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Capacidade de escuta: questões para a

formação docente em Educação Física

Vicente Molina Neto1 Rosane


Kreusburg Molina2

No âmbito da educação física/ciências do esporte a tações orais e 16 posters) sobre Formação. Posteri-
utilização dos termos genéricos - esporte, formação, ormente, no XIo Congresso Brasileiro de Ciências
currículo, entre outros -, muito tem contribuído do Esporte, realizado em 1999, em Florianópolis -
para a constituição do que hoje, talvez, seja um dos SC, foram apresentados 83 trabalhos (21 apresenta-
maiores problemas da área: a comunicação, portan- ções orais e 62 posters), e na XIIa edição do mesmo
to, a capacidade de escuta. Esses termos genéricos evento (2001) foram apresentadas 49 produções (33
dificultam tanto a comunicação entre os segmentos apresentações orais e 16 posters)3, no Grupo Temático
profissionais que disputam pretensões de validez e Formação, de um total 469 trabalhos aprovados
verdade sobre o que é educação física, o que é es- nas diferentes temáticas. Já no VIIo Congresso de
porte e como deve ser a formação de professores, Educação Física e
E possível considerar,
quanto inviabilizam acordos mínimos sobre essa Ciências do Desporto dos
temática. Países de Língua
portanto, que grande
Portuguesa, também parte das dificuldades
Por outro lado, os termos esporte, educação física e
realizado em 1999, na para encontrar saídas
formação profissional são polissêmicos. Assim sen- cidade de Florianópolis - consistentes no
do, seus significados variam de sentido nos contex- SC, foram apresentados âmbito da formação
tos onde eles acontecem, e em razão dos interesses, 350 trabalhos, dos quais em educação física
necessidades e das histórias de vida de seus protago- 35 estavam relacionados
nistas. E possível considerar, portanto, que grande deve-se a
com a temática da For-
parte das dificuldades para encontrar saídas consis- mação. Na oitava edição impossibilidade de
tentes no âmbito da formação em educação física desse evento, realizado haver concordância
deve-se à impossibilidade de haver concordância entre em 2000, na cidade de entre os diferentes
os diferentes segmentos envolvidos na questão: pro- Lisboa - Portugal, foram segmentos envolvidos
fessores, administradores e estudantes. Assim, cabe apresentados 729 na questão:
o questionamento: de que tipo de Formação estamos trabalhos (264 posters e professores,
falando? Formação Pessoal, Formação Inicial ou Per- 465 comunicações orais),
manente, AutoFormação, Formação em Serviço ou dos quais 73 estavam
administradores e
Pós-Graduação? relacionados com a estudantes.
Formação. Recentemente, no Congresso Interna-
Também se observa um aumento de interesse em
cional de Motricidade Humana, realizado em no-
projetos de pesquisa cujo problema central é a For-
vembro de 2001, na cidade de Muzambinho - Mi-
mação. No Xo Congresso Brasileiro de Ciências do
nas Gerais, entre mesas temáticas e posters foram
Esporte realizado em 1997, na cidade de Goiânia -
apresentados 245 trabalhos de pesquisa, dos quais
GO, quando o Colégio Brasileiro de Ciências do
14 focalizavam o tema Formação.
Esporte implementou os Grupos de Trabalhos
Temáticos como forma de organizar seu evento cien-
tífico, foram apresentados 40 trabalhos (24 apresen-

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A presente análise de dados permite dizer, sem pre- cas, ou seja, não se aplica à Educação Física uma
tensões de exatidão, que a produção científica delimitação do tipo disciplinar/monodisciplinar. Ao
dedicada à Formação, na área de conhecimento Edu- contrário, o sucesso da ação pedagógica depende do
cação Física, situa-se em uma banda móvel delimita- aporte de um conjunto de saberes e práticas oriun-
da entre 5% e 10% de todo o volume da produção das de disciplinas científicas muito diferentes. Situa-
científica dessa área, o que significa um número ain- ção que tem contribuído para que a dúvida antes
da pequeno considerando-se a tradição e a produti- explicitada se acentue.
vidade dos pesquisadores da área.
A preocupação com a Formação dos Professores e
Preocupado em discutir essa questão, o Colégio Bra- sua relação com a profissionalização docente não é
sileiro de Ciências do Esporte dedicou o último nú- um privilégio da Educação Física, nem se restringe
mero de sua revista à essa temática. De outra parte, ao contexto brasileiro. São processos relacionados,
os números acima expostos provocam a seguinte in- mas apresentam especificidade histórica e caracte-
terrogação: Há produção científica e conhecimento rísticas constitutivas diferenciadas. Huberman e co-
suficientes para se fazer as prescrições que se está laboradores (2000) assinalam, em retrospectiva his-
fazendo sobre como deve ser a Formação no âmbito tórica, que os estudos sociológicos paradigmáticos
de nossa área de conhecimento? sobre a carreira de professor apontam para a neces-
sidades de qualificar tecnicamente os professores para
A Formação de Professores de Educação Física é
que possam enfrentar as dificuldades da prática em
um tema ainda mais polêmico. Isso porque, além de
sala de aula.
agregar-se ao mesmo um debate político intermiten-
te sobre os efeitos do processo de reconhecimento Os interesses do Estado na Formação Docente tam-
legal do Profissional de Educação Física (Lei n° 9.696, bém não é uma questão recente4, embora a reflexão
de 1 ° de setembro de 1998), tanto na Formação Ini- sobre a Genealogia do Movimento pela
cial dos professores, quanto na prática docente nos Profissionalização Docente exista desde o inicio dos
diferentes espaços institucionais onde a Educação anos 80. Segundo Labaree (1999), é nos Estados
Física acontece, também se observa nos discursos Unidos que a questão ganha visibilidade internacio-
epistemológicos desse nal através da divulgação de dois informes elabora-
Há produção coletivo de trabalhadores, dos por instituições americanas de apoio ao ensino:
científica e dificuldades para situar e o Relatório do Carnegie Task Force on Teaching asa
conhecimento legitimar a Educação Física Profession elaborado por um grupo composto de re-
suficientes para. como campo científico. presentantes sindicais, funcionários públicos e ad-
se fazer as Nesse sentido, ministradores do ensino; o Documento Tomorrow's
prescrições que se concordando com Bracht Teachers elaborado por um consórcio de escolas de
está fazendo sobre (1999), falta aprofundar magistério liderado por Henry W. Holmes, decano
e, talvez, popularizar o da Escola de Educação para Graduados da Universi-
como deve ser a debate acerca do dade de Harvard. Os dois relatórios afirmam, à épo-
formação no âmbito entendimento de que, ca, que a qualidade da educação só poderá melhorar
de nossa área de sendo a Educação Física se o ensino se transformar em uma "profissão de
conhecimento? uma área de sa-beres e pleno direito".
práticas aplicadas, o
"objeto" ainda é de difícil demarcação, o que não Um dos debates internacionais mais significativos
acontece, por exemplo, na demarcação do "objeto" sobre a questão da profissionalização docente se de-
das Ciências ditas Bási- senvolve entre Gary Sikes, Katheleen Densmore e
Nicolas Burbules, na Revista Educación y
Sociedad,

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é a forma de qualificar o professorado, democratizar permanentemente confirmados ou deformados, pro-
o ensino e garantir um trabalho de qualidade aos movendo efeitos inesperados. Do mesmo modo, é
estudantes. Sikes considera que os professores não inquietante observar a pretensão homogeneizadora
podem oferecer um trabalho de qualidade porque veiculada em diferentes discursos e como as institui-
não são livres como intelectuais, pois têm pouca au- ções responsáveis pela administração do ensino se
tonomia sobre seu trabalho, fato de fácil solução com manifestam refratárias à interlocução com a experi-
a profissionalização. Em oposição, seus interlocutores ência docente. Os professores costumam agir por
sustentam que o profissionalismo se converteu em idiossincrasias próprias, construídas nos anos de
uma ideologia que falseia a realidade de trabalho dos docência, enquanto que as políticas públicas, na
Professores, pois mascara os conflitos reais do ensi- maioria dos casos, são elaboradas e se efetivam a
no e promovem a aceitação, pelo Professor, de cir- partir do discurso acadêmico, sem ouvir os docentes
cunstâncias adversas ao seu trabalho. Nessa perspec- com atenção. Esse fato revela a baixa capacidade de
tiva, o profissionalismo contribui para a reprodução comunicação e de escuta entre ambos.
das relações sociais injustas e desiguais, além de in-
tensificar o trabalho docente. Investigando essa polarização, é possível identificar
um problema que recebe pouca atenção da comuni-
Ao invés de considerar a escola um universo cultural dade investigadora. Trata-se de uma (de)formação para
dotado de dinâmicas próprias, que não depende só a docência na escola pública. Ela emerge na forma-
do trabalho do Professor, a defesa do profissionalismo ção inicial insuficiente para esse contexto e ganha
vai considerar o Professor um indivíduo especializa- proporções de ineficácia pelas políticas públicas que
do autônomo, dotado de juízos idiossincráticos pró- têm sido incapazes de propor atividades de Forma-
prios sobre seus estudantes e sobre seu espaço de ção Permanente compatíveis e convergentes com a
trabalho. complexidade do ambiente escolar e áulico. Assim
os professores são estimulados a sair da sala de aula,
O nosso ponto de vista crítico, aqui, é que a ideolo-
pela indústria da Formação Permanente, para serem
gia do profissionalismo obstrui a possibilidade de
atualizados em questões que pouco têm a ver com as
um genuíno trabalho docente em equipe, dificulta o
dificuldades que encontram nas escolas (Molina Neto,
desenvolvimento de estratégias de ensino para en-
1997).
frentar significativos problemas de aprendizagem e,
obviamente, dificulta a criação de materiais didáticos Do ponto de vista da crença, manifestada nos
adequados aos diferentes contextos em que o ensino ideários políticos, a Formação dos professores faz
acontece. O trabalho do Professor profissionalizado parte das políticas sociais de governos de diferen-
ficará restrito a um conhecimento específico no tes matizes e se estende por todas as instâncias do
âmbito da aula (da disciplina), abrindo mão do sistema educativo. A idéia dominante é adequar o
macroplanejamento do ensino, da proposta curricular currículo escolar às demandas sociais, por isso as
da escola e da interlocução qualificada com a comu- administrações públicas e agências de formação ela-
nidade educativa, ou seja, toda a complexidade e a boram planos e projetos de largo espectro, acredi-
riqueza de saberes e de práticas que circunscrevem, tando que investindo na formação de professores
identificam e constituem a vida da escola seriam pro- solucionarão os problemas educacionais e chega-
blemas de conhecimento para ocupação, deleite, pes- rão à almejada qualidade do ensino.
quisa e teorização de outras disciplinas ou outros
especialistas. Além desse mito, que não se confirma com evidên-
cias seguras, outra crença que se estabelece, sem
Entretanto, observando-se a prática docente nas es- confirmação empírica, é a de que atualizando os pro-
colas percebe-se que os discursos institucionais são fessores com o dito "conhecimento de ponta" - últi-
mas descobertas da ciência, resultados de pesquisas

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recém-divulgadas, etc. - sistematizado por especia- cutamos o que o outro tem para nos dizer? Como agir
listas, eles estarão mais aptos e motivados a ensinar como professores reflexivos se queremos prescrever?6
melhor. A questão não é desconsiderar o trabalho
Uma das alternativas para responder a essas pergun-
dos especialistas, mas ponderar os limites de suas
tas seria incentivar a capacidade de escuta nas
ações na interlocução pretendida com os contextos
atividades de formação docente que pode gerar efei-
de atuação dos professores.
tos importantes no desenvolvimento da área de co-
Outro mito que permeia a Formação dos professo- nhecimento e na qualificação dos professores de
res, tanto a inicial quanto a permanente, é a Educação Física. Possibilitará ao coletivo docente
maximização da tecnologia educacional. Essa ação descortinar múltiplas percepções sobre os problemas
também não gera os efeitos esperados porque são educacionais, e construir modelos de ação educativa
Como podemos ser oferecidas soluções técnicas mais adequados aos tempos atuais, através de juízos
reflexivos se não para enfrentar problemas autônomos e decisões didaticamente qualificadas
escutamos o que o processuais relacionados à sobre situações semelhantes em diferentes contextos
Escola e à aula. Problemas sociais. Assim, os professores poderão sentir-se mais
outro tem para nos que se situam no âmbito seguros para protagonizar propostas pedagógicas con-
dizer? Como agir da reconstrução social5 do dizentes com a diversidade étnica, social, cultural e
como professores trabalho docente, incluindo técnica que os estudantes evidenciam em nossas es-
reãexivos se queremos a formação dos profes- colas, na atualidade.
prescrever!6 sores.
Só é possível dialogar com o diferente, com a atenção
Um desafio a ser vigilante gerada na capacidade de escutar os outros e a
enfrentado na formação docente em Educação nós mesmos ou, como diz Perrenould (2001), quando
Física consiste em considerar que os professores tomamos consciência de nosso habitus7. Perceber a
apresentam interesses diferenciados em atividades pertinência de trabalhar um determinado conhe-
de formação permanente de acordo com sua cimento com um segmento social ou grupo específi-
posição na carreira, seu contexto de trabalho, co, ou ainda perceber que estudantes de um mesmo
suas crenças e seu desenvolvimento socio-cultural grupo necessitam de tempos e estímulos diferentes para
(Huberman e colaboradores, 2000). Desafio que as a aprendizagem, são ações incompatíveis com a pres-
Licenciaturas ainda não tomaram para si. Na maio- crição e a explicação, mas possíveis a partir da com-
ria dos casos, a Formação Inicial está pautada por preensão e da interlocução. E com capacidade de es-
um discurso didático que se constitui sobre modelos cuta que podemos perceber e respeitar a diversidade
idealizados de aluno, de professor e de escola cultural, oferecendo ao diferente oportunidades de
sabidamente inadequados para enfrentar as situações participar do diálogo intersubjetivo sem que o mesmo
reais de ensino/aprendizagem que se constituem em perca sua identidade. E óbvio que a capacidade de
condições sociais complexas, portanto não-lineares. escuta não livrará o professor das dificuldades de ges-
tão do seu "funcionamento". Estamos falando especi-
Observamos que os estudantes deixam nossas escolas ficamente da gestão dos afetos e dos gostos pessoais e
de formação entusiasmados, com conhecimento e crí- grupais presentes nas relações intersubjetivas. A capa-
ticos. Contudo, pouco reflexivos, pois lhes falta a com- cidade de escuta facilitará essa gestão que, sabemos,
petência decisiva para esse tipo de atitude. Falta-lhes influencia, inclusive, as estratégias didáticas dos pro-
capacidade de escuta, cujo responsável é o modelo de fessores.
formação historicamente construído na educação físi-
ca brasileira. Como podemos ser reflexivos se não es-
"Ouvir as proposições de uma criança ou de um ado-

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lescente mobiliza determinados savoir-faire didáticos de um campo de saber. O tempo pedagógico e o
relacionados a intenção de instruir, mas também a movimento dos alunos são absolutamente controla-
preferências, preconceitos, simpatias ou antipatias, dos. Os grupos de estudantes são homogeneizados e
solidariedades ou exclusões. Não se conduz da mesma
as atividades uniformizadas, com alta prevalência das
maneiraumdiálogodidático com uma criança amável
atividades intelectuais.
ou com uma criança suja, obesa ou agressiva"
(Perrenould, 2001:167). Sabemos que as crianças, os jovens e os adoles-
centes têm tempos próprios para diferentes apren-
dizagens e que a aprendizagem de conceitos, atitu-
Defendemos a formação docente vinculada à vida des e procedimentos diferenciados demandam tem-
das escolas. Metas como autonomia docente, respei- pos diferentes. E de conhecimento comum que a
to à diversidade, dimensionamento adequado dos Escola trata de temáticas que são transversais ao
objetivos de ensino e desenvolvimento docente são currículo, e que a aprendizagem de determinadas
possíveis quando encaramos o professor como parti- atitudes, procedimentos e conceitos é resultado da
cipante de uma cultura docente. Um ser não-frag- contribuição de várias disciplinas. Além disso, para
mentado que age relacionando sua formação com atender a diversidade cultural, de gênero, proce-
sua trajetória docente, com sua prática cotidiana, dência social e étnica, é preciso propor atividades
com o conhecimento construído na experiência, e didáticas conforme a biografia dos alunos. Se é pre-
com as crenças que elabora durante sua existência. ciso levar em consideração esse conjunto de variá-
A capacidade de escuta que defendemos ao longo veis na prática de ensino da Educação Física esco-
lar é de se supor que a organização do currículo da
deste texto é uma atitude pessoal e docente. E muito
Formação Inicial dos professores deve sofrer alte-
mais do que ouvir. E, sobretudo, compreender os
rações significativas para que gere efeitos na práti-
fenômenos na perspectiva e na lógica de seus prota-
ca desses professores.
gonistas. Se constitui em uma metáfora que sintetiza
um conjunto de procedimentos didáticos e Podemos dizer que o Parecer 009/2001 que estabe-
metodológicos para efetivar programas, projetos e lece Diretrizes Curriculares para a Formação de Pro-
atividades de formação docente no âmbito da Edu- fessores da Educação Básica, em nível superior, Curso
cação Física, dentro de uma perspectiva de Licenciatura de Graduação Plena, e o Parecer 021 /
devolucionista: devolver o protagonismo das deci- 2001 que dispõe sobre a duração e carga horária dos
sões sobre o que ensinar e como ensinar às comuni- cursos de Formação de Professores, parecem ser ten-
dades docentes e escolares. tativas razoáveis para aproximar a formação de pro-
fessores da prática pedagógica escolar a fim de aten-
Além da qualificação da capacidade de escuta, a for-
der a diversidade socio-cultural dos estudantes. Po-
mação dos professores de Educação Física precisa
rém, como sublinham Scheibe e Bazzo (2001), essas
levar em conta outros desafios:
medidas ajustam as questões educacionais ao proje-
to de globalização neoliberal, porque nelas o ensino
está desarticulado da análise e a pesquisa desarticulada
a) Revisão da matriz disciplinar no da realidade. Dessa forma, é importante que a soci-
currículo escolar edade organizada mantenha atitude vigilante para que
O currículo escolar, tal como se configura a organi- o Estado não perca a capacidade de intervenção em
zação dos conteúdos e seu desenvolvimento, está Projetos de Ensino corporativos e desprovidos de
constituído sob inspiração racionalista. Os concei- relevância social, cuja principal intenção é aligeirar
tos estão cada um em seu lugar, organizados linear- a formação docente, mantendo as mesmas cotas de
mente, em ordem crescente de complexidade dentro investimentos públicos a fim de satisfazer os insis-

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tentes apelos do mercado capitalista. Além disso, para tempo administrativo. A quantidade de tempo, com-
essas autoras, a separação entre licenciatura e ponente essencialmente objetivo, define o conteúdo,
bacharelato pode resultar na ruptura do ensino com amordaça a didática e racionaliza os recursos.
a pesquisa, sem contar que, considerando-se a pers-
Se a sociedade e os trabalhadores do conhecimento
pectiva da Educação Social, a base da identidade de
trabalham com tempos policrônicos, subjetivos, em
todo educador é a docência.
que se realizam várias coisas ao mesmo tempo,
priorizando-se as relações e demonstrando-se alta
sensibilidade aos contextos, é de se supor a existên-
b) Ação conjunta de diferentes
cia de conflitos difíceis de superar no cotidiano do-
disciplinas sobre orientação de
cente. Pensar a Formação dos Professores de Educa-
complexos temáticos
ção Física numa sociedade movida pela informação,
De acordo com Morin (1994), deve-se exercitar o apesar de não abrir mão do conhecimento8, significa
pensamento complexo, organizando os saberes em considerar e compreender o tempo e a cultura do
campos e núcleos de saberes e de práticas, é uma estudante. Superar o anacronismo entre a formação
medida necessária, assim como a ação conjunta de monocrônica dos professores de Educação Física e a
professores junto aos diversos grupos de estudantes. prática pedagógica necessária em uma sociedade pres-
Também propor temas cotidianos interessantes, en- sionada pela velocidade da informação, sobretudo
tre os quais as questões curriculares. Ao invés de um da informação digital, supõe a construção de novo
Professor em cada momento na sala de aula, articu- habitus. Perrenould (2001), por exemplo, perspecti-
lar ações dos professores do campo ou núcleo va esse novo habitus através de novos esquemas de
curricular. Assim, no ensino de um determinado percepção, de avaliação, de pensamento e de ação.
conceito ou tratamento de um problema, por exem-
Em Porto Alegre, a Secretaria Municipal de Educa-
plo o uso responsável do corpo, autonomia do sujei-
ção vem implementado um amplo processo de reestru-
to, violência, técnicas corporais e outros que afligem
turação curricular nas escolas municipais. Esse mo-
a sociedade atual, poderiam ser trabalhados pelo Pro- vimento reorganizou o projeto educacional do mu-
fessor de Educação Física, pelo Professor de Língua nicípio, alterando os tempos e os espaços pedagógi-
Portuguesa e pelo Professor de Artes, entre outros, cos, rompendo com a antiga aula formal de educa-
porque o conhecimento é interdisciplinar. ção física de 50 minutos. Nesse novo cenário, al-
guns professores vêm desenvolvendo experiências
bastante significativas. Trabalhando em contextos em
c) Refletir sobre a questão do tempo que o tempo e o espaço das aulas de Educação Física
são flexíveis, e organizados em função das necessida-
O tempo é um elemento que intervém nos habitus dos
des de aprendizagens significativas dos estudantes,
professores e na estruturação do trabalho docente,
realizam inovações curriculares nas formas de eleger
porque a programação do ensino considera aspectos
e organizar os conhecimentos e nas estratégias
quantitativos: o número de dias letivos, a carga horá-
didáticas. A integração da Educação Física na Área
ria diária para cada disciplina, entre outros. O currí-
de Comunicação e Expressão do currículo escolar
culo escolar 3/4 a organização dos saberes
exige que o professor dialogue com seus colegas de
privilegiados na Formação Inicial 3/4 também está
outras disciplinas e tenha conhecimento suficiente
organizado dessa forma, ou seja em uma dimensão
para atuar em conjunto com eles em todas as etapas
temporal objetiva. Hargreaves (1994) denomina
e momentos do processo de ensino-aprendizagem.
essa organização de monocrônica: a ação
Tais experiências os estimulam a questionar a lógica
pedagógica se efetiva em um ato de cada vez, em uma
formal do ensino por disciplinas e os leva a pergun-
progressão linear. Dessa forma, o tempo pedagógico
e a aprendizagem são funções do

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tar: será possível inverter a lógica tradicional do en- professores que elaboraram um conhecimento têm
sino da Educação Física nas escolas, e o tempo pe- interesse em sistematizar suas experiências, ao mes-
dagógico pautar o tempo administrativo? Quais os mo tempo em que não encontram oportunidades para
efeitos desse tipo de organização escolar na prática tal empreendimento. A ação dos professores de Edu-
pedagógica dos professores de Educação Física? O cação Física nas escolas é, em grande parte, produto
quê e como ensinar nas aulas de Educação Física? das condições materiais objetivas que enfrentam na
As atuais ofertas de formação poderão suprir as ne- escola, de seus interesses pessoais e do que apren-
cessidades desses professores? Quais ensinamentos dem nas instâncias de Formação. Daí, a necessidade
dessa experiência docente podem ser incorporados de se estudar em profundidade os processo de for-
aos currículos de Formação Inicial? mação desses professores que trabalham em novos
modelos de organização escolar, permitindo-lhes in-
São questões difíceis de serem respondidas. Apro-
corporar ao currículo da formação inicial o
pria formação docente, Inicial e Permanente, do Pro-
conhecimento que produzem na ação docente.
fessor de Educação Física está fortemente pautada
no modelo de formação centrado na transferência de A capacidade de escuta no Escutar, na ação
conhecimento (Freire, 1997), isto é, prepara o Li- âmbito da Formação pedagógica, significa
cenciado em Educação Física para ser um consumi- Permanente se traduz em dar vez e voz a
dor de conhecimentos, ou seja, torna-o habilitado considerar
para aplicar o saber produzido pelas agências de for- no planejamento das
quem normalmente
mação e de produção de conhecimento. A existência atividades, as diferentes não tem.
de algumas experiências didáticas inovadoras que se etapas da carreira de um professor e os interesses
contrapõem a esse modelo de formação ainda não predominantes em cada uma dessas fases: na
nos libertaram do colonialismo acadêmico que valo- graduação, oferecer situações de ensino que
riza pouco o conhecimento que circula e é produzi- estimulem os estudantes à compreensão ao invés
do pelos professores na sua prática docente diária. da prescrição. E importante enfatizar ao
estudante de Educação Física que seu futuro
Perrenould (2001) aponta para duas estratégias im-
aluno não é um cliente, mas um interlocutor.
prescindíveis para que se dê um salto qualitativo em
Além disso, é necessário que o currículo
favor de uma real inovação tanto na prática quanto
possibilite que o estudante desenvolva o ensino
na formação docente: transformar a estrutura e as
em situações concretas desde o inicio da
condições da prática docente e favorecer a tomada
Licenciatura. Seguindo Faingold (2001), pensamos
de consciência dos professores, trazendo suas ações
em professores capazes de construir, com seus
intuitivas para o controle da razão.
interlocutores, mecanismos de reflexão, de ajudá-
los a verbalizar suas ações, ou seja, entender os
professores também como técnicos da. escuta.
d) Necessidade de incorporar
o saber construído na prática docente No âmbito da pesquisa e da pós-graduação, a capa-
ao currículo universitário cidade de escuta se traduz em procedimentos
metodológicos centrados nas histórias de vida,
Verificamos, com freqüência, que os professores de etnografias educativas e estudos de caso.
Educação Física escolar constróem saberes e práti-
cas de grande valor e, geralmente, pouco conhecidas Escutar, na ação pedagógica, significa dar vez e voz a
nos círculos universitários. Constatamos, em pesqui- quem normalmente não tem. Didaticamente, invés
sas já concluídas (Molina Neto, 1996 e Molina, da proposiçãoe da explicação, deve-se buscara com-
1997), através de fragmentos de histórias de vida,
que os

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preensão. No âmbito das relações interpessoais, essa Referencias bibliográficas
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a capacidade de escuta se traduz na pesquisa partici-
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Anais. Goiânia: CBCE, 1997.
em educação física e esportes. Anais do XI
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Goiânia - GO: CBCE, 1997. Anais. Florianópolis: CBCE, 1999.
MOLINA NETO, Vicente. La cultura docente del XII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte.
profesorado de educación física de Ias Anais. Campinas: CBCE, 2001.
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Anais. Florianópolis: UFSC - UDESC, 1999
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MORIN, Edgar. El método III: El conocimiento Desporto dos Países de Língua Portuguesa.
dei conocimiento. Madrid: Cátedra, 1994. Anais. Lisboa: UTL/FMH, 2000.
MORIN, Edgar. La mente bién ordenada.
Barcelona: Editorial Seix Barral, 2000.
PERRENOULD Philippe. O trabalho sobre habitus
na formação de professores: análise das
Notas
práticas e tomada de consciência. In:
PERRENOULD, Philippe; PAQUAY, 1
Professor de Graduação e Pós-Graduação da
Leopold e ALTET, Evelyne C. Formando
ESEF/UFRGS.
Professores Profissionais: Quais estratégias?
2
Quais competências. Porto Alegre: Artmed, Professora de Graduação da UNISINOS.
2001. 3
Nessa edição do evento houve alteração na
SCHEIBE, Leda e BAZZO, Vera L. Políticas sistemática de inscrição. Diferentemente de
Governamentais para a formação de edições anteriores, os trabalhos foram inscritos
professores na atualidade. In: Revista e julgados como apresentação oral ou pôster.
Brasileira de Ciências do Esporte, v. 22, n. Não foi permitido que os trabalhos que fo
3, p. 9-21, maio 2001. Campinas: Editores ram rejeitados para apresentação oral fossem
Associados. incluídos nas sessões de posters. O objetivo
desses números não é fazer algum tipo de
SCHÕN Donald A. La Formación de Profesionales
comparação, mas dar uma idéia da produção
Reflexivos: Hacia un nuevo diseño de la
científica da área no Brasil.
enseñanza y el aprendizaje en las profesiones.
4
Barcelona: Paidós, 1992. Ver: Decreto Lei n. 1.212 de 17 de Abril de
1939, criando na Universidade do Brasil a
SCHÕN Donald A. El Profesional Reflexivo:
Escola Nacional de Educação Física; Marinho
Como piensan los profesionales cuando
de Oliveira, Vitor. Formação Profissional:
actúan. Barcelona: Paidós, 1998
Primeiras Influências. Revista Brasileira de
SYKES, Gary. En defensa dei profesionalismo Ciências do Esporte, n.19, v.2, Janeiro/98.
docente como una opción de política 5
Gimeno Sacristán, J. & Pérez Gómez A. I.
educativa. Educación y Sociedad, n. 11, p.
(1994) analisam os modelos de formação
85-96. Madrid: Fuhem, 1992.
utilizados para formar professores em
diferentes contextos e os agrupam em quatro
perspectivas: a) Perspectiva Acadêmica; b)
Perspectiva Técnica; c) Perspectiva Prática; d)
Perspectiva da Reflexão na Prática para a
Reconstrução Social. Enquanto que nas

65
M o vi m e nt o , P orto A legre, V. 8, n. 1, p. 57 - 6 6, j a n e i r o / a b r i l 2002
Perspectivas Acadêmica e Técnica a ação do Recebidoem:21.02.2002
professor está centrada num saber de especialista, Aceitoem:05.03.2002
de caráter disciplinar e na racionalidade técnica,
na Perspectiva da Reconstrução Social o
professor centra sua ação na reflexão e na
investigação em sala de aula. Sua ação é facilitar
o desenvolvimento autônomo e emancipador de
quem participa do processo educativo. A seleção
do conteúdo está orientada pelo viés cultural e
pela relevância social, objetivando estimular a
capacidade de reflexão do estudante. Nessa
perspectiva, o professor busca compreender sua
ação pedagógica e seus efeitos, a fim de propor
novas estratégias de ação para transformar sua
prática e as condições sociais que a limitam.
6
Para entender a noção de professor como
profissional reflexivo, ler: Donald A. Schön.
La Formación de Profesionales Reflexivos:
Hacia un nuevo diseño de la enseñanza y ei
aprendizaje en las profesiones. Barcelona:
Paidós, 1992; Donald A. Schõn. El Profesional
Reflexivo: Como piensan los profesionales
cuando actúan. Barcelona: Paidós, 1998
7
Habitus é uma noção trabalhada no âmbito da
sociologia por Pierre Bourdieu, que Phillippe
Perrenould utiliza para entender o conhe
cimento em ação ou a epistemologia da ação
que os professores constróem na prática
docente. O habitus se constitui no conjunto
de nossos esquemas de percepção, de avaliação,
de pensamento e de ação. E ele que nos dá a
capacidade de operar sem saber, em uma rotina
econômica ou para fazer frente ao inusitado
do cotidiano de nossas aulas.
8
Morin (2000) comenta que para viver
precisamos não só de uns conhecimentos, mas
a transformação do conhecimento adquirido
em saberes e a incorporação destes em todas
as situações da vida. Para os processos
educativos, diz o autor, trata-se de perseguir
o objetivo de transformar as informações em
conhecimento, de transformar o conhecimento
em saberes, sempre orientando-se por
finalidades definidas no Projeto Político
Pedagógico em pauta.

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Mo vim e nt o, P orto A le gr e, V. 8, n. 1, p. 57 - 6 6 , j a n e i r o / a b r i I 2002

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