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Resposta a “2 Tim 3,16-17 e a Sola Scriptura” de James

Akin [1]
[James Akin] Os defensores do princípio protestante da "Sola Scriptura" ("somente
a Bíblia") estão com problemas.

[Fernando Saraví] Muito mais o estão aqueles que postulam outra fonte de
revelação paralela às Escrituras e de igual autoridade que estas.

[James Akin] Se a doutrina da "Sola Scritura" fosse verdadeira, então seria possível
provar todas as doutrinas baseando-se unicamente nas Sagradas Escrituras. Dessa
forma, também seria possível provar que a "Sola Scriptura" encontra-se registrada
na mesma Bíblia. Se isso, contudo, não puder ser feito, então a doutrina da "Sola
Scriptura" estará refutada por si mesma.

[Fernando Saraví] Parece justo, embora antes de proceder a alguma refutação


deveria definir claramente a doutrina à qual se opõe.

[James Akin] Por essa razão, há um grande interesse de se encontrar na Bíblia


versículos que possam ser usados para provar a teoria da "Sola Scriptura". Essas
tentativas geralmente são feitas por dois tipos de defensores da referida doutrina:
os descuidados e os cuidadosos. O primeiro tipo, entretanto, parece ser a grande
maioria.

Os defensores da "Sola Scriptura", assim como muitos outros "defensores de meras


idéias", não tomam o devido cuidado com o modo de fundamentar suas posições, e
pressionam para que as coisas mais insignificantes lhe sirvam para provar que suas
teorias são verdadeiras. Em outras palavras, os defensores descuidados da "Sola
Scriptura" citam todo gênero de passagens irrelevantes como se estas fossem
prova da referida doutrina.

[Fernando Saraví] Na mesma posição estão os defensores descuidados da tradição


apostólica. Não me parece que considerar os piores argumentos contribua para a
discussão. Além disso, antes haveria que ver se o que o presente autor considera
"passagens irrelevantes " o são na verdade.

[James Akin] Citam, por exemplo, passagens dos Evangelhos onde Jesus, ao ser
interrogado por seus inimigos sobre certo ponto doutrinário, lhes responde com
alguma passagem do Antigo Testamento. Entretanto, essa classe de versículos só
pode ser usada para provar que o Antigo Testamento possui autoridade doutrinária,
mas não que seja prova da "Sola Scriptura", uma vez que Jesus nunca disse que
apenas o Antigo Testamento possui autoridade doutrinária (neste caso, teríamos
que admitir a doutrina do "'Solo' Antigo Testamento").

[Fernando Saraví] O "solo Antigo Testamento" corre por conta do autor. Por certo
que o Antigo Testamento era a Escritura a que Jesus se refere, mas se se admite
que o Novo Testamento possui o mesmo tipo de inspiração que o Antigo (e isto não
o nega nenhum cristão) é inevitável a conclusão de que não pode possuir menos
autoridade.

O que o nosso apologista romano esquece por completo é o facto de que Jesus não
somente citou o Antigo Testamento como possuindo alguma "autoridade
doutrinária". Pelo contrário, quando o Senhor citou tais Escrituras o fez de modo tal
que excluía toda a discussão adicional. A autoridade do Antigo Testamento era tal
que estava acima de toda outra excepto a do próprio Senhor.
[James Akin] Ora, quando Jesus cita o Antigo Testamento para provar certa
doutrina, está apenas querendo mostrar que essa doutrina poderia ser provada por
tal passagem do Antigo Testamento. Não significa, assim, que Ele tenha
considerado que todas as doutrinas poderiam ser provadas pelo Antigo Testamento
ou pela Bíblia em geral. Por isso, não surpreende ver Jesus respondendo aos seus
inimigos apelando para a sua própria autoridade ou ainda para outras fontes extra-
escriturísticas.

[Fernando Saraví] O "está apenas querendo mostrar "é uma redução que o autor
apresenta como algo demonstrado, quando precisamente disto trata a discussão.
Deveria ser evidente que o Antigo Testamento é parte da Revelação, a qual se
completa com o Novo Testamento dando lugar ao que hoje conhecemos como a
Bíblia. O Antigo e Novo Testamentos se relacionam entre si como da promessa ao
cumprimento. E este cumprimento tem como ponto central a Encarnação de Jesus
Cristo, a sua vida, a sua morte e a sua ressurreição, tal como nos é apresentado
nas Escrituras do Novo Pacto. A questão é que para Jesus, como para os seus
Apóstolos, a Palavra escrita de Deus tem uma autoridade superior à de qualquer
outra fonte, com excepção do próprio Senhor.

Não me resulta claro a que se refere Mr. Akin quando alude vagamente a "outras
fontes extra-escriturísticas" diferentes da própria autoridade do Senhor Jesus
Cristo.

[James Akin] A idéia de que Jesus – Palavra viva de Deus que veio trazer-nos uma
nova revelação por meio de suas pregações e ensinamentos – praticava e cria na
proposição de que toda a doutrina deveria ser provada apenas pela Palavra escrita
de Deus é absurda em si mesma. Apesar disto, os defensores descuidados da "Sola
Scriptura" não deixam de citar os exemplos onde Jesus usa a Escritura para provar
uma doutrina individual, como se provassem assim que a Escritura é capaz de dar
validade a todas as doutrinas.

[Fernando Saraví] A natureza geral das afirmações de Mr. Akin (que


cuidadosamente evita lidar com as passagens relevantes) esquece alguns factos
fundamentais:

1. Jesus como Dador da Escritura é ao mesmo tempo o seu Intérprete perfeito. E


diante de diversas discussões, o testemunho das Escrituras era para ele inapelável.

2. Jesus julgou com severidade os religiosos do seu tempo entre outras coisas
porque invalidavam as Escrituras pondo ao mesmo nível que elas as suas próprias
tradições orais, que sustentavam ter sido recebidas pelo próprio Moisés (do mesmo
modo que hoje a Igreja Católica sustenta que muitas das suas tradições de
duvidosa origem provêm dos próprios Apóstolos que escreveram o Novo
Testamento).

3. Como já indiquei antes, por razões óbvias no tempo de Jesus a revelação não se
havia completado; isto não tira um pingo de autoridade ao Antigo Testamento, nem
tão pouco valida a "tradição dos anciãos". Quando sob a inspiração do Espírito
Santo se pôs por escrito no que hoje conhecemos como Novo Testamento, sim se
completou a Revelação.

[James Akin] De outro modo, os defensores cuidadosos da "Sola Scriptura" –


aqueles que tentam limitar os versículos usados para fundamentar essa doutrina,
deixando somente aqueles que têm como mais relevantes – são mais raros que
"dentes de galinha". Só alguns reconhecem que deixam de lado um grande número
de passagens irrelevantes… Na verdade, reconhecem que só uma ou duas
passagens poderiam mesmo ser usadas para fundamentar a doutrina da "Sola
Scriptura".

[Fernando Saraví] Completamente ao contrário: é o contexto geral da Bíblia e não


uma ou duas passagens isoladas o que testemunha a verdade da doutrina de Sola
Scriptura.

[James Akin] A maior esperança estaria em 2Tim 3,16-17, que declara: "Toda
Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para convencer, para corrigir e
para educar na justiça. Assim o homem de Deus se encontra perfeito e preparado
para toda boa obra".

[Fernando Saraví] Aqui Mr. Akin comete a falácia de seleccionar como "promissora"
uma passagem isolada, como se alguma doutrina importante pudesse basear-se
num só texto particular. Uma vez feito isto, começa a demonstrar que a
mencionada passagem por si mesma não prova a doutrina de Sola Scriptura. Se
alguém admite a sua pressuposição, a conclusão fica predeterminada no sentido
que Mr. Akin deseja.

[James Akin] Quem recorre a esta passagem afirma que a primeira parte ("Toda
Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar") é suficiente para fundamentar a
"Sola Scriptura".

[Fernando Saraví] Certamente que não o é, como não o seria nenhuma passagem
particular isolada do contexto da Escritura; e isto é válido para qualquer doutrina
cristã, não somente para Sola Scriptura.

[James Akin] Algumas vezes a discussão ganha a forma de um apelo mais emotivo,
ou seja, de que a expressão "Toda Escritura é inspirada por Deus" poderia ser
melhor traduzida por "É exalada por Deus", passando a idéia de que os católicos
não crêem que a Bíblia tenha sido escrita por inspiração verbal de Deus.

[Fernando Saraví] Bem, deixemos as emoções de lado como quer Mr. Akin.

[James Akin] Mas o uso desta primeira parte do versículo é infrutífero pois diz
apenas que a Escritura é "útil" ("ophelimos" em grego) para ensinar, e não que seja
obrigatória para ensinar cada ponto teológico. Exemplificando, o martelo é útil para
pregar, mas isso não significa que todos os pregos só possam ser pregados com um
martelo.

[Fernando Saraví] Antes de tudo, o texto bíblico em algumas versões aprovadas


pela Igreja Católica:

Mas tu permanece fiel à doutrina que aprendeste e de que estás plenamente


convencido: tu sabes de quem a recebeste. Recorda que desde a meninice
conheces as Sagradas Escrituras: elas podem dar-te a sabedoria que conduz à
salvação, mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura está inspirada por Deus,
e é útil para ensinar e para arguir, para corrigir e para educar em justiça, a fim de
que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para fazer sempre o bem.
(2 Timóteo 3:14-17, O Livro do Povo de Deus).

Tu, porém, persevera no que aprendeste e no que creste, tendo presente de quem
o aprendeste, e que desde menino conheces as Sagradas Letras, que podem dar-te
a sabedoria que leva à salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada
por Deus e útil para ensinar, para arguir, para corrigir e para educar na justiça;
assim o homem de Deus se encontra perfeito e preparado para toda boa obra. (2
Timóteo 3:14-17, Bíblia de Jerusalém).

Tu, continua firme em tudo aquilo que aprendeste, do qual estás convencido. Já
sabes quem foram os que to ensinaram. Recorda que desde menino conheces as
Sagradas Escrituras, que podem instruir-te e levar-te à salvação por meio da fé em
Cristo Jesus. Toda Escritura está inspirada por Deus e é útil para ensinar e
repreender, para corrigir e para educar numa vida de rectidão, para que o homem
de Deus esteja capacitado e completamente preparado para fazer todo o tipo de
bem." (2 Tim 3: 14-17, Versão Popular "Deus fala hoje").

Segundo Mr. Akin, "o uso desta primeira parte do versículo é infrutífero pois diz
apenas que a Escritura é "útil" ("ophelimos" em grego) para ensinar, e não que seja
obrigatória para ensinar cada ponto teológico". Mas o texto não diz que a Escritura
seja "apenas" útil para ensinar. Somente pode reduzir desta forma o texto omitindo
deliberadamente o resto da frase: ensinar, arguir, corrigir e educar em
rectidão. Quando, à diferença do que faz Akin em seu fervor apologético, se toma
o texto tal como nos é apresentado, observa-se de imediato que segundo o
Apóstolo abarca a totalidade da educação cristã orientada, como Paulo acaba de
dizer, para a salvação pela fé em Cristo: expor as crenças da nossa fé, demonstrar
a verdade, corrigir o erro e inculcar a conduta própria do cristão. Onde, pois, está o
"apenas" de Mr. Akin senão na sua própria imaginação?

Além disso, Mr. Akin passa por alto um facto tão óbvio que deveria saltar-lhe aos
olhos, a saber: que nem nesta passagem nem em nenhuma outra se declara
que a Tradição tenha um valor sequer aproximado ao que o Apóstolo
atribui aqui à Escritura. A menos que na bíblia de Mr. Akin haja alguma
passagem que inculque: "Toda Tradição é inspirada por Deus e útil", etc.

[James Akin] Um apelo mais cuidadoso para esta passagem buscaria outras partes
da mesma, como por exemplo, a última parte, cuja idéia central é que "o homem
de Deus se encontra perfeito e preparado para toda boa obra".

[Fernando Saraví] Provavelmente a tradução "perfeito" em Reina-Valera (e na


Bíblia de Jerusalém, etc) se deve à variante textual "teleios" que aparece num
antigo uncial. Portanto, toda a discussão e o apelo a outros textos que usam a
palavra "teleios" se torna irrelevante, já que está a misturar coisas relacionadas
mas não iguais. O termo "artios" significa adequado, sólido, preparado, capacitado.
Segundo Schippers "se refere ao estado de ser equipado para uma tarefa delegada"
(New International Dictionary of New Testament Theology; Colin Brown, Ed.; Grand
Rapids: Zondervan, 1975-1978, 3: 349). Em igual sentido deve entender-se o
particípio traduzido "completamente preparado".

Ora, São Paulo afirma aqui que as Escrituras podem instruir Timóteo para levá-lo à
salvação em Cristo. Diz também que toda Escritura é "respirada por Deus", o que
fala da origem divina delas; diz finalmente que capacitam completamente o homem
de Deus para toda boa obra. Se isto não é suficiência – no correcto sentido, ou
seja, como autoridade final - me pergunto o que poderá sê-lo. O outro aspecto
importante mas por razões óbvias completamente omitido da discussão, é que não
existe uma declaração similar sobre o valor da tradição como inspirada por
Deus, capaz de levar à salvação, e de equipar perfeitamente o homem de
Deus para toda a boa obra.

[James Akin] Certa vez, um anti-católico que conheço centralizou seu discurso
sobre as palavras gregas usadas nessa expressão, "perfeito" (=artios) e
"preparado" (=exartizo), que ele interpretava como "suficiente". Ele foi até capaz
de citar um dicionário que aceitava a palavra "suficiente" como uma tradução
possível para "artios" e um outro dicionário que apresentava "suficiente" também
como possível tradução para "exartizo". Porém, algumas observações devem ser
feitas quanto a este argumento:

[Fernando Saraví] Certa vez, um anti-evangélico que conheço centralizou seu


discurso na atomização da passagem e evitar assim uma análise séria, para não
falar de uma síntese.

[James Akin] 1. Os dicionários que aceitam o termo "suficiente", citam-no como


terceira ou quarta opção de tradução para os termos "artios" e "exartizo". Nunca
são tidos, porém, como a tradução preferencial, de maneira que não se pode
recorrer a esse possível significado como prova final de que esse é o significado do
texto, principalmente porque ainda existem mais três ou quatro possibilidades de
tradução.

[Fernando Saraví] A palavra grega artios tem uma variedade de significados que
incluem apropriado, completo, capacitado, íntegro. O verbo relacionado exartizô
significa terminar, completar, equipar, prover (New International Dictionary of New
Testament Theology, Ed. Colin Brown, 3:349). O significado preciso que
corresponde em cada instância deve determinar-se, evidentemente, pelo contexto.
Em vez de fazer isso, Mr. Akin começa a fazer uma série de disquisições que não
repetirei já que em vez de aproximar-nos de uma recta interpretação nos afastam
dela. As razões pelas quais este apologista segue semelhante caminho deverão ser
óbvias.

Como disse, em vez de responder detalhadamente às suas divagações, me limitarei


a precisar alguns aspectos que considero salientes. Em primeiro lugar, não há
indicação alguma que Paulo esteja falando hiperbolicamente aqui. Sem dúvida o
Apóstolo está a fazer uma afirmação solene acerca da Escritura inspirada por Deus.

Em segundo lugar, não há dúvida em que, como Mr. Akin diz, tanto o substantivo
como o verbo que mencionamos não qualificam a Escritura mas o "homem de
Deus". Sobre as Sagradas Escrituras diz o Apóstolo que têm a capacidade de dar-
lhe a sabedoria que leva à salvação em Cristo Jesus; e a seguir afirma que toda
Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, arguir, corrigir e educar em
justiça. Parecem afirmações suficientemente fortes. É esta Palavra divinamente
inspirada que faz apto, capacita, torna íntegro ou "perfeito" para ensinar e para
fazer. Se isto não é suficiência, me pergunto o que poderia sê-lo.

Em terceiro lugar e contrariamente ao que sugere Mr. Akin, o texto não diz que a
Escritura "ajuda" a tornar íntegro o homem de Deus, mas que tem a capacidade
de torná-lo assim. O "ajuda" é um subterfúgio para introduzir ideias que não estão
no texto. Certamente que não exclui a existência de outros elementos formativos,
como os ensinamentos da avó e da mãe de Timóteo, e do próprio ensinamento oral
do Apóstolo. No entanto, o que coroa, valida e completa o ensinamento oral é a
Escritura. Tudo o resto é válido na medida em que se conforma a ela.

A doutrina protestante não é que a Bíblia seja a única autoridade, mas a


autoridade final ou suprema. A Escritura certamente dá testemunho da sua
própria autoridade, como sendo inspirada por Deus. A tradição oral como uma fonte
adicional de revelação é absolutamente desnecessária. A tradição oral como
exposição e pregação da Palavra tem um papel importantíssimo, que de nenhuma
maneira é negado, mas antes claramente evidenciado nos sermões e ensinamentos
orais que podem ouvir-se nas Igrejas derivadas da Reforma. Ora, esta proclamação
oral é válida na medida que responde fielmente às Escrituras. Os milhões que
carecem de uma Bíblia ou não sabem ler beneficiam sem dúvida com a leitura da
Escritura em voz alta e quando se lhes prega o que as Escrituras dizem. O suporte
da mensagem não é o mais relevante. Pode ser escrita em papel, numa tela, em
Braille ou lida em voz alta; continua sendo a Palavra de Deus, continua sendo
suficiente.

Diz Mr. Akin: "Não é possível afirmar que a Bíblia é tão clara que não seja
necessária a Tradição Apostólica ou o Magistério da Igreja para interpretá-la
(posição conhecida como suficiência formal da Escritura, idêntica à doutrina
protestante da "Sola Scriptura"). Portanto, ainda que a Bíblia ofereça toda a base
necessária para a teologia, ela não nos ensina todos os detalhes." Este é um
pronunciamento ex cathedra que dá por demonstrado precisamente o que se
discute. De resto, bem diz Mr. Akin descontraidamente que "qualquer católico pode
admitir, felizmente" a suficiência material das Escrituras. A chave está na palavra
"pode". O facto é que não há acordo entre os católicos a tal respeito; por isso
um católico "pode" admitir tal suficiência, sem que esteja obrigado a fazê-lo. Outros
católicos rejeitam tal suficiência material, e portanto "podem" não admitir.

Diz também Mr. Akin: "Realmente o texto diz que a Escritura tornará o homem de
Deus perfeito, mas esta perfeição não é dada ao leigo, mas ao clérigo, que recebe
um treinamento especial como, por exemplo, o conhecimento da Tradição
Apostólica, que o faz capaz de interpretar corretamente as Escrituras. Assim, o
texto pressupõe um conhecimento que o homem de Deus já deve ter antes de
tomar contato com as Escrituras. "Segundo esta estranha interpretação, a Escritura
aperfeiçoaria os clérigos mas não os leigos. É para começar um anacronismo, já
que esta distinção não existia no tempo dos Apóstolos: embora existissem
ministros, o clero ou herdade de Deus era coincidente com o seu laos ou povo.
Quem pressupõe um conhecimento "tradicional" é Mr. Akin, não o texto que tão
descuidadamente distorce. É certo que o texto se refere primariamente a Timóteo
que de facto é um pastor, e que a preparação a que Paulo se refere é
primariamente o ministério evangélico; mas não há nenhuma razão válida para
postular que o mesmo conhecimento que é proveitoso para o «homem de Deus»
não o seja igualmente para os crentes que não são ministros. O próprio Concilio
Vaticano II contradiz tal ideia e Mr. Akin não pode ignorá-lo.

[James Akin] 10. Porém, além destas considerações (que levam em conta as
traduções dos termos "artios" ou "exartizo"), há razões positivas pelas quais esta
passagem (pouco importando a tradução dos referidos termos gregos) não pode ser
usada para provar a teoria da "Sola Scriptura", a começar nas primeiras palavras
do v.16: a frase "Toda Escritura" é normalmente entendida pelos protestantes
como "Toda a Bíblia", ou seja, se refere a todo o cânon bíblico (AT+NT ). A isto
soma-se o desejo protestante de fazê-la normativa para a teologia cristã. Assim, é
natural para um protestante pensar que o termo "Escritura" no singular refere-se à
Bíblia por inteiro e nada mais além da Bíblia. Todavia, não é assim que a mesma
Escritura compreende…

...

Quando Paulo quis referir-se à totalidade das Escrituras usou uma frase diferente
em grego – algo assim como "hai pasai graphai" ("a totalidade das Escrituras") e
não "pasa graphe", a qual significa simplesmente "cada Escritura" (fato este que
um dos maiores defensores do uso de 2Tim 3,16-17, o anti-católico James White,
teve que admitir publicamente). Isto é importante porque impossibilita totalmente
o uso desta passagem para provar a teoria da "Sola Scriptura" já que, se alguém
tentar usá-la, a única coisa que conseguirá provar será apenas o modo. Desta
forma, se a passagem que diz "Cada Escritura é inspirada por Deus e é útil para o
ensinamento, etc." prova a suficiência da Escritura, provaria realmente a suficiência
que cada passagem da Escritura – ou ao menos cada livro da Bíblia – possui para a
teologia.

...

Isto seria um completo absurdo já que nenhuma passagem ou livro em particular


da Bíblia contém o que necessitamos saber para fazer teologia. Vemos então que
2Tim 3,16-17 não pode ser usado para provar a "Sola Scriptura". Se fosse assim,
mais que a "Sola Scriptura", provaria o modo utilizado. Paulo simplesmente está
dizendo que cada escritura em particular contribui para que o homem de Deus seja
preparado para todas as suas tarefas ministeriais, só isso… Não diz que cada
Escritura em particular é suficiente para se fazer toda a teologia.

[Fernando Saraví] Abreviei esta bacharelada para evitar repetições. Como o fez
consistentemente até aqui, Mr. Akin se põe com rodeios e, sobre a sua própria
autoridade, caricatura os argumentos contrários para demonstrar que são
absurdos. O que na verdade resulta absurdo, pois, é a sua própria elaboração.

William Hendriksen observa:

Citação:

Toda Escritura, distinta de "(as) Sagradas Escrituras" ... quer dizer tudo o que, por
meio do testemunho do Espírito Santo na igreja, é reconhecido pela igreja como
canónico, isto é, com autoridade.

Não é verdade que a ausência de artigo nos obrigue a adoptar a tradução de Reina-
Valera 1909: "Toda Escritura" (no sentido de "cada"). A palavra Escritura pode ser
definida igualmente sem o artigo (1 Pedro 2:6; 2 Pedro 1:20).... Mas mesmo se a
tradução "toda Escritura" fosse aceite, o sentido resultante não teria grande
diferença, porque se "toda (cada) Escritura" é inspirada, "toda a Escritura" é
inspirada também.

Exposición de las Epístolas Pastorales em Comentario del Nuevo Testamento. Grand


rapids, SLC, 1979, p. 340)

A declaração do Apóstolo não estabelece o cânon da Escritura, mas a sua origem,


natureza e autoridade. Como católicos, ortodoxos e protestantes reconhecem por
igual a natureza inspirada do Novo Testamento, é simplesmente razoável admitir
que o dito aqui por São Paulo se aplica de igual maneira às Escrituras da Nova
Aliança.

O que afirma o Apóstolo é que tudo aquilo que possa rectamente considerar-se
Escritura foi respirado por Deus e daí provém o seu valor e utilidade. Que deva
traduzir-se "Toda Escritura" ou "Toda a Escritura" (como o fazem a maioria das
versões protestantes e católicas), ou "Cada Escritura" (como não o faz nenhuma
versão que eu conheça) é irrelevante.

[James Akin] Se formos ainda mais além, perceberemos que sempre que os
protestantes citam 2Tim 3,16-17, acabam por excluir da citação os dois versículos
anteriores.
[Fernando Saraví] Certamente, os versículos 14 a 17 formam uma unidade
temática.

[James Akin] Isto não é bom – para eles. Se abrirmos a Bíblia nos versículos
imediatemente precedentes, leremos o seguinte:

"14. E tu, permaneça fiel ao que tens aprendido e de que estás firmemente
convencido, sabendo de quem o aprendeste.
15. E que desde a infância conheces as Sagradas Escrituras, que podem dar-te a
sabedoria que leva à salvação mediante a fé em Cristo Jesus.
16. Cada Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para convencer, para
corrigir e para educar na justiça,
17. assim o homem de Deus pode ser perfeito e preparado para toda boa obra".

Paulo exorta a Timóteo a permanecer fiel àquilo que está firmemente convencido,
citando duas bases para essa crença:

1. Timóteo sabe de quem aprendeu tudo isso: foi através do ensinamento oral do
mesmo apóstolo Paulo. Nós, igualmente, temos a mesma crença de Timóteo,
baseada na Tradição Apostólica.

2. Desde a infância, Timóteo se familiarizou com as Santas Escrituras, constituindo


esta a segunda base para a sua crença.

Assim, é justamente aqui, em 2Tm 3,14-17, onde temos um duplo recurso: a


Tradição Apostólica e a Escritura Apostólica. Portanto, quando os protestentes
citam os versículos 16 e 17, estão citando somente a última parte de uma dupla
apelação que faz referência à Tradição e à Escritura, coisa que evidentemente não
prova a "Sola Scriptura".

[Fernando Saraví] Isto não é bom para Mr. Akin. A alusão de Paulo à origem da
aprendizagem de Timóteo não sustenta a sua tese. Paulo não diz de "quem" o
aprendeste no singular (grego tinos), mas usa o plural "aqueles de quem" o
aprendeste (grego tinôn). Em português o pronome "quem" é invariável, sendo
igual tanto no singular como no plural mas no original grego emprega-se o plural.
Claro está que isto não exclui o próprio Apóstolo mas também não alude com
exclusividade a ele; a referência ao aprendido desde a meninice seguramente inclui
a instrução da sua avó Loide e da sua mãe Eunice, como Paulo o explicita em 1:5.

Citação:

O que o Apóstolo acrescenta nos v. 14-15 é de suma importância doutrinal. Aí


temos indicado a via como chega a nós a verdade revelada ou mensagem
evangélica: tradição, Sagrada Escritura. Entre os mestres da fé há que contar, sem
dúvida, a sua avó e a sua mãe (cf. 1,5), mas sobretudo Paulo (cf. 2,2; 3,10).

(Lorenzo Turrado, Epístolas Paulinas em Profesores de Salamanca: Biblia


Comentada, 2ª Ed. Madrid: BAC, 1975, p. 413).

O facto de Timóteo ter sido exortado a reter e transmitir o que recebeu dos seus
mais velhos e do próprio Paulo não afecta em nada o princípio de Sola Escritura. O
que Paulo ensinou a Timóteo, e a muitos outros, persiste para sempre no NT. Jesus
rejeitou como "doutrinas de homens" não quaisquer tradições, mas as dos mais
religiosos e piedosos do seu tempo. Dificilmente rejeitaria a paradosis ou tradição
apostólica dado que Ele próprio comissionou os Apóstolos para anunciar o
Evangelho a toda a criatura. O que se discute aqui é a existência de tradições
apostólicas autênticas e necessárias para a salvação que não se tenham registado
no Novo Testamento.

[James Akin] Finalmente, temos que concluir que todos os argumentos que
apresentamos constituem uma ajuda contra aqueles que, baseados em 2Tim 3,16-
17, defendem a "Sola Scriptura".

[Fernando Saraví] Aqui Mr. Akin comete a falácia de afirmar que um grande
número de argumentos é suficiente por si mesmo – ou seja, sem importar a sua
qualidade - para provar a sua tese; pelo contrário, o que demonstra é a sua falta
de consideração pelo texto e a fraqueza da sua postura.

[James Akin] A razão pela qual se distingue a "Sola Scriptura" da opinião católica
de suficiência material é a seguinte: a "Sola Scriptura" reclama que não apenas a
Escritura tem toda a base de dados necessária para se fazer teologia, como
também é suficientemente perspicaz (ou seja, bem clara), de maneira que não se
necessita de outras informações externas (como as que provêm da Tradição
Apostólica ou do Magistério) para se interpretar corretamente a Escritura. O fato de
mencionar muitos fatores que minam o uso de 2Tim 3,16-17 – cada um dos quais é
fatal para se tentar usar a passagem – nos mostra que esta não é suficientemente
clara para provar a doutrina da "Sola Scriptura". Se alguém não estiver convencido
do que dissemos, mas considerar como opinião válida qualquer um dos pontos que
apresentamos, então restará provado que 2Tim 3,16-17 não é suficientemente
clara para se provar a doutrina da "Sola Scriptura" de forma que tal citação não
poderá ser usada para essa finalidade.

[Fernando Saraví] Teria piada se não o dissesse com tanta solenidade. O que Mr.
Akin quer fazer-nos crer aqui é que por ele não entender a passagem, ou não
querer entendê-la, a Escritura não é perspicaz. Mas a sua ignorância é, no melhor
caso, culposa.

[James Akin] E assim, tendo demonstrado desde o princípio que a passagem de


2Tim 3,16-17 (que parecia ser a mais oportuna e favorável) não é suficientemente
clara para provar a doutrina da "Sola Scriptura", podemos afirmar, sem medo de
errar, que nenhuma outra passagem estará apta para provar essa doutrina. Isto,
então, nos mostra que a Bíblia não é suficientemente clara quanto a "Sola
Scriptura", nem que possa ser tida como verdadeira.

[Fernando Saraví] Quem postulou que a passagem era a mais oportuna e favorável
foi o próprio Mr. Akin. Agora diz que, depois de tudo, não o é; e com isto
demonstra, para sua inteira satisfação, a falta de clareza da Escritura. Não se me
ocorre melhor resposta às suas puerilidades que o seguinte texto tomado de
autores católicos que evidenciam uma compreensão mais adequada do mesmo
texto:

Citação:

"Da Escritura diz o Apóstolo (v. 16) que é «divinamente inspirada» (theopneustos),
afirmação básica, em virtude de cuja realidade os Livros Sagrados estão acima de
qualquer outro livro, por mais profundo e bem composto que o suponhamos. Dessa
realidade que está isenta de todo erro, flui como consequência necessária a sua
utilidade para ensinar a verdadeira doutrina, para combater os erros, para corrigir
os vícios e para fazer progredir na vida moral. Bem apetrechado com o seu
conhecimento, o «homem de Deus» ou ministro do Evangelho (v. 17) estará em
condições de desempenhar devidamente o seu ministério. Directamente Paulo está
referindo-se ao Antigo Testamento, que era o que Timóteo tinha aprendido desde a
sua infância (v. 14-15); mas a sua afirmação do v. 16 vale igualmente para o Novo,
quando o catálogo de livros veterotestamentários foi ampliado com os
neotestamentários."

(Turrado, o.c., p. 413).

Este versículo e o seguinte ... precisam a origem e a utilidade da Sagrada Escritura.


Toda Escritura: no contexto presente se trata dos livros sagrados, e em concreto
dos do AT, que Timóteo aprendeu desde a sua meninice. A ausência do artigo está a
indicar que se toma aqui a Escritura em sentido distributivo; por conseguinte, tudo
aquilo que seja na realidade um livro ou uma parte qualquer que possa com razão
chamar-se Escritura Sagrada. Entra, pois, sob essa denominação paulina: toda
Escritura, não só o AT com todas as suas partes, mas também o NT...

O interesse de Paulo é insistir perante Timóteo sobre a utilidade da Sagrada


Escritura, mas afirma de passagem a inspiração, porque dela se deduz a sua origem
e, consequentemente, a sua utilidade.

(Justo Collantes, S.I., Cartas Pastorales. Em La Sagrada Escritura. Texto y


comentario por Profesores de la Compañía de Jesús, 2ª Ed. Madrid: BAC, 1965,
2:1058-1059).

[1] O artigo de James Akin traduzido em português encontra-se publicado no site


http://www.veritatis.com.br/