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PROCESSOS DE NEGOCIAÇÃO: UMA COMPARAÇÃO ENTRE AS

PERSPECTIVAS DE TILLY E CARVALHO

Os sociólogos clássicos, especialmente Marx e Weber, pretenderam compreender a sua época através de

estudos que consideravam as mudanças mais relevantes ocorridas na sociedade que eles mesmos viveram i.

Entretanto, apesar da perspectiva histórica existente em seus estudos e que deveria servir de modelo para todos

os outros sociólogos, Karl Monsma observa, mais especificamente com relação à sociologia desenvolvida nos

Estados Unidos, que ´´nos anos 50 e começo dos 60, [esta] ... foi dominada pelas grandes teorias a-históricas de

Parsons e seus seguidores. A partir do final da década de 60 até os anos 70, essa predominância deslocou-se para

os estudos empíricos orientados pelo paradigma da pesquisa de levantamento, segundo o qual, (...), era possível

estudar os princípios universais das relações sociais mediante o exame das inter-relações de variáveis em

amostras aleatórias de pessoas que viviam contemporaneamente nos Estados Unidos´´ii.

É neste contexto que alguns sociólogos norte-americanos resgatam a tradição sociológica clássica e

elaboram uma nova sociologia histórica e comparada. Segundo Monsma, esta ´´representou igualmente uma

reação às formulações abstratas e muitas vezes funcionalistas do marxismo teórico, que era então a principal

alternativa crítica ao funcionalismo parsoniano e à pesquisa de levantamento´´ iii.

Charles Tilly é um dos estudiosos que ´´influenciou sobretudo as ciências sociais e a história.

Reformulou entendimentos (...) e ofereceu (...) argumentos e exemplos convincentes sobre a importância da

pesquisa histórica e comparada nas ciências sociais´´ iv. Neste texto, nosso objetivo é compreender, a partir de seu

livro Coerção, Capital e Estados Europeus, 990 - 1992, parte da sua teoria sobre as origens da cidadania,

basicamente no que se refere aos processos de negociação entre o Estado e as classes dominantes, num primeiro

momento e, em seguida, entre o Estado e a maioria da população. Por outro lado, pretendemos ainda comparar

sua abordagem com a de José Murilo de Carvalho, autor do livro A Construção da Ordem: a Elite Política

Imperial, tentando caracterizar a natureza do acordo que este autor cita entre os fazendeiros e a monarquia,

segundo a perspectiva de Tilly.

Charles Tilly: o Estado e Seus Cidadãos


O livro Coerção, Capital e Estados Europeus, 990 - 1992, de Charles Tilly, segundo Monsma,

´´combina vários elementos da [sua] pesquisa anterior ... sobre os Estados, a ação coletiva, a urbanização e o

desenvolvimento do capitalismo´´v. O objetivo central desta obra é explicar a variedade de Estados que existiu na

Europa (cidades-estado, impérios, Estados nacionais). Um aspecto metodológico importante é que para cumprir

seus objetivos Tilly, utiliza uma abordagem prospectiva. Neste aspecto, enquanto a maioria dos estudiosos do

Estado parte do presente para o passado, correndo o risco de acreditar que apenas as estruturas levaram aos

acontecimentos presentes, Tilly parte do passado para compreender o presente, o que o possibilita a considerar

não só as mudanças estruturais mas também as contingênciasvi.

Alguns princípios básicos orientam sua análise, permitindo-lhe explicar ´´as interações dos governantes

com Estados estrangeiros, com as classes superiores e com os cidadãos comuns durante um milhar de anos,

oferecendo elegantes explicações sobre a variação nos primeiros Estados europeus, a posterior convergência

deles em Estados nacionais e o crescente controle civil sobre eles´´ vii. Estes princípios podem ser assim

resumidos: 1) quase todos os governantes europeus se envolveram em guerras internacionais, devido à ameaça

de outros Estados. Porém, houve recusa por parte da população em fornecer recursos e homens necessários à

guerra, advindo daí a necessidade de negociação; 2) a natureza das negociações que os governantes tiveram que

manter, durante o processo, primeiramente com as classes superiores e muito tempo depois com a população em

geral, esteve vinculada aos modos de produção e às estruturas de classe; e, 3) o distinto desenvolvimento dos

Estados se deu muito mais em virtude das suas diferentes realidades, do que das atitudes concretas de seus

governantes em relação às guerrasviii.

Tilly observa que ´´o caráter e o peso da atividade de estado variaram sistematicamente em função da

economia que predominava dentro das fronteiras de um estado´´ ix. Neste sentido, ele distingue três regiões da

Europa - regiões de ´´aplicação intensa de coerção´´, de ´´grande inversão de capital´´ e de ´´coerção capitalizada

´´ - com características diferentes, e observa que o desenvolvimento de cada uma delas também foi distinto x.

Em regiões de aplicação intensa de coerção, nas quais não havia cidades importantes envolvidas no

comércio de longa distância (por exemplo, Rússia e Polônia), ´´era comum os governantes extraírem recursos

para a guerra e para outras atividades em espécie, através de requisição direta e de recrutamento. (...) A

instituição de impostos sobre o indivíduo e sobre a terra criou pesadas máquinas fiscais e colocou extenso poder

nas mãos dos proprietários rurais, dos chefes de aldeia e de outros que exerciam controle imediato sobre os

recursos essenciais´´xi.
Por outro lado, nas regiões de grande inversão de capital, que estavam envolvidas no comércio de

longa distância (por exemplo, Gênova e Veneza), ´´(...) a presença de capitalistas, o intercâmbio comercial e

organizações municipais avultadas estabeleciam sérios limites ao exercício direto, por parte do estado, de

controle dos indivíduos e das famílias, mas facilitavam a aplicação de taxas relativamente eficientes e indolores

sobre o comércio que se tornaram outras fontes de rendas do estado´´xii.

Finalmente, nas regiões de coerção capitalizada, nas quais prevalecia uma situação intermediária (por

exemplo, França e Inglaterra) e havia tanto senhores rurais poderosos quanto cidades comerciais ricas, ´´os

governantes, embora de forma desconfiada, contaram com a aquiescência tanto dos proprietários de terras quanto

dos mercadores, extraíram rendas da terra e do comércio e criaram, assim, estruturas duais de estado em que os

nobres enfrentavam os financistas, mas ao final acabavam colaborando com eles´´ xiii. Estas últimas regiões foram

as que produziram os Estados nacionais. Durante o século XIX esta forma de Estado já se encontrava presente

em quase todas as regiões da Europa e, meio século depois, já estava espalhada por todo o mundoxiv.

Devido à necessidade de guerrear constantemente em favor do seu território, ou da sua expansão, os

governantes precisavam negociar com a população, com o objetivo de obter recursos para estas guerras. Entre

1000 e 1600, esses acordos eram feitos entre os governantes e as classes dominantes. A partir do século XVII,

mais recursos tiveram que ser mobilizados pelo Estado para financiar as guerras, e as negociações passaram a

envolver toda a população. Entretanto, é importante observar que, ´´o impacto do estado sobre os interesses, a

ação coletiva, a negociação e o estabelecimento de direitos assumiu formas e seqüências bastante variadas em

função da relevância relativa da coerção e do capital como base de formação do estado. (...) A estrutura de classe

da população, portanto, ajudou a determinar a organização do estado: seu aparelho repressivo, sua administração

fiscal, seus serviços, suas formas de representação. A tradução da estrutura de classes em organização do estado

ocorreu através de lutas´´xv.

Assim, ao longo do continuum, toda essa negociação resultou em direitos, privilégios e instituições de

proteção inexistentes até então. O Estado passou de uma organização militar a uma organização civil. Neste

sentido, ´´(...) a guerra, ironicamente, acabou aumentando o poder dos setores civis do governo´´ xvi, devido à

negociação entre Estado e população que se fazia necessária. Dessa forma, observa Tilly, ´´o núcleo que hoje

denominamos ´cidadania´, na verdade, consiste de múltiplas negociações elaboradas pelos governantes e

estabelecidas no curso de suas lutas pelos meios de ação do estado, principalmente a guerra´´ xvii.

Carvalho: a Monarquia e a Elite


Em seu livro A Construção da Ordem: a Elite Política Imperial, Carvalho, assim como Tilly, faz um

estudo prospectivo. Entretanto, ele utiliza o método da biografia coletiva, em que o pesquisador escolhe uma

amostra de indivíduos que têm alguma semelhança (no caso de Carvalho, a elite política imperial) e as codifica

(no referido estudo o autor utiliza a educação, a ocupação, o treinamento e a circulação das elites entre lugares e

posições).

Ao contrário de Tilly, que enfatiza a relação do Estado com as classes dominantes, Carvalho ressalta o

papel da elite política imperial na manutenção da unidade do Brasil e na natureza do próprio Estado a ser criado.

Ele parte da hipótese de que ´´a manutenção da unidade nacional , a consolidação de um governo civil, a redução

do conflito a nível nacional, como também a limitação da mobilidade social e da mobilização política no Brasil,

em contraste com a balcanização, o caudilhismo, a instabilidade política e a maior mobilização nos outros países

da América Latina se devem em parte à maior unidade ideológica da elite política brasileira em comparação com

suas congêneres dos outros países´´xviii.

Nos cinco primeiros capítulos, Carvalho procura ´´demonstrar que a elite política que tomou o poder no

Brasil após a Independência apresentava características básicas de unidade ideológica e de treinamento que, (...),

não estavam presentes nas elites dos outros países´´ xix. Nos três últimos, o autor trabalha mais com a questão da

relação entre o Estado e a classe dominante no século XIX. Assim, ele considera a natureza das barganhas entre

a monarquia e a classe dominante e suas influências no impérioxx.

Apesar de não haver, como no caso da Europa, possibilidades constantes de guerras no Brasil xxi e,

portanto, necessidade de mobilizar recursos para promovê-las, a monarquia precisava negociar com a classe

dominantexxii a consolidação do poder interno. Neste sentido, a monarquia dependia diretamente dos fazendeiros

para manter a ordem no país. Havia uma relação de dependência entre as esferas nacional e local. A monarquia

precisava da colaboração dos fazendeiros para dominar as rebeliões internas e consolidar seu poder, e precisava

negociar para obter esse apoio. Assim, segundo Carvalho, ´´o ponto crucial da questão era o relacionamento do

Estado imperial com a agricultura de exportação de base escravista´´xxiii.

Monarquia e Classe Dominante: Caracterização da Natureza do Acordo na Perspectiva de Tilly

É importante observar que ´´o Estado, (...), dependia profundamente da produção agrícola de exportação

e encontrava na necessidade da defesa dos interesses dessa produção um sério limite à sua liberdade de ação´´ xxiv.
Desse modo, podemos pensar que um dos motivos que causou a queda da monarquia foi a incapacidade tanto do

Estado, quanto da classe dominante de manter os acordos firmados durante os processos de negociação. Mas,

qual era este acordo? Qual a sua natureza? Baseados na visão de Tilly, podemos pensar em algumas situações

que eram desejadas pela monarquia, por um lado, e pelos fazendeiros, por outro. Certamente, importava aos

fazendeiros, a preservação da escravidão, a ausência de impostos sobre a terra, o poder local e a conservação de

posições para fazendeiros decadentes. Em contrapartida, o Estado cobrava taxas sobre as importações e as

exportações, para obter recursos; mas, principalmente, contava com a classe dominante para a sua preservação.

Com o passar do tempo, ´´o Estado e a elite que o dirigia não podiam, de um lado, prescindir do apoio

político e das rendas propiciadas pela grande agricultura de exportação mas, de outro, se viam relativamente

livres para contrariar os interesses dessa mesma agricultura quando se tornasse possível alguma coalizão com

outros setores´´xxv. Dessa forma, os conflitos de interesses entre a classe dominante e a própria elite, que no final

do século XIX já não tinha a sua homogeneidade inicial, contribuíram para as mudanças no Estado brasileiro e a

impossibilidade de cumprimento do acordo entre monarquia e fazendeiros, possibilitando o declínio do regime

monárquico. Um novo regime era então instituído e, com ele certamente, vieram novas negociações.
i
MONSMA, K. Charles Tilly, a sociologia histórica e a formação do Estado Nacional. In: TILLY, C. Coerção, capital e estados
europeus, 990 - 1992. São Paulo: Edusp, 1996, p. 15.
ii
Op. cit. p. 15.
iii
Op. cit. p. 15.
iv
Op. cit. p. 14.
v
Op. cit. p. 25.
vi
Op. cit. p. 25.
vii
Op. cit. p. 25.
viii
Op. cit. p. 25.
ix
TILLY, C. Op. cit. p. 160.
x
Op. cit. pp. 160 - 161.
xi
Op. cit. pp. 160 - 161.
xii
Op. cit. p. 161.
xiii
Op. cit. p. 161.
xiv
MONSMA, K. Op. cit. p. 27.
xv
TILLY, C. Op. cit. pp. 161 - 162.
xvi
Op. cit. p. 28.
xvii
Op. cit. p. 164.
xviii
CARVALHO, J. M. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Campus, 1980, p. 177.
xix
Op. cit. p. 178.
xx
Um exemplo da barganha entre monarquia e classe dominante pode ser encontrado no capítulo 6, mais especificamente a partir do
último parágrafo da página 122.
xxi
É verdade que não havia possibilidades constantes de guerra no Brasil, mas neste período de sua história houve a Guerra do
Paraguai e a Cisplatina, que merecem destaque. Certamente o Estado contou com o apoio da classe dominante para executá-las.
xxii
As duas classes mais importantes do período estudado por Carvalho foram as dos fazedeiros e dos comerciantes. Entretanto, o
autor se aprofunda mais no papel desempenhado pela primeira.
xxiii
Op. cit. p. 179.
xxiv
Op. cit. p. 38.
xxv
Op. cit. p. 180.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, J. M. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

TILLY, C. Coerção, capital e estados europeus, 990 - 1992. São Paulo: Edusp, 1996.