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UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
MESTRADO EM HISTÓRIA

TRADIÇÃO X MODERNIZAÇÃO NO PROCESSO


PRODUTIVO RURAL: OS CLUBES 4-S EM PASSO FUNDO
(1950-1980)

SIRLEI DE FÁTIMA DE SOUZA

Dissertação de Mestrado na área de História Regional,


apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História
como requisito parcial para obtenção do grau de mestre
em História sob a orientação do Prof. Dr. João Carlos
Tedesco.

Passo Fundo, março 2003


__________________________________________________________________
S729t Souza, Sirlei de Fátima
Tradição x modernização no processo produtivo rural :
os Clubes 4-S em Passo Fundo (1950-1980) / Sirlei de Fátima
Souza. - 2003.
236 p.

Dissertação (mestrado) – Universidade de Passo Fundo,


2003.

1. História do Rio Grande do Sul 2. Modernização agrícola


3. Pequena propriedade 4. Clubes 4-S I. Título

CDU: 981.65
___________________________________________________________________
Catalogação na fonte: bibliotecária Sandra M. Milbrath Vieira CRB 10/1278
AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos que contribuíram para a realização deste trabalho, em especial, a


atenção e carinho recebidos das pessoas entrevistadas, pela disposição de fornecerem
informações e pela confiança depositada quando do empréstimo de documentos pessoais.
À Universidade de Passo Fundo, aos professores do curso de Pós-Graduação em
História, meu agradecimento pelo zelo profissional, sabedoria e apoio, que me desafiaram a
realizar esta pesquisa. Especialmente ao professor dr. João Carlos Tedesco, orientador, por
sua dedicação e segurança demonstrada nas apreciações, pelas palavras de incentivo e a
amizade compartilhada.
Aos colegas do mestrado, que compartilharam alegrias e angústias.
À professora Maria Emilse Lucatelli, pela revisão do texto.
À Capes, pelo auxílio financeiro que tornou possível a conclusão do trabalho.
Sou grata, também aos familiares e amigos, pela compreensão e estímulo para a
realização de meus objetivos.
Ao companheiro Souza, pelo incentivo e auxílio, diversas vezes solicitado diante das
dificuldades com o computador e pela elaboração das tabelas e composição das fotos.
Finalmente, ao filho Renan, pelas palavras doces nas horas difíceis e que ficarão na
minha memória: “Mãe! Vai bem no trabalho amanhã, tá”. E com um sorriso e abraço me
encorajava a continuar.
RESUMO

Esta dissertação mostra que, no meio rural de Passo Fundo, nas áreas de mata, especialmente
no distrito de São Roque, os pequenos agricultores seguiam os métodos agrícolas tradicionais
em meio ao processo de modernização que estava revolucionando a produção agrícola nas
áreas de campo com o cultivo do trigo e, posteriormente, da soja. Os pequenos agricultores
foram introduzidos nesse processo somente no final de 1960, orientados pelo serviço de
extensão rural através dos Clubes 4-S. Esses clubes eram grupos de jovens com idade em
torno de 10 a 21 anos, organizados no meio rural com uma ação educativa que objetivava a
difusão e adoção das novas técnicas agrícolas e com incentivos ao associativismo. A
pesquisa mostra como ocorreu a introdução dos pequenos agricultores do distrito de São
Roque no processo de modernização agrícola e as influências que os clubes tiveram nesse
processo. Para a realização dessa pesquisa foram utilizadas várias fontes, como artigos dos
periódicos regionais e locais, a Revista dos Clubes 4/S, a Revista Extensão Rural,
documentos da Emater-RS, documentos pessoais, fotos e entrevistas com moradores e ex-
moradores do distrito de São Roque, ou que de alguma forma estiveram relacionados aos
Clubes 4-S, bem como bibliografia sobre ao assuntos abordados. O estudo conclui que a
juventude rural tornou-se o elo de ligação para levar os novos conhecimentos aos agricultores
e que esse trabalho foi indutor de mudanças no modo de viver e trabalhar no meio rural.
Dessa forma, o trabalho desenvolvido nos Clubes 4-S foi essencial para a introdução dos
pequenos agricultores no processo de modernização agrícola, pois, a partir dele, eles passaram
a adotar novas técnicas agrícolas, fertilizantes, calcário, adubos, sementes híbridas;
compraram máquinas agrícolas, fizeram financiamentos, associaram-se a sindicatos e
cooperativas, entre outras mudanças que ocorreram na área econômica e social.

Palavras-chaves: Modernização agrícola – pequena propriedade – Clubes 4-S – juventude


rural
ABSTRACT

This dissertation shows that small land farmers who live in wood places of the country area of
Passo Fundo, specially in the São Roque district, followed the traditional agricultural methods
in the middle of a modernization process that was revolutionizing the agricultural production
in farms with the growing of wheat and, posteriorly, soy-bean. Small land farmers entered
such process only at the end of 1960, oriented by the rural extension service in the 4-S Clubs.
Those clubs were groups of youth aged from 10 to 21, organized in country as an educative
action that aimed at the adoption and diffusion of new agricultural technics, with incentives to
the associativism. The research shows how the introduction of the small land farmers of São
Roque district in the process of agricultural modernization took place and the influences of
the clubs in such process. In the accomplishment of the research many sources were utilized,
such as articles from local and regional periodicals, the Revista dos Clubes 4-S (4-S Clubs'
Magazine), the Revista Extensão Rural (Rural Extension Magazine), documents of Emater-
RS, personal documents, photos, interviews with inhabitants and ex- inhabitants of the district
and with people who in some way were related to the 4-S Clubs, as well as bibliography about
the themes involved. The study shows that the rural youth became the link for taking the new
knowledge to the farmers, inducing changes in the way of living and working in country. In
this way, the work developed in 4-S Clubs was essential to the introduction of the small land
farmers in the agricultural modernization process because, since then, new agricultural
technics, fertilizers, lime, manure, and hybrid seeds were adopted, agricultural machines were
bought, financial borrowings were taken, association to syndicates and mutual companies
were performed, among other changes happened in the economic and social areas.

Key words: Agricultural modernization, small farm, 4-S Clubs, rural youth.
LISTA DE ABREVIAÇÕES

Abcar – Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural


Acar – Associação de Crédito e Assistência Rural de Minas Gerais
Acaresc – Associação de Crédito e Assistência Rural do Paraná
AIA – American Internacional Association for Economic and Social Development
Ancar – Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural
Ascar – Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural
Aster – Associação Territorial de Assistência Técnica e Extensão Rural
BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento
Emater – Empresa Estadual de Assistência Técnica e Extensão Rural
Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa agropecuária
Embrater – Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural
ETA – Escritório Técnico de Agric ultura
FAG – Frente Agrária Gaúcha
Fetag – Federação dos Trabalhadores na Agricultura
Inda - Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário
Master – Movimento dos Trabalhadores sem Terra
LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Relação de comerciantes em algumas colônias no Rio Grande do Sul,


1899-1950........................................................................................................... 32
Tabela 2: Participação no valor bruto da produção primária - % 1948-1975..................... 35
Tabela 3: Produção da lavoura de trigo no Rio Grande do Sul – 1940-1958..................... 36
Tabela 4: Municípios de maior produção de trigo do Rio Grande do Sul, safra 1927-
1928...................................................................................................................... 47
Tabela 5: Produção total, tonelagem e área cultivada na região de Passo Fundo em
1950 e 1960.......................................................................................................... 53
Tabela 6 – Crescimento da população total, urbana e rural da região de Passo Fundo,
1950-1991......................................................................................................... 67
Tabela 7 – População do distrito de São Roque 1960-2000............................................... 72
Tabela 8 – Evolução do trabalho com Clubes 4-S no Rio Grande do Sul, 1956-1977......129
Tabela 9 – Evolução estadual do Projeto de Melhoramento da Fertilidade dos Solos.......154
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Mapa do município de Passo Fundo – 1990........................................................71
Figura 2: Primeiros moradores do distrito de São Roque. Família Strello e Escobar ........73
Figura 3: Colheita manual do trigo no distrito de São Roque.............................................78
Figura 4: Mutirão para a colheita manual do trigo..............................................................79
Figura 5: Trilhadeira utilizada na colheita do trigo.............................................................79
Figura 6: Carta de Condutor de tração animal.....................................................................81
Figura 7: Certificato di matrimônio.....................................................................................91
Figura 8: Certidão de registro de estrangeiro...................................................................... 92
Figura 9: Moinho colonial de São Valentim, construído em 1939......................................95
Figura 10: Moinho colonial de Ernesto Ferron....................................................................95
Figura 11: Moinho a cilindro – Pierdoná & Cia..................................................................95
Figura 12: Emblema Clube 4’Hs dos EUA..........................................................................119
Figura 13: Emblemas de clubes agrícolas de alguns países da América Latina.................120
Figura 14: Emblema dos Clubes 4-S do Brasil....................................................................127
Figura 15: Reunião dos Clubes 4-S em Santa Gema...........................................................138
Figura 16: Colheita referente ao Projeto Trigo ( 1970)....................................................... 143
Figura 17: Visita às lavouras demonstrativas de Ibirubá.....................................................156
Figura 18: Jovens do Clube 4-S de São Roque espalhando calcário...................................159
Figura 19: Máquina de espalhar calcário construída por Oscar Penz..................................160
Figura 20: Excursão do Clube 4-S de São José a Caxias do Sul......................................... 164
Figura 21: Carlos Maffi, sócio do Clube 4-S de São José, sendo cumprimentado pelo
Presidente Médici em Brasília (1970)................................................................165
Figura 22: Carlos Maffi recebendo Norman Borlaug no aeroporto de Passo Fundo...........166
Figura 23: Encontro de Clube 4-S em Marau......................................................................168
Figura 24: Encontro de Clube 4-S em Serafina Correa (1973)............................................168
SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS..................................................................................................5
RESUMO ..........................................................................................................................6
ABSTRACT.....................................................................................................................7
LISTA DE FIGURAS ................................................................................................... 8
LISTA DE TABELAS .................................................................................................. 9
LISTA DE ABREVIAÇÕES ..................................................................................... 10

INTRODUÇÃO .............................................................................................................14

I PARTE

O CONTEXTO SOCIOECONÔMICO DE PASSO FUNDO NO


PERÍODO DE 1950 A 1980

CAPÍTULO 1

PROCESSO DE OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO DO RIO GRANDE DO


SUL (1900-1940): ANTECEDENTES HISTÓRICOS E ECONÔMICOS

1.1 A estância, a pecuária e a indústria da carne................................................................ 26


1.1.1 A terra, a produção de alimentos e o colono....................................................... 29
1.1.2 Da agricultura tradicional à moderna.................................................................. 33
1.1.3 O avanço do setor industrial no Rio Grande do Sul e sua ligação com a
agricultura............................................................................................................38

CAPÍTULO 2

O MUNICÍPIO DE PASSO FUNDO E SEU DESENVOLVIMENTO


ECONÔMICO (1950-1980)
2.1 Breve histórico da ocupação do município................................................................. 44
2.1.2 A agricultura....................................................................................................... 46
2.1.3 A inserção do município de Passo Fundo no processo de modernização
agrícola: 1950-1980............................................................................................ 51
2.1.4 Os granjeiros e a concentração fundiária.............................................................54
2.1.5 Crise na produção tritícola e as novas medidas de comercialização................... 56
2.2 A consolidação da modernização agrícola em Passo Fundo........................................ 62
2.3 O crescimento urbano de Passo Fundo........................................................................ 65
2.4 Aspectos socioeconômicos do distrito de São Roque.................................................. 70
2.4.1 Aspectos do cotidiano econômico e social no meio rural................................... 72
2.4.2 Os estabelecimentos comerciais e industriais do distrito de São Roque............. 85

II PARTE

JUVENTUDE RURAL X MODERNIZAÇÃO: O


DIFUSIONISMO E O EXTENSIONISMO TÉCNICO E
CULTURA TRANSNACIONAL (1950-1980)

CAPÍTULO 3
NOÇÕES, CONCEITUAÇÕES, OBJETIVOS E OS FOCOS DO
TRABALHO DE EXTENSÃO RURAL
3.1 A juventude como foco central.....................................................................................109
3.2 Extensão rural no Brasil – modelo norte-americano.................................................... 115
3.2.1 A implantação da Extensão rural no Brasil......................................................... 121
3.2.2 O início dos Clubes 4-S no Brasil e a expansão para outros Estados..................126

CAPÍTULO 4

OS CLUBES 4-S NO MEIO RURAL DE PASSO FUNDO

4.1 A introdução e metodologia de trabalho dos Clubes 4-S em Passo Fundo................. 132
4.2 As primeiras experiências: projetos individuais e comunitários................................. 142
4.3 A adoção das inovações tecnológicas pelos agricultores............................................ 148
4.4 Os Clubes 4-S e a Operação Tatu................................................................................152
4.5 A introdução do plantio da soja na pequena propriedade............................................160
4.6 As realizações dos Clubes 4-S.....................................................................................162
4.7 Alterações socioeconômicas no meio rural a partir dos Clubes 4-S .......................... 172
4.8 Incentivos ao associativismo e sua institucionalização.............................................. 176
4.9 As redefinições do trabalho de extensão em Passo Fundo.......................................... 194

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Análise crítica do processo em questão

a) A correspondência com a lógica do capital voltado para a agricultura........................... 204


b) O papel dos extensionistas: a lógica do saber técnico.....................................................210
c) Um novo perfil de agricultor e a seletivização no meio rural ........................................ 214
d) Educação ou invasão cultural?........................................................................................ 217
e) O rural como espaço de demandas técnico-químicas......................................................221
f) O que significou o trabalho dos Clubes 4-S para os agricultores do distrito de São
Roque?............................................................................................................................. 223

BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................... 227


INTRODUÇÃO

Uma cidade, um campo, de longe são uma cidade e um


campo, mas à medida que nos aproximamos, são casas, árvores,
telhas, folhas, capins, formigas, pernas de formigas, até o infinito.
Tudo isso está envolto no nome campo.1

A partir do movimento dos Annales, 2 as fronteiras interdisciplinares passaram a ser


inexistentes e ocorre uma forte tendência à observação do particular, do específico e do
regional. Abre-se, então, espaço para a geografia, a demografia, a antropologia. A partir de
1960, a antropologia foi tomando espaços importantes dentro dos Annales. Novas áreas
temáticas surgiram, como a família, mulheres, história do cotidiano e novas abordagens, entre
elas a micro-história, bem como a renovação das fontes, com o reconhecimento da tradição
oral, da arqueologia e da iconografia. Segundo Diehl:

O olhar historiográfico move-se não mais focalizando os sistemas econômicos, a sociedade e a


política. É movido, agora para as pessoas concretas e por suas relações de vida em um
subjetivo horizonte de experiências. Encaminha-se, dessa forma, uma “nova” historiografia
brasileira no cenário do debate, onde são discutidas a (des)substancialização do sujeito, a elisão
e a intertextualidade do próprio sujeito como ponto de referência do conhecimento, rumando
muitas vezes para a simulação do discurso da realidade objetiva. 3

No presente trabalho, o olhar volta-se para o local, para o micro, abrindo-se espaço
para a história dos homens comuns e para o estudo das racionalidades e estratégias que fazem
parte da historicidade de um lugar. Para Viscardi, a história regional não se constitui em um
método nem possui um corpo teórico próprio; é, sim, uma opção de recorte espacial do objeto

1
LEPETIT, Bernard. Sobre a escala na história. In: REVEL, Jacques (Org.). Jogos de escala: a experiência da
microanálise. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1988, p.102.
2
Ver LE GOFF. A história nova. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p.29.
3
DIEHL, Astor. A cultura historiográfica nos anos 80. Porto Alegre: Evangraf, 1993, p.8.
estudado, 4 e o que definirá este objeto serão as especificidades que o diferenciam do seu
entorno. No entender de Westphalen, cada região possui a sua própria história:

O instrumento de estudo para o conhecimento da História Regional é aquele das comunidades,


haja vista que a formação da sociedade brasileira não foi a formação de uma sociedade unitária,
indiferenciada, monolítica, monogenética, mas foi um conjunto de conformações regionais que
nasceram e se desenvolveram quase auto-suficientemente, isoladas, com motivações diversas, e
criaram estilos de vida diversos em regiões geográficas diversas. Cada uma dessas formações
regionais que se constituíram pelo seu modo de povoamento tem a sua própria história. 5

Assim, o estudo regional permite seguir a evolução de um grupo social em diferentes


níveis estruturais geográficos, demográficos, econômicos, sociais, ideológicos e mentais,
percebendo as continuidades e descontinuidades nos processos de mudança econômica e
social. Para Levi, a continuidade dos processos históricos atua no presente de cada contexto.
Cada forma é, por definição, diferente em cada lugar e em cada instante. 6 Para perceber essas
diferenças e entender como ocorreu a continuidade dos processos históricos no período
delimitado, optou-se pela micro-história.
A micro-história surgiu como uma nova abordagem, ressaltando o individual, o
excepcional, aquilo que ainda não foi observado, o imprevisível, em contraposição à macro-
história, que é determinada, antes de tudo, por mudanças estruturais globais. Os níveis de
prova sempre remetem, em última análise, ao modelo geral e os dados empíricos tornam-se
ilustrativos; dificilmente a macro-história mostra o excepcional, impossibilitada pela
incapacidade da exaustão das fontes.
Para a micro-história, a redução de escala é um procedimento analítico, que pode ser
aplicado em qualquer lugar, independentemente das dimensões do objeto analisado. 7 Não é o
objeto que é micro, mas a análise que exige um estudo intensivo dos documentos. Segundo
Geertz, “os historiadores não estudam as aldeias, eles estudam em aldeias”. 8 Na micro-
história, ocorre um envolvimento maior do historiador com o objeto de estudo, todavia, por
ser um estudo local, não significa que esteja desvinculado do global, pois a história

4
VISCARDI, Claudia Maria Ribeiro. História, região e poder: a busca de interfaces metodológicas. Locus-
Revista de História. Juiz de Fora, 3v , n.1., p. 84.
5
WESTPHALEN, C. M. História Nacional, História Regional. Estudos Brasileiros, Curitiba, jun. 1977, p. 30.
6
GRIBAUDI, Maurizio. Escala, pertinência, configuração. In: REVEL, Jacques (Org.) Jogos de escala: a
experiência da microanálise. Rio de Janeiro: fundação Getúlio Vargas, 1998, p. 131.
7
LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter (Org.). A escrita da história: novas perspectivas.
São Paulo: Unesp, 1992, p. 137.
8
LEVI, Giovanni. op. cit., p. 135.
desencadeada em um distrito tem vinculação com o que acontece no restante do país, estado
ou município.
O interesse e a preocupação com o distrito de São Roque, foco deste estudo, surgiram
a partir dos relatos sobre como era a localidade antigamente, o número significativo de
estabelecimentos comerciais que nela havia, a organização produtiva que a caracterizava, a
população numerosa, a existência dos Clubes 4-S; das observações feitas no próprio local
onde se encontram vestígios materiais, fotos, que mostram as mudanças ocorridas e, também,
da grande participação das pessoas do bairro São Cristóvão e da vila Planaltina nas festas
realizadas no distrito, o que chamou nossa atenção sobre o êxodo rural e a formação do
espaço urbano do município de Passo Fundo. Tudo isso despertou a curiosidade de
compreendermos o que teria provocado essas alterações no meio rural e como essas teriam
ocorrido.
Foi longo, angustiante e desafiador, mas, ao mesmo tempo, gratificante o período em
que procurávamos encontrar o fio condutor que levasse à compreensão das transformações
ocorridas no meio rural. A construção foi acontecendo aos poucos, a cada dia, conforme
surgia uma nova peça, como se fosse um quebra-cabeça, até termos a certeza de que
estávamos no caminho certo. A refle xão sobre o modo de desenvolver a pesquisa, o trabalho
com as fontes, a busca de bibliografia em outras bibliotecas (UFGRS, UFSM, UCS, Emater-
RS, Embrapa), as dificuldades para vencer tantas leituras e, ainda, a batalha da escrita
constituíram-se num desafio e numa conquista.
O objeto de investigação deste estudo são os Clubes 4-S, trabalho que envolveu a
juventude rural sob a orientação dos extensionistas da Associação Sulina de Assistência e
Crédito Rural (Ascar), com o objetivo de introduzir os agr icultores no processo de
modernização agrícola. A delimitação temporal deste estudo compreende os anos de 1950-
1980, pois este período permite compreender como ocorreu a introdução da modernização
agrícola na pequena propriedade e a influência dos Clubes 4-S nesse processo, focalizando
especialmente os clubes que se concentraram no meio rural de Passo Fundo, sobretudo no
distrito de São Roque.
Os objetivos que embasaram o trabalho dos Clubes 4-S estavam inseridos num
contexto global e seguiam o modelo e orientações dos Estados Unidos, que visava à
introdução de pacotes tecnológicos no Brasil e à difusão das novas técnicas agrícolas e
produtos que estavam sendo desenvolvidos nos seus centros de pesquisa e nas indústrias, em
grande parte multinaciona is.
Foi na década de 1950 que os Clubes 4-S foram organizados no Brasil, os quais
tiveram grande expansão a partir desse período. Seu objetivo era mudar a mentalidade dos
agricultores para que abandonassem as práticas tradicionais e adotassem as modernas, sob o
argumento de que o aumento da produção e da produtividade seria alcançado através da
mecanização e da tecnificação agrícola. Na fase inicial do serviço de extensão rural,
priorizava-se o desenvolvimento tanto econômico como social das comunidades rurais.
Porém, à medida que o trabalho se consolidava, a prioridade passou a ser o econômico. A
partir de então, foi percebida uma mudança na filosofia, bem como no público que passou a
ser atingido pelos programas da extensão.
Barros define bem o contexto em que se enquadraram os investimentos agrícolas no
período de 1960:
Com o estancamento do processo de substituições das importações, que foi levado a efeito com
baixos recursos de capital, foi necessário depois ingressar num processo mais amplo de
industrialização e, para isso, lhes faltavam os meios necessários. O único caminho seria
transferir recursos da agricultura para a indústria, mas a agricultura achava-se ainda presa a um
regime de baixa evasão de divisas e de baixa produtividade.9

Assim, para reverter essa situação, era preciso mudar a mentalidade dos agricultores,
os quais deveriam abandonar os métodos tradicionais de lidar com a agricultura e adotar os
métodos modernos que estavam sendo difundidos no período.
A partir da década de 1970, o interesse do governo voltou-se para o aumento da
produção e da produtividade dos produtos de exportação, principalmente trigo e soja na região
do Planalto, incentivando a pesquisa, o associativismo, a assistência técnica e creditícia, ou
seja, adotou medidas que lhe permitiam um controle maior sobre os produtores e a produção.
Assim, os extensionistas passaram a ser os intermediários do governo na difusão das
inovações junto aos agricultores, e a juventude rural tornou-se o principal alvo para a
introdução e transmissão desses novos conhecimentos aos produtores rurais.
A literatura referente à história local menciona que a economia nas áreas de campo e
de mata desenvolveu-se de forma diferenciada, o que permaneceu após o início do processo

9
BARROS, Edgard de Vasconcelos. Princípios de ciências sociais para a extensão rural. Viçosa: UFV, 1994,
p. 670.
de modernização agrícola na região. As obras de Rückert, Brum, Grzybowski e Tedesco,
apontam para o pioneirismo dos granjeiros no processo de modernização agrícola nas áreas de
campo em meio às barbas-de-bode, em contraponto aos pequenos agricultores, que
continuavam praticando a agricultura tradicional até o final de 1950, quando passaram a
produzir utilizando-se das práticas modernas.
No contato que fizemos com pessoas do meio rural em estudo, várias menções foram
feitas ao envolvimento dos moradores do distrito de São Roque nos Clubes 4-S, nos quais se
instruíam os jovens filhos de agricultores. Assim, aos poucos, eles foram adotando as
inovações tecnológicas que estavam sendo difundidas no período, foram repassando os novos
conhecimentos aos pais, que, assim, introduziram-se no processo de modernização agrícola
deixando as práticas tradicionais de lado. Essa constatação levou-nos a elaborar a seguinte
problemática: como ocorreu a introdução dos pequenos agricultores do distrito de São Roque
no processo de modernização agrícola e quais foram as influências dos Clubes 4-S nesse
processo? Para desenvolver o tema, levantamos alguns questionamentos:
a) Qual era o contexto econômico em nível regional e local no período delimitado?
b) Como se estruturavam o local, o meio rural, a família nos âmbitos produtivos,
sociais e comunitários no período que antecedeu os Clubes 4-S?
c) O que é e como estava estruturado o sistema de extensão rural no Brasil? Qual foi a
origem dos Clubes 4-S no Brasil e sua expansão para outros estados? Por que
o trabalho era desenvolvido com os jovens? Qual era a metodologia utilizada?
d) Como ocorreram a introdução, a aceitação e a participação dos jovens e
agricultores? Porque o distrito de São Roque apresentou tanto dinamismo referente
a essa questão? Que horizontes mercantis, sociais, político culturais eram
dinamizados pelos Clubes 4-S? Qual foi a relação da Igreja com o trabalho dos
Clubes 4-S? Como terminou o trabalho dos clubes em Passo Fundo?
e) Que críticas surgiram sobre o trabalho dos clubes e o que eles significaram para os
agricultores?
Pretendemos responder aos questionamentos fazendo relações com um contexto mais
abrangente, utilizando-nos de várias fontes, como a bibliografia relacionada aos assuntos
estudados, documentos da Emater/RS, da Prefeitura Municipal de Passo Fundo, do Arquivo
Regional de Passo Fundo e do Arquivo Histórico de Caxias do Sul, da agência regional do
IBGE, do Banco do Brasil, da Embrapa, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Passo
Fundo, de artigos dos periódicos regionais e locais, além de revistas, fotos, documentos
pessoais e fontes orais.
Quanto a essas últimas, a experiência com a fonte oral em outras disciplinas, como a
sociologia e a antropologia, revelou que a história também poderia enriquecer seu discurso
com a renovação metodológica,permitindo que os seres humanos fizessem parte das reflexões
sociais. No entender de Meihy, “a descaracterização da ‘grande história’, dos sistemas
externos e determinantes do microcosmos contrastou os critérios de leitura do mundo. Um
impacto imediato disso foi notado na melhoria da auto-estima das comunidades que passaram
a se ver também como parte da história”. 10 Dessa forma, utilizamos a fonte oral por
entendermos que contribuiria para uma interpretação histórica mais completa e mais rica,
permitindo um conhecimento dos fatos, em especial, do grupo que os vivenciou e percebeu.
Para Tedesco, “a seiva da memória é retirada de lugares. A comunidade é um lugar
privilegiado na produção desse alimento, é uma totalidade estruturada que ganha sentido,
mesmo em meio a conflitos e tensão, de uma identidade”. 11 De acordo com essa idéia,
consideramos o distrito de São Roque um lugar de memória. Nessa localidade, as famílias
estavam ligadas por um sentimento de pertencimento, que vem passando por transformações
socioeconômicas e culturais as quais abalaram sua identidade. Contudo, parale lamente a
essas transformações, os moradores continuaram buscando novas alternativas, com o que vão
ocorrendo redefinições no seu modo de viver e produzir.
Os entrevistados contribuíram para esta pesquisa através do relato das
experiências que ficaram registradas em suas memórias, como a arte de trabalhar na
agricultura, nos moinhos, nas olarias e a participação nos Clubes 4-S. Conforme Tedesco, a
família é uma grande instância mediadora da memória; nela se cristalizam memórias afetivas
e sociais, constroem-se personagens centrais, responsáveis por guardar a memória e transmiti-
la no tempo. Há, pois, museus de família e há museus na família. 12
Assim, na primeira parte do trabalho, as entrevistas foram feitas sob a forma de
histórias de vida, utilizando-se como estratégia a entrevista aberta, a qual permite que o

10
MEIHY, José Carlos Bebe Bom. Manual de história oral. São Paulo: Loyola, 1996, p. 39.
11
TEDESCO, Memória e cultura: o coletivo, o individual, a oralidade e fragmentos de memórias de nonos, p.
39.
12
Idem., p. 32.
entrevistado fique à vontade para que os assuntos venham à tona e propiciem uma melhor
compreensão sobre a história local.
Segundo Montenegro, “a postura de um entrevistador deve ser de um parteiro que não
conhece a pressa e a impaciência e está disponível a ouvir as histórias do entrevistado com o
mesmo cuidado, atenção, respeito, tenham estas significado ou não para a pesquisa em tela”. 13
Na segunda parte do trabalho, as entrevistas foram centralizadas nas pessoas que
poderiam fornecer mais dados sobre os Clubes 4-S ( extensionista, líderes, sócios, padres que
atuaram junto ao distrito no período) utilizando-se a estratégia de entrevista dirigida com
questionamentos específicos sobre o assunto.
As entrevistas foram realizadas no decorrer de 2001/2002 pela pesquisadora, assim
como a sua transcrição. Acreditando que a memória auxilia na construção da história, o
contato mais direto com o local ou objeto de estudo leva a perceber detalhes e dar
significados às informações, para que sejam entendidas em um contexto maior. Para alguns
autores, como Janaína Amado e Marieta de Morais Ferreira, a história oral é entendida como
metodologia, servindo de ponte entre a teoria e a prática, sendo apenas capaz de suscitar,
formular perguntas, mas não oferece respostas ou soluciona algo. 14 Dessa forma, cabe ao
historiador organizar as idéias, fazer as relações, confrontar outras fontes.
Os dados obtidos nas entrevistas foram se interligando, apontando para novas
perspectivas, que serviram de indicativo para outras entrevistas e documentos, bem como
para a articulação com a teoria. Muitos dos entrevistados guardam documentos, fotos,
recortes de jornais que circulavam no meio rural e foram utilizados na pesquisa.
O presente trabalho está constituído em duas partes: Na primeira, tratamos de alguns
aspectos do contexto da economia do município no âmbito regional e local, ressaltando a
ocupação do espaço em áreas de campo e áreas de mata, a modernização agrícola, a
industrialização e a urbanização. Procuramos mostrar que, no período anterior a 1960, os
pequenos agricultores praticavam a agricultura tradicional diversificada e dedicavam-se ao
artesanato. Era intensa a atividade de carroceiros, moleiros, comerciantes, oleiros, porém a
partir do processo de modernização agrícola, essas atividades sofreram alterações.

13
MONTENEGRO, Antônio Torres. História oral: caminhos e descaminhos. Revista Brasileira de História,
25/26. São Paulo: Anpuh. Marco Zero, 1992. p.57.
Na segunda parte do trabalho, mostramos algumas noções, conceituações, objetivos
da extensão rural, contextualizando a implantação e a expansão do trabalho no Brasil. Após,
analisamos a introdução e expansão da participação dos jovens agricultores nos Clubes 4-S,
bem como os resultados e alterações que desencadearam no meio rural, a política de
incentivo ao associativismo e o encerramento das atividades dos clubes em Passo Fundo.
Nas considerações finais, mencionamos algumas críticas que foram feitas ao trabalho
desenvolvido pelo serviço de extensão rural no período e também a forma como foi visto
pelos agricultores.
Este estudo contribuirá, certamente, para suprir uma das lacunas da história
socioeconômica local, visto que há escassez de dados nos arquivos ou na literatura a respeito
do modo como iniciou o processo de modernização agrícola na pequena propriedade e sobre
os Clubes 4-S em Passo Fundo. Também permitirá a compreensão do modo como ocorreu a
reestruturação do meio rural e das famílias nos âmbitos produtivos, sociais e comunitários, a
partir dos vínculos de trabalho, e a ligação profunda com a dinâmica econômica desencadeada
no distrito de São Roque a partir do trabalho dos Clubes 4-S.

14
Ver AMADO, J.; FERREIRA, M. de M. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p.15.
I PARTE

O CONTEXTO SOCIOECONÔMICO DE
PASSO FUNDO NO PERÍODO DE 1950-1980
Nesta parte, abordamos alguns aspectos referentes ao contexto socioeconômico do
estado do Rio Grande do Sul, do município de Passo Fundo, bem como do distrito de São
Roque, no período compreendido entre 1950 e 1980, mostrando que, a partir da ocupação do
Planalto, ocorreu na região uma diferenciação étnica e econômica entre as áreas de campo e
as de mata e que os pequenos agricultores não foram os pioneiros no processo de
modernização agrícola. A sua introdução nesse processo, na verdade aconteceu mais tarde,
na década de 1960, a partir do trabalho desenvolvido pelos Clubes 4-S, que será estudado
especificamente na segunda parte deste trabalho.
No período que antecedeu a modernização agrícola na região as áreas de campo eram
ocupadas por fazendeiros que praticavam a pecuária, principal atividade econômica do
estado, e as áreas de mata, onde predominava a pequena propriedade, eram ocupadas por
imigrantes ou descendentes, especialmente alemães e italianos, que nelas praticavam
agricultura familiar e o artesanato. Entretanto, por volta de 1950, intensificou-se o processo
de modernização agrícola na região, com o que as formas tradicionais de praticar a agricultura
foram substituídas pelas modernas, que consistiam no uso de adubos, de fertilizantes, de
equipamentos e máquinas agrícolas.
Os granjeiros 15 foram os pioneiros na adoção das novas técnicas agrícolas nas áreas
de campo, consideradas até então impróprias para o plantio e passaram a investir na produção
do trigo e, posteriormente da soja, produtos que ocuparam lugar de destaque na região.
Tratamos, aqui, também, da expansão urbano-industrial, pois, no período delimitado,
a indústria passou por reestruturações nas bases produtivas e desenvolveu-se em função dos
produtos de exportação, que exigiam uma tecnologia mais avançada.
Nesse processo de reestruturação produtiva no meio rural nas décadas de 1960 e 1970
a região de Passo Fundo tornou-se pioneira e constituiu-se no mercado consumidor para a
agroindústria a montante e a jusante que ali se instalaram. A urbanização também aumentou
nesse período em decorrência do êxodo rural, provocado pela reestruturação da propriedade
da terra e das técnicas produtivas ocorridas a partir da modernização agrícola.
A contextualização feita nesta parte servirá de suporte para a compreensão das
alterações que ocorreram na região, especialmente no meio rural, a partir do desenvolvimento
dos Clubes 4-S, quando foi introduzida a modernização agrícola na pequena propriedade.
Nossa hipótese é de que a influência dessas entidades foi fundamental para o progressismo
técnico agrícola de Passo Fundo.

15
Ainda no decorrer deste estudo, detalharemos essa categoria de produtores.
CAPÍTULO 1

PROCESSOS DE OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO DO RIO GRANDE DO


SUL (1900-1940): ANTECEDENTES HISTÓRICOS E ECONÔMICOS

Os antecedentes históricos da ocupação do estado podem ser esclarecedores no


decorrer deste trabalho, em que tratamos do distrito de São Roque, no município de Passo
Fundo, que se localiza numa área de matas e foi ocupado por (i)migrantes, que praticavam a
agricultura diversificada e que ali instalaram pequenos estabelecimentos de base artesanal.
Esses, quando do processo de modernização agrícola que se desencadeou na região, sofreram
profundas alterações.
Neste capítulo, tratamos das particularidades que determinaram a diferenciação e o
desenvolvimento da produção em áreas de campo e áreas de mata, bem como da integração
da economia regional e de sua articulação com a nacional. No entender de Brum, as
formações geográficas, como a localização e a vegetação, influenciaram na ocupação e na
economia do estado do Rio Grande do Sul:

Situado no Extremo Sul do Brasil, o Rio Grande do Sul, a par da distância que o separa da
Capital do país, agravada pela precariedade dos transportes e das comunicações, que forçava
um relativo isolamento, acresce-se a extensa costa desolada do litoral gaúcho, sem baías e
reentrâncias, e com um único local – a barra e canal de Rio Grande – em condições de permitir
o acesso e ancoragem de embarbarcações. Por sua vez, o território do atual Rio Grande do Sul
apresentava-se predominantemente coberto por duas formações vegetais distintas – uma área
de campo e outra de mata – que condicionaram fortemente a ocupação e a economia do
estado.16

Como observamos pela transcrição, as condições naturais do território rio-grandense


determinaram a forma de sua ocupação e a sua economia. A pecuária, desenvolvida na área de
campo, foi dinamizada a partir do século XVIII, passando a ser atividade da grande
propriedade, consolidando-se, assim, o latifúndio pastoril.

16
BRUM, Argemiro Jacob. Rio Grande do Sul: crise e perspectivas. Ijuí: Unijuí, 1998, p. 12.
1.1 A estância, a pecuária e a indústria da carne

O couro, o sebo e a crina extraídos do gado xucro, caçado e abatido por castelhanos e
portugueses, foram os primeiros produtos da pecuária sulinos a serem aproveitados com fins
de exportação para a Europa. Posteriormente, os tropeiros paulistas passaram a comercializar
gado em pé ( bovinos, eqüinos e muares), destinado à alimentação e ao transporte na região
das Minas Gerais e nas fazendas paulistas de café. 17
Quando da concessão de sesmarias e “datas”, favoreceu-se a formação das estâncias
de criação de gado, 18 cuja importância cresceu significativamente com a exportação do
charque para o Rio de Janeiro, São Paulo e outros centros consumidores. 19 Assim, as estâncias
tornaram-se fornecedoras de matéria-prima para as charqueadas, que se expandiram pelo
território a partir de 1780, dando origem às primeiras indústrias de transformação de matéria-
prima de corte no Rio Grande do Sul.
A pecuária foi a principal atividade econômica do Rio Grande do Sul até o início do
século XX, período em que as estâncias de criação e as charqueadas complementavam-se
como fornecedores e mercado, respectivamente, para a elaboração do charque. A articulação
econômica do estado com o centro do país foi dinamizada pela concentração de um grande
número de charqueadas no Rio Grande do Sul, as quais sofreram grande concorrência das
uruguaias e argentinas, que utilizavam métodos mais avançados. Mesmo depois da instalação
de frigoríficos, o charque, apesar das dificuldades de comercialização, continuou sendo o
principal produto de exportação do estado sulino até meados da década de 1930, quando foi
superado pela carne processada.

17
Idem, p.22-25.
18
As sesmarias foram distribuídas com o objetivo de consolidar a posse do território do Rio Grande do Sul.
Eram propriedades extensas em forma de quadrado, variando de 3 a 6 léguas de lado, mas podendo atingir até
mais de 13.000 hectares, cujos limites quase nunca eram fixados com exatidão. Essas estâncias de criação de
gado deram origem ao latifúndio pastoril em toda a área de campo, à medida que foi se processsando a ocupação
do território. Algumas “datas” propriedades de tamanho menor, de um quarto de légua em quadro,
aproximadamente 900 hectares foram doadas aos açorianos, que viveram por mais de dez anos na penúria e no
descaso. Ver Brum, op.cit., p.24.
19
O charque era um produto alimentício elaborado de forma a evitar a deteriorização da carne in natura, com
evidentes desvantagens em relação a esta. Era utilizado basicamente na alimentação dos escravos e das camadas
de renda mais baixa da população, contribuindo para manter baixos os custos de vida e de produção.
Durante a Primeira Guerra Mundial, com a ampliação do mercado para a exportação
de carne, muitos frigoríficos foram instalados nos locais onde a pecuária era mais
desenvolvida, como no sul do estado. Em 1917, as empresas estrangeiras Armour e
Wilson (Santana do Livramento) e Swift (Rio Grande), produziam além da carne
industrializada, também o charque. Conforme Pesavento, alguns frigoríficos de capital
estrangeiro que já atuavam no Prata fizeram sua entrada no Brasil a partir das mudanças que
haviam ocorrido no consumo mundial:

Em especial, o capitalismo interessava-se em operar naquelas zonas onde o custo de produção


fosse mais baixo, tal como no Prata, zona pecuária por excelência e já campo de operações das
empresas frigoríficas. O período da guerra, contudo, determinou alterações no consumo
mundial, que incidiram sobre o tipo de produto fabricado pelos frigoríficos. Decaiu a
fabricação de carnes resfriadas, que exigia gado de superior qualidade, e incrementou-se a
industrialização de matéria-prima de mais baixo grau de refinamento. Dentro deste quadro, as
grandes empresas frigoríficas internacionais fizeram sua entrada no Brasil. 20

Nesse contexto, o gado brasileiro, de qualidade inferior ao do Prata, passou a ser


matéria-prima para a fabricação de produtos industrializados, fazendo aumentar a procura
pelo produto.
Em nível regional, os pecuaristas viram como caminho para o desenvolvimento de
sua atividade a implantação de um frigorífico nacional, o que se concretizou em 1917, quando
se instalou em Pelotas o Frigorífico Rio-Grandense, constituído com capital local. A partir
daí, frigoríficos utilizando processos mais modernos de industrialização e conservação da
carne foram instalados no Rio Grande do Sul, contribuindo para a extinção das tradicionais
charqueadas. De 1940 a 1950, grande parte desses frigoríficos transformou-se em
cooperativas, procurando se enquadrar em processos mais modernos de transformação da
carne; 21 posteriormente, passaram a abater suínos para o processamento da banha, que era
um dos principais produtos de exportação.
Não havia, portanto, até quase meados do século XIX, uma estruturação econômica
entre a região e o país, pois a atividade principal restringia-se à criação dispersa de gado e à
sua comercialização, quando então, passou-se a desenvolver a atividade das charqueadas.22 O

20
PESAVENTO, Sandra Jatahy. República Velha gaúcha: charqueadas, frigoríficos, criadores. Porto Alegre:
Movimento/IEL, 1980. p. 292.
21
Ver PESAVENTO, República Velha gaúcha: charqueadas, frigoríficos, criadores, p. 116.
22
Ver CARRION Jr., Francisco M. O Rio Grande em busca de novos caminhos – por um projeto regional. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1986, p.14.
Quadro 1 mostra dados demonstrativos de que a articulação da economia local com a
nacional foi aprofundada somente a partir do século XX, através da lavoura, cada vez mais
desenvolvida e interligada, em oposição ao período antecedente, em que a pecuária era a
atividade de maior relevância no estado.

Quadro 1 - Síntese esquemática da evolução da economia do Rio Grande do Sul em relação


ao Brasil

Período 1550 1600 1650 1700 1750 1800 1850 1900 1930
1600 1650 1700 1750 1800 1850 1900 1950 1980
Região
Economia Açúcar Açúcar Açúcar Açúcar Açúcar Açúcar Borracha Indústria Indústria
Brasileira Mineração Mineração Café Açúcar Café
Café

Economia - Subsistência Couros Pecuária Pecuária Charque Charque Lavoura Lavoura


Do RS Subsistência Pecuária Pecuária Pecuária Indústria
Lavoura Lavoura Indústria Pecuária

Fonte: Carrion Jr., Francisco M. O Rio Grande em busca de novos caminhos – por um projeto regional. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1986, p. 14.

A dinamização da lavoura no estado iniciou-se com a vinda dos casais açorianos a


partir de 1740, os quais praticavam a agricultura de subsistência e também a agricultura de
exportação, dessas se destacando a cultura do trigo. Todavia, alguns fatores prejudicaram a
produção desse cereal, entre os quais a ocorrência da praga da ferrugem, o que levou os
açorianos a abandonarem o cultivo do trigo, passando a se dedicar a uma atividade mais
23
lucrativa: a criação de gado.
Nas áreas de mata, que posteriormente seriam ocupadas por imigrantes europeus,
alemães (1824) e italianos (1875), a atividade econômica destinava-se à produção
diversificada em pequenas e médias propriedades, com a utilização da mão-de-obra familiar.
Nesses núcleos, surgiram o comércio, o artesanato, pequenas manufaturas e indústrias, essas
contrastando com a atividade desenvolvida nas áreas de campo.

23
Os casais açorianos foram destinados ao povoamento da Região das Missões, que, pelo Tratado de Madri,
passou a fazer parte do império português. Em razão da resistência dos índios dos Sete Povos das Missões,
tiveram de mudar os planos de colonização. Foi assim que se estabeleceram no Porto dos Casais e deram origem
a quatro núcleos: Capela Grande de Viamão, Porto do Viamão ( Porto Alegre), Rio Grande de São Pedro e Santo
Antônio da Patrulha. Ver SINGER, Paul. Desenvolvimento econômico e evolução urbana. São Paulo: USP,
1968, p. 145-153.
1.1.1 A terra, a produção de alimentos e o colono

Com a escassez de terras nas Colônias Velhas, iniciou-se o processo de migração e a


formação das Colônias Novas. 24 Foi assim que o norte do estado teve aumentada a sua
densidade demográfica, tornando-se um centro mais dinâmico economicamente. Nesse
processo contribuíram o incentivo à produção de alimentos, a aquisição de terras, os solos
de mata muito férteis e a possibilidade, ainda que precária, de escoamento através da rede
fluvial existente no nordeste do estado, que facilitava o abastecimento dos centros atacadistas
de produtos de origem agropecuária.
O processo de migração interna, especialmente do deslocamento de descendentes dos
primeiros imigrantes em busca de novas terras, fez do norte e do nordeste do estado, após as
primeiras décadas do século XX, uma região de terras completamente ocupadas. Segundo
Brum, após a primeira etapa de colonização, em que se deu a formação das Colônias Velhas,
no centro-nordeste do estado, ocorreu a etapa de ocupação do norte do estado:

Na segunda etapa procedeu-se à ocupação das terras cobertas de mata no norte do Estado, são
as chamadas “Colônias Novas”. Foram formadas por imigrantes de diversas nacionalidades,
com o objetivo de acelerar a integração. Nessa etapa, embora continuassem a chegar imigrantes
diretamente vindos da Europa, predominou a colonização por antigos imigrantes procedentes
das “Colônias Velhas”, ou descendentes destes, à medida que nelas se agravava a escassez de
terras e aumentavam os excedentes populacionais. 25

O território do Rio Grande do Sul, por volta de 1940, encontrava-se praticamente


povoado e os descendentes de imigrantes que migravam das Colônias Velhas contribuíam
para preencher as áreas ainda vazias no estado. Assim, as novas áreas de colonização
passaram a ocupar um espaço que havia sido desprezado pelo setor pecuarista. O fato de as
vias de comunicação entre essas áreas serem precárias favoreceu o surgimento de uma série
de pequenas indústrias, como moinhos, serrarias, ferrarias, selarias, olarias, etc., destinadas ao
consumo interno. Vania Herédia ressalta a importância da produção nos núcleos coloniais
para a formação do mercado interno:

24
Ver DE BONI, Alberto; COSTA, Rovílio. Os italianos do Rio Grande do Sul. Caxias do Sul/Porto Alegre:
UCS/EST, 1985.
A produção dos núcleos coloniais no Rio Grande do Sul desempenhou um papel fundamental
na formação do mercado interno gaúcho. A diversificação inicial da produção agrícola
colonial garantia a manutenção dos núcleos e a exportação do excedente para o mercado de
Porto Alegre, estabelecendo laços comerciais definidos. O poder aquisitivo do imigrante
favoreceu os laços comerciais já que era bem mais elevado do que o dos operários e o das
demais classes subalternas. 26

Os produtos coloniais, como milho, feijão, batata, mandioca, trigo, além da banha e do
toucinho, passavam do mercado local para o regional, estimulando o setor secundário. Nesse
contexto, Porto Alegre conquistou a condição de principal centro econômico do estado em
virtude de sua localização. Alonzo relata sobre essa cidade:

A capital, localizada às margens de um estuário para onde converge a rede fluvial que banha o
nordeste do território rio-grandense, onde se situavam os primeiros assentamentos mais
importantes, beneficiou-se da sua posição para servir como ponto de expedição das
exportações coloniais para os mercados do centro do País e como centro atacadista, onde as
áreas coloniais se abasteciam de produtos manufaturados importados de consumo corrente. As
exportações coloniais eram constituídas por uma gama diversificada de produtos de origem
agropecuária, entre os quais se destacavam a banha, os cereais e os vinhos. 27

Pelo exposto, observamos que os pequenos agricultores forneciam gêneros de


subsistência cultivados nas colônias ou artigos beneficiados artesanalmente aproveitando a
matéria-prima local. Segundo Pesavento, o artesanato, ou a “pequena indústria”, pressupõe a
posse pelo trabalhador de seus meios de produção, com os quais ele assegura seus meios de
subsistência. 28 Contudo, com a expansão da agricultura comercial, grande parte do artesanato
praticado nas colônias foi desaparecendo. Relata Singer a respeito:

O escambo cede lugar à compra e venda e a economia das colônias se monetariza, na medida
que ela se liga ao mercado nacional. A mais importante conseqüência disto, do ponto de vista
que nos interessa aqui, é que o colono pode, a partir deste momento, adquirir produtos
manufaturados do exterior. Estes produtos penetraram prontamente nas colônias e, em curto
período aniquilaram o artesanato local. Constituiu-se desta maneira um mercado uno e amplo
para produtos industriais na zona colonial. 29

25
BRUM, Rio Grande do Sul: crise e perspectivas, p. 27.
26
HERÉDIA, Vania Beatriz Merlotti. Processo de industrialização da zona italiana: estudo de caso da primeira
indústria têxtil do nordeste do Rio Grande do Sul. Caxias do Sul: UCS, 1997, p. 91.
27
ALONZO, J. Antônio Fialho.Crescimento inter-regional no Rio Grande do Sul nos anos 80. In: A Economia
Gaúcha e os anos 80: uma trajetória regional no contexto da crise brasileira. Porto Alegre, 1990, p.73. (Ensaios
FEE)
28
Ver PESAVENTO, Sandra Jatahy. RS: agropecuária colonial & industrialização. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1983, p.15.
29
SINGER, Desenvolvimento econômico e evolução urbana, p. 167.
Muitas são as discussões em torno do tema artesanato. Para Singer, foram as
importações, e não a indústria, que destruíram o artesanato no Rio Grande do Sul, pois a
indústria surgiria depois do comércio dos produtos importados. 30 Já, de acordo com Roche,
“nem todas as oficinas se transformaram em fábricas, como também nem todas as fábricas
tiveram origem nas primitivas oficinas”. 31 O autor ressalva que alguns artesãos instalados nas
cidades estiveram na base do desenvolvimento de pequenas oficinas em manufaturas ou em
fábricas, porém, isso não ocorreu com os artesãos rurais. Para Roche: “Na maioria dos casos,
não foi a oficina da picada que se desenvolveu até tornar-se fábrica; somente em algumas
cidades, pequenas chaminés se ergueram no local de edifícios mais modestos, outrora
ocupados por artesãos”. 32 A respeito do desaparecimento do artesanato ou do surgimento das
indústrias, acreditamos que não se devem fazer generalizações uma vez que são necessários
estudos mais aprofundados a respeito do assunto.
Alguns produtos, como o vinho, a banha, e outros, de base artesanal, conquistaram o
mercado regional e nacional por intermédio dos comerciantes. Em razão de boa aceitação no
mercado, passaram a ser industrializados, concorrendo com as indústrias domésticas das
colônias, que, em desvantagem, passaram a ser apenas fornecedoras de matéria-prima à
indústria. Também algumas indústrias situadas em Porto Alegre e na região colonial
conseguiram se expandir a partir do capital acumulado no comércio das áreas coloniais, entre
as quais citamos, Costi, Ritter, Renner, Oderich. Para Tedesco:

É impossível falar da região colonial italiana ou alemã, em nível de Brasil, sem mencionar o
comerciante. Ao redor desse ator socioeconômico surgem explicações sobre a origem da
industrialização da região colonial e de outros espaços de maior amplitude. Ele é o elo de
ligação de inúmeros processos econômicos, culturais, maximizadores de fatores locacionais na
sua relação com o mundo externo à colônia.33

Diante disso, constatamos a relevância do papel dos comerciantes nas colônias. Em


Passo Fundo, havia um número significativo deles, conforme podemos observar na Tabela 1.

30
Idem, p. 168.
31
ROCHE, J. A colonização alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1969. 2 v, p. 479.
32
Idem, p. 503.
33
TEDESCO, João. C. Colonos, carreteiros e comerciantes: a região do Alto Taquari no início do século XX.
Porto Alegre: EST, 2000, p.90.
Tabela 1 - Relação de comerciantes em algumas colônias no Rio Grande do Sul, 1899 – 1950
NÚMERO DE COMERCIANTES NAS

COLÔNIAS
NOVAS COLÔNIAS EM
1899 1912 1920 1940 1950

Ijuí 31 89 174 161 311

Passo Fundo 82 318 974 1977

Erechim 80 235 555

Marcelino Ramos 32 93

Santa Rosa 243 449

Três Passos 113 288

Sarandi 77 188

Fonte: Roche, J. A. Colonização Alemã no Rio Grande do Sul . Porto Alegre: Globo, l969, 2 v, p.426 .

O comerciante, primeiro o alemão e, depois, o italiano, era uma figura importante na intermediação do comércio local com o regional. Ele

lucrava mais com a apropriação do excedente econômico produzido pela agricultura colonial do que o pequeno agricult or, que não era

favorecido pelos estímulos do mercado. Brum corrobora o exposto:

O comerciante lucra na diferença entre o preço que paga pelos produtos que adquire dos colonos e o preço pelo qual os vende em Porto Alegre;
lucra na diferença do preço dos artigos que adquire na capital e fornece aos agricultores; lucra no transporte das mercadorias em ambos os
sentidos; lucra nos financiamentos que concede aos colonos para pagamento por ocasião das colheitas, e ainda como depositário de confiança das
pequenas sobras de dinheiro dos agricultores, que lhe oportunizam um capital de giro praticamente sem custos financeiros.3 4

Assim, com a ampliação do mercado interno nas colônias, o comércio tornou-se mais
intenso e abrangente, permitindo a vinculação local/regional, intermediada por alguns
comerciantes. Esses possibilitaram a entrada de novos produtos nas colônias, os quais antes
eram fabricados artesanalmente; por conseqüência, reduziu-se a produção do artesanato
desenvolvido na zona rural. Mas o comerciante também divulgou alguns produtos da colônia,
que passaram a ser industrializados, como, por exemplo, o vinho.
No Rio Grande do Sul, o eixo Porto Alegre-Caxias dinamizou-se como centro
econômico concentrando algumas indústrias que se expandiram e adquiriram importância até
mesmo em nível nacional. Müller contribui para esse entendimento:

Durante os anos compreendidos entre 1930 e 1945, a economia política gaúcha caracteriza -se
pelo fato de atingir o apogeu de seu modelo histórico de desenvolvimento constituído no

34
BRUM, Rio Grande do Sul: crise e perspectivas, p. 29.
transcurso de um século. A zona rural da pecuária e seus produtos históricos, o comércio, as
cidades e as charqueadas e os frigoríficos; a zona rural marcada pela pequena produção
agropecuária e seus produtos históricos, seu comércio, cidades, artesanatos e manufaturas, e a
zona rural marcada pelas explorações relativamente grandes de arroz, trigo e gado e seus
produtos históricos, fusionam-se por inteiro nesses anos, compondo a estrutura produtiva e de
intermediação denominada de mercado sul-rio-grandense.35

Portanto, a formação do mercado do Rio Grande do Sul deu-se no contexto


apresentado, o qual passaria a se caracterizar como o celeiro do país; sua economia
subsidiária, de base agropecuária, era voltada para o abastecimento do mercado interno
brasileiro.

1.1.2 Da agricultura tradicional à moderna

Em 1940 o Rio Grande do Sul era um estado predominantemente agropecuário e


contava com uma ampla quantidade de produtos primários provenientes da agricultura,
desenvolvida com base no trabalho familiar. Essa atividade primária era fundamental para
gerar matérias-primas para a atividade industrial visando substituir alguns produtos de
importação.
Conforme o que foi exposto anteriormente, foi a partir da lavoura que se reforçaram os
vínculos econômicos do estado com o restante do país, aprofundando, assim, a articulação da
economia local com a economia nacional. Na época, o Rio Grande do Sul era visto como
fornecedor de gêneros de subsistência para o mercado nacio nal; logo, mostrava-se
interessante que o governo mantivesse a estrutura agropecuária do estado.
No governo de Vargas, o plano econômico posto em prática objetivava incrementar a
industrialização e a diversificar a economia, pois todos estavam cientes da vulnerabilidade da
monocultura e da falência do desenvolvimento capitalista baseado na agroexportação. Essa
intenção é visível no discurso de Vargas:

35
MÜLLER, Geraldo. A economia política gaúcha dos anos 30 aos 60. In: DACANAL, J. Hildebrando. RS:
economia & política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979, p. 363.
Não podemos nos conformar com sermos apenas um país exportador de matérias-primas,
porquanto essa condição é própria de países semicoloniais. Temos que tratar das nossas
indústrias de transformação, da exportação de produtos manufaturados e da sua colocação nos
mercados externos, de maneira a adaptar o nosso comércio às suas exigências, ás suas
peculiaridades e aos rumos seguidos pela sua economia. Não nos devemos vincular à doutrina
uniforme, mas nos adaptarmos às condições e às necessidades de cada país no plano das
relações comerciais. 36

Portanto, o bjetivava-se uma reordenação do sistema produtivo nacional, que levasse à


redução da dependência da economia do país de um só produto de exportação e que
dinamizasse o setor industrial.
Até 1940, a agricultura do Rio Grande do Sul era bastante diversificada, pois
produziam-se arroz, trigo, cebola, frutas e milho, este necessário à suinocultura como ração.
Entretanto, não havia um acompanhamento técnico para essa produção, que ficava sujeita às
intempéries. Os pequenos agricultores utilizavam intensivamente os recursos naturais, faziam
“queimadas” e a rotação de terras para o cultivo na lavoura, praticavam fertilização natural
do solo e realizavam o trabalho com mão-de-obra familiar, conjunto de procedimentos que é
considerado por Brum como caracterizador da agricultura “tradicional”. 37
Entretanto, a agricultura tradicional estagnava-se por volta de 1960 em razão do
tamanho limitado dos lotes, que foram sendo subdivididos por causa das partilhas por
herança em famílias numerosas. Além disso, a intensa exploração do solo, que acarretava a
redução da fertilidade ou a exaustão dos terrenos, entre outros fatores, como os preços
baixos pagos pelos produtos coloniais e a transferência da renda dos agricultores para os
comerciantes, provocaram a estagnação da agricultura. Nesse contexto, a alternativa que se
apresentava para mudar a situação era a modernização da agricultura, que passou a ser
introduzida no Brasil com a participação de fundações e instituições norte-americanas.
O Brasil passou, então, a participar dos projetos de pesquisas e experiências
realizados com alguns produtos, que eram avaliados quanto à infra-estrutura de produção, ao
uso de sementes selecionadas, adubos e equipamentos. Aos poucos, foi se estruturando e se
expandindo o sistema de extensão rural no Brasil, em conjunto com instituições e
organizações norte-americanas, que orientavam e estimulavam os agricultores para a adoção
das inovações técnicas e utilização do crédito rural.

36
Discurso pronunciado por Getúlio Vargas no dia 8 de maio de 1939. In: IANNI, Otávio. Estado e planejamento
econômico no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p.39.
37
BRUM, Jacob Argemiro. A modernização da agricultura : trigo e soja. Petrópolis: Vozes, 1988, p.56.
Diante disso, nota-se que o processo de modernização agrícola 38 no Brasil ocorreu de
fora para dentro e seguiu a estratégia de modernização conservadora, que, sem alteração
estrutural na forma de propriedade, de posse e uso da terra, tinha por objetivo aumentar a
produtividade agropecuária mediante a renovação tecnológica. Portanto, aqueles que se
estruturavam de forma empresarial foram os mais favorecidos, ao passo que os pequenos
proprietários rurais eram progressivamente marginalizados no processo. A partir da década de
1950, essa estratégia de modernização conservadora intensificou-se no Rio Grande do Sul
com a implantação da lavoura empresarial.
A lavoura empresarial teve início no estado com o cultivo do arroz. Todavia, nesse
período de modernização agrícola, as atenções voltaram-se para a produção do trigo e,
posteriormente, da soja. Pode-se observar na Tabela 2 o avanço da lavoura empresarial no
estado.

Tabela 2 - Participação no valor bruto da produção primária - % 1948-75

Lavoura Agropecuária Pecuária


Ano empresarial colonial tradicional
1948 27 60 13
1955 38 46 16
1965 29 52 19
1975 51 41 8

Fonte: Governo do Estado. FEE – 25 anos de agricultura. Porto Alegre, 1978, p. 99

A partir de 1975, a lavoura empresarial superou a agropecuária colonial, que até então
se destacara na economia do Rio Grande do Sul, promovendo a modernização da atividade
primária e a integração entre a agricultura e as atividades industriais. Assim, o trigo, que
havia sido introduzido pelos açorianos na região próxima a Porto Alegre e que teve sua
produção desarticulada por problemas em nível de produção, sendo mais tarde retomado
pelos imigrantes alemães e italianos como produto de consumo da família nas pequenas
propriedades, passou a fazer frente no processo de reestruturação da agricultura que visava à
diminuição das importações.

38
A agricultura moderna intensificou o uso de máquinas, de implementos, de equipamentos e insumos
modernos, bem como de técnicas mais sofisticadas, buscando maior racionalização do empreendimento.
Podemos relacionar a modernização da agricultura ao processo de tecnificação da lavoura, processo de relações
sociais de produção , tendência à monocultura. Ver Brum, op.cit., p.33, 60,71.
Na época, as importações de trigo, inicialmente em forma de farinha e, depois, em
forma de grão, eram feitas em grande quantidade da Argentina e dos Estados Unidos, o
que dificultava o comércio do produto nacional. Segundo Grzybowski:

As características da estrutura de produção de trigo, os poucos excedentes que gerava, a forma


de comercialização a que estes estavam sujeitos, o pequeno porte dos moinhos, somados ao
isolamento e dificuldades de escoamento até os principais centros urbanos consumidores ( Rio
de Janeiro e São Paulo), tornavam a produção nacional de trigo sem condições de concorrência
com a importação, constituída em mais de 90% por farinha de trigo. 39

Visando reduzir as dificuldades relacionadas à produção do trigo a partir de 1940, a


política governamental adotou medidas de incentivo à produção e à comercialização, como a
fixação de preços elevados para o produto, a isenção de tarifas alfandegárias na importação de
máquinas e adubos, os financiamentos via Ba nco do Brasil, que contribuíram para a expansão
da produção do trigo no Rio Grande do Sul. Assim, entre 1941 e 1945, o trigo nacional
cultivado nas lavouras coloniais, especialmente no Rio Grande do Sul, teve aumentada a área
cultivada em virtude tanto da integração no mercado ampliado quanto das crescentes
dificuldades de importação e da política de fomento adotada pelo governo, que desenvolveu o
setor industrial de moagem de trigo. 40 Pela Tabela 3 confirma-se o crescimento da produção
de trigo no estado de 1940 a 1950.
Tabela 3 - Produção da lavoura de trigo no Rio Grande do Sul – 1940 - 1958
Anos Toneladas
1940 73.764
1942 159.860
1944 122.740
1946 168.088
1950 375.757
1952 503.689
1954 699.024
1956 992.000
1958 286.728

39
GRZYBOWSKI, C. O trigo no Brasil. Notes du Gerei, Paris , (2), p. 15 – 42, 1972, p.20.
40
RÜCKERT, A. A produção capitalista do espaço: construção, destruição e reconstrução do território no
planalto rio-grandense. Dissertação (Mestrado) – Unesp, Rio Claro, 1991.
Fonte: BAYMA, Cunha. Trigo. Estudos técnicos. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, 1960, p. 121.

A expansão da produção de trigo levou a que as áreas de campo, antes consideradas


improdutivas, passassem a serem preparadas para o cultivo desse cereal com o auxílio de
máquinas e fertilizantes. Assim, a área cultivada de trigo passou de 301 mil ha em 1946 para
1196 mil ha em 1955. 41
Entretanto, as importações do trigo, voltaram a subir rapidamente quando o Brasil
assinou os Acordos do Trigo com o governo dos Estados Unidos da América sob a forma de
ajuda alimentar. O primeiro desses acordos foi firmado em 1954; logo, a partir de 1955,
ampliou-se a importação. Na época (1954-1955), o trigo era utilizado pelo governo norte-
americano como uma arma política, sendo oferecido a preços baixos, com empréstimos a
longo prazo para pagamento e com juros baixos. 42
A partir de 1956, a produção tritícola passou por uma crise que acarretou a diminuição
da produção nacional do cereal. E a grande crise de 1957, além dos problemas climáticos e
técnicos na produção de trigo, caracterizou-se pelos problemas político-econômicos, pois o
governo atendia aos interesses norte-americanos, das mutinacionais que se instalavam no país,
mas deixava a descoberto as aspirações dos triticultores no Rio Grande do Sul, onde se
produziam na época 80% do trigo nacional. 43
Os dois primeiros governos autoritários pós-64, adotando diretrizes econômicas do
mesmo gênero, interferiram em todos os setores do sistema econômico nacional. Na fase
conhecida como “Milagre Brasileiro”, que se estendeu de 1968 a 1973/1974, procurou-se
incentivar a exportação de produtos agrícolas, criar condições e estímulos à entrada de capital
e de tecnologia estrangeira. O Brasil, então, experimentou um rápido crescimento econômico
com os incentivos à modernização da agricultura, à exportação e à implantação de um parque
industrial sofisticado. Segundo Brum, a soja foi a principal cultura a receber estímulos
oficiais e em torno desse cereal se ampliou e se consolidou, definitivamente, o processo de
modernização da agricultura na região e no país. 44

41
GRZYBOWSKI, O trigo no Brasil, p.23.
42
BRUM, A modernização da agricultura: trigo e soja, p.38.
43
RÜCKERT, .A produção capitalista do espaço: construção, destruição e reconstrução do território no planalto
rio-grandense.
44
BRUM, A modernização da agricultura: trigo e soja, p.78.
O boom da soja aconteceu em decorrência do crescente consumo mundial do produto a
partir da mudança nos hábitos alimentares nos Estados Unidos da América: o óleo de soja e
de outros vegetais substituiu a gordura animal; o farelo, rico em proteínas, passou a ser
utilizado na alimentação do gado e das aves. Esse novo padrão de produção e consumo foi
estendido aos países da Europa, que se tornaram grandes importadores dos Estados Unidos
até 1973, quando este parou de fornecer o produto devido a redução de seus estoques. Com a
escassez do produto na Europa, ocorreu a elevação dos preços da soja. Nesse contexto, o
Brasil aproveitou para aumentar suas exportações e, conseqüenteme nte, suas divisas, o que,
contudo, durou até fins da década de 1970, quando houve sucessivas frustrações de safras.
No Rio Grande do Sul, o processo de modernização agrícola com base no binômio
trigo/soja teve início na região do Planalto. No entender de Brum, com a modernização, a
agricultura internacionalizou-se integrando-se ao projeto de desenvolvimento do complexo
agroindustrial, sob o comando das corporações transnacionais e dos países centrais, sobretudo
dos Estados Unidos. Esse processo de modernização da agricultura desencadeou a
reestruturação territorial do estado, especialmente na região do Planalto, reduzindo as
diferenças entre as áreas de campo e as áreas de mata, pois, com a mecanização e utilização
de fertilizantes, a agricultura invadiu o campo, ampliando-se o número de arrendamentos e a
aquisição de terras. Na esteira desse processo de modernização, a indústria, vinculada à
agricultura, foi ocupando uma posição de destaque no estado.

1.1.3 O avanço do setor industrial no Rio Grande do Sul e sua ligação com a
agricultura (1940-1980)

Na década de 1940, as indústrias do Rio Grande do Sul voltaram-se para a


transformação dos produtos agropecuários. Eram as chamadas “indústrias de bens de
consumo” ou “naturais”, que beneficiavam matéria-prima local, como vinho, banha, frutas,
óleos vegetais, moagem de trigo. Também uma linha de produtos alimentícios mais
sofisticados essa monopolizada pelas empresas frigoríficas. O estado ainda se destacava no
ramo têxtil, de calçados, do fumo e de produtos químicos simples, além de contar com a
expressiva produção metalúrgica da Eberle. 45
Até o final da Segunda Guerra, houve um surto econômico no país e no Rio Grande do
Sul, pois o bloqueio sofrido no comércio internacional durante quase todo o período,
facilitou a expansão das indústrias gaúchas, sobretudo no setor da metalurgia. À medida que
se produzia internamente aquilo que antes era importado e que se importavam mercadorias de
consumo industrial, surgiu uma excelente oportunidade para algumas empresas gaúchas
conquistarem mercado, até mesmo em âmbito nacional. Foi o caso da Eberle, em Caxias; da
Gerdau, em Porto Alegre; da Mernak, em Cachoeira do Sul, e da Renner, em Porto Alegre.
Conforme alguns autores, como Brum, Lagemann, Pesavento 46 , a indústria do Rio
Grande do Sul ampliou-se vinculada ao comércio, voltado para o mercado interno do país,
comercializando os produtos da agropecuária colonial. Esse comércio permitiu um acúmulo
de capital comercial, que funcionou muitas vezes como investimento inicial para o surgimento
das indústrias gaúchas, transformando-se em capital industrial. Pesavento ressalva que não se
quer, com isso, negar outras formas de acumulação presentes no processo em curso. 47 No caso
de São Paulo, a indústria emergiu vinculada ao acúmulo de capital decorrente do grande
comércio de exportação.
A instalação da Companhia Siderúrgica de Volta Redonda, que começou a funcionar
em 1946, também foi expressiva no desenvolvimento industrial, dando início à indústria de
base no país e produzindo ferramentas, pregos, parafusos, utensílios de cozinha, motores, etc.
No entender de Brum:

Na década de 50, ocorre uma mudança profunda no padrão de industrialização e


desenvolvimento do Brasil. Interrompe-se o processo evolutivo histórico, endógeno, baseado
na empresa de capital nacional, respaldada pela ação crescente do Estado na economia, como
regulador, orientador e agente econômico direto, particularmente nos setores básicos e de infra -
estrutura. Esse processo evolutivo endógeno vai ser truncado, e substituído por um novo
padrão de desenvolvimento, no qual a liderança do processo de industrialização do país vai ser
assumida pelas empresas multinacionais, passando a empresa nacional a uma posição
subordinada, enquanto o Estado continua a ser o agente principal nos setores básicos e de infra -
estrutura.48

45
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982, p.125.
46
Obras já citadas.
47
PESAVENTO, História do Rio Grande do Sul, p. 32.
48
BRUM, Rio Grande do Sul: crise e perspectivas, p.36.
Assim, muitas das fábricas do Centro-Sul foram construídas com capital estrangeiro
ou com a associação entre capital nacional e estrangeiro, constituindo-se em
empreendimentos de grande porte e produção em escala. O governo também, investiu
realizando obras de infra-estrutura indispensáveis para a expansão industrial.
No Rio Grande do Sul, a maioria das indústrias instaladas era de pequeno e médio
porte, já consolidadas e algumas mantidas por capital estrangeiro, embora em escala bem
menor que as do Centro do país. Entre essas estavam as frigoríficas (Armour, Wilson, Swift,
Anglo) e as de moagem de trigo e beneficiamento de arroz (Bunge y Born, americana). Na
década de 1950 a Bunge y Born ampliou a sua participação no Brasil e assegurou a posição
privilegiada que se mantém até hoje no setor industrial de farinhas. 49
O período de 1948/1950 é caracterizado por Carlos Lessa como sendo “não
intencional” no tocante aos interesses relacionados à indústria brasileira, visto que “a política
econômica esteve basicamente condicionada a comportamentos externos que definiram seu
perfil”. 50 Em nível regional, até 1950, no entender de Müller, a economia “caracterizava-se
por seu ‘modelo histórico gaúcho’ devido ao fato de compor uma economia regional com
linhas próprias, voltada basicamente à elaboração de matérias-primas geradas pela
agropecuária e ao fornecimento de algum equipamento e insumo para essa mesma
agropecuária e para as outras indústrias”. 51
Até 1955, a expansão industrial era financiada com recursos gerados pelo setor
agrícola, porém, a partir do Plano de Metas 1956/61, todos os esforços foram
intencionalmente dirigidos à construção dos estágios superiores da pirâmide industrial
verticalmente integrada e do capital básico de apoio a essa estrutura. 52 Nesse período, grandes
projetos industriais foram implantados no Sudeste: ocorreu a abertura do país ao capital
estrangeiro; teve início a fabricação de tratores no Brasil; foram feitos investimentos na infra-
estrutura (energia, transportes, etc.); incentivou-se a instalação de empresas multinacionais.
No Rio Grande do Sul foram implantados apenas dois projetos industriais de médio/grande
porte nessa fase: a Refinaria Alberto Pasqualini e a Aços Finos Piratini. 53 Dessa forma, o setor

49
GRZYBOWSKI, O trigo no Brasil, p. 24.
50
LESSA, Carlos. 15 anos de política econômica. São Paulo: Brasiliense, 1983, p.11.
51
MÜLLER, A economia política gaúcha nos anos 30 aos 60. In: DACANAL, RS: economia & política, p. 33.
52
Idem, p.27.
53
Ver BRUM, Rio Grande do Sul: crise e perspectivas, p. 44.
industrial, que desde 1950 vinha expandindo sua produção através da transformação produtiva
ocorrida no período, passou a fabricar bens de produção e de capital.
A partir da década de 1970, a agricultura, voltada para a exportação da soja, passou a
depender cada vez mais da indústria, estimulando, assim, a implantação de indústrias de
máquinas e de implementos agrícolas, de fertilizantes, inseticidas e herbicidas. Segundo
Alonzo:

Um exemplo de indústria de maior grau de sofisticação em que o interior conseguiu ser bem-
sucedido é o da produção de máquinas e implementos agrícolas. A explosiva expansão das
culturas de trigo e soja, ao final da década de 60 e início dos anos 70, favoreceu o crescimento
rápido, nas regiões agrícolas do Planalto, de empresas que atuavam na produção de
implementos agrícolas simples. Estimuladas pelo aumento de demanda representado pela
expansão dessas culturas, essas empresas aumentaram suas escalas e diversificaram
acentuadamente as linhas de produtos. Muitas foram capazes de sobreviver às dificuldades
causadas no Estado, sendo que algumas conseguiram até mesmo penetrar nos mercados de
outras regiões agrícolas do país. 54

Portanto, as indústrias expandiram-se pela necessidade de utilizar tecnologia moderna


visando ao aumento da produção dos produtos de exportação. A partir da década de 1960, as
indústrias gaúchas ganharam um novo perfil, destacando-se as mais modernas e sofisticadas,
as quais tiveram um crescimento significativo, tais como as de bens de capital, de bens
intermediários e de transformação. Os produtos mais competitivos da indústria estadual
conquistaram mercados em outros estados e tiveram um salto qualitativo. Esse bom
desempenho industrial esteve relacionado, em grande parte, à expansão agrícola do estado
voltada para a exportação. A melhoria da infra-estrutura de transporte rodoviário, energia e
comunicações, ocorrida especialmente no decorrer da década de 1960 e início da década
1970, também favoreceu a implantação de novos empreendimentos.
Como já foi abordado, no período de 1950 a 1980, tanto o setor agrícola do Rio
Grande do Sul quanto o industrial sofreram uma reestruturação no modelo produtivo,
passando a empregar uma tecnologia mais avançada e a investir em produtos que até então
eram cultivados nas pequenas lavouras, como o trigo e, posteriormente, a soja. Já as
indústrias, que praticamente se destinavam à produção de bens não-duráveis, investiram na
fabricação de bens duráveis e de capital, na década de 1950, e de insumos, na de 1970.

54
ALONZO, J. Antônio Fialho. Crescimento inter-regional no Rio Grande do Sul, nos anos 80. A economia
gaúcha e os anos 80: uma trajetória regional no contexto da crise brasileira. Porto Alegre: FEE, 1990, p.82.
Além disso, a diferenciação entre áreas de campo e áreas de mata diminuiu
consideravelmente com a expansão do processo de modernização agrícola iniciado no norte
do estado, do qual faz parte o município de Passo Fundo. Em seqüência, relatamos o
processo de expansão agrícola neste município, com o intuito de verificar como ocorreu a
modernização agrícola na pequena propriedade, mais especificamente no distrito de São
Roque, que constitui o espaço delimitado para este estudo, bem como as transformações que
ocorreram no meio rural em decorrência desse processo.
CAPÍTULO 2

O MUNICÍPIO DE PASSO FUNDO E SEU DESENVOLVIMENTO


ECONÔMICO (1950-1980)

O estudo do regional permite a percepção das particularidades em articulação com o


global, pois cada lugar tem características universais e particulares, podendo confirmar ou
refutar as grandes sínteses até agora impostas como válidas para todas as realidades
históricas. 55
Assim, o município de Passo Fundo, que se situa no norte do Rio Grande do Sul,
inserido no contexto econômico do estado apresentado anteriormente, obteve um bom
desempenho no processo de modernização agrícola e apresentou algumas particularidades,
como, por exemplo, o surgimento dos granjeiros, que é uma especificidade da região.
Tentamos mostrar que esse processo exigiu e também desencadeou uma reestruturação da
propriedade da terra, envolvendo concentração/desapropriação/êxodo rural, o surgimento de
novos atores e a expansão da industrialização/urbanização.
Pretendemos também mostrar que os pequenos produtores, conhecedores e praticantes
das técnicas agrícolas tradicionais nas áreas de mata de Passo Fundo, não foram os pioneiros
no processo de modernização da agricultura, pois até o final dos anos 1960 dedicavam-se a
produção diversificada de produtos agrícolas e artesanais comercializando o excedente na
zona urbana e negociando com comerciantes rurais. A introdução desses no processo de
modernização agrícola deu-se por iniciativa do trabalho de extensão rural através dos Clubes
4-S.
2.1 Breve histórico da ocupação do município

55
Ver RECKZIEGEL, Ana Luiza Setti. História regional: dimensões teórico-conceituais. História: Debates e
Tendências, Passo Fundo: UPF, v.1, n.1, jun. 1999.
A ocupação do município de Passo Fundo caracterizou-se pela especificidade da
população, composta pelos birivas e imigrantes, bem como pelo uso diferenciado da terra
em áreas de campo e em áreas de mata.
Os campos, conhecidos como “campos serranos”, foram ocupados,
primeiramente, pelos bandeirantes paulistas, identificados localmente como “birivas”,56
os quais adquiriam concessões de terra com facilidade e formaram grandes fazendas no
município no início do século XIX. Foram eles os responsáveis pela introdução de
escravos na região. A respeito da apropriação da terra no Planalto gaúcho Zarth
ressalta:

Na primeira fase da apropriação efetiva da terra na região, iniciada na década de 1820,


ocorreu a ocupação dos campos nativos e a formação das estâncias pastoris. Nessa fase,
que marcou o início do latifúndio regional, as principais vítimas foram os indígenas
locais, aos poucos encurralados nas densas florestas que demandam as margens do rio
Uruguai [...]. Apenas as
áreas cobertas com pastagens naturais foram apropriadas de forma efetiva pelos
fazendeiros, que deixaram de lado as áreas cobertas de mato entremeadas com os
campos. Na segunda fase, que não sucedeu-se, rigorosamente, à primeira, mas, em parte,
transcorreu concomitante a ela, houve uma frente extrativista que avançou sobre as áreas
florestais em busca de erva -mate. Esses contingentes de coletores de mate eram ao
mesmo tempo pequenos agricultores de subsistência que, por forças circunstanciais, não
se tornaram proprietários das terras que ocupavam e nem dos ervais.57

O processo de ocupação de terras excluía os índios, os negros e os caboclos. A


partir de 1834, a população de Passo Fundo ampliou-se com a chegada de imigrantes
portugueses, alemães, austríacos, italianos e de outras nacionalidades. Todavia, foi
somente a partir de 1895 que o município recebeu colonos organizados pelo poder
público ou por empresas particulares e com o fim de produzirem excedentes.58
Com a Lei de Terras, a partir de 1850 foi cessando o regime de apropriação de
áreas de terra via apossamento e abriu-se o mercado da terra para projetos de
colonização, surgindo, assim, os pequenos proprietários. No entender de Parizzi:

O incremento da ocupação e colonização de Passo Fundo só vem a se desenvolver, após a


construção da estrada de ferro vinda da cidade de Santa Maria, ligando o norte do
Estado a Porto Alegre, atingindo Cruz Alta, Carazinho e Passo Fundo, chegando os
trilhos, no início do século XX, na região de Marcelino Ramos, no rio Uruguai. Esse fato,
permite a chegada de muitas levas de col onizadores estrangeiros, porque o potencial de

56
GEHM, Delma Rosendo. Passo Fundo através do tempo. Passo Fundo : Academia Passo-Fundense de Letras,
2v, p.1.
57
ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do Planalto gaúcho 1850-1920.Ijuí: Unijuí, 1997, p.39.
58
Ver OLIVEIRA, Francisco Antonino Xavier e. Annaes do município de Passo Fundo: aspecto histórico. Passo
Fundo: UPF, 1990. 2 v. p. 253-285.
terras de mato para vender, pelas empresas colonizadoras, aos futuros pequenos
proprietários, era muito grande. Com isso, o imenso território de Passo Fundo ia sendo,
aos poucos, fracionado, até se dividir em várias localidades e futuros municípios.59

Na época, várias colônias foram fundadas no território de Passo Fundo, entre as


quais a de Erechim, Colorado e Selbach, Ernestina, Quatro Irmãos, Dona Júlia, Marau,
Sarandi.60
No início do século XIX, segundo Rückert, em Passo Fundo conformava-se um
território formado por fazendeiros, que subordinavam camponeses através de relações
de trabalho não assalariadas, e por grande número de pequenos proprietários, que
obtinham sua produção de uma agricultura praticada pelo trabalho familiar. Dessa
forma, encontram-se presentes nessa instância da história o proprietário fundiário
(fazendeiro), que administrava uma pecuária decadente; camponeses caboclos não
proprietários, que trabalhavam nas fazendas sob relações de trabalho não capitalistas;
camponeses colonos, pequenos proprietários, que praticavam uma policultura alimentar
61
com base no trabalho familiar, visando ao mercado e à sua reprodução simples.
No período que antecedeu a chegada dos imigrantes, a presença dos pecuaristas
foi marcante no município de Passo Fundo pelas atividades que desenvolviam, fazendo o
transporte de muares para a feira de Sorocaba, vendendo erva-mate para o Uruguai e
para o Rio da Prata, bem como exportando pedra ágata para fábricas na Alemanha.62
Com a entrada dos imigrantes compôs-se um novo quadro social e econômico: mulas,
erva, pedras passaram a constituir o comércio de exportação de Passo Fundo, que se
desenvolveu pelo tempo adiante, fortalecendo-se com novos produtos, tais como a
madeira para construção, aguardente, açúcar, farinhas, fumo e grãos.63
A seguir detalhamos o modo como se desenvolveram as bases primárias da
economia agrícola do município e da sua inserção no processo de modernização.

2.1.2 A agricultura

A pecuária, a agricultura e a indústria extrativa centrada na erva-mate e na


madeira constituíram as bases primárias da economia do município. Neste estudo,
tratamos mais especificamente da agricultura, a fim de compreendermos quando esta

59
PARIZZI, Marilda Kirst. Passo Fundo sua história e evolução. Passo Fundo: Berthier, 1983, p.21.
60
Id. ibid.
61
RÜCKERT, A produção capitalista do espaço: construção, destruição e reconstrução do território no planalto
rio-grandense.
62
Ver OLIVEIRA, Annaes do município de Passo Fundo: aspecto histórico, p.123-127.
63
GEHM, Passo Fundo através do tempo, p. 27.
passou a ocupar um lugar de destaque na região, superando a pecuária, que, até então
era a atividade principal no estado e também no município de Passo Fundo.
No século XIX, a produção agrícola do município encontrava-se praticamente
estagnada; as colheitas feitas não eram suficientes nem para o consumo e pouco se
exportava. Para mudar essa situação, reivindicavam-se melhorias nas estradas,
facilidades de transporte, fretes mais baratos, pois a distância dos centros consumidores e
do litoral dificultava o transporte e encarecia os fretes. Defendia-se também que a
64
colonização impulsionasse o plantio de excedentes agrícolas, como bem ilustra Oliveira:
“A colonização do Alto Uruguai trará muitas esperanças ao cultivo. As mãos calejadas
dos colonos inteligentes revolvendo a face das terras banhadas pelas águas do majestoso
rio, desvendarão tesouros que já não são mistérios para ninguém.” 65

Sobre o promissor desenvolvimento agrícola previsto para o município, Oliveira, em


seu relatório de propaganda agrícola, ressaltava: “Lembramos as palavras do naturalista dr.
Reinaldo Hensel que disse, quando aqui esteve, no ano de 1865, que os municípios de Passo
Fundo e Vacaria podiam fornecer de trigo, centeio e cevada a todo o Império."66
As primeiras lavouras de trigo foram plantadas na região de Passo Fundo por
volta de 1858, período em que os produtores de trigo já recebiam estímulos para
desenvolver a cultura através de prêmios 67 . Relata-se que agricultor, João Kus, do
Primeiro Distrito, colhera mais de cem alqueires de trigo, razão pela qual fora premiado;
foi esse produtor que iniciou a moagem e fabricação de farinha de trigo no município.68

Até meados do século XX, a agricultura denominada “lavoura” era desenvolvida nas
áreas de mata do município de Passo Fundo, que contava com grandes núcleos de
colonização. Nas lavouras cultivavam-se feijão, milho, trigo, arroz, fumo, cana-de-açúcar,
vinha e a mandioca, e, em pequena escala, cevada, centeio, algodão, linho, alfafa, fumo,
amendoim e outras plantas. Na fruticultura, destacava-se o cultivo de pêssego, de laranja,
maçã, pêra, ameixas, caqui, figo, cereja e mandioca. Entre os produtos que eram produzidos
69
em larga escala para exportação estavam feijão, milho, arroz e trigo. A Tabela 4 mostra
que Passo Fundo ocupava o segundo lugar no estado na produção de trigo.

Tabela 4 – Municípios de maior produção de trigo do Rio Grande do Sul – Safra 1927-28

64
Idem, p. 123, 142.
65
Idem, p, 123.
66
Idem, p. 156.
67
A premiação aos agricultores visava estimular a cultura e foi instituída pela Assembléia Legislativa.
68
Idem, p. 155.
69
Ver, OLIVEIRA, Annaes do município de Passo Fundo: aspecto histórico, p. 98.
(em toneladas)

Municípios Produção %
Erechim 12.000 10,1
Passo Fundo 9.300 7,8
Vacaria 9.200 7,8
Guaporé 8.400 7,1
Bento Gonçalves 6.340 5,4
Alfredo Chaves 5.100 4,3
Lagoa Vermelha 5.000 4,2
Caxias 4.000 3,4
Garibaldi 3.900 3,3
Santo Ângelo 3.800 3,2

Total 67.040 56,6


Total do estado 118.510 100,0
Fonte: Rio Grande do Sul. Secretaria do Estado dos Negócios do Interior e Exterior. Anuário Estatístico do
Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Oficinas Gráficas d’A Federação, 1928. p. 760-2.

Nas décadas de 1920 e 1930, era grande o entusiasmo pelo cultivo do trigo, que
rendia mesmo sem muitos cuidados técnicos, mostrando que a cultura adaptava-se às
condições naturais da região. Segundo Oliveira, a cultura era feita ainda em sua maior
parte sem a observância das recomendações específicas para o trigo. 70 Em muitos casos,
inclusive, nem mesmo a escolha da semente era feita, sendo lançada à terra como saía do
celeiro ou vinha do armazém. 71

A preocupação com o desenvolvimento agrícola de Passo Fundo nesse período era


demonstrada através de propagandas, de conferências para os produtores rurais e de
excursões feitas aos distritos, meios utilizados para difundir a idéia da importância do cultivo
do trigo. Entretanto, as técnicas simples de cultivo do solo, a falta de sementes ou a má
qualidade dessas, a falta de imunização acabavam por prejudicar a produção. Segundo
Oliveira, uma parte da terra era preparada num processo que consistia em roçar, derrubar e
queimar as matas para depois fazer a plantação, uma vez que o arado ainda não fora
introduzido no trabalho agrícola do município. 72 Em relatório sobre a produção agrícola,
Oliveira já apontava para a necessidade de um acompanhamento mais rigoroso no cultivo do
trigo:

70
Idem, p. 154.
71
Id. ibid.
72
Idem, p. 156.
Se fosse possível a criação de um serviço permanente em favor da cultura, dirigido por
profissional que auxiliasse os lavradores com o seu conselho benéfico, removendo as
imperfeições notadas e ministrando as informações necessárias ao assunto, estou certo de que o
resultado imediato seria um desdobramento extraordinário da produção.73

As lavouras não apresentavam o rendimento desejado e demandavam impulsos


decisivos visando à uniformização da cultura. Entre essas medidas destacava-se a
implantação de postos técnicos, experimentais e distribuidores de sementes, cuja função
seria aumentar a produção e diminuir as importações. Segundo Oliveira, se não
precisássemos exportar tão fabulosa soma para termos o pão-nosso-de-cada-dia, toda essa
“dinheirama” poderia ser incorporada ao organismo nacional, contrib uindo, assim, para nossa
riqueza e poderio. 74 Dizia ainda o autor: “O precioso grão, pela sua insuficiente lavoura no
país, tanto ouro desvia anualmente para o estrangeiro”. 75
Além disso, as altas importações do produto, que provinham da Argentina e eram
constituídas, basicamente, por farinha de trigo, também eram alvo das preocupações do
município de Passo Fundo. O trigo importado destinava-se ao consumo nos centros urbanos
em expansão, especialmente do Centro do Brasil, e para adquiri- lo o país exportava para
aquele país. 76
Com a crise nas exportações do café, a capacidade de importação diminuiu e, durante
o Estado Novo (1937), o governo estimulou a diversificação da produção na área do café e a
industrialização; diminuíram-se as importações dos bens de consumo e deu-se prioridade à
importação de máquinas e material de transporte. Segundo Grzybowski:

Essa estratégia comercial que visava interiorizar e dinamizar o desenvolvimento da economia


brasileira, atingiu diretamente o setor agrícola. Estimulou-se a diversificação da produção na
região do café, capaz de atender a evolução do mercado externo e interno, e ampliou-se a
integração de outras regiões e produtos com vistas à expansão deste mercado interno.77

Dessa forma, era necessário organizar o mercado, aumentar a produção e diminuir a


importação, que era constituída em mais de 90% por farinha de trigo. As lavouras do Rio
Grande do Sul, apesar do pouco excedente que geravam, destacavam-se na produção e no

73
Idem, p.154.
74
Idem, p 158.
75
Id. ibid.
76
GRZYBOWSKI, O trigo no Brasil, p. 19.
suprimento do mercado interno. Então, visando aumentar a produção, foram instaladas
estações experimentais e postos de multiplicação de sementes; fixaram-se preços para o trigo
nacional, quotas mínimas de trigo nacional para serem adquiridas nos moinhos e crédito
agrícola para a compra de máquinas.
A preocupação governamental com o aumento da produção do trigo refletiu-se em
Passo Fundo quando, em outubro de 1938, inaugurou-se a Estação Experimental de Passo
Fundo, serviço federal destinado a realizar o cultivo científico do trigo, situada no Desvio
Englert, hoje município de Sertão. 78 A estação experimental do trigo fazia parte de uma das
36 repartições do Ministério da Agricultura, sob a supervisão de Álvaro Barcelos Fagundes;
era a maior em extensão, possuindo em torno de 1 706 acres de terra e uma termoelétrica
própria, sendo dirigida por Moacir Pedro Lopes Sampaio. 79
Como perspectiva promissora para a agricultura, observa-se o número de indústrias de processamento de transformação de produtos

agropecuários a partir de 1930. Passo Fundo contava, então, com moinhos coloniais para a fabricação de farinha de trigo, de milho e de

mandioca, além de outros estabelecimentos que atuavam na fabricação de vinho, de aguardente, rapaduras, fumo, artefatos de palha e de

vime e arroz beneficiado, com a matéria-prima fornecida pela agricultura.

Quanto aos moinhos coloniais, foram esses estabelecimentos indispensáveis na zona


rural, os quais funcionaram até que as restrições governamentais relacionadas à política do
trigo, a pressão dos moinhos maiores, a concorrência, a mecanização da agricultura, que
diminuiu a cultura do trigo dando lugar à da soja, os afetassem sobremaneira, levando a que
muitos encerrassem suas atividades ou permanecessem apenas moendo milho, conforme será
abordado no decorrer do trabalho. Alguns moinhos de maior porte foram instalados no
município e destacaram-se pelo volume das instalações, pelo aperfeiçoamento do trabalho e
capacidade de produção. Entre esses se destacam o Moinho São Luiz, da empresa Busato
Lângaro & Cia., e o Moinho Passo-Fundense. Oliveira ratifica o apresentado:

O primeiro, com a denominação de “Moinhos São Luiz”, foi inaugurado em 1926 e produz as
marcas “Excelsa”, “Primazia”, “Satélite” e “Oliva”, cuja produção em 1933 foi de 60.990 sacas
pesando 2.683.560 quilogramas. No corrente ano, já elaborou 57.500 sacas pesando 2.530.000
quilogramas, mas espera elevar a produção a mais de 100.000 sacas até o fim do mesmo. O
segundo, denominado “Moinho Passo-Fundense”, é de construção recente, pois que só veio a
entrar em trabalho em fins do ano passado, e produz as marcas “Sulina”, “Plus Ultra”, “Polar”
e “Colonial”, cuja produção, no corrente ano, ascende já a 3.750.000 quilogramas, devendo,

77
Idem, p.19.
78
PARIZZI, Passo Fundo sua história e evolução, p. 50.
79
DIEHL, Astor Antônio (Org.). Passo Fundo: uma história, várias questões. Passo Fundo: UPF, 1998.
porém, elevar-se consideravelmente até a terminação do mesmo. As farinhas de primeira
classe, produzidas por ambos, rivalizavam com as melhores que se consomem no país e são
exportadas tanto para este como para outros estados da União.80

A imprensa de Passo Fundo, por meio do jornal O Nacional, registrou a expectativa


desencadeada em torno da instalação do Moinho Rio-Grandense:

Em companhia do sr. Pedro Vargas, representante da firma Vva. Albino Cunha & Cia. esteve
ante-hontem, em visita á nossa redacção o sr. Gustavo Kauffmam, gerente geral da “S. A.
Moinhos Rio-Grandenses” que, por parte desta, veio ultimar os estudos para a installação aqui,
de um moinho idêntico aos que a companhia possue em Porto Alegre e Pelotas, sob as
denominações de “Rio-Grandense”, “Porto-Alegrense”e “Pelotense”. Em palestra que
comnosco manteve-se, o sr. Kauffmam informou-nos que o estabelecimente industrial em vias
de execução, terá capacidade para moer cincoenta toneladas de grãos por dia, satisfazendo,
assim, as previsões do aumento da cultura do trigo nesta zona que, de anno a anno, é
intensificada consideravelmente. Será elle construído em terrenos da firma Vva. Albino Cunha
& Cia. à Avenida Progresso e onde ora se encontra o armazém da referida firma, que é a
principal accionista da “S. A. Moinhos Rio-Grandenses”, e a cuja influência originar-se-á a
realização do emprehendimento com o qual muito terá a lucrar Passo Fundo. O sr. Gustavo
Kauffmann que regressou hoje para a Capital do Estado, segundo informou-nos, colheu os
dados que necessitava e que, submetidos ao apreço dos accionistas da Companhia, são de
81
ordem a determinar a imediata execução das obras do novo estabelecimento.

Diante disso, fica evidente o destaque que a cultura do trigo vinha recebendo no
município, mesmo que fosse realizada com técnicas bastante rudimentares, o que era um
motivo de preocupação para a Inspetoria do Trigo da Secretaria da Agricultura, Indústria e
Comércio. Essa entidade, desde 1940 procurava chamar a atenção dos agricultores para a
necessidade de melhoria dos mé todos utilizados para trabalhar o solo, visando a um melhor
aproveitamento das áreas abandonadas e a um melhor rendimento e qualidade dos produtos.
Vejamos a respeito ilustrativo texto publicado no jornal local:

Vivemos na velha rotina de nossos avós, esquecidos de que os tempos mudaram e que com
eles a evolução se processa paralelamente em todos os outros ramos de nossa atividade. Mas
nós, os agricultores, nos deixamos negligentemente atrás. É hora de despertarmos. É
necessário que melhoremos os métodos antiquados de cultivar o solo, assim como a qualidade
dos produtos. A maioria de nossos agricultores não vai além do cabo da enxada. Fogem da
rabiça do arado, desculpando-se com o preço deste instrumento indispensável, ou com os tocos,
ou com as pedras existentes no terreno. Não querem eles compreender que o trabalho do arado
eqüivale ao de 5 homens e que o mesmo afrouxa e revolve convenientemente a camada
superior do solo, até 18 centímetros de profundidade. Paralelamente ao uso do arado, devemos
empregar sementes de plantas de boa qualidade e de maior rendimento. O agricultor que

80
OLIVEIRA, Annaes do município de Passo Fundo. aspecto histórico, p. 247.
81
O trigo em Passo Fundo. O Nacional, Passo Fundo, 15 maio 1930, p. 2.
lavra as suas terras e emprega sempre as melhores sementes, lucra mais, pois o rendimento de
suas colheitas será maior. 82

A passagem transcrita demonstra o esforço realizado pela Inspetoria no sentido de


estimular o aumento da produção de trigo, que se mantivera estagnada no estado até 1940,
sendo cultivado sem maiores conhecimentos técnicos; por conseqüência, houve a necessidade
de aumento das importações do produto para suprir o mercado nacional em expansão.
Para modernizar o processo, conferências e exposições tratavam do trigo, além de
serem feitas reivindicações quanto a melhores estradas, transporte, orientações técnicas.
Também se solicitava a instalação de postos técnicos experimentais e distribuidores de
sementes, para atender os agricultores. Essas reivindicações passaram a ser atendidas no
governo de Vargas, que estimulou a produção do trigo visando reduzir a importação do
produto. A expectativa então gerada levou ao aumento do número de moinhos em Passo
Fundo.

2.1.3 A inserção do município de Passo Fundo no processo de modernização


agrícola: 1950-1980

A produção tritícola foi impulsionada através de vários incentivos governamentais,


visando à recuperação da agricultura do Rio Grande do Sul, ao aumento de produção do
cereal básico na alimentação e à redução do volume das importações de bens de consumo.
Para isso, foram criados postos de multiplicação de sementes, estações experimentais; foi
determinada a garantia de preços mínimos, de crédito e subsídios; expandiu-se a indústria

moageira; investiu-se na infra-estrutura de comercialização e também em melhorias


tecnológicas, objetivando expandir o mercado interno.
Com esse intuito, em 1944, o governo federal criou o Serviço de Expansão do Trigo
(SET) junto ao Ministério da Agricultura, cuja função era centralizar e coordenar a política do
setor; distribuir gratuitamente sementes; promover a criação de cooperativas e fiscalizar o
comércio e a industrialização do cereal. A partir de 1951, transferiu ao SET a

82
A agricultura serrana deve aumentar e melhorar a sua produção. O Nacional, Passo Fundo, 19 jun. 1940,
responsabilidade de estabelecer as quotas de compra do trigo nacional para a indústria
moageira, bem como de estabelecer os preços mínimos para o trigo. 83 Realmente, o estímulo
por parte do governo contribuiu para a expansão das lavouras de trigo, aumentando a
produção nacional, desenvolvendo o setor de moagem de trigo com a ampliação das
importações em forma de grão e com a diminuição das importações de trigo em forma de
farinha.
Em Passo Fundo, a preocupação com a produção do trigo sempre foi motivo de
discussão em encontros, mesas-redondas, debates de associações, que se tornaram momentos
de reivindicações, de contatos com políticos e representantes do setor em nível nacional. 84
Nesses encontros também se discutia sobre a superação das técnicas de cultivo, a falta de
estradas para escoamento, o desenvolvimento do comércio e da industrialização, além de se
pressionar o governo na tentativa de impedir que fizesse importações de trigo.
Nas pequenas propriedades, os produtos coloniais eram cultivados com base na
agricultura tradicional, caracterizada pela utilização intensiva dos recursos naturais, da mão-
de-obra familiar e de instrumentos simples de trabalho. A terra era preparada com a enxada,
num processo que consistia em roçar, derrubar e queimar as matas, objetivando produzir para
a alimentação da família e destinar o excedente à comercialização. Nessa fase, a economia
apresentava elevado grau de integração local; o setor agrícola não dependia da indústria no
seu processo produtivo, pois a agricultura não havia sido mecanizada ainda e os produtores
não utilizavam fertilizantes.
As dificuldades, entretanto, tornavam-se cada ve z mais visíveis, com o
esgotamento do solo, a redução do tamanho das propriedades rurais em decorrência das
partilhas por herança e os baixos preços pagos pelos produtos coloniais. A alternativa
encontrada, então, para melhorar esse quadro foi a modernização da agricultura, que consistia
no processo de mecanização e tecnificação da lavoura. Conforme Brum: “Na região do
Planalto gaúcho existiam condições para a implantação de grandes lavouras mecanizadas,
quer em termos de terreno adequado, quer de pessoas capazes de aceitar o desafio de levar

p.12.
83
Ver RÜCKERT, A.; DAL MORO, S., M. A agricultura no processo de desenvolvimento no Planalto rio-
grandense. Revista de Filosofia e Ciências Humanas, Passo Fundo: UPF, ano 1, n. 3, out. 1986.
84
Ver TEDESCO, João Carlos; SANDER, Roberto. Madeireiros, comerciantes e granjeiros: lógicas e
contradições no processo de desenvolvimento socioeconômico de Passo Fundo ( 1900-1960). Passo Fundo UPF,
2002.
85
avante os empreendimentos.” Assim, “ a triticultura mecanizada no campo iniciou em 1946,
em Passo Fundo e Carazinho, e, alguns anos depois, em Ijuí e Santo Ângelo, estendendo-se
rapidamente a outros municípios na década de 50 [...].”86
O período de 1950 a 1960 caracterizou-se, de um lado, pelo cultivo de produtos
típicos da pequena propriedade familiar, prática conhecida como “policultura”, cujos
produtos principais eram milho, uva, feijão, batata e outros; por outro, pelo cultivo
progressivo do trigo, que ocupou o segundo lugar na produção total em tonelagem e área
cultivada, conforme a Tabela 5.

Tabela 5 - Produção total, tonelagem e área cultivada na região de Passo Fundo em 1950 e
1960
1950 1960
PRODUTO
TON ÁREA (HA) TON ÁREA (HA)
Milho 382.057 290.713 566.015 413.495
Trigo 127.267 176.291 171.783 283.836
Uva 30.662 4.962 64.361 8.844
Feijão 25.913 39.890 33.413 61.399
Batata 9.380 3.416 12.795 -
Cevada 6.783 9.274 3.430 -
Fumo 1.749 802 4.802 -
Aveia 987 1.637 371 -
Soja 52 - 22.033 32.841
Fonte: IBGE, Censos Agrícolas de 1950 e 1960
Dados inexistente na fonte

Em primeiro lugar entre as culturas na região estava o milho, plantado especialmente


na pequena propriedade, cuja grande produção e importância eram atribuídas, sobretudo, à
associação da pecuária com a suinocultura. O milho fornecia insumos e matéria-prima para
os armazéns, os moinhos, os matadouros e os frigoríficos.
No decorrer da década de 1950 e na de 1960, a agricultura tradicional, que vinha
sendo praticada até então, não estava conseguindo corresponder às necessidades dos
agricultores, razão pela qual muitos desses, desestimulados, empobrecidos, migraram para
outras regiões, como o Paraná e Oeste de Santa Catarina, explorando novas áreas de mata.
Pesavento descreve bem a situação do pequeno agricultor:

85
BRUM, A modernização da agricultura: trigo e soja , p. 72
86
Idem, p. 74.
Quanto à lavoura colonial, o baixo nível técnico dos minifúndios, que limitava a produtividade,
vinha associar-se a uma política de baixos preços para os produtos agrícolas, imposta pelo
capital comercial/industrial. As máquinas se apresentavam muito caras para os pequenos
proprietários, que não tinham condições de obter crédito fácil para poder adquiri-las. Além de
tais problemas, a crescente concentração da propriedade das terras no estado limitava-se as
chances de expansão da área agrícola policultora. O Rio Grande, nos anos 50, apresentava-se
como o estado que mais população emigrante fornecia para outros estados, enquanto que era
também a unidade da federação que menos brasileiros recebia. 87

Diante disso, podemos entender que esses pequenos agricultores, passando por tantas
dificuldades, não fossem os pioneiros do processo de modernização da agricultura, o qual
levou à concentração da propriedade da terra. Eles viram com descrédito o cultivo do trigo
nas áreas de campo e, inicialmente, ficaram receosos quanto a solicitar crédito bancário,
o que implicava a hipoteca da terra. Assim, o pioneirismo da modernização agrícola ficou
com os granjeiros, conforme mostramos em seqüência.

2.1.4 Os granjeiros e a concentração fundiária

As terras foram arrendadas por novos empresários, os granjeiros, em sua maioria


descendentes de colonos e profissionais liberais, que passaram a ver no plantio do trigo um
negócio promissor. Segundo Rückert:

Os "granjeiros", além de descendentes de colonos, num determinado momento de suas vidas,


já haviam desenvolvido uma atividade não agrícola, como serrarias, transportes, pequenas
indústrias locais e comércio nas colônias. Isto os havia colocado em contato com o exterior
“extra-comunidade”, o que lhes proporcionou um certo “ senso para os negócios”. A adesão
à agricultura empresarial proporcionou-lhes uma ocasião de enriquecimento. Também
aqueles profissionais liberais ( como advogados e médicos, então denominados de "poetas da
agricultura"), com raízes no mundo rural colonial, puderam ultrapassar a condição de colonos
de seus pais e/ou avôs, criando novas formas produtivas em meio a setores conservadores da
pecuária tradicional no Planalto, introduzindo, pela primeira vez, a agricultura mecanizada em
terras de campo.88

Com o estímulo do governo para desenvolver a produção agrícola, os granjeiros


passaram a investir no plantio do trigo, arrendando terras, comprando máquinas e cobrindo as
áreas de campo com o cereal. A partir de 1949, com a liberação das importações de
máquinas e adubos necessários para a agricultura, essas lavouras foram intensificadas,

87
PESAVENTO, História do Rio Grande do Sul, 124.
88
RÜCKERT, A agricultura no processo de desenvolvimento no Planalto rio-grandense. Revista de Filosofia e
Ciências Humanas, p.53.
incorporando áreas que antes eram destinadas à pecuária extensiva. Conforme Tedesco e
Sander:
A agricultura regional, na década de 1940, ainda se caracterizava pela presença maciça da mão-
de-obra familiar; as estâncias continuavam relutando em alterar seu ramo básico de atividade.
A partir da década de 1950, no entanto, com a maior intensidade da cultura do trigo,
manifestou-se na região a figura do empregado rural, do meeiro/parceiro e do arrendatário.
Então a cultura do trigo passou a ganhar correspondência, saindo do pequeno agricultor
familiar, de quase-subsistência, para uma agricultura moderna e de total conotação mercantil
[..]. O capitalista proprietário/pecuarista, em grande parte, tornou-se capitalista rentista e
começou a arrendar parte de suas terras para a produção de trigo.89

Nesse primeiro período (1940/1950), os granjeiros, passaram a investir o capital


acumulado com o comércio ou a indústria na propriedade rural. Com isso, as terras de
campo, consideradas impróprias para o cultivo do trigo em razão da menor fertilidade em
relação às terras de mato, passaram a ser utilizadas, dando início à agricultura mecanizada.
Ilustrando, encontramos na pesquisa que, em Passo Fundo, Mario Goelzer, industrial e
vereador passo- fundense, foi homenageado durante a Semana da Triticultura, realizada em
1950, que teve a participação de várias autoridades, por ter sido pioneiro na cultura intensiva
do trigo por processo mecanizado, em meio às “barbas-de-bode”. Conforme a imprensa local,
Mario Goelzer deitara abaixo a velha crença de que “só nas terras de mato é que o trigo dá”.
Essa inovação do benemérito pioneiro abrira novas perspectivas à triticultura no município de
Passo Fundo e em todo o estado do Rio Grande do Sul. 90
Então, os fazendeiros passaram a arrendar as terras, monopolizando-as e obtendo
renda sem nada produzir. Nesse momento, aqueles que eram excluídos das terras
(camponeses caboclos, colonos sem terra) deslocaram-se para a zona urbana ou empregaram-
se na zona rural, buscando uma alternativa de sobrevivência. Segundo Rückert, “milhares de
famílias de camponeses sem terra, os quais haviam transformado-se em marginais, retornam
ao campo na condição de assalariados. Uma das mais importantes conseqüências da expansão
da triticultura é o extraordinário encarecimento das terras que ela provocou.”91

89
TEDESCO, Madereiros, comerciantes e granjeiros: lógicas e contradições no processo de desenvolvimento
socioeconômico de Passo Fundo (1900-1960), p. 108.
90
Semana da Triticultura. O Nacional, Passo Fundo, 23 maio 1950, p. 1. Objetivo da Semana da Triticultura era
expor a região de Passo Fundo no cenário econômico brasileiro, centralizar a cultura do trigo, estimular os
agricultores e mostrar ao Brasil o acerto das políticas públicas para o setor.
91
RÜCKERT, A produção capitalista do espaço: construção, destruição e reconstrução do território no Planalto
rio-grandense.
Com a grande valorização do arrendamento de terras, ser proprietário ou concentrar
terras passou a ser um ótimo negócio. Nas décadas de 1950 e 1960, as “fazendas Sarandi,
Arvoredo, Bugre Morto, Macali, Brilhante e outras foram os espaços de intensa atividade de
arrendatários provenientes, em grande parte, de espaços urbanos da região principalmente de
Passo Fundo e de Carazinho”. 92 Já, na década de 1970, diminuíram os arrendamentos e
aumentou a procura de terra para compra. Conforme análise de Rückert, dentre as principais
transformações do território agrário, enfoca-se “o movimento da gênese dos capitalistas
arrendatários de terras de campo no planalto rio- grandense, transformados em capitalistas
proprietários fundiários (o que configura sua territorialização), bem como a destruição da
93
parte do território camponês”.
Assim, a produção de trigo expandiu-se nas áreas de campo com a tecnificação e a
mecanização implementada pelos granjeiros; os preços externos mantiveram-se elevados;
cresceu a importância da indústria de moagem; as relações entre arrendatários, proprietários
fundiários, empregados rurais e meeiros intensificaram-se e o cultivo do trigo adquiriu
conotação mercantil, enquadrando-se no processo de modernização agrícola.

2.1.5 Crise na produção tritícola e as novas medidas de comercialização

A partir da segunda metade da década de 1950, a fase expansiva da produção tritícola


entrou em crise, acarretada por vários fatores, entre os quais estavam o incentivo à
monocultura, que provocou o esgotamento do solo; as condições climáticas desfavoráveis e
doenças; a falta de recursos e de conhecimentos técnicos dos pequenos agricultores que
cultivavam o produto; problemas de transporte e de frete. Além desses, havia outros, como a
alta produção de 1955, que ocasionou problemas de armazenamento e comercialização, e os

incentivos para os moinhos adquirirem o trigo importado através da assinatura dos Acordos
do Trigo com os Estados Unidos (1954).

92
Idem.
93
Idem.
Além dos problemas citados, muitos comerciantes recusavam-se a comprar o trigo
nacional, que acabava se deteriorando nos galpões improvisados pelos colonos. Eram
evidentes, portanto, as dificuldades enfrentadas pelos triticultores de Passo Fundo para
comercializarem e armazenarem o trigo, o que constatamos analisando as proposições que
transitaram na Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo.

ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL


CÂMARA MUNICIPAL DE VEREADORES
PASSO FUNDO

Exmº. Sr. Presidente.


Todos os que vivem, como nós, na zona tritícola, sabem o que os triticultores, chegada a época
de colheita, têm pela frente, os aflitivos e graves problemas da venda e do transporte do trigo,
já que não estão em condições técnicas e financeiras para armazenarem o produto e
aguardarem que os moinhos iniciem sua compra, que, na forma da portaria vigorante, está
fixada para 1º de Janeiro até 30 de Abril.
O nosso objetivo não é desfiar, agora, o doloroso rosário de entraves, percalços, dificuldades,
bandalheiras e prejuízos verificados todos os anos nas operações de trigo. O que nos preocupa,
nêste momento, secundando o que já fizeram o ilustre Sr, Mario Menegaz, digno Prefeito
Municipal, e a Cooperativa Tritícola do Planalto Limitada, pelo seu digno Presidente Sr.
Alvaro Lucas, e propor, como efetivamente propomos, que esta colenda Câmara, por
intermédio da venerada Presidência, dirija um veemente, diremos mesmo, um vibrante apêlo
aos Exms.Presidente da República, Ministro da Agricultura e Diretor do Serviço de Expansão
do Trigo, no sentido de que seja urgentemente fixado o preço mínimo, bem como determinar
aos moinhos a compra imediata do trigo da presente safra, salvaguardando-se os sagrados
interesses dos triticultores nacionais.

Sala das Sessões, 18 de Novembro de 1955.94

No texto transcrito podemos observar a urgência com que os assuntos relacionados à


fixação de preços mínimos e prazos para a comercialização e armazenagem deveriam ser
tratados, pois, sendo um produto perecível, o trigo podia se estragar, comprometendo-se, por
conseqüência, toda a produção e prejudicando-se o produtor.
A situação do trigo nacional tornava-se, entretanto, cada vez mais grave com o
aumento das importações, que atingiram 75% do trigo cereal consumido no país em 1956 e
1957. Na época, para assegurar a colocação do trigo nacional no mercado, o governo obrigou
os moinhos a adquirirem uma cota desse, ou seja, os moinhos somente recebiam cotas de trigo
importado mediante a apresentação de comprovante de compra de determinada e proporcional
quantidade de trigo nacional. Então, as indústrias ampliavam suas instalações, objetivando a

94
Conforme pesquisa realizada no arquivo da Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo. Proposições
1954/55.
obtenção de maiores cotas e também simulavam a compra de trigo nacional para adquirir o
trigo importado, mediante adulteração de documentação e embalagem do produto. Como
conseqüência, ocorria o chamado “passeio do trigo”, que consistia em fazer o produto
estrangeiro destinado a abastecer a região Sul do país retornar para o Leste e Norte, rotulado
como se fosse de produção nacional.
Portanto, havia fraudes na comercialização do trigo, entre as quais o “passeio do
trigo”, a nacionalização do trigo, o trigo-papel e outras, que envolviam a indústria moageira,
os triticultores e o governo. Diante disso, exigiam-se medidas drásticas do governo, que, em
1962, passou a ser o único comprador de trigo, via Banco do Brasil. Segundo Grzybowski:

Os interesses em jogo eram muitos. Os diferentes governos procuraram aliviar o balanço


comercial de um dos itens mais onerosos, estimulando a produção interna. Ao mesmo tempo,
procuraram manter estáveis os preços do pão ao nível do consumidor. Por isto, as medidas
anteriores foram complementadas e ampliadas, procurando desvincular os preços de
importação. O Serviço de Expansão do Trigo passou a controlar tanto a absorção obrigatória da
produção nacional pelos moinhos instalados no país, como a distribuição das quotas de trigo
estrangeiro, cujas compras passaram a ser efetuadas exclusivamente pelo Banco do Brasil, a
partir de 1962. Para os moinhos, o custo do trigo passou a ser assim a média entre o preço
elevado do trigo nacional e o preço baixo do importado. Uma taxa cambial especial, mantendo
baixo o custo do trigo importado, permitiu o funcionamento do mecanismo e, assim, assegurou
o objetivo de não aumentar o custo de farinha e pão.95

Como a política do trigo envolvia vários interesses, o governo buscava equilibrar a


situação, controlando os preços. De um lado, estavam os interesses dos produtores de trigo
nacional; de outro, os do setor moageiro; mas havia, ainda, os interesses da população, que
esperava consumir o pão a preços baixos. Os moinhos preocuparam-se em ampliar seus
investimentos para aumentar a capacidade instalada e, posteriormente, passaram a reivindicar
a proibição de instalação de novos moinhos ou a ampliação da capacidade instalada dos
existentes.
Com o decreto- lei, nº 210, de 27 de fevereiro de 1967, deu-se a oficialização do
monopólio estatal, que buscava sanear o parque moage iro nacional, então constituído de 489
moinhos. As medidas do governo repercutiram sobre a indústria moageira, conforme se
relata na revista Agricultura e Cooperativismo:

95
GRZYBOWSKI, O trigo no Brasil, p. 24.
Só o governo federal podia adquirir o trigo do produtor. Nenhum moinho poderia mais
comprar o trigo do agricultor, transformá-lo em farinha e vender ao consumidor. Só os
moinhos registrados na Superintendência Nacional de Abastecimento (SUNAB) e que
tivessem direitos a cotas de trigo para moer é que podiam comercializar o produto e
vender farinha. Se a lei conseguiu seu objetivo de moralizar o mercado comercial do
trigo, ao mesmo tempo incentivou a briga pelas cotas de produto. Antigos proprietários
de moinhos coloniais foram pressionados para vender seus registros. Outros tentavam
negociar por fora para ter cotas maiores de moagem. E a maior parte dos grandes
moinhos, controlados por empresas de capital estrangeiro, começaram a pressionar para
que fossem fechados os moinhos coloniais. Com o fechamento dos moinhos coloniais,
sobrava mais trigo para os grandes moinhos.96

Os moinhos coloniais saíram em desvantagem com a criação do decreto-lei 210. As


leis decretadas pelo governo eram aplicadas a todos os moinhos sem observar as condições
em que desenvolviam o seu trabalho; no caso, os moinhos coloniais tinham pouca capacidade
de moagem, ao passo que aqueles de porte maior processavam toneladas de trigo. Assim, os
moinhos coloniais, instalados especialmente nas regiões de colonização italiana, deveriam
cumprir as determinações legais. De acordo com Lavinas: “Nos anos 60, existiam
aproximadamente, 2.000 moinhos coloniais nesse Estado, participando ativamente da
moagem das lavouras de subsistência. Com o Decreto-Lei 210, a SUNAB proibiu os
moinhos coloniais de comprar, moer e vender derivados de trigo, o que levou a uma retração
do seu número para 750”. 97
Os decretos relacionados anteriormente não foram os únicos responsáveis pelo
fechamento dos moinhos coloniais, pois, a partir de 1973, no governo de Médici, foram
introduzidos os subsídios ao consumo de farinhas com o objetivo de reduzir a inflação; com
isso as empresas multinacionais do setor de moagem de cereais praticamente monopolizaram
a produção de farinha de trigo. O subsídio à farinha favorecia os agricultores em prejuízo dos
moleiros, que perdiam a sua freguesia. Em 1974, foi liberado o funcionamento dos moinhos
de mó de pedra conforme traz este registro:

No dia 5 de fevereiro de 1974 surgiu a temida Portaria 20 complicando ainda mais a situação
dos moinhos coloniais. Essa portaria limitava o funcionamento dos moinhos coloniais. Essa
portaria limitava o funcionamento dos moinhos dizendo ”que apenas aqueles que empregassem
meios rudimentares, usando a moagem com pedra de mó, é que podiam trabalhar”. Isso
significava que 80% dos moinhos coloniais existentes, que já usavam o cilindro elétrico em
lugar da roda movida a água, não poderiam mais funcionar. Mas na verdade não eram só esses

96
Uma lei tenta salvar os moinhos da colônia. Agricultura & Cooperativismo, Porto Alegre, ano 1, n. 9, jan.
1977.
97
LAVINAS, Lena; MAGINA Manoel. Desregularização e globalização na reestrutração da cadeia do trigo.
Análise Econômica, ano 15, n. 28, set. 1997, p. 112.
os moinhos prejudicados. Os agricultores não iam entregar seu trigo ou seu milho para a
moagem a pedra, que leva uma hora para triturar 60 quilos, quando havia moinhos mais
modernos que no mesmo tempo moíam 600 quilos. Assim, a portaria 20 da SUNAB decretava
a morte dos moinhos coloniais. 98

O período de 1967 a 1976 foi bastante longo para aqueles que tiveram de fechar seus
estabelecimentos. O fechamento dos moinhos coloniais teve repercussão em âmbito estadual,
pois os moleiros solicitaram a ajuda dos deputados, de órgãos como a Fetag, a Frente Agrária,
o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, reclamando da regulamentação imposta aos moinhos
que os impedia de funcionar normalmente. Assim, fundaram uma Associação de
Proprietários de Moinhos Coloniais, conforme mostra a matéria jornalística a seguir:

FETAG defende moinhos coloniais

Após assinarem a ata de fundação da Associação de Proprietários de Moinhos os srs. Gentil


Bonato e Ciro Munaro, da Frente Agrária e da FETAG, remeteram minuncioso ofício ao Sr.
governador, varado nos seguintes termos: O Rio Grande do Sul tem encontrado no cultivo do
binômio trigo-soja uma perspectiva de melhoria das condições de vida dos pequenos
proprietários rurais.
No mês passado, o Ministério da Agricultura, no município de Cruz Alta lançou campanha
patriótica para que o Brasil se torne auto suficiente na produção de trigo, medida que
aplaudimos ardentemente. Entretanto, a meta dificilmente será alcançada se perdurar a ameaça
da execução de fechamento dos MOINHOS COLONIAIS.
A Federação dos Trabalhadores da Agricultura no Rio Grande do Sul, com seus 229 sindicatos
e 500 000 associados já entregou ao Ministro Paulinelli documentos onde relata a preocupação,
com relação a extinção dos moinhos coloniais, através do Decreto Lei nª 210, de 27/02/67 e
Portaria de fevereiro de 1974.
A concretizar-se tal medida, na região minifundiária do Rio Grande do Sul, além da diminuição
da produção de trigo em mais de 300.000 tonelada os colonos deixarão de plantar o produto –
não será alcançado o objetivo do atual Governo, que é a distribuição mais equitativa da renda.
Sentimos no meio rural ambiente de intranquilidade e desconfiança, entre os proprietários de
pequenos moinhos, que somam mais de 1000, e dos que se utilizam de seus serviços. Uma vez
paralizados, ocasionarão consideráveis prejuízos aos seus proprietários, bem como aos que irão
perder seu emprego.
Mobilizando os interessados e contando com a colaboração da Frente Agrária gaúcha,
fundamos, em 9/4/74, a Associação de Proprietários de moinhos coloniais “APRONCOL”,
contando com a presença de 700 moageiros e 200 dirigentes sindicais e 200 dirigentes sindicais
que subscreveram a ata de fundação.
É preocupação da nova entidade defender os interesses da classe e buscar solução dos
problemas ligados ao setor.
Existe uma situação de fato e deve merecer estudo minuncioso antes que medidas radicais
venham a ser tomadas, recaindo pesado ônus sobre parcela ponderável de agricultores gaúchos.
Entre as várias sugestões encaminhadas pelo ofício, destacamos: adaptar à realidade atual o
Decreto 210, que os Moinhos Coloniais possam adquirir trigo nacional sem o regime de cotas;
que as cooperativas agrícolas sejam mais assistidas na industria da farinha para melhor
atendimento aos seus associados, que em lugar de fechamento haja fiscalização saneadora. 99

98
Uma lei tenta salvar os moinhos da colônia. Agricultura & Cooperativismo, p. 9.
99
Fetag defende moinhos Coloniais. Correio Rio-Grandense, Caxias do Sul, 1º maio 1974, p.16.
Através da Associação dos Proprietários de Moinhos Coloniais facilitou-se a
realização de encontros para reivindicar junto ao governo o funcionamento desses
estabelecimentos, como registrou o jornal Correio Rio-Grandense:

Questão dos moinhos coloniais será levada a Sinval Guazelli

Empenhados em longa batalha de que depende até sua própria existência, os representantes dos
moinhos coloniais manterão encontro, no próximo dia 27 com o futuro governador do Estado
Sinval Guazelli. Na oportunidade os Associados da APRONCOL – Associação dos
Proprietários Moinhos Coloniais – estarão acompanhados dos dirigentes dos Sindicados dos
Trabalhadores Rurais. O encontro terá lugar no Salão de Atos do colégio do Rosário – antiga
PUC – na capital do Estado -, no horário das 15 horas. Determinados grupos pretendem o
fechamento dos moinhos coloniais, que alcançam número superior com 1000 somente no
Estado e representam emprego para mais de 8000 pessoas.
O fechamento de tais moinhos, além de um duro golpe a seus proprietários, entregaria a
moagem a um pequeno grupo de moinhos com registro na SUNAB. Os moinhos coloniais
chegaram a ser considerados “clandestinos”, classificação que não se enquadra de modo algum
na realidade pois possuem Alvará de localização e pagam impostos. O Decreto 210/67 teve
uma importante função na época em que foi decretado, com o objetivo de fiscalizar a
distribuição do trigo importado, já que muitas realizavam compras fictícias, no chamado
escândalo do trigo – papel. Certamente não foram os moinhos coloniais os que aproveitaram a
compra fictícia. Os dirigentes da APRONCOL e dos sindicatos estão otimistas em relação aos
moinhos coloniais já que o atual governo do Estado, reiteradas vezes mostrou-se favorável às
suas metas. Fechados os pequenos moinhos, os agricultores seriam obrigados a enviar aos
grandes a pequena quantidade do cereal por eles consumidas.100

Entretanto, somente em 1976 foi sancionada a lei regulamentando o funcionamento


dos moinhos coloniais, 101 quando então muitos já estavam desativados, o que implicaria altos
investimentos, para retornar as atividades; além disso permaneciam os subsídios à farinha, o
que reduzia a necessidade e a procura pelos serviços oferecidos pelos moinhos coloniais.
Assim, no período de crise da triticultura, exigia-se cada vez mais uma política agrícola que
atendesse aos interesses governamentais, dos triticultores e também da indústria moageira.
Nesse contexto, a monopolização das operações com o trigo nacional e estrangeiro foi
uma das alternativas encontradas para o controle da produção e da comercialização de trigo,
que privilegiava os moinhos de porte maior em detrimento dos moinhos coloniais, os quais
foram prejudicados ainda mais quando a farinha passou a ser subsidiada.
A organização de cooperativas tritícolas foi outra maneira encontrada para amenizar os
problemas relacionados à estocagem, à comercialização e ao controle dos produtores. Assim,

100
Questão dos moinhos coloniais será levada a Sinval Guazelli. Correio Rio-Grandense, Caxias do Sul, 11 set.
1974, p.1.
101
Uma lei tenta salvar os moinhos da colônia. Agricultura & Cooperativismo, p, 16.
no período de crise da triticultura, os granjeiros consolidaram sua posição pressionando
fortemente o governo para obter apoio para a triticultura nacional e organizaram-se em
associações, federações, cooperativas.
As cooperativas tritícolas foram organizadas em colaboração pelo Serviço de
Economia Rural do Ministério da Agricultura e a Secção de Assistência ao Cooperativismo da
Secretaria da Agricultura do estado. Em 1958, as cooperativas criaram a Fecotrigo (Federação
das Cooperativas Brasileiras de Trigo); em Passo Fundo, foi fundada a Coopasso, em 1955,
entre várias outras que foram criadas na região. Além de se tornarem instrumentos do
governo para promover a modernização agrícola, as cooperativas canalizavam as
reivindicações dos grandes produtores e passaram a ser também interlocutoras desses junto
às autoridades do Ministério da Agricultura. No decorrer do trabalho esse assunto será
retomado, pois o cooperativismo era incentivado pela extensão rural.

2.2 A consolidação da modernização agrícola em Passo Fundo

No final da década de 1960, o trigo obteve uma produção excelente com os estímulos
por parte do governo ao uso intensivo da tecnologia moderna para a recuperação e fertilização
do solo, orientado pela assistência técnica e favorecido pelo sistema creditício. A partir daí
ocorreu a ascensão da soja na produção agrícola, ampliando-se e consolidando-se,
definitivamente, o processo de modernização da agricultura na região e no país. Os
incentivos recebidos à produção de soja levaram tanto pequenos quanto grandes
produtores a inve stirem nessa produção, alternando o cultivo dos produtos, como trigo no
inverno e soja no verão.
A produção da soja passou a ser mantida no Brasil com a utilização do capital
estrangeiro, principalmente na indústria de bens duráveis. Para pagar essas importações,
aumentou-se o crescimento das exportações de bens primários nacionais e, com isso, a
agricultura passou a depender cada vez mais da indústria.
Nas décadas de 1950 e 1960, ampliaram-se as facilidades de crédito e de
financiamento para a compra de máquinas agrícolas em virtude da constituição de um setor
de indústria pesada e de bens duráveis de consumo. Os vínculos cada vez mais fortes da
agricultura com a indústria se fizeram presentes no município de Passo Fundo. Conforme
Nascimento:

A Empresa de Implementos Agrícolas Menegaz S/A, que desde 1937 já fabricava carrocerias
para ônibus, instalações para serrarias, máquinas para curtume, moinhos para trigo e milho,
moinhos para cana e descascadores de arroz, em 1952 já passa à fabricação de implementos
agrícolas: arado reversível, grade Goble, grade aplainadora e arado de arrasto. Fabricando
também arado subsolador, capinadeira, picador de palha, etc. No início dos anos de 1960,
instalou-se a Mecânica Agrícola Rossato Ltda. O maquinário utilizado pelos agricultores era
quase todo importado e não havia uma tecnologia própria para o solo gaúcho e a assistência
técnica era carente. A empresa é instalada com a finalidade de atender às necessidades da
região adaptando e comercializando máquinas e implementos agrícolas. Mais tarde passou a
chamar-se Semeato S/A Indústria e Comércio.102

Com isso percebe-se que a agricultura transformou-se em mercado para máquinas e


implementos agrícolas; abriu-se espaço para a venda de insumos modernos e ocorreu a
expansão das indústrias de processamento e transformação de produtos agropecuários, como a
indústria de esmagamento de soja e a produção de óleo e rações.
Até fins da década de 1970, a produção da soja como monocultura expandiu-se. Em
percentuais, constata-se que a produção de 1970 superou em mais de 200% a de 1960, e a
produção de 1980 alcançou um percentual 424% superior à de 1970. 103 Rückert aponta uma
complexidade de interesses que se conjugaram para incentivar o cultivo:

De um lado, está a crescente internacionalização da economia da soja, conjugada com o fato


que a soja brasileira é colhida na entressafra dos maiores produtores mundiais. Do outro, a
política brasileira de incentivo à produção. Num terceiro ângulo, está a consolidação da
indústria de processamento do produto que se desenvolve sob a tutela governamental; as
facilidades de comercialização e os preços pagos pelo produto são significativamente
compensadores. Além disso, as cooperativas assumem um papel significativo seja
incentivando a produção, seja abrindo as suas portas a todo produtor de “trigo e soja”
independente do tamanho de suas lavouras. 104

Nesse período, efetivou-se a participação dos pequenos e médios produtores nas


cooperativas, os quais, embora não tivessem quase poder de decisão, evitavam os
intermediários na negociação dos produtos e tinham acesso aos financiamentos. Nessa fase,
as cooperativas iniciaram um trabalho de superação da monocultura do trigo, incentivaram a

102
Ver NASCIMENTO, Welci. Conheça Passo Fundo, Tchê. Passo Fundo: Berthier, 1992.
103
RÜCKERT, A produção capitalista do espaço: construção, destruição e reconstrução do território no Planalto
rio-grandense.
104
Idem.
diversificação, procuraram associar a la voura de trigo à pecuária , ao milho, à soja etc.
Segundo Grzybowki:

Após a evolução de preços desfavoráveis entre 1955 e 1961 restabeleceu-se uma política de
crédito, a juros negativos (devido à inflação), procurou-se tanto compensar a elevação dos
custos, especialmente de máquinas e fertilizantes, como estimular o crescimento de lavouras
tecnicamente mais eficazes. O financiamento das lavouras de trigo passou a ser condicionado,
por exemplo, ao uso de sementes selecionadas e adubos. 105

A partir de 1970, a soja passou a ser uma cultura privilegiada também nas pequenas
propriedades, substituindo os produtos cultivados até então. Os pequenos agricultores,
através do crédito, passaram também a adquirir máquinas, tratores e colheitadeiras para
investir na produção. Contudo, no final dessa década, esse crescimento caiu em virtude da
retração do crédito de investimentos, da crise em decorrência das frustrações nas safras, do
rebaixamento dos preços pagos aos produtos agrícolas, da retirada dos subsídios e da alta da
inflação. Por conseqüência, agricultores com menos de 20 ha obrigaram-se a vender a terra,
animais, maquinários, ou a entregar esses lotes às cooperativas para, assim, conseguirem
saldar suas dívidas.
Dessa forma, nesse período, os granjeiros consolidaram ainda mais seus investimentos
comprando médias e pequenas propriedades dos agricultores que se encontravam endividados,
transformando-se, portanto, em proprietários fundiários. Essa situação levou a que muitos
agricultores migrassem para as cidades. No entender de Arandia:

São as pequenas unidades familiares de baixo nível tecnológico que estão sendo expulsas pela
grande produção mecanizada e empresarial. Na realidade, não está acontecendo apenas a
substituição por produtos modernos em detrimento dos tradicionais devido ao progresso
técnico. O que estão sendo substituídos são os próprios produtores, aqueles que estão
incapacitados, por problemas de escala, de usar intensivamente os insumos e máquinas
adquiríveis fora do setor agrícola. 106

Segundo o autor, a implantação do complexo soja no período de 1965-1973 foi a


maior responsável pelo fim de uma articulação relativamente harmônica que vinha ocorrendo
no estado entre latifundiários e minifundiários, pois os setores eram independentes, ocupando
áreas diferenciadas e dedicando-se a produtos e mercados diferenciados. 107 Com o processo

105
GRZYBOWSKI, O trigo no Brasil, p.33
106
ARANDIA, Kuajara Alejandro. Modernização da agricultura: reflexos sobre o emprego rural no Rio Grande
do Sul, 1970-1980. Porto Alegre, 1976. (Ensaios FEE)
107
Idem, p.100.
de modernização agrícola, a capacidade das pequenas propriedades de 0 a 10 ha de se
expandir tornou-se mínima, restando a alternativa de esses produtores se manterem na
propriedade apenas como uma estratégia de sobrevivência, ou de a venderem em razão do
empobrecimento total e do endividamento.
Entretanto, antes de chegarem a essa situação, os pequenos agricultores haviam
vivenciado momentos de grande euforia, provocados pela adoção de novas técnicas agrícolas,
que então tinham sido consideradas revolucionárias no meio rural.
No final da década de 1960, através da assistência das cooperativas e da Associação
de Crédito e Assistência Rural, foram sendo colocadas em prática as técnicas de recuperação
do solo, como adubação verde e orgânica, conservação do solo com curvas de nível,
terraceamento, uso de calcário, potássio e superfosfato. Os agricultores participaram dos
projetos para a melhoria da fertilidade do solo denominados Operação Tatu. 108 Em Passo
Fundo, o distrito de São Roque destacou-se pela participação dos jovens agricultores nos
trabalhos promovidos pelo serviço de extensão rural, o que acarretou mudanças nas técnicas
tradicionais dos agricultores, conforme será exposto no decorrer do trabalho, especialmente
no capítulo IV.

2.3 O crescimento urbano de Passo Fundo

Paralelamente a todo esse processo de ocupação do espaço, envolvendo (i)migração e


inserção da região na modernização agrícola, com o conseqüente êxodo rural, desencadeado
sobretudo no final da década de 1960 e na de 1970, o município de Passo Fundo foi
adquirindo características cada vez mais urbanas, com o crescimento demográfico, a expansão
da indústria, do comércio e do setor de serviços.
O fenômeno da urbanização provocou alterações no espaço geográfico do
município de Passo Fundo, contribuindo para a ocupação de novos espaços, distantes do
centro da cidade, modificando o sentido inicial leste-oeste ao longo da rua do comércio, para
norte-sul, ao longo da via férrea, conforme expõem Dal’Moro et. al.:

108
Projeto pioneiro de melhoria da fertilidade do solo responsável por estimular a correção da acidez do solo e a
adubação química, induzindo o pequeno e o médio agricultor a ingressarem no processo de modernização a
partir de meados da década de 60. Ver BRUM, op. cit., p. 86.
O assentamento original da cidade, localizado no Boqueirão, ao longo da avenida Brasil – via
definidora do desenvolvimento da cidade-, gradativamente, avançou no sentido da estrada de
ferro. Nas primeiras décadas do século, as serrarias, os depósitos e as indústrias de madeira
localizavam-se ao longo da via férrea, próximos aos quartéis, ao norte, na saída para Carazinho
e, também, próximo ao acesso rodoviário para Sarandi e Nonoai. A instalação da estação
ferroviária, próxima à colina onde já se localizava a capela, deslocou o centro comercial e
financeiro, ao redor da praça Marechal Floriano. Em relação ao comércio atacadista e aos
depósitos de madeira, esses passaram a se localizar nas proximidades da estação ferroviária, ao
longo do trecho sul da ferrovia, próximos também da estrada rodoviária para Marau, que liga
Passo Fundo a Porto Alegre através dos municípios das colônias alemã e italiana. 109

A ocupação de áreas não centrais da cidade levou à instalação de estabelecimentos


comerciais e industriais e de assentamentos habitacionais em vilas e bairros. A partir da
década de 1950, a expansão do núcleo urbano possibilitou a ocupação do bairro São José
através da especulação da renda das terras, em razão da instalação da indústria química
Instituto Pinheiros. 110 Assim, estabeleceram-se os primeiros moradores do bairro, que eram,
em sua maioria, caboclos ou filhos de caboclos, ex-empregados do setor madeireiro que
haviam migrado de regiões próximas a Passo Fundo. 111
Também o bairro São Cristóvão e a vila Planaltina tiveram um acréscimo populacional
a partir da instalação das indústrias frigoríficas ZD Costi (1948) e Planaltina (1955) e,
posteriormente, da Mecânica Agrícola Rossato Ltda. (1960), do Curtume Ciplame, entre
outros. Muitas famílias que passaram a residir nesses locais eram oriundas do distrito de São
Roque e contribuíram como mão-de-obra nesses estabelecimentos.
Nesse período, muitos granjeiros arrendaram as terras ou continuaram nas atividades
agrícolas mesmo residindo na zona urbana, pois a proximidade do distrito com essa parte da
cidade facilitava o trabalho, que poderia ser realizado em horário normal pelos mais idosos,
nos finais de semana, ou após o expediente, nos finais de tarde, pelos mais jovens.
O crescimento da população rural e urbana na região de Passo Fundo pode ser
observado na Tabela 6.

109
DAL’MORO, Selina Maria. (Org.). Urbanização, exclusão e resistência. Estudos sobre o processo de
urbanização de Passo Fundo. Passo Fundo : UPF, 1998.
110
Idem, p.97.
111
Idem, p.103.
Tabela 6 - Crescimento da população total, urbana e rural da região de Passo Fundo, 1950 –
1991

Ano Total Geral d% Urbana d% Rural d%


1950 546.717 - 100.242 - 446.777 -
1960 717.258 31.01 186.223 85.77 529.985 18.62
1970 831.532 16.09 256.242 37.59 574.708 8.63
1980 865.187 4.04 376.457 46.91 487.493 -15.17
1991 900.826 4.11 510.196 35.52 390.630 -19.86
Fonte: IBGE Censos Demográficos 1950-1991.

Os dados da Tabela 6, referentes ao período de 1950-1990, comprovam o aumento da


população urbana na região de Passo Fundo e o decréscimo da rural. Apesar disso,
observamos que a região ainda concentrava um considerável contingente populacional rural e
que a concentração urbana ocorria em alguns municípios, como Carazinho, Erechim, Getúlio
Vargas, Marau, Sarandi, Sobradinho, Soledade, liderados por Passo Fundo. 112
O processo de modernização agrícola provocou profundas transformações na pequena
propriedade, pois os agricultores privilegiaram o cultivo da soja, produto de exportação, em
detrimento dos produtos tradicionais, como feijão, arroz, mandioca, milho, trigo, verduras,
frutas, avicultura e suinocultura.
Através de créditos facilitados, muitos produtores adquiriram tratores e colheitadeiras,
mas, no final da década de 1970, os problemas começaram a surgir em decorrência de
frustrações nas safras, dos preços baixos pagos pelos produtos, do uso abusivo de venenos e
do endividamento. Essa situação se agravou com a retirada dos subsídios ao crédito agrícola e
com a inflação elevada, que aumentou os custos da lavoura. 113 Com isso, acentuou-se o
processo de desruralização, com a migração de agricultores para a cidade, para as fronteiras
agrícolas, via cooperativas de colonização, e até mesmo com a simples transferência de
famílias para a cidade, continuando a exercer suas atividades no campo, como assalariados
temporários. 114
Portanto, a grande maioria das pessoas que migraram para as cidades da região de

112
DAL’ MORO, et. al. Urbanização, exclusão e resistência: estudos sobre o processo de urbanização na região
de Passo Fundo , p. 60.
113
Ver RÜCKERT, A produção capitalista do espaço: construção, destruição e reconstrução do território no
Planalto rio-grandense.
114
Idem.
Passo Fundo veio da zona rural em conseqüência da situação de miséria em que se
encontravam, ou melhor, da desorganização econômica da sociedade rural em meio ao
processo de modernização agrícola, de concentração e de valorização das terras, conforme foi
visto anteriormente. No entender de Singer, as migrações podem ocorrer por fatores de
mudança ou por fatores de estagnação:

Os fatores de mudança fazem parte do próprio processo de industrialização, na medida em que


este atinge a agricultura, trazendo consigo mudanças de técnica e, em conseqüência, aumento
da produtividade do trabalho. Os fatores de estagnação resultam da incapacidade dos
produtores em economia de subsistência de elevarem a produtividade da terra. Os fatores da
mudança provocam um fluxo maciço de emigração que tem por conseqüência reduzir o
tamanho absoluto da população rural. Os fatores de estagnação levam à emigração de parte ou
da totalidade do acréscimo populacional devido ao crescimento vegetativo da população rural,
cujo tamanho absoluto se mantém estagnado ou cresce apenas vagarosamente. 115

Além desses, Singer aponta fatores de atração não determinantes, mas que também
devem ser considerados, como a busca de uma remuneração mais elevada nas indústrias ou
no comércio. Contudo, a situação desse contingente populacional agrava-se pela falta de
qualificação necessária para trabalhar nas indústrias ou no comércio e pela incapacidade
desses estabelecimentos de gerar empregos suficientes para absorver tanta mão-de-obra.
Com o incremento populacional no município ocorreu a ampliação dos limites da
cidade e a formação das periferias. As periferias, que se diferenciam das áreas centrais pela
precariedade da infra-estrutura física. Geralmente, são habitadas por aqueles que foram
excluídos dos processos econômicos e que desempenham atividades formais ou informais
116
com baixa remuneração, o que não lhes permite adquirir moradia em outras áreas. No
entender de Oliven, “se comparadas ao campo, a maioria das grandes cidades brasileiras
oferece melhores oportunidades no que diz respeito a serviços como saúde, educação, etc., e
117
como tal, representa uma melhora relativa em termos de cond ições de vida”. De acordo
com Dal’Moro et al., “a fuga para as cidades da região é muito mais expressão de uma
decomposição do espaço rural do que do dinamismo da sociedade urbana”. 118
Diante disso, podemos dizer que o município de Passo Fundo poderia ser considerado
um atrativo para os agricultores desanimados com as precárias condições do meio rural, pois,

115
SINGER, Paul. Economia política da urbanização. São Paulo: Brasiliense, 1973. p.38.
116
ALONZO, Crescimento inter-regional no Rio Grande do Sul, nos anos 80, 298.
117
OLIVEN, Ruben George. Urbanização e mudança social no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1982. p.72.
até meados de 1970, havia falta de energia elétrica, de escolas de segundo grau para os jovens,
a dificuldade de acesso à cidade, além dos problemas acarretados pelo processo de
modernização agrícola citados anteriormente.
De acordo com Alonzo, Passo Fundo exerceu na década de 1970 o papel de “capital
regional” por ter crescido, em termos econômicos e demográficos, a taxas mais elevadas do
que as demais cidades do seu entorno, sendo supridora, em grande medida, de bens e serviços
119
a esse âmbito territorial. Assim, quem aspirava obter um emprego em Passo Fundo
contava com uma rede comercial e industrial em que se destacavam: a Casa Jandyr , a casa
Battisti, Casa Schimidt, Farmácia Indiana, Joalheria Hexel, Companhia Cervejaria
Brahma, Vva. Maggi De Césaro & Cia Ltda. Posteriormente, instalaram-se em Passo Fundo a
Menegaz S/A: Indústria e Comércio, a Semeato S/A – Indústria e Comércio, a Bertol S/A –
Indústria, Comércio e Exportação, Refrigerantes Bernardon Ltda., Ângelo Di Domênico &
Filhos Ltda., os Frigoríficos ZD Costi e Planaltina, Curtume Ciplame, alguns moinhos e
redes de lojas como a Grazziotin, a Imcosul, a J.H Santos, etc.
Em decorrência da urbanização, novas necessidades foram surgindo e
estabelecimentos foram construídos, como hotéis, hospitais, posto de saúde, escolas,
residências, prédios, etc., tanto nas áreas centrais quanto nas periferias, expandindo o setor de
construção civil, renovando a paisagem urbana, ampliando-se o mercado para as olarias de
telhas e tijolos, que dinamizaram economicamente o distrito de São Roque. As famílias que
continuaram no meio rural sofreram alterações na sua forma de viver e de trabalhar, passando
a adotar um padrão de vida com características cada vez mais urbanas.
Com o exposto, pretendemos ressaltar que Passo Fundo cresceu em razão de um
conjunto de relações socioeconômicas estabelecidas na região e que os distritos que
compunham o meio rural deste município, em especial o distrito de São Roque, contribuíram
com a matéria-prima da agricultura, a mão-de-obra para as indústrias e na redefinição do
espaço urbano pelo desencadeamento do êxodo rural.

118
DAL’ MORO, et al., Urbanização, exclusão e resistência: estudos sobre o processo de urbanização na região
de Passo Fundo , p. 35.
119
ALONZO, Crescimento inter-regional no Rio Grande do Sul, nos anos 80, p. 285.
2.4 Aspectos socioeconômicos e históricos do distrito de São Roque

O objetivo deste tópico é fazer um breve histórico sobre o distrito de São Roque,
o qual é parte do meio rural de Passo Fundo, localizado em área de matas que foram
ocupadas por imigrantes e descendentes de imigrantes que, até o final da década de
1960, dedicavam-se à agricultura tradicional. Também concentrava algumas indústrias
artesanais, entre essas os moinhos e as olarias, que foram as que mais se destacaram no
local.
Com o processo de modernização agrícola, a pequena propriedade passou por
reestruturações, conforme foi mencionado anteriormente, e a terra, bem como a maneira de
nela produzir, passou a ter um custo elevado, exigindo investimentos financeiros e
orientações técnicas, o que, por conseqüência, levou a um maior contato com o meio urbano
e também provocou o êxodo rural. Assim, abordam-se alguns aspectos socioeconômicos e
históricos do meio rural de Passo Fundo que serão relevantes para o capítulo seguinte, no
qual se tratará da participação dos jovens agricultores do distrito de São Roque nos Clubes 4-
S promovidos pelo serviço de extensão rural, bem como da relação das entidades com a
introdução da modernização agrícola na pequena propriedade, responsável por profundas
alterações no modo de vida da população rural.
São Roque, antes de ser distrito, era secção do Primeiro Distrito Passo Fundo. Os
distritos eram constituídos por secções, que representavam os povoados, esses de maior ou
menor expressão. 120 Em 1939 o município de Passo Fundo dividia-se em vinte e nove
secções, ficando em primeiro lugar a urbana e, na seqüência, Barracão, Bela vista, Boqueirão,
Bom Recreio, Bom Retiro, Britos, Burro Preto, Capão Redondo, Capinzal, Carreta Quebrada,
Cruzeiro, Divisa Faxinal, Fazenda Silveira, Passo do Chinelo, Passo Gregório, Pessegueiro,
Povinho Velho, Pulador, São Roque, Santa Rosa, Taquarizinho, Três Lagoas, Umbú,
121
Valinho, Vila Petrópolis. Em 1940, oito distritos faziam parte do município de Passo

120
VERZELETTI, Santo Claudino. A contribuição e a importância das correntes imigratórias no
desenvolvimento de Passo Fundo. Passo Fundo: Imperial, 1999, p.43.
121
Pesquisa feita no arquivo Histórico Regional. Guia ilustrativo do município de Passo Fundo. 1939.
Fundo, sendo: Primeiro Distrito Passo Fundo, Campo do Meio, Coxilha, Marau, Sede
Teixeira ( Tapejara ), Ernestina, Água Santa e Sertão. 122
O distrito de São Roque localiza -se ao sul do município de Passo Fundo e as suas
características quanto à topografia, ao tamanho da propriedade e ao regime de
trabalho
diferenciaram- no das áreas de campo, onde tiveram início as lavouras mecanizadas, pois
compreende uma área de matas e de terras montanhosas, com o predomínio da pequena
propriedade.

Fonte: OLIVEIRA, Annaes do município de Passo Fundo. Aspecto geográfico, p.49.

122
OLIVEIRA, Francisco Antonino Xavier e. Annaes do município de Passo Fundo: aspecto geográfico. Passo
Fundo: UPF, 1990. 1v, p. 52.
Figura 1 - Mapa localizando os distritos do município de Passo Fundo 1990

Foi em 10 de novembro de 1961 que São Roque passou a ser distrito, conforme a lei
municipal nº 958, abrangendo as localidades de São Valentim, São José, Nossa Senhora das
Graças, Mata Fome, Capinzal e Santa Gema. Na Tabela 7 podem-se acompanhar alguns
dados sobre a população do distrito de São Roque.
Tabela 7 - População do distrito de São Roque 1960-2000

Ano Urbana Rural Total


1960 3.587
1970 121 4.353 4.474
1980 24 3.027 3.051
1991 36 2.315 2.351
1996 23 2.143 2.166
2000 21 2.101 2.122

Fonte: IBGE – Censos demográficos - 1960-2000

Na Tabela 7 observamos que a década de 1970 foi o período de maior concentração


populacional no distrito, época em que se iniciou o plantio da soja; nos períodos seguintes, o
número de habitantes começou a decrescer, apontando, assim, a ocorrência do êxodo rural.
Nas entrevistas realizadas em nosso estudo, os moradores do distrito relacionaram alguns
motivos que teriam influenciado na saída das famílias para a cidade, como a não-existência do
curso de segundo grau para os jovens continuarem os estudos, a procura de emprego, pois a
terra não era suficiente para todos, o acesso ao atendimento médico e a mecanização da
agricultura.
Muitas das famílias que saíram do distrito de São Roque passaram a residir no bairro
São Cristóvão e na vila Planaltina pela sua proximidade com o distrito, bem como pela oferta
de emprego nas indústrias estabelecidas no local e de escolas. Muitos jovens saíram do
distrito e, inicialmente, instalaram-se na casa de parentes para estudar, retornando para casa
no turno inverso ou apenas nos finais de semana, para auxiliar no trabalho agrícola ou nas
olarias.
2.4.1 Aspectos do cotidiano econômico e social no meio rural

Neste item, tratamos de alguns elementos considerados relevantes para a compreensão


das alterações que ocorreram nos âmbitos produtivos e sociais no meio rural a partir do
trabalho dos Clubes 4-S.
O distrito de São Roque foi ocupado por alguns imigrantes de diferentes etnias que
chegaram ao distrito por volta de 1890, entre os quais Fernando Strello (Alemanha), Francisco
Escobar (Espanha), Antônio Bento de Souza (Portugal), Rafael Pera (Itália), seguidos,
posteriormente, por descendentes de imigrantes na maioria italianos, provenientes de Caxias
do Sul, Bento Gonçalves, Veranópolis, Silveira Martins, Cachoeira do Sul, Garibaldi,
Guaporé, etc. 123
Nas Colônias Velhas, as terras haviam se tornado escassas e improdutivas para atender
a todos os membros das famílias dos imigrantes, geralmente numerosas; as partilhas das
terras contribuíram para reduzir o tamanho dos lotes e, conseqüentemente, a produção.
Assim, muitos imigrantes, especialmente os seus filhos, migravam em busca de terras férteis
e, depois de estabelecidos, atraíam outros membros da família ou vizinhos para a região.
Foi assim que muitas famílias se estabeleceram no distrito de São Roque, área de matas que
oferecia terras férteis para produzir e muita madeira (pinheiros). Com a madeira eles
construíram as primeiras casas e móveis, que apresentavam uma arquitetura simples e eram
feitas pelos próprios membros da família.

Fonte: Acervo pessoal da família Strello.

123
Sobre o elemento estrangeiro em Passo Fundo ver OLIVEIRA, p. 278-279. Na obra referida alguns dos
estrangeiros citados neste trabalho localizaram-se no Paiol de Telha, que pode ser entendido como uma antiga
denominação do distrito de São Roque.
Figura 2 - Primeiros moradores do distrito de São Roque. Família Strello e Escobar.

Após a instalação no distrito, as famílias desenvolveram a agricultura tradicional com


uma produção diversificada, utilizando-se dos recursos naturais e da mão-de-obra familiar.
Dessa forma, prepararam as primeiras lavouras, derrubaram o mato, fizeram queimadas e
roçaram para dar início às plantações; quando a terra se tornava improdutiva, deixavam- na
“descansar” por alguns anos e iniciavam a lavoura em outro lugar.
Assim, cultivavam feijão, arroz, trigo, milho, mandioca, batata-doce, abóbora, etc., ou
seja, havia bastante diversificação, conforme nos relata a entrevistada Catariana Maffi: “Eles
plantavam milho, feijão, muito milho, mas colhiam tudo quebrado a mão e puxado as vezes
nem de carroça. Quem não tinha carroça era de cesto nas costas ou com animal”.124 O
trabalho agrícola nesse período era manual no plantio e na colheita, sendo utilizada a tração
animal para arar a terra e transportar os produtos. Desse trabalho dependia o sustento da
família, conforme conta Henrique Strello:

Nós plantava bastante em sociedade com meu tio, bastante trigo. Tinha que plantar tudo de
arado. Eu quando consegui lavrar, já tava lavrando. Num ano nós plantamos dez sacos de
trigo. Aí foi feito pucheron pra colher. Só que, quando ia vendê, valia pouco. Vendia naquele
moinho dos Cunha, ali onde era a Coopasso. Vendia ali, mas não tinha lá tanto preço. Nós
plantava muito milho, meu pai sempre tinha porcada. Então plantava milho bastante, feijão.
Meu pai vendia mais de um porco por mês. Carneava o porco e vendia a carne; fritava tudo
num panelão e botava numa lata com banha para conservar. Não tinha geladeira. Meu pai era
muito “caxias”, não queria sair da roça. Batia o sino, se ouvia de longe, né, e o velho fazia que
não ouvia. Era trabalhado! Nós colhia o milho e eu era o carroceiro, levava o milho pro
galpão.125

Conforme Tedesco, estar com o paiol cheio de milho possuía um significado para o
colono além do econômico e simbólico: significava segurança alimentar (animais e família),
expressão de trabalho. 126 Os agricultores do distrito de São Roque também criavam aves e
suínos, que serviam para o sustento próprio e para serem vendidos na cidade.
A família, geralmente numerosa, participava das tarefas: alguns cortavam lenha;
outros tratavam os animais; os mais velhos carroceavam para a cidade, enquanto os demais
iam para a roça; outros trabalhavam nos moinhos, nas olarias, nas serrarias, nos alambiques,

124
MAFFI, Catarina. Entrevista concedida a Sirlei de F. Souza em 2 maio 2002.
125
STRELLO, Henrique José. Entrevista concedida a Sirlei de F. Souza em 27 set. 2001.
126
TEDESCO, João Carlos. Terra, trabalho e família: racionalidade produtiva e ethos camponês. Passo Fundo:
Ediupf, 1999, p. 98.
etc. Conforme Tedesco, o saber/fazer, como dinâmica construtiva, material e simbólica,
atualiza-se e transmite-se envolvendo valores e diferenciações de papéis e de hierarquias.
Muitas são as histórias relatadas pelas mulheres, como a de que levavam os bebês nos
cestos para a roça, ou que deixavam as crianças menores em casa aos cuidados dos irmãos
maiores; jovens e adultos saíam para a roça antes de o sol nascer e guiavam-se pelo sino da
capela para a hora do almoço e para retornar para casa no final da tarde. Havia, portanto,

uma organização familiar voltada para a sobrevivência, que se orientava pelos saberes
transmitidos pelos antepassados sobre os ciclos agrícolas, determinados pelas estações do ano;
sobre as fases da lua, a lua mais apropriada para o plantio ou para a lida com os animais;
sobre a terra gorda/magra; sobre o tempo e o vento, entre outros tantos saberes que faziam
parte do dia-a-dia do colono.
O contato com o meio urbano quase não existia, pois o acesso à cidade era precário,
feito por picadas abertas no meio do mato; quando necessário, ia-se a pé ou conduzindo os
cargueiros, que eram animais que carregavam as mercadorias trocadas ou vendidas na cidade.
Além dos tradicionais produtos coloniais, preparava-se e vendia-se a palha, utilizada para
fazer cigarro e colchão, e a farinha de biju, feita do milho, que era consumida na alimentação.
Eram as mulheres que se dedicavam à preparação desses produtos; os maços de palha eram
feitos principalmente à noite e a fabricação da farinha de biju envolvia um procedimento
bastante trabalhoso. A arte de fazer a farinha está presente na memória das famílias, que,
inicialmente, utilizavam os monjolos para a sua fabricação, conforme relata um dos nossos
entrevistados.

Meu pai trazia para a cidade mandioca, batata-doce. Nós tínhamos fábrica de biju. Nós
tínhamos três monjolos, em sociedade com meu tio. O meu serviço nas horas do meio-dia,
enquanto descansava, era ir lá pro monjolo. Tirava o milho, passava na peneira; depois, nós
botava de novo socar pra limpar ele, fazer canjica. Fazia o milho esmagado, moído, moído.
Fazíamos de milho, milho branco pra fazer farinha de biju. Daí minha mãe passava num tacho
bem ligeiro e levantava aquela casquinha.127

As famílias produziam quase tudo de que precisavam para o consumo e alguns


produtos destinados à comercialização. Eram os homens que iam à cidade para comprar
açúcar, sal, café, querosene, tecidos, ou seja, os poucos produtos que não eram produzidos na
zona rural: “O meu pai comprava ropa pra toda família. Comprava peça de riscado no João
Café, que era uma loja grande. Comprava uma peça de brim pra fazer calça. Então, todo
mundo andava uniformizado, eu, os primos [...]”. 128
As mulheres e crianças não iam com freqüência à cidade. Geralmente, a vinda de toda
família à cidade acontecia próximo ao Natal, quando faziam compras de roupas e calçados, o
que era um motivo de alegria para todos. Na época, todas as atividades concentravam-se no

meio rural, que oferecia quase tudo de que as famílias necessitavam. Assim, elas
desenvolveram a infra-estrutura necessária para se manterem na zona rural: construíram as
primeiras escolas, capelas, salão de festas, colaborando com o trabalho e fazendo doações
do material para as construções.
Os primeiros professores eram pessoas da comunidade que tinham um pouco mais de
instrução e, mais tarde, alguns professores municipais. Conforme entrevista com a primeira
diretora da escola do distrito de São Roque, no início o trabalho foi difícil porque tanto os pais
como os alunos resistiam a aceitar os professores, os quais deveriam residir no distrito; assim,
eles pagavam pensão para alguma família que se dispusesse a acomodá- los.
Na escola não havia quadro- negro, faltavam classes e cadeiras, pois havia em torno de
cem alunos para atender, entre os da localidade e de outras, como da Exposição (hoje bairro
São Cristóvão), de Nossa Senhora das Graças, entre outras. Conforme a entrevistada Maria
Ferrão: “Eles falhavam muito por causa da agricultura. Os pais queriam pôr eles na roça,
limpar o feijão, o milho”, o que exigia a visita da diretora, que incentivava a presença dos
alunos na escola: “Tinham aula também à noite no colégio, a gente levava a bateria, tinha uma
turma dos que tinham 17 anos [...]”. 129 Com isso nota-se que, no meio rural, valorizava-se
mais o trabalho do que o estudo, o que exigia um constante incentivo para que os alunos
freqüentassem as aulas.
As atividades religiosas, como casamentos e batizados, eram realizadas na igreja
Nossa Senhora da Conceição Aparecida; depois, na igreja Santa Terezinha e, na década de
1960, na paróquia São Cristóvão, que passou a ser a mais próxima do distrito. As famílias
reuniam-se em torno dos capitéis e das capelas existentes no distrito para rezar o terço aos

127
STRELLO, Henrique José. Entrevista...
128
Idem.
domingos à tarde e para as atividades de lazer, com a maior participação de jovens e dos
homens, pois as mulheres não tinham uma vida social ativa nesse período.
Quando se iniciaram as celebrações religiosas no meio rural, uma vez por mês, havia
necessidade de buscar o padre a cavalo na cidade; nos demais fins de semana faziam-se os
costumeiros encontros para as atividades religiosas e de lazer, entre as quais as corridas de
carreira, que eram realizadas na sede de São Roque e no Capinzal.
À noite, principalmente aos sábados, as famílias reuniam-se nas casas dos vizinhos,
no chamado “filó’, ou “batiam surpresa” nos aniversários. Confo rme relata uma entrevistada:
“Vinha bastante gente de noite escutar as novela. Quando tinha trovador, algum programa
gaúcho, o garoto de ouro [...] amontoava gente de noite pra escutá”. 130
De acordo com Tedesco, “a comunidade sempre funcionou como construção de uma
reciprocidade social, familiar e de vida religiosa, ‘um lugar de encontro’, uma forma de
compensação aos desencontros, isolamentos, sofrimentos e individuações cotidianas”. 131
Eram nesses encontros que também acontecia a socialização do saber, ou seja, a troca de
experiências entre vizinhos. Mas assim como se reuniam para o lazer, eles também se
reuniam para o trabalho, pois os laços de solidariedade entre os vizinhos faziam-se presentes
na realização das tarefas mais árduas, ou que exigiam rapidez na execução, como nos
mutirões na época da colheita ou da trilhagem do trigo. No entender de Marin:

O mutirão caracterizou-se por ser um processo cultural e tradicional que envolve mais de uma
família para prestar um trabalho sem visar algo em troca. É uma atitude de solidariedade
vicinal que se torna possível pelo alto grau de parentesco entre as famílias e porque todos se
identificam como colonos. 132

Os mutirões complementavam a força de trabalho familiar, mas não aconteciam nos


moldes capitalistas, pois não havia transformação da força de trabalho em mercadoria. 133
Faziam-se os mutirões quando o trigo ficava pronto, para que não se demorasse na colheita,
com a conseqüente perda da produção. Segundo Bayma:

129
FERRÃO, Weber Maria. Entrevista concedida a Sirlei de F. Souza.
130
NADAL, Terezinha Lourdes. Entrevista concedida a Sirlei F. Souza em 4 fev. 2002.
131
TEDESCO, Terra, trabalho e família: racionalidade produtiva e ethos camponês, p. 88.
132
MARIN, Orlando Joel. Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural. Dissertação (Mestrado
em Extensão Rural) – UFSM, Santa Maria,1991, p. 105.
133
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 106.
Sob pena de as espigas degranarem com facilidade quando lhe tocarem a ferramenta ou as
máquinas de cortar. É fase em que o tempo deve estar seco, - condição nem sempre presente.
Nessa altura, a ocorrência de chuvas mais ou menos pesadas não só impede o trabalho da
colheita, como ocasiona os consideráveis prejuízos de cujos exemplos fomos testemunha, em
novembro-dezembro de 1958, sobretudo no Rio Grande do Sul. 134

De acordo com o exposto, compreendera-se a necessidade dos mutirões e a prontidão


dos agricultores em realizarem o trabalho nas propriedades dos vizinhos, pois consistia numa
troca de favores que garantia a produção familiar. Dessa forma, quando um agricultor
prestava algum serviço na propriedade do outro ficava subentendido que também seria
auxiliado quando necessitasse. Segundo Tedesco:

A solidariedade também não é algo natural e gratuito. Há princípios de solidariedade que se


fundam na auto-ajuda, na prestação de serviços, na troca de bens e/ou mercadorias, no
empréstimo de produtos no momento de carência, bem como de dias de serviço, etc. No
entanto a solidariedade precisa ser recíproca; há um grau de cobrança que não é explícito, mas
que regula o grau de solidariedade e o “crédito” futuro.135

Após se reunirem em mutirão, os agricultores cortavam o trigo com a foice,


amarravam-no em feixes e depositado nos galpões até o momento da trilhagem, que consistia
em separar o grão da palha deixando-o pronto para a moagem. Essa tarefa era feita com uma
trilhadeira, que poucas famílias conseguiam adquirir na época; assim, aqueles que
conseguiam comprá- la prestavam serviços aos vizinhos.

134
BAYMA,C. Trigo. Estudos Técnicos. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, 1960, p. 145.
135
TEDESCO, Terra, trabalho e família: racionalidade produtiva e ethos camponês, p. 117.
Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 3 - Colheita manual do trigo no distrito de São Roque.

Fonte: Acervo pessoal da família Strello . Fonte: Acervo pessoal da família Rosso

Figura 4 - Mutirão para a colheita manual do trigo. Figura 5 - Trilhadeira utilizada na colheita do
Trigo.
Era comum os proprietários de trilhadeira passarem dias fora de casa na época da
colheita, prestando serviços nas redondezas ou em outros distritos. Segundo entrevista com
Ari Rosso:
Levavam seis meses trilhando trigo. Cada família plantava sua lavoura de trigo, cortava e
guardava no galpão, esperando que a trilhadeira viesse. Eles começavam a trilhar o trigo aqui
de São Roque e iam parar lá em Bela Vista. Não existia muitas trilhadeiras na época. Eles
ficavam fora de casa, dormiam debaixo da trilhadeira, no sereno. Levavam uns pelegos, umas
cobertas e dormiam na roça. Aquela família trazia comida pra eles e, assim, eles trabalharam
muitos anos nessa atividade aqui em São Roque e na região. Tinha menos moradores nos
anos 60-70, aí o número de moradores era bastante. Tinha a família do finado Benjamim, que
era meu avô, e os irmãos; a família Michel, os Donato, os Strellos, que foram as primeiras
famílias que eles falavam que trocavam serviços, se visitavam. 136

Como nem todas as famílias tinham trilhadeira, são visíveis na entrevista as


dificuldades que envolviam a realização da atividade com o trigo. Conforme depoimento de
Orlando Rovani: “Os proprietários de trilhadeira eram os Badalotti, os Fabiani, a família
Rosso. Cobravam tanto por medida, que era uma lata de querosene. Colocava dentro do saco
de estopa tantas latas, era o valor da trilhagem. Eles passavam a noite, era galinhada, comiam
bem porque era serviço pesado [...]”. 137 Portanto, ao momento da trilhagem era atribuído um
significado simbólico que ia além do econômico, pois significava a garantia da alimentação.

O sustento da família dependia dos alimentos que produzia; por isso, a colheita era
comemorada com as pessoas que contribuíam para tal realização. Com a produção agrícola
garantida, uma parte destinava-se ao consumo familiar e o excedente era comercializado nas
casas de comércio ou nos moinhos do distrito ou da zona urbana.
O comerciante desempenhou um papel expressivo no distrito, pois abastecia os
colonos com as mercadorias de que mais necessitavam em troca dos produtos coloniais. A
importância do comércio para o município foi ressaltada no Guia Ilustrativo do município de
Passo Fundo:
O comércio é dos mais importantes, tanto na sede, como nos distritos, onde se encontram casas
de ramos gerais, que trabalham com avultado capital, outorgando largos créditos aos colonos,
que assim descansadamente podem esperar os resultados das várias colheitas para cancelar as

136
ROSSO, Ari. O entrevistado residiu no distrito de São Roque, trabalhou no Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Passo Fundo no período de 1971-1976 e atualmente é diretor presidente do Banco Sicredi da Regional
de Passo Fundo.
137
ROVANI, André Orlando. O entrevistado trabalhou no moinho de São Valentim e também foi líder do
Clube 4-S daquela localidade.
dívidas contraídas durante os meses em que se dedicaram à lavoura dos campos e à exploração
de outras indústrias. 138

O comércio de secos e molhados de Pedro Barufaldi, em São Roque, e o de José


Rovani, que depois passou a ser de Albino Tiecher e Valdemar Tiecher, em São Valentim,
foram os mais citados por serem considerados “fortes” na opinião de entrevistados, moradores
do distrito. O armazém ou casa de comércio considerado “forte” era aquele que vendia todo
tipo de mercadoria, como fazendas, linha, gravata, botina, tamancos, querosene, sal, açúcar,
fósforo, além de ferramentas e máquinas de costura. Esses eram os produtos mais solicitados
pelos agricultores, adquir idos em troca dos produtos que produziam na lavoura e também de
ovos, queijo, banha, aves, suínos.
Os comerciantes recebiam os produtos coloniais dos agricultores, como trigo, milho,
feijão, banha, suínos, estes colocados num chiqueiro nas proximidades até se completar uma
carga, quando então eram vendidos. Os suínos tinham uma importância econômica
significativa na região, primeiramente por causa da banha, produto de exportação, e, mais
tarde, da carne; assim, eram facilmente comercializados nos frigoríficos da região, como de
Serafina Correa, de Marau e também de Passo Fundo; nos frigoríficos ZD Costi e Planaltina.
Os demais produtos recebidos também eram vendidos nos armazéns e nos moinhos
localizados na zona urbana de Passo Fundo, alguns comerciantes levavam os produtos para
Porto Alegre.
Uma das queixas dos comerciantes eram as dívidas dos agricultores, o que levou
alguns à falência. Isso mostra também as dificuldades por que passavam os agricultores, que,
prejudicados pelas más colheitas, sem dinheiro, ficavam em débito com o comerciante; eles
depositavam os produtos e retiravam, aos poucos, o valor correspondente em mercadoria,
porém pagavam bem mais caro pelas mercadorias adquiridas.
O comércio também foi prejudicado quando o ônibus começou a circular no distrito.
De acordo com o entrevistado Valdemar Tiecher: “Foi um fracasso a vinda do ônibus pra
cidade, e ainda, em cima, tinha um porta- mala grande, colocavam uma lona pra cobrir as

138
Conforme pesquisa feita no Arquivo Histórico Regional de Passo Fundo. Guia ilustrativo do município de
Passo Fundo, 1939.
mercadorias [...]”. 139 Ainda relata Tiecher que nem todos os agricultores vendiam seus
produtos nas casas de comércio do distrito: “Algum agricultor mais ativo vinha com sua
carrocinha, terno de mula pra cidade”140 . Os carroceiros levavam seus produtos para vender
nas casas, nos armazéns, nas pensões, hotéis, nos colégios instalados na cidade; saíam de
madrugada e retornavam à noite e precisavam ter o registro de tração animal, conforme a
Figura abaixo.

Fonte: Acervo pessoal de Lurdes T. Nadal


Figura 6 - Carta de condutor de tração animal

Segundo Verzeletti, na secção São Roque havia 61 proprietários de carroça,


somente uma da espécie GP ( grande e de uso particular ); as demais eram PP ( carro pequeno
e de uso particular) e havia uma aranha particular, 141 o que sugere a intensa atividade dos
carroceiros no distrito.
O carregamento dos produtos na carroça seguia um ritual que envolvia a família toda,
especialmente a esposa, pois, na noite anterior, preparavam-se os produtos que seriam

139
TIECHER, Valdemar José. O pai do entrevistado foi proprietário da Casa de Comércio de São Valentim e,
qpós o falecimetno do pai, assumiu o estabelecimento; no final da década de 1950, iniciou o trabalho com
olaria. A entrevista foi concedida em 1º fev. 2002.
140
Idem.
141
VERZELETTI, S. C. A contribuição e a importância das correntes imigratórias no desenvolvimento de
Passo Fundo. Passo Fundo: Imperial, 1999.
vendidos na cidade. Os ovos eram enrolados em palha de milho para não se quebrarem; a
banha, colocada em latões, entre outros produtos, como leite, queijo, farinha de biju, palha,
verduras, legumes, frutas, mel, banha, peixes, galinha, porcos, lenha, telhas, dependendo das
encomendas recebidas.
Em 1950, os carroceiros abasteciam as feiras livres instaladas pela Prefeitura
Municipal de Passo Fundo com os produtos da lavoura e da indústria rural e doméstica. Essas
feiras funcionavam em locais e hora determinados pela prefeitura; os produtos eram expostos
nas banc as ou nos próprios veículos dos agricultores. A matrícula de feirante isentava do
pagamento de tributos. Nos dias de feiras livres, era proibida a venda a domicílio por
vendedores ambulantes; os produtos poderiam ser comercializados, apenas nas bancas. Eram
os “camelôs de verdura”, conforme Walter Maffi:

Aqui eu que comecei por causa de uma tradição do meu pai, Adelino Maffi, que morava no
Capão Bonito. Levava repolho, cenoura, batata-doce, mandioca, alface, essas coisas, cebola,
vagem. O pai plantava bastante ervilha. Eu também plantei muita ervilha, vendia verde, e a
seca vendia na Casa da Semente. Um dia antes arrumava a carroça. Com a carroça de boi, nós
ia até a praça. Tudo o que levava vendia, já tinha tudo tratado: cenoura pra um, vagem pra
outro. Eu saía daqui às quatro horas da manhã e chegava às sete. Era com uma junta de boi. O
o brabo era quando chovia e formava os atoleiros. Depois eu comprei uma parelha de mula;
daí, com os animais, em duas horas eu ia, porque o animal troteia, e o boi tinha que
acompanhar o passo do boi. Quando comecei carrocear já não tinha tantos carroceiro aqui. São
Valentim era a zona da alfafa. Era vendida pro quartel, ia por viação férrea, pro quartel de Cruz
Alta, isso na década de 40. Eu vim morar aqui em 56. 142

As feiras livres foram, portanto, criadas para regulamentar o intenso comércio que
envolvia carroceiros que vinham do meio rural para vender seus produtos na cidade. O
vínculo com o meio urbano já se fazia presente e com o objetivo de negociar. Quanto aos
agricultores que não dispunham desse meio, vendiam seus produtos aos comerciantes do meio
rural, os quais pagavam menos pelos produtos.
Até a década de 1960, os agricultores não aplicavam adubos e fertilizantes na lavoura
nem compravam sementes, pois guardavam- nas quando colhiam e também as trocavam com
os vizinhos. Utilizavam-se da técnica do pousio, que consistia em deixar a terra descansar por
um certo período de tempo; assim, derrubavam mato para obter novamente terras férteis para
a lavoura. Cultivavam uma diversidade de produtos agrícolas, como verduras, legumes,

142
MAFFI, Luiz Walter. O entrevistado trabalhou como agricultor, carroceiro, foi lider do Clube 4-S de São
José e participou da diretoria da Coopasso de Passo Fundo.
feijão, arroz, o milho, este que, além da farinha para o consumo, era utilizado também para o
sustento dos animais; o trigo, que dinamizava o trabalho nos moinhos coloniais e que, a partir
da compra estatal, introduziu o pequeno agricultor nos negócios financeiros via bancos e
cooperativas.
No final da década de 1960, os agricultores começaram a aplicar novas técnicas no
cultivo do trigo, orientados pela extensão rural e estimulados pelos Clubes 4-S, com o que,
aumentou a produção. Na década de 1970, iniciou-se a produção de soja no distrito de São
Roque, que acarretou um maior contato dos colonos com meio urbano, os quais se
introduziram no mundo dos negócio s. Nesse período em que os pequenos agricultores
modernizaram as técnicas agrícolas, as safras de trigo e soja alcançaram resultados
surpreendentes, o que estimulou ainda mais a produção. A imprensa jornalística enfatizava os
excelentes resultados obtidos com esses produtos:

Triticultura e Soja atingem posição de liderança na vida econômica de Passo Fundo

Tecnologia, Crédito, Armazenamento e Comercialização: Problemas enfrentados com acerto


pela comunidade Passo Fundense – Plano de Recuperação do Solo (Operação Tatu) traz sua
contribuição para o aumento da produtividade.
O município de Passo Fundo assume uma posição de liderança na agricultura nacional, face à
evolução das culturas do trigo e do soja. Para que tenhamos uma idéia mais nítida sobre o
assunto, é suficiente que mencionemos as áreas cultivadas, com respeito à evolução da
triticultura, abrangendo as lavouras que giram sob a influência econômica de Passo Fundo: em
1966 a área cultivada era de 11.000 hectares; em 1967, 23.000 hectares; em 1968, 35.000
hectares e em 1969, 60.000 hectares.
Um crescimento dessa natureza criou problemas de magna grandeza, especialmente no que se
refere ao armazenamento de uma produção prevista para 1.000.000 de sacas para 1969. Os
setores responsáveis pela triticultura planaltina não recuaram diante da situação e enfrentam de
cabeça erguida o problema armazenamento, criando as condições necessárias para que o trigo
produzido possa ser guardado tecnicamente, para posterior comercialização.
A capacidade estática de armazenamento com que se contava efetivamente, no corrente ano,
receber 1.000.000 de sacas era a seguinte: CESA, 160.000 sacas; Armazéns da Cooperativa
Tritícola de passo Fundo, 250.000 sacas; sacas; armazéns da Secretaria da Agricultura, 50.000
sacas; conjunto Butler da CIBRAZEN, 100.000 sacas e pavilhões da Efrica, 120.000 sacas.
Como tal capacidade não fosse suficiente para fazer frente às necessidades, contou-se com a
colaboração da Fábrica de Pregos, onde podem ser armazenadas 200.000 sacas e do Frigorífico
Iaione, com capacidade de 130.000 sacas, estes dois últimos como solução de emergência [...].
143

A produção, portanto, superou as expectativas, o que se tornou um estímulo para os


pequenos agricultores investirem nos produtos de exportação, somado aos incentivos do
governo. Nesse período, o crédito era facilitado, a comercialização via cooperativas evitava
os intermediários (comerciantes) e a extensão rural orientava sobre as novas técnicas;
também no período, a Operação Tatu contribuiu para a ampliação da área produtiva, pela
aplicação de técnicas para a correção da acidez do solo.
A partir da modernização agrícola, muitas alterações ocorreram na vida das famílias
do distrito de São Roque, que passaram a investir em adubos, fertilizantes, tratores, máquinas
agrícolas, caminhões, viabilizados pelos financiamentos bancários. Nas cooperativas podiam
comercializar seus produtos e adquirir outros, especialmente eletrodomésticos, após a
instalação da eletrificação rural, que facilitou a vida na localidade de São Roque. Matéria
jornalística a respeito confirma essas constatações:

Vila Rosso – Uma comunidade onde a luz trouxe o progresso

É uma próspera comunidade do 1º distrito de Passo Fundo. O fundador João Rosso. Seu neto
Hermenegildo Rosso, fala ao J.F. “ Faz 59 anos que moro aqui. Vim com três anos de idade de
São João do Polêsene. Este lugar era só mato. Meu avô, tinha comprado terras aqui. Ele tinha
quatro filhos e mudou-se com toda a família. Lá em Cachoeira do Sul eles tinham empresa de
arroz e serraria; como a madeira estava pouca e aqui tinha muito pinheiro, resolveram se
estabelecer aqui. Vieram desbravando sertões”.
As famílias mais antigas do lugar são os Rosso, Mainardi, Cassola e Zanon. Dona Tereza, mãe
de Hermenegildo, 85 anos fala daqueles tempos: “ Tivemos que trabalhar duro nos primeiros
anos. Economizar sempre. Não tinha casa e eu só chorava de saudade de lá da nossa terra.
Hoje todo mundo fala de crise e que não tem dinheiro, mas senhor, vê que festas, bailes,
churrascos, em toda parte. Antigamente não se via.” Hermenegildo continua: “ A coisa mais
difícil era de noite no frio, levantar da cama para esquentar uma mamadeira para as crianças,
em cima de uma velinha ou de um maçarico. Quem ia sonhar que um dia a gente ia Ter luz!
Hoje ainda há pessoas que se queixam, mas sem razão. Ruim eram os tempos antigos”.
A luz elétrica iniciou na região por iniciativa do Sr. Tranqüilo Grazziotin. Bem no início, diz
Hermenegildo, nós éramos só três. Custou muito sacrifício; foram feitas reuniões aqui, em São
Roque, São Valentim foi indo. Sorte também tivemos porque o Sr. Augusto Trein ajudou. Daí
ficou mais fácil. Um aqui, outro lá e conseguimos formar uma turma, porque todos queriam ir
prá cidade, aqui não tinha conforto. Todos queriam luz. Forçamos e conseguimos. Para nós
da colônia, ela foi muito importante. Contribuiu para diminuir o êxodo rural”. 144

Com o exposto, evidencia-se a importância que teve a eletrificação rural no


arrefecimento do êxodo rural por proporcionar mais conforto ao agricultor tanto na sua
residência como no trabalho, sobretudo nas olarias. Nesse período, solidificou-se o trabalho
da Cooperativa Tritícola de Passo Fundo, conforme esta matéria jornalística:

143
Triticultura e soja atingem posição de liderança na vida econômica de Passo Fundo. O Nacional, Passo
Fundo, 28 nov. 1969, p. 46.
144
Vila Rosso – Uma comunidade onde a luz trouxe o progresso. Jornal da Família, Passo Fundo, nov./dez.
1982, p. 6.
Já a muitos anos a Cooperativa tritícola de Passo Fundo Ltda vem se destacando pelo trabalho
construtivo em prol dos triticultores passofundenses. Estes, acorrendo ao seu órgão, tem
encontrado toda a ajuda necessária a alcançar excelentes colheitas, ótimas não apenas em se
falando de rendimento mas na qualidade de cereal-rei obtido. Anualmente, a cooperativa
tritícola de Passo Fundo Ltda carrega para seus depósitos, milhares de sacas de trigo e de soja,
produtos de excelente qualidade e produzidos graças ao trabalho bem orientado dos técnicos
que servem à Cooperativa. Aí, os triticultores constituem uma grande família, todos
preocupando-se, unicamente, em produzir trigo e soja ou do Rio Grande do sul mas também de
outros estados vizinhos. Em cada saca de trigo ou soja que chega a seus depósitos ou que é
embarcada em um veículo para ser transportada a outra cidade, a Cooperativa Tritícola de
Passo Fundo Ltda., vê solidificar a sua ação congregadora, dando a parcela de contribuição por
uma agricultura mais modernizada, calcada em bases racionais e dentro das técnicas mais
elevadas do bom cultivo. 145

Com o exposto constatamos que as cooperativas serviam como instrumentos do


governo para a modernização agrícola e auxiliaram na introdução do pequeno agricultor nesse
processo.
No final da década de 1970, começaram os problemas relacionados à monocultura,
com o endividamento dos agricultores e o êxodo rural, que atingiu o meio rural como um
todo, conforme exposto anteriormente. As alterações ocorridas no meio rural não se
restringiram apenas à agricultura, mas afetaram também a vida social das famílias e a
produção do artesanato, conforme será abordado no item que segue.

2.4.2 Os estabelecimentos comerciais e industriais do distrito de São Roque

Além da lavoura, os agricultores desenvolveram outras atividades, dedicando-se à


fabricação de produtos de base artesanal, nas horas livres, como chapéus de palha de
trigo, cestas, baldes de madeira, gamelas, tamancos, entre outros. Esses, posteriormente,que
passaram a ser fabricados nos estabelecimentos comerciais/industriais de base artesanal
instalados no distrito.
No distrito de São Roque, havia uma população significativa, que se tornou clientela
para os diversos estabelecimentos que existiram no período de 1950-1980, entre os quais
leitarias, açougues, armazéns, alambiques, moinhos, selaria, ferraria, olaria, pedreiras. 146
Segundo Roche:

145
Solidifica-se o trabalho da Cooperativa de Passo Fundo. O Nacional, Passo Fundo, 5 jul. 1969, p. 16.
146
Dados obtidos junto à Secretaria Municipal da Fazenda da Prefeitura Municipal de Passo Fundo.
A fragmentação da pequena propriedade de certo modo favoreceu o desenvolvimento
do artesanato. A atividade artesanal esteve tão bem ligada ao mesmo tempo à falta de
terra e à falta de trocas, que o mesmo indivíduo exercia, muitas vezes, além da
agricultura, dois ou três ofícios simultaneamente. 147

Dessa forma, constatamos que muitas atividades foram desenvolvidas paralelamente à


agricultura e que alguns produtos, inclusive, passaram a ser fabricados em estabelecimentos
específicos, o que não deixa de significar, também, a superação da primeira fase de auto-
sustentação, na qual os colonos haviam se dedicado exclusivamente à lavoura. Para
conseguirem os recursos financeiros para a instalação desses estabelecimentos, os colonos se
associavam entre irmãos ou vizinhos.
Os estabelecimentos que mais se destacaram economicamente foram as olarias e os
moinhos, cujos produtos atraíam a população da zona urbana para o meio rural.

a) As olarias
Na década de 1960, as olarias de telhas foram os estabelecimentos que mais
dinamizaram economicamente o distrito de São Roque, vendendo seus produtos para o
município de Passo Fundo, para os municípios vizinhos e também para outros estados, como
Paraná e Santa Catarina.
A dificuldade de se manterem apenas com a agricultura levou muitos agricultores a se
dedicarem a outras atividades, visando conseguir um rendimento maior para o sustento da
família. Nas entrevistas, os agricultores relataram a dificuldade de obterem dinheiro na
época, o qual pouco circulava no meio rural, pois eles dependiam da safra e muitas vezes
trocavam alguns produtos por outros. Conforme entrevista com Ari Rosso:

Não é uma atividade que tenha deixado as pessoas ricas, mas é uma forma de uma família se
manter na propriedade. Não tem como se manter só com uma atividade, com o soja, com o
leite, tem que ter uma atividade paralela. A grande maioria dos filhos que hoje se formaram
que estão na cidade, foi as olarias, as indústrias que contribuíram para profissionalizar essa
gente. Encaminharam os filhos e alguém ficou lá [...].148

147
ROCHE, J. A A colonização alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1969, v. 2, p. 486.
148
ROSSO, Ari. Entrevista...
Assim, quando os moinhos começaram a fechar, o trabalho com olarias tornou-se a
nova opção. Como já existiam algumas no distrito, a técnica de produção de tijolos e telhas
foi se difundindo, favorecida pela abundância da matéria-prima essencial para o trabalho, o
barro e, pelo mercado que se abria para o produto oferecido na década de 1960. Conforme
entrevista feita, “onde tinha um sapo que cantava num banhado já tinha uma olaria
montada”. 149
Foi assim que se expandiu o número de olarias no distrito, iniciadas geralmente por
meio de uma sociedade, para facilitar a aquisição do material necessário para a instalação.
As primeiras olarias do distrito destinavam-se à produção de telhas, utilizando-se de um
sistema artesanal no qual eram feitas uma a uma, modeladas numa forma de madeira. As
telhas feitas a mão, mais tarde, foram substituídas pelas francesas, fabricadas com o uso de
uma prensa; a partir de 1960, só esse tipo de telha era fabricado no distrito. Com a utilização
da prensa, além de melhorar a qualidade do produto, facilitou-se o trabalho.
Após fabricadas, as telhas eram levadas à cidade em carroças com ternos de mula. De
acordo com o entrevistado Deodado Rosso: “Eu e meu mano, nós fazia duas viagem por dia
de manhã, com os boi, porque era mais fresquinho. Lá no Boqueirão se levava, atravessava
toda a cidade. Caminhão era um lá que outro e, de tarde, com os animais, outra carguinha de
carroça”. 150
A expansão do comércio de telhas nas olarias esteve relacionada, inicialmente, com a
urbanização do município de Passo Fundo, pois os oleiros relataram que as vendiam para a
construção dos estabelecimentos e residências que se instalaram no município, como Posto
de Saúde, frigoríficos, Turis Hotel, etc. A imprensa local fez referência a esse fato:

É construída uma casa por dia em Passo Fundo

Notável é, sem dúvida, o desenvolvimento de Passo Fundo, que vai crescendo num ritmo
acelerado, de modo que o cognome de Metrópole da Serra vem a ser-lhe aplicado com inteira
justiça.

149
ROSSO, Deodado. Entrevista concedida a Sirlei de F. Souza no dia 24 jan. 2002.
150
Idem.
Em verdade, por onde quer que se lance os olhos, pelo centro ou por qualquer dos bairros,
vêem-se casas em construção ou casas construídas que vão remodelando, paulatinamente, o
antigo aspecto da cidade.
Segundo o relatório apresentado pela Prefeitura Municipal, ainda não divulgado, nada menos
de 365 casas foram construídas durante o ano findo de 1950 e, por pasmosa coincidência, esse
é o número exato das construções realizadas aqui, de forma que foi construída em Passo Fundo
uma casa por dia, exatamente. Isso porém, sem contar, as reconstruções que atingem o número
de 62.151

Além da urbanização, a expansão do comércio de telhas teve uma estreita ligação com
o comércio de suínos com os frigoríficos ZD Costi e Planaltina, instalados no bairro São
Cristóvão em Passo Fundo. Na década de 1960, muitos comerciantes das cidades vizinhas
vendiam os suínos nos frigoríficos de Passo Fundo e, em sua volta, passavam pelo distrito de
São Roque e carregavam telhas. Com isso, muitos oleiros não precisavam sair dos seus
estabelecimentos para vender, pois eram os compradores que procuravam o produto.
O comércio de telhas realizava-se também com os estados de Santa Catarina e
Paraná, o que, segundo alguns relatos, pode ser explicado pela intensa instalação de
chiqueirões. Segundo entrevista com Deodado Rosso:

Foi com o que a turma começou a se arribar um pouco. Depois que começou a dita
olaria, o pessoal começou a comprar um caminhãozinho, ou um pedacinho de terra.
Só com a agricultura, naquela época tudo a mão e enxada, dava mal a pena para
sobreviver, e construir olaria um só não era fácil. Então se reunia em dois três sócios
entre irmãos ou vizinhos. 152

A fabricação de tijolos era desenvolvida paralelamente à de telhas, porém em menor


quantidade, por falta de comércio, pois não eram utilizados na fabricação das casas, as quais,
então, eram feitas de madeira e cobertas de telhas. As vendas de telhas começaram a
diminuir na década de 1970, período que coincidiu com a redução da venda de suínos,
quando a banha foi substituída pelo óleo de soja; houve a substituição das telhas francesas
pelas de cimento amiento e, com o aumento das construções de alvenaria, ampliou-se o
mercado para a venda de tijolos.
O trabalho nas olarias desenvolvia-se paralelamente à agricultura e envolvia todos os
membros da família. Observamos que os conhecimentos que os oleiros adquiriam ao longo do
tempo transformavam-se no saber técnico, na arte de trabalhar o barro, que era transmitida

151
É construída uma casa por dia em Passo Fundo. O Nacional, Passo Fundo, 8 jan. 1951, p. 1.
152
ROSSO, Deodado. Entrevista...
aos demais membros da família, passando de geração a geração. Nas primeiras olarias, o
trabalho era basicamente familiar, pois os jovens da família auxiliavam; caso fosse
necessário, contratavam-se outros, parentes ou vizinhos que trabalhavam “por dia”. Quando,
entretanto, as vendas começaram a aumentar e faltava mão-de-obra para realizar o trabalho,
passou-se a contratar empregados, os quais, em muitos casos, residiam em casas dos oleiros
ou em algumas peças da sua própria residência. Alguns empregados eram diaristas, ou seja,
vinham todos os dias da cidade para trabalhar na olaria e faziam as refeições na residência
dos oleiros.
Assim, ora fabricando telhas, ora tijolos, os oleiros adaptaram-se às exigências do
mercado e permaneceram na sua atividade. São as redefinições que acontecem no meio rural,
as novas estratégias de sobrevivência, que estão relacionadas a aspectos do contexto em nível
global, como a crescente industrialização, urbanização e modernização agrícola, que
repercutiram também sobre os moinhos coloniais, conforme veremos a seguir.

b) Os moinhos coloniais
Os moinhos coloniais eram os únicos estabelecimentos procurados pelos colonos para
a realização da moagem (transformação dos grãos em farinha) no meio rural e atuaram,
efetivamente, no período que antecedeu a compra estatal do trigo nacional, bem como o
subsídio da farinha, que limitou as atividades desses estabelecimentos. No distrito de São
Roque, funcionaram alguns moinhos coloniais, que atendiam os moradores da localidade e
também de outros distritos ou das proximidades, dinamizando economicamente o meio rural.
A proliferação dos moinhos no Rio Grande do Sul é atribuída aos imigrantes alemães e
italianos, que se dedicaram à produção agrícola diversificada na pequena propriedade. Com
o isolamento dos centros urbanos no início da imigração, tornava-se necessário criar
uma infra-estrutura para a sobrevivência das famílias, o que levou a que os agricultores
aplicassem o conhecimento técnico adquirido na Europa na fabricação de produtos artesanais,
visando também ao complemento da renda.
Segundo De Boni, inicialmente, o interesse do governo brasileiro era de trazer
imigrantes para desenvolver a agricultura:

Para receberem os benefícios concedidos pelo governo, passagens, lotes, transportes, etc., nos
documentos oficiais, todos se denominaram lavradores. Sob esse título as verdadeiras
profissões ficavam escondidas. Isto só seria corrigido nas sociedades de mútuo socorro,
organizações que não permitiam sócios que não fossem homens italianos ou descendentes de
italianos, quando então a profissão principal era revelada. Entre estas destacavam-se as mais
ligadas à construção, tais como muratore, construtore, fabro-ferraio ou seja pedreiro,
construtor, marmorista, serralheiro. 153

Os imigrantes instalaram, portanto, ferrarias, sapatarias, olarias, moinhos, pequenas


indústrias alimentícias e contribuíram para incrementar a economia do estado, pois muitos dos
produtos fabricados na colônia chegavam ao mercado de Porto Alegre por intermédio dos
comerciantes. Conforme Roche:

Não se trata tanto de um aparecimento como de um “ ressurgimento” do artesanato, banido


na primeira geração pela organização oficial da colonização e pela luta pela sobrevivência,
mas que reapareceu na segunda geração, graças ao esforço dos colonos para melhorarem
suas condições de vida, e graças à elevação da prosperidade das colônias. Assim, o
artesanato associou-se à agricultura. 154

Portanto, logo que os imigrantes se instalaram nas áreas de colonização, organizaram a


produção agrícola e começaram a desenvolver atividades artesanais, dando continuidade a um
ofício que já conheciam na Itália, muitas vezes transmitido pelo pai ou pelo avô. Este foi o
caso de Francisco Milan, que, no Brasil, exerceu a mesma profissão que desenvolvia na Itália,
de “mugnaio”, ou seja, moleiro, primeiro em Caxias do Sul e, depois, no distrito de São
Roque, conforme as Figuras 7 e 8.

153
DE BONI, Luis A. (Org.). A presença italiana no Brasil. Porto Alegre: EST; Torino; Fondazione Giovani
Agnelli, 1990, v.2, p. 644.
154
ROCHE, A colonização alemã e o Rio Grande do Sul, p. 486.
Fonte: Arquivo pessoal de Lourdes T. Nadal
Figura 7 - Certificato di Matrimônio
Fonte: Acervo pessoal de Lourdes T. Nadal

Figura 8 - Certidão de registro de estrangeiro


A literatura clássica sobre a imigração enfatiza a distância e a dificuldade de acesso
aos moinhos nos primeiros tempos da imigração, quando os colonos levavam de três a
quatro dias para chegar até eles, carregando as mercadorias nas costas através de picadas,
atravessando rios. Isso sem falar nos animais ferozes, como a tigre, citada repetidas vezes
nos relatos dos imigrantes e que já se tornou parte da mitologia da imigração italiana. Mas
essa situação logo se modificou conforme Roche, pois, “num prazo inferior a dez anos, todas
as colônias dispunham de moinhos de cereais [...].”155
Conforme visto anteriormente, a partir de 1950 o município de Passo Fundo
apresentou bons resultados nas safras de trigo, mesmo que fosse cultivado com técnicas
bastante rudimentares. E com os incentivos governamentais visando ao aumento da produção
de trigo e à diminuição das importações do produto, a produção da região Sul foi destaque em
nível nacional; assim, este cereal passou a ser cultivado com sucesso nas áreas de campo, em
meio às barbas-de-bode.
Paralelamente ao aumento da produção de trigo na região, ocorria a proliferação dos
moinhos. Segundo Verzeletti, em 1938, entre sedes e distritos, havia em Passo Fundo 64
moinhos de trigo, 170 serrarias, um frigorífico, 36 ferrarias, 40 atafonas, oito curtumes, três
engenhos de erva- mate, quatro descascadores de arroz, uma fábrica de máquinas agrícolas; só
em Ernestina, havia trinta serrarias. 156 A instalação de moinhos reflete, portanto, o dinamismo
da produção agrícola nas áreas coloniais no período, principalmente com os produtos milho,
trigo, arroz.
Além dos moinhos coloniais, conforme já foi abordado, fizeram parte da indústria
moageira de Passo Fundo moinhos de porte maior, como o moinho Rio-Grandense, o moinho
Della Méa, o moinho São Luiz, da família Busato, o moinho Menegaz. Esses
estabelecimentos, juntamente com a rede de comércio instalada no meio rural, ambos
articulados aos granjeiros, absorviam a produção local, dinamizando ainda mais a produção
de trigo. 157 Os agricultores do distrito de São Roque traziam o trigo de carroça para vender
nos moinhos. Segundo relato de Walter Maffi, “havia filas de carroceiros para vender os

155
Idem. p. 481.
156
VERZELETTI, A contribuição e a importância das correntes imigratórias no desenvolvimento de Passo
Fundo, p. 130, 131 e 146.
produtos. As carroças tinham preferência: ficavam na frente e os caminhões por último, para
não cansar os animais”. 158
Já os moinhos de grande porte não realizavam a moagem para os colonos, serviço
que era prestado pelos moinhos coloniais, os quais produziam menos e de forma bastante
rudimentar, conforme se percebe por meio de documento que transitou na Câmara Municipal
de Passo Fundo solicitando uma diferenciação do imposto para os moinhos de uma e duas
mós:
Os moinhos coloniais, de uma e duas mós, são importante auxílio para os interioranos do
Município que, na moagem doméstica de trigo e milho, encontram boa fonte de renda que
contribui para manutenção de suas respectivas famílias, beneficiando ainda vizinhos. Em sua
maioria, moem milho e algumas vezes trigo, este somente nos de duas mós, o qual é
consumido na própria colônia. Cumpre, assim, evitar que tal forma de indústria, rudimentar e
pouco produtiva, venha a ser onerada por demais.
A farinha de milho, principalmente, é elemento importante na alimentação colonial e no
engorde de porcos. Há, entretanto, uma diferenciação nos moinhos de duas mós, e uma. Estes,
tem uma produção diária de 15 sacos de milho, isto havendo boa queda d’água. Os de duas
mós, também em boas condições, produzem em média 20 sacos por dia, entre milho e trigo.
Assim, é necessário que o moinho de uma mó seja menos onerado, por sua menor produção,
exclusivamente de milho. O de duas mós, poderá ter a tributação prevista na Proposta
orçamentária. 159

A maioria dos moinhos era de mó de pedra e funcionava com a roda d’água, ou seja,
com força hidráulica, que movimentava as correias, as quais, por sua vez, faziam girar as
mós de pedra e, assim, moíam-se os grãos. Na década de 1950, alguns moinhos passaram a
utilizar o cilindro, que, na época, era considerado um maquinário moderno, pois permitia
produzir uma farinha de melhor qualidade.
Os moinhos do distrito de São Roque eram bem movimentados e atendiam os
moradores vizinhos e também os que vinham de outras localidades, como Bela Vista,
Boqueirão, Capinzal, etc. Eram o ponto de encontro entre os conhecidos, que amarravam os
animais na sombra e acomodavam-se para esperar a moagem de seus produtos; alguns
marcavam o dia para vir buscar, outros esperavam até que o produto ficasse pronto. Em
momentos de pico da atividade agrícola, o trabalho de levar a moagem para o moinho era uma
tarefa destinada muitas vezes aos meninos.

157
TEDESCO, João Carlos. Madeireiras, comerciantes e granjeiros: lógicas e contradições no processo de
desenvolvimento socioeconômico de Passo Fundo (1900-1960). Passo Fundo: UPF, p. 123.
158
MAFFI, Luiz Walter. Entrevista...
159
PASSO FUNDO. Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo. Emenda Agenor Oliveira, 07/11/56.
Vários moinhos funcionaram no distrito de São Roque, havendo em cada localidade
de dois a três.

Fonte: Acervo pessoal de Orlando Rovani. Fonte: Arquivo pessoal de Eno Ferron

Figura 9 - Moinho colonial de São Valentin, Figura 10 - Moinho colonial de Ernesto Ferron
construído em 1939

Fonte: Acervo pessoal de Antônio Pierdoná

Figura 11 - Moinho a cilindro - Pierdoná & Cia


Os colonos levavam os produtos para serem processados nos moinhos e pagavam um
certo valor pela moagem ou deixavam o farelo em troca. O moinho dos Milan foi um dos
mais movimentados de São Roque e trabalhava dia e noite para vencer a demanda. A
existência de um dínamo nesse moinho possibilitava o carregamento das baterias, que
forneciam a iluminação necessária para algumas residências vizinhas e para a realização do
trabalho à noite, conforme nos relatou Lurdes T. Nadal:

O pai tinha moinho, descascador de arroz, criava um pouco de animal e trabalhava um


pouco na roça. Era um moinho de pedra, de trigo, milho e descascador de arroz. Os
agricultores plantavam trigo, milho, arroz e traziam até o moinho. E o meu pai moía o
milho e eles levavam embora a farinha de milho pra fazer a polenta; moía o trigo e
levavam embora a farinha pra fazer o pão. Pagavam uma importância a cada sessenta
quilos. O que sobrava dos fregueses ele comprava e ia pra cidade e vendia. Toda
semana era uma carroçada ou duas de farinha, ovos, salame, um pouco de queijo que a
mãe fazia. Naquela época vendia também nos hotéis, pensões, etc. O pai ficava todos
os dias até onze horas, meia- noite, uma hora quando tinha bastante serviço,
trabalhando no moinho, a luz era à bateria. O pai tinha duas bateria: uma pro rádio
dentro de casa e a outra então pra luz, naquela época dizia “dínamo”. Carregava
também pros freguês, tinha pouca gente que carregava a bateria. Trazia a moagem e
carregava a bateria, pagavam pra carregar a bateria pro rádio. Eram poucas as casas
que tinha luz: era nós, o Abrahmo Zanotto o Joaquim Escobar, que tinha monjolo e
também tinha dínamo, e o Antônio Casassola. 160

Com o exposto entendemos que os moinhos ofereciam o serviço de processamento de


grãos em forma de farinha, ingrediente indispensável para fazer o pão, a polenta, a massa,
alimentos esses que não podiam faltar na mesa do colono. Rovani, que era filho de moleiro,
recorda “que tinha polenta todas as noites. A gente aprendeu a rezar, a mãe mexendo a
polenta e nós ao redor rezando a Ave Maria [...]. O pai vendia na cidade a farinha de milho
que era feita no moinho. Também dava pros porcos, sempre tinha chiqueirão”. 161
Como vimos, os proprietários de moinho geralmente mantinham chiqueirões para a
criação de suínos e alimentavam os animais com o farelo que sobrava da moagem. Os suínos
eram vendidos na cidade, nas residências, em pensões, em matadouros; no final da década de

160
NADAL, T. Lurdes. Entrevista...
161
ROVANI, André Orlando. Entrevista...
1940, para o frigorífico ZD Costi e, a partir de meados da década de 1950, também para o
frigorífico Planaltina.

Nos moinhos geralmente funcionavam o descascador de arroz, o soque de erva e a


atafona, própria para fabricar a farinha de mandioca. Os moinhos a cilindro ofereciam uma
farinha de melhor qualidade, razão pela qual conquistavam a freguesia, constituindo-se em
fortes concorrentes para os moinhos de pedra, pois, além de trabalharem mais rápido, podiam
comercializar a farinha. Segundo uma das nossas entrevistadas:

O moinho desmoronou e a gente não teve como reformar porque naquela época
ninguém mais queria a farinha escura, preta. Era pura, era ótima, mas bem escura. O
trigo era bom, mas com as pedras não ficava uma farinha branca. Nós não podia
colocar a cilindro, porque se fosse a cilindro era mais melhor, daí diminuiu a procura,
o pessoal preferia o moinho a cilindro. Quando começou o cilindro, que era lá nos
Casanova, a gente perdeu toda a freguesia. Tinha também o moinho Nadal que era a
cilindro. E como não valia a pena moer só a farinha de milho, daí a gente trocou o
moinho pela olaria. 162

No trecho transcrito fica evidente que já havia concorrência no meio rural na época,
principalmente entre os moinhos, que investiam em maquinário mais sofisticado, como os de
cilindros, que obtinham um produto de melhor qualidade. Mas os moinhos a cilindro também
enfrentaram dificuldades por não poderem ampliar suas instalações e pela pressão sofrida
para venderem seus registros, pois somente os moinhos registrados na Sunab poderiam
comercializar a farinha. Além diso, havia os subsídios a esse produto, que, segundo
constatamos nas entrevistas, foi o principal motivo do fechamento desses estabelecimentos,
pois tornava-se mais lucrativo e prático para o agricultor vender o trigo para o Banco do
Brasil do que levá- lo ao moinho colonial, onde o custo e o tempo gasto para realizar o
trabalho não lhe ofereciam vantagens.
Com isso, os proprietários de moinhos de mó de pedra limitaram-se a moer milho ou
fecharam os estabelecimentos, passando a dedicar-se ao trabalho de fabricação de telhas, pois
o período em que os moinhos pararam de funcionar coincidiu com a dinamização comercial
das olarias. Portanto, a modernização agrícola, ao mesmo tempo em que estimulou a

162
PREVIATTI, Adile. O pai da entrevistada era proprietário de moinho no distrito de São Roque; a
entrevistada e sua irmã Nilva trabalhavam no moinho.
produção do trigo e da soja no meio rural, também levou ao fechamento dos moinhos
coloniais e, de certa forma, contribuiu para que aumentassem as vendas das olarias, conforme
foi abordado. Tudo isso deixou muitas famílias e jovens apreensivos no meio rural.
Na primeira parte deste trabalho, procuramos abordar alguns aspectos do contexto
socioeconômico regional e local considerados relevantes para a continuidade do estudo,
destacando a diferenciação ocupacional e econômica existente entre áreas de campo e áreas
de mata, que se reduziu consideravelmente com a modernização agrícola, quando pequenos,
médios e grandes produtores passaram a investir nos produtos de exportação.
Ressaltamos que foi expressiva a contribuição das áreas de imigração, com seus
produtos agrícolas e artesanais, para a formação do mercado interno, os quais eram levados
para a capital, Porto Alegre, por intermédio dos comerciantes; alguns desses produtos
passaram a ser industrializados, obtendo boa aceitação no mercado. Destacamos que a
migração dos descendentes de imigrantes em busca de terras férteis para produzir contribuiu
para a ocupação da região do Planalto.
Nas áreas em que a agricultura era mais desenvolvida, havia uma estrutura industria l
formada por frigoríficos, moinhos, cooperativas, que dinamizavam a comercialização dos
principais produtos econômicos da região. As indústrias, que antes se destinavam
principalmente à fabricação de bens não-duráveis, passaram a produzir bens duráveis, de
capital. Todavia, muitas dessas se desenvolveram com capital estrangeiro.
Com a expansão da produção dos produtos de exportação trigo e soja, que tiveram
grande destaque na região do Planalto, ampliou-se o mercado para os produtos industriais
voltados para a agricultura, como adubos, fertilizantes, equipamentos e máquinas agrícolas.
Delineamos um panorama geral de como aconteceu o processo de desenvolvimento
agrícola na região e também como os agricultores organizavam-se no meio rural,
especificamente, São Roque, que se localiza numa área de matas e terras montanhosas e foi
ocupado por imigrantes e seus descendentes, os quais, até o final 1960, praticavam a
agricultura tradicional, bastante diversificada, e comercializavam os produtos nas casas de
comércio, moinhos, frigoríficos ou nas residências na cidade. Da mesma forma, dedicavam-
se ao artesanato e fabricavam quase tudo de que necessitavam; alguns produtos passaram a ser
fabricados nos estabelecimentos que foram instalados no distrito, com destaque para as olarias
e os moinhos coloniais.
Muitos proprietários de estabelecimentos no meio rural fecharam suas portas e
passaram a trabalhar na cidade como barbeiros, sapateiros, ferreiros, etc. Conforme vimos
anteriormente, os moinhos coloniais foram prejudicados pela política governamental; as
vendas de telhas nas olarias reduziram-se consideravelmente após o surgimento das telhas de
cimento amiento e houve a queda da venda de suínos quando o óleo de soja passou a ser
consumido ao invés da banha.
Os agricultores apresentavam uma organização produtiva de acordo com os
conhecimentos que eram transmitidos de geração a geração, geralmente em conformidade e
também dependente das forças naturais. As alterações ocorridas na agricultura tradicional e
nos estabelecimentos de base artesanal no meio rural estiveram imbricadas num contexto mais
amplo, que estimulava a modernização da agricultura para obter o aumento da produção e da
produtividade dos produtos destinados à exportação. Esse processo também se refletiu na
urbanização de Passo Fundo, com a concentração de moinhos de grande porte, redes de lojas,
supermercados, indústrias, cooperativa, que passariam a abastecer a população urbana e rural;
desse modo, os colonos deixaram de comprar ou de fabricar uma série de produtos artesanais
As relações de comércio que envolviam colonos/carroceiros/ comerciantes/moleiros/
no meio rural foram substituídas pelas negociações diretas com bancos e cooperativas na
década de 1970. Assim, granjeiros e pequenos agricultores voltaram-se para a empresa rural e
deixaram de lado a agricultura tradicional diversificada, que contribuíra para o abastecimento
do mercado interno do Rio Grande do Sul e também do município de Passo Fundo, e
passaram a cultivar os produtos de exportação, trigo e soja.
Com a expansão dessas culturas intensificaram-se os arrendamentos na década de
1950 e 1960, bem como a apropriação de terras de campo e de matas. Com isso, ocorreu a
mercantilização e valorização da terra, juntamente com a mecanificação e tecnificação.
Acelerou-se o processo de desenvolvimento capitalista no meio rural com o intuito de
industrializar a agricultura, de ligá- la à estrutura cooperativista, mas não se cogitava em
promover alterações na estrutura fundiária. Esse processo também contribuiu para a
reestruturação do espaço urbano com o crescente êxodo rural. Foram muitas as alterações
ocorridas no meio rural a partir do processo de modernização agrícola, a qual esteve
relacionada aos Clubes 4-S. Conforme Marin: “A produção camponesa não é uma instância
isolada, mas está inserida de forma subordinada econômica-política-culturalmente ao capital.
Neste processo, a extensão rural surge como um instrumento de mediação entre grupos
hegemônicos e camponeses.”163
Em vista disso, os estímulos para que os pequenos agricultores abandonassem as
práticas agrícolas tradicionais e adotassem as novas técnicas partiram do trabalho realizado
pela juventude rural nos Clubes 4-S, sob a orientação dos extensionistas da Ascar, que
desempenharam o papel de intermediários na difusão de inovações, o que será abordado nos
próximos capítulos.

163
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 232.
II PARTE

JUVENTUDE RURAL X MODERNIZAÇÃO: O


DIFUSIONISMO E EXTENSIONISMO TÉCNICO E
CULTURAL TRANSNACIONAL (1950-1980)
Eu dou especial atenção a esse movimento
porque ele se dirige justamente a mocidade.

Costa e Silva

Nesta parte, procuramos mostrar como foi a introdução, a expansão e a participação


dos jovens agricultores do distrito de São Roque nos Clubes 4-S no período de 1960-1980,
que foi um dos trabalhos desenvolvidos pela extensão rural sob orientação da Ascar e as
alterações que ocorreram no meio rural em decorrência disso.
Inicialmente, fazemos algumas considerações sobre a definição dos termos de
“extensão rural” e “Clubes 4-S” e sobre os modelos clássico e difusionista-inovador, que
serviram de suporte para a introdução, bem como para a continuidade do trabalho no Brasil.
A seguir, contextualizamos a introdução da extensão rural no Brasil, que seguiu o modelo
norte-americano, a implantação dos Clubes 4-S no país e sua expansão para outros estados.
A partir daí, o trabalho centraliza-se no objeto de estudo, mostrando o envolvimento da
juventude rural, bem como dos agricultores nos Clubes 4-S, na organização dos clubes e no
desenvolvimento do trabalho de extensão e seus reflexos no cotidiano familiar, produtivo,
técnico e social dos agricultores.
Com o desencadeamento do processo de modernização agrícola muitas alterações
ocorreram no meio rural. Bruscamente, as práticas desenvolvidas pelos agricultores
tornaram-se defasadas diante da moderna tecnologia que estava sendo adotada na região do
Planalto. Dessa forma, a vida social, a agricultura e o artesanato praticados no período
anterior a 1960 sofreram modificações, com a introdução da tecnologia moderna, da
industrialização e da urbanização. Segundo Belato:

O capital encontrou, a nível mundial, na agricultura em geral e na agricultura camponesa em


especial, um poço sem fundo de valorização. Até o fim da Segunda Guerra mundial, o capital
subordinava, no chamado “terceiro mundo”, regiões e produtos selecionados. O salto
qualitativo produzido pelo avanço técnico-científico da agricultura não se situava apenas em
produtos selecionados e controlados a nível dos circuitos mercantis internacionais, mas
também e simu ltaneamente a jusante e a montante da produção agropecuária direta como um
todo. Não só os produtos selecionados, geralmente tropicais interessam à acumulação, mas a
totalidade das terras e dos produtores. Se considerarmos que imensos contingentes camponeses
e vastas áreas de terra estavam à margem da dinâmica da valorização, é fácil imaginar com que
volúpia o capital se lança sobre elas. São também bilhões de homens e mulheres disponíveis à
exploração. É isto que explica o interesse do capital pelo leite, trigo, feijão, milho, ovos,
verduras, legumes, mandioca, inhame, sorgo, etc. e a negação de as continuar produzindo
“tradicionalmente”. 164

Esse interesse do capital em nome da modernização agrícola foi percebido na região


de Passo Fundo, em especial no meio rural. Conforme visto no primeiro capítulo, os
pequenos agricultores não foram os pioneiros no processo de modernização agrícola e, sim, os
granjeiros, que conseguiram acumular capital em atividades relacionadas ao comércio ou à
indústria, passando a ver a agricultura como um negócio promissor.
Os pequenos agricultores, inicialmente, viram com descrédito os investimentos nas
áreas de campo e, sobretudo, os financiamentos bancários. Por isso, a adoção de técnicas
agrícolas modernas no final da década de 1960 por esses não ocorreu por sua própria
iniciativa, mas por serem impulsionados pela difícil situação que estavam vivendo no período,
em conseqüência do esgotamento do solo, e pelo trabalho de extensão rural realizado através
dos Clubes 4-S.
No decorrer do trabalho, será possível verificar que a participação dos agricultores do
distrito de São Roque de Passo Fundo foi intensa, pois foi o espaço que concentrou o maior
número de Clubes 4-S e teve vários artigos divulgados nos jornais locais. Assim, com este
estudo pretendemos compreender como ocorreu o ingresso dos pequenos agricultores no
processo de modernização agrícola, impulsionados pela juventude e por lideranças que se
formaram no meio rural.
Por meio da revisão de literatura sobre extensão rural constatamos que os modelos,
objetivos e a prática desse trabalho não nasceram aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos, o
que motivou as críticas a essa empreitada, especialmente ao que foi praticado no período de
1960 ao final da década de 1970. Entre as críticas feitas estão a falta de um estudo
aprofundado sobre a realidade do meio rural e o desenvolvimento agrário brasileiro para a
introdução desse tipo de trabalho e por estar a serviço do capital.

164
BELATO, Dinarte. Camponeses integrados. Dissertação (Mestrado) - Unicamp, Campinas, 1985, p. 2.
CAPÍTULO 3

NOÇÕES, CONCEITUAÇÕES, OBJETIVOS E FOCOS DO TRABALHO


DE EXTENSÃO RURAL

Apresentamos algumas definições sobre a expressão “extensão rural”, os modelos


clássico e difusionista- inovador que fundamentaram o trabalho de extensão rural e alguns
objetivos que embasaram o trabalho com a juventude rural nos Clubes 4-S.
As expressões “extensão agrária” e “extensão rural” podem ser entendidas como
sinônimos, por serem utilizadas na literatura referente à extensão rural. A maioria dos
autores refere-se ao trabalho de extensão como sendo educacional porque visava atingir as
famílias ou a comunidade do meio rural fornecendo- lhes orientações técnicas, econômicas e
sociais. Entre algumas dessas definições estão a extensão rural como um sistema educacional
e dinâmico, extra-escolar, não obrigatório, democrático e informal. O trabalho deveria
mobilizar a capacidade de liderança e de associativismo, levando aos habitantes do meio rural
os conhecimentos e informações necessários para a melhora do seu nível de vida,
desenvolvendo os aspectos técnicos, econômicos e sociais. 165
No Brasil, extensão rural é concebida como um serviço de assessoramento a
agricultores, a suas famílias, a grupos e organizações, nos campos de tecnologia da produção

165
ABCAR. 1ª Reunião de Especialistas em Treinamento. Rio de Janeiro:1958.
agropecuária, administração rural, educação alimentar, educação sanitária, educação
ecológica, associativismo e ação comunitária. 166
Bechara vê o trabalho de extensão com uma função exclusivamente educacional, por
possibilitar aos produtores, através de meios educacionais, resolverem seus próprios
problemas. Para o autor, extensão agrícola é educação; é educar os produtores rurais dentro
da agricultura. Das pesquisas e estudos feitos nas estações experimentais saem os resultados,
e à ação de levar tais conclusões ao meio rural é o que se chama “extensão” no sentido restrito
da palavra. 167 Segundo Caporal:

En Brasil, las definiciones de extensión siguieron exactamente las mismas tendencias de las
definiciones establecidas em USA. Así, desde sus origenes, la extensión es vista como una
atividad educativa, un processo de educación no formal, dirigido a hombres, mujeres y jóvenes
del medio rural. La relación entre agentes y clientes ocurre mediante un proceso de
comunicación, cuyo contenido tiene que ver com “nuevas ideas’, las cuales son difundidas a
través del uso de una “metodología de extensión”, desarrollada para este fin. Es decir, se trata
de una acción destinada a influir para que ocurran cambios en el medio rural. 168

Dado o apresentado, percebemos que o trabalho da extensão rural desencadearia


mudanças no meio rural através das novas idéias difundidas. Dessa forma, a extensão rural
seria intermediária para que chegasse aos agricultores o que estava sendo desenvolvido nas
estações experimentais e universidades. No entender de Bechara:

O papel das estações ou dos institutos experimentais é justamente este: experimentar aqueles
conhecimentos técnicos necessários para que haja uma boa produção econômica.
Concomitantemente observam, estudam, pesquisam e experimentam, obtendo conhecimentos e
dados que são levados aos produtores rurais. Esta ação de levar aos produtores rurais tudo
aquilo que os institutos experimentais concluíram chama-se extensão. Quer dizer, estender os
conhecimentos adquiridos nos campos experimentais aos produtores. 169

Esse caráter educacional assistencial enquadrou-se no modelo que ficou conhecido


como modelo clássico de extensão, cujo propósito seria o de transmitir conhecimentos ao
povo rural e levar os problemas por ele enfrentados às fontes de pesquisa. Conforme Fonseca,
esse modelo, oficializado pelo Estado americano e denominado pelos especialistas de

166
FIGUEIREDO, R. P. Extensão rural no Brasil: novos tempos. Revista Brasileira de Tecnologia, v.15 (4),
jul./ago. 1984.
167
BECHARA, Miguel. Extensão agrícola. São Paulo: Secretaria da Agricultura / Departamento de Produção
Vegetal, 1954, p. 149.
168
CAPORAL, F.R. La extensión agraria del sector público ante los desafios del desarrollo sostenible: el caso
de Rio Grande do Sul – Brasil. Tese (Doctorado) – Universidade de Córdoba, España, 1998, p. 42.
169
BECHARA, A Extensão agrícola, p. 17.
“modelo clássico”, é o que serviu de base à criação e à organização dos serviços de extensão
implantados nas regiões consideradas subdesenvolvidas a partir da Segunda Guerra
Mundial. 170
Os técnicos teriam o papel de promover condições para que o agricultor se
convencesse da eficiência das novas práticas agrícolas e, adotando-as, aumentasse a produção.
Conforme Bechara, a função dos técnicos não seria resolver os problemas dos produtores
rurais, mas, sim, ajudar a resolver. Os técnicos deveriam basear-se nos princípios americanos:
to help the farmers – to help themselves, e learnuing by doin, que significam: “ajudar os
agricultores a ajudar a si mesmos” e “aprender fazendo”. 171
Esse modelo clássico foi identificado por Caporal como asistencialismo humanista e,
segundo o autor, sustentou o extensionismo rural no período de 1948 a 1960. No Rio Grande
do Sul, desenvolveu-se de 1956 a 1960, período em que o extensionismo assumiu um caráter
mais social, de fomento ao meio rural. Caporal relata a respeito:

Foi un momento del extensionismo rural marcadamente centrado en la asistencia integral a las
famílias en todos los aspectos de su vida cotidiana e partía del supuesto que la mejoría del nível
de vida de las famílias rurales ocurría en consecuencia del aumento del nivel económico y
aquisición de nuevos hábitos, actitudes y habilidades, tanto en las atividades de producción
agrícola como en las tareas del hogar.172

A família e a comunidade constituíram-se no alvo dos agentes extensionistas, que


exerciam uma função semelhante à de um sacerdote e eram reconhecidos nas comunidades
por ajudar as famílias. 173 Marin considerou esse período como a primeira fase da extensão
rural, caracterizado pela mobilidade social, que se estendeu até 1968.174 Esse modelo
clássico que fundamentou os princípios do extensionismo, aos poucos, foi passando por
adaptações, complementações, perdendo as características iniciais. Fonseca atribui a
Everett M. Rogers a adequação do “modelo clássico” ao “mundo subdesenvolvido”,
produzindo o modelo difusionista-inovador, cuja raiz está na teoria difusionista produzida a
partir dos trabalhos desenvolvidos por antropólogos e sociólogos, sobretudo ingleses, no final

170
FONSECA, M. T. L. A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital. São Paulo: Loyola,
1985, p. 41.
171
BECHARA, Extensão agrícola, p. 18.
172
CAPORAL, La extensión agraria del setor público ante los desafios del desarollo sostenible: el caso de Rio
Grande do Sul - Brasil, p. 178.
173
Idem, p. 76.
174
MARIN, Orlando Joel. Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural. Dissertação (Mestrado
em Extensão rural), UFSM, Santa Maria, 1991, p. 29.
do século XIX e início do século XX como fruto das pesquisas realizadas nas zonas coloniais,
e na “teoria dos sistemas” de Talcott Parsons. 175 Conforme Rogers:

Los elementos principales de la difusión de idéias nuevas son; 1) la innovación, 2) comunicada


mediante ciertos canales, 3) en el tiempo, 4) entre los membros de un sistema social. Una
innovación es una idea, una práctica o un objeto percibido por um individuo como nuevo. Los
canales de comunicación son los medios por los cuales el mensaje se traslada desde la fuente al
receptor. Los mejores para dar a conocer una innovación son los medios masivos, pero los
más efectivos para formar y modificar actitudes hacia la nueva idea son los interpersonales. El
proceso de decisión sobre innovar es un proceso mental por donde pasa el individuo desde la
primera noticia de la innovación hasta decidir adoptarla o rechazarla, y confirmar después su
resolución.176

Dessa forma, tornava-se expressiva a eficiência da difusão, pois caberia ao indivíduo


a adoção ou não da inovação, e era nesse ponto que se tornava essencial o papel da extensão.
Assim, “um agente de cambio es un profesional dedicado a influir las decisiones de innovar
en las direcciones que considera convenientes”. 177 A difusão e a adoção das idéias novas
poderiam provocar mudanças estruturais, conforme expõe Rogers:

La estructura social consta de las posiciones de los miembros de um sistema social y la


organización que las abriga, como en el caso de las estructuras jerárquicas. La estructura social
del sistema actúa para obstaculizar o facilitar la tasa de difusión y adopción de ideas nuevas;
tales son los “efectos del sistema”. En un sistema social las normas, las posiciones sociales, la
jerarquía, etc., influyen en la conducta de sus miembros individuales. Varios estudios
evidenciam que los efectos del sistema pueden adquirir tanta importância como la educación, el
cosmopolitismo y cualidades parecidas entre los factores que explicam la capacitad individual
de innovar. La difusión también puede modificar la estructura social de un sistema, pues
muchas innovaciones acarrean com su adopción cambios de estructura.178

A teoria rogeriana difusionista- inovadora serviu de suporte para as mudanças que


ocorreram na filosofia extensionista na década de 1960, que objetivava a modernização
agrícola. Nessa nova perspectiva teórica, foi elaborado o plano quinqüenal da Associação
Brasileira de Crédito e Assistência Rural (1961-1965), que teve uma gr ande influência de
especialistas norte-americanos. O desenvolvimento da agricultura passou a ser visto como

175
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p. 42.
176
ROGERS, Everett M. La comunicación de inovaciones: un enfoque transcultural. México/Buenos Aires:
Centro Regional de Ayuda Técnica/AID, 1974, p. 41.
177
Idem, p. 42.
178
Idem, p. 42.
uma continuidade do desenvolvimento industrial; os produtos de exportação passaram a ter
prioridade; o crédito rural supervisionado foi substituído pelo crédito orientado destinado à
introdução de tecnologias agrícolas.

Com isso, consolidava-se o período que foi definido por Caporal como
“productivismo modernizador” do extensionismo, sustentado pela teoria difusionista-
inovadora e pelos princípios da modernização agrícola. Da mesma forma, Marin sustenta
que, a partir de meados da década de 1960, a extensão rural assumiu a “linha produtivista”. 179
Concluía-se, então, que o aumento da produção e da produtividade era o único
caminho para melhorar as condições de vida da população rural, o que exigia a difusão de
novas idéias e práticas, ou seja, a incorporação massiva de novas tecnologias.
No entender de Canuto, “o difusionismo se orienta à expansão econômica, via
tecnologia, e ao controle social por via da irradiação de atitudes e valores da classe
dominante. Mas tal prática só se efetiva quando formulada em políticas concretas (indicativas
e impositivas) pela mediação do Estado”. 180
Em 1966, as atividades de extensão rural passaram a ser coordenadas pelo Ministério
da Agricultura e deveriam seguir os planos do governo federal; logo, as diferenças entre as
ações na área econômica e social tornavam-se cada vez maiores, sendo que as ações
econômicas passaram a ter preferência.
As metas setoriais para a agricultura definidas pelo Primeiro Plano Nacional de
Desenvolvimento (1972-1978) baseavam-se na intensificação do uso de insumos modernos,
da mecanização agrícola e no incentivo aos programas de pesquisa e experimentação. Para
isso, na década de 1970 foram criadas a Embrapa, a Embrater e as Emater. Para desenvolver-
se e cumprir seu papel em relação à economia global, o setor agrícola deveria apresentar um
desempenho que conduzisse ao aumento da produção de alimentos e matérias-primas, tanto
para o mercado interno quanto para a exportação, em ritmo de acordo com a demanda, e à
melhoria da qualidade de vida das populações rurais. 181

179
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 55.
180
CANUTO, João Carlos. Capital, Tecnologia na agricultura e o discurso da Embrater. Dissertação (Mestrado)
– UFSM, Santa Maria, 1984, p. 55.
181
FONSECA, Luiz. O modelo de atuação da Embrater. 1985, p. 2.
O governo passou a centralizar a política de investigação e extensão visando à
modernização do setor agropecuário. Segundo Caporal, “el processo educativo de la
extensión deberia motivar a los indivíduos para la adopción de práticas agrícolas y
tecnológicas capaces de modernizar la agricultura y hacer dinámico el processo de cambio
social dentro de una perspectiva conservadora desde el punto de vista de las estructuras y del
poder“. 182
Para atingir tal objetivo, os agricultores deveriam mudar as técnicas habituais de
praticar a agricultura, ou seja, não se cogitava uma mudança na estrutura agrária que viesse ao
encontro dos interesses dos agricultores, mas uma mudança tecnológica, que viesse ao
encontro dos interesses governamentais. Assim, a extensão rural passou a centralizar o
trabalho na juventude rural, posto que os jovens seriam os futuros agricultores e aceitariam
mais facilmente as novas idéias, certamente difundindo-as no meio rural, de acordo com o
que será tratado no item a seguir.

3.1 A juventude rural como foco central

Um dos trabalhos da extensão rural com características difusionista- inovadoras foi o


desenvolvido com a juventude rural, conforme podemos observar nas diretrizes que
regulamentavam o trabalho com a juventude rural:

A juventude é portadora de cultura e instrumento de inovação. Sua importância numérica, a


possível melhoria do nível de ensino e o rápido processo de emancipação social, a que se junta
o alheamento das gerações mais velhas, fazem com que ela seja, no mundo de hoje, uma força
importante e potencialmente explosiva.
A juventude busca encontrar sua identidade política e seu papel na sociedade e no processo de
edificação nacional. Se deixada à deriva pode converter-se em fonte de conduta anti-social.
Daí a importância dos programas de ação juvenil, baseado na participação positiva dos jovens,
no esforço comum de pessoas e entidades e na instrução adequada, que permitam canalizar os
recursos da juventude para a ação no desenvolvimento sócio-econômico.
O jovem precisa ser preparado para uma participação consciente na sociedade, em diferentes
campos de ação, tais como: conhecimento real da situação sócio-econômica da comunidade,
participação consciente e efetiva na solução dos problemas da mesma, ou seja, com
conhecimento dos deveres e direitos da pessoa humana, integração nas diferentes instituições

182
Idem, . 85.
da comunidade (família, igreja, escola, trabalho, governo) e nos grupos nela existentes, apoio e
dinamização às forças latentes e atuantes da comunidade.183 (grifo nosso)

Diante disso, constatamos que os jovens assumiam um papel de difusores de


inovações pela sua força numérica, pela facilidade em aceitar idéias novas, bem como de
transmiti- las aos agricultores, os quais, adotando-as, poderiam mudar a maneira tradicional de
viver e, produzir e, assim, se enquadrar nas propostas de modernização agrícola. Esse
sentido utilitário de trabalhar com a juventude rural para alcançar o desenvolvimento pode ser
percebido no objetivo geral apresentado nas diretrizes que definiam o trabalho da extensão:

Em razão da deficiência de recursos humanos, da limitação dos recursos financeiros


disponíveis e da explosão demográfica que ameaça reduzir ainda mais esses recursos,
dificultando a adoção de métodos modernos de investimento educativo, deve-se desenvolver
um esforço comum no sentido de mobilizar os recursos latentes da própria juventude.
Para isso, é preciso dar ao jovem condições para que se descubra como pessoa humana,
aproveite os recursos à disposição e, assim participe do desenvolvimento. O programa
complementar de educação da juventude rural é um dos meios mais úteis e exequíveis para a
mobilização, em grande escala, dos recursos juvenis em prol do desenvolvimento.184

Além desses objetivos, várias outras razões eram apresentadas para envolver a
juventude rural na luta pelo desenvolvimento, entre as quais estavam:

a) A transição da agricultura tradicional para a agricultura moderna exige das pessoas maior
flexibilidade e capacidade de adaptação, que existem mais freqüentemente nas novas
gerações.
b) O trabalho educativo com os jovens constituiu uma inversão frutífera para o presente e
para o futuro; permite também abranger indiretamente os adultos.
c) Uma ação juvenil enérgica e consagrada pelo êxito incute na população rural a idéia das
responsabilidades e das oportunidades de melhoria de suas condições de vida.
d) O êxito financeiro que os jovens venham a obter, como conseqüência do emprego de
técnicas agrícolas e pecuárias adequadas, constituirá uma prova – quer para esses jovens,
quer para os adultos – da oportunidade que têm de elevar seu nível econômico,
funcionando como estímulo para que permaneçam no meio rural e participem ativamente
do seu desenvolvimento.
e) O processo de aprimoramento tecnológico há de acelerar-se com o transcurso dos anos. O
conhecimento, pelos jovens, das vantagens de uma tecnologia mais avançada, em seus
diferentes campos de atividade, acarretará o aumento de sua capacidade produtiva,
estimulando-os a continuar aprendendo depois de atingir a idade adulta.
f) As coletividades rurais necessitam de bons cidadãos, competentes para administrar
propriedades e lares, assim como de organizações de auto-ajuda (cooperativas, associações
agrícolas, etc.). As organizações juvenis proporcionam a seus membros oportunidade de
adquirir experiência e instrução em questões administrativas e diretiva, bem como de viver

183
ABCAR. O trabalho de extensão rural com a juventude. Diretrizes. Rio de Janeiro, 1967, p. 8.
184
Idem, p. 9.
a experiência da cooperação, atendendo, portanto, a uma das necessidades capitais do
desenvolvimento das coletividades.
g) Outro elemento indispensável do desenvolvimento comunal é a confiança na eficácia da
auto-ajuda. Essa atitude, suscitada pelo êxito decorrente das atividades dos grupos
juvenis, poderá influir no emprego da auto-ajuda e da cooperação quando os jovens
assumirem as responsabilidades e as funções diretivas próprias dos adultos.
h) Também é indispensável, no desenvolvimento da comunidade, a consciência de seus
membros em relação a seus direitos e deveres. A ação educacional dos grupos juvenis
orientará os jovens nessa tomada de consciência.185

Portanto, observamos novamente, que no trabalho desenvolvido com a juventude


estava implícita a idéia de desenvolvimento, pelo aumento da produção e da produtividade
através da difusão de novas técnicas, que exigiam uma mudança de mentalidade dos
agricultores. Os jovens, por serem mais receptíveis às mudanças, seriam indutores ou
difusores de inovações no meio rural.
No discurso extensionista, era necessário “dar oportunidade para que o jovem
se descubrisse como ser progressista”, o que justificava o estímulo e a assistência ao
movimento de organização da juventud e rural sob todas as formas, particularmente dos
Clubes 4-S. 186
Os Clubes 4-S eram grupos de jovens com idade em torno de 10 a 21 anos,
organizados no meio rural, cuja ação educativa, orientada por líderes voluntários, era
desenvolvida através de trabalhos individuais e conjuntos de caráter econômico e social, de
trabalhos comunitários e atividades sociorrecreativas. 187 Um trevo verde tornou-se o
emblema dos Clubes 4-S, cujos “esses” eram distribuídos nas quatro folhas, representando as
palavras “Saber”, “Sentir”, “Saúde”, “Servir”, que significavam:

Saber – quer dizer que os jovens devem adquirir conhecimentos e desenvolver a inteligência
para que tenham melhor visão do mundo em que vivem. Devem valorizar o saber, aprender
coisas novas e difundí-las para o bem de sua família e de sua comunidade.
Sentir – quer dizer que os jovens devem cultivar os bons sentimentos sendo amigos, leais e
honestos. Devem desenvolver boas atitudes através de adequada formação social, moral e
cívica.
Saúde – quer dizer que os jovens devem valorizar a higiene e saúde como meio de alcançar
uma vida saudável e feliz, pelo desenvolvimento físico e mental.
Servir – quer dizer que os jovens devem capacitar-se profissionalmente desenvolvendo
habilidades em atividades agrícolas e domésticas, de tal forma que possam encarar sua
profissão como carreira de futuro e as lides domésticas como ocupação valiosa.188 (grifo nosso)

185
Idem, p. 11.
186
Idem, p. 17.
187
Idem, p. 20.
188
ASCAR. Clube 4-S. Manual do Líder. p. 3.
Eram, pois, muitos os deveres dos jovens, os quais, para realizá- los eficientemente,
deveriam receber orientações nos Clubes 4-S, especialmente quanto a aprender coisas novas
e difundi-las para o bem de sua família e de sua comunidade.
Para Rogers, o desenvolvimento é a modernização em nível de sistema social, e a
modernização define-se como o processo no qua l os indivíduos modificam um estilo
tradicional de viver, aumentando sua complexidade e inclinando-se para os avanços da
tecnologia e das rápidas mudanças. 189 Segundo Rogers:

El cambio puede ser imannente o por contato. El cambio inmanente se produce cuando los
miembros de un sistema social crean y desarollan una nueva idea, com poco o nada de la
influencia exterior (es decir, cuando la inventam), que después se divulga por el interior del
sistema. El cambio por contato se efectúa cuando se introduce una nueva idea al sistema social
procedente de fuentes externas; el cambio por contato puede ser seletivo o dirigido. El cambio
por contato selectivo sobreviene cuando los miembros de un sistema social se vem expuestos a
influencias externas y adoptan o rechazan una nueva idea basados en sus necesidades. El
cambio por contato dirigido, o cambio planificado, se origina com la intervención de
individuos exteriores al sistema que, por cuenta propia o actuando como representantes de
agencias de cambio, intentan introducir ideas nuevas a fin de alcanzar metas que se han
definido.190

Diante disso, é posssível perceber que o trabalho de extensão rural desenvolvido em


convênio com agências extensionistas americanas enquadrava-se na mudança por contato
dirigido ou mudança planificada, pois havia um programa que almejava atingir o meio rural
para promover a modernização agrícola e, assim, aumentar a produção e a produtividade,
sobretudo dos produtos de exportação; por conseqüência, ampliar-se- ia o mercado industrial
a montante e a jusante da agricultura.
Os jovens, portanto, tornaram-se intermediários nesse processo de modernização
agrícola no meio rural, adotando as novas técnicas e difundindo-as, embasados na idéia de
que o desenvolvimento econômico-social da família e da comunidade só seria possível com a
mudança dos métodos tradicionais para os modernos. Nessa tarefa, o papel da atividade
extensionista era mostrar o caminho e os meios para alcançar esses objetivos. Essa concepção
perpassou num discurso do diretor técnico da Embrater em 1978, quando palestrou sobre a
pujança jovem no Brasil e no estado:

189
ROGERS, La comunicación de innovaciones: un enfoque transcultural, p. 11.
190
Idem, p. 40.
Segundo ele, apenas 25% da área de nosso país (8.500.000 Km2) são utilizados pela
agricultura, e, para ocupar este volume considerável de fronteira agrícola, a responsabilidade é
do elemento jovem. Junto aos jovens rurais, as razões de trabalho baseiam-se na modernização
da agricultura brasileira; maior permanência do jovem no processo produtivo; êxito da ação
juvenil constitui fator desenvolvimento da propriedade rural; êxito financeiro dos jovens no
processo produtivo consagra uso da tecnologia; aperfeiçoamento tecnológico facilita o
aprendizado geral na idade adulto; as organizações jovens preparam o adulto para tarefas
administrativas, dão confiança na eficácia da auto-ajuda e consciência de direitos e deveres.
Objetiva-se complementar a educação familiar e escolar através de métodos dinâmicos que
proporcionem oportunidade de auto educação, visando sua formação e aperfeiçoamento como
produtor e como cidadão. 191
Na fala desse dirigente é possível observar o jovem como a força canalizadora no
meio rural para promover a modernização agrícola, porém, para atingir esse objetivo, era
necessária a multiplicação dos Clubes 4/S. Essas idéias também estão presentes em discurso
do presidente da Emater-RS, Rodolpho T. Ferreira:

O Estado e a comunidade necessitam da contribuição dos jovens, principalmente para a


renovação e modernização da agropecuária, e seu envolvimento nas atividades de assistência
técnica e extensão rural se justifica plenamente, em especial, por ser o jovem mais moldável às
mudanças e inovações têm uma participação mais duradoura na atividade produtiva, quando
fixado ao meio [ ...]. Nos Clubes 4-S, são propostos projetos e empreendimentos que
oportunizam adequada preparação. São os concursos e competições agrícolas... demonstrações
práticas, na forma de projetos técnicos e empreendimentos comunitários que se destinam ao
preparo de uma liderança sadia e laboriosa. Os membros dos Clubes 4-S tornam-se exímios
demonstradores, participam de atividades associativas, adquirem habilidade para dirigir ou
participar de reuniões e desenvolvem o espírito competitivo na busca dos mais elevados índices
de produtividade. São desenvolvidos projetos relacionados com as culturas, as criações e
atividades doméstica... que servem, também como demonstração das vantagens das novas
práticas agrícolas geradas pela pesquisa. A potencial empreendedora dos quatroessistas, na
área da produção vegetal, se concentra nos projetos de milho, trigo, soja, arroz, feijão,
batatinha, frutíferas e reflorestamento; na produção animal...suínos, gado leiteiro, ovinocultura
e apicultura; na área social...habitação, alimentação, higiene, confecção de roupas e artes
domésticas. 192

A extensão rural, portanto, viabilizaria a divulgação de novas tecnologias no meio


rural através dos Clubes 4-S. Quanto ao papel do jovem na sociedade tecnológica, assim o
definiria o diretor técnico da Emater-RS, José Inácio Pereira da Silva: “Temos que produzir
mais hectares, por pessoa e por cruzeiro investido”. Segundo ele, na virada do século XX, a
previsão era de que praticamente dobrasse a população, o que se constituía num problema a
ser enfrentado a curto prazo, no sentido de obter bens de consumo para essa população. 193 De

191
Incentivo e apoio ao trabalho com jovens. Revista do Clube 4/S. ano VII, n. 36, set./out. 1978, p.4.
192
Clubes 4-S devem multiplicar-se. Revista do Clube 4/S, ano VII, n. 36, set./out. 1978, p. 6.
193
“Temos que produzir mais por hectares, por pessoa e por cruzeiro investido”. Revista do Clube 4/S, ano III,
set./out. 1978, p. 6.
acordo com o palestrante, o aumento crescente da população urbana e a diminuição da
população rural em decorrência do êxodo rural traziam como conseqüência:

Um mesmo número de produtores para um número maior e crescente de consumidores hoje já


se tem um por um e, no fim deste processo, cada homem do campo vai ter que produzir para 10
ou 20 consumidores urbanos; em segundo plano, pela maior ocupação urbana, diminui a área
disponível para a atividade agrícola. Mas, como produzir mais alimentos, com menos
produtores e menor área, ainda que os padrões de consumo da cidade vêm crescendo sempre
mais.194

A resposta a esse questionamento seria modernizar a agricultura para aumentar a


produtividade e atender ao mercado consumidor. Todavia, para isso, algumas medidas
deveriam ser tomadas, como a substituição dos métodos tradicionais praticados pelos
agricultores:

O uso mais intensivo do solo; derrubar mais mato para plantar mais feijão já era, temos de usar
todo o solo o tempo todo e mantê-lo fértil. Uso mais intensivo de tecnologia, da química que, a
par de apresentar enormes possibilidades, também envolve grandes perigos, de modo que deve
ser aplicado por quem conhece. Uso de conhecimentos de genética, especialmente nos
vegetais, como bem exemplifica o milho que antigamente rendia somente 300 Kg/ha, hoje,
com a hibridação, chega a mais de 10 mil Kg/ha; e assim também os animais, como mostram
as vacas que produziam 4 a 5 litros/dia, hoje produzem 20 ou mais. Mecanização – condições
de produzir com mais conforto. Uso de mão-de-obra altamente qualificada: não se admite mais
a agricultura tradicional, de pai para filho, caiu por terra e quem ainda utiliza, unicamente,
fracassa, a não ser que possua áreas grandes; deve ele, sim, procurar novos padrões de
formação. Nível de bem-estar da família rural: a dona de casa deve ter habilidades domésticas
diversas do que as do passado e se inserir no processo produtivo. Uso intensivo de informação
na área de preços e produtos, condições meteorológicas, mercado de produtos e insumos,
disponibilidade de recursos, políticas das administrações públicas. E, que considera o
principal, a produção deve atender não só a família e propriedade, mas o mercado consumidor,
exemplificando mais amplamente com hábitos de países mais avançados em quem planta trigo
em condições empresariais dedica-se unicamente ao trigo e compra ovos, leite e
hortigrangeiros nos supermercados.[...].195

Como constatamos, as técnicas praticadas pelos agricultores eram consideradas


atrasadas, o que impedia o aumento da produção; desse modo, somente com a melhoria da
tecnologia, o uso mais intensivo do solo e a mecanização este poderia ser alcançado. Diante
disso, observamos que a adoção de técnicas modernas de produzir não partiu da iniciativa
própria do agricultor, mas decorreu de influências externas. Considerado atrasado, o
agricultor, tornou-se alvo do serviço de extensão rural a fim de se conseguir melhor

194
Id. ibid.
195
Idem, p. 7-8.
produtividade agrícola; para isso, tornava-se necessário um trabalho avançado junto a esse,
pois exigiria uma mudança nos métodos tradicionais aplicados na agricultura, nas práticas
domésticas e sociais.
A juventude rural tornava-se, portanto, o elo de ligação da extensão rural para que
chegasse aos agricultores os conhecimentos desenvolvidos nos campos experimentais e para
a aquisição dos produtos oferecidos pela indústria. Nesse sentido, a metodologia que

embasava o trabalho dos Clubes 4-S não nasceu no Brasil, mas nos Estados Unidos,
conforme será exposto a seguir.

3.2 Extensão rural no Brasil – modelo norte-americano

Como o sistema de extensão rural adotado no Brasil seguiu o modelo norte-americano,


faz-se um breve histórico do modo que a extensão agrícola foi desenvolvida naquele país,
enfatizando o surgimento e o desenvolvimento dos Clubes 4-H’s, que inspiraram a
organização dos Clubes 4-S no Brasil entre a década de 1960 e o final da de 1970.
Através da Revolução Verde, os Estados Unidos pretendiam aumentar a produção e a
produtividade no mundo, exportando pacotes tecnológicos para os países do Terceiro Mundo.
De acordo com Aguiar:

O pacote tecnológico consiste num conjunto de práticas e procedimentos técnicos que se


articulam entre si e que são utilizados indivisivelmente numa lavoura, segundo padrões
estabelecidos pela pesquisa. Desta forma, o pacote tecnológico passa a corresponder, na
verdade a uma linha de montagem, onde o uso de uma dada inovação técnica ( ou insumo de
origem industrial ) exige o emprego de uma dada inovação técnica anterior e a utilização de
uma certa inovação técnica posterior. Essa combinação de uso de insumos (e máquinas) não
pode ser rompida, sob o risco de invalidar totalmente os resultados da exploração agrícola. 196

Para que conseguissem desenvolver com sucesso esse novo processo produtivo, era
essencial que levassem os agricultores a aderirem a tais mudanças, e uma das alternativas era

196
AGUIAR, Ronaldo Conde. Abrindo o pacote tecnológico: Estado e pesquisa agropecuária no Brasil. São
Paulo: Polis; Brasília: CNPq, 1986, p. 17.
promover a extensão rural. Conforme Aguiar, “o sistema nacional de pesquisa agropecuária
seria o responsável pela geração (ou adaptação) do pacote tecnológico; o sistema nacional
brasileiro de assistência técnica e extensão rural, pela difusão junto aos produtores e o
sistema nacional de crédito rural, pelo seu financiamento. Os três, portanto, constituíram-se
197
em instrumentos de intervenção do Estado no setor agrícola”. Segundo Bombardieri:

Além da adoção de todas as técnicas de comunicação – sejam meios formais, como rádio,
jornal e impressos de todos os tipos, como folders, o clube recreativo, a escola, o envolvimento
governamental se deu a partir de três pontos básicos: através da montagem de estruturas de
acompanhamento direto dos agricultores, via criação de organismos de extensão rural,
patrocinando a instalação de parques industriais e agro-industriais de capital internacional, e
concedendo financiamentos altamente subsidiados aos agricultores ou a entidades e instituições
ligadas ao setor agrícola. O serviço de extensão rural foi decisivo para que os agricultores
aderissem ao plantio das variedades de alto rendimento, utilizando para tanto todos os recursos
tecnológicos disponíveis e recomendados. Os programas de extensão rural foram introduzidos
na América Latina após o término da 2ª Guerra, inspirados nas experiências realizadas nos
Estados Unidos.198

Com o exposto na citação transcrita, percebemos que as práticas extensionistas foram


expressivas para as inovações que ocorreram na agricultura brasileira e que tiveram suas
raízes nos Estados Unidos. Neste país, desde o século XVIII, o ensino agrícola fora
organizado nas escolas ou colégios agrícolas e, em razão do interesse dos fazendeiros, haviam
se criado os “institutos agrícolas” em 1863. Nesses institutos, os especialistas dos colégios
ou escolas de agricultura e os fazendeiros bem-sucedidos faziam conferências; assim, os
conhecimentos proporcionados aos estudantes também eram repassados aos fazendeiros. 199
No início do século XX, foi institucionalizado o serviço de extensão rural nos Estados
Unidos, em vis ta da necessidade de divulgação dos trabalhos desenvolvidos nas estações
experimentais e nos colégios agrícolas. Para isso, era necessária a presença ativa de pessoas
que orientassem o trabalho agrícola a fim de que fosse desenvolvido de forma produtiva e
lucrativa, utilizando-se de novos insumos, maquinaria e do crédito. Segundo Olinger, a
extensão nasceu como um instrumento de ensino e educação informais, fora dos moldes da
escola clássica, precisamente para que os agricultores, donas de casa e jovens rurais tivessem

197
Id. ibid.
198
BOMBARDIERI, Gilberto. A nova “Revolução Verde” da agricultura: implicações político-sociais e
ambientais no cultivo de plantas geneticamente modificadas. Dissertação (Mestrado) –UFSM, Santa Maria,
2000, p.48.
199
Ver, BECHARA, A extensão agrícola, p. 98.
oportunidade de aprender sem prejudicar as lides rurais ou domésticas, cotidianas, ou, mesmo,
abandoná- las. 200
O início do trabalho com extensão rural nos Estados Unidos é atribuído a Seaman
Knaap, professor de agronomia, que instalou em cada município do estado de Louisiana uma
propriedade demonstrativa, como método educativo para irradiar e difundir novas técnicas de
cultivo, visando controlar o gorgulho do algodão. 201 Para Knaap, “um homem pode duvidar
do que ouve; pode também duvidar do que ele vê; só não pode, porém, duvidar do que ele
faz.”202 Conforme Bechara, esse trabalho foi chamado de “trabalho cooperativo de
demonstrações agrícolas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos” e, para
203
desenvolvê- lo surgiram os agentes rurais.
No Brasil, o trabalho realizado com a juventude rural através dos Clubes 4-S seguiu o
programa para a juventude rural norte-americano, conhecido como Clubes 4-H’s. Esses se
originaram dos clubes agrícolas do milho, do algodão, do tomate, etc., que começaram nas
escolas rurais com a finalidade de fazer demonstrações sobre práticas de trabalho rural e
204
estabelecer uma aproximação com a vida rural. Também se organizou o trabalho de
economia doméstica para as mulheres rurais.
Foi assim que se constituíram os Clubes 4-H’s americanos numa das mais eficientes
organizações daquele país, cujo programa enfatizava a formação de lideranças entre os
jovens. O líder era indispensável não só como elemento de divulgação dos conhecimentos que
os técnicos tinham em vista, mas como elemento representativo de classe dentro do bairro
em que vivia. 205 Os líderes seriam intermediários entre os agentes e as famílias no meio rural,
pois os extensionistas tinham dificuldades para atender a todas as famílias; cabia- lhes, então,
executar o trabalho de extensão dentro de cada bairro rural. Os Clubes 4-H’s estavam
organizados da seguinte forma:

Desde a idade de 11 anos, os jovens rurais incorporam-se à grande organização dos clubes 4-
H’s, onde permanecem até os 17 anos. Após os 17 anos, até a idade de casamento passam eles
a pertencer a outra organização chamada “Jovens mais velhos”. Os recém-casados constituem
uma outra organização chamada “jovens recém-casados”. Além destas organizações, o Farm

200
OLINGER, Glauco. Ascensão e decadência da extensão rural no Brasil. Florianópolis: Epagri, 1996, p. 12.
201
BECHARA, op. cit., p. 16.
202
OLINGER, op. cit., p. 17.
203
BECHARA, op. cit. p. 99.
204
Idem, p. 300.
205
Idem, p. 240.
Bureau possuía também uma organização da juventude rural, de idade variando entre 20 a 26
mais ou menos, com a finalidade de educá-los no sentido de serem bons sócios futuramente. Os
Departamentos de Agricultura dos “Higth Schools” rurais possuem a organização “F.F.A”
(Futuros Fazendeiros da América). 206

O trabalho com a juventude rural foi a solução encontrada para a divulgação de novos
métodos e técnicas entre os agricultores, pois os jovens mostravam-se mais receptivos que os
adultos e, assim, levavam menos tempo para atingir os objetivos do trabalho de extensão.
Segundo Bechara:

O trabalho com a juventude rural, não visa somente a formação de uma mentalidade nova para
daqui a alguns anos; mas é, também, no presente, um trabalho de extensão. É ensinar a família
através da juventude, ou os pais através de seus filhos. Estimular, entusiasmar os meninos a
plantar ou criar segundo métodos modernos não é difícil. Um prêmio, ou um divertimento
qualquer fará com que se desperte este entusiasmo. O ano agrícola passa facilmente. Em
alguns meses teremos, por exemplo, uma cultura completa de milho plantado e colhido. E os
olhos dos pais são sempre carinhosos para aquilo que os filhos fazem. Eles vêm ou
acompanham tudo que os filhos executam; acompanham como brincadeira de criança. Mas,
terminado o ano agrícola, quando os filhos colhem o produto de seu trabalho, os pais vêem
com surpresa que os filhos, proporcionalmente, colheram muito mais do que eles, adotando
novas práticas de plantio e cultura. Não é preciso, pois, dizer que a mudança será radical no
ano seguinte. As experiências de semelhante trabalho em nosso meio têm demonstrado isto
com facilidade. 207

Visto dessa forma, o clube agrícola exercia a função de educar a família através da
juventude, executando projetos de trabalho agrícola ou de economia doméstica. O projeto era
a base principal do desejo dos jovens de se tornarem sócios 4-H’s, um projeto bem conduzido
não somente significaria lucros e economia, mas também serviria como uma demonstração
aos outros na comunidade. 208 Na finalização dos trabalhos, eram realizadas festas, concursos,
julgamentos e entrega de prêmios, destacando-se os campeões, o que despertava o
entusiasmo e o interesse da juventude. Os objetivos dos Clubes 4-H’s eram os seguintes:

Head (cabeça) – fazer com que a juventude rural compreenda e aprecie a natureza em que vive.
Ensinar a juventude rural o valor da pesquisa e experimentação, e desenvolver nela uma atitude
científica com relação aos problemas rurais e domésticos.
Heart ( coração) – treinar a juventude rural numa ação cooperativa com o fim de esforços em
conjunto, possa melhor prestar assistência na solução dos problemas rurais.

206
Idem, p. 299. Conforme Bechara, a Farm Bureau era uma entidade de classe criada pelos agricultores e
cooperava com o serviço de extensão agrícola. A estrutura da organização Farm Bureau compreendia os
níveis nacional estadual e municipal. High Schools eram escolas práticas com o fim de dar cursos práticos de
agricultura.
207
Idem, p. 233.
208
Idem, p. 314.
Ajudar a juventude rural no desenvolvimento de idéias e “padrões’ desejáveis para a
agricultura, para o lar, para a vida da comunidade, e para a cidadania, e um melhor senso de
responsabilidade para suas realizações.
Hand (mãos) – proporcionar à juventude rural instruções técnicas em agricultura e economia
doméstica, para que ela possa adquirir habilidade e entendimento nestes campos numa visão da
agricultura como uma indústria básica, e da economia doméstica como uma ocupação valorosa.
Proporcionar à juventude rural uma oportunidade de “aprender executando”, através de certos
empreendimentos de agricultura e de economia doméstica, e demonstrando aos outros o que foi
apreendido.
Health (saúde) –desenvolver no seio da juventude rural os hábitos de viver higienicamente,
providenciando informações e orientações para o uso inteligente do descanso e das horas livres,
e despertar nela ambição valorosa e um desejo para continuar a aprender, com o fim de que ela
possa ter uma vida mais ativa e mais rica. 209

Os métodos de trabalho desenvolvidos pelos extensionistas consistiam em reuniões,


palestras, filmes, treinamentos, demonstrações, visitações, sempre aplicando técnicas
recreativas, tendo um trevo de quatro folhas como símbolo, nas quais havia a letra H,
conforme a Figura 12.

Fonte: BECHARA, Extensão agrícola, p. 308.

Figura 12 - Emblema Clube 4’Hs dos EUA

Para desenvolver serviço de extensão havia os agentes extensionistas, priorizando-se


os trabalho dos técnicos agrícolas; a preocupação era com o conforto doméstico do agricultor
e o preparo dos jovens para uma agricultura mais avançada, conforme relata Bechara:

209
Idem , p. 302.
O agente rural- encarrega-se dos programas que ajudam a resolver os seus problemas técnico-
agrícolas. A agente de economia doméstica- encarregava-se dos programas para a esposa do
produtor rural, trazendo-lhe informações para que proporcionasse à sua família, um bom
conforto doméstico, e conhecimentos diversos para a agricultura subsidiária, auxiliando o
produtor rural em seus múltiplos problemas agrícolas. O assistente do agente rural-
encarrega-se dos filhos do produtor rural , procurando prepará-los como futuros produtores
rurais. A assistente da agente de economia doméstica encarrega-se dos programas para as
filhas do produtor rural, procurando prepará-las como futuras “donas de casa rurais”.210

Ao trabalho de extensão, portanto, era atribuído um caráter educacional, pois


ensinava, por meio de demonstrações, como obter os resultados de práticas experimentadas e
comprovadas. Visava também atingir o meio rural como um todo, o produtor, sua família,
sua esposa, seus filhos, a residência, o conjunto de recursos de que dispunham. Nesse
trabalho, os agentes deveriam levar em conta algumas atitudes que possibilitassem a
aproximação com o meio rural, como a maneira de fa lar, de trajar, ou seja, tinham de ser
verdadeiros e hábeis artistas. Saber adaptar-se ao meio em que iriam trabalhar, falar
expressões usadas no local, portar-se de acordo com o meio eram requisitos indispensáveis a
esses técnicos. 211
Portanto, para obter sucesso no trabalho de extensão, era preciso aproximar-se da
comunidade visando alcançar todos os níveis das famílias, ou seja, adultos, juventude e
crianças. Para amenizar o problema de contato, deveria ser considerado que as sociedades
já possuíam grupos organizados, tais como a família, instituições diversas, escolas
(professores), Igreja (padres), governo, o vendeiro, comerciante, etc. Era, então, interessante
dirigir o trabalho para pessoas que encerravam um círculo de relações pessoais, destacando a
liderança local. A extensão, nos Estados Unidos, sempre foi um serviço cooperativo entre o
ensino, a pesquisa, empresas particulares, agricultores, instituições governamentais,
associações de classe e outras entidades. 212
Para a divulgação dos trabalhos de extensão, utilizavam-se vários recursos, como
televisão, vídeo, etc., que eram fundamentais para o sucesso dessas ações, por conseguirem
angariar novos sócios e despertar o espírito competidor entre os clubes; por conseqüência,
após a verificação dos resultados positivos obtidos com as experiências realizadas, esperava-
se que cada vez mais agricultores adotassem as novas técnicas. Dessa forma, muitos países

210
Idem, p. 23.
211
Idem, p. 39.
adaptaram o modelo dos Clubes 4’Hs, alguns desenvolvendo trabalho conjunto com o sistema
escolar; outros, nas comunidades, como foi o caso do Brasil; outros, ainda, partindo de
missões religiosas, de firmas comerciais e de agências governamentais. Na Figura 13,
podemos observar a semelhança dos emblemas dos clubes em questão que foram adotados por
alguns países.

Fonte: Trevo simboliza movimento mundial da juventude rural. Extensão Rural, ano II, n. 14, fev. 1967, p. 16.
Figura 13 - Emblemas de clubes agrícolas de alguns países da América Latina

Conforme o exposto, constatamos que o trabalho com a juventude aconteceu em nível


mundial e seguindo o modelo original dos Estados Unidos. Alguns países adotaram o mesmo
emblema do modelo norte-americano; já outros fizeram algumas adaptações.

3.2.1 A implantação da extensão rural no Brasil

A implantação do serviço de extensão rural no Brasil seguiu o modelo que já havia


sido desenvolvido na agricultura norte-americana e, para sua introdução, houve a
participação de uma entidade norte-americana, a Associação Internacional Americana (AIA) e
um governo estadual brasileiro, de Minas Gerais, responsáveis por criar a estrutura
necessária, cuidar do treinamento dos técnicos e manter o suporte financeiro.
Com o término da Segunda Guerra Mundial, havia o interesse norte-americano de
ampliar seus mercados de consumo, bloqueados em decorrência do conflito mundial.
Contudo, nos países latino-americanos, incluindo o Brasil, o poder de compra era muito
baixo e tornava-se necessário estimular a produção e a produtividade. Fonseca identifica o
papel da extensão no meio rural como um instrumento capacitado para garantir que o homem

212
OLINGER, Ascensão e decadência da extensão rural no Brasil, p. 23.
rural entrasse no ritmo e na dinâmica da sociedade de mercado, ou melhor, que ele deixasse
de ser “parado” e retraído e passasse a produzir mais, com me lhor qualidade e em menor
tempo para, com isso, obter alguns equipamentos para continuar produzindo e,
conseqüentemente, consumindo. 213
Conforme Barros, na verdade, o propósito oculto da missão norte-americana que
trouxe o modelo de extensão rural ao Brasil estava em aumentar a produção e a
produtividade brasileira a fim de assegurar mercado fácil para as suas utilidades industriais e,
conseqüentemente, aumentar a sua acumulação de capital. 214 A assistência técnica prestada no
Brasil até 1940 tinha objetivos fomentistas e atendia, sobretudo, aos interesses de grandes
produtores ligados aos produtos de exportação, que poderiam se tornar consumidores de
bens industrializados.
Em Minas Gerais, foi realizada a semana do fazendeiro na Escola Superior de
Agricultura de Viçosa (ESAV), cujo fundador foi o norte-americano Peter Henry Rolfs. Esta
se tratava de uma reunião anual de agricultores que recebiam aulas práticas com
demonstrações de métodos, tanto para homens, sobre assuntos agropecuários, quanto para
mulheres, sobre economia doméstica. Outras atividades foram realizadas, como semanas
ruralistas, criação de postos agropecuários, missões rurais, promovidas pelo Ministério da
Agricultura em cooperação com as secretarias de Agricultura dos estados. 215
A partir de 1948, o produtor, e não somente a produção, passou a ser considerado pelo
serviço de extensão. Foi em Santa Rita do Passa Quatro, São Paulo, que foi desenvolvida a
primeira experiência extensionista, que seria implantada pelo engenheiro agrônomo Marcos
C. Pereira, em cooperação com agricultores, prefeitura, firmas locais e o governo do estado,
através das secretarias de Agricultura e Saúde.
Em dezembro de 1948, foi criada a Associação de Crédito e Assistência Rural (Acar-
MG), um convênio entre o governo de Minas e a American International Association, que
havia sido criada em 1946 pela Fundação Rockfeller. Conforme relata Fonseca:

A ACAR seguiu os moldes da Farm Security Administration, criada pelo Presidente Roosevelt
para auxiliar os agricultores nos Estados Unidos a se refazerem dos efeitos da crise de 1930. O
Sr. Rockefeller, antigo Coordenador dos Assuntos Interamericanos e subsecretário de Estado,

213
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p. 96.
214
BARROS, Edgar de Vasconcelos. Princípios de ciências sociais para a extensão rural. Viçosa: UFV, 1994
p. 670.
215
Ver OLINGER, Ascensão e decadência da extensão rural no Brasil, p. 42-46.
acreditava que um programa semelhante, de assistência técnica e crédito rural supervisionado
aos pequenos agricultores, poderia ser adaptado às condições existentes em Minas Gerais, para
aumentar a produção e elevar o nível de vida no meio rural. Ao mesmo tempo, a AIA
providenciou a vinda aos quadros do Extension Service e da Farm Security Administraion, os
quais passaram a treinar os técnicos brasileiros para a adaptação às condições locais dos
métodos utilizados nos Estados Unidos. 216

A Acar foi criada em Minas Gerais no governo de Milton Campos, quando foi
implantado o Plano de Recuperação Econômica e Fomento da Produção, cujo pressuposto
básico era a idéia de que a via correta para a superação do atraso econômico seria uma ação
planejada. 217 Este plano apresentava algumas medidas referentes à população rural:

O plano de governo trazia um conjunto de medidas que cobriam praticamente todas as


atividades econômicas e assistenciais consideradas prioritárias na época. Neste conjunto, as
medidas referentes às populações rurais foram traçadas com a preocupação de diminuir o
êxodo rural através de ações no âmbito da política social, na certeza de que, efetivando-se
propostas concretas nesta área, a resposta econômica do setor agrícola (aumento da
produtividade) seria satisfatória para o sistema como um todo. 218

Um dos problemas sociais rurais era o êxodo rural, que estava crescendo e
comprometendo a produtividade agrícola mineira. Fonseca aponta algumas razões para
Minas Gerais ser colocada numa posição de fronteira ante a expansão do capitalismo
brasileiro, entre as quais estão: o fato de possuir abundância significativa em recursos
naturais, uma burguesia atuante com forte poder de negociação, uma firme disposição de
colocar o estado em destaque no cenário nacional e um governo disposto a superar os
problemas antigos da economia.
A Acar passou a ser uma associação civil sem fins lucrativos, de direito jurídico
privado, que foi se espalhando para todos os estados brasileiros, vindo a ser o segundo maior
serviço de extensão do mundo. 219 Difundia práticas de agr icultura, pecuária e economia
doméstica entre agricultores adultos, donas de casa, moças e para a juventude rural, através
dos Clubes 4-S. Também contava com uma linha de crédito especial para os projetos de
extensão.
Foi somente em 1952 que o termo “extensão” passou a ser utilizado no Brasil. A
partir da avaliação do trabalho que vinha sendo desenvolvido pela Acar, tornou-se necessário

216
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p. 78.
217
Idem, p. 72.
218
Id. ibid.
219
OLINGER, A ascensão e decadência da extensão rural no Brasil, p. 48.
uma mudança em todo o sistema de trabalho; então, passou-se a adotar a idéia de educar o
agricultor e sua família e de utilizar o crédito como ferramenta de educação para que pudesse
adotar com mais facilidade as técnicas recomendadas pelos extensionistas.
A gênese da necessidade dessa avaliação, entretanto, não se apresentam apenas como
uma intenção dos técnicos que trabalhavam na extensão (tanto americanos como brasileiros),
mas, sobretudo, como conseqüência da implantação no Brasil do sistema de cooperação
bilateral Ponto IV, que era um programa do governo americano para ajudar os países
subdesenvolvidos. O interesse dos Estados Unidos pelo Brasil não se devia apenas à grande
quantidade de suas riquezas inexploradas, mas, também, às conseqüências que uma guerra
220
poderia trazer à sua posição estratégica e sua produção.
Desde o início da década de 1950, havia discussões para a criação da Ascar no Rio
Grande do Sul. Em 1951, foi realizada a primeira reunião para tratar do assunto conforme
expõe Caporal:

A esta reunión acudieron los más altos cargos del govierno, entre ellos el próprio Gobernador
del estado, representantes de la elite civil y eclesiástica, además de los senõres Robert W.
Huggens y Henry Wight Bragley, directivos de la “American International Asociation for
Economic and Social Development” – AIA. También acudieron a la reunión los senõres
Walter L. Crowford, asistente técnico norteamericano de la ACAR-MG y el senõr Vicecónsul
de los Estados Unidos de América del Norte. De esa reunión resultó la decisión de crear la
ACAR, cuya fundación, com el nombre de ASCAR – “Associação Sulina de Crédito e
Assistência Rural” – ocurrió, oficialmente, en el anõ 1955. 221

Em 1954 foi criado o Escritório Técnico de Agricultura (ETA), apoiado pelo Ponto
IV. A criação do ETA visava à execução de projetos que contribuíssem para o
desenvolvimento da agropecuária nacional, tendo como base de ação a assistência técnica e o
crédito rural. Segundo Fonseca, a presença das diretrizes do ETA no projeto extensionista
brasileiro representou o início de uma nova fase, ou seja, da assimilação do modelo
difusionista-inovador. Assim, além dos objetivos, definiu-se também o conteúdo de sua ação,
que se baseou em quatro pontos: a experimentação empírica a valorização do tipo de trabalho

220
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p 86.
221
CAPORAL, La extensión agraria del sector público ante los desafios del desarollo sostenible: el caso de Rio
Grande do Sul - Brasil, p. 71.
exercido pelo técnico extensionista, o caráter educativo do trabalho e a crença em alternativas
222
comunitárias de auto-ajuda.
Em 1956, a experiência mineira já estava consolidada e havia se espalhado por vários
outros estados brasileiros, exigindo a criação de um órgão central. Assim, em 1956 no
governo de Juscelino Kubitschek, criou-se a Abcar, uma associação nacional sem fins
lucrativos, de direito jurídico privado, destinada a coordenar os serviços de extensão rural.
Analisando a conjuntura política do período, que coincidiu com a criação da Abcar,
Fonseca comenta que a instalação de um órgão centralizador e com fins assistenciais no Brasil
só seria possível com o apoio do governo federal. Foi por isso que, somente após a posse do
novo presidente eleito e a certeza de que tudo estava tranqüilo, as negociações em prol de
uma Acar federal se iniciaram, assim mesmo sob os olhos céticos tanto dos conservadores
como dos da esquerda. 223 Essa centralização permitiria um controle da observância de
diretrizes e a preservação dos princípios da extensão. Nos termos do discurso, o que se queria
mostrar era a imagem de um órgão apolítico, preocupado com a preservação da boa imagem,
calcada em valores morais como honestidade e princípios humanitários. 224
As autoridades brasileiras diretamente envolvidas com os interesses norte-
americanos decidiriam sobre o trabalho educativo de extensão, e não os agentes dos
escritórios locais diretamente envolvidos com os líderes e as famílias rurais. 225 Para alcançar
as propostas da Abcar, os extensionistas deveriam seguir uma metodologia adequada para a
formação de lideranças, que seriam intermediários dos extensionistas no meio rural.

As propostas de ação demostram que a partir da ABCAR a ação extensionista continuaria fiel
aos pressupostos subjacentes ao modelo difusionista-inovador, mas acrescido de alguns
elementos teóricos novos, ou seja, os conceitos de racionalidade, planejamento e moderna
administração que, passados através dos líderes, deveriam atingir objetivos econômicos e
políticos mais precisos. É neste sentido que o fazer extensionista não podia perder de vista a
noção de conjunto, pois era a própria racionalidade do capital [...]. Os graves problemas dos
agricultores de baixa produtividade e de baixo nível de vida, ficavam mais uma vez reduzidos à
condição de problemas meramente técnicos, supervisores rurais (agentes extensionistas) –
pensarem como equacioná-los, apresentarem a melhor solução e fazerem com que estas idéias
chegassem á população rural através de seus líderes. A solução mais adequada, no entanto, já
estava pensada: era o perfeito funcionamento da empresa rural que, por sua vez, só seria

222
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p. 89.
223
Idem, p. 109.
224
Idem, p. 121
225
Idem , p. 123.
possível quando assistida pelos técnicos especializados nas diversas áreas concernentes ao
trabalho agrícola. 226

Em 1961 a AIA concluiu sua participação junto à Abcar e somente técnicos brasileiros
foram chamados para a realização do Plano Diretor Qüinqüenal.
Pelo decreto nº. 50.632, de 19 de maio de 1961, a Abcar e suas filiadas estaduais
foram reconhecidas como órgãos de cooperação com o governo federal e o plano Diretor
Qüinqüenal foi aprovado, devendo a União contribuir com 60% do orçamento para 1961 e
1962. O plano foi elaborado com a participação de todas as filiadas estaduais e abriu caminho
para a instituição do Sistema Abcar, também conhecido por Siber e, mais tarde, Sibrater. 227
O Sistema Brasileiro de Extensão Rural (Siber), por ser declarado de utilidade pública
era isento do pagamento das obrigações sociais para o governo federal, entre as quais:
previdência social, IPVA, imposto de renda e outras isenções.
Assim que o governo militar colocou em vigor as medidas em relação ao setor
agrícola, tratou de regulamentar e integrar a Abcar, que, em 1966, passou a ser coordenada
pelo Ministério da Agricultura através do Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário-
(Inda).
Em 1974, foi criada a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural,
(Embrater), que substituiu a Abcar, para coordenar os serviços de extensão rural em todo o
país. Também foi criada uma Empresa Nacional de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Empenhado em acelerar a modernização da agricultura brasileira, o Estado assumiu, ele
próprio, o papel de empresário e passou a responder financeira e institucionalmente pela
continuidade do projeto extensionista. 228
Nos estados foram criadas Empresas de Assistência Técnica e Extensão Rural
(Emater), de caráter civil e de direito público. Com isso, seriam extintas as associações civis,
sem fins lucrativos. Mas a Acarpa, no Paraná, a Acaresc, em Santa Catarina, e a Ascar, no
Rio Grande do Sul, mantiveram-se como associações consideradas filantrópicas, prestando
serviços à Emater.

226
Idem, p, 137.
227
Idem, p. 61.
228
MASSELI, Extensão rural entre os sem-terra, p. 31.
Exposta a forma como se estruturou o sistema de extensão rural no Brasil, tratamos,
agora da expansão do trabalho através dos Clubes 4-S e da formação das lideranças no meio
rural.

3.2.2 O início dos Clubes 4-S no Brasil e sua expansão

Um dos trabalhos desenvolvidos pela extensão rural foi com a juventude rural,
seguindo o modelo dos Clubes 4’Hs, que ficou conhecido no Brasil como Clubes 4-S,
representado por um trevo de quatro folhas onde estavam as palavras “saber”, “sentir”,
“saúde” e “servir”, conforme a ilustração.

Fonte: Extensão rural, ano II, n. 14, fev. 1967, p. 16.

Figura 14 - Emblema dos Clubes 4-S do Brasil

No Brasil, o trabalho com o Clube 4-S iniciou em Igrejinha, Minas Gerais, em 15 de


julho de 1952, liderado pela professora Nila Silva de Paula. Esse dia ficou sendo denominado
(desde 1960) de Dia Nacional dos Clubes 4-S, relembrado sempre nas convenções anuais e
comemorações festivas promovidas em todo o país. Conforme registros da imprensa:
Dia Nacional dos 4-S

Em solenidade realizada no Palácio do Planalto foi lançada a emissão do selo alusivo ao “Dia
Nacional dos 4-S”, entidade que visa a oferecer aos jovens associados a oportunidade de
aprenderem e praticarem métodos modernos de trabalho na agricultura e no lar. Usou da
palavra o Sr. João Napoleão de Andrade, que saudou o presidente da República, em nome da
ABCAR e do Comitê Nacional daqueles clubes. Em seguida, falou o presidente Costa e Silva
destacando a eficiência dos Clubes 4-S num movimento de que se beneficia principalmente o
povo do interior, promovendo a higienização das habitações e ensinando a fixar hábitos de
utilização de processos adiantados na própria moradia do homem do campo, além de
estimularem o aprendizado e a prática de métodos modernos na agropecuária e na economia
doméstica.229 (grifo nosso)

Dessa forma, com o intuito de estimular a adoção de métodos modernos na agricultura


e no lar, o movimento difundiu-se em Minas Gerais e também para outros estados brasileiros,
como Pará, Sergipe, Alagoas, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, influenciando na
mudança de atitudes dos agricultores. No Rio Grande do Sul o primeiro Clube 4-S iniciou em
São Lourenço do Sul (1956), com 27 sócios. Também os municípios de Bento Gonçalves, São
Sebastião do Caí, Canguçu, Estrela e Taquara passaram a contar com Clubes 4-S no mesmo
período. O aumento do número desses clubes é ressaltado no artigo que segue:

Movimento quatroessista intensifica-se no R.G.Sul com a ajuda de líderes

As últimas informações recebidas da ASCAR dão conta do intenso movimento de expansão


dos clubes 4-S no Rio Grande do Sul, graças à incorporação crescente do trabalho voluntário
de líderes treinados, que não se limitam a animar a fundação de novas agremiações, mas estão
promovendo, ao mesmo tempo, a melhoria geral dos clubes e de suas atividades.
Durante o último trimestre do ano passado, alguns municípios se destacaram neste setor, entre
os quais o de Getúlio Vargas, onde sete novos clubes entraram em funcionamento, agremiando
o total de 175 jovens, que passaram desde logo a trabalhar com projetos de agricultura e
economia doméstica. Em Carazinho, o 4-S juvenil conseguiu um terreno, por doação, e se
lançou ao empreendimento da construção de sede própria. Em Caxias do Sul, mais cinco
entidades foram fundadas, elevando para sete o número de clubes existentes no muncípio, que
reúnem 180 associados, todos dedicados a projetos individuais de milho e alimentação.
A repercussão desse trabalho tem sido excelente. “Tive oportunidade de verificar a ação
benéfica da Extensão Rural através dos clubes 4-S – declarou à imprensa o deputado estadual
Romeu Scheibe -, a qual habitua os jovens rurais a encarar a agricultura como profissão de
futuro e as atividades domésticas como ocupação digna e valiosa”. O deputado participara da
fundação festiva de dois clubes no município de Canela, tendo assistido a demonstrações
apresentadas pelos seus jovens sócios.

229
Dia Nacional dos 4-S. Diário Notícias. 19 jul. 1967, s.p.
Em Passo Fundo, Rosário do Sul, Estrela, Erexim e vários outros municípios, cresce por igual
o interesse pelo trabalho dos Clubes 4-S, cujo número aumentou à medida que novos líderes
passam a cooperar com os extensionistas neste setor de atividade.230

Percebe-se o apoio de políticos e o papel fundamental das lideranças para a expansão


dos Clubes 4-S no estado. Na Tabela 8, mostra-se a evolução dos Clubes 4-S no Rio Grande
do Sul.

Tabela 8 - Evolução do trabalho com Clubes 4-S no Rio Grande do Sul – 1956-1977
Anos Clubes 4´S Municípios com Clubes 4´S por município
Nº Sócios (nº) Líderes (nº) extensão rural (nº) c/extensão rural (média)
1956 10 53 - 11 0,9
1957 10 100 - 16 0,6
1958 11 146 - 23 0,5
1959 17 341 19 25 0,7
1960 25 530 53 25 1,0
1961 38 846 76 27 1,4
1962 82 1.758 165 27 3,0
1963 98 2.342 196 34 2,9
1964 134 3.000 246 42 3,2
1965 197 4.299 385 42 4,7
1966 181 4.458 438 70 2,6
1967 202 5.701 603 85 2,4
1968 264 7.292 792 94 2,8
1969 325 8.969 879 94 3,4
1970 378 9.906 975 94 4,0
1971 413 10.744 393 94 4,4
1972 398 10.448 1.108 94 4,2
1973 378 9.982 1.188 90 4,2
1974 373 9.915 437 90 4,1
1975 314 7.555 411 90 3,5
1976 268 6.673 426 90 3,0

230
Movimento quatroessista intensifica-se no R.G.Sul com a ajuda de líderes. Extensão Rural, ano II, n.14,
fev./67, p. 18.
1977 257 6.248 529 90 2,9

Fonte: Relatórios descritivos da Ascar 1956-1978, apud DIETERICH, Ronaldo. Clube 4’S: Descrição e análise
da participação de jovens e sua permanência nas atividades agrícolas. Porto Alegre, 1983. Tese

Portanto, até 1971, o trabalho desses clubes cresceu extraordinariamente, mas, após
este período, começou a declinar. O serviço de extensão apontou que a grande mobilidade de
técnicos, o despreparo do pessoal para um trabalho educativo e a falta de melhor adequação
de diretrizes contribuíram para esse declínio. 231
Para apoiar o trabalho dos clubes organizou-se o Conselho Estadual (Coesc), cujo
estatuto foi aprovado em 1972. O Coesc 4S era uma entidade civil, sem fins lucrativos,
apolítica, reconhecida de utilidade pública estadual pelo decreto lei nº 25536 e declarada

“órgão de colaboração do governo do Estado, junto à Secretaria da Agricultura”, pelo decreto


nº 81896.
A finalidade do Coesc era carrear e aplicar recursos como órgão de apoio técnico e
financeiro, visando ao preparo da juventude rural para participar da solução dos problemas
agropecuários do estado nos aspectos técnicos, educativos e sociais. Algumas metas foram
alcançadas em cinco anos de atividades do Coesc 4-S:

-Propiciou a realização de 1.037 treinamentos profissionalizantes para 16.872 jovens,


56 treinamentos em liderança para 1.468 participantes; editou 28 números da Revista
do clube 4-S, órgão que divulga as realizações quatroessistas do nosso Estado;
equipou os Conselhos Municipais para melhor atuarem junto aos jovens
quatroessistas, com bens móveis, tais como: 13 veículos, 13 máquinas de datilografia,
12 máquinas fotográficas, 4 projetores de slides, 4 mimiógrafos, e 6 gravadores;
promoveu a realização de: excursões de jovens em visita a instalações de fábricas de
adubos e locais turísticos do Estado; -exposições municipais de trabalhos
quatroessistas; concurso de tratoristas; premiação anual de campeões estaduais em
projetos individuais e comunitários. 232

Conforme Bicca, no estado, as organizações de apoio eram representadas pelo


Conselho, Estadual ou conselhos municipais e se constituíram mediante estatutos e
regulamentos próprios, tendo como associados entidades públicas ou privadas e pessoas
interessadas em contribuir, com seu esforço e recursos financeiros, para levar avante os

231
Ver, DIETERICH, Ronaldo. Clube 4’S: descrição e análise da participação de jovens e sua permanência nas
atividades agrícolas. Tese ( Mestrado em Economia rural e Sociologia rural ) - UFRGS, Porto Alegre, 1983.
232
EMATER/RS. Investir no potencial jovem e obter garantido sucesso: 5 anos de atividades. COESC –
Conselho Estadual de Clubes 4-S. Porto Alegre.
propósitos e a filosofia quatroessista. Os conselhos eram constituídos, em sua maioria, por
representantes da indústria, do comércio, dos órgãos oficiais e por particulares. 233 Formaram-
se também alguns conselhos municipais como os de Arroio do Meio, Santa Cruz do Sul,
Veranópolis, Nova Prata, Encantado, e Espumoso, entre outros.
O primeiro conselho municipal formado no Rio Grande do Sul foi em Santa Cruz do
Sul, conforme divulgou a revista do Clube 4/S:

Integração e dinamismo em Santa Cruz do Sul

O Conselho Municipal de Clube 4-S de Santa Cruz do Sul, o primeiro a ser organizado no
Estado, conta com o maior número de sócios filiados a clubes 4-S. Cerca de mil jovens
formam o grupo quatroessistas santacruzense, em seus 50 Clubes 4-S. O Conselho municipal
de Clube 4-S possui uma estrutura de três veículos, dois técnicos, e um instrutor especializado
em treinamentos básicos do setor secundário. Conta com uma unidade móvel de treinamento –
Unidade Móvel de Educação para o Trabalho - UMET, a qual destina-se a treinamento de
jovens em carpintaria e ferraria colonial, eletricidade, corte e costura e alimentação, além de
outras áreas como a de pedreiro, etc. É este Conselho o que executa o maior número de
treinamentos de jovens durante o ano, graças a perfeita integração existente na sede municipal,
a qual abrange todos os tipos de entidades e firmas. Com o patrocínio do PIPMO (Programa
Intensivo de Preparo de mão-de-obra), LBA, IECLB, e outras entidades, e a cooparticipação
efetiva do COESC 4-S (Conselho Arroiomeense de clubes 4-S) [...]. 234

Os conselhos destacavam-se pela orientação imprimida às atividades dos jovens em


benefício da comunidade, principalmente por meio de campanhas de educação sanitária,
sinalização de estradas, construção de praças públicas nos distritos, promoção de cursos
supletivos, instalação de lavouras racionais como modelos para os agricultores, difusão de
hortas domésticas e noções básicas de alimentação, combate às verminoses, trabalhos de
economia doméstica. 235
Em 1978, aconteceu o 1º Encontro Estadual de Clubes 4-S do Rio Grande do Sul, em
Santa Cruz do Sul, com a participação dos estados de Santa Catarina, Minas Gerais e
Pernambuco e representantes do movimento de Juventude Agrária da República Oriental do
Uruguai. De acordo com a Revista do Clube 4/S, o objetivo era divulgar, junto aos órgãos
governamentais, ao empresariado industrial, comercial e financeiro e ao público em geral, a
pujança jovem do estado, suas aspirações, ansiedades e realizações nos Clubes 4-S.

233
BICCA F. Eduardo. Os conselhos de Clubes 4-S. Revista do Clube 4-S ,ano VII, n.32, jan./fev. 1978, p. 20-
21.
234
Idem, p. 22.
235
Conselhos capacitam jovens. Revista dos Clubes 4/S, ano III, n. 8, jan./fev. 1974, p. 13.
Após a introdução dos Clubes 4-S no Brasil o trabalho expandiu-se rapidamente,
tendo grande repercussão na imprensa os seus resultados. No próximo capítulo, relatamos
como foi a atuação desses clubes no meio rural de Passo Fundo.
CAPÍTULO 4

OS CLUBES 4-S NO MEIO RURAL DE PASSO FUNDO

Neste capítulo mostramos como ocorreu a introdução dos Clubes 4-S no meio rural de
Passo Fundo, especialmente no distrito de São Roque, bem como a metodologia utilizada, a
participação dos jovens e agricultores, os incentivos ao associativismo, os resultados,
alterações e redefinições ocorridas no decorrer do trabalho.
A agricultura desenvolvida na pequena propriedade nas áreas de mata de Passo
Fundo até final da década de 1960 seguia os métodos tradicionais em meio ao processo de
modernização que estava revolucionando a produção agrícola nas áreas de campo.
Os Clubes 4-S tornaram-se intermediários do serviço de extensão rural na
transferência de tecnologia para o meio rural através da educação das famílias, objetivando a
mudança dos métodos tradicionais, considerados atrasados e prejudiciais ao desenvolvimento
econômico do país. Conforme foi visto anteriormente, vários argumentos eram apresentados
para justificar o envolvimento do jovem no trabalho da extensão rural, como o elevado
número de jovens, o êxodo rural, a necessidade de complementar a educação familiar e
escolar, a facilidade do jovem para aceitar inovações, mudanças, a necessidade de aumentar a
produção e a produtividade a curto e a longo prazo.

4.1 A introdução e metodologia de trabalho dos Clubes 4-S em Passo Fundo

Em Passo Fundo, o trabalho com os Clubes 4-S iniciou na década de 1960, tendo a
maioria dos clubes se formado no distrito de São Roque, nas localidades de São Roque, São
Valentim, Santa Gema, Nossa Senhora das Graças e Capinzal.
Conforme entrevista com uma das lideranças que iniciou o trabalho com os clubes no
distrito de São Roque: “Eu era professor lá na localidade de São Luiz, na Escola Epitácio
Pessoa, quando fomos procurados pela primeira vez pela Ascar, e foi ali que começamos o
Clube 4-S. Depois de lá, fui transferido para São Valentim, onde foi formado também.
Depois surgiu em São Roque, em São José [..]”. 236 Para os jovens, os Clubes 4-S eram uma
novidade, razão pela qual participavam deles com entusiasmo, como transparece nesta fala:

Começou o 4-S e a gente tinha aquela empolgação porque era uma coisa nova,
instruía com o agrônomo da Ascar para o desenvolvimento da agricultura, como o
terraceamento, análise de solo, recuperação da terra e as novas técnicas de plantio, a
semente híbrida; o trigo já modificado não era mais aquele de antigamente, o Fontana,
Peladinho. Então já veio as variedades de trigo preparado, produzido na Embrapa, já
tinha a pesquisa naquela época e, através da Ascar, a gente aprendia, trabalhava em
grupo. Começamos com milho, com trigo e terminamos com soja. O 4-S foi uma
porta que se abriu pra gente plantar na técnica porque a gente plantava antigamente,
derrubava mato, pra fazê lavoura. Plantava até a terra fica ruim, derrubava outro lugar
e ali deixava vira mato de novo, capoeirada. 237

No trecho do depoimento transcrito, evidencia-se que foi a partir da formação dos


clubes que os jovens entraram em contato com novas técnicas agrícolas e interessaram-se por
elas, porque no meio rural eram inseridos muito cedo na rotina de trabalho, desempenhando
tarefas agrícolas e domésticas, com poucas atividades de lazer. Além disso, na época, os
agricultores estavam com as terras esgotadas, o que era motivo de preocupação para toda a
família. Por essa razão, muitas famílias do distrito haviam migrado para Santa Catarina e para
o Paraná em busca de terras férteis para produzir, e alguns jovens tiveram de ir trabalhar na
cidade a fim de ajudar os pais. Nesse contexto, o medo de vender a propriedade, de ver a
família desestruturada, de não poder oferecer o sustento ou terra para os filhos atemorizava
o meio rural.
De acordo com Tedesco, a ordem social do colono fundava-se na ligação entre
238
propriedade, família e trabalho, este com sentido para além do econômico: “O italiano
considerava a propriedade um bem intocável e o maior bem a ser legado aos filhos”239 .
Assim, o apego à terra que haviam adquirido por herança dos pais ou comprado com o
esforço do trabalho envolvia sentimentos do colono desbravador, aquele que adquiria terras, e

236
ROVANI, A. Orlando. Entrevista...
237
MAFFI, Carlos. O entrevistado foi sócio do Clube 4-S de São José e ganhou premiação com o projeto
“Trigo” em 1970.
238
TEDESCO, João Carlos. Terra, trabalho e família: racionalidade produtiva e ethos camponês. Passo Fundo:
Ediupf, 1999. p. 50.
vender significava botar tudo fora, perder. Ao mesmo tempo, a pequena propriedade
limitava a capacidade de produção e tornava difícil a continuidade da tradição familiar.
Dessa forma, os jovens e os agricultores viram no trabalho dos Clubes 4-S uma
alternativa para a permanência no meio rural.

Os adolescentes, em geral, são influenciados pela força das regras do sistema de trabalho, de
participação na, com e para a família; aprendem logo a diferenciar funções, a estabelecer
hierarquias e deveres, a normatizar os princípios do trabalho voluntário (ver as coisas desde
cedo) em direção a uma razão prática e simbólica também, pois, pela lógica do trabalho e da
produção, há processo de inserção social, familiar, que consolida a identidade adaptada ao
lugar cultural.240

Em vista disso, os jovens poderiam contribuir para consolidar as práticas agrícolas e


domésticas existentes, bem como alterá- las na medida em que assimilassem novas orientações
e deixassem de lado as tradicionais, pois o jovem é mais suscetível a mudanças e inovações.
Dessa forma, a formação dos Clubes 4-S provocou rupturas e redefinições no tocante ao
trabalho e à produção no meio rural.
Em 1968, Passo Fundo contava com nove Clubes 4-S, que funcionavam nas
comunidades de Santo Antão, Arroio do Tigre (Sertão), Esquina Penz, Mato Castelhano; São
José, São Roque, Capinzal, São Valentim, Santa Gema. 241 A maioria desses estava localizada
no distrito de São Roque.
O primeiro passo para a formação dos Clubes 4-S era a escolha das comunidades, o
que era feito analisando-as de acordo com a sua expressão econômica, a existência de adultos
dispostos a colaborar e um bom potencial de jovens, a disponibilidade de terra e o trabalho
com adultos. Conforme Ferreira, o potencial econômico de uma comunidade facilitava o
trabalho com jovens e a transferência de uma tecnologia mais avançada. Nas áreas de baixa
renda, a orientação da extensão era atingir a família no seu todo; portanto, trabalhar com
jovens em comunidades onde não havia trabalho com adultos, além de contrariar uma
orientação na extensão não seria fácil, porque estes, desconhecendo o trabalho extensionista,
certamente não dariam o apoio desejado e necessário. Finalmente, o fator disponibilidade de

239
SANTIN, S. Dimensão social do trabalho e da propriedade do imigrante italiano na ex-colônia de Silveira
Martins, DE BONI , L. A. (Org). A presença italiana no Brasil. Porto Alegre: Est, p. 456.
240
TEDESCO, 1999, op. cit. p. 91.
241
15 de Julho – Dia Nacional de Clubes 4-S. O Nacional, Passo Fundo, 13 jul. 1968, p. 3.
terra era de grande relevância, uma vez que, sem terra, o sócio ficava limitado ou impedido de
executar o seu trabalho individual. 242
Pode-se dizer que o distrito de São Roque foi selecionado para desenvolver o trabalho
da extensão rural porque se enquadrava nas exigências citadas anteriormente, ou seja, os
agricultores eram, em sua maioria, proprietários das terras e, em algumas, comunidades
rurais, havia em torno de cem alunos nas escolas, que poderiam se tornar sócios dos Clubes
4-S. Na entrevista direta com a extensionista que trabalhou no período, pode-se compreender
como ocorreu o início do trabalho nas comunidades.

Assumi Passo Fundo em 1966, aí fiz os primeiros contatos. Já existia em algumas


comunidades aquele trabalho, porque a gente ia nas comunidades para orientar e
explicava como que era e eles decidiam se queriam ou não. Naquela época, não tinha
mais ninguém que trabalhava com o meio rural. Hoje existem muitas entidades.
Naquela época, nem a Igreja ainda não tinha grupos de jovens. Então era a única
entidade que ia até eles e, como a gente trabalhava com os pais, com as mães, com as
senhoras e o agrônomo orientava os agricultores, então, os próprios pais incentivavam.
Não eram todas as comunidades que aceitavam, né. Nós fizemos trabalhos bons. A
gente sempre procurava levar novidade pra eles porque o objetivo principal no início
do trabalho era conter o êxodo rural e hoje a gente sabe que é meio impossível. Eu
também sou fruto do êxodo rural porque nasci e me criei no interior, mas a gente
justamente preparava eles pra ficar, pra eles terem condições de melhorar onde eles
estavam. O Clube de São José era bem atuante, São Roque era atuante também. Santo
Antão, Santa Gema, São Valentim era bem atuante. Depois nem tanto. Em Nossa
Senhora das Graças, começamos um, foi uma professora Grando que liderou. Em São
Valentim era o professor Antônio Grando [...]. A gente dizia: “ Olha, a gente não vem
ensinar nada pra vocês, a gente vem pra trazer coisas que a gente aprendeu pra
melhorar. “Eu levei muita coisa pra elas, mas aprendi muito com elas. Algumas
coisas tinha resistência, o fato também de ser uma equipe um agrônomo e uma
extensionista tinha lugar que achavam que nós tinha que ser casados [...]. 243

Através da entrevista percebe-se que, na época do início da formação dos Clubes 4-S,
não havia outras entidades trabalhando diretamente no meio rural; os extensionistas rurais
eram os responsáveis para desenvolver um trabalho diferente na comunidade, incentivando os
agricultores para que permanecessem no seu meio, pois nem todas as comunidades aceitavam
com facilidade o trabalho desses agentes.

242
FERREI RA, L. Carmem. Trabalho com Clubes 4-S. Emater/RS, 1998, p. 8.
243
MATZEMBACKER, Elma. A entrevistada foi extensionista em economia doméstica na região de Passo
Fundo no período de 1966 a 1978.
Por isso, tornava-se necessário uma metodologia eficiente, prática e objetiva. Costa
caracterizou os métodos da extensão como convencionais, de ensino e treinamento, que
foram adaptados e aperfeiçoados para o tipo de educação extra-escolar que o agente de
extensão deveria promover. 244 O autor classifica os métodos utilizados pela extensão como
individuais (visita, contato, demonstração de resultados, demonstração de técnica), grupais
(reunião, demonstração de resultados, demonstração de técnica, cursos, excursões) e massais
245
(rádio e TV, jornal, carta-circular, cartazes, publicações, exposições).
Assim, após a escolha das comunidades, iniciava-se o processo de difusão da idéia,
quando os extensionistas visitavam as famílias, faziam reuniões com jovens para a
identificação e escolha de líderes voluntários, explicando o que era um Clube 4-S e quais
eram os seus objetivos e solicitando que indicassem uma pessoa como responsável pelo clube.
Ferreira explicita bem o procedimento para o início das atividades no meio rural:

Quanto maior for o número de pessoas entrevistadas e de líderes identificados melhor, pois eles
terão que passar por uma segunda indicação, também muito importante, que é a dos jovens.
Feitas todas as visitas, tabuladas as respostas, teremos a relação dos líderes, indicados. O
próximo passo é reunir os sócios e apresentar esta relação a eles solicitando que indiquem,
dentre estes ou ainda outros, quais os líderes que gostariam que fossem responsáveis pelo seu
clube. Feito isso, visitar somente aqueles líderes voluntários que tiverem a indicação dos
líderes da comunidade, dos pais e dos jovens. Nas visitas a esses líderes depois de motivá-los
sobre o que é o trabalho 4-S, dizer da indicação que tiverem e consultá-los para saber se
gostariam de se responsabilizarem pelo Clube 4S de sua comunidade.
O clube poderá ter mais do que um líder , pois quanto mais maduro for um grupo maior é o
número de líderes que terá. Na medida que os líderes forem sendo treinados, forem atuando e o
tempo for passando vai se processando uma seleção natural, ficando no Clube somente aqueles
que realmente estão interessados em trabalhar com os jovens. 246

Com o exposto, observa-se que existia uma metodologia a ser seguida e que o
trabalho exigia uma aproximação maior com a comunidade visando conhecer as lideranças e
os jovens, buscando apoio e confiança das famílias para sua introdução.
Na escolha das lideranças, era essencial que pertencessem à comunidade: “A gente
começava indo na comunidade e tinha indicação de alguém que dizia: ‘olha vai na casa de
fulano...’. 247 Muitos indicavam professores ou pessoas que lideravam as atividades religiosas,
mas o líder poderia também ser um agricultor, uma dona de casa, algum jovem de mais

244
COSTA. Vaz, M. Extensão rural. Porto Alegre: URGS, 1973, p. 83.
245
Idem, p.85.
246
FERREIRA, Trabalho com Clubes 4/S, p. 9.
247
MATZEMBACKER, Elma. Entrevista ...
idade, um sócio de clube. Uma pessoa do sexo masculino liderava os meninos e uma do sexo
feminino, as meninas, conforme relata um dos líderes dos Clube 4-S:

Comecei no clube procurado pelo agrônomo, naquela época era da Ascar. Vieram aí e
andaram pela redondeza, todo mundo me indicou. Daí vieram aí insistiram, insistiram,
até que aceitei, então, formar um clube. O que acontece é que, naquela época, a
Ascar não era conhecida. Veio pra trabalhar com o agricultor, mas o agricultor não
conhecia, inclusive nós tinha ódio da Ascar porque em época de política, o prefeito
pegava o agrônomo e saía pra fora né. Com a campanha política dele, ia dá assistência
pro agricultor. E nós achava que aquilo era uma politicaia, né, nós não compreendia,
não havia uma explicação que esse escritório tava aí à disposição pra nós enquanto que
eles não vieram procurar. Daí que nós descobrimos o valor da assistência técnica. Eu
lia sempre no jornal sobre o escritório da Ascar, que um foi pra Porto Alegre, pra cá e
pra lá, mas eu não sabia o que que eles faziam, que era uma assistência gratuita, com
interesse de trabalhá. Aí começaram a visitar mesmo e o que nós aprendemos com
eles! Foi um desenvolvimento pra nós, não tinha conservação do solo, higiene, fossa,
água encanada, às vezes tinha uma vertente boa e não sabia aproveitar aquilo ali.
Puxava água com balde coxilha acima; aquele poço aquela manivela. A maioria era na
vertente que iam buscar, e aquelas vertentes não cercavam nem nada, os porcos iam se
banhá. Era assistência técnica, principalmente na higiene o que eles martelavam; lidar
com as crianças, verminoses. Eu atendia o colégio, a Igreja e a Ascar. A Igreja tava
condenada, então nós fazia a reunião na rua mesmo. 248

Como observamos, os agricultores tinham pouco conhecimento sobre o trabalho que a


Ascar desenvolvia antes de serem procurados pelos extensionistas, e as lideranças eram
indicadas na comunidade. Por intermédio dos jovens, objetivava-se atingir os pais para a
adoção das novas técnicas recomendadas pela Ascar. Assim, após a escolha das lideranças
partia-se para a organização do clube, que consistia em escolher um nome para a entidade, em
escolher a diretoria, eleita pelos sócios e composta por quatro membros: presidente, vice-
presidente, secretário e tesoureiro; em planejar e executar um plano anual de atividades, com
reuniões regulares, reuniões técnicas, recreações, exposições e outras atividades. Cada clube
fundado tinha seu espaço na imprensa, como vemos nesta notícia veiculada no Diário da
Manhã:

Baseado exclusivamente no trabalho da liderança vem iniciar suas atividades mais um clube 4-
S no município de Passo Fundo, em São José, localidade situada há poucos quilômetros desta
cidade. Os sócios e líderes nessa reunião escolheram o nome do clube que será denominado de
“Bom Sucesso”. Procedida a eleição da diretoria ficou a mesma assim constituída: Presidente
– Lírio Donato; vice-Armando Cardoso; tesoureira – Marly Tauffer; rainha – Rosmari Zanotto

248
PENZ, José Oscar. O entrevistado foi líder 4-S na comunidade de Santa Gema.
e suplentes – José Souza, Fátima Strello e Otília Bortolin. São Líderes do Clube as seguintes
pessoas: Srtª Neide Tauffer, Srª Fridolina Donatto, Sr. Walter Maffi, Sr. Zélio Donatto e Sr.
Zélio Michel.249

As reuniões dos clubes eram realizadas nas residências dos sócios, nas escolas, em
igrejas; posteriormente, foram construídas sedes para os clubes nas comunidades. De acordo
com o manual da diretoria: as reuniões ofereciam aos jovens a oportunidade de crescerem
socialmente e de se prepararem para uma posição de destaque na sociedade. Esse crescimento
se realizava especialmente porque nas reuniões os jovens aprendiam a discutir de forma
democrática os problemas do grupo, a planejar e buscar soluções. 250 Nas reuniões, poderiam
debater sobre vários assuntos, mas sugeriam-se alguns, como religião, educação sexual,
mercado de trabalho, política agrícola, preservação do meio ambiente, relações humanas,
liderança, dinâmica de grupo, Funrural e outros.
Para as reuniões sugeria-se que fossem seguidos alguns passos como abertura da
sessão, formalização do compromisso 4-S, leitura da ordem do dia, chamada dos sócios,
apresentação dos visitantes, leitura da ata, apresentação de assuntos ainda não resolvidos, de
assuntos novos ou avisos, informação sobre os projetos. Para a sessão técnica realizava-se a
demonstração; após, debate ou palestra, encerramento, sessão recreativa. 251

Fonte: Arquivo pessoal de Oscar Penz

Figura 15 - Reunião do Clubes 4-S de Santa Gema

249
Nasce um novo Clube 4-S no município de Passo Fundo: Bom Sucesso. Diário da Manhã, Passo Fundo, 21
set. 1967, p. 4.
250
EMATER/RS. Manual da Diretoria de Clube 4-S. Porto Alegre: 1981, p. 10.
251
Ver EMATER/RS. Livro de Presidência e Secretaria.
Nos Clubes 4-S havia o interesse em despertar no jovem a autoconfiança, o senso de
responsabilidade e liderança para permanecerem no meio rural, produzindo de acordo com
as novas técnicas que lhes eram transmitidas. Conforme a imprensa noticiava na época:

Clubes 4-S (SABER, SENTIR, SAÚDE, SERVIR) são grupos de jovens entre 10 e 20 anos,
organizados no meio rural, que se preparam para serem bons agricultores, boas donas -de-casa e
bons cidadãos. Os sócios aprendem práticas modernas, novas técnicas, úteis à agricultura, e
trabalhos domésticos, praticando-as em suas casas através dos seus trabalhos individuais. Os
jovens se preparam para serem Líderes e Cidadãos úteis na localidade onde moram.
Acostumam-se a viver em grupos, com espírito de cooperação e lealdade, dentro dos princípios
democráticos.
Cada Clube elege sua diretoria, planeja e executa um Programa Anual de Trabalho, com
reuniões regulares, exposições, excursões e outras atividades. Quando é fundado um Clube 4-S,
a comunidade que o organiza é responsável por ele, participando com interesse da sua
organização e do seu programa. Sabe os benefícios que traz um Clube 4-S e sabe também que
grande parte do sucesso do Clube depende do apoio e colaboração que lhe for dado. Por isso é
importante que a comunidade conheça bem o Clube e ajude-o a se organizar e se desenvolver.
Os clubes são guiados e orientados por líderes adultos, voluntários. É preciso que haja um
líder de clube, que é seu orientador, e é responsável pelo clube. Podem existir, ainda, líderes
de projeto, que orientam os sócios na execução de seus trabalhos individuais. Os Clubes 4-S
são promovidos e assistidos pela ASCAR, que colabora com esses líderes, oferecendo:
Orientação e treinamento para líderes, folhetos e livros para sócios, diretoria e líderes,
programa de prêmios para sócios, líderes e Clubes. 252

Com isso, o trabalho dos Clubes 4-S desenvolvia-se de acordo com o material e a
orientação fornecidos pelos agentes, um engenheiro agrônomo, uma agente extensionista em
economia doméstica e uma auxiliar administrativa. Essa equipe de extensão rural atuava
junto às famílias e buscava o apoio das lideranças do meio rural. Segundo a imprensa local:

Essas três pessoas atuavam no sentido de proporcionar às famílias rurais melhores condições
sociais e econômicas [...]. Assim, para alcançar um maior número de pessoas, os agentes da
ASCAR lançam mão de um imenso potencial existente no meio rural, que é a liderança,
identificada por processo sociométrico e pelo método dos juizes. Esses líderes rurais uma vez
identificados e devidamente treinados realizam grandes trabalhos, auxiliando positivamente o
trabalho de levar a tecnologia nos setores da agricultura, pecuária, economia doméstica,
higiene e saúde. 253 (grifo nosso)

Com o exposto, torna-se claro o papel dos líderes como indutores de um aparato
tecnológico no meio rural, pois geralmente eram pessoas bem conceituadas junto à

252
O que são Clubes 4-S. Noticioso Colorado. Passo Fundo, jul. 1968, p.4.
253
Nasce um novo Clube 4-S no município de Passo Fundo: Bom Sucesso. Diário da Manhã, Passo Fundo, 21
set. 1967. Segundo Ferreira, a sociometria é um método que permite a determinação da atração ou repulsão entre
as pessoas de um grupo social. Ela pode ser empregada com eficiência tanto na identificação de líderes de
grupos organizados, como na identificação de grupos sociais e na estratificação de comunidades. A identificação
comunidade e cuja participação nos projetos e na formação dos Clubes 4-S dava abertura
para um envolvimento maior da comunidade no trabalho divulgado pelos extensionistas. O
objetivo para o desenvolvimento desse trabalho era:
O trabalho de extensão com a juventude rural, através dos Clubes 4-S, tem como objetivos
orientar os jovens para as futuras atividades agrícolas e domésticas e ainda para a vida social,
de modo a que cumpram seus deveres e exercitem seus direitos em relação à família, à
comunidade e à Nação. Contribuir para que os jovens tomem consciência de seu valor como
pessoas humanas e que reconheçam esse valor nas pessoas que os cercam. Ajudar o jovem a
ajudar-se, capacitando-o para as responsabilidades atuais e para as que terá que assumir na
idade adulta. Enfim, complementar a educação familiar e escolar através de métodos
dinâmicos. 254

Assim, o trabalho da extensão tinha um objetivo educacional que visava atingir o meio
rural como um todo através dos Clubes 4-S. O lema dos clubes era “Progredir Sempre”; um
uniforme, constituído de uma camiseta com o emblema dos Clubes 4-S, servia para identificar
os sócios; o hino 4-S, o Hino da Juventude, era cantado nos encontros e também se prestava
juramento às bandeiras dos 4-S e do Brasil nas atividades realizadas. Utilizavam-se esses
recursos nas reuniões, encontros, treinamentos, ou seja, em todas as atividades, simbolizando
a união, o entusiasmo e o empenho dos jovens na realização dos objetivos propostos pela
extensão.
Ferreira acrescenta alguns objetivos aos que foram citados anteriormente para
desenvolver o trabalho com o Clubes 4-S: “Estimular a participação dos jovens em
cooperativas, sindicatos e outras entidades associativas visando prepará- los para futuras
funções administrativas e diretivas e, também, exercitá- los na utilização dos serviços dessas
255
entidades”.
Constatamos que os jovens também seriam preparados para as atividades ligadas à
produção agropecuária, com o incentivo à participação em sindicatos, em cooperativas e
desenvolvimento de habilidades para assumir o trabalho na empresa rural. Entretanto,
segundo uma das lideranças entrevistadas, a introdução do trabalho não foi fácil: “O trabalho
era maravilhoso, mas era uma coisa nova que ia para um lugar, parecia, vamos dizer, nós
aqui, entrar falar com os índios antigamente. Era um pouco difícil pros da cidade ir lá passar

de líderes através da sociometria é feita por perguntas sociométricas puras ou indutivas. Ver FERREIRA, op.cit.,
p.51.
254
EMATER/RS. Manual da Diretoria de Clube 4-S. Porto Alegre, 1981, p. 1.
255
FERREIRA, Trabalho com Clubes 4-S, p. 4.
as técnicas novas da modernidade da agricultura, acostumados com aquele sistema antigo”. 256
As dificuldades aumentavam no tocante à introdução das novas técnicas agrícolas:

Os pais diziam: “Se o milho amarelo, o branco dá bem, por que é que vamos trocar?
Então a Ascar queria introduzir o híbrido, que era provado que iria render mais, né,
mas foi difícil. Foi difícil porque, quando começaram a implantar na agricultura o
milho híbrido, tinha que fazer análise da terra. Quem é que ia pegá a terra pra analisá?
Teve pessoa que pensava que agora as coisa era diferente, né. Tinha que ir no nome
da pessoa do dono da terra e tinha pais que não queria ceder o nome, que tinha terra,
porque tinha falcatruas naquela época também. Sempre tem os vivos né. Não era o
caso da Ascar. Eles eram sinceros, responsáveis e queriam introduzir as cois as mais
modernas na época. [...]. 257

Observa-se que muitos agricultores viram com desconfiança o trabalho de pessoas


que vinham da cidade, querendo obter informações e fazendo experimentos nas terras:
“Teve gente que disse assim: ‘Esses aí estão de olho na nossa terra!’, quando ia gente da
cidade pra fora. Não é só hoje que os colonos estão de alerta. Até falsos padres iam pro
interior, falsos mascates, vendendo roupa, corte de lã... Então os antigos tinham medo”258 .
Outros diziam que era coisa do comunismo. Portanto, era difícil a aceitação das pessoas que
vinham de fora (cidade) para o meio rural.

O trabalho dos Clubes 4-S foi o começo, mas o povo tava rebelde. Acho que tiveram
que ver o pedacinho de terra dos filhos para poder acreditar. O povo é arredio pra
essas coisas, se arreda mesmo. Uma coisa que eles não conhecem, eles acham que tá
vindo pra dá prejuízo. Mas não demorou três ano que tava todo mundo puxando
calcário. 259

O trabalho com a juventude, sem dúvida, era uma forma de atingir também os pais
com mais facilidade, além de que os jovens seriam os futuros agricultores; logo, era um
trabalho que visava atingir resultados a curto e a longo prazo. De acordo com um dos
entrevistados neste estudo:

256
GRANDO, Roberto Antônio. O entrevistado atuou como professor e líder 4-S da comunidade de
São Valentim no período delimitado para o estudo.
257
Idem.
258
Idem.
259
SOUZA, O. Carlos Luiz. O entrevistado foi líder da comunidade de São José.
Não foi muito fácil, com as crianças foi mais fácil. Se não fosse a influência das
crianças, com os pais era meio difícil, era complicado pra eles começar a se
desenvolver também, prá conquistar o que eles fizeram: a Ascar fornecia, acho que
era através da Prefeitura, semente híbrida, um quilo, dois, para cada sócio e aí nós
apelava pros pais dá um pedacinho pra eles plantar, que eles iam ver a diferença. Daí
eles se acordavam e viam a necessidade de plantar a semente híbrida.
A diferença era grande, dois anos antes eu já havia plantado onde eu morava antes
(Esquina Penz). Eu plantei um saco de milho híbrido. Naquela época foi o patrão que
trouxe. Nós plantava em súcia. Ele comprou o milho ponta, que era mais barato.
Produziu 400 e tantos sacos com um saco de 40 quilos. Aquele ano foi um ano de
seca, em redor não chovia e lá dava nuvem e chovia. Naquele ano (1960) eu tirei,
plantando as meia, o que comprei esta propriedade. Eu tirei num ano, mas trabalhava,
a mulher também. Sofremos, capinamos, passava o arado pra facilitá carpi. Daí eu já
tinha aquela experiência ali e a vontade de aprender. 260

No decorrer dos anos, os Clubes 4-S realizavam os projetos. Os pais iam


acompanhando os resultados positivos e já não viam os extensionistas como pessoas estranhas
à comunidade, pois haviam formado vínculos de amizade. Assim, reduzia-se a resistência aos
trabalhos e envolvia-se um número maior de agricultores.

4.2 As primeiras experiências: projetos individuais e comunitários

O trabalho desenvolvido pela juventude nos Clubes 4-S foi expressivo na difusão e
adoção das inovações técnicas no meio rural em virtude da aplicação prática dos
ensinamentos através dos projetos. Também foi a partir desse trabalho que foram feitos os
primeiros financiamentos:

Eu comecei a participar dos 4-S, eu era um dos mais velhos, tinha 17 anos. Com 18,
19 anos, como eu era um dos mais velhos e tinha uma área de terra no meu nome,
então já fiz o cadastro no Banco do Brasil no meu nome. Foi um trabalho muito
bom, que eu já era casado e participava junto ainda. Naquela época, jovem era só
quem era solteiro, e eu casei cedo e continuei. Tinha mais de 30 jovens de 20 anos pra
menos, até 12, 13 anos. A gente dava oportunidade até pros mais novos participarem
juntos. 261

260
PENZ, José Oscar. Entrevista...
261
SOUZA, S. José. O entrevistado foi sócio 4-S na comunidade de São José.
Nos clubes, os jovens eram orientados para desenvolver projetos individuais, que
seriam apresentados no final do ano, e comunitários, a serem desenvolvidos em conjunto
pelos sócios do clube, assim que este apresentasse uma boa organização, geralmente após um
ano de existência.

Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 16 - Colheita referente ao Projeto Trigo (1970)

Os projetos individuais poderiam ser voltados para a agricultura, pecuária ou economia


doméstica e eram realizados na propriedade do sócio. Assim, os meninos eram orientados
para desenvolver trabalhos com milho, trigo, batata, feijão, horta, cebola, videira, suínos,
gado de corte, gado leiteiro, etc. Na área de economia doméstica, as meninas desenvolviam
trabalhos ligados à alimentação humana, ou assuntos relacionados com higiene e saúde e
habitação: horta doméstica, pomar, agricultura, primeiros socorros, a dona de casa na
cozinha, arranjo de quarto, o milho na alimentação humana, o concurso de hortaliças, etc. 262
Para trabalhar com as meninas havia uma liderança feminina, conforme relata uma líder do
movimento:

262
EMATER/RS. Manual da diretoria dos Clubes 4-S, op. cit., p. 9.
De começo, o Walter era líder dos guri pra ensinar trabalho na lavoura, e eu tinha um
grupo pra ensinar as meninas. Ensinei receitas, fazer crochê e bordado. Eu tinha uma
turma bem grande. Elas iam fazendo o trabalho e faziam as festas e exposições.
Depois elas continuaram o trabalho e eu comecei no grupo de senhoras: um mês fazia
reunião numa casa, no outro mês era na outra. Foi anos assim no tempo da Ascar.
Depois ficou um par de anos sem, né, e depois veio a Emater. Então passou a ser lá no
salão da comunidade. 263

Também se organizou um trabalho para as senhoras, que faziam hortas e depois


podiam comercializar os produtos, entre outras atividades voltadas para a economia
doméstica, saúde, higiene. Mas nem todas as mulheres jovens participavam, pois, após o
casamento, as mulheres do meio rural passavam a se dedicar à família, além de participarem
das atividades agrícolas ou nas olarias. A vida social das mulheres ficava bastante restrita
após o casamento, ao contrário dos homens, que se reuniam nos salões para o tradicional jogo
de baralho e de bocha. Por isso, eram as jovens solteiras que mais participavam das
atividades nos Clubes 4-S; as senhoras mais idosas participavam do Clube de Mães.
Os trabalhos individuais dos meninos eram orientados pelos líderes de projetos, que
recebiam um folheto e um guia do sócio sobre o assunto que iriam orientar. O sócio também
recebia o material para desenvolver seu trabalho, inclusive sementes, calcário e adubos, que
eram fornecidos gratuitamente por algumas indústrias: “A Trevo ajudava muito nós, dava
adubos, sementes...”. 264 Esse trabalho exigia muita dedicação por parte do líder, conforme
revela este depoimento:

Foi uma época muito bonita, mas foi uma época cansativa. Nós lidava com tantas
crianças na escola, nós tinha cem alunos de 1ª a 5ª série e, à tarde, a outra turma dos
4-S. Tinha que ir até a lavourinha deles, medir a área de terra; não podia ser mais nem
menos. Tinha de ir conferir de vez em quando se não plantou mais, porque o perigo
era: se plantasse mais, renderia mais. Nós tinha uma missão fiscalizadora em cima
disso, era um pouco cansativo. 265

Essa fiscalização se justificava porque os jovens participariam de premiações com o


desenvolvimento dos projetos: “Nós gostava da concorrência: quem levava a espiga de milho

263
MAFFI, Catarina. A entrevistada foi líder das jovens 4-S da comunidade de São José...
264
MATZEMBACKER, Elma. Entrevista...
265
GRANDO, R. Antônio. Entrevista...
maior, o galho maior de soja nas exposições, e todo o ano tinha exposições. Era tão sério
que era contado vagem por vagem, grão por grão”. 266 Na fala de um entrevistado percebe-se
como era desenvolvido o trabalho com os jovens:

Na prática, nós ia na lavoura, aprender semear, aprender plantar, o negócio de curva de


nível, terraço. Eles que passaram pra nós. Tinha um grupo, a diretoria, o Walter
Maffi, o Zélio Michel, eles eram os líderes que orientavam o trabalho. Os pais
acompanhavam porque a gente participava ali e chegava em casa contava pra eles. E
foi ali que começou o trabalho de recuperação do solo. Fomos nós que aprendemos,
passamos pra eles e eles gostaram e acompanharam também junto. Ele dizia: “ Esse
pedaço é de vocês. Vocês vão plantá, colhê, fazer tudo”.
Teve muita diferença a partir do trabalho dos 4-S por causa da preparação da terra.
Antes, se desse uma chuva, uma enxurrada, levava a terra; se plantasse, tinha que
replantar porque a água levava aquela semente embora. Então, com esse negócio de
curva de nível, terraço foi muito bem aproveitado. Pra calcarear a terra também, antes
diziam: “Pra que isso?” Mas depois passaram a calcarear também.
A preparação da terra, antes, era tudo no meio dos tocos, com junta de boi, era uma
dificuldade imensa, porque enroscava arado de um lado, de outro, sempre sofrido.
Depois que foi inventado essa de plantar soja é que foi destocado (tirar os tocos) e foi
tudo projeto da Ascar. Era tirado tudo a mão, enxadão e machado. Aí ficava mais fácil
para calcarear. Quando iniciou, não precisava gastar. Deus me livre falar pro pai de
financiamento! Eles davam a semente, adubos, eles faziam outro tipo de
financiamento: pagavam quando colhia, direto com os líderes. 267

Com o apresentado, percebemos que as orientações repassadas aos jovens nas


comunidades através de demonstrações eram desconhecidas dos adultos, e foi a partir dos
Clubes 4-S que estes passaram a adotá- las. No início, era difícil os pais aceitarem a idéia de
fazer financiamentos; por isso, os produtos eram oferecidos gratuitamente: “Se conseguia
através das lideranças alguma coisa de adubo, que era ratiado entre os jovens pra incentivá as
primeiras lavourinhas com tecnologia de ponta. Um jovem do grupo conseguiu até uma
viagem pra Brasília porque tirou o primeiro lugar no estado”. 268
Havia também um sistema de crédito para os jovens quatroessistas junto ao Banco do
Brasil: “O meu primeiro contrato de financiamento foi com 16 anos de idade, acho que foi
uns dois anos. Depois não pagava a pena tá indo eu financiá se o pai também financiava.
Aquilo foi só um incentivo que o governo deu através da Ascar pra segurá o jovem no campo.

266
STRELLO, F. Antônio. O entrevistado foi sócio 4-S no período em estudo.
267
Idem.
268
SOUZA, S. José. Entrevista...
269
Teve muitos jovens que fizeram financiamento e os pais não fizeram.” A transcrição em
seqüência esclarece sobre o funcionamento do crédito que o Banco do Brasil oferecia aos
jovens:
O Crédito rural juvenil objetivava permitir aos sócios dos Clubes 4-S a realização de projetos
de desenvolvimento rural. Tem o mérito de iniciar os jovens na aprendizagem da utilização do
crédito e da assistência técnica, incutindo-lhes a responsabilidade pelo cumprimento de planos
e obrigações por eles assumidos.
Os financiamentos serão concedidos aos sócios dos Clubes 4-S de 10-21 anos assistidos ou
representados por seus pais ou representantes legais quando não emancipados. Podendo ser
dispensada a exigência nos empréstimos do valor com até três vezes o salário mínimo
representado no país. Poderão ser beneficiário os menores emancipados ou munidos de Alvará
expedido por juiz competente. O menor de até 16 anos (impúbere) deve ser representado pelo
pai, ou na falta pela mãe ou ainda pelo tutor. Com idade superior a 16 anos (púbere) assinará o
instrumento assistido pelo pai, pela mãe ou pelo tutor. 270

Assim se iniciavam os primeiros contatos dos jovens com os bancos para adquirir
financiamentos e realizar os projetos, sempre orientados pelos extensionistas e líderes, que
anotavam o desempenho dos jovens para concorrerem com os de outros clubes. No final do
ano, faziam-se exposições, nas quais os sócios apresentavam os trabalhos individuais e eram
julgados e premiados pelos seus esforços. Num documento da Emater encontramos o
seguinte:
Prêmios e reconhecimento
Existe um programa de prêmios e reconhecimento que premia anualmente os sócios e líderes
de Clubes 4-S. Por este programa, são escolhidos os campeões dos clubes, do município, da
região e do Estado nos diferentes trabalhos individuais e categorias de líderes. È julgado
também o Clube campeão em trabalho de clube.
Os campeões municipais recebem medalhas e os estaduais troféus rotativos. Os campeões
estaduais concorrem com os campeões dos estados de Santa Catarina e Paraná, resultando daí
os campeões da região Sul nos diversos trabalhos individuais.
A entrega dos prêmios é feita num encontro regional realizado num dos três Estados. Os
jovens campeões recebem o patrocínio total da viagem.
Alguns campeões da região Sul, como os campeões de produtividade em milho, trigo, soja,
batata e feijão, ainda concorrem ao Campeonato Nacional de Produtividade recebendo os
prêmios em Brasília. Além disso, os jovens e líderes de Clubes 4-S têm oportunidades de:
conhecer outros lugares, participar de convenções e congressos, fazer amigos em toda parte,
conseguir crédito bancário para desenvolver seus trabalhos.271

Dessa forma, a premiação servia de estímulo para o jovem quatroessista e nos clubes
se ampliavam as oportunidades de recreação e lazer, promovendo momentos de integração

269
MAFFI, Carlos. Entrevista...
270
Banco do Brasil. Circular Rural. n. 1, 15 março 1971.
271
EMATER/RS. Manual da diretoria dos Clubes 4-S. op. cit., p. 13.
dentro e fora da comunidade, com jogos de futebol, excursões, brincadeiras, reuniões
dançantes, visitas a outras comunidades.
Tudo isso se tornava um atrativo para os jovens, pois, no meio rural, havia poucas
opções de diversão, além de se sentirem valorizados com os resultados dos projetos que
realizavam. A partir desse trabalho, as comunidades do meio rural passaram a ter uma vida
social mais ativa, conforme a entrevista:

Nós chegamos a fazer torneio de futebol em Santo Antão, com 58 times de futebol. A
parte de lazer foi o fator predominante, o encontro das famílias e o sucesso que teve
com a comunidade de Santo Antão com a motivação do Clube 4-S. Em Santo Antão,
no começo, antes dos clubes, ninguém se reunia. Depois dos 4-S, chegava a ter 200,
300 nos encontros de clubes, deu mais de vinte casamentos. Foi uma mobilização, os
jovens, chegava sábado ou domingo, era Santo Antão, como se fosse uma festa quase.
Não tinha aquele espírito de ganhar dinheiro, não, era recreação, mesmo. Era bonito
que vinha gente de Santa Gema, São Valentim, Vila Rosso, São Roque. Todo o
domingo, havia encontro dos clubes. E a festa era uma festa comunitária, cada um
levava alguma coisa. Teve um progresso na área social e econômica com os projetos.
Na época ninguém plantava batatinha. Depois que os Clubes 4-S começaram, passou a
ser a maior região produtora de batatinha. Era um pessoal adormecido, precisava
alguém que despertasse, que podia produzir tudo, parreira, milho, pomar, tudo o que
cuidasse poderia produzir. Tinha uma época que diziam: “Plantando dá, recuperando
e adubando dá muito mais”. 272

Com o exposto, percebemos que o trabalho dos 4-S despertou as comunidades para as
atividades sociais; passou a haver maior integração, contribuindo para fortalecer os laços de
solidariedade, que faziam parte da tradição das famílias na prática dos mutirões para as
colheitas, de construções de casas, capelas, dos pequenos estabelecimentos que eram
instalados no distrito. Os jovens contribuíam para envolver a comunidade nas atividades
referentes à área social e, também, à econômica.

Os Clubes 4-S proporcionam aos seus associados, ensinamentos de modernas técnicas dentro
da agricultura, pecuária e economia doméstica. E, levam estes conhecimentos, para suas casas,
através de seus trabalhos individuais. Aprendem praticando, a serem úteis às localidades onde
vivem. O jovem rural, como toda a mocidade, representa um valioso potencial a ser utilizado.
Potencial, que reunido num trabalho integrado, obtém um enorme lucro pela gama de
experiências adquiridas pelos jovens.273

272
REBECHI, Auxílio. O entrevistado foi líder 4-S e atuou como presidente e principal liderança do Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Passo Fundo por trinta anos.
273
BICCA, F. Eduardo. Os conselhos de clubes 4-S. Revista do Clube 4/S, ano VII, n.32, jan./fev. de 1978, p.18.
Assim, percebe-se o interesse em envolver o jovem nos Clubes 4-S para atingir a
comunidade como um todo. As lideranças eram orientadas pela Ascar para desenvolver um
programa dirigido e todas as atividades realizadas eram divulgadas na imprensa, visando
mostrar a amplitude do trabalho que estava sendo desenvolvido na região e seus resultados, a
fim de abranger cada vez mais o meio rural nas atividades e obter apoio da sociedade.

4.3 A adoção das inovações tecnológicas pelos agricultores

Com os projetos realizados pelos jovens dos Clubes 4-S, os agricultores puderam
observar que realmente poderiam melhorar a produção e, aos poucos, foram adotando as
novas técnicas. As palavras de um dos líderes rurais mostram as preocupações do pequeno
agricultor na época em que se iniciou o trabalho com os clubes. Walter Maffi, um dos
entrevistados, relatou:

Aqui esgotou muito o solo e a Ascar entrou fazendo reuniões para a recuperação do
solo. Aí a gente começou, fez um grupo bom aí em São José, Nós começamos a
visitar os municípios que haviam implantado o sistema: Ibirubá, Não-Me-Toque.
Foram vendo que seria viável, e a permanência do agricultor ficava mais fácil. Eu
sempre pensava: “O que vou fazer?” Tinha três filhos, depois veio mais duas meninas:
“Será que vou conseguir sobreviver com a lavoura pequena?” Quando veio essa
renovação, foi uma coisa, que mudou do dia pra noite. Tivemos orientação desde a
criação de suínos, entramos alimentando eles com ração. O técnicos diziam: “ Vocês
têm o milho, mas não adianta dá o milho, vocês têm de moer o milho, misturar a
farinha de carne com o farelo, sal mineral. Assim, aproveitam mais a qualidade do
alimento e os suínos engordam mais rápido”. Eu fui o primeiro que plantou o milho
híbrido, da Agroceres. Eles diziam: “Só não plantem como vocês plantava m, 3, 4 num
buraco e perto. Coloquem um e longe”. Em 67, 68, o Clube 4-S foi que iniciou o
trabalho mesmo, que envolveu o jovem daquela época. O jovem naquela época, com
12, 13 anos, participava, demos responsabilidade pro jovem. Quando o jovem tem
responsabilidade, se sente realizado. Tinha três líderes: eu, o Luiz Souza e o Michel,
orientados pela Ascar. 274

274
MAFFI, L. Walter. O entrevistado foi um dos líderes da comunidade de São José.
Essa mudança do “dia para a noite” fez com que se expandisse o trabalho dos Clubes
4-S, principalmente após a observação dos resultados dos projetos de demonstrações adotados
pelos jovens e lideranças da comunidade. Os resultados da produção foram destacados na
entrevista a seguir:

Ninguém acreditava na tecnologia que tava entrando, não tinha máquina pra esparramá
calcário. Tinha que ser a mão. Tinha gente que não acreditava mesmo. Nós
começamos indo no Banco do Brasil financiá aquilo lá e um funcionário disse: “Daqui
um tempo ninguém vai plantar sem isso”. Não demorou muito porque os resultados
foram aparecendo na primeira vez. A produção foi coisa mais bonita de ver. Quem
conhecia terra que não tinha cultura que viesse e começou a produzir que nem roça
nova, foi olhar pra fazer também. As terras estavam esgotadas, a minha e a do meu
irmão era a pior. A primeira atividade foi passar calcário e terraceá pras águas da
chuva não envaletá tudo, senão chovia e a água levava tudo pros banhados e ficava só
os torrão. O calcário, naquele tempo, não sei como chegava na cooperativa. Fomos
buscar na cooperativa e descarregá no galpão, era pesado tava quebrando o soalho do
galpão. E depois era ensacado aquele calcário lá e tinha que botá tantos quilos num
quadro certo, na metragem. Tinha que marcar tudo na lavoura e ir semeando a mão. O
calcário era pesado que nem cimento e pra botá em bolsa, levá na roça, descarregá de
novo no chão, botá nas latas e esparramá, os jovens ajudavam. 275

As orientações não se restringiam à agricultura, também envolviam a pecuária.


Conforme entrevista direta com um dos líderes da comunidade de São Valentim:

Fiz um chiqueirão por intermédio da Emater. Era do Clube 4-S, eu fui líder lá em São
Valentim. Fiz um chiqueirão porque o meu era lá embaixo no moinho, muito na
sombra. Daí fiz mais no alto, tudo automático: trazia água na caixa, não sofria, era só
tratar os animais. Naquela época, o porco demorava pra engordar [...]. Fazia reuniões,
eu era responsável de pegar os colonos para reuniões, como plantar o trigo, o soja. O
colono é teimoso, as terras lavadas, fracas; derrubavam mato, não usavam adubo.
Diziam que não adiantava. Daí era aquela velha história de ver pra crer. Quando
viram que o vizinho começou ir bem, também entraram. Naquela época, a taxa de juro
era baixa, aí começaram a comprar trator, adubar. Eles davam tudo: desenhos,
arquitetura de chiqueirões de porco modernos, estrebarias, mas muitos não queriam
[...]. 276

O suíno era um produto de grande importância econômica e social na região, sendo


comercializado nos frigoríficos dos municípios de Passo Fundo, Marau, Serafina Correa, mas,

275
SOUZA, O.C. Luiz. Entrevista ...
276
ROVANI, A. Orlando. Entrevista....
para aumentar a produtividade do rebanho suíno, era necessário mudar o sistema de criação,
adquirindo porcos de raça, utilizando-se de novas instalações, com comedouros automáticos,
bebedouros, uso de rações balanceadas e outros complementos de acordo com as orientações
dos extensionistas. Várias foram as técnicas introduzidas pela Ascar, conforme este
entrevistado:

Lá no Maffi, nós tivemos mais do que uma vez fazendo silo trincheira. Faziam um
buraco na terra. Dependendo de quanta pastagem queriam guardar no inverno, se
cortava o milho e colocava dentro, moía e passava na máquina, na trilhadeira e,
depois, colocava dentro daquele buraco. Já existia essas lona preta, daí enrolava e
cobria de terra, isso era feito lá pelo mês de novembro, dezembro, janeiro. Era
colocado o milho verde e, depois, só dali a cinco, seis meses pra abrir. Quando abria,
tava perfeito ainda, como a gente colocou lá. O segredo é que não podia pegar ar.
Eles introduziram bastante coisa. Eu, por exemplo, peguei logo e gostei, só que, para
passar à frente, não era fácil. 277

Em 1967, os primeiros resultados dos projetos realizados em Santa Gema e também


em outras localidades foram surpreendentes, como demonstra a matéria que segue, do jornal
O Nacional:
Agricultores de Santa Gema obtém resultados expressivos com milho

Jovens agricultores do distrito de Santa Gema – Passo Fundo, acabam de obter expressivos
dados na colheita de milho. Usando técnicas apuradas dentro da orientação moderna, os jovens
obtiveram resultados três e quatro vezes superior do que a média do município, que anda ao
redor de 1.200 quilos de milho por hectare. Segundo dados obtidos no Escritório da ASCAR o
jovem Wilson Daranch colheu nada menos do que 5.040 Kgs. por hectare, enquanto outros
também obtiveram excelentes índices de produtividade. Eis aqui alguns resultados: Jaime
Ápio-4.800 Kgs. por hectare; Luiz Rosseto-3.680 Kgs. por hectare; Genésio Ápio-4.680 kgs.
por hectare; Narciso Ápio-3.680 kgs por hectare e Waldomiro Daranch-5.040 kgs. por hectare.
Estes rapazes são associados de um Clube 4-S daquele distrito. Recebem orientação técnica e
educativa dos extensionistas da ASCAR e desenvolvem nas propriedades de seus pais
trabalhos sobre agricultura, criação e economia doméstica. É um trabalho que conta com a
cooperação de uma série de instituições públicas e privadas e tem por objetivo elevar o
potencial de conhecimentos e habilidades da juventude rural, para que possa influir de forma
positiva no futuro e no processo de desenvolvimento econômico do Estado. Por outro lado,
outros jovens associados de um Clube 4-S na localidade de Arroio do Tigre dedicam-se ao
desenvolvimento racional do gado leiteiro em sua comunidade. Atualmente, seis rapazes já
compraram vacas de raça, financiadas pelo Crédito Rural Juvenil, através do Banco Agrícola.
Estes animais são da raça holandesa e dão uma produção de leite muito superior aos animais
existentes na localidade de Arroio do Tigre. Os rapazes, que já possuem vacas de raça são os
seguintes: Sírio Cecconello, Otávio Oliveira, Sérgio Ceconello, José Nivaldo Pires, João José
Vanin e Ademir P. Dallasta. Informações colhidas naquela localidade, indicam que os pais
destes rapazes estão bastante satisfeitos, uma vez que os reprodutores adquiridos vêm ao

277
GRANDO, Antônio. Entrevista...
encontro das necessidades econômicas e alimentares de suas famílias, dando margem à
melhores condições de vida daquela comunidade rural. 278

Assim, verificamos que os resultados dos projetos dos jovens superavam as


expectativas da média do município e agradavam os pais, que viam no trabalho uma forma de
melhorar a renda da família. Dessa forma, os resultados positivos dos projetos garantiam a
credibilidade dos clubes e faziam crescer o número de interessados em melhorar a
produtividade mudando as técnicas habituais. Conforme o jornal Diário da Manhã, em 1968,
os clubes estavam envolvidos no seguinte trabalho:

Desenvolvendo como projeto individual a Cultura da Batatinha, obedecendo práticas


modernas, desde a escolha da semente, adubação, preparo da terra, plantio, combate às pragas e
doenças e finalmente a colheita, quando então haverá a exposição de cada Clube em suas
localidades. Como projeto do Clube alguns estão desenvolvendo o de sinalização de estradas,
outros farão uma pracinha e outro está construindo com a ajuda de sua comunidade a sua sede
própria. Os clubes procuraram assim melhorar e embelezar suas comunidades.279

Essa divulgação através da imprensa tinha o objetivo de conseguir a adesão dos


agricultores, que, por sua vez, se sentiam valorizados, respeitados, pois esse trabalho contava
com a aprovação dos governos federal, estadual, municipal, além de outros setores
considerados expressivos na sociedade, como a Igreja. Impressionado com a eficiência dos
clubes, o presidente Costa e Silva, durante o seu governo, certa vez declarou à imprensa:
“Ensinar o homem a viver dignamente é muito importante para este país e mais, talvez, do
que a própria alfabetização”. 280 Conforme o pronunciamento do presidente:

Eu dou uma especial atenção a esses movimentos porque ele se dirige justamente a juventude.
Todos sabem que grande parte de nossa população é de jovens, o que impõe uma atenção
especial para que essa juventude amanhã, possa gozar de um país muito melhor do que aquele
que nos legaram os nossos antepassados. 281

Com isso, observamos que a população rural, em especial a juventude, tornar-se- ia


portadora de cultura e um instrumento eficaz de inovação se aderisse aos novos ensinamentos,

278
Agricultores de Santa Ge ma obtém resultados expressivos com milho. O Nacional, Passo Fundo, 14 set.
1967, p. 2.
279
Diário da Manhã, Passo Fundo, jul. 1968, p.4.
280
Presidente Costa e Silva elogiou trabalho dos Clubes 4-S da Ascar. O Nacional, Passo Fundo, 15 dez. 1967,
p. 4.
281
Idem, p. 4.
considerados pelo governo mais importantes que a própria alfabetização, o que ressalta o
autoritarismo predominante no período.
Os clubes visavam também à participação na vida econômica e social da comunidade
e, após um ano de existência, passavam a desenvolver trabalhos voltados para a comunidade,
visando melhorar a higiene e a saúde coletiva, os hábitos alimentares das famílias; promover a
produção de alimentos básicos, sinalizar estradas, instalar rede de energia elétrica e telefone;
promover a conservação do solo e o reflorestamento; construir escolas e sedes sociais,
conforme será tratado no decorrer do trabalho.
Em 1969, os Clubes 4-S de Passo Fundo já contavam com mais de trezentos jovens
associados, que, nesse ano, estiveram envolvidos na Operação Tatu, conforme esclarecemos
a seguir. 282
4.4 Os Clube 4-S e a Operação Tatu

No final da década de 1960, os Clubes 4-S e as lideranças rurais estiveram envolvidos


no programa Operação Tatu. E foi a partir desse trabalho que intensificaram suas atividades
no distrito de São Roque, conseguindo a participação mais efetiva dos pais e dos demais
agricultores que ainda não haviam aderido às novas técnicas.
A Operação Tatu foi um programa amplo de extensão rural, com o objetivo de levar
aos agricultores, de forma direta e maciça, as novas técnicas de produção agrícola, com
especial atenção à correção da acidez e fertilidade dos solos e ao melhoramento das práticas
de manejo dos solos e das plantas. 283 Esperava-se, com a Operação Tatu, revolucionar a
agricultura com o incentivo à adoção de medidas técnicas no cultivo da terra.
Para os programas de execução dos projeto Operação Tatu, encontravam-se
integradas as seguintes instituições: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ascar,
Institutos de Pesquisas Agropecuárias do Sul ( Ipeas), Secretaria da Agricultura do Estado do
Rio Grande do Sul, Instituto Rio-Grandense do Arroz (Irga), Instisoja e diversas instituições

282
15 de Julho – Dia Nacional dos Clubes 4-S. O Nacional, Passo Fundo, 13 jul. 1968, p. 3.
283
Ver KLAMT, E. Programação e execução de projetos Operação Tatu. Boletim Técnico n.5. URGS, 1970. A
base tecnológica de suporte ao Plano Estadual de Melhoria da Fertilidade dos solos - Operação Tatu - surgiu do
convênio firmado entre a UFRGS/Universidade de Wisconsin-USAID em 1964, instalando os cursos de pós-
graduação na Faculdade de Agronomia da UFRGS e, a partir desta data, iniciou-se uma série de pesquisas para
identificar os principais fatores da produção de nossas culturas mais importantes.
em nível municipal, como cooperativas, associações rurais, agências bancárias, prefeituras
municipais e outras. 284
As primeiras experiências de recuperação do solo foram realizadas em Santa Rosa, em
1967, com lavouras demonstrativas de soja e milho. De acordo com Klamt:

A adoção de novos conceitos é difícil, principalmente pelos agricultores, onde os métodos


tradicionais de cultivo estão firmemente arraigados. Por isso para levar os novos métodos aos
mesmos, é necessário demonstrar seus benefícios. A maneira mais eficiente é o das lavouras
demonstrativas, que consiste em selecionar entre os agricultores interessados, os líderes nas
diversas povoações do município e orientá-los na instalação de lavouras com a nova
metodologia, que dali se irradiará aos produtores vizinhos. Estas lavouras devem ser
acompanhadas detalhadamente pelo técnico.285

Entre as técnicas utilizadas nas áreas demonstrativas consideradas racionais para o


cultivo estavam a destocação, a proteção do solo contra a erosão, a aplicação de calcário e
adubos nas quantidades requeridas, o plantio isolado de cada espécie, o uso de sementes
selecionadas e de espaçamento correto. Colocando em prática esses procedimentos nas
lavouras demonstrativas, os resultados foram surpreendentes:

O milho rendeu 3.300 quilos por hectare, cinco vezes mais do que as lavouras tradicionais em
terras esgotadas. A soja forneceu colheita média de 1.300 Kg/ha, o que, embora sendo pouco,
já representava mais do dobro da quantidade colhida nas culturas não tratadas. Foi grande o
impacto desses resultados. Os 12 agricultores que fizeram as culturas demonstrativas
aumentaram em 370%, no corrente ano, as áreas recuperadas em suas propriedades. E
centenas de outros logo se dispuseram a enveredar pelo mesmo caminho, engrossando a bola
de neve.286

Constatamos, portanto, que as lavouras demonstrativas eram o método utilizado para


a difusão do trabalho, pois a adubação racional, indicada pela análise do solo, era
praticamente desconhecida na região. Notícia a respeito destacava esse aspecto:

De Santa Rosa a iniciativa se estendeu a outros municípios, através do Plano de Melhoramento


da Fertilidade do Solo, que ao fim de quatro anos apresentou resultados não só no aumento da
produtividade, mas também na mudança de mentalidade dos agricultores, com a substituição
dos métodos tradicionais de cultivo por práticas modernas. Eles descobriram que não basta
cuidar da terra: é preciso também trocar os implementos rudimentares por outros mais
eficientes. A paisagem de muitas propriedades gaúchas desde então foi modificada: o arado-

284
Barba de Bode perdeu a vez. Extensão rural, ano III, nov./68, n.35, p. 4.
285
Idem, p. 10.
286
Id. ibid.
tatu, a grade de dentes, a semeadeira manual e as trilhadeiras estacionárias estão cedendo lugar
a arados de grades de discos, semeadeiras tradicionais, ceifadeiras rebocadas e tratores. 287

Com o exposto, percebemos que o programa de recuperação do solo expandiu-se para


outros municípios, entre os quais Ibirubá, que contou com a participação de 87 agricultores
na Operação Tatu em 1969 e foi escolhido “Município Modelo” do estado do Rio Grande do
Sul.
Em Passo Fundo, desde 1968 realizavam-se estudos para analisar a acidez e a
fertilidade do solo, pelos quais foi constatada a necessidade de correção da acidez do solo e
dos baixos níveis de fósforo, fazendo-se recomendações para o uso de adubos de plantio e
cobertura. Mas foi a partir de 1969 que o programa se efetivou, inicialmente com a
denominação de Operação Tatu e, posteriormente, de Plano Estadual de Melhoramento da
Fertilidade do Solo. Para a execução de um projeto de Operação Tatu era essencial a
existência de técnicos, de rede bancária e facilidades para a obtenção de insumos e sua
distribuição.
O insumo calcário passou a ser fundamental para a correção da acidez do solo,
propiciando condições favoráveis às plantas para o aproveitamento total dos fertilizantes
utilizados. Assim, as indústrias de beneficiamento de calcário precisaram ampliar as unidades
existentes e instalar outras novas, com a finalidade de atender à demanda. Existiam no Rio
Grande do Sul, em 1967, apenas dez indústrias; já, em 1972, eram em número de trinta.
Quanto à capacidade produtiva, que era de 58.641 toneladas, passou para, aproximadamente,
1.500.000 toneladas, ou seja, 2.557% a ma is. 288
A Tabela 9 mostra a evolução que tiveram no estado do Rio Grande do Sul os
projetos da Operação Tatu até final da década de 60.

Tabela 9 - Evolução estadual do Projeto de Melhoramentos da Fertilidade dos


Solos

Nº de municí- Nº Agr. Há Calendário Fertilizantes Investi-


Ano Pios Atingidos Recuperados Aplicado Aplicados (t) Mentos (Cr$)
287
Terras cansadas voltam a ser férteis. Extensão rural. Rio de Janeiro, ano III, abr. 1972, n.76, p. 10.
288
NOSKOSKI, Carlos. Calcário: produção e preços. Revista do Clube 4/S, ano VII, n. 32, jan./fev.,1978, p. 13.
beneficiados (t)
67 4 91 100 334 19 22.500,00
68 43 2.144 4.603 17.281 1.783 1.500.000,00
69 85 3.074 11.663 43.140 7.140 3.500.000,00

Total 85 5.309 16.366 60.775 8.942 5.022.500,00


Fonte: Associação Sulina de Créditos e Assistência Rural

Os dados da Tabela 9 apontam a expansão do programa nos municípios, bem como a


área recuperada no final da década de 1960. Em 1970, o go verno ampliou os incentivos à
produção agropecuária, aprovando as reduções das taxas de juros e aumentando os prazos
para os financiamentos. Abaixo seguem as medidas tomadas pelo governo:

De acordo com a resolução do Conselho, os bancos passarão a cobrar 17% ao ano nas
operações de crédito agrícola em geral, 15% nos empréstimos destinados às cooperativas e
13% nos chamados pequenos empréstimos agrícolas, cujo valor não ultrapasse 50 salários
mínimos. As novas taxas incidirão sobre os situados na faixa que os bancos particulares são
obrigados a destinar ao setor.
Os prazos de financiamento aumentaram conforme a destinação dada ao empréstimo:
1)aquisição de insumos modernos (fertilizantes, adubos, corretivos, preventivos, etc.), prazo de
um ano (nos casos de adubação intensiva e correção da acidez, até cinco anos); 2) exploração e
custeio agrícola ou da pesca, até dois anos; 3) exploração e custeio pecuário, até um ano ( no
caso de retenção de crias e matrizes, até cinco anos, e no de compra de gado de cria, até três
anos); 4) operações de comercialização, até oito meses; 5) aquisição de máquinas e
equipamentos, até cinco anos ( no caso de colheitadeiras, tratores de esteira e outras máquinas
de grande porte, até oito anos); 6) modernização e tecnificação da agropecuária e da pesca,
com planos integrados de exploração e de investimentos, prazo de 12 anos; e 7) crédito
fundiário e de reflorestamento, até 12 anos. 289

Essas medidas faziam parte da campanha para aumentar a produção e a produtividade


em toda a região Centro-Sul, havendo a preocupação de mobilizar todos os veículos de
comunicação, com o apoio de autoridades, jovens e lideranças, para a difusão dos novos
incentivos do governo.
O crédito rural educativo era visto como o instrumento do desenvolvimento e a Ascar,
através dos agentes financeiros, como o Banco do Brasil, Banrisul, Sulbrasileiro e Unibancos,
intensificava as aplicações sob a forma de crédito orientado visando à introdução de
tecnologia no meio rural. Várias propostas de financiamento foram encaminhadas, conforme
relatou a imprensa local:

ASCAR intensifica aplicação do crédito rural orientado

289
Crédito rural: juros baixam. Extensão Rural, Rio de Janeiro, ano V, n.52, 1970, p. 12.
Estimulada pela política governamental a ASCAR vem intensificando suas atividades
no campo do Crédito rural orientado, como entidades intervenientes de assistência técnica
junto aos estabelecimentos de crédito do Estado, com os quais mantém convênio. A evolução
das aplicações do Crédito rural orientado, pelos extensionistas da ASCAR, através dos agentes
financeiros, para incentivar a introdução de métodos racionais no meio rural, objetiva estimular
o incremento de investimentos rurais; custear a produção e sua comercialização e a possibilitar
o fornecimento econômico dos produtos. Nos municípios de Santo Ângelo, Passo Fundo e
Colorado, até meados deste, ano, foram encaminhadas aos estabelecimentos de crédito locais,
cem propostas no montante de Cr$ 2.695.291,00. A aplicação desses recursos serão destinados
para a conservação e recuperação de fertilidade de solos [...]. O crédito rural orientado, a
assistência técnica da ASCAR na orientação de recuperação da fertilidade de solos, com
aplicação de insumos modernos, curva de nível e análises de solos proporciona aos produtores
uma maior produtividade de suas colheitas.290

Assim, com a observação das lavouras recuperadas, com créditos facilitados, tornava-
se mais fácil a adoção do programa pelos agricultores, somado também ao forte apelo para
que melhorassem as técnicas de cultivo, conforme noticiava a matéria jornalística:

No último decênio, isto é, no período compreendido entre 1960-1970, como conseqüência da


política de incentivos do governo federal, a agricultura experimentou um impulso, uma
transformação impetuosa, no aspecto da mecanização da lavoura. Porém, mais precisamente, a
partir de 1965, os agricultores que percorriam um corredor estreito e sinuoso, desalentados e
sem uma orientação precisa, defrontaram-se com uma encruzilhada decisiva, duas trilhas a
escolher; o mais progressista e inovador, rapidamente e sem hesitar, entrou na trilha mais larga
e segura, a trilha da agricultura racional e mecanizada e, como resultado, melhorou de padrão
de vida e situação econômica; o agricultor conservador, no entanto, continua na trilha estreita
da agricultura a base da junta de bois e arado pica-pau e este, pela lei da sobrevivência ou
seleção natural, está sujeito a desaparecer como agricultor independente. Ele será absorvido
pelo agricultor progressista ou então, deixará de ser agricultor, procurando outro meio de vida.
Na conjuntura atual, com a implantação da Operação Tatu, os agricultores mais uma vez estão
perante a uma encruzilhada ou dois caminhos a seguir. O agricultor que continuar utilizando
suas terras agrícolas, sem proporcionar as condições de fertilidade ideal através do uso de
calcário e adubos corretivos, colherá trigo, soja, milho, etc. cada vez menos por área plantada.
Enquanto que o agricultor que realizar a correção ou recuperação de suas terras, participando
da Operação Tatu, juntando esta prática, á mecanização e uso de melhores técnicas agrícolas,
em poucos anos, atingirá o mesmo estágio de desenvolvimento e padrão de vida, que os
agricultores da Europa e Estados Unidos. 291

Dado o apresentado, constatamos a insistência para que os agricultores substituíssem


as práticas tradicionais por outras mais modernas, como única alternativa para melhorar a
produtividade. Nesse período, o trabalho dos Clubes 4-S já vinha apresentando bons
resultados, mostrando que as novas técnicas eram viáveis, o que levou muitos agric ultores a
aderirem ao programa. De acordo com um entrevistado: “Naquela época, com os clubes
começou a Operação Tatu, correção do solo, terraceamento. Então, os pais começaram a

290
Ascar intensifica aplicação do crédito rural orientado. Diário da Manhã, Passo Fundo, 12 set. 1974, p.6.
291
Ascar. Plano de melhoramento da fertilidade dos solos: Operação Tatu. Ibirubá-RS, 1969. Doc. Empresa.
trabalhar junto e aceitar o trabalho. A mentalidade era muito conservadora, mas, no momento
em que viram os resultados, entraram”. 292
Assim, os agricultores do distrito de São Roque, incentivados pela Ascar, organizaram
excursões para observar as áreas demonstrativas no município de Ibirubá, conforme mostra a
Figura 17.

Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 17 - Visita às lavouras demonstrativas de Ibirubá

Os resultados da Operação Tatu surpreenderam os agricultores, que, aos poucos,


foram adotando as novas técnicas, incentivados pelos Clubes 4-S e pelas lideranças das
comunidades que participavam de reuniões para receberem instruções sobre o programa.
Walter Maffi, um dos líderes da localidade de São José, conta a respeito:

Participei de uma reunião na cidade da Operação Tatu, recuperação e fertilização do


solo, com dois professores americanos. Falavam português muito mal e disseram:
“Vocês andem devagar que isso é uma coisa nova, não pode empurrar goela abaixo.
Vocês tenham muito cuidado. Se vocês, numa comunidade, conseguirem um pra fazer
o trabalho já é bastante”. Aí fizemos uma reunião, veio o pessoal da Embrapa, da
Emater, secretário da Agricultura. Aí a nossa comunidade entrou, eu, o Luis, o
Michel, e eles disseram: “Não vai cinco anos que os outros entram”. Lá no terceiro
ano já entraram. Começamos com os terraços: “Ah, se eu vou fazer valeta no meio da
lavoura!” Mas tem de fazer, pois aquele camaleão era uma proteção e, quando a chuva

292
SOUZA, S. José. Entrevista...
vinha, caía bem devagarzinho lá no final e não dava erosão. Isso também foi uma
coisa que a nossa comunidade adquiriu. 293

Com as orientações dos extensionistas, várias lavouras demonstrativas foram


instaladas no município de Passo Fundo, ficando comprovada a vantagem da correção dos
solos nas culturas de trigo, milho e soja. O sucesso da Operação Tatu no distrito de São
Roque foi retratado por esta matéria jornalística transcrita:

Operação Tatu alcançou resultados positivos em 1968


Trabalho de recuperação de solos, iniciado em Passo Fundo surpreendeu pelos seus
resultados

O trabalho de recuperação de solos, iniciado em Passo Fundo no ano de 1968 sob o nome de
Operação Tatu, alcançou resultados positivos, surpreendentes já no primeiro ano. Não
esperávamos que algumas lavouras dessem de imediato, respostas tão significativas ao
tratamento racional com adubos e calcário, em dosagens recomendadas pelo Laboratório de
Solos da faculdade de Agronomia e Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
isso porque a principal resposta ao tratamento se deve ao calcário para correção da acidez do
solo e como é sabido a calagem só corresponde em níveis significativos após seis meses de sua
aplicação.
Apesar disso em algumas lavouras com tratamento feito às vésperas do plantio do trigo, já
notamos produções de 50% e até quase 100% superior em virtude do tratamento equilibrado
tecnicamente com adubos e calcário. Veja-se o caso do agricultor José Oscar Penz de Santa
Gema, município de Passo Fundo, que com o tratamento completo com calcário e adubos
obteve uma produção de 2060 quilos usando uma adubação comum, com idênticas condições
de solo, época de plantio, variedade de semente, e demais cuidados. Tivemos, também no caso
da lavoura do Sr. Zelio Michel, que na parte tratada colheu 1590 quilos por hectare e na
testemunha 1080 quilos por hectare. Nota-se que estes resultados foram obtidos em termos de
lavoura e não de canteiros experimentais. Posteriormente estaremos divulgando outros
resultados a propósito do trabalho de recuperação de solos que vem sendo feitos em Passo
Fundo com a colaboração de técnicos, agricultores, entidades locais, especialmente das casas
de crédito e de uma maneira particular do Banco do Brasil, chefe da Carteira Agrícola e demais
funcionários que não tem medido esforços para que o plano tenha os resultados desejados
através da proveitosa ligação, crédito-assistência técnica. Não alimentamos a menor dúvida,
que com a estrutura que temos montada no município de Passo Fundo, em todos os setores a
Operação Tatu trará resultados muito significativos para a nossa agricultura, alcançando o tão
desejado aumento de produção por unidade de área cultivada, ou seja, por hectare. 294

Com os resultados positivos do trabalho de recuperação do solo realizado em 1968 em


Passo Fundo, no ano seguinte, cerca de sessenta agricultores adotaram as novas técnicas,

293
Ascar . Plano de melhoramento da fertilidade dos solos: Operação Tatu. op. cit.
294
Operação Tatu alcançou resultados positivos em 1968. Diário da Manhã, Passo Fundo, 10 jan. 1969, p. 4.
orientados pela Cooperativa Tritícola e pela Ascar, em 1.150 hectares. 295 Vejamos o extrato
de matéria jornalística relatando o fato:

O agricultor Luiz Souza de São José, Município de Passo Fundo, recuperou 1,5 hectares. O
milho teve uma vegetação excelente sendo necessário a altura do pai e mais o filho de pé sobre
os ombros do progenitor para tocar o pendão do milho. Do outro lado está a lavoura
recuperada onde apenas a altura do filho pode tocar o pendão. Este agricultor conseguiu
multiplicar a produção de milho na área recuperada, pois não plantava mais porque a terra
estava completamente esgotada, já no primeiro ano 3.000 kg de milho por hectare. Plantou
trigo logo em seguida ao milho e terá uma produção em torno de 2.000 kg/ha. Em segundo
plano o Sr. Henrique Stedile administrador da Empresa comercial Santo Izidoro Ltda., observa
o trigo tratado de acordo com as recomendações do plano de recuperação de solos, com um
rendimento de 1.770 por hectare na parte recuperada com calcário e 1320 quilos por hectare
onde foi feita somente adubação comum, na safra de 1968. A orientação técnica desta lavoura
coube à ASCAR. No trigo da safra do corrente ano a lavoura rendeu 3.279 kg por ha. Na
parte tratada de acordo com a “Operação Tatu”, e 2107 kg, por ha. Na testemunha, com
adubação comum. 296

Dessa forma, com os bons resultados dos projetos nas áreas demonstrativas, os
agricultores viram a possibilidade de aumentar a produção daqueles produtos que já não
estavam mais cultivando em razão do esgotamento do solo. Na entrevista, o agricultor Luiz
Souza referiu-se a essa dificuldade encontrada pelo agricultor no período:

Para comprar aquele calcário e fósforo, dava o valor maior do que comprar outro
pedaço de terra. Era caro na época, avaliando com o preço da terra, mas ia comprá
outra terra com os mesmos problemas. Se não tinha uma coisa, tinha outra. Quando
eu vi o preço, pensei: “Dá pra comprá outra terra com esse dinheiro”. Mas não queria
saí de onde tava. Aí fui fazê financiamento, mas tinha o temor. Foi o vizinho que se
ofereceu pra assiná de avalista, a propriedade era no nome do meu pai. 297

Através desse depoimento percebemos que restavam poucas alternativas para os


agricultores quando iniciou a Operação Tatu, mas, com a participação dos Clubes 4-S e das
lideranças realizando as demonstrações, os agricultores foram adquirindo mais confiança para
a adoção das inovações agrícolas apresentadas.
No distrito de São Roque, os jovens quatroessisstas empenharam-se no programa
realizando as aplicações de calcário nas lavouras, o que, inicialmente, era feito todo com
trabalho manual. Segundo expressou uns entrevistados: “Não existia máquina pra espalhá o

295
Ascar – Serviço de extensão rural do Estado do Rio Grande do Sul. Diário da Manhã, Passo Fundo, 28 nov.
1969, p 46.
296
Idem.
297
SOUZA, O.C. Luiz. Entrevista...
adubo, o calcário, e precisava gente de força pra fazê isso”. 298 “O calcário era pesado que nem
cimento e pra botá em bolsa, levar na roça, descarregar de novo no chão, ir botando nas latas
e esparramando, os jovens ajudavam”. 299 Observa-se na Figura 18 a participação dos jovens
nesse trabalho.

Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 18 - Jovens do Clube 4-S de São Roque espalhando calcário.

Os agricultores adotavam as novas técnicas, mas, diante das dificuldades encontradas,


faziam as adaptações necessárias, utilizando o seu saber, a criatividade. Assim, visando tornar
mais rápida a aplicação do calcário, Oscar Penz, líder do Clube 4-S de Santa Gema, inventou
uma “máquina” que facilitava a tarefa, mostrada na Figura 19.

298
SOUZA, S. José. Entrevista...
299
SOUZA O.C. Luiz. Entrevista...
Fonte: Acervo pessoal de Oscar Penz

Figura 19 - Máquina de espalhar calcário construída por Oscar Penz.

Foi a partir do programa Operação Tatu que os agricultores do distrito de São Roque
adotaram as técnicas e, sem muitas restrições, jovens e adultos estavam envolvidos nas
atividades dos clubes. Com isso, os primeiros projetos, que envolviam apenas uma pequena
parte da propriedade do pai, expandiram-se para toda a área disponível para o plantio,
especialmente com o cultivo da soja.

4.5 A introdução do plantio da soja na pequena propriedade

O trabalho de recuperação da fertilidade do solo foi bastante abrangente e passou a


fazer parte da rotina agrícola no meio rural. Até mesmo para os financiamentos exigia-se a
preparação da terra para o plantio. Tais aspectos foram tratados pela imprensa local:

Quase cinqüenta mil produtores treinados em “Fertilidade e Conservação do Solo”

Sobe a 44.880 o número de produtores treinados pela ASCAR em fertilidade e conservação do


solo durante o qüinqüênio (69-73), em decorrência da assistência técnica e orientação
educativa desenvolvida pela sua rede de escritórios de extensão rural do Rio Grande do Sul,
salientando que esse avultado número de agricultores colabora com os serviços técnicos da
ASCAR. Os mesmos foram selecionados por suas condições de lideranças nas técnicas de
melhoria do solo e acham-se empenhados na difusão e maior adoção de moderna tecnologia na
agricultura gaúcha. E prossegue: graças a este trabalho, bem como as atividades de
organizações congêneres, verifica-se segura evolução da lavoura no sentido do seu
aperfeiçoamento, contribuindo assim para a produção em grande escala e em bases
empresariais”. Os dados revelam, que durante o período (69-73) foram atingidos 44.880
agricultores, que corrigiram 139.134 hectares de terras pobre e improdutivas com 919.140
toneladas de calcário e 141.957 toneladas de adubos químicos. A área adubada naquele
período subiu para 433.661 hectares de lavouras terraceadas para evitar a erosão. O trabalho da
ASCAR destina-se a proporcionar a assistência e orientação educativa necessária aos
produtores rurais do Estado em colaboração com as demais entidades vinculadas ao meio rural.
Objetiva o desenvolvimento da agropecuária em bases modernas e racionais, possibilitando aos
rurícolas a elevação da sua produtividade e renda. 300

Notamos, portanto, que o trabalho visava à produção em grande escala, para o que se
tornou necessário um trabalho educacional que preparasse o agricultor para aumentar a

300
Quase cinqüenta mil produtores treinados em “fertilidade do solo”. Diário da Manhã, Passo Fundo, 8 maio
1974, p.5.
produção e a produtividade. Além das demonstrações sobre o milho e o plantio de trigo,
também eram feitas demonstrações sobre o cultivo da soja, que passou a ser o principal
produto de exportação a partir de 1970, de acordo com esta matéria do jornal local:

Quanto a lavoura de soja, os resultados alcançados em lavouras orientadas e controladas pela


ASCAR, são os seguintes: comercial Santo Izidoro, parte recuperada 2.497 kg/ha, não
recuperada, 1.844 kg/ha, Álvaro Pereira da Silva, 2092 kg/ha e não recuperada, 1512 kg/ha;
Anibaldo Penz, 1768 na parte recuperada e 1.233, na testemunha; Alexandre Annese,
recuperada, 1590 kg/ha, não recuperada 990 kg/ha; Milton Vieira, recuperada 1.467 kg/ha,
contra 734 na testemunha; Cirilo Leopoldo Ferst, 3.198 na recuperada e 1740 na testemunha.
José Oscar Penz, 1543 na parte recuperada e 1325 na testemunha. 301

Constatamos que as áreas recuperadas apresentavam uma produção maior em relação


às não-recuperadas, e foi assim que se iniciou o plantio da soja nas pequenas propriedades.
Alguns agricultores já haviam feito pequenas experiências com sementes de soja doadas por
parentes ou conhecidos que plantavam nas áreas de campo ou com as que eram fornecidas
pelos moinhos. Nas primeiras colheitas, a soja foi produzida em pequena quantidade e
destinava-se à alimentação dos suínos. Foi a partir das demonstrações e orientações sobre o
plantio que a cultura passou a ser produzida em maior quantidade na pequena propriedade. De
acordo com o relato de um entrevistado:

Mesmo nas grandes propriedades, não existia o soja antes da década de 60. Cultivava-
se o trigo, um pouco de milho e, na época do verão, se plantava uma outra leguminosa
pra fazer a adubação verde. A grande safra era a safra de inverno, e hoje é o inverso; a
safra de verão é que é a safra mais gorda, a do inverno tá começando retornar de novo.
Teve alguns anos que a safra de inverno era muito fraca, não havia incentivo para
produzir produtos de inverno e, naquela época, era o contrário: a safra gorda era a do
inverno, no verão, às vezes nem se cultivava na resteva do trigo. Não existia a
exportação de soja, as grandes fábricas de azeite, não existia incentivo para que
continuasse a produção. O milho, não se usava muito milho, não existia a criação de
aves como existe hoje, a suinocultura era mais fraca; a produção de leite quase não
existia no interior, não existia grandes laticínios. Era só venda direta que o leiteiro
ordenhava a vaca e ia vender o leite na cidade, a cavalo ou de carrocinha. E hoje, com
a evolução, existem grandes produtores de leite no interior e também a suinocultura e a
avicultura, que incentivam a grande produção de milho e de soja.
Através do Clube 4-S, com o auxílio técnico da Ascar e também com as cooperativas
que começaram a se formar naquela época, que vendiam a semente, o adubo, que

301
Ascar – Serviço de Extensão rural do Estado do Rio Grande do Sul. Diário da Manhã, Passo Fundo, 28 nov.
1969, p 46.
entrou também nos anos 60. As cooperativas que trabalhavam só com o trigo
passaram a trabalhar com a soja. 302

A cultura consorciada de milho e soja cedeu lugar às culturas de trigo/soja, que


possibilitavam a rotação, sendo uma cultura de inverno e a outra de verão e possibilitavam,
também, o uso do mesmo maquinário e da mesma infra-estrutura. Assim, o pequeno
agricultor passou a modernizar a agricultura a partir da introdução das inovações técnicas
divulgadas pelos Clubes 4-S, sob orientação dos extensionistas, e também do sistema de
crédito favorável, que possibilitou acesso à tecnologia necessária para as novas práticas
agrícolas.

4.6 As realizações dos Clubes 4-S

Na década de 1970, os Clubes 4-S foram ganhando credibilidade e intensificando suas


atividades, realizando os projetos individuais e comunitários aos quais haviam se proposto.
Alguns dos trabalhos comunitários eram desenvolvidos pela Ascar em conjunto com a
prefeitura, com o Lions Clube de Passo Fundo, e também com instituições assistenciais. Entre
as atividades desenvolvidas estavam a implantação de hortas comunitárias, o cultivo de
hortênsias nas rodovias, o trabalho de sinalização das estradas e construção de praças; na área
da saúde, o combate à verminose, etc. E com a consolidação do trabalho dos Clubes 4-S,
muitos construíram sua sedes.

Em 1970, o clube Bom Sucesso, de São José, inaugurou sua sede própria, construída
com a ajuda da comunidade, conforme relata um dos agricultores: “ O pavilhão foi construído
pelos Clubes 4-S. Nós fizemos as promoção, aquelas festas que deu renda. Fizemos
campanha na comunidade para doações, a madeira ganhamo toda ela; ganhamos telha. A
mão-de-obra a comunidade fez. A gur izada trabalhou do início ao fim, foi um trabalho muito
lindo”. 303 Esse trabalho também foi destacado pela imprensa jornalística:

302
SOUZA, S. José. Entrevista...
303
WALTER, Maffi. Entrevista...
Clube 4-S Bom Sucesso inaugurou sede própria

No último Domingo, dia 26, o Clube 4-S localidade de São José, inaugurou oficialmente, sua
sede social própria erigida graças a colaboração e ao esforço de toda a comunidade, liderada
pelo líder 4-S Walter Maffi.
Estiveram presentes as solenidades de inauguração e Sr. Guaraci Marinho, prefeito municipal;
Sr. Noé Machado, Secretário da Agricultura e Pecuária; Eng. Agr. Adão Ribeiro, agrônomo da
Secretaria da Agricultura Municipal; Eng. Agr. Fernando Sereno de Castro, Sup. Reg. da
ASCAR; Eng. Agr. Mario Luiz Soares, Agente de Extensão em Agricultura da ASCAR; Srta
Elma Matzenbacker, Agente de Extensão em Economia Doméstica de ASCAR; e Padre Décio
da Paróquia de São Cristovão.
Na mesma oportunidade, foram feitas homenagens ao dia do Colono transcorrido dia 25 de
julho.
ORADORES

Na ocasião, usaram da palavra o sr. Guaraci Marinho e Noé Machado, ambos enaltecendo o
trabalho que os colonos vêm realizando em prol do desenvolvimento e progresso econômico do
município. Enalteceram também as lides quatroessistas; o magnífico trabalho que os Clubes 4-
S realizam, e felicitaram a localidade de São José, por possuírem um Clube 4-S tão bem
liderado pelo jovem Walter Maffi. Usaram da palavra ainda o Eng. Agr. Mário Luiz Soares, da
ASCAR, e o Padre Décio, e primeiro exposto aos presentes a finalidade de um Clube 4-S,
agradecendo também pela comunidade de São José à Mitra Diocesana, pela doação do terreno
onde foi erigida a sede do Clube 4-S, pedindo ao Padre Décio que transmitisse esse
agradecimentos ao sr. Bispo Diocesano.
O Padre Decio usou da palavra, enaltecendo os trabalhos que a ASCAR vem realizando no
município, e cumprimentou a todos os sócios 4-S, líderes e a comunidade em geral, por esta
magnífica realização.
Encerrando a solenidade o líder 4-S Walter Maffi fez uso da palavra, agradecendo os elogios
dirigidos a sua pessoa, e transferiu os mesmos a todos os sócios 4-S, líderes e à comunidade em
geral, que com ele batalharam para a realização de mais este sonho, há muito acalentado pela
população de São José.
Ao meio dia, todos confraternizaram com um suculento churrasco, regido a bebidas, à tarde, a
mocidade divertiu-se numa movimentada reunião dançante, realizada já em sua sede social
própria. Está, portanto, de parabéns a comunidade de São José, e principalmente o Clube 4-S
Bom Sucesso pelo magnífico trabalho que realizaram. 304

Observamos que o trabalho desenvolvido pelos clubes contava com o apoio de pessoas
ligadas às atividades agrícolas, de políticos e da Igreja, o que contribuía para obter maior
respaldo junto aos agricultores, ampliando-se, assim, o número de associados. Isso se devia,
também à premiação que era dada aos melhores colocados nas exposições de trabalhos, aos
passeios e às excursões que realizavam.

304
Clube 4-S Bom Sucesso inaugurou sede própria. O Nacional, Passo Fundo, 29 jul. 1970. p.5.
Fonte: Acervo pessoal de Luiz O. Souza

Figura 20 - Excursão do Clube 4-S de São José a Caxias do Sul.

As atividades de lazer existentes no distrito de São Roque eram voltadas para o meio rural, conforme
abordamos no segundo capítulo. Porém, a partir dos Clubes 4-S, os jovens, bem como a comunidade, tiveram
um contato maior com o meio urbano e também com outros municípios onde visitavam estabelecimentos
comerciais e industriais. O entrevistado José Souza relata como se organizavam para essas atividades:

A gente tinha uma liderança muito boa, que era o Luís Souza, o Walt er Maffi, o Zélio
Michel e o Donato, que faziam a frente. Esses quatro líderes incentivavam bastante os
jovens a trabalhar. Faziam os projetos, faziam arrecadação, pra fazê excursões, visitas
às indústrias de Passo Fundo, conhecer o aeroporto. Fomos lá no aeroporto
recepcionar o ministro da Agricultura Alysson Paulinelli. Fomos numa viagem pra
Festa da Uva em Caxias do Sul, tudo com o incentivo das pessoas mais adultas, que
iam no comércio fazer arrecadação. Naquela época, as firmas de Passo Fundo que
trabalhavam com agricultura, os frigoríficos, agropecuárias, contribuíam muito com os
agricultores. 305

Os projetos eram julgados nas exposições no final de cada ano, conforme já foi citado,
e os vencedores concorriam a concursos em nível municipal, regional, estadual, interestadual
e nacional com os sócios de todo o país. Passo Fundo teve um campeão interestadual e
nacional do Projeto Trigo em 1970, conforme mostra a Figura 21.

305
SOUZA, S. José. Entrevista...
Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 21 – Carlos Maffi, sócio do Clube 4-S de São José sendo


cumprimentado pelo presidente Médici em Brasília.

O jovem passo-fundense premiado foi Carlos Maffi, do Clube 4-S Bom Sucesso, de
São José. Em julho de 1971, ele esteve em Brasília onde recebeu das mãos do presidente da
República, general Emílio Garrastazú Médici, o troféu de Campeão Nacional de
Produtividade de Trigo, conforme a imprensa local noticiou:

Jovem agricultor passo-fundense conquistou o título de “Campeão Nacional do


Projeto Trigo”

Com apenas 14 anos de idade, um jovem rural do município de Passo Fundo tem condições
para dar uma verdadeira “lição de produtividade” aos agricultores do Sul do País. Seu nome:
Carlos Maffi. Filho de agricultores da localidade de São José. Título: “Campeão Nacional do
Projeto Trigo”. Prêmio: Viagem à Brasília, cumprimentos do Presidente da República, Ministro
da Agricultura e outras altas autoridades da esfera Federal no decorrer do IV Encontro
Nacional de Clubes 4-S na Capital Brasileira.
O jovem “Campeão Nacional” colheu 2.250 quilos de trigo por hectare, enquanto a média no
Estado não ultrapassa os 1.000 quilos na mesma área. Para tanto, o rapaz, obedeceu todas as
recomendações técnicas do extensionista da ASCAR. Fez análise da terra. Aplicou calcário e
fertilizantes, de acordo com as instruções. Plantou somente semente certificada. E controlou
muito bem o ataque do pulgão e da lagarta.
Carlos Maffi ainda possui outro mérito. Um mês antes da maturação do trigo, sua mãe foi
hospitalizada na cidade e o pai foi obrigado a permanecer ao lado da esposa. O jovem não os
intimidou; assumiu sozinho o controle da lavoura do pai e a sua e conseguiu administrar a
propriedade com eficiência e conhecimentos, que nada ficaram a dever a qualquer agricultor
adulto.
Por ocasião da visita do agrônomo Norman Borlaug, detentor do Prêmio Nobel da Paz, o
jovem Carlos Maffi recebeu cumprimentos especiais tanto do Ministro Cirne Lima como de
técnico norte-americano de fama mundial.306

Observamos, portanto, que o trabalho dos jovens era valorizado em nível federal e
impressionava à medida que eles conseguiam aumentar a média de produtividade dos
produtos de exportação. Dizia-se, então, que, se um jovem podia alcançar esses resultados, os
demais agricultores, que sempre haviam lidado com a terra, também poderiam, desde que
mudassem seus métodos tradicionais de trabalhar na agricultura. O campeão do projeto

306
Jovem agricultor passo-fundense conquistou o título de “ Campeão nacional do projeto “Trigo”. O Nacional,
Passo Fundo, 17 maio 1972, p. 2.
“Trigo” recepcionou o agrônomo Norman E. Borlaug quando esteve em Passo Fundo, em
visita à Embrapa, conforme mostra a Figura 22.
Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 22 - Carlos Maffi recebendo Norman Borlaug no aeroporto.

Norman E. Borlaug foi vencedor do prêmio Nobel da Paz em 1970. No México,


desde 1944, ele trabalhava com pesquisas para o melhoramento do trigo; fora responsável pela
criação de algumas variedades de trigo-anão de primavera, tomando como base o material
genético do trigo Norin, desenvolvido no Japão. As novas sementes assinalavam um
crescimento de até 100% em comparação com as tradicionais, e a produção média de trigo
307
passou de 0,94 toneladas por hectare em 1949 a 2,64 toneladas por hectare em 1968.
Assim, justificamos, portanto, o interesse do governo e dos centros de pesquisa no
seu trabalho, pois poderia contribuir para o aumento da produtividade do país. Nessa
campanha estavam envolvidos os Clubes 4-S, o que foi ressaltado pelo presidente Médici
quando recebeu os jovens quatroessistas em Brasília, em 1972, conforme divulgou a revista
Extensão Rural:

Nós não podemos viver plantando a terra, mas devemos tirar da terra o máximo que ela nos
pode dar. Daí a campanha de produtividade – a campanha que o Clube 4-S leva a frente. Mas
minhas andanças pelo Brasil, tenho visto com os meus próprios olhos a beleza do trabalho dos
senhores e é por isso que hoje, nesta manhã, estou profundamente comovido e alegre porque
dentro em pouco devo assinar, com o ministro da Agricultura, decreto tornando o Comitê 4-S
de utilidade pública.
-Nesta oportunidade, eu desejo fazer um apelo a todos os senhores para que continuem na
campanha da produtividade, que é, de fato, a campanha que vai tornar o Brasil cada vez maior
e mais respeitado pelos seus filhos e particularmente por esta juventude, em cujas mãos o
destino do País dentro em pouco repousará. 308

Com os incentivos do governo, os jovens sentiam que realmente estavam no caminho


certo para aumentar a produtividade e participavam com afinco das atividades propostas
pelos extensionistas e lideranças rurais.
Para a promoção de debates e integração entre os clubes, realizaram-se vários
encontros, convenções, seminários. Em 1966, foi realizada a Primeira Convenção Regional de
Líderes de Clubes 4-S em Carazinho, reunindo líderes dos municípios de Carazinho, Erechim,
Gaurama, Frederico Westphalen, Ibirubá e Passo Fundo. Os ílderes de Passo Fundo que
participaram da convenção foram Arlindo Lorenzoni, Júlia Tonet, Ivo Tomazoni, Graciema

307
Ver FACCIONI, J. Victor. A Revolução Verde no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Fetag, 1973, p.30.
308
Com o Presidente. Extensão Rural. ano v II, n. 79, jul. 1972, p. 9.
Grando, Euzébio Pires, Salete Cecconello, José Oscar Penz e Norma Carneiro.309 O objetivo
desse encontro foi ressaltado em relatório da Ascar, conforme segue:

O objetivo deste encontro foi treinar líderes, de modo a capacitá-los melhor a desenvolver suas
funções junto aos Clubes 4-S e suas comunidades; permitir maior trocas de idéias e
conhecimentos entre eles; estimulá -los a continuar o trabalho que vêm prestando ao Serviço de
Extensão rural e premiá-los pelo que até agora têm realizado. Do programa constou: palestras
sobre liderança e líderes, palestras sobre sua atuação junto aos Clubes 4-S, grupos de trabalhos
formados pelos próprios líderes, buscando solução para seus problemas, apresentação, pelos
líderes, de trabalhos que vêm realizando junto aos Clubes 4-S que lideram; recreações sadias,
que serão depois transmitidas aos sócios quatroessistas; excursões e visitas a estabelecimentos
da sede do município.
Todos os participantes mostraram-se bastante satisfeitos por estarem ali presentes e muito
entusiasmados com o que puderam ver e praticar. Receberam na ocasião boletins técnicos e
amostras de produtos e sementes, oferecidos por firmas come rciais, Posto Agro-Pecuário e
ASCAR.310

Nos treinamentos, os líderes recebiam as amostras dos produtos e as instruções para


orientar os jovens. Além dos treinamentos para lideranças, proporcionavam-se encontros
reunindo toda a juventude rural. Em Marau foi realizado o primeiro Encontro Intermunicipal
dos Clubes 4-S, com a participação dos municípios de Passo Fundo e Serafina Correa.

Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 23 - Encontro de Clubes 4-S em Marau.

309
Ascar. Relatório da I convenção Regional de líderes de Projetos 4-S. Carazinho, 1966. Documento Empresa.
310
Idem.
Fonte: Acervo pessoal de Walter Maffi

Figura 24 – Encontro de Clubes 4-S em Serafina Correa (1973)

No entanto, várias atividades foram realizadas, entre as quais desfile dos jovens com a
banda da Brigada Militar, hasteamento da bandeira, missa, exposição, escolha da rainha,
palestras, gincana, recreação e entrega de prêmios. Também se realizavam encontros dos
Clubes 4-S dos municípios:
São Roque é sede de encontro 4-S
Promovido e Coordenado pela ASCAR, realizou-se no último Domingo em São Roque, o 3º
encontro de Clubes 4-S do município de Passo Fundo, durante o referido encontro, houve
várias disputas esportivas reunindo os sócios dos Clubes 4-S presentes ao encontro.
Prestigiaram o acontecimento as seguintes pessoas: Pe. Ercílio Simon, sr. Luiz Serafim,
representante dos Adubos Trevo, Sr. Deodado Rosso, subprefeito do distrito de São Roque,
engenheiro agrônomo Antônio Carlos Dossa da cooperativa tritícola, Sr. Euzébio Zanoto, e
agentes da ASCAR. Para a realização deste encontro, os sócios e líderes do Clube 4-S Trevo
da Esperança de São Roque com a colaboração das seguintes casas comerciais e industriais:
Cooperativa tritícola de Passo Fundo, casa Carioca, comercial Grazziotin, casa Rayon, casa do
Agricultor, Auto Agrícola, Adubos Trevo, Joalheria Omega, Octavio Serena e Filho, casa
D’Arienzo, Battisti, Arte Couros, relojoaria Goelzer, Joalheria Hexsel, casa São Carlos, Ughini
S.A. loja Renner, Cia Bebidas Nazari, Miscelânea, casas Pernambucanas, Comercial
Didomênico, Constante Moro, e grupo escolar de São Roque, que doaram prê mios, entregues
aos Clubes 4-S que ao final do encontro obtiveram a seguinte classificação:
FUTEBOL – 1º LUGAR – Clube 4-S - Um passo a frente juventude de Capinzal.
VOLEI – Masculino e feminino: Clube 4-S Trevo da Esperança de São Roque. CABO DE
GUERRA –
Masculino e feminino: Clube 4-S Juventude de São Valentim. CORRIDA DE BICICLETA: 1º
LUGAR MASCULINO: Clube 4-S Um passo a frente de Capinzal e Dr. Getúlio Vargas de
Arroio do Tigre. 1º lugar feminino: Clube 4-S Um passo a frente de Capinzal.
REVESAMENTO – 1º lugar masculino: clube 4-S Juventude de são Valentim – 1º lugar
feminino: Clube 4-S Bom Sucesso de São José.
Na coordenação estiveram a equipe da ASCAR, Engenheiro agrônomo Valdir Antonio Secchi
e srta. Elma Matzenbacker, auxiliados pelo professor Ari Cararde e srs. Clodomiro Nazari e
Doacir Rosso líderes do Clube 4-S Trevo da Esperança de São Roque. 311

Observamos que esses eventos envolviam a comunidade em geral e contavam com um


grande número de colaboradores e a presença dos setores do meio urbano, como membros da
Igreja, políticos locais, grandes comerciantes e da cooperativa tritícola. Ressaltam-se
também as atividades de lazer proporcionadas, que se tornavam um grande atrativo para a
juventude.
Entre as datas comemorativas que não poderiam ser esquecidas pelos Clubes 4-S
estavam o Dia Nacional dos Clubes 4-S e o Dia do Colono, datas essas importantes para as

311
São Roque é sede de encontro 4-S. Diário da Manhã, Passo Fundo, 3 abr. 1974, p. 2.
comunidades. Em 1975, a comunidade de São Roque destacou-se nessas comemorações, o
que foi relatado pelo Cooperativa Jornal:

Nos Clubes 4-S estão se formando os futuros líderes das comunidades rurais e os futuros
agricultores brasileiros. Os jovens que mais se destacam em seus clubes são condignamente
incentivados e distinguidos pelas autoridades governamentais. O jovem 4-S Carlos Maffi, líder
rural da localidade de São José, que em Passo Fundo venceu o “concurso nacional de
produtividade agrícola de trigo”, em 1970.
O ex-presidente Costa e Silva ao visitar uma exposição 4-S em Santa Cruz do Sul, assim se
manifestou: “Eu dou especial atenção a esse movimento porque ele se dirige justamente a
mocidade”
As Festividades. Todos os sócios 4-S de Passo Fundo comemoraram festivamente o “Dia
Nacional dos Clubes 4-S”, no entanto, a comunidade de São Roque, foi a que mereceu maior
destaque. Os lideres rurais Clodomiro Nazari e Doacir Rosso, assessorados pelos agentes da
ASCAR, Eng. Agr. Valdir Antonio Secchi e Prof. Elma Matzembacker, organizaram uma
programação em conjunto com a diretora Jacira Thans e demais professores, alunos, sócios 4-S
e pessoas especialmente convidadas.
No dia 18, pela parte da tarde, tendo por local as dependências da própria escola foram
desenroladas as programações, contando com grande número de professores, alunos, sócios 4-S
e pessoas especialmente convidadas.312

Havia, pois, o empenho dos agricultores na participação das atividades e o respaldo


do governo para que ocorresse a modernização através dos jovens.
Na semana do município de Passo Fundo, em 1975, foi organizada a 1ª Feira Livre de
Passo Fundo, na qua l os agricultores colocaram à venda frutas, hortaliças, flores, plantas
ornamentais, como resultado da Operação Verde. Nessa ocasião, os Clubes 4-S de Capinzal e
de São José participaram ativamente. 313 Também em 1976, a comunidade de Capinzal
destacou-se na Operação Clorofila, assim explicada pelo periódico Agro-Jornal:

A Operação clorofila instalada no município de Passo Fundo, visa um maior entrosamento


entre as forças vivas da comunidade, para dinamizar ainda mais o setor, Horticultura,
Fruticultura, reflorestamento e plantas ornamentais. A ASCAR, como executora da Operação
Clorofila no meio rural, conta com a colaboração da Prefeitura Municipal, através da Secretaria
da Agricultura, com a doação de sementes de hortaliças para serem distribuídas às famílias
rurais [...]. 314

As prefeituras dos municípios mantinham um convênio com a Ascar, o que explica a


participação nas várias atividades promovidas pela prefeitura e o envolvimento dos jovens
dos Clubes 4-S nessas atividades.

312
Dia Nacional dos Clubes 4-S. Cooperativa Jornal, Passo Fundo, jul. 1975, p. 13.
313
Feira livre de Passo Fundo. Cooperativa Jornal, agos. 1975, p.2.
314
Operação clorofila. Agro-Jornal, jun. 1976, s.p.
Com a introdução da mecanização agrícola na região foram oferecidos cursos para
tratoristas aos agricultores, conforme noticiou o jornal O Nacional: “Dezenas de tratoristas
rurais concluíram curso de tratorista e técnicas agrícolas em Passo Fundo tendo a participação
de agricultores do distrito de São Roque, Tijuco Preto e outros”315 . Os incentivos à
mecanização eram também ressaltados pela imprensa local:

Máquinas para o pequeno agricultor, com eficiência maravilhosa


O problema da lavoura cada vez mais se acentua, nos dias de hoje, sendo um dos principais
obstáculos para o seu desenvolvimento em consonância com as necessidades atuais, a falta de
aparelhamento dos nossos agricultores.
Efetivamente, para bem realizarmos a campanha da produção, nos dias que correm, torna-se
mister a aquisição de máquinas agrícolas. É que a mecanização dos trabalhos lavoureiros vem
beneficiar não só os agricultores, aumentando-lhes a produção e o rendimento, como ao
próprio povo que, assim, obterá maior quantidade de gêneros alimentícios a preço mais baratos.
Máquinas para plantar qualquer tipo de semente
A última invenção foi a máquina de plantar qualquer tipo de semente, bastando para isso fazer
a graduação. Essa máquina planta e aduba a terra. É também de tração animal, servindo para o
pequeno agricultor, plantando, inclusive, em terreno acidentado. Não foi igualmente
patenteada, porque o processo não caminha, no referido Ministério, a despeito de estar ali dois
anos...316

Com os incentivos à compra de máquinas, os agricultores adquiriram tratores e


arados; aqueles que tinham olarias ou um pouco mais de terra conseguiram comprar um
equipamento mais completo, deixando, assim, as juntas de bois de lado. Até mesmo aqueles
que não conseguiram comprar o maquinário alugavam o dos vizinhos, estimulados pela
rapidez com que podiam realizar o trabalho.
Com a facilidade dos créditos, os agricultores adquiriram também caminhões
utilizados nas olarias e para fazer fretes, levando soja até a cooperativa.

O crédito ajudou no comércio em geral. Todo mundo foi bem, foi aonde que eu arrumei um
dinheiro, 70/72, até 81 foi bom. Em 1974, comprei um caminhão a diesel e vendia tijolo,
puxava pra Ronda Alta. Puxei pro comércio lá doze anos, comprava de várias olarias toda a
produção e era duas vezes por dia que eu levava pra lá. Comprei caminhão novo em 1978 e
paguei muito bem, fácil, fácil. Vendi aquele com nem dois anos de uso e comprei outro.
Comprei trator, seifa, um pedacinho de terra pra plantá soja. Daí parecia que podia fazer a
dívida que quisesse que pagava, era só trabalhar, trabalhando ganhava. Hoje quem trabalha tá
perdendo tempo, naquela época trabalhava no braço mesmo e ganhava dinheiro, valia a pena
acordá cedo. 317

315
Dezenas de tratoristas rurais concluem curso de tratorista e técnicas agrícolas. O Nacional, Passo Fundo, 1º
abr. 1972, p. 6.
316
Máquinas para o pequeno agricultor, com eficiência maravilhosa. O Nacional, Passo Fundo, 13 jan. 1960, p.
3.
317
Entrevista com Valdemar Tiecher, já informada.
Portanto, através do crédito e das orientações técnicas, os agricultores tiveram no
período que compreendeu este estudo momentos de euforia, com a recuperação da fertilidade
do solo e o conseqüente aumento da produção, bem como melhorias nas atividades
domésticas e na vida social das comunidades.

4.7 Alterações socioeconômicas no meio rural a partir dos Clubes 4-S

Com o envolvimento dos jovens e, conseqüentemente, dos agricultores em geral no


trabalho dos Clubes 4-S, muitas alterações ocorreram no meio rural, tanto na área econômica
quanto na social.
Desenvolvendo-se a produção agrícola em maior escala no distrito de São Roque,
abriu-se espaço para a atividade dos freteiros, proprietários de caminhão que passaram a fazer
fretes para as cooperativas, e o contato com a cidade tornou-se cada vez mais freqüente.

Daí nas roças aquela trilhadeira que era a mão foi diminuindo, a máquina colhia e
entregava em cima do caminhão mesmo, o produto era todo ensacado e empilhado nos
galpão, mas tempo depois que veio a máquina melhor já largava em cima de
caminhão, quem tinha propriedade maior compraram caminhão, compraram máquina,
eu trabalhei 23 anos com o caminhão, pela redondeza puxava o meu, o dos vizinhos,
trazia adubo, levava soja, trigo pra eles, trabalhei tempo com o caminhão. Quando a
máquina tava cortando numa propriedade tinha frete, ia lá encostava o caminhão
enchia e era só levá lá na cooperativa descarregá. Quando voltava a máquina já tinha
colhido bastante, ali prá 73/74 fazia fila pra entregá a produção de trigo, de soja, já
tinha explodido a produção mesmo. Eu adquiri o caminhão em 1973 e já tinha fila pra
descarregá, a coisa tinha pegado mesmo, a soja nos campos. Vinha carreta
carregada, caminhãozinho pequeno, enchia o campinho lá da coopasso pra espera pra
descarregá. Eu já não parava em casa mais, tinha outras pessoas pra cuida da olaria,
da roça, tinha que levá adubo pra um, produção pra cidade, trazê adubo, deu bastante
movimento. Mudou bastante, a primeira colheita de trigo que eu colhi pra mim e fui
vende na coopasso, foi tudo em cima da carrocinha com uma junta de boi, devia ser
em 1966/67, já tinha a coopasso mas eu não era sócio, eles só compravam, eles tinham
escritório na frente onde é o Posto de Saúde. 318

318
SOUZA, O.C. Luiz. Entrevista...
Ressaltam-se na entrevista as mudanças que ocorreram no meio rural em relação à
tecnologia e ao contato com o meio urbano. As mudanças também foram sentidas nos
aspectos sociais, pois as atividades dos clubes até o final da década de 1970 voltavam-se para
atividades econômicas e sociais, paralelamente, o que envolvia toda comunidade, e
contribuíam para promover a união entre as famílias e ampliar o contato com as comunidades
vizinhas.

Todas as comunidades tinham o seu Clube 4-S. Naquela época era difícil integrar as
comunidades pela dificuldade de locomoção. Não existia condução, então era mais
reservado pra comunidade, mas também, quando havia promoções, pois todos os anos
se fazia uma festa, então todas as comunidades eram convidadas para participar.
Também havia as trocas de experiências nas comunidades. As mulheres começaram a
participar junto. Antes a mulher era apenas uma dona de casa, hoje ela trabalha na
comunidade junto com os jovens e a evolução veio daquela época pra cá. É uma coisa
que não foi só no interior; na cidade a mulher começou a trabalhar fora e no interior
não foi diferente. A mulher começou a participar na comunidade no sindicato. Só
quem participava no sindicato era a viúva e hoje começou a mudar, a mulher tem a sua
conta no banco umas em conjunto com o marido, outras não. 319

Pelo depoimento, evidencia-se o espaço que se abriu para a participação mais efetiva
da mulher nas atividades sociais. As reivindicações das mulheres no meio rural foram
ressaltadas na fala seguinte:

O que as mulheres reivindicavam era poder ter uma vida social na comunidade. Por
que os maridos, só eles, os homens, têm o salão, a sua diversão, jogo de baralho, de
bocha? Então, se promovia encontros pras mulheres, uma roda de chimarrão, jogos,
encontros de casais, gincanas entre casais, porque a mulher era o trabalho, a família, ir
pra igreja rezar e voltar pra casa. Vinham no Domingo, faziam a sua celebração, a
mulher voltava pra casa e o marido ficava. Aí começaram a questionar: “Por que a
gente tem de ir pra casa ?”
Quando se tratava de escolher a liderança da comunidade, por que era só o homem
que votava. Aí os jovens começaram a reivindicar: “Nós também temos o direito de
escolher”. A mulher também, mas foi uma luta pra se entender que o voto não era só
do marido. 320

319
SOUZA S. José. Entrevista ...
320
TREVISO, Darci. Padre que trabalhou na Paróquia de São Cristóvão por 17 anos, no período de 1969/1974,
época do clubes 4-S atendia algumas comunidades do interior, entre essas, o distrito de São Roque.
Dessa forma, os Clubes 4-S contribuír am para que a comunidade tivesse uma vida
social mais ativa, com a participação de todos os membros da família nas promoções, nas
festas, nas exposições promovidas no distrito de São Roque.
Com a modernização da agricultura, acentuou-se também o contato com os bancos
para conseguir recursos destinados a investimentos em tecnologia mais avançada, em adubos,
fertilizantes, máquinas. Walter Maffi relatou sobre esse aspecto:

Quando entrou a era do soja, já entrou com mais tecnologia, com as áreas recuperadas,
calagem e fósforo. Daí a produtividade já era boa. Não tivemos dificuldades de
produzir soja. Aí que eu acho que desvirtuou um pouco o trabalho, virou mais
monocultura. Deveria ter ficado mais em cima da diversificação, mas, como a soja era
um produto de exportação, com um valor razoável, eu não ia plantar trigo. Aí veio as
doenças, mas o milho, suíno, feijão, essas coisas caiu bastante. Então foi uma coisa
boa de início a recuperação do solo, mas depois, até hoje sou contra a monocultura,
uma que a terra não agüenta. O pessoal da Emater alertava que, com o tempo, podia
acontecer alguma coisa. O pessoal se endividou com a monocultura, só plantava soja,
ficava sem trabalhá, né. Mas o pessoal superou, o que ficou, pois a maioria se
mandou. Apesar que eu, às vezes, na reunião do sindicato, eu levantava assim: “ O
que eu ia fazer com cinco filhos e uma área de terra? Eles tinham de sair”. Os que
tinham cabeça, e os pais souberam ensinar e foram estudar ou trabalhar estão bem
hoje. Nós não podemos criticar a cidade, porque a agricultura não é valorizada. 321

No depoimento transcrito, percebemos que a participação dos agricultores nos


trabalhos desenvolvidos pela extensão rural foi intensa e, apesar do recuo inicial por parte de
alguns, a necessidade de melhorar a produtividade e, por conseqüência, a renda da família
levou a que em pouco tempo, se adequassem às novas exigências. Mas com a monocultura da
soja e a mecanização rural, surgiram algumas dificuldades, que os agricultores tiveram de
enfrentar.
A situação do agricultor na época dos Clubes 4-S e os problemas que surgiram
relacionados à mecanização rural foram evidenciados numa das entrevistas feitas:

A situação não era muito melhor que hoje, mas, pelo menos, eles não gastavam pra
plantar, pra colher. Era trabalho deles. Depois, o que estragou com a agricultura foi a
introdução da máquina. Aí foi a máquina pra lá e começaram os agricultores se
endividá, comprá uma máquina, um trator. Tinha os créditos, aí muito agricultor teve
de vender terra pra pagar banco. Outra que levou ao êxodo rural foi a máquina, porque

321
MAFFI, L. Walter. Entrevista...
quem comprou uma máquina, sobrava gente. Então ia pra cidade, mas como é que ia
pagá pensão? Como é que vamo pagá o estudo? Outra coisa que teve uma força pro
êxodo rural foram as escolas do interior, que só tinha o primeiro grau. Aqueles que
nós encaminhava pra cidade, pra lá, era de quinta, sexta série, já não queria mais
voltar. Fazia até pai se mudar. Naquele tempo nós tinha 120 alunos de lá,
agricultores. Hoje, se não me engano, tem 18, 25, mas não são de lá todos, são
pessoas que foram trabalhar na olaria. De lá mesmo tem uns dez.
Então, quando os alunos começaram estudar, terminavam na oitava série e não
queriam pará. Os professores incentivavam para o segundo grau, do segundo grau
para a faculdade, e faziam até os pais sair do interior. Então, a máquina foi muito
bom para quem pôde comprar sem fazer dívida. Quem continuou com o aradinho lá
continuou o mesmo, eles não progrediram, mas também não regrediram. Então aqueles
que continuaram um pouco com do sistema deles conseguiram. Hoje nós podemos
contar que o interior é formado de velhos Eles continuam lá porque uma das coisas
boas que tiveram, que nossos pais não tiveram, nossos avós, é os 200 reais. Acho que
mudou bastante, foi um ponto negativo para o pequeno agricultor; pro grande, não, o
grande tá muito bem. E outra coisa, por exemplo, ficaram os agricultores lá com
quanta terra? Pouca, uma colônia, poca colônia. Como é que ia pagar uma máquina?
O crédito dele não podia comprar um trator. Mas a Ascar, a prefeitura, sindicato,
também, que entrava, vamos comprar um trator em três, quatro, cinco agricultores.
Alguns fez, mas uns não acreditavam no outro, medo de sociedade. Então foi, foi, que
quem pôde comprar comprou, quem soube administrar administrou e tá bem; quem
comprou e não soube administrar foi na estaca zero, né. Hoje em dia, se não fosse
mecanizada, ia fazer o quê. Na época do plantio de soja, muitos arrendaram ou
compraram a terra dos pequenos agricultores. 322

Revela-se que as dificuldades foram aparecendo na década seguinte, mas o período de


1960/1970 foi de euforia para os agricultores, que passaram a utilizar novas técnicas e
aumentar a produtividade. E o trabalho dos jovens nos Clubes 4-S foi essencial para dar
credibilidade às inovações orientadas pelos extensionistas, pois eles envolveram a
comunidade com um todo. Assim, introduziram as sementes híbridas, investiram no trigo
aplicando calcário e adubos na terra, fizeram terraceamentos; investiram na soja, que exigiu
mais tecnologia e investimentos financeiros; também as atividades voltadas para a área social
promoveram a mudança nos hábitos costumeiros das comunidades.
Pode-se dizer que o ingresso dos pequenos agricultores no processo de modernização
agrícola foi planejado e visava à substituição dos métodos tradicionais, dos agricultores para
que se dedicassem ao cultivo dos produtos de exportação. Assim, os agricultores, na década
de 1970, foram introduzidos no processo de modernização agrícola, produzindo num ritmo

322
GRANDO, R. Antônio. Entrevista....
mais acelerado, comercializando com a cooperativa, participando mais ativamente do
sindicato rural, negociando com bancos, vindo com mais freqüência à cidade. O trabalho dos
Clubes 4-S foi expressivo para a introdução dos agricultores nesse processo.

4.8 Incentivos ao associativismo e sua institucionalização

No discurso da extensão rural estava presente a idéia de preparar os jovens para o


associativismo. Assim, através dos Clubes 4-S, incentivava-se a participação dos agricultores
nos sindicatos e nas cooperativas e as lideranças rurais foram expressivas na divulgação e
introdução dessas idéias no meio rural, além da atuação no quadro diretivo desses
estabelecimentos.

a) Os sindicatos
Em 1961, a elite agrícola gaúcha, com o apoio de grande parte dos bispos da Igreja
Católica, fundou a Frente Agrária Gaúcha (FAG), uma associação civil que foi responsável
pelo surgimento do sindicalismo corporativo no Rio Grande do Sul. Assim, foram
organizados vários sindicatos no estado, entre os quais o Sindicato dos Trabalhadores Rurais
de Passo Fundo, criado em 25 de julho de 1962, com o apoio dos primeiros associados:
Arlindo Lorenzoni, que em 1966 foi eleito presidente, Alberto Tagliari, José Mendes e irmão
Urbano Máximo, representando na época a FAG. O sindicato, até a eleição de 31 de janeiro
de 1966, foi dirigido por uma comissão provisória que obedecia à orientação da coordenação
da mesma. 323

O sindicato ao ser fundado tinha uma missão árdua e proeminente a cumprir, qual seja a de
coordenar e arregimentar a classe ruralista que se encontrava totalmente descrente, de tudo e de
todos, assim sendo sua meta foi esclarecer e orientar o colono mostrando-lhe o caminho certo
que tinha a seguir. Neste sentido, desde sua fundação foi mobilizando um grupo de pessoas do
sexo masculino e feminino, que após estarem devidamente treinados e orientados, deram

323
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Passo Fundo. Relatório de diretoria. Jan./Fev. 1967.
orientação e arregimentação da classe, coordenando-a junto a seu órgão de classe. Apesar dos
esforços neste sentido, muito há de se fazer para debelar totalmente a descrença existente no
meio.324

Para reverter esse quadro de descrença, várias atividades foram desenvolvidas até
1965, como uma semana ruralista, três cursos de liderança sindical, duas assembléias gerais
por ano, uma reunião de diretoria por semana e visitas a núcleos residenciais do interior do

município. Em 1966/67, foi realizado um curso de administrador de cooperativas, um


seminário de bem- estar social, além de duas assembléias gerais e das reuniões quinzenais.
Percebe-se que o sindicato desenvolvia um trabalho assistencial aos agricultores, por
meio do qual aumentava o número de associados. Também houve o incentivo ao
cooperativismo e ao associativismo e muitas das lideranças que vieram a compor o quadro da
diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais saíram dos Clubes 4-S, conforme podemos
observar no edital a seguir:
Sindicato dos trabalhadores rurais de Passo Fundo - RS
Edital
Em atenção ao disposto na Portaria Ministerial nº 40 de 21/01/1965, faço saber, aos que o
presente edital, virem e dele tomarem conhecimento, que em eleições realizadas neste
sindicato, no dia 22 (vinte e dois) de novembro do corrente ano, foram eleitos os novos órgãos
de administração e representação federativa, cuja constituição é a seguinte:
Diretoria: efetivos: Arlindo Lorenzoni, Auxílio Rebechi e Zelio Michel. Suplentes: Armando
Fagundes e Olívio Fávero.
Conselho fiscal: efetivos: Jacob Felipe Oligini, Walter Luiz Maffi, Orlando André Rovani.
Suplentes: Alvaro Ferreira Terres, Osvaldo lago, Waldir Fante.
Delegados representantes: efetivos: Arlindo Lorenzoni, Olimpio Oro, Germano Andretta.
Suplentes: Isedio Zanoto, Ivo Zanoto, Otavio Ferrari.
Dos 814 associados em condições de votar, compareceram e votaram 642 associados, com o
que foi alcançado quorum legal [...]. 325 (grifo nosso)

Percebemos, assim, que a Ascar incentivava os líderes rurais a participarem das


associações, conforme nos relatou Antônio Grando:

A própria Ascar fazia campanha que nós devia se organizar em associação para poder
ser mais ouvidos pelo prefeito, pelas autoridade [...]. Quem me convidou, acho que foi
o próprio Rebechi e o Joel, também o Hermenegildo Rosso. Eu sei que eu tinha
bastante conhecido, amigos, que foram lá e nos convidaram. Teve muitos líderes da

324
Idem.
325
Sindicato dos trabalhadores rurais de Passo Fundo – RS. Edital. O Nacional, Passo Fundo, 28 nov. 1970, p.
2.
Ascar que foram para o sindicato, sim, a maioria fomos para o sindicato, fui 30 anos
sócio. Foi uma vida integrada à comunidade, foi um tempo bom. 326

A Ascar e a Igreja marcavam presença junto ao sindicato nas assembléias gerais e nas
cerimônias de confraternização. Nessas ocasiões, os agrônomos da Ascar e alguns membros
da Igreja contribuíram com palestras sobre conservação do solo, cooperativismo,
sindicalismo, etc.
Em 1976, a Ascar colocou-se à disposição do sindicato e dos agricultores, conforme
registros de uma ata sindical: “[...] passou a palavra aos agrônomos da Ascar, os quais
argumentaram a respeito do encaminhamento na assistência principalmente dos subsídios de
adubo, fora do Banco do Brasil ou Cooperativa, que a Ascar também pode encaminhar e
orientar os agricultores para este fim. A Ascar se propôs também a trabalhar em comum
acordo e colaborar”. 327
Pelo trecho destacado, evidencia-se que havia uma ação integrada entre o serviço de
extensão rural, sindicato e cooperativas no sentido de orientar os agricultores para a produção
e comercialização dos produtos agrícolas, com o apoio do governo e da Igreja para manter o
controle econômico e social. Outra forma de associação incentivada foi o cooperativismo, de
que tratamos em seqüência.

b) O cooperativismo
Por volta de 1950, as cooperativas foram substituindo as redes de comércio
tradicionais, dando maior dinamismo à mobilidade e à mercantilização dos produtos
agrícolas. 328 As primeiras cooperativas da região do Planalto foram organizadas pelos
granjeiros.
No período de 1956/57 a produção tritícola passou por uma série de dificuldades
relacionadas ao clima, à falta de recursos das estações experimentais, à falta de

326
GRANDO, R. Antônio. Entrevista...
327
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Passo Fundo. Ata da Assembléia Geral Ordinária de 28/06/76.
328
TEDESCO, João Carlos; SANDER, Roberto. Madeireiros, comerciantes e granjeiros: lógicas e contradições
no processo de desenvolvimento socioeconômico de Passo Fundo. Passo Fundo: UPF, 2002, p. 137.
conhecimentos técnicos quanto à variedade de sementes e fertilização do solo, as dificuldades
de armazenamento e transporte da produção.
O Estado pouco se preocupava com a intermediação entre o produtor e os moinhos
antes da crise de 1956, mas, como os problemas se agravaram, foi necessário que o Estado
interferisse na questão, incentivando a criação de cooperativas que se constituíram em
329
importantes instrumentos para o alcance de seus objetivos. Segundo Frantz:

A cooperativa, ao concentrar a comercialização do cereal, reduz relativamente os gastos de


circulação da produção – tanto administrativos (gastos em pessoal), em material de escritório,
móveis e utensílios), quanto ao investimento fixo (armazéns, máquinas para recebimentos,
secagem e limpeza do grão, veículos para transporte, etc.).
Além disso facilitava a compra estatal do grão, pois era muito mais fácil transacionar com as
cooperativas do que com a miríade de agricultores isolados. Ela induzia à incorporação de
tecnologia mais moderna por um maior número de produtores.330

Houve, portanto, uma centralização da comercialização do trigo e, posteriormente, da


soja nas cooperativas, o que provocou o desaparecimento dos comerciantes do meio rural,
com a transferência da dependência que os pequenos agricultores tinham para com esses
para a Cooperativa Tritícola de Passo Fundo no final da década de 1960.

O primeiro ano que eu plantei trigo, ainda jovem, eu me associei na cooperativa


porque não tinha pra quem vender o trigo. Então o trigo já tava colhido dentro do
galpão e eu tive que me associar pra poder vender o trigo. Não existia essas outras
indústrias que compravam o trigo, era através do Banco do Brasil e das cooperativas.
Nem as cooperativas tinham silos suficientes, então usavam os silos da Cesa. Foi no
ano 1969, existia aqui na comunidade três ou quatro associados. Dali pra cá, nos
anos 70, foi a evolução mesmo do trigo e do soja. Aí todo mundo começou a se
associar na cooperativa. Nos primeiros anos, os financiamentos eram enc aminhados
para o Banco do Brasil. 331

Como observamos, foi a partir da década de 1970 que os pequenos agricultores


associaram-se à cooperativa. Nesse período, a Cooperativa Tritícola de Passo Fundo
(Coopasso) passou a financiar os pequenos agricultores, conforme foi destacado na imprensa
local:

Terá início segunda-feira próxima, na Cooperativa Tritícola de Passo Fundo, o


financiamento aos plantadores de trigo associados da referida entidade.

329
FRANTZ, T. Rudi. Cooperativismo empresarial e desenvolvimento agrícola. Ijuí: Fidene, 1982, p. 39.
330
Idem, p. 41.
331
SOUZA, S. José. Entrevista...
A informação foi prestada a O NACIONAL pelo dr. Waldomiro Marcon, responsável pelo
setor de financiamento mantido pela Cooperativa. O sistema de financiamento ao pequeno
produtor é uma experiência recentemente iniciada, e que visa a proporcionar maiores
facilidades aos associados. Ao invés de, como antigamente, pleitearem o financiamento
diretamente ao Banco do Brasil, passaram os pequenos produtores a transacionar com a
Cooperativa, a qual se encarrega de toda a operação. Havendo criado um setor de
financiamento semelhante ao que é mantido pelo Banco do Brasil, a Cooperativa recebe do
banco os recursos globais e os entrega aos associados em montantes individuais que vão até
NCr$ 7.800,00. Tais financiamentos podem ser para a compra de adubos, sementes
certificadas, inseticidas. Se o interessado quiser, receberá o dinheiro. A própria Cooperativa se
encarrega da fiscalização das lavouras, com a supervisão do Banco do Brasil. Por ocasião da
safra é que os beneficiados pagarão os financiamentos recebidos.
Esse sistema de financiamento estabelecido pela Cooperativa Tritícola de Passo Fundo
representa um auxílio inestimável aos pequenos produtores.332

Dessa forma, pequenos, médios e grandes produtores foram incorporados no sistema


cooperativista, que atingiu o seu apogeu na década de 1970. Segundo Dieterich:

O movimento cooperativista cresceu muito no Brasil, em especial no Sul. No Rio Grande do


Sul atingiu o seu apogeu na década de setenta. Criaram-se as grandes cooperativas, o chamado
“gigantismo”, calcadas na produção de trigo e soja. Neste momento as cooperativas
adquiriram melhores condições de enfrentar a concorrência do mercado, e passaram a adotar
nova postura, até então desconhecida nas cooperativas, mas muito comum nas grandes
empresas. As cooperativas representam hoje, para o agricultor, a melhor opção de colocação
de sua produção no mercado. A produção agropecuária comercializada através de cooperativas
na safra 80/81, representa 32% do arroz, 56% da soja, 84% do trigo, 32% do abate de bovinos e
15% do abate de suínos do Rio Grande do Sul. Face a isso a Extensão Rural procura incentivar
os produtores ao cooperativismo, sindicalismo e participação em outras associações.333

Esse incentivo ao cooperativismo e ao associativismo por parte da extensão rural foi


ressaltado na Revista dos Clubes 4-S:

Cooperativismo é associativismo. Isto porque a base cooperativista é a ajuda mútua. Quer


dizer: a União faz a força. E para que exista a ajuda mútua dentro de uma organização, deve
existir também o espírito associativo, em maior ou menor escala [...].
Atualmente, o governo demonstra grande interesse em fortalecer o Cooperativismo, com a
palavra de ordem INTEGRAÇÃO. E para dar o exemplo. Grande número de Cooperativas do
Rio Grande do Sul firmaram convênio em fevereiro de 1973, para o desenvolvimento de um
trabalho integrado. O projeto tem o nome de Projeto alto Uruguai de desenvolvimento da
cooperativismo. Dele participam o INCRA, a Organização das Cooperativas do Estado do
RGS – OCERGS, a ASCAR e o Banco Nacional de Crédito Cooperativo – BNCC, além de
todos os órgãos ligados direta ou indiretamente ao cooperativismo no Rio Grande do Sul.
Vai funcionar numa área com 25 municípios onde existem 26 Cooperativas. O passo inicial
será a educação para o Cooperativismo, abrangendo principalmente a juventude, pois esta tem
todas as condições para elevar o Cooperativismo à posição de predominância que deve exercer
na estrutura sócio-econômica do Estado.

332
Terá início segunda-feira próxima, na cooperativa Tritícola de Passso Fundo, o financiamento aos
plantadores de trigo associados da referida entidade. O Nacional, Passo Fundo, 9 maio 1970, p. 1.
333
DIETERICH, Clubes 4’S: descrição e análise da participação de jovens e sua permanência nas atividades
agrícolas, p. 42.
Os Clubes 4-S, com seu lema SABER, SENTIR, SAÚDE e SERVIR, representam o “ótimo”,
para indicar aos outros jovens o caminho do trabalho e da união, como o único e verdadeiro
para alcançar a felicidade.334

Em vista disso, os jovens deveriam ser educados para o cooperativismo e nos Clubes
4-S estavam sendo instruídos para esse fim. A formação de cooperativas fazia parte do
programa global para a agricultura, as quais se tornaram veículos de transferência de
tecnologia ao agricultor, que, através do crédito, adquiria produtos industrializados voltados
para a agricultura. A extensão rural seria a orientadora nesse processo, conforme declarou o
ministro Delfim Neto:

Estamos iniciando uma experiência de comunicação com o homem do campo, dentro do


objetivo determinado pelo Presidente Médici de integrar os grandes contingentes de produtores
rurais no processo de crescimento brasileiro. Nossa intenção é que os agricultores possam
utilizar mais intensivamente os fertilizantes e a mecanização, aumentando a oferta de
alimentos, o que nos ajudará em outra frente, qual seja a da batalha de preços mínimos para
assegurar o aumento da área plantada, a melhoria da produtividade e a comercialização interna
e externa da produção, com o que se alcançará igualmente o crescimento da renda real dos
agricultores.
Os produtores, além de contarem com apoio financeiro e recursos materiais, receberão
assistência técnica para elevar o rendimento de suas lavouras. Referiu-se, então ao papel
destacado que cabe à Extensão rural na execução da campanha, pela sua atuação e incentivo ao
cooperativismo e sindicalismo, na formação de comunidades mais dinâmicas, no suporte
enfim, oferecido à ação do governo para incorporar o homem do campo às forças dominantes
do mercado. 335

O Estado, portanto, contava com a extensão rural para atingir os objetivos de vincular
os agricultores às cooperativas, principais instrumentos do governo para promover a
modernização agrícola e que funcionariam como intermediárias (mercado-produtores-
governo). Essa tarefa da extensão também foi ressaltada na revista Extensão Rural:

O agente de extensão não pode se limitar a proporcionar assistência ao produtor rural,


transferindo-lhe tecnologias, agropecuárias e gerenciais, com vistas a melhoria de produção e
comercialização de produtos, dentro do propósito de elevação da renda, da produção, da
produtividade e do padrão de vida dos que vivem no estabelecimento. Para começar sua
missão, cuida o extensionista igualmente dos valores morais e pessoais que fazem do produtor
um líder, um elemento dinâmico e construtivo, dentro e fora do estabelecimento, na empresa e
na comu nidade. Assim procedendo, propicia condições para desenvolvimento do
associativismo e do cooperativismo, objetivando a formação de uma classe rural unida e

334
Cooperativismo: base da integração. Revista dos clubes 4-S, jan./fev. 1974, p. 31.
335
Governo lança campanha de estímulo à produção agrícola. Extensão Rural. Rio de Janeiro, ano V, n. 55, jul.
1970, p. 8.
vigorosa, o que é indispensável para uma sociedade rural mais elevada econômica e
socialmente. 336

De acordo com Tedesco, os objetivos que ligavam o Estado ao cooperativismo


extrapolavam a questão econômica:

Mais do que substituir atribuições infra-estruturais, de logística, armazenamento, assistência


técnica, comercialização, etc., o cooperativismo poderia amenizar conflitos sociais latentes no
meio rural. Portanto, o cooperativismo apresentava-se como solução para viabilizar um
programa global de organização e desenvolvimento de uma “sociedade agrária” num contexto
de crise econômica e de interesses industriais em jogo.337

Assim, o atrelamento dos agricultores às cooperativas e aos sindicatos teria também


uma função controladora, visando amenizar os conflitos sociais.
O processo de modernização agrícola desencadeou uma série de conflitos sociais e
políticos nas décadas de 1950 e 1960, com reflexos nas questões agrárias e urbanas nas
décadas de 1970 e 1980. O movimento dos triticultores, a criação da Fecotrigo, a composição
do Master, o aparecimento de frações da burguesia rural e urbana (os granjeiros) deram-se em
torno do movimento cooperativista e de partidos de centro esquerda, como foi o caso do PTB
de Brizola. 338 Assim, os pequenos agricultores foram inseridos no processo de modernização
agrícola, mas, de certa forma, subordinados ao poder político e econômico através das
cooperativas e do crédito.
A década de 1970 foi marcada pela grande expansão da produção da soja. Nesse
período, pequenos, médios e grandes produtores comercializavam seus produtos através da
cooperativa. Com isso, elas adquiriram importante infra-estrutura de armazenagem,
multiplicando armazéns nas áreas produtoras da região a fim de receber e comercializar,
alternadamente, as safras anuais do binômio trigo-soja.
Em 1970, a cooperativa de Passo Fundo inaugurou mais um silo, ocasião em que
houve a presença do presidente da República, que também deu abertura à colheita do trigo
na região, conforme destacou uma matéria jornalística:

ABERTURA DA COLHEITA

336
BICCA, F. Eduardo. As duas faces da missão do extensionista. Revista dos clubes 4/S, ano VIII, n. 40, 21 jul.
/agos./set. 1979, p. 21.
337
TEDESCO, Madeireiros, comerciantes e granjeiros: lógicas e contradições no processo de desenvolvimento
socioeconômico de Passo Fundo, p. 137.
338
Idem, p. 139.
Em seguida o presidente da República embarcou no carro presidencial, iniciando-se o
deslocamento rumo à Faculdade de Agronomia, tendo à frente viaturas da polícia rodoviária e
da polícia do Exército, seguindo-se um cortejo de inúmeros automóveis. Ao chegar à
Faculdade de Agronomia, o general Médici foi recebido pelo Reitor Murilo Coutinho Annes;
dr. Angelo Britto, diretor da Faculdade; vice-reitor administrativo Alcione N. Corrêa;
presidente da FUPF, dr. Juarez Diehl e outras altas autoridades. O Chefe do Govêrno subiu ao
palanque oficial, recebendo das mãos de uma senhorita um feixe de espigas de trigo, ocasião
em que deu por inaugurada a colheita do cereal-rei. Teve início, então a colheita de uma parte
da lavoura fronteira ao palanque oficial, trabalho êsse efetuado por diversas automotrizes.

INAUGURAÇÃO DO SILO

Encerrada a solenidade, prosseguiu o cortejo presidencial para o local onde estão situadas as
instalações industriais e o Silo Con-Ga da Cooperativa Tritícola, no Bairro Vera Cruz.
Aí, em companhia do ministro Cirne Lima, do governador Peracchi Barcellos e sr. Ari
Dalmolin, presidente da cooperativa o general Médici desatou a fita simbólica inaugurando o
gigantesco depósito semi -subterrâneo. Em seguida, o primeiro Magistrado da Nação passou a
percorrer as dependências do silo, observando o funcionamentos das suas várias secções
enquanto o sr. Ari Dalmolin lhe dava explicações pormenorizadas. Milhares de pessoas
postaram-se ao longo da estrada e junto ao silo, para assistir a passagem do presidente.339

Na matéria jornalística transcrita, fica visível o destaque agrícola que tinha a região de
Passo Fundo nesse período. Para atender aos associados, foi criado e ampliado o
Departamento Técnico, cuja função era orientar e prestar assistência técnica aos produtores
rurais, com projetos de melhoramento da fertilidade do solo, produção de sementes e
assistência técnica integral e, posteriormente, programas de diversificação da produção.
Conforme Brum:

A partir de 1978/1979, quando freqüentes frustrações de safras, principalmente de trigo mas


também de soja, além de outras circunstâncias relacionadas com a crise brasileira e a crise
mundial, revelam o esgotamento do ciclo da soja, a vulnerabilidade da monocultura e a
necessidade de buscar alternativas agrícolas mais seguras. O gado leiteiro e a atuação na
indústria de laticínios, a suinocultura, os hortigranjeiros e o estímulo a outras culturas como o
milho e experiências com culturas de inverno ao lado do trigo, como a colza, aveia, etc., são
algumas das medidas e orientações tomadas nos últimos anos.340

Com a modernização agrícola, os pequenos agricultores voltaram-se para a


monocultura em detrimento da tradicional diversificação, que fazia parte da economia
familiar do meio rural, conforme se viu anteriormente; assim, ficaram sujeitos a uma relação
de dependência aos preços do mercado internacional e do capital financeiro. Com a crise da
monocultura, incentivou-se o retorno à diversificação, seguindo as orientações e interesses
voltados para a agroindústria. Brum sintetiza bem o papel das cooperativas:

339
Abertura da colheita. O Nacional, Passo Fundo, 26 nov. 1970, p. 1.
340
BRUM, A modernização da agricultura: trigo e soja , p. 113.
Pode-se perceber que as cooperativas de trigo e soja foram um dos frutos do processo de
modernização conservadora da agricultura na região e se tornaram um dos principais
instrumentos para o avanço e expansão do processo modernizador voltado para a agricultura
empresarial com fins comerciais, dentro da estratégia global das transnacionais desencadeada a
partir da “Revolução Verde”, patrocinada inicialmente pelo poderoso grupo Rockefeller e
depois, também, por outros grupos econômicos, por organismos governamentais norte-
americanos e por organismos internacionais, como o Banco Mundial, a FAO e a própria
ONU. 341

Percebe-se, então, que as cooperativas tiveram um papel fundamental para as novas


diretrizes agrícolas. Frantz salienta que a cooperativa sabe quem são os produtores, suas
condições econômicas e financeiras; por isso, pode fiscalizá- los, substituindo o poder público
em todas as tarefas. 342 Vistas dessa forma, as cooperativas contribuíram para a organização e
controle tanto da produção como dos produtores, através da estocagem, da comercialização e
da transferência das novas tecnologias voltadas para a agricultura, mediante financiamentos.
c) A Igreja
A Igreja desempenhou papel fundamental na criação dos sindicatos corporativistas em
todo o Estado e, assim como o governo, desenvolveu trabalhos voltados para a juventude
rural. Faz-se, aqui, um breve histórico da renovação que ocorreu na Igreja, mostrando o seu
envolvimento na formação dos movimentos de juventude, dos Institutos de Educação Rural e
das Escolas de Educação Familiar, na formação dos sindicatos, bem como o posicionamento
da instituição em relação aos Clubes 4-S.
A base organizacional da Ação Católica Brasileira (ACB) era a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1952. Essa conferência, formada por dom Helder
Câmara e outros bispos de orientação progressista, foi um instrumento fundamental da
reorientação da Igreja Católica e até como precursor da ideologia do Concilio Vaticano II. 343
As décadas de 1960/1962 marcaram o início da renovação de uma parte da Igreja
Católica no Brasil, que aconteceu num contexto de abertura dentro da instituição e também de
liberdade política, que favoreceu a expressão de novas forças sociais geradas pelo processo
desenvolvimentista do pós-guerra. A partir daí, a Igreja passou a adotar medidas inovadoras

341
Idem, p. 115.
342
FRANTZ, Cooperativismo empresarial e desenvolvimento agrícola, p. 42.
343
SCHAAF, Alie van der. Jeito de mulher rural: a busca de direitos sociais da igualdade de gênero no Rio
Grande do Sul. Passo Fundo: UPF, 2001, p. 119.
tanto no âmbito interno como no externo, seguindo a linha desenvolvimentista e reformista. 344
Schaaf esclarece o que foi o modelo desenvolvimentista.

A mudança veio com o surgimento do modelo desenvolvimentista, entre 1930-1964, quando o


governo passou a entender que o Brasil devia superar o seu subdesenvolvimento e que o
capitalismo era um impedimento para o desenvolvimento do país. O equilíbrio internacional
do capitalismo deveria ser quebrado, já que era baseado na complementaridade entre as
metrópoles e as nações coloniais. Eram necessários, então, a criação de uma infra-estrutura
sólida de indústria básica, o desenvolvimento de um sistema de transporte eficiente, a
eliminação de disparidades regionais e a expansão do mercado interno. 345

Nesse período, a Igreja assumiu o papel de guardiã da moral social e sua grande
preocupação era a ameaça comunista. 346 A Igreja, por meio de documentos da sua hierarquia
(papas e bispos) e das matérias publicadas na imprensa católica, colocava-se contra os dois
sistemas: comunismo e capitalismo. Todavia, o teor das críticas a ambos era diferenciado:
desse, criticavam-se apenas os excessos, ao passo que aquele era condenado em si. Mesmo
assim, dificilmente a condenação católica ao comunismo era acompanhada por louvores ao
capitalismo, o que era feito de forma velada. 347
Uma das estratégias utilizadas para a educação da população foi a Ação Católica, um
movimento de leigos que surgiu na Igreja na década de 1930, fundado pelo padre Cardjin.
Com a Ação Católica surgiu um movimento chamado Juventude Operária Católica (JOC).
Aos poucos, por causa da JOC, a Ação Católica foi criando consciência de que a melhor
maneira de evangelizar era reunir as pessoas de acordo com o meio onde viviam. Assim se
criou no Brasil em 1950 a Ação Católica Especializada, que atuava no meio operário,
universitário, estudantil e rural. Para os jovens do meio rural, surgiu, então, a Juventude
Agrária Católica (JAC), que se utilizava do método ver-julgar e agir. 348

344
OLIVEIRA, P. Ribeiro. O contexto da Igreja Católica do Brasil. Comunicações do Iser, 8(34), 1989, p. 4-9.
345
SCHAAF, op.cit., p. 118.
346
Id. ibid.
347
RODEGHERO, Carla Simone. O diabo é vermelho: imaginário anti-comunista e Igreja Católica no Rio
Grande do Sul ( 1945-1964). Passo Fundo: Ediupf, 1998, p. 79.
348
Para melhor conhecer a realidade, os jacistas faziam até pesquisas entre os demais jovens, com outras pessoas
que eles chamavam de “inquérito”, para melhor conhecer a realidade. Depois de ver a realidade, vinha o julgar,
que era baseado na Bíblia, na doutrina da Igreja; era o critério cristão para julgar o que está bom e o que não está
conforme o plano de Deus dentro da realidade que se estava vivendo. No julgar a realidade, que era um processo
constante que aos poucos ia fazendo parte da vida toda do jovem rural, ele ia percebendo mais claramente o que
o Evangelho, o que Deus queria dele dentro de sua realidade. É preciso saber escutar para perceber os apelos de
Deus, daí vinha o agir. Cada reunião deveria levar um compromisso de cada um, do grupo e da equipe de
militantes. Agia-se no sentido de melhorar, de acordo com o apelo do Evangelho, a realidade que fora analisada
Esse trabalho contribuiu para a formação de lideranças, que começaram a atuar dentro
dos sindicatos, das cooperativas, da Liga Agrária Católica, da Frente Agrária e dos partidos
políticos. Entre as propostas de trabalho da JAC para o ano de 1961 estavam: interessar-se
pelos problemas atuais da juventude rural, como formação profissional, solidariedade e
espírito de classe; formar elementos que pudessem atuar cristamente nas organizações
existentes, como associação rural, cooperativas, clubes de jovens, etc.; estudar e agir frente ao
grande problema da reforma agrária, que se levantava em todo o Brasil. 349
Assim, a Igreja empenhava-se em desenvolver um trabalho voltado para os jovens,
pequenos produtores e agricultores sem terra. Por isso, apoiava o trabalho dos Clubes 4-S,
pois também desenvolvia um trabalho de incentivo à adoção de novas tecnologias, de preparo
do agricultor nos Institutos Agrícolas.

Em 1961, o engajamento da JAC recebeu um grande impulso com a Encíclica do papa


João XXIII Mater et Magistra, que tocava fundo no problema agrário dos países pobres Mas
a partir de 1964, com a ditadura militar, as organizações populares com propostas de
mudança social foram vistas como uma ameaça ao governo, razão pela qual a JAC foi
perdendo o apoio até mesmo dentro da Igreja. Um grande número de bispos passou a ter
dúvidas sobre se essa atuação da JAC podia ou não ser considerada eclesial. 350
No início da década de 1960, também os movimentos sociais agrários iniciaram a
mobilização em torno da problemática agrária e acentuaram-se até que, em 1964, foram
reprimidos. De acordo com Gehlen, as reivindicações sintetizavam três propostas: a) preços,
saúde e benefícios sociais para os pequenos proprietários; b) garantias trabalhistas e
benefícios sociais para os assalariados, o que contribuiu para o Estatuto do Trabalhador Rural,
em 1963; c) reforma agrária para os sem-terra e para os que possuíam área inferior às
necessidades familiares. Essa proposta contribuiu para o Estatuto da Terra, em 1964. 351 No
entender de Gehlen:

na reunião. Ver PASTORAL da juventude rural. Coordenação estadual de pastoral da juventude rural - RS.
Petrópolis: Vozes, 1985, p. 16.
349
Idem. p. 20.
350
PASTORAL da Juventude Rural, op.cit., p. 21.
351
GEHLEN, Ivaldo. A luta pela terra no Sul a partir do caso dos colonos de Nonoai. In: SANTOS, J.V.T dos
(Org.) Revoluções camponesas na América Latina. São Paulo: Icone,, 1985, p. 149.
Os que reivindicavam terra encontraram apoio e orientação principalmente no Movimento dos
Agricultores Sem Terra (MASTER), controlado pelo PCB e pela esquerda do PTB, partido que
governou o Es tado de 1959 a 1963. A luta pela Reforma Agrária mobilizava camponeses em
quase todo o país. Aqui no Estado teve como ações vitoriosas a invasão e conseqüente
desapropriação da Fazenda Sarandi, em 1962, acampamento e posterior invasão da Fazenda
Santo Antônio, em Tapes, pressão e loteamento do Banhado do Colégio, em Camaguá, criação
de STRs (Sindicato de Trabalhadores rurais) [...] . 352

Com o exposto, constatamos que os movimentos sociais cresciam no Rio Grande do


Sul e que a Igreja Católica preocupava-se com a influência do movimento de esquerda no
meio rural. No entender de Schaaf: com o trabalho pastoral, a Igreja Católica procurava
motivar os leigos como contra-resposta à organização da população por parte de unidades não
eclesiásticas, como era o caso, por exemplo, no campo do Rio Grande do Sul, do socialismo
populista do Brizola e do Movimento dos Agricultores SemTerra (Master). 353
Diante disso, surgiu a Frente Agrária Gaúcha (FAG); uma associação fundada por

iniciativa dos bispos da Igreja Católica do Rio Grande do Sul, que passou a ser vista por
muitos como uma reação ao desenvolvimento do Master, cujas atividades e estratégias de
acampamentos para exigir reforma agrária eram consideradas como uma força comunista a
ser combatida. 354
Dessa forma, a Igreja também assumiria o papel de controladora dos movimentos
sociais, sendo exemplo de sua participação a criação dos sindicatos rurais. A FAG e a Fetag,
posteriormente, tratariam do problema da reforma agrária, priorizando a educação e a
organização dos agricultores num movimento cristão, comunitário, tendo como sustentação a
sua rede sindical. A questão da terra ficava em segundo plano, ainda que não pudessem negar
a concentração desse bem e da riqueza no país e suas conseqüências sociais. 355
Com o golpe militar em 1964, entretanto, os movimentos sociais foram freados; o
governo centralizou o poder e passou a controlar até mesmo as ações da Igreja.

352
Idem, p. 150.
353
SCHAAF, Jeito de mulher rural: a busca de direitos sociais da igualdade de gênero no Rio Grande do Sul, p.
121.
354
Idem, p. 203.
355
FALKEMBACH, E. Dinâmica social e cooperativismo: o caso da Fecotrigo – 1958/72. In: BENNETTI,
M.D.; FRANTZ, T.R. (Coord.). Desenvolvimento e crise do cooperativismo empresarial do Rio Grande do Sul,
1957-1984. Porto Alegre: FEE, 1985, p. 176.
O novo regime também institucionalizou medidas de controle social, principalmente pela
formação e criação de sindicatos favoráveis à política econômica e social oficial, a expansão do
cooperativismo de produtores rurais, a nova política de crédito agrícola voltada para o aumento
da produção e da produtividade. Também fomentou a disseminação de métodos de
ideologização, fazendo os agricultores crer que qualquer proposta de alteração na estrutura
fundiária e qualquer encaminhamento de reivindicações que não pelos caminhos legais e
formais colocá-los-ia à mercê do “comunismo” ( no sentido de destruição de seus valores,
instituição do “caos” e cerceamento de todo resquício de liberdade que, apesar dos pesares,
ainda possuíam etc.) e era símbolo de espírito antipatriótico. A oposição ao regime e/ou ao
grupo no poder era identificada como rejeição da nacionalidade, subversiva e ditatorial. É
muito comum no meio rural ouvir a expressão “isso é comunismo”, como reação a atitudes
autoritárias e impositivas.356

Com o exposto, verificamos o discurso autoritário que se colocava contra qualque r


oposição ao governo. Nesse período, os sindicatos sofreram intervenção do governo e houve
um distanciamento entre Igreja- Estado.
Oliveira explica a posição da Igreja diante dessa situação: inicialmente, a instituição
tentou colaborar com o regime, mesmo tendo de sacrificar os setores e as lideranças que, no
período anterior, mais haviam avançado na linha social e política. A Ação Católica, o
Movimento de Educação de Base (MEB) e suas lideranças perderam o apoio oficial, com
muitos sendo presos sem reação dos bispos. A CNBB mudou radicalmente sua direção e dom
Hélder foi transferido para longe dos centros de decisão do país. 357
A tentativa de aproximação da Igreja com o governo não foi aceita e o pacto que
mantinham no combate ao comunismo foi quebrado, com acusações de que a instituição
estava sofrendo infiltrações comunistas, quando alguns padres apoiaram as manifestações
estudantis e operárias em 1968. Houve, então, uma ruptura entre Estado-Igreja; alguns
sacerdotes foram presos e assassinados nesse período e a Igreja passou a condenar as
repressões e a violência por parte do governo. Com isso, a Igreja voltou-se para o contato
direto com as classes populares e com as vítimas da repressão policial. O discurso voltou-se
para os direitos humanos (em defesa dos presos e torturados políticos) e dos pobres e, na
década de 1970, cresceram nas zonas rurais as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Outra proposta para o meio rural foi apresentada pela FAG, que consistia na criação
de escolas agrícolas com o objetivo de abranger o maior número possível de filhos de
agricultores, formando lideranças e desenvolvendo métodos e propostas no sentido de
modernizar as técnicas de trabalho consideradas atrasadas. Assim, os chamados “Institutos de

356
GEHLEN, A luta pela terra no Sul a partir do caso dos colonos de Nonoai, p. 151.
357
OLIVEIRA, O contexto da Igreja Católica do Brasil, p. 5.
Educação Rural” eram destinados a rapazes maiores de 17 anos, filhos de agricultores
sindicalizados, e as Escolas de Educação Familiar, para moças. 358 Nessas escolas, os alunos
permaneciam um mês internados e um mês em casa, para que pudessem aplicar os
ensinamentos recebidos. Entre as disciplinas do curso constavam: português, matemática,
geografia, história, moral e cívica, cooperativismo, sindicalismo, higiene, saúde, agricultura,
pecuária, eletricidade, instalações hidrálicas e construções rurais. 359
O Projeto Educação Rural, organizado e liderado pela FAG, procurava reforçar o
conteúdo doutrinário de sua proposta, que consistia na política de mobilização e organização
do campesinato. 360
Em 1978 o bispo de Santo André apoiou a greve dos metalúrgicos do ABC paulista; as
Campanhas da Fraternidade marcavam uma posição ao lado dos oprimidos; alguns religiosos

apoiavam as lutas dos sem- terra, as greves e as ocupações urbanas. Essas ações mostravam a
posição da Igreja frente aos oprimidos, fato que foi criticado pela ala conservadora dentro e
fora da instituição. Ficava, pois, evidente a existência de uma divisão nos setores eclesiásticos
da Igreja, opondo, de um lado, o setor comprometido com as classes populares e, de outro, o
setor comprometido com as elites dirigentes.
Diante desse quadro, no tocante aos Clubes 4-S, sempre houve a presença da Igreja
nas celebrações religiosas, nas exposições e nas festividades, pois as lideranças que ajudavam
nas capelas e na catequese eram as mesmas dos Clubes 4-S. Assim, o trabalho que
desenvolviam com a agricultura era isolado, mas nas atividades religiosas muitas vezes
uniam-se com os grupos da Igreja. Percebe-se a ligação da Igreja com a juventude rural na
longa exposição que segue, obtida em entrevista com o atual bispo da Diocese de Passo
Fundo, dom Ercílio Simon:

Os Clubes 4-S eram organizados em nossas comunidades e tinham o apoio não


apenas da Igreja como entidade, mas também das lideranças da Igreja lá nas
comunidades, porque eles traziam algo de bom para a juventude na medida em que
conseguiam reunir os jovens. Naquele tempo, havia muito mais jovens no interior,
358
NORA, Helenice Aparecida Derkoski Dalla. A organização sindical rural no Rio Grande do Sul e o
surgimento do sindicato dos trabalhadores rurais de Frederico Westphalen (1960-1970). (Mestrado) - UPF,
2002, p. 77.
359
Idem, p. 78.
360
Idem, p. 80.
que hoje não tem, e conseguiam reunir, transmitir a eles novidades tecnológicas. Ou
então era um modo social de se encontrar. Os clubes tinham o apoio da Igreja, mas
não era uma atividade eclesiástica como tal. Era uma atividade organizada pela Ascar
civil, mas que tinha um valor humano e por isso merecia apoio da Igreja. Então, nós
cediamos salões para os encontros. Às vezes, numa demonstração de técnica nova na
propriedade vizinha, precisavam se reunir para o almoço, ali estava o salão à
disposição. Quando havia festividades maiores, eles convidavam representantes da
comunidade da Igreja. A gente participava num sentido mais de apoio e incentivo
porque era uma coisa boa para o mundo rural de então. A minha relação não foi de
organização, foi mais numa linha de incentivo, de apoio e de disponibilizar aquilo que
era da Igreja para o trabalho. Normalmente, era o agrônomo da Ascar e uma assistente
social que se preocupavam com o conteúdo[...].
A reação da Igreja foi de apoio, jovens formados já em movimentos de Igreja,
naqueles anos, 68. Estava se operando uma mudança nas atividades da Igreja junto à
juventude rural nos anos de 68/69, anos críticos da ditadura. Todos os movimentos de
conscientização sofreram um bocado: a JAC , 67, 68, 69; a Juventude Agrária
Católica. Mas muitos líderes formados ali encontraram nos 4-S uma maneira de
continuar trabalhando pela comunidade.
A Igreja, muito antes disso, aqui principalmente, na nossa região, sempre teve uma
relação muito íntima com o mundo da agricultura. Já nos final dos anos 50/60, tinha
as semanas ruralistas, que se organizavam na cidade e vinham técnicos do governo
estadual. A Igreja tinha, como tem ainda hoje, o poder de juntar a população e juntava
naquela ocasião para a finalidade de melhoria da população, novas tecnologias para o
mundo agrícola como um todo.
Terminada essa fase de semanas ruralistas, começou a fase de sindicalização do
mundo rural. Isso em 62/63. Aí surgiu a Frente Agrária Gaúcha, que fez com que
fossem fundados os sindicatos de quase todo o Rio Grande do Sul. A Igreja aí tomou
a dianteira: os agricultores precisavam se sindicalizar, não confiavam em ninguém e
aceitavam a palavra da Igreja; preparou lideranças e foram fundados sindicatos. Hoje
é uma realidade bem firme, mas naquele tempo não tinha essa firmeza. Então, essa
tradição da Igreja na região à Frente Agrária Gaúcha se distinguiu pela sindicalização
dos agricultores, pela formação de lideranças e pela formação da juventude. Mais ou
menos concomitante aos Clubes 4-S, nós tinha uma escola de educação rural em
Tapera que atendia a toda a região. Os jovens, na época, tinham menos trabalho na
agricultura; depois do plantio, enquanto crescia a plantação, eram recolhidos por um
mês e meio, com agrônomos, com técnicos e também numa linha de sociabilização.
Alguém da cooperativa dos sindicatos também orientava e durou até 62/63.
Praticamente junto com isso tinha o trabalho da Juventude Agrária Católica, que
terminou mais ou menos na mesma época 68/69. Então, era uma ligação muito grande
e, como a gente via que a Ascar começou a dar uma atenção também ao mundo rural,
não houve problema, houve um apoio, era uma continuidade na linha técnica.
Toda a iniciativa, por melhor que seja, tem uma oposição aqui, uma oposição dali, mas
eu não me lembro de uma oposição maior em relação aos 4-S. Às vezes eu fico
pensando, quando ando pelo interior, hoje em dia e vejo essas placas Frangosul,
Perdigão, que também são coisas internacionais, eu lembro que naquele tempo tinha
dos 4-S: “Aqui mora um 4-S”.
A Igreja também foi um fator de aglutinação no sentido de que, sendo um elemento
religioso elemento presente forte, naquele tempo mais ainda. Então, se vinha o padre,
tinha a missa, era domingo, vinham mais pessoas e facilitava para quem promovia os
Clubes 4-S. 361

Nas atividades dos Clubes 4-S, a presença do padre desempenhava um papel que ia
além do religioso, pois era importante mostrar o apoio da Igreja ao trabalho de extensão,
sendo o interesse desta ganhar maior credibilidade junto ao povo rural.
Da mesma forma, a Igreja apoiava o trabalho naquele momento, pois muitos jovens
que participaram da JAC posteriormente passaram a ser sócios dos Clubes 4-S, e a Igreja
também desenvolvia um trabalho no sentido de preparar o jovem agricultor, orientando-o, nos
Institutos de Educação, para a utilização de novas tecnologias. Esses aspectos foram
ressaltados pelo padre Darci Treviso:

Acho que uma característica da época, algo pioneiro, era assim que a Igreja procurava
fazer um trabalho no meio rural. Inclusive tinha o dom Cláudio Colling, que
incentivava a Frente Agrária Gaúcha, e o próprio dom Ercílio Simon, que hoje é bispo.
Ele fez a faculdade de agronomia pra ajudar, era o pensamento na época que dois
padres, um é professor ainda hoje da faculdade de agronomia, o padre Carlos Kipper e
o dom Ercílio, fizessem a faculdade de agronomia como padres pra orientar no meio
rural. Então, ali era um incentivo pra que os jovens pudessem se qualificar. Eu
lembro algumas coisas, assim, da época, que, quando se fazia cursos, encontros,
congressos de jovens, buscava-se assessoria da Ascar, procurando técnicas. Eu lembro
de um estudo em que foram feito comparativos dos custos de produção, orientar os
agricultores sobre quanto custava a produção, comparar o custo dos produtos, quantas
sacas pra comprar um equipamento, alguns cursos de trabalho manual. Pra época era
um avanço porque realmente a Igreja é que motivava a comunidade pra isso
inclusive, os técnicos aproveitavam os dias que a comunidade se reunia pra ter missa,
para depois reunir as lideranças. Tinha, às vezes, os encontros, exposições de
trabalhos, se fazia celebração, congressos de jovens. Era um pouco isso que se fazia.
Da parte da Igreja era um trabalho mais de incentivar do que realmente técnico, de
orientar. Mas a força da Igreja, a presença da Igreja no meio rural era bastante forte.
Eram comunidades bem mais numerosas do que hoje, tanto é que o bairro São
Cristóvão é um bairro que cresceu nesse canto de Passo Fundo, com o pessoal que

361
SIMON, Ercílio. Atualmente é bispo da Diocese de Passo Fundo e na época, participava como padre nas
atividades festivas e religiosas promovidas pelos Clubes 4-S; cursou agronomia na UPF para, justamente, ser o
representante da Igreja local na atuação com os jovens, seja em escolas rurais, seja diretamente nas comunidades.
veio do interior. A população da vila Planaltina é uma população que veio do interior
de Nossa Senhora das Graças, São José. Muitas lideranças da época hoje estão na
cidade, lideranças treinadas que não ficaram no meio agrícola, mas que continuaram
sendo lideranças urbanas do Banco Sicredi, sindicato, cooperativa.
Eu acho que o Clube 4-S teve um grande mérito, além do específico do setor agrícola
que preparou. 362

Portanto, no período, o trabalho dos Clubes 4-S estava em correspondência com o


trabalho da Igreja; já, após o final do período da ditadura, a Pastoral da Juventude iniciou
um trabalho com a juventude rural, incentivando a formação de grupos de jovens. A partir,
daí surgiram críticas ao trabalho desenvolvido nos Clubes 4-S, as quais foram percebidas por
uma extensionista, que assim relatou:

O padre, falecido já hoje, Luis Serraglio, apoiava muito o nosso trabalho. Depois
entrou o grupo de jovens nos trabalhos da Igreja e eles não fechavam muito com nós
porque eles diziam que, como o 4-S foi baseado no Clube 4-H dos EUA, não era
brasileiro, mas a idéia só foi as quatro letras. O trabalho era nacional mesmo, não
tinha nada a ver, tinha até Clube Nacional dos 4-S. Nós uma vez fomos levar os
jovens para Brasília, para um encontro. Foi fantástico, tinha gente de todo o Brasil,
tinha bastante intercâmbio. Foi muito bom o trabalho na época. 363

Com base no relato transcrito, nota-se que, após o fortalecimento dos grupos de
jovens da Igreja, surgiram alguns questionamentos a respeito da introdução dos Clubes 4-S e
da participação de multinacionais como colaboradoras do trabalho.
Segundo a posição da Pastoral da Juventude, com o enfraquecimento e a dissolução
da JAC, a juventude rural ficou à mercê de esquemas alienantes que impediam a sua
articulação e seu maior compromisso com a realidade. Assim, muitos de seus militantes
aderiram a grupos clandestinos de luta contra o regime militar, abandonaram a sua prática, ou
se venderam ao regime. A crítica da Pastoral da Juventude aos Clubes 4-S pode ser
percebida nesta argumentação:

Outro esquema criado pelo governo para alienar os jovens da roça foram os Clubes 4-S ( saber,
sentir, saúde e servir), que são cópia dos Estados Unidos da América do Norte, onde eram
chamados de 4’Hs (head, heart, health, hand), que traduzidas significam: cabeça, coração,
saúde e mão. Nos EUA ainda hoje existem e são conhecidos também como Associação dos
Jovens Fazendeiros.

362
DARCI, Treviso. Entrevista...
363
MATZEMBACKER, Elma. Entrevista ...
Quem dá assistência a esses clubes no Rio Grande do Sul atualmente é a EMATER através de
seus extensionistas, técnicos e agrônomos. São financiados na sua grande maioria por
empresas nacionais e multinacionais, bancos privados e públicos ligados à agricultura, portanto
exploradores dos colonos, bem como outros organismos públicos, estaduais e federais.
O principal objetivo destes grupos é a difusão de modernas técnicas de produção, com maior
consumo de insumos industrializados, aumentando ainda mais a dependência de nossa
agricultura ao grande capital.
Toda cultura e experiência do agricultor, acumulada com longos anos de convivência com a
terra, não é valorizada. Impõe-se uma outra cultura sem o mínimo diálogo e participação do
agricultor. Investe-se no jovem e assim joga-se filho contra pai criando divisões nas famílias e
nas comunidades.
Outro detalhe: nos Clubes 4-S os jovens tem pouco poder de decisão, vindo quase tudo pronto
das instâncias superiores, isto é, do Conselho Estadual de Clubes 4-S que é dirigido por um
alto funcionário da Secretaria da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul e pela EMATER.
(grifo nosso).364

No texto, as expressões, “exploradores”, “invasão cultural”, “falta de diálogo”, “tudo


pronto” são utilizadas nas críticas de grupos da Igreja em relação à extensão rural. A falta de
organização de classe por parte dos jovens também passou a ser destacada:

Organização de classe

Daí decorre também a dificuldade de uma organização do jovem rural em torno de questões
significativas para ele. Ele considera mais ou menos pecaminoso assumir uma atitude
combativa, uma organização que pressione, que reivindique direitos. Ele aprendeu a ser
submisso. Ele procura soluções individuais para os problemas econômicos. É fraco o sentido
de classe.
Enfocando ainda a questão da organização, observa-se que há tentativas encabeçadas por
organismos do governo, como por exemplo, a EMATER, que organiza os Clubes 4-S. Em
alguns lugares se consolidaram. Mas continuam muito questionados. Gente da Pastoral da
Igreja se sente “roubada” diante do que consideram uma absorção dos jovens para esta
organização. Salvo juízo melhor, eu diria que os Clubes 4-S, enquanto reúnem, desinibem
jovens e lhes proporcionam um padrão mais técnico para suas atividades rurais, não significam
“invasão no campo”. O problema fundamental está nos objetivos últimos: educar para dentro
do sistema. É claro que um organismo do nosso governo não vai desenvolver um espírito
crítico que vá a raiz dos problemas. Teme-se, por isso, que os jovens permaneçam muito bem
ocupados, mas com uma cortina de fumaça diante dos olhos.365

Com isso observa-se uma certa disputa dentro da própria Igreja, e governo para a
orientação da juventude rural, de modo que modelo norte-americano seguido pelos Clubes 4-
S passara a ser questionado.

Os Clubes 4-S

Saber, sentir, saúde, servir. São quatro palavras bonitas que iniciam por S. Por causa disso,
estes Clubes de jovens têm este nome. Estão espalhados por este interior a fora.

364
PASTORAL da Juventude Rural. op. cit., p. 23.
365
Organização de classe. Mundo Jovem. jun./83, p. 5.
Ao contrário dos Grupos de jovens, os Clubes 4-S são criados com objetivos muito claros.
Anos atrás, foi a antiga ASCAR e hoje é a EMATER que os cria e orienta. Como todo mundo
sabe, a EMATER é um órgão que visa convencer os colonos a entrar na política agrícola do
governo. Assim como a ASCAR, a EMATER também segue a orientação norte-americana
quanto ao extensionismo rural, portanto a ideologia de um país rico que domina o nosso.
A EMATER acredita que os colonos vão mal porque não podem produzir. E acham também
que os colonos mais velhos são muito cabeçudos para aprender novas técnicas de produção.
Então, os Clubes 4-S são um meio de “fazer a cabeça” dos jovens colonos para que eles
aprendam a plantar como os americanos plantam. Assim, no Brasil se consumirá mais
produtos das multinacionais para a agricultura. Nos Clubes 4-S, os jovens têm pouco poder de
decisão. A orientação vem de cima, da EMATER. Isto não quer dizer que não haja alguns
Clubes 4-S se livrando desses esquemas e atuando com objetivos mais amplos do que assimilar
técnicas e produzir. 366

Portanto, as críticas aos Clubes 4-S aumentavam e muitos jovens já estavam deixando
de participar dos Clubes 4-S. Na década de 1980 muitos desses clubes estavam encerrando
suas atividades. Nesse período, consolidaram-se os grupos de jovens da Pastoral da
Juventude, e muitos jovens passaram a participar deles no meio rural. As dificuldades
iniciais para um trabalho mais efetivo dos jove ns nos grupos são ressaltadas em texto da
revista Mundo Jovem:

Grupos de jovens

Verifica-se o despreparo de líderes para coordenar grupos e mesmo adultos para assessorá-los.
Falta de material adequado para grupos de jovens do meio rural.
A maioria dos grupos são “folclóricos” e festivos. Ocupam-se mais com festinhas, bailes,
galinhadas... com o fim de excursionar... Isto tudo impede a formação e uma atuação mais
comprometedora. Outros grupos são assistencialistas. Ocupam-se em arrecadar dinheiro,
agasalhos e mantimentos para os mais necessitados. Falta de novo a busca das causas que
produzem pobres, necessitados.
A EMATER também se torna um problema no meio rural, porque se aproveita da estrutura dos
grupos de jovens para uma mera orientação técnica e individualista.
Concluindo, é bom que se ressalte a necessidade de que os jovens rurais tomem mais
conhecimento de sua realidade. Que não embarquem no tradicional chavão: “Os jovens são o
futuro do Brasil...”. Ou então: “Isto é problema dos mais velhos...’ É necessário tomar
consciência de que em toda a vida, em todas as idades deve haver envolvimento com os
problemas da comunidade, da sociedade, sempre em vista de uma transformação para uma
sociedade mais fraterna, justa e participativa. 367

Assim, os grupos de jovens da Igreja também passaram a atuar no meio rural com um
trabalho voltado para a reflexão crítica sobre a comunidade, a sociedade. Esse trabalho

366
Os clubes 4-S. Mundo Jovem. jul./83, p. 15.
coincidiu com o fim dos Clubes 4-S, que, em 1978, foram encerrando suas atividades no
distrito de São Roque, período do fechamento da Ascar em Passo Fundo.

4.9 As redefinições do trabalho de extensão em Passo Fundo

As atividades dos Clubes 4-S encerraram-se no distrito de São Roque no final da


década de 1970 e, conforme depreendemos dos depoimentos das pessoas entrevistadas,
motivo atribuído para isso foi o fechamento da Ascar. Em 1978, a Ascar seria incorporada à
Emater/RS, rescindindo-se, então, os convênios existentes o que provocou uma divisão em
nível estadual e municipal em relação a essa determinação do governo federal.
Conforme foi visto anteriormente, o modelo de extensão rural e as orientações para a
sua implantação no Brasil vieram dos Estados Unidos. Dessa forma, foi criada a estrutura
para que o sistema funcionasse e proporcionou-se o suporte financeiro e treinamentos para
técnicos.
O serviço de extensão rural não se inspirou na realidade brasileira e mostrou-se muitas
vezes inadequado; assim, várias políticas e métodos foram experimentados no sentido de
368
ajustar-se às transformações que ocorriam dentro e fora do país, operadas pelo capitalismo.
Vimos que, inicialmente, o trabalho concentrava-se na família rural, na comunidade
orientando os agricultores para que melhorassem suas condições econômicas e sociais,
aumentando a produtividade agrícola e ,consequentemente, a renda e o bem-estar.
No período de criação da Acar, a AIA aliou-se ao governo mineiro e, por intermédio
da Caixa Econômica Estadual, introduziu o Crédito Supervisionado, que permitiu a realização
das primeiras experiências de modernização do setor rural. A assistência creditícia voltava-se
para o pequeno proprietário rural e sua família e os planos de exploração agrícola eram
elaborados pelos extensionistas.
A criação da Abcar em 1956, como órgão centralizador da extensão rural brasileira,
possibilitou o traçado de uma política nacional de extensão rural, que passou a ser cada vez

367
Grupos de jovens. Mundo Jovem. Nov./83, p. 1.
368
BARROS, Princípios de ciências sociais para a extensão rural, p. 665.
mais comprometida com a política vigente. Dessa forma, a preocupação era ampliar as bases
sociais da ação extensionista na tentativa de obter ganhos políticos.
Quando o programa de extensão rural brasileiro estava bem organizado e
encaminhado, a AIA concluiu sua participação direta, mas continuava como financiadora e
consultora dos projetos extensionistas. A partir daí, começou a declinar a influência
americana até que a AIA encerrou sua participação em 1969 e o ETA, em 1980. 369
Ao longo do tempo, houve a substituição do Crédito Rural Supervisionado para
Crédito Rural Orientado; com essa modificação, o sistema de crédito ficou sob o controle da
rede bancária, conveniada com os órgãos do extensionismo. A preferência, então, passou a
ser os grandes produtores, que cultivavam os produtos de exportação, pois o pequeno produtor
não apresentava condições para a rápida integração na economia do país. 370
A partir de 1966, as atividades extensionistas passaram a ser regulamentadas e
integradas ao Ministério da Agricultura e, com isso, caberia à Abcar seguir as diretrizes da
política de desenvolvimento agrícola e agrária do governo federal.
O enfoque educacional do trabalho da extensão rural foi substituído pelo econômico;
assim, o caráter assistencial perdeu o seu sentido e ocorreu também uma redefinição do
público extensionista. Ao invés dos pequenos e médios, a prioridade, agora, era assistir
aqueles agricultores que explorassem comercialmente sua propriedade, enfatizando planos
regionais e integração de vários órgãos. Portanto, o público da extensão rural passou a ser os
grandes empresários, pequenos e médios agricultores.
O governo apresentou-se como única fonte capaz de dar continuidade ao projeto
extensionista e assumiu o papel de empresário, criando em 1974 a Empresa Brasileira de
Assistência Técnica e Extensão rural (Embrater), empresa pública vinculada ao Ministério da
Agricultura, dotada de personalidade jurídica de direito privado e autonomia administrativa.
Extinguiu- se, então, a Abcar, que era uma associação civil sem fins lucrativos, de direito
jurídico privado.
Nos Estados recomendava-se a criação de Empresas Públicas Estaduais de Assistência
Técnica e Extensão Rural (Emater), em substituição às Associações de Crédito e Assistência

369
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p. 174.
370
BARROS, Princípios de ciências sociais para a extensão rural, p. 674.
Rural (Acar, Ascar, Ancar), que eram associações civis, sem fins lucrativos, de direito
privado. Segundo Olinger:

Todos os estados, com exceção do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, criaram as
Emater e extinguiram as Associações Civis. Nos três Estados citados permaneceram a Ascar, a
Acaresc e a Acarpa, embora criassem também suas Emater. A diferença é que nos referidos
Estados as associações passaram a ser contratadas pelas Emater para continuarem executando
os serviços de extensão rural. 371

Essa atitude foi considerada por Olinger como “inteligente”, pois a Abcar e suas
associadas eram consideradas sem fins lucrativos, filantrópicas e, por isso isentas do
pagamentos de obrigações sociais, impostos e taxas. Essas isenções representavam uma
economia de 25%.
Com a Embrater a preocupação centrou-se no aumento da produção e da
produtividade, esquecendo-se do produtor, elemento dinâmico no processo produtivo. Sua
preocupação maior passou a ser o aumento das exportações, como meio de atrair divisas para
o país e, assim, a política orientou-se no sentido dos grandes proprietários, com base na
difusão de nova s tecnologias.
A modernização da agricultura foi colocada, progressivamente, em execução,
provocando mudanças profundas nas formas de organização da produção e da sociedade

agrária. Nesse contexto, o modelo difusionista- inovador direcionado a pequenos e médios


produtores foi perdendo o sentido, pois, em razão do sucessivo processo de expropriação a
que haviam sido submetidos, os agricultores não podiam responder satisfatoriamente à
difusão do ethos empresarial. 372
Vimos, em linhas gerais, como ocorreu a criação do sistema nacional de extensão rural
no Brasil e as alterações que ocorreram na filosofia extensionista até a sua centralização,
quando a Abcar foi substituída pela Embrater e, nos estados, as Associações de Crédito e
assistência rural, substituídas pela Emater. Isso, contudo, não ocorreu de forma homogênea,
pois em alguns estados, bem como municípios, conforme veremos a seguir, não houve acordo
imediato sobre essa medida governamental.

371
OLINGER, Ascensão e decadência da extensão rural no Brasil, p. 125.
372
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p. 178.
Na região de Passo Fundo, as cidades de Esmeralda, Lagoa Vermelha, Espumoso,
Tapera, Ibirubá e Colorado já contavam com os escritórios da Emater/RS, e vários outros
estavam sendo inaugurados na região. Mas em Passo Fundo, o prefeito Wolmar Salton não
firmou de imediato o convênio com a Emater. A imprensa jornalística relatou o
acontecimento:

EMATER VAI DEIXAR PASSO FUNDO POR NÃO TER A PREFEITURA


RENOVADO O CONVÊNIO

Após a realização de um ótimo trabalho em nossa cidade e no interior do município, durante


quase 23 anos, a ASCAR, atualmente vinculada a EMATER, vai transferir o seu escritório para
o vizinho município de Marau, por culpa única e exclusivamente da Prefeitura Municipal de
Passo Fundo que não quis renovar o convênio com a Emater.
Em conseqüência disso, os agricultores de Passo Fundo ficarão completamente abandonados e
quando necessitarem resolver problemas com Proagro, Pronazen e Habitação Rural, terão que
se deslocar até o município de Marau. Por outro lado, os pequenos agricultores que vinham
sendo assistidos pela Emater vão ter que pagar os seus Projetos à empresas particulares porque
a Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio, não será credenciada, a nível nacional para
realizar o atendimento que vinha sendo feito pela Emater.
A Ascar encerra definitivamente suas atividades em Passo Fundo no próximo dia 30 do
corrente mês. Estarão deixando igualmente nossa cidade, cinco Engenheiros agrônomos, (dois
técnicos em semente; dois técnicos em trigo e soja e um técnico em gado de corte), além de
uma extensionista rural. A Prefeitura se fizesse o convênio com a Emater, pagaria pouco mais
de CR$ 260 mil cruzeiros nesse ano de 1978, mas, por certo, teria um retorno muito maior de
ICM com a permanência desses técnicos e seus familiares em Passo Fundo, 65% das verbas
para a EMATER são provenientes do Governo federal 20% do Estado e apenas 15% do
município, limitados em CR$ 300 mil, por ano.

Amanhã, Sexta-feira, o Dr. Fernando Sereno de Castro, responsável regional pela Emater,
estará devolvendo todos os móveis do escritório local ao prefeito Wolmar Salton, uma vez que
são de propriedade da prefeitura Municipal. Com isso, caem por terra algumas insinuações
feitas por emedebistas locais de que os escritórios da Emater eram atapetados, etc...
A reportagem do Diário da Manhã conseguiu apurar ainda que o Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Passo Fundo, sentindo a gravidade do problema ofereceu as instalações do seu novo
prédio para os escritórios da Emater, poupando uma despesa anual da ordem de CR$ 48 mil
para a Prefeitura. Assim mesmo, o convênio não foi renovado.373

Com o exposto, verificamos que houve alguns transtornos relacionados à afirmação do


convênio com a Emater. Em vista da situação, o prefeito na época enviou uma carta ao
Diário da Manhã com o intuito de esclarecer a situação.
[...] Que não foi proposta renovação de convênio com a ASCAR, que perdurava há 23 anos,
porque ela foi extinta, absorvida ou encampada pela EMATER, e sim celebrado contrato inicial
com esta nova empresa.
O convênio com a ASCAR era em condições favoráveis, com dispêndio, pela Prefeitura de 77
mil e 40 cruzeiros para o exercício de 1978, mais o aluguel de parte do prédio por ela ocupado.
No tocante a EMATER, as exigências eram muito maiores, praticamente inexequíveis [...].
Assim sendo, em face do vertiginoso aumento contributivo, de exercício para exercício,
entendemos que tais recursos poderão melhormente ser empregados em serviços extensivos da
própria Secretaria Municipal da Agricultura, Indústria e Comércio, sempre em prol do
desenvolvimento da produção rural, exemplo disso é que promoveremos Exposições-feiras de
suínos e gado leiteiro, implantação do Projeto de avicultura, em sistema integrado, já em pleno
andamento; incentivo a produção de hortigranjeiros, com cessão em comodato de área do
município; cursos de formação de mão-de-obra rural, dirigidos diretamente aos nossos
agricultores; colaboração constante com o INCRA, com funcionários a disposição dos
proprietários rurais; moderna e bem equipada patrulha agrícola mecanizada, para a prestação
de serviços aos pequenos e médios agricultores.
Vale ressaltar que não foi somente Passo Fundo que não celebrou convênio com a EMATER.
Outros municípios também não o fizeram.
Sabe-se, igualmente, que a própria Assembléia Legislativa rejeitou o Projeto de Lei n. 116/75,
do Governo do Estado, relacionado à EMATER, o que se verificou em 30/6/76. 374

Após esses esclarecimentos, o prefeito afirmou, quanto à situação dos agricultores, que
não ficariam desamparados, pois poderiam contar com um grande número de técnicos ligados
ao setor agropecuário que atuavam gratuitamente nas empresas particulares do município. O
mandatário passo- fundense encerrava a carta ressaltando que “um convênio para ser
firmado, tem que ser considerado bom para ambas as partes. A insistência com que a Emater,
ou seus prepostos, agem para consegui- lo, parece ser de interesse unilateral”[..]. 375
Apesar do período da ditadura, em que se permitiam poucas manifestações ou
resistências contra as ações do governo federal, no Rio Grande do Sul a Assembléia
Legislativa não havia aprovado o projeto de lei nº 116/75, que criava a Emater. Caporal
esclarece essa situação:

Los diputados, al contrario de la empresa pública propuesta por el gobierno, aprobaron un


“proyeto sustitutivo”, presentado por la oposición, que creaba una Autarquía llamada Instituto
de Asistencia Técnica y Extensión Rural, que por razones políticas obvias fue vetado por el
Governador. En el vazío dejado por el embate político, el govierno del estado del Rio Grande
do Sul, ante las determinaciones del govierno federal, se articularía com las entidades
involucradas y com sectores de las elites políticas y econômicas y crearía la EMATER/RS, en

373
Emater vai deixar Passo Fundo por não ter a prefeitura renovado o convênio. Diário da Manhã, Passo
Fundo, 22 jul. 1978, p. 1.
374
Prefeito Wolmar Salton diz porque não foi firmado convênio com a Emater. Diário da Manhã, Passo Fundo,
23 jul., 1978, p. 8.
375
Id. ibid.
1976. La empresa sería creada como una entidad civil, de derecho privado y sin ánimo de
lucro, como establece el artículo primero de sus estatutos. 376

Dessa forma, a partir de 1976, a Emater/RS assumiu o serviço de extensão rural,


cada vez mais subordinado ao governo federal no tocante à política agrícola, conforme relata
Caporal:

La EMATER/RS nació, pues, bajo las orientaciones ideológicas y el comando político del
estado autoritário y dictatorial de la época, lo que no es, por supuesto, transferible de manera
integral a su forma de organización y acción, pero que, de toda manera, vendría a tener
consecuencias importantes en sus decisiones y en su práctica, por la subordinación de la
entidad a los gobiernos y sus distintas políticas para el medio rural. Desde entonces, la
EMATER/RS y la ASCAR existen como empresas del sector privado. No obstante, mediante
un convenio com el governo del estado, la empresa asumió la responsabilidade por los sevicios
públicos de asistencia técnica y extensión rural, debiendo el governo estadual participar com
recursos financeiros para cobrir parte del presupuesto de la empresa, además de asumir el
control político, mediante la participación del Secretario de Agricultura como presidente del
Consejo Técnico y Administrativo, que es la instancia superior de la administración de la
organización.377

Diante disso, nota-se que fatores de ordem política interferiram na transição


Ascar/Emater em nível de estado e também em alguns municípios, como o de Passo Fundo.
Essa transição tinha o objetivo de centralizar as ações dos serviços de extensão no estado,
assim como ocorrera em nível federal com a criação da Embrater.
No distrito de São Roque, os Clubes 4-S pararam de funcionar no período em que foi
fechada a Ascar em Passo Fundo, pois houve uma dispersão: alguns jovens passaram a
participar dos grupos de jovens da Igreja; outros foram estudar na cidade e os agricultores
encontravam-se envolvidos em várias atividades no meio rural, como Sindicato dos
Trabalhadores Rurais, lideranças nas igrejas. No tocante à assistência técnica, podiam contar
com a cooperativa, de acordo com este depoimento:

Teve um prefeito que extinguiu a Ascar mas naquela época nós não sofremos porque
tinha a cooperativa, que tinha muito mais técnicos que a Ascar. Mas depois, o próximo
prefeito renovou o convênio e daí voltou a Emater, ficou uns três anos. Foi o Prefeito
Wolmar Salton. 378

376
CAPORAL, La extensión agraria del sector público ante los desafíos del dasarrollo sostenible: el caso de
Rio Grande do Sul, Brasil, p. 74.
377
Idem, p. 75.
378
MAFFI, Walter. Entrevista...
Conforme o relato transcrito, nesse período a cooperativa prestava assistência social e
técnica, o que também foi destacado na imprensa local:

Conheça sua cooperativa – assistência social e técnica

A prestação de assistência aos associados é uma das características que distingue as sociedades
cooperativas, das demais sociedades. A Cooperativa Tritícola de Passo Fundo vem prestando
assistência médico-odontológica ao seu quadro social, estendendo essa assistência aos seus
funcionários, na forma de seus estatutos. E para tanto, mantém convênio com quatro médicos,
quatro odontólogos, e uma enfermeira, e, ainda um ônibus-ambulância cedida com convênio
com o Funrural, que leva assistência ambulatorial ao domicílio do associado.
Através de seu departamento técnico que conta com a experiência necessária de oito
engenheiros agrônomos, seis técnicos agrícolas e um veterinário. A cooperativa vem
prestando, ampla assistência a seus associados. Em seu último exercício, fora realizadas 2020
vistorias a lavouras de pequenos, médios e grandes agricultores. Foram feitas 216 reuniões,
com a freqüência de 10.869 pessoas. Nesse mesmo ano, foram realizadas pelo laboratório,
9.827 análises de sementes de trigo e soja, bem como 1.836 análises de calcário e adubos. O
Departamento técnico realiza reuniões sobre o preparo do solo, plantio, colheita e uso
adequado de corretivos, fertilizantes e defensivos, procurando ainda a cada visita feita, às
lavouras difundir a adoção de novas técnicas tão necessárias ao desenvolvimento agrícola.379

Conforme a matéria trazida em forma de citação, grande parte dos pequenos


agricultores estava associada aos sindicatos, a cooperativas, que prestavam assistência técnica
e social. Por isso, quando se encerraram as atividades da Ascar, os Clubes 4-S foram extintos
no distrito de São Roque. Porém, a assistência aos agricultores foi prestada por outras
entidades, ainda que muito mais no campo técnico produtivo e mais institucionalizada, sob o
mando do Estado. Dessa forma, as atividades dos Clubes 4-S no distrito de São Roque
encerraram-se em 1978, embora, nos municípios vizinhos, citando o exemplo de Marau,
tenham seguido normalmente nos anos seguintes.
De acordo com o que foi abordado anteriormente, no período de 1960 e 1980, os
jovens do distrito de São Roque estiveram envolvidos no trabalho dos Clubes 4-S, que seguia
o modelo dos Clubes 4’Hs dos Estados Unidos, o qual se espalhou por toda a América Latina.
A juventude rural constituiu-se num forte potencial para auxiliar na difusão de
inovações no meio rural, pois, através dos resultados dos projetos realizados, sob a orientação
dos extensionistas e das lideranças, conseguia-se atingir os pais. A realização desse trabalho
contava com o apoio do governo, da Igreja e de outras instituições e estabelecimentos
comerciais e industriais. O trabalho dos clubes incentivava o associativismo, a formação de

379
Conheça sua cooperativa – assistência social e técnica. Diário da Manhã, Passo Fundo, 12 nov. 1976, p. 7.
lideranças, e muitos dos que deles participaram fizeram parte do quadro da diretoria dos
sindicatos e cooperativas.
A partir do programa Operação Tatu é que houve um maior envolvimento dos jovens e
agricultores no trabalho dos Clubes 4-S. A recuperação da fertilidade do solo era uma saída
para o agricultor melhorar a produção, a renda da família e permanecer no meio rural. Assim,
eram feitas lavouras demonstrativas com a aplicação das novas técnicas produtivas, com o
que se obtiveram excelentes resultados no cultivo do milho trigo e soja. Não demorou muito
tempo para que a maioria dos agricultores adotassem as novas técnicas, que consistiam na
utilização de adubos fertilizantes, máquinas e equipamentos agrícolas adquiridos por meio de
financiamentos junto ao bancos e cooperativas.
Assim, no período delimitado para este estudo, os agricultores do distrito de São
Roque foram inseridos no processo modernização agrícola em razão da grande influência da
juventude rural através dos Clubes 4-S e vivenciaram progressos econômicos. Porém, ne m
tudo se desenvolveu perfeitamente sob a égide do progressismo técnico do extensionismo
americano implantado no período. Ainda que seus resultados tenham sido positivos na
avaliação dos depoentes, muitos problemas e interesses diversos e contraditórios se fizeram
presentes. No final da década de 1970, quando da extinção e incorporação a outra entidade,
grande parte do processo já tinha atingido sua maturação e seus objetivos já tinham se
realizado: modernizar, inovar, produzir técnica e racionalmente, fo rmar vínculos associativos.
Enfim, a base do trabalho já havia se consolidado e faziam-se necessário a monitoração e a
seqüência. A partir daí, o programa que havia sido enfatizado pela Abcar foi substituído pela
assistência técnica e difusão de novas tecnologias, que exigiam mais capital do que mão-de-
obra, o que contribuiu para acentuar o êxodo rural. No próximo capítulo, a título de
considerações finais, faz-se um apanhado da análise crítica do processo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Análise crítica do processo em questão

Na primeira parte deste trabalho, foi visto que a principal economia do estado nas
primeiras décadas do século XX, bem como do município de Passo Fundo, era a pecuária
praticada nas áreas de campo, em contraste com a agricultura, que era uma atividade
secundária, praticada por imigrantes ou descendentes de imigrantes nas pequenas e nas
médias propriedades nas áreas de mata. As áreas de imigração contribuíram para a ampliação
do mercado interno, desenvolvendo um intenso e abrangente comércio dos produtos coloniais,
que possibilitou a vinculação local/regional com a intermediação dos comerciantes.
A partir da década de 1930, com os incentivos governamentais para a produção do
trigo visando a redução de importações, ocorreu a expansão da produção desse produto, que já
era cultivado sem muitos conhecimentos técnicos e apresentava uma produção satisfatória,
comprovando que era uma planta que se adaptava ao clima da região.
Foi a partir de 1950 que se intensificou a agricultura empresarial e a estruturação
comercial para a produção agrícola em Passo Fundo. Havia moinhos de pequeno e grande
porte instalados no município que adquiriam o produto, mas a preferência dos de grande porte
pelo trigo estrangeiro exigiu a intervenção do governo na comercialização do produto,
passando este a ser o único comprador de trigo estrangeiro e nacional, evitando transtornos e
fraudes através da distribuição de cotas aos mesmos.
Os moinhos e os frigoríficos dinamizaram a comercialização dos produtos da
agricultura e pecuária, principalmente de suínos. Também as cooperativas tritícolas foram
organizadas com o objetivo de controlar e atender aos interesses dos triticultores do Estado e
do grande capital, voltado à agricultura, com grandes investimentos na infra-estrutura de
armazenamento e oferecendo financiamentos aos agricultores.
A partir do plantio do trigo com a utilização de uma tecnologia mais avançada, a
agricultura superou a pecuária e, com o plantio da soja, consolidou-se a modernização
agrícola na região. Os granjeiros foram os pioneiros que investiram na adubação, fertilização
e mecanização agrícola, produzindo nas áreas de campo consideradas impróprias para o
cultivo. Inicialmente, dedicaram-se à produção de trigo e, posteriormente ao binômio trigo/
soja. Com as crescentes safras que passaram a colher, aumentaram os arrendamentos e as
aquisições de terras na região.
Assim como o setor agrícola, o setor industrial também passou por uma reestruturação
no sistema produtivo quando a produção industrial passou a investir na fabricação de bens
duráveis, de capital, na década de 1950, e de insumos, na de 1970.
Até 1955, a expansão industrial era financiada com recursos gerados pelo setor
agrícola e, após esse período, esteve cada vez mais vinculada ao capital estrangeiro. A partir
de 1970, a agricultura voltada para a exportação de soja dependia cada vez mais da indústria
de máquinas, de implementos agrícolas, de fertilizantes e de financiamentos. Desse modo, as
indústrias expandiram-se em razão da necessidade de utilizar tecnologia moderna visando
aumentar a produção dos produtos de exportação.
Na década de 1960, as regiões que se destacavam na produção agrícola foram as mais
procuradas para instalação de indústrias que fabricavam produtos voltados para a agricultura,
como foi o caso da região de Passo Fundo. Paralelamente à crescente industrialização,
aconteceu também a urbanização, que esteve relacionada à modernização agrícola, pois esta
ocorreu de forma conservadora, sem alterações na estrutura agrária, acentuando a
concentração de terra, que beneficiava aqueles que conseguiam investir na agricultura e
provocava o êxodo rural dos que não podiam acompanhar o processo.
Os pequenos agricultores, que sempre desenvolveram um trabalho vinculado à terra,
não foram os pioneiros no processo de modernização agrícola e até mesmo viram com
descrédito os investimentos na áreas de campo e, sobretudo, os financiamentos bancários, que
exigiam a hipoteca da terra, bem intocável na concepção do colono. Por isso, até finais da
década de 1950, no meio rural praticava-se a agricultura tradicional e havia uma variedade de
produtos coloniais que era comercializada nas casas de comércio, nos moinhos e nos
frigoríficos.
Além da agricultura, os colonos dedicavam-se ao artesanato; alguns produtos eram
fabricados em pequenos estabelecimentos industriais, como ferrarias, selarias, etc. Uma das
atividades praticadas no distrito de São Roque, e que permitiu a diferenciação em relação aos
demais distritos do município de Passo Fundo, foi a das olarias, que, na década de 1960,
destacaram-se pela expansão do comércio de telhas francesas. No período posterior, as
olarias passaram a fabricar tijolos, os quais, contudo, tinham menor valor de mercado, o que
levou muitos oleiros a investirem mais intensamente na agricultura.
As olarias e os moinhos dinamizaram economicamente o distrito, atraindo pessoas de
outras regiões para o meio rural. Antes da compra estatal do trigo, os agricultores negociavam
o excedente desse produto diretamente nos moinhos maiores instalados no município e a
moagem era realizada nos moinhos coloniais, existentes em grande número no meio rural.
Também comercializavam o trigo na cooperativa, embora não fossem associados, pois
foi no final da década de 1960 que os pequenos agricultores passaram a se associar às
cooperativas aos sindicatos, incentivados nos Clubes 4-S. Esse trabalho contribuiu para
desenvolver na comunidade uma vida social mais ativa, com maior participação da mulher
nas atividades; também houve um envolvimento maior com o centro urbano, através de
passeios, excursões, cursos etc.
Foi nesse cenário de transformação das relações socioeconômicas do meio rural
através da modernização da agricultura, que provocou a seletividade produtiva em termos de
produto e de extrato econômico, que o jovem passou a ser elemento importante na difusão de
novas técnicas, bem como na tentativa da sua permanência como empreendedor no meio
rural, inserido no modelo modernizador que se contextualizou os Clubes 4-S, tornando-se
produto e produtor do processo. Damos, aqui, ênfase a algumas das críticas consideradas
mais pertinentes nessa relação entre modernização, juventude e entidades externas ligadas à
questão.

a) A correspondência com a lógica do capital voltado para a agricultura

O serviço de extensão rural que foi desenvolvido no Brasil, principalmente no período


de 1960-1970, provocou inúmeras críticas, não só referentes aos aspectos pedagógicos, mas
também sociológicos, econômicos e antropológicos. É justamente esse período que abrangeu
a presente pesquisa, pois coincidiu com o estabelecimento das bases históricas da relação
técnico/agricultores na região e, também, com a segunda fase da extensão rural no Brasil,
identificada como “difusionista” ou “produtivista” por alguns autores, como Fonseca,
Caporal, Canuto, Marin.
No período que compreende a segunda fase do serviço extensionista, os interesses do
governo voltaram-se cada vez mais para o aumento da produção e da produtividade dos
produtos de exportação através da incorporação de novas tecnologias no processo produtivo.
Para isso, necessitaram de conhecimentos especializados para auxiliar na qualificação técnica
dos agricultores e de uma reformulação no programa extensionista. Assim, o modelo clássico
de extensão foi substituído pelo modelo difusionista inovador, teorizado por Rogers, que
considerava as relações de ensino-aprendizagem essenciais para a transformação das
sociedades atrasadas em sociedades modernas. Para Marin:

Esta nova filosofia extensionista fazia parte de uma política nacional e até mesmo internacional
em que o setor agrícola brasileiro assumiria grande importância no desenvolvimento
econômico do país. Para a classe hegemônica no poder, a intensificação da produção agrícola
de exportação era vista como necessária para responder aos desafios do controle da inflação,
equilibrar a balança de pagamentos, financiar o desenvolvimento mediante a transferência de
recursos do setor primário para o terciário e suprir o setor industrial de matérias-primas. Desta
forma era colocada uma interdependência necessária entre agricultura -indústria: para os países
subdesenvolvidos atingirem o desenvolvimento industrial obtido pelos países avançados, seria
necessário um sólido desenvolvimento agrícola. 380

Assim sendo, as práticas usadas pelos agricultores foram consideradas “atrasadas”,


não possibilitando atender aos interesses capitalistas. Fazia-se necessário uma mudança nas
atitudes e aspirações dos pequenos produtores, que os levasse a utilizar as novas práticas
agrícolas (máquinas, insumos, novos procedimentos técnicos) e os jovens, a se tornarem
intermediários nesse processo.
Para isso, o governo incentivou a pesquisa, bem como o serviço de extensão rural, que
orientaria os jovens agricultores na adoção das novas tecnologias. A ideologia difusionista
que passou a fundamentar o serviço de extensão argumentava que a elevação da produção e
da produtividade agrícola e da força de trabalho se daria via transformação tecnológica.
Assim, os agricultores aumentariam a renda e haveria diminuição da pobreza rural e
desenvolvimento social. 381 , o que se tornava difícil se não ocorresse uma mudança na
estrutura agrária, que oferecesse terra suficiente, meios de produção, mercados de consumo,
etc.
A tecnologia passou, então, a ser vista como o motor que impulsionaria o
desenvolvimento, mas, segundo Canuto, a tecnologia liga-se intimamente às relações sociais

380
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 56.
e tende a reforçá- las e reproduzi- las. 382 A tecnificação ocorrida a partir dos anos 1960 foi
acompanhada de uma forte concentração de terras e de rendas. De acordo com Marin:

As inovações tecnológicas, o crédito agrícola, a eliminação de certas formas não-capitalistas de


produção são mudanças que a Extensão rural considera necessárias à estabilidade social. Mas
não desejavam que os camponeses analisassem suas realidades sócio-econômico-política e
buscassem as necessárias mudanças estruturais. Ao isentar a prática social do envolvimento
político e ao deixar ilesas as estruturas econômicas das responsabilidades da pobreza e
estagnação do meio rural situa-se num marco teórico que busca integração do campesinato na
vida social e econômica do país e consolida a estratificação profundamente desigual existente
no meio rura l brasileiro.383

A partir de 1964, com o golpe militar, as forças conservadoras financiaram a


modernização da agricultura, que consistia em mudar o padrão tecnológico, transformando a
agricultura num mercado para a indústria de insumos e geradora de matéria-prima para a
indústria. Todavia, manteve-se a tradicional concentração fundiária, deixando-se de lado a
reforma agrária, que era uma alternativa prevista na legislação federal de 1964, e alterando o
processo produtivo e as relações de trabalho no campo. Dessa forma, não se contrariavam os
interesses das oligarquias agrária e industrial.
De acordo com Ianni, durante o período de ditadura, os governos adotaram
diretrizes econômicas que poderiam ser consideradas do mesmo gênero e, entre os principais
alvos e realizações, destacaram-se:
Reduzir a taxa de inflação; incentivar a exportação de produtos agrícolas, minerais e
manufaturados; racionalizar o sistema tributário e fiscal; estimular , sob controle
governamental, o mercado de capitais; criar condições e estímulos novos à entrada de capital e
tecnologia estrangeiros [...]. Nesses anos (1964-70) o poder público foi levado a interferir
praticamente em todos os setores do sistema econômico nacional. Isto significa que o governo
reelaborou as condições de funcionamento dos mercados de capital e força de trabalho como
“fatores’ básicos do processo econômico.384

Entre os instrumentos viabilizados pelo governo para promover a modernização


agrícola estavam o crédito agrícola, subsídios aos insumos modernos, seguros agrícolas,
garantia de preços mínimos para os produtos mais tecnificados, assistência técnica. Conforme
Marin:

381
CANUTO, João Carlos. Capital, Tecnologia na agricultura e o discurso da Embrater, p. 54.
382
Idem.
383
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 38.
384
IANNI, Estado e planejamento no Brasil, p. 229.
A política econômica adotada pelos governos pós-64 consolidou o processo de
transnacionalização da economia que dera início nos anos 1950. Face a esta nova realidade,
tecnologias sofisticadas, próprias dos países industrializados, foram introduzidas no Brasil,
através de empresas multinacionais que aqui se instalaram. Estas, encontram-se oligopolizadas,
cuja tendência era obter o domínio tanto sobre a dinâmica econômica quanto política e social.
As empresas multinacionais alteraram os rumos da modernização agrícola porque dominavam
grande parte das tecnologias de produção de máquinas e insumos agrícolas bem como as
tecnologias de processamento de matérias-primas e alimentos. A agricultura, outrora auto-
suficiente, tornou-se progressivamente dependente dos setores industriais.385

Com isso, os agricultores foram integrados no circuito industrial, estimulados pelo


serviço de extensão rural, que provocou alterações no modo de viver e de produzir das
famílias no meio rural. A extensão, então, assumiu o papel educativo para orientar na
mudança de mentalidade dos agricultores para que ocorresse a modernização do setor
agrícola e, assim, se atingissem os fins econômicos. Para Marin:

A extensão rural, enquanto projeto educativo extra -escolar, foi um importante instrumento do
grupo social elementar para o exercício de sua hegemonia, política e cultural sobre os demais
grupos sociais. Portanto, a extensão rural apresentava uma concepção própria da realidade,
definida como a serviço da classe dominante. Mediante vários mecanismos, a Extensão visava
ajustar os camponeses à ordem econômica e social vigente, ocultando as contradições sociais e
mantendo coesa toda a sociedade em torno de seus propósitos.
Na ótica extensionista, era necessário modernização tecnológica e qualificação da mão-de-obra
para obter-se melhores níveis de produção e produtividade e, conseqüentemente, melhor
qualidade de vida para a população rural.386

Diante disso, pode-se dizer que, na década de 1970, houve uma continuidade do
projeto educativo para o capital, analisado por Fonseca no período de 1948/68, pois a
mudança da mentalidade dos agricultores para que adotassem as inovações tecnológicas foi
intensificada após esse período. Para a autora:

É possível perceber o que a lógica do capital exigiu da Extensão como um projeto educativo
para a zona rural neste período de vinte anos – 1948-1968: que ele fosse um instrumento da
reprodução da contradição capital x trabalho no campo, pela ampliação da divisão social e
técnica do trabalho neste setor, que necessariamente levaria à expropriação do saber e do
trabalho de uma maioria, para que ficasse garantido o domínio e o lucro de uma minoria. 387

Portanto, a introdução dos agricultores no processo de modernização agrícola


implicou a mudança das práticas tradicionais de lidar com a agricultura, e as opções para
essas mudanças não foram buscadas por eles, mas vieram ao encontro deles através dos

385
MARIN, op. cit., p. 57.
386
MARIN, op.cit., p. 28.
387
FONSECA, A extensão rural no Brasil: um projeto educativo para o capital, p. 183.
extensionistas, que eram pessoas que não faziam parte do seu convívio diário. Esses tinham
o objetivo de educar a comunidade rural para que adotasse as inovações tecnológicas. De
acordo com Marin, “a teoria difusionista inovadora pressupõe que são as idéias, as habilidades
e atitudes que determinam a realidade social. Basta mudar aquelas para que esta também
mude”. 388 O autor revela os reais interesses da extensão rural:

Sob o manto de ser uma ação “eminentemente educativa”, o programa encobria seus reais
interesses econômicos. Era necessário integrar os pequenos produtores no mercado
consumidor de máquinas e insumos industrializados e potencializar a produção agrícola para
um maior fornecimento de alimentos. Desta forma, o camponês estaria mais envolvido tanto
na compra como na venda de mercadorias, tornando possível a extração de seu sobre-trabalho.
389

Para atingir esses interesses, os jovens tornaram-se o grande potencial na difusão das
novas idéias, pois, por serem mais suscetíveis a mudanças, levariam as técnicas agrícolas aos
agricultores através dos Clubes 4-S. Com uma metodologia eficiente baseada no modelo
norte- americano dos Clubes 4’Hs, o serviço de extensão iniciou o trabalho com a juventude
no meio rural, oferecendo cursos e treinamentos para os jovens e lideranças executarem os
projetos demonstrativos.
O trabalho desenvolvido pelos Clubes 4-S era divulgado na imprensa com
grande
destaque, pois contribuía para a legitimação do programa extensionista. Conforme Marin:

Havia necessidade de estabelecer um consenso entre os agricultores, técnicos, líderes,


autoridades e consumidores da necessidade de desenvolver a agricultura para passar da fase
subdesenvolvida em que o país se encontrava e atingir o desenvolvimento. Deveria atingir
todos os tipos de público: os produtores rurais, que valorizam a tecnologia e aceitam as
técnicas que transmitem os consumidores compreendendo melhor o programa de produção
agropecuária podem melhor valorizar os produtores, os técnicos, os programas e os produtos
que chegam a mesa , as autoridades e os líderes conhecendo as demandas e as conseqüências
da tecnologia, bem como os processos de sua geração e transferência passam a melhor
colaborar na elaboração e legitimação dos programas e medidas para a solução dos problemas
apresentados, o grande público informado sobre a racionalidade das ações do governo, voltadas
para o desenvolvimento rural, pode melhor se situar, em relação aos esforços desenvolvidos, e
adotar atitude de compreensão e de apoio ao setor agropecuário.390

388
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 66.
389
Idem, p. 42.
390
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 70.
Inicialmente, o programa de extensão rural apresentava-se como apolítico. Contudo,
segundo Belato, era justamente o seu apoliticismo e neutralidade que tinham caráter
explicitamente político, por ser uma estratégia política, pois garantia-se a confiança dos
agricultores e das autoridades governamentais e propiciava-se a continuidade do trabalho da
organização. Segundo o autor, consistia em não politizar a mudança por que passava o
campesinato sob o capital; tratava-se de evitar que as transformações em curso assumissem a
forma de luta política. 391 No entender de Grzybowski, a modernização foi a reforma agrária
ao avesso, a reforma para e pelo capital. 392
Assim ocorreu a “modernização conservadora”, incentivando a penetração do capital
no campo articulada pelas indústrias capitalistas, que se situavam simultaneamente a jusante e
a montante da produção camponesa e modificando profundamente as unidades de produção
camponesas. 393 Segundo Belato:

Acreditava-se que a industrialização devesse eliminar a produção camponesa. O capital


monopolista, porém, “re-inventou” a produção camponesa, mantendo-a e submetendo-a à sua
lógica. Não foi, portanto, necessário destruí-la. Manteve-a rompendo com sua impossibilidade
estrutural de absorver de forma ampliada os componentes de capital produtivo. A extração do
excedente, outrora fraco, por via mercantil ou por coação extra -econômica, se multiplica
mediante sua submissão ao capital e forçando-a a ”acumular capital”, o que lhe permite
apropiar-se de um excedente cada vez maior, na medida mesma em que o capital industrial não
só subordina o camponês e sua produção, mas o integra ao circuito industrial. 394

Dessa forma, o projeto extensionista voltou-se para a educação da população rural,


especialmente dos jovens agricultores, com o interesse de difundir as inovações tecnológicas,
visando intensificar a produtividade agrícola mediante a qualificação técnica dos agricultores
e, com a superação do atraso da população rural, aumentar o lucro dos setores capitalistas
ligados à agricultura.

b) O papel dos extensionistas: a lógica do saber técnico

Para que ocorresse a adoção de um novo padrão tecnológico, tornava-se necessária a


intervenção de agentes no meio rural orientando os agricultores para que modificassem suas

391
BELATO, Camponeses integrados, p.14.
392
GRYBOWSKI, apud MASSELI, Extensão rural entre os sem-terra, p. 37.
393
BELATO, op.cit., p. xvi.
práticas agrícolas e adotassem as cientificamente comprovadas, o que implicaria a aquisição
de produtos e equipamentos industrializados.
A metodologia educacional, bem como a relação extensionistas-agricultores, foi
marcada
pela verticalidade. Conforme Marin, “na extensão rural o conhecimento científico e a
tecnologia eram vistos como verdadeiros, neutros e objetivos, aptos a darem todas as
respostas para a existência social dos camponeses. Na realidade esta postura é ideológica na
medida que serviu para submeter tanto o pensar quanto o agir dos camponeses à lógica do
capital”. 395
Entretanto, para alcançar tal objetivo, eram necessárias mudanças profundas, que
implicavam o reposicionamento dos agricultores diante da sua cultura original, e isso exigia a
intervenção de agentes externos ao meio, com um método adequado e munidos de
conhecimento científico. Segundo Lousa da Fonseca:

O problema consiste em mudar normas de comportamento tradicional, a fim de se conseguir


uma conduta nova mais conforme às exigências do progresso social técnico. (...) O
extensionista se dará conta de que não poderá fazer com que aceitem e adotem – dois termos
que não são sinônimos – a inovação inscrita em seu programa a não ser à medida que ele possa
modificar o que as pessoas sabem, pensam, crêem, sentem e fazem de uma maneira
tradicional. Em outras palavras, torna-se necessária uma ação sobre o plano psicológico.396

Os extensionistas, portanto, seriam os mediadores para introduzir a modernização


tecnológica no meio rural, tendo a indução psicológica como uma prática educacional que
visava à mudança de mentalidade dos agricultores para um comportamento empresarial.
Segundo Gramsci, seriam os intelectuais orgânicos da classe dirigente, cujo fim seria
implementar mudanças nas relações de produção na agricultura. As entidades responsáveis
pelos serviços da extensão rural, na qualidade de instituições da sociedade civil, estão
organicamente ligadas e controladas pela sociedade política. 397 De acordo com Marin:
O papel do extensionista no interior da hierarquia da produção capitalista lhe confere uma
posição de superioridade e poder em relação aos camponeses. A distribuição desigual do
conhecimento técnico-científico, associada a uma imagem de uma sociedade hierarquizada e
dividida em diferentes papéis e posições, passa a ser aceita e introjetada tanto pelo técnico
como pelo camponês. A manutenção destas posturas fixas dos indivíduos serve para justificar a

394
Id. ibid.
395
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 236.
396
FONSECA, A Extensão rural no Brasil, um projeto educativo para o capital, p. 51.
397
Ver GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura,Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1985.
intervenção dos técnicos e legitimar as relações verticais e autoritárias nas práticas
pedagógicas, configurando uma situação de unilateralização do poder decisório. 398

Os extensionistas ocupavam uma posição diferenciada junto aos agricultores, pois,


sendo agrônomos, veterinários, assistentes sociais, técnicos agropecuários, técnicos em
economia doméstica, geralmente com ensino superior, apresentavam aos agricultores os
conhecimentos cientificamente comprovados e, assim, pouco questionados. Na posição de
profissionais especialistas, facilitavam a expansão capitalista, repassando aos agricultores
apenas conhecimentos não formais, que os qualificavam tecnicamente, mas não os tornavam
mais cultos.
Segundo Gramsci, o papel dos especialistas seria de garantir à burguesia a coesão
ideológica necessária para consolidar e reproduzir a hegemonia sobre as classes subalternas:
“Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial da produção
econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camadas de
intelectuais que lhes dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no
campo econômico mas também no social e no político [...]”. 399
Esses intelectuais especialistas viabilizariam as mudanças desejadas pelo grupo
dominante. Segundo Gramsci, “o velho tipo de intelectual era o elemento organizativo de uma
sociedade predominantemente camponesa e artesanal...A indústria moderna introduziu um
novo tipo de intelectual, o organizador técnico, o especialista em ciência aplicada. Nas
sociedades onde as forças econômicas se desenvolvem em sentido capitalista, até chegar a
absorver a maior parte da atividade nacional, é este segundo tipo de intelectual o que
prevaleceu, em todas as suas características de ordem e disciplina intelectual”. 400
Se, entretanto, por um lado, os extensionistas assumiam o papel de intelectuais diante
dos agricultores, por outro, eles também estavam condicionados aos princípios filosóficos da
extensão rural, que exigia homogeneidade ideológica e procurava apresentar o extensionista
como um homem neutro e apolítico. O extensionista, “em alguns momentos, aparece com

398
MARIN, Orlando Joel. A educação extensionista: uma abordagem gramsciana. Inter-Ação. 19(1-2), jan./dez,
1995, p. 47.
399
GRAMSCI, Os intelecutais e a organização da cultura, p. 3.
400
MACCIONI, Maria Antonietta. A favor de Gramsci. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 189.
função de pura execução e noutras, com função de intelectual”. 401 Identificamos aí um dos
limites da prática dos extensionistas apontado por Caporal. Segundo o autor, a extensão rural
era um aparelho ideológico do Estado e sua prática encontrava-se limitada pela aderência da
organização extensionista ao Estado capitalista, pelas normas e regras impostas pela
organização aos seus servidores e, ainda, pelos próprios extensionistas, por sua ação
consciente ou inconsciente. No entender do autor:

A prática dos extensionistas de campo estará sempre limitada em razão da posição de


intelectual subalterno e executor que ele ocupa na estrutura do aparelho.
Os extensionistas de campo, atuando nos aparelhos de Estado, ocupam um lugar inferior na
hierarquia das organizações. Desse lugar subalterno, desempenham a função de agente,
enquanto “executor puro” de tarefas, como também uma função de intelectual, num grau de
menor importância. O conjunto de suas funções, a serviço do Estado capitalista, leva-os a
engajar-se, consciente ou inconscientemente, a favor da hegemonia das classes e frações
dominantes.402

Portanto, a prática extensionista encontrava limites por também estar submetida à


filosofia e à organização da extensão rural no Brasil, o que levava a que os extensionistas
assumissem o papel de “intelectuais subalternos” dentro da extensão rural. Essa
conscientização por parte do extensionista provocava, muitas vezes, a divisão entre os que
insistiam numa prática mais humanista, assistencialista, que fora praticada no início do trabalho
de extensão, e aqueles que preferiam seguir a linha “produtivista”.

Marin mostra que os pacotes tecnológicos também se tornaram um forte mecanismo


de dominação dos camponeses e extensionistas, pois eram planejados pelas instituições de
pesquisa
E assim: “Significou um processo de desqualificação do saber dos colonos e a negação da
capacidade criativa de técnicos e colonos. Os pacotes tecnológicos significaram também uma
estratégia de transferência do lucro para os setores capitalistas, uma vez que os custos de
produção excediam a renda obtida na produção”. 403

Entretanto, à medida que o programa educacional da extensão rural promovia o


avanço das forças produtivas, também abria espaços para manifestações das contradições.
Nesse sentido é que se explica a resistência por parte de alguns agricultores, e também

401
CAPORAL, Roberto Francisco. A extensão rural e os limites à prática dos extensionistas do serviço público.
Dissertação (mestrado em Extensão rural) - UFSM, Santa Maria, 1991, p. 147.
402
CAPORAL, op.cit., p. 152.
extensionistas, que passsavam a questionar a ação extensionista. Marin ressalta que as
classes subalternas também apresentam suas idéias pedagógicas em conformidade ou
antagonicamente às idéias dominantes e veiculam idéias desenvolvidas a partir de sua prática
social. 404
Dessa forma, foi em meio ao conformismo e à resistência dos agricultores que se
desenvolveu o trabalho de extensão rural, conforme destaca Marin:

O modelo educacional extensionista negou a capacidade intelectual do camponês, suas


potencialidades criativas e inventivas e, por isso condenou-o a apenas fazer. A viabilização
deste processo esteve na submissão e controle de uma maioria considerada “incompetente” e
na promoção de uma minoria considerada “competente”. A assimilação acrítica dos conteúdos
ideológicos dominantes ao nível do senso comum faz o homem comum agir sem refletir e
questionar criticamente. Sem ter consciência teórica de suas ações ele adere
conformisticamente a esta concepção de mundo.
Porém os mecanismos de reprodução social, através do sistema educacional, nunca são
completos e deparam-se com elementos de oposição conscientes ou insconscientes. Os grupos
camponeses demonstram capacidade e disponibilidade de reiventar e reconstruir os
significados da Extensão rural sob as condições reais da vida e trabalho. 405

Os agricultores, entretanto, reagiam à negação de sua capacidade intelectual, fazendo


adaptações, criando máquinas, ferramentas, ou apegando-se à religiosidade para resolver
questões referentes à produção, e isso, segundo Marin, mesmo que feito “inconscientemente,
mostra a resistência dos agricultores em receber tudo pronto, revelando o seu saber próprio”.
A resistência dos agricultores às inovações técnicas era explicada muitas vezes pela
ignorância atribuída ao povo rural. Segundo Gramsci, a educação e, nesse caso, pode-se
incluir a extensão rural,

mediante o que ensina, luta contra o folclore, contra todas as sedimentações de concepções de
mundo, a fim de difundir uma concepção mais moderna, cujos elementos primitivos e
fundamentais são dados pela aprendizagem da existência de leis naturais como algo objetivo e
rebelde, as quais é preciso adaptar-se para dominá-las. 406

403
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 238.
404
Idem, p. 158.
405
Idem, p. 236.
406
GRAMSCI, Os intelectuais e a organização da cultura, p. 130.
Com isso, entendemos a preocupação com a educação da juventude rural através dos
Clubes 4-S para formar um novo tipo de cidadão, em conformidade com o desenvolvimento
da sociedade industrial e da modernidade/modernização, o que implicava o abandono do
modo tradicional de viver dos agricultores.

c) Um novo perfil de agricultor e a seletivização no meio rural

Um novo perfil de agricultor fazia-se necessário e com uma nova mentalidade, que
aceitasse as intervenções técnicas, o que nos permite compreender o investimento feito na
juventude rural através dos Clubes 4-S. Conforme a imprensa do Rio Grande do Sul registrava
na época, com os Clubes 4-S, a Ascar alterava a mentalidade rural:

Segundo os técnicos da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural (Ascar) um dos


problemas maiores por que passa a agricultura e, também, a pecuária gaúcha, é a resistência
que os velhos agricultores e pecuaristas costumam opor às inovações técnicas, que visam
melhorar e aumentar a produção e, por extensão, os lucros. Os jovens, submetidos à vontade
do pai, são os primeiros a se revoltarem. Seu idealismo e vontade de progredir se confronta
com a estagnação e rotina que se verifica em grande parte das propriedades rurais do Estado.
Daí, na primeira oportunidade, o jovem abandona a casa e vai para a sede do município, e,
depois, para centros cada vez mais populosos. O nome desta realidade chama-se êxodo rural.
Grande parte dos ruralistas que deixam sua terra em busca de melhores condições, atraídos
pelo fascínio da cidade grande, é constituída de jovens. A outra parte é composta de famílias
inteiras, desesperançadas de tentar arrancar da terra o sustento.
Os clubes 4-S, fundados e 1956 (o primeiro), visam introduzir nos jovens toda a sorte de
conhecimentos específicos de agricultura e pecuária, bem como noções gerais de higiene.
Cerca de 11 mil ruralistas de doze a 21 anos de idade pertencem aos Clubes, no Rio Grande do
Sul [...]. 407

Com o exposto, percebemos o interesse na transmissão de conhecimentos técnicos aos


jovens diante da dificuldade de aceitação das técnicas modernas pelos agricultores mais
idosos. Havia também a preocupação em conter o êxodo rural, cuja causa era atribuída ao
atraso da população rural; na época, não se mencionavam outras causas para esse problema,
como a redução da propriedade da terra devido às partilhas, entre outros, pois grande parte
dos agricultores obtivera a propriedade da terra por herança e eram poucos os que haviam
conseguido ampliá- la. Assim, quando os filhos cresciam, a terra não era suficiente para
manter todos os membros da família no meio rural.
A questão maior era: quem iria produzir futuramente se os jovens abandonassem a
agricultura? Tornava-se, pois, necessário aumentar a produtividade das terras disponíveis para
a agricultura visando abastecer a população urbana, que crescia desenfreadamente, e para a
exportação. Segundo Marin, a migração rural aos centros urbanos passou a ser encarada como
uma ameaça à “ordem e ao progresso” das grandes cidades, além de que poderia representar
uma queda na produção agropecuária. 408
O método de trabalho utilizado pelos extensionistas constituía-se em introduzir
conhecimentos na comunidade através dos Clubes 4-S; formar lideranças envolvendo
pessoas bem conceituadas entre os agricultores; incentivar o associativismo e a utilização do
crédito agrícola, buscando apoio de autoridades do município e também da Igreja, entidade
que desenvolvia um trabalho voltado para agricultura com o objetivo de preparar os jovens e
agricultores para a modernização agrícola.
A Igreja teve um papel importante na aceitação dos Clubes 4-S porque tinha o poder
de aglutinar as pessoas do meio rural pela forte devoção religiosa que apresentavam os
agricultores. Assim, o padre, apoiando os 4-S, daria maior credibilidade ao trabalho. Tudo
isso abria espaço para a divulgação de novas técnicas, através de demonstrações e projetos
que viabilizariam transformações no setor produtivo pela homogeneização e assimilação da
modernização agropecuária, bem como provocava a seletivização dos atores no meio rural.
Segundo Queda, o técnico de fomento ou o extensionista não consegue atender a todos
os agricultores e volta-se para alguns considerados típicos e capazes de servir de modelo aos
demais. Toda atividade assistencial está baseada em um pressuposto de difusão das
inovações, ou seja, de um efe ito-demonstração. 409
De acordo com Caporal, “torna-se transparente o papel produtivista da extensão rural e
a implicação ideológica nele imbutido, bem como a discriminação/exclusão daí resultante,

407
Ascar altera mentalidade rural. Folha da Tarde. Porto Alegre, 21 agos. 1972, p. 6.
408
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 32.
409
QUEDA, Oriowaldo e SZMRECSÁNYI, Tomás. Vida rural e mudança social: leituras básicas de sociologia
rural. São Paulo, Nacional, 1979, p. 230.
uma vez que o extensionista só atuará com os ‘mais aptos’, os que se encontram em condições
410
de “dar resultados” ao nível dos processos econômicos”.

Assim, o público-alvo da extensão no período em estudo eram os produtores proprietários de


terras; os assalariados rurais, os sem-terra quase sempre ficavam excluídos do atendimento.
Conforme foi visto anteriormente, foi por meio dos Clubes 4-S que os jovens fizeram
os primeiros financiamentos através do crédito juvenil. Com o programa de recuperação do
solo, muitos agricultores financiaram calcário, adubo, etc. Conforme Marin, “mediante o
crédito agrícola, o pequeno produtor perde sua autonomia quando o crédito é que passaria a
determinar quais os produtos a serem cultivados e como cultivá- los, quais os insumos e
máquinas a serem usados e em que período usá- los”. 411
O crédito rural supervisionado, que, inicialmente, destinava-se a investimentos
globais (agropecuários e sociais), passou a ser crédito orientado para investimentos
econômicos, acentuando o caráter produtivista que adquirira o serviço de extensão rural. No
entender de Canuto, “o crédito agrícola foi um mecanismo que muito contribuiu para o
processo de concentração da renda, riqueza e poder no meio rural e na sociedade brasileira,
412
num âmbito mais global.” As exigências feitas para a liberação do crédito agrícola entre as
quais estavam a posse da terra, a mecanização agrícola satisfatória, a renda dos produtos
considerados prioritários, os prazos limitados e rígidos, passaram a excluir também os
pequenos agricultores. Até mesmo no período conhecido como “Milagre Econômico”,
quando os juros eram fixos e tornavam- se acessíveis ao camponês, a política concentradora
do crédito dava preferência aos grandes produtores. 413
Os pacotes tecnológicos por produto e região adotados pelo sistema de pesquisa e
difundidos pela extensão rural reforçavam a desigualdade no meio rural, na medida em que o
pacote mais lucrativo era dado ao mais rico; o de média produtividade, aos médios e o de
menor produtividade aos menores. Assim, os pequenos produtores não dispunham de

410
CAPORAL, A extensão rural e os limites à prática dos extensionistas do serviço público, p. 168.
411
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 238.
412
CANUTO, Carlos João. Capital, tecnologia na agricultura e o discurso da Embrater, p. 64.
413
MARIN, op.cit., p. 74.
recursos econômicos, políticos e sociais para competir no processo de modernização
tecnológica. 414
Com isso, podemos entender a necessidade de um novo perfil de agricultor, que se
submetesse econômica e socialmente à política do governo e, através da extensão
rural,

buscava-se a qualificação técnica dos agricultores, ou seja, a adequação da força de trabalho


aos interesses do capital.

d) Educação ou invasão cultural?

O caráter educacional da extensão rural era proposto com o intuito de complementar a


educação familiar e escolar. No meio rural, os conhecimentos eram transmitidos de geração a
geração nas relações sociais cotidianas, especialmente através do trabalho. A família tornava-
se o agente educativo mais importante para a transmissão ou reprodução dos diversos saberes,
pois mantinha o controle sobre os instrumentos de trabalho e a produção. 415 Desde criança,
aprendiam-se determinadas tarefas e, na adolescência, os jovens passavam a adotar o
comportamento dos adultos e a realizar o seu trabalho.
Quanto à expansão do sistema educacional, processava-se principalmente na zona
urbana. O ensino primário era a única forma de educação escolar acessível à população rural
e oferecido precariamente. Conforme Queda ressalta, “o padrão dominante no campo continua
sendo o das escolas isoladas, constituídas de uma única sala de aula, mal instalada e
pobremente equipada, na qual são instruídas simultaneamente dez a cinqüenta crianças de
várias idades e graus, por uma única professora, sem o devido preparo pedagógico e muito
mal remunerada”. No entender do autor, embora de forma precária, o ensino primário rural
funcionava como agência de urbanização da população rural, complementando e reforçando a
atuação dos meios de comunicação de massa e de outras formas de contato social propiciadas
pela expansão da rede viária, pela migração de familiares e amigos, etc. 416

414
FIGUEIREDO, A Extensão rural no Brasil, p. 3.
415
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural p. 137.
416
QUEDA, Vida rural e mudança social, p. 225.
No entender de Marin, “a escola rural não se preocupava em levar em consideração os
conhecimentos, noções e percepções próprias da forma de vida camponesa; antes sujeita e o
atrela ao modo de vida urbano. Ao repassar conteúdos alheios à vida rural, a escola
desvincula e induz a perda de identidade cultural”. 417 A escola no meio rural, ao incentivar a
continuidade dos

estudos, prepara os jovens para uma futura migração. Conforme Queda, o movimento
extensionista surgiu no Brasil como uma reação ao malogro da educação rural, tendo sido
definido pelo seus idealizadores como um processo de educação extra-escolar. Seu ponto de
partida é a noção de comunidade rural, vista como uma organização social homogênea e não
estratificada, sem conflitos internos de interesses. 418
Dessa forma, o caráter educacional proposto pela extensão rural, assim como a
educação rural, não apresentava uma proposta que levasse em conta o saber dos agricultores.
O serviço de extensão rural passou a ser questionado por visar apenas à qualificação técnica
dos agricultores, negando as experiências de vida e adequando-o à organização do processo
produtivo.
Segundo Gadotti, essa educação é perigosa e perversa porque “intoxica
permanentemente o trabalhador com uma formação puramente técnica e científica, aplicando-
lhe doses continuadas de formação profissional, impossibilitando-o, por conseqüê ncia, de
interrogar-se sobre si mesmo, sobre a finalidade de seu trabalho, sobre sua própria condição.
Torna-se, assim, um homem que não domina os instrumentos que utiliza”. 419
Assim, com o ingresso do pequeno agricultor, motivado pelos jovens, no processo de
modernização agrícola, ele perdeu o controle sobre o seu próprio trabalho e a distribuição de
atividades no interior da família, passando a exigir um conhecimento especializado para a
execução de determinadas tarefas, como, por exemplo, dirigir um trator. No entender de
Marin, “a racionalização da produção agrícola, viabilizada pela agência modernizadora,
420
processou a separação do trabalho manual do trabalho intelectual”.

417
MARIN, op.cit., p. 143.
418
QUEDA, Vida rural e mudança social, p. 219.
419
GADOTTI, Moacir. A educação contra a educação, o esquecimento da educação e a educação permanente.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 148.
420
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p. 144.
Para a classe detentora do poder, segundo Gramsci, a maneira de “ conceber a cultura
corresponde ao saber enciclopédico, no qual o homem é visto sob a forma de um recipiente
que se deve encher até as bordas com dados empíricos, fatos brutos e isolados, que ele deverá
alinhar em seu cérebro como colunas de um dicionário, para poder responder a cada momento
às solicitações do mundo exterior. Esta forma de cultura é verdadeiramente nefasta,
especialmente para o proletariado”, 421 mas também o é para os trabalhadores rurais.

Paulo Freire, embora reconheça que nem todos os agrônomos chamados


“extensionistas’ façam invasão cultural, não ignora a conotação ostensiva da invasão cultural
que há no termo “extensão”, que significa estender algo a. Buscando descobrir as dimensões
do campo associativo do termo “extensão”, encontramos uma relação significativa com
transmissão, entrega, doação, messianismo, mecanicismo, invasão cultural, manipulação,
etc. 422 Segundo o autor:
O conceito de extensão não corresponde a um que fazer educativo libertador. Com isto não
quer negar ao agrônomo, que atua neste setor, o direito de ser um educador-educando, com os
camponeses, educando-educadores. Pelo contrário, precisamente porque estamos convencidos
de que este é o seu dever, de que esta é a sua tarefa de educar e de educar-se, não podemos
aceitar que
seu trabalho seja rotulado por um conceito que o nega. 423

Verificamos a incompatibilidade do termo “extensão” com a ação educativa de caráter


libertador, pois o meio rural teve seu espaço histórico-cultural invadido por outros sistemas de
valores, que passaram a ser repassados aos agricultores. Visto dessa forma, o meio rural
tornou-se um espaço invadido e os agricultores, induzidos a adotar práticas que não faziam
parte da sua realidade cultural. Essa ação passou a ser questionada tanto quanto o método
utilizado para a aproximação dos agricultores e também os resultados ou conseqüências que
as novas técnicas trouxeram posteriormente.

Tal é o dilema do agrônomo extensionista, em face do qual precisa manter-se lúcido e crítico.
Se transforma os seus conhecimentos especializados, suas técnicas, em algo estático,
materializado e os estende mecanicamente aos camponeses, invadindo indiscutivelmente sua
cultura, sua visão de mundo, concordará com o conceito de extensão e estará negando o
homem como um ser da decisão. Se, ao contrário, afirma -o através de um trabalho dialógico,
não invade, não manipula, não conquista; nega, então, a compreensão do termo extensão.424

421
GRAMSCI, apud. MACCIOCHI, M. A. A favor de Gramsci p. p. 203.
422
FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, p. 22.
423
Idem, p. 23.
424
Idem , p. 44.
Ao invés de estender os conhecimentos a alguém, o autor sugere que seria mais
correto “comunicar’, pois envolve diálogo, participação; já a imposição de determinados
conhecimentos é a negação da comunicação, requisito imprescindível para construir uma
prática educativa que considere a realidade do trabalhador e permita o afloramento do
verdadeiro processo de aprendizagem.
Com isso, compreendemos a resistência inicial ao trabalho de extensão rural por parte
de alguns agricultores, pois tinham a sua forma própria de organizar a produção agrícola,
baseado na sua cultura, nos saberes adquiridos em suas experiências de vida. Gramsci
sustenta que “todos os homens são intelectuais”, já que participam de uma determinada
realidade e porque em todo e qualquer trabalho “existe um mínimo de qualificação técnica,
425
isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora”.
Conforme foi abordado anteriormente, os agricultores tinham o saber próprio para
lidar com a terra, as plantas, os animais; para desenvolver o trabalho nos moinhos, nas
olarias; para comercializar os produtos. Era um saber que estava correlacionado com as leis
da natureza (observando as estações, a lua, terra magra/gorda, forte/fraca, etc.). A família
tinha grande importância na transmissão de conhecimentos aos filhos; o saber era socializado
entre os vizinhos nos encontros na capela, nas casas de comércio, nos mutirões, nos
momentos de lazer; era um saber adquirido através da experimentação e observação.
Conforme Marin, “as inovações tecnológicas endógenas surgiam das necessidades e
possibilidades concretas resultantes do enfrentamento dos desafios da natureza e das
necessidades sociais”. 426
A pequena propriedade, entretanto, impunha limites à capacidade de produção, pois o
esgotamento do solo reduzia cada vez mais o espaço produtivo. A estratégia, então, para
manter a pequena propriedade era a permanência de um dos filhos nela; quanto aos demais,
deveriam migrar.
Em vista disso, os agricultores passaram a valorizar o conhecimento científico na
medida em que este se apresentou como uma alternativa para a permanência no meio rural. E
assim acontecia a “revolução” no meio rural, conforme disseram os agricultores nas
entrevistas, pois, em pouco tempo, as terras improdutivas passaram a produzir, utilizando-se

425
GRAMSCI, Os intelectuais e a organização da cultura, p. 7.
de adubos, fertilizantes, máquinas, que realizavam o trabalho com uma rapidez sem
comparação com a tração animal. Assim, o saber dos agricultores era substituído pelas novas
técnicas, nem sempre adequadas à pequena propriedade, e a sua força de trabalho era
subordinada em favor do capital.

e) O rural como espaço de demandas técnico-químicas

A exigência de mudança na forma de conduzir o serviço de extensão rural passou a ser


discutida dentro da própria Embrater, em seminários, reuniões, debates. Mas foi somente com
o fim do período da ditadura militar que a extensão rural brasileira começou a experimentar
novos rumos, coincidindo também com a reorganização dos movimentos sociais e sindicais,
que restabeleceram as condições políticas para garantir o direito às críticas das diferentes
formas de ação do Estado no campo e nas cidades. Conforme Caporal:

Cabe lembrar que na ocasião nascia uma dura crítica ao extensionismo, particularmente
articulada a partir das organizações de base das igrejas, em especial dos setores vinculados às
Pastorais da Terra e da juventude, assim como de algumas ONGs. No entanto, ainda que as
críticas fossem duras e orientadas a questões centrais da prática extensionista (se baseavam,
sobretudo, nas propostas de Paulo Freire), estas também tinham sua atenção nas questões
relacionadas aos problemas gerados pela modernização agrária como a diferenciação social, o
êxodo rural, a degradação ambiental, a contaminação por pesticidas, a concentração da terra,
etc.., os quais apareciam associados à prática convencional da extensão rural. 427

Dessa forma, além das críticas que envolviam os aspectos culturais, surgiram
outras relacionadas aos resultados da aplicação das novas técnicas. Olinger aponta alguns
equívocos em relação ao trabalho de extensão no período de 1960-1970, pois, a título de
aumento da produtividade, segundo ele, houve um descuido com o sentido econômico e social
da agricultura. Com base na propaganda dos vendedores de fertilizantes e nos “pacotes

426
MARIN, Conformismo e resistência dos camponeses à extensão rural, p.130.
427
CAPORAL, A extensão rural no Rio Grande do Sul: Da tradição “Made in USA”, ao paradigma
agroecológico. www.emater.tche. 21/06/2002.
tecnológicos”, os agricultores passaram a utilizar muito mais fertilizantes químicos em suas
lavouras do que era necessário. 428 Conforme o autor:

Aplicamos, em excesso, fosfato e potássio importados, elevando o custo da produção para os


agricultores; difundimos o uso de máquinas agrícolas, como tratores de 60 HP a 90 HP para
agricultores de 10 a 15 ha de terra, estimulando que eles comprassem máquinas muito acima da
potência recomendada, em função do tamanho da propriedade e da atividade praticada.
Induzimos os agricultores ao uso excessivo de insumos modernos, porque tanto a pesquisa
quanto a extensão estavam despreparadas para oferecer soluções corretas e de acordo com a
realidade brasileira. 429

O comprovado despreparo por parte da extensão e da pesquisa e a intensidade com


que foi promovida a modernização agrícola trouxeram algumas conseqüências para o meio
rural, entre essas o abandono da diversificação e da consorciação das culturas, conforme
Olinger ressalta:
A informação que tínhamos da pesquisa é que a cultura solteira era mais produtiva do que a
cultura consorciada. Hoje a pesquisa está sabendo que nem sempre é assim. A extensão está
recomendando a diversificação e consorciação de culturas na pequena propriedade, salvo
exceções. Com determinados tipos de associação, consegue-se mais produção por hectare e
melhor controle de pragas e doenças das plantas. Está provado que a presença de várias
culturas numa mesma área, uma perto da outra, diminui a incidência das pragas e reduzem-se
os gastos com defensivos. Estamos corrigindo os sistemas de produção e a aplicação dos
conhecimentos técnicos. Quer queiram quer não, foi a partir de 1979 que houve uma grande
mudança na política agrícola brasileira, procurando corrigir os erros citados.430

Conforme análise realizada em 1979, o sistema de crédito, as técnicas e o


serviço de extensão eram dirigidos para a agricultura empresarial, com respaldo do governo e
pouca fiscalização. Segundo Olinger:

Uma análise da situação geral, realizada em 1979, mostrou que a intensificação no uso
inadequado dos chamados insumos modernos era apoiado por políticas governamentais. Não
era só erro do vendedor (que não é bem erro, porque o vendedor quer vender ao máximo). Era
um erro de nós, extensionistas, dos nossos companheiros da pesquisa, sobretudo em erro da
política do governo,
que subsidiava o fertilizante, subsidiava a máquina agrícola, subsidiava o defensivo, através do
crédito rural, de tal forma que realmente o agricultor chegava à conclusão de que devia utilizar
tudo aquilo porque pagava juro baixo (muitos desses insumos tinham juro zero). O incentivo
creditício, oferecido pelo governo sem fiscalização quanto à sua aplicação, criava o hábito do
desvio dos empréstimos. Era uma agricultura voltada para a grande empresa, porque o
pequeno agricultor era relegado pela pesquisa e pouco assistido pela extensão. As tecnologias
eram dirigidas para a agricultura “empresarial”; não se produziam determinadas técnicas
necessárias ao pequeno e médio agricultor, tais como, a consorciação, defesa do solo, adubação

428
OLINGER, Glauco. Extensão rural e política agrícola, p. 11.
429
Idem, p. 12.
430
Idem, p. 13.
orgânica, irrigação simplificada, melhoramento das plantas, como a mandioca, feijão, batata-
doce e outras de difícil exportação ou limitada industrialização. A maioria dos grandes
empresários se aproveitou do crédito subsidiado para aplicar apenas parcelas dos
financiamentos, no empreendimento agrícola. Grandes somas foram desviadas para o mercado
de capitais, na compra de terrenos, compra de imóveis nas cidades, passeios no exterior,
construções de casas de luxo, pistas de pouso e compra de aviões e outras coisas. 431

Visto dessa forma, os pequenos agricultores, que eram em maior número no estado e
grandes contribuintes para o mercado interno, eram instruídos para utilizar a tecnologia
voltada para a agricultura empresarial, sendo cabível uma diferenciação tanto na tecnologia
quanto na produção para as pequenas e médias propriedades. De acordo com Belato:

Tratava-se, inicialmente, de estabelecer a estratégia de transferência, em forma experimental,


de mecanismos que facilitassem a abertura ao capital externo naquelas regiões de grande
densidade camponesa, articulados pela Fundação Rockefeller e pela Fundação Ford
conveniadas com universidades americanas. Estas ações “experimentais” não são casuais, nem
nascem de uma bondade humanística em relação aos países pobres. São, ao contrário, uma
percepção clara e pioneira, por parte das Fundações Rockefeller e Ford, das possibilidades de
intervenção geral sobre as populações pobres dos países subdesenvolvidos.432

Assim, desencadearam-se todos os mecanismos para intervir tecnicamente no meio


rural, “liquidando” o atraso dessas populações para superar o subdesenvolvimento, ou melhor,
para aumentar o número de consumidores dos novos produtos. Com isso, o camponês foi
perdendo o controle sobre o seu próprio trabalho, conformando-se aos novos sistemas de
produção da sociedade capitalista.

f) O que significou o trabalho dos Clubes 4-S para os agricultores do


distrito de São Roque?

Após a resistência inicial, os agricultores passaram a ver no trabalho dos Clubes 4-S,
que orientava sobre a recuperação da fertilidade solo, uma alternativa para permanecerem na
terra e aumentarem a produção. A partir do programa Operação Tatu, as atividades dos
Clubes 4-S expandiram-se, conseguindo envolver os jovens e adultos que ainda não haviam
aderido às novas técnicas.

431
OLINGER, Ascensão e decadência da extensão rural no Brasil, p. 15.
432
BELATO, Camponeses integrados, p. 7.
Do ponto de vista dos agricultores, foi um trabalho extraordinário tanto na área técnica
como na social, pois, a partir dele, houve a modernização da agricultura no meio rural, a
adoção de técnicas novas, das quais ouviam falar, mas não sabiam como aplicar, e o acesso a
orientações também nas áreas da saúde, higiene e nutrição. Dessa forma, o trabalho com a
juventude rural através dos Clubes 4-S no período de 1960/1970 foi fundamental para a
introdução da modernização agrícola no distrito de São Roque. Foi a partir desse trabalho que
os agricultores tiveram condições de observar os resultados dos projetos nas lavouras
demonstrativas organizadas na propriedade dos jovens e das lideranças, onde eram aplicadas
as tecnologias que estavam sendo introduzidas na época, visando aumentar a produção dos
produtos de exportação. Os resultados surpreendiam os agricultores, que, em pouco tempo,
passavam a adotar as novas técnicas.
A partir do trabalho dos Clubes 4-S, as comunidades passaram a ter uma vida social
mais ativa: faziam-se promoções, exposições, excursões, encontros nas e com comunidades e
também em outros municípios. Foi destacado nas entrevistas a participação que a mulher
passou a ter nas atividades da comunidade, ao contrário de antes, quando era bastante restrita.
Também houve a formação de lideranças no meio rural, que foram bem atuantes na
comunidade e, posteriormente, passaram a participar dos sindicatos, de cooperativas, pois
incentivava-se o associativismo como forma de organizar e controlar a produção e
comercialização dos produtos de exportação, bem como os produtores.
Diante disso, constatamos que o trabalho com os Clubes 4-S foi marcante para os
agricultores, pois, com as inovações introduzidas, ampliavam-se as expectativas de aumentar
a renda e também porque eles já não estavam conseguindo produzir satisfatoriamente
utilizando as práticas tradicionais. Da mesma forma, os clubes promoviam o
desenvolvimento social da comunidade, proporcionando atividades de lazer, momentos de
encontros dos membros da comunidade e entre comunidades, passeios, excursões, que antes
não eram desenvolvidos com a mesma intensidade.
A admiração dos agricultores ao trabalho dos clubes refere-se à fase inicial do
trabalho, quando ocorreu a formação dessas entidades e as inovações apresentadas
surpreendiam pelos resultados obtidos na produção, os quais eram acima da média; quando as
atividades sociais eram intensas, proporcionando momentos de lazer e oportunizando o maior
contato com a vida urbana; quando a comunidade passou a ter destaque na imprensa e havia
premiações para os que participavam; quando os agricultores se sentiram valorizados.
Contudo, nas entrevistas, eles apontaram a monocultura, a mecanização, o uso abusivo de
produtos químicos, o êxodo rural como pontos negativos da modernização agrícola, embora
concordassem que a introdução dessas inovações deveu-se aos Clubes 4-S.
O saber tradicional praticado pelos agricultores e as relações econômicas e sociais
vigentes no período que antecedeu a modernização agrícola sofreram alterações em
decorrência das profundas modificações na organização produtiva da região, relacionadas a
produção dos produtos de exportação trigo e soja, que se transformaram na estratégia do
governo para conseguir divisas para o investimento na indústria. De acordo com Canuto:

O pequeno agricultor frente as transformações requeridas pelo capital e, em especial, às


transformações técnicas, serve (contraditoriamente) tanto as demandas dos capitais particulares
– como fornecedor de produtos agrícolas e consumidor de produtos industriais – e às demandas
da reprodução das relações sociais capitalistas – enquanto provedor da reprodução da força de
trabalho urbana e rural a baixos custos pelo fornecimento de alimentos. 433

Assim, justifica-se o interesse em transformar a mentalidade dos agricultores para que


adotassem as novas práticas agrícolas, bem como aderissem ao associativismo, pois, desse
modo, o governo poderia controlar melhor a produção e os produtores. Os agricultores
integraram-se à economia capitalista, adotaram os novos produtos e técnicas que eram
divulgados no período em estudo, foram submetidos à determinação dos preços de mercado,
com a pressão exercida pelos comerciantes para manter baixos os preços dos produtos, e ao
alto custo dos meios de trabalho de origem industrial necessários à produção agrícola.
Verificamos que, a partir da década de 1970, aquele cenário no qual os atores eram
colonos, carroceiros, comerciantes, moleiros, oleiros, que praticavam a agricultura tradicional
e o artesanato e tinham uma vida social voltada para o meio rural, foi substituído e
seletivizado por agricultores cada vez mais envolvidos na agricultura empresarial.
No período delimitado para este estudo, os pequenos agricultores vivenciaram
momentos de euforia a partir dos Clubes 4-S, quando foram introduzidas as técnicas de
recuperação do solo e aumentou a produção; posteriormente, eles conseguiram adquirir
máquinas e equipamentos agrícolas, contribuindo, assim, para o progressismo técnico de
Passo Fundo. Também, viram a comunidade destacar-se na imprensa através dos Clubes 4-S e

433
CANUTO, Capital, tecnologia na agricultura e o discurso da Embrater, p. 61.
das lideranças; fortaleceu-se a união entre as famílias e houve acesso a conhecimentos novos,
o que entusiasmava os integrantes da comunidade. Apesar das críticas que surgiram, no
período foram apresentadas as inovações
que existiam, que estavam sendo apresentadas para os agricultores se introduzirem no
processo

de modernização agrícola, e foi em decorrência desse processo que abandonaram as suas


práticas tradicionais.
Essa mudança rápida atingiu o meio rural como um todo, provocando alterações
culturais, entre as quais o cultivo da soja, produto desconhecido no meio rural, em detrimento
de culturas diversificadas; os agricultores foram atrelados a sindicatos, bancos,
agroindústrias, novos comerciantes e cooperativas para a comercialização dos produtos;
também passaram a adquirir adubos, fertilizantes, máquinas e a participar de palestras,
excursões, cursos, levando uma vida rural com características cada vez mais urbanas. Isso
tudo, entretanto, foi seletivo e excludente para aqueles que não conseguiam investir de
acordo com as novas exigências, pois, de acordo com o que vimos anteriormente, com as
redefinições ocorridas no serviço de extensão rural no Brasil, o trabalho que envolvia a
família rural, a comunidade, deixou de ser priorizado e o custo para os investimentos
agrícolas tornaram-se muito altos para os pequenos agricultores. Com isso, a única
alternativa para muitos foi vender ou arrendar a propriedade e vir para a zona urbana
concentrando-se especialmente no bairro São Cristóvão e na vila Planaltina de Passo Fundo.
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Jornais
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Cooperativa Jornal, Passo Fundo, agos.1975.
Cooperativa jornal, Passo Fundo, jul. 1975.
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Correio Rio-Grandense, Caxias do Sul, 11 set. 1974.
Diários Notícias, 19 jul. 1967.
Diário da Manhã, Passo Fundo, 21 set. 1967.
Diário da Manhã Passo Fundo, jul.1968 .
Diário da Manhã, Passo Fundo, 10 jan. 1969.
Diário da Manhã, Passo Fundo, 28 nov. 1969.
Diário da Manhã, Passo Fundo, 08 mar.1972.
Diário da Manhã, Passo Fundo, 03 abr. 1974.
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Diário da Manhã, Passo Fundo, 12 set. 1974.
Diário da Manhã, Passo Fundo, 22 jul. 1978.
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O Nacional, Passo Fundo, 28 nov. 1970.
O Nacional, Passo Fundo, 09 maio 1970.
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Revistas
Agricultura & Cooperativismo, Fecotrigo, ano I, n 9, jan/1977.
Revista do Clube 4/S, ano III, n 8, jan/fev 1974.
Revista do Clube 4/S, ano VII, n.32, jan/fev 1978.
Revista do Clube 4/S, ano VII, n. 36, set/out 1978.
Revista do Clube 4/S, ano IX, n. 42, jan/fev/mar. 1980.
Revista extensão Rural, Rio de Janeiro, ano II, n.14, fev/1967.
Revista extensão Rural, Rio de Janeiro, ano III, abril/1972.
Revista extensão Rural, Rio de Janeiro, ano III, n.35, nov/1968.
Revista extensão Rural, Rio de Janeiro, ano V, n.52, 1970.
Revista extensão Rural, Rio de Janeiro, ano VII, n.79, jul./ 1972.
Revista extensão rural, Rio de Janeiro, ano V, n.9, jul/1970.
Revista extensão rural, Rio de Janeiro, ano VIII, n.40, jul./ago./set 1979.
Revista Mundo Jovem, jun/1983.
Revista Mundo Jovem, nov/1983.

ENTREVISTAS

Adile Previatti - o pai da entrevistada era proprietário de moinho no distrito de São Roque; a
entrevistada e sua irmã Nilva trabalhavam no moinho. Entrevista realizada em 17 maio 2002.

Antônio Roberto Grando - atuou como professor e líder 4-S da comunidade de São Valentim.
Entrevista realizada em 19 out. 2002.

Antônio Fernando Strello - foi agricultor e sócio 4-S no período em estudo. Entrevista
realizada em 08 nov. 2002.
Ari Rosso - residiu no distrito de São Roque, trabalhou no Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Passo Fundo no período de 1971-1976 e atualmente é diretor do presidente do
Banco Sicredi da Regional de Passo Fundo. Entrevista realizada em 08 jan. 2002.

Auxílio Rebechi - foi líder 4-S e atuou como presidente e principal liderança do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Passo Fundo por trinta anos. Entrevistas realizadas em 23 maio 2002
e 05 out. 2002.

Carlos Maffi - foi sócio do Clube 4-S de São José e vencedor do projeto “Trigo” em 1970.
Entrevista realizada em 20 nov. 2002.

Catarina Maffi - a entrevistada é neta de Fernando Strello, um dos primeiros moradores do


distrito de São Roque e foi líder do Clube 4-S de São José. Entrevista realizada em 02 maio
2002.

Padre Darci Treviso - trabalhou na Paróquia de São Cristóvão por 17 anos, no período de
1969/1974, época dos Clubes 4-S e atendia algumas comunidades do interior, entre essas, o
distrito de São Roque. Entrevista realizada em 08 nov. 2002.

Deodado Rosso - trabalhou como agricultor e oleiro; foi subprefeito do distrito de São Roque.
Entrevista realizada em 24 jan. 2002.

Elma Matzembacker - foi extensionista em economia doméstica na região de Passo Fundo no


período de 1966 a 1978. Entrevista realizada em 29 jul. 2002.

Bispo Ercílio Simon - atualmente é bispo da diocese de Passo Fundo e na época, participava
como padre nas atividades festivas e religiosas promovidas pelos Clubes 4-S; cursou
agronomia na UPF. Entrevista realizada em 10 set. 002.

José Henrique Strello - o entrevistado é neto de Fernando Strello. Entrevista realizada em 27


set. 2001.

José Sirlei de Souza - foi sócio 4-S na comunidade de São José. Entrevista realizada em 07
nov. 2002.

José Valdemar Tiecher - o pai do entrevistado foi proprietário da Casa de comércio de São
Valentim e, após o falecimento do pai, assumiu o estabelecimento; no final da década de
1950, iniciou o trabalho com olaria. Entrevista realizada em 1º fev. 2002.

Luiz Carlos Oliveira de Souza - foi líder da comunidade de São José. Entrevista realizada em
12 out. 2002.

Lourdes Teresinha Nadal - filha de Francisco Milan, que foi proprietário de moinho colonial
no distrito de São Roque.

Maria Weber Ferrão- foi diretora na escola de São Roque, iniciou o trabalho em 1945.
Entrevista realizada em 12 jun. 2002.
Oscar José Penz - foi líder 4-S na comunidade de Santa Gema. Entrevistas realizadas em 10
set. 2002 e 25 out. 2002.

Orlando André Rovani - trabalhou no moinho de São Valentim e também foi líder do Clube
4-S daquela localidade. Entrevista realizada em 02 fev. 2002.

Walter Luiz Maffi - trabalhou como agricultor, carroceiro, foi líder do Clube 4-S de São José
e participou da diretoria da Coopasso de Passo Fundo. Entrevista realizada em 15 fev. 2002.