Você está na página 1de 6

A organização dos estudos:

algumas diretrizes para leitura analítica de textos e elaboração de fichamentos,


resumos e resenhas

Prof. Fabio de Barros Silva


DFIME/UFSJ

1. Objetivos da leitura analítica como método de estudo

– Favorecer a compreensão global do texto.


– Treinar para a compreensão e interpretação crítica dos textos.
– Auxiliar no desenvolvimento do raciocínio lógico.
– Fornecer instrumentos de trabalho intelectual desenvolvido nos seminários, no estudo
dirigido, no estudo pessoal e em grupos, na confecção de resumos, resenhas, relatórios,
etc.

2. Sobre as etapas e procedimentos de leitura

O Quadro I procura discriminar as etapas e os procedimentos de cada um dos


cinco níveis de leitura indicados por Severino (2008). É importante destacar que a
divisão estabelecida cumpre apenas um objetivo didático. Isto significa que leitores mais
experientes conseguirão realizar três ou quatro etapas ao mesmo tempo, por exemplo.
Os menos experientes podem, numa primeira leitura, cumprir as duas primeiras –
textual e temática – com facilidade. Mas é sempre bom lembrar que isto dependerá,
também, da complexidade do texto estudado, o que nos leva a outra questão.
Existem diferentes gêneros textuais. Sem entrarmos em maiores detalhes a este
respeito, basta assinalar que, por exemplo, não se lê um texto de filosofia como se lê uma
notícia de jornal. Numa notícia de jornal, por exemplo, o autor pode simplesmente
limitar-se à apresentação do fato sem indicar explicitamente qual a sua posição a
respeito. O texto filosófico, quase sempre, implica o posicionamento do autor diante do
problema examinado. Este posicionamento apoia-se em argumentos que nos oferecem
razões para acreditar na posição por ele assumida. Por isso, ao estudar um texto
1
filosófico é preciso identificar, claramente, qual a posição do autor e que argumentos ele
apresenta para fundamentá-la. Ao depois, espera-se que possamos nos posicionar
criticamente diante da posição defendida pelo autor. Mas, vamos ao quadro.

Quadro I:
Diretrizes para a leitura, análise e interpretação de textos

Etapa Procedimentos

 A primeira leitura do texto deve ser realizada com o objetivo de


buscar uma “visão panorâmica”, “uma visão de conjunto do
raciocínio do autor”. Os elementos básicos do texto devem ser
esclarecidos a fim de propiciar uma compreensão efetiva dos
argumentos e da posição do autor.

 Entre os elementos básicos a serem investigados,


especialmente quando se trata de um texto de Filosofia, estão os
seguintes:

a) Quem é o autor? (Investigação acerca do contexto vivido


Análise textual pelo autor do texto, suas preocupações teóricas, influências
recebidas e principais obras).

b) Vocabulário (Levantamento e busca de esclarecimentos a


respeito de termos, conceitos e categorias presentes no texto)

c) Referências a fatos históricos, autores e doutrinas (Caso


o texto faça referência a estes elementos, o que acontece com
alguma frequência em textos de Filosofia, é importante buscar
subsídios para compreendê-los).

 Na busca por esclarecimentos relativos a estes elementos


básicos, podem ser consultadas obras de referência das
diversas áreas do conhecimento: dicionários de línguas,
dicionários especializados, enciclopédias, manuais didáticos,
etc.

2
 Após o exame dos elementos básicos do texto, deve-se,
efetivamente, buscar a “compreensão da mensagem global”, a
apreensão do conteúdo do texto. Nesta etapa, as questões
básicas que devem ser examinadas são as seguintes:

a) Qual o tema/assunto do texto? (É importante lembrar


que o tema vincula-se sempre a uma perspectiva mais ampla
Análise temática e que o título do texto nem sempre traduz fielmente o assunto
do texto.)

b) Qual é o problema examinado pelo autor? (Embora


relacionado diretamente com o tema, o problema assume um
contorno particular, específico. Identificar o problema é
identificar a questão que provocou o autor do texto, a
dificuldade a ser enfrentada.)

c) Qual a posição/tese do autor diante do problema?


(Considerando os argumentos e o raciocínio apresentados no
texto, deve-se identificar e compreender o que o autor
pretende demonstrar, ou seja, que posição ele assume diante
do problema que examinou. Ao identificar a posição do autor,
identifica-se, ao mesmo tempo, a ideia central do texto,
distinguindo as ideias principais e as secundárias.)

 A interpretação caracteriza-se como uma tomada de posição


do leitor diante dos argumentos e ideias expostos no texto. Ao
interpretar, o leitor transcende a mensagem do texto, lê nas
entrelinhas e procura dialogar com o autor submetendo-o à
crítica. Em virtude disto, esta é uma das etapas mais difíceis da
análise de textos, pois supõe maturidade intelectual, formação
Análise interpretativa específica e instrumentos culturais suficientes para apreciação
da posição do autor, sua originalidade e seus limites.

 Em que pese o fato de exigir amplos conhecimentos e posse de


instrumentos de análise, o ato de interpretar, que envolve
questionamento e posicionamento diante dos problemas
examinados, sempre poderá ser realizado se os objetivos da
leitura forem bem delimitados considerando o nível de
exigência, maturidade e conhecimentos prévios exigidos do
leitor para a interpretação do texto.

3
 Após a análise e a interpretação do texto, sugere-se o
levantamento de temas e problemas que podem suscitar o
debate, a reflexão e a pesquisa. Esta etapa caracteriza-se pela:

a) discussão em grupo;
Problematização
b) realização de seminários;
c) atividade de pesquisa.

 Espera-se, assim, que haja aprofundamento do tema e do


problema estudado. É bom salientar que tais atividades são
essenciais para a atividade filosófica e científica.

 Esta etapa corresponde à elaboração de um texto que procure


sintetizar o que foi estudado e discutido ao longo da atividade de
Síntese análise do texto. Trata-se de um procedimento importante para
verificação do aproveitamento da leitura e do envolvimento do
estudante na atividade.

Fonte: Severino, 2008, p. 49-66.

3. Fichamento, resumos e resenhas

Dentre as produções que resultam dos estudos no âmbito acadêmico os


fichamentos, resumos e resenhas dos textos analisados são as mais comuns. No Quadro
II, procuramos definir e apresentar as principais características destas produções.

4
Quadro II
Fichamento, resumo e resenha
 O fichamento consiste em notas das referências
bibliográficas, das ideias centrais, de citações e passagens
importantes, de definições, de vocabulário técnico, etc.
levantados durante o estudo de um texto. Trata-se de
importante procedimento de pesquisa, já que, por meio dele,
realiza-se a documentação dos estudos, isto é, o registro das
informações levantadas.

 No âmbito da universidade, os professores costumam


solicitar fichamentos dos textos a serem estudados. Seguindo
os procedimentos de leitura que já destacamos, a elaboração
do fichamento torna-se uma atividade simples de fazer,
desde que algumas regras sejam observadas:

1. Prenda-se ao essencial do texto: identifique a ideia central.

Fichamento 2. Sublinhe o texto destacando o vocabulário específico e as


passagens fundamentais para a compreensão da mensagem.

3. Anote o que é fundamental obedecendo à sequência lógica


do texto.

4. Cuide para que os argumentos apresentados no texto


estejam completos e claros no fichamento. Não omita algum
dado importante para a compreensão geral da mensagem do
texto.

5. Transcreva definições e passagens importantes do texto.


Ao transcrever (copiar) não se esqueça de colocar aspas.

6. Anote as páginas de onde foram extraídas todas as


informações. Isso facilita, caso haja a necessidade de voltar
ao texto.

7. Não se esqueça da referência bibliográfica (ABNT).

 O resumo é uma síntese das ideias apresentadas pelo texto e


resumir não é miniaturizar. Ao elaborar o resumo, o
estudante deverá redigir um novo texto, com as próprias
palavras, visando a apresentar as ideias e os argumentos do
texto original que foi estudado.
Resumo
 Entre o resumo e o fichamento há uma relação de
complementariedade. O fichamento pode ser compreendido
como uma etapa inicial de estudo de um texto; o resumo
permite ao estudante dar uma forma acabada, refinada às
informações que foram levantadas, expondo, por meio de
paráfrases, aquilo que foi estudado.

5
 A resenha é um texto que se caracteriza pela avaliação,
apreciação crítica e problematização. Não se limita, pois, a
informar, apresentar e caracterizar, mas deve, também,
submeter a exame o que foi apresentado.

 Trata-se de um tipo de texto que não se restringe à vida


acadêmica: críticos de arte, de literatura, cinema, teatro,
futebol, gastronomia, etc. publicam, diariamente, resenhas
em jornais, revistas, blogs, etc. Tais críticos, notem bem, não
se limitam à informação; procuram, além de informar, avaliar
e apreciar criticamente o objeto que estão examinando.

 No universo acadêmico, a resenha também se caracteriza por


apresentar, informar e avaliar criticamente artigos
científicos, livros publicados e relatórios de pesquisa. Trata-
Resenha se, portanto, de texto em que o pesquisador, como membro
da comunidade acadêmica e científica, avalia e procura
posicionar-se diante dos trabalhos de seus pares. Para isso, é
evidente, a experiência e a maturidade intelectual são
fundamentais.

 De acordo com Severino (2008, p. 204-206), as resenhas


podem ser classificadas da seguinte maneira:

1. A resenha informativa que se limita a expor o conteúdo


de um texto e, assim, aproxima-se do resumo.

2. A resenha crítica, por sua vez, caracteriza-se pela


manifestação sobre o valor e o alcance do texto analisado,
isto é, procura explicitar um posicionamento crítico.

3. A resenha crítico-informativa caracteriza-se por fundir


os dois tipos apresentados.

Fonte: Severino, 2008.

Para saber mais:

SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23. ed. rev. atual. São
Paulo: Cortez, 2008.

FRANÇA, Júnia Lessa; VASCONCELLOS, Ana Cristina. Manual de normalização de


publicações técnico-científicas. 8. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.