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PODER JUDICIÁRIO

COMARCA DE FOZ DO IGUAÇU


2ª VARA CRIMINAL

Autos n. 33514-37.2017.8.16.0030
Estado do Paraná
SENTENÇA

(Fl. 1 de 7)

Autor: Ministério Público


Réu: Diego Bertoldo da Luz

Trata-se de denúncia oferecida pelo Ministério Público em face de


DIEGO BERTOLDO DA LUZ, brasileiro, amasiado, pintor automotivo, RG nº
13.140.281-3 SSP/PR, CPF 094.514.139-44, nascido em 21.04.1993, com 24 anos de
idade na data dos fatos, natural de Guarapuava/PR, filho de Solange Bertoldo e de
Valdemir Gonsalves da Luz, residente em San Rafael/PY, atualmente recolhido ao
ergástulo público local, pela prática do seguinte fato:

“No dia 8 de novembro de 2017, por volta das 22h30min, na Avenida


João Paulo II, Jardim Panorama, próximo a um semáforo, nesta
Cidade e Comarca de Foz do Iguaçu, o denunciado Diego Bertoldo
da Luz e outro indivíduo não identificado, agindo mediante prévio
conluio, com identidade de propósitos e em comunhão de esforços,
utilizando uma motocicleta CG 125, cor escura (não apreendida),
abordaram a vítima Saldi Luiz Pauli que se encontrava na via pública,
pilotando a sua motocicleta Yamaha XTZ 250 Tenere, placa AZI-
0436. Ato contínuo, o denunciado Diego Bertoldo da Luz desceu da
moto, deu-lhe “voz de assalto” e, mediante a grave ameaça de
utilização de seu revólver Tejano calibre .22 (descrito no auto de
exibição e apreensão de fls. 10), reduziu o ofendido à impossibilidade
de resistência, e subtraiu, para si e seu comparsa, a motocicleta
acima mencionada (conforme auto de exibição e apreensão de fls. 10
e termo de declaração e reconhecimento de fls. 12-IP)”.

O réu foi preso em flagrante em 08.11.2017 (seq. 1.1). Em seguida, a


prisão foi homologada, para, enfim, ser convertida em preventiva (seq. 13).

A denúncia foi recebida em 27.11.2017 (seq. 41). O réu foi


pessoalmente citado (seq. 55) e apresentou resposta à acusação por intermédio da
Defensoria Pública, a qual postergou a análise do mérito para o momento oportuno e
arrolou as mesmas testemunhas da denúncia (seq. 65).

Na fase do art. 397, CPP, foi mantido o recebimento da denúncia e


designada audiência de instrução e julgamento (seq. 67). Na solenidade, realizada em
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18.01.2018, foram ouvidas a vítima, uma testemunha; e, na sequência, houve o


interrogatório (seq. 84).

Em sede de alegações finais, o Ministério Público requereu a integral


procedência da ação (seq. 95). A Defesa, por sua vez, fez alusões a dosimetria da pena,
pugnando pela compensação da agravante da reincidência com a atenuante da
confissão espontânea, pela fixação de regime inicial semiaberto para cumprimento de
pena; e, a aplicação dos dias-multa na quantidade e valor unitários mínimos (seq. 99).
Vieram-me conclusos os autos em 22.05.2018 (seq. 112). Decido.

A materialidade do crime descrito na denúncia é incontroversa e


restou comprovada pelos autos de prisão em flagrante (seq. 1.1), de exibição e
apreensão (seq. 1.4), pelos boletins de ocorrência (seqs. 1.10 e 23.8), além da prova
oral colhida na fase policial e em Juízo. A autoria igualmente é certa e recai sobre o réu,
confesso.

DIEGO BERTOLDO DA LUZ, em juízo, confessou ter cometido o


roubo. Admitiu que estava junto de outro rapaz quando encostaram ao lado da vítima,
deram voz de assalto, ao que o ofendido saiu correndo. Declarou que, a respeito dos
disparos de arma de fogo, apenas um foi efetuado, não contra a vítima, mas sim,
acidentalmente.

Saldi Luiz Pauli, vitima, declarou que estava com sua motocicleta no
sentido da rodoviária, pela Avenida João Paulo II, quando parou no primeiro semáforo
da Avenida República Argentina. Nisso, outra motocicleta com dois ocupantes, ambos
armados, parou ao seu lado, então, o passageiro sacou a arma e a apontou para o
declarante, dando-lhe voz de assalto. Nesse momento, o passageiro desceu da
motocicleta para assumir a direção daquela pertencente à vítima, no entanto, por receio
de o veículo pular e o assaltante pensar que fosse ato de reação, segurou a
embreagem. Declarou que DIEGO, que comandava a situação, disse para o comparsa
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procurar o celular do declarante, mas o objeto não foi encontrado pela dupla. Afirmou
que, depois de desistirem do celular, um dos assaltantes disse para que o outro atirasse.
Acrescentou que esse segundo elemento lhe disse: “vira que eu vou atirar”, ao que o
declarante saiu correndo, vindo a ouvir, na sequência, um disparo de arma de fogo. Em
seguida, os assaltantes fugiram com a motocicleta do declarante. Instantes depois,
acionou a polícia, que aconselhou o declarante a ir até a Delegacia, e lá, soube que a
PRF já havia recuperado o bem que lhe pertencia. Não tem dúvidas de que a pessoa
que foi presa praticou o crime contra o depoente, o qual pilotara a outra moto e assumiu
a direção do veículo pertencente ao ofendido. Indagado sobre os disparos de arma de
fogo, disse que não sabe se foram para o ar, apenas escutou “vira que eu vou atirar” e
logo ouviu os tiros, mas como estava de costas não pôde notar.

Carlos Alexandre Ferreira da Silva, policial rodoviário federal, em Juízo,


alegou que, por volta das 22h30min, foram informados pela Policia Militar de que uma
motocicleta Tenere, cor azul, havia sido roubada, e que os assaltantes efetuaram
disparos de arma de fogo. Em seguida, disse que avistou uma motocicleta com as
mesmas características adentrando na Aduana brasileira, então abordaram o motociclo,
cujo condutor era DIEGO. Relatou que, após darem voz de prisão ao acusado,
efetuaram busca pessoal e encontraram uma arma de fogo, calibre .22, com 10
munições e dois cartuchos deflagrados. Por fim, confirmou que, na abordagem, DIEGO
confessou ter praticado o roubo.

Pois bem. Extrai-se da prova testemunhal e da própria confissão a


inequívoca responsabilidade criminal do réu. Conforme se verifica da prova testemunhal,
o processado foi detido, em via pública, pouco depois de subtrair, para si, mediante a
grave ameaça da utilização de arma de fogo e em concurso de agentes, a motocicleta
pertencente à vítima.

A majorante relacionada ao emprego de arma deve ser reconhecida.


Afora a confissão do réu nesse sentido, a vítima foi firme em afirmar em Juízo, que ao
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ser abordada, os dois indivíduos estavam armados. Além disso, um dos artefatos
utilizados no crime, apreendido na posse do réu, foi submetido ao exame pericial, que
concluiu tratar-se de arma eficiente para a realização de disparos e cometimento de
crimes (seq. 47).

No tocante à majorante relacionada ao concurso de duas ou mais


pessoas tenho que igualmente deve ser reconhecida, porquanto, além da confissão, o
ofendido afirmou que o roubo foi praticado por duas pessoas, ambas armadas, as quais
o abordaram em via pública e subtraíram a sua motocicleta.

Por fim, tenho por devidamente comprovado o dolo, uma vez que se
extrai dos autos que, deliberadamente, DIEGO e um segundo elemento não identificado,
após abordarem e renderem a vítima, mediante prévio ajuste, e utilizando-se da grave
ameaça exercida com armas de fogo portadas por ambos, subtraíram bem patrimonial
do ofendido.

Em face do exposto, julgo procedente a denúncia para o fim de


condenar o réu DIEGO BERTOLDO DA LUZ, como incurso nas sanções do art. 157, §
2º, I e II, CP. Inexistindo causas que ilidam a tipicidade, a ilicitude e a culpabilidade,
passo à dosimetria das penas, esclarecendo que apenas o que estiver negritado e em
itálico é o que foi considerado para aumentar ou diminuir a pena.

O acusado tinha pleno conhecimento do caráter ilícito de sua conduta.


Possui antecedentes criminais, no entanto, a fim de evitar bis in idem, a condenação
será valorada na fase seguinte. Nada se pode falar sobre sua personalidade ou sua
conduta social. As circunstâncias em que o crime se deu não demandam maiores
observações. Os motivos se resumem à possibilidade de obtenção de lucro sem esforço
laborativo, mediante grave ameaça. As consequências do crime são normais à espécie.
Finalmente, não há qualquer elemento que demonstre ter a vítima colaborado para a
ocorrência do evento danoso. Assim, ante as circunstâncias judiciais acima, fixo a pena
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base em quatro (04) anos de reclusão, considerando o disposto no art. 157, “caput”,
CP.

Incide a agravante da reincidência, prevista no art. 61, I, CP, porque


o réu tem condenação criminal definitiva nos autos 5632-95.2013.8.24.0005, 2ª Vara
Criminal de Balneário Camboriú/SC, pela prática do art. 155, § 4º, III, CP, à pena de dois
(02) anos de reclusão, com trânsito em julgado no dia 28.03.2016. Assim, aumento a
sua pena em seis (06) meses. Aplica-se a atenuante da confissão espontânea,
prevista no art. 65, III, “d”, CP. Observo, por outro lado, que não foi fundamental, haja
vista o contingente probatório, especialmente a prisão em flagrante, no entanto, foi
utilizado como fundamento da sentença e deve ser valorado, razão pela qual atenuo a
sua pena em três (03) meses. Assim, ao contrário do que sustenta a Defesa, há
preponderância da reincidência no caso de concurso com circunstâncias atenuantes (art.
67 do CP)1. Desse modo, fixo a sua pena, nesta fase, em quatro (04) anos e três (03)
meses de reclusão.

Não se aplicam minorantes. Entretanto, como já bastante demonstrado


acima, faz-se necessário reconhecer a incidência das majorantes do emprego de arma
de fogo e do concurso de pessoas. No caso, considerando serem duas as majorantes;
e, os agentes terem atuado em dupla, ambos armados, segundo a vítima, a pena deve
ser aumentada acima do mínimo legal, em 3/8, fixando-a, assim, em cinco (05) anos,
dez (10) meses e três (03) dias de reclusão.

Valendo-me da dosimetria acima esboçada, fixo a pena de multa em


cento e dez (110) dias-multa de um trigésimo (1/30) do salário mínimo vigente à
época dos fatos, devidamente corrigidos, ante a ausência de dados que comprovem

1
Adoto o posicionamento defendido pelo Supremo Tribunal Federal que reconhece a preponderância da reincidência,
com base no art. 67, CP, ou seja, ser a reincidência circunstância agravante que prepondera sobre as atenuantes,
com exceção daquelas que resultam dos motivos determinantes do crime ou da personalidade do agente. E não
vislumbrando que a confissão espontânea se amolde às referidas exceções, não há como compensá-las, e tampouco
razão para que se entenda pela interpretação que leve à preponderância da confissão sobre a reincidência (contra
legem).
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a renda do réu, a ser cumprida, ainda que inicialmente, regime fechado, por conta da
reincidência e a teor do disposto no art. 33, § 2º, “a”, CP.

Incabível a substituição da pena privativa de liberdade por outras


restritivas de direito tendo em vista que a pena arbitrada supera 4 (quatro) anos de
reclusão; o delito foi perpetrado mediante grave ameaça à pessoa; e, pela reincidência,
circunstâncias que impedem a concessão da benesse, conforme preconiza o art. 44, I,
CP. Pela mesma razão, também inviável a suspensão condicional da pena, conforme os
termos do art. 77, CP. Ainda por conta da reincidência, inaplicável a detração penal,
evitando, com isso, contagem dúplice e consequente benefício não previsto em lei.

CONSEQUÊNCIAS ACESSÓRIAS:

1. Condeno-o, ainda, no pagamento das custas processuais, razão pela qual, determino
sejam os autos encaminhados ao Contador para apuração desse valor e da multa que
se impôs. Contudo, considerando tratar-se o réu de pessoa pobre na acepção jurídica do
termo, tanto que foi defendido pela Defensoria Pública, suspendo a condenação no
que se refere ao pagamento das custas processuais, nos termos do art. 98, CPC.

2. Lance-se o nome do réu no Rol dos Culpados.

3. Comunique-se à Justiça Eleitoral acerca da presente condenação, quando de seu


trânsito em julgado.

DISPOSIÇÕES FINAIS:

4. Advirta-se o apenado de que a pena de multa ora cominada deverá ser paga em dez
(10) dias, após o trânsito em julgado desta sentença, conforme dispõe o artigo 50 do
Código Penal.
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(Fl. 7 de 7)

5. Cumpra a Escrivaninha o determinado no art. 201, § 2º, CPP.

6. Considerando que o réu respondeu o processo inteiro preso, com o advento da


presente condenação em regime fechado, com mais razão a manutenção do
encarceramento do acusado, a fim de salvaguardar, sobretudo, a ordem pública.

7. Determino a remessa da arma de fogo e das munições apreendidas ao Comando do


Exército, nos termos do art. 25 da Lei 10.826/03, para os devidos fins.

8. Tendo em vista a informação constante na seq. 25, dando conta de que a motocicleta
subtraída da vítima consta como apreendida nos presentes autos, intime-se, no prazo de
dez (10) dias, o proprietário do motociclo Yamaha/XTZ205 Tenere, placas AZI-0436/PR,
para restituição. Transcorrido in albis o prazo do art. 123, CPP, deverá a Secretaria
adotar as providências necessárias para que o aludido veículo seja levado a leilão.

9. P.R.I.C.

Foz do Iguaçu/PR.
(datado e assinado digitalmente),
Claudia de Campos Mello Cestarolli,
Juíza de Direito Substituta

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