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A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA FEMININA:

O empoderamento pelo capital social

Carla Kristiane Michel Heffel (Autor)


Centro de Ensino Superior Dom Alberto (CESDA)
carla_heffel@hotmail.com

Vinicius da Silva (Coautor)


Centro de Ensino Superior Dom Alberto (CESDA)
viniciusdsp@hotmail.com

Josirene Candido Londero (Orientadora)


Instituto de Pesquisas de Santa Cruz do Sul (IPESC)
josirenelondero@terra.com.br

RESUMO: O presente trabalho visa debater o empoderamento feminino sob a perspectiva de gênero, que
emergiu como tema relevante no campo das políticas públicas, sendo que as reflexões que abordam esses
desafios sugerem relações que envolvem as políticas públicas para a mulher nos mais diversos espaços
públicos. Essas discussões estão circunscritas em tecidos sociais fortemente marcados pela historicidade da
desigualdade de gênero, de raça e de classe, interessando, assim, especial e particularmente, as
possibilidades de empoderamento das mulheres envolvidas nas referidas políticas públicas. Esse
envolvimento da mulher nos espaços sociais conduz ao exercício da cidadania, o que promove a visibilidade
feminina e sua participação nos movimentos sociais diversos em prol das mulheres, determinando, assim, sua
libertação e empoderamento pelo capital social. Dessa forma, o presente estudo vem fundamentado na
pesquisa qualitativa, não demonstrando a preocupação de apresentar dados estatísticos comparativos.
Baseia-se, assim, no método analítico-dedutivo, capaz de conduzir o pesquisador a conclusões,
partindo das teorias e leis consideradas gerais e universais, buscando explicar a ocorrência de
fenômenos particulares.

PALAVRAS-CHAVE: mulher; cidadania; políticas públicas; empoderamento

ABSTRACT : This work aims to discuss women's empowerment from a gender perspective, which emerged
as an important theme in the field of public policies, and the reflections that address these challenges
suggest relationships involving public policies for women in various public spaces. These discussions are
circumscribed in social tissues strongly marked by historicity of gender inequality, race and class,
interesting, so special and particularly the empowerment possibilities of the women involved in public policy
referred to. This involvement of women in social spaces leads to citizenship, which promotes women's
visibility and participation in various social movements for women, determining thus their release. Thus, this
study is based on qualitative research, not demonstrated the concern of presenting comparative or not
statistical data. It is based, so in the analytical-deductive method, able to conduct the research conclusions,
based on the theories and laws considered general and universal, seeking to explain the occurrence of
particular phenomenal.

KEY-WORDS: woman; citizenship; public policy; empowerment

1
1 INTRODUÇÃO espaços a que tinham direito. Essa postura
mais enérgica e austera ajudou, e muito, no
A Declaração Universal dos Direitos início da emancipação feminina que, de
Humanos, de 1948, explica que homens e as muito, vem sendo perseguida, no sentido da
mulheres são iguais em direitos, sendo o busca da cidadania. Essa busca pelo
documento norteador das regras de igualdade. empoderamento foi reforçada pelo fenômeno
Se é assim, por que razão, mesmo em países do capital social, tão bem empregado pelas
que buscam seguir a Declaração, até hoje, é mulheres na busca de sua libertação.
verificada sociedade desigual entre homens e
mulheres? É nesse norte o presente trabalho, 2 AS RELAÇÕES DE GÊNERO EM SEU
que visa à promoção de reflexão teórica CONTEXTO HISTÓRICO
produzida a partir do estudo de gênero,
articulando-o aos temas da cidadania e das A história grega remete a Atenas, cidade
questões sociais, partindo da autonomia e da influente, berço da democracia no século V
tomada do empoderamento pelas mulheres. a.C.., cujos conceitos importantes para a
Indaga-se, ainda, sobre o conjunto de cidadania já eram praticados, desde Péricles,
obstáculos que permeiam a vida das mulheres, estadista de grande reputação. Tais conceitos,
bem como sua relação com a melhoria da são os de “isonomia, que significa igualdade
qualidade de vida e a efetiva participação no perante a lei; o de izegoria, que significa
seio da sociedade. possuir o direito de se expressar”. Do mesmo
A partir disso, tem-se que “feminismo modo, o conceito de izotemia (abolição das
é o movimento que reflete e divulga a funções e cargos hereditários) (TEIXEIRA,
ampliação dos direitos civis e políticos da 2015, p. 3). No entanto, esses benefícios não
mulher” (TEIXEIRA, 2015, p. 2), englobando eram garantidos a todos os cidadãos, uma vez
teoria, prática, ética e toma as mulheres como que as “benesses eram válidas apenas para
sujeitos históricos da transformação da sua
própria condição social. Propõe que as mulheres aqueles que tinham o perfil de cidadão
partam para transformar a si mesmas e ao
mundo. (TEIXEIRA, 2015, p.3). ateniense”. Para ser cidadão de Atenas era
necessário cumprir alguns requisitos, como
Neste sentido, as pioneiras feministas
ser do sexo masculino e ser filho de mãe e pai
apostaram na igualdade entre os sexos,
atenienses”. Aqueles que não alcançavam
confiaram que uma postura radical mais
essas exigências não eram cidadãos e
austera por parte das mulheres poderia
passavam a ser considerados estrangeiros,
contribuir para o alcance de conquistas dos

2
crianças e escravos. As mulheres, do mesmo sem direito a posses, sem liberdades, sem lar,
modo, não preenchiam os requisitos, sendo sem religião. Nessa situação, para tudo
excluídas do seio social. Assim, o direito ao precisava de um chefe ou tutor, sendo sempre
voto era estendido, apenas, a quem fosse subordinada e oprimida. Assim, também o
cidadão grego. direito grego, o romano e o hindu, por
exemplo, concordam em considerar a mulher
Observa-se que nas sociedades
como ser menor, sem importância, o que se
antigas, apenas o pai possuía o princípio
estendia, também, aos filhos, uma vez que
misterioso do ser a centelha da vida, que era
todo o patrimônio pertencia ao marido ou ao
transmitido, tão somente, de pai para filho.
pai, incluindo, ainda, o dote da mulher que,
Depois da morte do marido, a mulher deixava
do mesmo modo, pertencia, sem reservas, ao
de ter parte no culto e cerimônias, banquetes
marido. Este exercia poder sobre os bens
fúnebres, tendo menos ou nenhuma
dotais, não somente direitos de administrador,
participação na sociedade (COULANGES,
mas de proprietário (COULANGES, 2006,
2006).
p.80).
Considerando que o poder residia no
Neste sentido, pode-se mencionar que
pai ou no marido através da supremacia destes
as primeiras leis da moral doméstica faziam
sobre a mulher, razão pela qual não é correto
menção ao respeito entre o homem e a
atribuir a força como a origem do direito.
mulher, estando unidos para sempre, tendo
Esse contexto originava sérias consequências
deveres rigorosos e o não cumprimento com
no direito sucessório, uma vez que as filhas
sanções mais rigorosas nesta vida e na outra.
(mulheres) não poderiam ter direito à herança.
Ensinava, porém, que ambos deveriam
De acordo com o que rezam as Institutas de
respeitar-se mutuamente e que a mulher era
Justiniano, o direito sucessório só era
detentora de direitos, “porque tem seu lugar
estendido aos varões, o que vem corroborado
no lar”, sendo encarregada de conservá-lo
por Coulanges (2006, p.64).
sempre aceso.
As mulheres tinham poucas chances
Paralelamente a isso, o Estado foi
de herança, visto que esse direito era
fundado, tendo por base a religião constituída
privilégio ou vontade deixados expressamente
com caráter de igreja, vindo a ter sua
pelo pai, não tendo as mulheres nenhum
onipotência e absolutismo imperial impostos a
direito a posses sucessórias. O Direito antigo
seus membros, não suportando liberdades
seguiu considerando a mulher como um ser
individuais. O cidadão ficava, em tudo,
inferior/menor/sem importância para a cidade,

3
submetido aos cuidados da cidade. “A armas que tinham contra a exclusão social das
religião, que dera origem ao Estado, e o mulheres, e por sua inserção no espaço
Estado, que sustentava a religião, apoiavam- público.
se mutuamente, sustentavam-se um ao outro, A partir desse contexto, as mulheres
e formavam um só corpo” (COULANGES, foram para as ruas para empreenderem luta
2006, p.198). por seus direitos. Olympe de Gouges, à frente
Na Idade Média, as mulheres tiveram de um grupo organizado de mulheres,
acesso à literatura e às artes, por serem insurgiu-se contra a Declaração dos Direitos
atividades não interessantes aos homens, já do Homem e do Cidadão, de 1789. Essa
que menos viris. No entanto, no século XV, declaração representou o embrião de um
com o advento da chamada Caça às Bruxas, a modelo de cidadania que excluiu as mulheres
Santa Inquisição efetivou milhares de e que influenciou todo o Ocidente. Essa
execuções de mulheres (SILVA e feminista de vanguarda redigiu, em 1791, a
LONDERO, 2015). Declaração dos Direitos da Mulher e da
Nesse sentido, em 1484, a Igreja Cidadã, que é inclusiva, igualitária e que
publicou o livro Malleus Maleficarum, que se prevê a presença de homens e mulheres na
tornou conhecido como Martelo das Bruxas. sociedade e na política de forma equilibrada e
Neste livro, tido como Santo Manual da justa. (ASTELARRA, 2009). Depois desse
Inquisição, as mulheres eram apontadas como período, o que se viu foi a busca da igualdade
fontes carnais de todo o mal. Seguindo as consubstanciada em diversos movimentos
ordens da Igreja, os homens infligiam, de pela libertação feminina.
forma sádica, torturas horrendas a milhões de
mulheres, tidas como bruxas, destinadas à
3 GENERO NA ATUALIDADE
morte na fogueira (ASTELARRA, 2009).
Com o advento do Renascimento,
A construção do que é homem e do que
ocorreu a ressignificação do feminino e da
é mulher se dá socialmente, argumento
beleza da mulher, sendo que ela alcançou
corroborado pela máxima beauvoiriana de que
proporções de perfeição, beleza e sabedoria,
não se nasce mulher, torna-se, aludindo que
aquilatada como meio de elevar-se a Deus.
para que a mulher obtenha seu lugar ao sol,
Essa época, então, foi o terreno fértil para o
deverá lutar por ele, a partir de seus próprios
surgimento de mulheres notáveis, de
empreendimentos (BEAUVOIR, 1991).
personalidade forte, que lutavam com as

4
Weyl (2011, p. 3) afirma, por sua vez, se pelas estruturas sociais e pelos processos
que as diferenças físicas entre as pessoas já históricos, buscados individualmente pelas
foram usadas inúmeras vezes, no decorrer da mulheres para a formação de sua identidade e
história, para tentar justificar escravidão e de suas significações.
genocídios. De outro lado, a Teoria da Desconstrução,
Tudo o que for característico de um capitaneada por Judith Butler, expõe que gênero é
grupo superior será sempre usado como
justificativa para sua superioridade e uma certeza de corpo, com tabus e prescrições.
tudo o que for característico de um grupo Isso rompe com a teoria inicial sobre
“inferior” será usado para justificar suas gênero, que tratava da biologização, bem
provações. Homens negros eram como com a teoria rubiniana do sistema
recrutados para empregos mal pagos por sexo/gênero. É Judith Butler quem
serem, segundo diziam, mais fortes do afirma que “os corpos não se
que os brancos, enquanto as mulheres conformam, nunca, completamente às
eram relegadas a empregos mal pagos normas pelas quais sua materialização é
por serem mais “fracas (WEYL, 2011, p. imposta”. É categórico o discurso de
3). Butler ao afirmar que o processo de
desconstrução afeta tanto o biológico
Assim, não é o fato em si - a força – quanto o cultural, razão pela qual,
segundo a autora, é necessário que sejam
que coloca os sujeitos em superioridade ou vistas as capacidades sexualmente
diferentes, como por exemplo,
inferioridade e, sim, os interesses dos grupos hormônios, cromossomos, etc., sem a
negativa da materialidade e da
dominantes que usam tais características diferenciação entre os sexos
(LONDERO, 2012, p. 56)..
como justificativas da opressão exercida para
obter vantagens e privilégios. A americana
Mesmo o Estado entre suas políticas
Gayle Rubin, antropóloga cultural, ativista e
públicas não reconhece o protagonismo da
téorica de influência sobre temas de gênero, ao
mulher, uma vez que as políticas para
lançar The Traffic in Women: Notes on the
mulheres, em suma, assumem caráter
'Political Economy' of Sex, apresenta o seu
sistema sexo/gênero. amplamente assistencialista e vislumbrando
Seu discurso não aceita o determinismo ou as mulheres como meras receptoras das
o destino, entendendo que existe “um
conjunto de arranjos pelo qual a sociedade políticas públicas. Desse modo, consideram,
transforma a sexualidade biológica (...) e as
apenas, a mulher associada à reprodução,
relações de gênero não resultam da
existência de dois sexos e sim, de um esquecendo de suas potencialidades natas
sistema sexo-gênero (RUBIN, 1993, p. 2)..
enquanto agente de transformação social,
Esse conceito rompe com a teoria
econômica e política, transformando-se em
funcionalista, na qual gênero assegura a
vetor do desenvolvimento. (WEYL, 2010,
reprodução social. Nesta revisão, cabe
p.4)
lembrar a Teoria do Construcionismo, que
Nessa linha, pesquisas são canalizadas
prega que os significados de gênero moldam-
para o estudo do processo de feminização da

5
pobreza, que se inicia quando a mulher, almejam outras realizações pessoais” (WEYL,
sozinha, precisa providenciar o seu sustento e 2011, p.6).
o de seus filha/os, consubstanciando Neste sentido,
fenômeno que pode ser associado ao modo de se uma mulher tem baixa estima, espera pouco
de si e dos outros. Ela pensa que primeiro deve
participação da mulher no mercado de servir ao outro, e se coloca por último na busca
de satisfação de suas necessidades. Ela pode
trabalho. Mas não é possível mencionar que escolher um parceiro que não a respeita, por
pressupor que não precisa ser espeitada. Ela não
não existam mulheres pobres vivendo com tem consciência disto, o que é o pior dos fatores
seus maridos. Há, também, mulheres pobres que a oprimem. A pior opressão é a que vem de
dentro do ser humano. É aquela que a própria
em famílias chefiadas por homens que são pessoa se impõe, após ter sido oprimida pelo
outro durante seu processo de desenvolvimento.
igualmente pobres. Diversas pesquisas É a opressão que a pessoa coloca para dentro e
depois atua policiando a si mesma,
concentram-se em analisar as mulheres que desconhecendo que interiorizou a repressão.
(FERRARI, 2013, p. 2).
são pobres porque são mulheres,
investigando-se as consequências econômicas Assim, “a mulher interiorizou esta
e sociais de ser mulher, sem o apoio de um repressão e seu processo de inferiorização é
marido, o que pode conduzir à pobreza histórico cultural”, sendo que o “resultado é
(WEYL, 2001, p.6). sua baixa autoestima, o que a coloca como
para os homens, a questão principal é a servidora/escrava do outro e a faz auto-
carga de dependência, pois o número
de filhos nas famílias nucleares é maior sabotar seu potencial” (FERRARI, 2013, p.3).
do que nas de chefia feminina.
Enquanto que para as mulheres, a
A construção da autoestima é o caminho
questão principal é a desigualdade no
mercado de trabalho (WEYL, 2011, para a mulher reformular sua questão de
p.6).
poder, de dentro para fora. De nada adianta
É fácil chegar-se a essa dedução, já
conquistar poder na sociedade, se a mulher
que são denotados indícios que incidem,
continuar a ser a única cuidadora no seio
objetivamente, na desigualdade da mulher em
familiar e interiorizar esta função. O
relação ao homem no mercado de trabalho. O
empoderamento significa que a mulher, deve
comportamento esperado pelo homem é o de
tomar para si seus direitos, revestindo-se e
provedor financeiro da família, quanto à que a
investindo-se de poder, pois “luta por seus
mulher desenvolve atividades de cuidadora.
direitos quem os reconhece, mas acima de
(FERRARI, 2013). Por isso, nos dias de hoje,
tudo, quem se reconhece como digno deles”
“não são poucas as mulheres que vêm no
(FERRARI, 2013, p. 3).
casamento o seu destino de vida e não

6
4 O ESTADO, AS POLÍTICAS verdadeiramente, dos destinos e dos rumos da
PÚBLICAS E O EMPODERAMENTO
comunidade como agentes de
FEMININO
desenvolvimento e não, pacientes.
Assim, para além de seu aspecto político,
O empoderamento feminino passa por as liberdades substantivas implicam
direitos que garantem a qualidade de vida,
vários caminhos: na sociedade, pelo a segurança econômica e física, a proteção
contra fomes e doenças tratáveis,
conhecimento dos direitos da mulher, por sua
mecanismos de combate a diversas formas
inclusão social, instrução, profissionalização, de discriminação e transparência nas
relações sociais (AZEVEDO, 2012, p. 34).
consciência de cidadania e, também, “por uma
transformação no conceito que ela tem dela
Desse modo, o Estado também deve
mesma, em sua autoestima” (FERRARI,
fazer seu papel, não apenas legislando, de
2013, p. 2).
modo a tentar coibir discriminações e abusos
A partir disso, é possível afirmar que “a
contra a mulher, sob ameaças de sanção.
liberdade, vista sob a perspectiva
Efetivamente, deve promover a
instrumental, classifica-se em cinco tipos
conscientização e maximizar a igualdade
distintos de direitos e oportunidades”
entre os gêneros, por meio de políticas
(AZEVEDO, 2012, p. 31), quais sejam, as
públicas de ações afirmativas. Cabe ao Estado
liberdades políticas, as facilidades
a garantia dos meios necessários à realização
econômicas, as oportunidades sociais, as
da mulher como cidadã e agente de
garantias de transparência e segurança
desenvolvimento. Além disso, deve promover
protetora.”
ações capazes de enaltecer a dignidade,
Uma vez que, a posição mais elevada e a
independência feminina podem favorecer a oportunizando à mulher a participação
redução das desigualdades contra o sexo
feminino nas tomadas de decisões familiares, ativamente nas escolhas e na condução dos
influenciando para a mudança social em geral.
(AZEVEDO, 2012, p. 34). caminhos da cidadania com inclusão na
sociedade (LIMA, 2015, p.14).

A independência da mulher é fator Nesse sentido, o conceito de inclusão


altamente importante para sua libertação. enquanto processo implica a necessidade de
Essa, por sua vez, é determinante para a os sistemas político e jurídico sempre terem
iniciativa individual e para a eficácia social, de incluir as pessoas, no caso as mulheres. O
que melhoram o potencial da pessoa para Estado deve formular, implementar, conferir e
cuidar de si mesma e para influenciar o avaliar as políticas públicas para as mulheres,
mundo, no momento em que participa, garantido-lhes os direitos políticos,

7
decorrentes do fato singelo de que a sociedade junto à sociedade civil durante a ditadura
produz desigualdades, sejam históricas ou militar, quer articulando-se através da igreja
naturais (LIMA, 2015, p. 27), mas que contra para organizar os movimentos comunitários,
elas as mulheres devem mobilizar-se, para a quer encabeçando protestos por melhorias nas
formação do que se conhece por capital condições de vida e na infraestrutura do seu
social. Nos cargos públicos, por exemplo, bairro. Também organizaram campanhas de
fatores culturais buscam explicar até que protestos e em favor de causas políticas como
ponto, índices de participação e confiança de a anistia. Finalmente, ajudaram a construir os
homens e mulheres impactam as suas novos partidos, através de campanhas de
propensões a se envolverem e serem bem filiação e do recrutamento de lideranças
sucedidos politicamente (SACCHET, 2008). comunitárias. A ênfase nessas ações serviu
tanto para destacar o caráter político dos
O conceito de capital social (CS) foi
movimentos de mulheres e sociais, como para
popularizado por Putnam (1993), na Itália e
refutar a noção de que as mulheres não se
nos estádios Unidos, argumentando-se que a
interessavam por política (SACCHET, 2008).
organização dos indivíduos em grupos produz
hábitos cooperativos e de confiança mútua.
5 CONCLUSÃO
Esses, por sua vez, conduzem a maiores
índices de participação e confiança política, Desde a Declaração Universal dos
contribuindo para a saúde econômica do Direitos Humanos, de 1948, homens e
sistema e melhores performances mulheres são considerados iguais em direitos.
institucionais (SACCHET, 2008). Índices de O estudo procurou enfocar as razões pelas
capital social são também associados a uma quais mesmo em países que buscam seguir a
maior equidade de gênero (CAIAZZA e Declaração, ainda hoje, são verificadas
PUTNAM, 2005), constituindo-se em fatores desigualdades entre homens e mulheres.
que interessam, sobremodo, às mulheres, Promove-se reflexão sobre questões de
dado os papéis sociais que desempenham. gênero, cidadania, empoderamento feminino.
Evidenciou-se que a autonomia feminina nos
Altos índices de capital social também
contribuem para promover equidade política espaços sociais vê-se refletida em obstáculos
entre homens e mulheres. Assim, sociedades
com índices mais altos de CS teriam também que permeiam a vida das mulheres, bem como
maior igualdade social e política de gênero
(SACCHET, 2008, p. 5). sua relação com a melhoria da qualidade de
vida e a efetiva participação no seio da
No Brasil, foi enfatizado o papel
sociedade.
articulatório que as mulheres desempenharam

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Pode-se atribuir a existência de partir do programa de aquisição de
alimentos: o caso de Barbacena-MG.
desigualdades entre homem e mulher desde o
Disponível em;
momento em que se passou a aceitar as http://locus.ufv.br/bitstream/handle/12345678
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adaptação feminina a esse lugar na sociedade,
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo.
internalizando uma visão de si mesma como São Paulo, 1991.
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espaço em que ele tem de competir com os COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga.
outros, permanentemente, para lograr êxito. São Paulo: Editora das Américas S.A. -
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FERRARI, Rosana. O Empoderamento da
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fraco pelo mais forte em sociedades marcadas mulheres na luta por reconhecimento-
Disponível em:
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de capital social, de forma a combater toda e
LIMA, Sandra Mara Maciel de. O papel do
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9
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