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OBRAS LITERÁRIAS

Nome:__________________________________________________ N.º:____________

Série: 3.ª Turma:__________ Turno:__________ Unidade: BJ____________________

O URAGUAI

BASÍLIO DA GAMA

FONTE: <https://www.travessa.com.br/o-uraguai/artigo/64dd75eb-1754-4ad8-
912a-e3968440eb3d>. Acesso em: 03/04/2019, às 14h30min.

1. O AUTOR

FONTE: <https://interna.coceducacao.com.br/ebook/pages/1229.htm>.
Acesso em: 03/04/2019, às 14h31min.

O URAGUAI 3
OBRAS LITERÁRIAS

José Basílio da Gama nasceu em 8 de abril de 1741, em uma cidade mineira hoje chamada
Tiradentes. O pai era um oficial militar português e a mãe, nascida em Sacramento – região importante no
desenvolvimento da obra –, era filha de um militar que comandou essa colônia e, por sua vez, da mesma
família do célebre navegador Vasco da Gama. Ainda que não fizesse parte da alta nobreza, Basílio da
Gama destaca-se pela origem ilustre.
Aos 16 anos, ingressou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, onde fez os primeiros estudos
para ingressar na Ordem, chegando aos primeiros votos. Destaque-se a importância que a Companhia de
Jesus tinha, à época, dado o trabalho voltado à educação desenvolvido pelos padres jesuítas em Portugal
e em suas colônias. Na mesma época em que Gama estudava com os padres, travou conhecimento com
a família do Brigadeiro Alpoim, que assim como os dois filhos haviam lutado contra as Missões jesuíticas,
o que se tornaria o assunto principal de O Uraguai.
Em 1760, Basílio da Gama desligou-se da ordem religiosa. Não se sabem os motivos, mas meses antes,
em 1759, os jesuítas foram expulsos dos territórios portugueses, uma das atitudes que fizeram parte da
política pombalina de modernização de Portugal. Embora não haja confirmação ou motivo declarado, para
alguns, o poeta desligou-se do universo religioso para não enfrentar problemas com o poderoso Pombal.
Gama viajou para a Itália, onde viveu por dois anos. Em Roma, frequentou os mais altos círculos literários,
sendo admitido na Arcádia Romana, onde adotou o pseudônimo pastoril de Termindo Sipílio. Por volta de
1768, retornou ao Brasil, onde tentou fundar, em Minas Gerais, uma academia similar à Arcádia Romana,
mas frustrou-se por não conseguir. Neste mesmo ano, o poeta viajou a Portugal, para cumprir os termos de
um decreto que o obrigava a se apresentar no reino, em virtude de suas ligações anteriores com os jesuítas.
Ao desembarcar, Gama foi preso e se tinha como certo seu degredo para Angola, mas, por algum motivo,
a decisão foi revogada. Não se tem certeza do porquê, mas a versão mais aceita é que ele teria escrito um
poema louvando o casamento da filha do Marquês de Pombal. Na verdade, o poema destaca sobremaneira
a figura do pai da noiva e suas atitudes que renovavam Portugal. Tenha ou não acontecido assim, o certo é
que Basílio da Gama caiu nas boas graças do Ministro e foi libertado da cadeia.
Em 1769 foi escrito e publicado o livro O Uraguai, considerado sua obra-prima. O enredo alinha-se
com a visão de mundo e com a política pombalina. Em 1774, o poeta começou a trabalhar diretamente
com o Marquês de Pombal, como secretário, o que o tornou, obviamente, um interlocutor privilegiado.
Mesmo com a queda de Pombal, em 1777, Basílio continuou trabalhando nos círculos mais altos do
poder, até sua morte, aos 53 anos, em 1795.
Gama, além de trabalhar na esfera administrativa, exerceu atividades artísticas com empenho:
traduziu textos do italiano e do francês, produziu poemas – como Quitúbia – e escreveu textos dramáticos
– que foram extraviados ou destruídos. Foi, ao longo da vida, alvo de muitas honrarias e de pequenas
regalias e imagina-se, sob o ponto de vista material, ter vivido uma vida amena.

“Leia também a página 101 do livro didático e resolva os exercícios 04, 10, 13, 14 e 17 da
unidade Arcadismo.”

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2. A OBRA

2.1. CONTEXTO

Para melhor entender a obra, é preciso resgatar o contexto em que ela se desenvolve. O pano de
fundo de O Uraguai é a Guerra Guaranítica (ocorrida entre 1754 e 1756), que derivou da assinatura do
Tratado de Madri. Esse conflito foi o responsável pela redefinição geopolítica do sul da América.
Já sabemos que o século XVIII é o período em que se desenvolvem as ideias do Iluminismo, por isso
ocorrem intensos debates intelectuais, muitas disputas no âmbito da política, além de haver um intenso
movimento de inovação em todas as demais áreas. Aqui no Brasil, nos anos 1750, temos uma ocupação
razoável nos estados do Nordeste, cuja riqueza constituía-se da cana-de-açúcar, além do início da
exploração de gado. O Rio de Janeiro é o porto por onde se escoam as riquezas do país, incluindo as do
solo de Minas Gerais. São Paulo começa a ganhar relevância em virtude das Bandeiras – movimento dos
bandeirantes que saíam a campo em busca de ouro e de índios para escravização –, o que promoveu
o traçado de novas rotas de comércio. O Sul, entretanto, tinha uma ocupação atípica: Portugal fundou
a cidade de Sacramento, o que incomoda a Espanha, que também reivindicava a colônia, devido à
localização estratégica da cidade. Portugal e Espanha se revezam na posse da colônia, sempre por meio
de conflitos e tratados, entre os quais, o Tratado de Madri.

Sete
São Nicolau
Povos
Santo Angelo
São Luis
Gonzaga São João Batista
São Lourenço São Miguel
São Borja Arcanjo

Territórios
pertencentes a
Portugal

Territórios
pertencentes à
Espanha

Linha de demarcação do
Tratado de Madrid (1756)

FONTE: <http://historiandonovestibular.blogspot.com/2014/09/historia-do-rio-grande-
do-sul-os-sete.html>. Acesso em: 03/04/2019, às 14h42min.

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Nesse contexto, encontramos ainda a presença dos indígenas, catequizados e manipulados pelos
padres jesuítas que viviam na região, cujo modelo socioeconômico – as reduções – divergia bastante do
que havia no restante do Brasil. As reduções eram aldeias em que os índios viviam sob a tutela dos jesuítas
e para eles produziam – erva-mate, gado, entre outros produtos. Catequizados e doutrinados, os gentios,
nômades por natureza, passaram a se fixar no que foram consideradas formas de “comunismo cristão”,
baseado em uma administração política bastante desenvolvida, com padres e índios compartilhando as
responsabilidades. Desse modo, os índios reduzidos viviam segundo os modelos europeus, deixando
de lado sua cultura, sua língua, sua religião, mas recebendo em troca proteção contra a escravização
e outras formas de violência. Constituem-se, assim, as Missões jesuíticas que, por mais de cem anos,
consolidaram-se como um sistema organizado, produtivo e próspero.
Em meados do século XVIII, no Sul do Brasil, havia, portanto, três forças: Portugal, Espanha e as
Missões – que, embora não tivessem autonomia política, representavam o poder da Companhia de
Jesus. Suspeitava-se, inclusive, que os jesuítas queriam fundar um império próprio, baseando-se no
sucesso do modelo das reduções indígenas. O Tratado de Madri, em 1750, estabeleceu, entretanto, que
os portugueses deixassem Sacramento – o que foi feito de imediato – e que os índios guaranis e os padres
abandonassem as Missões à margem esquerda do rio Uruguai – o que não ocorreu. Providenciou-se
assim, por parte dos países ibéricos, uma ação conjunta que garantisse a demarcação do território
segundo o que constava do tratado. Sem conseguir, entretanto, sucesso por caminhos diplomáticos,
passaram a ocorrer os conflitos, que servem de inspiração para Basílio da Gama escrever O Uraguai.

2.2. O POEMA

Gama escreveu 1 377 versos decassílabos brancos, distribuídos em 5 cantos, para contar a história
de Guerra Guaranítica, em que ibéricos lutaram pelo cumprimento do Tratado de Madri contra os índios
guaranis, encabeçados pelos jesuítas. O poema foi dedicado a Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
e oferecido a Sebastião José de Carvalho e Melo, então Conde de Oeiras e, posteriormente, Marquês
de Pombal. Além disso, o herói do poema é o executor da política de Pombal contra Sete Povos das
Missões, Gomes Freire de Andrade.
Outras personalidades históricas ganharam espaço no poema de Gama, como Cacambo e Sepé. Já
Lindoia, a triste viúva que busca a morte, é meramente ficcional.
Interessante observarmos ainda que o autor tratou de colocar notas de rodapé, algumas extensas,
com o objetivo de situar o leitor europeu no contexto em que se desenvolve a obra, o que a vincula a um
contexto realista. Era uma lembrança de que ali estava a ação real de jesuítas, que a política pombalina
era vivenciada, que a guerra vitimou ibéricos e indígenas, que houve perdas e danos para ambos os lados.
FISCHER, L. A. O Uraguai – seu autor, seu contexto, suas virtudes. (adaptado). Canto Primeiro

O eu lírico inicia descrevendo o espaço: inúmeras poças de sangue ainda quente revelam os corpos
de guerreiros mortos. Corvos se alimentam dos cadáveres.
Louvação a Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que subjugou os que se rebelaram contra os reis
da Europa. A ele o eu lírico pede proteção para que possa contar a história.
O Tratado de Madri é explicado e o general Andrade é retratado no momento em que aguarda condução
para as armas de guerra. Nesse momento, chega um índio mensageiro, que lhe entrega uma carta. A
correspondência avisa que o coronel espanhol Almeida encontra-se perto.

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Andrade, Almeida e seus comandados se encontram. Há um desfile das personalidades portuguesas


e espanholas encarregadas de dar cumprimento ao Tratado de Madri: Catâneo, Meneses, Alpoim (o
brigadeiro, cuja casa Basílio da Gama frequentava quando viveu no RJ) e os filhos, além de Mascarenhas
e Castro Morais.
Andrade atualiza os castelhanos a respeito das novidades e reitera a intenção de entregar Sacramento
aos espanhóis, como previsto no tratado, e assumir Sete Povos das Missões. Ele também relata que são
os padres jesuítas que fomentam os ataques e a resistência dos indígenas. Os religiosos afirmam que
os portugueses têm o diabo no corpo e que são todos feiticeiros. Assim, quando se mata algum luso, é
necessário separar a cabeça do corpo à distância de um palmo, de modo que não voltem a se unir. Os
selvagens faziam o que lhes era ensinado.
Os índios também adotaram a tática de exaurir as terras por onde passaram os exércitos, de modo a
não deixar pasto para os animais, o que, junto a uma enchente, levou Andrade a uma retirada estratégica.
Andrade encerra o relato com uma exortação que anima os homens que ali estão.

CANTO SEGUNDO

Os exércitos marcham por vários dias até que veem sinais de que o inimigo está por perto. Três dias
depois, topam com os índios em formação de guerra no topo de uma colina protegida.
Andrade tenta amistosamente se comunicar com os índios antes de apelar para a força bruta: liberta todos
os indígenas que seu exército havia capturado, não sem antes mandar vesti-los com roupas vistosas, como
os gentios gostavam. Libertos, os índios correm para sua gente, falando da generosidade do grande general.
Dois índios nobres descem a colina para conversar com o general português. São eles Sepé e
Cacambo. Este pede que Andrada os deixe permanecer na terra que lhes pertence por direito ancestral
e, dessa maneira, evite um banho de sangue.
O general reconhece a grandeza do cacique Cacambo, mas o alerta de que os índios estão sendo
enganados pelos padres e que seu rei não quer escravidão nem miséria para os selvagens, apenas quer
protegê-los, como pai de todos que é. Mas que os povos das Missões precisam entregar as terras e, caso
resistam, serão combatidos como rebeldes, pois o rei exige fidelidade de todos os seus súditos.
Cacambo resiste às tentativas de Andrade e lamenta a chegada das “gentes da Europa’. Sepé o
interrompe e encerra a conversa, afirmando que os índios desconhecem outra autoridade que não seja
do céu e pelas mãos dos padres. E termina afirmando “Enfim quereis guerra, e tereis guerra.”
Andrade presenteia os dois líderes com ricos presentes e se despedem, com Sepé prometendo usar
as flechas que recebera do general contra os inimigos ibéricos. Ouve-se a trombeta que anuncia a guerra.
Ao anúncio do combate, milhares de índios descem a colina, armados com seus arcos e flechas.
Nesse momento, aparece Baldetta, um jovem vaidoso e vazio, de família obscura – dizia-se ser filho do
padre Balda. Imprevidente, durante a batalha, o índio foi perseguido por um inimigo que por pouco não
lhe tira a vida. Baldetta foi salvo por Tatu-Guaçu.
O campo de batalha está cheio de mortos e de sangue e Andrade é declarado vitorioso, embora
alguns valorosos indígenas ainda resistam – Tatu-Guaçu, Caitutu (irmão de Lindoia) e Sepé, que foi
morto, lutando heroicamente, com um tiro no peito. Com a sua morte, a luta recrudesce e Cacambo salva
os índios que pode e se retira da batalha.

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A nota de rodapé de Gama diz: “ainda que os padres tenham armado os índios e feito quanto podiam
para os disciplinar, contudo estavam bem longe de poder resistir às tropas regulares. Era necessária
muita crueldade para entregar aqueles miseráveis à morte só por ambição e capricho.” (p. 77)

CANTO TERCEIRO

O general Andrade se compadece ao ver tantas mortes. Os exércitos se põem em marcha e caminham
por dias, encontrando campinas que foram queimadas, por prática indígena, de modo a manter a
fertilidade do solo. Mas agora, os incêndios têm outra razão: impor dificuldades aos inimigos, impedindo
que houvesse pasto para os animais.
À noite, na aldeia, Cacambo não consegue tirar da memória a morte de Sepé. O guarani, entre a vigília
e o sono, vê a triste figura do amigo morto e ouve-lhe as palavras:

Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,


Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, a nas átrias grutas
Tua fraqueza e desventura encobre.
Ou, se acaso inda vivem no teu peito
Os desejos de glória, ao duro passo
Resiste valeroso: ah tu, que podes.

Ao dizer isso, Sepé desaparece entre as nuvens. Cacambo acorda e sem perder tempo, dirige-se ao
acampamento dos inimigos e provoca um incêndio que se alastra com o vento. Embora violento, o fogo
não causa grande estrago em razão das providências tomadas pelo general.
Cacambo, entretanto, satisfeito com o que fizera, corre em busca do padre Balda para contar-lhe o
feito. Ocorre que o padre manda prender o índio e o isola, sem permitir que ninguém tivesse acesso a
ele, incluindo a linda e doce Lindoia. “[...] foi que Balda, engenhoso e sutil, quis desfazer-se da presença
importuna e perigosa do índio generoso.” (p. 91)
O prisioneiro morre após ingerir uma bebida que lhe foi oferecida pelo “santo padre” Balda. Lindoia é
consolada por Tanajura, que lê o futuro. A velha índia conduz a jovem viúva a uma gruta e lhe oferece a
visão de Lisboa agonizante e Portugal sustentando um peso insuportável sobre os ombros. Mas a jovem
vê descer do céu, numa nuvem branca, a figura do Conde de Oeiras, que promove o renascimento de
Lisboa das cinzas.
Agora Lindoia já sabe a verdade: foi o fanatismo dos portugueses que levou Portugal quase a perder-se.
Na sua visão, ela ainda vê a decadência do sistema que os jesuítas criaram e a vingança pela morte de seu
amado Cacambo. Em seguida ela cai no sono, que lhe permite por algum tempo esquecer de seus males.

CANTO QUARTO

Com as tropas salvas do incêndio provocado por Cacambo, Andrade se avizinha das Missões,
onde rechaçou os ataques dos índios, notadamente treinados e armados pelos jesuítas. Ultrapassado
esse obstáculo, os soldados encontram um lugar cheio de água, arvoredos e várias plantas, próximo à
povoação guarani.
Nesse momento, os índios estão reunidos em torno do padre Balda, que quer dar Lindoia em casamento
a Baldetta, que se apossou dos presentes que Cacambo recebera de Andrade.

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Aqui há o registro de alguns padres, descritos de maneira a ressaltar-lhes os aspectos negativos.


Além de Balda, encontram-se Tedeu e Patusca, no aguardo de Lindoia, já preparada anteriormente pelas
outras índias. A partir do verso 130 desse Canto, destacam-se os momentos em que o lirismo atinge o
ponto máximo na obra: Lindoia, recusando-se a se entregar a outro que não a seu amado Cacambo,
entra no bosque e faz com que uma serpente lhe fira o seio, causando-lhe a morte, para imensa tristeza
de seu irmão, Caitutu.
Padre Balda vê o triste espetáculo com indiferença. Seu olhar cala o choro e inibe os suspiros. O corpo
de Lindoia fica na mata, insepulto. O eu lírico estabelece uma relação entre a morte de Cleópatra e a de
Lindoia e promete que a pátria livre das injustiças será o túmulo da bela índia.
Começam a murmurar que foi Tanajura quem despertou em Lindoia a ideia daquela
morte e Balda, que aguardava um motivo para se livrar da feiticeira, incitou os índios a
castigá-la. Nesse momento, um índio chega correndo e avisa que os inimigos estão próximos. Antes
de fugir – agora é momento de salvar a própria pele – os padres ordenam que se coloque fogo em toda
aldeia, destruindo tudo o que haviam construído. O primeiro lugar que será incendiado é a choupana em
que se encontra presa Tanajura, cujos gritos de morte se escutam ao longe.
O general Andrade encontra cinzas, onde era um vilarejo. Os soldados só conseguem salvar o grande
templo, cuja suntuosidade causa admiração a todos e indignação ao grande general.

CANTO QUINTO

As pinturas na abóboda do templo chamam a atenção de todos: o artista desenhara vilas, cidades,
províncias e reinos, tudo subordinado à Companhia de Jesus, o que reflete a clara pretensão de espalhar
seu poderio pelo mundo.
Enquanto os homens admiram a pintura, Andrade planeja dar sequência à perseguição dos inimigos.
Tão logo amanhece, a tropa entra em uma aldeia e surpreende os padres Balda, Tedeu e Patusca, que
tentavam fugir em silêncio, relegando os índios à própria sorte.
Andrade dirige-se ao templo. Generoso, não permite maus-tratos e a todos trata com respeito. O eu
lírico assim encerra o poema:

Sossegado o tumulto e conhecidas Vai aos bosques de Arcádia: e não receies


As vis astúcias de Tedeu e Balda, Chegar desconhecido àquela areia.
Cai a infame República por terra. Ali de fresco, entre as sombras murtas,
Aos pés do general, as toscas armas Urna triste a Mireu não todo encerra.
Já tem deposto o rude americano, Leva de estranho céu, sobre ela espalha
Que reconhece as ordens e se humilha, Co’a peregrina mão bárbaras flores.
E a imagem de seu rei prostrado adora. E busca o sucessor, que te encaminhe
Serás lido, Uraguai. Cubra os meus olhos Ao teu lugar, que há muito te espera. (p. 135)
Embora um dia a escura noite eterna.
• Mireu: pastor árcade.
Tu vive e goza luz serena e pura.
GAMA, J. B. da. O Uraguai. Porto Alegre: L&PM, 2014.

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EXERCÍCIOS DE VESTIBULAR
1. (UFPR)

O Uraguai foi publicado pela primeira vez antes da independência do Brasil, em 1769, e narra as
disputas entre espanhóis e portugueses pelos territórios do sul do continente, envolvendo os índios e os
jesuítas. No fragmento a seguir, podemos conferir um trecho da fala do comandante português: O nosso
último rei e o rei de Espanha Determinaram por cortar de um golpe, Como sabeis, neste ângulo da terra,
As desordens de povos confinantes, Que mais certos sinais nos dividissem.
(GAMA, Basílio da. Canto Primeiro. O Uraguai. Porto Alegre: L&PM, 2009, p. 47.)

O talento de Basílio da Gama, que transforma o árido assunto em matéria literária, recebe, cem
anos depois, o elogio de Machado de Assis. Ao compará-lo com seu contemporâneo, Tomás Antônio
Gonzaga, o escritor afirma: “Não lhe falta, também a ele, nem sensibilidade, nem estilo, que em alto grau
possui; a imaginação é grandemente superior à de Gonzaga, e quanto à versificação nenhum outro, em
nossa língua, a possui mais harmoniosa e pura”.
(MACHADO DE ASSIS. A nova geração. In. Obras completas. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1973. p. 815).

Sobre o poema de Basílio da Gama, considere as seguintes afirmativas:

1. O contexto histórico trabalhado no poema de Basílio da Gama é fundamental para o seu entendi-
mento: a descentralização do poder colonial, protagonizada pelo Marquês de Pombal, e a disputa
de territórios coloniais entre Espanha e Portugal, mediada e pacificada pelos jesuítas, na segunda
metade do século XVIII.
2. Ao longo dos cinco cantos de O Uraguai, compostos em decassílabos sem rima, podemos perceber
a marca da epopeia, na narração da guerra e dos feitos dos heroicos portugueses, e a presença da
sátira, na caricatura dos jesuítas, particularmente na figura do Padre Balda.
3. O grande destaque dado aos índios e à defesa da sua terra, à exaltação lírica da natureza e à
centralidade do par amor/morte, presente na relação de Lindoia e Cacambo, deram ao poema de
Basílio da Gama o lugar de inaugurador do romantismo em todos os manuais de história da litera-
tura brasileira.
4. Para narrar acontecimentos reais da ação de portugueses e espanhóis na disputa dos territórios
delimitados pelo rio Uruguai, que hoje correspondem ao noroeste do Rio Grande do Sul e ao norte
da Argentina, Basílio da Gama toma o cuidado de inserir apenas personagens ficcionais no seu
poema, para não se comprometer. Assinale a alternativa correta.
a) Somente a afirmativa 1 é verdadeira.
b) Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
c) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
d) Somente as afirmativas 1, 3 e 4 são verdadeiras.
e) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.

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2. (UM-SP – adaptada) A respeito do poema O Uraguai, é correto afirmar que

a) o herói do poema é o general Diogo Álvares, responsável pela primeira ação colonizadora na região
hoje conhecida como Missões, no Rio Grande do Sul.
b) Lindoia comete suicídio tão logo sabe da morte de Cacambo, amendrontada pela possibilidade de
ser entregue aos generais portugueses.
c) escrito em plena vigência do Barroco, filiou-se à corrente conceptista, como se observa pelo desen-
volvimento lógico dos acontecimentos e pela objetividade narrativa.
d) os jesuítas aparecem como vilões enganadores dos índios, o que corrobora a política pombalina de
modernização de Portugal.
e) segue a estrutura épica camoniana, com versos decassílabos e estrofes em oitava rima nos dois
primeiros cantos. Nos demais, o poema apresenta versos brancos e livres.

3. (UFSM – adaptada) O poema épico O Uraguai, de Basílio da Gama, é uma

a) composição que narra as lutas dos índios de Sete Povos das Missões, no Uruguai, contra o exército
espanhol, sediado na região para colocar em prática o Tratado de Madri.
b) das obras mais importantes do Arcadismo no Brasil, pois foi a precursora das Obras Poéticas de
Cláudio Manuel da Costa.
c) exaltação à terra brasileira, que o poeta compara ao paraíso, o que pode ser comprovado nas des-
crições, principalmente da região de Sacramento.
d) crítica a Diogo Álvares Correia, misto de missionário e colono português, que comanda um dos
maiores extermínios de índios da história da região Sul do Brasil.
e) exaltação à índia Lindoia, que morre após Diogo Álvares decidir-se por Moema, que ajudava os
espanhóis na luta contra os índios.

4. (UFSM – adaptada) O momento da refeição sempre foi uma ocasião para conversar. Em O Uraguai,
de Basílio da Gama, o narrador aproveita o banquete dos oficiais, que se segue ao desfile das tropas
portuguesas, no Canto I, para apresentar as causas da guerra, conforme mostra o excerto a seguir.

[...]
Convida o General depois da mostra,
Pago da militar guerreira imagem,
Os seus e os espanhóis; e já recebe
No pavilhão purpúreo, em largo giro,
Os capitães a alegre e rica mesa.
Desterram-se os cuidados, derramando
Os vinhos europeus nas taças de ouro.
Ao som da ebúrnea cítara sonora
Arrebatado de furor divino
Do seu herói, Matúsio celebrava
Altas empresas dignas de memória.

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OBRAS LITERÁRIAS

[…]
Levantadas as mesas, entretinham
O congresso de heróis discursos vários.
Ali Catâneo ao General pedia
Que do princípio lhe dissesse as causas
Da nova guerra e do fatal tumulto.
GAMA, B. da. O Uraguai. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.

 om base na leitura do fragmento, em consonância com o restante da obra, assinale como


C
verdadeira (V) ou falsa (F) cada afirmativa a seguir.

( ) Ao introduzir, no Canto I, as causas da guerra, percebe-se a preocupação do narrador em contar


a história respeitando a ordem cronológica dos eventos, o que se dá desde o início do poema.
( ) A guerra, cujas causas são inquiridas por Catâneo, ocupara grande parte do relato, o que
confere a obra seu tom épico, ainda que certas passagens de O Uraguai também apresentem
traços de puro lirismo.
( ) O poema é todo composto em versos decassílabos brancos, predominantemente de ritmo
heroico, como se pode observar no excerto.
( ) A glorificação do General Gomes Freire de Andrade no excerto evidencia que ele é o herói do
poema, símbolo da civilização europeia que chega aos Sete Povos e que se contrapõe aos
indígenas, apresentados no poema como selvagens, desprovidos de qualidades heroicas.

A sequência correta é

a) F – V – V – F. d) F – F – V – F.
b) V – V – F – F. e) V – F – V – V.
c) V – F – F – V.

5. (UFSM) Em O Uraguai, Basílio da Gama situa a ação em um cenário até então pouco retratado na
literatura brasileira: o Sul do Brasil. Ali, portugueses, espanhóis e guaranis serão personagens
de uma batalha de final trágico para os últimos. Assim, sobre as personagens de O Uraguai, é
correto afirmar que

a) o padre Balda é retratado como um vilão, como se pode perceber na sua maquinação para a morte
de Sepé, cujo objetivo era alçar Baldetta ao posto de líder indígena.
b) o Irmão Patusca é representado satiricamente na obra como guloso e covarde, o que aparece clara-
mente ao final da história, quando é surpreendido pelos soldados enquanto fugia da aldeia destruída.
c) Tanajura é uma velha feiticeira que revela o futuro para Lindoia, momento em que a jovem indígena
descobre que morreria em breve.
d) o General Gomes Freire de Andrade é o herói do poema, impondo a vontade do Rei de Portugal a
todo custo, sem procurar uma saída que evitasse a chacina dos indígenas.
e) Cacambo tem um sonho em que o espírito de Sepé ordena-lhe que incendeie a aldeia para que se
afaste o inimigo, dando tempo para a fuga dos indígenas.

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6. (UFRGS) Considere as seguintes afirmações sobre O Uraguai, de Basílio da Gama.

I. Sepé, de modo desafiador, e Cacambo, mais diplomático, encontram-se, antes da batalha, com o
general Andrade que os aconselha a respeitar a autoridade da Coroa.
II. Eufórico, o general Andrade, líder das tropas luso-espanholas, extravasa sua emoção celebrando,
depois da batalha, a morte de Sepé.
III. Cacambo, tendo tido uma visão na qual Sepé aparecia transtornado ao lado de Lindoia desfalecida,
incendeia o acampamento das tropas inimigas durante a batalha.

Quais estão corretas?

a) I, apenas. d) II e III, apenas.


b) II, apenas. e) I, II e III.
c) III, apenas.

7. ( UFSM) A luta é um dos assuntos preferidos da literatura épica. Leia o seguinte trecho do poema
épico O Uraguai, de Basílio da Gama, que trata desse assunto.

Tatu-Guaçu mais forte na desgraça


Já banhado em seu sangue pretendia
Por seu braço ele só pôr termo à guerra.
Caitutu de outra parte altivo e forte
Opunha o peito à fúria do inimigo,
E servia de muro à sua gente.
Fez proezas Sepé naquele dia.
Conhecido de todos, no perigo
Mostrava descoberto o rosto e o peito
Forçando os seus co’exemplo e co’as palavras.

 omando por base os versos anteriores e a leitura na íntegra da obra de Basílio da Gama, assinale
T
com (V) ou (F) cada uma das afirmações relacionadas a O Uraguai.

( ) O assunto d’ O Uraguai é a expedição mista de portugueses e espanhóis contra as missões


jesuíticas do Rio Grande do Sul, para executar as cláusulas do Tratado de Madrid, em 1756.
( ) Mesmo se posicionando favoravelmente aos vencedores europeus, o narrador de O Uraguai
deixa perceber, em passagens como a citada, sua simpatia e admiração pelo povo indígena.
( ) No fragmento referido, Tatu-Guaçu, Sepé e Caitutu têm exaltadas suas forças físicas e morais,
lembrando os heróis épicos da Antiguidade.
( ) A análise formal dos versos confirma que Basílio da Gama imita fielmente a epopeia clássica,
representada pelo modelo vernáculo da época: Os Lusíadas, de Camões.
( ) A valorização do índio e da natureza brasileira corresponde aos ideais iluministas e árcades da
vida primitiva e natural e prenuncia uma tendência da literatura romântica: o nativismo.

O URAGUAI 13
OBRAS LITERÁRIAS

A sequência correta é

a) F – V – F – V – V.
b) F – F – V – V – V.
c) V – V – V – F – V.
d) V – F – V – F – F.
e) V – F – F – F – V.

Texto de referência para as questões 8 e 9.

O URAGUAI
Basílio da Gama

Canto II

[...]Prosseguia talvez; mas o interrompe


Sepé, que entra no meio, e diz: – “Cacambo
Fez mais do que devia; e todos sabem
Que estas terras, que pisas, o céu livre
Deu aos nossos avós; nós também livres
As recebemos dos antepassados.
Livres as hão de herdar os nossos filhos.
Desconhecemos, detestamos jugo
Que não seja o do céu, por mão dos padres.
As frechas partirão nossas contendas
Dentro de pouco tempo; e o vosso Mundo,
Se nele um resto houver de humanidade,
Julgará entre nós: se defendemos
– Tu a injustiça, e nós o Deus e a Pátria. –Enfim quereis a guerra, e tereis guerra.”
Lhe torna o General. – “Podeis partir-vos,
Que tendes livre o passo.” [....]

8. (UFRGS – adaptado) De acordo com a fala de Sepé nos versos lidos, é correto afirmar que

a) os índios receberam a liberdade do céu, e de seus antepassados para que se associassem ao


empreendimento colonial de Portugal e Espanha.
b) os índios recusam-se a lutar pelos padres cujo domínio causou as hostilidades com as Coroas por-
tuguesa e espanhola.
c) os índios pretendem legar aos filhos as terras livres que receberam de seus avós, os quais as
receberam do céu.
d) os índios protestam contra o jugo do céu, cujos representantes na terra são os padres responsáveis
pela conversão e catequese.
e) pretendem lutar aguerridamente contra a injustiça representada pelo Deus e pela Pátria dos adversários.

14 O URAGUAI
OBRAS LITERÁRIAS

9. (UFRGS) Com relação ao discurso de Sepé, é correto afirmar que nele se percebe

a) o espírito conciliatório de quem busca estabelecer a paz.


b) a hostilidade de quem considera inevitável a guerra.
c) a arrogância de quem afirma estar mais bem armado do que o inimigo.
d) a indulgência com que serão tratados os prisioneiros de guerra.
e) a simpatia votada à causa do inimigo que defende Deus e Pátria.

Textos de referência para a questão 10.

Texto I

O URAGUAI
Canto IV – Fragmento
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindoia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
BASÍLIO DA GAMA, J. O Uraguai. Rio de Janeiro: Public. da Academia Brasileira, 1941. p. 78 e 79.

Texto II

CARAMURU
Canto VI, Estrofe XLII

Perde o lume dos olhos, pasma e treme,


Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.

O URAGUAI 15
OBRAS LITERÁRIAS

Mas na onda do mar, que irado freme,


Tornando a aparecer desde o profundo:
“Ah, Diogo cruel!” disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se n’água.
SANTA RITA DURÃO, Fr. J. de. Caramuru. São Paulo: Edições Cultura, 1945. p. 149.

10. (Unesp – adaptada) Os textos apresentados correspondem, respectivamente, a fragmentos


marcantes dos poemas épicos O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, e Caramuru (1781), de Santa
Rita Durão, poetas neoclássicos brasileiros. No primeiro, a índia Lindoia, infeliz com a morte
do marido Cacambo, deixa-se picar por uma serpente, e falece. No segundo, enfoca-se a índia
Moema que, ao ver partir seu amado Diogo Álvares, segue a embarcação a nado e se deixa
morrer afogada. Releia os textos e marque a afirmativa correta.

a) Em comum, ambas as obras apresentam o egocentrismo, característica que começa a se desenvol-


ver no Arcadismo e alcança o ápice no Romantismo brasileiro.
b) Autores como Gonçalves Dias, da Primeira Geração Romântica, e Mário de Andrade, da Primeira
Fase Modernista, são influenciados, em suas produções, pelas obras árcades citadas.
c) Embora tenham voltado sua produção literária para os temas indígenas, Basílio da Gama e Santa
Rita Durão mantêm-se neutros com relação aos aspectos políticos da época.
d) Ambos os poemas apresentam um componente nacionalista que prenuncia uma das linhas temáticas
mais características do Romantismo brasileiro, a figura do índio em destaque.
e) Ainda que a presença do indianismo se destaque nos poemas lidos, é na inovação dos aspectos
líricos da morte das heroínas Lindoia e Moema que o Romantismo vai buscar inspiração.

GABARITO
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10.
B D A A B A C C B D

16 O URAGUAI

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