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A perspectiva de Michael Apple para os estudos das

políticas educacionais

Luís Armando GandinI


Iana Gomes de LimaI

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar as contribuições de Michael Apple


para o campo da pesquisa em políticas educacionais. Na extensa obra de
Michael Apple, destacamos seis elementos que podem auxiliar aqueles
que estão interessados na área de políticas em educação: o princípio
epistemológico da análise relacional; o exame do Estado como relação; a
herança de Antonio Gramsci e de Raymond Williams que Michael Apple
incorpora no uso de conceitos como hegemonia e senso comum; a análise
que Michael Apple faz das políticas educacionais como políticas culturais,
como disputas por visão de mundo, como luta por consolidação de uma
hegemonia que vai além do econômico; a sua postura de pesquisador; e
a capacidade que Michael Apple tem de ir além da lógica da reprodução
e determinação para enfatizar o papel da agência e da contra-hegemonia.
Através de exemplos práticos da própria obra de Apple e de outras
pesquisas empíricas, apresentam-se as implicações de cada um dos seis
pontos acima citados para os pesquisadores interessados na área de
políticas educacionais. Conclui-se que muitas das contribuições de Apple
podem auxiliar em pesquisas nessa área, tendo em vista a discussão que
o autor realiza em sua obra e sua crítica ao determinismo econômico
nas análises do campo educacional, salientando a importância, assim, de
aspectos que estão relacionados à esfera da cultura.

Palavras-chave

Michael Apple – Políticas educacionais – Análise relacional – Sociologia


da educação.

I- Universidade Federal do Rio Grande do


Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.
Contatos: luis.gandin@ ufrgs.br;
iana_glima@yahoo.com.br

Educ. Pesqui., São Paulo, v. 42, n. 3, p. 651-664, jul./set. 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1517-9702201609143447 651
Michael Apple’s contributions to research on
educational policy

Luís Armando GandinI


Iana Gomes de LimaI

Abstract

This paper aims at analyzing Michael Apple’s contributions to


research on educational policy. Among the vast work of Apple, we
point to six elements that can help those interested in the field
of educational policy: the epistemological principle of relational
analysis; examining the State as a relation; the legacy of Antonio
Gramsci and Raymond Williams that Michael Apple incorporates
into the use of concepts such as hegemony and common sense;
Apple’s analysis of educational policy as cultural policy, as disputes
over worldview, as a struggle for the consolidation of hegemony
that goes beyond economy; his attitude as a researcher; and his
ability of going beyond the logics of reproduction and determination
to emphasize the role of agency and counter-hegemony. Through
concrete examples of Apple’s own work and of other empirical
research, we present the implications of each of the six elements
aforementioned to the scholars interested in educational policy. We
conclude by showing that many of Apple’s contributions can indeed
improve on current research in the area, particularly taking into
consideration his critique of economic determinism in educational
analysis, pointing out to the crucial role of culture in research.

Keywords

Michael Apple – Educational policy – Relational analysis – Sociology


of education.

I- Universidade Federal do Rio Grande do


Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.
Contatos: luis.gandin@ ufrgs.br;
iana_glima@yahoo.com.br

652 DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1517-9702201609143447 Educ. Pesqui., São Paulo, v. 42, n. 3, p. 651-664, jul./set. 2016.
A obra de Michael Apple é vasta forma como ele escreve. Trata-se de um exercício
e reconhecidamente influente na área da rigoroso de analisar fenômenos complexos
educação. Desde a década de 1970, Apple sem simplificá-los, mas simultaneamente
já nos brindou com mais de uma dezena de buscar uma escrita que seja generosa com os
livros, nos quais se encontra uma verdadeira leitores. Apple afirma ser contrário às análises
e diferenciada obra autoral, que tem sido e exposições herméticas, que considera serem,
utilizada por várias gerações de pesquisadores, em alguns casos, estratégias de conversão dos
docentes e ativistas. Apesar de ser conhecido estudiosos para ganhar status acadêmico. Essa
como um autor de grande contribuição ao é uma lição para todos nós interessados na
campo do currículo, Apple não se resume a análise de complexas políticas educacionais. A
esse campo, como alguns pressupõem. Michael escrita é, também, um ato político e Apple está
Apple é professor de dois departamentos na preocupado com o amplo entendimento de sua
University of Wisconsin-Madison nos Estados teoria por parte de seus leitores.
Unidos, onde está baseado: do Curriculum and O primeiro elemento que merece
Instruction (Currículo e Ensino) e também do destaque é o princípio epistemológico da análise
Educational Policy Studies (Estudos de Política relacional. O segundo é o exame do Estado
Educacional). Ou seja, já em sua afiliação como relação, como local de disputa, como
institucional ele está ligado ao exame das local onde blocos hegemônicos (compostos
políticas educacionais. não apenas por grupos dominantes) operam. O
Este artigo foca nas contribuições da obra terceiro elemento é a rica herança de Gramsci2
de Michael Apple para o exame das políticas e de Williams3 que Apple incorpora no uso de
educacionais. Das muitas contribuições que a conceitos como hegemonia e senso comum. O
obra de Michael Apple pode trazer para esta quarto é o exame que Michael Apple faz das
análise, elegemos1 aqueles que consideramos políticas educacionais como políticas culturais,
os mais relevantes. Seis elementos teóricos da como disputas por visão de mundo, como luta
obra de Apple serão destacados e examinados por consolidação de uma hegemonia que vai
neste artigo, buscando mostrar como a além do econômico. Um quinto elemento é a sua
incorporação de tais aspectos a uma análise postura de pesquisador; Apple é um estudioso
de políticas educacionais (tanto em suas que declara em suas manifestações públicas
manifestações empíricas, quanto na discussão não ter “medo de heresia” e entende que a
teórica sobre o estudo dessas políticas) pode complexa realidade exige complexa teoria para
ser de grande proveito para aqueles que se explicá-la. Finalmente, um sexto elemento é a
dedicam a essa investigação. capacidade que Apple tem de ir além da lógica
Antes de explorar de cada um dos seis da reprodução e determinação para enfatizar
aspectos que contribuem diretamente para uma (sem possibilitarismo ou romantismo) o papel
qualificada análise das políticas educacionais, da agência e da contra-hegemonia.
destacamos uma primeira contribuição mais A obra de Apple, por sua densidade e
geral, que perpassa todos os seis elementos. aprofundamento, por sua coerência e rigor, tem
Essa contribuição está relacionada com a forma grande potencial para a análise de políticas
como Apple trata os fenômenos que estuda e a públicas como campo teórico da educação. O
texto vai mostrar como o campo das políticas
1- Como apontado por um avaliador anônimo (ao qual agradecemos o públicas pode se beneficiar da obra de mais de
parecer), há outros elementos que poderiam ter sido examinados, como
os conceitos de currículo oculto e conhecimento oficial, amplamente
trabalhados por Apple. De fato, há muita utilidade em trabalhar com 2 - Em particular, Apple se utiliza dos Cadernos do Cárcere, de Antonio
esses conceitos no exame das políticas educacionais, mas, neste artigo, Gramsci (1999).
buscamos explorar outros temas, menos trabalhados, com a contribuição 3- Em especial, Apple usa a obra Marxismo e Literatura, de Raymond
de Apple, na literatura sobre política educacional. Williams (1979).

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quarenta anos de Michael Apple. Os seis pontos é fundamental, pois é somente através das
serão, agora, abordados de forma mais detalhada, relações que esses objetos ganham significado.
mostrando as implicações dessas questões para a Um exemplo trazido pelo autor e que ilustra a
análise de políticas educacionais. forma como se opera com a análise relacional
O primeiro ponto é a análise relacional. está no primeiro capítulo do livro Política
Apple afirma que toda a sua obra está baseada cultural e educação. Nesse capítulo, Apple (2000)
nesse princípio, que, segundo ele: escreve sobre uma viagem realizada a um país
asiático no qual faria uma palestra para ativistas
[...] envolve compreender a atividade social em educação. Ao chegar a esse país, Michael era
– sendo a educação uma forma particular conduzido num carro numa estrada em meio à
dessa atividade – como algo ligado ao zona rural. Nesse trajeto, o autor percebeu que
grande grupo de instituições que distribuem os campos que circundavam a estrada eram
recursos, de forma que determinados grupos marcados, de tempos em tempos, por pequenas
e classes têm historicamente sido ajudados, placas com a marca da mais famosa rede de fast
ao passo que outros têm sido tratados de food dos Estados Unidos. Apple perguntou ao
maneira menos adequada. [...] as coisas motorista, um amigo pessoal e antigo aluno, se
recebem significados relacionais, pelas havia algum restaurante daquela rede próximo
conexões e laços complexos com o modo dali. A resposta é que não havia nenhum
pelo qual uma sociedade é organizada e restaurante ocidental num raio de cinquenta
controlada. (APPLE, 2006, p. 44). milhas de onde eles estavam. O amigo de Apple
afirmou que as placas representavam o que havia
A citação acima explica o conceito de errado com a educação daquele país: o governo
e mostra que, em uma pesquisa que leve havia decidido importar capital estrangeiro,
em conta a análise relacional, é necessário afirmando que isso era fundamental para a
examinar as relações entre o objeto em estudo sobrevivência daquele país, sendo que um dos
e a sociedade como um todo – bem como os modos pelo qual o governo fez isso foi a captação
diferentes agentes que a compõem. Apple de investimento para a produção agroindustrial,
(2013, comunicação verbal) afirma que a o que significou oferecer grandes extensões
análise relacional é uma posição epistemológica de terra para agroindústrias internacionais a
na qual se opta por ver o mundo através de baixo custo. Aquelas terras eram destinadas ao
múltiplas relações e categorias. Esta é uma plantio de batatas dessa grande rede de fast
postura crítica, que analisa o objeto de estudo food. O governo do país no qual estava Apple
através do exame das posições econômicas, havia banido os sindicatos de trabalhadores,
culturais e políticas que os grupos ocupam na o que significava que a mão de obra passou a
sociedade. A análise relacional exige que um ser muito mais barata que nos Estados Unidos e
mesmo objeto seja examinado de diferentes que não havia uma preocupação governamental
pontos de vista, colocando-se em relação o com questões ambientais, políticas, pois o
máximo de dimensões envolvidas no objeto objetivo era atrair indústrias e investimentos
de análise. Sobre o Estado, Apple (2013, internacionais a qualquer custo. As pessoas que
comunicação verbal) defende que, ao fazer uso viviam antes naquela terra foram dali retiradas e
da análise relacional, faz-se necessário buscar rumaram para as favelas na cidade. As empresas
ferramentas para compreender os elementos e ali instaladas foram isentas de impostos durante
relacionamentos que fazem parte do Estado e vinte anos, o que fez com que diminuíssem os
que são produzidos na relação com ele. recursos para saúde, educação, habitação etc.
Na visão de Apple (2006), essa análise Para não sofrer a pressão da população, que se
que coloca os objetos de estudo em relações encontrava sem escolas, o governo encontrou

654 Luís Armando Gandin; Iana Gomes de Lima. A perspectiva de Michael Apple para os estudos das políticas educacionais
a seguinte solução: as crianças só poderiam Ao estudar uma política de parceria pú-
ser matriculadas em escolas públicas se fossem blico-privada em educação, é preciso atentar
registradas em hospitais ou em algum órgão do não apenas para as relações entre o local que
governo, sendo que ambos eram muito raros estabelece tal política (governo federal, gover-
nessas localidades. Assim, como muitas delas no estatal ou governo municipal), mas também
não eram registradas, o número de crianças sem para as relações mais globais, entendendo o
escola não era alto. O amigo de Apple terminou contexto que permite que tal parceria se faça
sua história com a seguinte frase: “Michael, estes presente em determinada localidade. Em uma
campos são a causa da inexistência de escolas na pesquisa realizada por um de nós (LIMA, 2011),
minha cidade. Não há escolas lá porque muitas foi examinada uma política colocada em práti-
pessoas gostam de batatas fritas baratas”. ca no estado do Rio Grande do Sul. Essa políti-
Esta história demonstra o quão central ca permitia que as escolas adotassem materiais
é analisar a educação de forma relacional. didáticos de instituições não estatais para alfa-
Somente conectando os fenômenos é possível betizar alunos de 1º e 2º anos do ensino funda-
traçar as ligações existentes entre os âmbitos mental. Para analisar essa política, fez-se uso
cultural, social, político e econômico e a da ferramenta teórico-metodológica da análise
educação. Através do uso da ferramenta teórico- relacional. Primeiramente, foi preciso compre-
metodológica da análise relacional, é possível ender em que contexto se inseriam essas parce-
perceber essas ligações que transcendem o rias. Para tanto, fez-se necessário um exame do
âmbito educacional. Na história contada pelo contexto internacional em que essas parcerias
amigo de Apple, enxerga-se a relação entre a surgiram. Assim, estudou-se as formas de ad-
exploração de mão de obra barata, o investimento ministrar o Estado (Estado de bem-estar social,
de capital estrangeiro, as questões ambientais, o burocracia, gerencialismo) em países centrais
êxodo rural, o incentivo fiscal, a falta de órgãos ao capitalismo, em especial, os Estados Unidos
governamentais, tudo isso relacionado à falta de e a Inglaterra. Esse estudo foi fundamental para
escolas. São inúmeros elementos que precisam que se pudesse compreender as relações econô-
ser considerados nessa análise para efetivamente micas, políticas e sociais que estavam envol-
compreender o porquê daquele país ter tão vidas na adoção desses materiais no estado do
poucas escolas para suas crianças. Rio Grande do Sul. A análise dos dados, cole-
Esta ferramenta analítica representa uma tados a partir de entrevistas e observações em
importante lente teórica com a qual se pode sala de aula, também foi realizada através da
operar na análise de políticas educacionais. análise relacional, usando a teoria que havia
Para que se possa fazer uso dessa lente é sido construída ao longo do trabalho como a
necessário colocar a política que se estuda em lente que guiava o olhar de pesquisador para
relação com questões econômicas, políticas, o que havia sido coletado, colocando sempre
culturais e sociais. Portanto, em um trabalho esses dados em relação, pois os próprios concei-
de pesquisa que envolva a análise de uma tos escolhidos ao longo da pesquisa atentavam
determinada política educacional e que opere para essa questão da complexidade do real. A
com a análise relacional, faz-se necessária análise relacional é a chave para o entendimen-
a escolha de conceitos que deem conta dessa to de toda a obra de Apple. Os outros pontos
rede de correlações de forma complexa. Esses que serão abordados ao longo deste artigo es-
conceitos, por sua vez, representarão a forma tarão sempre conectados à análise relacional.
de atuar com a análise relacional, isto é, O segundo ponto está conectado ao
formarão uma ampla rede que guiará o olhar do entendimento do Estado como uma relação,
pesquisador. Um exemplo mais concreto pode como um local de disputa, no qual diferentes
auxiliar nesse entendimento. blocos lutam para serem hegemônicos e também

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para tornarem suas ideias hegemônicas. Apple conceito analisado mais adiante neste artigo). A
(2013, comunicação verbal) destaca que, nos composição do que Apple (2000) denomina Nova
últimos anos, pouco foi aprofundado sobre o Direita demonstra quanto o Estado é permeado
Estado na teorização crítica de matriz marxista, por disputas e formado por diferentes grupos. Os
pois, geralmente, este é visto como um mero quatro grupos que formam essa aliança são os
braço do capital. Segundo o autor, o Estado neoliberais, os neoconservadores, os populistas
merece um olhar mais atento para desmistificar autoritários e a nova classe média profissional.
essas ideias. Para Apple (2013, comunicação Os neoliberais constituem a liderança da Nova
verbal), ao estudar o âmbito educacional – e Direita e representam o grupo que se preocupa
isso inclui as políticas educacionais –, é preciso com a orientação político-econômica atrelada
analisar o Estado, pois a educação escolar é (por à noção de mercado. Os neoconservadores são
enquanto, ao menos) função estatal. aqueles que definem os valores do passado como
O Estado, na obra de Apple, é um muito melhores que os atuais e que lutam pelas
elemento central para a análise de políticas “tradições culturais”. Os populistas autoritários
educacionais, pois estas estão relacionadas ao são, em geral, pessoas da classe trabalhadora
âmbito estatal e, portanto, dependendo da forma que estão preocupados com a sua sobrevivência
como se concebe o Estado em uma pesquisa que econômica e que, portanto, em seus cotidianos,
envolve políticas, ter-se-á uma visão complexa lutam, defendendo valores morais estritos, para
do fenômeno em estudo ou, então, uma forma que essa aliança sobreviva. Por fim, o grupo
mais linear e vertical do processo político. Apple constituído pela nova classe média profissional
(1989, 1995, 2000, 2006) mostra, em várias está preocupado com a mobilidade social e tal
instâncias e com exemplos concretos, não segmento “pode não concordar totalmente com
apenas como as lutas que permeiam o Estado se esses outros grupos, mas [...] [seus] interesses
dão em termos de classes sociais, mas também profissionais e progresso dependem da expansão
como dinâmicas de gênero e raça atravessam de sistemas de prestação de contas, da busca da
o Estado e suas políticas educacionais. No eficiência e de procedimentos gerenciais [...]”
trabalho de Apple, o Estado é entendido como (APPLE, 2000, p. 32).
não neutro, formado por diferentes grupos que A Nova Direita, no cenário de
se aliam entre si a partir de objetivos comuns reconfiguração do Estado nos Estados Unidos,
e lutam para que seus objetivos tornem-se constitui-se como uma aliança hegemônica, que
hegemônicos. O Estado é onde se materializam realiza uma crítica severa ao Estado de bem-
as disputas entre as alianças hegemônicas. Ao estar social e que passa a constituir um novo
compreender o Estado como permeado por discurso alicerçado nas ideias de que é preciso
disputas de poder e como não somente sendo uma nova forma de administrar o Estado para que
dirigido por um grupo dominante, tem-se uma os lucros sejam revigorados e para que a lógica
perspectiva mais complexa do âmbito estatal. do mercado seja a base da política. No entanto,
Um exemplo que auxilia nesse a Nova Direita é uma aliança entre grupos com
entendimento é a discussão que Apple (2000) diferentes objetivos e interesses. A nova classe
realiza em torno da crise do Estado de bem- média, os neoconservadores, os neoliberais e os
estar social nas décadas de 1970 e 1980 nos populistas autoritários estabeleceram essa aliança,
Estados Unidos e da concepção de uma mas a partir de interesses econômicos, culturais e
nova forma de administrar o Estado. Nesse políticos diferentes. Isso significa dizer que essa
momento histórico, Apple (2000) destaca que aliança foi constituída a partir de contradições
diferentes grupos articularam-se a partir de entre os próprios grupos que a formam e que,
distintos objetivos, como forma de tornarem portanto, para que pudesse se formar, foram
suas ideias hegemônicas (hegemonia será um necessários acordos e concessões no interior da

656 Luís Armando Gandin; Iana Gomes de Lima. A perspectiva de Michael Apple para os estudos das políticas educacionais
própria aliança, o que mostra a complexidade e a família e o mundo do trabalho, ela também é
fragilidade na sua formação. Esse exemplo ajuda um local no qual muitas opiniões no campo
na compreensão do que Apple (2000) aponta ideológico e político são formadas. O interesse
como um Estado permeado por disputas de poder, dos grupos por esse espaço é compreensível,
formado por diferentes grupos. visto que é de fundamental importância para
Apple afirma que o Estado está sempre em a legitimação do discurso hegemônico que
formação, o que traz uma ideia de movimento. este seja cotidianamente reafirmado. A escola
Para o autor, o Estado não apenas é uma arena pode ser um espaço que desempenha esse
na qual grupos diferentes lutam para legitimar e papel. Como uma das instituições do Estado (ou
instituir suas concepções, mas o Estado mesmo sancionada pelo Estado), a escola é permeada
se forma e se transforma através dessas lutas, pelos discursos que a envolvem. As políticas
modificando, assim, tanto seu conteúdo quanto educacionais, por sua vez, também precisam ser
sua forma. A teorização de Apple em relação entendidas como um campo no qual as disputas
ao Estado permite entender por que ocorrem hegemônicas se fazem presentes.
transformações no Estado, sendo que estas são O terceiro ponto está relacionado com
fruto das disputas de variados grupos. as contribuições de Gramsci e de Williams que
Como já mencionado, Apple afirma que é Apple utiliza em sua obra. Essas contribuições
importante levar em conta o Estado nas análises estão ligadas aos outros dois pontos acima
em educação, pois o processo educacional tratados, pois implicam o uso de conceitos
é justamente uma das responsabilidades do como hegemonia, ideologia e senso comum, o
Estado. Ao assumir uma concepção de Estado que tem profundos reflexos na forma complexa
como a acima referida, há implicações para uma como Apple entende a analisa os fenômenos
pesquisa que analise políticas educacionais. sociais. O uso desses conceitos permite ao
Partindo dessa compreensão de Estado, é pesquisador de políticas educacionais superar a
preciso entender as políticas também como lógica vertical da política como algo concebido
não estáticas e não neutras, e como permeadas sem mediações e implantada como se os sujeitos
por disputas de poder entre diferentes grupos não tivessem agência.
hegemônicos. A partir dessa premissa, torna-se Em Ideologia e Currículo, Apple traz a
fundamental um olhar atento do pesquisador ideia de hegemonia, baseando-se nos estudos
para os diferentes atores (estatais e não estatais) de Raymond Williams e Antonio Gramsci,
e para as distintas relações que fazem parte como algo que é vivido profundamente pela
da política e do Estado, analisando os jogos sociedade, de tal forma que a sature, o que
políticos entre esses atores e contextos. acaba, muitas vezes, por construir os limites do
Ao partir do pressuposto de que a educação senso comum:
é permeada por lutas cotidianas em torno do
discurso hegemônico, um campo de constituições [...] a hegemonia atua para “saturar” nossa
políticas e ideológicas e um meio de reprodução própria consciência, de maneira que o
e produção social, é compreensível que haja, mundo educacional, econômico e social
por parte dos grupos hegemônicos, interesses que vemos e com o qual interagimos,
pela educação e pela instituição escolar. Esses bem como as interpretações do senso
grupos veem a educação e a escola como comum que a ele atribuímos, se torna o
campos no quais também há a possibilidade mundo tout court, o único mundo. Assim,
de tornarem seus discursos hegemônicos, de a hegemonia se refere não à acumulação
legitimarem seus ideais e de naturalizarem de significados que estão em um nível
seus pressupostos. Além de a escola ser a abstrato em algum lugar “da parte superior
instituição que medeia o processo entre a de nossos cérebros”. Ao contrário, refere-se

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a um conjunto organizado de significados O conceito de senso comum, por sua
e práticas, ao sistema central, eficaz e vez, está profundamente imbricado na noção
dominante de significados, valores e ações de hegemonia. Os discursos hegemônicos
que são vividos. Precisa ser entendida só se constroem como tal na medida em que
em um nível diferente do que o da “mera estão conectados com a vida prática de uma
opinião” ou da “manipulação”. (APPLE, sociedade e com os alicerces que a sustentam,
2006, p. 39, grifos do autor). isto é, com o senso comum. No entanto, não se
pode dizer que o senso comum depende apenas
Essa ideia de saturação é central no da hegemonia para existir, nem se pode afirmar
pensamento de Apple, pois, primeiramente, que o senso comum é formado apenas pelas
afasta-se de uma concepção da noção de he- ideias hegemônicas. Tampouco, em relação à
gemonia como um falseamento da realidade, hegemonia, é possível dizer que ela só se faz
uma manipulação, pois a hegemonia conecta- presente através do senso comum. O que existe
-se exatamente com aquilo que é vivido pelas é uma relação de interdependência entre senso
pessoas e, para isso, esse processo de satura- comum e hegemonia. O senso comum é, ao
ção é fundamental, pois implica um trabalho mesmo tempo, a naturalização de determinadas
cotidiano dos grupos hegemônicos para que a ideias de grupos hegemônicos – os interesses
consciência seja saturada, fazendo, assim, com desses grupos, através do senso comum, deixam
que a forma como se vê e se interage com o de ser vistos como dominantes e passam a ser
mundo educacional, econômico e social, bem entendidos como naturais, como essenciais na
como as interpretações que se faz através do vida prática – e também é a base com a qual as
senso comum, tornem-se a única maneira ideias hegemônicas precisam estar conectadas.
possível de compreender o mundo. Segundo É importante ressaltar que o senso
Apple (2000, p. 43), a hegemonia implica a ob- comum não se constitui puramente através dos
tenção de um consenso, “criando um guarda- discursos hegemônicos: ele também é formado
-chuva ideológico sob o qual podem se abrigar por outras ideias. O senso comum é contraditório,
grupos diferentes, que normalmente poderiam fragmentado e possui diferentes visões de
não concordar na totalidade uns com os outros” mundo. É também uma arena de disputa.
(APPLE, 2000, p. 43). A figura do guarda-chuva Apple (2006) destaca, a partir dessa premissa,
auxilia no entendimento de que a hegemonia que é necessário que os grupos hegemônicos
é ampla e abriga diferentes grupos. lutem diariamente para que os seus elementos
A hegemonia não é algo que surge continuem tendo sentido na vida prática e,
de forma espontânea e nem garantida: ela assim, sigam pertencendo aos discursos que
está relacionada com o trabalho dos grupos formam o senso comum. Tal qual o conceito
hegemônicos, que atuam constantemente para de hegemonia, o senso comum também tem
fazer com que a sustentação do modo capitalista uma ideia de movimento, como um terreno que
de produção seja entendida como algo da vida precisa ser constantemente conquistado. As
cotidiana, como algo necessário ou natural ideias só se tornam efetivamente hegemônicas
(APPLE, 2006). É importante destacar que Apple se elas conseguem se converter em senso
também utiliza as contribuições de Gramsci ao comum, conectando-se aos elementos de bom
afirmar que a hegemonia é sempre preferível senso presentes no senso comum.
ao uso da força, mas, caso a hegemonia não A ideia de aliança hegemônica também
seja atingida através do processo de saturação, é central nos estudos de Apple (2000, 2006),
a força nunca é completamente dispensada. pois aponta que grupos que poderiam parecer
No entanto, a hegemonia é muito mais efetiva contraditórios em seus ideais podem aliar-se a
que a força. partir de objetivos comuns, como o exemplo

658 Luís Armando Gandin; Iana Gomes de Lima. A perspectiva de Michael Apple para os estudos das políticas educacionais
acima citado da Nova Direita. Essas alianças integral seja vista como central. O quarto ponto
refletem a complexidade que permeia o real trata das políticas educacionais como políticas
e Apple (2006) aponta que é necessário um culturais, como disputas por visão de mundo,
árduo e constante trabalho por parte desses como luta por consolidação de uma hegemonia
grupos para que as alianças se mantenham. que vai além do econômico. A ênfase que
Tais alianças estão sob a liderança dos grupos Apple (2000) dá às políticas culturais, ao nexo
mais poderosos, que produzem consenso conhecimento/poder, permitem uma análise
sobre pontos comuns entre seus divergentes mais complexa das políticas educacionais.
interesses, tornando tais pontos o modo natural Apple (2000) afirma que as políticas em
de pensar e fazer todas as coisas. A partir do educação devem ser pensadas como políticas
conceito de alianças hegemônicas, faz-se culturais, o que inclui pensar em fatores como:
ainda mais complexa a análise de hegemonia objetivos econômicos e valores; visão tanto de
e contra-hegemonia. É importante destacar que família, quanto de raça, gênero e relações de
grupos dominados também podem fazer parte classe; política cultural; diferença e identidade;
das alianças hegemônicas quando veem alguns e o papel do Estado. Para o autor, a política
de seus objetivos contemplados por tal aliança. cultural é uma luta para definir a realidade
Isso ratifica a importância de usar outras social e interpretar as aspirações e necessidades
categorias que não apenas classe, pois, muitas básicas das pessoas. Um dos alertas de Apple
vezes, os grupos que compõem tais alianças (2000), ao usar esse conceito, é de que a política
não são ligados ao que se pode chamar de cultural envolve também os recursos que se usa
classe dominante, mas relacionam-se com essas para questionar as relações existentes, para
alianças em função de questões como raça e defender as formas contra-hegemônicas, ou
gênero, por exemplo. para criar outras formas de se contrapor aos
Apple (2000) afirma que a hegemonia modelos vigentes.
não é apenas política, mas também cultural, Um exemplo em relação à importância
utilizando-se, aqui, das contribuições de do entendimento de política como cultural, o
Raymond Williams. Para Willians, hegemonia que significa fazer uso de categorias analíticas
é um conjunto de práticas e expectativas que que estejam relacionadas ao âmbito cultural,
modulam as percepções de mundo. encontra-se no livro Trabalho docente e textos.
A hegemonia tem fundamental Nele, Apple (1995) analisa o trabalho docente
importância na análise de políticas educacionais. nos Estados Unidos. Uma de suas contribuições
Quando se analisa uma política de educação, é que, ao investigar estes sujeitos, é preciso levar
é preciso levar em conta as disputas entre os em conta que o corpo docente é majoritariamente
diferentes grupos que compõem o Estado e composto por mulheres. Segundo Apple (1995),
as lutas travadas por esses grupos para que existem diferentes motivos que fazem com que
determinadas ideias e significados se tornem ocupações majoritariamente femininas sejam
hegemônicos e façam parte da pauta das políticas mais proletarizadas que as masculinas:
educacionais. Em determinado tempo e espaço,
algumas ideias ganham maior importância Em toda a categoria ocupacional, as
que outras. Por exemplo, por que a educação mulheres estão mais sujeitas a serem
integral se faz tão presente nos dias atuais? proletarizadas que os homens. Isto pode ser
Por que ela é pauta governamental e tornou-se devido a práticas sexistas de recrutamento
um programa de governo? Para que se possa e promoção, à tendência geral a se dar
compreender tais questões, é preciso levar em menor importância às condições de
conta as disputas dos grupos que compõem trabalho das mulheres, à forma pela qual o
o Estado e que fazem com que a educação capital tem historicamente tirado proveito

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das relações patriarcais, e assim por diante. de pergunta. Quem está ensinando? Em
Qualquer que seja a razão, é claro que uma geral, o ensino na escola elementar tem
dada posição pode ser mais, ou menos, sido historicamente construído como um
proletarizada, dependendo de sua relação “trabalho feminino”. (APPLE, 1989, p. 15).
com a divisão sexual do trabalho. (APPLE,
1995, p. 32-33). O autor afirma que muitas das políticas
educacionais são pautadas no fato de que o
O autor alerta para o fato de que um trabalho nas escolas é realizado em grande
trabalho realizado em sua maioria por mulhe- parte por mulheres. Em relação às políticas
res terá diferenças, em termos de imaginário curriculares padronizadas, por exemplo, Apple
social e de determinações em relação ao tra- (1989) afirma que tal política encontra espaço
balho realizado, de um trabalho realizado por porque existe uma desconfiança em relação ao
homens. Isso ocorre, inclusive, quando se trata trabalho realizado por mulheres, como se elas
de um mesmo emprego. Apple (1995) mostra não fossem tão boas quanto os homens. Assim,
em seus estudos que, à medida que o trabalho ter um currículo padronizado representaria uma
docente passou a se caracterizar como femi- garantia de que estas professoras realizariam um
nino, “criou-se um pressuposto” de que seria bom trabalho apesar de serem mulheres. Esse é
necessário maior controle desse trabalho. Isso um exemplo da importância da categoria gênero:
decorreu principalmente da ideia, amplamente
reforçada por grupos conservadores, de que as A introdução original de material pré-
mulheres são menos qualificadas que os ho- empacotado foi estimulada por uma rede
mens para trabalharem com os conteúdos es- específica de forças políticas, culturais
colares das ciências e que, portanto, precisam e econômicas nos anos cinquenta e
ser mais controladas para que façam o traba- sessenta, nos Estados Unidos. A noção,
lho antes realizado pelo sexo masculino. A mantida por docentes universitários de
própria ocupação – no caso, a de professora – que o magistério seria despreparado
passa a ser entendida como pouco qualificada. em diversas áreas do currículo tornava
Apple (1989) demonstra que todo o “necessária” a criação do que se chamou
corpo docente tem sofrido uma degradação de “materiais à prova de professor”, isto
de seu emprego, mas que isso ocorre de é, materiais que funcionassem apesar do
forma mais contundente no chamado ensino professor. (APPLE, 1989, p. 165).
elementar nos EUA. Isso, mais uma vez,
tem relação com o gênero, pois, no ensino A análise de Apple (1989, 1995) sobre
fundamental, grande parte do corpo docente o trabalho docente aponta a necessidade
é constituído pelo sexo feminino: do uso de outras categorias que não apenas
classe. O autor demonstra, através de suas
Especialmente na escola elementar, o pesquisas, que a utilização exclusiva de
magistério está muito mais sujeito a categorias relacionadas ao âmbito econômico
experienciar o que sociólogos críticos não dá conta das complexidades que se fazem
rotularam de degradação do trabalho. presentes nas políticas e no Estado. Tanto
Não acho que possamos entender o Estado como as políticas são repletas de
completamente por que o magistério da contradições e conflitos. Portanto, na análise de
escola elementar está sujeito a um maior políticas, é preciso levar em conta o por vezes
controle e a uma maior intervenção do contraditório caráter das políticas estatais,
estado no currículo a menos que paremos que são um reflexo das divisões internas, das
um instante e façamos um tipo particular fraturas e das contradições que ocorrem nas

660 Luís Armando Gandin; Iana Gomes de Lima. A perspectiva de Michael Apple para os estudos das políticas educacionais
lutas de classe, de gênero e de raça, entre tantas relacionados a outro tema já abordado aqui,
outras categorias. que são as contribuições de Antonio Gramsci.
Em uma pesquisa, as contradições Este autor, segundo o próprio Apple, trouxe
encontradas no Estado e nas políticas importantes contribuições para esta corrente
educacionais precisam ser compreendidas como teórica. A incorporação desses conceitos à
fruto das disputas hegemônicas, que permeiam teoria neomarxista permitiu o reconhecimento
distintos elementos da ação de uma mesma de que aspectos relacionados com sociedade,
instituição, de um mesmo sujeito ou de uma hegemonia, política e cultura não estão
mesma política. Nessa perspectiva, a política completamente relacionados às questões
não é entendida, na obra de Apple (2000; 2006), econômicas. Além disso, os neomarxistas
como resultado dos interesses de uma única defendem que a cultura e a hegemonia por si
classe ou das classes dominantes. Apple (2000) só são importantes áreas para a análise crítica,
destaca, também, a importância dos atores e de apresentando contradições significativas para o
diferentes instâncias para a política. O autor entendimento dos processos sociais.
vê os sujeitos (educadores, alunos etc.) não Apple aponta que o uso do conceito
como meros implementadores ou marionetes de hegemonia em pesquisas de políticas
de uma política, mas também como atores que educacionais ajuda a entender por que alguns
pensam as políticas que eles recriam, através da segmentos racialmente oprimidos nos Estados
interpretação, reinterpretação e de processos de Unidos apoiaram movimentos de privatização
resistência no cotidiano. Essa é uma importante da educação – o que, em última instância,
questão, que contribui para a sofisticação da ampliou as desigualdades existentes. Nesse
análise de políticas, para além de um processo caso, apenas a categoria de classe não explica
vertical ou top down. essas motivações, o que reforça a necessidade
O quinto ponto relaciona-se à defesa de de operar com categorias de âmbito cultural,
Apple do uso de elementos de diferentes teorias como raça, por exemplo.
como forma de explicar os complexos processos No entanto, ao filiar-se ao campo teórico
que envolvem a sociedade e a educação. Como do neomarxismo, Apple faz um alerta: enfocar
já dito, Apple afirma sempre não ter “medo de somente a cultura pode ser bastante limitador.
heresia” e entende que a complexa realidade Por isso, o autor não nega, de forma alguma,
exige complexa teoria para explicá-la. Apple a importância da economia e dos modos de
está aberto para incorporar ferramentas teóricas produção. Esses são aspectos incorporados na
que ajudem a analisar os temas da educação análise relacional de Apple. Para ele, o problema
aos quais se dedica, sempre com o cuidado de é quando a cultura é vista de forma descolada
fazê-lo dentro dos limites de combinação que das relações econômicas e da luta política.
essas ferramentas permitem. O autor afirma Dentre as teorias pós-modernas e
que, em geral, as teorias neogramscianas e as pós-estruturalistas, Michael Apple destaca a
pós-modernas e pós-estruturais são entendidas importância das contribuições de Foucault para:
como opostas. No entanto, ele mostra que a compreensão da relação entre conhecimento
muitos elementos podem se complementar para e poder; a importância do exame do local,
explicar questões que, se não colocadas em rejeitando a ideia de uma grande narrativa
debate através de distintos elementos teóricos, que explicaria todas as relações; a ênfase na
poderiam passar despercebidas. multiplicidade e na heterogeneidade; e a noção
Apple filia-se ao campo do neomarxismo, de que a identidade é um lugar para a luta
que busca analisar como cultura, ideologia, política. Contudo, Apple alerta que as teorias pós
hegemonia e autonomia relativa se relacionam muitas vezes descolam-se da realidade material,
à educação. Os estudos neomarxistas estão tratando todos os fenômenos como discurso ou

Educ. Pesqui., São Paulo, v. 42, n. 3, p. 651-664, jul./set. 2016. 661


texto. Apple afirma que é fundamental não perder tempos atuais, contra as práticas de mercado na
de vista, nos trabalhos analíticos, a realidade educação. A postura de secretariar experiências
econômica, o Estado e as práticas culturais. está também relacionada com a visão de
Mesmo salientando a importância da cultura nas “intelectual orgânico” de Gramsci, baseando-
análises, Apple reafirma que a economia ainda se, principalmente, na premissa de que uma
precisa ser levada em conta como um fator educação contra-hegemônica não é aquela
crucial nas análises em educação e defende, que não faz uso do “conhecimento de elite”,
assim, o uso da categoria classe social. O autor mas que o apropria e a reconstrói de maneira
afirma que essa categoria não explica todos os que sua forma e seu conteúdo sirvam para as
aspectos relacionados a determinada questão necessidades progressistas e sociais.
educacional, mas não pode ser abandonada. O Para o campo da pesquisa em política
autor ainda alerta que, nos dias atuais, tendo em educativa, essa postura defendida por Apple
vista os processos mercadológicos pelos quais traz aprendizagens. Através da análise dessas
vem passando a educação, em que o capital experiências, pode-se aprender muito sobre
encontra no processo educacional um campo a construção de hegemonia, de alianças em
fértil para seu desenvolvimento, economia e prol de determinados objetivos, sobre o senso
classe tornam-se ainda mais importantes nas comum, partindo de outro lugar que não aquele
análises educacionais. que vem sendo comumente ocupado pelas
O sexto ponto refere-se à postura de práticas de direita, pelas ações mercadológicas
pesquisador de Apple, à sua capacidade de ir além na educação. Além disso, os pesquisadores
da lógica da reprodução e determinação para em políticas podem também ter o papel de
enfatizar (sem possibilitarismo ou romantismo) secretariar experiências políticas contra-
o papel da agência e da contra-hegemonia. hegemônicas, que sirvam para documentar
Esse tópico está relacionado ao que como ações progressistas são produzidas e
Apple destaca como uma das tarefas de um podem nos dar lições teóricas e políticas.
educador crítico, sendo fundamental não Um exemplo de estudo como esse é o trabalho
apenas analisar a sociedade, mas ajudar a que um de nós (em alguns casos, em parceria
transformá-la. Apple ressalta o quanto os com Apple) conduziu sobre a experiência
pesquisadores críticos devem estar envolvidos da política educacional da cidade de Porto
no processo de reposicionamento. Esse processo Alegre (GANDIN, 2011; GANDIN; APPLE,
significa examinar o mundo através dos olhos 2012). Naquele caso, aplicar toda a teorização
dos despossuídos e agir contra os processos complexa que Apple construiu nos ajuda a
opressivos. O autor sugere que uma das formas compreender, permite analisar com maior
de se reposicionar seja através da ação como potência as reformas progressistas e mostrar
secretário de grupos e movimentos sociais como elas podem ou não tornar-se orgânicas
que estão envolvidos em discutir as relações a um local e modificar o senso comum sobre o
de desigualdade, o que foi feito de forma que é possível na educação escolar.
primordial por Michael Apple em seu livro Todavia, cabe ressaltar que os
Escolas democráticas, no qual o autor trata ensinamentos de Apple em relação à postura de
de algumas experiências educacionais contra- pesquisador crítico também servem para reforçar
hegemônicas. Isso implica que o autor vá além a importância da realização de pesquisas sobre as
do estudo da reprodução em educação. Apple, políticas mais vinculadas a uma visão direitista
através de um papel ativista, fruto de sua da educação. Ao secretariar essas experiências, ao
formação pessoal e acadêmica, está seriamente analisá-las, o pesquisador estará fazendo aquilo
preocupado em mostrar ações e projetos que o autor propõe como uma importante tarefa,
contra-hegemônicos, que possibilitem ir, em que é aprender com a direita a forma como ela

662 Luís Armando Gandin; Iana Gomes de Lima. A perspectiva de Michael Apple para os estudos das políticas educacionais
vem tornando suas ideias hegemônicas, como Outro ponto importante é que Apple,
ela vem se conectando com o senso comum, em toda a sua obra, fala com a teoria, opera
para que, assim, os movimentos progressistas com os conceitos e não fala sobre a teoria ou
possam apropriar-se dessas formas, não para sobre os conceitos. Essa é uma postura de um
que realizem práticas semelhantes, mas para que pesquisador crítico, que se apropria da teoria.
possam fazer com que suas ideias progressistas, Apple, através de seus escritos, mostra que a
suas ações contra-hegemônicas se façam metodologia de uma pesquisa não é representada
presentes e fortes no cotidiano educacional. apenas por um método ou por procedimentos
metodológicos, e pontua que o pesquisador
Considerações finais deve assumir uma postura metodológica que
inclua uma apropriação dos conceitos com o
Os pontos que foram tratados aqui quais deseja operar e o uso dos mesmos, ao
mostram que muitas das contribuições de Apple longo de toda a sua pesquisa, mantendo sempre
podem auxiliar em pesquisas que tenham como uma vigilância epistemológica. A teorização e
campo as políticas educacionais. Mesmo que a prática de pesquisa estão, portanto, sempre
tais contribuições já tenham sido arroladas, muito ligadas uma à outra na obra de Apple.
cabe um rápido fechamento. É importante ter A análise relacional implica exatamente
em conta que Apple, em sua obra, propõe uma essa postura epistemológica, que demanda
discussão que põe em xeque um determinismo sempre o uso de uma lente grande angular
econômico nas análises educacionais, trazendo (que possibilita ampliar o quanto se vê) por
à cena aspectos que estão relacionados também parte do pesquisador, que permite sempre estar
à esfera da cultura, como hegemonia e senso aberto para a complexidade que se apresenta
comum e conceitos como raça e gênero. No no real, examinando concepções, ao longo
entanto, o autor alerta para a importância da pesquisa, e reconstruindo outras, a partir
que a economia e a classe social representam dos desafios do empírico. Mapear as tensões
nos dias atuais, nos quais a educação vem e contradições e suas conexões com outros
sofrendo fortes processos de mercadorização. fenômenos sociais é tarefa de todos que se
Isso também precisa ser levado em conta nos dedicam ao exame das políticas públicas em
estudos sobre políticas educacionais, pois é educação. Fica claro que a perspectiva trazida
grande o compromisso dos pesquisadores da por Michael Apple nos desafia a analisar
educação quanto à reflexão daqueles que têm complexa e detalhadamente e de maneira
sido os rumos educacionais. relacional as políticas educacionais.

Educ. Pesqui., São Paulo, v. 42, n. 3, p. 651-664, jul./set. 2016. 663


Referências

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APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.

APPLE, Michael W. Política cultural e educação. São Paulo: Cortez, 2000.

APPLE, Michael W. Trabalho docente e textos: economia política das relações de classe e de gênero em educação. Porto Alegre:
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GANDIN, Luís Armando. Porto Alegre as a counter-hegemonic global city: building globalization from below in governance and
education. Discourse: Studies in the Cultural Politics of Education, Milton Park, Reino Unido, v. 32, n. 2, p. 235-252, 2011.

GANDIN, Luís Armando; APPLE, Michael W. Can critical democracy last? Porto Alegre and the struggle over ‘thick’ democracy in
education. Journal of Education Policy, Milton Park, Reino Unido, v. 27, n. 5, p. 621-639, 2012.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

LIMA, Iana Gomes de. A adoção de “programas de intervenção pedagógica” e as novas dinâmicas no trabalho docente:
uma análise a partir de três escolas estaduais do Rio Grande do Sul, Brasil, 2011. Universidade Federal do Rio Grande do Sul –
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. (Dissertação de Mestrado).

WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Recebido em: 01.12.2014

Aprovado em: 25.05.2015

Luís Armando Gandin é professor do Programa de Pós-Graduação em Educação e da Faculdade de Educação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul.

Iana Gomes de Lima é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul.

664 Luís Armando Gandin; Iana Gomes de Lima. A perspectiva de Michael Apple para os estudos das políticas educacionais

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