dor e
pesquisa, e queria de volta como mínimo uma atenção completa. (...) E no
entanto o cómico é que eu não tenho mais paciência de ler ficção.

Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a


que me chamem de escritora. Porque, fora das horas em que escrevo, não
sei absolutamente escrever.

Sou brasileira naturalizada, quando, por questão de meses, poderia ser


brasileira nata. Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu
pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor.

Sou um escritor enredado e perdido. Escrever é difícil porque toca nas raias
do impossível.

Sou um monte intransponível no meu próprio caminho.

Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha


quebradiça.

Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a
dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe
respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.
Talvez esse tenha sido o meu maior esforço de vida: para compreender a
minha não-inteligência, o meu sentimento, fui obrigada a me tornar
inteligente. (Usa-se a inteligência para entender a não-inteligência. Só que
depois o instrumento – o intelecto – por vício de jogo continua a ser usado
– e não podemos colher as coisas de mãos limpas, directamente na fonte).

Tanto em pintura como em música e literatura, tantas vezes o que chamam


de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e
mais difícil, menos visível a olho nu.

Tem sentido correr tanto atrás da felicidade, será que basta ser feliz? Será
que ser feliz é um estado de tolerância?

Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada
vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai.
Cada mudança, cada projecto novo causa espanto: meu coração está
espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde
circula sangue.

O hábito tem-lhe amortecido as quedas. Mas sentindo menos dor, perdeu a


vantagem da dor como aviso e sintoma. Hoje em dia vive
incomparavelmente mais sereno, porém em grande perigo de vida: pode
estar a um passo de estar morrendo, a um passo de já ter morrido, e sem o
benefício de seu próprio aviso prévio.
O meu erro deve ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que
saio do que conheço e do que entendo. Se a «verdade» fosse aquilo que
posso entender - terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu
tamanho.

O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de


cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino
fatal.

O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração.


Deixo-me acontecer.

O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar.

O perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é


meditar, pensar guia para um objectivo.

Quem se atinge pela despersonalização reconhecerá o outro sob qualquer


disfarce: o primeiro passo em relação ao outro é achar em si mesmo o
homem de todos os homens.

Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é


porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade
perigosa – daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é
quem receia atirar sobre todos
Quero lonjuras. Minha selvagem intuição de mim mesma. Mas o meu
principal está sempre escondido. Sou implícita. E quando me vou explicitar
perco a úmida intimidade.

Refugio-me na loucura porque não me resta o chamado meio-termo do


estado de coisas comum. Quero ver coisas novas – e isso eu só conseguirei
se não tiver mais medo da loucura.

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.


Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se
absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma
unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Se eu esperar compreender para aceitar as coisas – nunca o ato de entrega


se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a
compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar
pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é
que se sabe andar e – milagre – se anda.

Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as
palavras dizem o que não quero dizer.

Sem entender jamais o que havia debom em ser gente, em sentir-se


cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreedem essa nuance de
vício e esse refinamento de vida.
Sempre conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas


que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que
é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em
escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até à
hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha
espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Ser assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico e fantástico – a


vida é sobrenatural. E eu caminho em corda bamba até o limite de meu
sonho.

Ser é ser além do humano. Ser homem não dá certo, ser homem tem sido
um constrangimento. O desconhecido nos aguarda, mas sinto que esse
desconhecido é uma totalização e será a verdadeira humanização pela qual
ansiamos.

Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem.
Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a
morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia amordaçante:
assusto-me.

Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a


intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má
leitora que, agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem
sequer li as obras importantes da humanidade.

Ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e


retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo.

Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir.

Silêncio feliz. Sou um homem feliz porque nasci. E porque me sei calar.
Calar-se é nascer de novo.

Sinto necessidade de arriscar minha vida. Só assim vale a pena viver.

Só me interessa escrever quando eu me surpreendo com o que escrevo. Eu


prescindo da realidade porque posso ter tudo através do pensamento.

Só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência


desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta
é que é uma entrega real.

Você reclama contra o meu desalento. Tem razão, Francisco, sou um pouco
desalentada, preciso demais dos outros para me animar. Meu desalento é
igual ao que sentem milhares de pessoas. Basta, porém, receber um
telefonema ou lidar com alguém que eu gosto e minha esperança renasce, e
fico forte de novo.

Prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não


apenas a me prometer a vida.

Qual é o elemento primeiro? Logo teve que ser dois para haver o secreto
movimento íntimo do qual jorra leite.

Qualquer um pode sonhar acordado se não mantiver acesa demais a


consciência.

Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever


alguma coisa que fosse tranquila e sem modas, alguma coisa como a
lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é
lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento.
Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra «monumento».
E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.

Quando eu morrer então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os


traços de espuma do mar na praia.

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e


nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa
como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e
senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.
Quando penso no que já vivi me parece que fui deixando meus corpos
pelos caminhos.

Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não


é só isto, é exactamente isto.

Quando uma pessoa é o próprio núcleo, ela não tem mais divergências.
Então ela é a solenidade de si própria, e não tem mais medo de consumir-se
ao ritual consumidor.

Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe.
Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me
renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias. Sei que um dia
abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha. Quando eu ficar
sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quando mais pudermos, mais
Deus teremos.

(...) Que medo alegre/ o de te esperar (...) ::- ''CL, [Estrela Perigosa] *

Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito


trabalho.
Quem dá aos pobres, tem que pagar o motel.

Quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa


alegria.

Quem fica atento ao ritual da fé pode perder o objecto da fé.

Quem manda em mim, se não sou eu? Pois eu não consigo me alcançar.

Quem não é um acaso na vida?

Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho.

O personagem «leitor» é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo


tempo que inteiramente individual e com reacções próprias, é tão
terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor.

O que a nossa imaginação cria se parece com o processo que Deus tem de
criar.
O que é a vida real? Os factos? Não, a vida real só é atingida pelo que há de
sonho na vida re