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Capa - Expediente - Sumário - Autor 1

JJ Domingos

DISCURSO, PODER E SUBJETIVAÇÃO


Uma discussão foucaultiana

João Pessoa - 2015


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DISCURSO, PODER E SUBJETIVAÇÃO
Uma discussão foucaultiana

JJ Domingos

Série Veredas, 11
3a edição - 2015

D671d Domingos, JJ

Discurso, poder e subjetivação: uma discussão


foucaultiana. 3a edição / JJ Domingos. - João Pessoa:
Marca de Fantasia, 2015.
89p.: il (Série Veredas, 11)
ISBN 978-85-67732-26-8
1. Linguística. 2. Discurso. 3. Subjetivação.
I. Título
CDU:81

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Marca de Fantasia
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A editora Marca de Fantasia é uma atividade da Associação


Marca de Fantasia e um projeto de extensão do Programa
de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB

Diretor/editor: Henrique Magalhães

Conselho Editorial:
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Edgar Franco - Pós-Graduação em Cultura Visual, UFG
Marcos Nicolau - Pós-Graduação em Comunicação, UFPB
Nílton Milanez, Pós-Graduação em Linguística, UESB
Paulo Ramos - Pós-Graduação em Letras, UNIFESP
Roberto Elísio dos Santos - Pós-Graduação em Comunicação, USCS/SP
Waldomiro Vergueiro - Pós-Graduação em Comunicação, USP
Wellington Pereira - Pós-Graduação em Comunicação, UFPB

Esta é uma obra exclusivamente de análise, que pretende contribuir


para a discussão acadêmica. O uso das imagens é feito
apenas para estudo, de acordo com o artigo 46 da lei 9610.
Todos os direitos das imagens pertencem a seus detentores.

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Aos discursos sobre o sexo não há que perguntar,
antes de tudo, de que teoria implícita eles
derivam, ou que divisões morais acompanham,
ou que ideologia – dominante ou dominada –
representam; mas é preciso interrogá-los nos dois
níveis de sua produtividade tática (que efeitos
recíprocos de poder e de saber eles asseguram) e
de sua integração estratégica (que conjuntura e que
relação de força torna a utilização deles necessária
em tal ou em tal episódio dos enfrentamentos
diversos que acontecem.

Michel Foucault

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Sumário

Palavras introdutórias 7
1. Poder e discurso – a contribuição de Michel Foucault 17
2. A subjetivação como processo de constituição
do sujeito 32
3. Do dispositivo da sexualidade: a produção
do sujeito do desejo 41
4. A prática da homossexualidade
como modo de vida 52
5. O queer é isso? 67
6. Outras palavras 77
Referências 82

Sobre o autor 88

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Palavras introdutórias

E ste livro é uma parte da minha dissertação de mestrado


defendida no Programa de Pós- Graduação em Linguís-
tica – PROLING – da Universidade Federal da Paraíba. A
ideia da pesquisa se torna concreta dentro das articulações
da Linguística com outras áreas do saber e da linguagem
com a história. Para tanto, tomou-se o discurso – enquanto
instrumento que sustenta práticas - como objeto media-
dor entre a sistematicidade e as representações sociais da
linguagem. Foucault, especialmente em A arqueologia do
saber (2008), teorizando sobre a linguagem e o discurso
vinculou este último aos processos históricos exteriores à
língua. Enquanto conjunto de enunciados, o discurso, nes-
te sentido, não repousaria numa aparente clarividência dos
sentidos; estaria além de um jogo de signos linguísticos.
Esta direção de pensamento sobre o discurso e a linguagem
orientou toda a pesquisa.
A partir desta perspectiva, o objeto de estudo da pesquisa
foram os modos de subjetivação discursivisados em perfis de
homoafetivos, que se denominam ursos, filiados a sites de
relacionamento dirigidos a este grupo. Atentando para o sig-

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nificado e a relevância desse material para os estudos da lin-
guagem, ao mesmo foi dado um enfoque sócio-histórico de
cunho qualitativo, a fim de se privilegiar a compreensão e a
interpretação do objeto. Por tratar-se de um objeto (no caso,
o discurso dos ursos) inscrito em condições sócio-históricas
específicas, viu-se a necessidade de focalizá-lo teoricamente
considerando a relação entre a linguagem e a história.
Considerando esse diálogo entre os diferentes campos
epistemológicos e uma acepção de linguagem pensada en-
quanto prática social e histórica, tratar de sujeitos homos-
sexuais no interior da Linguística é revelar as múltiplas ex-
pressões por que pode ser tomada a linguagem, sem se dei-
xar fechar em supostos sentidos essencializados ou verda-
des absolutas. É acessar o universo da cultura homoafetiva
sem encerrá-la no interior de uma determinada episteme
ou em algum pensamento comum moralizador. Seria mais
especificamente, tratá-lo como pensou Bourdieu (2002):
“O movimento homossexual, tacitamente, por sua existên-
cia e ação simbólica, e explicitamente, pelo discurso e pe-
las teorias que produz ou faz surgir, levanta uma série de
questões que estão entre as mais importantes das ciências
sociais e, em alguns casos, são inteiramente novas.”
Desde o século XIX, quando a homossexualidade pas-
sou a ser discursivisada pelas ciências médicas e psiquiá-

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tricas até os dias correntes, tem se multiplicado os modos
de se expressar o desejo homossexual masculino. Há neste
ponto, uma aproximação do pensamento de Michel Fou-
cault acerca da homossexualidade. Para ele (1984), a con-
dição gay se configurava menos numa liberação do prazer
sexual dos domínios da repressão e da proibição do que a
invenção de modalidades de prazer, de relações eróticas,
de amizades, de vínculos polimorfos entre os corpos.
Este modo de vida caleidoscópico como têm se mos-
trado as subjetividades homoafetivas ganhou evidência no
campo dos estudos culturais nesses tempos de pós-moder-
nidade. Há na mídia e em outros territórios de socialidade,
uma profusão de arquétipos de subjetividades sendo a todo
momento apropriados e ou ressignificados pelo sujeito do
desejo homoafetivo. De acordo com a I Conferência Nacio-
nal de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e
Transgêneros realizada em junho de 2008 em Brasília, a
sigla que representa o movimento da diversidade sexual no
Brasil é a LGBTTT (após discussão levantada para mudar a
ordem das letras, antes GLBTTT). Haveria na inversão do
G-L da sigla uma luta feminista por uma maior visibilidade
das lésbicas no interior do movimento? O fato é que como
esclarece a revista DOM (ed.05, 2008), se o movimento in-
cluísse todas as orientações sexuais e de identidade de gê-

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nero que existem, a sigla se tornaria uma verdadeira “sopa
de letrinhas”. Essa diversidade sexual é representada numa
sigla que acaba sendo incompreensível para as pessoas me-
nos inteiradas com o assunto; haja vista tantos “Ts”, donde
já se usa apenas LGBTs.
Em função desses diversos perfis e recortes identitá-
rios, fala-se atualmente em homossexualidades. Parece
fundamental desconstruir a ideia de aparente homogenei-
dade que existe acerca daquilo que generalizadamente se
convencionou por homossexualidade e aceitá-la como um
universo no qual os sujeitos possuem atitudes, aspirações,
linguagem corporal e modos de ser e de viver distintos uns
dos outros. São as tecnicamente denominadas de subcultu-
ras, que apesar da nomenclatura, não devem ser tomadas
como inferior, mas como uma extensão da cultura maior
(FERREIRA, 2007). É importante ressaltar também o ine-
vitável efeito minimizador no próprio movimento homos-
sexual decorrente de práticas que fragmentam tal cultura.
Em face das transformações sociais e culturais ora viven-
ciadas, as formas como a sexualidade tem sido encarada e
experimentada tem-se transformado também. No que diz
respeito aos homoafetivos, estas transformações têm sido
mais observáveis. A visibilidade obtida pelos homossexuais
nas últimas décadas trouxe consigo um conjunto de fatores

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que levou a uma transformação no modo de tratar a homos-
sexualidade. Nesse sentido, pode-se pensar desde as con-
quistas de direitos políticos até a liberdade de expressar-se
do modo mais diverso sua condição de homoafetivo.
Em concordância com esse contexto histórico-cultural
mais permissivo às práticas da homoafetividade, este livro,
apoiado nas teses de Michel Foucault, vem discutir como a
história do Ocidente, descontinuamente, produziu discur-
sos que têm servido de âncora para a criação de diferen-
tes subjetividades baseadas na sexualidade. O pensamen-
to foucaultiano de que a história trabalha com múltiplas
temporalidades vem nos mostrar que a velha inquietação
psicológica em torno do “quem somos nós?” pouco ou nada
tem de produtivo (aqui nos voltamos especialmente para a
questão da homossexualidade), pois o que se entende hoje
por homossexual é tão somente uma construção discursiva
e histórica que não tem, nem nunca teve, algo que fosse
uma essência, um destino natural.
Seguindo esse raciocínio, a primeira seção deste
livro vem expondo uma discussão sobre o sujeito
e o discurso na perspectiva de Michel Foucault.
Escreveu o filósofo francês (2008, p.105): “Um único e
mesmo indivíduo pode ocupar, alternadamente, em uma
série de enunciados, diferentes posições e assumir o papel

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de diferentes sujeitos”. Convém aqui retomar a questão de
Gregolin posta em seu texto sobre o discurso e a produção
de identidades na mídia (2007): “de que maneira o sujeito
marca sua presença ao mobilizar as formas materiais na
produção discursiva? Como, nas formas, se constituem os
lugares e as posições dos sujeitos?”
Foucault concordava que, se o sujeito não ocupa uma
posição una no discurso, essas posições-sujeito (que culmi-
nam em processos de subjetivação/identificação do sujei-
to) existem sob a forma da “dispersão”. É nesse ponto que
sua teoria do discurso cinge sujeito e a História. Este (o
discurso) depende de um campo associativo, de uma me-
mória para coexistir com outros enunciados em um mesmo
espaço historicamente dado. Assim, o sujeito não está na
origem do seu discurso: é o discurso que determina o que o
sujeito deve falar; logo o sujeito não preexiste ao discurso,
ele é uma construção no discurso, sendo este um feixe de
relações que irá determinar o que dizer, quando e de que
modo (NAVARRO-BARBOSA, 2004, p. 113).
No que toca ao quando e como dizer dos discursos, em
A ordem do discurso (2008b) Foucault determina o sujeito
à ordem do poder: o mesmo sujeito que pode vir a se mar-
car em diferentes posições, só o faz a partir de um siste-
ma de interdição, em procedimentos que criam um jogo de

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fronteiras, limites que tentam controlar o que o sujeito diz
socialmente. No texto de As palavras e as coisas (2000),
o filho ilustre de Poitiers faz perceber melhor essa articu-
lação do sujeito com a História. Ali, o autor mostra como
o sujeito utópico, ser pensante, desenhado pela mente qui-
mérica do Iluminismo é um sujeito datado e cujo fim é ine-
vitável. Modernamente não existe um sujeito que conhece,
mas que pode ser conhecido, pelo que faz e pelo que diz.
Essa circunscrição do sujeito à História permitiu-se
com desenvolvimento desse trabalho de pesquisa compre-
ender a ideia de um sujeito homossexual atualmente. Em
que medida o discurso desse sujeito tem determinado sua
posição ou condição ao longo da história? Considerando a
abordagem feita por Edward Macrea (1990), “de que não
faz sentido pensar em uma essência comum a todos os su-
jeitos que são rotulados como homossexuais e que possa
servir para diferenciá-los daqueles socialmente considera-
dos como heterossexuais”, é possível ter uma interpretação
de como funciona o sistema de interdição que seleciona os
discursos homoafetivos, bem como das práticas discursi-
vas que os particularizam.
Pensando ainda o sujeito como uma figura discursiva his-
toricamente engendrada, Gregolin (2007) mostra como em O
que é um autor? - texto de três anos após As palavras e as coi-

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sas - Foucault trata do efeito-autoria como uma instalação no
discurso, da evidência de um sujeito submetido às múltiplas
determinações que organizam o espaço social da produção
dos sentidos. Assim, para todos os exemplos acima referenda-
dos, o sujeito é um acontecimento histórico que obedece à lei
do acaso, é apenas uma posição ocupada por quem enuncia
algo em determinado lugar, sendo assim, ele é suscetível às
transformações discursivas que possibilitam novas regras de
enunciação. E, tais transformações, não dependem exclusiva-
mente de um único sujeito. Assim, o homem só existe através
da história e não como origem da história.
Para demonstrar a ideia de Foucault do sujeito discur-
sivo como um acontecimento histórico, pode-se pensar,
por exemplo, quando no século XIX a sexualidade passou a
compor o que este autor chamou de estatização do biológi-
co, ou seja, enquanto comportamento, a sexualidade depen-
dia de um controle disciplinar individualizante, em forma
de vigilância permanente; afinal nenhum outro dispositivo
situava-se tão bem entre o corpo e a população, principais
lugares de atuação do poder disciplinar. Como foi possível
controlar a sexualidade dos indivíduos? Discursivisando-a:
uma vez posta a sexualidade em discurso (que implica prá-
ticas), diferentes sujeitos passaram a existir e a falar de de-
terminadas posições a partir da sexualidade:

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[...] a idéia médica segundo a qual a sexualidade,
quando é indisciplinada e irregular, tem sempre
duas ordens de efeitos: um sobre o corpo, sobre o
corpo indisciplinado que é imediatamente punido
por todas as doenças sexuais que o devasso sexual
atrai sobre si. Mas ao mesmo tempo, uma sexualida-
de devassa, pervertida, etc. tem efeitos no plano da
população, uma vez que se supõe que aquele que foi
devasso sexualmente tem uma hereditariedade,uma
descendência que, ela também, vai ser perturbada, e
isso durante gerações e gerações, na sétima geração,
na sétima da sétima. (FOUCAULT, 1999, p. 301)

Em nenhum momento essa discussão sobre o sujeito


deve perder de vista a questão do poder que lhe é intrínseca.
Dentro das relações de poder, na seção dois é mostrado
como a subjetivação pela sexualidade caracteriza-
se como um processo de constituição do sujeito. Na
sequência do que precede, nossa leitura vai mostrar como o
intenso desenvolvimento de discursos e práticas para a se-
xualidade ocidental fizeram desta um extraordinário apa-
rato de dominação dos corpos e dos desejos.
Na seção quatro, parte-se da ideia da sexua-
lidade como um dispositivo no interior do qual a
homossexualidade é perscrutada, para reafirmá-la
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(foucaultianamente) como modo de vida. Como tal, a ho-
mossexualidade tem um aspecto altamente transformador
quando abre para uma multiplicidade de relações. Este
pensamento vai colocar Foucault como referência para os
estudos queers: dentro das questões de gênero, a teoria
queer contrária a qualquer ação normatizadora e classifi-
catória dos sujeitos.
É justamente o modo como Foucault problematiza este
sujeito na sociedade presente que traz à tona a questão das
identificações e das subjetividades que orienta o estudo
que aqui se faz dos modos de subjetivação da homoafeti-
vidade no contexto atual. As teses do filósofo francês são
essenciais, pois como propôs; seu objetivo central era pro-
duzir uma história dos diferentes modos de objetivação/
subjetivação do ser humano em nossa cultura, como o ser
humano é transformado em sujeito (1995). Tomando sua
história da sexualidade onde o sujeito é pensado como po-
sições possíveis de subjetividade, este trabalho interroga
como funcionam as posições da subjetividade homoafetiva
num contexto presente de práticas discursivas e práticas
histórico-sociais.

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1. Poder e discurso – a contribuição de
Michel Foucault

I nicia-se com esta seção uma abordagem das teorizações de


Michel Foucault sobre os conceitos de discurso e de poder.
É seguro que não seria muito condizente à ordem foucaul-
tiana partir de conceitos ou supor-lhes certa estabilidade no
interior de uma pesquisa. Mirando-se nisso, será feita aqui
uma retomada histórica de ambas as categorias procurando
observar seus funcionamentos através de práticas em con-
textos sócio-históricos distintos. Compreende-se que assim
há mais produtividade no tratamento das temáticas.
Já se tornou um gesto habitual àqueles que se debru-
çam sobre a obra de Michel Foucault, estabelecer uma
classificação periódica da mesma a partir dos critérios me-
todológicos por que se decidiu o francês. Segundo os cri-
térios ontológicos de Morey (VEIGA-NETO, 2007), são os
domínios do Ser-saber, Ser-poder e Ser-consigo que para
Foucault são os princípios fundadores do sujeito moderno.
Em nome de um didatismo, tornou-se comum a expressão
Três Foucaults. Dentro dessa sistematização trivial, as no-
ções de discurso e poder, por exemplo, correspondem ao
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primeiro e ao segundo Foucault, respectivamente. Neste
ponto, a tentativa de facilitar a compreensão do trabalho
do filho ilustre de Poitiers não parece ser de todo eficiente,
em vista da não isenção total de um destes temas no inte-
rior do outro. O discurso e o poder em Foucault tocam-se
de forma incontornável, o que torna a questão da periodi-
zação até certo ponto inócua:

[...] tal periodização leva a pensar que cada fase en-


cerre uma teoria e um conjunto de técnicas suficien-
tes e independentes uma da outra – do discurso, do
poder e da subjetivação. Mas, ao invés de separação
entre elas, o que se observa claramente é uma suces-
siva incorporação de uma pela outra, num alarga-
mento de problematizações e respectivas maneiras
de trabalhá-las. (VEIGA-NETO, 2007, P. 38).

Como supunha Foucault (1996), a produção do discurso


em sociedade passa por uma sequência de procedimentos
de controle, seleção, organização e redistribuição a fim de
suavizar sua carga material e dissipar-lhe o perigo de sua
produção. O discurso por si pode não ser assim tão “peri-
goso”, mas frente aos interditos que a ele se lança, logo se
percebe seu vínculo ao desejo e ao poder. Uma questão que
norteou a genealogia do poder empreendida pelo francês

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foi a possibilidade periclitante da multiplicação dos dis-
cursos, o risco de as pessoas falarem. Questão que poderia
ser respondida ao se considerar discursos como um instru-
mento bípolo. Ou nas palavras do filósofo: “o discurso não
é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas
de dominação, mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta,
é o próprio poder de que procuramos assenhorear-nos”.
O poder do discurso de instituir “verdades” leva a se
repensar a relação do homem com a verdade, com o ver-
dadeiro de sua época. Em A ordem do discurso, compre-
ende-se como cada sociedade tem seu regime de verdade.
É um sistema que se funda naqueles tipos de discursos que
funcionam como verdadeiros em detrimento de outros ti-
dos como falsos. Através dos discursos supostamente ver-
dadeiros, constitui-se toda a cultura de uma época. É uma
construção complexa, inclusive paradoxal, pois traz em si
modos de separações e exclusões ao naturalizar determi-
nadas práticas. Inevitável não pensar aqui na história da
cultura do Ocidente com seus discursos morais em torno
da homossexualidade. Mas o sistema histórico de exclusão
dos e pelos discursos é exposto por Michel Foucault muito
anteriormente à questão homossexual no Ocidente: ainda
nos poetas gregos do século VI a.C., o discurso verdadeiro,
pelo qual se tinha respeito e terror, ao qual era necessá-

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rio submeter-se, era ritualizado por quem de direito podia
fazê-lo. Era um discurso que valorizava a justiça, predizia o
futuro e atava o homem ao destino. Já no século seguinte,
a figura do sofista veio à interdição, uma vez que não era
mais importante o ritual da enunciação do discurso, senão
aquilo que o discurso dizia. O verdadeiro deslocou-se do
como para o que.
Esta mudança da lente para ver o verdadeiro levou à
vontade de verdade que se pratica ainda hoje nas culturas
modernas. Esta vontade de verdade foi se ancorando histo-
ricamente numa base institucional, quase sempre de cunho
científico, como a Pedagogia, a Medicina, o Direito. Todos
estes saberes passaram a ocupar o lugar de um dizer verda-
deiro ou de um discurso verdadeiro. A arqueologia foucaul-
tiana vê neste discurso verdadeiro uma interdependência
com o desejo e o poder. É certo que nem sempre esta rela-
ção entre o discurso e o poder é perceptível; ela funciona
pulverizadamente em toda a extensão social como efeitos
de poder1.

1. Na lógica do pensamento classificatório ao trabalho de Michel Fou-


cault descrito no início deste capítulo, esta análise microfísica do poder
caracterizar-se-ia na genealogia de sua obra, seu segundo momento. Tal
fato valida a constatação de uma interseção contínua dessas fases e uma
ampliação das temáticas.

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Para entender a lógica da relação entre os saberes e o
poder, é preciso considerar o fato de que a produção dos
discursos é controlada por uma série de mecanismos de
poder. Tal controle pode ser feito através de princípios que
excluem determinados discursos na sociedade ou que limi-
tam a circulação dos mesmos. A título de exemplo, Fou-
cault considerava neste último caso a disciplina, o autor, o
comentário. Uma vez aceito que os discursos são continu-
amente controlados, esbarra-se na assertiva foucaultiana
que “não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode
falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um,
enfim, não pode falar de qualquer coisa”. Trata-se aqui
daquilo que, em sua estreia como cátedra no Collège de
France, o filho ilustre de Poitiers chamou de a ordem do
discurso, na qual ninguém entrará se não satisfizer certas
exigências, ou se não estiver qualificado para o fazer.
Trazer a lógica da ordem do discurso para nossa vida coti-
diana é algo absolutamente trivial, mas que em dadas conjun-
turas ganha uma visibilidade de proporção tamanha que foge
um pouco à ordem microfísica do poder foucaultiano. Trago-
lhes como fato o episódio dos dois jovens militares do exército
brasileiro que em 2008 vieram a assumir publicamente sua
condição de homossexual. O exército prendeu o sargento Laci
de Araújo por deserção, ao admitir à imprensa ter um relacio-

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namento com um colega de farda.
O caso ganhou repercussão inter-
nacional com o embate entre o ar-
gumento do comando do exército
que acusou o subordinado de ter
postura “inadequada, incoerente,
indisciplinada e duvidosa” e o dos
dois militares que disseram “estar
na mira do comando por terem
feito uma denúncia que aponta
indício de corrupção no hospital
militar”. Além disso, há o fato da
orientação sexual do casal. Época. Ed. 524. Ano 2008

Toda a série de debates que surgiu em torno desse acon-


tecimento era, principalmente, ou tentando apontar uma
postura preconceituosa por parte das forças armadas para
com os homossexuais ou buscando endossá-la com base no
Código Penal Militar brasileiro que em seu artigo 235 deixa
claro: “praticar, ou permitir o militar que com ele se prati-
que ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito
a administração militar” é crime sujeito a detenção de seis
meses a um ano. Havia ainda discursos mais extremados
com enunciados do tipo “o exército não é lugar de veados”.
Sem esquecer do falso moralismo que o Superior Tribunal

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Federal, do alto de sua autoridade suprema deixou emanar
ao dizer que o código não ofende a intimidade dos milita-
res: “ Fora do quartel, não há problema nenhum. Mas lá
dentro pode comprometer a disciplina da tropa”.
Esta declaração do promotor da justiça militar vem
corroborar com o discurso moralizante católico-cristão de
que a igreja não proíbe seus fiéis de serem homossexuais,
desde que se mantenham castos. O mesmo se aplica ao ca-
sal de militares, ou seja, eles podem ser gays e companhei-
ros, mas não no exército. O enunciado na capa da revista
Época chama a atenção para uma suposta inversão nessa
ordem dos fatos: Eles são do exército. Eles são companhei-
ros. Eles são gays. O rigor da disciplina militar como uma
estratégia de poder sobre os corpos e os desejos não é pró-
prio das casernas brasileiras. Mesmo que o atual governo
americano tenha flexibilizado a presença de homossexuais
e bissexuais nas forças armadas, de acordo com a Servi-
cemembers Legal Defense Network, ONG que monitora a
justiça militar americana, desde 2003, cerca de 13.000 mi-
litares foram dispensados das forças armadas dos EUA por
serem gays, lésbicas ou bissexuais.
A discussão que se levanta com um acontecimento dis-
cursivo como esse dos miliares gays é produtiva no sentido
de nos fazer perceber factualmente como o discurso e o po-

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der estão imbricados desde sempre. Mas, e fundamental-
mente, há em todo espaço sócio-histórico um poder-saber
que é da ordem do discursivo. Nessa ordem nem todos
entrarão, mas aqueles que não o fizerem enfrentarão um
poder em suas formas extremas que são o interdito, a recu-
sa, a proibição. Nesse jogo de efeitos de poder e produção
de verdades próprios do discurso está o casal de sargentos
gays, sujeitos que tentam resistir à ordem do discurso.
Perceber o poder diante dessa ordem discursiva, não
significa restringi-lo a um modelo estatizado que juridicia
o cidadão. Este será individualizado por via da norma e da
disciplina tornando-se útil e dócil. Mas essa administração
do corpo do indivíduo pode ter também uma positividade,
como escreve Silva (2004), a partir de Foucault: “as ações
do poder não são negativas, mas positivas [...] faz parte das
disciplinas não só produzirem discursos sobre si próprias,
mas também [...] a produção de subjetividades”.
Partindo dessa microsfera do poder que disciplina e ad-
ministra o corpo individual, Foucault chegou à noção de
biopolítica. Para entendê-la é importante voltar um pouco
na história, quando a vida humana já era um objeto de po-
der; mas de um soberano que detinha o poder de vida e de
morte sobre os indivíduos. Cabia ao soberano fazer viver
ou deixar morrer, parecendo ser vida e morte antinaturais

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(PELBART, 2004). O poder soberano em seu absolutismo
não foi capaz de administrar completamente o corpo e a
consciência dos indivíduos, cabendo-lhes manifestos ges-
tos de resistência. Na ausência da eficiência plena daquele
poder soberano sobre o indivíduo, esta forma de poder vai
deslocar-se para a população (considerar essa transição e
suas implicações à luz dos eventos e contextos históricos
em que ela se dá) de modo contínuo e com uma base cien-
tífica. Não mais aquele poder dramático, negativo que fazia
morrer, mas um poder apenas disciplinador da vida.
O biopoder se reveste de duas formas principais: a dis-
ciplina e a biopolítica. A disciplina é caracterizada pelo
adestramento do corpo; corpo-máquina; gestão da vida in-
cidindo sobre os indivíduos. Enquanto a biopolítica pode
ser caracterizada pela gestão da vida incidindo sobre a
população enquanto espécie e  se dirige ao homem-vivo,
homem-espécie.
Nesse processo disciplinar, o corpo será o suporte para
toda sorte de disciplina. Foucault diz que houve uma socia-
lização do corpo em muito influenciada pelo capitalismo: é
fácil entender se pensar na relação entre a necessidade de
mão de obra hábil para o labor industrial e a urgência de
corpos aptos e socializados pelo consumo em grande es-
cala. Ajuda ainda a entender, se imaginar o surgimento de

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espaços institucionais de disciplina como escolas, fábricas,
igrejas, hospitais, prisões. Todas estas instituições busca-
vam otimizar os corpos, fazê-los produtivos. Dessa forma,
o poder aparecia diluído em muitos pontos, ao contrário do
poder centralizado do soberano.
Foulcaut situa a biopolítica no interior de uma estra-
tégia mais individual. Por outro lado, o Biopoder sucede
o poder da Soberania. A partir de 1974, o filósofo passou a
se preocupar com processos de manutenção da vida, desde
o século XIX, que não se pautavam na disciplina, mas na
regulamentação. O biopoder terá a ciência como respaldo
para regular a vida das sociedades. O corpo então será atra-
vessado por estratégias políticas da Medicina (biopolítica).
A essas estratégias importa o ser vivo, o homem espécie
e seus processos vitais. A biopolítica irá intervir no corpo
físico da população através das diversas ações de poder so-
bre a vida; algumas sutis, outras nem tanto.
Na lógica do raciocínio anterior, considere-se a política
da estética corporal implantada e mantida, com pertinácia
rara, pela Medicina moderna. Há uma hegemonia no dis-
curso médico no sentido de legitimar uma prática quase
compulsória de um cuidado constante com o corpo: é pre-
ciso ser magro, ser jovem, malhar, estar na moda, enfim, ter
uma imagem dentro deste modelo. Tudo isso leva a práticas

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subjetivas inscritas no corpo orgânico da biopolítica. A sexu-
alidade encontra-se no entrecruzamento entre os dois eixos
da tecnologia política da vida, o do indivíduo e da espécie, o
do adestramento dos corpos e a regulação das populações.
Pensar na sexualidade em geral e na homoafetividade
em particular, remete-se logo a atenção ao corpo, pois é
basicamente nele onde se marcam as práticas subjetivas da
homoafetividade. Aqui, deter-
se-á ao modo iconográfico que
do corpo faz uso o discurso esté-
tico. Muitas vezes alheio a isso,
o meio gay é compelido a ter um
corpo ao modelo atlético, mus-
culoso, importado da Califór-
nia e que influenciou a moda e
a publicidade nos últimos anos.
Esse dream-body impõe um
estilo cotidiano extremamente
perverso aos gays, que recorrem
às academias e demais espaços
DOM. Vol. 2 - ano 2008
de embelezamento “capazes” de
fabricar corpos desejáveis. Vários enunciados na capa da
DOM enfatizam esse ideal de corpo: cremes para o corpo,

Capa - Expediente - Sumário - Autor 27


o rosto e sob o sol; dieta da purificação; segredos da cor-
rida; pernas, coxas e algo mais (bem à mostra).
Ao lado dessa idolatria ao corpo, outro ponto impor-
tante, a esse padrão identitário gay difundido na mídia,
é a busca da eterna juventude. E, de novo, vem a mídia,
apoiada no discurso médico, se mostrar como portadora
do arquétipo identitário que se deve “usar”. Faz isso pelo
discurso apelativo (ou seria impositivo?) de que “deve-se
ser jovem”, “juventude é sinônimo de beleza”, “ser jovem
é ser sexualmente desejável” e toda uma enésima de apo-
logias pró-juventude. Tais discursos fazem aparecer uma
das maiores inquietações do homem moderno, a negação
da morte. “O estado de ser jovem é apreendido como per-
manência, visto a freqüência que a modela, criando um
sentido que ultrapassa a mera gestão da vida.” (MILANEZ,
2004, p. 189). Controlar o envelhecimento seria uma das
formas modernas da disciplinaridade dos corpos.
A medicina moderna como sustentáculo estratégico des-
sa biopolítica irá disseminar um discurso disciplinador a
vida e dos corpos. O culto ao corpo com seus modelos de
beleza e os biotipos sexuais desejáveis que surgiram a partir
de então não afetaram de forma imperiosa apenas a comuni-
dade homossexual. À lógica capitalista da biopolítica o corpo
biológico incide sobre o corpo político, pois estamos em uma

Capa - Expediente - Sumário - Autor 28


sociedade do “sexo”, ou melhor, da “sexualidade”: os meca-
nismos de poder se dirigem ao corpo, à vida, ao que a faz
proliferar, ao que reforça a espécie, seu vigor, sua capacida-
de de dominar, ou sua aptidão para ser utilizada.
A série enunciativa formada
pelas chamadas de capa das três
principais revistas do país (cuja
linha editorial das mesmas não
é a sexualidade) ilustra bem o
que disse Foucault sobre uma so-
ciedade que parece viver para o
sexo. O sexo que é distribuído e
controlado pelo biopoder. Assim,
a capa da revista Veja fala de uma
idade sexual. Mostra novos remé-
dios para ambos os sexos terem
uma vida amorosa mais ativa, Veja. Ed. 1738 – ano 2002
satisfatória e duradoura. Nada mais disciplinador ao desejo
sexual do que a proposta do enunciado: um teste para saber
se você está acima ou abaixo do padrão de desempenho da
sua idade. A matéria sugere ainda indícios de uma sexuali-
dade cada vez mais precoce e ousada entre os jovens.
Seguindo a estratégia do biopoder em torno dessa ana-
lítica burguesa da sexualidade, médicos e analistas ofere-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 29


cem “terapia sexual” como me-
lhora da vida íntima na Isto é. A
estratégia discursiva biomédica
neste caso estende sua ação para
além do corpo físico; é preciso se
conhecer mentalmente, até des-
vendar a própria alma. Curio-
sos são os meios implacáveis e
heteronormativos do biopoder:
enquanto médicos e analistas
“ajudam a melhorar a vida ínti-
Isto é. Ed. 2033 – ano 2008
ma dos casais (héteros)”, alguns
desses mesmos profissionais
oferecem “cura” para gays e lésbicas.
E finalmente a última capa vai, mesmo que indireta-
mente, ao ponto central, a meu ver, da estratégia do biopo-
der que é a produção de um sexo fictício, uma sexualidade
fantasmagórica, inatingível. O enunciado é direto: uma
nova droga promete combater a falta de desejo das mu-
lheres. O enunciado seguinte questiona a real eficiência do
viagra feminino; se não seria apenas jogada da indústria
farmacêutica. Se este estimulante sexual funciona de fato
ou não é o que menos importa. O que nos chama a aten-
ção aqui são os efeitos de sentido produzidos no repertório

Capa - Expediente - Sumário - Autor 30


linguístico-discursivo da revista: busca, promete, jogada,
são marcas linguísticas no discurso que nos levam a com-
preender que o sexo-desejo discursivisado nas estratégias
da biopolítica é também um sexo-quimera.
Viver ao máximo a sexualidade. Assim, insinuada como
condição para uma melhor qualidade de vida, a superexpo-
sição da sexualidade parece não se configurar numa forma
de controle dos sujeitos pelo biopoder do estado moderno. É
nisso que reside toda a eficácia dos dispositivos disciplinares
da modernidade; produzem efei-
tos de naturalidade quando o que
há são práticas de captura dos su-
jeitos por mecanismos de poder.

Época. Ed.601 – ano 2009

Capa - Expediente - Sumário - Autor 31


2. A subjetivação como processo
de constituição do sujeito

À ciência moderna preocupada com a sexualidade, como


mencionado anteriormente, estão relacionados os mais
variados modos de subjetivação. Esta questão é perscruta-
da por Michel Foucault em sua História da sexualidade;
em particular no terceiro volume ao tratar do cuidado de si.
As técnicas de si ou como pensavam os gregos, a estética da
existência - “Deve-se entender, com isso, práticas refletidas
e voluntárias através das quais os homens não somente se
fixam regras de conduta, como também procuram se trans-
formar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida
uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e
responda a certos critérios de estilo.” – são entendidas pelo
filósofo francês como “processos de subjetivação”.
É por via dos processos de subjetivação que se chega ao
que se entende modernamente por sujeito. O tipo de aná-
lise foucaultiana da subjetividade a reconhece num duplo
processo: por um lado, o ser humano é transformado em
sujeito, ou seja, é objetivado pelas práticas de subjetivação.
O sujeito é desse modo, construído sob uma base de saber-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 32


poder que o determina. Por outro lado, o ser humano sub-
jetiva-se na relação consigo, por meio de técnicas que lhe
permitem constituir-se como sujeito da própria existência.
Aquela vontade de verdade de uma época e os jogos de
poder tratados na seção anterior são modos fundamentais
de subjetivação. As ciências (jurídicas, médicas, políticas
e econômicas) com seus saberes e poderes vão discursiva-
mente objetivando os sujeitos através de práticas diviso-
ras que os classificam e os circunscrevem numa ou noutra
ordem subjetiva: o normal e o anormal, o são e o louco, o
homossexual e o heterossexual. Saliente-se que esta ordem
subjetiva está sempre sendo recriada no jogo das técnicas
disciplinares da governamentalidade.
Na ótica foucaultiana, uma vez objetivado por dado
processo de subjetivação, o que se tem como resultado é
o sujeito ou como entendem alguns teóricos “processos
identitários”. Mas ao filho ilustre de Poitiers não importava
apenas isso; foi além a fim de entender como esse sujeito
se relaciona consigo mesmo. “Que procedimentos o indiví-
duo mobiliza a fim de se apropriar ou de se reapropriar de
sua própria relação consigo?” Pois ele não compreende o
sujeito enquanto pessoa em particular ou forma de identi-
dade, antes um processo relacional consigo mesmo. O his-
toriador Mark Poster (1989, p.19) argumenta com precisão

Capa - Expediente - Sumário - Autor 33


acerca dessa problemática do sujeito e da subjetividade em
Foucault:

Foucault não perde muito tempo definindo-os. O


que aparece no texto de a História da sexualidade
é que o “self” é um termo neutro, a-histórico, quase
um sinônimo de “indivíduo”. “Sujeito” é um termo
ativo, histórico que se refere ao processo de interio-
rização. Foucault, certamente, continua a rejeitar as
filosofias da consciência através das quais os indiví-
duos, ontologicamente, se constituem a si mesmos
através de atividades mentais. Permanece alguma
ambigüidade no uso do termo “sujeito”. Não fica
claro que ele conscientemente evite o uso subjeti-
vista do termo [...] A chave para entender o uso do
termo sujeito, definido experiencial e historicamen-
te, é o seu conceito nietzschiano de verdade. Desde
que Foucault rejeita a noção de verdade absoluta,
ele também rejeita o conceito de sujeito como fonte
ou fundação da verdade.

Frente ao intento de buscar as formas do indivíduo se


relacionar consigo mesmo e se constituir enquanto sujeito,
Foucault imergiu no estilo de vida grego da Antiguidade
onde uma estética da existência era o princípio para uma
elaboração ética da vida. Antes desse looping histórico,

Capa - Expediente - Sumário - Autor 34


porém ele analisou os jogos de verdade que para Araújo
(2001) diz respeito às práticas disciplinares, relações de
poder como a punição e a constituição de si como sujeito de
seus atos na elaboração ética de si para si. Após o primeiro
momento em que relacionou os jogos de verdade ao poder,
a atenção do filósofo francês se voltou para esses jogos de
poder na relação com o sujeito do desejo.
Antes da discussão sobre o homem do desejo, é vali-
do ressaltar o caráter ético2 próprio daquele estilo de vida
grego retomado por Foucault: exigia-se uma austeridade
do sujeito grego, todavia não era uma lei universal a qual
todos deveriam se submeter, mas nas palavras do filósofo
era “antes de tudo como um princípio de estilização da con-
duta para aqueles que querem dar à sua existência a forma
mais bela e mais realizada possível”. Dentre as “técnicas
de si” desenvolvidas pelo pensamento grego, a Dietética, a
Econômica e a Erótica propuseram uma moral sexual par-
ticular aos gregos, mesmo assim, tal moral não implicava
definir códigos de condutas obrigatórias a todos nem orga-
nizar o comportamento sexual dentro de um mesmo prin-
cípio como fizera a moral cristã mais tarde.

2. O conceito foucaultiano de ética se afasta da noção clássica de éti-


ca como estudo dos juízos morais referentes à conduta humana para
se aproximar do modo como o indivíduo se constitui a si mesmo como
sujeito moral de suas próprias ações.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 35


Pelo modo foucaultiano de subjetivação por meio das
técnicas de si, o sujeito que daí é construído em exercícios e
práticas de si deve ser compreendido como um sujeito mo-
dificável, transformável, ético, diferentemente do sujeito
moral, é um sujeito da inquietude, da hesitação do futuro.
(GROS, 2006).
Este sujeito da ética de si, que incessantemente recon-
figura a relação consigo, ao modo foucaultiano, pode ser
pensado a partir das novas ordens subjetivas da homoafe-

Época. Ed.222, 2002; Veja. Ed. 1936, 2005

Capa - Expediente - Sumário - Autor 36


tividade. Como mostra a edição 222 da revista época, não
obstante a um imaginário sócio-histórico estereotipado da
homossexualidade feminina no Brasil, as lésbicas têm sa-
ído dos guetos homossexuais e se mostrado publicamente
com muita feminilidade e elegância. “Elas são elegantes,
cuidam do corpo, gostam de maquiagem e usam roupas
sensuais. O novo universo homossexual feminino ganhou
complexidades que não faziam parte da vida das militantes
gays do passado” (2002).
São mulheres bem resolvidas profissionalmente, que
não descartam a ideia da maternidade e de possível envol-
vimento amoroso com rapazes. A atenção dispensada ao
dado mostrado na revista é menos pela “saída do armá-
rio” das lésbicas e mais pela estratégia de desconstrução
do velho modelo masculinizado associado às mulheres ho-
mossexuais. Os códigos de conduta uniformizantes a essa
prática da sexualidade começam dilapidar-se e dar lugar
a uma construção de si fluida, uma estilização que nega o
caráter fixo dos padrões identitários. Como ressalta a re-
vista “‘lésbica em vários casos pode ser mais uma questão
de ‘estar’ que de ‘ser’.” Assim, as diferentes remodelagens
e significados que ganha o sujeito faz dele uma posição no
tempo e no espaço.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 37


A defesa foucaultiana de olhar o sujeito como uma posi-
ção e não condicionar a sexualidade à busca de uma essen-
cialidade identitária encontra eco na edição 1936 da revis-
ta veja. Na capa, chama a atenção o aspeado sou bi. E daí?
enunciado pela cantora da MPB Ana Carolina que estampa
a chamada da capa. O efeito de segurança e firmeza que esse
enunciado produz em relação a seu enunciador reforça um
fenômeno semelhante ao mostrado pela época, em que a
condição de homoafetiva para as mulheres tem se revelado
cada vez mais uma vivência serena da dignidade humana.
A matéria com Ana Carolina merece um segundo olhar
pelo caráter altamente transgressor da bissexualidade.
Ainda que a condição de bissexual tenha passado a ocu-
par a terceiro vértice do equilátero que comumente divide
as identidades sexuais, há nela uma aparente inquietação
posto que não se fixa no desejo por um só sexo. O bissexual
experiencia a inevitável desconfiança de ambos os sexos,
pois ele é todos e nenhum ao mesmo tempo. Sua estraté-
gica condição de um não-lugar quebra as expectativas até
mesmo no interior do movimento homossexual que se pro-
põe libertário.
A manchete afirma ainda que a artista em questão é o
ícone de uma geração para a qual rotular a sexualidade e
fazer dela uma bandeira política não é sua preocupação.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 38


Foucault concordava que o principal objetivo do movimen-
to gay deveria ser a conquista da liberdade de escolha, para
que cada indivíduo pudesse ter o direito de escolher a sua
sexualidade. A garantia de direitos e da liberdade era para
ele algo prioritário. Uma vez garantida a liberdade de vi-
ver própria sexualidade, era preciso usá-la para se produzir
múltiplas relações. Ele dizia: “não se deve ser homossexu-
al, mas esforçar-se para ser gay”.
Para o pensador, o liberdade para se escolher viver a
homossexualidade não deve ter um efeito limitador na vida
do sujeito ou que este passe a ser condicionado por essa es-
colha. A sexualidade precisa ser livre da rigidez identitária.
Assim o era para Foucault uma sexualidade gay. Quiçá fos-
se esta uma sexualidade em trânsito, com menos autocon-
trole como sugere a geração mostrada nas duas revistas.
É pertinente terminar, por ora, esta explanação sobre o
modo de constituição do sujeito pela subjetivação lançan-
do-a no contexto virtual das mídias atuais. A velocidade es-
tonteante das informações e das mudanças sócio-culturais
hoje oferece ao indivíduo uma enésima de possibilidade
para subjetivação, para fazer de si sua “obra de arte”, ao
mesmo tempo que inventa e reinventa códigos e estilos de
viver. A mídia on-line revoluciona o modo de cada indiví-
duo ver-se e conviver consigo mesmo. Cabe a este indivíduo

Capa - Expediente - Sumário - Autor 39


identificar-se com este ou aquele modelo de subjetividade.
É um processo que envolve relações de poder. Assim como
pensa Bauman:

... a identificação é também um fator poderoso na


estratificação, uma de suas dimensões mais divisi-
vas e fortemente diferenciadoras. Num dos pólos da
hierarquia global emergente estão aqueles que cons-
tituem e desarticulam as suas identidades mais ou
menos à própria vontade (...) No outro pólo se abar-
rotam aqueles que tiveram negado o acesso à escolha
da identidade, que não têm direito de manifestar as
suas preferências e que no final se vêem oprimidos
por identidades aplicadas e impostas por outros –
(...) Identidades que estereotipam, humilham, desu-
manizam, estigmatizam... (BAUMAN, 2005, p. 44)

Apesar do ambiente fluido da modernidade tratada pelo


polonês, Foucault defenderia que deve o sujeito procurar
se afirmar não apenas enquanto identidade que limita (o
que não significa negar que ela existe), mas enquanto força
criativa. Assim como qualquer outra identidade, a “identi-
dade homossexual” para o filósofo francês é uma constru-
ção histórica, um produto que, por ser histórico, pode ser
modificado historicamente com um trabalho de reinvenção
individual e coletiva.
Capa - Expediente - Sumário - Autor 40
3. Do dispositivo da sexualidade:
a produção do sujeito do desejo

N este tópico, será retomada a discussão ali deixada


em suspenso sobre o “sujeito do desejo” de que tra-
ta Foucault. O entendimento de como ocorre a produção
desse “sujeito do desejo” está imbricado ao entendimento
do que seja o dispositivo da sexualidade. De acordo com
Judith Revel (2005), o termo “dispositivo” aparece no vo-
cabulário conceitual de Foucault nos anos 1970 e designa
inicialmente todos os operadores materiais do poder, isto
é, as estratégias de assujeitamento utilizadas pelo poder.
Fazendo uso das palavras do próprio Foucault, um dispo-
sitivo caracteriza:

[...] um conjunto decididamente heterogêneo que


engloba discursos, instituições, organizações arqui-
tetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas
administrativas, enunciados científicos, proposi-
ções filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma o
dito e o não dito são os elementos do dispositivo.
O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre
esses elementos. (FOUCAULT, 1999).

Capa - Expediente - Sumário - Autor 41


Com essa compreensão, o dispositivo da sexualidade diz
respeito a práticas discursivas ligadas a saberes como a reli-
gião, a ciência, a moral, a política, a economia que contribuem
para controlar, normatizar e estabelecer “verdades” sobre o
corpo e os prazeres. Ao estabelecer os valores morais que de-
vem ser praticados pelos indivíduos, este dispositivo os afeta
na relação com seus prazeres e com o corpo, do mesmo modo
como o faz na constituição das subjetividades. Nesse contex-
to, a sexualidade ocupa um duplo e simultâneo papel; de ins-
trumento de subjetivação e de ferramenta de poder.
A partir de O uso dos prazeres (2007b), segundo tomo
de A história da sexualidade, o pensamento foucaultiano
sobre a sexualidade ocupar-se-á com uma ética do corpo
e dos prazeres. É um trajeto histórico que começa com a
ética da Grécia Antiga, que no domínio dos prazeres, todo
cidadão, ao exercer sua liberdade, poderia elevar-se até ao
amor ao saber, à filosofia e ao amor pelos rapazes. Ao lado
disso, o estilo temperante de viver e cuidar do corpo, da
saúde e da casa compunha uma moral ligada à conduta se-
xual entre os gregos cujo lugar do desejo era conduzi-los a
discussões éticas. É mister reafirmar e inexistência da idéia
de castigo e punição na perspectiva dessa ética grega; havia
sim uma temperança no agir frente ao desejo que foi grada-
tivamente sendo substituída pela moral rígida, unificada e

Capa - Expediente - Sumário - Autor 42


autoritária do cristianismo cujo alvo era a carne. Se algum
incômodo vier gerar hoje, naqueles leitores mais pragmáti-
cos, o trajeto histórico efetuado por Michel Foucault nessa
hermenêutica do sujeito do desejo, é prudente considerar
que aquilo que ele problematizava era:

Por que o comportamento sexual, as atividades e os


prazeres a ele relacionados são objetos de uma preo-
cupação moral? Por que esse cuidado ético que, pelo
menos em certos momentos, em certas sociedades
ou em certos grupos, parece mais importante do
que a atenção moral que se presta a outros campos,
não obstante essenciais na vida individual ou cole-
tiva, como as condutas alimentares ou a realização
dos deveres cívicos? (FOUCAULT, 2007b, p. 14)

Nesse sentido, o filósofo francês vai questionar a ideia


moderna, e freudiana, de repressão da sexualidade. Não é
apenas por serem objetos de interdição, cuja transgressão
se configura em falta grave, que o desejo e os prazeres se-
xuais foram e são alvo de um cuidado moral. Considerar a
relação entre poder e sexo de acordo com este padrão ne-
gativo da interdição e do silenciamento, garante ao próprio
discurso, acerca da repressão e da liberação sexual, um ca-
ráter político emancipatório e transgressor.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 43


Como é posto por Ríos (2007), a “hipótese repressiva”
da sexualidade para Foucault seria apenas parcial; a evi-
dência histórica de uma rede discursiva de saber-poder-
prazer sobre as práticas sexuais humanas que se monta
na sociedade moderna a partir do século XVII. O primeiro
traço que surpreende, nos discursos que a cultura ociden-
tal manteve sobre a sexualidade, é que esse discurso assu-
miu muito rápida e precocemente uma forma que podemos
chamar de científica. (FOUCAULT, 2006, p.60). É um dis-
curso que percorre a Teologia moral do século XVII, passa
pela Psicologia do século XVIII, a Psiquiatria do século XIX
e chega à Psicanálise do século XX até os dias atuais.
Já no primeiro tomo da História da sexualidade, A von-
tade de saber (2007a), o autor procura tornar distinta toda
a cadeia discursiva (incluindo práticas) racional e científica
em torno da sexualidade nas sociedades ocidentais, que ele
chamou de scientia sexualis, daquela ars erótica praticada
nas culturas do Oriente que visava, não a verdade sobre o
sexo, mas “uma arte que produziria através da relação se-
xual ou com os órgãos sexuais, um tipo de prazer que se
procura tornar o mais intenso, o mais forte ou mais dura-
douro possível”. Este tipo de prazer sexual era encontrado
também em Roma e na Grécia Antiga.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 44


Importava fundamentalmente aos estudos sobre a se-
xualidade feitos pelo filho ilustre de Poitiers, nos meados
de 1970, por que ao longo de séculos a sociedade ocidental
tem buscado tanto a verdade sobre a sexualidade e não a
obtenção ao máximo do prazer? A resposta a essa questão
foucaultiana inclui negar o já instituído discurso psicana-
lítico no qual o sexualidade foi libertada do silêncio sob o
qual esteve presa primeiro pela moral cristã e segundo pela
moral burguesa. Não é, portanto, a interdição que permite
dar conta das formas de problematização, mas a liberação.
(FOUCAULT, 2004, p. 243). Baseado no trabalho do his-
toriador francês Paul Veyne sobre a sexualidade na Roma
pré-cristianismo, Foucault mostra que este velho esquema
histórico - para o qual na cultura greco-romana clássica o
sexo era livre, o cristianismo veio e proibiu; daí somente
a partir do século XIX foi possível falar dele novamente -
não é exato, pois os três grandes princípios da moral sexual
cristã – a monogamia, o sexo com fim reprodutivo e a des-
valorização do prazer sexual – já se apresentavam esboça-
dos na sociedade romana anterior ao Cristianismo.
Seguindo na esteira deste pensamento, o papel do Cris-
tianismo nessa história da sexualidade foi menos na intro-
dução de novas ideias morais e mais na agregação de téc-
nicas de poder para manter a moral sexual romana. Dentre

Capa - Expediente - Sumário - Autor 45


essas técnicas, a confissão, enquanto estratégia para pro-
dução de verdades sobre as práticas sexuais, os desejos, as
subjetividades teve um importante papel na história oci-
dental desde a Idade Média. Em acordo com Ariès (2004),
historicamente a confissão está interligada a práticas reli-
giosas focadas na devoção interior, como o exame de cons-
ciência estabelecido pelos modos católicos da confissão ou
pelo modo puritano do diário íntimo.
A título de síntese, toda a ciência sexual que se produziu
ao longo de três séculos remonta da confissão cristã onde
a verdade mais íntima e secreta do sujeito deveria ser dita.
Era preciso falar da própria prática sexual para que a sexu-
alidade pudesse ser reprimida e controlada. Na verdade,
essa obsessão para com a sexualidade, toda essa vontade
de saber muito mais do que a reprimir, a tornou “a vede-
te” nos diversos lugares discursivos. Todos esses discursos
formarão verdades sobre o sexo, este por sua vez, a serviço
da sexualidade, será o lugar por excelência em que a pro-
dução de verdade está ligada ao poder. É algo que precisa
ser decifrado. (DREYFUS E RABINOW, 1995). Chegou-se
a um ponto tal em que o sujeito é compelido a por o sexo
em discurso para que o conhecendo (enquanto vida sexual
particular), o indivíduo reconheça sua mais profunda sub-
jetividade.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 46


Com o advento da modernidade, a confissão passou a
envolver todos os procedimentos através dos quais o sujei-
to foi estimulado a produzir um discurso da verdade sobre
sua sexualidade. Um esquadrão de especialistas, sexólo-
gos, terapeutas passaram a oferecer com seus “serviços” a
possibilidade de um bem-estar psíquico capaz de produ-
zir efeitos sobre o próprio sujeito. Além do efeito clínico
dessas práticas confessionais sobre cada sujeito em si, há
um outro que é da ordem do controle da sexualidade da
população por meio da compreensão do que seria normal
ou patológico.
A prática da confissão religiosa introduzida com o Cris-
tianismo como matriz geradora da discursividade sobre o
sexo tem ganhado novas configurações desde então. Atual-
mente, ainda que as práticas de confissão nos tempos líqui-
dos da Pós-modernidade nem sempre tenham um caráter
religioso, elas mantém consigo os fundamentos daqueles
tempos medievais: o sujeito confessar-se ao outro, exami-
nar-se, governar-se, sacrificar-se.
A cultura contemporânea amplifica através da mídia a
ideia de um autodecifrar-se quase compulsório ao sujeito
em geral e ao gay em particular. A sexualidade desde que
passou a ser esmiuçada em cada existência, nos seus míni-
mos detalhes, desencavada nas condutas acabou tornando-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 47


Veja. Ed. 1636, 2000; Veja. Ed. 1808, 2003

se a chave da tão sonhada individualidade. Como abordado


pela Veja, ser gay seria uma identidade sexual e que assu-
mi-la é um desafio enfrentado por muitos que pretendem
assim viver sua sexualidade.
O enunciado “como eles e elas contam aos pais” dei-
xa escapar os velhos resquícios das práticas de confissão
da moral católica: o emprego do verbo “contar” por si só,
sugere que algo foi ou é praticado sem o conhecimento
público. Assim ao “contar”, tanto pode ser ao sacerdote
como aos pais, o sujeito que o faz estar autorizando a estes

Capa - Expediente - Sumário - Autor 48


a fazerem o julgamento que lhes convier sobre sua prática
sexual. Quer seja na forma do castigo ou da absolvição, a
sexualidade sai da esfera do privado e adquire um caráter
político-social. Uma vez que se tem uma sociedade que fala
da e para a sexualidade, esta deixa de ser um símbolo para
virar um alvo.
Durante os anos de 1970 na luta pela afirmação do mo-
vimento homossexual, a política do coming out defendida,
de forma polêmica, pelos gays americanos realimentou o
espírito político-social da sexualidade. A bandeira defen-
dida pelo então emergente movimento gay, era que cada
um deveria assumir, mostrar e defender sua condição de
homossexual. Em casa, no trabalho, na rua, era preciso
“sair do armário”. Contudo fazê-lo, como sugere a matéria
da edição 1808 da Veja, implica coragem para enfrentar
desafios cotidianos e conflitos existenciais uma vez que sua
condição sexual está agora publicizada e faz parte do inter-
minável catálogo dos modelos de subjetividades.
O que não se pode também perder de vista em ambas
as capas é o não-dito (linguísticamente) no qual a homos-
sexualidade não escapa de se integrar como um elemen-
to do dispositivo da sexualidade. A própria necessidade
do movimento gay de afirmação compele os sujeitos que
o compõem a estabelecerem um outro discurso “verdadei-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 49


ro” para si. O gesto de se assumir publicamente a própria
orientação sexual passa a ser condição primeira para que se
chegue a alguma garantia de direito e de liberdade dentro
do movimento e fora deste. Esta é a lógica que organiza o
dispositivo da sexualidade, para o qual a norma nasce com
a liberdade.
Sobre a noção de sexo como o que temos de mais escon-
dido e reprimido, vale concluir reforçando o pensamento
de Foucault:

[...] por que achamos que somos todos reprimidos?


Foucault atribuiu a vitória do discurso da repressão,
que passa por Freud, Marcus e W. Reich, à idéia de
que o poder só faz reprimir, impor, sufocar; trata-se
de uma noção de poder legiferante, jurídica. Mas se
a força do poder estivesse unicamente contida na re-
pressão, seria menos complicado neutralizá-lo, bas-
tando para isto que fosse destituído de seus mecanis-
mos repressivos. Um poder visível a todos é alvo fácil
de ser derrubado. (ARAÚJO, 2001, p. 155).

Assim se constitui o sujeito hoje que, ao buscar a ver-


dade sobre seu desejo, torna-se uma presa da relação de si
para consigo, mediada por saberes e poderes produtores de
subjetividades. Esta produção de subjetividades, que tem

Capa - Expediente - Sumário - Autor 50


o sexo como o núcleo problemático do sujeito, não está a
salvo da vontade de verdade do campo da sexualidade que
trabalha impregnando as sociedades modernas de um dis-
curso “verdadeiro” em cujas práticas fixam-se códigos para
os prazeres, classificam-se os sujeitos, cria-se a norma: eis
o efeito do dispositivo da sexualidade.

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4. A prática da homossexualidade
como modo de vida

O trabalho de Michel Foucault sobre a história da sexu-


alidade deve ser compreendido como mais um capítu-
lo no conjunto de sua obra sobre a história da produção de
verdade por parte do poder. Como foi visto anteriormente,
o dispositivo da sexualidade é um elemento da scientia se-
xualis erigida pela história recente da cultura ocidental. No
interior desse dispositivo, práticas e estratégias de norma-
tização e subjetivação foram se desenvolvendo concomi-
tantemente. Dentre tais práticas, a da homossexualidade
enquanto produção discursiva de um saber-poder é de que
trata este tópico.
“Em nossos dias, quando os homens fazem amor ou
têm relações sexuais, isso é percebido como um proble-
ma. Estou seguro de ter razão: a desaparição da amizade
enquanto relação social e o fato da homossexualidade ser
declarada como problema social, político e médico fazem
parte do mesmo processo”. (FOUCAULT, 1984). Esta de-
claração à revista canadense Body politic deixa entrever a
associação que Michel Foucault faz entre as relações ho-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 52


mossexuais e a amizade. Ao longo deste capítulo ainda
será retomado o papel atribuído por ele à amizade. No
tocante aos estudos do filósofo francês sobre a condição
homossexual (homoafetiva ou homoerótica em um glos-
sário mais atualizado)3, é importante destacar que na Gré-
cia clássica – origem cronológica da história das práticas
sexuais estudadas por Foucault – toda esta nomenclatura
sequer existia, tampouco o interesse moral, político e mé-
dico que ora desperta.
Foucault preferia não pensar em estilo ou categoria ho-
mossexual uma vez que não se pode classificar comporta-
mentos, além do termo homossexual não dar conta do tipo
de experiência que se tem. Apesar de considerar que haja
uma tentativa progressiva de se criar um modo de existên-
cia, uma arte de viver que se pode chamar “gay” e que a ho-
mossexualidade pode ser uma forma da pessoa se afirmar
fora do discurso dominante (id. ibid.):

3. Não obstante à insistente preocupação por parte de determinados seg-


mentos dos estudos de gênero em separar conceitualmente homossexu-
alidade dos termos em destaque, será tomado por base nesta dissertação
o vocabulário organizado pela “Pré-Conceito de gays e lésbicas” no qual
os três termos aparecem como sinônimos, dependendo o uso apenas se a
ênfase sugerida for ao aspecto afetivo, erótico ou sensual da relação.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 53


É preciso desconfiar da tendência de levar a questão
da homossexualidade para o problema ‘Quem sou
eu? Qual o segredo do meu desejo?’ Quem sabe, se-
ria melhor perguntar: ‘Quais relações podem ser es-
tabelecidas, inventadas, multiplicadas, moduladas
através da homossexualidade?’. O problema não é
descobrir em si a verdade sobre seu sexo, mas, para
além disso, usar de sua sexualidade para chegar a
uma multiplicidade de relações. (p, 26-30)

No contexto greco-romano, seria enganoso pensar que


Michel Foucault tomou aquelas práticas homoeróticas como
paradigma para questionar tais práticas na cultura ocidental
contemporânea. Contrário aos retornos, Foucault defendia
que “a história não diz quem nós somos”; é o presente que
legitima falarmos de uma determinada posição de sujeito.
Assim posto, dissecar as práticas sexuais – considerar aqui
aquelas entre indivíduos do mesmo sexo - desde o século IV
a.C. é antes de tudo um recurso metodológico para que se
entenda como uma moral sexual não se mantém incólume
ao longo da história das civilizações, ainda que a moral sexu-
al cristã como se conhece hoje tenha um pé naquela pratica-
da entre as culturas pagãs na Antiguidade.
Durante os séculos XVIII e XIX com a proliferação
dos discursos sobre a sexualidade (ciência sexual) disse-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 54


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minaram-se por toda a sociedade práticas discursivas que


implantaram as diversas formas de sexualidades como o
homossexual, o fetichista, o exibicionista, o zoófilo. Uma
vez consideradas perversões, elas serviram para produzir
espécies sexuais com base numa serie de caracterizações
(biográficas, morfológicas, fisiológicas, psicológicas) que
definem os corpos e os prazeres.
Dentre tais “perversões”, a homossexualidade tem sido
de longe a que mais passou pela ação da ortopedia moral.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 55


Essa preocupação moral dedicada às práticas homoeróti-
cas atuais, no contexto daqueles povos da Antiguidade es-
tudados por Foucault, não possuíam o mesmo significado,
enquanto prática. “Os gregos não opunham, como duas
escolhas excludentes, como dois tipos de comportamen-
tos radicalmente diferentes, o amor ao seu próprio sexo ao
amor pelo sexo oposto. As linhas de demarcação não con-
seguiam uma tal fronteira”. Foucault observou um tipo de
relação entre homens que ali gozava de uma legitimidade e
relativa tolerância: aquela relação que se dava entre um ho-
mem mais velho e um jovem. A mesma que fixou as figuras
do erasta e a do erômeno. Sobre estes é bom saber:

O primeiro tem a posição da iniciativa, ele persegue,


o que lhe dá direitos e obrigações: ele tem que mos-
trar seu ardor, e também tem que moderá-lo; ele dá
presentes, presta serviços; tem funções a exercer
com relação ao amado; e tudo isso o habilita a es-
perar a justa recompensa; o outro, o que é amado e
cortejado, deve evitar ceder com muita facilidade;
deve também evitar aceitar demasiadas honras dife-
rentes, conceder seus favores às cegas e por interes-
se, sem pôr à prova o valor de seu parceiro; também
deve manifestar reconhecimento pelo que o amante
fez por ele. (FOUCAULT, 2007b, P. 175)

Capa - Expediente - Sumário - Autor 56


Era necessário haver neste tipo de relação uma defa-
sagem expressa na idade, no status, na formação dos par-
ceiros; tinha-se um relacionamento entre um homem com
maturidade e formação plenas e um jovem e ou adolescen-
te a quem daria instrução e um amor erótico. Como se ob-
serva, o amor pelos rapazes obedecia a todo um protocolo,
um ritual que muito lembra a cerimônia da corte feminina
na Idade Média. Quiçá houvesse nesse aspecto formalístico
da relação com os rapazes uma razão para a já dita relativa
tolerância com a mesma. Como assegura Foucault, este tipo
de relação era livre, posto que se respaldava em diferentes
instituições pedagógicas e militares, do mesmo modo como
era exaltada nos cultos religiosos e cantada na literatura.
Mesmo que o amor pelos rapazes em certo momento
tenha passado a constituir um problema e tenha se sub-
metido a uma moral, ele não era o único modelo de relação
homoerótica existente naquelas culturas (grega e romana):
havia laços homoafetivos entre dois jovens, assim como en-
tre dois homens maduros e de mesmo status social. Neste
último caso, era forte a intolerância social que decorria da
suposta passividade que um dos parceiros assumiria no ato
sexual. A saber: para a sociedade grega de então, era indig-
no a um homem depois da juventude, instruído, bem posto

Capa - Expediente - Sumário - Autor 57


socialmente assumir um papel sexual reservado a jovens, a
mulheres e a escravos.
Todo o interesse filosófico que a relação com/entre os
rapazes despertou na Antiguidade começara a desapare-
cer logo nos primeiros séculos da nossa era. Afirma Fou-
cault que: “De modo mais geral, uma certa diminuição da
importância das relações pessoais de philia, assim como
a valorização do casamento e do vínculo afetivo entre es-
posos fizeram, sem dúvida, bastante para que a relação de
amor entre homens cessasse de constituir o cerne de uma
discussão teórica e moral intensa”. Na verdade, essa “des-
problematização” (o termo é bem foucaultiano) para com
as relações sexuais entre homens não significou o desapa-
recimento ou mesmo a subtração dessas práticas, antes a
relevância social na ambiência da moral sexual cristã.
A fim de sintetizar: dentre as técnicas de si praticadas
pelos antigos, incluía-se a austeridade sexual. Esta não era
uma austeridade repousada num conjunto de códigos da-
quilo que seria proibido ou permitido, mas na manutenção
de uma relação consigo mesmo de modo que se conserve o
domínio sobre as paixões e os desejos sexuais. Os gregos,
por exemplo, praticavam uma ética sexual em cujo rigor
incluía-se uma economia dos prazeres: preocupava o ex-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 58


cesso das práticas sexuais, não de que modo ou com quem
elas eram realizadas.
Visto não se configurarem como o cerne de conflitos re-
lacionais, as relações homoeróticas na Antiguidade clássica
não traziam nada dessa carga simbólica associada à sub-
versão que foi sendo adquirida posteriormente, inclusive
antes que a institucionalização do pecado cristão conferis-
se ao homoerotismo um caráter demoníaco. A produção
dessa “verdade” sobre o sexo entre iguais teve na confissão
o grande aliado. A Literatura, como um saber discursivo,
apropriou-se dessa simbologia: transformou o prazer de
contar e ouvir as clássicas narrativas centradas nos feitos
heróicos ou nas provas de bravura ou de santidade numa
forma de confissão escrita moderna que busca no fundo de
si mesmo uma verdade inacessível.
Houve uma lenta passagem cultural com continuidades
e descontinuidades onde toda aquela arte da existência,
as práticas de si perderam seu valor e sua autonomia ao
serem integradas no exercício de uma pastoral, tornando-
se mais tarde objeto de interdições educativas, médicas e
psicológicas. Tem-se aqui (século XIX) uma interpretação
mais laica daquelas práticas sexuais destoantes da ordem
geral: eram tratadas como doenças físicas e mentais e não
pecado como visto na Idade Média. Deste período, Fou-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 59


cault menciona textos que delineavam um perfil-tipo de
homossexual ou do invertido – reproduzindo a semântica
daquela época - Ele ainda assegura que era uma imagem
com caráter repulsivo e que já se desenhava na literatura
greco-romana da época imperial:

Seus gestos, sua postura, a maneira pela qual se en-


feita, seu coquetismo, como também a forma e as
expressões de seu rosto, sua anatomia, a morfologia
feminina de todo o seu corpo fazem, regularmente,
parte dessa descrição desqualificadora; a qual se re-
fere ao mesmo, ao tema de uma inversão dos papéis
sexuais e ao princípio de um estigma natural dessa
ofensa à natureza. (FOUCAULT, 2007b, p.21)

Mostrando esta mesma imagem em um texto de Sêne-


ca, Foucault cita:

A paixão doentia de cantar e dançar enche a alma


de nossos afeminados; ondular os cabelos, tornar a
voz suficientemente tênue para igualar a carícia das
vozes femininas, rivalizar com as mulheres através
da lassidão de atitudes, estudar-se em perquirições
muito obscenas, eis o ideal de nossos adolescentes.
(FOUCAULT, 2007b, p.21)

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Paul Veyne (2008), referência para Foucault nos es-
tudos sobre a homossexualidade na Antiguidade, cita o
exemplo do imperador romano que poupou um homos-
sexual passivo de ser decapitado porque não queria que a
lâmina do gládio do carrasco fosse conspurcada por “tão
aviltante criatura”. Esse exemplo serve para mostrar que
práticas modernas comuns no meio gay, como é o caso do
uso de termos pejorativos como “bicha passiva” utilizado
pelos próprios homossexuais para se referir a outros com
sinal de evidente desprezo, tem causas bem mais anterio-
res do que se costuma pensar.
É seguro afirmar que este estereótipo supracitado do
homossexual é localizado ao longo dos séculos nas culturas
ocidentais. Contudo, o pensamento pós-estrutural tenta
(pelo menos teoricamente) não sustentar este arcabouço
despectivo da homossexualidade, um pensar pós-estrutu-
ral desarticula qualquer espécie de normatividade: sim,
pois o gesto reprovador do senso comum ao homossexual
de expressões afeminadas compele à elaboração de outros
modelos que deste se diferenciem. Novamente ancora-se
no pensamento de Foucault que vai enaltecer as diferenças:
pensar um “ser-gay” verbo, atuante, em construção, nunca
um “ser-gay” modelo substantivado, preso a esta ou aquela
época. Não se trata do homossexual libertar o desejo sexu-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 61


al das grades da repressão e das proibições, antes inventar
modalidades de prazer, de relações eróticas, de amizade e
vínculos polimorfos entre os corpos e as coisas.
A temática da amizade, como um modo de vida gay, vai
ocupar um lugar de destaque nos últimos trabalhos de Mi-
chel Foucault. Naquele período, o pensador francês pen-
sava ser necessário atualizar aquela relação de philia que
o vínculo afetivo e intersubjetivo da amizade representava
na Antiguidade greco-latina. Pensar a amizade no contexto
moderno não como aquele modelo que o cristianismo veio
a substituir, mas como uma alternativa ético-política na
procura de novas formas de subjetividade (1999).
Pode ser que o infortúnio de sua morte seja responsável
por isso, mas o fato é que Foucault centralizou a proble-
matização da amizade na questão homossexual. Mesmo se
voltando para um tipo específico de relação, ele não per-
deu de vista a importância do relacionamento com o outro.
“Sem a presença do outro não se pode produzir nenhum
auto-relacionamento satisfatório: o cuidado de si preci-
sa do outro”. É bom saber que para ele essa relevância do
outro não se restringe à dinâmica conceitual da sociedade
industrial moderna: classe, família, profissão, matrimônio,
sexualidade. Esta forma de organização social estaria supe-
rada por novas formas de relações.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 62


Nesse sentido, abre-se para outras formas de viver, “no-
vas formas de relações, de amizades nas sociedades, a arte,
a cultura de novas formas que se instaurassem por meio de
nossas escolhas sexuais, éticas e políticas”, (1984).
Dentro dessas novas construções sociais e subjetivas, a
homossexualidade está numa condição potencialmente pri-
vilegiada por se organizar fora das relações estabelecidas
pela heterossexualidade. Para Ortega (1999), as relações de
amizade homoafetiva representam uma forma de se esquivar
das convenções sociais. Para ele a amizade tem uma função
compensadora, pois age entrelaçando, integrando, estabili-
zando e igualando. Esse aspecto compensatório da amizade
não iria fascinar tanto a Foucault quanto o seu caráter trans-
gressivo aos modos de relações institucionalizados, o que a
torna inevitavelmente em um tipo de relação de poder, pois
quando a amizade homoafetiva se torna uma resistência a
um modelo de relação, ela está na realidade sendo parte de
uma estratégia de poder, ou seja, como um ponto de resis-
tência, a amizade se apoia na situação a qual combate.
Quando Michel Foucault propõe a amizade e a homos-
sexualidade como novos modos de vida, não está propondo
uma cultura homoafetiva focada na liberação do desejo ou
na busca da própria identidade sexual:

Capa - Expediente - Sumário - Autor 63


Um modo de vida pode ser partilhado por indivídu-
os de idade, estatuto e atividades sociais diferentes.
Pode dar lugar a relações intensas que não se pare-
cem com nenhuma daquelas que são instituciona-
lizadas e me parece que um modo de vida pode dar
lugar a uma cultura e a uma ética. Ser gay é, creio,
não se identificar aos traços psicológicos e às más-
caras visíveis do homossexual, mas buscar definir e
desenvolver um modo de vida. (FOUCAULT, 1981
apud CARVALHO, 2008)

Sobre a ideia de uma “liberação” do desejo homosse-


xual, o filósofo francês considerava desnecessária, pois
estaria apenas se conformizando ao modelo científico de
investigação da homossexualidade que a vê como algo a ser
descoberto; Foucault preferia vê-la como algo a ser cons-
truído. É como uma forma de construção de si, que este
autor passou a perceber a cultura sadomasoquista (S/M),
bastante difundida naquele momento na comunidade gay
masculina de São Francisco. Para ele, a prática S/M é uma
estratégia contra o dispositivo da sexualidade, uma vez que
possibilita desenvolver uma erótica não orientada para o
sexo (1999). É um empreendimento criativo que o filósofo
chama de “dessexualização do prazer”.

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“A idéia de que o prazer físico provém do prazer sexual
e a ideia de que o prazer sexual é a base de todos os praze-
res possíveis, penso, é verdadeiramente algo de falso [...]
podemos produzir prazer a partir dos objetos mais estra-
nhos, utilizando certas partes do corpo, nas situações mais
inabituais etc” (1984). Esse pensamento foucaultiano de
desgenitalização do prazer o fez pensar no S/M como uma
forma de erotização das relações de poder ao mesmo tempo
que é, nas palavras de Ortega: “uma ‘metáfora’ da relação
de amizade, entendida como um jogo intenso em que as re-
gras são estabelecidas pelos parceiros no momento mesmo
de jogar e são apenas válidas para esse jogo”.
A amizade representa uma procura e uma experimen-
tação de novas formas de relacionamento e de prazer; uma
forma de respeitar e intensificar o prazer próprio e do ami-
go. Como o sadomasoquismo, é um tipo de encontro atra-
vessado por relações de poder, mas que não se transforma
num estado de dominação, pois prima por uma reciproci-
dade simétrica, igualdade, espontaneidade, controle inte-
rativo e não fixação num contexto determinado (1999).
Esse aspecto experimentacional da amizade, que cria
formas de existência, encontra na figura do homossexual –
ser em devir – o ponto ideal de realização. Foucault diz que
o fato de terem de inventar suas formas de se relacionar,

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os homossexuais desenvolvem novos arranjos, baseados
sobretudo na amizade. Afinal, no modelo heterossexual a
relação é facilitada pelas instituições que a faz funcionar,
mas quanto a dois homens? Que códigos têm para se co-
municar? Como lidar com a diferença? “Estão um em fren-
te ao outro sem armas, sem palavras convencionais, sem
nada que os tranqüilize sobre o sentido do movimento que
os leva um para o outro. Terão que inventar de A a Z uma
relação ainda sem forma que é a amizade: isto é, a soma de
todas as coisas por meio das quais um e outro podem se dar
prazer” (FOUCAULT, apud MARTINS, 2007).
Por fim, do pensamento foucaultiano sobre a homos-
sexualidade como um modo de vida baseado na amizade,
vale reforçar seu potencial para desestabilizar os tipos de
relações convencionais e os modelos institucionalizados: a
homossexualidade deixa de ser um tipo de prazer imediato,
cria-se uma nova corporeidade erótica, deve-se buscar um
devir homossexual, quer dizer, um modo de vida, uma esté-
tica da existência; diferentemente de uma insistência com
que algumas ciências levam os indivíduos à luta pela deci-
fração e consequente delimitação de uma identidade ho-
mossexual. Na esteira do pensamento de Michel Foucault,
definir categorias e identidades homossexuais é um passo
para a mesma norma que define os modelos universais.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 66


5. O queer é isso?

S eguindo o raciocínio do tópico anterior, Foucault defen-


de o uso da sexualidade para se chegar a uma multipli-
cidade de relações. Vê-se nisso o aspecto altamente trans-
formador da homossexualidade, que pode ser produzida
num cuidado de si desatento ao heterossexismo dominan-
te. A partir disso, buscar-se-á uma articulação da Teoria
queer com os estudos foucaultianos. O pensador francês é
a principal referência para os estudiosos dessa teoria, pois
parte dele o pensamento que as palavras instituem “verda-
des”, ou “efeitos de verdade”, criam modelos, subjetivida-
des, adéquam indivíduos; que não se nasce isto ou aquilo,
mas que se constrói como tal. As palavras que formulam
discursos, que por sua vez autorizam práticas, que delegam
poder, poder que cria outros discursos etc.
Uma vez idealizada a partir disso, fica patente a inquie-
tação da teoria queer com a relação entre o poder e a pala-
vra. Dentro desse entendimento, aquilo que se imagina ser
o que se tem de mais essencial (a identidade), nada mais
é que uma construção. Esta corrente teórica busca a prin-
cípio problematizar as questões ligadas a gênero, sexuali-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 67


dade e identidade, ultrapassando o paradigma separatista
do binômio que dicotomiza masculino/feminino, hétero/
homo. Ríos (2007) afirma que Foucault já mostrava como a
oposição homossexual/heterossexual tomou corpo por vol-
ta do século XIX quando as relações sexuais entre pessoas
do mesmo sexo deixaram de ser atos proibidos e firmaram-
se como funções estáveis da identidade sexual cuja origem
mudaria com a criação da heterossexualidade.
Considerando a “identidade” como um ideal normativo
ao invés de uma característica descritiva da existência, Ju-
dith Butler (2008) observa que a matriz cultural, por inter-
médio da qual a identidade de gênero se torna inteligível,
exige que certos tipos de “identidade” não possam “existir”
– por exemplo, aquelas em que as práticas do desejo não
“decorrem” nem do “sexo” nem do “gênero”. Como deno-
minar então o travesti que se relaciona sexualmente com
uma mulher transexual ou mesmo com uma lésbica? E de
fato é necessária alguma denominação?
Ao questionar estes conceitos, a Teoria queer passou a
incomodar alguns grupos militantes que sempre atuaram
baseados em noções cristalizadas em torno das temáticas
sexuais. Mesmo assim, o termo queer “com toda sua carga
de estranheza e de deboche, é assumido por uma vertente
dos movimentos homossexuais precisamente para caracte-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 68


rizar sua perspectiva de oposição e de contestação”. Como
dito por Martins: “Ela retira qualquer sujeito de sua zona
de conforto em relação à orientação sexual e identidade de
gênero, evidenciando que qualquer definição – de homem,
de mulher, de hétero, de gay, de bissexual, de trans... – são
narrativas que alocam os sujeitos em nichos pré-construí-
dos” (2009). Os LGBTs, por sua vez, defendem que se não
há uma identidade coletiva compartilhada não há um mo-
vimento social.

A capa. Ed. 24 - 2009

Capa - Expediente - Sumário - Autor 69


Por entender que a lógica binária que organiza a sexua-
lidade não dá conta do dinamismo e da fluidez desta, uma
das propostas da teoria é exatamente a ampliação do que
se compreende por sexualidade, bem como tentar quebrar
as barreiras da disciplinaridade. Nesse intuito, a proposta
queer tem se deslocado do espaço acadêmico para dá nome
a uma multiplicidade de iniciativas no movimento social,
no mercado, no cenário cultural alternativo e na mídia,
como nas publicações voltadas ao público LGBTs em que a
temática queer tem estado na pauta.
Depois das referências teóricas de Michel Foucault, os
estudos queers teriam encontrado na crise do movimento
homossexual nos anos 1980, as condições ideológicas ide-
ais para o seu surgimento logo em seguida. Sobre a crise
da identidade homossexual, em seu estudo sobre Foucault
e a condição gay, Ríos (2007) aponta que depois do movi-
mento de afirmação sexual do final década de 70 do último
século, vieram os conflitos ideológicos e de gênero, quando
certas sexualidades singulares sem identidade forte (bis-
sexuais, transexuais, sadomasoquistas, transgêneros e ou-
tros) reivindicavam como tais a assimilação pela sociedade
tal como a estratégia gay/lésbica.
A expressão queer (de origem inglesa, significa estra-
nho, excêntrico, incomum) foi usada em meados do século

Capa - Expediente - Sumário - Autor 70


XX para referir-se aos homossexuais, sobretudo os mas-
culinos – seria em português algo como o vulgar viado ou
bicha. Hoje, a palavra está diretamente associada ao uni-
verso LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transe-
xuais) como sinônimo aproximado de qualquer sexualida-
de avessa ao heterocentrismo. Se antes era utilizado como
forma de inferiorizar os desviantes da heteronormativida-
de, tornou-se então um termo inclusivo, abarcando iden-
tidades díspares de alguma forma marginalizados por sua
sexualidade.
Em conformidade com a ideia foucaultiana de que o
sexo é uma normatividade de um “ideal regulatório” da ci-
ência ocidental, Butler pensa a Teoria queer por um viés
político ao abrir condições para um exercício livre da se-
xualidade. Esta autora entende que as normas regulatórias
do sexo têm um caráter performativo e isso determina e
molda comportamentos. O que consolida a heterossexua-
lidade, por exemplo, é uma performance reiterada desse
modelo de sexualidade através do corpo (2008, p.201). As-
sim se constituem pretensas identidades sexuais:

Se os atributos e atos do gênero, as várias manei-


ras como o corpo mostra ou produz sua significação
cultural são performativos, então não há identida-
de preexistente pela qual um ato ou atributo possa
Capa - Expediente - Sumário - Autor 71
ser medido; não haveria atos de gênero verdadeiros
ou falsos, ou reais ou distorcidos, e a postulação de
uma identidade de gênero verdadeira se revelaria
uma ficção reguladora.

Como explica Louro (2004), o termo performance é um


empréstimo que Judith Butler faz ao conceito linguístico de
performatividade, para afirmar que a linguagem que se refe-
re aos corpos ou ao sexo não faz apenas uma constatação ou
uma descrição dos mesmos, mas no instante mesmo que os
nomeia, constrói, “faz” aquilo que nomeia, isto é, produz os
corpos e os sujeitos. Se é por meio de uma performance so-
cial contínua que se criam noções como a de um sexo essen-
cial, masculinidade, feminilidade verdadeiras ou permanen-
tes, para a teórica tudo funciona então “como parte de uma
estratégia de ocultar o caráter performativo de gênero e as
possibilidades performativas da proliferação das configura-
ções de gênero fora das estruturas restritivas da dominação
masculinista e da heterossexualidade compulsória”.
O pensamento queer que sustenta a ideia de perfor-
mance juntamente com própria inspiração para subver-
ter as normas de gênero e de corpo nos leva à imagem de
um símbolo da cena artística brasileira cuja característica
maior é a subversão. Impossível não ver em Ney Matogros-
so a expressão própria do sujeito queer: sem alternativa
Capa - Expediente - Sumário - Autor 72
passada nem localização presente. Artisticamente, sua per-
formance sempre transgrediu os padrões que inventam um
modelo (performático) de corpo masculino e feminino. Sua
linguagem cênica embaralha as territorialidades próprias
para uma performance da masculinidade.

Capa do DVD Inclassificáveis

Capa - Expediente - Sumário - Autor 73


Historicamente, a posição de Ney Matogrosso no que
respeita a uma política da sexualidade, foi menos de as-
sumir uma bandeira ou condição homossexual e mais em
manter uma certa ambiguidade sexual. Sua estratégia de
certo modo perturba e incomoda uma sociedade ávida
por posturas categorizantes por parte dos sujeitos da pró-
pria sexualidade. Assim como a teoria queer, a proposta
do artista com o show inclassificáveis sugere as múltiplas
possibilidades do ser, desconstrói o lugar-comum (como é
possível um senhor com quase 70 anos demonstrar tanto
erotismo e sensualidade?), abre fendas na rede histórico-
discursiva que inventa o sexo.
Num texto intitulado As Artes da Tirania: Sexo, Fou-
cault e Teoria Queer, Adriano de Leon (2008), declina a Te-
oria queer a partir de cinco ideias centrais: I- As identidades
são sempre múltiplas; II- Qualquer identidade é arbitrária,
instável e excludente, uma vez que implica o silenciamento
de outras experiências de vida; III- O não abandono total da
identidade enquanto categoria política, mas a construção de
uma cultura onde a diversidade é acolhida; IV- Desafiar o
regime sexual que coloca as categorias hétero e homo como
pedras angulares das identidades sexuais; V- proposta de te-
orização geral sobre a sexualização de corpos, desejos, ações,
identidades, relações sociais e cultura.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 74


Considerar o papel das relações sociais, possibilita pen-
sar em uma comunidade queer, ou como é mais comum,
numa cultura queer. Queer culture is not limited to queer
sex. Cultura queer, para os teóricos aqui já citados, não se
limita a sexo queer, mas Queer culture, from an ideologi-
cal standpoint, represents the queer community and its
arts, lifestyles, institutions, writings, politics, relationships
and everything else encompassed in culture.a partir de uma
perspectiva ideológica, que representa a comunidade queer
e as suas artes, estilos de vida, instituições, obras, política,
relações e tudo mais que a cultura englobada deslocar das
fronteiras destas construções culturais sobre a sexualidade.
Na tentativa de abreviar esta noção sobre a Teoria que-
er, é pertinente mostrar como Guacira Lopes Louro traça
de modo prático e descontraído uma definição do que seja
esta teoria :

A moral não é queer. Nem a lei. Nem o direito.


Isto é certo. Mas a certeza tampouco é queer. O go-
verno nunca é queer. Mas dizer “nunca” não é nada
queer. Nada? Cuidado! O gay talvez seja queer. Ah,
“talvez” é sempre queer. Sempre? Não, isso não é
queer. Mas deixemos de tanta cautela (isso sim, é
queer!) (...) A direita nem precisa dizer: é justamen-
te tudo o que o queer não é. Mas cuidado. A esquer-

Capa - Expediente - Sumário - Autor 75


da até pode ser. Mas se chega ao governo, bye, bye
queer. O capital, é ocioso dizer, não é. Dono de ban-
co até pode ser gay, mas queer é que não será. Ope-
rário (como em “proletários do mundo, uniu-vos”)
até pode ser. Mas se vira sindicalista aí já fica mais
difícil. Se o marxismo é? Vamos deixar logo claro
(mas cuidado com a clareza: luz demais espanta o
queer): os “ismos” são todos irrecuperáveis para o
queer. O demônio, ninguém é mais queer do que
ele. Já o outro, sei não. Tão severo, tão justiceiro,
que deixa a gente em dúvida. (LOURO, 2004).

Para a autora, “o grande desafio não é apenas assumir


que as posições de gênero e sexuais se multiplicaram e,
então, que é impossível lidar com elas apoiados em es-
quemas binários; mas também admitir que as fronteiras
vêm sendo constantemente atravessadas e – o que é ainda
mais importante – que o lugar social no qual alguns sujei-
tos vivem é exatamente a fronteira”. 

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6. Outras Palavras

N orteando-se pelos preceitos teóricos propostos por


Michel Foucault, com ênfase nas discussões em torno
do sujeito, do discurso e do poder nos é possível aqui fazer
algumas derradeiras considerações: dentro de uma pers-
pectiva pós-estruturalista, Foucault ao tratar das relações
homoafetivas o fez de modo genealógico buscando ligar os
diversos momentos sócio-históricos que abrigaram esse
modo de existência. Primeiro o filósofo nos acercou da cul-
tura clássica greco-romana onde as relações afetivas entre
homens eram consentidas, apesar de responderam a uma
liturgia social.
Posto que é uma produção histórica, e consequente-
mente discursiva, a invenção da homossexualidade é um
acontecimento datado do século XIX. Antes disso, as cul-
turas ocidentais experienciaram, numa descontinuidade
histórica, estágios civilizatórios que engendraram seus
próprios discursos sobre as diversas práticas sexuais em
par com um conjunto de “códigos” com regras e valores
próprios. Com os antigos, nasceu a preocupação particular
com a ética de si; o cuidado para que o prazer corporal não

Capa - Expediente - Sumário - Autor 77


tomasse conta da personalidade humana e assim fugisse ao
controle da razão.
Ainda que numa visão platônica mais particular o amor
apaixonado entre duas pessoas do mesmo sexo pudesse
servir para objetivos sociais importantes além da procria-
ção como a educação e o trabalho, o grande temor era com
a possibilidade de que um dos amantes (no caso de dois
homens) viesse a adquirir uma postura afeminada dentro
da relação. À luz daquela ética, ser passivo no ato sexual
implicava sujeição, dominação, era ser subjugado. Tais
condições só diziam respeito às mulheres e aos escravos;
jamais os homens livres.
Passando às culturas cristãs da Idade média, a homos-
sexualidade ganhou uma couraça moralizante. Dentro da
moral cristã, o sexo serviria para a propagação da espécie
e esta estava sempre sobreposta ao indivíduo. A este, ca-
bia dizer (ao mesmo tempo que devia “zelar”) da própria
sexualidade. O discurso e o poder se fundem na figura da
autoridade religiosa que prega na defesa de uma sociedade
heteronormatizada. A produção discursiva que afirma uma
lei natural, e divina, para as práticas sexuais vai condenar
os atos homossexuais: são atos desde sempre errados, pois
fogem à ordem do mundo heterossexual, independente de
haver uma predisposição subjetiva para estes atos.

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Entre os séculos XVII e XX, a Teologia moral cristã jun-
tamente os domínios científicos da Medicina, do Direito,
da Sociologia e da Economia foram responsáveis pelas mu-
danças nas relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo
que ocorreram, como resultado da propagação de novas
relações sociais. Um olhar panorâmico sobre estes quatro
séculos na história ocidental nos permite perceber como a
sexualidade e a cultura são interligadas.
Naquele período, as práticas sexuais que não se confor-
mavam ao modelo reprodutor heterossexual cristão foram
minuciosamente catalogadas pela Medicina. Toda sorte de
perversões deveria ser curada. Aos indivíduos eram incor-
porados “desvios” que necessitavam ser tratados ou puni-
dos. Para isso, uma ação médico-jurídica em conjunto se
mostrava como a grande solução ortopédica a esses “desa-
justados” sociais. O corpo como o veículo que comporta a
linguagem pessoal foi o grande alvo desse olhar normatiza-
dor do Estado por meio da lei e da ciência.
Dentro da taxonomia das ciências psíquicas (psicologia,
psiquiatria, psicanálise) a homossexualidade apareceu como
uma manifestação da sexualidade, quando foi reduzida para
a prática de sodomia como uma espécie de androginia inter-
na, um hermafroditismo da alma. Se nenhum desses cam-
pos conseguiu homogeneizar a sociedade do ponto de vista

Capa - Expediente - Sumário - Autor 79


da sexualidade, pelo menos tentativas não faltaram a fim de
transformar comportamentos em categorias identitárias. As
ciências sociais entraram o século XX fazendo tal propósito
funcionar com formulação da noção de gênero.
A ideia de gênero está inscrita dentro de uma ordem
social que antecede o sexo e assim, limita as possibilida-
des de atuação deste. Com a categoria de gênero, toda a
multiplicidade que comporta a sexualidade fica restrita ao
masculino e ao feminino. Com isso, mesmo que os sujeitos
transgridam em suas orientações sexuais; gays, lésbicas,
bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros a noção de
gênero continua sendo binária. São estes modelos dicotô-
micos que a Teoria queer vem questionar.
Por fim, passados vários ciclos da representação do ho-
moerotismo na história do Ocidente, eis que a Economia
como a gênese do capitalismo, se apropria de toda a rede
discursiva produzida em torno da figura do homossexual e
a reorganiza no sentido de tornar este sujeito um elemento
produtivo dentro da engrenagem capitalista. Uma vez que
os anos de 1970 viram nascer o gay power com os filhos
de Stonewall, uma forma do mercado lucrar com isso foi
aproveitar o potencial consumidor deste grupo e inseri-lo
no circuito produtivo do mercado cultural, turístico, estéti-
co e tantos outros.

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Refazendo o trajeto histórico aqui proposto, o homos-
sexual traz na base de sua constituição discursiva um atra-
vessamento do laço erótico próprio do amor pelos rapazes,
tão exaltado entre os gregos e aceito pelos romanos. Junto
a isso, tem a moralidade pastoral do Cristianismo com sua
vontade de saber. Somado com a vontade de verdade sobre
as práticas sexuais que coroou toda a Modernidade. O dese-
nho pós-moderno que temos do homossexual é uma miríade
de posições e práticas subjetivas que traduz um pouco da di-
nâmica complexa das relações intersubjetivas da atualidade
e indicia sua inscrição no próprio trajeto histórico.

Capa - Expediente - Sumário - Autor 81


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JJ Domingos

É doutor em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba


(UFPB). Tem pesquisado sobre a produção discursiva da
mídia em torno da temática da homoafetividade. Graduou-se
em Letras pela Universidade do Estado do Ceará (UECE) e
especializou-se em leitura e produção de texto pela Faculdade
do Vale do Jaguaribe (FVJ), no mesmo Estado. Desde 2004 é
docente nas áreas de Língua Portuguesa e Inglês da rede pública
estadual cearense. Lançou pela Marca de Fantasia os livros O
discurso dos ursos: outros modos de ser da homoafetividade
(2010) e Linguagem e discurso na constituição do
sujeito (2014). É coautor das obras Práticas discursivas
contemporâneas: corpo, memória e subjetividade (2011) e
Práticas discursivas contemporâneas 2: corpo, identidade e
mídia (2012).

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JJ Domingos

DISCURSO, PODER E SUBJETIVIDADE


Uma discussão foucaultiana

Se fôssemos eleger o termo que melhor sintetiza as noções de


história, sujeito, discurso e poder dentro de uma perspectiva
foucaultiana, seguramente este termo seria Dispersão. O
pensamento de que estes conceitos não são mais “o lugar do
repouso, da certeza, da reconciliação, do sono tranquilizador”, e
sim categorias constituídas eminentemente por lutas e batalhas
discursivas é a espinha dorsal da obra de Michel Foucault.
Neste livro, tomamos a produção do francês a partir da História
da sexualidade para perceber como, de forma descontínua, a
história do Ocidente produziu discursos que têm servido de
âncora para a criação de diferentes subjetividades baseadas na
sexualidade. Dentre tais subjetividades, aquelas circunscritas
longe dos padrões heteronormativos são aqui nosso objeto.

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