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Não somos Tolos

Em honra à tolerância, que deve ser o fator de distinção da filosofia, dói-me ter que
escrever assim acerca do mundo em que nos cabe viver. Não sou dos que pensam que
este mundo é ruim e que todo tempo passado foi melhor; nem tampouco daqueles que
postergam a felicidade a um futuro que não podemos precisar.

Preocupa-me a quantidade de incongruências, de incoerências (para não chamá-las


definitivamente de mentiras) as quais nos vemos obrigados a suportar. Sequer se
dissimulam as falsidades, senão que, ao contrário, apresentam-se exatamente como se
fossem o inverso, convencidos de que somos tolos e basta que uma informação provenha
dos meios de comunicação para que a consideremos verdadeira.

O que nos vendem?

Vendem-nos um mundo em progresso indefinido, no qual todas as coisas dirigem-se para


o melhor.
Vendem-nos um mundo democrático, embora este conceito tenha-se convertido no
“trunfo” de qualquer movimento político, religioso, educacional ou empresarial que venha
à tona. Dizer democracia é o mesmo que dizer liberdade.
Vendem-nos um mundo tolerante, no qual, ao contrário dos séculos anteriores,
aprendemos a conviver uns povos com outros, no qual todos respeitam as diferenças, as
crenças religiosas e as formas de pensar.
Vendem-nos um mundo comunicado e informado pelos meios mais variados.
Nada disto é verdade. NADA. E o pior é que, por cansaço ou ignorância, terminamos por
acreditar e aceitar o que nos vendem. Todo esse material se introduz dissimuladamente
em nossas mentes, e acabamos usando os mesmos conceitos sem saber o que estamos
dizendo.

Vejamos.

Perante o progresso indefinido, encontramo-nos com uma falência econômica que, neste
momento, afeta inclusive aos países considerados mais ricos do mundo. E alguns países
arrastam os outros, porque todas as finanças criam laços invisíveis de efeito dominó. Isso
sem mencionar as crises que assolam muitos países pobres e as guerras e guerrilhas que
impedem a passagem de alimentos e artigos de primeira necessidade para aliviar tanta
dor.
Não somos livres. Quando vamos às urnas, fazemo-lo após umas campanhas eleitorais
que mais bem parecem desfiles da moda, infestadas de discursos vazios, e sobretudo de
desqualificações para os partidos “contrários”. Por que hão de ser “contrários”? Será que
a democracia não admite a multiplicidade? Às vezes não somos livres nem para circular
de um país a outro, apesar das estreitas alianças econômicas que os unem. Não somos
livres para lidar com as migrações de gente desesperada pela miséria, simplesmente
porque não podemos dar lugar para tantas pessoas, quando mesmo os próprios
habitantes de cada país também estão à beira da indigência.
Gostaria de saber onde está a tolerância. Sob um nome ou outro, a agressão é a notícia
cotidiana. Nunca se viram tantos enfrentamentos étnicos, sociais e religiosos, para não
mencionar os sexuais ou assexuais.
A maior parte da comunicação é pior que o ópio. Ela nos ilude e engana sem piedade.
Obriga-nos a entrar em esquemas dos quais, então, não podemos nos desvincular,
introduz-nos em armadilhas das quais não podemos nos libertar. Somos escravos dos
computadores, grandes, pequenos e de bolso; dos telefones, das mensagens abreviadas
que degradam as linguagens; das redes sociais que destroem nossa intimidade…
Quem nos vende?

Esta é uma questão delicada que, por falta de conhecimento concreto e, sobre tudo, de
provas, custa-me abordar. Vem em meu auxílio o “mito da caverna”, descrito pelo filósofo
Platão, em seu livro A República.

Não é preciso estender-nos no conteúdo do mito, porque é muito conhecido. Trata-se de


uma caverna (o mundo) onde todos estamos presos, ainda que encantados de estar ali,
porque dentro da caverna nos é oferecido todo tipo de imagens falsas com um ar de
realidade, tão convincentes como para que ninguém queira sair dali.

Ninguém conhece aos “amos da caverna”, mas é evidente que alguém montou esta
prisão disfarçada de mundo feliz. Isto permanece assim até que um corajoso decide
romper suas correntes e sair para ver o que acontece no exterior. E aqui começa o drama:
o que sai verifica o engano, tenta contar aos demais e encontra uma absoluta
incompreensão, porque, aparentemente, todos desfrutam de suas correntes…

Sinceramente, creio que nosso mundo, por completo, em todos os continentes e em todos
os países, está regido pelos “amos da caverna”. Não os conhecemos, não são os que
dão a cara e ocupam as páginas e as telas dos meios de difusão. Não, os visíveis são
fantoches; os reais permanecem no anonimato para seguir trabalhando à vontade.

Porque nos vendem tantas mentiras?

Porque não há nada melhor que um povo enganado, debilitado, idiotizado, para poder
manipulá-lo melhor. Aqueles que vivem intoxicados e quase inconsciente creem em
qualquer coisa e são capazes de fazer qualquer coisa.

Alguns títulos sugestivos

Enquanto vivemos à margem da realidade, são propagados fatos como os que seguem,
que tomei ao acaso de um jornal de umas semanas atrás. Ainda que em poucos dias
estas notícias possam variar, não muda o sentido das coisas. Não preciso inventar nada.

“Os atentados terroristas disparam a violência entre Israel e Gaza.”


“Um comando talibã assalta o centro cultural britânico em Kabul.”
“Um atentado em uma mesquita dos Paquistão causa 48 mortes.”
“A pressão do Ocidente não consegue frear as matanças do regime sírio.”
“Turquia desenterra o machado de guerra para esmagar a guerrilha curda.”
“Os combates entre rebeldes e gadafistas afligem Trípoli.”
“América central e Caribe debatem uma frente comum contra o crime.”
“O Papa alerta os docentes sobre ‘os abusos de uma ciência sem limites’.”
E sem títulos específicos: revoltas estudantis, greves, manifestações de rua,
enfrentamentos de grupos a favor ou contra qualquer acontecimento com mortos e
feridos, roubos e assaltos, crimes e… Para que continuar?

Não somos tolos

Não podemos nos permitir sê-lo. Bastaria exercer a faculdade de comparar o que se
vende com o que há. Entretanto, os meios de comunicação não possuem a verdade
absoluta: já tentou alguma vez ler a mesma notícia em dois jornais de diferente filiação
política?

Há que aprender a ver o que temos ao redor, a escutar o que contam as pessoas sobre
suas próprias vidas. As ruas falam, as pessoas também; têm sua linguagem particular
relativamente fácil de compreender.

Não somos tontos. Mas tampouco somos inteligentes, porque, por agora, não podemos
encontrar soluções que não caiam no radicalismo e na violência.

Há soluções?

Claro que há. Seguramente cada grupo vendedor de fantasias apresentará suas
contribuições. Nós propomos a Filosofia. Consta-nos que, entre os filósofos mais
conhecidos, Platão e Confúcio já o fizeram.

Não uma filosofia teórica, porque com isso não movemos nem um monte de poeira.
Propomos uma filosofia ativa, que nos ensine a pensar, a usar a razão e não a distorcê-la.
Uma filosofia de valores morais que dignifique nossos sentimentos. Uma filosofia que nos
ajude resolver as situações cotidianas de nossas próprias vidas. Uma filosofia que nos
situe na realidade e que nos faça felizes ao mesmo tempo.

Assim, talvez, fazendo de cada um de nós um exemplo individual de transformação,


possamos resolver os males que nos destroem e construir um mundo diferente,
essencialmente melhor. É tarefa para o futuro, mas muito mais próximo do que parece, se
nos atrevemos a começar por nós mesmos.

Autora: Delia Steinberg Guzmán