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HISTÓRIA

DA HIPNOSE

2.400 anos AC os sacerdotes caldeus induziam em transe as pessoas que os
procuravam para serem curados de algum mal, fazendo-o através de «passes»
(passagem das mãos pelo corpo da pessoa).

O hipnotismo foi a base das ciências ocultas no antigo Egito, na Grécia e na Índia.
Os sacerdotes, bruxos, feiticeiros, diziam-se mensageiros de Deus e através de
técnicas hipnóticas conseguiam fazer «milagres».

No Egito existiam os templos do sono, onde as pessoas eram tratadas no estado
de transe hipnótico – colocavam os pacientes num estado de transe e davam-lhes
sugestões terapêuticas ao mesmo tempo que faziam passes de magia (com as
mãos).

Na Grécia passava-se sensivelmente a mesma coisa, no templo de Esculápio – o
Deus grego da Cura - os sacerdotes invocavam essa divindade e punham os
pacientes em transe, dando-lhes sugestões de cura.

Avicena (980-1037) Filósofo e médico persa, de origem árabe, acreditava que a
imaginação humana tinha poderes e forças que podiam atuar não só sobre o
próprio corpo como sobre o corpo dos outros. Afirmava que, pela palavra, pela
vontade e persuasão, muitos padecimentos poderiam ser curados.

Ao longo dos tempos, foram surgindo várias teorias sobre o fenómeno da
hipnose, o que indica que a sua natureza é desconhecida. Estas concepções foram
mudando com a evolução do mundo e do conhecimento, permitindo um melhor
entendimento e utilização da hipnose.

Paracelso – (1493-1541) Médico alquimista suíço acreditava que todos os seres
humanos estavam sob a influência magnética dos astros. O corpo humano
comportava-se (segundo ele) como um verdadeiro íman que podia atrair o fluxo
dos astros, absorvê-lo, mas também conseguia assimilar e eliminar os elementos
da terra. Paracelso empregava minerais magnéticos para o tratamento das
doenças.

Mesmer (Franz Anton) – (1734-1815) Médico austríaco, influenciado pelos
escritos de Paracelso, acreditava que havia um «fluido subtil» que unia todos os
corpos do universo, fazendo com que uns atuassem sobre os outros. Os astros
(Sol e Lua) exerciam influência sobre os homens. O fluido dos astros era captado
e armazenado em metais especiais – magnetismo mineral. Mesmer soube da
prática do Padre jesuíta Maximilian Hell, professor de astronomia da
Universidade de Viena, que usava magnetes como forma de cura, e interessando-
se por esta prática, acabou por usá-la nos seus pacientes. Os magnetes eram
colocados no corpo, sobre o local dos órgãos doentes. Mais tarde cria um
aparelho chamado Baquet – uma caixa circular de madeira, cheia de limalha de
ferro.
O professor Egas Moniz, no seu livro “O Abade Faria”, descreve bem esta prática:
“Numa grande sala, com luz discreta coada através de densos cortinados, havia

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uma caixa ou celha circular de madeira, com limalha de ferro, vidro moído,
garrafas dispostas segundo os raios de um círculo, fechada com uma tampa
perfurada donde saíam hastes de ferro em profusão que alcançavam a segunda e
terceira filas de pacientes. Uma corda ligada ao colossal tamborete punha-o em
comunicação com todos os doentes que por esse processo experimentavam, por
igual, a mágica influência.” Sabemos também que Mesmer se fazia acompanhar
pelo som de uma Harmónica de Vidro que, através das suas vibrações,
favoreceriam a difusão das correntes magnéticas. À volta do aparelho chegavam
a reunir-se 130 pessoas, que tinham as mais variadas reações, desde tossir,
sentir dores, suores, risos, choro, convulsões e até ficarem imóveis e esgazeadas.
Mais tarde Mesmer reformula a sua tese sobre o magnetismo: o magnetismo
animal substitui o magnetismo mineral porque, segundo ele, o corpo humano
tinha propriedades semelhantes às do magnete, tendo também dois polos
opostos e o tal fluido subtil. O ‘fluido’, embora universal não existia com a mesma
intensidade em todos os corpos, e nos corpos em que estava mal distribuído ou
mesmo ausente, ocorria a doença. Ora a função do ‘magnetizador’ era o de
fornecer o fluido necessário ao órgão afectado (os imãs eram postos em cima do
órgão afectado) para restabelecer o equilíbrio e a harmonia.
Mesmer também deu muita importância à relação entre o magnetizador e o
paciente, defendendo que o magnetismo deveria primeiramente ser transmitido
através dos sentimentos.
Os adversários de Mesmer conseguiram que Luís XVI de França, nomeasse uma
comissão científica para analisar os trabalhos de Mesmer. Daí saiu a conclusão
unânime que as curas eram alcançadas pela imaginação e imitação. A imaginação
sem magnetismo provocava convulsões e o magnetismo sem a imaginação não
fazia nada. Como a imaginação não era aceite pelos estudos científicos dessa
altura, o magnetismo foi considerado sem valor ou uma fraude produzida por um
charlatão.

Marquês de Puységur (Armand Chastenet) – (1751-1825) Discípulo de Mesmer,
enquanto tratava um paciente verificou que o mesmo não apresentava
convulsões (como os pacientes de Mesmer) mas sim dormia pacificamente e
durante esse sono podia falar, responder a ordens e após ser acordado não se
lembrava de nada. Chamou a este estado um estado de sonambulismo artificial
por ser semelhante ao sonambulismo normal. Também volta a enfatizar o
aspecto de que os fenómenos do magnetismo ocorriam em certas condições em
que se estabelecia um rapport exclusivo entre hipnotizador e hipnotizado.

Abade Faria (José Custódio de Faria) – (1756-1819) Sacerdote português,
nascido em Goa, Índia portuguesa, chega a Paris em 1813 e defende que não é o
‘fluido’ que influencia o estado do paciente, mas sim a própria vontade do
paciente que o conduz ao que chamava de sono lúcido. Ele usava somente a
palavra durma...durma ... durma ... sem passes e nem gestos. Faria foi o primeiro
a afirmar que a vontade receptiva do paciente e o rapport entre o paciente e o
magnetizador eram determinantes no processo de cura.

John Elliotson (1791-1868) – Médico proeminente inglês e escritor, ficou
conhecido pelas suas atitudes liberais e radicais sobre a prática da medicina. Foi
o primeiro médico inglês a aprovar e usar o estetoscópio de Laennec. Começou a

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interessar-se por Mesmer e quando falava aos seus pares sobre a eficácia das
práticas de Mesmer, todos o ouviam. Usava as técnicas de Mesmer nos seus
pacientes com bons resultados no controlo da dor e em operações cirúrgicas.
Com o advento dos anestésicos químicos, a hipnose deixou de ser usada com
anestésico.

James Braid (1795-1860), – Médico oftalmologista escocês, cirurgião em
Manchester e adepto do ocultismo. Com James Braid aparecem em Inglaterra os
primeiros conceitos científicos sobre o hipnotismo. Tendia a não acreditar no
magnetismo animal, no entanto ao assistir a umas intervenções feitas por um
magnetizador, verifica que um paciente durante o processo não conseguia abrir
os olhos. Fez experiências com familiares e verificou que através da fixação do
olhar num ponto, levava a pessoa a uma exaustão visual, caindo após num estado
de repouso desejado (estado magnetizado). Concluiu que:
-O fenómeno do Mesmerismo era subjetivo e não dependia de qualquer
poder mágico, influência astral ou fluido mineral ou animal, nem mesmo
de qualquer influência do operador;
-Os fenómenos verificados deviam-se exclusivamente à natureza física
mecânica e funcional, produzindo alterações nos órgãos de certos
sentidos, tais como a visão, levando a um esgotamento do centro visual
pela sua estimulação continuada e monótona.
Introduziu o método de indução por fixação do olhar, ainda hoje usado.
Braid chamou a este estado sono nervoso, e por isso começa a aplicar a palavra
‘Hipnose’ – (derivado de Hypnos – deus grego do Sono)
Mais tarde Braid percebe que a indução depende da vontade e capacidade de
concentração do paciente. Afirmava ainda que uma vez obtida a hipnose poder-
se-ia facilmente incutir ideias e vontades no cérebro do paciente. A anestesia
ocorria devido à inibição verificada numa parte do cérebro; que havia diferenças
no grau de susceptibilidade à influência hipnótica nos diferentes pacientes;
descobriu que os fenómenos de catalepsia, anestesia, amnésia poderiam ser
produzidos sem ter que entrar no estado de sono.

Em 1891 a Associação Médica Britânica designa uma comissão de investigação a
natureza do fenómeno Hipnose e chega às seguintes conclusões :
- Os fenómenos hipnóticos existem;
- O termo, ‘hipnose’ não traduz bem a natureza dos fenómenos já que é
diferente do sono fisiológico;
- A hipnose é um eficaz agente terapêutico no alívio das dores, no
tratamento da embriaguez e na possibilidade de realização de atos
cirúrgicos;
- A hipnose deve ser usada exclusivamente por médicos para fins
terapêuticos, somente em homens e quando mulheres, sempre
acompanhadas por familiares ou outra mulher;
- Qualquer exibição recreativa popular ou teatral do hipnotismo é
veementemente condenada.

A partir dos trabalhos de James Braid, o mesmerismo, agora com o nome de
hipnotismo, começa a estender-se rapidamente por vários países.

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James Esdaile (1808-1859) – um médico cirurgião escocês que estudou o
Mesmerismo, começou a usar a hipnose na Índia com os seus pacientes. Até à
data deve ter sido o cirurgião que mais operações fez usando a hipno-anestesia.
Em 161 pacientes operados por Esdaile (usando técnicas hipnóticas), a
mortalidade baixou para 5% e nenhum dos casos fatais foi provocado pela
cirurgia. Esses doentes acabaram por morrer de infecções que hoje seriam
tratadas com antibióticos.
Esdaile acreditava que a hipnose era um método de cura natural dado por Deus e
que todo o ser humano possuía esse poder especial – o poder da hipnose.

Quando o clorofórmio surge em 1847 acaba com o uso da anestesia sob hipnose.

Ambroise August Liébeault (1823-1904) – estudou medicina em Strasbourg. Em
1848 lê, pela primeira vez, um livro sobre magnetismo animal e ficou
impressionado. Fez algumas experiências e com facilidade “mesmerizou” várias
pessoas. Foi, no entanto, mais tarde em1860, que tomou conhecimento do
trabalho do Dr. Eugéne Azam (um dos pioneiros da hipnose em França) e que
decidiu usar esta técnica na sua prática médica. Em 1854, o seu humilde
consultório rural torna-se o centro de hipnotismo mais importante em todo o
mundo, e esta nova técnica, que vinte anos tinha ficado conhecida através de
Braid, passa a ser aplicada, ao mesmo tempo, como instrumento de investigação
e de cura. Liébeaut é o primeiro adepto da hipnose rápida. Era com uma simples
passagem da mão e um “durma!” que hipnotizava os seus pacientes. Por entre os
pacientes que tratou através de sugestão, encontrava-se uma senhora que
Bernheim tinha tratado durante vários meses sem resultados, a quem curou uma
dor ciática. Hyppolite Bernheim (1837-1919), professor da Faculdade de
Medicina de Nancy, sentindo-se de alguma forma desprestigiado, procura
Liébeault, e acaba por se deixar convencer da eficácia desta técnica.

Hypollyte Bernheim (1837-1919) – Como Liébeaut, fez os seus estudos de
medicina em Strasbourg e tinha a sua prática médica em Nancy onde também era
professor da Universidade de Nancy. Escreve o primeiro livro científico sobre
hipnose «De la sugestion et de ses applications à la thérapeutique » Segundo ele, a
sugestibilidade é a aptidão do cérebro de receber ou evocar ideias e a sua
tendência em realizá-las e transformá-las em atos. «Uma ideia tem tendência
para gerar uma realidade»
Bernheim fazia parte da Escola de Hipnotismo de Nancy liderada por Ambroise
Liébeaut, e claramente, ficou mais conhecido que este pela propaganda que fez
da hipnose.
Quando Bernheim publicou seu livro sobre hipnose (com o histórico dos casos de
Liébeault), este foi imediatamente aceite pela comunidade científica. De facto,
apesar da reputação de Charcot e do seu pioneirismo com a Escola de
Salpêtrière, mais e mais pessoas adoptaram o modo de pensar da Escola Nancy. A
disputa médica entre estas duas escolas continuou através de todo o século XIX
até princípios do século XX e cada lado reivindicava vitórias na explicação da
hipnose. Bernheim simplesmente pedia ao paciente para olhar para ele, não
pensar em nada para além de sono, e então dizia-lhe: "As suas pálpebras vão
começar a ficar pesadas, seus olhos estão cansados e começam a piscar, estão a
ficar húmidos, ficando com a visão menos clara, com os olhos fechados,

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fechados”. Se o paciente não fechava os olhos caindo num sono quase imediato,
como acontecia com muitos, Bernheim repetia o processo até ser bem sucedido.
Caso os pacientes não mostrassem quaisquer sinais de sono ou entorpecimento,
ele então explicava-lhes que o sono não era essencial e que a influência hipnótica
poderia ser exercida sem ele.

Jean Martin Charcot (1825/1893) - Médico neurologista que dirigia o
manicómio de Salpêtriére em Paris– a maior instituição em França dedicada às
doenças mentais. Após experiências com a hipnose nos seus doentes, deduz que
a mesma é uma manifestação histérica, e que é obtida estritamente por meios
físicos não dando relevância à sugestão. Parece que Charcot nunca hipnotizou os
seus pacientes, ou quaisquer outros. Os seus assistentes preparavam os
pacientes antes de Charcot os ver. Todas as teorias que Charcot apresenta são
sobre os seus pacientes histéricos, e a Escola de Nancy contesta Charcot
explicando que a histeria não é um bom terreno para estudar hipnotismo, e que
muitos dos sintomas «histeriformes» (de conversão ou dissociativos) de origem
emotiva ou resultantes da auto sugestão, misturam-se com os fenómenos
hipnóticos, o que para um observador inexperiente é difícil discernir. Afirmam
também que o estado hipnótico não é um estado neurótico e que os fenómenos
que ocorrem são naturais e psicológicos. Que todos os processos para hipnotizar
se baseiam na sugestão.

Pierre Janet (1859/1947) Psicólogo e mais tarde neurologista nascido em Paris,
é reconhecido pelo desenvolvimento do tratamento clínico as doenças
psiquiátricas em ligação com a psicologia. Janet trabalhou com Charcot dando
início à Escola de Salpêtrière. A sua obra mais importante “Automatismo
Psicológico” teve uma enorme importância, embora posteriormente quase tenha
sido esquecida em França, onde à medida que Freud se tornava conhecido, Janet
declinava. Mas, a verdade é que, os dois no início de suas carreiras, partiram das
mesmas bases, a Hipnose, e ambos ouviram os mesmos mestres: Charcot na
Salpetrière e Liébeault e Bernheim, em Nancy.
Para Pierre Janet, o importante era interpretar os factos. Para ele, os efeitos das
sugestões hipnóticas não eram explicáveis se não se admitisse a existência de
uma segunda consciência que conservasse a lembrança do transe hipnótico e
que, depois do indivíduo despertado, impusesse as modificações no
comportamento.
Desenvolveu assim a Teoria da Dissociação na qual defendia que a hipnose
produz uma divisão da consciência eliminando certos comportamentos do
controlo consciente.
Concluiu que a utilização quase exclusiva das sugestões para remoção de
sintomas não impedia que os mesmos voltassem a surgir e que outros sintomas
aparecessem, e isso fez com que a hipnose fosse sendo substituída pela
psicanálise e outras técnicas de psicoterapia dinâmica.
É importante perceber que a Escola de Salpêtrière , em relação à hipnose nunca
prosperou, e a Escola de Nancy fundada por Liébeaut e Bernheim, expandiu-se
ficando ainda mais fortalecida com nomes como Émile Coué entre outros.

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Émile Coué (1857-1926) um psicólogo e farmacêutico francês, introduziu uma
forma de psicoterapia, de cura e de auto melhoramento baseada na auto
sugestão.
Tornou-se célebre pelo seu método de auto sugestão consciente através da frase:
«a cada momento e sob todos os aspectos eu sinto-me melhor, muito
melhor».
Também é conhecido por afirmar que cada pessoa tem dentro de si mesma a
solução do seu problema.
Na sua prática de farmacêutico, apercebeu-se que os medicamentos vendidos
com uma auto-sugestão positiva tinham mais efeito que os medicamentos
simples.
No fundo Émile Coué é um percursor da Auto Hipnose e todo o seu trabalho se
baseia na Teoria da Atenção Concentrada. Esta teoria defende que quando nos
concentramos numa ideia vezes sem conta, ela tende a realizar-se
espontaneamente.
Coué aprendeu hipnose com Ambroise-Auguste Liébeaut, fundador da Escola de
Nancy e em 1913 fundou a Lorraine Society of Applied Psychology.

Josef Breuer (1841-1925) Médico fisiologista austríaco, desenvolveu um método
de tratamento hipnótico com pacientes histéricos, baseado na entrevista com o
paciente. Percebeu que podia ajudar os pacientes a diminuir a intensidade dos
sintomas histéricos encorajando-os a falar, sob hipnose, de experiências
traumáticas da infância. Concluiu assim que os sintomas neuróticos resultavam
de processos inconscientes e que logo que se tornavam conscientes,
desapareciam. Este processo ficou conhecido por catarse ou método catártico.

Sigmund Freud (1856-1939) – Médico austríaco estudou na Universidade de


Viena. Foi o pai da psicologia moderna e usou a hipnose no início da sua carreira.
Em conjunto com Breuer tratou casos de histeria com o uso da hipnose, trazendo
à memória dos pacientes, experiências traumáticas do passado. É no
desenvolvimento deste trabalho que Freud descobre o rapport e a transferência
entre paciente e médico, conduzindo-o à exploração das capacidades do
subconsciente. Acabou por abandonar a hipnose em favor do seu interesse pela
técnica psicoterapêutica hoje em dia chamada “Associação Livre”.
Freud esteve em Paris onde estudou com Charcot e mais tarde em Nancy onde
conheceu Bernheim e Liébeaut e as técnicas de hipnose que utilizavam.
Interessou-se especialmente pelos fenómenos da sugestão pós-hipnótica e
observou que o comportamento pode ser influenciado não só pelo consciente
como também pelo inconsciente. Depois de ter estado em contacto com
Bernheim e Charcot, Freud passou a utilizar a técnica hipnótica para trazer à
superfície as memórias reprimidas. No entanto Freud considerava-se um mau
hipnotizador e acabou por deixar de parte a hipnose e o método catártico de
Breuer, pois achava que os resultados terapêuticos alcançados desapareciam
logo que houvesse qualquer perturbação da relação médico paciente. Escolhe a
partir dessa altura usar o método da Associação Livre que mais tarde chamou de
Psicanálise. Ele acreditava que a sua relação pessoal e emocional com o paciente
era mais importante que a hipnose. No entanto, manteve o setting para a terapia
– divã e o ambiente tranquilo.

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Ivan Petrovich Pavlov (1849-1935) – As teorias sobre a hipnose de Pavlov
tiveram origem nas suas experiências com cães – Sobre a fisiologia no estado
hipnótico do cão - Pavlov trabalhou com os reflexos condicionados
diferenciando-os dos incondicionados
Os reflexos incondicionados são explicados por Pavlov como sendo ligações
nervosas permanentes entre um excitante determinado e imutável e uma ação
bem definida do organismo. É um reflexo inato, estável e imutável característico
da espécie – instinto. Os reflexos condicionados são reflexos adquiridos,
temporários, ocasionais constituindo uma característica do indivíduo e não da
espécie. Para que surja o reflexo condicionado é preciso que o excitante
indiferente (a campainha) preceda sempre o estímulo absoluto (pedaço de
carne), que estes sejam apresentados na mesma altura e que no momento em
que o reflexo é condicionado não haja qualquer outro estímulo indiferente.
Segundo Pavlov, o que ocorre no estado de hipnose é um reflexo condicionado a
um estímulo indiferente (uma palavra, um som) ligado ao reflexo incondicionado
provocado pelo constante abrir e fechar de olhos (provocando o cansaço e
vontade de fechar os olhos). Tudo isto provoca uma série de factores no córtex
cerebral excitando e inibindo certas funções do mesmo. O hipnólogo vai
multiplicando os focos de inibição do córtex cerebral usando estímulos variados,
no entanto, o paciente permanece ligado ao hipnólogo através da audição.

Sandor Ferenczi (1873-1933) Nascido na Hungria, médico neurologista e


psiquiatra, conhece Freud e torna-se seu colega. Homem sensível e intuitivo com
um espírito de aventura, era quem recebia os casos mais difíceis.
Estas características pessoais de Ferenczi, ajudaram-no a desenvolver um
trabalho original e inovador. O seu interesse por teorias ‘ousadas’ levaram-no,
juntamente com outros, a desenvolver uma técnica conhecida como Ativa que
podia chegar a demonstrações físicas de afecto ou até a uma espécie de análise
recíproca onde o paciente e analista podiam trocar papéis.
Ferenczi foi talvez o colaborador mais próximo de Freud – isto depois de Karl
Abraham morrer – mas caiu em desgraça devido ao seu lado aventureiro no uso
de técnicas ativas, e também por constantemente necessitar da segurança do
afecto de Freud – atitude considerada infantil. É claro que estas tensões foram
exacerbadas pelas divergências teóricas existentes entre os dois.
No que respeita à hipnose, Ferenczi apresenta a teoria psicanalítica dizendo que
os pacientes entravam em transe para agradar aos terapeutas, tal como uma
criança que quer agradar ao seu pai.

Robert W.White 1941 – Desenvolve a teoria do comportamento dirigido – esta
teoria define o comportamento hipnótico como um esforço dirigido, cujo
objectivo principal é o de levar o paciente a comportar-se como uma pessoa
hipnotizada tal como o terapeuta definiu e o paciente entendeu. White acreditava
que as respostas hipnóticas envolviam um estado alterado de consciência, mas o
que verdadeiramente determinava as respostas do paciente seriam as suas
próprias expectativas e o que acreditava serem as expectativas do terapeuta.


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Theodore Sarbin William Coe (1950-1972) – parte da teoria do comportamento
dirigido para o desenvolvimento do desempenho de um papel em que o indivíduo
se esforça para desempenhar o papel de alguém que está hipnotizado. O sucesso
desse esforço baseia-se em 3 factores :
1-Motivação favorável – o papel a representar e as convicções próprias
têm que ser congruentes
2-Exactidão da percepção do papel
3-Aptidões motoras e imaginativas para desempenhar o papel.

Ainslie Meares (1910-1986) – Psiquiatra australiano fez da meditação o centro
dos seus tratamentos terapêuticos. Relativamente à sua visão sobre a hipnose,
Meares desenvolve a Teoria da regressão atávica. Em psiquiatria, o termo
regressão, aplica-se para indicar o retorno a um tipo de comportamento anterior.
A hipótese de atavismo, implica que a regressão se aplique não somente no
campo da conduta, mas também no campo da função mental. Ou seja, durante o
estado de hipnose, o sujeito:
- reduz a intensidade das funções intelectuais mais recentes enquanto que
as funções mais antigas (primitivas) são intensificadas pelo mecanismo
sugestivo;
- reduz a atividade intelectual devido à repetição de sugestões em voz
monocórdica para que relaxe e se desligue de tudo o que o preocupa,
tornando-o mais receptivo a sugestões simples;
- a regressão específica da função mental pode ocorrer mais facilmente.
Na hipnose autoritária o prestígio do hipnólogo e a sua atitude autoritária
iniciam o comportamento regressivo – o hipnólogo torna-se o pai
autoritário e força o paciente a adoptar o papel de uma criança obediente.

John Hartland (1901-1977) – Médico psiquiatra, contribuiu para o
estabelecimento das credenciais da hipnoterapia como uma parte da medicina
psicossomática e para tornar a hipnoterapia mais acessível aos médicos em geral
e especificamente aos dentistas. Segundo Hartland a hipnose é um estado da
mente especial que é induzido por uma pessoa a outra pessoa, e no qual não só
as sugestões são mais rapidamente aceites como são postas em prática de uma
forma extremamente eficaz. O estado de hipnose aumenta a capacidade de
sugestibilidade do paciente. Hartland defende que neste estado, o sentido crítico
fica parcial ou totalmente suprimido. Ora, o sentido crítico está ligado à mente
consciente. As sugestões dadas entram na mente inconsciente (tem pouco ou
nenhum sentido crítico) e esta é incapaz de rejeitá-las. Desta forma, a pessoa vai
agir sob a ação dessas sugestões.
Segundo Hartland o importante era suprimir o sentido crítico do consciente, e
quanto mais profundo era o estado de transe menor o grau de sentido crítico,
logo maior o grau de sugestibilidade.

No início do séc. XX, o interesse científico pela hipnose começou o seu declínio,
devido, em parte, ao novo rumo que Sigmund Freud introduziu através da
psicanálise. Sendo desprezada como método terapêutico, a prática da hipnose foi
novamente “empurrada” para os palcos. Mas houve grandes cientistas que
continuaram a defender a hipnose, um dos quais Pierre Janet, já anteriormente
referido, que concluiu que o subconsciente era um estado permanente, que

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coexistia com o consciente. Ele defendia que, sob hipnose, a mente passava por um
estado de dissociação, ou seja, ficava dividida em consciente e subconsciente,

Clark Hull (1884-1952) – Um respeitado psicólogo americano que também
manteve o seu interesse pela hipnose tendo publicado o livro “Hypnosis and
Suggestibility” em 1933. Encorajou a pesquisa sobre a hipnose nas Universidades
e Institutos de investigação. Além do trabalho de investigação teve outro
contributo muito importante para a história da hipnose: despertou a curiosidade
de um aluno seu que acabou por ser um dos maiores hipnotizadores do séc. XX –
Milton Erickson.

Milton Erickson 1901-1980 Médico psiquiatra americano desenvolve, não uma
teoria, mas toda uma nova e revolucionária abordagem à hipnose. Abordagem
Centrada no Paciente caracterizada por :
- sugestões indiretas e vagas que dão opções de escolha ao paciente;
- abordagem interativa com o paciente;
- abordagem centrada no paciente usando as reações do mesmo;
- abordagem enfatizando a comunicação com o paciente;
- abordagem enfatizando as interações na vida diária do paciente.
Segundo Erickson, todas as pessoas podem ser induzidas no estado de transe. O
hipnoterapeuta só precisa de encontrar o caminho que vai levar o paciente a
entrar nesse estado. Para isso, Erickson baseia-se na observação das reações do
paciente, espelhando-as para depois o conduzir ao estado de transe.
A hipnose ericksoniana tem como característica principal, não a hipnose formal
(que pode ou não ser usada) mas sim um sistema interpessoal de comunicação
totalmente focalizada nos indivíduos envolvidos com o objectivo de encontrar
capacidades inconscientes de respostas. As respostas dos pacientes, as suas
experiências passadas e o ambiente social e cultural são as fontes dos recursos
para a elaboração das sugestões terapêuticas.
Defendeu que o inconsciente é um instrumento terapêutico poderoso de auto
cura. Erickson acreditava que, a capacidade de nos ajudarmos e de nos curarmos,
está dentro de nós.
Milton Erickson nasceu de uma família pobre de Nevada, EUA. Aos 17 anos
contraiu poliomielite o que reduziu a sua capacidade de se deslocar. Mais tarde
voltou a ter novo surto de poliomielite, embora de outra estirpe, que o levou
novamente à imobilidade. Apesar de ter conseguido voltar a andar (chegou a
correr parte de uma maratona), desafiando os médicos que garantiam que não o
conseguiria fazer, Erickson acaba por passar os últimos anos da sua vida numa
cadeira de rodas.
Mas o facto de ter estado tanto tempo confinado à imobilidade, permitiu que
ganhasse uma maior consciência do movimento físico e de como as pessoas
comunicam verbal e não verbalmente. Desta forma Erickson desenvolveu uma
capacidade incrível de observação dos seus pacientes, o que o ajudou a perceber
melhor as suas reações e a conseguir ajudá-los mais eficazmente.

Dave Elman (1900-1967) – Hipnotizador influente americano, era filho de um
hipnotizador de palco e criou várias induções rápidas e eficazes.
Elman muito cedo viu a eficácia da hipnose. O seu pai, doente de cancro, foi
tratado com a hipnose no alívio da dor oncológica. Visto que vivia no mundo do

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espetáculo (cómico e músico) uma vez experimentou fazer hipnose de palco, e o
sucesso foi grande. Foi abordado por um grupo de médicos que lhe pediram que
os ensinasse. Fez vários cursos de formação para médicos e tornou-se assim
conhecido e reconhecido.

Na segunda metade do séc. XX uso terapêutico da hipnose – hipnoterapia – estava
em expansão. Ao mesmo tempo surgem duas teorias sobre a natureza da hipnose,
totalmente incompatíveis entre si.
De um lado encontram-se aqueles que acreditam que durante a hipnose as pessoas
entram num estado de consciência diferente.
Do outro lado estão os académicos que defendem que não há um estado hipnótico
individualizado, e que tudo o que acontece durante a hipnose pode ser explicado
por fenómenos psicológicos já conhecidos – escola do pensamento do Não Estado.
Esta escola argumenta que o que ocorre no paciente durante a hipnose resulta do
desejo de realizar o que lhe é pedido ou sugerido. Também defende que o que
acontece é um ato da imaginação do paciente.

Bibliografia consultada
Ferreira, Marlus Vinicius Costa, - “Hipnose na Prática Clínica”
Editora Atheneu, 2003

Streeter, Michael – “Hipnose, Liberte o Poder da Mente” – trad.Editorial Estampa
2004

Heap, M. And Aravind,K.K. – “Hartland’s Medical and Dental Hypnosis”,4th Edition
by Churchill Livingstone 2002

Moniz, Egas, “O Abade Faria” Editorial Vega, 1977.

Battino, Rubin M.S. and South, Thomas L. Ph.D, “Ericksonian Approaches a
Comprehensive Manual”, Edition Crown House Publishing, 1999

Crabtree, Adam – “From Mesmer to Freud-Magnetic Sleep and the Roots of
Psychological Healing”, Yale University Press, New Haven and London,Copyright
1993 by Yale University.

Web:
http://www.hypnos.co.uk/hypnomag/peltbook/chapter1p3.htm
http://www.institutotelepsi.med.br/Links_imagens/psicoterapia.htm
http://www.ukhypnosistraining.co.uk/james-esdaile.html
http://www.psicologia.org.br/internacional/artigo1.htm
http://www.psicanalise.psc.br/coue.htm
http://www.breakthroughinstitute.com/products_for_sale/others_products/dave_
elman/dave_elman.ht

Informação recolhida por Rosário Vilardebó


Lisboa, Agosto de 2010

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