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George R.

Knight
22 de outubro de 1844. Chegara o grande
dia, anunciado por Guilherme Miller.
Uma multidão de crentes esperou o retorno de
Breve História dos
Cristo até a meia-noite. E então choraram até
o dia amanhecer. Cristo não voltara! Adventistas do Sétimo Dia
Depois desse amargo desapontamento, o
movimento se dispersou. Mas para um pequeno
grupo isto não foi o fim. Foi apenas o começo.
Uma Igreja Mundial é a fascinante história
desses poucos fiéis que não abandonaram a fé
e, ao entenderem sua missão, assumiram a
responsabilidade de transmitir ao mundo a
verdade para este tempo.
O historiador George R. Knight, nesta obra,
conduz seus leitores, passo a passo, através das
várias fases de desenvolvimento da Igreja

UMA IGREJA MUNDIAL


Adventista do Sétimo Dia, desde sua fundação
até se tornar, em nossos dias, Uma Igreja
Mundial.
Leitura agradável e informativa, que certamente
será apreciada por todos.

ISBN 85-345-0700-7

Casa Publicadora Brasileira


Tatuí – SP 9 788534 507004
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UMA IGREJA MUNDIAL


Breve História dos Adventistas do Sétimo Dia

George R. Knight
Tradução de José Barbosa da Silva

Casa Publicadora Brasileira


Tatuí – SP
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Título do original em inglês:


A BRIEF HISTORY OF SEVENTH-DAY ADVENTISTS

Direitos de tradução e publicação reservados


para a Casa Publicadora Brasileira
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Caixa Postal 34
18270-970 – Tatuí, SP
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Fax: (0xx15) 250-8900
Atendimento Direto: (0xx15) 250-8888

Primeira edição
Três mil exemplares
2000

Editoração: Rubem Scheffel e Paulo Pinheiro


Programação Visual: Sandra Patrícia Ferreira
Capa: Wanderley Scortegagna

IMPRESSO NO BRASIL
Printed in Brazil
6393/4162

O autor assume inteira responsabilidade pela exatidão de


todos os fatos e citações usadas neste livro.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou


parcial, incluídos textos, imagens e desenhos, por qualquer
meio, quer por sistemas gráficos, reprográficos, fotográficos,
etc., assim como a memorização e/ou recuperação parcial, ou
inclusão deste trabalho em qualquer sistema ou arquivo de pro-
cessamento de dados, sem prévia autorização escrita do autor e da editora, sujei-
tando o infrator às penas da lei disciplinadora da espécie.
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Sumário
Capítulo 1: Raízes Mileritas ................................................................9
Guilherme Miller: O Profeta Relutante...............................................9
O Adventismo Dá Um Passo de Gigante Com Josué V. Himes.........12
Carlos Fitch e a “Queda de Babilônia” ..............................................15
A Passagem do Tempo........................................................................17
O Movimento do Sétimo Mês e o
“Verdadeiro Clamor da Meia-Noite” ............................................19
O “Grande Desapontamento” ............................................................21
Para Leitura Adicional .......................................................................23

Capítulo 2: A Era do Desenvolvimento Doutrinário (1844-1848) ........25


Redefinindo o Santuário....................................................................27
O Dom de Profecia .............................................................................32
O Sábado.............................................................................................36
Imortalidade Condicional ..................................................................40
As Doutrinas Fundamentais e a Tríplice Mensagem Angélica ............41
A Abordagem Missionária da “Porta Fechada” .................................45
Para Leitura Adicional .......................................................................48

Capítulo 3: A Era do Desenvolvimento Organizacional (1848-1863) ....49


As Conferências Sobre o Sábado .......................................................50
Publicando “a Verdade”......................................................................54
Primeiros Passos Rumo a Uma Organização Formal.......................57
A “Irmã Betsy” e o Sustento do Ministério.......................................59
O Impulso Definitivo Para a Organização da Igreja .........................61
As Frestas da “Porta Fechada” Abrem-se Um Pouco.......................63
Para Leitura Adicional .......................................................................66

Capítulo 4: A Era do Desenvolvimento Institucional e do Estilo de


Vida (1863-1888) ............................................................67
O Viver Saudável e o Instituto Ocidental da Reforma de Saúde ........68
A Luta Pela Não-Combatência...........................................................72
Em Busca da Verdadeira Educação ...................................................75
Progressos na Mordomia Financeira.................................................78
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O Papel de Ellen White no Desenvolvimento do


Estilo de Vida Adventista..............................................................79
Missões: Estrangeiras e Não Tão Estrangeiras .................................81
Outros Importantes Desenvolvimentos entre 1863 e 1888..............85
Para Leitura Adicional .......................................................................86

Capítulo 5: A Era do Reavivamento, Reforma e Expansão


(1888-1900).....................................................................87
A Assembléia da Associação Geral de 1888 .......................................88
Os Resultados de Minneapolis ...........................................................93
Reavivamento Espiritual e Expansão Educacional...........................96
Explosão Missionária Mundial...........................................................99
Missão em Favor da América Negra ................................................102
A Contribuição do Ministério Feminino nos
Primórdios do Adventismo ........................................................105
Para Leitura Adicional .....................................................................107

Capítulo 6: A Era da Reorganização e da Crise (1901-1910) .......109


Reorganização Denominacional......................................................110
Tensão na Estrutura do Poder.........................................................114
O Êxodo de Battle Creek e os Novos Começos ...............................119
Uma Ênfase Renovada na Missão ....................................................125
Para Leitura Adicional .....................................................................126

Capítulo 7: A Era do Crescimento Mundial (1910-1955)..............127


O Falecimento de Ellen White ........................................................128
Um Período de Crise e Promessa ....................................................129
Crescimento Sem Paralelo das Missões Adventistas ......................132
Amadurecimento do Adventismo entre Afro-Americanos..............136
Para Leitura Adicional .....................................................................140

Capítulo 8: Os Desafios e Possibilidades de Maturidade (1955- ) .......141


Alcançando a Maturidade.................................................................143
Missão Com Propósito Consciente..................................................149
Desafios que o Adventismo Enfrenta no
Século Vinte e Um......................................................................152
Infinitas Possibilidades ....................................................................156
Para Leitura Adicional .....................................................................157
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Lista de Abreviações
1888 Materials The Ellen G. White 1888 Materials (4 vols.)
Adv. Rev. Adventist Review
A&D William Miller’s Apology and Defense
AH Advent Herald
AR Advent Review
AS American Sentinel of Religious Liberty
ASD Adventista do Sétimo Dia
CTemp Christian Temperance and Bible Hygiene, de Tiago
White e Ellen G. White
EGW Ellen G. White
GCB General Conference Bulletin
GM Guilherme Miller
JL Josias Litch
JVH Josué V. Himes
LS (1888) Life Sketches of James and Ellen G. White (edição de 1888)
LS Life Sketches of Ellen G. White (edição de 1915)
MC Midnight Cry
ME Mensagens Escolhidas, de Ellen G. White (3 vols.)
MS Manuscrito
MW Morning Watch
PE Primeiros Escritos, de Ellen G. White
PT Present Truth
PUR Pacific Union Recorder
RH Review and Herald
SG Spiritual Gifts, de Ellen G. White (4 vols.)
ST Signs of the Times (Milerita)
T Testemunhos Para a Igreja, de Ellen G. White (9 vols.)
TW Tiago White
WCW William C. White
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Uma Palavra ao Leitor


Os adventistas do sétimo dia nunca se consideraram apenas uma
denominação a mais. Ao contrário, desde sua origem eles com-
preendem que seu movimento é o cumprimento de uma profecia.
Em sua visão, seu papel é pregar a singular mensagem dos três an-
jos de Apocalipse 14:6-12, que apresenta o último apelo a um mun-
do que perece, antes do retorno de Cristo para a “colheita” da Ter-
ra (versos 14-20). Os adventistas do sétimo dia concluíram final-
mente que precisam pregar essa mensagem especial “a cada nação,
e tribo, e língua, e povo” (verso 6). Essa crença, aliada ao senso da
proximidade do fim do tempo deste planeta, os impulsionou a um
dos mais vigorosos programas missionários da História.
Este livro conta a história de como os adventistas passaram
a considerar-se um povo profético, de como tomaram consciên-
cia, pouco a pouco, da responsabilidade que tinham de levar es-
sa mensagem especial a todo o mundo e da maneira como se de-
senvolveram organizacional e institucionalmente ao buscarem
cumprir sua missão profética. A história, naturalmente, não é
completa. A missão prossegue enquanto você lê estas palavras.
A igreja e o mundo ainda anelam pelo grande clímax da histó-
ria do mundo, a segunda vinda de Jesus. Portanto, a história do
adventismo permanece incompleta. Perto do fim deste volume,
você como leitor e eu como escritor nos encontraremos na cor-
rente da história adventista.
Este livro não pretende ser uma “contribuição ao conhecimen-
to”. Pelo contrário, é mais uma síntese dos pontos altos da história
adventista. Ao fazer esta síntese, este volume apresenta o material
num formato organizacional único, que será proveitoso aos leitores
que procuram entender o crescimento da denominação.
Escrevi esta Breve História dos Adventistas do Sétimo Dia pa-
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ra os que buscam uma rápida visão do desenvolvimento do adven-


tismo. Será útil para grupos de estudos na igreja, estudantes em
salas de aula, novos membros e outros interessados na história de-
nominacional. O livro busca desenvolver as linhas centrais da his-
tória adventista, com interesse específico no crescimento de seu
conceito de missão. Embora não procure evitar problemas impor-
tantes do passado e do presente do adventismo, o livro sugere que
nosso enfoque principal se concentra mais nas possilidades do que
nos problemas.
Na qualidade de historiador adventista, estou em débito para
com os que vieram antes de mim. A maior parte dos temas abor-
dados neste livro foi tratada de maneira mais detalhada em outras
obras. Sugiro leituras adicionais para os que desejam seguir tópi-
cos específicos de estudo.
A Pacific Press publicou em 1993 uma versão anterior deste
volume sob o título Anticipating the Advent (Prenunciando o Ad-
vento). A presente revisão representa uma total atualização. Isso
acontece especialmente com o último capítulo, que trata de novas
questões e revisa “velhas” estatísticas. Outra modificação impor-
tante foi o acréscimo de referências textuais às fontes originais pa-
ra todas as citações diretas. Devido à falta de espaço, omiti as fon-
tes de fatos gerais e as citações indiretas.
Deve-se notar que esta obra poderia ter trabalhado mais os con-
textos secular e religioso em que surgiu o adventismo, mas a bre-
vidade da exposição exigiu que eu reduzisse os materiais contex-
tuais à menor quantidade possível.
Este livro pretende ser o primeiro de uma série de cinco que
chama a atenção para a herança adventista do sétimo dia. Os ou-
tros volumes da série incluirão um estudo sobre o desenvolvimen-
to da teologia adventista, uma visão geral do desenvolvimento do
estilo de vida adventista, um volume que tratará das crenças ad-
ventistas compartilhadas com outros cristãos e um livro que en-
fatizará duma forma integrada as crenças que distinguem o ad-
ventismo dentro da comunidade cristã.
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É meu dever também mencionar que a Série Herança Adven-


tista se acha intimamente relacionada com minha série sobre El-
len White: Meeting Ellen White: A Fresh Look at Her Life, Wri-
tings, and Major Themes (Conhecendo Ellen White: Uma Nova Vi-
são de Sua Vida, Escritos e Temas Principais), de 1996; Reading
Ellen White: How to Understand and Apply Her Writings (Lendo
Ellen White: Como Entender e Aplicar Seus Escritos), de 1997; El-
len White’s World: A Fascinating Look at Times in Which She Li-
ved (O Mundo de Ellen White: Uma Visão Atrativa da Época em
Que Ela Viveu), de 1998; e Walking With Ellen White: The Human
Interest Story (Andando com Ellen White: A Interessante História
Humana). Minha intenção é que as duas séries forneçam tanto pa-
ra os adventistas como para os de fora da comunidade adventista
uma visão geral sobre o adventismo do sétimo dia. O tratamento
dado a cada assunto pretende ser breve, mas exato. Embora eu te-
nha escrito cada volume tendo em mente o público leitor adven-
tista, eles visam também apresentar uma sólida introdução desses
respectivos temas a uma comunidade maior.
Gostaria de expressar meu apreço a Jennifer Kharbteng e a
Joyce Werner, que digitaram no computador o original “feito à
mão”; a Bonnie Beres, que redigitou o texto revisado em sua tota-
lidade; a Robert W. Olson, Richard W. Schwarz e Alberto R. Timm,
que leram o original e ofereceram sugestões de melhoramento; a
Gerald Wheeler e a Jeannette R. Johnson por supervisionarem
cuidadosamente o material através do processo de publicação; e à
administração da Universidade Andrews por fornecer o apoio fi-
nanceiro e o tempo para pesquisa e redação.
Acredito que Uma Igreja Mundial será uma bênção aos leitores
que procuram saber mais sobre os adventistas do sétimo dia e sua
história.

George R. Knight
Universidade Andrews
Berrien Springs, Michigan, EUA
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Raízes

Capítulo 1
Mileritas

O moderno adventismo do sétimo dia en-


contra suas origens imediatas no movimento
do Segundo Advento, do início do século deze-
nove. Embora muitos pregadores tenham pro-
clamado a breve vinda de Cristo na Europa e
em outras partes do mundo, a crença produziu
seu maior impacto na América do Norte. Foi
fundamental para o começo do adventismo
norte-americano um leigo batista chamado
Guilherme Miller (1782-1849).

Guilherme Miller:
O Profeta Relutante

Nascido num lar cristão, Miller abandonou


suas convicções religiosas pelo deísmo nos pri-
meiros anos do século dezenove. O deísmo
(crença céptica que rejeita o cristianismo com
seus milagres e a revelação sobrenatural) de-
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10 UMA IGREJA MUNDIAL

fende a idéia de um Deus distante – um Deus que não participa


ativamente nos negócios terrenos. As crenças deístas tornaram-se
populares tanto na Europa como na América do Norte durante a
última metade do século dezoito, mas as atrocidades e excessos da
Revolução Francesa, na década de 1790, levaram muitos a duvidar
de que a razão humana fosse base suficiente para a vida civilizada.
O resultado foi o abandono generalizado do deísmo e o retorno de
muitas pessoas ao cristianismo durante as duas primeiras décadas
do século dezenove.
Nos Estados Unidos, esse reavivamento ficou conhecido como o
Segundo Grande Despertamento. Miller estava entre os que voltaram
a crer na Bíblia durante o Despertamento. Seu ceticismo durou até a
Guerra de 1812. Mas, diante da violência e da morte, ele começou a
reavaliar sua vida pessoal e o sentido da vida como um todo.
À semelhança de muitos de sua geração, sentiu-se impelido a
estudar a Bíblia e, ainda como muitos, converteu-se ou reconver-
teu-se ao cristianismo quando o Segundo Grande Despertamento
revitalizou as igrejas norte-americanas. E, diferenciando-se da
maioria de seus contemporâneos, Miller tornou-se um diligente
estudante da Bíblia.
Seu método de estudo da Bíblia consistia em comparar versícu-
lo com versículo de maneira metódica. “Comecei com Gênesis,” es-
creveu Miller, “e li verso por verso, não me acelerando muito para
que o significado das diversas passagens se tornasse bastante claro,
de modo que me poupasse de constrangimentos. . . . Sempre que eu
encontrava algo obscuro, minha atitude era compará-la com todas
as passagens colaterais; e com a ajuda de CRUDEN [concordância bí-
blica escrita por este autor], eu examinava todos os textos da Escri-
tura nos quais encontrava palavras importantes presentes em qual-
quer trecho obscuro. Depois, deixando que cada palavra tivesse seu
devido significado no assunto do texto, se meu ponto de vista sobre
ele se harmonizasse com as passagens colaterais na Bíblia, ele dei-
xava de ser uma dificuldade” (A&D, pág. 6).
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RAÍZES MILERITAS 11

Durante dois anos (1816-1818) Miller estudou a Bíblia desta


maneira e intensivamente. Chegou finalmente “à solene conclu-
são . . . de que aproximadamente vinte e cinco anos a partir da-
quela data [1843] todas as coisas de nossa presente condição che-
gariam a seu termo”, e Cristo voltaria (Ibidem, pág. 12).
Miller chegou a essa conclusão pelo estudo das profecias do li-
vro de Daniel, especialmente de Daniel 8:14: “Até duas mil e tre-
zentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado.” Tomando
por base a compreensão comumemente aceita de Números 14:34
e Ezequiel 4:5 e 6 de que um dia em profecia equivale a um ano,
Miller calculou que a profecia dos 2.300 dias chegaria a seu termo
em 1843. Ao interpretar o santuário de Daniel 8:14 como sendo a
Terra e a purificação deste como a purgação final da Terra pelo fo-
go, Miller raciocinou que Cristo voltaria à Terra no fim dos 2.300
dias, a saber, por volta de 1843. Seu coração encheu-se de alegria.
Mas ele também se deu conta de que a conclusão a que chega-
ra de que Cristo voltaria no início do milênio (mil anos) de Apo-
calipse 20 desafiava a teologia quase universalmente aceita de sua
época, de que Cristo voltaria no fim do milênio. “Eu receava, por-
tanto,” escreveu ele, “apresentá-la [sua conclusão], temendo que
de algum modo pudesse estar errado e ser o responsável pelo des-
caminho de alguém” (Ibidem, pág. 13).
Por causa de seus temores, Miller passou outros cinco anos
(1818-1823) reexaminando a Bíblia e levantando toda objeção
possível contra suas conclusões. Como resultado tornou-se mais
seguro do que nunca de que Cristo chegaria por volta de 1843. As-
sim sendo, após sete anos, começou a falar abertamente de suas
crenças para os vizinhos. Apesar disso, encontrou apenas “uns
poucos que ouviam com interesse” (Ibidem, pág. 15).
Durante nove anos (1823-1832) Miller continuou a estudar a
Bíblia. Nesse ínterim, ficou cada vez mais convicto de que precisa-
va compartilhar o que descobrira sobre o iminente juízo. Assalta-
va-lhe continuamente a impressão: “Vá advertir o mundo do peri-
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12 UMA IGREJA MUNDIAL

go que ele corre.” “Fiz tudo quanto pude para fugir da convicção
de que devia fazer alguma coisa,” escreveu Miller. Mas ele não con-
seguiu escapar da própria consciência (Ibidem, págs. 15 e 16).
Miller finalmente “fez um solene pacto com Deus” de que, se
Deus abrisse o caminho, ele cumpriria seu dever. Sentindo que pre-
cisava ser mais específico, Miller prometeu a Deus que, se recebes-
se um convite para falar em público em qualquer lugar, iria e ensi-
naria sobre a segunda vinda do Senhor. “Instantaneamente” – es-
creveu ele – “toda a minha apreensão desapareceu. Alegrei-me com
o fato de que provavelmente isso não aconteceria, pois eu nunca ha-
via recebido um convite dessa natureza” (Ibidem, pág. 17).
Para consternação de Miller, meia hora depois desse pacto com
Deus, ele recebeu seu primeiro pedido para pregar sobre o Segun-
do Advento. “Fiquei zangado comigo por haver feito esse pacto,”
confessou ele. “Revoltei-me de imediato contra o Senhor e decidi
não ir.” Saiu então de casa, com passos pesados, para lutar com o
Senhor em oração, e submeteu-se finalmente após uma hora (Ibi-
dem, pág. 18).
Sua primeira apresentação sobre o Segundo Advento conduziu a
várias conversões. A partir de então Miller recebeu uma enxurrada
ininterrupta de convites para presidir reuniões em igrejas de diversas
denominações. Perto do fim da década de 1830, o profeta relutante
havia conquistado vários ministros para o ponto de vista defendido
por ele, de que Cristo viria por volta de 1843. O mais importante des-
ses ministros convertidos foi Josué V. Himes, da Conexão Cristã.

O Adventismo Dá Um Passo de Gigante


Com Josué V. Himes

O ano de 1839 encontrou Himes como influente pastor da ca-


pela de Chardon Street, em Boston. Ele era não apenas um pastor
eminente, mas um reconhecido líder do movimento interdenomi-
nacional para ocasionar o milênio terreal através da reforma pes-
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RAÍZES MILERITAS 13

soal e social. Em novembro de 1839, no entanto, Himes enviou um


convite para que Guilherme Miller realizasse uma série de confe-
rências em sua igreja. A mensagem de Miller a respeito do Segun-
do Advento transformou o enérgico Himes no principal propaga-
dor dessa mensagem: a de que Cristo voltaria em torno de 1843.
Percebendo a urgência da mensagem, Himes sentiu a preocu-
pação de apresentar a doutrina do advento ao mundo. Perguntou
a Miller por que ele não havia pregado em grandes cidades. Miller
replicou que ia somente aonde era convidado. Esssa atitude passi-
va era demais para o dinâmico Himes, que perguntou se Miller
iria “aonde as portas estão abertas”? Miller respondeu afirmativa-
mente. “Disse-lhe então,” relatou Himes, “que ele podia preparar-
se para a campanha, pois se abririam portas em todas as cidades
da União, e a advertência chegaria até os confins da Terra! Foi a
partir daí que comecei a ‘ajudar’ o Pai Miller.” O adventismo nun-
ca mais foi o mesmo depois disso (S. Bliss, Memoirs of William
Miller, págs. 140 e 141).
Nos quatro anos que se seguiram o ativista Himes tornou o mi-
lerismo e o adventismo palavras familiares à América do Norte. A
engenhosidade de Himes encarregou-se de fazer com que, por vol-
ta de 1844, a doutrina do advento fosse ouvida, não somente na
América do Norte, mas ao redor do mundo. Ele empregou diver-
sos expedientes para cumprir a missão de advertir o globo de que
Cristo viria por volta de 1843 e de que chegara “a hora do Seu juí-
zo” (Apoc. 14:7). Talvez o meio mais importante e influente foi a
página impressa. Himes desencadeou o que o historiador Nathan
Hatch chamou de “investida sem precedentes dos meios de comu-
nicação” (Democratization of American Christianity, pág. 142).
Sendo do tipo de pessoa que não deixa nenhuma grama crescer
sob seus pés, apenas três meses depois de ter feito o primeiro con-
vite a Miller, Himes começou a publicar o Signs of the Times (pe-
riódico Sinais dos Tempos), cujo objetivo era levar ao mundo a
mensagem do advento.
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14 UMA IGREJA MUNDIAL

Além da Signs, em 1842 Himes deu início ao Midnight Cry (pe-


riódico Clamor da Meia-Noite), num esforço para despertar a ci-
dade de Nova Iorque para a proximidade da volta de Cristo. Fun-
dou o Midnight Cry, como um jornal diário de dois centavos, pa-
ra reforçar uma campanha evangelística milerita que estava sen-
do realizada na importante metrópole da nação. Himes mandava
imprimir 10 mil exemplares diariamente, durante algumas sema-
nas e os vendia por meio de meninos-jornaleiros nas ruas ou os
distribuía gratuitamente. Pelo menos um exemplar chegava às
mãos de cada pastor no Estado de Nova Iorque. Em 1842, somen-
te ele distribuiu mais de 600 mil exemplares do Midnight Cry em
cinco meses. Quando a campanha de Nova Iorque chegou ao fim,
o jornal tornou-se semanário.
O sucesso de Himes com essa publicação periódica logo esti-
mulou imitadores, e a literatura adventista começou a sair do pre-
lo com urgência nunca vista antes.
Além dos periódicos, Himes dirigiu a publicação de grande
quantidade de folhetos, brochuras e livros. Muitos deles foram reu-
nidos na “Biblioteca do Segundo Advento”, formando uma coleção
que as pessoas compravam por menos de dez dólares, para distri-
buir em comunidades locais. Em torno de julho de 1841 o progra-
ma de publicações adventistas havia crescido tanto que houve ne-
cessidade de contratar Josias Litch (pastor metodista) para atuar
como “representante geral” da Comissão de Publicações. Essa pro-
vidência deixou Himes livre para atender aos chamados de viagem
e pregações em benefício das publicações mileritas.
Não lhe agradava, porém, a idéia de difundir a mensagem do
advento unicamente por meio de publicações. Organizador nato,
o dinâmico Himes iniciou a primeira Associação Geral dos Cris-
tãos Que Esperam o Advento Para Outubro de 1840. Essa “Asso-
ciação Geral”, sediada em Boston, conseguiu antes de 1844 in-
fluenciar a formação de, pelo menos, mais outras 15, além das As-
sociações mileritas locais.
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RAÍZES MILERITAS 15

Além disso, Himes desempenhou relevante papel no desenvol-


vimento das reuniões campais adventistas. Entre o verão de 1842
e o outono de 1844, os mileritas realizaram mais de 130 reuniões
campais. Estima-se que o número geral de assistentes excedeu a
meio milhão de pessoas (aproximadamente um em cada 35 ame-
ricanos). O impacto das reuniões campais foi além das multidões
que as assistiram, pois eram acompanhadas de bastante publicida-
de e realizadas em grandes metrópoles ou nos arredores.
Para acomodar as multidões das reuniões campais em locais
onde os ajuntamentos externos eram inapropriados e não havia
edifícios adequados disponíveis, Himes foi o primeiro a usar uma
tenda. Com a capacidade de aproximadamente 4 mil assentos, a
tenda milerita foi a maior de sua espécie nos Estados Unidos até
aquela época. A novidade da tenda gigante, naturalmente, servia
para atrair ouvintes. Relata-se que, em alguns lugares, milhares
de pessoas impossibilitadas de entrar na tenda, ficavam escutando
a mensagem em pé do lado de fora.
Outras partes do mundo, além da América do Norte, também
ouviram a mensagem milerita. O método milerita de alcançar o
mundo geralmente não era enviar missionários, mas colocar suas
publicações em navios destinados a vários portos marítimos. Foi
assim que, por volta do verão de 1842, Himes pôde escrever que
as publicações mileritas haviam sido “enviadas a todos os postos
missionários conhecidos do globo” (ST, 3 de agosto de 1842). Sob
sua orientação, a mensagem do advento exerceu considerável im-
pacto na América do Norte e foi “ouvida” por meio da palavra im-
pressa em outras partes do mundo. Esse sucesso, contudo, trouxe
como reação inevitável a resistência das igrejas.

Carlos Fitch e a “Queda de Babilônia”

A pregação milerita de que Cristo voltaria por volta de 1843


contradizia frontalmente o ensino protestante geralmente aceito
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16 UMA IGREJA MUNDIAL

de que Cristo viria depois do milênio. Embora os púlpitos e os


templos da maioria das denominações tivessem sido franqueados
aos pregadores adventistas durante o início da década de 1840, a
partir de 1843 as coisas começaram a mudar. Os mileritas foram
sendo cada vez mais ridicularizados e muitas vezes tiveram que
optar entre sua crença no advento e a crença de sua denominação.
Os que escolheram conservar a fé no breve retorno de Cristo fo-
ram pouco a pouco sendo excluídos das congregações de que fa-
ziam parte. Em outras palavras, enquanto se aproximava o “ano
do fim”, intensificava-se o conflito teológico entre os que aguar-
davam o advento.
Foi nesse contexto que Carlos Fitch (ministro milerita popular
da denominação congregacionalista) pregou no verão de 1843 um
sermão baseado em Apocalipse 18, focalizando a queda de Babilô-
nia. Sua mensagem foi: “Retirai-vos dela, povo meu” (Apoc. 18:2
e 4; ver 14:8) Este sermão, publicado posteriormente sob a forma
tanto de artigo como de folheto, assinalou outra mudança na for-
mação milerita até que os crentes do advento chegaram progres-
sivamente a reconhecer-se como uma corporação separada.
Até o verão de 1843, os mileritas, seguindo o exemplo da maio-
ria dos protestantes, identificava de modo geral o papado como a
Babilônia de Apocalipse 18:1-5. Mas, argumentava Fitch: Babilô-
nia é o anticristo, e quem quer que se oponha ao reino pessoal de
Jesus Cristo neste mundo é anticristo. A definição de Fitch do an-
ticristo incluía todos os católicos e protestantes que rejeitaram o
ensino de um Cristo que voltaria em breve.
“Retirar-se de Babilônia” – escreveu Fitch – “é converter-se à
verdadeira doutrina escriturística da vinda da pessoa e do reino de
Cristo. . . . Se você é cristão, retire-se de Babilônia! Se você preten-
de ser achado como cristão quando Cristo aparecer, retire-se de Ba-
bilônia, e faça isso agora! . . . Retire-se de Babilônia, ou pereça”
(Come Out of Her, My People, págs. 18, 19 e 24). Foi assim que
Fitch forneceu a muitos adventistas mileritas um fundamento lógi-
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RAÍZES MILERITAS 17

co para separarem-se numa organização distinta antes que termi-


nasse o tempo de graça da Terra. O chamado era para abandonar as
igrejas que haviam rejeitado a mensagem da hora do juízo.
Embora a maioria dos líderes mileritas tenha a princípio rea-
gido friamente ao chamado de separação feito por Fitch, a reação
agressiva no seio das diversas denominações fez com que muitos
crentes adventistas que estavam enfrentando crescente oposição e
sendo excluídos das igrejas, aceitassem o chamado. Himes não se
tornou um defensor da separação até o outono de 1844 e, mesmo
assim, depois disso, de maneira relutante. Miller nunca foi favorá-
vel à separação, ainda que a Igreja Batista de Low Hampton, de
onde era membro, o tenha finalmente expulsado.
Ao entrar o mundo no predito “ano do fim”, a separação não era
mais uma escolha, mas algo imposto pela força das circunstâncias.

A Passagem do Tempo

A princípio Miller relutara em ser demasiado específico a res-


peito do tempo exato da volta de Cristo. Sua mensagem enfatiza-
va “em torno do ano de 1843”. Mas até janeiro de 1843 ele havia
chegado à conclusão, com base na profecia dos 2.300 dias de Da-
niel 8:14 e no calendário judaico, de que Cristo voltaria nalgum
momento entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844.
“PREPARA-TE PARA TE ENCONTRARES COM TEU DEUS” dizia
a manchete do Western Midnight Cry (O Clamor Ocidental da
Meia-Noite), de 8 de março de 1844, ao aproximar-se o fim do pe-
ríodo estabelecido. Mas, é desnecessário dizer: o “ano do fim do
mundo” de Miller passou, e Jesus não voltou. Foi assim que os
mileritas sofreram seu primeiro desapontamento.
Um Guilherme Miller frustrado mas profundamente sincero es-
creveu a Himes em 25 de março de 1844: “Estou agora sentado junto
à minha velha escrivaninha. . . . Tendo obtido a ajuda de Deus até o
presente momento, ainda aguardo o querido Salvador. . . . O tempo,
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18 UMA IGREJA MUNDIAL

conforme eu o calculei, cumpriu-se agora; e espero a cada momento


ver o Salvador descendo do Céu. . . . Se Deus pretende que eu conti-
nue a advertir o povo da Terra, ou não, estou confuso em saber. . . .
Espero ter purificado minhas vestes do sangue das almas. Sinto que,
tanto quanto estava em meu poder, livrei-me de toda culpa da conde-
nação deles” (MC, 18 de abril de 1844).
Um igualmente frustrado Himes redigiu um editorial em 24 de
abril de 1844: “Na passagem do ano judaico, nossos amigos e o pú-
blico . . . têm o direito de esperar de nossa parte alguma satisfação
a respeito do ponto de vista que defendemos. . . . Nós . . . admiti-
mos plena e francamente que a data esperada e divulgada . . . pas-
sou: terminou o ano judaico, e o Salvador não Se revelou; e não
disfarçamos de modo algum o fato de que estávamos equivocados
quanto ao tempo exato do término dos períodos proféticos.”
Entretanto, Himes acrescentou de forma significativa: “Jamais
conseguimos encontrar outra data para o término dos períodos
proféticos.” Continuou depois a infundir esperança em seus leito-
res, observando que “fomos colocados numa posição, na qual Deus
previu que Seus filhos seriam colocados, ao término da visão; e pa-
ra a qual Ele fez provisão, por meio do profeta Habacuque.”
Afinal de contas, o profeta não escreveu: “Porque a visão ain-
da está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa
para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente,
virá, não tardará” (Hab. 2:3)? Himes fez a ligação desse texto
com Mateus 25:5, que aponta para a demora do Noivo antes de
Sua vinda, enquanto aquelas que esperavam “foram tomadas de
sono e adormeceram”.
Com base nesses textos, Himes pôde dizer que “estamos agora
preparados para contar ao mundo o que faremos . . . É nossa in-
tenção manter firme a integridade de nossa fé sem vacilar. . . .
Continuaremos a crer na Palavra de Deus, em sua aceitação lite-
ral: pois nem um i nem um til de tudo quanto está escrito falha-
rá” (AH, 24 de abril de 1844).
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RAÍZES MILERITAS 19

Foi assim que os adventistas mileritas entraram no “tempo de


espera”. Seu movimento fora salvo da desintegração pelo fato de
haver alguma imprecisão a respeito da data exata para o cumpri-
mento profético e pela aplicação da profecia de Habacuque e ou-
tros textos à sua situação. Os adventistas ficaram desapontados,
mas o movimento prosseguiu, se bem que com menos entusias-
mo que antes.

O Movimento do Sétimo Mês e o


“Verdadeiro Clamor da Meia-Noite”

O milerismo encontrou nova vida na reunião campal de Exe-


ter, em New Hampshire, ocorrida em meados de agosto de 1844.
Naquela convocação, o pastor milerita S. S. Snow demonstrou
convincentemente, aplicando diversos cálculos matemáticos, que
o cumprimento da profecia dos 2.300 dias de Daniel 8:14 ocorre-
ria no outono de 1844. Na verdade, por meio de abrangente estu-
do das cerimônias do ano judaico, Snow predisse que a profecia de
Daniel a respeito da purificação do santuário encontraria seu tér-
mino no judaico Dia da Expiação: o décimo dia do sétimo mês do
ano judaico (ver Lev. 23:27).
Snow afirmava haver calculado o dia exato para a purificação,
o qual os mileritas ainda interpretavam como a segunda vinda de
Cristo. Esse dia, em 1844, segundo o cálculo dos judeus caraítas,
estava marcado para 22 de outubro. Assim sendo, afirmou Snow
que Cristo voltaria em 22 de outubro de 1844, dentro de aproxi-
madamente dois meses.
A idéia empolgou seu auditório. Deixaram a reunião de Exeter
para espalhar sua urgente mensagem tão rapidamente e tão am-
plamente quanto fosse possível. “Eis o noivo!” – proclamaram
eles. “Cristo está vindo no décimo dia do sétimo mês! Breve é o
tempo; preparem-se! Preparem-se!” Embora Miller, Himes e ou-
tros líderes adventistas hesitassem em fixar suas esperanças num
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20 UMA IGREJA MUNDIAL

dia definido, o entusiasmo do sétimo mês espalhou-se como fogo


em palha por entre a maioria dos crentes.
As palavras de George Storrs nos dão uma idéia do entusiasmo
contagiante. Em setembro ele escreveu: “Ergui minha pena com sen-
timentos nunca dantes experimentados. Não tenho dúvida alguma,
em minha mente, de que o décimo dia do sétimo mês testemunhará
a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo nas nuvens do céu. Esta-
mos, pois, a poucos dias desse acontecimento. Será um momento de
terror para os despreparados, mas de glória para os que estão pron-
tos. Sinto que estou fazendo o último apelo jamais feito por meio do
prelo. Meu coração está extravasando. . . .Oh! Deus! Todos temos es-
tado toscanejando e dormindo – tanto os prudentes quanto os lou-
cos; mas nosso Salvador disse que assim aconteceria; e ‘assim as Es-
crituras são cumpridas,’ e esta é a última profecia referente aos acon-
tecimentos que precedem o advento pessoal de nosso Senhor. Vem
agora o VERDADEIRO Clamor da Meia-Noite. O anterior não passa-
va de um alarme. AGORA O VERDADEIRO ESTÁ SOANDO: e oh, co-
mo essa hora é solene!” (MC, 3 de outubro de 1844).
Miller, Himes e outros líderes mileritas finalmente capitula-
ram ante a força dos argumentos de Snow. Em 6 de outubro de
1844 Miller escreveu a respeito de seu entusiasmo e esperanças:
“Prezado irmão Himes: Vejo no sétimo mês uma glória que antes
eu não notara. . . . Dá graças ao Senhor, ó minha alma. Abençoa-
dos sejam os irmãos Snow, Storrs e outros pelo papel que desem-
penharam em me abrir os olhos. Estou quase no lar. Glória! Gló-
ria! Glória! Vejo que a data é correta. . . .
“Minha alma está tão absorta que não consigo escrever. Con-
voco o irmão e todos quantos amam a vinda do Senhor a rende-
rem-Lhe graças por esta gloriosa verdade. Minhas dúvidas, temo-
res e trevas, tudo se dissipou. Percebo que ainda estamos certos.
A Palavra de Deus é verdadeira; e minha alma está cheia de go-
zo. . . . Oh! Eu desejaria poder clamar em alta voz. Mas hei de bra-
dar quando ‘chegar o Rei dos reis’.
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RAÍZES MILERITAS 21

“Parece que estou ouvindo você dizer: ‘O irmão Miller agora é


fanático.’ Pois muito bem, chamem-me do que quiserem. Eu não
me importo. Cristo virá no sétimo mês, e nos abençoará a todos.
Oh! Esperança gloriosa” (Ibidem, 12 de outubro de 1844; itálicos
supridos).
Em 16 de outubro Himes anunciou que o Advent Herald (an-
teriormente Signs of the Times) deixaria de ser publicado. “Visto
que a data do presente número do Herald é nosso último dia de
publicação antes do décimo dia do sétimo mês, não tomaremos
providência para editar a revista na semana que vem. . . . Iremos
parar de falar sobre esta fé. . . . Aí vem o Noivo; saí-lhe ao encon-
tro!” (AH, 16 de outubro de 1844).
A essa altura, conseguimos apenas imaginar a ansiedade nas fi-
leiras mileritas, mas podemos captar algo dela, se nos perguntar-
mos: Como eu me sentiria se soubesse que Cristo estaria voltan-
do dentro de poucos dias? Como eu agiria? Como ordenaria mi-
nhas prioridades?
Em sua convicção e otimismo, os crentes deram tudo de si
num último esforço para advertir o mundo de seu juízo iminente.
Não tomaram nenhuma providência em relação ao futuro: não
precisavam. Alguns deixaram safras por colher, fecharam lojas e
demitiram-se do emprego. Jesus estava voltando. Esse pensamen-
to era na boca como mel, mas, nem suspeitavam eles, seria amar-
go no estômago (ver Apoc. 10:8-10).

O “Grande Desapontamento”

Em 22 de outubro, 10 mil crentes ficaram até tarde na expec-


tativa do aparecimento de Jesus nas nuvens, enquanto inúmeros
outros ficaram à espera, na dúvida, temendo que os mileritas pu-
dessem estar com a razão. Mas o dia veio e foi embora, animando
assim os escarnecedores e hesitantes, mas deixando os mileritas
em total confusão e desânimo. Suas afirmações específicas a res-
009-024 Cap 1 22.12.13 15:03 Page 22

22 UMA IGREJA MUNDIAL

peito do tempo e sua ilimitada confiança na data de 22 de outubro


serviu apenas para aumentar-lhes a decepção.
Em 24 de outubro, Josias Litch escreveu a Miller: “Hoje é um
dia nublado e escuro. As ovelhas estão dispersas, e o Senhor ainda
não veio” (Carta de JL a GM e JVH, 24 de outubro de 1844).
Hiram Edson escreveu posteriormente: “Nossas mais caras es-
peranças e expectativas foram malogradas, e nos sobreveio tama-
nho espírito de pranto como nunca dantes o experimentamos. Pa-
recia não ser comparável à perda de todos os amigos terrenos. Cho-
ramos, e choramos até o dia amanhecer” (H. Edson MS).
E Washington Morse refletiu: “Esse dia chegou e passou, e a es-
curidão de outra noite fechou suas asas sobre o mundo. Junto com
essa treva, porém, sobreveio aos crentes do advento a dor do desa-
pontamento que só pode encontrar paralelo na tristeza dos discí-
pulos após a crucifixão do seu Senhor. A passagem do tempo foi
um amargo desapontamento. Os verdadeiros crentes haviam re-
nunciado a tudo por Cristo e haviam compartilhado Sua presença
como nunca antes. O amor de Jesus enchia-lhes o coração; e com
inexprimível desejo oravam: ‘Vem, Senhor Jesus, e vem depressa;’
mas Ele não veio. E então, retomar os cuidados, perplexidades e
perigos da vida, contemplar os descrentes zombadores e injuria-
dores escarnecerem deles como nunca, foi uma tremenda prova
de fé e paciência. Quando o pastor Himes visitou Waterbury, no
Vermont, pouco tempo depois da passagem do tempo, e declarou
que os irmãos deviam preparar-se para outro inverno frio, quase
perdi o controle emocional. Saí do local da reunião e chorei como
criança” (RH, 7 de maio de 1901; itálicos supridos).
Era previsível que Miller, como fundador e principal líder do
movimento, ficasse profundamente abalado com a experiência. Na
superfície, contudo, ele conservou a postura de um relações públi-
cas otimista. “Embora eu tivesse sofrido duas decepções,” declarou
ele, em 10 de novembro de 1844, “ainda não estou abatido nem de-
sanimado. Deus tem estado comigo em Espírito, e tem-me confor-
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RAÍZES MILERITAS 23

tado. . . . Embora rodeado de inimigos e de escarnecedores, tenho


a mente completamente calma, e minha esperança na vinda de
Cristo continua tão firme como sempre. Fiz somente o que depois
de anos de madura reflexão achei ser meu dever solene. . . .
“Irmãos, permaneçam firmes; não permitam que ninguém
lhes tome a coroa. Fixei minha mente sobre outro tempo, e aqui
quero ficar até que Deus me dê mais luz – e esse tempo é Hoje,
HOJE e HOJE, até que Ele venha, e eu veja Aquele por quem mi-
nha alma anela” (MC, 5 de dezembro de 1844).
Apesar dessas palavras animadoras, grande número de mileri-
tas provavelmente abandonou a fé no Segundo Advento. No en-
tanto, os que continuaram a esperar a breve vinda de Cristo viram
seu movimento, uma vez harmonioso, dissolver-se no caos, en-
quanto líderes diferentes e “líderes” auto-nomeados publicavam
seus pontos de vista e contra-argumentos a respeito do significa-
do da experiência pela qual passaram e sobre a “verdade” do Se-
gundo Advento.
Desse caldeirão efervescente e dessa massa informe de desâni-
mo e confusão sairia a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Ninguém,
naturalmente, poderia prever esse desenvolvimento em 1844. Es-
sa história será o ponto focal dos dois próximos capítulos.

Para Leitura Adicional

Froom, LeRoy Edwin. The Prophetic Faith of Our Fathers (A


Fé Profética de Nossos Pais). Washington, D.C.: Review and He-
rald, 1954. Vol. 4, págs. 443-851.
Gordon, Paul A. Herald of the Midnight Cry (Arauto do Clamor
da Meia-Noite). Boise, Idaho: Pacific Press, 1990.
Knight, George R. Millenial Fever and the End of the World: A
Study of Millerite Adventism (Febre Milenista e o Fim do Mundo).
Boise, Idaho: Pacific Press, 1993.
_____, ed. 1844 and the Rise of Sabbatarian Adventism (1844
009-024 Cap 1 22.12.13 15:03 Page 24

24 UMA IGREJA MUNDIAL

e o Surgimento do Adventismo Sabatista). Hagerstown, Md.: Re-


view and Herald, 1994, págs. 1-142. (Este volume contém repro-
duções da maioria dos documentos citados neste capítulo.)
Land, Gary, ed. Adventism in America: a History (O Adventis-
mo na América do Norte: Uma História), ed. rev. Berrien Springs,
Mich.: Andrews University Press, 1998, págs. 1-28.
Maxwell, C. Mervyn. História do Adventismo. Santo André, SP:
Casa Publicadora Brasileira, 1982, págs. 9-34.
Neufeld, Don F., ed. The Seventh-day Adventist Encyclopedia
(Enciclopédia Adventista do Sétimo Dia), 2a ed. rev. Hagerstown,
Md.: Review and Herald, 1996, vol. 2, págs. 73-82.
Nichol, Francis D. The Midnight Cry (O Clamor da Meia-Noi-
te). Washington, D.C.: Review and Herald, 1994.
Schwarz, Richard W. Light Bearers to the Remnant: Denomi-
national History Textbook for Seventh-day Adventist College Clas-
ses (Portadores de Luz ao Remanescente: Livro-Texto de História
Denominacional Para Classes Universitárias Adventistas do Sétimo
Dia) . Mountain View, Calif.: Pacific Press, 1979, págs. 13-52.
025-048 Cap 2 22.12.13 15:22 Page 25

A Era do

Capítulo 2
Desenvolvimento
Doutrinário
(1844 - 1848)

O período seguinte ao Grande Desaponta-


mento de 22 de outubro de 1844 encontrou o
adventismo milerita num estado de completa
confusão. Do ápice da esperança foi à profun-
deza do desespero. A certeza matemática de
sua fé os deixou em choque quando o espera-
do acontecimento não se realizou. É impos-
sível apresentar um quadro completamente
exato dos decepcionados mileritas, mas é
provável que a maioria ou abandonou a fé no
advento e voltou para a igreja que freqüenta-
va anteriormente ou mergulhou na descren-
ça secular.
Podemos, de modo impreciso, classificar
os que conservaram sua esperança no breve
retorno de Cristo em três grupos, dependendo
da interpretação adotada a respeito do que ha-
via ocorrido em 22 de outubro. O grupo mais
fácil de se identificar, sob a liderança de Josué
025-048 Cap 2 22.12.13 15:22 Page 26

26 UMA IGREJA MUNDIAL

V. Himes, logo passou a acreditar que não havia acontecido na-


da naquela data.
Defendendo a idéia de que haviam estado corretos quanto ao
acontecimento esperado (isto é, a segunda vinda de Cristo), con-
cluíram que o erro deles estava no cálculo do tempo. Em 5 de no-
vembro de 1844, Himes escreveu que “agora estamos convencidos
de que não podemos depender das autoridades nas quais baseamos
nossos cálculos para tempo definido.” Embora “estejamos perto do
fim, . . . não temos conhecimento de uma data fixa ou tempo de-
finido, mas realmente cremos que devemos vigiar e esperar a vin-
da de Cristo como um acontecimento que pode sobrevir a qualquer
hora” (MC, 7 de novembro de 1844; itálicos supridos).
Sob a liderança de Himes, este grupo tomou providências para or-
ganizar-se numa corporação adventista distinta em Albany, Nova
York, em abril de 1845. O idoso Guilherme Miller, sob a influência de
Himes, emprestou sua autoridade para o movimento de Albany. Uma
razão para a iniciativa de organizar-se era o fanatismo que corria de-
senfreado pelas fileiras adventistas. Devemos encarar a Associação de
Albany, portanto, como uma tentativa de estabilização.
Isso nos leva a um segundo grupo identificável de adventistas
pós-desapontamento: os “espiritualizadores”. Este setor do adven-
tismo obteve seu nome do fato de apresentar uma interpretação
espiritual do acontecimento de 22 de outubro. Os espiritualizado-
res advogavam que tanto o tempo quanto o acontecimento esta-
vam corretos. Em outras palavras, Cristo havia voltado em 22 de
outubro, mas havia sido uma vinda espiritual.
O fanatismo surgiu facilmente entre os espiritualizadores. Al-
guns pretendiam estar sem pecado, enquanto outros se recusa-
vam a trabalhar, visto estarem num sábado milenial. Outros ain-
da, seguindo a injunção bíblica de que devemos tornar-nos como
criancinhas, já não faziam uso de garfos e facas e engatinhavam
pelo chão. Não é preciso dizer que no meio desse grupo era co-
mum pipocar o entusiasmo carismático.
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 27

Uma terceira classe de adventismo pós-desapontamento apare-


ce entre os que afirmavam estar corretos na data, mas errados no
acontecimento previsto. Em outras palavras: alguma coisa real-
mente aconteceu em 22 de outubro, mas não foi o Segundo Ad-
vento. Entre esses achavam-se os futuros líderes do adventismo
do sétimo dia.
Para este grupo, parecia que o grupo majoritário sobre a lide-
rança de Himes havia abandonado a mensagem adventista ao ne-
gar a legitimidade da experiência pela qual passaram no movi-
mento de 1844. Embora fosse a princípio o menor dos grupos,
passou a considerar-se o verdadeiro sucessor do outrora vigoroso
movimento milerita.
Das três divisões do milerismo acima descritas, a terceira foi a
última a adquirir visibilidade. Antes, porém, de poder ser definida
como uma forma distinta de adventismo, competia-lhe explicar
duas coisas: (1) O que realmente aconteceu em 22 de outubro de
1844? e (2) Qual era o santuário que precisava ser purificado?

Redefinindo o Santuário

O primeiro passo em direção a uma compreensão mais clara


das questões acima mencionadas ocorreu em 23 de outubro de
1844. Naquele dia, Hiram Edson, um fazendeiro metodista de Port
Gibson, Nova Iorque, convenceu-se, durante um período de ora-
ção na companhia de alguns crentes, “de que se devia dar um es-
clarecimento” e que nosso “desapontamento deveria ser explica-
do”. Logo depois, ele e um companheiro saíram para encorajar
seus correligionários. Enquanto atravessavam um campo, confor-
me Edson relatou, “detive-me quase a meio do caminho” e “o céu
parecia aberto aos meus olhos. . . . Vi, distinta e claramente que,
em lugar de nosso Sumo Sacerdote sair do Santíssimo do santuá-
rio celestial para vir à Terra, no décimo dia do sétimo mês, no fim
dos 2.300 dias, Ele havia entrado pela primeira vez naquele dia no
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28 UMA IGREJA MUNDIAL

segundo compartimento daquele santuário; e que Ele tinha uma


obra a realizar no Santíssimo antes de retornar à Terra.”
A mente de Edson também foi “direcionada” para Apocalipse
10, com seu relato do livrinho que era doce na boca, mas amargo
no estômago. Identificando a experiência dos mileritas ao pregar
as profecias de Daniel com a experiência agridoce de Apocalipse
10, Edson notou que o capítulo se encerrava com a ordem para
“profetizar outra vez”.
Naquele momento, o chamado de seu companheiro, que se
adiantara no caminho, fez Edson voltar a perceber onde estava.
Quando perguntado o que havia de errado, Edson replicou que “o
Senhor estava respondendo nossa oração matinal, dando esclare-
cimento a respeito de nosso desapontamento”.
A “visão” de Edson levou-o dentro de pouco tempo a efetuar
um estudo mais abrangente da Bíblia com O. R. L. Crosier e o
Dr. F. B. Hahn. Juntos concluíram, em conformidade com a ex-
periência de Edson do dia 23 de outubro, que o santuário a ser
purificado em Daniel 8:14 não era a Terra nem a igreja, mas o
santuário celestial, do qual o santuário terrestre havia sido um
tipo ou cópia.
Hahn e Edson chegaram à conclusão de que suas descobertas
eram “exatamente aquilo que o remanescente disperso precisava”
para poder explicar o desapontamento e “trazer os irmãos para o
caminho certo”. Como resultado, concordaram em dividir as des-
pesas editoriais, se Crosier “escrevesse sobre o assunto do santuá-
rio”. Conforme Edson, Crosier começou a publicar as descobertas
desse estudo em equipe na revista Day-Star em princípios de 1845
(MS de H. Edson).
A seguir, em 7 de fevereiro de 1846, Enoch Jacobs publicou as
descobertas deles numa edição extra do Day-Star sob o título
“The Law of Moses” (A Lei de Moisés). Nessa época, o ponto de vis-
ta defendido por eles estava bastante amadurecido. Por meio de
um estudo da Bíblia, Crosier e seus colegas haviam fornecido res-
025-048 Cap 2 22.12.13 15:22 Page 29

A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 29

postas para as perguntas: (1) Que aconteceu em 22 de outubro de


1844? e (2) Qual o santuário que precisava ser purificado?
Podemos resumir as conclusões mais importantes a que chega-
ram, conforme apresentadas em “The Law of Moses”: (1) Existe um
santuário literal no Céu. (2) O sistema do santuário hebreu era uma
representação visual completa do plano da salvação, que foi copia-
da do modelo do santuário celestial. (3) Assim como os sacerdotes
terrestres oficiam, no santuário do deserto, num ministério com-
posto por duas fases, assim Cristo tem um ministério bifásico no
santuário do Céu. A primeira fase iniciou-se no lugar santo por oca-
sião de Sua ascensão, ao passo que a segunda teve seu início em 22
de outubro de 1844, quando Cristo passou do primeiro para o se-
gundo compartimento do santuário celestial. Assim, o dia antitípi-
co ou dia celestial da expiação começou naquela data. (4) A primei-
ra fase do ministério de Cristo tratou do perdão; a segunda envol-
ve o apagamento dos pecados e a purificação tanto do santuário co-
mo de cada crente. (5) A purificação de Daniel 8:14 era uma purifi-
cação do pecado e, portanto, era realizada por meio de sangue, e
não por fogo. (6) Cristo não voltaria à Terra enquanto não concluís-
se Seu ministério no segundo compartimento.
Foi assim que o estudo em equipe feito por Edson, Crosier e
Hahn confirmou a “visão” recebida por Edson em 23 de outubro.
Por meio de intenso estudo de livros como Hebreus e Levítico em
ligação com Daniel 7 a 9 e o livro de Apocalipse, eles chegaram à
explicação de que necessitavam sobre a purificação do santuário.
Também começaram a ter uma pálida compreensão da ordem da-
da em Apocalipse 10:11, de que os desapontados deveriam profe-
tizar “outra vez acerca de muitos povos, nações, línguas e reis”.
No entanto, durante o fim da década de 1840, conforme veremos,
a idéia que eles faziam de profetizar para o mundo limitava-se a
pregar a verdade recém-descoberta apenas para os mileritas ainda
não devidamente esclarecidos sobre “a purificação do santuário” e
doutrinas correlatas.
025-048 Cap 2 22.12.13 15:22 Page 30

30 UMA IGREJA MUNDIAL

A nova maneira de entender a purificação do santuário tornou-se


um dos principais blocos de construção no desenvolvimento do que
viria a ser a teologia adventista do sétimo dia. Junto com a crença na
breve vinda de Jesus, herdada de Miller, o ministério celestial bifási-
co de Cristo tornou-se um ensino fundamental para a denominação
que se formaria durante as duas décadas seguintes.
Antes de sairmos do assunto da purificação do santuário, deve-
mos notar que os adventistas logo estabeleceram a relação entre es-
se ensino e a idéia do juízo investigativo ou juízo pré-advento.
Miller, obviamente, havia relacionado a cena de julgamento de
Daniel 7, a purificação do santuário de Daniel 8:14 e o anúncio “é
chegada a hora do Seu juízo” de Apocalipse 14:7 com o juízo mar-
cado para o Segundo Advento. Contudo, já em 1840, um dos prin-
cipais representantes de Miller havia ensinado a necessidade de um
juízo pré-advento. Em fevereiro daquele ano, o pregador metodis-
ta Josias Litch fez ver que o juízo deveria ocorrer antes da ressur-
reição. Por volta de 1842 Litch havia depurado seu ponto de vista
e chamado a atenção para o fato de que o divino ato de trazer algu-
mas pessoas de volta à vida e levar outras à morte na Segunda Vin-
da constitui um juízo executivo que requer, necessariamente, de
um “julgamento” preliminar (Prophetic Expositions, vol. 1, págs.
49-54). O grupo que evoluiu para os adventistas do sétimo dia de-
senvolveria mais tarde esse tema. Embora não tenha explicitado o
juízo pré-advento no artigo que escreveu em fevereiro de 1846,
Crosier chamou atenção para o fato de que o sumo sacerdote usa-
va o peitoral do juízo no Dia da Expiação e que a purificação do
santuário era uma purgação de pecados.
Foi apenas um pequeno passo a mais para, em 1847, José Ba-
tes (ex-capitão de navio e ativo leigo milerita), e outros já em
1845, equiparar o dia celestial da expiação com o juízo pré-adven-
to que deveria ocorrer, necessariamente, antes de Cristo voltar pa-
ra executar o juízo do advento, no qual todos receberiam então
sua justa recompensa. Embora tendo resistência, a princípio, por
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 31

parte de alguns (inclusive Tiago White, jovem pregador da Cone-


xão Cristã, que se havia tornado vigoroso defensor da mensagem
de 1844), este ensino tornou-se firmemente consolidado por vol-
ta de meados da década de 1850.
Foi assim que a teologia adventista do sétimo dia se desen-
volveu, vindo a considerar a purificação do santuário de Daniel
8:14 como o ato de investigação ou juízo pré-advento efetuado
por Cristo no Lugar Santíssimo do santuário celestial. Conse-
qüentemente, quando os que evoluíam para adventistas do sé-
timo dia pregaram a mensagem do primeiro anjo (“é chegada a
hora do Seu juízo” [Apoc. 14:7]), interpretaram-na finalmente
como um anúncio do início do juízo pré-advento em 22 de ou-
tubro de 1844.
Até aqui examinamos o desenvolvimento de dois pilares distin-
tivos que seriam mais tarde parte da teologia adventista do sétimo
dia: (1) a volta pessoal, breve e pré-milenista de Jesus – crença her-
dada dos mileritas; e (2) o ministério de Cristo em dois comparti-
mentos, abrangendo o juízo pré-advento – ponto de vista doutriná-
rio compreendido pelos crentes ao se esforçarem por compreender
o significado da purificação do santuário em Daniel 8:14.
Desse modo, enquanto a maioria dos adventistas mileritas, sob
a liderança de Himes, ao interpretarem a profecia dos 2.300 dias
de Daniel 8:14, encaravam o elemento tempo como um erro, o
grupo que evoluía para o adventismo do sétimo dia defendia que
os mileritas haviam acertado quanto ao tempo, mas errado quan-
to ao acontecimento a realizar-se em 22 de outubro de 1844. Afi-
nal de contas, perceberam eles, ninguém fora capaz de refutar os
cálculos cronológicos de Miller. Estudos adicionais, porém, deixa-
ram óbvio para eles que os mileritas haviam interpretado erronea-
mente o simbolismo da “purificação” e do “santuário”.
Esse pequeno grupo de crentes valorosos recusou-se a descer
da plataforma profética que fizera do movimento milerita uma
força bastante poderosa. Embora tenham edificado sobre os vis-
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32 UMA IGREJA MUNDIAL

lumbres de Miller e de Snow, fizeram o que acreditaram ser as


correções necessárias. Sentiram a profunda convicção de que
Deus havia chamado Miller para iluminar o mundo com a mensa-
gem da proximidade do Segundo Advento.

O Dom de Profecia

Intimamente relacionado com a autenticidade profética da


mensagem milerita e a precisão cronológica de 22 de outubro, es-
tava o chamado da jovem de 17 anos, Ellen Harmon (Ellen White
depois que casou em 1846) para o ministério profético. Junto com
a maior parte de outros mileritas, ela renunciou em novembro de
1844 à crença de que alguma coisa havia acontecido em 22 de ou-
tubro. Mas para sua surpresa, lembrou posteriormente: “Enquan-
to eu estava orando junto ao altar da família [em dezembro de
1844], o Espírito Santo desceu sobre mim.” Arrebatada em visão,
quando procurou os companheiros adventistas e não os pôde
achar, uma voz lhe disse para olhar um pouco mais para cima.
“Com isto,” relatou ela, “olhei mais para o alto e vi um caminho
reto e estreito. . . . O povo do advento estava nesse caminho, a via-
jar para a cidade [celestial] que se achava na sua extremidade mais
afastada. Tinham uma luz brilhante colocada por trás deles no co-
meço do caminho, a qual um anjo me disse ser o ‘clamor da meia-
noite.’ Foi dessa forma que Deus confirmou 22 de outubro como
uma data de cumprimento profético.
“Essa luz,” continuou Ellen Harmon, “brilhava em toda a ex-
tensão do caminho e proporcionava claridade para seus pés [dos
santos], para que assim não tropeçassem. Se conservavam o olhar
fixo em Jesus, que Se achava precisamente diante deles, guiando-
os para a cidade, estavam seguros.”
Alguns, porém, segundo ela, “temerariamente negavam a exis-
tência da luz atrás deles e diziam que não fora Deus quem os guia-
ra tão longe”. Para esses, “a luz atrás desaparecia, deixando-lhes
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 33

os pés em densas trevas”, e eles “caíam do caminho para baixo, no


mundo tenebroso e ímpio” (PE, págs. 14 e 15).
Essa primeira visão nos diz muita coisa sobre o ministério de
Ellen Harmon. Em primeiro lugar, ela nos aponta para a paixão de
toda a sua vida: a breve volta de Jesus e o cuidado de Deus por
Seus filhos. Além disso, apresenta uma dupla ênfase que atraves-
sa todo o seu ministério de setenta anos.
O primeiro aspecto dessa ênfase é que algo de grande importân-
cia ocorreu no Céu em 22 de outubro de 1844 e que os adventistas
jamais deviam esquecer seu lugar na história profética. Assim pode-
ria ela escrever posteriormente que “nada temos que recear quanto
ao futuro, a menos que esqueçamos o modo como o Senhor nos
tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado”. Os adven-
tistas, afirmava ela, eram um povo profético (LS, pág. 196).
O segundo aspecto de sua dupla ênfase era o de que as pessoas
deviam manter os olhos fixos em Jesus, seu Salvador. Assim sen-
do, os adventistas não são apenas um povo tipicamente profético;
também são um povo cristão. Conforme veremos no capítulo 5,
ela deu grande ênfase a este segundo aspecto de seu duplo enfo-
que durante o período pós-1888, ao procurar fazer com que o ad-
ventismo pusesse esses dois aspectos de seu conjunto de crenças
na perspectiva correta.
Durante 70 anos (de 1844 até a morte, em 1915), Ellen White
pregou o amor de Deus, a proximidade da volta de Cristo e a mensa-
gem da hora do juízo divino. A princípio, como era de se esperar, ela
possuía pouca autoridade. A maior parte dos crentes a tinha na con-
ta de apenas mais uma voz dentre muitas. Gradualmente, porém, os
membros da denominação que se formava começaram a reconhecer
a mensagem profética por meio dela como uma mensagem da parte
de Deus para guiar Seu povo através da crise dos últimos dias.
Levando-se em conta o fanatismo carismático existente em al-
guns setores do adventismo pós-1844, não surpreende que ela não
quisesse ser porta-voz de Deus. Sem dúvida, ela também estava
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34 UMA IGREJA MUNDIAL

ciente de que o milerismo, devido a algumas experiências lastimá-


veis, havia gerado profundo preconceito contra visões e revelações
pessoais. Na verdade, em maio de 1845, o grupo de Albany decla-
rou publicamente não ter “nenhuma confiança em quaisquer
mensagens, visões, línguas, milagres, dons extraordinários, reve-
lações” e assim por diante (MW, 5 de maio de 1845). Nunca foi fá-
cil ser profeta de Deus, e isso sucedeu com certeza também em
1844 – o mesmo ano em que Joseph Smith, o “profeta” mórmon,
perdeu a vida em um tumulto em Illinois. Mas Deus prometeu a
Ellen Harmon que a fortaleceria. Com o passar do tempo, os ad-
ventistas ficaram cada vez mais impressionados com a autentici-
dade da mensagem de Ellen. Aplicando à sua vida e obra as provas
bíblicas de um profeta, mais e mais pessoas confirmaram sua
crença no chamado dela.
A esta altura, devemos chamar a atenção para o fato de que El-
len Harmon não foi a primeira nem a única escolha de Deus para
o ofício profético entre os adventistas. No início de 1842, William
Foy, um negro liberto pertencente à Igreja Batista, recebeu duas
visões a respeito da segunda vinda de Cristo e a recompensa dos
justos. Foy pregou sua mensagem por algum tempo. Depois, pou-
co antes do Grande Desapontamento, Deus chamou para o ofício
profético um segundo homem, Hazen Foss, mas ele se recusou a
cooperar e perdeu o dom. Mais tarde, Foss encorajou Ellen Har-
mon a não incorrer no mesmo erro.
Antes de deixarmos esta seção sobre o dom de profecia, deve-
mos mencionar que o dom de Ellen White não desempenhou pa-
pel preponderante no desenvolvimento da doutrina adventista.
Em 1874, numa resposta aos críticos que alegavam terem os ad-
ventistas do sétimo dia recebido a doutrina do santuário por in-
termédio das visões de Ellen White, um destacado editor da deno-
minação replicou: “Escreveram-se centenas de artigos sobre o as-
sunto. Mas em nenhum deles, em momento algum, fez-se alusão
às visões como autoridade sobre o assunto ou como fonte da qual
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 35

se extraísse algum ponto de vista. . . . Recorre-se regularmente à


Bíblia, onde há abundante evidência para os pontos de vista que
adotamos sobre este assunto” (RH, 22 de dezembro de 1874).
Pode-se dizer o mesmo de cada um dos pontos doutrinários do
adventismo. O principal método usado pelos pioneiros na forma-
ção doutrinária era estudar a Bíblia até chegarem a um consenso
geral. Quando se chegava a esse ponto, Ellen White algumas vezes
recebia uma visão sobre o tema já estudado, sobretudo para confir-
mar o consenso e ajudar os que continuavam fora de acordo com
a maioria, para que aceitassem a exatidão das conclusões a que o
grupo chegara por meio da Bíblia. Assim sendo, podemos conside-
rar o papel da senhora White na formação doutrinária [da IASD]
mais como um papel confirmatório do que iniciatório. Conforme
veremos no capítulo 4, ela algumas vezes desempenhou papel de
maior relevância no desenvolvimento de conceitos na área do esti-
lo de vida adventista do que na formação doutrinária.
Alguns dos primeiros líderes adventistas eram bastante sensí-
veis a um possível uso impróprio do dom de profecia. Durante
anos, por exemplo, os adventistas diferiram entre si quanto ao
tempo exato do início e encerramento do sábado. Após minucioso
estudo da Bíblia, surgiu em 1855 o consenso de que o sábado co-
meça e termina com o pôr-do-sol. Bates, contudo, continuou a de-
fender o ponto de vista das seis da tarde. Foi então que a senhora
White recebeu uma visão confirmando o ponto de vista já oficiali-
zado do pôr-do-sol ao pôr-do-sol. Isso foi o bastante para que Ba-
tes e seus colegas se pusessem em harmonia com os demais. Cu-
riosamente, essa visão também modificou o ponto de vista da pró-
pria Ellen White sobre o assunto.
Surgiu depois a indagação: Por que Deus simplesmente não re-
solvia todas as questões por meio das visões em primeiro lugar? A
resposta de Tiago White fornece-nos uma compreensão decisiva do
papel desempenhado pelo dom atribuído à sua esposa. “Não pare-
ce,” escreveu ele, “ser desejo do Senhor ensinar as questões bíbli-
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36 UMA IGREJA MUNDIAL

cas a Seu povo por meio dos dons do Espírito enquanto Seus ser-
vos não examinarem diligentemente Sua Palavra. . . . Permita-
mos que os dons tenham seu devido lugar na igreja. Deus nunca
os coloca na vanguarda nem nos ordena olhar para eles em busca
de liderança na senda da verdade e no caminho para o Céu. Foi Sua
Palavra que Ele engrandeceu. As Escrituras do Antigo e do Novo
Testamentos são a lâmpada humana para iluminar a estrada para o
reino. Sigam-na. Mas se você se extraviar da verdade bíblica e cor-
rer o risco de se perder, pode ser que Deus, no tempo que Ele achar
mais conveniente, o corrija, traga-o de volta para a Bíblia e o sal-
ve” (Ibidem, 25 de fevereiro de 1868; itálicos supridos).
O adventismo do sétimo dia, no seu melhor, tem sido um mo-
vimento norteado pela Bíblia e aceita o ensino escriturístico do
dom de profecia. Contudo, um dos aspectos infelizes da história
adventista é que alguns membros da igreja têm com demasiada
freqüência abusado do dom de Ellen White dando-lhe mais pree-
minência do que à própria Bíblia. Tanto os White como os outros
fundadores do adventismo rejeitavam essa atitude não-bíblica. O
dom de profecia é uma bênção para a igreja de Deus, mas o ver-
dadeiro adventismo sempre deu primazia às Escrituras.

O Sábado

Simultaneamente com a formação doutrinária descrita acima,


os adventistas que defendiam o ensino do santuário celestial e a
validade da data de 22 de outubro começaram a obter compreen-
são mais ampla da lei de Deus e do sábado do sétimo dia.
Os primeiros adventistas a aceitarem o sábado do sétimo dia
ouviram essa verdade por meio dos batistas do sétimo dia, que no
início da década de 1840 haviam renovado sua preocupação de di-
vulgar esse vislumbre especial. Um de seus membros, uma dinâ-
mica mulher chamada Raquel Oakes, desafiou um pregador ad-
ventista pertencente à Igreja Metodista a guardar todos os manda-
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 37

mentos de Deus. Como resultado, o pastor Frederick Wheeler co-


meçou a observar o sétimo dia na primavera de 1844.
Por volta da mesma época, diversos membros da igreja de Wash-
ington, em New Hampshire, onde Wheeler costumava pregar, tam-
bém começaram a adorar no sábado bíblico. Essa, portanto, veio a
ser a primeira congregação adventista observadora do sábado após o
Grande Desapontamento.
No verão de 1844, T. M. Preble, um pregador dos batistas do livre
arbítrio que se tornara milerita, também aceitou o sábado por meio
de seus contatos com a congregação de Washington. Reconhecendo
que o tempo era breve, nem Wheeler nem Preble sentiram a respon-
sabilidade de proclamar a recém-encontrada mensagem do sábado.
Após o Grande Desapontamento, no entanto, Preble publicou
sua crença a respeito do sábado na edição de 28 de fevereiro de
1845 da revista Hope of Israel (Esperança de Israel). Mais tarde,
naquele mesmo ano, ele tornou a divulgar seus pontos de vista
num folheto de 12 páginas, de título não muito sutil: Tract, Sho-
wing That the Seventh Day Should Be Observed as the Sabbath,
Instead of the First Day; “According to the Commandment” (Fo-
lheto Mostrando Que o Sétimo Dia, e Não o Primeiro, é o Sábado
Que Deve Ser Observado “Conforme o Mandamento”).
Em março de 1845 os escritos de Preble caíram nas mãos de
José Bates, um dos três principais fundadores da Igreja Adventis-
ta do Sétimo Dia. Bates aceitou o sábado e acabou falando a res-
peito dele numa reunião com Crosier, Hahn e Edson. Edson ado-
tou o sábado bíblico, enquanto Crosier e Hahn apenas ficaram fa-
voráveis a ele. Nesse meio tempo, compartilharam seus vislum-
bres a respeito do santuário celestial com Bates, que prontamen-
te reconheceu neles sólido fundamento bíblico. Foi assim que, por
volta do fim de 1845 ou início de 1846, começou a formar-se um
pequeno grupo de adventistas em torno das doutrinas conjugadas
do ministério de Cristo no santuário celestial e da obrigatorieda-
de do sábado do sétimo dia. A partir desse ponto de nossa discus-
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38 UMA IGREJA MUNDIAL

são, referir-nos-emos a essas pessoas como adventistas sabatistas.


Eles formaram o núcleo do que, em princípios da década de 1860,
tornou-se a Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Nesse ínterim, o ex-capitão de navio Bates, publicou em agos-
to de 1846 um folheto intitulado The Seventh Day Sabbath, a
Perpetual Sign (O Sábado do Sétimo Dia, Um Sinal Perpétuo). Ba-
tes também serviu de meio para apresentar o sábado do sétimo dia
a Tiago White e Ellen Harmon. Anos mais tarde, Ellen White lem-
brou que “no outono de 1846 começamos a observar o sábado bí-
blico e a ensiná-lo e defendê-lo” (1T, pág. 75). Foi assim que, por
volta do fim de 1846, os três fundadores do adventismo do sétimo
dia uniram-se em torno da doutrina do sábado.
Bates transmitiu ao sábado do sétimo dia uma riqueza e sig-
nificado profético que jamais poderiam ter sido alcançados en-
tre os batistas do sétimo dia. Para os batistas, o sétimo dia era
apenas o dia correto. Para Bates, porém, imbuído como ele es-
tava de uma fé profética modelada por amplo estudo dos livros
de Daniel e Apocalipse, o sábado do sétimo dia assumiu uma ri-
queza escatológica (tempo do fim) que ultrapassava a esfera da
compreensão batista.
Por meio de uma série de pequenos livros, Bates interpretou o
sábado dentro da estrutura de Apocalipse 11-14. Entre 1846 e
1849, ele fez pelos menos três contribuições à compreensão pro-
fética do sábado. Primeiro, começou a ver as relações entre o sá-
bado e o santuário. Enquanto estudava o sonido da sétima trom-
beta em Apocalipse 11:15-19 (uma passagem evidentemente rela-
cionada com os últimos dias), Bates sentiu-se particularmente
atraído para o verso 19: “Abriu-se, então, o santuário de Deus, que
se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança.”
Bates percebeu que estava havendo ultimamente uma enxurra-
da de escritos a respeito do sábado do sétimo dia. Por quê? Quan-
do o sétimo anjo começou a tocar – sugeriu ele – o segundo com-
partimento do templo de Deus no Céu foi aberto, a arca do concer-
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 39

to foi espiritualmente revelada e o povo começou a pesquisar as


Escrituras. A arca do concerto no santuário terrestre continha os
Dez Mandamentos. Assim, por meio de comparação tipológica, ele
concluiu que o Lugar Santíssimo do santuário celestial também
possuía uma arca contendo o Decálogo. A lei de Deus, finalmente,
passou a ser vista como a base para o juízo pré-advento, em anda-
mento desde 22 de outubro de 1844. Naquela data o segundo com-
partimento foi aberto no Céu, revelando a arca do concerto e apon-
tando para uma renovada ênfase sobre a lei de Deus.
A segunda contribuição feita por Bates à compreensão em de-
senvolvimento do sábado na história profética veio por intermé-
dio do estudo que ele fez das mensagens dos três anjos de Apo-
calipse 14. Ele os apresentou numa ordem sucessiva. Os dois pri-
meiros (a hora do juízo de Deus e a queda de Babilônia), dizia
ele, foram apresentados pelos mileritas. Mas afirmava que o ver-
so 12: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os
mandamentos de Deus,” começou a cumprir-se após 22 de ou-
tubro de 1844. Assim sendo, escreveu ele, em 1847, que um po-
vo “esteve unindo-se em grupos durante os últimos dois anos,
em torno dos mandamentos de Deus” (Seventh-day Sabbath,
[ed. de 1847], pág. 59).
Bates, é claro, não perdeu de vista a força profética de Apoca-
lipse 12:17: “Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os
restantes da sua descendência, os que guardam [todos] os manda-
mentos de Deus.” Essa “peleja”, afirmava ele, Apocalipse 13 des-
crevia como as bestas (potências) que procuravam vencer o povo
que guardava os mandamentos de Deus, publicando finalmente o
decreto de morte do verso 15. Assim, a terceira contribuição de
Bates à teologia do sábado (na estrutura da profecia) foi desenvol-
ver os conceitos escatológicos do selo de Deus e da marca da bes-
ta, no contexto da lealdade ou para com Deus ou para com a bes-
ta. A fidelidade ao sábado bíblico, segundo ele, seria externamen-
te o ponto focal dessa guerra.
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40 UMA IGREJA MUNDIAL

Imortalidade Condicional

A última doutrina característica do adventismo é a imortalidade


condicional. A maioria dos cristãos através da história tem crido, se-
guindo a filosofia grega, que as pessoas nascem imortais. Assim
sendo, quando seu corpo morre, o espírito ou a alma vai ou para o
Céu viver com Deus ou para um inferno de fogo a arder eternamen-
te. Em outras palavras, as pessoas possuem imortalidade inata. É
impossível para eles morrer realmente ou deixar de existir.
Muitos eruditos bíblicos que, ao longo da história, considera-
ram a questão mais do ponto de vista hebraico do que grego, ne-
garam o ensino da imortalidade inata. Um desses estudiosos foi
George Storrs. Após três anos de intenso estudo da Bíblia, este mi-
nistro metodista chegou à conclusão, em 1840, de que os seres
humanos não possuem imortalidade inerente. A imortalidade,
afirmava ele, pertence àqueles que seguem a Cristo, sendo, por-
tanto, condicional. Os que aceitam a Cristo pela fé receberão
imortalidade, enquanto aqueles que O rejeitam permanecem
mortais e sujeitos à morte.
Esse ensinamento tem, obviamente, implicações diretas com o
destino dos ímpios. Em resumo: se os ímpios não são imortais,
não podem ficar queimando para sempre. Serão consumidos no
fogo do inferno, e o resultado será eterno. Foi assim que Storrs
começou a pregar o “aniquilacionismo”. Crer em algo além disso,
afirmava ele, era questionar o amorável caráter de Deus.
Em 1842 Storrs uniu-se ao adventismo milerita, tornando-se
em pouco tempo um dos destacados ativistas e escritores do mo-
vimento. No outono de 1844, conforme vimos anteriormente,
ele tornou-se um dos principais defensores do movimento do sé-
timo mês. Nesse ínterim, um de seus primeiros convertidos mi-
nistros foi Carlos Fitch. “Prezado irmão Storrs,” escreveu Fitch
em 25 de janeiro de 1844, “enquanto o irmão vem lutando sozi-
nho as batalhas do Senhor sobre o assunto do estado dos mortos
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 41

e a perdição final dos ímpios, escrevo estas linhas para lhe dizer
que, após muita reflexão e oração e a plena convicção de dever
para com Deus, finalmente estou preparado para tomar posição
ao seu lado” (Carta de Carlos Fitch a George Storrs, em 25 de ja-
neiro de 1844).
Todos os três fundadores do adventismo do sétimo dia – José
Bates, Tiago e Ellen White – aceitaram o ensino da imortalidade
condicional. Para eles, isso não apenas fazia sentido do ponto de
vista bíblico, mas parecia também necessário à teologia deles. Afi-
nal de contas, a crença em almas imortais já no Céu ou no infer-
no parecia eliminar a necessidade das ressurreições pré e pós-mi-
leniais descritas no Novo Testamento. Além disso, se as pessoas já
haviam recebido sua recompensa, para que um juízo pré-advento
ou mesmo o Segundo Advento? Foi assim que a imortalidade con-
dicional tornou-se o elo integrante de uma teologia centrada no
ministério de Cristo no santuário celestial.

As Doutrinas Fundamentais e a
Tríplice Mensagem Angélica

No início de 1848 os líderes adventistas sabatistas, por meio


de estudos amplos e intensivos da Bíblia, haviam chegado a um
acordo básico em pelo menos cinco pontos da doutrina: (1) a
vinda pessoal, visível e pré–milenial de Jesus; (2) a purificação
do santuário, com o ministério de Cristo no segundo comparti-
mento a partir de 22 de outubro de 1844 – o início do antitípi-
co dia da expiação; (3) a autenticidade do dom de profecia, com
cada vez mais crentes vendo o ministério de Ellen White como
uma manifestação moderna desse dom; (4) a obrigatoriedade da
observância do sábado no conflito final profetizado em Apoca-
lipse 11-14; e (5) que a imortalidade não é uma qualidade hu-
mana inerente, mas algo que as pessoas recebem apenas por
meio da fé em Cristo.
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42 UMA IGREJA MUNDIAL

Os adventistas sabatistas – e mais tarde os adventistas do séti-


mo dia – passaram a ver essas cinco doutrinas como “marcos” ou
“pilares” doutrinários. Juntos eles destacaram este ramo do ad-
ventismo não somente das corporações mileritas, mas também
dos outros cristãos em geral. Essas cinco características permane-
ceram no coração do adventismo sabatista em desenvolvimento e
fizeram deles um povo peculiar. Como tal, o povo do sétimo dia
valorizou bastante essas crenças e as pregou avidamente.
É verdade que os sabatistas tinham muitas crenças em comum
com outros cristãos, tais como a salvação pela graça mediante a fé
no sacrifício de Jesus e a eficácia da oração. Mas sua pregação e
ensino focalizavam suas doutrinas distintivas fundamentais. Essa
ênfase cresceu em parte devido ao fato de terem que defender es-
sas doutrinas ao confrontar-se com outros cristãos e em parte de-
vido ao desejo que tinham de compartilhá-las com outras pessoas
que não as conheciam. Conforme veremos no capítulo 5, essa ên-
fase unilateral trouxe problemas para o adventismo.
Enquanto isso, é importante entender que as cinco doutrinas
fundamentais não se sustinham por si mesmas. Elas formavam um
conjunto profético/doutrinário unificado. No núcleo desse conjun-
to encontravam-se duas idéias bíblicas: o santuário e a tríplice
mensagem angélica. A respeito da centralidade do santuário na
crença sabatista, Roswell F. Cottrell escreveu em 1863: “Descobri-
mos que o santuário celestial não é apenas o grandioso centro do
sistema cristão, assim como o terrestre era do sistema típico; este
assunto é também o centro e a cidadela da verdade presente. E des-
de que nosso templo está no Céu, e nesse templo ‘a arca do seu
concerto’, contendo ‘os mandamentos de Deus’, e, no próprio cen-
tro desses mandamentos, o sábado do Senhor, cercado ao redor por
nove preceitos morais que não podem ser derrubados, não admira
que os inimigos do sábado devam, não apenas tentar abolir os dez
mandamentos, mas também demolir o verdadeiro santuário no
qual eles estão depositados” (RH, 15 de dezembro de 1863).
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 43

Nossa discussão anterior chamou atenção para a relação exis-


tente entre cada uma das doutrinas demarcatórias e o santuário.
A essa altura, é importante enfatizar tanto a centralidade do san-
tuário na doutrina adventista como o fato de que essa teologia é
um conjunto unificado de crenças. Assim sendo, desafiar uma
parte do sistema é questionar o todo.
A segunda imagem bíblica que organizava e unificava a teolo-
gia do adventismo sabatista era a dos três anjos de Apocalipse 14.
Essas mensagens não apenas ligavam toda a teologia adventista
ao ritual do santuário com sua mensagem de juízo (e salvação),
mas também capacitavam os sabatistas a colocar-se na corrente
da história profética. Além disso, as mensagens dos três anjos
tornaram-se por fim a força profética que difundiu as missões ad-
ventistas do sétimo dia ao redor do mundo, quando a igreja pro-
curou apresentar “a toda nação, tribo, língua e povo” sua mensa-
gem inigualável (Apoc. 14:6). Mas essa visão missionária achava-
se bem distante da mente dos poucos e esforçados adventistas sa-
batistas do fim da década de 1840.
Por outro lado, eles já começavam a perceber a importância
profética dos três anjos para a sua obra. Em 1850 Tiago White
publicou importante artigo, em que fez um resumo de suas con-
clusões sobre o assunto. Ele equiparou a primeira mensagem
angélica (ver Apoc. 14:6 e 7) à pregação milerita do Segundo Ad-
vento. Para ele, o fator tempo da mensagem “é chegada a hora
do Seu juízo” era decisivo. “Toda a hoste do advento,” escreveu
ele, “creu outrora” que algo de especial aconteceria por volta de
1843. “A incredulidade daqueles que agora duvidam,” continuou
ele, “não prova que todos naquela época estávamos errados. A
passagem do tempo e a constante apostasia e descrença dos ad-
ventistas não mudou esta verdade de Deus em mentira. Ela con-
tinua sendo verdade.”
O segundo anjo (ver Apoc 14:8), enfatizou White, “seguiu” o
primeiro anjo. Quando, em reação à pregação da breve vinda de
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44 UMA IGREJA MUNDIAL

Cristo, as igrejas começaram a fechar suas portas para os mileri-


tas e excluí-los da comunhão, então – sob a liderança de Carlos
Fitch – o segundo anjo fez soar a mensagem: “Caiu Babilônia. . .
Retirai-vos dela, povo meu.”
“Esta profecia,” White escreveu, “cumpriu-se à risca, no tem-
po e lugar exatos. . . .Ouvimos com nossos ouvidos, nossas vozes
a proclamaram, todo o nosso ser sentiu seu poder e, com nossos
olhos, vimos seus efeitos, quando o oprimido povo de Deus rom-
peu com os laços que os prendia às diversas seitas e fugiram de
Babilônia. . . .
“A mensagem do segundo anjo chamou-nos das igrejas caídas
para onde agora somos livres para pensar e agir por nós mesmos
no temor de Deus. É fato extremamente interessante que o assun-
to do sábado começou a ser debatido entre os crentes do segundo
advento imediatamente após eles terem sido chamados para sair
das igrejas por meio da mensagem do segundo anjo. A obra de
Deus avança em ordem. A verdade do sábado surgiu precisamen-
te no tempo exato para cumprir a profecia.”
White viu a mensagem do terceiro anjo (ver Apoc. 14:9-12) co-
mo o clímax deste movimento profético. Ela constituiria a última
mensagem de misericórdia enviada por Deus ao mundo justamen-
te antes da grande colheita de almas do Segundo Advento (ver
Apoc. 14:15-20).
Ele chamou atenção para o fato de que Apocalipse 13 e 14 e a
mensagem do terceiro anjo só reconhecem duas classes de pes-
soas. Uma que persegue os santos e recebe a marca da besta, en-
quanto a outra continua a ser paciente, esperando o retorno de
Cristo (apesar do desapontamento de 22 de outubro de 1844) e
“GUARDANDO OS MANDAMENTOS DE DEUS.”
“Jamais tive esses sentimentos ao empunhar minha pena como
agora,” escreveu Tiago White ao avançar para o clímax emocional
de sua apresentação. “E jamais vi e senti a importância do sábado
como neste momento. A verdade do sábado, à semelhança do sol
025-048 Cap 2 22.12.13 15:22 Page 45

A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 45

nascente que desponta no oriente, tem aumentado em luz, em po-


der e em importância até que seja a grande verdade seladora. . . .
“Muitos se detiveram na primeira mensagem angélica; e ou-
tros, na segunda; e muitos rejeitaram a terceira; mas uns poucos
seguirão ‘o Cordeiro por onde quer que Ele vá,’ e subirão e pos-
suirão a terra. Embora tenham que passar por fogo e sangue, ou
passar pelo ‘tempo de angústia tal qual nunca houve,’ não cederão
nem ‘receberão a marca da besta,’ mas continuarão lutando e tra-
vando sua guerra santa até que, com as harpas de Deus, toquem a
melodia de vitória sobre o Monte Sião” (PT, abril de 1850).
Os adventistas sabatistas realmente consideravam-se um movi-
mento profético. Devido às suas convicções, eles muitas vezes se re-
feriam ao seu movimento como a “terceira mensagem angélica”.

A Abordagem Missionária da “Porta Fechada”

Embora as mensagens dos três anjos de Apocalipse 14 apontas-


sem obviamente para uma missão mundial, esse aspecto do capí-
tulo não era tão claro para os primeiros adventistas sabatistas. A
verdade é progressiva, e, assim como ocorre no âmbito de nossa
vida pessoal, os sabatistas só compreendiam o plano de Deus para
eles no ritmo de um passo de cada vez. Na realidade, pensamos
nos primeiros adventistas sabatistas mais em termos de antimis-
são do que de missão. Podemos descrever com exatidão a teoria e
prática missiológica deles como uma “porta fechada” para a ex-
pansão missionária.
Esse conceito não se originou com os crentes sabatistas, mas
fora desenvolvido por Guilherme Miller, que havia relacionado sua
mensagem com o “clamor da meia-noite” na parábola das dez vir-
gens (ver Mat. 25). A parábola declara que, quando o Noivo (isto
é, Cristo) chegar, a porta será fechada, deixando alguns do lado de
fora. “O fechamento da porta,” ensinava Miller na década de 1830
e no início da década de 1840, “indica o encerramento do reino
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46 UMA IGREJA MUNDIAL

mediatório e a finalização do período evangélico” (Evidence From


Scripture and History [impressão de 1842], pág. 237). Depois que
Cristo não voltou em 22 de outubro de 1844, Miller – que ainda
esperava o breve aparecimento de Cristo nas nuvens do céu – in-
terpretou a porta fechada como o término do tempo de graça pa-
ra a humanidade.
Foi por isso que, em dezembro de 1844, Miller escreveu: “Fi-
zemos nossa obra em advertir os pecadores e em tentar despertar
uma igreja formal. Deus, em Sua providência, fechou a porta. Po-
demos apenas estimular-nos uns aos outros a ser pacientes, pro-
curando mais diligentemente fazer firme a nossa vocação e elei-
ção. Vivemos agora no tempo especificado em Malaquias 3:18,
Daniel 12:10 e Apocalipse 22:10-12. Não podemos deixar de notar
nesta passagem que, um pouco antes de Cristo voltar, haveria
uma separação entre os justos e os injustos. . . . Nunca, desde os
dias dos apóstolos, traçou-se tal linha divisória” (AH, 11 de de-
zembro de 1844).
Certamente as reações cruéis e zombeteiras por parte de des-
crentes e ex-mileritas após o Grande Desapontamento devem ter
feito parecer que a porta da graça havia mesmo se fechado. Além
disso, a maciça corrente de novos convertidos havia parado abrup-
tamente em 22 de outubro.
Após o Grande Desapontamento, quase todos os mileritas acei-
taram como correto o ensino da porta fechada. Conseqüentemen-
te, quando a maior parte dos mileritas, sob a liderança de Himes,
começou a afirmar que haviam cometido um equívoco a respeito
do tempo e que nada acontecera em 22 de outubro, eles também
abandonaram a crença no fechamento da porta da graça para
aquela época.
Por outro lado, os adventistas sabatistas, inclusive Bates e os
White, continuaram a defender o cumprimento da profecia em 22
de outubro e o ensino da porta fechada. Foi assim que os outros
mileritas começaram a referir-se a eles como “o povo do sábado e
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINÁRIO 47

da porta fechada” – termos depreciativos para indicar suas carac-


terísticas doutrinárias.
O problema do povo da porta fechada era haver herdado do
movimento milerita alguns erros em sua teoria da porta fechada,
intimamente relacionada com sua compreensão errônea da puri-
ficação do santuário. Afinal de contas, se a purificação do santuá-
rio era a segunda vinda de Cristo, então o tempo de graça para os
ímpios terminaria evidentemente em 22 de outubro. O estudo adi-
cional da Bíblia, conforme já mencionamos, logo levou os sabatis-
tas a reconhecerem seus erros com relação à purificação do san-
tuário, mas demorou diversos anos até que se esclarecessem os
conceitos errôneos relacionados com a porta fechada.
Nesse meio tempo, algumas vezes até mesmo os erros levaram
a bons resultados. Foi isso que aconteceu com a porta fechada.
Durante o período da porta fechada de desenvolvimento missio-
nário adventista, os adventistas sabatistas criam que a expansão
evangelística de seu movimento se restringia aos que haviam
aceitado a mensagem milerita na década de 1830 e início da dé-
cada de 1840. A porta da misericórdia havia-se fechado para to-
dos os outros.
Desse modo, o “equívoco” da porta fechada forneceu ao peque-
no grupo de adventistas sabatistas tempo suficiente para construí-
rem seu próprio fundamento teológico. Gastaram pouco de seus
escassos recursos em evangelismo até possuírem uma mensagem.
Depois de desenvolverem sua própria identidade teológica, o pró-
ximo passo era tentar convencer outros mileritas de seu conjun-
to doutrinário e interpretação profética. A tarefa foi realizada en-
tre 1848 e 1850 (assunto do próximo capítulo).
A “utilidade” do período da porta fechada consistiu em conce-
der tempo para os sabatistas formarem um fundamento doutriná-
rio e desenvolver um conjunto de membros. Somente depois de
completarem essas tarefas é que ficaram prontos para dar o próxi-
mo passo em sua missão profética.
025-048 Cap 2 22.12.13 15:22 Page 48

48 UMA IGREJA MUNDIAL

Para Leitura Adicional

Damsteegt, P. Gerard. Foundations of the Seventh-day Adventist


Message and Mission (Fundamentos da Mensagem e Missão Adven-
tistas do Sétimo Dia). Grand Rapids: Eerdmans, 1977. (Reimpresso
pela Andrews University Press, Berrien Springs, Mich., 1988).
Douglass, Herbert E. Messenger of the Lord: The Profetic Mi-
nistry of Ellen G. White (A Mensageira do Senhor: O Ministério
Profético de Ellen G. White). Boise, Idaho: Pacific Press, 1998.
Froom, LeRoy Edwin. The Conditionalist Faith of Our Fathers
(A Fé Condicionalista de Nossos Pais). Washington, D.C.: Review
and Herald, 1965. Vol. 2, págs. 646-740.
Holbrook, Frank B, ed. Doctrine of the Sanctuary: A Histori-
cal Survey (1845-1863) (A Doutrina do Santuário: Uma Análise
Histórica [1845-1863]). Silver Spring, Md.: General Conference of
Seventh-day Adventists, 1989.
Knight, George R. Meeting Ellen White: A Fresh Look at Her
Life, Writings, and Major Theme (Conhecendo Ellen White: Uma
Nova Visão de Sua Vida, Escritos e Temas Principais). Hagers-
town, Md.: Review and Herald, 1996.
_____, Walking With Ellen White: The Human Interest Story
(Andando Com Ellen White: A História de Interesse Humano).
Hagerstown, Md.: Review and Herald, 1999.
_____, ed. 1844 and the Rise of Sabbatarian Adventism (1844 e
o Surgimento do Adventismo Sabatista), págs. 143-190 (este volume
contém a maior parte dos documentos citados neste capítulo).
Land, Gary, ed. Adventism in America (Adventismo na Améri-
ca do Norte), págs. 29-52.
Maxwell, Mervyn. História do Adventismo, págs. 9-34.
Schwarz, Richard W. Light Bearers to the Remnant (Portado-
res de Luz ao Remanescente), págs. 53-71.
White, Arthur L. Ellen G. White (Ellen G. White). Washington,
D.C.: Review and Herald, 1981-1986. Vol. 1, págs. 45-138.
049-066 Cap 3 22.12.13 15:13 Page 49

A Era do

Capítulo 3
Desenvolvimento
Organizacional
(1848 - 1863)

Olhando para a atual organização mundial


adventista do sétimo dia, é difícil crer que a
maioria dos primeiros adventistas se opunham
a todo tipo de organização eclesiástica acima do
nível congregacional. George Storrs sintetizou
seu ponto de vista de maneira primorosa quan-
do advertiu que “nenhuma igreja pode ser orga-
nizada pela invenção humana, mas que se torna
Babilônia no momento em que é organizada”
(MC, 15 de fevereiro de 1844).
A lógica de Storr não é difícil de ser com-
preendida. Afinal de contas, não tinham as
igrejas organizadas, as próprias corporações
que Fitch e seus seguidores definiam como Ba-
bilônia, excomungado os mileritas? Por que, a
lógica prossegue, deveriam essas pessoas livres
recriar outra Babilônia? Além disso, a vigorosa
influência exercida pela Conexão Cristão – um
grupo que tradicionalmente havia resistido à
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50 UMA IGREJA MUNDIAL

organização da igreja acima do nível local – também fortalecia a


atitude antiorganizacional entre os adventistas. Dois dos três fun-
dadores sabatistas – Tiago White e José Bates – haviam pertenci-
do à Conexão.
Por outro lado, o terceiro fundador – Ellen White – havia cres-
cido na Igreja Metodista Episcopal. O título do livro de Charles
Ferguson, Organizing to Beat the Devil: Methodist and Early
America (Organizando-se Para Vencer o Diabo: Os Metodistas e a
Primitiva América do Norte), ajuda-nos a ver que a senhora Whi-
te, procedente da denominação protestante mais eficientemente
organizada de seu tempo, trazia uma perspectiva diferente do as-
sunto. Levou quase 20 anos para que a tensão sobre organização
fosse solucionada entre os adventistas sabatistas.
Nesse meio tempo, por volta de 1848, conforme vimos no capí-
tulo 2, o pequeno grupo de líderes sabatistas havia chegado a um
acordo acerca de um conjunto de doutrinas básicas e cria que ti-
nham a responsabilidade de compartilhar suas crenças com os ad-
ventistas que ainda estavam confusos com o que havia acontecido
em outubro de 1844. Os sabatistas escolheram uma abordagem ti-
picamente milerita para compartilhar suas crenças. Organizaram
uma série de conferências para discutir o assunto. Devemos consi-
derar essas conferências semi-informais como o primeiro passo or-
ganizacional no desenvolvimento do adventismo do sétimo dia.

As Conferências Sobre o Sábado

A primeira das conferências sobre o sábado realizou-se na pri-


mavera de 1848, em Rocky Hill, Connecticut. Pelo menos mais
cinco encontros dessa natureza ocorreram naquele ano; outros
seis em 1849; e dez, em 1850. José Bates e os White participaram
da maioria deles. Embora grande parte das conferências aconte-
cesse nos finais de semana, algumas se extendiam de quinta até
segunda-feira. O propósito delas, de acordo com Tiago White, era
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 51

“unificar os irmãos nas grandes verdades relacionadas à mensa-


gem do terceiro anjo” (RH, 6 de maio de 1852). Por volta de 1848,
muitas pessoas da Nova Inglaterra e da parte ocidental de Nova
Iorque haviam ficado convencidas da validade de uma ou mais
doutrinas sabatistas, embora lhes faltasse o consenso.
O relatório de Tiago White a respeito da primeira conferência
sobre o sábado ilustra tanto o propósito dessas preleções quanto
algumas das dinâmicas envolvidas. “Tivemos uma reunião à noiti-
nha [quinta-feira, 20 de abril de 1848], que contou com a presen-
ça de cerca de quinze pessoas ao todo,” escreveu White. “Sexta-fei-
ra pela manhã os irmãos chegaram até contarmos aproximada-
mente cinqüenta. Eles não se encontram todos plenamente na
verdade. Nossa reunião daquele dia foi muito interessante. O ir-
mão Bates apresentou os mandamentos de maneira bastante es-
clarecedora, e sua importância foi confirmada por poderosos tes-
temunhos. A palavra serviu para estabelecer os que já estavam na
verdade e para despertar os que ainda não estavam inteiramen-
te decididos” (em 2SG, pág. 93; itálicos supridos).
O propósito e a dinâmica das conferências foram revelados
mais claramente no relatório de Ellen White a respeito da segun-
da conferência, realizada no “celeiro do irmão Arnold”, em Volney,
Nova Iorque, durante o mês de agosto de 1848. “Havia cerca de
trinta e cinco pessoas presentes,” escreveu ela, “e isso foi tudo
quanto conseguimos reunir naquela parte do Estado. Dentre es-
ses, porém, dificilmente haveria dois que estivessem de acordo.
Cada qual defendia tenazmente seus próprios pontos de vista, de-
clarando estarem de acordo com a Bíblia. Todos ansiavam por
uma oportunidade para promover seus conceitos, ou pregar para
nós. Dissemos para eles que nós não tínhamos vindo de tão gran-
de distância para ouvi-los, mas para ensinar-lhes a verdade. O ir-
mão Arnold defendia que os mil anos de Apocalipse 20 haviam fi-
cado no passado; e que os 144 mil foram os que ressuscitaram na
ressurreição de CRISTO. . . .
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52 UMA IGREJA MUNDIAL

“Essas estranhas diferenças de opinião deixaram-me extrema-


mente preocupada, principalmente quando o irmão A[rnold] falou
dos mil anos como estando no passado. Eu sabia que ele estava er-
rado, e grande pesar me oprimiu o espírito, pois me parecia que
DEUS estava sendo desonrado. Desmaiei com aquela apreensão.
Os irmãos Bates, Chamberlain, Gurney, Edson e meu marido ora-
ram em meu favor. . . . O SENHOR ouviu as orações de seus ser-
vos, e eu despertei. A luz do Céu repousou sobre mim. Logo per-
di a noção das coisas terrenas. Meu anjo assistente apresentou-me
alguns dos erros nos quais as pessoas presentes estavam incorren-
do, e também a verdade em contraste com esses erros. Disse-me
que esses pontos de vista discordantes, que pretendiam estar em
conformidade com as Escrituras, estavam tão-somente de acordo
com o modo pessoal de seus defensores interpretarem a Bíblia, e
que esses erros deviam ser renunciados, e que essas pessoas de-
viam unir-se à mensagem do terceiro anjo. Nossa reunião encer-
rou-se de modo vitorioso. A verdade triunfou” (2SG, págs. 97-99;
itálicos supridos).
Observe que Bates e os White desempenharam papel decisivo
na liderança no começo dessas conferências. Elas requeriam lide-
rança firme e norteada para formar uma corporação de crentes
dentro das caóticas condições do adventismo pós-desapontamen-
to. Também devemos observar que o propósito primário dessas
reuniões era unificar um corpo de crentes nas verdades da men-
sagem do terceiro anjo – uma mensagem já estudada e aprovada
pelos líderes sabatistas.
De acordo com Tiago White, as conferências de novembro de
1849 estavam cumprindo seu propósito primordial. “Pela procla-
mação da verdade do sábado em . . . ligação com o movimento do
advento,” relatou ele a um tal irmão Bowles, “Deus está tornando
conhecidos aqueles que a Ele pertencem. Na parte ocidental de
Nova Iorque o número de observadores do sábado cresce rapida-
mente. Existe agora mais que o dobro que seis meses atrás. Acon-
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 53

tece mais ou menos o mesmo no Maine, em Massachusetts, em


New Hampshire, no Vermont e em Connecticut.
“Passamos pelo tempo da dispersão [resultante do Grande De-
sapontamento]; é coisa do passado, e agora chegou o tempo de os
santos serem reunidos na unidade da fé e selados por uma verda-
de santa e unificadora. Sim, meu irmão, chegou esse tempo.
“É verdade que a obra prossegue lentamente, mas é certo que
prossegue, e adquire força a cada passo. . . .
“A experiência que tivemos no passado com o advento, a
posição atual e a obra futura acham-se indicadas em Apocalipse
capítulo 14, de maneira tão clara quanto a pena profética podia
escrever. Graças a Deus que vemos isto. . . .
“Creio que a verdade do sábado ainda vai soar através da Terra,
como o Advento jamais o fez. . . .
“Estou farto de nossas revistas do advento e de todos os nossos
editores do advento. Pobres criaturas! Com lâmpadas apagadas,
ainda tentam iluminar seus irmãos cegos para o reino de Deus.”
Tiago acrescentou que não desejava ser como eles. “Peço apenas o
precioso privilégio de alimentar, se possível[,] meus pobres ir-
mãos: ‘os párias’” (Carta de TW ao irmão Bowles, em 8 de novem-
bro de 1849; itálicos supridos).
Foi assim que, desde quase os seus primórdios, os sabatistas re-
conheceram-se como um povo norteado por uma missão, um po-
vo impulsionado pelo imperativo dos três anjos de Apocalipse 14.
O primeiro passo em sua missão mundial foi alcançar os confusos
mileritas durante fins da década de 1840. As conferências sobre o
sábado tornaram-se o primeiro meio para atingir esse objetivo.
Devemos notar que, apesar de o propósito primordial das con-
ferências sobre o sábado ter sido unir os crentes num conjunto
doutrinário já exaustivamente estudado, as conferências também
ensejaram oportunidade para aprimorar esses pontos de vista à
medida que novas questões levavam a respostas adicionais no con-
texto do estudo da Bíblia.
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54 UMA IGREJA MUNDIAL

Publicando “a Verdade”

O segundo passo no desenvolvimento de uma estrutura orga-


nizacional sabatista ocorreu na área de publicações. A exemplo
das conferências sobre o sábado, as primeiras publicações servi-
ram para convocar, informar e unir um grupo de crentes nas
mensagens dos três anjos a partir das fileiras dispersas dos ainda
confusos adventistas mileritas. Paralelamente às conferências es-
tava o fato de que as publicações significavam o coração da “orga-
nização” milerita pré-desapontamento.
As primeiras publicações dos sabatistas foram folhetos ocasionais
que chamavam a atenção para as verdades recém-encontradas por eles
no contexto do milerismo como movimento profético. Esses folhetos
de Bates, ou pequenos livros, incluíam os seguintes títulos: The Ope-
ning Heavens (Os Céus Abertos), em 1846; The Seventh-day Sabbath,
a Perpetual Sign (O Sábado do Sétimo Dia, Um Sinal Perpétuo), em
1846 e substancialmente revisado em 1847; Second Advent Way
Marks and High Heaps (O Caminho do Segundo Advento...), em 1847;
e A Seal of the Living God (O Selo do Deus Vivo), em 1849.
Além dos opúsculos de Bates, o primeiro empreendimento edi-
torial em equipe, da liderança sabatista, foi A Word to the “Little
Flock” (1847). O documento de 24 páginas animava os crentes do
advento a conservarem a crença em sua experiência de 1844, en-
quanto buscavam maior luz para o futuro.
Uma visão de Ellen White, recebida em Dorchester, Massachusetts,
durante o mês de novembro de 1848, estimulou uma transição impor-
tante na obra de publicações adventista. Depois de sair da visão, ela
disse a Tiago que tinha uma “mensagem” para ele. “Você deve come-
çar a publicar um pequeno periódico e enviá-lo ao povo. Que seja pe-
queno a princípio; mas, quando o povo o ler, enviará recursos para im-
primi-lo, de modo que alcançará bom êxito desde o princípio. Deste
pequeno começo, foi-me mostrado que ele seria como torrentes de luz
que circundariam o mundo” (LS, pág. 125; itálicos supridos).
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 55

Sua predição de um programa mundial de publicações não des-


pertou nenhum entusiasmo entre os dispersos crentes sabatistas da-
quele tempo. Humanamente falando, parecia absurda. O que pode-
riam fazer uns poucos pregadores sem dinheiro, com o apoio de apro-
ximadamente 100 crentes? Certamente não conseguiríamos imagi-
nar começo mais modesto para um empreendimento editorial.
Apesar das circunstâncias desanimadoras, o financeiramente
falido e sem-teto Tiago White começou pela fé a escrever e a pu-
blicar um “pequeno periódico”. Recordando a experiência, ele es-
creveu: “Sentei-me a fim de preparar a matéria para aquele perió-
dico, e escrevi cada palavra. Toda a nossa biblioteca consistia nu-
ma Bíblia de bolso de três xelins, a Concordância Condensada de
Cruden e o velho dicionário de Walker sem uma de suas capas.
Destituídos de recursos, nossa esperança de sucesso estava em
Deus” (RH, 17 de junho de 1880).
Não dispondo de muita escolha, White saiu à procura de um
impressor não-adventista que imprimisse um panfleto de oito pá-
ginas para uma pessoa totalmente desconhecida e que esperasse
pelo pagamento até que as contribuições dos esperados leitores
fossem chegando pouco a pouco. White encontrou esse impressor
na pessoa de Charles Pelton, de Middletown, Connecticut.
A primeira edição de mil exemplares da Present Truth (Verdade
Presente) saiu do prelo em julho de 1849. “Quando ele trouxe o
primeiro número da oficina gráfica,” relembrou Ellen White, “nós
todos nos ajoelhamos ao redor da publicação, rogando ao Senhor,
com coração humilde e muitas lágrimas, que Sua bênção repou-
sasse sobre os débeis esforços de Seu servo. Depois ele [Tiago] so-
brescritou os periódicos a todos quantos julgava que o leriam e os
transportou para a agência dos correios [a 12,8 km de distância]
numa mala de viagem feita de tapeçaria. . . . Logo chegaram cartas
contendo recursos para publicar o periódico, e as boas-novas de
muitas almas abraçando a verdade” (LS [1888], pág. 260).
O conteúdo da Present Truth era o que os adventistas considera-
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56 UMA IGREJA MUNDIAL

vam como a mensagem para aquele tempo: o sábado, a tríplice men-


sagem angélica e temas doutrinários. O “pequeno periódico” fez sua
parte no “tempo do agrupamento” em fins da década de 1840.
A publicação da Present Truth foi apenas o primeiro passo na
expansão dos periódicos sabatistas. O verão de 1850 viu Tiago lan-
çar a primeira edição da Advent Review (Revista do Advento), uma
revista que reeditava muitos dos artigos mileritas mais represen-
tativos do início da década de 1840. A Advent Review procurava
impressionar os mileritas dispersos com o vigor e a honestidade
dos argumentos que fundamentaram o movimento de 1844.
Novembro de 1850 testemunhou a fusão da Present Truth com
a Advent Review na The Second Advent Review and Sabbath He-
rald (Revista do Segundo Advento e Arauto do Sábado). Essa re-
vista, atualmente conhecida como Adventist Review (Revista Ad-
ventista, em inglês), tornou-se um periódico de âmbito interna-
cional que circunda o mundo “como torrentes de luz”.
Durante muitos anos, a Review and Herald (como era afetuosa-
mente chamada) foi, em essência, a “igreja” para a maioria dos sa-
batistas. Afinal de contas, de uma maneira geral eles não possuíam
templo, denominação nem pregador regular. A chegada em interva-
los regulares da Review fornecia aos adventistas dispersos as notí-
cias de sua igreja e de amigos da fé, sermões e um senso de perti-
nência. Como tal, sua influência e importância para os primórdios
do adventismo são quase impossíveis de serem superestimadas.
No começo da década de 1850 surgia mais um acréscimo à li-
teratura periódica sabatista. Em 1852 Tiago White começou a pu-
blicar o Youth’s Instructor (Instrutor da Juventude [cujo moder-
no sucessor é a revista Insight]) para os jovens da igreja. O Youth’s
Instructor foi a primeira tentativa organizada de fazer alguma coi-
sa pela mocidade sabatista.
Em sua esteira logo veio o estabelecimento de escolas sabatinas,
para as quais o Instructor publicava as lições bíblicas. As primeiras
escolas sabatinas começaram na década de 1850, sob a liderança de
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 57

Tiago White, John Byington (que veio a ser o primeiro presidente


da Associação Geral uma década depois) e M. G. Kellogg.
Por volta do final da década de 1850, os esforços editoriais dos saba-
tistas viraram um empreendimento comercial tão importante que eles
abriram sua própria editora em Battle Creek, no Michigan, em 1855. O
problema da posse de uma empresa gráfica pressionou finalmente os
adventistas sabatistas a organizar uma estrutura mais formal e legal.

Primeiros Passos Rumo a Uma Organização Formal

Devido ao amplo alcance das conferências e das publicações


destinadas ao grande grupo de mileritas que pesquisava a verda-
de, por volta de 1852 os adventistas aumentaram rapidamente em
número. De acordo com uma estimativa que parece bastante pre-
cisa, seus adeptos passaram de 200, em 1850, para 2 mil, em 1852.
Se bem que esse tipo de crescimento seja uma bênção para um
movimento religioso, traz consigo os seus problemas.
Assim, não deve constituir surpresa o fato de encontrarmos
destacados sabatistas e algumas congregações locais preocupados
com a “ordem evangélica” (organização da igreja) em princípios
da década de 1850. Eles enfrentavam diversos problemas. Em pri-
meiro lugar, não dispunham de meios para credenciar clérigos. As
congregações espalhadas ficavam à mercê de qualquer pregador
itinerante que alegasse ser ministro sabatista. Intimamente rela-
cionado com esse problema, estava o fato de que os sabatistas não
possuíam trâmites nem provisões para a ordenação. Conseqüen-
temente, embora Tiago White tenha sido ordenado ministro pela
Conexão Cristã, em 1843, é provável que José Bates não.
Em segundo lugar, os crentes não tinham com o que sustentar
seus ministros. Para dizer a verdade, não dispunham sequer de
uma forma sistemática para angariar fundos. Conforme veremos
logo mais, a crise de um ministério mal pago e desmoralizado
quase levou o movimento sabatista ao colapso em 1856.
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58 UMA IGREJA MUNDIAL

Em terceiro lugar, não dispunham de nenhuma organização


legal para a conservação das propriedades. Isso não constituía
grande problema em 1850, mas, pelo fim da década, tornou-se
uma questão que não deixava outra escolha senão enfrentá-la.
Talvez as primeiras discussões relevantes entre os sabatistas a
respeito da ordem evangélica ocorreram em 1850 e 1851. O assun-
to naquele tempo era a exclusão da comunhão dos membros que
se haviam envolvido com espiritismo e com outras atividades não-
cristãs. Depois, no princípio da década de 1850, encontramos con-
gregações ordenando diáconos para a celebração das “ordenanças
da casa do Senhor”. Aquele ano também testemunhou a primeira
ordenação formal de homens para o ministério evangélico. Além
disso, por volta de 1853, os “irmãos da liderança” – geralmente Ba-
tes e White – estavam expedindo para os “irmãos itinerantes car-
teiras de identificação assinadas”, a fim de evitar impostores.
O ano de 1853 também viu Tiago e Ellen White engatilharem
suas armas no esforço de tentar persuadir a outros sobre o tema da
ordem evangélica. “O Senhor tem mostrado que a ordem evangé-
lica tem sido demasiado receada e negligenciada”, escreveu Ellen
White. “A formalidade deve ser banida, mas por fazê-lo não deve
ser a ordem negligenciada. Há ordem no Céu. Havia ordem na
igreja quando Cristo esteve na Terra, . . . E, agora nestes últimos
dias, quando Deus está levando os Seus filhos à unidade da fé, há
mais real necessidade de ordem que jamais antes” (PE, pág. 97).
Subjacente ao argumento dela parece estar a idéia de que a
igreja estava travando uma batalha contra forças altamente orga-
nizadas do mal. Portanto, a única maneira de a igreja vencer o
conflito era organizar-se para não ser enganada. Por essa razão,
Satanás estava ocupado tentando impedir e destruir a ordem
evangélica racional entre os sabatistas.
Dezembro de 1853 ainda encontrou Tiago White disparando uma
salva de quatro artigos sobre a organização da igreja na Review. No
primeiro ele criticou severamente os membros do grupo sabatista que
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 59

eram contrários à organização. Tentando evitar tornar-se “Babilônia”


por meio da organização, declarava ele, eles entraram num estado de
“completa Babilônia” ou confusão (RH, 6 de dezembro de 1853).
Embora os White tenham deflagrado uma guerra em prol da
ordem evangélica em 1853, demorou outra década até alcançarem
seu objetivo.

A “Irmã Betsy” e o Sustento do Ministério

No outono de 1856 uma crise de primeira dimensão se desen-


volveu no adventismo. O Senhor não voltara, e alguns estavam em
declínio espiritual. Isso era particularmente notório entre alguns
dos mais promissores jovens pregadores sabatistas. O excesso de
trabalho e salário insuficiente são a combinação certa para abater
o ânimo de uma pessoa.
Isso aconteceu com John Nevins Andrews, um jovem que
mais tarde trabalhou para a igreja como destacado erudito, pri-
meiro missionário “oficial” ao estrangeiro e presidente da Asso-
ciação Geral da denominação. Mas, em meados da década de
1850, o excesso de trabalho e a privação o forçaram a afastar-se
da obra prematuramente (ele estava na casa dos vinte anos). An-
drews relata com suas próprias palavras: “Em menos de cinco
anos [após o início de seu ministério público] fiquei completa-
mente prostrado” (CTemp, pág. 263). O outono de 1856 encon-
trou Andrews decidido a abandonar o ministério para tornar-se
balconista no armazém do seu tio em Waukon, Iowa. Waukon,
diga-se de passagem, estava rapidamente se tornando uma colô-
nia de apáticos adventistas sabatistas.
Outro destacado ministro que se retirou para Waukon, em
1856, foi John Loughborough. Havia ficado, segundo ele próprio
confessou, “um tanto desanimado com as finanças” (Rise and Pro-
gress of SDAs, pág. 208).
Os White evitaram temporariamente uma crise no ministério
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60 UMA IGREJA MUNDIAL

adventista fazendo, em pleno inverno, um viagem arriscada a


Waukon, a fim de despertar a comunidade adventista e recuperar
os ministros desertores. Tanto Andrews como Loughborough vi-
ram a mão de Deus nessa visita e dedicaram sua vida novamente
à pregação da mensagem do terceiro anjo.
Sua rededicação, porém, não mudou as perspectivas financei-
ras. Durante seus primeiros três meses de trabalho depois de par-
tir de Waukon, Loughborough, por exemplo, recebeu comida e
dormida, um casaco de pele de búfalo no valor de 10 dólares e
mais 10 dólares em espécie como pagamento por seu trabalho mi-
nisterial. O problema estava longe de ser solucionado.
Prevendo os problemas financeiros, a congregação de Battle
Creek (a congregação sabatista mais influente da época) formou um
grupo de estudo, na primavera de 1858, a fim de procurar nas Escri-
turas um plano para o sustento do ministério. Sob a liderança de J.
N. Andrews, o grupo apresentou um relatório no início de 1859. Pro-
puseram um plano que veio a ser conhecido como Doação Sistemá-
tica (ou “Irmã Betsy”, como muitos carinhosamente o apelidaram).
O plano encorajava os homens a contribuírem com cinco a 25
centavos por semana; e as mulheres, com dois a 10 centavos. Além
disso, ambos os grupos eram taxados de um a cinco centavos por
semana para cada 100 dólares de posses.
Tiago White exultou com o plano, ao fazer a estimativa de que
somente os mil doadores em potencial do Michigan poderiam
contribuir com 5.980 dólares por ano, o que era bastante para en-
viar cinco “missionários” para o oeste, “a fim de manter a causa
naquele Estado,” sem contudo “privar [o doador] das necessidades
básicas da vida” (RH, 26 de maio de 1859).
Embora a “Irmã Betsy” não correspondesse ao plano de dízimos
que os adventistas do sétimo dia passaram finalmente a adotar após
estudo adicional da Bíblia em fins da década de 1870, representou
um primeiro passo no sustento sistemático da igreja e um passo
adicional em direção à organização formal por parte dos sabatistas.
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 61

O Impulso Definitivo Para a


Organização da Igreja

Por volta do verão de 1859, Tiago White estava pronto para dar
o impulso definitivo em direção à organização formal da denomi-
nação. Num editorial da Review, de 21 de julho, ele escreveu: “Fal-
ta-nos organização. Não devemos recear uma organização que
não se oponha à Bíblia e seja aprovada pelo bom-senso. A falta de
organização é notada em toda parte.” A seguir passou a dar algu-
mas sugestões capazes de tirar ordem do caos.
“Estamos cientes de que essas sugestões,” continuou White, “não
satisfarão a mente de todos. O irmão Excesso-de-Cautela ficará alar-
mado, e estará pronto a advertir seus irmãos a serem cuidadosos e a
não se arriscarem demais, enquanto o Irmão Confusão clamará: ‘Oh,
isto se parece com Babilônia! Seguindo a igreja caída!’ O irmão Indo-
lente dirá: ‘A causa é do Senhor, e faríamos melhor em deixá-la em
Suas mãos; Ele cuidará dela.’ ‘Amém!’ dizem os Irmãos Amante-des-
te-Mundo, Preguiçoso, Egoísta e Mesquinho. ‘Se Deus chama homens
para pregar, deixem que eles saiam a pregar; Deus tomará conta deles
e dos que crerão na mensagem deles.’ Enquanto isso, Coré, Datã e Abi-
rã prontificam-se a rebelar-se contra os que sentem a responsabilida-
de pela Causa e que velam pelas almas como quem há de prestar con-
tas delas, e protestam: ‘Basta!’” (Ibidem, 21 de julho de 1859).
Naturalmente o tempo para sermões suaves passara, mas a lu-
ta pela organização ainda estava longe de acabar. Isso ficou evi-
dente para todos os leitores da Review no começo de 1860. Em fe-
vereiro, Tiago White trouxe à baila o assunto de formar uma orga-
nização legal para fins de conservação da propriedade e adoção de
um nome para a denominação. Os dois assuntos guardavam ínti-
ma relação, visto ser necessário dar um nome à organização, caso
ela devesse ser legalmente registrada no Estado do Michigan e re-
ceber autorização legal para ter a posse da editora adventista e do
imóvel do templo de Battle Creek.
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62 UMA IGREJA MUNDIAL

A sugestão de White motivou uma circular escrita por R. F. Cottrell,


editor associado da Review e líder dos que se opunham à organização
da igreja. Cottrell escreveu que cria “ser errado ‘tornar célebre o nosso
nome’, visto que isso jaz no fundamento de Babilônia. Não creio que
Deus aprovaria essa iniciativa” (Ibidem, 22 de março de 1860).
Publicado durante a ausência de White do escritório editorial,
o artigo escrito por um experiente e influente líder adventista sa-
batista preparou o cenário para uma longa e desgastante batalha.
Durante os seis meses que se seguiram, quase toda edição da Re-
view continha algum material sobre o problema, enquanto a igre-
ja elaborava com esforço uma solução no foro público.
Os líderes ministeriais convocaram uma “associação geral” dos
sabatistas entre 28 de setembro e 1o de outubro de 1860. Naquela
reunião, a despeito do clima acalorado dos argumentos “Babilô-
nia”, os presentes resolveram registrar a editora como pessoa ju-
rídica. Além disso, adotaram o nome “adventistas do sétimo dia”
como sendo o que melhor representava as crenças da denomina-
ção em vias de desenvolvimento. O passo seguinte foi o registro da
Associação Publicadora dos Adventistas do Sétimo Dia em 3 de
maio de 1861, conforme as leis do Estado do Michigan.
Assim foi ganha a principal batalha na vanguarda organizacional. A
essa altura, a vitória completa não estava longe, ainda que, em agosto
de 1861, Tiago White tenha-se queixado de “uma estúpida incerteza a
respeito do assunto da organização” (Ibidem, 27 de agosto de 1861).
Em outubro fundou-se a Associação dos Adventistas do Sétimo
Dia do Michigan, tendo como presidente William A. Higley (um
leigo). Com a obstrução finalmente removida, o ano de 1862 viu a
organização de mais de sete associações locais: Iowa Sul (16 de
março), Iowa Norte (10 de maio), Vermont (15 de junho), Illinois
(28 de setembro), Wisconsin (28 de setembro), Minnesota (4 de
outubro) e Nova Iorque (25 de outubro). Outras logo se seguiram.
O último passo no desenvolvimento da organização da igreja
ocorreu numa reunião de representantes das Associações locais
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 63

em maio de 1863, em Battle Creek. Nasceu naquela época a Asso-


ciação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, tendo John Byington
como seu primeiro presidente. Tiago White havia sido a escolha
unânime para a presidência da denominação, mas prudentemen-
te declinou da função devido ao vigoroso papel que desempenha-
ra como defensor insistente da organização.
Em 1863 a recém-formada Igreja Adventista do Sétimo Dia
possuía aproximadamente 3.500 membros e cerca de 30 minis-
tros. O presidente da Associação Geral, portanto, tinha condições
de dirigir pessoalmente a detalhada obra da igreja. Isso mudou
durante as quatro décadas seguintes, à medida que aumentava o
número de membros e a igreja internacionalizava sua missão.
Voltaremos a falar sobre o desenvolvimento da organização da
igreja no capítulo 6. Enquanto isso, precisamos examinar como
este grupo antimissionário da porta fechada tornou-se um movi-
mento missionário mundial.

As Frestas da “Porta Fechada”


Abrem-se Um Pouco

Vale lembrar que, conforme dissemos no capítulo 2, os adven-


tistas sabatistas, seguindo a liderança de Miller, acreditavam que
a porta da misericórdia se havia fechado em outubro de 1844 pa-
ra todos, exceto para os que haviam aceitado o breve retorno de
Jesus antes do Grande Desapontamento. Portanto, o único alvo
missionário nos anos seguintes envolvia mileritas e ex-mileritas.
Esse conceito de missão era extremamente estreito.
Ao que parece, toda a liderança sabatista participava dessa
mentalidade “antimissionária”. Em 1874, por exemplo, Ellen
White escreveu: “Com meus irmãos e irmãs, após a passagem do
tempo em quarenta e quatro, acreditei que não mais se converte-
riam pecadores. Mas,” ela foi rápida em acrescentar, “nunca tive
uma visão de que não se converteriam mais pecadores” (1ME, pág.
049-066 Cap 3 22.12.13 15:13 Page 64

64 UMA IGREJA MUNDIAL

74). “Ao contrário, algumas de suas visões mais antigas indicam


um evangelismo mais abrangente, de natureza mundial. Isso foi
particularmente verdadeiro a respeito de sua visão sobre as publi-
cações, ocorrida em 1848, na qual ela viu o futuro das publicações
adventistas “como torrentes de luz que circundariam o mundo”
(LS, pág. 125). Entretanto, nem ela nem os outros sabatistas en-
tenderam naquela época todas as implicações desse assunto.
Por volta do início de 1849, Ellen White começou a relacionar a
terminologia da porta fechada com o santuário celestial, quando os
sabatistas passaram pouco a pouco a compreender tanto sua mensa-
gem como sua missão para com o mundo. “ “Vi,” escreveu ela, “que
Jesus havia fechado a porta do lugar santo, e que nenhum homem
poderia abri-la; e que Ele havia aberto a porta para o santíssimo, e
que homem algum podia fechá-la” (PE, pág. 42). Ela sempre acredi-
tou que os que haviam rejeitado o Espírito Santo após estarem con-
vencidos da autenticidade do movimento de 1844 se haviam coloca-
do além do alcance da misericórdia divina, mas, ela mesma, junto
com outros sabatistas, gradualmente corrigiu esse ponto de vista a
respeito da porta fechada no início da década de 1850.
Parte da razão para a mudança no tocante à porta fechada, foi
causada pelas novas e inesperadas conversões ao adventismo saba-
tista. Em 1850, por exemplo, Tiago White relatou com bastante sur-
presa a adesão de um homem que “não havia feito nenhuma profis-
são pública de religião” antes de 1845 (AR, agosto, no 2, 1850). Es-
sas conversões se intensificaram nos dois anos seguintes. O fato le-
vou a uma correção de procedimento na teologia adventista. Em fe-
vereiro de 1852 Tiago havia mudado seus pensamentos para um
plano evangelístico porta aberta. “Ensinamos esta PORTA ABERTA e
convidamos os que têm ouvidos para ouvir, que venham e encon-
trem salvação em Jesus Cristo. Há uma inexcedível glória em ver
que Jesus ABRIU A PORTA do Santo dos santos. . . . Se disserem que
somos da PORTA ABERTA e da teoria do sábado do sétimo dia, não fa-
remos objeção; pois esta é nossa fé” (RH, 17 de fevereiro de 1852).
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL 65

Foi assim que o povo da porta fechada tornou-se o povo da por-


ta aberta, ao reconhecer que a abertura da última fase do ministé-
rio de Cristo no Lugar Santíssimo do santuário celestial incluía a
abertura de uma nova mensagem sobre o sábado e a mensagem do
terceiro anjo. Essa compreensão impulsionou a denominação a ir
a todos os lugares do mundo e a fazer das missões uma das mar-
cas mais importantes do adventismo do sétimo dia. Essa visão, en-
tretanto, demorou a desenvolver-se.
Nesse meio tempo, é importante notar a utilidade do erro da
porta fechada. Os adventistas sabatistas a herdaram de Guilherme
Miller, junto com outras idéias equivocadas a respeito do santuá-
rio e sua purificação (as idéias estavam todas ligadas). Gradual-
mente, ao dissiparem-se os erros, o foco da imagem foi ajustado.
Devemos, porém, entender essa mudança como um processo no
tempo, e não como um ato momentâneo.
Por volta do início da década de 1850, as principais peças esta-
vam no lugar. O erro quanto à missão foi útil no sentido de conce-
der aos sabatistas tempo para construírem tanto a base doutrinária
quanto a base populacional em direção ao próximo passo em seu
programa missionário. Perto do fim da década de 1850 a denomina-
ção em vias de desenvolvimento também havia formado uma base
editorial, financeira e organizacional de onde lançaria sua missão.
Mas seus membros ainda não estavam prontos para agir.
Embora os sabatistas no início da década de 1850 acreditassem que
sua única função na história profética era pregar as mensagens dos três
anjos de Apocalipse 14, e embora Apocalipse 14:6 afirmasse claramen-
te que a missão do primeiro anjo era ir “a cada nação, e tribo, e língua,
e povo”, eles ainda recuavam ante o evangelismo mundial.
Em parte, isso era resultante da pequena quantidade de mem-
bros e limitados recursos financeiros, mas havia outras razões. Em
primeiro lugar, alguns sabatistas achavam que os mileritas já ha-
viam realizado a pregação da primeira mensagem angélica para to-
da a Terra, pelo envio de suas publicações ao redor do mundo.
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66 UMA IGREJA MUNDIAL

Outros sabatistas seguiam a liderança de Urias Smith, editor da


Review. Em 1859 alguém perguntou a Smith se “a Mensagem do
Terceiro Anjo [estava] sendo dada, ou [se] devia ser dada apenas nos
Estados Unidos?” Smith respondeu que, apesar da analogia levar à
conclusão de que a proclamação da mensagem do terceiro anjo po-
dia ser coextensiva com a pregação do primeiro anjo (isto é, mun-
dial), “talvez não fosse necessário cumprir Apoc. 10:11, visto que
nosso país é composto de povos de quase todas as nações” (Ibidem,
3 de fevereiro de 1859). O fundamento lógico de Smith, tomado de
empréstimo de Guilherme Miller, foi de que o evangelho precisava
ser pregado apenas a um representante de cada nação. Visto que os
Estados Unidos eram um conglomerado de representantes de mui-
tas nações, não se precisava de missões estrangeiras.
Assim, embora a porta fechada houvesse começado a abrir-se,
ainda não estava aberta o suficiente. Os adventistas sabatistas
eram, na melhor das hipóteses, missionários relutantes. Mas isso
mudaria drasticamente próximo do final do século dezenove.

Para Leitura Adicional

Maxwell, C. Mervyn. História do Adventismo, págs. 97-107,


127-150.
Mustard, Andrew G. James White and SDA Organization: His-
torical Development, 1844-1881 (Tiago White e a Organização
ASD: Desenvolvimento Histórico, 1844-1881). Berrien Springs,
Mich.: Andrews University Press, 1988.
Neufeld, Don F., ed. Seventh-day Adventist Encyclopedia (En-
ciclopédia Adventista do Sétimo Dia). Edição de 1996, vol. 2, págs.
249-252, 258-270.
Schwarz, Richard W. Light Bearers to the Remnant (Portado-
res de Luz ao Remanescente). Págs. 72-98.
White, Arthur L. Ellen G. White (Ellen G. White). Vol. 1, págs. 139-
151, 163-178, 256-270, 380-393, 420-431, 445-461; vol. 2, págs. 23-33.
067-086\Cap. 4 22.12.13 15:12 Page 67

A Era do

Capítulo 4
Desenvolvimento
Institucional e do
Estilo de Vida
(1863 - 1888)
Vimos até aqui, em nosso estudo, que o de-
senvolvimento do adventismo foi progressivo,
com cada estágio sendo edificado em cima dos
anteriores. Foi assim que o movimento mileri-
ta lançou a base profética no período que vai
até outubro de 1844. Entre 1844 e 1848, os
fundadores do adventismo do sétimo dia erigi-
ram sua estrutura doutrinária característica
sobre a plataforma profética estabelecida por
Miller. Ao completar essa tarefa, os sabatistas
estavam em condições de se organizarem a fim
de melhor preservar suas crenças e herança e
poder ir ao alcance de outros. Correndo parale-
lo com esses estágios básicos estava um concei-
to missionário em desenvolvimento.
O ano de 1863 testemunhou uma importan-
te mudança, quando os adventistas começaram
a focalizar o modo de vida que deviam adotar e
a desenvolver as instituições que apoiariam es-
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68 UMA IGREJA MUNDIAL

se estilo de vida. Os anos entre 1863 e 1888 também trouxeram


mudanças significativas para o pensamento adventista a respeito
da missão mundial.

O Viver Saudável e o Instituto Ocidental


da Reforma de Saúde

A luta em prol da organização da igreja alcançou seus objeti-


vos em 21 de maio de 1863 com o estabelecimento da Associação
Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Chegara agora o tempo de
dar o passo seguinte na formação do adventismo. A primeira e
principal mudança nessa direção foi na área do viver saudável.
Apenas 15 dias após o estabelecimento de uma organização
funcional, em 5 de junho de 1863, Ellen White recebeu sua pri-
meira visão geral sobre a reforma de saúde. Essa visão acabou for-
necendo o material para vastas publicações sobre o viver saudável,
mas numa carta escrita no dia seguinte ela esclareceu os princí-
pios essenciais da visão:
“Vi,” escreveu ela, “que era um dever sagrado zelar por nossa
saúde, e despertar outros para seu dever. . . . Temos o dever de fa-
lar e de lutar contra toda espécie de intemperança – intemperan-
ça no trabalho, no comer e no uso de medicamentos – e depois
apontar-lhes o grande remédio de Deus: água, água pura, para
doenças, para a saúde, para limpeza e como deleite. . . . Vi que não
devemos calar-nos a respeito do assunto da saúde, mas despertar
as mentes para ele.” “A obra que Deus requer de nós,” observou
ela, “não nos impedirá de cuidar de nossa saúde. Quanto mais
perfeita for nossa saúde, mais perfeito será o nosso trabalho” (MS
1 1863; itálicos supridos).
A visão de 1863 não foi, entretanto, a primeira agitação da refor-
ma de saúde entre os pioneiros adventistas sabatistas. José Bates,
por exemplo, foi durante muitos anos um completo reformador da
saúde. No começo da década de 1820, enquanto ainda atuava como
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 69

capitão de navio, parou de beber ao descobrir que ansiava mais por


um drinque diário do que pelo alimento. Um ano depois, ele aban-
donou o vinho. Em seguida, após seu batismo em 1827, ajudou a
organizar uma das primeiras sociedades de temperança dos Estados
Unidos. Os anos subseqüentes viram o capitão abandonar o chá, o
café, a carne e os alimentos altamente condimentados. De modo
que, na época em que Bates se tornou adventista sabatista, já havia
muitos anos que ele era um reformador da saúde.
Bates, contudo, não considerava a reforma de saúde da mesma
importância que assuntos como o sábado do sétimo dia, o minis-
tério celestial de Cristo ou a tríplice mensagem angélica. Era im-
portante, mas não era “a verdade presente”. Por isso, quase que
totalmente, ele guardou silêncio sobre o assunto até 1863. Tiago
White observou que, quando alguém perguntava a Bates por que
ele não usava determinados itens, ele respondia: “Já comi meu
quinhão disto.” Mas não fazia da reforma de saúde um assunto
“público nem particular, naquele tempo, a menos que lhe fizes-
sem perguntas sobre o assunto” (CTemp, pág. 252).
No fim da década de 1840 e durante a década de 1850 apareceu
entre os primeiros adventistas ligeira comoção em torno do viver
saudável. Em 1848, por exemplo, a senhora White falou a respeito
dos efeitos nocivos do fumo, do chá e do café. E, na década de 1850,
a igreja tomou medidas contra o uso do fumo. Mas a reforma de saú-
de era um assunto ao qual se dava pouca consideração, enquanto a
denominação estava concentrada em questões mais complexas.
Um dos exemplos mais interessantes da qualidade dinâmica e
crescente da “verdade presente” entre os primeiros adventistas é
o assunto dos alimentos imundos. Em novembro de 1850, Tiago
White, tomando por base Atos 10 e outros textos, afirmou ampla-
mente que o porco era alimento permissível na dispensação evan-
gélica. Reeditou o artigo na Review em 1854, aparentemente por
causa de alguns adventistas zelosos que continuavam a tocar no
assunto. Finalmente, em 1858, Ellen White repreendeu S. N. Has-
067-086\Cap. 4 22.12.13 15:12 Page 70

70 UMA IGREJA MUNDIAL

kell por debater a questão. Foi bastante interessante o argumento


que ela empregou. Primeiramente, observou que, se ele guardas-
se para si suas idéias sobre a carne suína, elas não seriam prejudi-
ciais. Mas, pelo fato de ele não guardar silêncio sobre o tema, es-
tava causando divisão na igreja.
“Se for dever da igreja abster-se da carne de porco,” continuou
ela, “Deus o revelará a mais do que duas ou três pessoas. Ele en-
sinará à igreja o seu dever.
“Deus está guiando Seu povo, não uns poucos e separados in-
divíduos aqui e acolá, um crendo de uma forma e outro diversa-
mente. . . . O terceiro anjo está conduzindo e purificando um po-
vo, o qual se moverá em união com ele. . . . Vi que os anjos de
Deus não levariam Seu povo mais depressa do que pudesse com-
preender e agir segundo as importantes verdades que lhe são
comunicadas” (1T, págs. 206 e 207).
Essa é uma afirmação fora do comum, visto dar realce aos fatos
de que (1) Deus trabalha com grupos (igrejas) e não somente com
indivíduos, (2) Deus é paciente em Sua liderança e (3) a verdade
presente é dinâmica e progressiva – temas que causam dissensão
num período da história da igreja podem noutro período tornar-se
importantes, depois que se tenha tratado de outras questões.
Assim aconteceu com a reforma de saúde. Logo que as medi-
das doutrinárias e organizacionais estavam em seu lugar apro-
priado, as questões de estilo de vida (inclusive a reforma de saú-
de) tornaram-se o passo seguinte no desenvolvimento do adven-
tismo e da verdade presente. A verdade é progressiva. Deus guia
Seu povo dando um passo de cada vez. Assim ocorreu uma impor-
tante mudança de rumo em 1863.
A essa altura, devemos mencionar que os adventistas do sétimo
dia não estavam sozinhos na maior parte de suas idéias e práticas
da reforma de saúde. Ao contrário, faziam parte do grande movi-
mento de reforma sanitária em andamento nos Estados Unidos.
Este movimento procurava corrigir os destrutivos hábitos de vida
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 71

e a crassa ignorância a respeito de como viver e cuidar do próprio


corpo. Hoje muitos de seus pontos de vista são de conhecimento
público: idéias como banhos freqüentes, germes como causas de
doença, efeitos prejudiciais do fumo, o perigo de determinados ti-
pos de drogas e a importância de um regime alimentar equilibra-
do. Mas a ignorância reinante a respeito desses assuntos na Amé-
rica, em meados do século dezenove era grande, e muitos zelosos
reformadores da saúde se levantaram para combater esses equívo-
cos. Portanto, os adventistas não estavam sozinhos.
Sylvester Graham, por exemplo, já ensinava em fins da década de
1830 muita coisa do conjunto da reforma de saúde “adventista”. Ins-
tituições reformadoras como o Nosso Lar, do Dr. James C. Jackson,
que está localizado na vertente de Dansville, em Nova Iorque, foram
pioneiras em fornecer cuidados e instruções sobre a reforma de saú-
de para os que se internavam naquela instituição como pacientes.
Esses locais foram precursores dos sanatórios adventistas.
A visão que Ellen White recebeu em 5 de junho de 1863 colocou
os adventistas no movimento da reforma de saúde. Lamentavelmen-
te, era mais fácil ler sobre a reforma de saúde do que vivê-la. Como
resultado disso, um presidente da Associação Geral intemperante e
que trabalhava em excesso, chamado Tiago White, sofreu um ataque
de paralisia em 16 de agosto de 1865. Sua esposa resolveu levar Tia-
go para tratar-se na instituição do Dr. Jackson, em Dansville. Dois
outros líderes adventistas enfermos – J. N. Loughborough e Urias
Smith – foram junto. Enquanto isso, o adepto da reforma de saúde
de 73 anos de idade, Bates, continuava com boa saúde.
Se o adventismo quase entrou em colapso em 1856 devido à
falta de organização e à incapacidade de pagar seus ministros, em
1865 balançou à beira do desastre devido aos precários hábitos de
saúde de seus principais ministros. A reforma de saúde não era
apenas uma estranha aberração; era uma premente necessidade.
O passo seguinte na crescente relação entre o adventismo e a
reforma de saúde foi conseqüência da visão recebida por Ellen
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72 UMA IGREJA MUNDIAL

White em 25 de dezembro de 1865. Essa visão não somente con-


vocava os adventistas a estabelecerem sua própria instituição de
saúde, mas também integrava a reforma de saúde à teologia adven-
tista. “A reforma de saúde,” observou a senhora White, “faz parte
da mensagem do terceiro anjo, e está tão intimamente ligada a ela
como o braço e a mão estão ao corpo” (1T, pág. 486). Parte da fun-
ção da reforma, dizia ela, era preparar o povo para a trasladação na
segunda vinda de Jesus. Assim, conforme observou J. H. Waggoner
em 1866, a reforma de saúde era “parte essencial da verdade pre-
sente” (RH, 7 de agosto de 1866).
A partir de 1865, a reforma de saúde e o cuidado da saúde tor-
naram-se aspectos crescentes do ministério adventista para com
a igreja e o mundo. O Health Reformer (Reformador da Saúde),
uma revista mensal de 16 páginas, foi lançada em 1866, e no
mesmo ano foi criado o Instituto Ocidental da Reforma de Saú-
de, em Battle Creek, Michigan. Este estabelecimento tornou-se
o modelo para a origem de outras centenas de instituições ad-
ventistas de saúde.
O ano de 1876 testemunhou a nomeação de John Harvey Kel-
logg, um jovem médico de 24 anos de idade, para administrador do
Instituto Ocidental da Reforma de Saúde. Dentro de alguns meses,
Kellogg mudou o nome da instituição para Sanatório de Battle
Creek. A palavra sanatório, proclamava ele, significa “lugar onde as
pessoas aprendem a ficar bem”. Na década de 1890, sob a orienta-
ção de Kellogg, o Sanatório de Battle Creek tornou-se a maior ins-
tituição dessa natureza no mundo e alcançou renome mundial.

A Luta Pela Não-Combatência

Um segundo assunto relativo ao estilo de vida enfrentado pela


denominação recém-organizada relacionava-se com o serviço mi-
litar. A guerra mais sangrenta da América do Norte começou em
1861 e desenvolveu-se durante quatro anos. Levantaram-se duas
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 73

perguntas: Devem os adventistas do sexo masculino servir ao


exército? Se a resposta a essa pergunta fosse sim, deveriam eles
então pegar em armas e matar outros seres humanos?
Tiago desencadeou essa questão explosiva no dia 12 de agosto
de 1862, na Review. O problema, conforme ele o via, era que “as
exigências da guerra” não se harmonizavam com “os dez manda-
mentos. . . . O quarto preceito da lei diz: ‘Lembra-te do sábado pa-
ra o santificar’; o sexto diz: ‘Não matarás.’”
Depois de apresentar o assunto em linhas gerais, White fez
uma sugestão extremamente controversa. “No caso de destacar
tropas,” afirmou ele, “o governo assume a responsabilidade pela
violação da lei de Deus, e seria loucura resistir. Aquele que resis-
te até o ponto de ser fuzilado, conforme a administração da lei mi-
litar, excede-se, pensamos nós, ao tomar a responsabilidade pelo
suicídio” (Ibidem, 12 de agosto de 1862).
O editorial de White desencadeou um bombardeio de cartas.
Duas semanas depois ele relatou que alguns membros haviam
reagido, “num estilo um tanto exaltado”, acusando-o essencial-
mente de transgressor do sábado e assassino. Acrescentou que, se
qualquer adventista que resistisse ao alistamento preferisse “ter
uma luta corpo a corpo com o Tio Sam a obedecer,” que o tentas-
se. Tiago afirmou que não tinha a obrigação de contender contra
eles, “para que alguns de vocês não-resistentes se ergam antes de
serem convocados para lutar por seu país”. Acrescentou ainda que
“quaisquer artigos bem escritos, destinados a derramar luz sobre
nosso dever como um povo com referência à presente guerra, re-
ceberão rápida atenção” (Ibidem, 26 de agosto de 1862).
Seu convite desencadeou um dilúvio de sugestões. Os quatros
meses seguintes testemunharam o debate por meio das páginas
do principal periódico da denominação. A discussão abrangeu
quase todas as opções possíveis. Alguns leitores viram na atitude
de Daniel na cova dos leões e dos três hebreus na fornalha arden-
te o correto paralelo bíblico para o alistamento. No extremo opos-
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74 UMA IGREJA MUNDIAL

to estavam aqueles que, seguindo a posição inicial de White, afir-


mavam que o verdadeiro paralelo bíblico era a impotência dos es-
cravos hebreus no Egito. De acordo com o argumento deles, essa
servidão tornava impossível responsabilizar os escravos pela vio-
lação do sábado.
O mais radical dos pontos de vista era o de Joseph Clarke, que
desejava ver a “traição” do Sul “receber seu justo castigo”. So-
nhando com “Gideões, Jeftés e Davis guerreadores”, Clarke punha
a guerra na perspectiva do concerto, imaginando “um regimento
de observadores do sábado [que] sufocaria esta rebelião com um
golpe colossal, na força dAquele que sempre ajudou Seu valoroso
povo quando este guardava os Seus estatutos” (Ibidem, 23 de se-
tembro de 1862). Por outro lado, Henry E. Carver adotou a atitu-
de pacifista “de que, em nenhuma circunstância, seria justificável
a um seguidor do Cordeiro empregar armas carnais para tirar a vi-
da de seus semelhantes” (Ibidem, 21 de outubro de 1862).
Perto do fim da guerra, a Igreja Adventista do Sétimo Dia e o
governo dos Estados Unidos haviam encontrado uma solução sa-
tisfatória para os membros da jovem denominação. Da sua parte,
o governo tomou providências em favor dos crentes alistados que
eram recrutados para que trabalhassem em hospitais e em outras
atividades que lhes garantissem a oportunidade de servir à nação
sem precisar matar. Em troca, a igreja aconselharia seus mem-
bros a auxiliar seu país em tempo de crise. Assim, em 1864, o go-
verno norte-americano deixou opções para a não-combatência. A
denominação organizou-se precisamente a tempo de receber re-
conhecimento oficial, tornando assim disponível a seus membros
a opção de não-combatência.
O adventismo adotou sua atitude histórica em relação ao ser-
viço militar em 1864. Embora estimulasse seus jovens a não se
apresentar como voluntários, a igreja desde a década de 1860 vem
apoiando a cooperação de não-combatência com o serviço militar
para seus membros alistados. Por outro lado, refletindo a tensão
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 75

dos primeiros debates, a igreja continua a reconhecer que a res-


ponsabilidade de escolher entre prestar serviço militar ou não, re-
cai sobre a consciência de cada pessoa.

Em Busca da Verdadeira Educação

Um terceiro desenvolvimento institucional e de estilo de vida


ocorrido entre 1863 e 1888 centralizou-se na educação cristã. A
ênfase educacional chegou mais tarde que os outros desenvolvi-
mentos, porque os grupos religiosos que focalizam a proximidade
do fim do mundo geralmente não sentem muita necessidade de
educar seus filhos. Afinal de contas, raciocinam eles, “por que en-
viar filhos à escola, se o mundo vai acabar em breve e eles jamais
crescerão para aplicar o que aprenderam com tanto esforço?”
Essa era a atitude comum entre os adventistas. Diante disso, em
1862, um membro da igreja escreveu a Tiago White perguntando se
era “correto e coerente para nós que cremos de todo o coração na
vinda imediata do Senhor, procurar dar instrução a nossos filhos?
Se assim for, devemos enviá-los para uma escola distrital ou muni-
cipal, onde aprendem duas vezes mais o mal do que o bem?”
White respondeu que “o fato de Cristo estar voltando muito em
breve não é razão para a mente não ser aprimorada. Uma mente
bem-disciplinada e informada é capaz de receber e apreciar me-
lhor as verdades sublimes do Segundo Advento” (Ibidem, 23 de
dezembro de 1862; itálicos supridos). A resposta dele indica uma
parte do fundamento lógico que se tornou mais tarde o alicerce
sobre o qual se desenvolveu o sistema educacional adventista.
Além disso, a pergunta demonstra uma inicial desconfiança nas
escolas públicas.
Na metade da década de 1850 o problema da escolarização ha-
via começado a preocupar alguns adventistas a ponto de resolve-
rem criar escolas cristãs independentes. O primeiro desses esfor-
ços ocorreu em Buck’s Bridge, Nova Iorque, em 1853; o segundo,
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76 UMA IGREJA MUNDIAL

em Battle Creek, no Michigan, em 1856. Mas as duas escolas, de


apenas uma sala de aula cada, fracassaram após funcionarem du-
rante quase três anos.
Em 1861, ao enfrentar pressão para estabelecer uma outra es-
cola em Battle Creek, Tiago White escreveu: “Tivemos a experiên-
cia completa de uma escola em Battle Creek sob circunstâncias as
mais favoráveis, e desistimos dela quando falhou em atender às
expectativas dos interessados” (Ibidem, 24 de setembro de 1861).
Ao que parece, não se fez mais nenhuma tentativa de abrir esco-
las adventistas até o fim da década de 1860. Nesse meio tempo, a
igreja passava instrução religiosa para seus jovens pelas páginas
do Youth’s Instructor (Instrutor da Juventude) e por meio da Es-
cola Sabatina com suas lições semanais.
Em 1867 os adventistas de Battle Creek estavam prontos outra vez
para estabelecer uma escola, desta vez sob a liderança de Goodloe
Harper Bell, experiente professor de escola pública. A escola existiu
de forma esporádica até 1870 ou 1871.
Em 1872 a denominação começou a considerar mais seria-
mente a necessidade de uma escola de qualidade – não tanto para
crianças primárias, mas para estudantes mais avançados que pre-
cisavam de preparo para difundir a mensagem adventista. A lide-
rança da igreja resolveu inaugurar uma escola em Battle Creek
sob o patrocínio financeiro da Associação Geral. Ela instruiria
seus estudantes “nos ensinamentos bíblicos referentes às grandes
verdades relacionadas a este tempo” e lhes forneceria conheci-
mentos gerais suficientes para capacitá-los a difundir a mensagem
adventista (Ibidem, 7 de maio de 1872).
A escola de Battle Creek, a primeira a ser mantida pela denomi-
nação, foi inaugurada em junho de 1872 com Bell lecionando para
12 estudantes. Em 1874 aquele pequeno começo transformou-se no
Battle Creek College, tendo Sidney Brownsberger como diretor. O
Battle Creek College foi uma importante instituição na história da
educação adventista, não apenas por causa da sua posição pioneira,
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 77

mas também pela grande atenção que recebeu em termos daquilo


que uma escola adventista devia realizar.
O presidente da Associação Geral, George I. Butler, e a comissão
escolar enfatizaram que o propósito da escola era ensinar a Bíblia.
Cumpria dar relevo especial tanto às perspectivas profético-doutri-
nárias adventistas quanto às habilidades necessárias à prática do
evangelismo em todas as suas formas. Eles queriam uma escola cen-
trada na Palavra de Deus, dizia Butler, não uma escola que se con-
centrasse na aprendizagem tradicional conforme outras no país.
“Queremos que centenas dentre nosso povo freqüentem a escola du-
rante três, seis, doze, dezoito ou vinte e quatro meses, logo que pos-
sam coerentemente fazê-lo” (Ibidem, 21 de julho de 1874).
Ellen White escreveu um importante artigo intitulado “A Verda-
deira Educação” para ajudar a orientar o planejamento da nova es-
cola. Assumindo que a escola daria especial relevância à Bíblia, ela
enfatizou que o estabelecimento deveria ter por alvo desenvolver em
seus estudantes o equilíbrio das faculdades mentais, físicas e espiri-
tuais. Salientou em particular a necessidade de uma educação prag-
mática, que aliasse o trabalho físico com o labor acadêmico.
Muitos outros reformadores do século dezenove também de-
fendiam tais conceitos. O principal problema na implementação
desses ideais reformadores na Igreja Adventista era que o adven-
tismo não dispunha de educadores familiarizados com isso. Con-
seqüentemente, o Battle Creek College acabou se tornando mais
um estabelecimento tradicional em vez de ser moldado pela refor-
ma educacional. Os estudantes matriculados no curso de estudos
mais importante da escola tinham que passar de quatro a seis
anos estudando os clássicos gregos e latinos (“autores pagãos”) a
fim de obter o grau de bacharel em artes. A escola não possuía tra-
balho manual no seu currículo, nem se exigia classe bíblica ou
programa de reforma. O historiador do Battle Creek College afir-
mou que o currículo da escola era uma “traição filosófica” (E. K.
VandeVere, Wisdom Seekers, pág. 23).
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78 UMA IGREJA MUNDIAL

Lamentavelmente a situação ficou pior no início da década de


1880. No verão de 1882 a diretoria da escola resolveu fechá-la por
tempo indeterminado. Foi assim que a primeira tentativa oficial
de instrução formal entrou em colapso.
O Battle Creek College reabriu as portas no outono de 1883
com a renovada determinação de implementar os princípios da
educação cristã. A despeito do substancial melhoramento, a
escola em nenhum momento da década de 1880 removeu a cen-
tralidade dos clássicos “pagãos” nem fez uma reforma curricu-
lar completa.
Felizmente, as duras lições aprendidas no Battle Creek
College, na década de 1870, não foram de todo inúteis para a
compreensão educacional incipiente da denominação. A prima-
vera de 1882 testemunhou o estabelecimento de duas escolas de
Ensino Médio mantidas pela igreja: a Healdsburg Academy, na
Califórnia, e a South Lancaster Academy, em Massachusetts.
Com o passar dos anos, a Healdsburg Academy tornou-se
Healdsburg College, sendo hoje conhecido como Pacific Union
College. A South Lancaster Academy transformou-se no Atlan-
tic Union College.
Brownberger e Bell, os líderes educacionais do Battle Creek
College durante a década de 1870, estabeleceram respectivamen-
te cada uma das escolas. Havendo aprendido da experiência ante-
rior, deram grandes passos em direção à implementação da refor-
ma curricular. A reforma completa, porém, teve que esperar até a
década de 1890. O desenvolvimento de um sistema de educação
fundamental também passou a existir depois daquele ano.

Progressos na Mordomia Financeira

Não levou muito tempo até que a denominação descobrisse os


pontos fracos da Doação Sistemática. A “Irmã Betsy” era inade-
quada, incômoda e carente de base bíblica.
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 79

Gradualmente, nas décadas de 1860 e 1870, a denominação


evoluiu para uma melhor compreensão do verdadeiro dízimo. O
assunto chegou ao estado de amadurecimento no início de 1876,
quando Dudley M. Canright publicou uma série de artigos na
Review enfatizando que Malaquias 3:8-11 expunha “o plano bí-
blico de sustento do ministério”. “Deus exige,” argumentava ele,
“que o dízimo, ou a décima parte de toda a renda de Seu povo,
seja dado para sustentar Seus servos em seu trabalho” (RH, 17
de fevereiro de 1876).
Canright apresentou sua linha de raciocínio na assembléia da
Associação Geral, em novembro daquele ano, e estimou que, se to-
dos os adventistas devolvessem fielmente o dízimo, a tesouraria da
Associação Geral receberia anualmente 150 mil dólares em vez de
40 mil. Como resultado da sua apresentação, a assembléia decidiu
ser dever de todos os membros, “em circunstâncias normais, de-
dicar a décima parte de todas as suas rendas provenientes de
quaisquer fontes, para a causa de Deus” (Ibidem, 6 de abril de
1876). Daquela época em diante, os adventistas do sétimo dia tor-
naram-se cada vez mais praticantes do dízimo bíblico.

O Papel de Ellen White no Desenvolvimento do


Estilo de Vida Adventista

No capítulo 2 chamamos a atenção para o fato de que Ellen


White não desempenhou nenhum papel relevante no desenvolvi-
mento da doutrina adventista durante a década de 1840. Pelo con-
trário, o procedimento era estudar a Bíblia até chegar a um con-
senso geral. A partir daí, Ellen White algumas vezes recebia uma
visão que ratificava o consenso e ajudava os que ainda tinham dú-
vidas para aceitar a exatidão das conclusões extraídas da Bíblia a
que o grupo chegara. Dessa maneira, podemos pensar no envolvi-
mento da Sra. White, na formação da doutrina, mais em termos
de confirmação do que de iniciação.
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80 UMA IGREJA MUNDIAL

O mesmo conceito não funciona para o papel desempenhado


por Ellen White na área de estilo de vida adventista. Se bem que
os adventistas do século vinte tenham a tendência de considerar
as questões doutrinárias e de estilo de vida como tendo igual mag-
nitude, esse não era o ponto de vista dos fundadores da denomi-
nação. Embora eles tenham elaborado com esforço as doutrinas
básicas, mediante estudo intensivo da Bíblia e mediante conferên-
cias para chegarem a um consenso, o desenvolvimento do estilo
de vida seguiu um padrão um tanto diferente. A formação da pos-
tura acerca do estilo de vida foi muito mais casual.
Talvez a diferença girasse em torno do fato de que a doutrina de-
fine a denominação. A doutrina foi, portanto, para os primeiros ad-
ventistas sabatistas, uma questão crucial, e recebeu bastante aten-
ção. Os itens do estilo de vida, por outro lado, tendem a ser preocu-
pações de segunda ordem para uma denominação. Muitas questões
relativas ao estilo de vida não são determinadores tão básicos da
identidade de uma denominação quanto a maneira de viver que fa-
cilita sua missão em difundir sua mensagem doutrinária.
A partir dessa perspectiva, a reforma de saúde capacita as pes-
soas a serem melhores missionários e habilita pessoas saudáveis e
curadas a terem condições de compreender melhor o evangelho.
Semelhantemente, a educação cristã facilita a formação tanto de
membros da igreja quanto de pregadores do evangelho. Por outro
lado, quando vistos da perspectiva da salvação e relacionamento
com Deus, as doutrinas estão de modo geral mais próximas de se-
rem um fim em si mesmas do que as questões relativas a estilo de
vida. As questões relativas a estilo de vida devem ser consideradas
meios com o fim de pregar a doutrina no contexto da salvação.
Embora a mente dos fundadores do adventismo provavelmen-
te não tenha seguido conscientemente esse raciocínio, os primei-
ros líderes do movimento pareciam agir desse modo. Assim esfor-
çaram-se enormemente para declarar suas doutrinas de forma
precisa, ao passo que negligenciaram a maioria das questões rela-
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 81

tivas ao estilo de vida até que a necessidade e a crise os forçaram


a assumir uma atitude.
Os adventistas preencheram a resultante lacuna do estilo de vi-
da de várias maneiras, dependendo do assunto. Algumas vezes um
ponto de vista se desenvolvia mediante estudo da Bíblia e confe-
rências ao surgir uma crise, mas outras vezes Ellen White toma-
va a iniciativa de levantar a questão, apontando uma solução e in-
dicando a maneira como essa solução se encaixava no conceito ge-
ral da tríplice mensagem angélica.
Esse último procedimento era óbvio na área da reforma de
saúde, enquanto que o primeiro predominava em áreas como ser-
viço militar e dízimo. Pelo fato de Ellen White muitas vezes apli-
car os princípios bíblicos à vida diária da igreja e aos crentes, de
maneira individual, durante anos seu conselho foi-se tornando
mais e mais o centro de qualquer discussão a respeito do estilo de
vida adventista.
Em resumo, descobrimos no desenvolvimento do primitivo ad-
ventismo o duplo papel de Ellen White, com menor atividade no
domínio da formação doutrinária e maior no desenvolvimento do
estilo de vida.

Missões: Estrangeiras e Não Tão Estrangeiras

Vimos nos capítulos 2 e 3 que os primeiros adventistas do sétimo


dia eram tudo menos missionários entusiastas. E isto apesar do fato
de o centro do foco de sua pregação serem as três mensagens de Apo-
calipse 14 com seu óbvio imperativo de missão mundial. Os primei-
ros adventistas só desistiram da porta fechada porque a presença de
novos convertidos os forçou a assim proceder. Mesmo depois, conti-
nuaram a subestimar sua responsabilidade missionária.
Como em outras ocasiões, Tiago White permaneceu na van-
guarda dos que anteviam uma grande obra em favor da denomi-
nação. Um mês antes da organização da Associação Geral de 1863,
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82 UMA IGREJA MUNDIAL

White afirmou na Review que “nossa mensagem é uma mensa-


gem mundial” (RH, 21 de abril de 1863). Alguns meses antes ele
havia chamado a atenção para a necessidade de enviar um missio-
nário à Europa. Mais tarde, em junho de 1863, a Review relatou
que “a Comissão Executiva da Associação Geral talvez envie um
missionário [B. F. Snook] para a Europa antes do fim de 1863”
(Ibidem, 2 de junho de 1863).
Embora a recém-estabelecida Associação Geral não tivesse
obreiros suficientes que lhe permitisse despachar Snook para
além-mar, contava com um ministro que estava mais do que an-
sioso pela tarefa. Em 1858, Michael Belina Czechowski (um ex-pa-
dre católico romano polonês que se havia convertido ao adventis-
mo na América do Norte em 1857) escreveu: “Como eu gostaria
de visitar meu país natal, atravessar as grandes águas e falar da
vinda de Jesus, da gloriosa restauração e de como eles devem
guardar os mandamentos de Deus e a fé de Jesus!” (Ibidem, 23 de
setembro de 1858). Devido à recentidade de sua fé, visíveis insta-
bilidades pessoais e outras razões, a igreja recusou-se a enviar
Czechowski como missionário.
Frustrado, o criativo polonês requereu e recebeu patrocínio
missionário da denominação Advent Christian (a principal corpo-
ração de adventistas observadores do domingo). Após chegar à Eu-
ropa em 1864, Czechowski pregou a mensagem adventista do sé-
timo dia apesar do patrocínio da Advent Christian. Promoveu seu
trabalho por meio de evangelismo público, publicação de um pe-
riódico e preparo e circulação de folhetos. O instável mas eficien-
te pregador plantou as sementes da doutrina adventista do sétimo
dia na Suíça, Itália, Hungria, Romênia e em outras partes da Eu-
ropa, sementes estas que finalmente produziram fruto.
Enquanto isso, os adventistas do sétimo dia – na melhor das
hipóteses, ainda relutantes missionários – deram em 1868 o “ar-
riscado” passo de enviar John N. Loughborough e D. T. Bordeau
para a longínqua Califórnia. A principal motivação para essa de-
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A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 83

signação foi um apelo em favor de ministros feito por alguns emi-


grantes adventistas que viviam naquele Estado. Pouco tempo de-
pois da chegada deles a São Francisco, um homem de uma cidade
vizinha teve um encontro com eles e declarou que um amigo seu
tivera um sonho impressionante no qual vira dois evangelistas de
tenda e recebeu ordens para ajudá-los.
A partir daquele começo providencial, a obra cresceu rapida-
mente na Califórnia e nos Estados vizinhos. É interessante notar
que a Califórnia estabeleceu o padrão para as Missões adventistas
ao redor do mundo. Após reunir uma pequena base populacional,
os adventistas estabeleceram uma editora (a Pacific Press) e um
periódico (o Signs of the Times), em 1874; um sanatório em San-
ta Helena, em 1878; e uma academia/escola superior em Healds-
burg, em 1882. Essa base institucional seguiu realmente o exem-
plo da experiência de Battle Creek e permanece no coração da es-
tratégia missionária adventista até os dias atuais.
Nesse meio tempo, no ano seguinte ao começo da Missão Cali-
fórnia, os convertidos de Czechowski empreenderam uma mudan-
ça que forçou a hesitante Igreja Adventista a expandir sua com-
preensão e prática missiológica. Os seguidores de Czechowski, na
Suíça, descobriram acidentalmente a existência da Igreja Adventis-
ta do Sétimo Dia nos Estados Unidos. Embora isso tenha preocu-
pado o próprio Czechowski, a correspondência levou finalmente a
liderança adventista norte-americana a convidar um representan-
te suíço para a assembléia da Associação Geral de 1869.
Ele chegou tarde demais para a assembléia, mas ficou nos Es-
tados Unidos por mais de um ano a fim de inteirar-se mais a fun-
do das crenças adventistas. Depois voltou para a Europa, em 1870,
como ministro adventista do sétimo dia ordenado.
O fruto do contato com os adventistas europeus foi o desenvol-
vimento de uma sociedade missionária na assembléia da Associa-
ção Geral de 1869. “O objetivo desta sociedade,” rezava a decisão,
“será enviar as verdades da mensagem do terceiro anjo a terras es-
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84 UMA IGREJA MUNDIAL

trangeiras e às partes distantes de nosso próprio país por meio de


missionários, revistas, livros, folhetos, etc.” Ao fazer a abertura da
sociedade, Tiago White afirmou que a igreja recebia “quase que
diariamente pedidos de envio de publicações para outros países”
(Ibidem, 15 de junho de 1869).
Em 1869 a necessidade de enviar missionários a outras nações
finalmente se tornou uma realidade para muitos adventistas do
sétimo dia. A igreja compreendeu mais claramente os imperativos
missionários de Apocalipse 10:11 e 14:6.
O grande ano foi 1874. Em janeiro a denominação fundou o
True Missionary (Verdadeiro Missionário), a primeira revista mis-
sionária do adventismo. Em setembro, John Nevins Andrews na-
vegou para a Europa como o primeiro missionário “oficial” da de-
nominação ao estrangeiro. Aquele mesmo ano viu o estabeleci-
mento do Battle Creek College. O tempo para o estabelecimento
da escola não foi um acidente, visto que os fundadores, racioci-
nando mais claramente, compreenderam que o propósito princi-
pal dela era treinar missionários, tanto para o campo nacional
quanto para o estrangeiro.
Entre 1874 e 1887 a denominação estabeleceu sua presença
em muitas nações da Europa, bem como na Austrália e África do
Sul. Contudo, sua visão missionária era curta. Nesse estágio, os
adventistas criam que seu propósito era convidar outros cristãos
(geralmente protestantes) para saírem de suas igrejas e aceitarem
a mensagem do terceiro anjo. Até então, o adventismo possuía
pouca ou nenhuma visão missionária em favor dos “pagãos” ou
dos grandes campos católicos romanos do Novo Mundo.
Mas até a falta de visão tinha sua utilidade. Se o período da por-
ta fechada da missiologia adventista forneceu tempo para a cons-
trução de uma base doutrinária, a era da missão para com as na-
ções protestantes deu à denominação oportunidade de estabelecer
as bases populacionais e financeiras em lugares estratégicos que
mais tarde seriam usados para enviar missionários ao redor do
067-086\Cap. 4 22.12.13 15:12 Page 85

A ERA DO DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E… 85

mundo. Portanto, em 1890 a denominação estava equilibrada pa-


ra a “explosão” e expansão missionária “a cada nação, e tribo, e
língua, e povo” (Apoc. 14:6).

Outros Importantes Desenvolvimentos


Entre 1863 e 1888

Antes de afastar-nos da era de 1863 a 1888, devemos conside-


rar brevemente três outros acontecimentos. O primeiro foi o iní-
cio da obra adventista entre a população branca dos americanos
do sul. O fim da década de 1870 viu o início da obra adventista fei-
ta de maneira regular na Vírginia, no Texas e em outros Estados
do Sul, mas por diversas razões (inclusive animosidades regionais
e outras dificuldades pós-Guerra Civil), o adventismo deixou de
encontrar a pronta recepção e o rápido crescimento que teve no
extremo oeste.
Um segundo marco adventista, na era de 1863-1888, foi o fale-
cimento de dois fundadores da denominação. José Bates morreu
em 19 de março de 1872, no Instituto Ocidental da Reforma de
Saúde, em Battle Creek, pouco antes de seu octogésimo aniversá-
rio. O “velho reformador da saúde” manteve em funcionamento
um sólido programa até perto do fim. Um ano antes de sua mor-
te, ele havia realizado cerca de 100 reuniões, além da freqüência a
sua igreja local e à participação em conferências.
Tiago White faleceu em 6 de agosto de 1881, com a idade de 60
anos, também no Sanatório de Battle Creek. A Igreja Adventista do
Sétimo Dia jamais teria existido sem a firme liderança desse após-
tolo. White gastara-se literalmente em edificar a denominação.
Um último ponto que devemos mencionar no período pré-
1888 foi a crescente discussão a respeito da lei dominical nacional
e a promulgação de leis dominicais em muitos Estados. Durante
meados da década de 1880, as autoridades locais prenderam ad-
ventistas em Estados como a Califórnia e o Arkansas pelo crime de
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86 UMA IGREJA MUNDIAL

trabalharem no domingo. Essa crise levou ao desenvolvimento e


publicação regular da revista American Sentinel of Religious Li-
berty (Sentinela Norte-Americana da Liberdade Religiosa), cujo
propósito era combater a injustiça. Surgiu também nas fileiras ad-
ventistas uma grande agitação profética. As coisas ficaram bem
mais acaloradas no verão de 1888.

Para Leitura Adicional

Knight, George R. Ellen White’s World: A Fascinanting Look


at the Times in Which She Lived (O Mundo de Ellen White: Uma
Atrativa Visão da Época em que Ela Viveu). Hagerstown, Md.: Re-
view and Herald, 1998.
_____, ed. Early Adventist Educators (Os Primeiros Educado-
res Adventistas). Berrien Springs, Mich.: Andrews University
Press, 1983. Págs. 1-94.
Maxwell, C. Mervyn. História do Adventismo, págs. 157-179,
215-241.
Robinson, Dores Eugene. The Story of Our Health Message (A
História de Nossa Mensagem de Saúde). Nashville: Southern Pub.
Assn., 1955.
Schwarz, Richard W. Light Bearers to the Remnant (Portado-
res de Luz ao Remanescente). Págs. 98-150.
VandeVere, Emmett K. The Wisdom Seekers (Os Pesquisadores
da Sabedoria). Nashville: Southern Pub. Assn., 1972. Págs. 1-52.
White, Arthur L. Ellen G. White (Ellen G. White). Vol. 2, págs.
34-45, 73-127, 176-204, 297-311, 372-384.
087-108\Cap. 5 22.12.13 15:15 Page 87

A Era do

Capítulo 5
Reavivamento,
Reforma e
Expansão
(1888 - 1900)
Em 1888 a Igreja Adventista do Sétimo Dia ti-
nha sua plataforma doutrinário-profética no de-
vido lugar, estava organizada para facilitar a pre-
gação da tríplice mensagem angélica e desenvol-
via um estilo de vida peculiar. A denominação
tornara-se uma corporação religiosa especial que
gradualmente se espalhava pelo mundo.
É apenas natural que isso apregoasse sua
singularidade – particularmente suas doutri-
nas fundamentais, inclusive a volta pré-mile-
nial de Cristo, Seu ministério no santuário ce-
lestial, a imortalidade condicional, os dons es-
pirituais e a importância do sábado do sétimo
dia. A igreja achava que sua missão consistia
em converter outros cristãos à preciosa men-
sagem do adventismo. Com esse propósito em
vista, a maior parte dos adventistas do sétimo
dia ignorava os aspectos do cristianismo que já
compartilhavam com outros cristãos. Na épo-
087-108\Cap. 5 22.12.13 15:15 Page 88

88 UMA IGREJA MUNDIAL

ca em que se realizou a assembléia da Associação Geral de Min-


neapolis, em Minnesota, essa negligência havia atingido propor-
ções alarmantes.

A Assembléia da Associação Geral de 1888

A assembléia da Associação Geral de Minneapolis foi uma das


reuniões mais importantes e hostis já realizadas pela denomina-
ção. A fim de compreender o porquê, precisamos examinar o con-
texto em que ela aconteceu.
A década de 1880 não foi uma década normal para o adventis-
mo. Pelo contrário, foi um período que viu os Estados Unidos
marchar pouco a pouco para uma crise nacional envolvendo a lei
dominical. A crise vinha se desenvolvendo desde a década de 1860,
quando organizações do porte da Associação Nacional de Reforma
vieram à existência com o objetivo de conservar cristã a América
do Norte. Um princípio importante da plataforma política dessa
entidade era o desejo de proteger a santidade do domingo.
No início da década de 1880, alguns norte-americanos come-
çaram a achar que os adventistas do sétimo dia representavam um
“problema” para a campanha que visava proteger o “dia do Se-
nhor”. O conflito começou a acirrar-se em 1882, quando autori-
dades locais da Califórnia prenderam W. C. White, o filho mais jo-
vem de Tiago e Ellen White, por colocar em funcionamento no do-
mingo a gráfica da Pacific Press. Por volta de 1885 adventistas es-
tavam sendo presos no Arkansas, e por volta de 1888 o problema
se estendeu para o Tennessee e outros Estados. Nos anos seguin-
tes alguns ministros adventistas fizeram trabalhos forçados junto
com criminosos comuns. Seu crime: profanação do domingo.
O ponto culminante do rebuliço sobre a questão dominical
ocorreu em 21 de maio de 1888, quando o senador de New Hamp-
shire, H. W. Blair, submeteu ao Senado dos Estados Unidos um
projeto de lei em favor da promoção do “dia do Senhor” “como o
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 89

dia de adoração religiosa”. O projeto de lei, de Blair, que requeria a


adoção nacional do domingo foi a primeira legislação dessa natu-
reza a ser apresentada ao Congresso norte-americano desde o esta-
belecimento do movimento adventista na década de 1840.
Os adventistas do sétimo dia não deixaram de perceber o signi-
ficado profético dessa proposta de legislação dominical. Parecia ób-
vio, para eles, que a formação da imagem da besta de Apocalipse
13, a imposição da marca da besta e o fim do mundo aproximavam-
se rapidamente. Parecia evidente que a pregação adventista sobre
os livros de Daniel e Apocalipse feita durante os 40 anos passados
estava prestes a cumprir-se. Com isso em mente, não é difícil en-
tender por que alguns líderes adventistas reagiram de maneira vio-
lenta e apaixonada quando outros de seu meio começaram a reexa-
minar a validade de certos aspectos da interpretação da profecia e
a teologia da lei mantida pela denominação. Esses questionamen-
tos, feitos num tempo de extrema crise, raciocinavam eles, amea-
çavam publicamente o próprio âmago da identidade adventista.
O problema surgiu quando dois jovens editores adventistas da
Califórnia começaram a publicar, entre 1884 e 1886, na revista
Signs of the Times (Sinais dos Tempos), artigos que contradiziam
a progressiva “tradição” denominacional. A. T. Jones, um dinâmi-
co estudante de profecias, apareceu com uma nova interpretação
para um dos dez chifres de Daniel 7. Isso não pareceu bem aos
olhos de Urias Smith, durante muito tempo editor da Review and
Herald e reconhecida autoridade em profecia entre os adventistas.
Foi nessa época que E. J. Waggoner expressou pelo prelo a
idéia de que a lei em Gálatas era a lei moral, e não a cerimonial.
O presidente da Associação Geral, George I. Butler, viu na atitude
de Waggoner as sementes da derrocada do ponto de vista da deno-
minação no tocante à perpetuidade dos Dez Mandamentos.
Ambas as questões assumiram proporções assustadoras no
contexto da crise da lei dominical então em andamento. Dificil-
mente pareceria um tempo auspicioso para os adventistas serem
087-108\Cap. 5 22.12.13 15:15 Page 90

90 UMA IGREJA MUNDIAL

questionados publicamente a respeito de sua interpretação profé-


tica e de sua teologia da lei. A crise desenvolveu-se entre 1886 e
1888, chegando a seu máximo na assembléia da Associação Geral,
realizada em outubro e novembro de 1888. Lamentavelmente, de-
vido à atmosfera emocionalmente carregada e à forte personalida-
de dos participantes, a conferência tornou-se um confronto e al-
go menos que cristã.
Ellen White apoiou o direito que Jones e Waggoner tinham de
ser ouvidos, a despeito das objeções de Smith, de Butler e da
maior parte dos delegados. Lamentou a atitude cruel e condena-
tória adotada pela facção Smith-Butler, tachando-a de “espírito fa-
risaico” e “espírito de Minneapolis”.
À medida que a conferência prosseguia, Ellen White pôde ver
mais claramente que os tradicionalistas não tinham o amor de Je-
sus no coração. Se bem que plenamente imbuídos das doutrinas
adventistas da lei, do santuário e de outras, não compreendiam o
que significava ser salvo pela justiça de Cristo e santificado por
Seu suavizante amor. Percebeu que Smith, Butler e os colegas de-
les precisavam ouvir mais da mensagem cristocêntrica que Wag-
goner vinha pregando.
Como conseqüência, durante a assembléia de Minneapolis, ela
se uniu a Waggoner e Jones em exaltar a Jesus. “Minha preocupa-
ção durante a reunião,” escreveu ela semanas mais tarde, “era
apresentar Jesus e Seu amor perante meus irmãos, pois vi assina-
ladas evidências de que muitos não possuíam o espírito de Cristo”
(1888 Materials 216; itálicos supridos).
“Queremos a verdade como ela é em Jesus,” disse ela aos líde-
res da denominação durante a assembléia de Minneapolis. “Vi que
preciosas almas que abraçariam a verdade [do adventismo] se
afastaram dela pela maneira como a verdade tem sido manusea-
da e porque Jesus não se encontra nela. E isto é o que tenho es-
tado a suplicar-lhes o tempo todo: queremos Jesus” (Ibidem 153;
itálicos supridos).
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 91

Certos escritores adventistas do século vinte têm afirmado que


a mensagem apresentada em 1888 por Jones e Waggoner era algo
novo para o adventismo. Mas os fatos não confirmam esse ponto
de vista. Ao contrário, dois dos mais influentes participantes de
1888 contradizem repetidamente essa declaração.
E. J. Waggoner, por exemplo, escreveu: “Não considero este
ponto de vista que defendo uma idéia nova. . . . Não é uma nova
teoria doutrinária.” Aceitar esse ponto de vista, argumentava ele,
“equivaleria simplesmente a dar um passo para mais perto da fé
dos reformadores, desde os dias de Paulo até os dias de Lutero e
Wesley. Seria dar um passo para mais perto do coração da Mensa-
gem do Terceiro Anjo” (Gospel in Galatians, pág. 70).
Ellen White concordava com Waggoner que a mensagem pre-
gada por ele não era coisa nova. Em 21 de outubro de 1888 ela fa-
lou aos delegados: “O Senhor deseja que sejamos aprendizes na
escola de Cristo. . . . Deus está apresentando à mente dos homens
divinamente indicados [Jones e Waggoner] as preciosas jóias da
verdade, apropriadas para nosso tempo. Deus resgatou essas ver-
dades da companhia do erro e as colocou em sua própria estrutu-
ra. . . . Irmãos, Deus tem a mais preciosa luz para Seu povo. Não
digo que se trate de nova luz, embora seja estranhamente nova pa-
ra muitos” (1888 Materials 139, pág. 140).
Quase um mês depois das reuniões de Minneapolis, ela voltou
a falar sobre o assunto. “O pastor E. J. Waggoner,” escreveu ela,
“teve o privilégio de falar claramente e apresentar seu ponto de
vista sobre a justificação pela fé e a justiça de Cristo em relação
com a lei. Isso não era nova luz, mas velha luz colocada onde de-
via estar na mensagem do terceiro anjo” (Ibidem, pág. 211).
O verdadeiro significado da mensagem de 1888 apresentada
em Minneapolis, para a qual tanto Waggoner como Ellen White
chamaram a atenção nas citações acima, é que ela uniu a fé em Je-
sus com a mensagem do terceiro anjo. Antes de 1888 os adventis-
tas haviam compreendido duas das três partes de Apocalipse 14:12
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92 UMA IGREJA MUNDIAL

– texto fundamental na compreensão própria dos adventistas do


sétimo dia e um dos citados na íntegra abaixo do título de cada
edição da Review durante quase um século.
Em termos de Apocalipse 14:12, os adventistas compreende-
ram a expressão “aqui está a paciência dos santos” como a fideli-
dade dos adventistas em continuar a esperar a Segunda Volta en-
quanto pregavam a mensagem da hora do juízo, apesar do desa-
pontamento de 22 de outubro de 1844. Entenderam a expressão
“aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus” como o
engradecimento da perpetuidade da lei de Deus por parte dos ad-
ventistas, inclusive o verdadeiro sábado.
Essas duas partes de Apocalipse 14:12 mantêm relação com as
contribuições distintamente adventistas à teologia. Lamentavel-
mente, pregando durante 40 anos suas doutrinas exclusivas, negli-
genciaram as crenças que os adventistas compartilhavam com os
outros cristãos, como a salvação pela graça mediante a fé em Cristo.
A pregação de Jones e Waggoner, em Minneapolis, foi importante
porque reuniu verdades tipicamente adventistas com a sumamente
importante mensagem da salvação unicamente em Cristo. Foi assim
que, em 1888, alguns adventistas começaram a compreender mais
plenamente a terceira parte de Apocalipse 14:12: “a fé de Jesus”, que,
conforme sugeria Ellen White, significava “o ato de Jesus tornar-Se
o Portador de nosso pecado para que pudesse tornar-Se o Salvador
que perdoa nossos pecados” (Ibidem, pág. 217).
Esse vislumbre, naturalmente, preocupou os que colocavam sua
confiança na lei. Durante uma reunião de ministros, no começo de
1890, Ellen White teve que enfrentar esse problema. Ela apelou aos
ministros reunidos em assembléia para que saíssem da convocação
tão envolvidos com a mensagem da justiça de Cristo que não pudes-
sem ficar calados. Mas, se agirem assim, disse ela, “as pessoas lhes di-
rão: ‘Vocês estão empolgados demais; estão exagerando a respeito des-
se assunto. E não estão pondo a lei num alto conceito; não estejam to-
do o tempo buscando alcançar a justiça de Cristo. Preguem a lei.’”
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 93

A esses “bons” conceitos adventistas, replicou ela: “Deixem a lei


cuidar de si mesma. Temos insistido tanto na lei até ficarmos tão
secos como os montes de Gilboa. . . . Confiemos nos méritos de Je-
sus. . . . Queira Deus ajudar-nos a ungir nossos olhos com o colírio,
para que possamos enxergar” (Ibidem 55; itálicos supridos).
A importância das reuniões de 1888 reside no fato de terem re-
batizado o adventismo no cristianismo. Os adventistas – pelo me-
nos alguns deles – compreenderam finalmente toda a mensagem
do terceiro anjo. Desse ponto em diante, eles podiam pregar uma
mensagem completa, que ensinava as doutrinas distintamente ad-
ventistas dentro do contexto da obra salvadora de Cristo.
Os adventistas do sétimo dia receberam finalmente a mensa-
gem completa do terceiro anjo, mensagem que precisavam pre-
gar “a cada nação, e tribo, e língua, e povo” antes da grande co-
lheita de Apocalipse 14, no Segundo Advento. A década seguin-
te viu o adventismo não somente crescer no conhecimento da
verdade cristã vital, mas também expandir-se mundialmente
como a denominação que havia compreendido afinal a extensão
de sua tarefa missionária.

Os Resultados de Minneapolis

A mensagem cristocêntrica de Jones e Waggoner recebeu dos


participantes da assembléia uma reação mista. Alguns da lideran-
ça adventista a aceitaram, ao passo que a maioria rejeitou tanto os
homens quanto a mensagem deles. W. C. White observou pouco
depois da assembléia que os delegados voltavam para casa com
“sentimentos bastante diferentes. Alguns achavam que a mensa-
gem havia sido a maior bênção de sua vida; outros, que ela assina-
lava o início de um período de trevas” (Carta de WCW a J. N.
Loughborough, em 20 de novembro de 1888).
Imediatamente após as reuniões de Minneapolis, Jones, Wag-
goner e Ellen White iniciaram uma campanha ininterrupta para
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94 UMA IGREJA MUNDIAL

levar essa mensagem ao povo adventista. Até o outono de 1891 os


três viajaram pelos Estados Unidos, pregando a justiça pela fé ao
povo e ministros. Depois que a senhora White partiu para a Aus-
trália, em 1891, e Waggoner foi para a Inglaterra, Jones e W. W.
Prescott continuaram a patrocinar a causa na América do Norte.
Durante todo esse período e depois dele, Ellen White enfatizou
que Deus havia escolhido Jones e Waggoner para comunicar uma
mensagem especial à Igreja Adventista.
Em novembro de 1888 George I. Butler renunciou à presidên-
cia da Associação Geral em protesto contra o apoio dado a Jones e
Waggoner. Por outro lado, os sucessores de Butler na função pre-
sidencial – O. A. Olsen (1888-1897) e George A. Irwin (1897-1901)
– reagiram positivamente aos jovens reformadores e lhes deram
ampla publicidade durante a década de 1890. Eles tiveram acesso
ao povo por meio das igrejas, lições da Escola Sabatina, colégios,
escolas ministeriais e editoras da denominação.
Particularmente importante foi o fato de que, durante todas as
assembléias da Associação Geral, desde 1889 a 1897, Jones e Waggo-
ner receberam o destacado papel de ensinar ao pregarem sua men-
sagem aos delegados em inúmeros sermões. Não bastasse isso, por
volta de 1897, a denominação empossou Jones no cargo de editor da
Review and Herald. Como o mais influente editor da denominação,
ele utilizou a Review como uma tribuna para seus ensinos. Seria di-
fícil conceber, durante a década de 1890, um programa que pudesse
ter dado mais preeminência a esses reformadores.
Devemos também notar que a ênfase cristocêntrica em Min-
neapolis criou uma mudança claramente definida na produção li-
terária da senhora White. Compreendendo mais do que nunca a
dureza e a aridez de uma igreja que punha demasiada ênfase na
doutrina pura e simples, ela começou a realçar o caráter amorá-
vel de Jesus e de Sua justiça. Os anos posteriores a 1888 viram sair
de sua pena livros cristocêntricos como Caminho a Cristo (1892),
O Maior Discurso de Cristo (1896), O Desejado de Todas as Na-
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 95

ções (1898), Parábolas de Jesus (1900) e os capítulos de abertura


de Ciência do Bom Viver (1905).
Um dos aspectos trágicos da história adventista é que alguns
crentes da década de 1890 interpretaram o apoio entusiástico de
Ellen White à mensagem como uma espécie de cheque teológico
em branco – particularmente em questões que envolviam justiça
pela fé. Como conseqüência disso, por volta do fim de 1892 alguns
começaram a tratar Jones como uma espécie de extensão proféti-
ca de Ellen White.
Da assembléia de Minneapolis em diante ela teve que lutar
contra essa mentalidade. Durante as reuniões de 1888 declarou
sem rodeios: “Não considero corretas algumas interpretações das
Escrituras feitas pelo Dr. Waggoner.” Novamente em 1890 ela te-
ve que dizer a um grupo de ministros que os dois reformadores
não eram “infalíveis” (1888 Materials 164, pág. 566).
Lamentavelmente alguns naquela reunião, e outros um século
mais tarde, tiveram dificuldade em internalizar as advertências da
escritora acerca dos reformadores de 1888. A tentação humana
sempre foi depender das pessoas, quando a mensagem óbvia de El-
len White, Jones e Waggoner em Minneapolis era recorrer à Bíblia
em busca de autoridade religiosa e ao Cristo da Bíblia em busca de
salvação.
Os anos após 1888 também presenciaram a agitação no âmbi-
to da legislação dominical estadual e nacional. No início da déca-
da de 1890, o caso de R. M. King, sentenciado à prisão pelo crime
de “capinar seu canteiro de batatas no domingo”, foi agendado
para ser levado perante a Suprema Corte dos Estados Unidos (Car-
ta de D. T. Jones a A. T. Jones, em 25 de junho de 1890). Mas King
morreu em novembro de 1891, cancelando assim a audiência.
Devido ao debate público pela causa dominical, 1890 foi uma
década de grande empolgação profética entre os adventistas do sé-
timo dia. Foi ainda um tempo em que continuaram a fortalecer
suas atividades de liberdade religiosa.
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96 UMA IGREJA MUNDIAL

Reavivamento Espiritual e Expansão Educacional

Um dos mais notáveis avanços estimulados pela ênfase cristo-


cêntrica, na assembléia da Associação Geral de 1888, foi a reorien-
tação e expansão da educação adventista. A partir de 1890 a deno-
minação havia estabelecido apenas 16 escolas, inclusive escolas de
ensino fundamental, médio e superior. No entanto, no final da dé-
cada a igreja contava com 245 instituições educacionais em todos
os níveis. O progresso foi lento a princípio, mas entre 1895 e 1897
o reavivamento e a expansão educacional receberam um impulso
que ultrapassou a Grande Depressão da década de 1930.
Embora 1891 tenha visto a fundação do Union College, no Ne-
braska, e 1892 tenha testemunhado a criação do Walla Walla Col-
lege, em Washington, a verdadeira virada na educação adventista
ocorreu numa convenção no norte do Michigan.
Durante o período após 1888, a Associação Geral promoveu vá-
rios cursos para o ministério sob a direção de W. W. Prescott, o lí-
der do programa educacional adventista. Os cursos procuravam
esclarecer os ministros da denominação a respeito da centralida-
de da justiça pela fé para a teologia e missão do adventismo. Logo
no começo de 1891, Prescott resolveu beneficiar os educadores
adventistas com um programa de instrução semelhante. Essa reu-
nião decisiva aconteceu em Harbor Springs, no Michigan, entre
julho e agosto de 1891. Os participantes do encontro o descreve-
ram como uma festa espiritual, com Jones pregando sobre o livro
de Romanos e Ellen White falando sobre temas como a necessida-
de de uma relação pessoal com Cristo, a necessidade de reaviva-
mento espiritual entre os educadores adventistas e a centralidade
da mensagem cristã para a educação.
Prescott declarou perante a assembléia da Associação Geral,
em 1893, que Harbor Springs havia marcado a virada da educação
adventista. Desde essa convenção, observou ele, o “elemento reli-
gioso” se tornou fundamental para as escolas adventistas. En-
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 97

quanto, antes de Harbor Springs, a Bíblia desempenhava papel pe-


riférico no currículo das faculdades adventistas, a partir da con-
venção essas mesmas instituições progrediram, passando a valori-
zar o programa bíblico de quatro anos recomendado naquele tem-
po. Mais importante ainda, “a Bíblia como um todo” estava sendo
estudada “como o evangelho de Cristo do princípio ao fim”, e os
professores apresentavam agora a doutrina no contexto da cruz
(1893 GCB, pág. 350).
O reavivamento cristocêntrico na teologia da denominação con-
duziu a um reavivamento espiritual em seu programa educacional,
acompanhado por uma visão mais clara do propósito educacional.
Como resultado direto, afirmou Prescott em 1893: “Durante os dois
últimos anos tem havido mais crescimento na obra educacional do
que nos dezessete anos anteriores” (Ibidem, pág. 357).
Três meses depois do encerramento das reuniões de Harbor
Springs, Ellen White navegou para a Austrália. Levou consigo
uma profunda consciência das possibilidades da educação cristã e
das implicações do evangelho na educação.
Durante os anos que passou na Austrália, ela teve oportunida-
de para influenciar a criação da Escola Avondale Para Obreiros
Cristãos, em conformidade com os princípios enunciados em Har-
bor Springs. A escola australiana, com sua ênfase no espiritual,
seu programa de estudo/trabalho, sua localização rural e sua
orientação para o serviço, desenvolveu-se como escola-modelo
sob a direção de seus fundadores reformadores. Na mudança de
século, Avondale estava servindo de exemplo para as escolas ad-
ventistas ao redor do mundo. Até mesmo as escolas de Battle
Creek e Healdsburg venderam seus campi e mudaram-se para a
zona rural a fim de implantar os ideais de Avondale.
A respeito da experiência de Avondale, fluiu da pena de Ellen
White uma corrente constante de cartas e artigos sobre educação
cristã. Esses escritos não somente serviram de guia para a criação
das escolas adventistas existentes, mas também geraram entre líde-
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98 UMA IGREJA MUNDIAL

res e membros adventistas uma penetrante conscientização quanto


à importância da educação cristã.
O conselho de Ellen White sobre o ensino fundamental duran-
te meados dos anos 1890 foi particularmente importante para a
difusão da educação adventista. O governo australiano exigia a
presença da criança na escola. Como conseqüência, a escritora su-
geriu que os adventistas estabelecessem escolas onde houvesse
pelo menos “seis crianças para freqüentá-la” (6T, pág. 199).
Os reformadores educacionais na América do Norte leram o conse-
lho dela, inclusive Edward Sutherland e Percy Magan (respectivamen-
te, diretor e deão do Battle Creek College), e começaram imediatamen-
te a lutar pelo rápido desenvolvimento de um sistema adventista de
educação fundamental. Ao passo que a denominação em 1895 possuía
18 escolas fundamentais, no ano 1900 o número aumentou para 220,
para 417 em 1905, e para 594 em 1910. A educação fundamental talvez
tenha sido um avanço recente no adventismo, mas, uma vez em anda-
mento, surgiu entre as congregações adventistas de toda parte.
Minneapolis, com sua ênfase na justiça de Cristo; Harbor
Springs, Avondale e o movimento em favor da escola fundamen-
tal não foram fatores isolados. Uma coisa levou à outra, trazendo
como resultado vigor e crescimento a todo o sistema.
Íntima e paralelamente relacionado com o reavivamento e a ex-
pansão da educação adventista estava o rápido crescimento de mis-
sões adventistas ao redor do mundo. Não somente as escolas abas-
teceram o florescente empreendimento missionário com obreiros
para o Campo e instituições, mas também as novas Missões logo es-
tabeleceram suas próprias instituições educacionais. Portanto, as-
sim como houve uma relação direta, em 1874, entre o envio do pri-
meiro missionário para além-mar e o estabelecimento da primeira
escola adventista de nível superior, assim também existiu uma liga-
ção entre o reavivamento na educação adventista e as Missões na
década de 1890. A educação adventista sempre foi mais saudável
quando estreitamente relacionada com a missão denominacional.
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 99

Explosão Missionária Mundial

Conforme vimos nos capítulos anteriores, os adventistas do sé-


timo dia foram nos anos formativos, na melhor das hipóteses,
missionários relutantes; mas, em 1889, a denominação estava a
um passo de uma explosão missionária mundial.
Seu conjunto de firmes fundamentos forneceu uma base segura
para a rápida expansão. Em primeiro lugar, a “antimissão” ou perío-
do da porta fechada (1844-1850) do pensamento adventista havia
permitido o desenvolvimento de uma base doutrinária. Em segundo
lugar, o período da porta parcialmente aberta (1850-1874) forneceu
tempo para a construção de uma base na América do Norte, capaz de
sustentar as missões em favor de outras nações protestantes. E em
terceiro lugar, o período da missão em favor das nações protestantes
(1874-1889) preparou o caminho para progresso semelhante na In-
glaterra, Europa, Austrália e África do Sul. Embora cada base mis-
sionária precisasse ainda progredir muito depois de 1890, a infraes-
trutura fora lançada, e o adventismo estava pronto para tornar-se na
década de 1890 uma igreja verdadeiramente mundial.
O compromisso crescente da denominação com as missões es-
trangeiras tornou-se cada vez mais evidente no começo e meados
da década de 1880. Uma expressão dessa tendência foi uma série
de visitas à missão européia feitas por eminentes líderes adventis-
tas entre 1882 e 1887. O primeiro foi S. N. Haskell, enviado à Eu-
ropa pela Associação Geral em 1882. Haskell recomendou que eles
lançassem publicações em mais línguas e ajudassem os europeus
a desenvolver uma estrutura organizacional mais funcional.
Mais importantes, entretanto, foram as viagens do presidente
da Associação Geral, George I. Butler, em 1884, e as de Ellen Whi-
te e o filho W. C. White, de 1885 a 1887. Essas visitas não somen-
te fortaleceram o adventismo na Europa, mas também demons-
traram o interesse da denominação nas missões.
Por volta da metade da década de 1880, foi criado o Concílio
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100 UMA IGREJA MUNDIAL

Europeu com o objetivo de guiar o adventismo pelo “Velho Mun-


do”. Foi durante essa década também que o adventismo europeu
lançou publicações em várias outras línguas e tomou providências
no sentido de utilizar as próprias instituições educacionais para
capacitar os funcionários da igreja. Enquanto isso, os adventistas
haviam iniciado a obra entre os protestantes europeus na Austrá-
lia (1885) e na África do Sul (1887).
Talvez um dos mais fortes sinais de que o adventistmo estava co-
meçando a alargar sua visão missiológica foi dado em 1886. Naque-
le ano a denominação publicou seu primeiro livro sobre missões es-
trangeiras: Historical Sketches of the Foreign Missions of the Se-
venth-day Adventists (Esboços Históricos das Missões Estrangeiras
dos Adventistas do Sétimo Dia). Mais tarde, no início de 1889, a
igreja enviou Haskel e Percy T. Magan num programa de viagens de
dois anos ao redor do mundo para sondar possibilidades, problemas
e possíveis locais para missões adventistas em partes da África, Índia
e Oriente. Eles apresentaram um relatório completo de sua excur-
são nas páginas do Youth’s Instructor (Instrutor da Juventude). Foi
assim que as missões e o serviço missionário começaram a cativar
o coração e a mente da juventude adventista.
É importante observar que os jovens adventistas não foram os
únicos a ficar inspirados com o serviço missionário nas décadas de
1880 e 1890. A mocidade protestante dos Estados Unidos e de ou-
tros lugares ficou interessada nesse serviço como nunca. Um fa-
tor foi o Movimento Voluntário Estudantil para Missões Estran-
geiras, originado de um apelo feito em 1886, por Dwight L.
Moody, a estudantes universitários para que dedicassem a vida ao
serviço missionário. Cem rapazes decidiram-se. Esse número
cresceu para 2.200 em 1887, e dentro de alguns anos milhares de
jovens haviam comprometido a vida com missões estrangeiras. A
força propulsora do movimento era “todos devem ir a todos”, e
sua divisa era “a evangelização do mundo nesta geração”.
Ocorreram despertamentos semelhantes entre os jovens da Ingla-
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 101

terra, Escandinávia, Alemanha, França, Suíça e Holanda. O decênio


de 1890 foi a grande década para as missões protestantes. O adventis-
mo estava preparado para participar desse entusiasmo e expansão.
Não foi somente a empolgação missionária daquele tempo entre
os protestantes que estimulou o adventismo. As reuniões de 1888,
em Minneapolis, também capacitaram a denominação a compreen-
der mais claramente o significado da mensagem do terceiro anjo de
Apocalipse 14 e o imperativo missionário nela contido. A crise da lei
dominical, vista no contexto da mensagem do terceiro anjo, com
seu contraste entre os que recebem a marca da besta e os que guar-
dam os mandamentos de Deus, também gerou nos adventistas um
senso de urgência em levar seus ensinos a todo o mundo.
Em novembro de 1889, a assembléia da Associação Geral to-
mou a providência de criar a Comissão da Missão Estrangeira Ad-
ventista do Sétimo Dia “com o fim de administrar a obra missio-
nária estrangeira” da denominação (1889 GCB, pág. 142). O mes-
mo ano viu o lançamento da Home Missionary (Missionário De-
nominacional), revista cujo objetivo era promover diversos em-
preendimentos missionários do adventismo.
A criação da Comissão da Missão Estrangeira foi mais do que
simbólica. Proclamava que os adventistas estavam finalmente
prontos para levar a sério a incumbência missionária de Apocalip-
se 14:6; 10:11 e Mateus 24:14. Eles pregariam a tríplice mensagem
angélica – inclusive as grandes verdades evangélicas recuperadas
em 1888 e as doutrinas adventistas distintivas – “a cada nação, e
tribo, e língua, e povo” para que o fim pudesse vir.
Nunca mais os adventistas do sétimo dia voltaram a ser relu-
tantes nas missões estrangeiras. Ao contrário, tornaram-se conhe-
cidos por seus esforços em alcançar todo o mundo com sua men-
sagem. Durante o processo estabeleceram editoras, instituições
médicas e educacionais por onde passavam.
No final da década de 1890, o adventismo estava estabelecido
em todos os continentes e em muitos arquipélagos. Nesse perío-
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102 UMA IGREJA MUNDIAL

do de missões adventistas, a denominação estabeleceu o alvo de


alcançar os “pagãos”, os católicos romanos e os protestantes ao re-
dor do mundo. Por outro lado, os missionários adventistas costu-
mavam ainda começar sua obra, até mesmo em culturas não-cris-
tãs, a partir das ilhas de protestantes em outros países. Esses pro-
testantes convertidos criaram um grupo capaz de formar uma ba-
se nativa para expansões posteriores.

Missão em Favor da América Negra

Um aspecto extraordinário da expansão missionária adventista na


década de 1890 foi alcançar os negros norte-americanos. Embora al-
guns negros tenham participado do movimento milerita (inclusive o
pastor William Foy, que preencheu o ofício profético de 1842 a 1844),
o primitivo adventismo sabatista era, em grande medida, um movi-
mento de brancos. Na verdade, demorou quase meio século após o
Grande Desapontamento até que o adventismo do sétimo dia pudesse
com real sucesso introduzir-se entre os negros norte-americanos.
Estima-se que em 1894 havia nos Estados Unidos somente 50
adventistas negros, mas em 1909 esse número chegou a 900. O
crescimento numérico dos membros foi em grande parte resulta-
do dos diversos projetos missionários que tinham como objetivo
evangelizar os negros durante os anos 1890.
As décadas de 1870 e 1880 testemunharam a obra esporádica en-
tre os negros sulistas no Texas, no Tennessee, na Georgia e em outros
Estados, com a primeira congregação negra sendo oficialmente orga-
nizada em Edgefield Junction, no Tennessee, em 1886. Mas os “ian-
ques” brancos ficaram sem saber o que fazer para enfrentar os proble-
mas raciais do Sul. Não somente enfrentaram a suspeita dos brancos
sulistas por serem nortistas, mas também ficaram na incerteza a res-
peito da maneira de lidar com questões como a segregação.
A obra deles enfrentou muitas vezes a violência de brancos lo-
cais, cujo receio era de que os intrusos pregassem a “perigosa”
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 103

doutrina da igualdade racial. Dadas as dificuldades, a liderança de-


cidiu finalmente que seria melhor seguir a convenção social, es-
tabelecendo congregações separadas para as duas raças. Charles
M. Kinney, o primeiro afro-americano ordenado como ministro
adventista do sétimo dia, concordou com a decisão. Embora não
achasse que ter congregações separadas fosse o ideal, Kinney acre-
ditava piamente que essa solução era preferível a segregar os ne-
gros nos bancos de trás das igrejas dos brancos.
O próprio Kinney fora batizado numa congregação adventista in-
tegrada, em Reno, Nevada, em 1878. Reconhecendo o potencial des-
se obreiro, a Associação custeou-lhe os estudos no Healdsburg
College de 1883 a 1885. Depois ele trabalhou como colportor no
Kansas. Mais tarde, tornou-se pastor da igreja de Edgefield Junction,
no Tennessee, sendo ordenado ao ministério evangélico em 1889.
Em 1891, Ellen White estava preocupada com a falta de trabalho
missionário entre os negros norte-americanos. Em 21 de março, ela
apresentou aos delegados da assembléia da Associação Geral um
“testemunho” sobre o assunto. Fez um apelo especial em favor de
maior trabalho entre os negros do Sul. Seu apelo foi impresso pou-
co depois num folheto de 16 páginas intitulado Our Duty to the Co-
lored People (Nosso Dever Para Com o Povo de Cor).
Mas a igreja negligenciou o folheto e a mensagem que ele conti-
nha até 1893, ano em que Tiago Edson White “descobriu” o documen-
to. Edson, o filho vivo mais velho de Ellen, havia experimentado re-
centemente a conversão, aos quarenta e pouco anos de idade. Em seu
zelo, ficou convencido de que deveria levar a mensagem adventista aos
negros nos Estados sulistas em torno do Golfo do México.
O sempre criativo Edson logo se uniu a Will Palmer (outro re-
cém-convertido de antecedentes duvidosos) para construírem um
“barco missionário” e entrarem num dos mais empolgantes capítu-
los das missões adventistas norte-americanas. Os dois missionários
pouco prometedores construíram o Morning Star (Estrela da Ma-
nhã) em Allegan, no Michigan, em 1894, ao custo de 3.700 dólares.
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104 UMA IGREJA MUNDIAL

Essa embarcação, além de servir como residência da equipe adven-


tista, também fornecia espaço para uma capela, uma biblioteca, uma
oficina gráfica, uma cozinha e um laboratório fotográfico.
White e Palmer atravessaram o Lago Michigan com seu posto
missionário flutuante e desceram o Rio Mississippi até Vicksburg,
no Mississipi, onde estabeleceram seu centro de operações. Sem
poder contar com a confiança dos líderes da Igreja Adventista,
White e seus colegas foram em grande parte economicamente in-
dependentes em seu esforço missionário. O único projeto do qual
captavam recursos era a publicação de Gospel Primer (Instrutor
Evangélico). A venda desse bem-sucedido volumezinho não ape-
nas ajudou a financiar a missão, mas, visto que o livro era bastan-
te elementar, também foi usado para ensinar analfabetos a ler. Du-
rante esse processo, ele comunicava a verdade bíblica.
De Vicksburg a obra se espalhou para as áreas rurais vizinhas,
muitas vezes a despeito da resistência e violência dos brancos. Nos
primeiros anos do século vinte, a Missão possuía quase 50 escolas
em funcionamento. Em 1895 essa Missão de sustento próprio or-
ganizou-se como Sociedade Missionária Sulista. Em 1901 a Socie-
dade passou a integrar a recém-estabelecida União Sul. Posterior-
mente, o braço editorial do empreendimento também passou a in-
tegrar o patrimônio denominacional com o nome de Southern
Publishing Association, com sede em Nashville, no Tennessee.
A metade da década de 1890 ainda viu o estabelecimento de
uma escola de treinamento para obreiros negros. Em 1896 a As-
sociação Geral abriu a Escola Industrial de Oakwood numa fazen-
da de 360 acres perto de Huntsville, no Alabama. O adjetivo “in-
dustrial” do título refletia a atitude adotada pela denominação de
tornar a educação mais prática, alinhando-a assim com os ideais
reformadores expostos, em 1872, no artigo de Ellen White “A Ver-
dadeira Educação”. Os adventistas estabeleceram durante a déca-
da de 1890 diversas escolas de ensino médio, tendo a palavra “in-
dustrial” em seu nome, inclusive a Academia Industrial de Keene,
087-108\Cap. 5 22.12.13 15:15 Page 105

A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 105

no Texas, e a Escola Industrial de Woodland, em Wisconsin. Em


parte, essas escolas seguiram o modelo da escola adventista de
Avondale, na Austrália, em fase de desenvolvimento nessa época.
A escola estabelecida para ex-escravos por Booker T. Washington
em Tuskegee, no Alabama, forneceu outro modelo a ser imitado.
A Escola de Oakwood logo se tornou o centro de treinamento
para a liderança negra. Em 1917 tornou-se o Oakwood Junior
College (só oferecia os dois primeiros anos do curso), e em 1943
foi elevada ao status de escola superior, conferindo suas primeiras
graduações de bacharelado em 1945.

A Contribuição do Ministério Feminino nos


Primórdios do Adventismo

Pelo fato de grande parte do ministério adventista ser quase


que invariavelmente masculino, pouca gente conhece a contribui-
ção que as mulheres deram à igreja trabalhando como ministras
e em outras funções oficiais. O papel de Ellen White foi funda-
mental para o estabelecimento e desenvolvimento do adventismo.
Ainda que a denominação jamais a tenha ordenado oficialmente,
já em 1872 ela constava na lista dos ministros ordenados, ao que
parece para poder receber um salário integral de ministro. Cren-
do que sua ordenação viera diretamente de Deus, ela parecia não
se preocupar com a imposição humana de mãos. Não resta dúvi-
da de que ela foi provavelmente o “ministro” mais influente que
já trabalhou para a Igreja Adventista.
Muitas outras mulheres atuaram, durante o final do século de-
zenove e o princípio do século vinte, como ministras licenciadas.
Uma das primeiras foi provavelmente Sarah Lindsay, licenciada
em 1872. O anuário denominacional menciona mais de 20 outras
mulheres como ministras licenciadas entre 1884 e 1904, período
correspondente aos primeiros 20 anos de publicação do anuário.
Apesar de essas mulheres terem algumas vezes enfrentado dis-
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106 UMA IGREJA MUNDIAL

criminação, deram importantes contribuições à igreja. Minnie


Sype, por exemplo, fundou pelo menos 10 igrejas. Além do traba-
lho evangelístico, realizava tarefas ministeriais como batizar, ca-
sar e dirigir funerais.
Lulu Wightman foi uma das mais bem-sucedidas e eficazes
evangelistas femininas. Tendo recebido o crédito pela fundação de
17 igrejas, ela deixou para trás a maior parte dos evangelistas mas-
culinos de sua época.
Mais tarde, Jessie Weiss Curtis apresentou 80 convertidos para o
batismo, na conclusão de sua primeira campanha evangelística. A
igreja de Drums, na Pennsylvania, originou-se desse esforço. Essa ir-
mã ampliou sua influência ao treinar estagiários ministeriais para a
Associação. Um deles foi N. R. Dower, que posteriormente veio a ser
o diretor do departamento Ministerial da Associação Geral.
Embora surgissem de tempos em tempos rumores sobre a orde-
nação dessa e de outras mulheres ao ministério, a igreja não adotou
nenhuma medida formal nesse sentido. A assembléia da Associação
Geral de 1881, no entanto, resolveu “que as mulheres detentoras das
qualificações necessárias para preencher essa função podem, com
perfeita propriedade, ser ordenadas para a obra do ministério cris-
tão”. Embora tenha sido entregue à Comissão da Associação Geral,
a resolução nunca foi votada (RH, 20 de dezembro de 1881).
Além dessas mulheres que tinham credenciais ministeriais,
muitas outras trabalharam para a denominação de diversas ma-
neiras. A maioria, é claro, desempenhou os papéis femininos tra-
dicionais como professoras e enfermeiras, embora outras tenham
assumido funções menos tradicionais. Entre elas estava L. Flora
Plummer, que foi secretária da Associação de Iowa em 1897 e tra-
balhou como presidenta interina dessa Associação durante parte
de 1900. Em 1901 ela se tornou secretária correspondente do re-
cém-organizado departamento da Escola Sabatina da Associação
Geral. E, em 1913, foi eleita diretora do departamento, função que
manteve nos 23 anos seguintes.
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A ERA DO REAVIVAMENTO, REFORMA E EXPANSÃO 107

Anna Knight também desempenhou função singular no adven-


tismo. Além da obra educacional pioneira que realizou entre os
negros do Sul, teve a distinção de ser a primeira missionária afro-
americana enviada da América para a Índia.
Muitas outras mulheres adventistas do final do século dezeno-
ve e do início do século vinte trabalharam em cargos eletivos co-
mo tesoureiras e secretárias de Associação, líderes do departa-
mento de Educação e do departamento de Escola Sabatina.
Demasiadas vezes temos passado por alto a contribuição das
mulheres na formação do adventismo. Tanto seu potencial como
os problemas que enfrentavam voltariam à tona nas décadas de
1970 e 1980. Retornaremos ao assunto no último capítulo.
A virada do século encontrou o adventismo crescendo nos Es-
tados Unidos e ao redor do mundo. Junto com a rápida expansão
missionária da década de 1890, a denominação também estabele-
ceu instituições médicas, editoriais e educacionais por onde pas-
sou. O início do novo século encontrou a igreja adolescente exa-
geradamente expandida tanto do ponto de vista financeiro quanto
organizacional. O século vinte começou, portanto, em crise.

Para Leitura Adicional

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108 UMA IGREJA MUNDIAL

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109-126\Cap. 6 22.12.13 15:17 Page 109

A Era da

Capítulo 6
Reorganização
e da Crise
(1901 - 1910)

No início do século vinte o padrão do ad-


ventismo estava estabelecido. A igreja possuía
doutrinas claramente elaboradas, um estilo de
vida distintivo, um programa mundial de mis-
sões com amplo apoio institucional, e a deno-
minação havia passado por importante período
de reavivamento e reforma.
Mas nem tudo corria bem na entrada do no-
vo século. A organização de 1863 ficara obsoleta.
Embora essa estrutura organizacional tivesse si-
do adequada para um pequeno movimento nor-
te-americano com poucos funcionários e insti-
tuições, já não era funcional para uma denomi-
nação com crescente grau de complexidade.
Assim, os anos de reforma ainda não ha-
viam terminado. Desta vez, as reformas não
eram doutrinárias, como em 1888, mas estru-
turais. Lamentavelmente, a reforma organiza-
cional ocorrida no início do século vinte en-
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110 UMA IGREJA MUNDIAL

controu a mesma resistência que a revitalização doutrinária do fi-


nal do século anterior. As mudanças são difíceis para os satisfeitos
com o status quo, mesmo quando mudar é imperativo. Em espe-
cial, líderes com interesses pessoais resistem à mudança.
Portanto, a igreja não somente testemunhou outro ciclo de re-
formas no novo século, mas também suportou uma segunda crise de
personalidades. Por volta de 1910, no entanto, o adventismo do séti-
mo dia estava reorganizado e mais bem preparado para cumprir sua
missão mundial do que em qualquer fase anterior de sua história.

Reorganização Denominacional

O ano de 1901 foi fundamental na história do adventismo. Nas


assembléias da Associação Geral, de 1901 e 1903, a denominação
passou por uma reorganização completa a fim de dirigir sua mis-
são de maneira mais eficaz.
A principal dificuldade com a organização de 1863 foi a centra-
lização demasiada de autoridade no presidente da Associação Ge-
ral. Durante as décadas de 1860 e 1870 o presidente prestava cui-
dadosa atenção à obra da igreja de modo bastante pessoal. Mas,
entre 1863 e 1901, a força evangelística da igreja saltou de 30 pa-
ra aproximadamente 1.500. Nesse ínterim, o número de Associa-
ções locais cresceu de seis para quase 100 (57 associações e 42
missões). Durante esse mesmo período o número de membros
saltou de 3,5 mil para mais de 78 mil, representando cerca de 2
mil congregações locais.
Um segundo problema com a estrutura organizacional de 1863
era a falta de unidade. A Escola Sabatina, o setor editorial, médi-
co e outros ramos da expansão denominacional, por exemplo, fun-
cionavam independentemente da Associação Geral. Isso realmen-
te causava problemas. Uma ilustração da dificuldade era o fato de
que tanto a Associação Geral como a Comissão da Missão Estran-
geira e a Associação Beneficente e Médico-Missionária, separada-
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A ERA DA REORGANIZAÇÃO E DA CRISE 111

mente, enviavam missionários sem fazer consultas entre si. Não


bastasse isso, a falta de unidade dava lugar para que houvesse
crescimento desequilibrado nos programas da denominação. A or-
ganização médica, por exemplo, empregava mais obreiros do que
todos os outros ramos da denominação combinados: algo em tor-
no de 2 mil para o programa médico, em contraste com aproxima-
damente 1,5 mil nas demais áreas.
Outra dificuldade era que a Associação Geral não possuía adequa-
do controle financeiro das outras entidades da denominação. Em
conseqüência disso, o débito agigantou-se nas mãos dos ramos mé-
dico, editorial e educacional. A igreja encontrava-se em situação di-
fícil, e precisava mais do que um ajuste para resolver o problema.
Em suma, a tarefa da reorganização envolvia tanto descentra-
lização quanto centralização. Por um lado, a autoridade adminis-
trativa do presidente precisava ser descentralizada. Mas, por outro
lado, a Associação Geral precisava ter autoridade mais direta so-
bre seus diversos setores.
A igreja sentiu por algum tempo a necessidade de modificação
organizacional. Na realidade, as décadas de 1880 e 1890 assistiram
a vários experimentos bem-sucedidos. O primeiro passo na des-
centralização da autoridade administrativa foi dado de fato em
1882, quando a denominação criou o Concílio Europeu das Mis-
sões Adventistas do Sétimo Dia, com o objetivo de coordenar a
obra na Inglaterra e Europa. O segundo passo, um tanto experi-
mental, foi dado entre 1888 e 1893, quando a igreja dividiu sua
obra mundial em oito distritos. Faltava a esses distritos, no entan-
to, autoridade supervisora e administrativa.
Inovações mais substanciais e duradouras ocorreram na África
do Sul e na Austrália. No princípio da década de 1890, A. T. Robin-
son organizou a obra adventista na África do Sul em departamentos.
Em vez dos programas de Escola Sabatina e Publicações serem si-
tuados como organizações autônomas, tornaram-se parte integran-
te da Associação. A Associação passou a contar com um secretário
109-126\Cap. 6 22.12.13 15:17 Page 112

112 UMA IGREJA MUNDIAL

para cada departamento: um para a Escola Sabatina, outro para Pu-


blicações e assim por diante. Cada secretário de departamento traba-
lhava sob a direção do presidente da Associação. Essa iniciativa sina-
lizou para a denominação a solução dos problemas apresentados pe-
lo aspecto descentralizador de sua dificuldade organizacional.
W. C. White e outro administrador originário da América do
Norte, chamado Arthur G. Daniells, adotaram a “solução sul-afri-
cana” no Campo australiano em 1897. Enquanto isso, a Austrália
fazia suas próprias contribuições no sentido de resolver o aspecto
de excesso de centralização do problema organizacional do adven-
tismo. Isso envolveu a formação, em 1894, de um nível interme-
diário de administração entre a Associação local e a Associação
Geral: a União. Diferente do sistema distrital, a União possuía au-
toridade administrativa e funcionários administrativos.
A partir de 1897, a União Australasiana também passou a dis-
por de um conjunto completo de secretários departamentais, sis-
tema logo copiado por todas as Associações locais pertencentes a
essa União. Por conseguinte, no fim do século dezenove, a igreja
australiana, sob a liderança de Daniells, possuía um modelo para
enfrentar o duplo problema de centralização e descentralização
que impedia a eficiência do adventismo. Esse modelo desempe-
nhou papel relevante na assembléia da Associação Geral em 1901.
Em 1900 uma idosa Ellen White voltou para os Estados Unidos
após viver quase uma década na Austrália. Ela encontrou uma
igreja que enfrentava uma sobrecarga de aberrações tanto teoló-
gicas como organizacionais.
Eram duas as principais aberrações teológicas. A primeira gi-
rava em torno de tendências para o panteísmo entre alguns dos
destacados teólogos da igreja e do poderoso John Harvey Kellogg.
A segunda envolvia um distorcido ponto de vista do perfeccionis-
mo, conforme expresso em movimentos tais como a doutrina da
carne santa, que eclodiu em Indiana no ano de 1900. A liderança
sufocou o movimento da carne santa rapidamente, embora for-
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A ERA DA REORGANIZAÇÃO E DA CRISE 113

mas mais sutis de perfeccionismo tenham continuado. A crise


panteísta, porém, dificultou o movimento em prol da reorganiza-
ção. O resultado foi o mais grave cisma (divisão) da história do ad-
ventismo do sétimo dia. Voltaremos às questões cismáticas após
completarmos nossa análise da reorganização.
Em 1900, Ellen White era uma veterana no trabalho da igreja.
Além disso, ainda era capaz de exercer a mesma forte influência
que havia exercido em ligação com o marido e Bates na fundação
e organização do adventismo. A assembléia da Associação Geral de
1901 encontrou-a tão ativa na reorganização como estivera na
campanha para a organização inicial, 38 anos atrás. Um dia antes
da abertura da assembléia, a senhora White reuniu-se com um
grupo de líderes na biblioteca do Battle Creek College. Em termos
taxativos, ela pediu “sangue novo” e uma “organização inteira-
mente nova” (MS 43a, 1901).
No primeiro dia da assembléia fez um apelo em favor da reor-
ganização, falando especificamente contra os que desejavam exer-
cer “poder régio” (1901 GCB, pág. 26). O apelo dela levou A. G.
Daniells a propor que a assembléia pusesse de lado seus negócios
regulares e fizesse da reorganização o item prioritário da agenda.
A assembléia adotou a moção. Apontou ainda o jovem e dedicado
administrador (Daniells tinha 42 anos de idade na época) para li-
derar as discussões sobre a reorganização. Nem ele nem W. C.
White (ambos trabalharam juntos na Austrália) esqueceram as li-
ções aprendidas na década de 1890, durante a formação da União
e do sistema de departamentos.
Levando-se em conta o papel relevante desempenhado por Da-
niells e W. C. White no processo da reorganização, não foi surpre-
sa a assembléia da Associação Geral de 1901 adotar o sistema de
Uniões e de departamentos. O resultado foi que a “solução austra-
liana” tornou-se o padrão para a organização da Igreja Adventista.
Com uma única e importante modificação, essa mesma estrutura
ainda existe enquanto a igreja adentra no século vinte e um. A
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114 UMA IGREJA MUNDIAL

modificação consistiu no acréscimo, entre 1913 e 1918, de um


quarto nível administrativo: as Divisões da Associação Geral. O
presidente de cada “Divisão” é também um vice-presidente da As-
sociação Geral. Podemos descrever a estrutura administrativa do
adventismo em 1918 como segue:

Associação Geral

Divisões da Associação Geral

Uniões Associações e Uniões Missões de cada Divisão

Associações e Missões locais de cada União Associação

Em suma, a assembléia da Associação Geral de 1901 fez muito


no sentido de resolver tanto as tensões do excesso de centraliza-
ção quanto de descentralização da estrutura organizacional ad-
ventista. Ela não só estabeleceu um nível intermediário de admi-
nistração para supervisionar a obra nas Associações locais em di-
versas partes do mundo, mas também estabeleceu o sistema de
departamentos para unificar e coordenar os esforços denomina-
cionais. A estrutura departamentalizada foi copiada em todos os
níveis da organização adventista, inclusive no da igreja local. O
programa de Liberdade Religiosa, por exemplo, contava com uma
pessoa responsável por esse aspecto dos interesses adventistas,
tanto na Associação Geral como em cada uma de suas Divisões,
Uniões, Associações e congregações locais.

Tensão na Estrutura do Poder

Infelizmente, houve um desvio da regra geral do esquema de


organização departamentalizada adotada em 1901. Um importan-
te segmento do adventismo continuou independente: a Associa-
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A ERA DA REORGANIZAÇÃO E DA CRISE 115

ção Beneficente e Médico-Missionária, presidida pelo poderoso e


obstinado John Harvey Kellogg.
Além de sentir-se eufórico por sua independência ser preserva-
da, o enérgico Dr. Kellogg também apreciou o fato de a Associa-
ção Geral ter ficado bastante enfraquecida por não ter mais presi-
dente. Sob persistentes argumentações de A. T. Jones, W. W. Pres-
cott e outros, a assembléia de 1901 elegeu uma Comissão Execu-
tiva para dirigir a Associação Geral.
O doutor deve ter ficado ainda mais exultante quando os dele-
gados resolveram brindar sua organização médica com quase um
quarto dos votos da Comissão Executiva. Esses votos, quando
combinados com os de seus amigos, significavam que Kellogg po-
deria manter sua independência e controlar, em grande parte, as
decisões da Associação Geral.
Entretanto, o igualmente enérgico dirigente da Comissão Exe-
cutiva – A. G. Daniells – logo deteve os intentos que Kellogg ma-
nifestaria nesse sentido. Em Daniells, Kellogg encontrou um rival
à altura. Durante algum tempo pareceu que o doutor iria contro-
lar o homem mais jovem, mas por volta da metade de 1902 essa
ilusão foi desfeita.
O principal motivo de discórdia entre Daniells e Kellogg era fi-
nanceiro. O doutor estava bastante acostumado a fazer as coisas a
seu próprio modo, sem muita interferência. Isso mudou em 1902.
Podemos rastrear um aspecto da crescente crise denominacio-
nal até 18 de fevereiro de 1902, quando o imponente Sanatório de
Battle Creek foi destruído pelo fogo. A reconstrução do sanatório lo-
go trouxe problemas. Os líderes da Associação Geral, apoiados por
Ellen White, queriam um modesto programa de reconstrução, en-
quanto Kellogg planejava desde o início erigir uma instituição mais
imponente que a anterior. Numa denominação já sobrecarregada de
dívidas, a questão tornou-se causa de constante irritação.
Mais hostil era o conflito entre Kellogg e Daniells a respeito da
construção de um sanatório na Inglaterra. Ambos queriam que a
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116 UMA IGREJA MUNDIAL

instituição fosse estabelecida, mas Daniells insistia em que isso


fosse feito sem gastos deficitários. Todos os novos empreendimen-
tos, achava ele, deviam ser regulados pelo princípio do pagamen-
to sempre à vista. O confronto enfureceu Kellogg, cujo costume
era impor a própria vontade aos dois administradores anteriores
da Associação Geral.
A solução, reconheceu Kellogg rapidamente, era substituir Da-
niells por um dirigente da Comissão Executiva da Associação Ge-
ral que estivesse mais em harmonia com seus planos. Isso era bas-
tante fácil de fazer, visto que não se definira tempo de mandato
para o dirigente da comissão, e Kellogg contava com poderosa
bancada de aliados dentro da comissão, além da simpatia de ou-
tros membros.
O mês de novembro de 1902 viu as forças de Kellogg fazerem
campanha para eleger A. T. Jones como substituto de Daniells na
direção da Comissão Executiva da denominação. Daniells mos-
trou-se à altura da situação, declarando: “Não sou uma bola de fu-
tebol: para ser chutado para dentro do campo e depois outra vez
para fora” (AS, julho de 1922). Depois de uma dura disputa, o gol-
pe de estado do doutor fracassou, mas o fato não deixou de ter sig-
nificado para Jones. Ele marcou aquele mês como o tempo exato
em que tomava a decisão de lançar sua sorte ao lado de Kellogg.
Enquanto isso, Daniells, devido às tarefas diárias, assumia na
liderança da Comissão Executiva o título de “presidente”. Na pri-
mavera de 1902 W. W. Prescott, tendo sido “convertido” para o la-
do de Daniells, foi eleito vice-presidente.
Foi assim que, próximo à assembléia da Associação Geral de
1903, os dois lados na luta pelo poder se radicalizaram, com Da-
niells e Prescott opondo-se a Kellogg e Jones. Ambas as facções
compareceram às reuniões com maus pressentimentos. Prescott
alegou que havia “um jogo . . . de interesses para fazer do irmão
A. T. Jones presidente da Associação Geral” (Carta de W. W. Pres-
cott a A. G. Daniells, em 26 de novembro de 1903). E Kellogg re-
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A ERA DA REORGANIZAÇÃO E DA CRISE 117

latou: “Não tenho esperanças quanto ao futuro desta obra, a me-


nos que o círculo Daniells-Evans-Prescott possa ser rompido”
(Carta de J. H. Kellogg a WCW, em 18 de março de 1903). Ambos
os partidos entraram na assembléia com espírito de guerra.
Após longos debates, a assembléia de 1903 votou modificar a es-
trutura denominacional de duas maneiras, o que acabou significan-
do um cisma para os líderes da facção de Kellogg. A primeira mu-
dança envolvia a restauração do cargo de presidente. Da perspecti-
va Kellogg-Jones, isso foi péssimo; mas os delegados adicionaram
outro contratempo, quando elegeram Daniells para a função.
A segunda mudança foi ainda mais devastadora para o doutor. To-
das as instituições operadas pela denominação deveriam ser postas
sob o controle direto da denominação. Kellogg jurou desafiadora-
mente perante os delegados que jamais aceitaria esse controle.
As aberrações teológicas defendidas por Kellogg também servi-
ram para complicar e intensificar sua luta com a nova liderança
da denominação. Durante alguns anos ele esteve apaixonado por
idéias relacionadas com o panteísmo, que faziam de Deus uma
força imanente à natureza em vez de transcendente a ela. Então
ele escreveu: “Existe na árvore um poder que a cria e conserva,
um criador de árvore na árvore, um criador de flor na flor” (The
Living Temple, pág. 29).
Mas Kellogg não estava sozinho nesse pensamento. Um dos des-
tacados teólogos da denominação e pastor de preeminência em
1888, E. J. Waggoner, ensinou na assembléia da Associação Geral de
1897 que “Deus falava e eis que a Palavra [Cristo] aparecia como ár-
vore ou como relva” (1897 GCB, pág. 34). Na assembléia de 1899
Waggoner afirmou que “uma pessoa pode obter justiça ao tomar ba-
nho, desde que saiba de onde vem a água” (1899 GCB, pág. 80).
A crise do panteísmo atingiu seu ápice entre 1901 e 1903, no
contexto da luta pelo poder entre Kellogg e a denominação. O que
a instigou em especial foi o fato de Kellogg haver publicado em
1903 o livro The Living Temple (O Templo Vivo).
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118 UMA IGREJA MUNDIAL

Ao escrever o livro, o doutor seguiu o precedente de Ellen Whi-


te, que havia doado à denominação a renda do recém-publicado
Parábolas de Jesus. O propósito da doação foi saldar a grande dí-
vida gerada pela rápida expansão do sistema educacional da igre-
ja. Kellogg, porém, tencionava, doar o lucro do seu livro para a re-
construção do Sanatório de Battle Creek. Para a infelicidade do
doutor, Prescott e outros condenaram os conceitos panteístas
contidos em The Living Temple, dando um sinal a mais de que
Kellogg não era confiável.
A batalha entre Kellogg e seus colegas contra o partido de Daniells
durou vários anos. Ellen White tentou por algum tempo pacificá-los,
mas por volta de 1903 começou cada vez mais a apoiar Daniells, tan-
to em público como por meio de seus escritos. Kellogg finalmente
abandonou a Igreja Adventista, sendo excluído da congregação de
Battle Creek em novembro de 1907. Do lado do doutor e também lar-
gando a igreja, estavam A. T. Jones e E. J. Waggoner – os dois homens
que haviam levado a denominação de volta a uma compreensão mais
ampla da justiça salvadora, em Minneapolis, em 1888. Jones lutou
contra o adventismo, a organização da igreja e Ellen White pelo res-
to da vida. Sobre a questão específica de Ellen White, Kellogg e vários
de seus associados se uniram a ele entre 1906 e 1910.
O cisma de Kellogg dividiu vários teólogos adventistas e líde-
res médicos, levando-os para fora da denominação. O doutor tam-
bém conseguiu obter o controle do reconstruído Sanatório de
Battle Creek e da escola médica da igreja: o American Medical
Missionary College.
Além dessa crise cismática, o adventismo enfrentou outros de-
sastres em sua base de Battle Creek. O ano de 1902 foi particular-
mente difícil. O sanatório queimou até os alicerces em 18 de feve-
reiro. Seguiu-se um segundo incêndio em 30 de dezembro, quan-
do a editora adventista do sétimo dia pegou fogo. Dentro de uma
hora ela estava em ruínas fumegantes, apesar dos melhores esfor-
ços do corpo de bombeiros.
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Os primeiros anos do novo século foram os mais difíceis para a


denominação. Muito daquilo pelo qual se havia trabalhado tão ar-
duamente para conseguir fora destruído. Mas nem tudo estava
perdido. Sob a dinâmica liderança de Daniells e Prescott, e com a
constante orientação de Ellen White, os mesmos anos que trouxe-
ram desastre também testemunharam a reconstrução do adven-
tismo sobre um fundamento mais sólido.
Nesta seção, examinamos o fortalecimento da estrutura orga-
nizacional da denominação. Na seguinte, consideraremos o renas-
cimento institucional do adventismo.

O Êxodo de Battle Creek e os Novos Começos

No início do século vinte, a constante migração de adventistas pa-


ra Battle Creek tornou-se um problema sério. Em vez de morar em
lugares diferentes onde pudessem testemunhar sua fé, grande parte
dos membros adventistas estava aglomerada naquela cidade, atrapa-
lhando a missão adventista com bisbilhotices e coisas parecidas.
Além do grande número de membros da igreja na cidade, Battle
Creek ficou excessivamente centralizada como base do poder para o
adventismo mundial. Localizavam-se ali não somente a maior igre-
ja e as instituições mais influentes da denominação, como também
a sede mundial. Um punhado de homens, que eram membros de
comissões interligadas, “governavam” o adventismo em toda a par-
te. Na verdade, durante a década de 1890, o Battle Creek College, o
Sanatório de Battle Creek e a Editora Review and Herald tomaram
providências definidas, segundo o espírito monopolista da época,
para ter o controle direto de todas as outras instituições educacio-
nais, médicas e editoriais ao redor do mundo.
Em resumo, em 1900, Battle Creek se tornou para o adventis-
mo o que Jerusalém era para os judeus e o que Salt Lake City é pa-
ra os mórmons. O novo século, no entanto, presenciou a diáspora
da “cidade santa” do adventismo.
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120 UMA IGREJA MUNDIAL

Desde o começo da década de 1890 Ellen White vinha insistin-


do nesse ponto. Não muitos, porém, reagiram favoravelmente. Os
primeiros líderes denominacionais a apoiar a mudança de domi-
cílio foram E. A. Sutherland e Percy T. Magan, respectivamente di-
retor e deão do Battle Creek College desde 1897.
Os dois homens haviam transformado a escola de orientação
clássica em uma instituição reformada centralizada na Bíblia, em
evangelismo e programas de trabalho-estudo. Em seu zelo, já em
1898, também queriam mudar a escola para fora de Battle Creek.
Mas Ellen White pediu cautela. Em 1901, no entanto, ela e outros
reconheceram que chegara o tempo. Em conseqüência, a lideran-
ça resolveu transferir a escola para a silenciosa e pequenina aldeia
de Berrien Springs, no sudoeste de Michigan. Ali, com fartura de
boa terra para a agricultura e outras atividades, Sutherland e Ma-
gan fundaram o Emmanuel Missionary College.
Embora a nova escola não tivesse o porte de uma faculdade, le-
vou as idéias de reforma mais longe do que o fizeram os reforma-
dores em Battle Creek. A idéia de Sutherland era criar em Berrien
Springs “o Avondale da América” (Carta de P. T. Magan a EGW, em
14 de julho de 1901). O nome missionário no título da instituição
indicava o propósito da escola rebatizada. Essa palavra estava se
tornando rapidamente popular nos títulos dos colégios adventis-
tas. O movimento das escolas missionárias foi uma importante ar-
ma na campanha realizada entre os protestantes conservadores
norte-americanos para a evangelização de todo o planeta durante
a década de 1890. Assim, tanto para os adventistas como para os
fundamentalistas em desenvolvimento, o conceito das escolas es-
tabelecidas para propósitos práticos e bibliocêntricos achava-se
diretamente ligado à preocupação que sentiam pelas missões es-
trangeiras.
A escola não foi a única instituição adventista que saiu de Bat-
tle Creek no início da década de 1900. O incêndio de 1902, que
destruiu o complexo industrial da Review and Herald, deu o im-
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A ERA DA REORGANIZAÇÃO E DA CRISE 121

pulso necessário para a saída da cidade do programa de publica-


ções e da sede da Associação Geral. Para onde ir tornou-se a ques-
tão principal para muitos. Parecia, a princípio, que a cidade de No-
va Iorque seria o local apropriado, mas, em 1903, Washington,
D.C., tornou-se o favorito.
Os poucos anos seguintes viram o estabelecimento de uma no-
va sede em Takoma Park, em Maryland, fora dos limites de Wash-
ington, D.C. Os líderes denominacionais não apenas estabelece-
ram a sede da Associação Geral e da Review and Herald Publishing
Association em Takoma Park, mas também construíram, a alguns
quilômetros estrada abaixo, o Sanatório de Washington e o Colé-
gio de Treinamento Especializado de Washington. A última insti-
tuição trocou o nome, em 1907, para Seminário de Missões Es-
trangeiras de Washington. Desse modo, as novas sedes logo exibi-
ram uma série completa de típicas instituições adventistas – um
padrão que viria a caracterizar a expansão adventista em todas as
partes do mundo.
Takoma Park foi a sede do adventismo mundial durante quase
nove décadas. Finalmente, entre 1982 e 1983, a Review and He-
rald Publishing Association mudou-se para Hagerstown, Mary-
land; e, em 1989, os escritórios da Associação Geral foram trans-
feridos para Silver Spring, Maryland. O sanatório e o colégio per-
maneceram em suas localizações originais. O sanatório é agora
conhecido como Hospital Adventista de Washington; e o colégio,
como Columbia Union College.
O êxodo de Battle Creek levou consigo uma importante mu-
dança no programa médico adventista, e desta vez o poderoso Kel-
logg não estava no controle.
O primeiro aspecto da “nova” obra médica adventista consistiu
numa nova geração de sanatórios adventistas. O epicentro do pro-
grama médico foi transferido do Michigan para o sul da Califór-
nia. Ellen White começou a apontar para a Califórnia em 1902,
muito antes de a dificuldade envolvendo Kellogg alcançar o pon-
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122 UMA IGREJA MUNDIAL

to crítico. Deus, escreveu ela, “está preparando o caminho para


nosso povo adquirir, a baixo custo, uma propriedade em que haja
edifícios capazes de ser utilizados em nossa obra” (Carta de EGW
a S. N. Haskell, em 27 de setembro de 1902). Em vez de uma “ins-
tituição gigantesca” (7T, pág. 96), Ellen White aconselhou que a
denominação estabelecesse muitos sanatórios menores em dife-
rentes lugares.
O tempo era propício para a mudança. Empreendedores ha-
viam construído nas duas décadas anteriores muitos centros de
saúde aproveitando o clima agradável do sul da Califórnia. Mas
tempos difíceis atingiram as instituições, obrigando muitos de
seus proprietários a venderem-nas por uma pechincha. Ellen
White, percebendo as oportunidades, pediu ao Dr. T. S. Whitelock
e ao Pastor John A. Burden que mantivessem os olhos abertos pa-
ra encontrar propriedades adequadas. Logo foram encontradas.
Em 1904 um grupo de adventistas liderados pela senhora Whi-
te adquiriu o que se tornou o Sanatório Vale do Paraíso por me-
nos de um sexto do preço de sua construção, realizada 15 anos
atrás. Durante oito anos um grupo de ministros e leigos pôs a ins-
tituição para funcionar na base de iniciativa particular. Em 1912,
acabaram transferindo-a para a Associação local quando esta
prontificou-se a aceitar as responsabilidades.
O ano de 1905 testemunhou o estabelecimento de uma segun-
da instituição médica adventista no sul da Califórnia: o Sanatório
Glendale, perto de Los Angeles. E outra vez os adventistas, sob a
liderança de Burden e Ellen White, adquiriram a propriedade por
uma fração do custo original.
Enquanto isso, perto de Chicago, o Dr. Davi Paulson, em 1905,
abria o Sanatório Hinsdale. Embora Paulson ainda estivesse sob a
influência de Kellogg naquela época, permaneceu leal à denomi-
nação tanto durante quanto depois da crise de Battle Creek.
Entretanto, a aquisição mais importante da nova obra médica
adventista foi o Sanatório de Loma Lima, no sul da Califórnia. A
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A ERA DA REORGANIZAÇÃO E DA CRISE 123

exemplo de outras instituições californianas, os adventistas com-


praram-na por uma pechincha, e ela começou a receber pacientes
em 1905, como aconteceu com Hinsdale e Glendale.
A coisa mais importante sobre Loma Linda, contudo, não foi
seu sanatório, mas o fato de se tornar, em curto espaço de tempo,
a sede de uma escola adventista de medicina. Em 1905, Ellen Whi-
te já havia escrito que a denominação devia preparar médicos em
Loma Linda. Mas, para muitos dos líderes da União do Pacífico,
parecia que um projeto como esse requeria mais dinheiro do que
eles podiam levantar. Além do mais, aquela era uma ocasião ino-
portuna para começar uma nova escola de medicina. Foi precisa-
mente naquela década que a Associação Médica Americana adotou
medidas e normas que forçariam mais da metade das escolas de
medicina dos Estados Unidos a fecharem permanentemente as
portas. Alguns sugeriram que o que a senhora White tinha em vis-
ta talvez fosse apenas uma escola bíblica que ensinasse os obrei-
ros da igreja a aplicar tratamentos simples. Outros achavam que
o que ela tencionava era uma escola de medicina completamente
equipada que também ensinasse verdades bíblicas.
Para complicar a situação, a única escola adventista de medi-
cina na época encontrava-se sob o controle de John Harvey Kel-
logg, que havia estabelecido o American Medical Missionary
College em Battle Creek, em 1895. Uma década mais tarde, po-
rém, a liderança adventista questionou a sabedoria de colocar es-
tudantes sob a influência de Kellogg.
Para esclarecer a questão do que Ellen White queria dizer so-
bre uma escola de medicina em Loma Linda, um grupo de líderes
adventistas fez a pergunta por escrito. Ela respondeu que “a esco-
la de medicina de Loma Lima deveria ser a de mais elevado nível”.
Os jovens da denominação, disse ela, precisavam ter acesso a
“uma educação médica que os habilitasse a passar nos exames re-
queridos por lei para todos quantos clinicam regularmente como
médicos qualificados[;] devemos fornecer tudo o que for preciso
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124 UMA IGREJA MUNDIAL

para que esses jovens não sejam obrigados a entrar em escolas de


medicina dirigidas por homens que não pertençam à nossa fé”
(PUR, 10 de fevereiro de 1910).
Os líderes reagiram positivamente a este conselho, ainda que
não vissem como realizá-lo. A Escola dos Médicos-Evangelistas foi
registrada legalmente em 9 de dezembro de 1909. Hoje é conhe-
cida como Universidade de Loma Linda.
Em 1910 a Escola Médico-Missionária de Kellogg fechou as
portas. O fracasso da escola, deveu-se em parte à queda do núme-
ro de estudantes, em resultado do distanciamento entre as diretri-
zes da escola e da denominação, e, em parte, por causa de normas
cada vez mais rígidas para as escolas de medicina.
O programa médico adventista não foi o único setor institucio-
nal do adventismo a ser revitalizado durante os primeiros anos do
século vinte. Vimos, no capítulo 5, o início da reforma e da expan-
são na educação adventista. Esses processos continuaram, sem
perder o vigor, durante toda a primeira década do novo século.
Embora não tenhamos neste capítulo espaço suficiente para exa-
minar todas as mudanças, vale a pena dar uma olhada em um des-
ses programas educacionais: o do Colégio de Madison.
Edward Sutherland e Percy Magan fundaram o Colégio de Madi-
son em 1906, na cidade de Madison, no Tennessee. Ele surgiu naque-
le tempo com o nome de Instituto Agrícola e Normal de Nashville.
Os dois reformadores deixaram seus postos em Berrien Springs pa-
ra estabelecer uma escola capaz de formar estudantes como profes-
sores missionários de sustento próprio. O desejo deles era preparar
jovens que pudessem não somente pregar o evangelho, mas também
ensinar princípios sanitários e melhores métodos agrícolas.
Desde seu começo, a nova escola foi inigualável em dois setores.
Primeiro, pretendia funcionar numa base economicamente inde-
pendente (isto é, sem receber nenhum patrocínio regular da Asso-
ciação); e segundo, tornar-se uma base para envio de mais obreiros
de sustento próprio para novas localidades. A esfera de influência
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A ERA DA REORGANIZAÇÃO E DA CRISE 125

específica de Madison foi o sul dos Estados Unidos, onde a obra ad-
ventista ainda estava em atraso em relação a muitas outras partes
do país. A escola logo anexou um sanatório a suas instalações.
Um dos aspectos mais bem-sucedidos do programa Madison foi
sua multiplicação no Sul mediante o estabelecimento de “unidades”
em vários locais. Em sua forma ideal, as unidades eram uma réplica
da instituição médica em novas áreas. Muitas das “unidades Madison”
tornaram-se mais tarde escolas e sanatórios da Associação à medida
que a estrutura da Associação no Sul ficava mais forte. Outras unida-
des permanecem como instituições de sustento próprio até hoje.

Uma Ênfase Renovada na Missão

Antes de encerrarmos o capítulo, precisamos examinar um ou-


tro aspecto da atividade adventista durante o período 1901-1910:
a constante expansão e ênfase na missão adventista mundial lide-
rada por Daniells e William A. Spicer. Foi a vigorosa ênfase mis-
sionária da igreja que levou finalmente à reorganização e à cria-
ção de uma nova geração de instituições e à reforma de outras.
A missiologia adventista também adquiriu nova ênfase entre
1901 e 1910: o evangelismo nas metrópoles. Os adventistas eram
essencialmente um povo de antecedentes rurais. Não foi fácil pa-
ra eles ajustar-se na cidade grande. Mas esse imperativo tornou-se
cada vez mais urgente em face da crescente urbanização. A prega-
ção das mensagens dos três anjos “a cada nação, e tribo, e língua,
e povo” também significava evangelizar as cidades, não importa
quão difícil ou mesmo desagradável a tarefa pudesse ser. Mais uma
vez, assim como acontecera com tantas iniciativas, Ellen White
foi a força motriz que impulsionou a denominação para frente.
A missão era algo fundamental para o pensamento da igreja
nos primeiros anos do novo século. Perto do fim da primeira dé-
cada do século vinte, o adventismo estava preparado para realizar
uma obra missionária mundial com maior eficiência e equilíbrio.
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126 UMA IGREJA MUNDIAL

Para Leitura Adicional

Knight, George R. From 1888 to Apostasy: The Case of A. T. Jo-


nes (De 1888 até a Apostasia: O Caso de A. T. Jones). Washington,
D.C.: Review and Herald, 1987. Págs. 178-256.
Land, Gary, ed. Adventism in America (O Adventismo na Amé-
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127-140\Cap. 7 22.12.13 15:20 Page 127

A Era do

Capítulo 7
Crescimento
Mundial
(1910 - 1955)

As seis décadas que vão de 1840 até 1900 as-


sitiram à formação do adventismo como uma
igreja mundial. O decênio de 1900-1910 viu a
igreja reorganizar suas estruturas e institui-
ções para o cumprimento mais funcional de
sua missão. E desde 1910 começou a ocorrer
um crescimento que teria sido inimaginável
para os pioneiros adventistas. A partir de um
pequeno e desprezado grupo do advento, com
cerca de 100 pessoas em 1848, a igreja cresceu
para aproximadamente 78 mil membros em
1900, e estimativas baseadas nos índices de
crescimento atual fazem supor que a igreja te-
rá por volta de 20 milhões de membros em
2010. Além disso, enquanto em 1900 a deno-
minação era ainda predominantemente norte-
americana, pelos meados da década de 1920
mais da metade de seus membros vivia em ou-
tros continentes.
127-140\Cap. 7 22.12.13 15:20 Page 128

128 UMA IGREJA MUNDIAL

O adventismo do começo do século vinte pode ser mais bem


descrito como um povo que tem a missão urgentíssima de levar
ao mundo a tríplice mensagem angélica. Entre 1910 e 1955 a de-
nominação fortaleceu e expandiu tanto o programa missionário
da década de 1890 que o adventismo de meados da década de 1950
seria quase irreconhecível para seus fundadores.

O Falecimento de Ellen White

Conforme vimos em nossos primeiros capítulos, Ellen White,


Tiago White e José Bates foram os fundadores do adventismo do
sétimo dia. Bates faleceu em 1872 e Tiago em 1881, mas Ellen
continuou a guiar a Igreja Adventista até 1915. Embora ela jamais
tenha ocupado oficialmente um cargo administrativo na denomi-
nação, possuía enorme autoridade carismática. Seus escritos e
conselhos tiveram significado especial tanto para o adventismo
individual como para o corporativo.
Em 16 de julho de 1915, “a pequena e idosa senhora de cabe-
los brancos, que sempre falava tão carinhosamente de Jesus” (nas
palavras de alguns de seus vizinhos não adventistas; ver A. L. Whi-
te, Messenger to the Remnant, pág. 108), morreu com a idade de
87 anos. As últimas palavras que seus familiares e amigos ouviram
foram: “Eu sei em quem tenho crido” (LS, pág. 449).
Realizaram-se três cultos fúnebres: um em Elmshaven, na
Califórnia, na residência dela; um segundo na reunião campal
de Richmond, na Califórnia; e o terceiro no Tabernáculo de
Battle Creek. O presidente da Associação Geral, A. G. Daniells
dirigiu o culto em Battle Creek. Mais de 3.500 pessoas lotaram
o tabernáculo, enquanto outras mil não puderam entrar por
falta de espaço.
A vida de Ellen White chegara ao fim, mas não a sua influência.
Pelo tempo de sua morte, sua produção literária abrangia mais de
100 mil páginas de livros, folhetos, artigos, cartas e manuscritos
127-140\Cap. 7 22.12.13 15:20 Page 129

A ERA DO CRESCIMENTO MUNDIAL 129

inéditos. Seu legado literário ao adventismo tem continuado a for-


necer valioso conselho à igreja a que ela dedicou a vida.
Reconhecendo a grande probabilidade de morrer antes da vin-
da de Jesus, no começo de 1912 a senhora White tomou providên-
cias com respeito a seus escritos em sua última vontade e testa-
mento. Nomeou cinco homens que, a partir de sua morte, deve-
riam trabalhar como uma comissão perpétua de depositários para
administrar as propriedades dela, “dirigir os negócios”, “garantir
a publicação de novas traduções” e “a edição de compilações” de
seus manuscritos (o texto na íntegra aparece em H. E. Douglass,
Messenger of the Lord, págs. 569-571).
De 1915 até nossos dias, os depositários do White Estate (Pa-
trimônio Literário White) têm desempenhado essas funções. Faz
parte do trabalho deles também tornar conhecida a escritora e sua
obra tanto para adventistas como para outros. O Patrimônio Lite-
rário White tem sua sede atual no edifício da Associação Geral, em
Silver Spring, Maryland. Existem em todo o mundo filiais e cen-
tros de pesquisa ligados ao Patrimônio Literário White. Anexas a
destacadas instituições educacionais adventistas, essas extensões
do escritório principal do Patrimônio Literário White oferecem
constantes oportunidades para pesquisas sobre os escritos de El-
len White e questões relacionadas a eles.

Um Período de Crise e Promessa

Apesar das crises mundiais sem precedentes que provocaram


uma forte recessão internacional, duas guerras mundiais e uma
guerra fria, entre 1910 e 1955 a Igreja Adventista testemunhou
seu maior crescimento e expansão até aquele ponto de sua histó-
ria. Embora essas crises tenham de certo modo dificultado a pre-
gação da tríplice mensagem angélica, a magnitude dos desastres
serviu por outro lado para intensificar o interesse no Segundo Ad-
vento. “Guerras e rumores de guerras” fizeram as pessoas levar a
127-140\Cap. 7 22.12.13 15:20 Page 130

130 UMA IGREJA MUNDIAL

sério os “sinais dos tempos”. De modo geral, os períodos de crise


têm estimulado o evangelismo adventista, mesmo quando criam
obstáculos à obra em nações devastadas pela guerra e frustram a
comunicação através de barreiras internacionais antagônicas.
A primeira metade do século vinte trouxe não apenas a dupla cri-
se da guerra e da recessão econômica, mas também uma mudança
na cultura, em grande parte rumo à secularização. De muitas ma-
neiras essa mudança cultural atingiu seu ápice nos anos que media-
ram a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão da década de
1930. Isso foi especialmente verdadeiro para os Estados Unidos, na-
ção que era na época o mais influente suporte do adventismo mun-
dial. As coisas que ocorreram na América do Norte na década de
1920 tendiam a causar maior impressão sobre a igreja mundial do
que ocorrências semelhantes no último quartel do século vinte.
De particular importância para o adventismo foi o confronto
entre o liberalismo protestante e o fundamentalismo. A essência
da luta entre os liberais e os fundamentalistas envolvia a nature-
za da inspiração e da revelação. O adventismo, na melhor das hi-
póteses, tendia a seguir a liderança de Ellen White, que defendia
mais a inspiração do pensamento do que a inspiração verbal, pon-
do assim o adventismo a salvo das idéias de inerrância e infalibili-
dade. A Bíblia, afirmava ela, era infalível na esfera da salvação, mas
não infalível ou inerrante no sentido radical de estar acima de
qualquer possibilidade de erros ou dificuldades factuais.
Durante o final do século dezenove e o início do século vinte, lí-
deres adventistas como A. T. Jones e S. N. Haskell causaram graves
problemas ao adventismo ao ensinarem a inspiração verbal e a iner-
rância, tanto da Bíblia como dos escritos de Ellen White. A senho-
ra White, contudo, ainda vivia e pôde recomendar moderação sobre
o assunto. Aliados a ela estavam líderes adventistas como A. G. Da-
niells e W. C. White, que pediam com insistência a adoção de um
ponto de vista razoável e não excessivamente rígido sobre a inspira-
ção da Bíblia e dos escritos de Ellen White. Jones acabou rejeitan-
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A ERA DO CRESCIMENTO MUNDIAL 131

do Ellen White devido à sensata flexibilidade dela para com a inspi-


ração, atitude que conflitava com a rigidez doutrinária dele.
Infelizmente, a força e a magnitude das lutas no protestantismo
norte-americano durante a década de 1920 destruíram o consciencio-
so equilíbrio defendido pelos White e por Daniells. Essa década viu a
polarização em temas de verbalismo e inerrância entre fundamenta-
listas e liberais. Enquanto os liberais procuravam restringir a nature-
za divina das Escrituras, os fundamentalistas tornavam suas defini-
ções bastante rígidas, de modo que elas ainda hoje são incompatíveis.
O adventismo viu-se no meio da crise ligada à inspiração e, du-
rante o processo (triste é dizer), perdeu sua postura equilibrada.
Atividades extras impediram Daniells, Prescott, W. C. White e ou-
tros, de atitude comedida sobre o tema da inspiração, de partici-
par da discussão durante a década de 1920, quando a igreja, numa
atitude temerosa e reacionária, chegou ao ponto de publicar um
livro-texto, patrocinado pela Associação Geral e destinado a esco-
las adventistas, negando explicitamente o ponto de vista modera-
do de Ellen White a respeito da inspiração do pensamento, e ad-
vogando a inerrância e a inspiração verbal para cada palavra.
A perda da postura equilibrada sobre inspiração, adotada por
Ellen White e pelo adventismo durante os anos 1920, fez com que
a igreja tivesse dificuldades em interpretar a Bíblia e os escritos de
Ellen White durante décadas. Os problemas decorrentes levaram
às fileiras adventistas extremismo, equívocos e disputas que, la-
mentavelmente, se estendem até nossos dias.
Num nível mais positivo, a década de 1920 assistiu à renovação do
interesse na justiça de Cristo e na salvação por meio dEle. De especial
influência foram livros como Christ Our Righteousness (Cristo Nossa
Justiça), de Daniells (1926); Doctrine of Christ (Doutrina de Cristo) e
Saviour of the World (Salvador do Mundo), de Prescott (1920 e 1929,
respectivamente); His Cross and Mine (Sua Cruz e Eu) e Life of Vic-
tory (Vida Vitoriosa), de Meade MacGuire (1927 e 1924); e Coming of
the Comforter (A Vinda do Consolador), de LeRoy Froom (1928).
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132 UMA IGREJA MUNDIAL

Crescimento Sem Paralelo das Missões Adventistas

Durante as primeiras três décadas do século vinte, dois dos líderes


de mentalidade mais missionária da denominação ocuparam os dois
cargos máximos da organização. De 1901 a 1922 A. G. Daniells atuou
como presidente da Associação Geral e depois como secretário nos
quatro anos seguintes, enquanto William A. Spicer foi secretário en-
tre 1903 e 1922 e presidente de 1922 a 1930. A função presidencial,
em qualquer organização, é obviamente importante em estabelecer
direções, mas no adventismo, a secretaria é igualmente vital em ter-
mos de missões estrangeiras, desde quando esse departamento assu-
miu a função da Comissão de Missões Estrangeiras em 1903. Spicer
e Daniells não apenas foram líderes competentes, mas também dedi-
caram-se às missões e à pregação da terceira mensagem angélica “a
cada nação, e tribo, e língua, e povo”.
É difícil compreender a magnitude das mudanças na expansão
missionária adventista, mas o gráfico abaixo, que indica o núme-
ro crescente de missões adventistas, pode nos ajudar a avaliar a
mudança expansionária que começou a transformar a denomina-
ção de uma igreja norte-americana num movimento mundial.

Figura 1: Expansão das Missões ASD


280 270
260
240
Número de Missões ASD

220
200
180
160 153

140
120
100 87
80
60
42
40
20 8 8
0
1880 1890 1900 1910 1920 1930
127-140\Cap. 7 22.12.13 15:20 Page 133

A ERA DO CRESCIMENTO MUNDIAL 133

Uma olhada rápida na Figura 1 indica várias coisas. Uma é a


falta de desenvolvimento missionário antes da década de 1890. A
segunda, conforme vimos no capítulo 5, é a importância decisiva
de 1890 como a década em que o adventismo chegou à compreen-
são de sua missão mundial e depois decidiu realizar essa missão.
A terceira coisa a notar é que esta compreensão e decisão não se
exauriram na década de 1890. Ao contrário, a expansão dos anos 1890
continuou sempre a mesma durante as administrações de Daniells e
de Spicer. E esta constante expansão rumo a todo o mundo não ape-
nas alterou as fronteiras geográficas da igreja, mas mudou de forma
crescente a natureza do próprio adventismo. A Tabela 1 nos ajuda a
compreender alguns aspectos importantes dessa transformação.

Tabela 1 – Crescimento da Igreja ASD por Décadas


Obreiros
Obreiros Igrejas Membros
Evangélicos Igrejas na Membros
Evangélicos Fora da Fora da
Ano Fora da América do na América
da América América do América do
América do Norte do Norte
do Norte Norte Norte
Norte
1863 30 –––– 125 –––– 3.500 –––––
1870 72 –––– 179 –––– 5.440 40
1880 255 5 615 25 14.984 586
1890 355 56 930 86 27.031 2.680
1900 1.019 481 1.554 338 63.335 12.432
1910 2.326 2.020 1.917 852 66.294 38.232
1920 2.619 4.336 2.217 2.324 95.877 89.573
1930 2.509 8.479 2.227 4.514 120.560 193.693
1940 3.001 10.578 2.624 6.300 185.788 318.964
1950 5.588 12.371 2.878 7.359 250.939 505.773

Um exame da Tabela 1 indica não apenas o constante crescimento,


mas também o fato de que as décadas de 1890 e 1920 apresentam par-
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134 UMA IGREJA MUNDIAL

ticular interesse. O decênio de 1890, conforme vimos acima, foi a dé-


cada na qual a igreja começou a pregar suas mensagens da hora do juí-
zo em “testemunho a todas as nações”. Na metade da década de 1920
a denominação ultrapassou o ponto em que havia mais membros fora
da América do Norte do que dentro. Foi assim que a igreja começou
não apenas a pregar em nível mundial, mas também a internacionali-
zar-se. Esse processo continua à medida que a igreja entra no século
vinte e um. Todas as implicações da internacionalização do adventis-
mo, conforme veremos em nosso último capítulo, devem ainda mani-
festar-se completamente numa denominação que continua a ser uma
das corporações religiosas de crescimento mais rápido no mundo.
Perto da virada do século, algumas das implicações da interna-
cionalização já estavam se tornando claras. Uma delas era a expan-
são das bases de operações para o envio de missionários ao estran-
geiro. Embora esse conceito tenha se iniciado no século dezeno-
ve, Daniells procurou conscientemente desenvolver o adventismo
em nações como Alemanha, Inglaterra e Austrália, a fim de torná-
las bases de operações para outras expansões.
As primeiras décadas do século vinte testemunharam a igreja ale-
mã, sob a liderança de Louis R. Conradi, abrir caminho para o adven-
tismo no Oriente Médio e na África Oriental. Nesse meio tempo, mis-
sionários australianos espalharam rapidamente a mensagem em todas
as partes do Pacífico Sul. O adventismo britânico, com seu império
global de nações e sua tradição missionária fortemente desenvolvida,
passou rapidamente a estabelecer o adventismo em muitas partes do
mundo. À medida que o século avançava, mais e mais Missões tanto
em países desenvolvidos como em subdesenvolvidos tornaram-se As-
sociações economicamente independentes, capazes de funcionar co-
mo bases de operações para outras expansões missionárias.
A generosa devolução de dízimos e as diversas ofertas missionárias,
assim como a campanha anual da recolta, sustentaram o ambicioso
programa de expansão denominacional. A igreja iniciou durante o co-
meço da década de 1900 a “Recolta da Colheita” a fim de conceder aos
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A ERA DO CRESCIMENTO MUNDIAL 135

não-adventistas a oportunidade de auxiliar projetos adventistas.


O adventismo evidentemente levou consigo, por quase toda
parte onde penetrou, sua obra médica, educacional e editorial. A
base institucional da denominação expandiu-se em proporção à
expansão da própria igreja.
Em muitas nações o vendedor adventista de livros, de porta em por-
ta – o colportor – tornou-se a cunha de penetração para a tríplice men-
sagem angélica. A adoção de técnicas inovadoras nas áreas da comuni-
cação e dos transportes também facilitaram a expansão do adventismo.
Inspirando-se na tradição da comunicação de massa de Josué
V. Himes, H. M. S. Richards vislumbrou na radiodifusão possibili-
dades implícitas para a propagação da mensagem adventista. Em
1930 ele deu início ao programa The Tabernacle of the Air (O Ta-
bernáculo do Ar) na emissora KGER, em Long Beach, na Califór-
nia. O programa de Richards, rebatizado de The Voice of Prophecy
(A Voz da Profecia), tornou-se mais tarde um dos primeiros pro-
gramas religiosos a entrar no campo da radiodifusão nacional.
Num mundo em que a TV era um veículo novo e, em grande
parte, ainda não experimentado, o programa Faith for Today (Fé
Para Hoje), de William Fagal, foi ao ar pela primeira vez em 21 de
maio de 1950. A década de 1950 também viu George Vandeman
iniciar o programa de televisão IT Is Written (Está Escrito). O
bom êxito de Richards, Fagal e Vandeman logo estimularam os
adventistas a utilizar o rádio e a televisão em outros países.
No início da década de 1990, a denominação adquiriu potentes
estações de rádio em diversas partes do mundo com a idéia de
transmitir ao planeta as mensagens dos três anjos. O fim dos anos
1990 viu a igreja mover-se em direção a áreas estratégicas de ex-
pansão como a Internet e desenvolver uma rede mundial de tele-
visão via satélite com a possibilidade de transmissões para milha-
res de lugares. Ainda não se divisaram todas as possibilidades,
nem os resultados da Rádio Adventista Mundial e o emprego cria-
tivo da tecnologia de computador e satélite.
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136 UMA IGREJA MUNDIAL

Os missionários adventistas também estavam ansiosos por in-


crementar o setor dos transportes. De especial interesse foram
seus barcos missionários. Já mencionamos o emprego inovador
do Morning Star (Estrela da Manhã) por J. E. White no sul dos Es-
tados Unidos, na metade da década de 1890, embora um empreen-
dimento mais romântico o tenha precedido. No ano de 1890 a de-
nominação havia lançado ao mar o Pitcairn, com o propósito de
difundir a obra entre as ilhas do Pacífico Sul.
Entretanto, o emprego mais amplo de barcos missionários ad-
ventistas foi, sem dúvida, na área das lanchas médicas. Em 1930,
sob a inspiração do presidente da Missão Baixo-Amazonas, Leo B.
Halliwell, a igreja construiu sua primeira lancha. A Luzeiro, batiza-
da em 1931, levava assistência médica e a mensagem adventista ao
povo que vivia às margens do Amazonas e de seus afluentes. A Lu-
zeiro tornou-se a primeira entre muitas lanchas iguais a ela no Bra-
sil e em outros países. Durante a década de 1950 os adventistas co-
meçaram a empregar aeronaves com propósitos similares.
Na metade da década de 1950 o adventismo era uma autêntica
corporação religiosa mundial. Seu programa missionário havia supe-
rado as expectativas de sucesso. O período também testemunhou a
expansão adventista nos Estados Unidos entre as populações majori-
tárias e minoritárias da nação. É em direção ao relevante crescimen-
to entre a minoria racial norte-americana que agora nos voltaremos.

Amadurecimento do Adventismo
Entre Afro-Americanos

Uma importante “missão” norte-americana que se tornou cada vez


mais integrada ao adventismo durante o século vinte foi o trabalho de-
nominacional entre os americanos de herança africana. Esse proces-
so, contudo, não foi rápido, nem óbvios os resultados desde o início.
Lamentavelmente, o preconceito racial (como outros pecados)
não é totalmente erradicado da maioria dos cristãos quando esses
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A ERA DO CRESCIMENTO MUNDIAL 137

se convertem. Nem são as tensões raciais enraizadas numa cultu-


ra fáceis de serem superadas pelas igrejas que vivem naquele am-
biente social. Sendo assim é lamentável, mas não surpreendente,
que os adventistas tenham tido sua parcela de vítimas de questões
raciais à medida que aumentava o número de negros na denomi-
nação. Um dos primeiros foi L. C. Sheafe. Sheafe teve, até certo
ponto, preeminência em círculos adventistas no final da década de
1890, chegando a pregar com freqüência nas assembléias da Asso-
ciação Geral durante grande parte da década seguinte.
Porém, em 1907, Sheafe, que era pastor da igreja Adventista do
Sétimo Dia Popular em Washington, D.C., estava em via de levar
sua congregação para fora da igreja. Parte do motivo consistia na
questão da discriminação racial. Tirando vantagem dessa situação,
A. T. Jones veio de Battle Creek para inflamar as chamas do descon-
tentamento. Posteriormente, Sheafe, aliado com Jones, tentou alie-
nar da denominação igrejas negras de outras regiões do país.
Dois anos depois, talvez em reação à apostasia de Sheafe, a As-
sociação Geral criou o Departamento dos Negros Norte-America-
nos com o fim de cuidar dos interesses dos adventistas negros. Os
primeiros três secretários departamentais, como era de se esperar,
eram brancos. Isso, no entanto, mudou em 1918 quando um ta-
lentoso advogado negro por nome William H. Green tornou-se o
secretário do departamento, cargo que ocupou até sua morte, em
1928. Sob a liderança de Green, a obra entre os afro-americanos
prosperou, apesar de a discriminação prosseguir.
A discriminação, contudo, estimulou mais uma vez a deserção
de um destacado pastor negro. Em 1929, J. K. Humphrey retirou da
denominação os 600 membros da Primeira Igreja Adventista do Sé-
timo Dia do Harlem, na cidade de Nova Iorque, da qual era pastor.
Aquele mesmo ano encontrou os pastores negros mais desta-
cados fazendo um apelo em favor de Associações para negros. Uma
organização separada, argumentavam eles, faria prosperar a obra
entre os afro-americanos. A maior parte dos líderes brancos viu
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138 UMA IGREJA MUNDIAL

pouca luz nessa sugestão, e outra década e meia transcorreu an-


tes que as Associações para negros se tornassem uma realidade.
Enquanto isso, George E. Peters e Frank L. Peterson lideraram o
Departamento dos Negros Norte-Americanos.
A última campanha em favor das Associações para negros ocor-
reu no princípio da década de 1940. Na vanguarda estavam os
membros altamente instruídos da Igreja Adventista do Sétimo Dia
de Éfeso, em Washington, D.C. Localizados bem perto da sede
mundial da denominação, os membros de Washington acharam
difícil ignorar sua condição racialmente discriminada na igreja.
Eles não podiam matricular os filhos no Washington Missionary
College, nem comer na lanchonete anexa à Associação Geral.
A crise chegou ao máximo no outono de 1943, quando o Sanatório
Adventista de Washington mandou que Lucy Byard, uma adventista
negra de pele clara, fosse transferida para outra instalação depois que o
hospital soube de sua identidade racial. Devido a uma série de atrasos
em transferi-la para o Hospital dos Alforriados, ela morreu de pneumo-
nia. Uma irada comunidade adventista negra viu a morte de Byard co-
mo um martírio provocado pela política de exclusividade racial.
O que aconteceu depois, levou a apaixonadas discussões entre líde-
res adventistas sobre a melhor maneira de atender às necessidades dos
adventistas negros, com a liderança ficando mais e mais convencida de
que o desejo dos adventistas negros de terem suas próprias Associações
era a resposta. Em abril de 1944, na reunião de primavera da Associação
Geral, tomou-se uma decisão autorizando a criação das Associações pa-
ra negros. Em 1o de janeiro de 1945, a Associação da Região do Lago tor-
nou-se a primeira Associação para negros da América do Norte.
Os negros argumentavam que a obra adventista entre as mino-
rias seria mais bem-sucedida se fosse realizada por pessoas da mes-
ma raça. O crescimento do adventismo entre os negros, desde a cria-
ção das Associações para negros, parece confirmar amplamente o
conceito. Em 1944 o número de membros negros chegou a 17 mil,
8% do total de membros da Divisão Norte-Americana. Na metade de
127-140\Cap. 7 22.12.13 15:20 Page 139

A ERA DO CRESCIMENTO MUNDIAL 139

1997 o número de membros negros havia aumentado para 262 mil,


ou 30% do total. Em outras palavras, desde que a obra entre negros
norte-americanos ficou sob o próprio controle deles, o setor afro-
americano da igreja tem crescido quase quatro vezes mais rápido do
que o restante do conjunto de membros da Divisão.
Por volta das décadas de 1950 e 1960 os negros norte-america-
nos passaram a ocupar cada vez mais cargos na Associação Geral.
Esse processo foi, sem dúvida, acelerado devido à influência do
movimento pelos direitos civis numa cultura mais ampla no início
da década de 1960. Em 1962, Frank. L. Peterson tornou-se o pri-
meiro vice-presidente afro-americano da Associação Geral. A déca-
da de 1960 também viu a denominação expressar-se de público
contra a discriminação racial nas instituições denominacionais.
Durante o fim da década de 1960 e começo da década de 1970,
apareceu uma moção para criar Uniões para negros na América do
Norte. Em lugar das Uniões para negros, porém, resolveu-se final-
mente conceder aos líderes negros mais influência dentro da deno-
minação, elegendo administradores negros para algumas das fun-
ções nas Uniões já existentes. Os representantes negros também re-
ceberam cargos em comissões. Fizeram-se os mesmos preparativos
em favor da crescente população hispânica na América do Norte a
fim de garantir uma voz hispano-americana em todos os níveis.
Na década de 1980 a denominação na América do Norte testemu-
nhou os negros ocupando cargos de liderança jamais sonhados na
década de 1950, e mesmo na década de 1960. Charles E. Bradford,
por exemplo, foi presidente da Divisão Norte-Americana; Robert H.
Carter atuou como presidente da Associação União do Lago, e Cal-
vin Rock chegou a ser vice-presidente geral da igreja mundial.
Persiste em algumas mentes a pergunta se a igreja deve ter Asso-
ciações separadas com base na etnia. Calvin Rock chama atenção pa-
ra o fato de que nem todas as Uniões possuem Associações separadas,
e naquelas que as possuem, os irmãos de cor não são segregados. Na
realidade, algumas Associações regionais contam com pastores bran-
127-140\Cap. 7 22.12.13 15:20 Page 140

140 UMA IGREJA MUNDIAL

cos, enquanto Associações “de brancos” têm pastores e administrado-


res negros. O argumento geral de Rock é que as Associações regio-
nais devem permanecer como opção, se assim fazendo facilitarem a
missão denominacional em prol do mundo. Por outro lado, confor-
me vimos acima, em muitas áreas a “barreira racial” está ficando ca-
da vez mais indistinta tanto no que se refere à freqüência à igreja co-
mo no que diz respeito à liderança. Isso não significa, é verdade, que
o ideal tenha sido alcançado ou que não existam mais tensões.
Com a progressiva internacionalização da igreja no período pos-
terior a 1955, continuaram as tendências do crescimento do adven-
tismo mundial entre 1910 e 1955. Os resultados do crescimento da
igreja, semelhante ao crescimento verificado entre os norte-ameri-
canos negros, foi reproduzido ao redor do mundo e em outros gru-
pos minoritários nos Estados Unidos. Se a primeira metade do sé-
culo vinte assistiu ao adventismo difundir-se mundialmente, a se-
gunda metade o viu dar passos gigantescos rumo a tornar-se de fa-
to uma corporação religiosa internacionalmente integrada.

Para Leitura Adicional

Knight, George R. Meeting Ellen White (Conhecendo Ellen


White). Págs. 79-87.
Land, Gary, ed. Adventism in America (O Adventismo na Amé-
rica do Norte). Págs. 113-170.
Reynolds, Louis B. We Have Tomorrow (Nós Temos Futuro).
Págs. 292-357.
Schwarz, Richard W. Light Bearers to the Remnant (Portado-
res de Luz ao Remanescente). Págs. 333-629.
Weeks, Howard B. Adventist Evangelism in the Twentieth Cen-
tury (O Evangelismo Adventista no Século Vinte). Washington,
D.C.: Review and Herald, 1969. Págs. 11-245.
White, Arthur L. Ellen G. White (Ellen G. White) Vol. 6, págs.
302-448.
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 141

Os Desafios e

Capítulo 8
Possibilidades de
Maturidade
(1955 - )

É fato bem conhecido que as pessoas passam


por um ciclo vital que se inicia na infância,
avança em rápido desenvolvimento pela adoles-
cência e juventude e progride para a desacelera-
ção da meia-idade. Se a pessoa vive tempo bas-
tante, ela acabará por fim enfrentando a deca-
dência mental e/ou física da senilidade.
Poucos sabem, porém, que as organizações,
inclusive as igrejas, passam também por proces-
so semelhante de envelhecimento. O adventis-
mo não escapou dessa dinâmica. Passou pela in-
fância entre 1844 e 1863 e pela adolescência en-
tre 1863 e 1901. Por volta de 1901 alcançou, em
termos sociológicos, o estágio de eficiência má-
xima. Infelizmente, os estágios além desse nível
não são mais agradáveis para igrejas do que o
são para indivíduos. São marcados pelo institu-
cionalismo com um fim em si mesmo, pela bu-
rocracia e, posteriormente, pela disfunção.
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 142

142 UMA IGREJA MUNDIAL

As boas-novas são que, diferentemente das pessoas, cujo ciclo vi-


tal é biologicamente condicionado, as organizações sociais não pre-
cisam passar necessariamente pelas fases degenerativas do ciclo. A
alternativa é o constante reavivamento e reforma. Para uma igre-
ja, esses recursos significam duas coisas: (1) manter sua missão
sempre em vista, e (2) ter sempre boa vontade em reestruturar e re-
formar seus organismos e instituições, conservando assim a funcio-
nalidade dessas organizações em cumprir a missão da igreja.
Vimos no capítulo 6 que a reforma e a reestruturação aconte-
ceram no princípio da década de 1900 enquanto a denominação
enfrentava os desafios de tornar-se uma igreja mundial com qua-
se 80 mil membros. Sua organização e algumas de suas institui-
ções anteriores estavam funcionando precariamente e não con-
seguiam alcançar, de forma eficiente, os objetivos mais elemen-
tares da igreja.
O adventismo da virada do século vinte e um, com seus mais de
10 milhões de membros, encontra-se num dilema semelhante. Es-
te capítulo defende a opinião de que o adventismo alcançou sua ma-
turidade denominacional na metade da década de 1950 e que, após
quase meio século de maturidade, a denominação precisa, de ma-
neira deliberada, reformar-se e adaptar suas ferramentas para ad-
quirir vigor renovado. A alternativa é para enfrentar a possibilidade
de sucumbir às ameaças do institucionalismo, da secularização e da
disfuncionalidade. Esse dilema é o quinhão das organizações que se
recusam a tratar dos problemas advindos do sucesso inusitado ob-
tido nos estágios anteriores de seu desenvolvimento.
A prosperidade e as realizações do adventismo durante os pri-
meiros anos do século vinte foram excepcionais. Esse sucesso tem
perdurado até o presente, mas colocou a igreja numa situação em
que deve, deliberadamente, decidir e agir de maneira corajosa, co-
mo fez na década de 1860 e na primeira década do século vinte,
em que passou por alterações para continuar progredindo mesmo
sob condições variáveis.
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 143

OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 143

O adventismo, conforme veremos, desenvolveu novas e dinâmi-


cas estratégias missionárias, mas a denominação ainda enfrenta
grandes problemas e desafios. Felizmente, ela não possui só proble-
mas, mas também possibilidades inauditas, caso seus líderes e
membros estejam dispostos a agir com a dedicação e a singeleza de
visão que caracterizou a primeira liderança do movimento.

Alcançando a Maturidade

Por volta da metade da década de 1950 vários sinais indicavam


que o adventismo do sétimo dia havia amadurecido como denomi-
nação. Um deles era o reconhecimento por parte de certos líderes
evangélicos influentes de que a igreja era efetivamente uma cor-
poração cristã evangélica.
Desde o aparente fracasso do milerismo, na década de 1840, a
maioria dos protestantes considerava os adventistas com suspei-
ção. O fato de eles reivindicarem ter na pessoa de Ellen White um
profeta moderno e de pregarem vigorosamente a perpetuidade dos
Dez Mandamentos, inclusive o sábado do sétimo dia, agravava o
problema. Durante o início do século vinte, a maioria dos protes-
tantes considerava o adventismo uma seita a ser evitada devido a
seus pontos de vista heréticos. Muitos classificavam os adventis-
tas, assim como as testemunhas de Jeová, os cientistas cristãos e
os mórmons, como subcristãos.
Essa percepção mudou na metade da década de 1950 em resul-
tado de uma série de conferências teológicas entre certos líderes
adventistas e dois notáveis evangélicos. Um deles foi Donald Grey
Barnhouse, editor da revista Eternity (Eternidade). O outro foi
Walter Martin, especialista em seitas não-cristãs, comissionado
pela Editora Zondervan a escrever um livro sobre os adventistas.
Barnhouse e Martin concluíram, para sua própria surpresa,
que os adventistas não criam em diversas heresias, inclusive a sal-
vação pelas obras, que outros atribuíam a eles. Embora esses eru-
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 144

144 UMA IGREJA MUNDIAL

ditos evangélicos não concordassem com todos os aspectos da teo-


logia adventista, chegaram à conclusão de que os adventistas não
eram membros de uma seita. Ao contrário, eram cristãos evangé-
licos que mereciam ser reconhecidos publicamente como tais.
Em conseqüência disso, Barnhouse, na edição de setembro de
1956 da Eternity, estendeu ao adventismo a mão da comunhão; e
Martin escreveu em 1960 um livro favorável, intitulado The Truth
About Seventh-day Adventism (A Verdade Sobre o Adventismo do
Sétimo Dia). Nesse meio tempo, a denominação publicou, em
1957, Questions on Doctrine (Questões Doutrinárias), obra que
respondia às indagações dos evangélicos.
Desde aquele tempo os adventistas têm tido melhor relaciona-
mento com a maior parte da comunidade cristã. Porém, um dos
resultados infelizes desse reconhecimento é que a opinião adven-
tista ficou dividida a respeito desse reconhecimento, a saber: se
ele representou um avanço ou um retrocesso para a missão dis-
tintiva da igreja.
A criação de universidades denominacionais no fim da década de
1950 e início da década de 1960 ofereceu um segundo sinal da cres-
cente maturidade adventista. De fato, esse empreendimento teve
seu início no começo da década de 1930, quando a denominação
aceitou finalmente o fato de que os professores de suas faculdades
precisavam obter títulos acadêmicos mais avançados para que o
mundo moderno aceitasse os diplomados pelas faculdades adventis-
tas. Essa compreensão levou ao estabelecimento da Escola Bíblica
Avançada, em 1934. No final da década de 1930, a instituição mu-
dou seu nome para Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia,
estabelecendo-se na sede da Associação Geral em Takoma Park,
Maryland. No encontro outonal de 1956 da Comissão Executiva da
Associação Geral, foi dado um passo importante quando se resolveu
criar uma espécie de universidade. O ano seguinte assistiu à inau-
guração da Universidade do Potomac (carinhosamente conhecida
em inglês como “PU”), que consistia no seminário teológico e nu-
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 145

OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 145

ma escola de nível universitário recém-organizada. Em 1958 a As-


sociação Geral votou pela mudança da instituição para Berrien
Springs, no Michigan, onde, com a afiliação do Emmanuel
Missionary College, tornou-se a Universidade Andrews.
Enquanto isso, na Califórnia, em 1o de julho de 1961, o Colégio
de Médicos-Evangelistas, pertencente à denominação, converteu-
se na Universidade de Loma Linda. Tanto a Andrews como a Loma
Linda estavam desenvolvidas a ponto de poderem conferir graus
acadêmicos de doutorado plenamente credenciados por volta da
década de 1970. Loma Linda, não obstante, tem formado médicos
desde 1914.
As décadas de 1980 e 1990 viram a criação de universidades e
centros universitários adventistas em muitas partes do mundo, in-
cluindo países como México, Alemanha, Quênia, Zimbábue, Argen-
tina, Brasil, Coréia, e Filipinas. Portanto, muitas instituições deno-
minacionais de ensino superior estão oferecendo ou se preparando
para oferecer cursos de mestrado e doutorado, algumas localizadas
em lugares evangelizados pelo adventismo, considerados até poucas
décadas atrás como campos missionários “primitivos”.
Um terceiro sinal da maturidade adventista é uma internaciona-
lização mais genuína do que a vista no passado. Em parte, essa in-
ternacionalização significa que os “missionários estrangeiros” vin-
dos dos Estados Unidos, Europa, Inglaterra, Austrália e África do
Sul não mais controlam a obra nos mais novos campos do trabalho
adventista. Ao contrário, a igreja tem capacitado líderes nativos em
quase todas as áreas de seu extenso programa missionário.
Os transtornos ocasionados pela Segunda Guerra Mundial es-
timularam, até certo ponto, a mudança de “missionários” para a
liderança nativa. Mas o espírito nacionalista que se espalhou por
todo o mundo, entre 1945 e o final da década de 1960, acelerou
imensamente o processo. Como conseqüência, os administrado-
res dos setores geográficos do adventismo até o nível das Divisões
da Associação Geral geralmente são naturais da região que lide-
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 146

146 UMA IGREJA MUNDIAL

ram. Isso significa que asiáticos dirigem a obra na Ásia; africanos,


a obra na África; e latino-americanos, a obra na América Central e
América do Sul. O líder de cada Divisão mundial é também vice-
presidente da Associação Geral. Além disso, algumas das funções
mais importantes da administração central da Associação Geral
são agora desempenhadas por pessoas de partes do mundo que até
algum tempo atrás dependiam exclusivamente da liderança norte-
americana e européia.
Esse tipo de internacionalização é um clamor distante oriundo
da mentalidade “missionária” amplamente defendida nas décadas
de 1950 e 1960. Acompanhando a nacionalização da liderança,
houve um crescimento sem precedentes em quase todas as áreas
do adventismo mundial. Assim, um segundo aspecto da interna-
cionalização da denominação foi o rápido aumento no número to-
tal de adeptos. A Tabela 2 fornece o número de membros para ca-
da Divisão mundial em 1o de janeiro de 1999.

Tabela 2 – Número de Adventistas em cada Divisão


Mundial em 1o de Janeiro de 1999

Número de Número de
Divisão Divisão
Adventistas Adventistas

África-Oceano Índico 1.297.398 Sul-Americana 1.581.227

África Oriental 1.710.862 Sul do Pacífico 317.560

Euro-Africana 498.721 Sul-Asiática 290.209

Euro-Asiática 131.445 Pacífico Sul-Asiático 1.038.190

Inter-Americana 1.817.431 Trans-Européia 85.847

Norte-Americana 891.176 Territórios Especiais 75.393

Pacífico Norte-Asiático 427.955 TOTAL 10.163.414


141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 147

OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 147

Outro aspecto da crescente internacionalização denominacional


é a reciprocidade no envio de “missionários” entre as Divisões. En-
quanto em anos atrás ser missionário significava ser remetido como
europeu ou norte-americano a países não-cristãos ou não-protestan-
tes que podiam ser bastante primitivos, na virada do século vinte e
um ser missionário implica trabalhar em outro país que não o país
natal. Assim, África, Ásia, Índia e América Latina enviam “missioná-
rios” à Europa e aos Estados Unidos, e até mesmo entre eles. Natu-
ralmente, os europeus, os australianos, os britânicos e os norte-ame-
ricanos continuam a trabalhar em outras nações, embora isso seja
mais uma via de mão dupla do que costumava ser.
“De todo lugar para todo lugar” tornou-se uma expressão familiar na
terminologia missionária adventista. Visto que a igreja de hoje encara
sua missão em termos globais e que pessoas de qualquer parte do mun-
do trabalham em outros países, o termo obreiro interdivisão é mais
apropriado para descrever pessoas que trabalham para a igreja em áreas
não pertencentes à sua nação de origem do que a palavra missionário.
Talvez a maneira mais impressionante de demonstrar a internacio-
nalização do adventismo seja por intermédio do gráfico a seguir. A Fi-
gura 2 demonstra que aquilo que, no passado, era apenas uma religião
norte-americana tornou-se um movimento mundial com somente
uma pequena fração de seus membros na Divisão Norte-Americana.

Figura 2: Distribuição dos Membros ASD


em Relação à América do Norte
100
90
80
Percentual

70
60
Norte-americano %
50 Fora da América do Norte %
40
30
20
10
0
1863 1870 1880 1890 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 148

148 UMA IGREJA MUNDIAL

Uma quarta indicação da maturidade denominacional é o cres-


cimento numérico. Em 1998 a igreja passou da marca dos 10 mi-
lhões de membros. Até 31 de dezembro de 1997, a igreja empre-
gou 153.617 pessoas nos setores de evangelismo e instituições; e
mais de 1,5 bilhão de dólares de dízimos e ofertas sustentaram a
obra da igreja em 1997. Essa cifra não inclui os recursos captados
pelas instituições da denominação.
Conforme indicado anteriormente, os adventistas do sétimo dia ins-
talam suas instituições sempre que chegam numa nova parte do mun-
do. Em 1998, a igreja tinha 162 hospitais e sanatórios, 127 asilos para
idosos e orfanatos, e 361 clínicas e dispensários. Possuía ainda 90 esco-
las de ensino superior e universidades, 1.014 escolas de ensino médio e
4.450 escolas de ensino fundamental. O total de matrículas para todos
os níveis foi de 996.249. A igreja também possuía e operava 57 editoras.
O adventismo não somente cresceu além dos sonhos mais absur-
dos dos seus fundadores, na década de 1840, mas continua a ser uma
das corporações cristãs que se expandem mais rapidamente. A Figura
3 indica a curva de crescimento da denominação entre 1863 e 1998.
Tomando-se por base esses números, é provável que o adventismo ve-
nha a ter mais de 20 milhões de membros por volta do ano 2010.

Figura 3: Curva de Crescimento da Igreja ASD entre


1863 e 1998 (número de membros em milhões)
10M
9M
8M
7M
6M
5M
4M
3M
2M
1M
0
1863 1870 1880 1890 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 1998
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 149

OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 149

Missão Com Propósito Consciente

Vimos nos capítulos anteriores que os primeiros adventistas


eram tudo menos missionários entusiasmados. Tendo começado
com uma filosofia antimissionária, permitiram depois, passiva-
mente, que a direção de seu desenvolvimento missionário seguis-
se a indicação dos que, em outros países, leram as publicações ad-
ventistas e depois solicitaram a visita de representantes da igreja.
Em outras palavras, eles não contavam com nenhum plano deli-
berado para evangelizar o mundo de maneira sistemática.
Isso começou a mudar na década de 1890 e na primeira meta-
de do século vinte, mas a maior mudança em direção ao propósi-
to consciente aconteceu quando o Departamento de Missão Mun-
dial e o Instituto Adventista do Sétimo Dia da Missão Mundial fo-
ram, em 1966, integrados ao Seminário Teológico da Universida-
de Andrews. O Departamento dá aulas sobre missão, enquanto o
Instituto prepara homens e mulheres para o serviço transcultural,
realizando periodicamente sessões especiais para novos missioná-
rios designados. Outras funções do Instituto incluem pesquisas e
publicações de aspectos bastante diferentes da missão e do cresci-
mento da igreja, serviços de consultoria sobre expansão missioná-
ria e planejamento e realização de seminários e oficinas sobre
missão e crescimento transcultural.
Uma das conseqüências mais notórias da intensificada cons-
cientização da necessidade de fazer planos sistemáticos para a
missão mundial ocorreu quando a assembléia da Associação Geral
de 1990 lançou a Missão Global. A Missão Global assinala uma al-
teração consciente na missiologia adventista, quando a denomi-
nação busca completar sua missão de pregar a tríplice mensagem
angélica “a cada nação, e tribo, e língua, e povo”. O adventismo vi-
nha tradicionalmente medindo seu programa de expansão missio-
nária pela parte do texto que fala de “nações” e “línguas”. Assim
sendo, até o início de 1998, a Igreja Adventista implantou a obra
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 150

150 UMA IGREJA MUNDIAL

em 205 das 230 nações reconhecidas pelas Nações Unidas. Isso pa-
rece bom, já que o número de pessoas que vivem nas pequenas na-
ções não-alcançadas equivalem a apenas 117.280.000 para uma
população mundial de mais de 6 bilhões.
O número de línguas que serve como forma de expressão para
o evangelismo adventista também é impressionante. Até 1998 es-
se número era de 272 para material escrito e 748 tanto para a co-
municação escrita como oral.
A Missão Global, contudo, redirecionou os olhares dessas con-
fortáveis estatísticas para uma nova maneira de encarar a respon-
sabilidade missionária da denominação. Em vez de focalizar as na-
ções, a Missão Global coloca a atenção no fato de que a mensagem
adventista deve ir a “cada tribo, e língua, e povo”. Essa abordagem
é muito menos confortadora.
Pesquisas indicam que, até o ano de 1990, nosso planeta com-
portava aproximadamente 5 mil agrupamentos etnolingüísticos
ou populacionais de 1 milhão de pessoas cada. Os adventistas ti-
nham pelo menos uma igreja em cerca de 3.200 desses grupos. Is-
so deixava de fora quase 1.800 grupos em que a denominação não
estava presente. Esses 1.800 agrupamentos representavam mais
de 2 bilhões de pessoas.
Ao encarar a realidade, o adventismo sentiu-se impelido a abrir
os olhos para a magnitude da tarefa que pairava à sua frente. Viu-se
forçado a pensar nas tarefas denominacionais em termos das áreas
mais difíceis a serem alcançadas, e não apenas das mais receptivas.
O objetivo da campanha Missão Global, instituída em 1990, era
“estabelecer a presença adventista em cada um dos 1.800 grupos
intactos de 1 milhão de pessoas antes do ano 2000. Isso significa
fundar pelo menos uma nova igreja por dia nessas áreas não-al-
cançadas durante os próximos 10 anos!” (Encarte “Global Mis-
sion”, na Adventist Review, de 5 de julho de 1990, pág. 3).
De fato, até mesmo esse alvo não passava de um ponto de par-
tida, visto que conquistamos pessoas para Cristo individualmente
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OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 151

e não coletivamente. Por outro lado, representava um começo.


Quase uma década depois do início da Missão Global, os resulta-
dos se mostraram satisfatórios. Embora a campanha não tenha al-
cançado seu impressionante alvo, as melhores estimativas indi-
cam que a proporção de grupos não alcançados baixou para a me-
tade. E, além dessas estimativas, podemos dizer algo com certeza:
a partir de 1990 o adventismo passou a executar sua missão mun-
dial de forma mais coordenada.
A denominação está preocupada não apenas com a evangeliza-
ção, mas também com o imperativo de Cristo de alimentar os fa-
mintos e ajudar os doentes. Sendo assim, ela patrocina programas
humanitários como a Agência Adventista de Desenvolvimento e
Recursos Assistenciais (ADRA). Funcionando em escala mundial,
a ADRA ajuda pessoas e comunidades a suprir as necessidades bá-
sicas da vida, capacitando-as a tornar-se mais independentes eco-
nomicamente. Ainda na década de 1960, a igreja desenvolveu um
programa chamado Plano Para Deixar de Fumar em Cinco Dias
(mais recentemente chamado Respire Livremente) a fim de ajudar
as pessoas a parar de fumar.
Esses projetos humanitários não estão divorciados do evange-
lismo em seu sentido mais estrito. Muitas vezes, as atividades hu-
manitárias da denominação atuam como uma cunha para o evan-
gelismo adventista, visto que as pessoas são mais receptivas aos
que se interessam por elas.
A Missão Global tem utilizado muitos expedientes, tanto dire-
tos como indiretos, para alcançar seus objetivos. Um deles é a
constante expansão da Rádio Mundial Adventista, num esforço pa-
ra abarcar toda a Terra com a mensagem dos três anjos. Aliado a
esse esforço, a última parte da década de 1990 viu a denominação
utilizar a tecnologia da Internet para propagar sua mensagem e
desenvolver um sistema de comunicação de televisão por satélite
que alcança todo o mundo. Foi assim que, em 1998, a denomina-
ção conseguiu, simultaneamente, alcançar milhares de congrega-
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 152

152 UMA IGREJA MUNDIAL

ções locais em todos os continentes. Essa tecnologia forneceu a


base para programas de expansão evangelística como a NET 98,
transmitida em mais de 40 línguas e a mais de 100 países duran-
te outubro e novembro de 1998.
O colapso da cortina de ferro também contribuiu para a expan-
são adventista no início dos anos 1990. Aproveitando a oportuni-
dade, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tomou rápidas providên-
cias no sentido de criar um seminário teológico e uma editora na
Rússia. E, durante os primeiros anos da década de 1990, centenas
de ministros e leigos adventistas do sétimo dia realizaram campa-
nhas evangelísticas em diversas partes da antiga União Soviética e
em outras nações da Europa Oriental. No fim da década o núme-
ro de membros da igreja em antigas nações comunistas havia
crescido consideravelmente.
Em geral, esta é uma época emocionante para os adventistas
do sétimo dia. A denominação tem precisamente diante de si seus
maiores desafios. Também enfrenta, como era previsível, algumas
tensões internas.

Desafios que o Adventismo Enfrenta no


Século Vinte e Um

É natural prever algum tipo de desarmonia em qualquer deno-


minação que possua 10 milhões de membros espalhados pelo
mundo. Isso tem ocorrido no adventismo, tanto no passado como
no presente. Duas áreas em que a denominação sofre tensão inter-
na, na virada do século, são a doutrinária e a cultural.
Apesar dos adventistas ao redor do mundo manterem harmo-
nia em suas 27 crenças fundamentais, em alguns lugares conti-
nuam a existir discussões, e até mesmo acaloradas divergências,
sobre temas como a definição da perfeição cristã, a natureza hu-
mana de Cristo durante Sua encarnação, a natureza da justiça pe-
la fé, as formas corretas de adoração, o papel de Ellen White, e cer-
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 153

OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 153

tas questões relacionadas com a interpretação de materiais inspi-


rados. Seria bom se houvesse completa unidade em todos os as-
suntos teológicos, porém esse ideal jamais foi alcançado na histó-
ria do adventismo ou da igreja cristã em seu círculo mais amplo.
Pelo lado positivo, devemos observar que os pontos em que os
adventistas concordam são de mais importância do que aqueles
em que discordam. Além disso, se as diversas facções discutem
suas diferenças no espírito amoroso de Jesus, espera-se que obte-
nham no futuro compreensão teológica cada vez melhor.
A questão cultural que mais provoca dissensão no meio adven-
tista, no alvorecer do século vinte e um, é o nacionalismo. Um dos
maiores desafios do adventismo mundial será ajustar-se, de ma-
neira satisfatória, para um decréscimo da dominação norte-ame-
ricana e européia em face do rápido crescimento das diversas Di-
visões da igreja em partes do mundo menos desenvolvidas.
Outra questão cultural sensível é o papel da mulher no minis-
tério. Vimos no capítulo 5 que as mulheres sempre desempenha-
ram um papel no ministério adventista. Várias delas foram licen-
ciadas como ministras no século dezenove, embora aparentemen-
te nenhuma tenha sido formalmente ordenada, ainda que a as-
sembléia da Associação Geral de 1881 pareça ter considerado essa
possibilidade de maneira favorável.
A questão da ordenação ficou um tanto adormecida até as dé-
cadas de 1970 e 1980, quando maior número de mulheres come-
çou a trabalhar como pastoras de congregações adventistas. Des-
de essa época a igreja tem enfrentado crescente discussão sobre o
assunto, despertando fortes sentimentos em ambos os lados da
questão. O passo mais importante foi dado na década de 1980
quando muitas congregações nos Estados Unidos e em outros lu-
gares começaram a ordenar mulheres como anciãs. Essa década
também viu algumas pastoras batizando novos membros.
Por outro lado, durante os anos 1980, a denominação apenas “es-
tudou”, mas com profundidade, a questão da ordenação de mulhe-
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 154

154 UMA IGREJA MUNDIAL

res como ministras do evangelho com plenos poderes. O voto majo-


ritário foi contra a idéia, com os lados tendendo para a formação de
barreiras culturais. A maioria dos delegados dos Estados Unidos e da
Europa Ocidental foi favorável à ordenação, mas o poderoso eleito-
rado que representa as Divisões denominacionais africanas e latino-
americanas opuseram-se de forma preponderante a essa moção.
A assembléia de 1990, contudo, aprovou efetivamente o direi-
to de mulheres ministras “selecionadas” realizarem cerimônias de
casamento. Foi assim que, em 1990, as pastoras adventistas ga-
nharam, pelo menos na teoria, o direito de executar todas as fun-
ções essenciais do ministro ordenado, mas sem serem ordenadas
ao ministério evangélico.
Apesar do voto de 1990, a questão da ordenação pareceu estar
longe de ser solucionada na mente de muitos. Ela veio à tona no-
vamente na assembléia da Associação Geral de 1995, quando a Di-
visão Norte-Americana solicitou que fosse permitido às Divisões,
que assim o desejassem, ordenarem mulheres como ministras do
evangelho para trabalhar nessas respectivas Divisões. A igreja
mundial votou contra a petição.
Como ocorreu com outras questões como escravidão e direitos
civis, é provável que a ordenação de mulheres não desapareça por
si mesma, não importa quantas vezes ela venha à votação. Subja-
cente a essa questão sensível, acham-se pesadas questões com as
quais a igreja ainda tem que se ocupar. O que significa, por exem-
plo, ser uma igreja mundial? Isso exige que todas as partes da
igreja devam pautar-se pelo mesmo conjunto de normas cultu-
rais, ou há possibilidade de contextualização à medida que a igre-
ja aplica os intemporais princípios do cristianismo a culturas e
modos de pensar extremamente diferentes? As implicações da ver-
dadeira internacionalização apresentam, pois, diversas facetas
com as quais ainda não lidamos seriamente.
Além das tensões doutrinárias e culturais, o adventismo en-
frenta, no início do século vinte e um, o problema de uma estrutu-
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OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 155

ra organizacional que precisa ser revisada para atender necessida-


des, possibilidades e desafios sequer imaginados na época da reor-
ganização de 1901/1903. Não apenas saltam aos olhos os sinais de
que a estrutura organizacional da denominação precisa ser ajusta-
da, mas também o questionamento de alguns (principalmente na
América do Norte) a respeito da estrutura hierárquica do adventis-
mo e da implantação de um sistema de governo congregacional.
Por outro lado, muitos acham que o meio-termo entre os dois ex-
tremos parece ser a atitude mais saudável. Defendem uma estrutu-
ra organizacional eficiente que aproveite o melhor tanto da inicia-
tiva da igreja local como da capacidade de concentração de ener-
gias de uma igreja global unificada que trabalha continuamente
voltada para a missão mundial do adventismo.
Além das tensões a respeito da estrutura da igreja, todos os mo-
vimentos religiosos lutam contra a tentação de membros e institu-
tições se secularizarem. Por conseguinte, as questões mais impor-
tantes na agenda adventista atual são a renovação e a reforma em di-
versos níveis. No entanto, como aconteceu entre 1861 a 1863 e 1901
a 1903, as iniciativas de renovação e reforma devem ter como alvo
capacitar a denominação a tornar-se mais funcional em sua missão
de transmitir a todo o mundo a tríplice mensagem angélica.
Um outro tema de preocupação para muitos adventistas na vi-
rada do novo século é a demora do Segundo Advento. Alguns, em
sua consternação, tentam acusar outros (muitas vezes os líderes)
pelo fato de Cristo ainda não ter vindo. Outros membros parecem
embalados na indiferença, enquanto outros ainda querem revisar
ou rejeitar a maneira como a denominação entende a profecia apo-
calíptica. Talvez o problema mais comum a ser enfrentado por
muitos adventistas na área da Segunda Vinda é a tendência de ser
atraído para o sensacionalismo. A busca de excitamento está mui-
to mais afinada ao gosto deles do que a admoestação de Jesus para
vigiar, aguardar e trabalhar fielmente pelo reino (ver Mat. 24:36-
25:46). A igreja do século vinte e um precisa, a exemplo dos pri-
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156 UMA IGREJA MUNDIAL

meiros discípulos, contender com o que Cristo quis dizer quando


recomendou: “Ocupai-vos até que Eu venha” (Lucas 19:13). Desen-
volver uma crença que equilibre a fé no Advento com uma “ocupa-
ção” saudável será o constante desafio até a Volta de Jesus.

Infinitas Possibilidades

No adventismo atual podemos, como membros individuais, es-


colher concentrar-nos nos problemas ou nas possibilidades da
igreja. Nessa situação não somos diferentes de nossos antecesso-
res que viveram nas décadas de 1840, 1880, 1950 – ou nos tempos
bíblicos, no tocante a essa questão.
Evidentemente, se Tiago White, José Bates, A. G. Daniells e ou-
tros não tivessem feito outra coisa senão concentrar-se nos pro-
blemas, hoje não haveria Igreja Adventista do Sétimo Dia. Embo-
ra seja importante enfrentar os problemas de maneira responsá-
vel, é igualmente importante que o façamos de modo positivo e
construtivo: de uma forma que expresse a fé e a esperança de Moi-
sés, Paulo, Lutero e os fundadores adventistas.
Gostaria de sugerir, ao nos aproximarmos da conclusão desta
breve história, que cada um de nós penetre na corrente dessa his-
tória. A história é muito mais do que algo que aconteceu muito
tempo atrás; é uma realidade atual, e cada um de nós é participan-
te de seu fluxo contínuo. Diariamente, cada um emite um voto e
desempenha seu papel em um drama contínuo.
O ponto de vista cristão a respeito da História não é circular,
mas linear. A história terrestre teve um começo na Criação e terá
um fim por ocasião da volta de Cristo. Tudo na Bíblia aponta para
esse fim. Os adventistas crêem coerentemente que têm um papel
especial a desempenhar nesse cenário, quando os membros da de-
nominação pregam a mensagem dos três anjos de Apocalipse 14 a
“cada nação, e tribo, e língua, e povo”. Imediatamente após a pre-
gação dessas mensagens apocalípticas, vem a “colheita” que tem
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OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE MATURIDADE 157

motivado o adventismo do sétimo dia por mais de 150 anos. O ad-


ventismo sempre foi um movimento de fé e esperança, com uma
visão de infinitas possibilidades.
É essa visão que continua a levar a mensagem do advento aos
mais longínquos recantos da Terra. Como membros individuais,
cada um de nós tem um vibrante papel a desempenhar na “finali-
zação da obra”, enquanto “vivemos esperando e trabalhando em
prol da vinda do Dia de Deus” (2 Pedro 3:1, Phillips).
Ao continuarmos realizando as constantes tarefas da Igreja Ad-
ventista, é útil relembrar muitas vezes as palavras de Ellen White,
quando escreveu: “Ao recapitular a nossa história passada, . . . pos-
so dizer: Louvado seja Deus! Quando vejo o que Deus tem execu-
tado, encho-me de admiração e de confiança na liderança de
Cristo. Nada temos que recear quanto ao futuro, a menos que es-
queçamos a maneira como o Senhor nos tem guiado, e os ensi-
nos que nos ministrou no passado” (LS, pág. 196).

Para Leitura Adicional

Dybdahl, Jon L. Adventist Mission in the Twenty-first Century:


The Joys of Presenting Jesus to a Diverse World (A Missão Adventis-
ta no Século Vinte e Um: A Alegria de Apresentar Jesus a Um Mun-
do Diversificado). Hagerstown, Md.: Review and Herald, 1999.
Johnsson, William G. The Fragmenting of Adventism: Ten Is-
sues Facing the Church Today: Why the Next Five Years Are Cru-
cial (A Fragmentação do Adventismo: Dez Questões Enfrentadas
Pela Igreja Hoje: Por Que os Próximos Cinco Anos Serão Decisi-
vos). Boise, Idaho: Pacific Press, 1995.
Knight, George R. The Fat Lady and the Kingdom (A Senhora
Gorda e o Reino). Págs. 15-53, 129-166.
______, Reading Ellen White: How to Understand and Apply
Her Writings (Lendo Ellen White: Como Entender e Aplicar Seus
Escritos). Hagerstown, Md.: Review and Herald, 1997.
141-160\Cap. 8 22.12.13 15:25 Page 158

158 UMA IGREJA MUNDIAL

Land, Gary, ed. Adventism in America (O Adventismo na Amé-


rica do Norte). Págs. 144-146, 151-154, 171-190.
Schwarz, Richard W. Light Bearers to the Remnant (Portado-
res de Luz ao Remanescente). Págs. 333-629.
Vyhmeister, Nancy, ed. Women in Ministry (Mulheres no Mi-
nistério). Págs. 235-258, 417-432.
Weeks, Howard B. Adventist Evangelism in the Twentieth Cen-
tury (Evangelismo Adventista no Século Vinte). Págs. 246-309.
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Livros de George R. Knight Sobre Ellen White


Meeting Ellen White (Conhecendo Ellen White)
Reading Ellen White (Lendo Ellen White)
Ellen White’s World (O Mundo de Ellen White)
Walking With Ellen White (Andando Com Ellen White)

Outros Livros de George R. Knight


Early Adventist Educators (Primeiros Educadores Adventis-
tas), Andrews University Press
The Fat Lady and the Kingdom (A Senhora Gorda e o Reino),
Pacific Press
I Used to Be Perfect (Eu Costumava Ser Perfeito), Pacific Press
Matthew: The Gospel of the Kingdom (Mateus: O Evangelho do
Reino), Pacific Press
Millenial Fever and the End of the World (A Febre Milenista e
o Fim do Mundo), Pacific Press
Myths in Adventism (Mitos no Adventismo)
The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness (O Guia do Fariseu
Para a Perfeita Santidade), Pacific Press
A User-friendly Guide to the 1888 Message (Guia Amigável Pa-
ra a Mensagem de 1888)
Walking With Jesus on the Mount of Blessing (Andando Com
Jesus no Monte das Bem-Aventuranças)

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George R. Knight
22 de outubro de 1844. Chegara o grande
dia, anunciado por Guilherme Miller.
Uma multidão de crentes esperou o retorno de
Breve História dos
Cristo até a meia-noite. E então choraram até
o dia amanhecer. Cristo não voltara! Adventistas do Sétimo Dia
Depois desse amargo desapontamento, o
movimento se dispersou. Mas para um pequeno
grupo isto não foi o fim. Foi apenas o começo.
Uma Igreja Mundial é a fascinante história
desses poucos fiéis que não abandonaram a fé
e, ao entenderem sua missão, assumiram a
responsabilidade de transmitir ao mundo a
verdade para este tempo.
O historiador George R. Knight, nesta obra,
conduz seus leitores, passo a passo, através das
várias fases de desenvolvimento da Igreja

UMA IGREJA MUNDIAL


Adventista do Sétimo Dia, desde sua fundação
até se tornar, em nossos dias, Uma Igreja
Mundial.
Leitura agradável e informativa, que certamente
será apreciada por todos.

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