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DISCIPLINAS ESPIRITUAIS

Livro A Prática da Presença de Deus, irmão Lourenço da Ressureição


Filmes São Francisco de Assis e Santo Antônio de Pádua

As Disciplinas Espirituais
Introdução

O que são as Disciplinas Espirituais? 


Disciplina é o caminho do discípulo. Quando aceitamos nos submeter a Cristo,
iniciamos nosso discipulado. Muitos desejam ser discípulos de Cristo, mas não querem se
submeter à Sua disciplina. 
Hoje tudo tem que ser rápido, instantâneo. Mas não há como se ter disciplina
espiritual dessa maneira. A superficialidade é uma das maldições de nossos tempos. Não
temos tanta necessidade de pessoas inteligentes, como temos de pessoas profundas e
sábias. E isso não se obtém em um livro do tipo: “10 Passos para se ser Profundo”.
Nossas igrejas estão lotadas de doutores em teologia, mestres em hermenêutica e
PHD’s em exegese, o que é bom, mas nos falta intimidade real com Deus, profundidade
nos relacionamentos com os irmãos e seriedade no que tange ao cuidado com as
disciplinas espirituais. Muitos nem mesmo sabem que existe uma Disciplina da Meditação
Cristã, ou da Contemplação, ou mesmo sabem que o estudo das Escrituras é uma
disciplina espiritual e não um momento chato no culto.
As Disciplinas Espirituais nos convidam a um mergulho nas profundezas de nossa
alma, de nosso ser, para lá encontrarmos um mundo que anseia por ser descoberto e
colonizado.
As Disciplinas Espirituais não são, como pode parecer a princípio, para pessoas
elevadas e que já superaram sua humanidade. Muito pelo contrário. Elas são para gente
comum, de carne e osso, gente que se irrita no trânsito, que se entristece, que fica
deprimida. Pessoas comuns, como você e eu. E elas devem ser exercidas no nosso dia a
dia, e não em um lugar paradisíaco, com paisagens lindas de rios correndo em direção ao
sol. Devem fazer seu efeito entre uma refeição e outra. Entre a trajetória que percorremos
todos os dias de casa para o trabalho e no regresso para casa. Seus efeitos estarão no
relacionamento de marido e esposa, de pais e filhos e entre amigos.
Logo após o início do estudo e prática das Disciplinas Espirituais o iniciante (somos
todos iniciantes, certo?) perceberá duas coisas: Primeiro, não é tão difícil como se
pensava. Segundo, não é tão fácil assim.
Nessa abordagem, seguiremos, apenas para efeito didático, a sequência
apresentada por Richard J. Foster, pastor na tradição Quaker, em seu livro As Disciplinas
Espirituais. Expandiremos o conteúdo a fim de enriquecer nossa experiência com o tema.
O que é preciso para iniciar? A exigência fundamental é suspirar por Deus. O
salmista escreveu: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó
Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Salmo 42:1,
2).
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MEDITAÇÃO

Embora seja uma das mais antigas disciplinas espirituais ela continua sendo
negligenciada e mal compreendida.

Isaque havia ido ao campo numa tarde para meditar…  (Gn 24.63) 

No ano de 2004 pesquisadores da Universidade de Oxford fizeram uma descoberta


por demais significativa. Após anos de estudo, horas de entrevistas e pesquisas com
pessoas que tiveram uma experiência de quase-morte, uma equipe multidisciplinar
envolvendo médicos, psicólogos, psiquiatras, físicos (esses caras estão envolvidos em
tudo!), neurologistas, pessoas sensitivas e extra-sensoriais e até mesmo pastores e
padres, concluíram que O CÉREBRO NÃO É A MENTE! Foi constatado que
a mente (intelecto, pensamento, entendimento, alma, espírito, concepção,
imaginação) permanece viva mesmo após a morte do cérebro (porção do encéfalo que
ocupa, na caixa craniana, toda a parte superior e anterior). 
É com nossas mentes que a Disciplina da Meditação trabalha. Ela nos leva a ter um
maior envolvimento com nossa vida espiritual.
Essa importante disciplina é mal compreendida por cristão e até mesmo difamada.
Ela era uma prática comum na antiguidade, praticada pelos cristão na Idade média com
seriedade e reverência. Com o início do Iluminismo, foi abandonada na maior parte das
comunidades e com a chegada da Era Industrial, esquecida completamente.
Contudo, Deus sempre tem seus remanescentes fiéis. Ela foi guardada por
pequenos grupos como os Quakers, Puritanos, Amish e outros grupos Menonitas e
praticada com fidelidade em muitos monastérios católicos.
Confundida com meditação transcendental e yoga, a Meditação Cristã não é uma
coisa nem outra. Enquanto as duas primeiras têm um foco no indivíduo e no esvaziar-se,
a meditação Cristã só é possível com foco na coletividade, na comunidade, no corpo
místico de Cristo e no encher-se de Deus. Mesmo quando estou a meditar sozinho em
meu quarto, estou emaranhado em uma rede de consciências coletivas que incluem todos
os salvos em Cristo.
Pessoas relevantes dos tempos bíblicos meditavam: Isaque, Davi, Daniel, Maria,
Paulo, João, só para citar alguns.
Os pais da Igreja meditavam: São João da Cruz, Clemente de Alexandria, Inácio de
Antioquia, Policarpo, Justino o mártir, Irineu de Lion, Origines, Tertuliano e outros.
Protestantes famosos meditavam: Martinho Lutero, Huldreich Zwinglio, João Calvino,
João Knox, Thomas Cranmer.
Modernamente nomes como Billy Graham, David Wilkerson, C.S. Lewis, John Stott,
Richard Foster, A.W. Tozer, Daniel Berg, Gunnar Vingren, Abraão de Almeida e Antônio
Gilberto declaram meditar.
Portanto, quem medita está em boa companhia.
Vamos aprender os segredos dessa importante e imprescindível disciplina.
Aprender a organizar nosso mundo interior, a nos conectar com a mente de Cristo, a nos
enchermos de Deus, a descansar das preocupações nos braços do Pai, a emaranharmos
nessa rede composta de pessoas como você e eu que desejam descobrir os segredos e a
importância da MEDITAÇÃO CRISTÃ.

De todas as disciplinas, esta talvez seja a mais prática, e com a qual menos temos
contato. Há sobre o tema uma grande desconfiança e um quase total desconhecimento.
É com nossas mentes que a disciplina da Meditação trabalha. Ela nos leva a ter um
maior envolvimento com nossa vida espiritual.
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O QUE NÃO É MEDITAÇÃO.

1. O privilégio de poucos. Não é algo reservado a iniciados, antes está ao alcance


de qualquer um que queira aprender a ouvir a voz do Senhor. Não são pessoas
“iluminadas” as que conseguem meditar. Antes são aquelas que desejam firmemente e se
submetem à disciplina,

2. Uma viagem extra-sensorial. Não se trata de uma aventura não corpórea,


envolvendo viagem astral. É antes uma profunda introspecção para, no silêncio da alma
ouvir a Deus.

3. Um distanciamento dos problemas seculares. Não se trata de um modo de


desligar-me do mundo. Antes ao contrário. A verdadeira meditação envolve o amor a
Deus em um primeiro plano e aos homens, suas criaturas em um segundo plano e o
mundo no qual se vive.

4. Manipulação psíquica. É verdade que muitos podem se valer de métodos de


meditação para provocar alucinações, sugestões, e até mesmo euforia e êxtase. Mas a
verdadeira meditação, a que procuramos, nada tem com isso. Não é uma busca pela
alienação, mas pela conscientização, pela reflexão e pela lógica espiritual e ponderada.
 
FORMAS EQUIVOCADAS (E ATÉ ERRADAS) DE SE MEDITAR.

1. Meditação Budista. Todas as formas de meditação com base nas religiões do


extremo oriente têm por finalidade o desligamento das aflições da existência em um
estágio de “esvaziamento” chamado de Nirvana. É a busca pelo “não apego”, pelo “não
sentir”. Não há um deus ao qual nos ligarmos, nada além do esquecimento. O Zen e a
Ioga são formas bem populares desta meditação. 

Resposta Apologética: A Meditação Cristã não envolve fuga, nem mesmo do


sofrimento ou da dor. Muitas vezes a Bíblia até mesmo nos diz que temos algo a aprender
com o sofrimento e com a dor (Ec 7.2,4). Além do mais a separação do cristão é
circunstancial e apenas para encher-se de Deus.

2. Meditação Transcendental. É uma variação ocidental dos métodos budistas. Muito


perigosa, pois envolve realmente a vida espiritual e neste caso pretendem ser um
aprimoramento da alma. Não tem nem o rigor nem a disciplina das técnicas orientais.
 
Resposta Apologética: Lucas 11.24-26 nos conta o que ocorre com uma pessoa que
se esvazia do que é mal, mas não se enche do que é bom. 

3. Meditação do tipo “Programa Vespertino Semanal. São esses programas


televisivos que querem ensinar as pessoas a fazer tudo de forma indolor e rápida. Típico
de uma cultura materialista que ainda sente falta de uma vida espiritual.

Resposta Apologética: Vida espiritual profunda requer dedicação e prioridade. Não


teremos profundidade em nossa meditação senão pela perseverança e esforço
contínuos. 

4. Leitura da Bíblia e/ou oração rápida. A leitura da Palavra é imprescindível para


uma vida espiritual sadia e a oração é fundamental. Tanto que ambas são outras
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disciplinas. Mas nem uma nem outra são a Meditação da qual falamos. Roteiros do tipo
“Como ler a Bíblia em um ano” são extremamente válidos, mas de forma alguma
substituem a Meditação. E a oração do tipo “Antes” (antes de dormir, antes de almoçar,
antes de jantar, ao acordar), sinceramente, na maioria das vezes são só embromação
para aliviar nossa consciência e religiosidade inócua. 
 
BASE BÍBLICA PARA A MEDITAÇÃO.

Meditar fazia parte da cultura dos tempos Bíblicos. Era para as pessoas do Antigo e
Novo Testamento e também para os Antigos bastante natural. Esta prática perdeu-se
após a Idade Média, com a Renascença e com o advento do famigerado Humanismo
Secular.

1. No Antigo Testamento:

- Isaque: Saíra Isaque a meditar no campo, ao cair da tarde; erguendo os olhos, viu,
e eis que vinham camelos. (Gn 24.63).

- Davi: Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de
noite (Sl 1.2; 27.4; 63.6; 77.3; 119.99).

- Daniel: no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi, pelos livros, que o
número de anos, de que falara o SENHOR ao profeta Jeremias, que haviam de durar as
assolações de Jerusalém, era de setenta anos (Dn 9.2).

2. No Novo Testamento:

- Maria, mãe do Senhor: Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as
no coração (Lc 2.19).

- João: Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande
voz, como de trombeta, (Ap 1.10)

- Paulo nos orienta a meditar no que é do Alto: Finalmente, irmãos, tudo o que é
verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é
amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja
isso o que ocupe o vosso pensamento (Fl 4.8).

- Jesus nos conduz à meditar: Mateus 6.26-33. 

3. Os sábios do passado meditavam:

- São Francisco, Santo Agostinho, São João da Cruz (que são personalidades
cristãs e não católicas) escreveram tratados sobre Meditação.

- Lutero considerava a meditação “a respiração da alma”.

- Calvino acreditava que a meditação o aproximava de Deus como se ele se


tornasse “uma ave”.

- João Wesley disse que toda oração que fazia estava permeada com horas de
meditação.
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- Sem falar de pessoas como Thomas Kelly, Madame Guyon, Bernardo de Claivaux
e mais recentemente A W. Tozer, John Stott, David Wilkerson, Daniel Berg, C.S. Lewis e
muitos outros.
 
INICIANDO A MEDITAÇÃO

Não há regras para se meditar. Só se aprende a meditar, meditando. Há, contudo


algumas sugestões que podem nos ajudar a dar início à meditação. Cada pessoa com o
tempo desenvolve técnicas próprias com as quais medita.

1. Antes de meditar:

- O Momento: Escolha um momento no qual possa ficar, a princípio, ao menos 20


minutos sem ser interrompido. Desligue o celular e informe às pessoas que não atenderá
telefonemas. 

- O Lugar: Escolha um lugar reservado, no qual possa estar só. Voltaremos ao tema
ao falarmos da Disciplina da Solitude. É bom ter um mesmo lugar. Pode ser ao ar livre,
entre arvores longe do barulho.

- A Postura: Não há uma postura certa, mas pode haver erradas. Uma postura de
desleixo e irreverência podem não ser as mais indicadas. Procure uma postura que lhe
possibilite ficar confortável e assim permanecer por mais tempo. Olhos fechados ajudam a
concentração, olhos abertos ajudam a inspiração. 
 
2. Primeiros Passos:

A Imaginação: Ainda somos inexperientes em meditar. Podemos começar nossa


caminhada usando o poder da imaginação, da criatividade (Êx 31.2-6). Ao orar podemos
permitir que nossa imaginação seja usada pelo Senhor para levar-nos aonde lhe
aprouver.

Os Sonhos: Para os antigos os sonhos eram uma porta para o mundo espiritual.
Freud trabalhou muito com sonhos, mas apenas com seu lado negativo.

- 1°: Podemos orar a Deus para que use nossos sonhos.

- 2°: Se pedirmos isso ao Senhor é bom levarmos a sério. Então seria conveniente
ter uma espécie de “diário de sonhos” para reconhecermos os padrões.

- 3º: Como interpretar? Não estamos trabalhando com psicanálise, embora esta seja
uma matéria séria que merece respeito. Estamos lidando com a graça do Senhor. O que
em meus sonhos pode ser bom sinal, nos sonhos de outro pode não ser.
 
3. Exercícios Específicos:

Tempo: Podemos iniciar com 10 minutos. Para os que já são mais experientes, o
tempo pode ser maior. Este tempo é para que possamos nos desligar da correria e da
pressa. 

Exercício 01: A Respiração: Adequadamente acomodado, inspire e expire de modo


calmo e tranquilo. Ouça atentamente sua respiração. Ore a Deus enquanto faz isso. Não
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peça nada apenas se entregue a Ele. Há um modo correto de inspirar: Enchendo os
pulmões e expandindo o diafragma

RESPIRE SEM PRESSA!

Exercício 02: Palmas das mãos: Com as palmas das mãos para baixo, em um
simbolismo de entrega, diga ao Senhor que você está lhe entregando suas preocupações,
medos, raivas, que está colocando a Seus pés sua vida. Depois com as palmas das mãos
para cima, diga que está pronto para receber seu amor, sua paz, seu perdão. Não peça
mais nada. Apenas lhe entregue sua ansiedade e receba Sua paz. 
 
Exercício 03: Após isso, você pode meditar na natureza, na beleza das coisas
criadas. A Criação fala muito sobre Deus. Louve a Deus por seus feitos. Deixe que a
beleza da natureza lhe permeie a alma. 

Exercício 04: Você pode também mediar nas Escrituras. Em uma passagem
específica, que lhe fale ao coração. Estudar as Escrituras tem a ver com exegese. 
Meditar nas Escrituras tem a ver com torná-la viva, interiorizá-la. 
 
Ato de Percepção: Este é um exercício de imaginação e integração. Podemos nos
imaginar indo ao encontro do Senhor. Em uma mão a Bíblia na outra o jornal do dia. Ao
encontrarmos a Deus lhes apresentamos os dois e lhe pedimos uma revelação. Daí em
diante ou o Senhor nos fala, ou ficaremos gratos por seu discernimento em não nos falar.
A Fé é um fator fundamental para quem quer meditar. Fé e humildade agradam muito a
Deus.
 
Conclusão: A Disciplina da Meditação pode não ser tão fácil como pensávamos,
mas não é tão difícil como imaginamos. Vamos prosseguir com nosso treinamento.
Ânimo!
 
Fontes: - Celebração da Disciplina, Richard Foster. Técnicas de Meditação Ráshuh,
Vera Calvet.

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ORAÇÃO

“A oração é a fortaleza do homem e a fraqueza de Deus”.


Santo Agostinho (354-430)
 
 
 
 Essa é uma das disciplinas mais importantes da vida e da caminhada de um
Cristão. Orar é fundamental no que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus.
Em diversas tradições religiosas a oração aparece como mecanismo central de ligação
entre o homem e “Deus”, porém é na vida de Jesus que se observam os maiores
ensinamentos de como se dever orar e da importância da oração na vida de todo aquele
que serve a Deus.
Espero que possamos ser estimulados a orar mais, e de forma mais eficaz, pois “a
oração move a mão de Deus”.
 
O QUE NÃO É ORAÇÃO.
 
1. O privilégio de poucos. Assim como na meditação, a oração não é algo
reservado a iniciados, tampouco a determinados grupos, seitas, ou até mesmo privilégio
dos cristãos. A oração pode ser praticada por evangélicos, católicos e qualquer pessoa
que deseje falar e ouvir ao Deus Altíssimo. Ninguém precisa ser presbítero, teólogo ou
pastor para orar.

2. Um momento de petição ao Senhor. Não é também apenas um momento para


pedir a Deus aquilo que é necessário para nossas vidas.

3. Um momento de desabafo. Não se trata de um momento apenas de desabafo


com Deus aonde se vai apresentar queixas pessoais contra outros ou em relação a Deus.

4. Um modo de se obter algo. Essa é a famigerada “oração de resultados”.


Tornamos Deus o gênio da lâmpada sempre pronto a atender nossos caprichos.
 
FORMAS EQUIVOCADAS (E ATÉ ERRADAS) DE SE ORAR.
 
1. Reza - repetição de algo formatado por outras pessoas (autoridades eclesiásticas
religiosas), ou de uma oração mecânica e repetitiva formulada pela própria pessoa. 

Mateus 6.7- 8 - E, quando orardes, não useis de repetições inúteis, a exemplo dos
gentios; pois eles pensam que serão ouvidos pelo muito falar. Não vos assemelheis a
eles; pois vosso Pai conhece de que necessitais, antes de o pedirdes a ele.
 
2. Oração do fariseu. Aquela forma de orar em público, com a motivação errada,
apenas para demonstrar às outras pessoas um determinado “nível de espiritualidade”.

Mateus 6.5 - E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar
em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em
verdade vos digo que eles já receberam sua recompensa.

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Essa pessoa está ligada à recompensa terrena e não a motivação verdadeira que é
a de direcionar suas petições, suplicações e orações ao Senhor. Sua intenção está em
ser reconhecido por homens e demonstrar uma espiritualidade mesmo que aparente.

3. Oração do “copo d’água”. Assim como no caso da meditação os programas


televisivos também querem ensinar para as pessoas algo desvirtuado sobre oração,
transmitindo uma mensagem de urgência, rapidez, oração do tipo “self-service”, onde
você escolhe a sua prioridade sem preocupar-se em estabelecer um canal de
comunicação com Deus aonde você estará disposto a submeter-se à vontade do Pai.
Daí cada vez mais as pessoas buscarem as igrejas para pedir, pedir, pedir e pedir,
sempre focando o lado material deixando de lado o lado espiritual, que deve ser
prioridade na vida de um discípulo de Cristo. Você já parou para pensar porque os cultos
de milagres são sempre os mais cheios das igrejas?
 
A oração deve focar um relacionamento com Deus, não apenas falar, como
também ouvir a voz de Deus. Não é um monologo, mas sim um diálogo com o Pai.
Devemos buscar na oração o reino de Deus em primeiro lugar sem nos
preocuparmos com as coisas terrenas e passageiras. 
 
Mateus 6.33 - Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas
vos serão acrescentadas.

Colossenses 3.1 - Já que fostes ressuscitados com Cristo, buscai as coisas de cima,
onde Cristo está assentado à direita de Deus.
 
 
BASE BÍBLICA PARA A ORAÇÃO.
 
Orar fazia parte da cultura dos judeus e dos discípulos de Jesus. Cabe lembrar que
a própria igreja apostólica foi criada e alicerçada na oração. O “dia do pentecostes” Atos
2.1-3 quando ocorreu o batismo coletivo com o Espirito Santo de Deus, foi possível
porque a igreja primitiva orava com frequência buscando ao Deus vivo (Atos 1.13).
O povo judeu orava ao Senhor. No AT, principalmente os profetas, desenvolviam a
prática da oração como forma de relacionamento com Deus, buscando sempre a
orientação de Deus para si e para o povo como foi o caso de Moisés.
 
Antigo Testamento:
 
- Abraão: Gênesis 15.2 - Abraão conversa com o Senhor Deus sobre ter filhos.

- Moisés: Êxodo 8.29 - Moisés diz a faraó que vai orar ao Senhor, que os enxames
de moscas se apartem de Faraó, dos seus servos, e do seu povo; dizendo que ele deixe ir
o povo para oferecer sacrifícios ao Senhor.

- Isaque: Gênesis 25.21 - Ora, Isaque orou insistentemente ao Senhor por sua


mulher, porquanto ela era estéril; e o Senhor ouviu as suas orações, e Rebeca, sua
mulher, concebeu.

- Davi: Salmo 143.1, Salmo 102.1 – Salmista pede ao Senhor que escute suas
orações e responda suas súplicas.

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- Daniel: Orava ao Senhor mesmo que isso significasse transgredir uma ordem do
rei, a oração à Deus era prioridade para ele. Daniel 6.13. Daniel também ensina a orar
com reverência ao Senhor, orar com o coração, com a alma sentindo a oração (Daniel
9.3, 17, 20-22). 
 
Novo Testamento:

Jesus: Sem dúvida Jesus nos dá os maiores ensinamentos de como devemos orar,
e quais são as finalidades da oração: 

Mateus 21.13 - Jesus refere-se a casa de Deus como lugar de oração

Mateus 21.21-22 - Jesus ensina a orar com fé.

Marcos 9.25-29 – oração como arma poderosa e fonte de poder não nosso mas de
Deus em nós como servos.

Lucas 6.12-13 - Jesus nos ensina a orar antes de tomar decisões para pedir
orientação a Deus.

Mateus 26.42 - Oração do Getsêmani, Jesus nos ensina que devemos orar com
sinceridade, porém dispostos a cumprir a vontade de Deus.

Mateus 26.41 - Jesus ensina aos discípulos que eles devem orar e vigiar sem cessar
para não cair em tentação.
Quando levamos uma vida negligente na oração, na leitura da palavra e na vigilância
ficamos mais propensos a quedas. Mesmo que você trabalhe na igreja, seja alguém
bastante ativo, nenhum serviço deve tomar o lugar da oração e da leitura da Palavra na
sua vida, pois o fazer no Reino não é mais importante do que o ser. (ser no sentido de
possuir os frutos do Espirito Santo) 

Os apóstolos: perseveravam em oração e isso foi pré-requisito para o enchimento


com o Espirito Santo de Deus (Atos 1.14, 6.4).
 
- Tiago ensina a orar uns pelos outros (Tiago 5.13-18).
 
INICIANDO A ORAÇÃO

Assim como na meditação não existem regras infalíveis para se desenvolver uma
vida de oração. O importante é que a oração seja um estilo de vida seu, que ela seja
constante. Lembrando que você pode estar em espirito de oração a todo o momento e
você poder separar momentos específicos para orar.
 
Estilos ou tipos de oração:

Intercessoria - Quando você está orando por outra pessoa, pelo seu país, pela sua
cidade, por um missionário, por um enfermo.

Devocional/consagração - Quando você está confessando os seus pecados e


buscando a santificação e o enchimento com o Espirito Santo de Deus.

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Contemplativa - Momento aonde você contempla as maravilhas de Deus, a
criação, a natureza, enfim as obras de Deus. Alguns Salmos eram uma espécie de
oração, eram cânticos onde os salmistas entre outras coisas declaravam a grandeza de
Deus e a criação (Salmo 66.1-3, Salmo 19).
 
1. Antes de orar: 

- Confesse seus pecados e libere perdão: Marcos 11.25 “Quando estiverdes


orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que também vosso Pai que
está no céu, vos perdoe as vossas ofensas.” Lembre-se da oração do “Pai nosso” Mateus
6.9-14.

- O Momento: Escolha um momento em que tenha tempo para orar sem ser


interrompido (importante – desligue-se do mundo – celular, compromissos).
Determine um tempo mínimo inicialmente para suas orações (10 minutos) Observe
que o tempo é mínimo e não máximo, orar nunca é demais.

- O Lugar: Escolha um lugar reservado, no qual possa estar só e aonde se sinta


livre e a vontade para se “despir” na presença do Senhor. É bom ter um mesmo lugar.
Pode ser no seu quarto, ao ar livre, entre árvores longe do barulho e da multidão.

- A Postura: Não há uma postura certa, mas pode haver erradas. Uma postura de
desleixo e irreverência podem não ser a mais indicada. Procure uma postura que lhe
possibilite ficar confortável e assim permanecer por mais tempo. Olhos fechados ajudam a
concentração, porém olhos abertos são indicados para quando você estiver fazendo uma
oração de guerra num culto de libertação, por exemplo, ou num evento evangelístico. 
 
2. Primeiros Passos:

A motivação: Qual o motivo da oração? É uma oração intercessora? Por quem?


Para quê? Seja claro e sem rodeios com Deus. É uma oração de confissão, abra o jogo
como Senhor, mesmo sabendo que ele conhece todo o seu caminhar, diga-lhe o pecado
pelo nome. Lembre-se que ele é seu Pai e enviou Jesus para morrer no seu lugar: I João
1. 9 “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados
e nos purificar de toda injustiça”
 
Derrube os paradigmas: Muitas pessoas e alguns pregadores dizem que “orar é
um sacrifício”, “orar é penoso” e etc., ouvimos tanto isso que geramos uma barreira quase
intransponível dentro de nós mesmos. Comece derrubando esses paradigmas e
colocando em sua mente que orar é prazeroso. Provérbios 2.1-10 mostra o quão
é prazeroso suplicar e alcançar do Senhor sabedoria e entendimento. O Salmista trata no
Salmo 42.8 a oração de forma leve, suave, não só como suplicas de angustia mas como
canção em ações de graça as benfeitorias de Deus. A oração do justo agrada a Deus:
Provérbios 15.8.
 
Disposição: Disponha-te para orar, orar exige disposição e convicção. Se você
ainda não dispõe desses atributos, ótimo, inicie orando para que Deus gere esse desejo
no teu coração, você perceberá que a cada dia vai desejar orar mais e mais.
 
A convicção: Quando estiver orando por um enfermo, possesso, morto e etc., ore
com fé, se você no momento da oração está sintonizado com Deus, saberá a vontade do
Pai naquele momento. Mateus 21.21 não tenha dúvida no teu coração, ore com
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determinação e fé. Hebreus 11.1 “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se
esperam, e a prova das coisas que não se veem.”

Jesus e também os apóstolos oravam de forma determinada sem espaços para


orações “tentativas”, indecisas ou esperançosas. Muitas vezes era tão forte a convicção
de suas orações e tão positivas, que tomavam até mesmo uma forma autoritária como
“levanta-te” “anda” “fica bom”. Obviamente eles acreditavam conhecer a vontade de Deus
antes da oração de fé.
 
Discernimento: Em Atos 14.8-10 narra-se o momento em que Paulo teve
discernimento ao perceber que determinado homem tinha fé para ser curado.  
 
Conclusão

Precisamos orar, orar e orar mais... levar uma vida de oração como estilo e não
como sacrifício penoso. Todos que desejam uma vida espiritual fecunda, com
profundidade devem praticar a “respiração do espírito”.

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JEJUM

Jejum Libertador, Subversivo e Transformador


 
Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que
tendes em nós, pelos que assim andam. Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos
disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a
perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas
coisas terrenas. (Fl 3.17-19) 
Compondo a Visão Integral, o Evangelho Integral nos apresenta uma disciplina
espiritual antiga e cada vez menos praticada: O Jejum Bíblico.
A fim de termos uma perspectiva bíblica sobre o tema, é necessário que revisitemos
antigos tabus e desconstruamos enganos engendrados em nossa teologia, como células
cancerígenas que, embora estejam entrelaçadas no tecido bom, não o são, não fazem
parte dele e ainda o adoecem e, caso não sejam extirpadas, o matam. Estranhamente
não falaremos de algo novo. Não traremos uma “nova forma de ver o jejum”, nem mesmo
reinterpretaremos seu conceito. O que falaremos será algo antigo, algo ancestral. Algo
que se perdeu em meio a uma religiosidade tacanha, canhestra e a prática conveniente
que se instalou em nosso meio, como tantas outras.
A modernidade e o evangelho antropocêntrico tornaram o jejum bíblico uma prática
desnecessária, desfigurada ou ambas. Enquanto no cristianismo primevo e até no
catolicismo primitivo o jejum era visto como coluna de uma espiritualidade plena, no
cristianismo pagão (passo a chamar de Cristianismo Pagão toda e qualquer forma
distorcida de interpretação do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo) é tido como um
entrave, engodo, algo desnecessário e sem sentido. De fato é um impedimento para que
as pessoas consumam coisas e alimentos, essa sim, prática autenticada como sacrílega
pelo cristianismo pagão.
Quando o jejum é feito, é mal feito, desfeito e cheio de defeitos. Inventam-se
práticas não bíblicas e até antibíblicas para substituir o jejum bíblico por uma versão
mais light, diet, soft. Mais palatável e ao gosto do cliente.
Mas porque o sistema decaído procura tanto anular o Jejum Bíblico? A resposta está
oculta em sua natureza perigosa, subversiva e transformadora. O Jejum feito de forma
correta e bíblica REVELA QUEM EU SOU!
Por meio do jejum aprendo a domar meus instintos básicos de sobrevivência e
sexualidade.
E a última coisa que esse sistema de valores pervertido deseja é pessoas
controladas. Ele precisa de pessoas descontroladas que comam mais do que necessitam,
que não questionem a origem, forma e processo pelo qual o alimento é feito, que não
perguntem sobre qualidade, mas por quantidade.

13
Esse sistema deseja pessoas impulsivas que comprem o que não precisam com o
dinheiro que não têm para agradar quem não gostam.
Pessoas que mantenham tudo na superficialidade: Espiritualidade, relacionamentos,
cultura e conhecimento. Tudo deve ser superficial, rápido, indolor e momentâneo.
Hoje se diz que deixar de beijar é jejum, não assistir TV é jejum, não usar o celular é
jejum. Isso tudo pode ser muito bom, mas não é o jejum bíblico! Pode ser abstinência de
algo que se tornou demasiadamente importante para mim, mas NÃO É O JEJUM
BÍBLICO!
    Jejum bíblico mortifica minha carne, é desconfortável, muitas vezes até doloroso e
perigoso e não deve ser praticado de qualquer forma. Contudo é libertador, fortalece o
espírito, regula o fluxo da espiritualidade e revela mundos ocultos entre a natureza
humana e a divindade dentro dos salvos. 
Devemos caminhar entre dois desafios aparentemente antagônicos: A busca por
uma visão moderna, um governo clerical em conformidade com o que há de mais
contemporâneo e o resgate de uma teologia antiga, uma significação verdadeira do
evangelho de Cristo e a busca de conceitos ancestrais de uma espiritualidade plena de
significados.

Convido-o a manter a "mente aberta, espinha ereta e o coração tranquilo". Que


permita que o Senhor Deus ministre em seu coração acerca dessa disciplina tão
importante para a Igreja de Jesus e para o penitente que caminha de joelhos.

Praticado há milênios pelas grandes tradições espirituais, hoje o jejum é


praticamente desconhecido pela maioria dos cristãos e os que o praticam, pouco sabem
sobre ele.
Isto se deve a alguns fatores:

1. A confusão que se faz entre jejum e sacrifício: Durante a Idade Média o jejum era
praticado até a completa exaustão, junto com alto flagelo. Com a chegada do Iluminismo
e da Renascença, o homem passou a ser o centro, e o jejum ficou relegado a um plano
de “coisas absurdas que se faziam”.

2. A possibilidade do consumo em larga escala: A Reforma possibilitou a existência


do Capitalismo e com isso o consumo, antes restrito apenas à “nobreza” e aos muito
ricos, passou a ser praticado pelo povo mais simples. E para o sistema decaído não
interessa o jejum, pois enquanto jejuo, fico mais fraco fisicamente e produzo menos, além
de não consumir.

3. A propaganda alimentar: O apelo ao paladar é hoje extremamente insano. Onde


quer que se vá, há cartazes de alimentos, propaganda de restaurantes etc.
“Sair para comer algo” é um programa de milhões de pessoas no Brasil (outros
muitos milhões não têm o que comer nem em casa). A mídia nos convenceu que se não
comermos pelo menos seis refeições por dia, intermediadas por montes de lanches,
correremos perigo.

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Em muitos países a obesidade é vista, não mais como um mal, mas como uma
endemia. O governo norte-americano gasta aproximadamente $1 bi por ano com o
problema.
Desconhecemos a poder do jejum, seus efeitos benéficos em nosso corpo e até
como realizar um jejum corretamente. É sobre isso que falaremos a seguir.

O QUE É O JEJUM?
Antes de falarmos o que é, devemos falar o que não é jejum.
- Não é greve de fome: O jejum distingue-se da greve de fome no sentido em que o
segundo tem em geral objetivos políticos ou atrair a atenção para uma causa. Já o Jejum
Bíblico tem sempre finalidades espirituais.
- Não é dieta: A dieta tem em comum com o jejum a abstenção de alimentos e só.
- Não é mero ritual: Em Isaias 58 o Senhor se queixa do ritual vazio no qual havia se
tornado o jejum, e no versículo 6 Ele diz o que é o verdadeiro jejum: “Porventura, não é
este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da
servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo?”.

O QUE É O JEJUM BÍBLICO?

- Abstenção de alimentos sólidos e/ou líquidos e/ou água com finalidades espirituais.
Embora se possa jejuar para obter poder, ou benções do Senhor, o jejum deve
sempre ser centrado em Deus, em seu amor, e na santidade que pode levar-nos mais
perto do Senhor.
QUEM JEJUOU?
Tanto o VT como o NT (e também durante o período intertestamentário), os servos
de Deus jejuaram.
- Davi jejuou até quase desfalecer (Sl 109.24)
- Neemias, quando em aflição (Ne 1.4)
- Ester, quando em perigo (Et 4.3)
- Josafá, quando teve medo (2 Cr 20.3)
- Moisés, para receber a Lei (Ex 34.28)
E a lista prossegue por muitos e muitos nomes: Daniel, Elias, Ana, Paulo, Os
apóstolos.
- Jesus Cristo, jejuou: Mateus 4.2 “E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta
noites, teve fome”.

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E ensinou a jejuar: Mt 6.16-18 - “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados
como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que
jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando
jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas,
e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.
Através da história os servos do Senhor têm jejuado:
Martinho Lutero, o reformista;
Calvino, o aço da Reforma;
João Wesley, o sopro de renovação;
Jonathan Edwards, o pregador eloquente;
Charles Finney, o avivalista,
Spurgeon, o príncipe dos pregadores;
Daniel Berg e Gunnar Vingren os fundadores da Assembleia de Deus no Brasil,
Billy Graham, o maior evangelista de todos os tempos;
Gandhi, o maior cristão não batizado;
E assim por diante, passando por pessoas simples que viveram suas vidas de modo
piedoso.
As grandes religiões reconhecem as virtudes dessa disciplina: O Judaísmo, o
Zoroastrismo, Budismo, até mesmo os antigos gregos jejuavam.

PORQUE JEJUAR?

Principalmente porque Jesus ensinou. Nesta linha, Ele ensinou duas coisas:
1. Ele não disse “Se jejuares”, nem mesmo “Deveis jejuar”, mas “Quando jejuares”,
partindo do pressuposto que seus discípulos iriam fazê-lo.

2. Ele declarou que, esperava que seus discípulos jejuassem após sua partida. (Mc
2.18-20). “Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por que jejuamos
nós, e os fariseus muitas vezes, e teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus:
Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com
eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”.
Nós somos esses discípulos. Ele espera que jejuemos, porque os dias são maus.

TIPOS DE JEJUNS: PRÁTICAS EQUIVOCADAS:

- Restrição de prazeres: Uma prática comum e totalmente equivocada em nossos


dias é a restrição de certos tipos de prazeres: Diz-se: Jejum de carne, jejum de cebola,
jejum de abóbora e até jejum de beijos, Whatsapp, Facebook
16
Isto pode ser qualquer coisa, mas não é jejum. Parar de comer carne e continuar
comendo arroz, feijão ovo...não é jejuar.
Posso até optar por restringir certas coisas durante determinados períodos, e isso
certamente agradará a Deus, mas não é jejum.

- Jejum do Bucho cheio: Outra prática errada. Fazer jejum de 12 horas, sendo que
antes da meia noite encho a barriga, durmo das 00:00 até 08:00, acordo e entrego o jejum
ao meio dia. Sinceramente, estou querendo me enganar, porque ao Senhor não engano.

- Sacrifício de Tolo: Pessoas que têm gastrite, úlceras ou outros tipos de restrições
de saúde não devem ir além de suas possibilidades. Deus deseja que o obedeçamos, não
que nos sacrifiquemos.

1. O Jejum Normal: É aquele que implica na abstenção de alimento sólido ou liquido.


Lc. 4.1,2.

2. O Jejum Absoluto: É realizado com a abstinência de alimento sólido ou líquido e


de água. Parece ser relacionado a causas desesperadas (Et 4.16; At 9.9);

3. O Jejum Absoluto Sobrenatural: Moisés e Elias estiveram sem comer nem beber
por quarenta dias. Como o corpo humano não pode passar muito mais de três dias sem
água, estes devem ter sido jejuns sobrenaturais (Dt 9.9; 1 Rs 19.8).
OBS.: É preciso salientar que este tipo de jejum é uma exceção, nunca a regra. Só
proceda assim se tiver uma orientação segura de que o Senhor lhe pede isso.

4. O Jejum parcial: É a restrição de alimentos, mas não total. Daniel era praticante
do jejum normal, mas ao menos em uma vez praticou o parcial (Dn 10.3).

5. Jejuns Públicos ou Coletivos: A Lei previa um único dia de Jejum Público, o Dia
da Expiação (Lv 23.27). Neste dia todos deveriam estar tristes e aflitos por seus pecados.
Hoje há mais de 20 desses jejuns no judaísmo!

6. Jejum Apregoado ou Convocado: Os jejuns eram também convocados pelos


líderes do povo em situação de emergência ou de necessidade (Jl 2.15; 2 Cr 20.1-4; Ed
8.21).

QUANDO SE DEVE JEJUAR? Sempre que a pessoa quiser. Há na Bíblia vários


exemplos de pessoas que jejuaram por vários motivos;

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- Proteção: Ester 4.3 - Em todas as províncias aonde chegava a palavra do rei e a
sua lei, havia entre os judeus grande luto, com jejum, e choro, e lamentação; e muitos se
deitavam em pano de saco e em cinza.

- Perdão: Jonas 3.5 - Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e


vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor.

- Súplicas: Daniel 9.3 - Voltei o rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e
súplicas, com jejum, pano de saco e cinza.

- Obtenção de Poder: Marcos 9.29 - Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair
senão por meio de oração e jejum.

- Direção: Atos 13.2 - E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo:
Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.

E assim por diante. Sempre que a pessoa quiser, pode e deve jejuar, lembrando-se
que o jejum deve ser centrado em Deus.

O QUE O JEJUM FAZ A MIM?

Muitas coisas. Vamos salientar apenas algumas:

- Revela as coisas que me controlam: Quando jejuamos um período longo (mais de


24 h), o que há em mim aflora. Se o que tenho camuflado pela satisfação dos alimentos é
ira, este sentimento se revelará em sua falta. Rancor, inveja, amargura, desejos
libidinosos virão à tona.

- Ajuda-nos a manter o rumo correto de nossas vidas: Nestes dias nos quais o
consumo é praticamente uma lei, o jejum nos mantém seguros de que o que
necessitamos é a graça do Senhor.
Ao jejuar dizemos ao nosso corpo quem manda. Ele quer comer, quer consumir,
quer mais e mais, até ficarmos doentes, obesos, e endividados. O jejum diz ao nosso
Corpo: “Você não me controla, não sou abrigado a satisfazer todos seus desejos” (1 Co
6.12; 9.27).

- Catalisa a oração: O ensino de Jesus sobre jejum está diretamente ligado ao de


dar e orar. São três lados de uma mesma moeda tridimensional, (Mt 6.2; 6.5; 6.16).

18
Estão tão intimamente ligados que é impossível separar. Ao jejuar, minha oração
fica mais sóbria, meus instintos ficam sob tutela de meu espírito.

- Bem estar físico: Pode parecer um anacronismo, mas o jejum me faz bem ao
corpo. Limpa as toxinas acumuladas devido à alimentação, a pele fica mais limpa, meus
reflexos ficam mais instigados (após o terceiro dia), um bem estar é notado, logo após as
18 primeiras horas.

- Revela e faz conexões ocultas com o mundo espiritual: Jejuar nos mostra portas
que geralmente não são vistas por quem não jejua. Revela conexões com o mundo
espiritual que são imperceptíveis a quem não controla a si mesmo.

COMO JEJUAR? Aprender a jejuar é realmente uma disciplina. Um jejum que


agrade a Deus é algo simples, mas requer certo grau de maturidade, compromisso e
persistência.
Aos iniciantes: Inicie com um período de 12 horas e em jejum parcial. Não coma
nada sólido, mas tome sucos de frutas em pequenas quantidades e água sempre que
sentir fome.

- Após esse período, comece a jejuar de almoço a almoço, isto é, não como durante
um dia inteiro, mas tome sucos e água.

- Durante o dia leve seus afazeres como uma celebração ao Senhor. Realize suas
tarefas em ação de graças, busque a Deus em silêncio, O adore. Se puder, retire-se para
meditar e orar.

- Você sentira um mal estar no estômago, mas isso não é fome. É que seu corpo
está habituado a comer nestas horas. Mantenha firme seu propósito e siga em frente.
Nosso sistema digestivo é como uma criança mimada, e crianças mimadas precisam de
disciplina, não de recompensa.

- Procure não chamar a atenção para si, pois o jejum é para Deus, não para que os
outros notem “como sou piedoso”. (Mt 6.16).

- Jejuns mais longos dependem de possibilidade, preparo e experiência. Eles


mudam completamente a perspectiva de nossas vidas. São benção do Senhor e a Ele
agradam.

Conclusão:

19
Se quisermos ter vida espiritual profunda não podemos em hipótese alguma
prescindir do jejum.

Quando foi a última vez que você jejuou?

Já está em tempo de um novo, restaurador e poderoso jejum. O Senhor lhe dará


forças e disposição. Ele é o que lhe pede isto e é você que irá atender seu chamado de
autoridade e de amor.

Fontes: Celebração da Disciplina, Richard J, Foster; O Jejum Bíblico, Jerry Falwell


APRENDIZADO OU ESTUDO

Aprender é algo que fazemos a vida inteira e nos melhora de várias maneiras.
Aprendemos pelo estudo e com nossas experiências. Na infância e na juventude, a escola
nos ensina o fundamental e nos instrumentaliza para aprendermos mais. Com o tempo,
muitas pessoas se aprofundam em estudos, inclusive depois de entrarem no mercado.
Mesmo depois de se tornarem especialistas em suas áreas, alguns continuam dedicando
tempo e esforço para acompanhar os avanços em seus campos de atuação por meio de
seus estudos.

As pessoas que querem se tornar proficientes em qualquer campo, devem se


autodisciplinar para ler, estudar, aprender e praticar. Gastam tempo, dinheiro, compram
livros e frequentar aulas, conferências ou seminários. Procuram a ajuda de coaches,
prestam exames, obtém certificados e diplomas que atestam sua proficiência em seu
campo, profissão ou qualquer área de interesse.

É benéfico aprender, crescer em conhecimento e experiência. Pode torná-lo mais


qualificado e efetivo em sua área, mais capaz de ajudar os outros e trazer melhorias para
seu ambiente de trabalho, além de ajudá-lo a se sentir melhor consigo próprio. Nossas
descobertas e as habilidades que aprendemos podem também ser uma excelente fonte
de enriquecimento pessoal e auto realização. Graças a Deus por todas as oportunidades
de aprendizado que hoje existem.

Aprender em um contexto espiritual

No contexto de nossas vidas espirituais, aprender é também importante. Assim


como estamos dispostos a dedicar tempo para crescer em nossas carreiras, ou para
melhorar nossas habilidades em diversos aspectos da vida, tais como as que dizem
respeito ao relacionamento com os filhos, gastronomia, nutrição, jardinagem, esporte,
investimentos, idiomas, etc., é preciso dedicar tempo para crescer em nossa fé. A
disciplina espiritual do aprendizado se concentra na aquisição das habilidades
necessárias para estudar e aprender mais sobre Deus e nossa fé de forma continuada.

Quando perguntaram a Jesus “Mestre, qual é o mais importante de todos os


mandamentos da Lei?” Sua resposta foi: “Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração,

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com toda a alma e com toda a mente. Este é o maior mandamento e o mais importante.”
(Mateus 22.36–38 - NTLH)

A disciplina do aprendizado se refere a amar Deus com a mente.

Em geral, os cristãos se sentem mais à vontade com a ideia de amar o Senhor com
o coração e a alma. Nós O adoramos como Senhor de nossas vidas, acima de tudo, e a
Ele entregamos nosso coração e alma. Vimos à Sua presença com devoção e louvor e
nos emocionamos quando cantamos, adoramos e oramos. Ouvimos ou lemos
depoimentos de Sua obra maravilhosa, vivenciamos Sua mão em nossas vidas e na
forma como atende às nossas orações. A maioria se sente à vontade com o que diz
respeito à devoção a Deus e nossas experiências com Ele. Sentir-se assim está
relacionado com o que Jesus disse sobre amar Deus com o coração e alma.

Amar Deus com a mente também é parte do grande mandamento e, muitas vezes, é
mais difícil, pois envolve o aprendizado disciplinado. Muitos consideram a doutrina cristã
ou a teologia algo seco, sem emoção, e sentem que é desnecessário e inútil encher a
cabeça com informações. Teologia é o estudo de Deus e estudar a doutrina aborda o que
cremos por sermos cristãos e os motivos de nossas crenças. Saber essas coisas é
importante para entendermos nossa fé e construirmos um conhecimento mais profundo
de Deus.

Uma forte razão para aprender tudo que pudermos sobre Deus foi assim expressa
por Donald Whitney:

O que Deus quer, acima de tudo, é seu amor. E uma das maneiras pelas
quais deseja que você demonstre seu amor e obediência a Ele é aprendendo sobre
o que dele provem. Deus é glorificado quando usamos a mente por Ele criada para
aprender a Seu respeito, Sua Palavra e Seu mundo.

William Lane Craig explica da seguinte forma:

Nós, cristãos, devemos amar Deus não apenas com nossa alma, não apenas
com nossa força, mas também com nossas mentes. O estudo da Sua verdade é
uma das melhores maneiras de você expressar seu amor pelo Senhor — pois
demonstra querer saber como Ele é e como é Sua verdade. Por isso, o estudo da
doutrina cristã é uma maneira de demonstrar seu amor por Deus, disciplinando sua
mente a amar e conhecer Sua verdade. Estudar a doutrina é uma expressão de
amar por Deus com toda a mente.

Por que e para que aprender sobre Deus e sobre a fé

Não é necessário se tornar um erudito em assuntos bíblicos para desenvolver o


aprendizado enquanto disciplina espiritual, mas precisa investir tempo para aprender
sobre Deus, as Escrituras e a fé. Desenvolver a disciplina do aprendizado requer o desejo
de aprender tudo que podemos sobre Ele, sobre Jesus, sobre o sentido da maneira como
Ele viveu, da mensagem que pregou e da Sua morte. Significa entender o plano de Deus
para a salvação, seu desenrolar no Antigo Testamento e sua culminação na vida e morte
de Jesus. É aprender sobre o que Ele quer de nós, Suas criaturas.

Quem ama quer saber tudo a respeito da pessoa amada: seus atributos, do que
gosta, do que não gosta, sua história e tudo a seu respeito. No relacionamento com Deus,

21
o caminho para descobri-lo e conhecê-lo na intimidade é aprender o que Ele revelou
sobre Si mesmo nas Escrituras. Para isso, é preciso estudar.

Uma das metas de quem adota as disciplinas espirituais é se tornar mais como
Cristo, o que necessariamente implica transformar-se, viver mais como Cristo e menos
como o mundo. As Escrituras falam de não nos conformarmos com o mundo, mas de nos
transformarmos pela renovação de nossa mente. Não se amoldem ao padrão deste
mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de
experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Romanos 12.2,
NVI).  Uma importante maneira de renovação mental é entender como Deus age e pensa,
por meio do estudo diligente da Sua Palavra.

Para mudar nossos corações e nossas vidas, a Palavra de Deus deve


necessariamente passar pelas nossas cabeças (Hebreus 5.12–14; 6.1 – NVI).

Os cristãos são chamados para amar Deus com toda a mente. Devemos
continuamente amadurecer enquanto cristãos pelo aperfeiçoamento do nosso
conhecimento de Deus e de Sua Palavra.

Com efeito, devendo já ser mestres, por causa do tempo decorrido, ainda
necessitais de que se vos torne a ensinar os princípios elementares dos oráculos de
Deus, e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de alimento sólido. Ora, todo
aquele que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça,
porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática,
têm as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal. Portanto, deixemos
os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade (1 Pedro
3.15 - NVI).

A disciplina espiritual do aprendizado também afeta a maneira como compartilhamos


o Evangelho com os outros, pois quanto mais conhecimento temos sobre o que a Bíblia
ensina, mais capazes seremos de responder às perguntas das pessoas e, quando
necessário, teremos mais condições de defender nossa fé. Estejam sempre preparados
para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês
(
Tito 1.7,9. NTLH). De um modo geral, as pessoas hoje estão menos dispostas que no
passado a receber a salvação sem antes obter respostas para algumas perguntas, as
quais muitas vezes põe em cheque a perspectiva bíblica. Em alguns casos, isso ocorre
por conta de interpretações equivocadas dos textos bíblicos.

Defender adequadamente sua crença ou responder aos questionamentos sobre sua


fé faz de você uma testemunha efetiva. Há muitos livros que ensinam a responder às
perguntas difíceis.

A autodisciplina para aprender ajuda quando ensinamos aos outros sobre a


fé. Aquele que tem a responsabilidade do trabalho de Deus, … deve se manter firme na
mensagem que merece confiança e que está de acordo com a doutrina.[8] Para
profundarmos nosso relacionamento com o Senhor,  nos tornarmos mais como Cristo,
amadurecermos em nossa fé, sermos mais efetivos em nossa missão e ao ensinarmos os
outros, disciplinarmos a nós mesmos para aprender a estudar a Palavra de Deus é um
esforço recompensador.

22
A diferença entre leitura devocional e estudo

Não há dúvida de que apreendemos coisas espirituais de nossas leituras


devocionais, mas a disciplina do aprendizado vai além. Ela requer o compromisso com o
estudo do significado das Escrituras, da mensagem dada para seus primeiros
destinatários, das verdades reveladas e das doutrinas que delas emanam. O foco da
leitura devocional é refletir: “O que a Palavra significa para mim? Como posso aplicá-la
em minha vida hoje?” Isso é necessário e uma forma importante de Deus falar com os
corações de cada um sobre suas necessidades, pecados específicos, etc. É muitas vezes
é uma experiência em que a leitura, o sermão ou a história contada pode inspirar, enlevar
e causar sentimentos positivos, aproximar-nos do Senhor, coisas muito valiosas e
certamente parte de aprendermos sobre Deus e Seus caminhos. Contudo, a disciplina do
aprendizado diz respeito ao estudo profundo da Palavra de Deus, por meio do que
passamos a conhecer e entendê-la melhor.

A disciplina do aprendizado procura estudar o significado da Palavra, da mensagem


dada e é pelas Escrituras que Deus se revela, ensina, explica Seu plano, apresenta os
meios para a salvação e nos diz o que espera de nós. Estudar as Escrituras e livros que
ensinam o significado da Palavra, ou que ensinam a respeito de livros bíblicos
específicos, ou doutrinas ensinadas na Bíblia são parte da disciplina do aprendizado.

Gosto de ler a Bíblia e, de um modo geral, acho que entendo sua mensagem.
Contudo, quando combino minha leitura com um estudo bíblico, ou quando leio ou ouço
palestras que explicam mais detalhadamente as passagens bíblicas ou o contexto em que
ocorreram ou foram escritas, ou por que nós, cristãos, temos determinadas crenças com
base no que as Escrituras revelaram, sinto que meu entendimento da Bíblia se aprofunda,
passo a compreender melhor os ensinamentos e como eles se relacionam à minha fé e
minha vida.

Admito que o estudo da teologia e doutrina não é sempre fácil. Exige trabalho e, às
vezes, é necessário pesquisas em textos complicados. É um esforço feito para adquirir
uma perspectiva mais ampla do que Deus revelou à humanidade pela Sua Palavra
escrita. Isso é muito diferente de ler a Bíblia para fins devocionais ou escutar a um
palestrante inspirado. Estudar as Escrituras com o propósito de aprender sobre Deus
ajuda a aumentar nosso entendimento de Deus e nossa fé. É uma forma de amar Deus.
Aprender e estudar dessa forma, combinado com leituras devocionais, nos leva a amar
Deus como Ele pediu, - com o coração, alma e mente.

Estudar assim permite entender como sua fé “funciona” e conhecer mais


profundamente suas razões subjacentes. Aprender sobre as Escrituras, seu contexto, seu
significado geral — inclusive a história da interação de Deus com a humanidade, com o
Antigo Israel especificamente e o plano de Deus para a salvação por meio de Jesus —
então quem Ele é e por que faz o que faz se torna mais claro. Assim, você aprende mais
sobre Ele, o que Ele quer de nós e por quê. Em suma, passa a conhecer Deus de uma
forma pessoal mais profunda. Aprender a Seu respeito, em um nível tão fundamental,
com base em uma compreensão mais profunda do que Ele disse a Seu próprio respeito
nos permite entender melhor Suas razões para querer que sejamos e vivamos de certa
maneira, e nos ajuda a harmonizar nossas vidas com Ele.

23
Seja um aprendiz intencional

Os benefícios de aprender e estudar são muitos, mas o caminho para o aprendizado


espiritual não é fácil. Requer trabalho, estudo, tempo e disciplina. Com base em minha
experiência pessoal, contudo, posso dizer que é um esforço recompensador. Aprender
mais sobre “como funciona” minha crença abriu o significado das Escrituras para mim e
aprofundou minha fé. Apesar de ter de ler e estudar alguns trabalhos acadêmicos um
tanto secos e excessivamente técnicos, ficar firme em meu programa de estudo me deu
um entendimento mais profundo de Deus e Sua verdade. Tentei resumir os fundamentos
teológicos que aprendi em meus estudos na série “A essência de tudo”, para servir como
um bom alicerce para o estudo e aprendizado das Escrituras.

Praticar a disciplina do aprendizado significa tornar-se um aprendiz intencional em


vez de acidental. Donald Whitney explica assim esse conceito:

A idade e a experiência não bastam para aumentar sua maturidade espiritual.


Ser mais como Jesus não é fruto do acaso nem um processo natural que se dá a
cada aniversário … Aqueles que não estão tentando aprender adquirem
conhecimento espiritual e bíblico por acaso ou conforme a conveniência. Volta e
meia ouvem falar de um fato ou princípio bíblico e se beneficiam com isso. De vez
em quando, se interessam mais por um assunto ou outros. Mas não é assim que se
dá o caminho da santidade. A disciplina do aprendizado nos ajuda a ser aprendizes
intencionais, não acidentais. …E isso requer disciplina.

Pode ser difícil encontrar o tempo para estudar e aprender, mas vale a pena. Esse
aprendizado muitas vezes acontece pela leitura, mas esse não é o único recurso. Há
cursos em áudio e vídeo disponíveis online que são muito bons para ensinar os
fundamentos da fé cristã.

A maioria dos livros de teologia que tratam dos mesmos temas tem pelo menos mil
páginas. Um que sei que é mais curto é Teologia — Os Fundamentos, de Alister E.
McGrath.

Mesmo que você não tenha muito tempo disponível, assumir o compromisso de ler
apenas algumas páginas por dia ou escutar uma palestra a cada manhã, com o tempo
você termina o material e entenderá sua fé mais profundamente e fortalecerá sua
conexão com Deus. Entender o Senhor e Sua Palavra melhor o ajudará a ser uma pessoa
melhor, um cristão ou cristã melhor e uma melhor testemunha para os outros. Além disso,
você poderá contar com mais uma via para amar Deus, quando buscá-lo de todo coração,
alma e mente.

24
SIMPLICIDADE

“Quando vivemos verdadeiramente na simplicidade interior, toda a nossa aparência


é mais franca, mais natural. A verdadeira simplicidade... dá certa abertura, moderação,
inocência, alegria e serenidade, o que é encantador quando o vemos de
perto continuamente e com olhos puros. Oh, quão amável é esta simplicidade! Quem ma
dera. Por ela deixo tudo. Ela é a pérola do Evangelho!” (François Fénelon)
 
 
Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim
também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da
simplicidade que há em Cristo. (2 Coríntios 11.3)
 
Introdução:

Um dos livros mais importantes já escritos tem em português o título “Cristianismo


Puro e Simples”. Escrito por CS Lewis no período da II Grande Guerra Mundial, versa
sobre o modo, conduta, filosofia e regra de vida de um seguidor de Cristo. Nesse livro ele
descreve a simplicidade e a profundidade do viver cristão.
Hoje a Igreja substituiu esse viver por um modo de vida superficial e complexo que
em pouco lembra a simplicidade do Nazareno e de seus discípulos.
 
O QUE NOS LEVA A TERMOS VIDAS FRAGMENTADAS?

- Substituímos o SER pelo TER - O Sistema nos leva a sempre estarmos


insatisfeitos com o que temos. Leva-nos a desejar outro emprego, outro carro, outro
celular, outra esposa, outro namorado etc., o que nos leva ao consumo.

- Consumo como meta de vida - A principal meta da vida em nossa cultura


ocidental-enferma-psicótica é o consumo. Se não andar na moda, se fugir dos padrões

25
doentios e incoerentes serei marginalizado. “Qual o tamanho de seu sonho?”. “A História
das Coisas”.

- A definição da Perversidade - As pessoas são definidas pela quantidade e não


pela qualidade. Tanto do que produzem como do que consomem. “Mais!”, grita Mamon do
mais profundo dos infernos.
 
1. O CONCEITO BÍBLICO DE SIMPLICIDADE

- O Ponto de Apoio: De todas as Disciplinas, a da Simplicidade é a mais visível,


portanto a mais sujeita à corrupção. Toda disciplina tem um ponto central, no caso da
Simplicidade este ponto é O REINO DE DEUS (Mt. 6.25-33).

- Há três atitudes interiores para se tomar, se se deseja uma Simplicidade


Espiritual:

1. Receber o que temos como Dom de Deus: Deus é que dá o crescimento. Deus


é que concede o sol a justos e injustos (e quem é realmente justo?). Deus é quem me dá
o Dom da vida e a alegria de viver.

2. O que temos deve receber o cuidado de Deus: Não é a tranca da porta, o


alarme do carro, a força física ou qualquer outra coisa que protege a mim ou o que tenho,
mas o cuidado do Senhor. Por uma questão de prudência devo tomar minhas precauções,
mas “se o Senhor não edificar a casa, em vão vigia a sentinela”.

3. Ter meus bens disponíveis aos outros: É talvez a atitude mais difícil. Minha
vida só fará sentido se o que fizer abençoar meu próximo e não apenas meu irmão.
 
JESUS E MAMON

- Jesus declarou guerra à Mamom (que em aramaico quer dizer riqueza):


 
“Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque ou há de aborrecer a um e amar
ao outro ou se há de chegar a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e a
Mamom” (Lucas 16.13).
 
- Falou sem meios-termos sobre a luta social, e tomou partido.

- Viu as garras que a riqueza coloca nas pessoas.


 
"Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde
os ladrões minam a e roubam. Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a
ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam, nem roubam. Porque onde estiver o
vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" (Mateus 6.19-21)
 
- Mandou que o jovem rico se livrasse das riquezas.

- Mandou que tivéssemos cuidado com o que possuímos.

- Aconselhou as pessoas que buscavam por Deus a dar seus bens.

- Chamou um fazendeiro que confiava nas posses de louco.


26
- Comparou o Reino de Deus a uma pérola de grande valor, pela qual valeria
vender tudo e tê-la.

- Mandou que fôssemos despojados e sem apegos materiais (Lc 6.30).

Em suma, Jesus era mesmo preocupado com temas sociais e a eles dedicou boa
parte de seus discursos. Quem nega isto ou o faz por conveniência ou por leniência.
Provavelmente por ambas.
 
A EXPRESSÃO EXTERIOR DA SIMPLICIDADE

Simplicidade só será realmente relevante se tiver uma expressão exterior. A


realidade interior não será realidade enquanto não houver uma expressão exterior.

Segue uma lista de 10 princípios que podem nortear uma atitude exterior da
simplicidade. Não são nem pretendem ser uma regra ou lei, mas somente princípios que
podem nos ajudar:
 
1° Princípio: Compre coisas pôr sua utilidade, nunca pôr seu “status”.  Compre
um carro que precisa, não para impressionar. Roupas por utilidade, não pela moda.
 
2° Princípio: Rejeite qualquer coisa que o esteja viciando: Dependência é morte!
Não são só drogas que viciam também refrigerantes, cafés, televisão, doces...
 
3° Princípio: Crie o hábito de doar coisas: Roupas que não usa (melhor ainda se
ainda forem úteis e usáveis), relógios encostados, utilitários... Desacumular é a ordem.
Menos é o novo mais!
 
4° Princípio: Resista às propagandas: Elas são feitas para manipular mentes
fracas. Duvide, pergunte, critique, e não se deixe conduzir. RESISTA!!!!!
 
5° Princípio: Aprenda a desfrutar de prazeres simples. Não precisamos estar
consumindo o tempo todo para sermos felizes.

6° Princípio: Desenvolva um amor verdadeiro pela Criação: Ela pode falar muito
mais do que imaginamos sobre Deus. E nos fazer um bem muito maior do que
esperamos.
 
7° Princípio: Tome cuidado com seu endividamento: Há muitos perigos nas
facilidades dos empréstimos rápidos e nas “promoções” imperdíveis. Os empréstimos
rápidos você levará meses pagando, e as promoções imperdíveis não costumam ser
promoções e em geral são “perdíveis”.
 
8° Princípio: Procure ter uma linguagem clara e honesta: O cinismo foi
glorificado pelo cinema americano como coisa de gente inteligente. Mas não é. Seja claro
ao falar. E procure com a própria vida cumprir.

9º Princípio: Recuse tudo que gere ou colabore ou corrobore ou favoreça a


opressão: Isso inclui CD’s piratas, programas falsificados, marcas que estimulem ou
apoiem a violência (bad boy, Zara, por exemplo), compra de coisas de países que
sabidamente usam mão de obra escrava (como produtos chineses).
27
 
10° Princípio: Evite como a Peste, qualquer coisa que o distraia de seu objetivo
principal. Após tomar essas metidas, muitas “oportunidades” de ouro irão surgir. Resista.
Mantenha seu propósito firme e o Senhor lhe abençoará.
        
Simplicidade, o Estilo de Vida da Discípulo de Cristo
 
“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que
é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma
virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que aprendestes, recebestes, ouvistes e
vistes em mim, tudo isso praticai; e o Deus de paz estará convosco. Alegro-me muito no
Senhor por terdes finalmente renovado o vosso cuidado para comigo, do qual na verdade
estáveis lembrados, mas vos faltava oportunidade. Não digo isso por causa de alguma
necessidade, pois já aprendi a estar satisfeito em todas as circunstâncias em que me
encontre. Sei passar necessidade e sei também ter muito; tenho experiência diante de
qualquer circunstância e em todas as coisas, tanto na fartura como na fome; tendo muito
ou enfrentando escassez. Posso todas as coisas naquele que me fortalece
(Filipenses 4.8-13).

 
CONCLUSÃO
Que Deus nos dê a força necessária para mantermos como objetivo de nossa vida o
“buscar em primeiro lugar Seu Reino e Sua Justiça”. As outras coisas serão naturalmente
acrescentadas. Jamais subtraídas.
 

28
SOLITUDE

É na profunda solitude que encontro a afabilidade com a qual posso


verdadeiramente amar a meus irmãos. Quanto mais solitário estou, tanto mais afeição
sinto por eles. É pura afeição e cheia de reverência pela solitude dos outros. Solitude e
silêncio ensinam-me a amar meus irmãos pelo que eles são, e não pelo que dizem
(Thomas Merton)
 
INTRODUÇÃO

Existe uma diferença muito tênue entre solitude e solidão. A barreira limítrofe entre
solitude e solidão é tão fina e chega a ser imperceptível. Mas o certo é que solitude e
solidão, apesar de tão próximas não significam a mesma coisa, e no contexto das
disciplinas espirituais aí é que não tem nada haver uma com a outra. Veremos como a
solitude pode e deve ser instrumento não mão do Cristão.
 
Diferença entre solitude e solidão.

1. Segundo o dicionário Aurélio e o dicionário Houaiss. No dicionário solitude


aparece como sinônimo de solidão. O Aurélio trata solitude como sinônimo perfeito de
solidão apenas fazendo menção sobre ser uma forma poética da menção da palavra. Já o
Houaiss, (um dos dicionários modernos mais indicados pelos professores de português)
admite solitude como sinônimo de solidão, porém conservando características específicas
a ambas palavras: 

Segundo Houaiss:

Solidão: estado de alguém que se sente só.


Ex. apesar da multidão, ele sentia-se só – ou seja, a solidão nesse caso está
relacionada a um sentimento (por vezes ruim).
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Solitude: aparece como um estado e não um sentimento.
Podemos subentender então, para simplificar da seguinte forma: Solidão: sentir-se
só, Solitude: estar só.
 
Segundo o autor Richard Foster:

Solidão: é vazio interior

Solitude: é realização interior – não é um lugar e sim um estado de mente e do


coração.
 
Características da solidão:
- MEDO: Segundo Foster Jesus nos chama da solidão para a solitude. O
pensamento do autor atrela a solidão ao medo – medo de ficar só.

- FUGA DO SILÊNCIO E DA QUIETUDE: o autor esclarece que o nosso medo de


ficar sozinhos nos impulsiona para o barulho e para as multidões
 
Características e formas de solitude:
- Alternativa à solidão: a solitude apareceria então como uma alternativa ao medo
da solidão. Não precisamos correr da solidão em direção à multidão, mas podemos
cultivar uma solitude e um silêncio interior que nos livram da solidão e do medo.

- Um estado de mente e de coração: que pode ser cultivado independente do lugar


ou da ocasião – as pessoas ou a ausência delas não influenciam nesse estado interior.
SE houver pessoas nós não teremos sua presença pois saberemos que elas não vão nos
controlar pois a solitude cultiva em nós o domínio próprio (principalmente da língua) SE
estivermos sós não teremos medos, pois saberemos lidar com essa situação e também
saberemos que não estamos só realmente.

1. INTERIOR: Quando, independente da situação, aglomeração de pessoas,


trânsito, barulho e etc., você se coloca numa postura “reflexiva” e se desliga do “rebuliço”
ao redor e se concentro no seu interior
2. EXTERIOR: Quando você se dirige a lugares próprios, num cantinho da
casa, em um lugar retirado, (no monte por exemplo) numa salinha no local de trabalho
na hora do almoço etc., e cultiva o silêncio e a quietude.

Jesus: Viveu em estado de solitude interior e experimentou a solitude exterior


também. Jesus começou seu ministério no deserto (Mateus 4.1-11), Antes de escolher os
discípulos Cristo passo a noite inteira orando sozinho num monte (Lucas 6.12). No
Getsêmani Ele estava em profunda solitude (Mateus 26.36-46)

SILÊNCIO: Sem silêncio não há solitude – o silêncio é tão fundamental para o


alcance da solitude interior que sem silêncio é impossível haver solitude – mas veja bem,
o silêncio pessoal, daquele que busca a solitude, pois como vimos anteriormente você
pode estar em solitude interior independente da ocasião e do lugar onde estás.
 
 - O controle: o silêncio passa pelo controle, e não pela ausência de ruído. Falar no
momento em que se deve falar e principalmente saber ouvir. A finalidade do silêncio é
poder ver e ouvir. Quando você se detém de falar de maneira desenfreada e passa a

30
ouvir mais e a observar mais você acaba “enxergando” melhor as coisas de forma mais
ponderada e sábia.

- A Língua: Devemos também, guardar a nossa língua diante de Deus, na solitude,


podemos ouvir a voz de Deus e para isso o silêncio interior e fundamental. Temos que
entender que Deus está no céus e Ele é quem é o Rei, o Mestre, portanto dele deve vir a
palavra:
Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar
palavra alguma na presença de Deus; porque Deus está no céu, e tu estás sobre a terra;
portanto sejam poucas as tuas palavras (Eclesiastes 5.2)

1. Sacrifico de Tolo - Usamos demasiadamente palavras buscando nos


justificar, tentamos convencer as pessoas sempre dos nossos motivos e razões para ter
cometido tal ato ou ter dito determinada coisa. Nós devemos deixar que Deus nos
justifique (Provérbios 29.19, 30.6). Jesus foi levado à cruz e não disse palavra alguma
até o momento que entregou o espírito à Deus.

- Saber controlar a língua é sinal de sabedoria e prudência (Provérbios 10.19, 17.27)

- O livro de Tiago no seu capitulo três nos ensina que devemos controlar a nossa
língua (maledicência – etc.)

- Falar de mais pode significar insensatez (Salmo 49.13, Provérbios 29.20,


Eclesiastes 5.3).

- Finalizando, o controle é fundamental, saber falar e calar como está escrito no livro
de Eclesiastes capitulo 3.7. E Provérbios 25.11 exalta a palavra dita no momento certo.
 
A NOITE ESCURA DA ALMA

É o que São João da Cruz denominou de noite escura, uma experiência que não
visa castigar, afligir e sim libertar. 

O que é a noite escura da alma? 

Um sentimento de aridez, de deserto de sentir-se perdido. Segundo o autor ela nos


despoja da dependência excessiva da vida emocional. Seria um momento no qual você
tem a sensação de não ouvir a voz de Deus, não sentir arrepios, nem sentir suas
emoções alcançadas pela ação do Espírito Santo. Segundo o autor existem correntes que
dizem que devemos nos privar dessa situação “experiência” e que devemos buscar viver
em paz, conforto, alegria e celebração. Tal pensamento está atrelado ao fato de que
muito da experiência contemporânea não passa de sentimentalismo superficial. Os
sentimentos vão se embora e fica o senso de que não alcançamos Deus.

São João da Cruz descreveu deste modo:


... a escuridão da alma mencionada aqui... põe os apetites sensórios e espirituais a
dormir, amortece-os e os priva da capacidade de encontrar prazer em qualquer coisa.
Castra a imaginação e impede-a de fazer qualquer bom trabalho discursivo. Ela faz
cessar a memória, faz o intelecto tornar-se obscuro e incapaz de entender qualquer coisa,
e daí levar a vontade também a tornar-se árida e constrita, e todas as faculdades vazias e
inúteis, E acima de tudo isto, paira uma densa e cansativa nuvem que aflige a alma e a
conserva afastada da Deus.
31
 
Toda distração do corpo, mente e espírito deve ser posta numa espécie de
animação suspensa antes que possa ocorrer esta profunda obra de Deus na alma. O
anestésico deve fazer efeito antes que se realiza a cirurgia. Virá o silêncio, a paz, a
tranquilidade interiores.
 
A escuridão da alma pode ser melhor entendida como um processo de preparação e
lapidação aonde a pessoa estará passando por um “deserto”, da mesma forma que
aconteceu com Jesus, onde ele foi tentado pelo diabo, e passou ali 40 dias sem a
proteção e a voz de Deus, certamente suas emoções e sentimentos estava amortecidos
naquele momento, onde ele não ouvia a Deus, mas estava fundamentado na palavra.
 
Comentários: “a escuridão da alma” pode ser entendida como um processo de
tratamento aonde se terá a sensação de não sentir a presença de Deus, os sentimentos
estarão ressequidos, mas a presença do Senhor estará ali, mesmo que não se sinta. O
equilíbrio e o objetivo será alcançado, se, mesmo sem sentir você permanecer firme, com
convicção da presença de Deus, ainda que não sentida fisicamente. Isso é Fé (I Pedro
1.7, Tiago 1.3, Hebreus 11.1).

Como se portar na escuridão da alma:

1. Não dar ouvidos a opinião dos amigos;


2. Não tentar se justificar, por conta do seu estado aparentemente
“aborrecido”;
3. Se puder, retire-se (a sós) para um lugar deserto;
4. Mantenha no coração silêncio interior e haja silêncio até que a obra da
solitude se complete;
5. Continue marchando, não pare de caminhar na sua vida profissional,
estudantil, afetiva, emocional, ministerial, - lembre-se que a solitude independe de lugar
e ocasião, ela é interior, e exterior, mas sobretudo interior.

Passos para solitude:

1. Buscar as pequenas solitudes. No transito, na xícara de café de manhã


cedo, exercitando a solitude sempre com silêncio, num momento no horário do almoço,
sempre que tiver oportunidade exercite a solitude interior. Sair um pouco antes de dormir
à noite e contemple os céus e prove a noite silenciosa.

2. Podemos criar um lugar tranquilo para silêncio e solitude. Em casa por


exemplo, dedicar um cantinho aonde você possa se colocar só sem ser importunado por
ninguém.

3. Contemplação. Lugares fora de casa como um parque, um templo de uma


igreja;

4. Discipline-se para falar pouco e dizer muito. Ou seja, não seja um


despejador de palavras ao vento, mas se esforce para ser conhecido como alguém que
pouco fala, mas quando fala usa corretamente as palavras e é fonte de sabedoria.
Sempre tendo cuidado para fazer o que disse que faria, ou seja, cumprir seus votos e
compromissos

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5. Tente viver um dia inteiro sem proferir uma palavra, fazendo não como
uma lei mas como um experimento;

6. Retire-se uma pelo menos duas vezes por semestre durante quatro horas
para reorientar os seus alvos e planos. Pense nos alvos de curto prazo (1 ano) e de
longo prazo (10 anos) sempre se permitindo sonhar, tenha cuidado de não ser modesto
ou “realista” demais.
 
Conclusão

Devemos fazer uso da solitude para alcançarmos mais sabedoria, tolerância, amor,
mansidão, para escutar a voz de Deus, para ouvir melhor e falar com mais qualidade e
finalmente para solidificar nossa fé em Cristo Jesus.
 
Portanto, "se desejarmos estar com os outros de modo significativo, devemos buscar
o silêncio recriador da solitude. Se desejamos estar sozinhos em segurança, devemos
buscar a companhia e a responsabilidade dos outros. Se desejamos viver em obediência,
devemos cultivar ambos". (Richard Foster)
 
 

SUBMISSÃO

“O cristão é o mais livre de todos os homens.


E não está sujeito a ninguém.
O cristão é o mais submisso de todos os homens
E está sujeito a todo o mundo.”
(Martinho Lutero)
 
 
INTRODUÇÃO

Entre as Disciplinas, nenhuma tem sido mais mal interpretada do que a da


Submissão. Tem sido reticentemente distorcida, retorcida, torcida, contorcida. Sido mais
mal interpretada, reinterpretada, deturpada, mais manipulada para infringir aos livres a
repressão e a opressão.  
 
CONCEITO DE SUBMISSÃO BÍBLICA

A Bíblia não nos impõe uma série de hierarquia, mas nos orienta a sermos
submissos uns aos outros. O que vem a ser isso? (Egocêntrico, etnocêntrico,
mundicêntrico e Cristocêntrico)

1. É a liberdade de abrir mão dos próprios direitos em benefício dos outros. Na


submissão bíblica os outros se tornam realmente importantes.

2. É a liberdade de poder amar incondicionalmente. Claro que isto requer certo gral
de espiritualidade. Aprendemos assim a “amar nossos inimigos” (Mt 5.44) e a “dar a outra
face” (Mt 5.39).

33
3. É a capacidade de distinguirmos problemas reais da vontade própria. Quando a
submissão me preenche, minhas vaidades são dissipadas. Muitos de nossos problemas e
divisões vêm do fato de que cada um quer que as coisas sejam do seu modo. Se, ao
contrário, permito que as coisas sejam de uma forma que nem sempre é a minha, a
tensão tende a se estabilizar.

3. A Pedra de Toque. Há uma passagem que torna tudo mais claro:


“Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se
alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem
quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do
evangelho salvá-la-á (Mc 8.34-35).

A autonegação nos deixa de cabelos em pé. Temos medo de perdermos a


identidade, mas uma coisa não implica na outra. Voltaremos ao tema mais tarde.
 
SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS.
 
1. Submissão e Subordinação: A princípio parecem sinônimos, mas guardam uma
diferença importante:

- Submissão: É uma disposição para aceitar um estado de dependência com


docilidade.

- Subordinação: Estado de dependência ou obediência em relação a uma hierarquia


(de posição ou de valores).

Qual a diferença? É bem sutil a diferença. Para os mais desatentos podem ser a
mesma coisa. Mas da perspectiva deste estudo são diferentes. Na primeira eu CEDO
livremente minha liberdade, na segunda ela me é exigida. A submissão imposta torna-se
subordinação e entre uma e a outra cabe todo o inferno da tirania.
 
2. O Indivíduo e O Sujeito. Há uma diferença muito grande entre se ser um ou
outro. Todo o esforço da modernidade é para transformar-me de indivíduo em sujeito.

- Sujeito: É uma pessoa que deseja o que querem que deseje, é o que querem que
seja, pensa o que querem que pense e acima de tudo, age como dizem para agir. Já não
ama nem a sim nem aos outros e perdeu o senso da realidade.

 - Indivíduo: É um ser humano dotado de personalidade de individualidade e de


vontade. Um Indivíduo mantém seu amor próprio.
 
Michel Onfray escreveu: “Toda a política clássica, claramente, propõem uma arte de
submeter o indivíduo e dele fazer um sujeito, com o auxílio dos caprichos e vantagens
que se permitem a uma pessoa... e isso não for suficiente, então pode-se usar a máquina
de torcer os ossos e quebrar as almas”.
 
O Senhor Jesus nos quer inteiros, não fracionados, não divididos. Quer-nos
conscientes e alertas, não em estado de torpor de sonolência, um estado pré zumbi-
gospel- pré- apocalíptico, mas atentos, alertas a qualquer tentativa de manipulação o qual
Ele despreza. 
 
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3. Autonegação é diferente de autodesprezo: Voltamos aqui ao tema da
autonegação.

- No autodesprezo, perco minhas características de indivíduo e torno-me apenas um


sujeito. No autodesprezo, mato meu amor próprio e fico impedido de amar ao próximo.

- Na autonegação permito que meu eu (aquele déspota mesquinho) seja crucificado


e em seu lugar reine o Senhor Jesus. A autonegação é a forma mais pura de manter o
amor próprio. Em verdade, a autonegação é a única forma de nos darmos o devido valor,
mantermos nossa identidade e nos amarmos, sem que nos tornemos o centro de nossas
próprias vidas.

Jesus não deixou de ser quem era por fazer a vontade do Pai (Mt 26.39), Pedro não
perdeu a identidade ao obedecer a Jesus (Jo 21.19), Paulo foi Paulo até o final, ainda que
renovado após saber que sua vida seria dura (At 9.16).
 
SUBMISSÃO ENSINADA NA BÍBLIA.

A submissão Bíblica não é condicionada a um lugar ou a uma posição, antes é


obrigatória a todos sem exceção.
     1. A Submissão ensinada por Jesus. “Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a
forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem,
humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2.7,8).

Há um adágio que diz: “As palavras conduzem, o exemplo arrasta”. Jesus viveu uma
vida de submissão ao próximo. Levou a sério as mulheres, consideradas inferiores
naquela cultura, demonstrou que para ser o primeiro é necessário ser o último (Mc 9.35) e
por fim disse:
“Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.  Em
verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o
enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-
aventurados sois se as praticardes (Jo 13.15-17).

É a lógica da Contracultura de Cristo, demolindo valores.

“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada (Mateus
10.34)

“Destruindo templos e desconstruindo o império das trevas 

“Eu vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisera que já estivesse a arder (Lucas
12.49)

Para implantar no coração dos homens o Reino do Filho do Seu Amor. (Colossenses
1:13 

“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do
seu amor” (Colossenses 113).
 
Submissão nas Epístolas.

- 1 Pe 2.21-23: Instruindo sobre a submissão, Pedro lembra a Cristo.


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- Ef 5.21: Paulo nos orientar a submissão em amor. Há apenas dois tipos de
submissão legítimos: em amor e em obediência. Todo o restante é tirania.

- Ef 2.3: A hierarquia do Evangelho.

- Cl 3.18-23: Não mais uma hierarquia imposta, mas uma submissão voluntária e em
amor.

- O Caso Onésimo: Onésimo era um escravo fujão que provavelmente converteu-se


na prisão. Paulo o instrui a retornar a seu antigo senhor e a esse para libertá-lo. Onésimo
deveria submeter-se a Filemon retornando. Filemon deveria submeter-se a Onésimo o
libertando. E ambos deveriam viver em submissão “no temor do Senhor” (Ef 5.21).
 
LIMITES DA SUBMISSÃO:

Os limites da submissão estão aonde ela se torna tirânica, manipulação, destrutiva e


principalmente quando está em desacordo com a orientação Bíblica.

1. Submeter-se e ser submetido: A Bíblia nos orienta a sermos submissos. Mas


ninguém pode nos submeter. A submissão é um ato de Fé, obediência e amor. É
totalmente voluntária e incondicional. Qualquer pessoa que pela força, queira nos
submeter é um “déspota, um tirano e terei o declarado meu inimigo” (Proudhon).

2. O “Resvalo” Bíblico: Pedro orienta-nos a sermos submissos a toda instituição


humana (1 Pe 2.13,14). No entanto quando esse mesmo governo ultrapassa os limites,
Pedro corajosamente declara: “Importa obedecer a Deus mais que aos homens” (At 5.29).
Paulo nos diz para sermos sujeitos a autoridade (Rm 13.1). Mas quando essa mesma
autoridade sai de seus limites ele os repreende e diz: “Não será assim!” (At 16.37).
 
ATOS DE SUBMISSÃO.
 
1. A Deus. Ao Deus Triúno, submissão de corpo, alma e espírito.

2. À Bíblia: Como regra de Fé, ama-la, conhecê-la e obedecê-la.

3. À Família: Certamente é um ato de difícil execução. Contudo, ao longo da


vida compreenderemos o porquê.

4. Aos que conhecemos e encontramos ao longo da vida.

5. À Igreja local como comunidade e a igreja mística como corpo de Cristo: Não
a uma instituição com CNPJ, mas ao corpo místico de Cristo. Nossa submissão e amor.

6. Aos desprovidos e necessitados: As viúvas e órfãos da Bíblia são hoje os


desprovidos, necessitados, miseráveis. A esses também devemos ser submissos e
pleitear seu bem estar.

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7. Aos pastores: Hebreus 13.17 Obedecei aos vossos guias e sede submissos
para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que
façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.

8. À Criação: Desejar uma política de exploração racional do meio ambiente.


Amar e proteger a Criação também é um ato de submissão.
 
Efeitos da escolha da Não Submissão

1. Uma vida solitária

2. Disciplina indispensável para a Orientação.

3. Uma vida sem lastro com a comunidade - Jz 21.25 Naqueles dias, não havia rei
em Israel; cada um fazia o que achava mais reto.

4. Quebra de um princípio bíblico:

Lista de Versículos
 Lucas 2.51 - E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe,
porém, guardava todas estas coisas no coração.

1 Coríntios 14.34 - Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes
é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina.

Efésios 5.22 - As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao


Senhor.

Efésios 5.24 - Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as
mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Colossenses 3.18 - Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no


Senhor.

1 Pedro 2.18 - Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não
somente se for bom e cordato, mas também ao perverso.

1 Pedro 3.1 - Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido,
para que, se ele ainda não obedece à palavra, seja ganho, sem palavra alguma, por meio
do procedimento de sua esposa.

1 Pedro 3.5 - Pois foi assim também que a si mesmas se ataviaram, outrora, as
santas mulheres que esperavam em Deus, estando submissas a seu próprio marido.

1 Pedro 5.5 - Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais
velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque
Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça.
 
 
CONCLUSÃO

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Somos os mais livres de todos. Não devemos ser submetidos por ninguém nem por
nada. Somos os mais submissos de todos e a todos devemos submissão. Equacionar
isso é difícil, mas é sinal de maturidade espiritual.

SERVIÇO

Serviço Cristão: Um Teste de Humildade.


 
"Cada um de nós deve servir ao seu próximo para o bem dele, a fim de edificá-lo"
(Romanos 15.2)
 
"Para junto do rei!" (Éomer, líder dos Cavaleiro banidos do reino de Rohan; O
Senhor dos Anéis)
 
"Todo mundo quer ...venha a nós o teu Reino, mas poucos desejam ... seja feita a
tua vontade.
 
 O que vemos em nossa sociedade pós moderna-zumbi-pré-apocalíptica é uma
enorme crise de egocentrismo generalizada. Nossa sociedade está fragmentada entre
aqueles que só querem ser servidos e aqueles que não querem servir ninguém.

Os pais já não educam seus filhos a servirem a Deus, à Pátria e ao próximo. Ao


contrário, as crianças aprendem a Teologia da Sanguessuga: “Duas filhas tem a
sanguessuga. Me dê! Me dê! gritam elas” (Provérbios 30.15).

Os Governos (em especial os socialistas dos últimos 32 anos) viciam os mais


necessitados com o assistencialismo escravizante, mostrando que não vale a pena
produzir, pois é melhor ganhar um monte de bolsas. As igrejas estão lotadas de pessoas
que só querem! Querem prosperidade, saúde, trabalho, casamento, carros. Cantam que
querem Deus, mas não são ensinados a terem a disciplina dos penitentes ou a submissão
dos filhos do Reino. 

38
Onde estão os doadores, aqueles que entendem que “melhor é dar do que
receber” (Atos 20.35)? Onde estão os que dizem: “Envia-me a mim” (Is 6.8)?

Esquecem-se que o Reino traz consigo sua justiça e a vontade do Rei.


 
Cristo nos apresenta o serviço como único modo possível de vida daqueles que
“aderem ao Caminho”. Viver para servir. Serviço fazem aqueles que são servos do Reino.
E têm prazer nisso!
 
Ainda temos a oportunidade de servir! O Evangelho Integral nos chama, na verdade
nos intima, a sermos de fato servos uns dos outros e de nosso Rei.

      A Disciplina do Serviço é de um potencial tremendo! Ela nos permite sair de nosso


pequeno mundo construído ao longa de nossas vidas para um maior, real e onde estão as
pessoas. Nos permite ver e enxergar além dessa crosta de plástico enrugada do egoísmo,
além desse manto esfumaçado do individualismo no qual o Sistema decaído nos mantém
acorrentados em pelotas transvestidas com as cores alucinantes do consumismo.
 
Acredito que já era a hora do crepúsculo. Ele estava olhando os campos. Pensava
que sua hora estava perto e tinha tanto ainda para fazer. Tanto por dar e se doar! Mas a
hora era avançada e a noite estava perto. Ele olha para os seus e diz:  “Os campos estão
brancos e preparados para a colheita". “Mas como?”, perguntou um deles, “ainda estão
verdes, não estão prontos ainda!”. E Ele diz: “Os campos estão brancos e há tão poucos
trabalhadores. Orem para que o Senhor da Seara envie mais trabalhadores”. E mais uma
vez, como de costume, nem entenderam o que Ele estava falando.
 
Você entende? Entende que a Seara está pronta? Entende que é com você que o
Senhor tratará? Percebe que é comigo e consigo que Ele está tratando?

Prontifique-se!

O Mestre está chamando!

          No Livro do britânico J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, há um momento no qual


o rei de Rohan, Théoden, está em grande perigo. Quando um grupo de cavaleiros,
mesmo banidos, percebem isso, de imediato soam a trombeta e dizem uns aos outros:

"Servos de Rohan, nosso rei nos chama. Para junto do rei!".

 Nosso rei não está em perigo, nós é que estamos. E ele nos chama para junto dele:
"Servos do Reino, PARA JUNTO DO REI!

Ao entrar no mundo, o próprio Jesus Se anulou e assumiu a forma de servo.


(Filipenses 2.6–7).  Como Ele, nós, cristãos, somos chamados para servir nossos irmãos
e irmãs na fé, assim como os outros. Esse serviço é uma forma de deixar nossa luz brilhar
diante dos homens o que, por sua vez, glorifica Deus (Mateus 5.16). Todo serviço cristão
é uma parte bonita e importante do nosso amor por Deus. Muitos cristãos realizam uma
grande variedade de serviços, mas todo serviço que honra Deus é um serviço digno de
honra.

39
Aqui trataremos tratarei do serviço especificamente enquanto disciplina espiritual,
em vez de sobre o serviço cristão em geral. Essa disciplina espiritual é praticada tanto
para servir os outros quanto como um meio de nos assemelharmos mais a Cristo, a
exemplo das demais disciplinas espirituais.

Exemplos

Ao servir, no contexto de uma disciplina espiritual, a pessoa escolhe uma forma


específica de serviço que ajuda a fortalecer uma área da vida que precisa ser fortalecida.

Um executivo que está acostumado a comandar e dar ordens pode, por exemplo,
ajudar sua igreja ou se juntar a um esforço de alimentar os pobres em uma posição
subordinada, seguindo a orientação dos outros, para especificamente combater seu
orgulho, ou sua natureza controladora e intimidadora.

Alguém que sempre quer atenção pode escolher servir os outros anonimamente.
Uma pessoa egoísta quando se trata do seu tempo pode se comprometer passar um
determinado número de hora por semana servindo quem precisa.

O serviço é uma disciplina quando se tem uma meta dupla — ajudar os outros e
ajudar a si próprio a superar algum aspecto em sua vida que possa estar limitando seu
crescimento espiritual. Nem todo serviço pode ser realizado na forma de disciplina
espiritual e muitas vezes serviremos por nenhum outro propósito que não o amor pelo
Senhor e pelos outros. Contudo, os que buscam crescimento espiritual, capacitação e
fortalecimento podem encontrar no serviço um meio belo e abnegado para atingir esses
objetivos.

Dallas Willard expressou da seguinte maneira:

Na disciplina de serviço mobilizamos nossos recursos e talentos na promoção


ativa do bem-estar dos outros e em favor das causas de Deus em nosso mundo. É
importante estabelecer aqui uma importante distinção: nem todo ato que pode ser
feito como uma disciplina precisa ser feito como uma disciplina. Muitas vezes,
posso servir os outros simplesmente como um ato de amor e justiça, sem me
preocupar com como isso pode melhorar minhas habilidades enquanto seguidor de
Cristo … Mas também posso servir aos outros como uma maneira de aprender a
me afastar da arrogância, do materialismo, do ressentimento e da avareza. Nesse
caso, meu serviço é realizado como uma disciplina para a vida espiritual.

Motivação

A motivação para o serviço, quer enquanto disciplina, quer no curso de nosso dia a
dia, pode ser encontrada nas Escrituras. Somos motivados por: [4]

Gratidão: Servir é a resposta certa para a bondade de Deus para


conosco. Servi-O fielmente de todo o vosso coração; considerai quão grandiosas coisas
vos fez (1 Samuel 12.24).

 Alegria: Servimos por alegria não por obrigação: Servi ao Senhor com


alegria! (Salmo 100.2).
40
 Perdão: Como Isaías, que, tão logo seus pecados foram perdoados
imediatamente se ofereceu como voluntário para o serviço, servimos em reação ao
perdão que nos foi concedido: Tocou a minha boca [de Isaías], e disse: “Vê, isto
tocou os teus lábios, e a tua iniquidade foi tirada, e purificado o teu pecado”. Depois
disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?”
Então disse eu: “Eis-me aqui. Envia-me a mim.”

 Humildade: Servimos motivados pela humildade: Ora, se eu, Senhor e


Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros. Eu vos
dei o exemplo, para que façais o que eu fiz

Amor: Servimos porque amamos Deus e os outros: Amarás o Senhor teu Deus de


todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e
grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti
mesmo (Mateus 22.37–39).

Quando somos motivados a servir por gratidão, alegria, humildade e amor por Deus
e pelos outros, então independentemente de o serviço ser ou não uma disciplina, é algo
que faremos de boa vontade e teremos prazer em servir independentemente da situação
ou por qualquer meio que Ele nos apresentar — seja algo empolgante e extraordinário, ou
simples e comum.

Sem dúvida, alguns tipos de serviço são muito mais gratificantes e costumam ser
mais inspiradores para quem os faz, mas o nível de emoção não deve fazer diferença
assim como o papel que se desempenha não deve importar.

Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus assumiu a função de um escravo. Em Seus


dias, somente os escravos menos qualificados lavavam os pés dos que vinham à casa de
alguém. Naquela noite, no cenáculo, Jesus — que havia curado multidões, expulsado
demônios, acalmado tempestades e caminhado sobre a água — ajoelhou-se e lavou os
pés imundos daqueles que amava e servia.

Tendo terminado de lavar os pés dos discípulos, Jesus retomou as suas vestes,
voltou para a mesa, e perguntou: “Entendeis o que eu fiz? Vós me chamais de Mestre e
Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós
deveis também lavar os pés uns dos outros. Eu vos dei o exemplo, para que façais o que
eu fiz. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que o seu senhor,
nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Agora que sabeis estas coisas, bem-
aventurados sois se as fizerdes (João 13.12–17).

Jesus ensinou que, independentemente de sua posição espiritual, vida profissional,


do volume de sua riqueza ou de qualquer outra coisa que você ou os outros possam
entender que o coloca em uma condição superior, tudo isso é posto de lado quando se
serve aos outros.

41
Quando Tiago e João pediram posições de autoridade sobre os outros, Jesus lhes
disse: Sabeis que os que são considerados governadores dos gentios, deles se
assenhoreiam, e os seus grandes exercem autoridade sobre eles. Entre vós não será
assim. Antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será o que vos sirva, e quem
entre vós quiser ser o primeiro será servo de todos (Marcos 10.42–44). Jesus tira o foco
do fator posição e autoridade para destacar que a grandeza aos olhos de Deus está no
serviço. Independentemente da posição ou do status econômico de um cristão, essa
pessoa deve servir Deus e os outros motivada pelo amor, humildade, por causa de
gratidão e perdão.

Servir por amor

O serviço feito motivado pelo amor por Deus e pelos outros não busca recompensas
externas. Não é necessário que os outros saibam a esse respeito. Não busca o aplauso
ou a gratidão dos outros. Contenta-se com o fato de que é feito de forma discreta e
humilde. Não distingue entre um serviço “pequeno” do “grande”, pois todo serviço deriva
da mesma motivação. A ênfase não está nos resultados. Não espera reciprocidade da
pessoa servida.

O prazer vem do serviço em si, o qual é prestado de forma indiscriminada e não


busca servir os grandes e poderosos, mas busca atender a quem tiver necessidade —
que de uma maneira geral são os mais pobres e desprotegidos. O serviço é feito com
diligência e não depende de sentimentos, não se deixa afetar por variações de humores
ou caprichos. Em vez disso, disciplina os sentimentos e atende às demandas. Cuida das
necessidades dos outros sem maiores pretensões.

O serviço enquanto disciplina combate ativamente receber reconhecimento e louvor


dos outros. Richard Foster explica isso da seguinte maneira:

De todas as disciplinas espirituais clássicas, o serviço é a que mais conduz ao


crescimento da humildade. Quando tomamos a decisão por um curso de ação
escolhido de forma consciente e que promova o bem dos outros e é,
principalmente, um trabalho invisível, dá-se uma mudança profunda em nossos
espíritos. Nada disciplina os desejos desordenados da carne como o serviço, e
nada transforma os desejos da carne como o serviço realizado de forma discreta. A
carne resiste ao serviço, mas protesta a plenos pulmões contra o serviço oculto.
Ela quer e busca honra e reconhecimento. Encontrará meios sutis e aceitáveis do
ponto de vista religioso para chamar atenção ao serviço prestado. Se formos firmes
na resistência a essa cobiça da carne, vamos crucificá-la. Toda vez que
crucificamos a carne, pregamos também na cruz nosso orgulho e arrogância.

Como se dá o serviço enquanto disciplina? Começa com uma atitude de serviço. É


ter um desejo para servir, ajudar sempre e onde for necessário. Isso pode ser cuidar dos
filhos dos vizinhos, levar refeições para famílias passando dificuldades, fazendo favores
para pessoas de alguma forma incapacitadas.

O serviço pode ser prestado na forma de hospitalidade, como quando se convida


alguém para sua casa para uma refeição. Em uma igreja ou numa comunidade, pode ser
arrumar as cadeiras para as reuniões, preparando lanches, limpando as coisas depois do
evento ou ministrando aulas bíblicas ou ajudando a um esforço de evangelização de
jovens.

42
Na sua testificação pessoal, significa testificar para alguém que precise, talvez
alguém de convivência difícil. É mostrar amor de uma forma tangível e manifestando
interesse sincero pelos necessitados. É estender a mão quando for necessário. É usar
seus talentos e dons do Espírito para ajudar de qualquer maneira que você possa,
sempre que houver uma necessidade.

Serviços específicos

No livro Celebração da Disciplina, Foster relaciona alguns serviços que considera


parte da Disciplina de Serviço:[14]

O serviço da hospitalidade. Devemos ser “hospitaleiros uns para os outros, sem


murmuração,” (1 Pedro 4.9) ou como outra versão da Bíblia apresenta: Hospedem uns
aos outros, sem reclamar (1 Pedro 4.9 NTLH).

 O serviço de ouvir. Assim como amar a Deus começa com ouvir a sua
Palavra, assim o começo do amor aos irmãos está no aprender a ouvi-los. Quando
aprendemos a ficar quietos e escutar os outros, isso nos ajuda a ficar quietos diante
do Senhor e escutá-lo. É muito importante escutar os outros em silêncio, pois pode
ser que assim escutemos Deus falando conosco por intermédio deles. É muito
comum as pessoas precisarem de quem as ouça, mais do que de opiniões ou
respostas.

 O serviço de levar as cargas uns dos outros. Levai as cargas uns dos


outros, e assim cumprireis a lei de Cristo (Gálatas 6.2) O amor se cumpre quando
ajudamos os outros a suportar suas dores e sofrimentos, choramos com os que
choram, em especial com aqueles que viajam pelo vale das sombras da morte.
Podemos aliviar suas tristezas e pesares colocando-os nos ternos braços de Jesus.

 O serviço de partilhar a palavra de vida uns com os outros. Quando


recebemos uma palavra do Senhor para outra pessoa, podemos compartilhá-la em
humildade, sem adicionar nossa interpretação nem sendo tendenciosos, mas
apenas compartilhando o que Deus disse.

 O serviço de ser servido. É um ato de submissão e serviço permitir que os


outros nos sirvam. Graciosamente recebemos o serviço prestado, sem o
sentimento de que devemos fazer algum pagamento por isso. Ao receber,
submetemo-nos a quem oferece a dádiva em amor e mostramos respeito tanto pela
dádiva quanto pelo doador.

Jesus disse: Entre vós sou como aquele que serve (Lucas 22.27). Se desejarmos
nos tornar mais como Cristo, então devemos nos comprometer e aprender a servir os
outros em amor e humildade, como Jesus fez, sem buscar nada além da glorificação do
Pai. Essa é uma disciplina que vale a pena praticar.
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CONFISSÃO

Ensina um ditado escocês: “A confissão faz bem à alma”. E faz mesmo. Quando
buscamos aprofundar nossa conexão com o Senhor e uma vida centrada em Deus, a
confissão de nossos pecados tem um papel importante.

A disciplina espiritual da confissão diz respeito ao pecado que é cometido após a


salvação. Ao aceitarmos Jesus como Salvador, somos perdoados por nossos pecados e,
portanto, do ponto de vista judicial somos justos diante de Deus, com garantia da
salvação.

Em Seu grande amor pela humanidade, Ele criou uma forma de nos reconciliarmos
com Ele, que é o sacrifício de Seu Filho, Jesus, que deu a vida para que pudéssemos
nascer de novo, membros da família de Deus. A salvação mudou nosso relacionamento
com Deus, que passou a ser nosso Pai (Gálatas 4.4–7). Somos eternamente parte de
Sua família.

O fato de termos nascido de novo, contudo, não significa que paramos de pecar ou
que nossos pecados não têm consequências. O pecado tem efeitos negativos em nossas
vidas e nas vidas dos outros e, principalmente, prejudica nosso relacionamento pessoal
com Deus. O pecado cria uma fissura no nosso relacionamento com nosso Pai, a qual a
confissão repara. É preciso esforço de nossa parte para corrigir as coisas, similar ao
necessário para restaurar um relacionamento com outra pessoa a quem magoamos ou
ofendemos.

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A disciplina da confissão é o antídoto que neutraliza os efeitos que nossos pecados
têm no nosso relacionamento com Deus. Se não confessarmos nossos pecados para
repararmos regularmente os danos por eles causados, corremos o risco de endurecermos
em coração e espírito, e nos afastarmos de Deus. Como John MacArthur escreveu:

Vi cristãos — judicialmente perdoados e seguros para a eternidade —


endurecidos, impenitentes e insensíveis ao pecado. Consequentemente, vivem
sem alegria por falta de uma convivência íntima com Deus. Bloquearam essa
alegria e essa convivência com uma barricada construída com pecados
inconfessos.

No Pai Nosso, Jesus nos ensinou a pedir ao Pai para perdoar nossos pecados
(
Lucas 11.4). Não estava nos instruindo a orar repetidamente por absolvição, pois essa já
nos fora concedida com a salvação (Romanos 5.1; 8.1) Ele estava nos mostrando a forma
de restaurarmos nossa convivência pessoal com Deus quando essa for quebrada ou
prejudicada pelos nossos pecados. Quando o rei Davi cometeu um pecado grave, sua
convivência com Deus foi quebrada e seu pecado o distanciou de Deus. Assim ele orou:

Não me lances fora da Tua presença, e não retires de mim o Teu Espírito Santo
(Salmo 51.11). E pediu a Deus restauração: Torna a dar-me a alegria da Tua salvação
(Salmo 51.12).

Confessar pecados e pedir perdão a Deus é o caminho para essa restauração.


Quando vamos diante dele e admitimos que pecamos, quando pedimos perdão e nos
arrependemos de coração, a fenda que nos separava de Deus é reparada e o
relacionamento abalado é restaurado. Somos purificados de nossa falta de justiça e
podemos novamente conviver com a justiça, o próprio Deus.

Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os


pecados, e nos purificar de toda injustiça (I João 1.9).

A confissão não deve ser vista como algo negativo ou desagradável, porque o
resultado positivo de confessarmos nossas transgressões é o perdão. Deus deseja nos
perdoar e a confissão é o canal pelo qual recebemos Sua misericórdia e compaixão. Seu
perdão renova nosso espírito ao renovar nosso relacionamento, amor e amizade com Ele.

O significado de confissão

A palavra grega para pecado é hamartia, que significa errar o alvo, afastar-se do
caminho da integridade e da honra, fazer algo errado. Por sermos cristãos, não queremos
nos afastar do caminho da integridade nem errar o alvo. Nossa meta é andar pela estrada
da vida perto de Jesus, evitar nos afastarmos dele. Quando pecamos, distanciamo-nos
dele. A confissão nos reaproxima do Senhor. É uma expressão do nosso amor e desejo
de um relacionamento estreito com Jesus e de permanecer conectado a Ele.

A palavra usada no Novo Testamento para a confissão de nossos pecados


é homologeo, resultado da combinação das palavras homos, que significa “o mesmo”
e lego, que quer dizer “falar”. É falar a mesma coisa, concordar.

Na confissão, dizemos a mesma coisa que Deus diz sobre o pecado. Concordamos
com Sua condenação do pecado e reconhecemos que quando pecamos agimos contra
Deus pessoalmente, contra Sua Palavra e contra Sua natureza. É uma admissão de que

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o pecado é errado e que nossas ações foram ofensivas a Ele. É o reconhecimento de que
chamamos essas ações pelos mesmos nomes que Deus as chama: inveja, ciúme, cobiça,
ódio, engano, ganância, ira, glutonaria, adultério, etc.

É o reconhecimento que essas ações são repugnantes a Deus e que ao praticá-las,


ferimos nosso relacionamento com Ele. Concordamos assim que, por causa dos pecados
da humanidade, inclusive especificamente dos nossos pecados, Jesus sofreu tortura e
morte na cruz.

A confissão é o reconhecimento de que essas coisas são erradas, que


pessoalmente as praticamos, que oferendemos Deus, que estamos arrependidos e que
precisamos do Seu perdão. É também uma expressão de que entendemos que, quando
confessamos nossos pecados, Deus, em Seu amor e misericórdia, nos perdoa.

Charles Spurgeon destacou que, por sermos filhos de Deus, não nos apresentamos
a Ele como um réu ou criminoso vem diante de um juiz. Somos Seus filhos e vamos até
nosso Pai amoroso que deseja nos perdoar.

Há uma grande distinção entre confessar um pecado na condição de réu e o


fazer na condição de filho. O abraço do Pai é o lugar para as confissões dos
penitentes. Fomos limpos de uma vez por todas, mas nossos pés ainda precisam
ser lavados da contaminação adquirida em nossas andanças diárias, na condição
de filhos de Deus.

Quando confessamos nossos pecados, reconhecemos ou admitimos nossa culpa.


Dizemos que, independentemente de contra quem agimos mal, pecamos contra Deus —
a quem devemos prestar contas —, que nos arrependemos profundamente de nossas
ações e queremos Seu perdão.

A confissão consiste de reconhecer de forma específica nossos pecados e admitir


que os cometemos. A seguinte história expressa bem esse princípio:

Um conselheiro estava tentando ajudar um homem que havia se manifestado


durante uma reunião evangelística. “Sou cristão, mas há pecado em minha vida e
preciso de ajuda.” Mostrando-lhe 1 João 1.9, o conselheiro sugeriu que o homem
confessasse seus pecados a Deus. “Ó Pai — começou — se fizemos algo
errado…” “Calma lá!” — interrompeu o conselheiro. “Não me inclua no seu pecado!
Meu irmão, nada dessa conversa de “se” e “nós”. Seja direto com Deus!”

Como nossa meta é recuperar nosso relacionamento estreito com Deus, ajuda
confessarmos erros específicos com nossos pecados e fraquezas em geral.

Certamente, o arrependimento é parte da confissão, ou seja, uma mudança da


maneira de pensar, da maneira que vemos as coisas e uma mudança de propósito. É
entender que pecado não é apenas uma fraqueza ou uma área de sua vida na qual
precisa se aperfeiçoar. Pecar é agir de forma contrária a Deus e Sua natureza, o que O
desagrada e nos distancia dele, além de afetar negativamente aquele que peca.
Arrepender-se é se voltar do pecado para Deus, como o filho que voltou de um país
distante para a casa de seu pai. É arrepender-se do pecado e comprometer-se com a
mudança.

46
Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos.
Converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e torne para o nosso Deus, pois
grandioso é em perdoar (Isaías 55.7).

Todos pecamos com frequência. Não é algo que queremos e, de um modo geral,
não é nossa intenção, mas pecamos. Há pecados mais sérios que outros, mas o fato é
que todo pecado é espiritualmente prejudicial. A confissão enquanto disciplina é parte do
processo de reparar o dano.

Com que frequência devemos confessar?

Não há uma regra que determine a frequência com que se deve confessar pecados
ao Senhor, mas fazê-lo com regularidade parece ser algo sábio. Antes de vir diante do
Senhor, para confessar seus pecados, é bom fazer um exame de si mesmo, pensar e orar
sobre como tem pecado e que pecados específicos pode se lembrar. A meta não é ficar à
cata de cada detalhe ou todo pecado que possivelmente tenha cometido, mas é convidar
o Senhor a trabalhar no seu coração para lhe mostrar as áreas em que você precisa do
Seu perdão.

Ao convidar o Espírito Santo a lhe ajudar a vasculhar seu coração, é provável que
você passe a perceber pecados que devem ser confessados. Não apenas os pecados
resultantes da ação, mas também da omissão, ou seja, quando se deixa de fazer algo que
deveria fazer. Isso pode se tornar mais alerta aos pecados do coração (tais como
ganância, orgulho, ira, etc.), os quais são menos óbvios que os da carne. O propósito da
confissão é maior proximidade de Deus e dedicar tempo para orar, meditar e se abrir para
Deus em autoanálise é parte da disciplina.

A quem confessar

As Escrituras nos dizem para confessarmos nossos pecados a Deus. Confessei-Te


o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Disse: “Confessarei ao Senhor as minhas
transgressões”; e Tu perdoaste a culpa do meu pecado (Salmo 32.5). O que encobre as
suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará
misericórdia (Provérbios 28.13). Confessamos ao Senhor porque, no fim, é contra Ele que
pecamos. Isso não significa que não devemos pedir o perdão daqueles contra quem
erramos — pelo contrário. E além de pedir perdão, devemos também procurar fazer as
reparações possíveis.

Além de nos ensinar que devemos confessar pecados a Deus, a Bíblia também fala
de confessarmos nossos pecados aos outros.

Portanto, confessai os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para
serdes curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz (Tiago 5.16). Aqueles aos
quais perdoardes os pecados, são-lhes perdoados (João 20.23).

Algumas denominações cristãs — católicos romanos, ortodoxos e algumas


denominações anglicanas — seguem as instruções de confessar os pecados aos outros
no contexto do sacramento da confissão (também chamado sacramento da penitência ou
da reconciliação), em que confessam seus pecados a um sacerdote. Em geral, os
protestantes entendem que a confissão se faz somente a Deus, na privacidade da oração
pessoal. Em alguns cultos protestantes, o pastor anuncia um período de silêncio para que
os fiéis possam, privadamente, confessar seus pecados ao Senhor.
47
Confessar pecados é, de um modo geral, um assunto particular entre o indivíduo e
Deus. Contudo, como vimos nos versículos acima, há ocasiões em que somos instruídos
a confessar nossos pecados uns aos outros. Martinho Lutero disse que a “confissão em
segredo” a outro cristão, apesar de não ser uma exigência das Escrituras, é “útil e até
necessária”. João Calvino também recomendou a confissão em particular para qualquer
crente que esteja “de tal forma atormentado e afligido com um senso de pecado que, sem
a ajuda externa, não consiga se livrar dele.”

Há vezes em que os indivíduos confessam seus pecados ao Senhor, mas isso não
lhes parece ser o suficiente, pois não têm a paz que sua confissão tenha restaurado sua
convivência com Deus. Em situações assim, pode ser benéfico confessar o pecado a um
irmão ou irmã no Senhor em quem tenha confiança. Para essas situações, Deus nos deu
irmãos e irmãs para ocupar o lugar de Cristo e tornar a presença e o perdão de Deus real
para nós.  Fazer uma confissão verbal do pecado a um companheiro cristão de confiança
e receber dessa pessoa orações efetivas é, às vezes, necessário para criar o senso de
materialização do perdão, resultando em paz no coração, na mente e no espírito.

Uma confissão assim, sem dúvida, não deveria ser feita a qualquer cristão, pois nem
todos os nossos irmãos e irmãs têm a empatia necessária ou o entendimento para
receber uma confissão, assim como nem todo cristão pode ser confiado com o sigilo
absoluto da confissão. Richard Foster sugere as seguintes qualificações para uma pessoa
receber uma confissão:

Há aqueles que não se qualificam porque ficariam horrorizados pela revelação


de certos pecados. Outros, por não entenderem a natureza e o valor da confissão,
não lhe dariam a devida importância com um “isso não é nada”. Felizmente, muitos
entendem e gostariam de ministrar dessa maneira. Para identificar essas pessoas
devemos pedir a Deus que as revele para nós. É possível também identificá-las
entre os que observamos terem uma fé viva no poder de Deus para perdoar e
manifestar a alegria do Senhor em seu coração. Seus principais atributos são
maturidade espiritual, sabedoria, compaixão, bom senso, a habilidade de manter o
sigilo e um senso de humor saudável. Muitos pastores — certamente não todos —
podem desempenhar esse papel. Há pessoas comuns, sem nenhum cargo ou
título, que estão entre as mais indicadas para receber uma confissão.

Receber uma confissão

Receber uma confissão de outro cristão é um assunto sagrado. Seu irmão ou irmã o
procura em obediência às Escrituras, confiando que você lhe escutará em amor e
compaixão. Para adequadamente receber a confissão, deve começar de uma posição de
profunda humildade. Todo pecado é uma abominação a Deus e, como todos pecamos,
ninguém está na posição ser condenatório nem olhar com desprezo para quem está
fazendo a confissão.

O que confessa pode estar sofrendo e padecendo por causa de seus pecados e
confessando em obediência às Escrituras ou porque quer agradar o Senhor. Essa pessoa
é merecedora do mais profundo respeito e amor de sua parte. Se não lhe pode dar isso,
se acha que não consegue manter a informação confidencial, se tem a preocupação que
pode trair a confiança, então não deve receber a confissão.

Foster dá o seguinte sábio conselho aos que recebem uma confissão: [21]

48
 Quando alguém compartilha com você suas dores, discipline-se para
permanecer quieto. Não tente aliviar a tensão com comentários inadequados,
capazes de distrair e até destruir esse momento sagrado.

 Não tente descobrir mais detalhes que os necessários. Se sentir que a


pessoa está retendo algo por medo ou constrangimento, é melhor esperar em
silêncio e oração.

 Ore por eles em seu coração, de forma imperceptível, enviando orações de


amor e perdão por eles. Ore para que compartilhem a “chave” que revelará
qualquer área que precise do toque curador de Cristo.

Terminada a confissão, ore pela pessoa em voz alta e, na oração, reafirme que o
perdão que está em Jesus é agora real e efetivo para eles. Isso você pode dizer com um
tom de autoridade porque aqueles aos quais perdoardes os pecados, são-lhes perdoados
(João 20.23).

 Peça a Deus para curar o coração e a mente da pessoa que fez a confissão
e as feridas que o pecado causou.

Uma de nossas metas enquanto cristãos é ter um relacionamento profundo e


duradouro com Deus, por meio de Jesus. Procuramos evitar o pecado porque nos separa
de Deus, mas, por sermos humanos, é-nos impossível estar completamente livres do
pecado. É por isso que confessarmos nossos pecados e buscarmos o perdão do Senhor
é tão importante para termos com Ele o relacionamento que desejamos. A confissão é o
caminho que Deus oferece para nos livrarmos dos efeitos do pecado em nosso
relacionamento com Ele. Deus deseja nos perdoar e que estejamos dispostos a buscar
Seu perdão.

É possível que busquemos o Senhor para confessar nossos pecados em tristeza,


pesar e contrição, mas, quando terminamos, vivenciamos grande alegria. É a alegria por
termos sido perdoados, por nosso relacionamento estar restaurado e por podermos estar
à Sua presença sem o empecilho do fardo de nossos pecados. A confissão leva à
celebração. Nossos pecados são perdoados; nossas vidas, mudadas. De uma forma
simples: “a confissão faz bem à alma.”

49
ADORAÇÃO

Na conversa junto ao poço com a samaritana, Jesus disse:

Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em


espírito e em verdade, pois o Pai procura a tais que assim O adorem (João 4.23).

Deus busca os que o adorarão em espírito e verdade e é assim que devemos adorá-
lo, pois O amamos e queremos agradá-lo. É preciso que estejamos dispostos a nos
disciplinarmos para regularmente nos dedicarmos à Sua adoração.

O que é adoração?

Em que consiste a adoração? Qual é seu propósito? O que significa adorar? Como
podemos adorar adequadamente —em espírito e em verdade?

A palavra adoração, do latim adoratio significa veneração, culto à divindade, amor


profundo. Adorar a Deus é reconhecer, expressar e honrar Seu valor, conforme explica
Donald Whitney: O Santo e Altíssimo, Criador e Sustentador do Universo, o Soberano
50
Juiz a quem todos devem prestar contas, é digno de toda honra e todo culto que
possamos Lhe oferecer, e muito mais. Adorar inclui reconhecer que dependemos de
Deus, Criador e sustentador da vida.

A essência do valor de Deus e, consequentemente, o objeto da nossa adoração está


na Sua natureza e personalidade, Seus atributos e quem Ele é. Criador de todas as
coisas visíveis e invisíveis, é todo-poderoso, onisciente, imutável, infinito, eterno e
onipresente. Deus é sabedoria, verdade, fidelidade, bondade, amor, misericórdia,
paciência, santidade, integridade, justiça e mais. Criados à Sua imagem e semelhança
(Genesis 1.26–27), temos uma pequena medida de alguns dos seus atributos, mas
Deus é esses atributos. Aquele que do nada criou tudo que existe, é infinitamente maior
que nós e, portanto, merecedor de adoração.

Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, pois
Tu criaste todas as coisas, e por Tua vontade existem e foram criadas (Apocalipse 4.11).

Além de Criador, é nosso Redentor. Criou para nós, pecadores, um caminho para
nos reconciliarmos com Ele. Pelo sacrifício de Jesus, oferece a salvação a todos que
crerem e aceitá-lo como Salvador. Por Ele somos remidos do pecado e da morte e,
portanto, é digno de nosso louvor.

Pois se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela
morte de Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela Sua
vida. Não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor
Jesus Cristo, por intermédio de quem agora alcançamos a reconciliação
(Romanos 5.10–11).

Adoramos Deus porque Ele é digno de ser adorado, é superior a tudo e todos.
Quanto mais O conhecemos, mais entendemos Seu amor, poder, tudo que fez, faz por
nós e mais claro se torna que devemos adorá-lo. Sua Palavra nos diz que Ele nos criou
para Sua glória.

Trazei Meus filhos de longe, e Minhas filhas das extremidades da terra; a


todos os que são chamados pelo Meu nome, aos quais criei para a Minha glória,
aos quais formei e fiz (Isaías 43.6–7).

Portanto, devemos fazer todas as coisas para a glória de Deus. Portanto, quer


comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus (1
Coríntios 10.31). Para nós, o mais importante é realizar o propósito para o qual fomos
criados: glorificar a Deus.

No Antigo Testamento, a palavra em hebraico traduzida para “adorar” é shachah,


cujo significado é curvar-se, prostrar-se diante de um superior em reverência. A palavra
grega usada no Novo Testamento, proskuneo, significa ajoelhar-se e tocar o chão com a
testa, em manifestação de profunda reverência; ajoelhar-se ou prostrar-se para oferecer
honraria ou deferência, para expressar respeito ou súplica. Isso representa nossa atitude
interior de reverência e respeito para com Deus. Expressa nossa entrega e submissão a
Ele, reconhecimento à Sua majestade, santidade, e de sua posição de governante de
nossa vida.

Adorar é nossa resposta devida àquele que Se revelou a nós como o Deus
trinitário — Pai, Filho e Espírito Santo, que nos mostrou Sua vontade e propósito pela Sua
51
Palavra. É nossa resposta por termos sido trazidos para um relacionamento com Ele por
Jesus; é nossa resposta à dádiva da salvação que recebemos pelo Seu amor e sacrifício.

Como adoramos

Nos tempos do Antigo Testamento, no centro da adoração a Deus estava a oferta de


animais que eram sacrificados para que o povo recebesse o perdão por seus pecados,
para demonstrar gratidão a Deus e louvá-lo. A partir de Moisés, essas oferendas
passaram a ser feita no tabernáculo e, tempos depois, no templo em Jerusalém, o lugar
em que Deus habitava com Seu povo. A maioria das pessoas podia ir somente até o pátio
do templo, enquanto os sacerdotes tinham acesso ao átrio exterior, ou Lugar Santo. No
Santo dos Santos, a área mais reservada do templo, onde habitava a presença de Deus,
o sumo sacerdote era o único autorizado a entrar e somente uma vez por ano.

Lemos no Novo Testamento que o sistema de oferta de animais deixou de ser


necessário quando Jesus deu a vida como uma oferta única para todo o tempo (Hebreus
10.12) extinguindo a necessidade de outros sacrifícios para o perdão de pecados e a
reconciliação com Deus. Por isso, temos plena confiança para entrar no Lugar
Santíssimo pelo sangue de Jesus (Hebreus 10.19 NVI). Agora podemos vir à presença de
Deus diretamente em oração, louvor e adoração. Por havermos crido, somos geração
eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que [anunciemos] as
grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pedro 2.9).

Como Jesus explicou à samaritana, a adoração não está mais vinculada a um lugar
específico, como era então, mas tem em seu cerne o relacionamento entre o adorador e
Deus, proporcionado pela morte e ressurreição de Jesus. Não é mais necessário ir ao
local de habitação de Deus, o templo, para adorar. Por meio da salvação que Sua morte e
ressurreição nos concede, Jesus se tornou o elo entre Deus e a humanidade.

Ninguém vem ao Pai, senão por Mim (João 14.6).

Ao afirmar que Deus busca aqueles que O adorem em espírito e verdade, Jesus
ensinou que a verdadeira adoração vai além das palavras que saem de nossas bocas. É
nosso espírito se conectando ao Seu Espírito, conforme entramos em comunhão com Ele,
adorando-O pelo que Ele é, conforme Se revelou em Sua Palavra.

Devemos adorar o Senhor com respeito e reverência.

Adoremos a Deus de modo aceitável, com reverência e temor (Hebreus


12.28).

Há muitos versículos bíblicos sobre temer o Senhor. As palavras em hebraico


usadas para temor têm o sentido de reverenciar, maravilhar-se, venerar. Quando
entendemos o “temor ao Senhor” nesses termos, podemos receber as bênçãos
prometidas aos que O reverenciam e se maravilham à Sua presença. Ele tem prazer
nesses adoradores (Salmo 147.11), demonstra compaixão por eles (Salmo 103.13),
abençoa-os (Salmo 115.13), é amigo deles (Salmo 25.14) e Seu amor está sempre com
eles (Salmo 103.17).

52
Aspectos da Adoração

O louvor é um importante aspecto da adoração. Louvar a Deus é adorá-lo pelo que


Ele é. O louvor é essencial à adoração, pois é quando verbalizamos o reconhecimento do
valor de Deus.

Louvai ao Senhor. Louvai ao Senhor desde os céus, louvai-O nas


alturas. Louvai-O, todos os Seus anjos; louvai-O, todos os Seus exércitos
celestiais. Louvai-O, Sol e Lua; louvai-O, todas as estrelas luzentes. Louvai-O,
céus dos céus, e as águas que estão sobre os céus. Louvem o nome do Senhor,
pois mandou Ele, e logo foram criados. Louvai o nome do Senhor, pois só o Seu
nome é exaltado; a Sua glória está sobre a terra e o céu (Salmo 148.1–5,13).

Agradecer é parte integral da adoração também. Damos graças a Deus por tudo que
Ele fez, continua a fazer e, em especial, pela salvação.

Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso
Senhor Jesus Cristo (Efésios 5.20). Eu renderei graças ao Senhor por causa da
Sua retidão (Salmo 7.17). Eu Te louvarei, ó Senhor, de todo o meu coração;
contarei todas as Tuas maravilhas. Em Ti me alegrarei e saltarei de prazer;
cantarei louvores ao Teu nome, ó Altíssimo (Salmo 9.1–2). Louvar-Te-ei, ó Senhor
Deus meu, de todo o coração (Salmo 86.12).

Quando vimos diante do Senhor, adorando-O pelo que Ele é e pelo que fez, muitas
vezes ficamos mais conscientes da nossa “humanidade”, especialmente das nossas
limitações, fraquezas, incapacidades e pecados. Isso nos dá uma atitude de humildade e
contrição, outro aspecto da adoração.

Quando o profeta Isaías viu o Senhor em Seu trono, as orlas do Seu manto
enchendo o templo, o templo cheio de fumaça e os anjos ao Seu redor dizendo “Santo,
Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da Sua glória”, sua reação
foi de humildade e contrição. Ele disse: “Ai de mim, que vou perecendo! porque eu sou
um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus
olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6.1–5). 

A santidade e a perfeição de Deus trouxeram ao profeta um profundo senso de


impureza e de pecado, deixando-o humilhado e contrito. Devemos vir diante do Senhor
com uma atitude similar com respeito à nossa indignidade e com enorme gratidão pela
salvação, que é o que nos permite vir à Sua presença e ser um de Seus filhos.

Quando lemos mais a respeito da experiência de Isaías, entendemos que ele está
vendo o Senhor, recebendo reparação pelo seu pecado (Isaías 6.6–7), e um chamado
para o serviço a Deus. “A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-
me aqui. Envia-me a mim?” (Isaías 6.8). Estar na presença do Senhor lhe deu o desejo de
servir Deus. O apóstolo Paulo se referiu ao nosso serviço para o Senhor como uma forma
de adoração, quando escreveu: Meus irmãos, por causa da grande misericórdia divina,
peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como um sacrifício vivo, dedicado
ao seu serviço e agradável a Ele. Esta é a verdadeira adoração que vocês devem
oferecer a Deus (Romanos 12.1 - NTLH). A motivação para fazer a vontade de Deus,
atender ao Seu chamado, servi-lo é parte e resultado da nossa adoração.

53
Uma maneira de louvar e agradecer a Deus é a música: cantar ao Senhor ou escutar
canções que Lhe ofereçam louvores e tornar seus os sentimentos expressos pela música.
Talvez haja certas canções que o ajudem a traduzir sua gratidão e louvor a Deus, as
quais canta como uma forma de adoração.

Bom é render graças ao Senhor, e cantar louvores ao Teu nome, ó Altíssimo, de


manhã anunciar o Teu amor, e todas as noites a Tua fidelidade, sobre um instrumento de
dez cordas, e sobre o saltério, ao som solene da harpa (Salmo 92.1–3). Louvai ao
Senhor. Quão bom é cantar louvores ao nosso Deus, quão agradável e decoroso é o
louvor (Salmo 147.1).

Adoramos Deus como Ele quer se adorado, em espírito e verdade, quando entramos
pelos Seus portões com graças, em Seus átrios com hinos de louvor; quando Lhe
agradecemos, bendizemos Seu nome por tudo que Ele é, expressando nosso profundo
amor por Ele, dando-Lhe reverência, honra e exaltando Sua majestade, em humildade e
contrição.

Adoração privada em pública

Os crentes são chamados para adorar o Senhor em privado, publicamente e em


congregação (Salmo 35.18). Espera-se dos cristãos que adorem juntos de tempo em
tempo. Em um encontro de pessoas para adorar e orar há elementos que não estão
presentes quando um indivíduo faz isso sozinho. No Livro do Apocalipse, podemos ter um
vislumbre de como a adoração em grupo acontece no céu:

Então olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos seres viventes, e
dos anciãos; e o número deles era milhões de milhões e milhares de
milhares, proclamando com grande voz: “Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber
poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor!” (Apocalipse 5.11–12).

A adoração em congregação, contudo, não basta. Devemos adorar individualmente


também (Salmo 63.5–6). Nos Evangelhos lemos que Jesus ia à sinagoga assim com a
várias festividades religiosas no templo em Jerusalém, locais e ocasiões apropriados para
a adoração em Seus dias. Mas Ele também se levantou cedo de manhã e se afastou de
todos para comungar com Seu Pai. Jesus falou de adoração em privado quando disse:

Entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em
secreto. E teu Pai, que vê secretamente, te recompensará (Mateus 6.6).

Sinagoga: Chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou, num dia de sábado, na


sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler (Lucas 4.16).

Entraram em Cafarnaum e, logo no sábado, indo ele à sinagoga, começou a ensinar


(Marcos 1.21).

Páscoa: Respondeu-lhes Ele: Ide à cidade ter com certo homem, e dizei-lhe: O


Mestre diz: O meu tempo está próximo. Em tua casa celebrarei a páscoa com os Meus
discípulos. Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara, e prepararam a páscoa
(Mateus 26.18–19).

Estando próxima a páscoa dos judeus, Jesus subiu para Jerusalém. Achou no


templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e os cambistas assentados. Tendo feito

54
um chicote de cordas, lançou a todos fora do templo, bem como os bois e as ovelhas;
espalhou o dinheiro dos cambistas, derrubou as mesas, e disse aos que vendiam
pombas: Tirai daqui estas coisas! Como ousais transformar a casa de Meu Pai em
mercado” (João 2.13–16).

Outras festividades: Mas ao se aproximar a festa dos judeus, chamada de Festa


dos Tabernáculos, os irmãos de Jesus lhe disseram: Sai daqui e vai para a Judéia, para
que os Teus discípulos vejam os milagres que fazes… Mas, depois que Seus irmãos
subiram à festa, Ele foi também, não publicamente, mas em oculto… Estando a festa pelo
meio, subiu Jesus ao templo, e começou a ensinar. No último dia, o grande dia da festa,
Jesus pôs-se de pé, e clamou: Se alguém tem sede, venha a Mim e beba”
(João 7.2,3,10,14,37).

Houve então a festa da dedicação em Jerusalém. Era inverno, e Jesus andava


passeando no templo, no pórtico de Salomão (João 10.22–23).

Temos um relacionamento com Deus e, como todo relacionamento, requer o


investimento de esforço para que se permaneça forte. Para nos mantermos próximos do
Senhor devemos comungar com Ele em adoração e oração, tratarmos Deus com amor,
honra e reverência, louvá-lo, agradecer-Lhe e nos deleitarmos nele (Salmo 37.4).

Tornando a adoração parte de nossas vidas

Como as demais disciplinas espirituais, a adoração exige um esforço de nossa


parte, em especial no que diz respeito à regularidade com que devotamos tempo para
adorar o Senhor. É preciso determinação para ir à presença do Senhor em espírito e
verdade. Adorar é mais que uma ação rotineira em que oramos, louvamos e cantamos,
mas é vir espiritualmente à Sua presença, conectar nossos espíritos ao dele. Donald
Whitney escreveu:

As águas da adoração não devem jamais parar de fluir de nosso coração, pois
Deus é sempre Deus e sempre digno de ser adorado.

A adoração deve ser parte de nossa conversa com Deus ao longo do dia. Quando
olhamos para Sua criação, para uma mãe com um bebê, para as estrelas no céu, quando
pensamos no Senhor, podemos render honra, louvor e graças ao Senhor pelas Suas
obras maravilhosas, pelo que Ele fez, faz e é. Podemos adorá-lo quando meditamos na
Sua Palavra, quando pensamos nas bênçãos que nos concedeu, na misericórdia com que
nos acolhe, na graça que nos dá quando oramos e O buscamos.

Quanto mais verbalizarmos que Deus é, o que fez e faz, mais presentes Ele se torna
em cada aspecto da nossa vida diária. Quando regularmente reconhecemos Seu amor,
compaixão, misericórdia, bondade e justiça, abraçamos essas virtudes e provavelmente
nos empenharemos mais para incluí-las nas nossas interações com os outros.

Quando O louvamos pelo Seu poder, Sua presença, Sua onisciência, lembramos
que Ele está sempre presente, que sabe tudo a nosso respeito, que nos criou, que
conhece nossos pensamentos e intenções de nossos corações. Isso pode fortalecer
nossa determinação de fazer o melhor ao nosso alcance para viver em conformidade com

55
Sua Palavra, tratar os outros com amor e fazer aos outros o que queremos que façam
conosco.

Disciplinarmo-nos para adorar em espírito e verdade é um esforço recompensador,


que deve preencher o cerne do nosso relacionamento com nosso Criador.

Oh, vinde, adoremos e prostremo-nos, ajoelhemos diante do Senhor que nos criou!
(Salmo 95.6). Dai ao Senhor a glória devida ao Seu nome; adorai o Senhor na beleza da
Sua santidade (Salmo 29.2).

A segunda parte deste estudo tratará dos conceitos bíblicos de quem Deus é e Suas
obras, incluindo uma coletânea de versículos sobre diversos aspectos, a qual poderá
ajudá-lo na sua adoração.

Deus é digno!

Ainda falando sobre adoração, incluímos alguns conceitos bíblicos que podem
ajudá-los em seus momentos de adoração.

As seguintes passagens tratam de vários aspectos de Deus, para auxiliá-lo a


meditar nos motivos de Ele merecer nossa adoração e amor. Não há aqui em nenhuma
ordem específica, uma seção não depende da outra nem há qualquer relação sequencial
entre elas. Há muitos outros aspectos de Deus e Sua natureza que nos fazem louvá-lo, os
quais vocês podem descobrir em sua leitura e estudos pessoais da Sua Palavra.

Boa parte do que aqui se encontra consiste de um resumo do livro de Wayne


Grudem Teologia Sistemática, que aborda, entre outros temas, a natureza e
personalidade de Deus. (Para explicações amplas sobre esses tópicos, consulte a série A
56
Essência de Tudo: A Natureza e a Personalidade de Deus.) Oro que a leitura das
passagens aqui compiladas lhe proporcione exemplos esclarecedores dos conceitos
escriturais nos quais devemos nos concentrar em nossos momentos de adoração.

A grandeza de Deus

Deus é infinito, enquanto nós somos seres finitos e, portanto, é infinitamente


superior a nós. Somos incapazes de entender plenamente a grandeza de Deus, já que ela
nunca pode ser completamente conhecida. Seu entendimento é sem medida; Seus
caminhos e pensamentos muito mais altos que os nossos. Suas riquezas, sabedoria,
conhecimento e sabedoria são insondáveis, inimagináveis e, por isso, estão muito além
da nossa compreensão.

Grande é o Senhor, e muito digno de louvor; a Sua grandeza é insondável


(Salmo 145.3). Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o Seu entendimento não
tem limite (Salmo 147.5). Assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são
os Meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais
altos do que os vossos pensamentos (Isaías 55.9). Alcançarás os caminhos de Deus?
Chegarás à perfeição do Todo-poderoso? Como as alturas dos céus é a Sua sabedoria;
que poderás tu fazer? Mais profunda é ela do que o inferno; que poderás tu saber? Mais
comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar (Jó 11.7–9). Ó
profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão
insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos! Quem
compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi o Seu conselheiro? Porque dele e por Ele
e para Ele são todas as coisas. Glória, pois, a Ele eternamente (Romanos 11.33–34,36).

Quando Jó falava dos grandes atos de Deus na criação do mundo, disse que não
passaram de um sussurro do Seu poder, apenas as orlas dos seus caminhos. “Eis que
isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele!
Quem, pois, entenderia o trovão do Seu poder?” Jó 26.14 (NVI).

Por sermos seres finitos, jamais entenderemos plenamente todos os caminhos, Sua
grandeza nem jamais saberemos tudo que Ele sabe. Isso nos ajuda a perceber que
somente Deus é Deus. Será sempre infinitamente superior a nós e, como parte de Sua
criação, devemos-Lhe louvor e adoração.

Conhecer Deus

Jamais saberemos tudo que Deus é, tudo que Ele sabe e faz. Contudo, Ele se
revelou para nós de forma que podemos conhecer o próprio Deus e manter um
relacionamento com Ele.

Assim diz o Senhor: “Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte
na sua força, nem se glorie o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar glorie-se nisto:
em Me conhecer e saber que Eu sou o Senhor, que faço misericórdia, juízo e justiça na
terra, porque destas coisas Me agrado, diz o Senhor.” (Jeremias 9.23–24). Ora, a vida
eterna é esta: que conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem
enviaste (João 17.3). Também sabemos que o Filho já veio, e nos deu entendimento para
conhecermos aquele que é verdadeiro. E estamos naquele que é verdadeiro, isto é, em
seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 João 5.20).

57
Deus é infinito e pessoal, pelo que não estamos limitados a apenas saber fatos a
Seu respeito, mas O conhecemos pessoalmente e temos com Ele um relacionamento.
Sem nenhum tipo de limitação, muito maior que tudo que existe. Ele também é um ser
pessoal que interage conosco pessoalmente e com quem podemos nos identificar.
Falamos com Ele; e Ele, conosco. Entramos em comunhão, interagimos, Ele responde
nossas orações e permanece conosco (João 14.23). Temos esse relacionamento com
Deus graças à dádiva da salvação que nos é dada pela morte e ressurreição de Jesus,
uma das mais importantes razões pelas quais devemos adorá-lo.

Ver Deus

As Escrituras deixam claro que Deus é Espírito e não pode ser visto pelos humanos.
Ninguém jamais O viu, o que quer dizer que Sua verdadeira essência e tudo que Ele é.
Apesar de haver se manifestado várias vezes de forma visível, fenômeno conhecido como
teofania, ninguém jamais O viu tal como Ele é.

[Deus é] Rei dos reis e Senhor dos senhores; Aquele que tem, Ele só, a
imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver;
ao qual seja honra e poder sempiterno (1 Timóteo 6.15–16). Ninguém jamais viu a Deus
(1 João 4.12).

Apesar de nenhum humano jamais ter visto Deus, Jesus — Deus Filho — não
apenas viu o Pai, mas também O revelou.

Todo aquele que ouve o Pai, e aprende dele, vem a Mim. Ninguém viu ao Pai, a não
ser aquele que é de Deus; só este viu ao Pai (João 6.45–46). Ninguém nunca viu a Deus,
mas o Deus unigênito, que está ao lado do Pai, é quem o revelou (João 1.18). Quem Me
vê, vê o Pai (João 14.9).

Ao “vermos” Jesus, a segunda pessoa da trindade, o Deus Filho, vemos o Pai.


“Vemos” Jesus nas páginas das Escrituras. Ouvimos Suas palavras, Seus ensinamentos,
vemos Suas interações com os outros, o amor, a misericórdia, a compaixão, a sabedoria
o poder e a união que Ele tinha com o Pai. Jesus era Deus personificado e nele vemos a
imagem do Deus invisível. Ele existia com Deus antes da criação e, pela Sua encarnação,
entendemos como Deus é.

Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos. Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro
Consolador, para que esteja convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não
pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós O conheceis, pois habita convosco, e
estará em vós. Não vos deixarei órfãos; virei para vós. Ainda um pouco e o mundo não Me verá
mais, mas vós Me vereis. Porque Eu vivo, vós também vivereis

(Colossenses 1.15–19).

Deus Se revelou em Seu Filho, que veio à terra para caminhar conosco e dessa
forma nos possibilitou entrar em um relacionamento eterno com Deus. Por conta do dom
da salvação, teremos o privilégio e a grande alegria de vê-lo face a face. Agora vemos em
espelho, de maneira obscura; então veremos face a face. Agora conheço em parte; então
conhecerei como também sou conhecido (1 Coríntios 13.12). Amados, agora somos filhos
de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando
Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque assim como é, O veremos (1
João 3.2). Ali nunca mais haverá maldição. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e

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os Seus servos o servirão, e verão a Sua face, e na sua testa estará o Seu nome
(Apocalipse 22.3–4).

O próprio Deus se fez conhecer em Seu Filho e é nele que vemos o Pai. O tempo
virá quando veremos Deus. Tudo é possível porque Jesus sacrificou Sua vida por nós, o
que faz dele e do Pai dignos de nossa adoração.

O conhecimento de Deus

Lemos nas Escrituras que Deus é perfeito em conhecimento e que tudo sabe, ou
seja, é onisciente.

Sabes como as grossas nuvens se equilibram, essas maravilhas daquele que é


perfeito em conhecimento? (Jó 37.16). Maior é Deus do que o nosso coração, e conhece
todas as coisas (1 João 3.20).

Deus conhece tudo que existe e tudo que acontece. Nada Lhe é oculto em Sua
criação.

E não há criatura alguma encoberta diante dele. Todas as coisas estão nuas e
patentes aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas (Hebreus 4.13). Ele vê as
extremidades da terra, e vê tudo o que há debaixo dos céus (Jó 28.24). Não se vendem
dois passarinhos por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de
vosso Pai (Mateus 10.29).

Deus sabe também o futuro e tudo que acontecerá. Eu sou Deus, e não há outro; Eu
sou Deus, e não há outro semelhante a Mim. Eu anuncio o fim desde o princípio, desde a
antiguidade as coisas que ainda não sucederam. Eu digo: “O Meu propósito subsistirá, e
farei toda a Minha vontade.” (Isaías 46.9–10). Ele conhece nossas ações e pensamentos,
Sabe tudo que diremos antes que o digamos; quanto tempo viveremos, antes de
nascermos. Ó Senhor, Tu me sondaste e me conheces. Tu conheces o meu assentar e o
meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Esquadrinhas o meu andar e o meu
deitar; conheces todos os meus caminhos. Sem que haja uma palavra na minha língua, ó
Senhor, tudo conheces (Salmo 139.1–4). Os Teus olhos viram o meu corpo ainda
informe. Todos os dias que foram ordenados para mim, no teu livro foram escritos quando
nenhum deles havia ainda (Salmo 139.16).

Verdadeiro e fiel

Todo o conhecimento e as palavras de Deus são verdadeiras e constituem o padrão


da verdade. Ele é o verdadeiro Deus, o Deus real, e qualquer outra coisa que as pessoas
considerem ser Deus é falso.

O Senhor Deus é o verdadeiro Deus; Ele mesmo é o Deus vivo, o Rei eterno. Do
Seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a Sua indignação. Assim lhes
direis: “Estes deuses, que não fizeram os céus e a terra, desaparecerão da terra e de
debaixo deste céu.” (Jeremias 10.10–11). Ora, a vida eterna é esta: que conheçam a Ti, o
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste (João 17.3). Também sabemos
que o Filho já veio, e nos deu entendimento para conhecermos Aquele que é verdadeiro.
E estamos naquele que é verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o
verdadeiro Deus e a vida eterna (1 João 5.20).

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Tudo que Deus sabe e pensa é verdadeiro e é o correto entendimento da realidade.
Ele jamais se engana na Sua percepção ou entendimento do mundo, e Ele é perfeito em
conhecimento (Jó 37.16). Sempre fala a verdade; não pode mentir (Tito 1.2). Como Deus
não mente, é digno de confiança e sempre fiel. Sempre cumpre o que prometeu e
podemos contar que jamais deixará de honrar Suas promessas.

Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, e todos os Seus caminhos são justiça. Deus é a
verdade, e não há nele injustiça. Ele é justo e reto (Deuteronômio 32.4). Deus não é
homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa. Porventura tendo
Ele dito não o fará, ou tendo falado não o realizará? (Números 23.19).

Nosso Deus é verdadeiro, fiel e nele sempre podemos confiar. Ele merece nossa
adoração.

Seu Poder

Deus é onipotente, o que quer dizer que tem poder absoluto. Ele é capaz de realizar
a integridade da Sua santa vontade. Ele tem o poder para fazer seja o que for que decidir
fazer.

Eu sou o Senhor, o Deus de toda a humanidade. Acaso haveria coisa


demasiadamente difícil para Mim? (Jeremias 32.27). Ah! Senhor Deus! Tu fizeste os céus
e a terra com o Teu grande poder, e com o Teu braço estendido. Nada há que Te seja
demasiado difícil (Jeremias 32.17). Ora, Àquele que é poderoso para fazer tudo muito
mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em
nós opera (Efésios 3.20).

O senhor é chamado Todo-poderoso: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim,


diz o Senhor, Aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-poderoso.”
(Apocalipse 1.8). A palavra em grego usada para Todo-poderoso é pantokrator. Significa
que Ele tem o controle de todas as coisas e a tudo governa. Seu poder é infinito. Ele não
está limitado no que pode fazer e é capaz inclusive de fazer mais do que já fez. Lemos,
por exemplo, que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão (Mateus 3.9). É algo
que Ele tem o poder para fazer, apesar de não tê-lo feito. O nosso Deus está nos céus;
Ele faz tudo o que Lhe agrada (Salmo 115.3).

Nada é impossível para Deus. Jesus, olhando para eles, lhes disse: “Para os
homens isto é impossível, mas para Deus tudo é possível.” (Mateus 19.26). Deus pode
escolher adquirir um corpo, encarnar, ser nascido de uma virgem e remir a humanidade, o
que, na verdade, fez.

Disse Maria ao anjo: “Como se fará isto, visto que não tenho relação com homem
algum?” Respondeu-lhe o anjo: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo
te cobrirá com a Sua sombra. Por isso o ente santo que de ti há de nascer, será chamado
Filho de Deus.” (Lucas 1.34–35, 37).

O poder ilimitado de Deus nos possibilitou receber a salvação, algo pelo que
deveríamos sempre adorá-lo.

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O sustentador

Além de criar o mundo, Deus o sustenta e mantém, pois toda a Criação dele
depende para existir e funcionar.

Está na sua mão a alma de tudo o que vive, e o espírito de todo o gênero humano
(Jó 12.10). Ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração, e todas as coisas … Pois
nele vivemos, e nos movemos, e existimos (Atos 17.25, 28).

Segundo as Escrituras, todas as coisas foram criadas por meio de Cristo, que Ele
mantém a unidade de toda a Criação e preserva o universo.

Pois nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e
invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo
foi criado por Ele e para Ele. Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem
por Ele (Colossenses 1.16–17). O Filho é o resplendor da sua glória e a expressa imagem
da sua pessoa, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder (Hebreus 1.3).

O universo e tudo que nele está se mantém porque Deus é nosso sustentador,
mantenedor e, por isso, digno de nossa adoração.

Redentor e salvador

Deus é nosso salvador e redentor. Pelo Seu plano de salvação, nós, que somos
indignos, recebemos Sua graça e misericórdia.

Eu sou o Senhor, o teu Salvador e o teu Redentor (Isaías 49.26). Vindo a plenitude


dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar
os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos (Gálatas 4.4–
5). Tendo Ele sido aperfeiçoado, veio a ser o autor da eterna salvação para todos os que
Lhe obedecem (Hebreus 5.9). Tirou-nos do poder das trevas, e nos transportou para o
reino do Filho do Seu amor, em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a saber, a
remissão dos pecados (Colossenses 1.13–14). Deus prova o Seu amor para conosco, em
que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo
justificados pelo Seu sangue, seremos por Ele salvos da ira. Pois se nós, quando éramos
inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando já
reconciliados, seremos salvos pela Sua vida. Não somente isto, mas também nos
gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem agora
alcançamos a reconciliação (Romanos 5.8–11).

Por causa do amor, da misericórdia, da compaixão e da graça de Deus, entramos


em um relacionamento eterno com Ele. Remidos, salvos, adotados como Seus filhos,
devemos, em profunda gratidão e amor por esse grande privilégio continuamente  dar ao
Senhor a glória devida ao Seu nome; adorar o Senhor na beleza da Sua santidade
(Salmo 29.2).

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ORIENTAÇÃO

“O registro bíblico sempre apresenta o relacionamento entre Deus e o crente mais


como amizade ou laço de parentesco do que como apenas uma relação em que um se
esforça para entender as necessidades do outro”. Dallas Willard Teólogo e escritor
1. Orientação é um item “não-opcional”

A orientação espiritual não é um item de luxo na vida dos discípulos de Jesus, na


verdade, faz parte da versão básica do discipulado. Foi com isso em mente que Jesus
afirmou:

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“Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará
de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir (João 16.13).

“Sempre que forem presos e levados a julgamento, não fiquem preocupados com o
que vão dizer. Digam tão-somente o que lhes for dado naquela hora, pois não serão
vocês que estarão falando, mas o Espírito Santo (Marcos 13.11 (Confira também Lucas
12.11,12).

2. As formas como Deus orientou seu povo

Enquanto se desenrolava o processo da revelação – conforme registrado na Bíblia –


Deus usou muitas formas para dar-se a conhecer e para orientar o seu povo. Vejamos as
principais:

a) Um fenômeno e uma voz (Gênesis 15.17,18; Êxodo 3.3-6; Mateus 3.17; Atos 9.3-
8);

b) Um anjo ou mensageiro sobrenatural (Josué 5.13-15; Juízes 13; Isaías 6.3-6;


Daniel 9.20-27; Atos 5.19-20; 27.23-26);

c) Sonhos e visões (Gênesis 28.11-17; 37.5-9; 40.5-19; Daniel 4.4-18; Atos 9.10-13;
10.9-19; 16.9; 18.9 e II Coríntios 12.1);

d) Uma voz audível (Gênesis 22.11,12; I Samuel 3);

3. Como Deus preferencialmente orienta?

a. A voz humana
Como mostram o caso de Abraão no monte Moriá (Gênesis 22), Samuel no templo (I
Samuel 3) e Jesus no batismo (Mateus 3.13-17), é possível que Deus fale por meio de
uma voz sem que haja um falante visível. No entanto o meio mais comum, na Bíblia e na
história da igreja é que Deus fale por meio de um ser humano “concreto”, situado
historicamente.

De acordo com Dallas Willard, nessas situações, “o Senhor e a pessoa que Ele usa
falam conjuntamente. Pode ser que aquele com quem Deus fala seja também aquele por
meio de quem Ele se manifesta”.

Pensando no caminho que uma mensagem vinda de Deus percorre até chegar a
nós, nesse caso vindo do exterior da mente da personalidade humanas, podemos afirmar
que o ser humano é o meio que Deus mais utiliza para falar conosco. A própria Bíblia é
maior exemplo de Deus falando em conjunto com o ser humano ou utilizado outro ser
humano para orientar seu povo.

b. Espírito humano
Em Provérbios 20.17 está registrado o seguinte: “O espírito do homem é a lâmpada
do Senhor, e vasculha cada parte do seu ser”.

Deus está nos dizendo aqui que Ele nos “ilumina” ou orienta a partir do nosso
próprio espírito (mais precisamente nossos próprios pensamentos e sentimentos, nesse
contexto).

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Sobre esse assunto o apóstolo Paulo tem um ensinamento muito importante
conforme, registrado em I Coríntios 2.9-16. Aqui Paulo nos diz que o Espírito de Deus
atua em conjunto com o nosso espírito para nos revelar quem nós realmente somos aos
olhos de Deus e para nos dar a conhecer o “contexto” em que nossas vidas estão
acontecendo. Além disso, por meio dessa atuação em conjunto, até certo ponto podemos
conhecer os pensamentos e intenções de Deus a nosso respeito e conhecer seus
pensamentos e intenções em relação ao mundo.

É dessa forma que o nosso espírito se torna a lâmpada do Senhor, isto é, somos
orientados pelos movimentos ou influência de Deus no nosso espírito (pensamentos e
sentimentos).

Pode-se até afirmar que dentre todas as formas pelas quais uma mensagem de
Deus vem a nós de dentro de nossa própria experiência (sonhos, visões, por exemplo), a
forma mais comum que Deus utiliza para falar conosco está relacionada aos nossos
próprios pensamentos e sentimentos. Deus fala preferencialmente ao nosso espírito.

À luz de Isaías 55.8 e Jeremias 17.9 é comum as pessoas pensarem que se um


pensamento ou sentimento é somente nosso ele não é bom. Todavia, embora seja um
fato incontestável que mesmo uma pessoa que obedeça a Deus e ande em Seus
caminhos não pensa e sente exatamente como Deus pensa e sente, isso não muda o fato
de que os nossos pensamentos e sentimentos são a forma principal a partir da qual Deus
nos orienta. Daí a necessidade que nossa mente seja renovada (Romanos 12.2 e Efésios
4.22-24).

4. O propósito da orientação

Antes apontar qual é o propósito da orientação em nossas vidas, convém deixar


claro o que não é o propósito da orientação ou direcionamento de Deus.

a. Não é oferecer uma informação privilegiada (exemplo: passar em uma prova);

b. Não é para nos isentar dos “riscos e lutas” comuns da vida (exemplo: sofrerei
acidente se viajar?);

c. Não é para “inflar o ego” (exemplo: se Deus fala comigo é porque sou mais
“espiritual)

O real propósito da orientação de Deus é formar um caráter em nós. Nesse


particular as palavras de E. Stanley Jones são muito precisas: “É óbvio que Deus nos
guia de modo a desenvolver em nós a espontaneidade. O desenvolvimento de caráter,
em lugar de orientação em um ou outro assunto, é o propósito primeiro do Pai. Ele nos
guiará, mas jamais passará por cima de nós. Esse fato deveria levar-nos a usar com
cuidado método de nos assentarmos com um lápis e uma folha de papel em branco para
escrever as instruções ditadas por Deus para o dia. Suponhamos que um pai diga a seu
filho, minuciosamente, tudo o que ele deve fazer durante o dia. Tratado assim, o filho
ficaria impedido de se desenvolver. O pai precisa guiar de tal maneira, que o caráter
autônomo, capaz de tomar as decisões correta sozinho, seja desenvolvido. Deus faz o
mesmo”.

5. Exercite-se em receber orientação

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A disciplina da orientação, então, consiste em se esforçar para conseguir perceber,
entender e receber o que Deus nos fala no intuito para formar sua vida em nós, enquanto
o seguimos como seus discípulos ou aprendizes.

Vale ressaltar que só faz sentido pedir para Deus que fale conosco quando estamos
dispostos a obedecê-Lo ou que só faz sentido esperar ouvir Deus quando estamos
alinhando nossa vida com suas orientações básicas, claramente registradas na Bíblia.
Dito isso:

a. Preste atenção aos seus pensamentos e sentimentos

Não podemos limitar as formas pelas quais Deus nos orienta, mas geralmente Ele o
faz de forma despretensiosa a partir da influência direta sobre os nosso espírito, por isso,
não despreze seus pensamentos e sentimentos, sobretudo os recorrentes.

b. Ordene a mente em níveis diferentes

O escritor Thomas Kelly nos ensina algo precioso: Existe um modo de ordenarmos a
vida mental em mais de um nível ao mesmo tempo. Em um deles podemos pensar,
discutir, ver, calcular, satisfazer todas as questões de exigências externas. Mas no íntimo,
nos bastidores, em um nível mais profundo, também podemos permanecer em oração e
adoração, entoando cânticos e cultuando, em doce receptividade aos sopros divinos.

c. Encontre um orientador

Vivemos numa cultura que desconhece a figura do mestre ou mentor, embora


anseie inconscientemente por sua presença e sofra conscientemente por sua ausência.
No entanto, quando estudamos a história da espiritualidade cristã, não encontramos
evidências de que as pessoas “bem sucedidas” espiritualmente caminhavam sozinhas, ao
contrário, o que encontramos são testemunhos vívidos da caminhada entre filhos e pais
espirituais.

Não é fácil encontrar um mentor ou orientador espiritual – pessoa madura, sábia,


cheio do conhecimento de Deus e consciente de seu chamado para a mentoria – mas
buscar e encontrar um mentor constitui-se um dos maiores desafios e uma das maiores
dádivas da vida cristã.

CELEBRAÇÃO

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A última disciplina da qual trataremos nesta série é a da celebração. É uma boa
maneira de concluir, pois é o resultado do exercício das outras disciplinas espirituais. O
propósito de aderir às disciplinas é mudar nossas vidas, copiarmos Jesus. É nessa
transformação que nos tornamos mais como Cristo, o que aumenta a alegria em nossas
vidas. A disciplina da celebração está intrinsecamente ligada à alegria que vem da
obediência e observância da Palavra de Deus.

Começa com a aceitação do que a Bíblia ensina sobre a salvação ou redenção: é


uma dádiva de Deus, disponível por meio da crença em Jesus como nosso Salvador, que
nos torna justos aos olhos de Deus. A salvação nos permite um relacionamento com Ele e
faz com que Sua presença habite em nós. Crescemos nesse relacionamento quando
aplicamos o que Ele nos ensinou nas Escrituras.

Buscamos viver em conformidade com Sua vontade e O deixamos reinar em nossas


vidas, quando seguimos Suas instruções para vivermos em santidade. Ao fazermos isso,
Ele nos abençoa com orientação, proteção e provisão, o que nos traz alegria. Essa é a
alegria que está à raiz da disciplina da celebração, conforme aprendemos a celebrar o
que Deus faz por nós e nos regozijamos nele.

Alegrai-vos no Senhor, e regozijai-vos, vós, os justos; cantai alegremente todos vós


que sois retos de coração! (Salmo 32.11). Cantem e alegrem-se os que amam a Minha
justiça (Salmo 35.27). A minha alma se fartará, como de tutano e de gordura; a minha
boca te louvará com alegres lábios. Na minha cama, lembro-me de Ti; medito em Ti nas
vigílias da noite. Porque Tu tens sido o meu auxílio, canto nas sombras das Tuas asas
(Salmo 35.27). Os Teus estatutos são a minha herança para sempre; são o gozo do meu
coração (Salmo 119.111).

No livro O Espírito das Disciplinas, Dallas Willard escreveu: Nós nos engajamos na


celebração quando nos alegramos em nós mesmos, em nossa vida e no nosso mundo,
em conjunção com nossa fé e confiança na grandeza, beleza e bondade de Deus. Nós
nos concentramos em nossa vida e nosso mundo como obras de Deus e como presentes
dele para nós. [

Como celebramos na forma de disciplina

Em geral, celebramos aniversários, dias festivos e até acontecimentos como uma


promoção no trabalho, o nascimento de uma criança, uma graduação, etc. A celebração
enquanto disciplina se concentra na celebração interior e exterior, em conexão direta com
as bênçãos e interação de Deus conosco. É a celebração que se faz com regularidade
por acontecimentos importantes no contexto do amor, do desvelo e das bênçãos de Deus,
físicas e espirituais.

Praticamos a disciplina da celebração interiormente quando refletimos na presença


de Deus em nossas vidas, quando reconhecemos que cada dia é uma dádiva que
recebemos de Suas mãos. Reconhecemos que o mundo em que vivemos, toda beleza
que vemos, a comida que comemos, o convívio do qual desfrutamos e todas as bênçãos
que temos vêm das mãos de Deus. Regozijamo-nos no conhecimento da nossa salvação
e encontramos alegria em nossas vidas sintonizadas ao Espírito de Deus. Temos paz em
nossos corações, certos de que Deus cuidará de nós, nos dará “o pão nosso de cada dia”,
de forma que nossas necessidades serão atendidas, que Jesus nos deu paz, para que
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nosso coração não se turbe nem tenhamos medo (João 14.27), e que essa paz guardará
nossos corações e mentes (Filipenses 4.7).

Reconhecemos que mesmo nos tempos difíceis, nos nossos momentos de


escuridão, ainda podemos ter a paz da presença de Deus e o conhecimento que, por
mais difíceis que fiquem as coisas, estamos seguros à sombra de Suas asas.

Misericórdia, ó Deus; misericórdia, pois em Ti a minha alma se refugia. Eu me


refugiarei à sombra das Tuas asas, até que passe o perigo (Salmo 57.1 – NVI). Porque
Tu tens sido o meu auxílio, canto nas sombras das Tuas asas. (Salmo 63.7).

Nossa celebração interior, que nasce da fé, alegria, paz e força em Deus, também
produz a celebração exterior. Uma das principais formas de celebração da paz e alegria
que temos é a adoração a Deus, louva-lo em palavras, canção, música, dança, erguendo
os braços ou fazendo seja o que for que nos ajude a nos regozijarmos em Suas bênçãos.
Também externamos a celebração quando nos reunimos com os outros — familiares
amigos ou companheiros na fé — para comemorar alegrias, vitórias e conquistas que
vivenciamos. Às vezes queremos apenas celebrar a vida e a bondade de Deus com
nossos amados, sem necessariamente nenhuma relação com um acontecimento em
particular ou data especial.

Enquanto disciplina, a celebração exterior está conectada ao reconhecimento interior


das bênçãos de Deus. Celebramos Suas bênçãos em nossas vidas e nas vidas dos
outros, as realizações, a conclusão de um projeto importante, um novo emprego, a
aprovação em um teste, almas salvas. Nas celebrações em família, com quando nos
reunimos em aniversários, casamentos ou por conta do nascimento de uma criança,
aproveitamos essas oportunidades para comemorar o evento, mas também para
demonstrar nossa gratidão a Deus. E há também os feriados religiosos, que podem
ganhar um significado ainda mais profundo, pois ao celebrarmos na forma de disciplina,
aumentamos nossa concentração na importância espiritual e pessoal do evento sendo
festejado.

Por meio dessa disciplina, celebramos externamente eventos, conquistas e feriados,


mas também o simples reunir dos amigos para uma refeição, uma bebida, compartilhar
corações e falar do progresso feito para assim reconhecer tudo que Deus tem feito por
nós e Lhe mostrar nossa gratidão.

Cada um de nós passa por testes, provações e dificuldades, que, às vezes, nos
levam a nos concentrar em nosso sofrimento, nas preocupações, nos temores e das
tristezas da luta. Celebrar é reconhecer que a vida tem seus períodos de dificuldade, mas
também de alegria e felicidade. É importante para nossa fé que nos regozijemos e
celebremos a bondade de Deus para conosco e para com os outros, independentemente
da condição em que nos encontremos.

Confiança, paz e alegria

O apóstolo Paulo escreveu que devemos nos regozijar no Senhor: “Regozijai-vos sempre no
Senhor. Outra vez digo, regozijai-vos. Não andeis ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela
oração e pela súplica, com ações de graças, sejam as vossas petições conhecidas diante de
Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as
vossas mentes em Cristo Jesus (Filipenses 4.4; 6–7).

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Paulo estava ecoando os ensinamentos de Jesus, que disse: “Portanto, não andeis
ansiosos, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? ou: Com que nos vestiremos? …
De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro
o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não
andeis ansiosos pelo dia de amanhã.” (Mateus 6.31–34). Isso não significa que não
devemos fazer nada, mas que precisamos trazer diante de Deus, pela oração, nossas
necessidades e preocupações, pois dessa forma depositamos nossa confiança em Seu
amor e Seu cuidado, em vez de nos preocuparmos. Quando confiamos assim,
vivenciamos paz em nossos corações, somos livres da ansiedade e não temos que
arrastar os fardos de temores e preocupações.

Paulo nos diz ainda para pensarmos no que for digno de louvor para termos assim a
paz de Deus.

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que
é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma
virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que aprendestes, e recebestes, e ouvistes
de mim, e em mim vistes, isso fazei. E o Deus de paz será convosco (Filipenses 4.8–9).

Escolher pensar nas coisas que são boas, excelentes e dignas de louvor é um ato
da vontade que exige um esforço consciente, ou seja, uma disciplina. Escolher confiar em
Deus, não se preocupar, acreditar que Ele cuidará de você e agir com base nessa crença
também requer uma decisão própria. Essas escolhas são parte da disciplina da
celebração. É o esforço feito para escolher pensar e viver segundo a Palavra de Deus e
que produz a alegria. Com essa alegria e celebração em nossos corações, manifestamos
a alegria do Senhor em nossas ações e atitudes. Apreciamos a vida, ao vermos em tudo
que nela existe a mão de Deus. Podemos apreciar a boa comida, o vinho, a beleza, a
arte, a música, o humor, o entretenimento saudável e nos divertir. Podemos nos deleitar
no lindo mundo e em tudo que Deus nele pôs.

As disciplinas espirituais que tenho praticado nos últimos anos me tornaram mais
consciente da mão de Deus em minha vida e da maior necessidade que tenho dele. Tem
me ajudado a perceber melhor Seu envolvimento no meu dia a dia e nas vidas dos outros,
o que produz em mim louvor e gratidão, ou seja, me leva a celebrar.

No passado, muitas vezes fiquei tão ocupado que não dediquei o tempo necessário
para reconhecer o que Deus estava fazendo à minha volta e deixei passar incontáveis
oportunidades de me regozijar. Aprendi como é importante reconhecer Sua presença e
celebrar as vitórias que conquistei, pequenas ou grandes. Às vezes, é uma taça de vinho
ou uma sobremesa especial, uma refeição ou uma festa. Com frequência é só louvar e
agradecer ao Senhor pela Sua bondade e Seu amor para encher minha vida de alegria —
uma alegria que nasce do Seu amor e graça.

Nós, cristãos, podemos ser as pessoas mais alegres no mundo. Somos salvos, o
Espírito de Deus habita em nós e temos em nossas vidas algumas manifestações da
presença do Espírito, tais como: amor, alegria e paz (Gálatas 5.22–23). O amor e a
alegria de Deus, a paz que nos é disponível pela salvação, nos fazem felizes, livres, vivos
e capazes de desfrutar Deus e os outros. São alimentados e fortalecidos quando lemos,
estudamos e aplicamos a Palavra de Deus, quando dedicamos tempo a sós com Ele em
reclusão e silêncio, quando confessamos nossos pecados, quando escrevemos e
rememoramos as maravilhas que vemos Deus fazer. Esse amor e alegria se expressam

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em nossa oração, no nosso louvor e em nossa convivência; são compartilhados quando
falamos para os outros sobre a salvação.

Qualquer uma das disciplinas espirituais das quais partilhamos pode aumentar a
celebração em nossas vidas, pois todas nos ajudam a nos aproximarmos do Senhor,
vivenciar Sua presença e viver em santidade. Ao fortalecermos nossa confiança em Deus,
conforme crescemos em fé, passamos a ter mais paz interior e isso torna nossa alegria
mais perene. Quando nos disciplinamos a permanecer na alegria de Deus pela confiança
que temos nele, lançando sobre Seus ombros nossos fardos, O amamos e nos
regozijamos Seu amor por nós, tornamo-nos cristãos cheios de júbilo que O celebram em
todos os aspectos da vida. Sejamos, portanto, esse tipo de cristão, pois é o que reluz
como uma cidade edificada sobre um monte, para a glória de Deus.

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Bibliografia

Donald S. Whitney, Spiritual Disciplines for the Christian Life (Colorado Springs:


Navpress, 1991)

William Lane Craig, Foundations of Christian Doctrine

Cristianismo Puro e Simples, CS Lewis;


Celebração da Disciplina, Richard J. Foster
MERTON, Thomas, The Sign of Jonas - Nova Iorque:Hacourt, Brace & Co.1953.

Dallas Willard, The Spirit of the Disciplines (New York: HarperOne, 1988), 182.

 John MacArthur Jr., Alone with God (Wheaton, IL: Victor Books, 1995).

W. A. Elwell a B. J. Beitzel na Baker Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids, MI:


Baker Book House, 1988).

T. D. Alexander a B. S. Rosner, eds., in New Dictionary of Biblical


Theology (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000).

Wayne Grudem, Systematic Theology, An Introduction to Biblical Doctrine (Grand


Rapids: InterVarsity Press, 2000).

Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas (Editora Habacuc, 2003), 180.

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