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de afeto que sentira no sonho, não há nenhuma dúvida de que ele teria ficado perplexo.

Minha
afeição por ele pareceu-me artificial e exagerada - tal como o julgamento de suas qualidades
intelectuais, que eu expressara ao fundir sua personalidade com a de meu tio, embora, nesse
caso, o exagero tivesse corrido no sentido oposto. Mas uma nova percepção começou a despontar
em mim. A afeição, no sonho, não dizia respeito ao conteúdo latente, aos pensamentos que
estavam por trás do sonho; estava em contradição com eles e tinha o propósito de ocultar a
verdadeira interpretação do sonho. E é provável que essa fosse precisamente sua raison d’être.
Lembrei-me de minha resistência em proceder à interpretação, de quanto a havia odiado, e de
como declarara que o sonho era puro absurdo. Meus tratamentos psicanalíticos ensinaram-me
como se deve interpretar um repúdio dessa natureza: ele não tinha nenhum valor como
julgamento, mas era simplesmente uma expressão de emoção. Quando minha filhinha não queria
uma maçã que lhe era oferecida, afirmava que a maçã estava azeda sem havê-la provado. E,
quando meus pacientes se comportavam como a menina, eu sabia que estavam preocupados com
uma representação que desejavam recalcar. O mesmo se aplicava a meu sonho. Eu não queria
interpretá-lo porque a interpretação encerrava algo que eu estava combatendo. Quando concluí a
interpretação, entendi contra que estivera lutando - isto é, a afirmação de que R. era um tolo. A
afeição que eu sentia por R. não podia provir dos pensamentos oníricos latentes, mas se originara,
sem dúvida, dessa luta que eu travava. Se meu sonho estava distorcido nesse aspecto em relação
a seu conteúdo latente - e distorcido pareceu oposto -, então a afeição manifesta no sonho
atendera ao propósito dessa distorção. Em outras palavras, a distorção, nesse caso, mostrou ser
deliberada e constituiu um meio de dissimulação. Meus pensamentos oníricos tinham incluído uma
calúnia contra R. e, para que eu não pudesse notá-la, o que apareceu no sonho foi o oposto: um
sentimento de afeição por ele.
Pareceu-me que essa seria uma descoberta de validade geral. É verdade que, como
ficou demonstrado nos exemplos citados no Capítulo III, há alguns sonhos que são realizações
indisfarçadas de desejos. Mas, nos casos em que a realização de desejo é irreconhecível, em que
é disfarçada, deve ter havido alguma inclinação para se erguer uma defesa contra o desejo; e,
graças a essa defesa, o desejo é incapaz de se expressar, a não ser de forma distorcida. Tentarei
encontrar uma distorção semelhante de um ato psíquico na vida social. Onde podemos encontrar
uma distorção semelhante de um ato físico na vida social? Somente quando há duas pessoas
envolvidas, e uma das quais possui certo grau de poder que a segunda é obrigada a levar em
consideração. Nesse caso, a segunda pessoa distorce seus atos psíquicos, ou, como se poderia
dizer, dissimula. A polidez que pratico todos os dias é, numa grande medida, uma dissimulação
desse tipo; e quando interpreto meus sonhos para meus leitores, sou obrigado a adotar distorções
semelhantes. O poeta se queixa da necessidade dessas distorções, com as palavras:
Das Beste, was du wissen kannst,Darfst du den Buben doch nicht sagen.
Dificuldade semelhante enfrenta o autor político que tem verdades desagradáveis a dizer
aos que estão no poder. Se as apresentar sem disfarces, as autoridades reprimirão suas palavras -