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Curso Grego do Novo Testamento

Nível Básico Módulo 1


Aula 1: Introdução: A língua grega

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A língua grega: uma abordagem diacrônica1


Paulo Won 2

Introdução

A civilização grega é o berço dos elementos culturais axiais da civilização ocident-


al. Desde os grandes épicos de Homero, passando pelas obras filosóficas de Platão
e chegando até as obras cristãs dos Pais Apostólicos, a literatura produzida em
grego serviu de grande alicerce para a construção tanto da civilização europeia
ocidental como oriental.

O que é interessante de se notar é que o cristianismo encontrou um lugar


muito cômodo e importante dentro desse caldo cultural. Foi exatamente na língua
dos gregos que o mais importante documento do cristianismo, a saber, o Novo
Testamento foi originalmente escrito. Não somente isso. Dentro do contexto do
helenismo, a mais importante tradução de um documento foi produzido: a Sep-
tuaginta (LXX). Mas por que no grego? Antes de respondermos a esta questão, uma
outra se faz necessária: o que é a língua grega?

Esse curso não tem a pretenção de apresentar, de forma exaustiva, toda a


definição do que é a língua grega. Precisaríamos de um curso inteiro só para isso.
Nosso objetivo é dar a vocês um instrumental para que possam compreender a
gramática do grego do Novo Testamento, envolvendo todos os seus componentes
básicos como a morfologia, sintaxe e semântica. Mas, antes de estudarmos a
gramática grega propriamente dita, é necessário analisarmos um pouco da história

1Esse texto é parte integrante do curso “Grego do Novo Testamento” oferecido pela plataforma Exe-
gese Bíblica. Proibida a reprodução integral ou parcial desse conteúdo sem expressa autorização.
2 Ministro de Educação na Igreja Presbiteriana Sin Am. Bacharel em Relações Internacionais pela
PUC-SP, Mestre em Divindade pelo Seminário Teológico Servo de Cristo e Mestre em Teologia com
ênfase em Estudos Bíblicos pela Universidade de Edimburgo (Escócia). É professor de teologia no
Seminário Servo de Cristo e na Faculdade Teológica Sul Brasileira.
desta fascinante língua, história essa que se confunde com a própria história da
civilização ocidental. Sem compreendermos a história da língua grega, en-
tenderemos pouco acerca dos motivos que levaram os apóstolos e seus auxiliares a
escreverem seus evangelhos, cartas e documentos nessa língua.

Então, essa primeira aula, consiste em um apanhado histórico, uma abord-


agem diacrônica do desenvolvimento da língua grega (grego koinē.), desde seu es-
tágio mais primitivo até o seu uso nos tempos de Jesus e dos apóstolos. Sobre a
razão do grego ter sido usado em detrimento das demais línguas, tal resposta tam-
bém pode ser encontrada dentro da análise histórica do período helenístico.

A língua grega

A língua grega faz parte da família (filo) de línguas chamadas “indo-


europeias” (região que se estende desde a Europa até partes da Ásia). Nessa
família, podemos incluir, além do grego, línguas como o latim, português, inglês,
russo e até línguas persas faladas no norte da Índia, bem como a maioria das lín-
guas europeias da atualidade. O parentesco entre elas é comprovado pela obser-
vação que Rega e Bergmann fazem ao comparar a forma semelhante dos vocábulos
“pai” e “mãe” em algumas dessas línguas:

Pai: no grego é patêr, no latim pater, no sânscrito pita, no antigo persa pitar, no
gótico fadar, no inglês father, no alemão Vater.

Mãe: no grego é méter, no latim mater, no sânscrito matar, no báltico mate, no


inglês mother, no alemão Mutter. 3

Afirmar que o grego faz parte da família das línguas indo-europeias signi-
fica dizer também que todas as línguas que fazem parte desse filo linguístico tem
uma língua ancestral em comum. Embora não saibamos qual é essa hipotética lín-
gua, a designamos de língua proto indo-europeia, cujo hipotético uso é anterior ao
séc. XIV a.C.4

Dentre todas as línguas indo-europeias, o grega é a mais antigo a ser regis-


trado (evidências arqueológicas). As primeiras evidências escritas descobertas
pelos arqueólogos são as plaquetas de argila gravadas com um tipo de escrita cha-

3 L.S. Rega e J. Bergmann. Noções do grego bíblico: gramática fundamental. 3ª ed. rev. (São Paulo:
Vida Nova, 2014), pg. 9.
4 A.J. Köstenberger; B.J. Merkle e R.L. Plummer. Going Deeper with the New Testament Greek: An In-
termediate Study of the Grammar and Syntax of the New Testament (Nashville: B&H Academics,
2016), pg. 19.

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mada “Linear B” (ou miceno, decifrado por Michael Ventris em 1952) nos palácios
de Cnossos, na ilha de Creta, e em Pilos, Micenas, Tirinto e Tebas (entre os séculos
XIV e XIII a.C.), já na parte continental da Grécia. Essa escrita antiga e rudimentar
não era alfabética, mas silábica, em que cada consoante linha um som silábico.5

A partir de ca. 1000 a.C., iniciou-se o chamado período clássico (também


chamado de a Era dos Dialetos6). Nesse período que se estende até 330 a.C., os di -
versos povos e cidades-estado (pólis), que formariam futuramente ao Império
Grego-Macedônico, utilizavam dialetos diferentes entre si. Alguns estudiosos
chegaram a listar a existência de quase vinte dialetos,7 mas não possuímos nen -
hum registro escrito da maioria delas. Entre os dialetos gregos considerados mais
importantes, temos quatro:8

1. Dórico (grego ocidental): dialeto falado pela maioria dos inimigos de


Atenas na Guerra do Peloponeso (Rodes, Creta, Cária, Sicília, Dórida,
Itália Meridional ou Grande Grécia). Empregado na literatura e na po-
esia lírica coral;

2. Arcádio (cipriota): embora não tenhamos nenhum registro documen-


tal dessa escrita, é considerado a forma mais próxima ao que seria o
grego primitivo.

3. Eólico: falado na Tessália, Beócia, Lesbos e nas colônias eólicas da Ásia


menor;

4. Ático-Jônico: Trata-se do dialeto mais importante, pois era o falado em


Atenas no período de maior esplendor literário (500-300 a.C.).9 Foi
nesse dialeto que as principais obras clássicas de Homero e dos gran-
des filósofos foram escritos. A partir da expansão do helenismo com
Alexandre, o Grande, uma forma popular desse dialeto começou a ser
usado coma lingua franca10 em todo mundo mediterrâneo: o dialeto

5 Essa escrita consiste de cerca de 90 sinais silábicos e aproximadamente 100 sinais pictográficos.

6 Cf. A.T. Robertson e W.H. Davis. A New Short Grammar of the Greek New Testament (New York:
Harper & Brothers, 1933), pg. 8-10.
7 Cf. Buck, The Greek Dialects.

8 Classificação adotada conforme JACT. Aprendendo grego: Texto e vocabulário: gramática e exercíci-
os. 2ª ed. (São Paulo: Odysseus, 2014), pg. 733-735.
9 Segundo Antônio Freire, o dialeto jônico, também chamado de Homérico, é uma classificação
distinta do ático por se constituir, basicamente, como um dialeto literário presente nas obras de
Homero “Ilíada” e “Odisseia”. Nesse sentido, o dialeto ático é considerado como derivado do jônico.
Cf. Antônio Freire. Gramática grega. 2ª ed. (São Paulo: Martins Fontes, 1997), pg. 250-255.
10 Adotamos a seguinte definição para lingua franca: uma língua que é adotada deliberadamente
por um grupo multilíngue para fins de comunicação com diversos propósitos (políticos, econômi-
cos, religiosos, etc.).

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koinē (κοινή διάλεκτος11).12 Embora a gramática e a sintaxe mudaram
pouco em relação ao dialeto ático clássico, a grafia e pronúncia das pa-
lavras sofreram sensíveis modificações;13

5. Grego Bizantino (ou constantinopolitano, Idade Média): era o grego


falado no Sacro Império Romano Oriental (com sede em Constantino-
pla) até a sua queda nas mãos dos turcos-otomanos em 1453. É o grego
usado de forma litúrgica ainda hoje pela Igreja Ortodoxa Grega e se
constituiu como base para a reformulação da língua grega moderna.

Analisando diacrinocamente o desenvolvimento da língua grega, Rega e


Bergmann nos oferecem uma divisão por períodos históricos:14

1. Período formativo (séc. XIV a.C. até o séc. VIII a.C.): É o período de
formação dos principais dialetos (Ocidental, Eólico e o Ático-Jônico);

2. Período clássico (séc. VIII até o séc. II a.C.): É o período em que flores-
ceram a grande maioria das obras clássicas gregas, a começar pelos tex-
tos de Homero, seguido pelos grandes pensadores como Hesíodo (ca.
750-650 a.C.), Heródoto (485? a.C.-420 a.C.) e Platão (428/427-348/347
a.C.);

3. Período helenístico (também chamado de koinē, 330 a.C. até 330 d.C.):
É o período que começa com o avanço do domínio do Império Grego-
Macedônico, capitaneado por Alexandre, o Grande. Foi nesse período
que o grego ático passou a ser falado na sua forma mais corriqueira,
estabelecendo-se como lingua franca dentro dos domínios do império;

11 Forma feminina do adjetivo κοινός que significa “comum" ou “corrente” (ver. LSJ, s.v. “κοινός”).
Aplicando na expressão κοινή διάλεκτος significa “dialeto corrente”, ou seja, a forma de grego que era
falada comumente pela população dentro do Império Grego-Macedônico.
12 De acordo com Köstenberger, Merkle e Plummer, as designações a seguir também se referem ao
grego koinē, com algumas nuances de diferença (ver Köstenberger; Merkle e Plummer. Going Dee-
per, pg. 21-22):
• Grego Bíblico: É o grego koinē tal como preservado na LXX e no Novo Testamento;
• Grego do Novo Testamento: É o grego koinē com o foco exclusivo no texto grego do Novo
Testamento;
• Grego comum: É uma designação menos comum, usada de forma intercambiável com a
expressão “grego koinē”;
• Grego vulgar: É uma expressão ainda mais rara do que se refere ao grego koinē, como lín-
gua comum;
• Grego helenístico: É o grego koinē entendido no seu uso mais amplo, a incluir o grego fala-
do e escrito dentro do Império Bizantino.
13 Ver as mudanças do dialeto koinē em relação ao ático em D.B. Wallace. Greek Grammar: Beyond
the Basics: An Exegetical Syntax of the New Testament (Grand Rapids: Zondervan, 1996), pg. 16-23.
14 Rega e Bergmann. Noções do grego, pg. 10-11.

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4. Período Bizantino (séc. IV até 1453): É o período a partir da divisão do
Império Romano entre ocidente (sede em Roma) e oriente (sede em
Constantinopla, também chamada de Bizâncio). Nesse período tive-
mos a redação da maioria dos grandes manuscritos do Novo Testamen-
to e a produção das obras dos Pais Apostólicos e demais teólogos da
igreja em língua grega (grego bizantino). O fim abrupto desse período
se deu com a queda de Constantinopla em 1453;

5. Período Moderno: É o período posterior à queda de Constantinopla.15


A partir de então, a língua grega foi mantida a despeito do domínio
turco-otomano ao longo dos séculos. Hoje em dia, o uso do grego mo-
derno tem dois níveis. O primeiro é o chamado grego literário
(καθαρεύσα, “purificador”). É a forma literária que parte da tentativa de
ressuscitar, de forma artificial, o grego ático. 16 O segundo nível é cha -
mado de grego demótico (δηµοτική, “popular”), falado no dia-a-dia na
Grécia.

O grego koinē como lingua franca (330 a.C.-330 d.C.)

O Império Medo-Persa floresceu dominando uma grande porção de terra que se


estendia sobre o que hoje é o Oriente Médio. Entretanto, do outro lado do Mar
Mediterrâneo, as cidades-estado gregas começaram a serem unificadas por Felipe
II da Macedônia (ca. 338 a.C.). O poder grego foi ganhando proporções cada vez
maiores até que Alexandre III, que assumiu o trono em 336 a.C., também chamado
de o Grande — aquele a quem Daniel se refere como ‫“( ַה ָצּ ִפיר ַה ָשּׂ ִﬠיר ֶמ ֶלְך יָ וָ ן‬O
bode peludo é o rei da Grécia”, Dn 8:21) — venceu definitivamente Dario III em 330
a.C. Logo, com o fim do império persa, emergiu na história o Império Grego-
Macedônico. Alexandre e seus sucessores teriam influência direta sobre a história
dos judeus pelos próximos duzentos anos.

Os judeus se viram sob o domínio de Alexandre em 331 a.C. Seguindo os


moldes do domínio persa, aos judeus foi permitido o exercício de uma certa liber-
dade que atingia basicamente a sua religião e forma de governo. Dentro desse per-
íodo histórico, agora voltando nosso olhar para as comunidades que não retorn-
aram à Palestina depois da permissão de Ciro, vários centros judaicos da dispersão,
ou seja, da diáspora, começaram a se desenvolver em cidades recém criadas por

15 Para mais detalhes, ver Köstenberger; Merkle e Plummer. Going, pg. 23-24.
16 Wallace. Greek Grammar, pg. 16.

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Alexandre, como por exemplo, Alexandria. Essa cidade é importante tanto pela
presença de uma numerosa comunidade judaica, como também pela presença
posterior de uma comunidade relevante de cristãos.

A vida de Alexandre, o Grande, no entanto, foi breve. De acordo com


Bloomberg, “em apenas 13 anos (336-323) ele conquistou e controlou virtualmente
todo o ex-império persa, mais alguns territórios que antes não estavam sob o seu
controle. Deu domínio se estendia da Grécia à Índia, do sul da Rússia ao norte da
África”.17 Depois de chegar às portas das Índias, ele morreu em 323 a.C. com apenas
trinta e três anos de idade. Como o seu filho, herdeiro natural ao trono, ainda nem
havia nascido, seu Império foi dividido entre os seus quatro generais mais import-
antes (διάδοχοι, “sucessores”). A grosso modo, a Cassandro coube a região da
Macedônia, a maior parte da Grécia e partes da Trácia. Lisímaco ficou com a Lídia,
a Jônia, a Frígia e outras partes da atual Turquia. Selêuco dominou sobre o que hoje
é o Irã, o Iraque, a Síria e partes da Ásia Central. Finalmente, Ptolomeu herdou o
domínio sobre o Egito e regiões adjacentes.

A despeito de todas as ações militares de Alexandre, o maior legado que ele


deixou foi o processo de helenização. Aliás, não seria incorreto afirmar que a helen-
ização foi um instrumento da política expansionista da Grécia. A influência da cul-
tura grega foi se espalhando por todos os domínios de Alexandre que até os judeus,
por diversas vezes, se viram em situações onde assimilaram vários aspectos da cul-
tura grega. 18 Dentro dessa ceara, é inegável a importância da propagação da língua
grega como a lingua franca. Bloomberg declara:

Sem dúvida, o resultado mais penetrante das conquistas de Alexandre foi a


expansão da língua grega. Todos aqueles que eram obrigados a tratar com os
soldados e os comerciantes gregos, estabelecidos em todo aglomerado urbano,
precisavam aprender um pouco de língua grega. Desenvolveu-se uma forma
simplificada do grego ático (ateniense), hoje conhecida simplesmente como
grego helenístico. Este era menos rebuscado e de menor precisão semântica
do que seus antecessores clássicos. O grego dos tempos do Novo Testamento
ficou conhecido como koinē (termo grego para “comum") e refletia o que os
romanos chamavam de lingua franca. Assim, muitos judeus da Palestina,

17 Bloomberg, Introdução aos Evangelhos, pg. 22.


18 Um exemplo disso está no relato de 2 Macabeus 4:10-16 (Bíblia Ave Maria):
“O rei consentiu. Logo que subiu ao poder, Jasão arrastou seus concidadãos para o helenismo. Apesar
dos privilégios obtidos do poder real por João, o pai de Eupolemo, que foi enviado aos romanos para
concluir um pacto de aliança e de amizade, ele introduziu ímpios costumes, desdenhando as leis
nacionais. Foi com alegria que fundou um ginásio ao pé da própria acrópole, alistou os mais nobres
jovens e os educou ao pétaso. Por causa da perversidade inaudita do ímpio Jasão, que não era de
modo algum pontífice, obteve o helenismo tal êxito e os costumes pagãos uma atualidade tão cres-
cente, que os sacerdotes descuidavam o serviço do altar, menosprezavam o templo, negligenciavam
os sacrifícios, corriam, fascinados pelo disco, a tomar parte na palestra e nos jogos proibidos. Não
faziam caso das honras da pátria e amavam muito mais os títulos helênicos. Foi por essa razão que
logo uma atmosfera penosa os cercou, porque naqueles mesmos, cuja forma de vida invejavam e a
quem ambicionavam igualar-se em tudo, encontraram inimigos e os instrumentos para seu castigo.”

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mesmo por volta do século I, podiam muito bem ser ao menos razoavelmente
trilingues, com algum conhecimento do hebraico (com certeza limitado ao uso
da literatura religiosa); do aramaico, com seu vernáculo comum; e do grego,
como a língua dos negócios, do comércio e das relações com as autoridades
militares e políticas.19

Foi exatamente nesse período em que a Bíblia Hebraica foi traduzida para
o grego.20 O uso do koinē dentro do mundo mediterrâneo se arrastou até meados
do séc. IV d.C. alcançado o seu ponto auge entre o séc. I a.C. e o séc. I d.C., período
este dentro da qual todos os livros do Novo Testamento foram escritos.21

Em se tratando do grego usado no Novo Testamento, o koinē, alguns estu-


diosos o consideram como sendo um dialeto distinto dos demais, derivado, sobre-
tudo, do grego ático. Entretanto, a despeito de todas as diferenças entre os dois ti-
pos de grego,22 vem sendo estabelecido uma opinião majoritária entre os espe -
cialistas, de que o koinē não era nem uma forma segregada e nem tão pouco inferi-
or ao grego ático, ou seja, não seria uma contaminação do grego clássico literário,
mas sim, o mesmo grego ático à serviço das massas, ou seja, o grego ático “das
ruas”.23 Frederico Lourenço, ao analisar o emprego do grego koinē no Novo Testa -
mento afirma:

Um mal-entendido que convém desde já esclarecer é a suposição, errônea (re-


petida por biblistas que desconhecem a forma como atualmente se encara a
história da língua grega em âmbito da filologia clássica), de que o grego em que
foi escrito no Novo Testamento é um grego diferente da língua que foi utilizada
(a título de exemplo) por Aristóteles, Platão ou Xenofonte. Não é. A língua que
escreveram Mateus, Marcos, Lucas e João é a mesma dos autores helênicos an-
teriores (e posteriores). É grego. 24

Por fim, de acordo com Lourenço, o que de fato distingue o grego clássico
do koinē está relacionado à intensão do seu uso por parte dos seus autores. Se, por

19 Bloomberg, Introdução aos Evangelhos, pg. 25.


20 Duas importantes obras abordam a história da formação da Septuaginta: T.M. Law. When God
Spoke Greek: The Septuagint and the Making of the Christian Bible (Oxford: Oxford University Press,
2013) e M. Harl; G. Dorival e Olivier Munnich. A Bíblia grega dos Setenta: do judaísmo helenístico ao
cristianismo antigo (São Paulo: Loyola, 2007). Para um estudo introdutório à Septuaginta, ver K.H.-
Jobes e M. Silva. Invitation to the Septuagint (Grand Rapids: Baker Academic, 2000).
21 Wallace. Greek Grammar, pg. 18.

22
Ver as diferenças mais fundamentais em Freire. Gramática grega, pg. 255-260 e Köstenberger;
Merkle e Plummer. Going, pg. 22-23.
23 Ver Wallace. Greek Grammar, pg. 18. Alternativamente, Freire defende que o koinē não era propri-
amente um dialeto, mas sim, uma “fusão de vários dialetos”, utilizados à nível popular e comercial
(cf. Freire. Gramática grega, pg. 255).
24 Frederico Lourenço. Bíblia: Novo Testamento: Os quatro Evangelhos (São Paulo: Companhia das

Letras, 2016), pg. 39.

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um lado, Platão escreve, deliberadamente, suas obras com um grau de complexid-
ade gramática muito acima do que a maior parte dos gregos poderia entender, os
autores no Novo Testamento partem de uma motivação contrária: seus textos
deveriam ser de fácil leitura para alcançar uma quantidade maior de pessoas es-
palhadas pelo mundo mediterrâneo do primeiro século. Portanto, “o grego dos
Evangelhos não é tanto, como em tempos se dizia de forma depreciativa, um grego
de ‘língua comum’ (koinê), mas sim um grego perfeitamente normal. Claro,
simples, despretensioso”.25

Sobre a importância da língua grega no processo de helenização dos povos


conquistados por Alexandre, o Grande, vale destacarmos que esse processo não
significou a erradicação completa das culturas das nações e dos povos dominados.
Pelo contrário. A tentativa bem sucedida consistiu em formar um amálgama entre
a cultura local e a cultura grega para que, gradualmente, os povos das nações se
“tornassem como” os gregos. Numa linguagem de hoje, poderíamos comparar à
ideia de um soft power.26 No primeiro estágio, a difusão da língua grega era import -
ante, pois esse era o primeiro contato das elites locais com a modo de ser grego.27
Uma vez aprendida a língua, era estabelecida uma forma mais efetiva de domin-
ação, cujos estágios subsequentes envolviam a difusão e a implantação das prátic-
as e dos costumes dos gregos até que se chegasse a um estado ordem e unidade
(ὁµόνοια) por meio da comunidade (κοινωνία) do mundo helenístico em separação
ao mundo bárbaro.28

Assim, podemos perceber como o grego koinē foi um instrumento funda-


mental para que os gregos pudessem, por meio da empreitada expansionista de
Alexandre, o Grande, manter o controle não somente político, mas também cul-
tural dos povos dominados. Por fim, um exemplo claro desse poderio está rela-
cionado ao uso do grego como lingua franca mesmo depois que o Império Romano
veio a substituir o Império Grego-Macedônico como poder hegemônico na virada
da era cristã. Basta notar que os autores neotestamentários escreverem em grego e
não em latim. E esse domínio do koinē se estendeu até pelo menos os três primeir-

25 Lourenço. Bíblia: Novo Testamento, pg. 40.


26 Expressão cunhada pelo cientista político Joseph Nye, que aplica esse conceito à forma “brada"
como os Estados Unidos exercem influência sobre os demais países por meio da difusão de sua
cultura e do seu “way-of-life” (ver J.S. Nye Jr. Soft Power: The Means To Success In World Politics [New
York: Public Affairs, 2005]). Utilizo esse conceito como forma de comparação, considerando o ana-
cronismo da aplicação desse conceito ao Período Helenístico.
27 D.A. deSilva. An Introduction to the New Testament: Contexts, Methods and Ministry Formantion
(Downers Grove: IVP Academic, 2004), pg. 40.
28 E. Voegelin. Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo. História das ideias políticas Vl. 1 (São Paulo:

É Realizações: 2012), pg. 126-127.

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os séculos da era cristã, sendo a partir de então gradualmente substituída pelo
latim no mundo ocidental e mantido como tal no Império Bizantino.

Conclusão da aula

Nessa aula, fizemos uma viagem pela história da língua grega, desde os seus está-
gios mais primitivos até o uso moderno, detendo-nos na análise diacrônica do
grego koinē. Esse pano de fundo histórico serve-nos para podemos entender não
somente sobre a riqueza da língua grega, mas também, sobre o tipo de grego
empregado nos textos neotestamentários. Nisso, tentamos responder à primeira
grande pergunta do nosso curso: o que é a língua grega?. A partir desta pergunta,
tentamos responder uma outra: por que o Novo Testamento foi escrito em grego?.

Sim, o cristianismo encontrou dentro do processo de helenização uma


posição cômoda. Aproveitando-se do mundo grego (e romano), a revelação do
evangelho pôde, primeiramente na forma oral e depois na forma escrita, percorrer
todos os cantos do mundo mediterrâneo de forma rápida e eficiente. Isso não quer
dizer que o cristianismo se amoldou aos padrões clássicos, mas que usou da língua
grega para comunicar a revelação divina a partir de referenciais extraídos do
judaísmo. Nas palavras de Eric Voegelin,

a civilização grega viria a se espalhar gradativamente pelo Oriente Próximo; a língua grega
torna-se a língua comum do Mediterrâneo oriental na forma de koiné; mas as ideias ex-
pressas nessa koiné, ainda que evidenciando um traço de herança grega, são aquelas dos
orientais e refletem a origem oriental de seus pensadores. 29

29 Voegelin. Helenismo, pg. 106.

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