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Quase um tropicalista

O pequeno príncipe Ronnie Von mudou a música brasileira pela porta dos fundos, mas se diz
frustrado com a indústria fonográfica e com sua carreira como cantor

Gabriel Luis Rosa

O estúdio da TV Gazeta, na Avenida Paulista, se prepara para a gravação de mais um programa


Todo Seu. Entre os câmeras e produtores – todos de calça jeans, tênis e camiseta –, uma figura de
gravata, terno bem-passado e sapatos brilhosos se destaca. Enquanto o técnico da mesa de som
brinca com efeitos de ronco e assobio, o apresentador Ronnie Von finge que está dormindo,
fazendo piadinhas que quebram o clima de tensão existente na gravação prestes a começar.

A naturalidade de Ronnie em frente às câmeras não é por acaso. Começando em 1966 com
O Pequeno Mundo de Ronnie Von, na Record, esse é o décimo-terceiro programa que ele
apresenta. O primeiro, que pegava carona do sucesso do Jovem Guarda de Roberto, Erasmo e
Wanderléa, não tinha muitas semelhanças com o da TV Gazeta: se um focava no rock e na cultura
pop, o atual traz chefs, escritores e bandas que interessam ao público do programa. “Selecionamos
os convidados pelo perfil e pela idade do Ronnie, ele é mais „cool‟”, explica Crystiane Correa,
produtora musical do Todo Seu há três anos.

Ronnie apresenta o Todo Seu há cinco anos, quando foi convidado por um superintendente
da TV Gazeta para fazer um programa matutino. Como o apresentador também é sócio de uma
agência de publicidade – a “Von” –, ele entraria com algum suporte financeiro, trazendo
patrocínio. Pouco tempo depois, o programa mudou para as 22h, horário em que permanece até
hoje.

Ronnie Von chama-se, na verdade, Ronaldo Lindenberg von Schilgem Cintra Nogueira.
Nascido em Niterói (RJ), em 1944, foi membro da Aeronáutica e é formado em Economia, mas
tornou-se um símbolo do rock jovem dos anos 60 gravando versões de músicas estrangeiras, como
“Meu bem” (“Girl”, dos Beatles). O cabelo comprido escorrido na cara e a aparência mais frágil
que Roberto ou Erasmo Carlos (Ronnie afirma pesar cerca de 57kg na época) lhe renderam o
apelido de Pequeno Príncipe, criado por Hebe Camargo em referência ao personagem de Antoine
de Saint-Exupéry. “As pessoas me chamavam de tudo o que você puder imaginar na rua. A
garotada batia mesmo”, lembra Ronnie. “Me xingava, xingava a mãe, chamava você de bicha, era

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o dia inteiro isso. Um inferno. Aquele cabelo comprido, os caras te chamando de Príncipe, achei
que era uma coisa mais frágil ainda, e eu não gostei. Mas pegou!”.

Frágil ou não, Ronnie tornou-se um alvo não só para as agressões de desafetos, mas
também para os fãs. “O amor – e com aspas esse amor – do fã dos 60 e 70 era um pouco mais,
vamos dizer, pungente. Era agressivo. As pessoas queriam tirar um pedaço. Tirar um pedaço com
tesoura, cortar teu cabelo pra guardar de lembrança”, relembra. Em 1967, ao sair da Record, a
multidão que o esperava conseguiu furar a segurança do músico, deixando-o nu na porta da
emissora. “Quando eu digo nu, eu digo nu mesmo, pelado, como Deus me criou. Sem cueca, sem
nada, na sarjeta da rua da Consolação”. O então baterista da banda de Erasmo Carlos o puxou para
dentro da emissora, vestindo-o com roupas do cantor (que mede cerca de 2 metros de altura).
“Faziam piquenique na porta da minha casa, pessoas invadiam minha casa. Acordei um dia com
uma moça escondida embaixo da minha cama”.

Apesar do sucesso, Ronnie se diz extremamente frustrado com sua carreira fonográfica. O
cantor não tinha agentes ou assessores, e contava apenas com o auxílio dos departamentos
comerciais das gravadoras, que geralmente o aconselhavam de acordo com o que poderia vender
mais. “Eu não entendia nada. Pra mim, tudo o que eu gravei era ruim, era uma droga. Eu gravava
e não ouvia, não tinha disco meu em casa, acredite
se quiser, porque eu detestava tudo o que eu
gravava”. Para o músico, apenas um disco vale a
sua carreira: Ronnie Von, de 1968.

Naquele ano, a Polydor tinha trocado de


presidente, e a gravadora ficou o que Ronnie chama
de “acéfala”. Por contrato, mais um disco deveria
ser gravado, mas dessa vez, em meio à confusão da
troca de diretoria, o cantor teve praticamente liberdade criativa total. “Entrei no estúdio e fiz o que
queria, o tal do psychedelic rock”. O resultado foi o disco Ronnie Von, visivelmente diferente dos
anteriores. A capa do LP, por exemplo, trazia o músico sem camisa em meio a desenhos coloridos
psicodélicos, muito semelhante à do primeiro disco de Caetano Veloso. As músicas deixaram o ar
típico e ingênuo da “jovem guarda” e se assemelharam às do disco Tropicalia ou Panis et
Circenses (também de 68, estopim do movimento tropicalista formado por Caetano, Gilberto Gil,
Tom Zé e Os Mutantes, entre outros). Foi um fracasso comercial. “Eu tava meio fora do espaço e
tempo, eu era muito revoltado com a imposição das gravadoras, e de repente eu quis radicalizar. O

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que hoje é absolutamente normal, viável, na
época era uma extravagância”, acredita
Ronnie. “As pessoas se irritaram muito, os
disk-joqueis quebraram meus discos,
disseram que tinha gasto dinheiro da
gravadora com uma brincadeira. Foi uma
coisa muito complicada na época”.

As semelhanças do disco de 68 com o


primeiro disco de Caetano Veloso ou Gilberto
Gil, por exemplo, não é coincidência. Foi
Ronnie Von quem sugeriu, em 1966, o nome
da banda Os Mutantes, tirado de um livro que
lia na época, “O império dos Mutantes”, do
francês Stefan Wul. “Eu que apresentei eles
ao Caetano, ao Gil. Os Mutantes viviam na minha casa, estávamos sempre juntos, e eu me envolvi
com a Tropicália”. Rogério Duprat, o maestro tropicalista presente em quase todos os discos do
movimento, criou arranjos para um álbum de Ronnie, e Caetano Veloso chegou a gravar uma
participação na música “Pra Chatear” com o “príncipe”, no seu disco de 1967. Às vésperas da
explosão do movimento, o agente de Ronnie brigou com o agente dos tropicalistas, convencendo
o cantor a largar o grupo. “Eu, a muito contragosto, fiz isso, e me arrependo até hoje, porque acho
que foi o último grande movimento musical brasileiro”. Entretanto, todo o tempero tropicalista
está no disco de Ronnie Von: guitarras elétricas distorcidas numa música com ritmo de
marchinha, canções que mesclam baião e rock, psicodelia e MPB.

O LP de 1968, na época um fracasso comercial, hoje é o mais caro entre todos os seus
discos em sebos e lojas especializadas. “Um amigo meu pagou 1.800 dólares nele! Não tem aqui,
ele comprou no Japão, em Tóquio. Outro comprou na Áustria”, comenta Ronnie. Já o CD,
relançado há cerca de um ano junto com mais dois discos do músico, pode ser comprado por
pouco mais que R$ 20, mas também já está fora de catálogo da gravadora e poucas lojas ainda o
vendem. Em todas as lojas que procurei, em Florianópolis e em São Paulo, apenas uma – a maior
da Galeria do Rock, em SP – tinha, e apenas mais duas cópias. “Se é tão difícil encontrar, deve ter
vendido, mas não querem lançar de novo! (risos). Não existem mais gravadoras – não na
concepção que nós entendemos”, critica Ronnie. “Elas se suicidaram, deram um tiro no pé. Hoje,
um disco desses, que eu acredito que tenha sido sucesso, se só tem mais dois, deve ter vendido

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bastante. Então eu não sei porque pararam! Acho que não tem mais esse espírito, um pouco mais
ligado ao artístico”.

Mãe de gravata

O desgosto de Ronnie Von com as gravadoras foi o principal motivo do fim da carreira
fonográfica do cantor. No fim dos anos 90, largou de vez as gravações para se concentrar em
outros negócios, como a agência de publicidade da qual é sócio, programas de televisão e até
mesmo escrever um livro. Em 1992, lançou o Mãe de Gravata, onde narra suas experiências como
pai com guarda de dois filhos. O apelido, criado pela sua esposa – que também é sua amiga de
infância – vem dos costumes que criou ao longo dos anos servindo como pai e mãe ao mesmo
tempo. “Quando me casei, eu mantive as manias. Cardápio em casa, lista de supermercado,
passava os dedos nos móveis pra ver se tinham tirado o pó... Dona de casa, mesmo! Aí ela um dia
falou, „mas meu Deus do céu, você é uma mãe de gravata mesmo!‟ E o apelido ficou”.

A personalidade paterna do apresentador é percebida também no programa Todo Seu. A


produtora Crystiane Correa conta que Ronnie é “um paizão” para a equipe. Na parede da sala da
TV Gazeta, as fotos no mural mostram o músico abraçado com a produção, ou algumas meninas
segurando um cartaz onde se lê “Ronnie, nós te amamos”. “O Ronnie é um amor, trata todo
mundo bem”, conta Crystiane.

Após 42 anos de atividade, Ronnie contratou Márcio Souto para tornar-se o primeiro
assessor de imprensa do apresentador. “Ele não é um ex-BBB, é um cara importante, de carreira”,
explica o jornalista. Como a TV Gazeta é associada à faculdade Cásper Líbero, onde há um curso
de Jornalismo, “Ronnie se tornou o „rei dos TCCs‟”, relata, achando engraçado. “O pessoal acha
que é só subir e falar com ele para qualquer coisa, e é por isso que ele precisa de assessoria. O
Ronnie é um cara super gentil. Se deixar só na mão dele, ele vai atender todo mundo”. Indagado
porquê eu tive a oportunidade de entrevistar o apresentador, Souto explica que uma entrevista
com alguém de outro estado, que foi a São Paulo apenas para isso, seria “interessante”.

Enquanto esperava na sala da produção do programa, um homem interfona da recepção da


TV Gazeta para tentar subir e entregar um CD ou tocar violão para Ronnie, esperando uma chance
de aparecer no ar. Crystiane não deixa o músico subir, manda ele deixar o CD para que ela possa
ouvir. Conto o ocorrido ao apresentador, e pergunto o que ele faria se o homem de fato subisse

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com o violão e o abordasse no corredor da Gazeta. “Eu
iria receber, como recebo todo mundo. Com tempo, sem
tempo, não tem jeito”, responde, rindo.

Disco Ronnie Von, de 1968: um “fracasso comercial” na época,


uma raridade nos sebos de hoje

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