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Superior Tribunal de Justiça

S18

RECURSO ESPECIAL Nº 1.849.970 - MG (2019/0349926-1)

RELATOR : MINISTRO SEBASTIÃO REIS JÚNIOR


RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
RECORRIDO : ÉLIO JOSÉ DE OLIVEIRA (PRESO)
ADVOGADOS : NAIGUEL CRISTIAN GOMES - MG184810
PEDRO LUIS DE SA FERNANDES - MG185758

EMENTA
RECURSO ESPECIAL. JÚRI. PRONÚNCIA. VIOLAÇÃO DO ART.
121, § 7º, III, DO CP. PROCEDÊNCIA. EXCLUSÃO DA
MAJORANTE CALCADA NUMA INTERPRETAÇÃO EQUIVOCADA
DA NORMA. EXISTÊNCIA DE INDÍCIOS DE QUE O FILHO DA
VÍTIMA PRESENCIOU O ITER CRIMINIS, AINDA QUE DE FORMA
INDIRETA. RESTABELECIMENTO DA MAJORANTE.
Recurso especial provido.

DECISÃO

Trata-se de recurso especial interposto pelo Ministério Público de


Minas Gerais, fundado no art. 105, III, a, da Constituição Federal, contra
acórdão do Tribunal de Justiça local, proferido no julgamento do Recurso em
Sentido Estrito n. 1.0313.18.008490-4/001, assim ementado (fl. 288):
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO - HOMICÍDIO QUALIFICADO
CONSUMADO - DECOTE DE QUALIFICADORAS - INADMISSIBILIDADE
- INCOMPATIBILIDADE DO MOTIVO TORPE E FEMINICÍDIO -
INOCORRÊNCIA - DECOTE DA CAUSA DE AUMENTO PREVISTA NO
ARTIGO 121, § 7º, III, do CÓDIGO PENAL - NECESSIDADE -
TRANSFERÊNCIA DO RECORRENTE PARA OUTRA UNIDADE
PRISIONAL - INCABIBILIDADE. 1. A dicção final sobre a configuração de
qualificadoras, não sendo elas manifestamente improcedentes, cabe ao
Conselho de Sentença, que deve apreciar o caso em sua plenitude, já que a
ele incumbe por força constitucional a competência para julgar a prática de
crimes dolosos contra a vida, esteja embalada ou não por circunstâncias que
qualificam o crime. 2. O feminicídio é uma espécie de qualificadora de
natureza objetiva, enquanto o motivo torpe é de natureza subjetiva. Trata-se
de duas qualificadoras distintas e autônomas, sendo perfeitamente possível a
coexistência de ambas (sem que haja bis in idem). 3. Demonstrada a
ausência de correlação da descrição fática com a ca usa de aumento prevista
no artigo 121, § 7º, III, do Código Penal, o juízo de prelibação deve ser
exercitado de modo a decotá-la, em face de sua manifesta impertinência. 4. A
análise primeira acerca da conveniência, oportunidade e juridicidade de
transferência dos presos recolhidos nas unidades prisionais compete ao
Executivo Estadual, sendo tal incumbência atribuida á SAIGV
(Superintendência de Articulação Institucional e Gestão de Vagas), órgão
vinculado á Secretaria de Estado de Defesa Social, reservando-se ao Poder
Judiciário o controle de legalidade e dos princípios que informam a

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administração pública.

Nas razões, o órgão ministerial suscitou violação do art. 121, § 7º, III,
do Código Penal, aduzindo, em síntese, que a Corte de origem incorreu em
ilegalidade ao decotar da pronúncia a majorante em questão.

Asseverou que a interpretação da norma não pode levar a absurdos


jurídicos, como a afirmação de que o filho não presenciou o delito que ocorreu
do seu lado, apenas porque não viu o momento do disparo (fl. 338).

Pugnou, assim, pelo restabelecimento da majorante em questão.

Contrarrazões às fls. 343/348.

A Corte de origem admitiu o recurso (fls. 350/353).

Instado a se manifestar, o Ministério Público Federal opinou pelo


provimento do recurso, nos termos do parecer assim ementado (fl. 368):
RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSO PENAL. HOMICÍDIO.
CAUSA DE AUMENTO DE PENA. ART. 121, § 7º, III DO CÓDIGO
PENAL. DECOTE. PROVAS INDICIÁRIAS. PRONÚNCIA. JUÍZO DE
ADMISSIBILIDADE. COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL DO JÚRI.
PARECER PELO PROVIMENTO DO RECURSO.
- “Firmou-se nesta Corte o entendimento de que a exclusão de
qualificadoras constantes na pronúncia somente pode ocorrer quando
manifestamente improcedentes e descabidas, sob pena de usurpação da
competência do Tribunal do Júri, juiz natural para julgar os crimes dolosos
contra a vida, o que não se verifica na hipótese dos autos.” (HC 467.004/RS,
Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 13/11/2018,
DJe 22/11/2018)
- Parecer pelo conhecimento e provimento do recurso especial.

É o relatório.

A irresignação merece acolhida.

Nos termos da jurisprudência desta Corte Superior, somente devem


ser excluídas da sentença de pronúncia as circunstâncias qualificadoras
manifestamente improcedentes ou sem nenhum amparo nos elementos dos
autos, sob pena de usurpação da competência constitucional do Tribunal do Júri
(AgRg no AREsp n. 1.319.673/MS, Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta
Turma, DJe 1º/2/2019).

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No caso, a moldura fática delineada no acórdão indica que há


indícios de que o crime imputado ao recorrido teria sido perpetrado no mesmo
ambiente em que estava o filho e o pai da vítima, tendo o adolescente, inclusive,
ouvido as discussões que antecederam o evento, o disparo de arma de fogo e
presenciado, em seguida, a vítima agonizando no chão da residência (fls.
297/298 – grifo nosso):
[...]
Vinícius Soares de Oliveira, filho do acusado e da vítima, disse na
fase inquisitiva que, no dia dos fatos, seu pai lhe pediu que mostrasse
o Facebook de R. e que procurasse um indivíduo que não encontrou.
Afirmou que sua mãe foi ao quarto para ver o que estava acontecendo,
ocasião em que seu pai mentiu, dizendo que estava verificando o que
ele acessava, mas sua mãe não acreditou e ficou desconfiada, sendo
que o recorrente estava alterado e empurrou R., a qual disse para Élio
"você está querendo me derrubar da escada, você está maluco?".
Alegou que ouviu seu pai gritar para sua mãe: "você está errada e está
querendo falar assim comigo?". Disse que, após um tempo curto,
escutou sua mãe pedindo para que o recorrente a soltasse e, ato
contínuo, ouviu um disparo de arma de fogo, saiu do quarto e foi para
a sala onde sua mãe estava, se deparando com ela caída ao chão
ensanguentada. Aduziu também que seu pai falou para seu tio que tinha
pegado a vítima o traindo dentro do carro, mas isso não é verdade, sua mãe
não o traiu, o recorrente é que a tinha traído anteriormente:
[...]
Em juízo, Vinícius confirmou seus relatos extrajudiciais, disse que sua mãe
não traiu seu pai; que depois dos fatos o acusado quis "jogar a culpa em
cima" da vítima; que no momento do disparo estava em seu quarto (gravação
audiovisual em L165).
[...]

Nesse contexto, a exclusão da majorante em questão viola o art. 121,


§ 7º, III, do Código Penal, pois calcada numa interpretação equivocada da
norma, no sentido de que só seria possível a incidência da causa de aumento
(art. 121, § 7º, do Código Penal) caso o adolescente tivesse presenciado
visualmente o crime (fl. 304 - grifo nosso):

[...]
No caso em tela, embora haja indícios de que o acusado teria matado sua
esposa (por motivo torpe e por razões da condição de sexo feminino, em
situação de violência familiar), tenho que sequer da descrição fática da
denúncia ficou demonstrado que a execução do crime teria se dado na
presença (física ou virtual) de ascendente ou descendente da vítima, sendo
que a peça inicial especifica apenas que os pais e o filho da ofendida
"presenciaram a vítima ferida agonizando no chão".
A elementar de aumento, ao que julgo, não pode ser ampliada para
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abarcar a hipótese em que, após a execução, as pessoas mencionadas se


deparem com a vítima em estado de agonia (ou já morta). Trata-se de tema
de interpretação do alcance jurídico da norma - e não matéria de fato - razão
pela qual deve sobre ele se manifestar o juízo técnico.
Em suma, da prova oral colhida, não desponta qualquer indicativo
palpável no sentido de que a execução do crime teria sido feita sob
aquela circunstância, sobretudo porque,quando ouvidos, o filho e o
pai da vítima (Vinícius Soares de Oliveira e Agostinho Fabiano Soares,
respectivamente) disseram apenas terem ouvido os disparos de arma
de fogo, bem como que, posteriormente, viram a vítima já ferida; e a
mãe da ofendida (Maria Niuza Soares) disse expressamente em juízo
que não viu o momento do tiro desferido contra sua filha; sendo certo
que ver a ofendida já atingida/ferida não é o mesmo que presenciar a
empreitada criminosa.
[...]

A letra da lei, no entanto, não estabelece essa exigência, pois se


limita a exigir a "presença de descendente ou de ascendente da vítima" (art. 1º
da Lei n. 13.104/2015 - vigente à época do fato), não circunstanciado a
necessidade de visualização efetiva do evento.

Assim, a existência de indícios de que o descendente (filho) estava


no local do crime, tendo presenciado o iter criminis, ainda que de forma
indireta (ouvindo as discussões e o disparo fatal), é suficiente para a
manutenção da referida majorante na sentença de pronúncia.

Ante o exposto, dou provimento ao recurso especial, a fim de


restabelecer a majorante prevista no art. 121, § 7º, III, do Código Penal.

Publique-se.

Brasília, 09 de dezembro de 2019.

Ministro Sebastião Reis Júnior


Relator

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