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A FESTA

IVAN ÂNGELO

CÍRCULO DO LIVRO S.A


Caixa postal 7413
São Paulo, Brasil

Edição integral
Copyright Ivan Ângelo
Capa de Alfredo Aquino

Licença editorial para o Circulo do Livro por cortesia da Vertente Editora Ltda.

É proibida a venda a quem não pertença ao Círculo

Composto pela Linoart Ltda.


Impresso pela Artegráfica Ltda.
Encadernado em oficinas próprias

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Para Maria Ângela, minha mulher.

“Não deve, portanto importar ao príncipe a qualificação de cruel para manter os seus súditos unidos e
com fé, porque com raras exceções é ele mais piedoso do que aqueles que por muita demência deixam
acontecer desordens das quais podem nascer assassínios ou rapinagem.”
MAQUIAVEL -- O príncipe

“Tentei tudo. Proibi a venda de cristais e de tábuas de sinais cabalísticos Baixei de surpresa um pesado
imposto sobre as cartas de baralho; os tribunais têm poder para sentenciar os alquimistas ao trabalho
forçado nas minas; é ofensa ao Estado levitar mesas ou receber espíritos. Mas nada é realmente eficaz.
Como posso esperar que as massas sejam sensatas quando, por exemplo tenho certeza, o capitão da
minha própria guarda usa um amuleto contra o mau-olhado e o mercador mais rico da cidade consulta
um médium antes de qualquer transação Importante?”
W. H. AUDEN -- Herodes

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente”


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE -- Mãos dadas

“Olha a VOZ que me resta


olha a veia que salta
olha a gota que falta
pro desfecho da festa.”
CHICO BUARQUE DE HOLLANDA -- Gota d’água

<9>
~:

ÍNDICE
Documentário (sertão e cidade 1970) ... 11
Bodas de pérola (amor dos anos 30) ... 27
Andrea (garota dos anos 50) ... 43
Corrupção (triângulo nos anos 40) ... 57
O refúgio (insegurança, 1970) ... 71
Luta de classes (vidinha 1970) ... 85
Preocupações (angústias, 1968) ... 89
Antes da festa (vítimas dos anos 60) ... 99
Depois da festa (índice dos destinos) ... 133
<11>
~:

Documentário

<13>
~:

“Quem estivesse na Praça da Estação na madrugada de hoje veria um nordestino moreno, de 53


anos, entrar com uns oitocentos flagelados no trem de madeira que os levaria de volta para o nordeste.
Veria os guardas, soldados e investigadores tangendo-os com energia mas sem violência para dentro
dos vagões. E veria que em pouco mais de quarenta minutos estavam todos guardados dentro do trem,
esperando apenas a ordem de partida.
E, a menos que estivesse comprometido com os acontecimentos, não compreenderia como o fogo
começou em quatro vagões ao mesmo tempo Apenas veria que o fogo surgiu do lado de fora dos
vagões, já forte, certamente provocado.
O grande tumulto estourou à 1h45m, com o grito de “fogo!” Os retirantes saíram do trem correndo e
gritando, carregando seus filhos, arrastando os velhos. Os policiais, atônitos, não sabiam se agarravam
os nordestinos que fugiam ou se tomavam providências contra o incêndio. Dividiram-se nessas tarefas,
gritando, esbarrando-se, empurrando, batendo. Um carro brucutu, que ali estava para conter a multidão
se necessário atacou o incêndio que comia rapidamente o trem de madeira. Policiais a cavalo corriam
atrás dos retirantes que debandavam.
Quem estivesse no Hotel Itatiaia, de frente para a estação, veria avançar para a direita o único grupo
que mantinha uma espécie de organização, em formato de cunha. À frente estavam aquele nordestino
de 53 anos, mais tarde identificado como Marcionílio de Mattos, e o repórter Samuel Aparecido
Fereszin, de um matutino desta capital. Mulheres, crianças e velhos estavam no meio da cunha que
avançava, protegidos nos flancos pelos homens, alguns armados de porretes, alguns de peixeiras,
Marcionílio de facão, a grande maioria desarmada.
Os policiais que perceberam aquele grupo organizado no meio do tumulto tentavam reunir
companheiros para impedir

<14>
~:

a fuga. A surpresa do ataque favorecia os nordestinos, pois foi impossível reunir mais do que oito ou
nove soldados. Tentaram conter os flagelados com ordens (eles avançavam); depois com tiros para o
alto (avançavam); depois com tiros diretos e cassetetes, e foram envolvidos pela multidão, pisados,
batidos.
Os nordestinos saíram da praça e dispersaram-se em pequenos grupos de cinco/seis pessoas em
cada esquina. Quando os reforços policiais os alcançaram, restavam pouco mais de vinte pessoas das
quase trezentas que formavam a cunha, uns vinte velhos e mulheres que Marcionílio tentava conduzir
para algum lugar. O jornalista Samuel Aparecido Fereszin não estava mais lá.
O trem queimou-se até às quatro da manhã.”
(Trecho da reportagem que o diário A Tarde suprimiu da cobertura dos acontecimentos da Praça da
Estação, na sua edição do dia 31 de março de 1970, atendendo solicitação da Polícia Federal, que
alegou motivos de segurança nacional.)

FLASH-BACK

“Não creio, não creio absolutamente que, sem o trabalho escravo, esses grandes canaviais dum só
senhor possam ser cultivados; não creio absolutamente que o trabalho livre se adapte ao atual sistema
de trabalho agrícola. (...); o trabalho livre em pequenos lotes de terra próprios poderá também, na
Província da Bahia, derribar o capital e o trabalho escravo e levantar, sobre os restos dum deplorável e
ignominioso feudalismo negro, uma vida em aldeias livres e pequenas colônias independentes.”
(Rohert Avé-Lallemant, médico alemão, em Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859, pág. 39,
edição do Instituto Nacional do Livro.)
“Nas terras dos grandes proprietários, eles não gozam de direito político algum, porque não têm
opinião livre; para eles, o grande proprietário é a polícia, os tribunais, a administração, numa palavra,
tudo; e afora o direito e a possibilidade de os deixarem, a sorte desses infelizes em nada difere da dos
servos da Idade Média.”

<15>
~:

(Colaborador anônimo do Diário de Pernambuco, publicado em meados do século XIX,. cit. por
Gilberto Freire em Nordeste.)

“A constituição de nossa propriedade territorial, enfeudando vastas fazendas nas mãos dos
privilegiados da fortuna, só por exceção permite ao pobre a posse e domínio de alguns palmos de terra.
Em regra ele é rendeiro, agregado, camarada ou que quer que seja; e então sua sorte é quase a do
antigo servo da gleba.”
(Domingos Velho Cavalcânti de Albuquerque, presidente de Pernambuco na década de 1870, cit. por
Paulo Cavalcânti em Eça de Queirós, agitador no Brasil.)

“Apareceu no sertão do norte um indivíduo que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerce
grande influência no espírito das classes populares servindo-se de seu exterior misterioso e costumes
ascéticos, com que se impõe à ignorância e à simplicidade. Deixou crescer a barba e os cabelos, veste
uma túnica de algodão e alimenta-se tenuemente, sendo quase uma múmia. Acompanhado de duas
professas, vive a rezar terços e a pregar e a dar conselhos às multidões, que reúne, onde lhe permitem
os párocos; e, movendo sentimentos religiosos, vai arrebanhando o povo e guiando-o a seu gosto.
Revela ser homem inteligente mas sem cultura.”
(Folhinha Laemmert, de 1877, publicada no Rio de Janeiro vinte anos antes da campanha de
Canudos, cit. por Euclides da Cunha em Os sertões.)

“Quanta desgraça, quanta barbárie naqueles sertões, santo Deus!”


(Teodoro Sampaio em O rio São Francisco e a chapada Diamantina, após viagem realizada ao
nordeste em 1879.)

“...sertanejos fanáticos pelo interesse, que para ali se dirigiam acreditando na idéia do comunismo, tão
apregoada pelo Conselheiro. (...) Sobe a sessenta o número de fazendas tomadas pelos conselheiristas
em toda a região.

<16>
~:

(Despacho de Salvador para o jornal O País, do Rio de Janeiro, dando testemunho de um “respeitável
cavalheiro vindo das regiões de Canudo”, publicado em 30 de janeiro de 1897.)

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo.
Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram
os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e
uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”
(Euclides da Cunha em Os sertões, 1902.)

“Em 1900, abandonam o Ceará 40 000 vitimas da seca. Ainda em 1915, de cerca de 40.000
emigrantes que saem pelo porto de Fortaleza, enquanto 8.500 tomam o destino do sul, 30.000 se
dirigem pelo caminho habitual, o do norte.
(Rui Facó em Cangaceiros e fanáticos.)

“E, em 1917, ingressou Virgulino na vida guerrilheira, tornando-se, em pouco tempo, o espantalho dos
sertões.”
(Optato Gueiros em Lampião -- memórias de um oficial ex-comandante de forças volantes.)

“Certifico que a fls. 43 do Livro nº 2 do registro de nascimentos foi feito hoje o assento de Marcionílio
de Mattos, nascido aos 9 de agosto de 1917, às seis horas, no distrito de Traíras, neste município, à rua
--, do sexo masculino, de cor parda, filho legítimo de Divino de Mattos e de Dona Maria Leontina
Albuquerque de Mattos, sendo avós paternos desconhecidos e maternos Tenório Albuquerque de
Mattos e Dona Antoninha Leontina de Mattos.
Foi declarante o pai do registrado.
Almas, 19 de setembro de 1917.
Francisco Gudin Velho -- Oficial do Registro Civil.”
(Registro de nascimento encontrado pela polícia na Praça da Estação, em Belo Horizonte, no dia
seguinte aos acontecimentos da noite de 30 de março de 1970. Há uma frase escrita

<17>
~:

a lápis na margem do documento, ao lado da data, em letra que a polícia reconheceu como de
Marcionílio: “Ano que Lampião entrou nu cangaço”.)

FIM DO FLASH-BACK

“que seu pai, Divino de Mattos, era capanga do coronel Horácio Mattos, homem forte da República no
sertão da Bahia, respeitado por Lampião; que o mesmo tomou parte nas guerras do coronel contra a
Coluna Prestes nos lugares Olho d’Água, Riacho d’Areia, Roça de Dentro, Maxixe e Pedrinhas; que seu
pai sempre amaldiçoou esses revoltosos porque queimaram a vila de Roça de Dentro depois de a
vencerem; que não é admirador de Prestes, homem que põe fogo em cidade; que desde menino até
hoje o homem que mais admirou foi o chefe jagunço do coronel Horácio Mattos, de nome João Duque;
que o mesmo João Duque brigou de machado contra mais de dez (10) homens armados de fuzil da
Coluna Prestes; que não sabe dizer se Prestes já era comunista mas sabe que hoje ele é comunista;
que por isso não gosta dos comunistas; que tinha nove (9) anos quando Roça de Dentro foi”
(Do depoimento do retirante Marcionílio de Mattos no dia 1º de abril de 1970, na Delegacia de Ordem
Política e Social de Belo Horizonte, após os graves distúrbios que agitaram a Praça da Estação na noite
de 30 e madrugada de 31 de março de 1970.)

“Arrojou-se sozinho, de machado em punho, sobre a tropa que avançava contra a trincheira,
inteiramente exposto, numa atitude de heróica beleza. Os soldados suspenderam o avanço e deram-lhe
uma descarga a pouca distância, que o não atingiu.
O jagunço girou então o seu terrível machado, com as duas mãos, em torno da cabeça e o
arremessou violentamente sobre os nossos, num último gesto de energia.
A arma formidável rodopiou no espaço e foi cair a poucos passos da nossa linha, sem a alcançar.
Houve uma descarga e o herói abateu-se morto no chão, como um gigante fulminado por um raio.

<18>
~:

O QG acampou junto a um olho d’água existente numa pequena praça.”


(Lourenço Moreira Lima, secretário da Coluna Prestes, em A Coluna Prestes marchas e combates,
trecho que narra a campanha dos revoltosos em Roça de Dentro, no interior da Bahia.)

“Perguntei-lhe, então, por que não fez fogo nos revoltosos.


-- Ha menino! disse, isso aqui é meio de vida. Se eu fosse atirar em todos os macacos que eu vejo, já
teria desaparecido.”
(Lampião explicando ao rastejador Miguel Francelino que não atacara a Coluna Prestes porque
cangaço “é meio de vida”. Lampião fora contratado pelo chefe político Floro Bartolomeu e pelo Padre
Cícero Romão para combater a Coluna, recebendo para isso armas e dinheiro. Contado por Optato
Gueiros em Lampião -- memórias de um oficial ex-comandante de forças volantes.)

“que se mudaram para Alagoas em virtude de desentendimento entre seu pai e o coronel Horácio; que
passaram a servir ao coronel Joaquim Resende, dono da Fazenda Pão de Açúcar; que o dito coronel
era amigo pessoal do cangaceiro Lampião; que Lampião esteve lá várias vezes; que data daí sua
amizade pelo citado cangaceiro; que Lampião não era bandido inteiro, era um homem bravo que queria
recompor o sertão; que ele, depoente, nessa época contava quinze (15) anos e tinha conhecimento
para saber muito bem quem era Lampião; que se tivesse de escolher entre Prestes e Lampião como
chefe escolheria o último, porque Lampião queria apenas consertar o sertão e não fazer política; que
entendia consertar o sertão como acabar com os coronéis e dar terra, trabalho e justiça aos pobres;”
(Do depoimento de Marcionílio de Mattos no dia 1º de abril de 1970 no DOPS de Belo Horizonte,
sobre os distúrbios em que morreram quatro pessoas na Praça da Estação.)

“Mais do que meio de vida, meio de prover a subsistência, o cangaceirismo prolifera no nordeste
sobretudo nas épocas

<19>
~:

das grandes secas. Formando-se então os bandos, em geral pequenos, de três a dez homens no
máximo. A maioria deles desaparece, uma vez passada a calamidade climática.”
(Rui Facó em Cangaceiros e fanáticos.)

“justiça aos pobres; que entende por justiça é não deixar ninguém morrer de fome, não ter que vender
filha, poder cobrar crime de gente poderosa, receber a ajuda que o governo manda nas secas e que os
ladrões roubam dos pobres; que ele, depoente, se tivesse a coragem de João Duque e a esperteza de
Virgulino Lampião era isso que faria, dar justiça, terra e trabalho; que isso pensava fazer com muita paz
quando trouxe para o sul aqueles pobrezinhos do norte; que não é culpa sua se a paz virou guerra; que
não vieram armados procurando briga; que peixeira todo mundo usa igual chapéu, é vestimenta; que
não é verdade que tivessem data marcada para chegar a Belo Horizonte na véspera do aniversário da
revolução; que saíram fugindo da seca; que estão viajando com muito esforço e dificuldade já faz mais
de 20 (vinte) dias, sem saber que dia é na folhinha; que não conhecia anteriormente o estudante Carlos
Bicalho, da Faculdade de Ciências Econômicas; que não conhecia o jornalista Samuel Aparecido
Fereszin; que não sabe dizer se os dois”
(Do depoimento de Marcionílio de Mattos no DOPS de Belo Horizonte, no processo sobre o incidente
da Praça da Estação, em que morreram quatro pessoas, foram feitas duzentas e dezesseis prisões e
atendidos dezessete feridos no pronto-socorro.)

“Inté mesmo a asa-branca


Bateu asas do sertão
Entonce eu disse, adeus Rosinha,
Guarda contigo meu coração.

Hoje longe muitas léguas


Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortá pro meu sertão.

<20>
~:

Quando o verde dos teus óio


Se espaiá na prantação
Eu te asseguro, num chore não, viu?
Que eu vortarei, viu, meu coração.”
(Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, baião Asa-branca, 1952.)

“Agora, mesmo, estão chegando notícias da invasão de vários lugares do interior por levas de
mendigos com saco às costas, reclamando alimentos. Por ora estas invasões são pacificas mas não
tarda o momento em que os comunistas se aproveitarão da situação para incitar o povo à violência.”
(Juvenal Lamartine, ex-governador do Rio Grande do Norte, em carta à Tribuna da Imprensa, do Rio
de Janeiro, em 12 de março de 1953.)

“Dos 3.000 populares que invadiram e saquearam o mercado de Arapiraca, dois terços eram
realmente flagelados e famintos. Os outros se prevaleceram da situação de motim que se criou, guiados
por agitadores e subversivos que pretendiam aproveitar a fase difícil decorrente da seca e promover
agitações e atos de revolta.
Os retirantes do sertão, segundo veio a apurar a polícia alagoana, estavam liderados por Marcionílio
de Mattos, ex-capanga do coronel Joaquim Resende, de Pão de Açúcar. Marcionílio é devedor de um
crime de morte na pessoa do administrador desse fazendeiro, e participante dos últimos grupos de
cangaço nos anos de 38 e 39. Foi ele o chefe das desordens, o responsável pela invasão, e está
mantido encarcerado, sob forte guarda armada, na cadeia pública de Arapiraca.”
(Jornal O Palmeirense, de Palmeira dos Índios, Alagoas, em 15 de março de 1958.)

“O flagelado
...Por onde passamos encontramo-lo faminto, maltrapilho, esquelético, olhar triste em busca do auxílio
que não vem. Já sem fé porque sua única ambição é um pouco de farinha para matar a fome que lhe
mina dia a dia o organismo e o mínimo de comiseração que merece um ser humano. (...)

<21>
~:

Aqui mesmo no Brasil, de que nos orgulhamos, sobre o qual proclamamos loas e queremos que se
situe no concerto das nações como possuidor de elevado estágio de civilização, há no momento uma
população estimada em mais de 2 milhões que vegeta no mais baixo padrão de subnutrição em que um
povo pode viver. (...) A miséria continua, o homem é explorado pelo homem, o dinheiro desperdiçado e
as autoridades omissas ou coniventes com esse problema; o problema da seca só é lembrado na época
em que o mal se apresenta;”
(Coronel Orlando Gomes Ramagem, subchefe do Gabinete Militar da Presidência da República,
observador pessoal do então presidente Juscelino Kubitschek da seca de 1958. Seu relatório foi
escamoteado durante esse governo e só divulgado no governo seguinte, de Jánio Quadros, em 1961.)

“que não conhecia anteriormente o estudante Carlos Bicalho, da Faculdade de Ciências Econômicas;
que não conhecia o jornalista Samuel Aparecido Fereszin; que não sabe dizer se os dois se conheciam;
que não é verdade que tenha vindo para o sul com seus retirantes a chamado dos supra-citados; que
não recebeu dinheiro de quem quer que seja para esse fim;”
(Do depoimento de Marcionílio de Mattos, após os dramáticos acontecimentos da Praça da Estação
de Belo Horizonte, quando foram apreendidas pela polícia 183 peixeiras, 31 canivetes, duas garruchas,
cinco bordões e um sabre militar que estavam em poder dos amotinados.)

“As primeiras levas de retirantes chegaram às capitais do nordeste, com a repetição dos tristes fatos
que marcam a seca. No mercado de João Pessoa, uma mulher oferecia, domingo, os filhos a quem os
quisesse levar.”
(Jornal O Estado de S. Paulo, em 25 de março de 1958.)

“Todas as classes já se organizaram nesse país, com exceção dos camponeses. O operário tem o
seu sindicato, o estudante, a sua união, o militar o seu clube, o comerciante, o jornalista ou o
funcionário público a sua associação, o industrial, o seu centro. Somente o camponês ainda não se uniu
em um órgão

<22>
~:

de classe capaz de defendê-lo. Esse seu justo anseio é sufocado com violência. ~ crime falar em
sindicato para o camponês.”
(Francisco Julião, deputado, no jornal O Estado de S. Paulo, em 15 de dezembro de 1959.)

“Liberdade para Marcionílio!


Povo do nordeste:
Há dois anos o governo dos usineiros e donos de gado mantém preso sem julgamento o líder
camponês nosso irmão Marcionílio de Manos.
Esse homem, que a imprensa dos latifundiários apresenta como um bandido e assassino, é um
revolucionário autêntico do nordeste.
Foi cangaceiro, sim, quando ser cangaceiro era o único meio de sobreviver nas terras secas do sertão
alagoano. Como cangaceiro, nunca tirou dos pobres. Tirava de quem tinha o que ser tirado.
O jornal dos latifundiários diz que ele matou o administrador do fazendeiro que lhe deu abrigo. Matou
em legítima defesa da honra e teve de fugir para não cair no júri arranjado do coronel Joaquim
Resende. O seu caso não é o primeiro nem será o último do sertão.
Seu último crime: retirar da situação de penúria em que se achavam as vítimas da seca e do
latifúndio, trazê-las em marcha heróica até a cidade de Arapiraca, onde tentou por todos os meios a
assistência do governo, e no fim, para dar de comer às mil e duzentas almas pelas quais se sentia
responsável, comandou o ataque ao mercado central de Arapiraca, durante o qual, infelizmente, morreu
um comerciante.
É esse o homem que o governo de Alagoas mantém preso em Arapiraca.
Qual o seu crime? Tentar ajudar os pobres
Povo do nordeste:
Chega de esperar pela Justiça! Vamos todos à praça da cadeia de Arapiraca no dia 1.0 de fevereiro
exigir
Liberdade para Marcionílio!
Liga dos Trabalhadores Rurais do Sul de Alagoas.”
(Manifesto distribuído nas principais cidades do sul de Alagoas em janeiro de 1960.)

<23>
~:

“O delegado Humberto Levita, do DOPS, calcula que deverá concluir dentro de três meses o inquérito
sobre os distúrbios do último dia 31, na Praça Ruy Barbosa. Qualquer previsão para antes disso será
otimista demais. Adiantou que já foram tomados 63 depoimentos, incluindo retirantes, parentes dos
mortos, detidos, testemunhas, policiais de serviço no local dos acontecimentos e dois secretários de
Estado.
O principal problema agora enfrentado pelo governo é a situação de mais de quatrocentos retirantes,
origem do conflito. Cerca de 160 dos detidos na madrugada de 31 de março são flagelados; numerosos
deles, arrimo de família. Seus dependentes se recusam a viajar de volta para o nordeste sem o parente,
e este não pode viajar porque o processo ainda está em andamento. Em conseqüência, mais
quatrocentas vítimas da seca, além das que se dispersaram na noite da revolta, vagam pela cidade
pedindo comida de casa em casa. Calcula-se em mais de oitocentos o número de novos mendigos na
cidade.
-- O que as autoridades procuraram evitar na noite de 31 tornou-se um problema até pior, em
conseqüência da ação dessas mesmas autoridades. São ironias do destino -- comentou o delegado
Levita.”
(Jornal O Estado de Minas Gerais, em 12 de abril de 1970.)

“Dia 7, 1.500 camponeses armados sitiam e ocupam o Engenho Coqueiro, do Sr. Constâncio
Maranhão, em Vitória de Santo Antão. Retiram gêneros alimentícios, matam bois, estão munidos de
armas longas. (...) Os ocupantes são divididos em grupos, entrincheiram-se, rastejam e utilizam
evidentes táticas de guerrilhas.”
(Do relatório do Sindicato da Indústria do Açúcar do Estado de Pernambuco sobre as Ligas
Camponesas, entregue ao presidente João Goulart em 22 de outubro de 1963.)

“que não recebeu dinheiro de quem quer que seja para esse fim; que sempre procurou ajudar os
retirantes na época da seca porque é uma desgraça enorme; que é verdade que tomam comida quando
não têm dinheiro para comprar; que é a primeira vez que ele, depoente, vem para o sul; que é verdade
que pertenceu às Ligas Camponesas de Pernambuco; que teve de

<24>
~:

mudar-se de Alagoas porque foi retirado sem júri, da cadeia de Arapiraca, Alagoas, em 1960; que foi
libertado pelas Ligas Camponesas de Alagoas mas teve de fugir para Pernambuco~ que em 1963 seu
processo foi arquivado porque nenhuma culpa foi apurada contra ele na morte de um comerciante de
Arapiraca, durante a invasão do mercado local por retirantes; que nesse mesmo ano de 1960 voltou a
Alagoas para buscar sua mulher e filha, na cidade de Pombal; que lá encontrou sua mulher amasiada
com outro homem, porque o julgava morto; que voltou então para Pernambuco sem a mulher e a filha;
que não sabe mais onde se encontram; que em Pernambuco trabalhava na lavoura de cana; que não
conhecia pessoalmente o deputado Francisco Julião, das Ligas; que Julião era comunista e político; que
de 1960 a 1964 encontrou trabalho mesmo durante as estiagens, por influência das Ligas; que
participou de ocupação de engenhos em Pernambuco; que não sabe dizer se Francisco Julião
explorava a ignorância do povo; que nunca mais ouviu falar do ex-deputado Francisco Julião; que ele,
depoente, foi preso juntamente com outros lavradores, interrogado e solto na Revolução de”
(Do depoimento do subversivo Marcionílio de Mattos, enquadrado, por incitação à revolta, na Lei de
Segurança Nacional e, pela morte de um policial, acusado de homicídio doloso, no processo do DOPS
de Belo Horizonte sobre a revolta popular da madrugada de 31 de março na Praça da Estação.)

“Ontem, no Aeroporto de Congonhas, estavam vários deles (ex-cangaceiros), esperando os outros.


Estava Marinheiro, um ano de cangaço, hoje funcionário da Caixa Estadual; estava Pitombeira, três
anos de bando, entrou para não ser morto pela polícia, hoje funcionário da Prefeitura. Estava também
Criança, sete anos de lutas, a glória de enfrentar sozinho, por duas horas, a Volante, para deixar o
bando escapar. Criança, hoje, vende tomate como ambulante.”
(Jornal O Estado de S. Paulo, em 18 de outubro de 1969. Reportagem sobre o encontro de ex-
cangaceiros em São Paulo, para lançamento do livro As táticas de guerra dos cangaceiros.)

“... segundo o delegado Humberto Levita, apontam como principais responsáveis pelo conflito o ex-
cangaceiro Marcionílio

<25>
~:

de Mattos e o jornalista Samuel Aparecido Fereszin. Sabe-se já que Marcionílio, preso incomunicável no
DOPS, é subversivo e participou das Ligas Camponesas do ex-deputado Francisco Julião. O jornalista,
como se sabe, trabalhava nesta folha e”
(Jornal Correio de Minas Gerais, em 13 de abril de 1970.)

Gravatá, Cotuzumba, Avenca, Pajeú, Itapeti, São José do Egito, Saque, Quixadá, Brejo da Cruz, São
Bento, Pedra Nova, Corunas, Jacaré dos Homens, Cacimbinhas, Boqueirão, Crateús, Currais Novos,
Novas Russas, Limoeiro do Norte, Jaguaruana, Crato, Mombaça, Senador Pompeu, Canindé, Granja,
Sobral, São Luís do Curu, Tauá, Quixeramobim, Orós, Ipaumirim, Juazeiro do Norte, Asaré, Cedo,
Jucas, Mauriti, Brejo Santo, Aracati, Maranguape, Copiara, Acarapé, Icó, Baturité, Cariré.
(São nomes de lugares secos, pedindo ajuda ao governo em 1970.)

“Aqui vim para ver, com os olhos da minha sensibilidade, a seca deste ano, e vi todo o drama do
nordeste. Vim ver a seca de 70 e vi o sofrimento e a miséria de sempre.”
(Emílio Garrastazu Médici, presidente da República, em 6 de junho de 1970.)

“Líder camponês morto em tentativa de fuga”


(Título de notícia da oitava página do jornal O Estado de Minas Gerais, em 7 de junho de 1970.)

“Vi a paisagem árida, as plantações perdidas, os lugares mortos. Vi a poeira, o sol, o calor, a
inclemência dos homens e do tempo, a desolação.”
(Emílio Garrastazu Médici, presidente da República, em 6 de junho de 1970.)

“Segundo informações dos órgãos de segurança, o líder camponês e ex-cangaceiro Marcionílio de


Mattos foi morto ontem em tiroteio com agentes de segurança, apos empreender espetacular fuga do”

<26>
~:

(Notícia publicada em duas colunas, no pé da oitava página do jornal O Estado de Minas Gerais, em 7
de junho de 1970.)
“O quadro que nós vimos não é o quadro que devemos ver, quaisquer que sejam as desventuras, as
calamidades e as inclemências da natureza. Forçoso é que nenhum de nós se conforme com essa triste
realidade.”
(Emílio Garrastazu Médici, presidente da República, em 6 de junho de 1970.)

“após empreender espetacular fuga do xadrez do DOPS.


Marcionílio, o frustrado líder camponês que há três meses tentou trazer a subversão do campo para a
cidade, chefiando um verdadeiro regimento de famintos, em conexão com extremistas da capital,
arrebatou a arma de um policial, imobilizou a guarda, ganhou o saguão do DOPS, e correu pela Avenida
Afonso Pena abaixo, atirando em seus perseguidores. Um tiro de um dos agentes que corriam em sua
perseguição atingiu Marcionílio na cabeça, que caiu já sem vida.”
(Notícia publicada em uma coluna, na décima segunda página do jornal Correio de Minas Gerais, em
7 de junho de 1970.)

<27>
~:

Bodas de pérola

<29>
~:

MARIDO

-- Tenho tanta coisa pata fazer amanhã.


De uns tempos para cá ela começou a fazer planos pata amanhã. Mas amanhã ela vai morrer.

-- Amanhã, sem falta.


e foi tão maravilhosa aquela primeira vez, com juventude e o sentimento de pecado -- havia deus
naquela época -- que ficamos horas abraçados, mortos, como mortos mesmo, assustados diante de
tanto prazer.
eu pensei que ia morrer e você
eu também
eu podia morrer agora
eu também
eu quero morrer quando não for mais assim
eu também
eu quero morrer junto com você
eu também
jura
juro
antes de ficarmos feios e velhos
é
também se um de nós ficar doente sem cura
também
vamos morrer juntos
hum-hum
abraçados
vamos
estou falando de verdade
eu também
jura por deus
juro juro por deus

<30>
~:

quem vai escolher o dia


nós o pressentiremos
e durante os primeiros anos vivemos a mágica daquele pacto, era nossa defesa e superioridade, a
coisa maior que conseguimos naqueles anos, nascendo de nós e ficando maior do que nós, como um
deus mesmo, de onde nos vinha uma força que escandalizava as pessoas

-- Amanhã
A puta velha pensa que me engana. Hoje ela já falou amanhã seis vezes. E amanhã estará menos
parecida com a fotografia, a bela moça da fotografia. Ela aprendeu com as outras putas velhas a
suportar um olhar sem interesse, a ficar esquecida numa festa com uma aparência de dignidade, a
deitar-se com um homem sem ficar nua, a tirar manchas da pele, a não se abalar quando um homem
que a desejava há alguns anos desvia agora os olhos, a gozar uma vez por mês, a ir ao dentista
escondida, a não rir da barriga do marido ~s oito horas da manhã, a acreditar que mesmo assim vale a
pena.

-- Amanhã, não se esqueça, viu?


Eu a amava devagar e timidamente, num excesso de ternura que também vinha dela. Beijava seus
dedos (um cheiro doce de esmalte fresco), beijava a palma da mão um pouco fechada em concha,
quentinha. Ai, como esquecer, como esquecer, se ao menos eu pudesse esquecer como foi. Ela
passava a outra mão atrás do meu pescoço, um pouco tímidos em nossas carícias, como que nos
recusando. Eu sorria, ela sorria menos, a mão quentinha passeando na nuca; por que é que você riu,
nada, fala, benzinho, é bobagem, mas fala, estou pensando na primeira vez que te beijei, o que que tem
de engraçado nisso, nada, fala pra mim, é que estou lembrando que você não gostou, você achou, (um
pouco ofendida) achei mas agora não acho mais, (beijei-a na pontinha do nariz) ainda bem, boba, não
precisa ficar com raiva; e segurei-a pelos ombros, firme, forte e protetor; ela se entregava um pouco
mais, era sempre assim, havia sempre aquela espécie de timidez impedindo-nos, uma relutância dela,
ou muito escrúpulo meu, e ficávamos assim ternos e sem intimidade, sofrimento da iminência de um
pecado, e minha mão direita -- não a mão propriamente, os dedos -- e

<31>
~:

meus dedos acariciavam também o pescoço dela e ficávamos nos olhando, sentindo uma quentura
terna transformar aquele olhar numa coisa insuportável; tínhamos medo daquele olhar e encostávamos
face na face, a mão entregávamos um pouquinho mais, rosto colado no rosto, enquanto minha mão
acariciava a outra face dela como quem diz eu te amo, o que ela compreendia e respondia com
palmadinhas leves nas minhas costas, eu agradecia com um leve roçar de lábios na pontinha da orelha;
era um diálogo, dois corpos que podiam conversar: eu te amo dizia o meu corpo, sim eu sei respondia o
dela, e hesitava um pouco mas completava eu também, depois sorríamos mais entregues (ela sempre
desconfiava um pouco), os corpos muito próximos, quase se tocando, bastava um movimento qualquer,
por exemplo, mudança de apoio do corpo do pé direito para o esquerdo e pronto, os quadris estavam
colados suavemente, minha mão direita abandonava a nuca e espalmava-se nas costas à altura da
cintura, era um apoio, ah, era uma segurança, e ela abandonava-se um pouco para trás, confiando,
obrigando-me a sustentá-la com a mão apoiada às costas, e a mão transmitia seu calor através da
fazenda fina da blusa; eu era terno e quente e jovem e ela entregava-se um pouco mais, aproximava o
corpo, apoiava a cabecinha no meu ombro esquerdo, minha face esquerda comprimia sua testa onde
uma artéria transmitia em morse eu te amo, eu também te amo menina, eu também te amo menininha,
os corpos conversando, eu girava um pouco a cabeça e dava um beijo na fronte, descia os lábios numa
carícia leve, os corpos tocando-se com confiança, ela via o rosado moreno da minha boca e aguardava
com seus lábios sérios, eu os tocava de leve, tão leve!, juntos entreabríamos sem pressa os lábios, ela
prendia meu lábio inferior entre os seus, eu prendia seu lábio superior entre os meus, e fios provávamos
com ternura, os corpos bem juntos num abraço leve, e ela sentia minha ereção desde o princípio, sem
medo, e me amava por desejá-la, os corpos conversando amor e juventude, ela apertando o abraço, eu
introduzindo a língua em sua boca -- seus olhos assustados com a intromissão -- ela aceitando minha
língua, provando, mordendo devagarinho, depois sugando com prazer, mordendo; eu retirava a língua
num gemido e mordiscava a parte interna dos lábios dela, ela respirava mais rápido, ofegante, confiava
naquele abraço forte que a prendia e entregava o ventre ao contato do meu desejo, era

<32>
~:
uma aflição, nossa virgindade era um desespero, mas tínhamos medo; minha língua passeava em sua
face até alcançar a orelha e ela se arrepiava e contorcia, friccionando o sexo apertado contra seu
ventre; eu me inclinava um pouco sobre ela, ela se inclinava um pouco para trás e abria as pernas,
loucos, os dois sexos fremiam, um de encontro ao outro, desejavam-se sob as roupas e ainda tínhamos
medo, era doloroso e excitante, e ela quase gemia em suspiros, loucos aquele dia, dei a ela minha
língua para não ouvir, ela sugava-a com violência, era sempre assim antes de termos coragem, era
doloroso e excitante, apertávamos os sexos um contra o outro e nos torcíamos nervosos, beijávamos de
boca inteiramente aberta, com fome, era doloroso e excitante, meu Deus, isso não pode continuar, era
um desespero, as mãos passeavam brutas pelos corpos, eu apertava o seio dela, seus olhos me
encorajavam, eu te amo, e era bom, eu era violento e bom, meu Deus, alguma coisa vinha lá do fundo,
uma dor, uma quentura, sentíamos, e mais urgentes nos agitávamos e apertávamos quase com raiva
odiando odiando não não um calor palpitava nas minhas virilhas ela era invadida por um desespero sem
ar líquido água ai esvaía-se ai inundava-se meu benzinho meu benzinho arrancava e deixava escapar
um ai lá do fundo do peito, um ai quente, soprado, cheio de amor e obrigado.

-- Amanhã temos uma peça ótima para ver.


Primeiro ato: A Fêmea Que Suspira. Ela tira a maquilagem da noite, vestida num penhoar amarelo, de
rendinhas, enquanto eu tomo meu leite de magnésia e me deito; ela termina sem pudor a sua limpeza
de pele e passa um creme para dormir, enquanto eu apago a luz de cabeceira; ela se deita ao meu
lado, tenta conversar sobre o dia, e eu murmuro fingindo quase sono; ela se cala e começa a sessão de
suspiros, que não levam a nenhum resultado prático; ela pretende uma qualquer necessidade de
iluminação e acende a luz de cabeceira, que me incomoda a vista; ela tira as pernas de sob a coberta e
finge procurar qualquer coisa, alisando-as, ainda sem nenhum resultado prático; ela suspira, apaga a
luz a pedido meu e fica oferecendo-se no escuro, suspirando (sem resultados práticos); durante muito
tempo recorre aos tais suspiros sem resultados práticos até que eu, meio adormecido, cuido ouvir um
soluço abafado, que fecha o primeiro ato.

<33>
~:

Segundo ato: A Mulher Satisfeita da Vida. Acordando, já a encontro frente ao espelho, retirando o
creme para dormir de uma cara desesperada; quando percebe que acordei, ela sorri e recorre a gestos
musicais; vou ao banheiro e, na volta, encontro-a passando o creme para pele seca; espero-a para o
café (meia hora), lendo os jornais; vejo-a chegar respirando fundo o ar da manhã e abrir os braços ao
sol -- Bom dia, sol -- como uma atriz de opereta; ouço durante o café os aborrecidos casos de suas
amigas, e ela entra em detalhes quanto a Fulana, que arranjou um amante; saio para dar minha aula na
faculdade e encerro o segundo ato.
Terceiro ato: A Madame Vai às Compras. (Este ela representa sem mim, com eventuais encontros.)
Começa aplicando no rosto a maquilagem própria para a luz do dia; sai, com vestido apropriado; olha
vitrinas e apenas pergunta preços, uma vez que precisamente nada lhe falta; troca beijinhos eventuais
com amigas mais eventuais ainda; olha insinuante para homens que não se insinuam, hélas!; entra
numa perfumaria e compra potes de cremes ou latas de pós; encontra uma velha amiga e procura
parecer jovem, despedindo-se com um aparece lá em casa; olha fazendas numa loja de tecidos, onde
um rapazinho sempre a atende de maneira excitante e amável, mas não compra nada; volta para casa
sentindo fome e cansaço e insucesso, com um embrulhinho ridículo na mão.
Quarto ato: O Vazio em Petit Comité. Começa com o jantar, em que ela conta monótona sua excitante
aventura da tarde; depois, tira com um creme a maquilagem do dia e aplica maquilagem mais pesada,
para noite; veste-se de maneira apropriada se o programa não é televisivo e sim social; recebemos ou
visitamos; de um modo ou de outro, sempre estamos com pessoas que nada têm a acrescentar; ela
senta-se empinadinha, olhando muito quem está falando, com um leve sorriso de quem está
compreendendo muito, até piscando de tanta atenção; quando pedem sua opinião ela se embaraça:
não estava prestando atenção; dá um jeito de conversar com a velha amiga e pede detalhes sobre o
amante; chama-a de doida, diz que jamais teria coragem de fazer uma coisa dessas comigo; bebe
moderadamente, come moderadamente, conversa moderadamente, caceteia moderadamente; nos
despedimos ou se despedem; no quarto, ela veste o penhoar azul, de rendinhas; tomo meu Sonrisal,
enquanto ela tira com um creme a maquilagem da

<34>
~:
noite, preparando-se outra vez para representar A Fêmea Que Suspira.

-- Vamos à festa amanhã?


Morre-se muito tarde. Sem nenhuma dignidade, o homem fica esperando, adiando, envelhecendo.
Não, ninguém vai decidir a hora da minha morte, eu mesmo posso escolher, ainda tenho essa velha
consciência esperta. É verdade que não tenho estado atento: na revolução procurei me esconder, tomo
cuidado ao atravessar as ruas, evito comer um camarão suspeito. Não posso mais cair nessas
distrações do instinto.
A puta velha pensa, acredita!, que seu prazer ainda é o mesmo da juventude, com esses seios! Ela
acredita que eu estou cada dia mais acostumado -- à velhice! Já não fica acordada de noite para evitar
uma armadilha. Já não se levanta sorrateiramente para verificar o gás. Já não tem receio de comer o
que lhe ofereço. Ela se acredita em segurança, livre do pacto. É o melhor momento.

<35>
~:

MULHER

-- Amanhã, disse ela. -- Você vai mesmo?, disse o rapaz. -- Vou, disse ela, pode ter certeza que eu
vou. -- E o professor, disse o rapaz, é preciso tomar cuidado. -- Ele não liga, disse ela, depois te conto
como ele é. E pensou: eu tenho sempre de contar isso para os homens. -- Onde?, num hotel?, disse o
rapaz. -- Onde você quiser. Eu vou aonde você quiser, disse ela. -- De tarde?, disse o rapaz. -- É, disse
ela, eu só posso de tarde. Como é seu nome mesmo? -- Carlos, disse o rapaz. -- Então me dá seu
telefone, disse ela.
Juliana chegou das compras, verificou se estava tudo bem na cozinha, recomendou mais uma vez à
empregada que pusesse pouco sal na comida e sentou-se na poltrona da sala, esperando o marido.
Adormeceu, muito levemente. Acordou de repente, com o marido olhando-a da outra poltrona. Teve a
impressão de que ele estava olhando há muito tempo e ruborizou-se toda, num súbito calor. Calma,
calma, calma. Juntou os pedaços de sua alma desmantelada, reanimou-a, aprumou-se sorrindo e falou:
-- Que coisa, me deu um sono. Quantas horas?
Ele não respondeu. Juliana limpou com um gesto de mão alguma poeira que não havia no vestido,
passou a mão pelo rosto e começou a tentar outra coisa:
-- Andei tanto, acho que foi por isso que me deu sono. Quem sabe eu tomo um banho?
Não estava perguntando, e estava. Acostumada, já, com aquele jeito de conversar não conversando.
E continuando:
-- Talvez seja tarde para tomar banho agora, o jantar já deve estar pronto, quase. Se eu for agora vou
atrasar tudo.
Ele não ia dizer: pode ir, eu espero; mas ela deixava o intervalo de uma resposta, como se estivesse
ensaiando sozinha uma cena de teatro. E ainda:

<36>
~:

-- O melhor é ir ver como está o jantar. Quem sabe está atrasado também?
Não se levantou logo. Ficou pensando se olhava bem para ele e dizia diretamente: “Amanhã fazemos
trinta anos de casados. Será que podemos convidar uns amigos?” Pensou nisso muito pouquinho
tempo, absurda. Depois levantou-se para ir à cozinha e, como se tivesse saltado várias falas na cena do
ensaio, a de agora sem ligação com a última, disse pensando em Carlos:
-- Tenho tanta coisa para fazer amanhã.

-- Vem, disse o rapaz. -- Ainda não, disse ela, agora eu vou explicar como é o Candinho. -- O
professor?, disse o rapaz. -- É, o meu marido, disse ela.
Hoje estamos fazendo trinta anos de casados. Ele quase não fala, mais comigo, tem uns três anos
que não fazemos mais nada na cama. Ninguém fica tanto tempo assim, sem, como se diz, sem fazer
nada. Quando isso começou, quando ele parou de me procurar -- não -- quando ele passou a procurar
menos, eu não prestei muita atenção, não sei direito quando foi. Deve ter uns cinco anos. E um dia eu
falei com ele. Perguntei por que ele não estava querendo, que às vezes passava mais de um mês, que
eu é que tinha de procurar, o que estava acontecendo. Aí ele me falou uma coisa estranha, eu achei
muito estranha. Falou assim: “Você não acha que chegou o dia?” Era uma coisa de que eu deveria
estar sabendo, pelo jeito como ele falou, mas eu não sabia de nada, não me lembrava, e não disse
nada porque poderia ser alguma coisa que eu tinha esquecido e não deveria esquecer. Sem saber o
que era, eu disse: ainda não -- só para adiar e tentar lembrar depois do que ele estava falando. Ele ficou
satisfeito, pensando que eu não tinha esquecido. Passamos bem algum tempo, até o dia em que ele
tentou botar fogo na casa. Eu lembrei na mesma hora o que ele quis dizer com aquilo e gritei, gritei para
ele: “Ainda não, Candinho, espera um pouco mais, eu juro que te aviso, Candinho, eu não esqueci”. Era
uma coisa que nós tínhamos combinado há muito tempo, eu era mocinha. Deveria ter -- quantos? -- uns
dezesseis anos. Juramento de meninos: nós tínhamos combinado de morrer antes de ficarmos velhos.
Naquele dia do fogo eu compreendi que Candinho não estava bom da cabeça, posso dizer mesmo que
ele estava meio doido. Os médicos o levaram e

<37>
~:

trataram no hospital. Depois daquele dia, nunca mais me procurou na cama. Quer dizer, fora das crises
ele é normal, não é nenhum louco, mas mesmo assim não fazemos nada na cama. A gente nunca sabe
direito quando uma crise começa ou acaba. Eu só durmo depois que ele dorme. Uma outra vez, mais
recente, ele deixou abertas as torneiras do gás e eu fiquei sentindo aquele cheiro até ele dormir. Fiquei
respirando através do lençol, escondida no escuro, e quando ele dormiu, acho que meio tonto com o
gás, eu levantei e fui lá fechar o gás. Abri as janelas todas, ele nem viu. Agora Candinho quase não
conversa comigo. Fico falando sozinha na hora do jantar só para distrair a cabeça dele, o médico disse
que é bom. Eu nunca sei se ele está entrando ou saindo de uma crise. O dia inteiro tomo cuidado, as
facas são trancadas a chave, todo dia olho se tem revólver escondido nas gavetas, olho o gás. O
médico diz que ele nunca vai fazer uma violência física direta, só essas armadilhas, escondido, mas sei
lá. O médico diz que é com essas armadilhas que eu preciso tomar cuidado. É também um pouco de
loucura minha morar naquela casa, posso morrer numa hora dessas, mas fico sempre esperando que
ele volte a ser o que era. Dr. Santoro disse que esse problema de Candinho pode acabar
completamente. Alguns homens ficam assim, com a idade, depois passa. Durante vinte e cinco anos ele
foi o homem mais amigo, mais simpático, o melhor amante que eu já conheci.

O rapaz abriu seu vestido nas costas, desabotoou o sutiã, enfiou a mão pelo decote. -- Você acha que
estou velha?, disse ela. -- Que é isso, disse o rapaz, você está enxuta. A outra mão erguia seu vestido
de leve e ela sentia na perna direita a palpitação do sexo dele. -- Eu não quero morrer, disse ela
baixinho.
tão de leve, na mão, no rosto, nos cabelos, um carinho gostoso no pescoço, um olhando nos olhos do
outro, eu ficava quente quente com aquele olhar, e ele me abraçava e dizia eu te amo, beijando a
pontinha da orelha, eu encostava um pouquinho, ele encostava um pouquinho, meu corpo colado no
dele, ele vinha beijando meu rosto de leve até chegar na boca, tão de leve, e depois não era mais de
leve, e eu sentia a coisa dele na minha barriga, me dobrava para trás, para sentir mais, em cima da
minha coisinha, um abraço tão apertado que meus seios doíam, aquilo nas minhas pernas, na minha
barriga, aaaaaaaaaaah!

<38>
~:

-- Eu sou uma mulher de quarenta e sete anos, disse ela, não fica bem. -- Que bobagem, hoje em dia
todo mundo faz, disse o rapaz. -- Eu nunca fiz, disse ela. -- Não vai doer nada, disse o rapaz.
Uma dor suportável, continuada, renovada; um prazer pressentido. Depois uma coisa
substituindo a outra (dor ou prazer?); uma acabando, outra aumentando (prazer ou dor?). E depois era
uma coisa só (prazer? dor?), aumentando, aumentando.
-- Aaaaaaaaaah! Candinho! Aaaaaaaah!
-- Eu pensei que ia morrer. E você?
-- Eu também.
-- Eu podia morrer agora.
-- Eu também.
-- Eu quero morrer junto com você.
-- Eu também.
-- Jura?
-- Juro.
-- Antes de ficarmos feios e velhos.
-- É
-- Também se um de nós ficar doente sem cura.
-- Também.
-- Vamos morrer juntos?
-- Vamos.
-- Abraçados.
-- Hum-hum.
-- Estou falando de verdade.
-- Eu também.
-- Jura por Deus.
-- Juro.
-- Quem vai escolher o dia?
-- Nós saberemos, quando ele chegar.
Uma coisa tão bonita para se dizer naquela hora da nossa primeira vez, como se fosse um livro. Ele
tão sério, eu tão sincera como se fosse um livro de amor.
Eu não quero morrer.

-- Nós nos casamos muito cedo, disse ela. Eu tinha dezessete anos, ele vinte e um. -- Quer dizer que
ele agora tem cinqüenta e um?, disse o rapaz. -- É, disse ela. -- Parece muito mais velho, disse o rapaz.
Poxa, ele

<39>
~:

tem cara de sessenta. -- Não é?, disse ela. Foi a doença dele, depressão. -- E você parece muito mais
nova, disse o rapaz. -- É, todo mundo diz, disse ela. -- Parece filha dele, disse o rapaz. -- Ah, isso
também não, disse ela. -- Verdade, disse o rapaz. Eu, se fosse você, dava o fora nele e casava de
novo, disse o rapaz. -- Cala a boca!, disse ela. Nunca mais fale dele assim, estou avisando, nunca mais!
-- Que é isso? Uma bronca dessas por causa de um maluco que quer matar você?, disse o rapaz. -- Ele
é o meu primeiro amor, disse ela. E você, vocês todos, são lixo, lixo, lixo!
Juliana chegou das compras e foi tomar banho. Lavou tudo que havia de Carlos no seu corpo e
tornou-se outra vez uma mulher limpa, casada. Quando voltou para o quarto deu um pequeno grito de
susto: lá, em cima da cama, um embrulho de presente. Seu primeiro pensamento foi sair correndo, com
o pressentimento de um perigo. Calma, calma, calma. Em cima, meio enfiado na dobra do embrulho,
havia um pequeno envelope sobrescrito. Pensou em presente da mãe, das cunhadas, de alguma
amiga, pelas Bodas de Pérola. Pegou o envelope com a mão trêmula, pensando e enganando-se: eu
conheço essa letra; enganando-se antes de ler e ter certeza: é de Candinho! Novamente aquela
sensação de perigo. Ficou com medo de abrir o embrulho, uma bomba, a morte- estava lá dentro.
Pegou a caixa com cuidado, balançou-a de leve. Nada suspeito, nenhum ruído, nem o peso. Candinho
entrou no quarto com uma outra cara, a cara de alguns anos atrás, e disse rindo:
-- Abre. É para você.
Num rápido gesto suicida Juliana abriu o embrulho, a caixa. Um lindo, precioso, maravilhoso colar de
pérolas. Surpresa, confusa, ela chorou para ganhar tempo, alisando o colar.
-- E para mim, não tem presente?
Ela ficou calada, sentindo a alegria de tê-lo de volta e o medo de voltar a perdê-lo. Insegura ainda
naquela confiança que queria ter. Falou meio chorando:
-- Eu esqueci. Dou depois. Me desculpa, viu?
-- Veste uma roupa bonita. Hoje temos um jantar especial.
Juliana entrou na sala e encontrou Candinho de pé esperando-a. Observou tranqüilizada como o seu
vestido combinava com a sobriedade da roupa dele, paletó e gravara. Candinho a olhava querendo
perguntar alguma coisa, ou procurando, e

<40>
~:

ela tentou ver depressa o que estava errado. Havia um bolo sobre o aparador e a mesa estava posta
para duas pessoas.
-- Não gostou do colar?
Ela compreendeu o olhar, aliviada; e logo depois culpada, mortificada:
-- Oh, não, Candinho, adorei. É que eu esqueci, eu... estou tão... eu vou buscar.
-- Não, deixa.
-- Mas eu adorei, achei lindo. De verdade.
Foi buscar o colar e voltou para entregar-se à confiança que estava querendo ter. Sentaram-se;
Juliana tocou a sineta chamando a empregada para servir o jantar. A princípio teve dificuldade de falar,
ela que geralmente era a única a falar à mesa, apanhada numa situação nova. Juliana percebeu nele
uma tentativa de ajudá-la:
-- Com um pequeno esforço poderemos ter um dia perfeito.
Ela foi confiando e começando a falar, a princípio sobre coisas do jantar mesmo, como: “Quer me
servir o arroz, por favor?” e “Bom, esse vinho”; depois falando de coisas mais pessoais, como um filme
que tinha visto numa tarde dessas; e aos poucos tomava-a a alegria de estar falando com ele
novamente, de ouvir respostas claras, frases completando frases dela, uma alegria que tinha esperado
tanto tempo, e o calor e o vinho e o jantar ajudavam aquela noite, eram novamente Juliana e Candinho
Contra o Resto; e ela falava de uma viagem que gostaria de fazer, dos lugares que gostaria de
conhecer, “Japão é o que mais me atrai”, dizia ela, e de repente a mão dele tocou sua mão!, a alegria
crescendo, a vontade de telefonar para a mãe dizendo: “Mamãe como é que a senhora nem telefona no
dia do meu aniversário de casamento?”, mas não era preciso, estava um dia perfeito, e quem sabe hoje
ele a abraçaria como antigamente, tudo esquecido; alisava o colar no peito, conversava, bebia e de
repente lá estava ele olhando o bolo e ela teve certeza de que o veneno estava no bolo.
-- O que foi, Juliana?
-- Não sei. Eu... não sei.
-- Você ficou séria.
Ela duvidou do que tinha descoberto:
-- Não foi nada, já passou.
Ele segurou sua mão e disse que talvez pudessem ir ao Japão. Tinham gasto tão pouco nos últimos
anos que o dinheiro

<41>
~:

talvez desse para a viagem. Ela já estava duvidando do que tinha visto, preferindo acreditar naquele
seu Candinho de antigamente, que saía da Loucura e falava na viagem.
-- Vamos partir o bolo -- disse ela resolvida. Queria acabar com a dúvida, não queria que a dúvida
estragasse o único dia perfeito naqueles cinco anos. Ele disse calmo, sem pressa, sem nenhuma
insegurança na voz:
-- Já? Não quer mais um pouco de vinho?
-- Não, para mim chega.
-- Está bem -- disse ele, servindo-se do que restava da segunda garrafa e bebendo de uma vez. --
Esse vinho é meio forte, não é?
-- É -- disse ela sorrindo, convencida de que se enganara. -- Ainda tem?
-- Agora é tarde -- disse ele tonto meio alegre. -- Só se abrirmos outra garrafa. Quer?
-- Não -- disse ela confiando. -- Vamos partir o bolo.
-- Assim não, assim não -- disse ele interrompendo a mão dela e a faca. Juliana olhou não
entendendo e ele: --Vamos partir da maneira tradicional, nós dois segurando a faca, como se fosse uma
pose para fotografia.
Partiram o bolo, rindo; serviram-se. Ela comeu um pedaço. Já ia dizendo: hum, está bom -- e ao
levantar os olhos viu Candinho hesitando um brevíssimo instante antes de morder o primeiro pedaço.
Depois, vendo-se observado, ele fez uma cara satisfeita:
-- Está bom, não?
Juliana fez que sim com a cabeça, comeu tudo e ficou esperando a dor do veneno começar.

<43>
~:

Andrea
Biografia encontrada pelo autor entre os papéis de uma personagem do livro, que não sabe ainda se
identificará mais adiante.

<45>
~:

1.
Ela era muito bonita. Talvez a única verdade de Andrea, base de todas as posteriores mentiras, tenha
sido essa: a beleza. As mulheres bonitas demais são colocadas sempre na frente -- de uma família, de
uma coroação de Nossa Senhora, de uma sala de aula, de um colégio, de uma festa, de uma sociedade
-- e acabam assumindo a responsabilidade de manter-se no centro o resto da vida, e essa ilusão cansa
e faz sofrer. Na adolescência, Andrea já estava perdida no seu engano.
Queria amar -- não pouco, muito, como as heroínas. Antes dos quinze anos já amava violentamente,
porque o beijo foi uma descoberta perturbadora. O medo de estar pecando --católica, de família classe
média, nascida e criada na Tijuca -- impediu que ela conhecesse na época outras carícias. Ficou-lhe
para sempre uma sensação de leveza e perigo na hora de um beijo.
Um dia o pai descobriu e leu o diário de Andrea, falando em beijo, demais. Enfurecido, mandou a filha
para a casa de uma ria, em Vassouras, onde ela terminou o curso Normal e adquiriu uma inquietante
ignorância, que conservou para sempre.
As pernas de Andrea aos dezessete anos provocavam brigas nos bares de Vassouras. Um sujeito
moreno arrebentou a cabeça de um outro com um taco de sinuca por causa das pernas de Andrea.
Escondido da polícia, escreveu-lhe um bilhete --num português horrível que ela teve a delicadeza de
desculpar -- dizendo que brigara por sua causa. Ela amou durante muito tempo, sem nunca ter visto,
aquele homem sanguinário, capaz de matar. Em sonhos, era vítima de violências dele. Guardou a carta.

<46>
~:

Voltou para a Tijuca no fim do curso. Falou-se da sua beleza naquele verão de 1951. Ficava
alegremente emocionada sempre que alguém se apaixonava por ela. Achava natural gostarem de uma
pessoa tão linda e era compreensiva com os rapazes. Os homens rondavam, os meninos
masturbavam-se. Naquele verão de dezoito anos, Andrea apaixonou-se por um rapaz que estava
iniciando uma indústria de utensílios de plástico. Falavam em casar, quando o pai dela teve de “aceitar”
transferência para outro Estado. Andrea quis -- romântica --fugir, mas o jovem industrial disse que não
estava em condições. Dele guardou uma fotografia 3 X 4.

2.
Começa aqui a fase de Andrea em Minas. As primas de Belo Horizonte apresentaram a moça à boa
gente mineira; gente delicada, sentimental, vagarosa, prestativa, envolvente, mítica, organizada,
mesquinha, maldosa. Andrea entrou num círculo de gente rica demais para ela, um grupo acostumado
demais -- e entrou desprevenida. As pessoas se conheciam o bastante para não confiarem, seus
contatos eram cautelosos, jeitosos. Ela trazia o quê?: dois namorados quase esquecidos, egocentrismo,
beleza, uma fotografia 3 X 4, alguns beijos, uma carta mal escrita, uma família em dificuldades. Era
pouca coisa para opor a um grupo acostumado, e deixar-se fascinar foi seu primeiro erro.
Não entendeu nunca -- em Minas, entender logo já é muito tarde, o mais seguro é antecipar -- que
inverteu as posições pelo seu defeito básico de percepção: acreditou que era o centro das atenções,
que a sociedade estava fascinada por ela, quando a verdade é que estava sendo explorada, estavam
tirando dela o que não tinham mais: beleza e uma relativa inocência. Não o faziam como manobra, nada
era deliberado.
Uma das primeiras coisas que aprendeu na nova sociedade: a necessidade de colorir, de parecer.
Aquele primeiro namorado e a transferência para Vassouras foram transformados por ela numa espécie
de pecado original e expulsão do paraíso. O homem que andou fugido da polícia foi transformado num
bandido com uma paixão irrefreável. O namorado industrial

<47>
~:

ela disse que se arruinou por causa dela. A vida social, uma loucura. Os provincianos ouviam,
comentavam cúmplices aquela vida de aventuras e a engoliam um pouco mais.
Seu retrato começou a sair nos jornais, as colunas sociais ocupavam-se dela (recortava e guardava
as notas), era convidada pelos clubes, dançava muito, inquietava o domingo nas piscinas. Saía com
rapazes, mas estava perdida demais em seu próprio fascínio para ter tempo ou paciência de apaixonar-
se: bastava-se, amorosa. Um dos rapazes obteve uma espécie de vitória quando conseguiu enfiar a
mão sob suas saias e mantê-la ali alguns minutos. Depois contou para quem quis ouvir e não a
procurou mais.
Envolveram-na, atenciosos, numa trama de simpatia: ele não presta mesmo, todo mundo sabe disso,
um aproveitador, conta para todo mundo as coisas que faz com as namoradas; obrigando-a a passar à
defesa: de mim ele não tem nada para contar, eu já estava cansada da falta de classe dele, para mim
foi até bom ele inventar essa cafajestada; levando essa defesa aos ouvidos dele e recebendo na volta:
cansado dela estava eu, nunca vi pequena mais burra, cabaço é, mas gosta duma sacanagem, não
comi porque não quis; contando isso a ela e a outras pessoas, e recontando as repercussões. Em
poucos meses a tinham envolvida, cúmplice.
(Para quê? Para nada: para se sentirem irmanados, fortes, capazes de impor uma regra ao jogo; para
conversarem, passarem o tempo, exercitarem-se, estarem em dia, informarem e serem informados,
participarem, absorverem uma coisa viva, entrarem num movimento, esquecerem sua própria falta de
sentido, alimentarem-se (como uma ameba) do que está mais próximo, sobreviverem: para tudo.)

3.
Começaram, então, em 1953, o processo de Andrea. Não era mais a fascinante moça carioca; era
alguém de quem sabiam coisas comprometedoras. Os depoimentos eram prestados ao ouvido, para
não se ofender a ré: delicadeza mineira.
Contra a acusação de desfrutável, passou a oferecer a todos

<48>
~:

um corpo intocável. Jogo inquietante, para os dois lados. Tornou-se um pouco exasperada, nervosa.
Voltou a sonhar com o homem moreno, o bandido, que a violentava. Entrou num estado de
excitabilidade que não compreendia. Coisas a que antes não dava importância -- um homem de tanga
no cinema. Tarzan, uma palavra dúbia como gozar, uma perna vizinha num ônibus, eram dados
perturbadores. Masturbou-se muito nessa época.
Nas suas manobras de defesa, criou outra ilusão: de eficiência. Começou a trabalhar num banco,
como recepcionista, no tempo em que isso era até meio chique e as moças bonitas da sociedade não
sabiam fazer outra coisa. Séria, conseguiu testemunhos: Andrea é muito eficiente. A acusação de
burrice era a que a deixava em maior insegurança. Então comparecia a concertos, vernissagens,
estréias teatrais, informava-se nos jornais, lia os livros da moda (ah, que perturbação o grande orgasmo
de Lady Chatterley), decorou versos do poeta da moda, frases inteiras do cronista da moda. Os
resultados tornaram esse ponto pelo menos polêmico: Andrea é muito inteligente, não acho, pois eu
acho.
Quando já não era muito difícil manter as posições conquistadas, moça adulta de vinte e dois anos,
orgulhosa de uma ilusória independência, assunto principal das crônicas sociais e mesmo de algumas
literárias, vítima de dois ou três poemas, ela conheceu o amor mais longo, mais integral, mais franco e
mais carnal de toda a sua vida.

4.
É possível -- aqui, não ouso afirmar -- é possível que o começo de seu caso com o jovem pleibói
estivesse ligado ao processo, sem que tivessem consciência disso: ele pretendendo conquistar a moça
de que todos falavam, ela afirmando-se também na conquista do homem difícil, batendo outro recorde.
Nada era deliberado.
O amor resultou da resistência mútua, um certo desafio, ambos querendo manter a posição e a
reputação. Precisavam daquela luta senão teriam acabado logo. Precisavam tanto que se procuravam a
toda hora. Não tinham, muitas vezes, nada

<49>
~:

para dizer; havia apenas aquela oposição unindo-os. O período de resistência sendo vencido, eles se
afastaram.
Um mês depois, todo mundo dizia que se amavam. Procuraram-se devagar e submissos. Aceitavam-
se agora amolecidos de amor. Tinham tempo. Ela, finalmente, amava como uma heroína.
Dois anos de uma felicidade difusa chamada namoro. Quando ele começou a negligenciar, ficou
desnorteada. Sentiu-se infeliz, de algum modo infeliz há muito tempo, desde mocinha. No esforço para
mantê-lo, e julgando completar a imagem de moça independente que o atraia, deixou-se possuir por ele
em 1956. Não o ter feito de maneira lúcida, mas um pouco embriagada, no banco traseiro do
automóvel, deixou-lhe uma sensação de frustração, engano e culpa. (No rádio do carro, Nat King Cole
cantava “cachito, cachito, cachito mio, pedazo de cielo que Dios me dio”.)
Discutiam e ele desaparecia semanas, que ela atravessava miseravelmente. Na volta dele tentava --
não sabia por quê -- evitar sexo, sem conseguir. Insegura, porque deixara de ser o centro; infeliz,
porque não sendo o centro o sexo que fazia não a satisfazia. E havia também uma confusa sensação
de pecado.
Ele andava com outras, soube; quando sumia, andava com outras. Ela estava infeliz demais para ter
cautela. Deixou-se envolver, aceitou a solidariedade, chorou nos ombros das amigas, divulgou sua
infelicidade: afinal de contas, era seu grande amor. Ele voltava, ela ria; ele sumia, ela chorava -- tudo
muito simples. Nos salões, nas piscinas, nos cabeleireiros, nos bares, era oficialmente a bela moça que
sofria de amor. Nisso, pelo menos, deu seu jeitinho de aparecer.
Nunca chegaram a terminar o caso, e durante muitos anos acontecia receber visitas dele, com as
mesmas conversas, o mesmo sensualismo preguiçoso, às vezes um pouco saudoso do corpo dela.

5.
De vez em quando Andrea considerava sua situação com algum desespero: vinte e cinco anos,
mulher feita numa terra

<50>
~:

em que a donzelice é virtude necessária, procurando culposa-mente manter isso em segredo (se a
família soubesse!), tratada com desinteresse por um homem que ainda amava. Tinha crises de choro,
ajudada por um pilequezinho. Tomava comprimidos para dormir (lógico: todo mundo sabe que a
infelicidade tira o sono das pessoas), excitantes, tranqüilizantes, alkaseltzers e outros produtos da
química do drama. Cada bula de remédio que lia reforçava sua certeza de que era realmente infeliz.
Não seria errado datar dessa época -- sem nenhuma rigidez, claro -- sua tendência para a
confidência, o álcool e o prazer de presentear. Contava pequenos problemas pessoais, inventava
dramas pelo prazer de ter alguém ouvindo. (Soube-se, então, que teria havido um caso de desfalque na
sua família, o pai, parece.)
Dava muitos presentes -- gostava --, escrevia nos embrulhinhos dedicatórias começando com “ao
meu amigo”, “a minha amiga”. Geralmente eram lembrancinhas, chaveiros, canetas, anéis, brincos,
lenços, isqueiros, pentes -- pequenos subornos inconscientes. Naquele período em que se acomodava
à sua infelicidade, ainda a estranhando um pouco recorria aos presentinhos temendo que a
abandonassem. Mantinha a ilusão de centro acreditando que sua infelicidade comovia a todos.
Na tentativa de escapar, saiu do emprego, descansou, evitou bebidas, reuniões, comprimidos,
começou sua psicoterapia (estava entrando na moda). Por cinco meses não se ouviu falar muito dela.
Viajou, parece que para Vassouras. Voltou melhor, morena, bonita, com o crédito de alguns beijos e o
débito de alguns presentes. Tratou o pleibói friamente. De algum modo, desfizera-se o encanto.
Disse que gostaria de trabalhar e esperou uma oferta. O antigo desejo que sentiam por ela ainda
funcionava: ofereceram-lhe vários. Aceitou jornalismo. A posição de cronista social deu-lhe ascendência
sobre o círculo que a julgava. Inocente, não se aproveitou disso: adulou-o. Não por bondade, mas para
ouvir: Andrea é muito boazinha.
Pela mágica de pensamento de que sempre será capaz, escamoteou-se o fato de que a convidavam
para reuniões cada vez mais fechadas por ser cronista social. Naqueles seis anos ela fora para eles
uma dessas pequenas cortesãs com que seus filhos brincavam antes de procurarem alguém para
casar. Agora convidavam-na, precisavam dela, e ela não percebia que estava sendo usada pelos pais
depois de usada pelos filhos. Voltaram

<51>
~:

sua confiança e alegria. Entre os jornalistas era também centro e agradável novidade.
Outro erro: deixou-se novamente fascinar.

6.
A atração que exercia sobre o grupo de jornalistas tinha alguma coisa de distância, glamour e sex
appeal das estrelas de cinema; a que sentia por eles vinha das coisas estranhas que sabiam. Parecia-
lhe incrível que alguém pudesse saber ao mesmo tempo o que se passava no incompreensível reino do
Laos, nos bastidores da prefeitura municipal, nomes e posições de tantos deputados, informações
confidenciais sobre o presidente JK, além de futilidades artísticas e sociais. Tudo isso misturado com
ironia, gargalhadas, chope, má educação, maldade.
Nessa época, 58, começou a inventar, dar-se títulos, enumerar seus feitos, reivindicar amizades com
pessoas famosas (“Fulano?, é muito meu amigo”), posar, representar, atribuir-se uma importância na
sociedade. Foi muitas vezes indiscreta sobre: quem é amante de quem, quem faz o que com quem,
quem gosta como onde e quando, de onde veio o dinheiro de quem, o que se fala etc. Fulano?, é muito
meu amigo.
Diziam no jornal que ela era muito burra e não sabia escrever. Andrea suspeitava do que falavam. O
sintoma era quase físico: sentia-se desnorteada ao entrar na redação. Buscou apoio contra a
insegurança apaixonando-se pelo chefe de reportagem, que a chamava “a Vestal”. Paixão de outra
maneira inexplicável por um homem casado e feio que zombava dela.
Deitou-se com seu segundo homem querendo provar-lhe que não era aquilo que ele estava pensando
(o que será vestal?) e, mais uma vez, não encontrou no sexo aquela satisfação das grandes amorosas
da literatura. Procurando experimentar o orgasmo avassalador de Constance Chatterley, entregou-se
em lugares estranhos, como a torre do Edifício Acaiaca, um lote vago (barulhos de passos ali perto!); a
carroceria de um caminhão na madrugada. A paixão se foi aos poucos, na mesa de chope.
Aos vinte e sete anos, cansada de rosto, bebendo, tomando

<52>
~:

comprimidos, chegou ao fim da sua década de juventude e formação, os anos 50, que deixaram nela
para sempre a sua marca.

7.
Afastou-se também da turma do jornal, chocada com uma espécie de torneio em que se pressentiu
prêmio, um agora vamos ver quem pega primeiro. Dedicou-se um pouco mais à coluna, conseguiu
publicar algumas notícias em primeira mão e esqueceu com os elogios a sua nova infelicidade.
Promoveu artistas, foi júri de glamour girl, de miss, organizou festas. Atarefada, não pensava em
homens. Saía com amigos, dançava, trabalhava, e nada de intimidades. Não lhe custava muito porque
não tivera ainda um orgasmo de ganir; tinha achado delicioso ter um homem dentro, mas não conseguia
ir adiante. Durante mais de dois anos, antes de resolver ir embora de Minas, tentou seu grande
orgasmo só uma vez, com um desconhecido que encontrou numa boate. Fracassou.
Trabalhando, foi envolvida pelos intelectuais jovens, envolveu-os. Achou agradável a ronda discreta
que lhe faziam, tímidos, respeitosos. Gostava um pouco mais de um jovem escritor que colaborava no
suplemento do jornal. Contava-lhe tudo, talvez com esperanças de personagem.
Compreendia pouca coisa do que eles discutiam. Palavras desconhecidas, inquietantes,
atravessavam a mesa do bar, ricocheteavam nas garrafas e em Andrea: infra-estrutura, pop-art,
fenomenologia, estruturas bilaterais do verso decassílabo, ontológico, estruturalista, transcendência,
imanência. Falavam no fim do parlamentarismo, nas reformas de base, nos centros populares de
cultura, teatro popular, poesia popular -- e ela tentava aprender por que o isso-que-está-aí não podia
continuar. Uns dois da Polop (que seria isso?) passavam palavras de ordem no meio da conversa de
botequim. Sentia-se perturbada e feliz no meio da revolução. Alguém afirmava uma coisa, o escritor
protestava, dizia que era ridículo, ela não sabia exatamente o que era ridículo, concordava. Aprendia
também frases como: a mulher não pode ficar marginalizada. Em 62, era uma das suas frases
preferidas.
Estava sempre precisando do socorro dele, na sutileza. Se

<53>
~:
viam uma peça, por exemplo: ele ia dizendo o que achava bom ou ruim e quando terminava o
espetáculo ela já tinha uma opinião, estava salva, segura, podia conversar tranqüila à saída do teatro.
Um jogo sutil não revelado; sabiam-se ajudador e ajudada sem o menor sinal exterior de que o sabiam.
O Jovem Escritor é um dos mitos efêmeros da cidade. O principal: ele é a Esperança. Os ex-jovens-
escritores munia-pais que não conseguiram ser federais têm inveja e Fé. Ali pode estar o novo Carlos
Drummond, o novo Guimarães Rosa, e eles não querem; mais tarde, estar entre os fariseus, entre os
que não acreditaram. Depois de uns três anos de Fé, a cidade começa a cobrar milagres,
transformações de água em vinho, seqüência natural daquele primeiro livro, a Anunciação. Um dois três
anos de esquivas, insinuações de Iluminação nos suplementos -- mas nenhum milagre. Começa o
declínio da Fé, os velhos escritores e os de meia-idade já o tratam com mais intimidade, daí a pouco
vão abraçá-lo como a um irmão da Congregação.
O jovem escritor de plantão naquele ano de 1963 fugiu da cidade antes do abraço. (Acabava de
desfazer-se, dispersa, mais uma geração literária mineira.)
Andrea mudou-se para o Rio dois meses depois que ele saiu. Durante quase seis anos, soube-se
muito pouco sobre ela. Boatos.

8.
Voltou. Ah, como a cidade recebe de maneira aduladora e irresistível os que voltam. Pequenas que
tenham sido as aventuras de Andrea no mundo, seria ali, só ali, entre os prisioneiros da montanha, que
teriam o dom de fascinar; lá, os moinhos de vento seriam gigantes. Andrea e a cidade eram adequadas
uma à outra.
Não se soube de muita coisa, mas... havia a história de um conde meio bicha apaixonado por ela...
um homem desmemoriado quis casar com ela... Vinicius fez um samba para ela... a revista Playboy
ofereceu dois mil dólares... se Jango não tivesse caído ela estaria em Roma... despedia-se de um rapaz
na porta de casa quando chegaram três pretos enormes... meio sócia de uma butique em
Copacabana... dizem

<54>
~:

que voltou porque teve uma experiência homossexual com uma das dez mais elegantes do Rio e o
marido flagrou as duas...
Galopando com ela em suas aventuras, os da montanha a reconquistaram. Encantaram-se -- forma
mineira muito branda de domínio.
A fascinante aventureira, então considerada musa da geração literária anterior a 64, aproximou-se dos
novos intelectuais. Recuperou, naquele ano da volta, 69, seu emprego no jornal. Descansada, mulher
de estilo carioca na cor, na fala e no vestir, pouco usada sexualmente, Andrea era uma mocinha de
trinta e sete anos. Dizia que tinha trinta.
Passou a ser vista com o novo pintor jovem da cidade, premiado na Bienal de São Paulo, figurinista e
cenarista do grupo de teatro, herdeiro rico de uma grande firma de importação e exportação. Ele
também estava perdido em seu próprio jogo de aparências, atarefado com comportamentos que devia
esconder ou convinha divulgar em estudados gestos relaxados de coisa natural; sensualmente,
transmitir insegurança e esperança aos dois sexos; socialmente, apenas à mulher. Alguns homens
usam a mulher como um patuá contra o mau-olhado. Homossexual? -- ela não acreditaria.

9.
Andrea o deixava alerta. Não queria perder nada daquilo que chamava representação magistral de
uma canastrona. Esperava um colapso, o clímax do drama, o momento insuportável em que ela
interromperia a representação.
Julgavam alguns que ela representava para uma platéia, mas é parcial verdade, e o jovem pintor
penetrou mais fundo. Ela se sabia medíocre e criara para sua própria admiração uma mulher
variavelmente fabulosa, linda, louca, heroína, inteligente, amada, infeliz, livre, pura, dramática,
inalcançável, fascinante, sensual, desejada, competente, devassa, viciada, boa, jovem. Naquele
prolongado delírio egocêntrico ela era incapaz de saber onde começava ou acabaria a interpretação.
Depois de cinco meses de descoberta e masturbações e frustrações mútuas, acreditaram-se
casáveis. Foi idéia dele, que

<55>
~:
ela aceitou surpresa, noiva, mocinha casadoura dos anos 50. Descuidada, confiante, sentia-se
protegida porque ele era muito parecido com ela (como sempre, escamoteava-se o fato de que aquilo
era uma defesa), acreditava que o amava por causa disso -- “encontrei minha alma gêmea” -- e bem
escondida no seu íntimo estava a segurança, porque ele não poderia feri-la sem ferir-se. Perdida no seu
amor pela mulher que inventou, acreditou que o premiava, entregando-a a ele. Não a supôs (se supôs)
oferta recusável. Pior: não saiu de dentro de si mesma para conhecê-lo e não sabia da crueldade, do
assassino de mulheres que morava dentro dele.
Ah, Andrea, Andrea. Deveriam poupar-lhe a verdade se não quisessem vê-la realmente sofrer. Quem
abrisse sua armadura e não tivesse compaixão poderia feri-la de morte. Seu jovem pintor, bonito,
inseguro, falso, quis um dia destruir nela o que tinha de beleza, insegurança, falsidade -- e atacou-a
com aquele prazer de destruição e esgotamento de que é feita a força dos artistas.
Numa festa cheia de gente conhecida (inclusive seu antigo jornalista) (lembra-se dela como um dos
episódios mais tristes de sua vida) (lá conheceu também aquele escritor comunista) (aniversário de seu
noivo, amigo dos jovens intelectuais) (no dia da invasão da cidade por um bando de nordestinos)
(depois dessa festa, Andrea não pôde mais fingir que era outra e não conseguiu ser uma só) foi
massacrada por ele numa cena dolorosa e autodestrutiva de jogo da verdade. Colocado inicialmente
como uma brincadeira de nostalgia dos anos 60, o jogo se transformou na faca de ponta que martirizou
Andrea. O noivo e a platéia se possuíram na volúpia de destruí-la. Através dele, ficaram sabendo das
coisas que ela guardava até de si mesma:
-- Um casal perfeito: ela é fria e eu sou impotente.
-- Claro que não. A gente se masturba.
-- Ela tem medo da penetração. Eu também.
-- O maior desejo dela é gozar. Chegou a trepar em lote vago para ver se gozava.
-- Herança? Só se herdar dívidas.
-- Sabe não. Quem escreve a coluna dela é o Jota Jota. Quer dizer: reescreve tudo, de tanto erro que
tem.
-- Trinta porra nenhuma. Trinta e sete, já vi na carteira.
-- Trepou sim. Não sei o nome dela, mas Andrea me disse que já experimentou.

<56>
~:

-- Muita bolinha.
-- Prefiro homem.
Andrea tomou um grande porre, oferecendo-se a todos os homens em contatos crispados (chegava a
marcá-los com as unhas!), estabelecendo em sua volta um clima de desejos incontrolados (campeões
se ofereciam para quebrar seu gelo; alguém chegou a levar a mão dela até lá, para que ela visse!), uma
lésbica beijou-a louca no banheiro (na boca!), e esse delírio salvou-a: era o centro triunfante do desejo
de todos.

10.
Nos longos dias de solidão e pileques daquele abril de 1970, ela relia, às vezes chorando, as velhas
cartas, os recortes, revia retratos, desde aquele singelo 3 X 4, os presentes, crônicas, poemas. Um
velho general considerando suas medalhas: testemunho de que tudo foi verdade.
A sociedade reabriu seu processo, agora com provas; testemunhas segredavam depoimentos,
intimidades eram reveladas. Dizia-se que um diário obsceno de um jornalista subversivo era vendido às
escondidas em cópias mimeografadas e que nele havia detalhes incríveis sobre suas relações com
Andrea; arrolavam tudo o que o pintor disse na festa, com acréscimos que variavam de acordo com o
narrador -- um modo de parecer mais informado, como se houvesse uma disputa e alguns roubassem
no jogo.
Agora, diante de tantas evidências, os filhos e filhas da aparência não poderiam mais sair com
Andrea, os leitores não poderiam ficar ao alcance dos seus pecados. Condenada e incapaz de
recompor-se, Andrea saiu da cidade, sem olhar para trás.
Os prisioneiros da montanha respiraram aliviados. E nos anos que se seguiram foram vagarosamente
tomados por uma inconfessável saudade.

<57>
~:
Corrupção

<59>
~:

PAI. 1941.
Olhava a barriga da mulher: sexo, laboratório e ninho, capaz de entregar, pronto, um menino
chorando. Esse menino vai ter tudo que eu não tive: carinho, pai em casa, brinquedos, conforto,
segurança. Um homem inseguro afirmando-se na paternidade.

MÃE. 1941.
O pior é de noite, com esse sono que eu tenho: ter de acordar para dar de mamar. Ah não, gente,
para que ter filho? Melhor adotar um já grandinho.

FILHO. 1941.
(Assim:) uéh uéh uéh uéh (choro) chap-chap-chap-chap (vinha) mml-mml-mml-mml (mamá).

PAI. 1942.
Um ano. Já se tornava uma pessoa de quem não podiam duvidar: um homem que tinha um filho.
Contra essa pequena coisa indefesa ele podia exercer a maldade/bondade de usar, escapando àquela
mulher que o cercava de duvidável proteção.

<60>
~:

Navios brasileiros eram torpedeados na costa, nas ruas, o povo corria com pedras na mão; Getúlio
hesitava; as casas de alemães eram quebradas, negócios arrasados, italianos ficavam sem farinha --
eram os bandidos da guerra. Isso de leve perturbava o pai, autorizado a andar muito alto na rua
fumando cigarro Adelphos com uma pasta na mão: aquele homem está trabalhando para garantir o
futuro do filho. Havia gente no governo achando que os bandidos da guerra eram outros; discursos do
Presidente Roosevelt eram censurados, derrotas soviéticas aplaudidas. Se o filho precisava de aplauso
para uma palavra aprendida ou para o esforço cambaleante de atravessar a sala sem cair, dava-o no
momento preciso. Lenice não, quase nunca estava olhando. Que coisa, parece até que nega! Trinta e
sete navios brasileiros afundados, quase mil mortos; impossível evitar a guerra, ir contra o povo. Góis
Monteiro e os integralistas resistiam, a quinta-coluna espionava, Lenice não prestava atenção e afinal
Getúlio foi forçado a declarar guerra aos alemães. Acabava-se o sonho de um Brasil fascista. Aprendeu
a compensar a deficiência de Lenice interferindo a favor do menino -- uma criatura que se pode
corromper -- e por pura bondade/maldade tornou-se barreira entre elezinho e ela

MÃE. 1942.
Estou perdendo, já perdi. Sabia que ia dar nisso, que ele ia se meter entre nós dois. Eu, que gosto
dele como ninguém gosta de um filho, que o protejo contra tudo, que lhe dei o amor de que ele
precisava para sobreviver, estou perdendo. Já perdi. Não sente falta de mim, não tem desejo nenhum
de voltar para dentro do meu corpo, aceita meu carinho com frieza. Antes era tão bom. Ele ficava dentro
de mim, só meu, era o meu menino, que eu cuidava e protegia. Tão frágil, tão bonito. Agora há esse
filho entre nós dois.

FILHO. 1942.
-- Me dá.
(Ele dava.)

<61>
~:

-- Dadá.
(Davam-lhe.)
(Aprendia.)
Mamãe xinga. Papai xinga não. (Por isso:) Mamãe feia. Papai feio não.
Mamãe dá papá. (Por isso:) Mamãe boa.
Papai brinca. (Por isso Papai meu.
(Aprendia.)

PAI. 1943.
Um passeio. Olhava os cabelos do filho refletindo a luz da manha. Algumas pessoas passavam e
diziam: que beleza de menino! Pai e filho rolavam no verde do parque, às vezes corriam entre os
intervalos dos verdes, conversavam -- o filho brincando de gente grande, o pai brincando de gente
pequena -- sobre problemas íntimos, tão íntimos como fazer xixi, que o pai resolvia de maneira simples:
faz ali. Olhou aquela boca e aquele queixo que reproduziam os seus. Ele pode passar um dia inteiro
comigo sem se aborrecer. Com Lenice ele se cansa logo. Também nunca vi mãe daquele jeito,
preguiçosa, de má vontade com o menino. Passou a mão pelos cabelos louros do menino, num impulso
de proteção, e ganhou um sorriso. Mesmo se o Robertinho precisasse ela seria incapaz de ficar com ele
mais de meia hora. O filho corria incerto, o pai o seguia atento. Observava o jeito abrutalhado do
menino, uma coisa indo para a frente, sem rumo e equilíbrio. Vai ser durão quando crescer. Eu é que
nunca tive essa liberdade, essa segurança de pai junto, aquele desatinado. O filho pedia atenção e
picolé e uma volta de cavalinho e um balão e laranja e de tampa não e uma descida no escorregador e
me carrega e quero descer e me dá água -- o pai satisfazendo-se na ação de fornecer, de estar à mão,
de ser a única certeza numa cabeça loura de vontades. Sempre, nessas manhãs, voltavam sujos,
vermelhos, cúmplices.

<62>
~:

MÃE. 1943.
Não gosta mais de mim, sinto que não gosta. Não tem importância, eu me digo, não tem importância.
Faço que não vejo. Fico pensando que não vou sofrer por causa disso, não vou sofrer nem um
pouquinho, olha aí como não sofro. Mas todo dia cansa, de uma hora para outra posso começar a
sofrer, logo eu, que tenho tanta preguiça. Sempre fui tão sozinha, engraçado. No primeiro ano de
casada não, só depois que o menino nasceu. Tem muito tempo que ele não vai para a cama comigo, e
eu penso: não tem importância, eu posso passar sem isso. Mas posso? É Cléber que o separa de mim.

FILHO. 1943.
A mesa esconde (atrás) da cadeira, (aprendeu).
(Experimentando, levantando e abaixando o rosto no espaldar, aprendeu surpreso que) a cadeira
esconde (mas não acaba) a mesa.
(Uns objetos serviam para esconder outros, como) o caixote guarda brinquedos.
Robertinho escondeu o carrinho (noutro lugar) para brincar (quando quisesse).
Robertinho (também) pode (se) esconder.
(Na primeira tentativa, logo seguida de outras:) ela não viu Robertinho.
(Fracassou quando) guardou Cléber para brincar (depois): Cléber sumiu (não ficou lá).
(Por isso, nasceu nele a angústia de que) Cléber vai embora, mamãe vai embora, Cló vai embora (as
pessoas não ficam).
Meu carrinho é meu (consolou-se ao encontrá-lo no mesmo lugar: as coisas mereciam confiança).
(Os objetos provocavam alegres surpresas:) Robertinho fez um trenzinho, papai.
Achei isso aqui, papai (:atrás das coisas havia também alegres surpresas).
(Procurava, não achava e chorava abandonado:) papai foi embora de Robertinho.

<63>
~:

(Um dia abriu uma porta e viu) Cléber abraçado com ela. (Brigando?)
Papai foi embora pra mamãe (desconfiava angustiado quando não o via).
Papai dorme com mamãe não (pedia enciumado e enganado, antes de adormecer).

PAI. 1944.
Enriquecia. Com a pressa de quem já perdeu muito tempo, assumiu o controle da firma Miranda,
Oliveira, Martins & Cia. -- Importações e Exportações, que seu pai levara a concordata seis anos atrás.
Os russos, surpresa!, libertaram Leningrado do cerco alemão, que já durava dois anos, e passaram ao
ataque no Báltico e na Ucrânia. Inglaterra, e Estados Unidos, surpresos, apressavam os planos de
contra-ataque na Europa. Fora do trabalho dava-se ao filho, embora às vezes uma Lenice noturna o
prendesse entre pernas ávidas. O Brasil, afinal, partia para a guerra, com acenar de lenços brancos, V
da vitória e lágrimas de mães. A cobra vai fumar. Nossa vitória final é a glória do meu fuzil a ração do
meu bornal água do meu cantil por mais terras que eu percorra não permita Deus que eu morra sem
que volte para lá. A guerra comia açúcar, café, carne, algodão. E ele comprou seu primeiro carro,
baratinha Chevrolet 41, conversível. Senta a pua.
Ela não gosta do Robertinho, agora eu sei. E quer me tomar dele, para voltar ao antigamente.
Recusava-se. Esmerava-se por ser um bom pai aos seus próprios olhos, longinquamente pensando que
seu pai deveria vê-lo para saber que pai é isso. Corrigia, passava a limpo o ofício de ser pai.

MÃE. 1944.
Os dois estão dissimulados contra mim. Agora passam sem me olhar, até adivinho o que estão
pensando: vou passar por ali e nem olho para ela. Um estragou o outro. Cléber era tão

<64>
~:

carinhoso, tão meu menino. Para que que eu queria outro filho? Esse menino afastado de mim,
dissimulado desse jeito. Quando o pai não está, fica escondido num canto qualquer, com suas coisas --
já falei com esse menino para não mexer com tesoura -- escondido de mim!, fazendo nada, calado até
Cléber chegar. É como se eu não existisse: sou a mulher que prepara os dois para seus passeios. Um
se gasta com o outro e não me dão nada. Robertinho de dia, Cléber de noite. Todo mundo diz que
estou mais bonita depois de casada, igualzinho Maria Montez. Eu acho que é mais a Dorothy Lamour,
mas tem gente que fala que é Maria Montez. Depois que fez esse filho Cléber acha que não tem mais
obrigação. Cada vez que me concedem uma coisa tenho impressão de que ficam com raiva, como se
um estivesse traindo o outro.

FILHO. 1944.
A onça estava escondida atrás do morro. O menino vai com o pai dele fugindo da mãe que não quer
deixar o pai dele passear com o menino. O menino não quer ir não porque está com medo da onça e o
pai dele fala que vai matar a onça. O menino não quer matar a onça não porque a mãe vem atrás e
deixa a onça comer ela. O pai do menino chama ele para esconder dentro da manilhona porque já vem
a mãe e a onça. A mãe vai chegando, vai chegando, vai chegando e fala ô menino, o Cléber, sai daí
que eu já vi ocês. Aí a onça escutou ela gritando e veio e rhaaaaaaaaaa-ruaaaaaaaaaaa-ihnnnnn-
raaaaaahummmm
-- Me dá a tesoura, Robertinho.
A mãe atrapalhou (sempre). (De repente) não tem mais onça, nem pai, nem menino, nem manilha,
porque a mãe disse tesoura e a onça é a tesoura e (por isso) o pai é a caixa de fósforos o menino é o
fósforo a manilhona é a caixa de botão a mãe é o retalho de roupa.
(Mais tarde calçava o chinelo do pai e punha o cachimbo na boca e dizia:)
-- Ora, Lenice, o que é que tem o menino brincar com a tesoura?
(Até que a mãe vinha atrapalhar:)

<65>
~:

-- Vai botar esse cachimbo no lugar. Você ainda quebra isso, menino.
(Muita coisa ele não podia, o difícil era saber o quê, em que hora. Por isso) gostava mais quando
podia ficar escondido, fazendo tudo, barulho não senão ela vem.

PAI. 1945.
Nascia a UDN mineira e ele estava lá, ao lado dos liberais. A cidade adulava-o. Com trinta e dois
anos, cinco de casado e um filho de quatro, conquistara o direito de aparecer, opinar, influir. A vitória na
guerra era certa, Getúlio era incerto, os presos políticos ganhavam anistia, Getúlio tentava acomodar-se
à mudança dos ventos, surgiam siglas, PTB, PSD, o poder fugindo das mãos de Getúlio e ele não
sabendo ainda, ou sabendo e legalizando o PC. Cada vez mais seguro de si, o pai discutia a estratégia
da derrota alemã, o sentido continuísta da candidatura Dutra, falava nos interesses da sua classe, já-já
falava pela classe na Associação Comercial, seguro, ascendendo (algumas mulheres o cercavam
visivelmente desejando) e afirmava: ou colocamos o Brigadeiro agora no Palácio do Catete ou vamos
ter problemas mais tarde. Queremos Getúlio, gritavam nas ruas, ameaçando as eleições. A bomba
explode, o Japão desiste, Getúlio não resiste.
Os jogos de Robertinho com os objetos e pessoas o deixavam alerta. Fingia saber tudo,
acompanhando com cautela a mágica das suas invenções -- não se podia nunca ter certeza de que
uma caixa era uma caixa -- e maravilhava-se, contava para os amigos. Esse menino vai ser artista.
Considerava um privilégio Robertinho esconder-se na casa até sua chegada, como Lenice veio
reclamar. Eu gostaria tanto de ter um pai como eu.

MÃE. 1945.
Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis. Seis horas. Cléber deve estar saindo do trabalho. Ninguém
telefonou hoje -- será

<66>
~:

o que houve? Os dias cada vez maiores -- e esse calor! Antigamente, não tem cinco anos, eu esperava
Cléber -- de tarde só fazia isso. Primeiro organizava o jantar, depois tinha o banho, me perfumava, o
banho dele preparado, água de colônia Atkinsons. Mesmo quando estava trabalhando ele era uma
companhia para mim. Parece até que foi ontem. Hoje fico aí esperando alguém telefonar, sozinha nessa
casa -- podia chamar um homem aqui que ninguém ficava sabendo -- esperando chegar a tarde,
esperando chegar a noite, esperando chegar a manhã, olhando a luna que se quiebra sobre las
tinieblas de mi soledad. O que foi que eu fiz? Onde é que eu perdi aquele rapazinho que casou comigo
mais virgem do que eu? Não foi com esse homem que sabe tudo e discute política que eu casei -- eu
nem sei o que esse Luís Carlos Prestes quer. A culpa não é de Robertinho, agora é tarde. É culpa de
Cléber mesmo, da cabeça lá dele. Nunca mais vou gostar de ninguém como gostei dele -- nem dele
mesmo, se tudo mudasse de repente e ele voltasse a precisar de mim. Isso é que é triste. E ninguém
vai gostar de mim como ele gostou, será que vai? Robertinho. Um menino tão esquisito. Ele quase não
ri! Teimoso, calado, esquisito -- meu Deus, que culpa tenho eu nisso tudo? Me dê tempo, meu Deus, e
força para fazer com que Robertinho seja feliz.

FILHO. 1945.
(Muito complicado). Olhava uma pessoa grande, o pai, depois a mãe que era menor, depois ele que
era menor, depois um nenenzinho que era menor, depois (imaginava) algum nenenzinho que fosse do
tamanho de uma formiga -- mas não compreendia: quando é que uma pessoa começa a crescer, como
é que. (O mais fácil seria perguntar, mas ele se enganava fingindo que sabia muitas coisas e só de vez
em quando perguntava.) O pai não podia perceber que ele não sabia. (Saber era para ele um modo de
fascinar e de imitar o pai: pai sempre sabe tudo.)
-- Ô mamãe, como é que a gente começa a crescer?
-- Uai, filhinho, que pergunta.
Ela quase nunca sabia da primeira vez. (Não se podia gostar dela sempre.) Perguntava outra hora.
(Depois que escorregava

<67>
~:

numa dificuldade tinha de ficar atento para não esbarrar de novo no mistério, mas perdia-se facilmente.)
-- Ora, filhinho, depois que a gente nasce vai crescendo até ficar grande.
Como é que nasce? (Um novo problema que ele guardou algum tempo com a responsabilidade de
resolver, até ser levado à pergunta pela curiosidade.) Como é que nasce?
-- A mãe pede Papai do Céu e ele manda uma cegonha trazer um menininho para ela. A cegonha
vem voando com o menininho no bico e entrega direitinho na casa da mãe.
O pai riu muito e contou diferente.
-- A mãe tem um ovinho quase igual ao da galinha só que é menor, mas não bota ele não, fica com
ele lá dentro da barriga. Em vez de nascer um pintinho de dentro do ovo nasce é um menininho, que
depois a mãe bota e aí ele cresce até ficar grande.
(Desconfiado, evitava perguntar outras coisas à mãe. Suas certezas eram insegurança.)

PAI. 1946.
Quando apagou a luz, as pernas ávidas de Lenice o envolveram e o som que ouviu parecia um
rosnado. Tentou levemente desprender-se, as pernas o apertaram mais inescapáveis. Relaxou,
preguiçoso, tentando outro jeito de fugir. Sentiu-a procurando seu pau com a mão. Relaxando, persistia
em sua fuga quando ouviu aquele rosnar abafado pelo travesseiro: “Seja homem pelo menos”. Atingido,
colocado e colocando-se numa questão de brio, reorganizou-se para atendê-la. Seu corpo não
respondia à obrigação que ela impunha. Deixara-se levar para aquela situação de provar que era
homem, estava totalmente envolvido, e faltava-lhe o principal: atração por ela, desejo. “Não adianta, não
adianta” -- ouviu de novo aquele rosnar abafado, agora com ódio dela, desejo de atravessá-la com um
pau-espada, para que ela visse! Constatou, feroz, que a vontade de esmagá-la funcionava de maneira
desinibidora e rápida, o pau crescendo de repente. Toma, toma!

<68>
~:

MÃE. 1946.
Não tenho mais nada para fazer nessa casa. O quê, se ninguém me quer? Fui uma boba de agüentar
esse tempo todo. Agora até isso: quando procuro, é com ódio que ele vem. Comigo não, violão.
Robertinho a mesma coisa. Quer mais esforço do que eu fiz durante esse ano todo para ver se ele me
ligava ao menos um pouquinho? Até álbum de figurinha da guerra eu fiz com ele, só ficou faltando o
General Patton. Não adianta, cada carinho que eu faço ele se afasta mais de mim. Nenhum dos dois me
quer, não adianta esconder. Tem qualquer coisa errada nisso, e nem quero pensar, Deus me livre. O
que é que eu tenho que eles não podem gostar de mim como uma mãe ou uma mulher qualquer? Fui
uma boba pensando esse tempo todo que eu estava errada. Eles, eles é que são esquisitos com esse
amor deles, Deus me perdoe. Agora chega. Não adianta, eles não me querem. Foi a última vez. Vou-me
embora dessa casa.

FILHO. 1946.
Algumas coisas Deus não conseguia impedir: que ele os olhasse deitados, por exemplo. Deus vê tudo
que a gente faz escondido, prevenia a mãe. Sabia que Deus estava olhando e não gostando, que corria
algum risco quando saía de sua cama e ia olhar o pai e a mãe dormindo. O perigo era confusamente o
melhor. Nada acontecia, dias e dias seguidos, só a expectativa de que alguma coisa poderia acontecer.
(Na memória, alguma coisa já havia acontecido e ele não conseguia saber o quê, onde.) Esperava,
escondido, Deus olhando-o no escuro, até vir a certeza de que estavam dormindo e só quando
estivessem acordados poderia acontecer o que aconteceria um dia. Através da porta um pouco aberta
ouvia a respiração do sono deles fugindo fugindo fugindo fundindo sono.
Um dia aconteceu.
Quando o pai apagou a luz o escuro era igual, como se nada fosse acontecer, e de repente ouviu a
voz dela xingando:
-- Seja homem pelo menos!

<69>
~:

Esperou a reação do pai, mas não ouviu nada, tapa soco nada, só aquele silêncio, não, não era
silêncio, estavam brigando! Ouviu (lembrança fugaz) aquela briga sem gritos, só força e respiração e
aperto, sabendo que não era briga e perguntando-se por que estavam brigando. Ouviu a voz abafada
da mãe sufocada morrendo no travesseiro:
-- Não adianta! Não adianta!
Ele estava ganhando? (O quê, se não era briga?) Os olhos não se acostumavam ao escuro, mal podia
ver uma sombra preta sobre os lençóis.
-- Toma! Toma!
Ele xingando! Batendo? -- não ouvia tapa, só aquele cansaço de briga. Escutou aflito aquele cansaço
crescer e diminuir (incompreensível), e quando pôde ver alguma coisa ele parecia que estava abraçado
com ela! (Aquilo já tinha acontecido (quando?), Cléber estava faltando com a palavra (tinha prometido o
quê?) -- e não se lembrando direito Robertinho fazia o que podia para não apanhá-lo na falta.) Começou
a sentir medo do escuro Deus silêncio. Adiava chamar o pai (esperando que o medo se tornasse
insuportável).
-- Eu vou embora desta casa, Cléber.
A voz da mãe, naquele tom de que ia ser assim mesmo. O medo acabou e Cléber era seu outra vez e
Deus não tinha importância. Encolhido no escuro, ouvia o silêncio de Cléber concordando. Pensava na
casa sem a mãe e via um espaço em branco em que podia fazer tudo. Os brinquedos, Cléber, a casa --
tudo. Lá fora foi ficando cinzento, ouviu um galo cantando perto, o pai e a mãe dormiam e ele foi para
sua cama pensando que no dia seguinte dormiria no lugar da mãe.

<71>
~:

O refúgio

De Jorge Paulo de Fernandes, 31 anos, advogado de rápida carreira, quase escritor até os 25 anos,
quando o diploma de bacharel de direito corrigiu completamente esse desvio, bem relacionado na
sociedade e tolerado entre os intelectuais, autor de um conto realmente bom publicado no suplemento
em 1961, solteiro, rico, forte candidato ao título de um dos dez rapazes mais elegantes de Belo
Horizonte em 1970

<73>
~:

Saiu do elevador em direção ao número 306, um pouco depressa demais, um pouco ansioso demais,
fugindo, escolheu uma chave, abriu a porta, entrou ligeiro e fechou a porta de costas.
Salvo. Está escuro.
Trancou a porta a chave.
Não muito escuro.
Acendeu a luz.
Não adianta nada.
Apagou a luz.
-- Diabo.
Acendeu a luz.
É. Melhor acesa.
Olhou o relógio.
Seis e cinco. Tenho muito tempo.
Foi até a mesa. Encontrou um bilhete e uma carta.
Letra de Maria.
Leu o bilhete.
“Doutor Jorge. O senhor Roberto Miranda telefonou lembrando da festa na casa dele hoje.” É a
segunda vez que me dão esse recado hoje.
Jogou a carta na mesa sem abrir.
Aviso de banco. Tem muito tempo que ninguém me escreve.
Deixou a pasta em cima da mesa. Foi ao quarto. Tirou o paletó. Colocou-o na cama. Tirou a gravata,
sem desfazer o nó. Colocou-a na cama. Sentou-se na cama.
Depois vou descansar um pouco.
Tirou os sapatos. Mexeu os dedos, espreguiçou-se, gemendo. Tirou as meias. Procurou.
Diabo. Já falei com Maria para não enfiar meu chinelo lá para baixo da cama.

<74>
~:

Apoiou-se na cama com o braço direito e tentou alcançar os chinelos com a mão esquerda.
-- Merda!
Levantou-se e olhou em volta, procurando.
Uma vassoura. -- Ô Maria burra!
Saiu do quarto. Atravessou a sala, a cozinha.
Que chão frio.
Apanhou a vassoura na área de serviço. Atravessou a cozinha, a sala. Entrou no quarto. Acendeu a
luz. Abaixou-se frente à cama e puxou os chinelos com a vassoura. Largou-a no chão.
Maria que se foda.
Calçou os chinelos. Parou.
E agora? Mijar. Será que Maria preparou meu jantar direito? Que hora eu vou à festa? Que eu vou
fazer até lá? Devia ter comprado uma revista. Ah, o Globo. Na pasta.
Saiu do quarto. Foi até a mesa. Abriu a pasta e tirou o jornal. Sentou-se na poltrona. Leu a última
página.
Esqueci de mijar.
Leu as histórias em quadrinhos. Leu o editorial na primeira página.
É isso mesmo: ferro nesses comunistas. Só mijando.
Levantou-se, deixando o jornal na poltrona. Saiu da sala. Entrou no banheiro. Olhou-se de passagem
no espelho.
Estou bem.
Parou frente ao vaso. Urinou, olhando a espuma que fazia.
Ah, que bom. -- Hhhmmmmm.
Parou de urinar e balançou o pênis algumas vezes. Olhou-o. Puxou o prepúcio e descobriu a glande.
-- Ê bichão.
Sorriu. Guardou o pênis, recuando um pouco os quadris. Cheirou a mão. Deu descarga com a outra
mão. Voltou-se para o espelho. Retirou a mão da frente do nariz quando se viu.
Porco.
Olhou-se, passando a outra mão pelo rosto. Acendeu a luz. Levantou o queixo, esfregou o pescoço,
as faces.
Está grande. Porra, fiz essa barba hoje de manhã.
Virou-se um pouco para a esquerda, buscando perfil. O mesmo para a direita. Olhou os cabelos.
Estou ficando velho. Preciso casar.
Chegou a cara mais perto do espelho. Apalpou a pele de baixo dos olhos. Esticou a pele da testa.

<75>
~:

Nada. Até que estou muito bem.


Sorriu. Fixou o sorriso e ficou olhando os dentes.
Amarelos. Isso é cigarro.
Deixou o espelho. Lavou as mãos com cuidado. Enxugou-as. Verificou sua limpeza olhando-as
atentamente e esfregando os dedos. Olhou-se de passagem no espelho. Saiu do banheiro.
Mudar essa roupa.
Viu o jornal. Hesitou um pouco. Entrou no quarto. Tirou a camisa e deixou-a na cama. Tirou a calça e
deixou-a na cama. Sentado, olhou o fundo da cueca.
Sempre molha um pouco, não adianta balançar. Eu visto o quê? Ah, nada. Está calor.
Olhou o relógio.
Dez para as sete. Ainda é cedo. Ler mais um pouco e depois faço a barba.
Saiu do quarto. Sentou-se na poltrona.
Ia me esquecendo do jantar.
Ameaçou levantar-se. Desistiu.
Tem tempo.
Abriu o jornal. Leu a política nacional. Coçou o nariz. Interessou-se por um pronunciamento de Filinto
Müller. Coçou o nariz. Enfiou o dedo indicador no nariz. Lia. O dedo descreveu um pequeno movimento
semicircular. Lia. Com o polegar retirou de sob a unha o material colhido no nariz. Lia. Deixou o braço
cair ao lado da poltrona, os dois dedos já no trabalho circular de secar a bolinha. Lia. Levantou os olhos
do jornal, olhou em volta, procurou um lugar e jogou a bolinha sob a outra poltrona. Voltou a ler.
Esfregou o nariz com as costas do dedo indicador. Fungou, experimentando a narina. Procurou outra
notícia.
Porra, seis anos já. Parece que foi ontem.
Leu a notícia sobre a seca no nordeste.
Cinqüenta mil retirantes? Ah, isso é exagero de jornal. Meio Maracanã.
-- Essa não.
Passou a página. Leu tudo sobre o Vietnã. Mudou de posição: passou a perna direita sobre o braço
da poltrona e o jornal para a mão direita. Começou a ler a coluna social. A mão esquerda acariciou um
pouco a perna, depois penetrou na fenda da cueca e alcançou o púbis. Coçou. Leu uma nota sobre a
elegante Verinha Nabuco. A mão distraia-se na abertura da cueca. Verinha Nabuco estava em tempo
de ficar doida com a
<76>
~:

organização da sua festa beneficente. A mão coçava em volta do saco; do pênis, brincava. Mas a festa
anual de Verinha Nabuco, este ano em benefício da Mãe Solteira, será um sucesso. Levou a mão
esquerda ao nariz. Leu a coluna até o fim. Cheirava. Abriu o jornal com as duas mãos e passou os
olhos pela página de polícia. Fechou o jornal e jogou-o sobre a mesinha.
E agora? Jantar.
Mudou de posição: tirou a perna direita do braço da poltrona, estendeu as duas de comprido até
alcançar a mesinha, colocou os dois braços sobre os dois descansos da poltrona, espichou-se e
relaxou.
Para que essa cueca?
Olhou o corpo devagar.
Vou continuar o regime, sabe? Não custa nada.
Olhou as unhas.
Perfeitas.
Afastou as mãos, para vê-las melhor.
Bonitas.
Olhou os pés.
Preciso cortar essas unhas. Depois.
Virou-se um pouco de lado e peidou.
Será que vai feder?
Nada. Também, com esse regime. Eliminar esse gás para diminuir a barriga.
Peidou outra vez. Espreguiçou-se.
Descansar um pouco, senão não agüento essa festa.
Fechou os olhos.
Saindo lá pelas nove e meia está bom. Maria esqueceu de anotar a hora, porra. Vai todo mundo lá,
claro. Preciso pensar numas coisas inteligentes para dizer, umas piadas também. Fazer uma listinha
daqui a pouco. Rodolfo e o filho da puta daquele manquinho veado vão querer me gozar. Fazer uma
listinha bem boa, bem temperada, para tapar a boca deles. Elêusis deve ir também, peitinhos
maravilhosos sem sutiã. Ah, eu com uma mulher dessas.
Sorriu deleitando-se.
Todo mundo me invejando e eu ali, governador. Mônica.
Parou de sorrir.
Nem se compara. E ninguém trepa na inteligência, o que interessa é o corpo, a tara. Mônica parece
que tem vergonha de gostar da gente. Quem vê pensa até que ela não gosta. Mas me adora, sei que
adora. Fica disfarçando porque está nessa onda

<77>
~:

de mulher moderna. Hoje eu ensino a ela o que é mulher moderna. Vou pôr na minha listinha um
negócio para ela. Aqui dentro, tudo bem: eu em cima, ela embaixo, bem antigo. Lá fora vem o
modernismo, ela quer ficar por cima. Eu ensino a ela. Tem de ser como a Maria, escrava e não esconde
de ninguém. E lógico que crioula é diferente mas, porra, ela é uma crioula bonita, podia até ser artista.
Aqui
Abriu os olhos.
Ela é minha escrava. Se arrasta no chão e não tem coragem nem de ter ciúmes da Mônica. Leva café
de manhã na cama para nós e nem pisca. Medo de me perder. Quando eu chego, aqui mesmo nessa
cadeira ela tira meus sapatos, meu paletó, minha camisa, minha calça, leva lá para dentro, prepara meu
banho, ajoelha-se a meus pés, aqui no meu chão e fica esperando meti pau desejá-la. Escrava.
Fixou os olhos no cinzeiro, que o refletia de modo irregular.
Esta noite na festa vou fazer Mônica dizer na frente de todo mundo que me adora.
Sorriu.
Vou sim.
Olhou o relógio.
Mais de oito. É melhor comer alguma coisa agora. Será que vai ter comida naquela festa?
Levantou-se. Entrou na cozinha. Acendeu a luz. Conferiu a mesa. Abriu a geladeira.
Hum, que fome.
Tirou o prato.
Presunto, um ovo cozido, salada. Me adora.
Colocou o prato sobre o forro americano, entre os talheres. Sentou-se. Olhou as mãos. Cheirou-as.
Levantou-se. Foi ao banheiro. Lavou as mãos. Voltou para a cozinha. Sentou-se.
Mônica. Hum. Tem até escrúpulo de apoiar o que eu digo. E não é por discordar de mim, é para não
pensarem que está me apoiando porque gosta de mim. Tudo cautela. Mas eu vou acabar com essas
cautelas -- ah, vou -- esses luxos bobos. Aquele dia em que o quem? sei lá falou que minha abotoadura
era horrorosa -- deve ter sido aquele manquinho veado -- por que ela não disse logo que foi presente
dela? Ficou naquela indecisão, estúpida, me obrigando a explicar: foi Mônica quem me deu, para não
pensarem que eu ia comprar um negócio daquele. Não ajuda nunca, fora daqui.

<78>
~:

Mastigava
Tem vergonha de gostar da gente, que coisa, parece doença. Egoísta, é isso. Incapaz de me chamar
assim na frente dos outros: meu bem, meu gostosinho, meu amor. Parece que faz de propósito.
Parou de mastigar, alarmado.
Será que alguém acha isso? Não, muito sutil para eles.
Voltou a mastigar.
Medo dessa turma, do pessoal zombar dela. Pensando bem, isso é até mesquinho da parte dela. Eu
queria que alguém ficasse escondido lá no quarto, só para ver como que ela é comigo.
Parou de mastigar. Sorriu deleitando-se. Voltou a mastigar.
Queria ver a cara dela quando percebesse que tinha alguém olhando.
Sorriu mastigando.
Ia ficar com ódio de mim!
Parou de mastigar.
Não, é claro que eu não ia fazer uma coisa dessas com ela.
Voltou a mastigar.
Bobagem. Ela só precisa de acabar com esse fingimento na frente dos outros.
Terminou o lanche. Levantou-se. Olhou o relógio.
Oito e meia. Melhor fazer a barba.
Saiu da cozinha. Entrou no banheiro. Olhou-se no espelho. Levou a mão ao rosto, esfregando os
dedos na barba.
Vai precisar de uma gilete nova. Barba curta é foda.
Abriu o armário. Tirou o creme de barbear. Molhou o rosto. Aplicou o creme com a mão direita, frente
ao espelho. Sorriu-se.
-- Bonitão.
Riu baixo.
-- Bobo.
Lavou a mão. Abriu o armário. Tirou o aparelho e uma lâmina nova. Trocou a lâmina do aparelho.
Começou a barbear-se.
Hoje Mônica vai ver. Não sei como, mas vai. É claro que eu não posso perguntar, no meio de todo
mundo: Mônica, você me ama? Ou posso?
Parou de fazer a barba.
-- Mônica, você me ama?
Fez cara de quem não gostou
Não.

<79>
~:

Balançando a cabeça em negativa. Recomeçou a barba.


Assim não dá. É preciso clima, senão vão me gozar. Nem devo ser eu quem vai fazer a pergunta. O
Ruiter. Combino com ele. Não. Melhor: uma pessoa que não gosta de mim: o Rodolfo! É isso. Manobrar
o cara. Sem perceber, ele vai fazer o que eu quero. É isso!
Parou de fazer a barba.
É por isso que eu não vou com a cara dele: ele acha que Mônica não gosta de mim. É por isso. Ah,
filho da puta, vai ser ele mesmo quem vai fazer a pergunta, com maldade: Mônica, você gosta mesmo
do Jorge? E ela: mas é claro.
Sorriu deleitando-se. Voltou a fazer a barba. Parou. Riu.
-- Dois coelhinhos no beleléu.
Recomeçou a barba.
Tem de começar como uma brincadeira. Um jogo que todo mundo leve a sério.
Parou de fazer a barba.
O jogo da verdade. Não. Vão me chamar de careta. Isso é coisa de 1960. Só se.. . porra: nostalgia. É
isso. Vamos brincar de 1960! É lógico e é genial.
-- Ge-ni-al.
Preciso anotar isso.
Colocou o aparelho de barbear no lavabo. Foi ao quarto, apanhou a caneta e um bloco de anotações.
Voltou para o banheiro. Abaixou a tampa do vaso, agachou-se, colocou o bloco por cima e anotou:
“1960”, como um título. Embaixo de 1960 escreveu: “Música, piadas, acontecimentos, filmes
Quem estava na festa do Roberto em 60?
Na outra linha: “Quem estava na festa em 60”.
Quem casou? Quem morreu? Quem mud
Na outra linha: “Quem casou, morreu, mudou, etc.”
Que mais? Continuar essa barba, senão atrasa.
Levantou-se. Molhou o rosto e passou uma nova camada de espuma. Continuou a escanhoar a face
direita.
Rodolfo e Luís hoje estão fodidos comigo. Ninguém vai bolar uma mais genial do que esta.
Esticou o queixo e começou a escanhoar o pescoço.
É preciso temperar bem o molho. Lembrar umas piadas de 1960. O puto não vai poder nem dizer que
é velha. Usava contar piada em 60. Aquela do sujeito que foi trepar no parque, aí quando a mulher já
está deitada atrás da moita e o cara de pau pra fora chega o guarda e prende. O cara protesta: o

<80>
~:

que foi que eu fiz? O guarda: está trepando ai. O cara: mas trepando com quem? O guarda aponta: e
essa mulher aí? O cara: mulher? Porta, seu guarda, se o senhor não me avisa eu mijava nela.
Riu. Parou de fazer a barba. Abaixou-se e anotou: “Piada -- mijava nela”.
Levantou-se. Começou a escanhoar o lado esquerdo. Parou e aproximou o rosto do espelho,
entortando a boca e o queixo para o lado direito.
Puta merda, será uma espinha? Que desgraça, meu Deus. Eu hoje queria estar -perfeito.
Espremeu.
Espinha não. Cabelo encravado.
Examinou o estrago.
Graças a Deus, um furinho à-toa. Não vão poder dizer que é espinha, punheta, essas brincadeiras
bobas.
Recomeçou a barbear-se.
A gente tem sempre de se defender nessa turma, todo mundo a fim de te foder. Mas hoje eu estou na
minha. Antes de falar em jogo da verdade é bom lançar outro jogo qualquer. Gente importante que
morreu, por exemplo, Camus, Kennedy, De Gaulle, Hemingway. Do caralho. Pode-se fazer dois times
ou mais e ver quem faz mais pontos. Ou então assim: um grupo diz um nome da política brasileira na
década, alguém do outro grupo tem de dizer qual foi o papel dele. Brochado da Rocha. Auro Moura
Andrade. Tancredo Neves. Ranieri Mazzilli. Márcio Moreira Alves. Abelardo Jurema. Vou engolir todo
mundo.
Sorriu. Parou de escanhoar. Abaixou-se e anotou: “Jogo da memória -- nomes da política bras.”.
Levantou-se. Começou a escanhoar sobre os lábios.
Depois, é só ir com jeitinho nessa de recordar e propor o jogo da verdade, no espírito dos anos 60.
Perfeito. E Rodolfo não vai perder a oportunidade, claro, quando a Mônica estiver no meio.
Sorriu. Ficou sério.
E se Mônica disser que não, mesmo por brincadeira?
Parou de fazer a barba, aparelho suspenso no ar.
Ela pode não querer falar na frente dos outros. Será?
Ficou mais sério: apreensivo.
Será? Não, Mônica não é disso.
Relaxou.

<81>
~:

Leva essas coisas a sério. Acredita em falar a verdade. Tem perigo não.
Sorriu. Terminou a barba. Passou a mão pelo rosto.
Ótimo.
Olhou-se no espelho com atenção.
Estou muito bem. O melhor da festa.
Riu alto. Conferiu o furinho do cabelo encravado. Assentou as sobrancelhas. Alisou as faces com as
duas mãos.
Perfeito. Agora um banhozinho.
Ligou o chuveiro em água morna. Tirou os chinelos. A cueca.
Deixar aqui para Maria botar na roupa suja. Ela gosta.
Tirou o relógio. Experimentou a temperatura da água. Entrou no banho. Massageou o rosto sob uma
ducha prolongada.
Com que roupa que eu vou? O terno cinza-grafite, claro: fico muito bem com ele.
Ensaboava-se.
Camisa azul-clarinha, de cambraia. Gravata?: aquela Pierre Cardin de desenhos cor de abóbora. Meia
preta, sapatos pretos. Se Maria não engraxou meus sapatos eu mato essa negra amanhã.
Abotoadura... a de couro preto, acho que fica bom. Perfeito.
Lavou amorosamente o sexo.
-- É disso que ela gosta, aquela sem-vergonha.
Riu. Friccionou o pênis até a ereção.
-- Que que está querendo, seu sem-vergonha. Não tem pra você hoje não. Vai deitar, anda. Anda.
Anda.
Dava tapinhas no pênis. Riu.
-- Sem-vergonha.
Enxaguou-o com cuidado. Sorriu.
-- Eu sou é fogo.
Ensaboou as pernas.
Preciso cortar as unhas dos pés. Ah, amanhã. Ninguém está vendo.
Enxaguou-se. Enxugou-se. Saiu do boxe. Olhou-se no espelho.
Perfeito. Estou com uma cor ótima.
Olhou os dentes.
Amarelos. Isso é cigarro.
Escovou-os com dentifrício. Bochechou. Olhou-os no espelho.

<82>
~:

Cigarro.
Olhou o rosto.
Perfeito. -- Bonitão.
Riu. Apanhou o relógio, colocou-o no pulso. Apanhou o bloco de anotações e a caneta. Calçou os
chinelos. Saiu do banheiro. Entrou no quarto.
Sé quero ver a cara de Mônica e Rodolfo.
Escreveu no bloco: “Jogo da verdade”. Penteou os cabelos. Passou loção para após a barba. Tirou o
terno cinza-grafite do armário.
Vou ficar o máximo.
Vestiu a calça. Passou a carteira do bolso da outra calça para a que vestia. Calçou as meias.
Apanhou os sapatos.
Ah, engraxou. Perfeito.
O telefone tocou.
-- Que merda.
Atendeu.
-- Alô? É ele. Que Carlos? Sei, sei. Que que há? Preso por quê? Amigo dele nada. Olha, quer saber
de uma coisa?: foi até bom, para a gente ficar livre dele um pouco. Esse cara torra o saco. Ah, tenho
tempo para mexer com isso não. Estou muito ocupado agora, sabe? Amanhã eu vejo isso. Amanhã,
meu amigo, deixa isso para amanhã. Boa noite, viu?
Desligou.
Ah, esses comunistas. -- Fazem a bagunça deles e depois vêm encher o saco. Que se fodam.
Sentou-se na cama. Calçou os sapatos.
A negra caprichou.
Passou uma água de colônia no peito, nos ombros, nos braços. Vestiu a camisa. Colocou as
abotoaduras. Verificou o efeito.
Perfeito.
Colocou a gravata. Olhou o relógio.
Nove e trinta e cinco.
Vestiu o paletó. Apanhou as chaves. Olhou-se de corpo inteiro no espelho do armário.
-- Splendid, George.
Penteou os cabelos novamente. Virou.se de um lado e de outro frente ao espelho. Tirou uma
poeirinha do terno com a escova. Olhou-se. Sorriu.
-- O melhor da festa.
Arrancou a folha do bloco de anotações.

<83>
~:

-- Minhas armas.
Colocou a folha no bolso do paletó. Olhou as roupas espalhadas no quarto.
Que bagunça.
Sapatos, meias, paletó, camisa, vassoura, chinelos, calça.
Ah, Maria arruma. Ninguém está vendo.
Despediu-se do espelho. Saiu do quarto. Parou à porta da sala. Segurou a maçaneta.
Esqueci alguma coisa?
Apalpou os bolsos. Olhou o apartamento.
Minhas coisas. Minha paz.
Ficou sério, um pouco alarmado na hora de abandonar seu refúgio.
Deus me proteja me defenda me guarde.
Abriu a porta e saiu.
Logo depois, o olhar maravilhado do porteiro seguia Jorge saindo da garagem, mais uma vez de
maneira perfeita, à frente daquele agradável aroma de colônia.

<85>
~:

Luta de classes

<87>
~:

Ataíde saiu de casa às sete horas da manhã e preocupava-se com a demora do ônibus.
Fernando saiu às onze e meia, chateado da vida, porque tinha um título a pagar.
Ataíde tinha dado um bom beijo em sua mulher, Cremilda de Tal, e prometido que viria direto para
casa.
Fernando não beijava sempre sua mulher, era meio distraído.
Ataíde apurava uns três salários mínimos, mas achava que as coisas iam melhorar.
Fernando dormia até às dez horas e estava ameaçando o patrão: ou aumento ou então ciao.
Ataíde, de vez em quando, tinha uma dor de dente horrível. Nesses dias era melhor não chegar perto
dele.
Fernando costumava pedir à sua mulher que falasse menos. Sem nenhuma esperança, sem nenhum
resultado.
Ataíde não tinha filhos, mas estava providenciando.
Fernando tinha dois filhos, apesar de tomar todas as providências.
Ataíde era mais novo.
Fernando tinha seus trinta e poucos.
Ataíde, de vez em quando, metia lá um sambinha.
Fernando, sem futebol no domingo, era uma pessoa intratável na segunda-feira.
Ataíde procurava sua ótima Cremilda quatro, cinco vezes por semana.
Fernando era semanal e sabatino.
Ataíde -- quantas vezes, que nisso ele era bom -- não levava desaforo para casa, apesar de sua
Cremilda recomendar sempre que um homem não pode ter orgulho assim, ainda mais sendo pobre, que
um dia ele precisa pedir e ia ser muito difícil. Ele respondia: eu vou tratar do seu caso mas não é hoje
não.

<88>
~:

Fernando cedeu muitas vezes.


Ataíde era moreno meio escuro, de cabelo crespo.
Fernando já estava ficando com um pouco de barriga.
Ataíde, ás onze e tanto, começava um joguinho de bola de meia, para ajudar a digestão da carne de
segunda, que estava sempre um pouco dura, apesar dos cuidados da sua Cremilda.
Fernando resmungava dentro do Volks: hoje eu vou encher a cara.
Ataíde considerava-se um artista: afastava-se um pouco da parede que estava pintando, um pé atrás,
a cabeça meio torta, mão direita na cintura, apreciava o trabalho e dizia: eu sou fogo na caiação.
Fernando, cada vez que Inês trazia um cheque de um freguês para visar, tentava uma aproximação,
porque Inês tinha pernas de miss. Gostava muito de mulheres provisórias: comerciárias, bancárias,
secretárias.
Ataíde tinha planos de levar sua Cremilda ao Cine Palladium no próximo domingo para ver o filme de
James Bond, se sobrasse algum dinheiro.
Fernando leu tempo instável com chuvas no boletim meteorológico e calculou, contrariado, que isso ia
estragar o futebol no domingo.
Ataíde parou de trabalhar às seis horas da tarde e foi comprar uma cocada preta para a sua Cremilda
na Praça da Estação. Aproveitou para tomar umas duas cachacinhas.
Fernando saiu às cinco e meia do escritório, e estava bebendo desde as vinte para as seis, ele que
era bom para essas coisas, quando implicou com um mulato que esbarrou no seu copo depois de
comprar uma cocada preta no balcão: vê se toma cuidado, ô veado.
Ataíde não teve dúvidas e meteu o braço.

<89>
~:

Preocupações, 1968.

<91>
~:

a) de uma senhora mãe de um rapaz

não o deixeis cair em tentação e livrai-o do mal amém.


Todo dia: vou pro DCE. Todo dia: não venho jantar, tem reunião no DCE. Tem reunião no DA. O que
será esse DA, meu Deus, esqueci de perguntar ao Carlinhos. Alguma coisa eles estão aprontando, com
essas moças de minissaia.
Mãe não tem férias.
Ai, meu Deus, não o deixeis cair em tentação, mexer com mulheres da rua nem com a filha de seu
Nonato. É melhor ele casar com essa moça da escola, pernas tão de fora, tão boazinha, parece que
não tem mãe para olhar, tão tarde na rua, melhor com ela.
Desde Ponte Nova seu Nonato avisou: não quero seu filho andando com Cristina. Deus um dia há de
castigar seu Nonato e eu vou dizer: mande sua filha parar de procurar meu filho, aquela sem-vergonha.
Eu sabia que Carlinhos chorava de noite no quarto e não podia dizer que sabia, eles ficam com raiva é
da gente. Deus há de castigar seu Nonato.
Uma filha moça seria mais fácil de acompanhar. Como é que eu posso, viúva?
Nunca se sabe como eles voltarão para casa, podem apanhar, levar um tiro, quebrar uma perna na
correria. Não se sabe nem se eles voltarão para casa. Nem posso pensar: preso, morto. Livrai-o de todo
mal. Amém.
Quem sabe o que deu nesses meninos. Uma coisa tão perigosa, sem quê nem pra quê. Cada vez que
ele sai de casa é essa aflição que me dá. Essas bombas de gás decerto que machucam, não têm só
gás. Na correria leva uma paulada na cabeça ou um cavalo passa por cima, Deus me livre, livre
Carlinhos. Não falo mais nada, não adianta, eles não aceitam a gente. Tratam como se estivessem
muito ocupados com alguma coisa, sem tempo. Eles não têm tempo para a gente. O que será que
estão fazendo de tão importante?

<92>
~:

Olha essa roupa, Carlinhos -- eu digo. Umas calças meio rasgadas, desbotadas. Se não fosse pobre,
não tinha importância. Pobre não pode andar rasgado. Agora nem peço mais para cortar cabelo, desisti,
fazer â barba. A senhora está por fora, mamãe. Estou mesmo.
Não sei se ele tem escovada os dentes antes de deitar. Chega tão tarde. Uns barulhos no banheiro, é
ele se lavando, vai ver andou com alguma mulher, não o deixeis cair em tentação.
Não esquecer de escovar os dentes antes de deitar.
Levantar de pé no chão frio acaba dando reumatismo. Não adianta colocar chinelas debaixo da cama
que ele vem tomar café de pé no chão.
A pior coisa que tem para os olhos é forçar a vista, ler com pouca luz. Eu canso de avisar.
Comer sem mastigar faz mal.
Sair do banho quente e pegar corrente de ar faz um mal.
Picolé com garganta irritada, onde é que já se viu.
Fumar dá câncer, os jornais vivem avisando
Não atravessar a rua fora da faixa.
Respeitar os mais velhos.
Não pisar na grama.
Não fumar no elevador.
Honrar pai e mãe.
Tomara que venha logo o dia em que alguém acabe com essa confusão de estudantes para a mãe
dormir tranqüila, com o filho em casa.
Cabelo comprido e mínissala. Se tivéssemos proibido, se todas as mães do mundo tivessem proibido
essa liberdade quando começou, protegido os corpos de nossos filhos, se nós tivéssemos proibido que
eles se juntassem para aquelas danças de uns anos atrás eles não estariam assim, loucos, se nós
todas tivéssemos proibido a pílula, proibido que se falasse em pílula nos jornais, meu Deus, se eu
tivesse uma filha eu acho que morria de preocupação, ficava doida, ter de olhar dentro da bolsa, ler as
cartas escondida, ouvir as conversas, proibir certas leituras, isso sim, se os jornais não pudessem falar
de sexo, se tivéssemos proibido que tirassem a roupa nos teatros, nos cinemas, nas praias, esses
hippies sem-vergonha fumando maconha e fazendo sem-vergonhices pelados na frente dos fotógrafos,
isso deveria ser proibido publicar, é nossa obrigação defender os olhos dos nossos filhos contra essas
liberdades, a gente deveria

<93>
~:

ter obrigado todos eles a cortarem o cabelo, .agora é tarde, estão aí pelas ruas, correndo e gritando,
brincando com fogo, fumando maconha, Carlinhos não, Deus me livre, até se ofendeu quando eu
perguntei: “tá por fora, mãe, a minha é outra”, outra?, que linguagem é essa?, você quer o que na vida?,
“tudo”, disse ele, “nós queremos tudo”, bobos, como se o poder andasse na rua, poder jovem, eles
mesmos mandando neles e nós velhos de fora, nada de leis, nada de moral, moças mães solteiras,
cabeludos sem trabalho, música de cabeludo insuportável, indecências nas revistas, é isso que eles
querem, e isso precisa ter um paradeiro, os presidentes se juntarem, na França, aqui, Estados Unidos,
México, todo lugar, e dar um jeito de acabar com isso, porque mãe não pode aguentar tanta
preocupação, com pouco dinheiro, pensão de viúva e o pouco que entra com a datilografia, pagando
estudo para um filho que quer mandar na gente, acabar com a gente, é isso mesmo, e nós temos os
presidentes é para isso, para tomar conta de nós, e eles estão deixando fazerem isso, na França já se
vai à praia sem sutiã, já tomaram a escola dos professores e agora quem vai dar aula, quem vai ensinar
a esses meninos sem professores, se eles acham que está tudo nos livros e que é só copiar, aí é que
se enganam, eles são o que nós somos, eles têm dentes porque aprenderam conosco a escovar após
as refeições, estão na faculdade porque nós ensinamos as quatro operações, honrar pai e mãe,
respeitar os direitos dos outros, e agora eles querem fazer de conta que isso não presta, não presta por
quê?, é preciso alguém compreender nossa aflição e nos salvar assim como nós perdoamos aos que
nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal amém.
O que seu Nonato fez vai ter de pagar. Carlinhos ficou assim por causa da Cristina, antes ia todo dia
lá, eu sabia que era lá que ele estava de noite, de dia, não tinha nada de vou pro DCE, nada de letra de
música, nada de passeata.
Agora até os padres estão na bagunça, não adianta pedir nada a eles. Em vez de acalmar esses
meninos, botam mais lenha na fogueira. E as mães ficam em casa, nessa aflição, só Deus para ajudar.
Mãe não tem férias.
Não se pode falar desse assunto com Carlinhos. A gente quer fazer um bem, vira pecado mortal.
Cuidado com as más companhias.
Só os ricos podem aceitar quando alguém oferece uma

<94>
~:

coisa na rua. Se uma pessoa como a gente aceita vão logo pensar que é porque não tem nada para
comer em casa.
Não fica dando conversa para qualquer pessoa na rua.
Eu li no jornal: tem gente aproveitando e dando pastéis para as pessoas assinarem na rua. Diz que
não se deve assinar nada na rua.
Pastel na rua só de queijo ou palmito, nunca se sabe que carne eles põem.
Cuidado com geléia da rua. Minha mãe sempre falou que os leprosos fazem geléia e que a mãe dela
encontrou um pedaço de dedo um dia dentro de uma.
Poesia é bom para ler, mas escrever -- já tem tanta. Quem quer, quem gosta, lê as que já estão
escritas -- eu gosto. Se uma pessoa passasse a vida inteira lendo, não dava para ler nem as poesias
que já estão escritas.
É um perigo beber qualquer coisa em copo de botequim, eles não esterilizam os copos.
Tanta coisa perigosa nas ruas, esses meninos tão confiantes.
Aonde vai levar toda essa confusão? Aonde é que isso vai parar? O que eles querem? É preciso
alguém compreender a aflição das mães e parar com isso, parar de uma vez. Fazer nossos filhos
voltarem para as namoradas, para as mães, e aí a gente volta a ter certeza das coisas, certeza de que
eles estão quentinhos, alimentados, e livrai-nos senhor Deus de todo mal amém.

<95>
~:

b] de um delegado de polícia social

Ouço, a cada dia, crescerem as preces, os lamentos. Sei que nos bairros da periferia grandes
automóveis com choferes bem vestidos descarregam senhoras carregadas de jóias nas portas de
macumbeiros e jogadores de búzios. Já há quem acredite mais nos horóscopos do que nos médicos e
nos corretores. O dia de Iemanjá já se transforma num rival do Ano Novo em cidades como o Rio de
Janeiro e Bahia. O Raciocínio é novamente ameaçado pelo Milagre. Aumenta a venda de baralhos mas
não surgem novos jogadores de pôquer e há razões para suspeitar que a leitura das cartas voltou a ser
moda nas festinhas da classe média.
O povo não pode ser abandonado nesse momento à sua própria perda. Muita coisa foi feita para tirá-
lo daquele mundo mágico em que vivia. Seus governantes não são mais escolhidos pela beleza, pelo
carisma de um bigode, pelo sorriso de avô, por ter mãos pequenas. O ensino da aritmética já não se faz
pelo processo de adivinhação e de tabuada, e os professores tiveram de aprender, a custo, a teoria dos
conjuntos. No estudo da literatura, as palavras vão perdendo sua antiga arrogância bárbara e nós
estudamos a limpidez da sílaba, da letra, do espaço branco. O pé-de-meia foi desmoralizado pela Bolsa
de Valores. A Igreja desmistificou alguns dos chamados santos, o que leva o povo a desconfiar de toda
a impalpável hierarquia. O agricultor já acredita mais nos sais minerais do que na ave-maria. Nós vamos
substituir o jogo do bicho pela Loteria Esportiva, controlada por computadores. Isso acabará com a
superstição e a interpretação de sonhos, substituindo-os pelo grande prêmio computadorizado semanal.
Depois de todo esse trabalho, não se pode permitir que retornem as preces místicas. O progresso não
pode ser entregue novamente ao improviso dos talentos. Conseguimos organizar um plano científico e
criar uma elite de técnicos para conduzir

<96>
~:

a nação na linha íngreme dos gráficos de produção. A nova elite que substituiu os barões do gado, do
café, os pelegos, os corruptos, os fanáticos, os políticos, não pode ter seu trabalho prejudicado por
essas crescentes ilusões. Eu não posso permitir que isso aconteça.
Proibi a entrada de ciganos. Os filmes de terror são controlados. Conversas ao pé do fogo são
consideradas suspeitas. Os espetáculos dos grandes mágicos dos circos são precedidos de uma
advertência ao público de que a apresentação consta de uma série de truques, puro ilusionismo, tudo
explicável. E o respeitável público tem direito a uma explicação, se a desejar. É o fim do grande segredo
dos mágicos, protestaram, ingenuamente não compreendendo que era exatamente isso o que eu
pretendia. O povo, agradecido, faz filas após os espetáculos, buscando as explicações. O povo, ficou
demonstrado, é ávido de clareza, fascinado pela verdade, e está ansioso para trocar sua ignorância
pelo conhecimento. Nos circos, o embuste foi substituído pela técnica, pelo fazer melhor. Em cada
ação, deve um príncipe trabalhar no sentido de conquistar fama de grande homem.
Ninguém pode me acusar de parcial, ou venal, ou desorganizado, ou cafajeste. Procuro tratar a todos
com a mesma justiça e força. Os homens hesitam menos em ofender aos que se fazem amar do que
aos que se fazem temer, ensina o mestre dos príncipes. Eu não permito o suborno. Não há um só
policial desonesto sob as minhas ordens. Exijo unhas cortadas: Proibi alfinetes de gravata. Há punições
para o que coçar o sexo em público, tirar cera do nariz ou usar brilhantina. O veto às manifestações
públicas vale igualmente para todos os fanáticos: cristãos, marxistas, umbandistas, milagreiros,
políticos, budistas, maconheiros. Fui acusado de prepotente, nunca de injusto ou parcial. É meu dever
velar por todos e a todos proteger por igual contra si mesmos. Um príncipe sábio, amando os homens
como eles querem e sendo temido por eles como ele quer, deve somente evitar ser odiado.
Do próprio seio do meu povo sinto elevar-se o apelo: protege-nos, faz algo por nós para que termine
essa nova angústia, esse novo fanatismo, a loucura mística dos jovens. Estávamos tão confortáveis
com a Nova Ordem, tão seguros no nosso trabalho, certos da queda da inflação, da alta da Bolsa, da
vitória na Copa, do aumento da renda per capita, do desenvolvimento do nordeste -- e vem essa grande
conspiração de fanáticos perturbar

<97>
~:

nossas certezas. Já não podemos acordar às seis horas da manhã com a certeza de que dormiremos
após a novela das dez. Já não podemos ver televisão sem que apareça um dos nossos filhos correndo
nas ruas com cartazes obscuros nas mãos, ou com olhares sampacus tocando músicas lisérgicas. Não
podemos apelar para a Igreja porque a voz dos padres já não os alcança e são os padres que procuram
seguir o novo fanatismo, o novo bezerro de ouro. Não podemos apelar para as leis, porque não há nada
nas leis que nos proteja da nova ameaça. Só o poder, só a autoridade pode nos salvar, apela meu
povo. Ajuda-nos, príncipe.
As conseqüências são claras: depois das concentrações de hippies, das passeatas de estudantes e
de padres, dos batuques nas praias nas noites de lua cheia, o barbarismo crescerá em atos de
desobediência aberta. A falta de objetividade das discussões estéreis ocupara o tempo dos executivos.
Políticos adoradores de mitos modernos se acharão no direito de questionar a autoridade no
Congresso, como já se vê fazer. Atos de falso heroísmo, como essas explosões de bombas, se tornarão
comuns para ocupar a ociosidade dos novos fanáticos. E nas artes os mimetistas transporão esses atos
desordenados procurando dar-lhes um sistema, revivendo assim as mortas ideologias. Os jornais se
aproveitarão da fraqueza para exigir a volta da velha democracia do Direito e para revolver a lama já
seca da corrupção. Em breve surgiriam líderes -- e o caos, O príncipe deve viver sempre com o povo e
assim não precisara dos poderosos, a quem poderá dar ou tirar influência à sua vontade. Mas não pode
nunca fiar-se nos líderes que saem do povo. O próprio povo os teme porque sabe que com eles cavalga
a perdição e a morte. Nem pode o príncipe confiar nos juizes e na Lei e entregar-lhes os assuntos de
seu povo, porque os cidadãos se acostumariam a obedecer aos magistrados e, numa emergência,
como nas questões de segurança, não obedeceriam ao príncipe.
O meu povo tem razão nas suas queixas. Um medo novo ronda os lares onde ainda não se acredita
que o homem tenha realmente contornado a Lua, onde não há médicos pata atender todos os partas,
onde o chá de quebra-pedra é o melhor remédio para os rins, onde os banhos de arruda tiram
quebranto, onde o comigo-ninguém-pode é sentinela na porta principal. Quem irá defendê-lo sendo a
autoridade a quem foi confiado o poder de defendê-lo? Não posso fugir. dessa responsabilidade.
Gostaria, mas não posso.

<98>
~:

Hoje eu tenho de decidir. É o meu próprio povo que me pede. Nós queremos dormir sem essas
explosões na madrugada. Nós queremos nossos filhos doutores sem esse estágio no ódio contra nós.
Nós queremos políticos preocupados com a nação e não com o seu quarteirão. É a guerra o que
exigem, com todas as suas crueldades. Gostaria que me poupassem, eu sou um intelectual. Mas não
posso. E é hoje. Se ao menos se pudesse dar tempo ao tempo. Meus auxiliares vêm me dizer que já
não podem agir sem poderes especiais. Os escrivães se queixam de que os detidos sorriem e
apresentam raciocínios formais, alegando direitos, imunidades. Investigadores tomam pedradas nas
ruas. Aparecem macumbas nas portas dos subdelegados nas noites das sextas-feiras. A cruz, um signo
permitido, é apresentada como um amuleto aos agentes que batem nas portas dos conventos
suspeitos. Hoje, eu devo dar-lhes os meios de acabar com a desordem e o futuro me chamará de cruel.
Mas eu aprendi: não deve o príncipe importar-se com a pecha de cruel se é para manter a união e a
ordem; pelo contrário, ele é mais piedoso do que aqueles que deixam acontecer desordens, assassínios
e rapinagem. Porque essas ações prejudicam todo o povo, e as execuções que provêm do príncipe
ofendem apenas um indivíduo.
Por que eu? Eu sou um intelectual. Leio Cícero no original. Leio tratados e gramática com o prazer
com que colegas menos rigorosos lêem histórias de detetives. Fiz um estudo prospectivo do atraso
provocado nas ciências pela pressão do idealismo cristão sobre o racionalismo grego. Por que eu, neste
século? Por que não eu no princípio, príncipe?

<99>
~:

Antes da festa

<101>
~:

(Anotação do escritor:
Escrever o que nesta terra de merda? Tudo que eu começo a escrever me parece um erro, como se
estivesse fugindo do assunto. Que assunto? Merda! E quem disse que isso é responsabilidade minha?
Por que não escrever um romance policial ou um balé-revista infantil?)

Redação do Correio de Minas Gerais


20h 07m
Samuel ouve o barulho dos saltos de Andrea subindo a escada e não consegue escrever mais nada.
Repete-se a mesma cena que viu nos últimos oito meses: ela chega olhando direto para a mesa do
secretário, talvez porque fosse mais seguro olhar para lá, dirige-se à mesa abrindo a bolsa, tira dela
suas quatro laudas datilografadas, falam alguma coisa que não se consegue ouvir, riem. As pessoas da
redação aproveitam para olhar suas pernas e desejá-la um pouco. (Todos sabem: depois ela se voltaria,
sem olhar para ninguém, cumprimentaria apenas quem estivesse no seu caminho, desceria as
escadas.) Ela se volta e, novidade: olha decidida a sala da redação. Samuel baixa o rosto intimidado.
Quando levanta os olhos para deslumbrá-la com uma cara até bonita, ela já está de costas, indo
embora.

Bar e Restaurante Lua Nova


19 horas
-- Que tem uma coisa com a outra? Faz as duas coisas.
-- O problema é tempo. Escritor que não faz full-time dá nisso que está aí.
-- Então decide, porra, uma coisa ou outra.
-- Aí é que está o problema, entende?

<102>
~:

Chega Flávio:
-- Deixa um pouco para o governo resolver

Esquina da Livraria Rex


18 horas
-- Você vai gostar da turma, Samuel. Muito artista, escritor, mulheres ótimas, bichas, gente da
esquerda, da direita. Olha, vai ser uma festa do caralho.

(Anotação do escritor:
Todos os contos devem ter uma data, explicita ou implícita. O ano da festa é 1970. O Roberto, que dá
a festa, é de 41. Faz vinte e nove anos e é o mais velho dos novos artistas da cidade, que têm entre
vinte e dois e vinte e seis anos em 1 970.)

Restaurante Alpino
21h 10m
A mulher, belíssima:
-- Você gosta de mim?
O homem, bonito, meio feio:
-- Lógico. Você sabe disso.
-- Ah, você parece que não entende. Ou faz que não entende.
-- É. São os recursos de um analista nada ortodoxo que tem problemas com isso.
-- Assim você está levando muita vantagem.
-- Analista sempre leva vantagem.
Silêncio. Pensamentos, provavelmente. Ela:
-- Você não sente tédio?
-- Não, por quê? Aqui está tão bom.
-- Não é isso não. É: nem às vezes?
-- Não. Eu me ajeito.
-- E quando tudo dá errado com a gente?
-- Paciência.
-- Tem gente que é feliz, não tem?
-- Na minha profissão é difícil encontrar. Mas tem. E você logo pensa: por que tanta gente é feliz e eu
sou tão infeliz, etc. etc.? Não é?

<103>
~:

-- Eu às vezes fico pensando.


-- O quê?
-- Que você gosta de mim.
-- Bobagem sua.
-- Gosta não?
-- Não.
-- Acho que estou sofrendo de carinho recolhido.
Ele sorriu meio embaraçada porque ela era belíssima.
-- Vamos apanhar o Carlos? Está na hora da festa.

Redação do Correio de Minas Gerais


20h 35m
Samuel entrega duas notícias.
-- Só isso?
Começa a explicar o fracasso das outras matérias e o secretário tapa os ouvidos com os dois dedos
indicadores, olha-o como se fosse Samuel o insuportável. O telefone toca, o secretário não ouve, o
telefone, tocando, o secretário não ouve. Samuel tira o fone do gancho. O secretario ri, atende, anota,
desliga e:
-- Você, que só deu focada hoje, vai ver esse negócio de estudante preso. Um tal de Carlos, da
Ciências Econômicas. Vai primeiro à casa dele, fala com a mulher dele. Está aí o endereço. Depois
apura o resto.

Redação do Correio de Minas Gerais


20h 07m
Andrea entregou a crônica ao secretário, virou-se e enfrentou a sala. Os repórteres e redatores
continuavam trabalhando, aparentemente desinteressados dela. Desde a sua volta a Belo Horizonte,
evitara o grupo dos jornalistas. Magoas passadas. Estranhamente, parecia que o grupo antecipara-se,
recusando-a; sutilmente, fora tentada a fazer-se novamente aceita; e o grupo vencia-a, fechando-se.
Nada era deliberado. Mistério mineiro.
O que Andrea tentou dizer com aquele olhar foi que estava pouco ligando para a recusa deles: ia
casar com Roberto. Tinham combinado: esta noite, na festa de aniversário dele, o casamento seria
anunciado. Sentia-se premiada quando saiu da redação, até sorrindo um pouco. Uma pequena vitória, e
eles nem sabiam.

<104>
~:

(Anotação do escritor:
Teatro.
Um homem sozinho. Gravadores, vozes, slides, cinema, discos, jornais, televisão. Ele contracena com
os meios de comunicação. É ele quem constrói prédios, joga na Bolsa, passa fome na rua, protesta
contra isso-que-está-aí, apóia isso-que-está-aí, denuncia os amigos, faz arte, detesta arte, governa, é
um simples funcionário de cartório, ama escondido estrelas de cinema e de televisão. É um cara muito
pequeno (papel para um anão?) em comparação com o material em cena. Obrigado a optar a todo
instante, a partir dos dados dos meios de comunicação, mas as informações não são nada seguras, são
até contraditórias.
Escrever até 30-1-69 e mandar para o concurso do Serviço Nacional de Teatro.)

Bar e Restaurante Lua Nova


10h 45m
-- É sério, olha aqui: com um tema desses eu posso fazer um corte crítico em trinta anos de vida
brasileira,
-- Corte crítico é muito bom, hem?
-- Olha aqui: um cara acorda trinta anos depois, quer dizer, passou trinta anos com amnésia, vivendo
como se fosse outra pessoa. Quando ele acorda, volta a ser o que era há trinta anos atrás. E o romance
é toda essa surpresa dele com os acontecimentos, está me entendendo? É um negócio meio simbólico.
Esse homem representa todo o homem brasileiro. Amnésia é a alienação, porra. Eu já tenho na cabeça
até os capítulos. Os Mortos. O cara se espanta quando dizem que Getúlio morreu. Góis Monteiro,
Osvaldo Aranha, Heleno de Freitas, José Lins do Rego. Bom, aí eu analiso, dou um sentido a essas
mortes dentro do romance. Outro capítulo. A Gíria. O cara quase não entende o que se fala hoje, de vez
em quando tira uma dessas: sossega leão, vou navegando, firme como o Pão de Açúcar, o que é que
há com o seu peru, umas coisas assim. Depois tem as novas invenções -- a televisão, já imaginou o
espanto do cara com a televisão? -- o progresso tecnológico, os novos escritores, os golpes militares. É
um negócio bem de pé no chão, entende? Acho que dá um negócio do rabo, assim na linha do Huxley.
-- Por que você não escreve?

<105>
~:

Rua Grão Mogol, 174, apartamento 11


20h 52m
Samuel ouve a mulher grávida:
-- Reviraram a casa roda, procurando não sei o quê. Nem jantar ele veio, aposto que está com fome
até agora. Eu não posso sair daqui porque tenho essa menina para olhar -- ela esta doentinha hoje, não
sei o que é -- e também não posso andar muito com essa barriga, está para nascer de uma hora para
outra. Não sei o que, Carlos tem de se meter nessas confusões. É como eu estou dizendo: ele nunca
fez nada, mas é muito esquentado, sabe? Mania de discutir, de tomar as dores dos outros.
-- Como é que a senhora soube da prisão?
-- Pois não estou falando que veio polícia aqui e revirou a casa toda? Essa gente não explica nada
direito, diz que ele está incomunicável. Foi alguma coisa lá na estação, história de uns retirantes que
chegaram aí e deu uma confusão com a polícia. Ele trabalha na Secretaria do Trabalho, sabe?, esse
doutor Otávio Ernâni é que arranjou para ele. Ele foi lá ver esse negócio dos retirantes; telefonei para a
Secretaria e me falaram isso. Aí, não sei por quê, prenderam ele. O senhor podia até fazer o favor de
saber o que é e telefonar para o doutor Otávio Ernâni, se o senhor puder, para mim.

Bar e Restaurante Lua Nova


20h 05m
-- When you see beauty, look for a long time -- diz o velho versejador olhando o crítico de cinema lá na
mesa dos jovens intelectuais, onde acabou de sentar-se Esdras, o Hermético, intelectual da geração
intermediária. Os olhos de Esdras, duplicados atrás de lentes muito grossas, parecem os de um homem
apavorado. Ele sempre ganhava as discussões, por causa dos olhos e de algumas coisas que tinha
guardadas. (Eis um resumo do que falou naquela noite, com os moços:
“Vocês já repararam que ninguém mais canta no banheiro? Conhece alguém que cante no banheiro?
Conhece? Eu já procurei: não existe. Não se canta mais em banheiro no Brasil.
“Literatura não é economia. Vocês não podem estabelecer prioridades nacionais de investimento
literário, fazer um plano qüinqüenal e determinar o que deve ser escrito nos próximos cinco anos.

<106>
~:

“Discutir a responsabilidade social, do escritor é o mesmo que discutir a responsabilidade social do


cientista. No fim, a bomba explode do mesmo jeito.
“Os nossos formalistas têm como objetivo literário a escrita ideogramática chinesa e dizem que
história, ideologia e semântica não têm importância para a literatura. Agora eu pergunto: qual é o
objetivo literário dos escritores chineses? E mais: qual seria o objetivo dos formalistas chineses?
“Em Pirapora, um chofer de caminhão descobriu que sua mulher estava enganando-o com o mágico
do circo. Disse que ia viajar, coisa natural em chofer de caminhão, e voltou de madrugada para
surpreender os dois, nus, na cama, acordando aos gritos, assustadíssimos. Desvairado, porque honra
se lava é com sangue, apanhou o revólver do mágico que estava na cadeira e atirou. Do cano do
revólver saíram bandeirolas coloridas. O marido sentou-se no chão e chorou como uma criança.
“Cuidado com os tiros que vocês andam dando por aí. Lembrem-se das bandeirolas coloridas.
“A vida literária não cria amigos, mas cúmplices. Isso é do Drummond.
“Bom, eu preciso ir andando.”)

(Anotação do escritor:
Penso na felicidade como uma satisfação dinâmica das necessidades de uma pessoa. É uma tarefa.
É realizando o trabalho de amar que a pessoa ama e nesse movimento é feliz. Amor, dinheiro,
ideologia, isolamento, religião -- o que o cara quiser batalhar. E eu não tenho a menor chance, enquanto
estiver bloqueado por contradições.)

Farmácia e Drogaria Nossa Senhora do Carmo,


Rua Grão Mogol
21h 03m
Samuel telefona para o doutor Otávio Ernâni:
-- A mulher diz que ele não fez nada.
-- Quem prendeu?
-- Acho que foi o DOPS, ela não sabe direito. A dona, esqueci o nome dela, ela é que me pediu para
avisar ao senhor.

<107>
~:

Diz que o senhor pode falar com os homens que ele não tem nada de subversivo.
-- Bom, eu, pelo menos, nunca soube de nada.
-- Ela está esperando menino, diz que não tem dinheiro nenhum em casa, como é que vai arranjar.
Uma confusão.
-- Isso não. Pode falar com ela que não precisa se preocupar. Nisso eu dou um jeito.
-- E a prisão dele? Será que o senhor não pode tomar uma providência?
-- O que eu posso fazer? Isso é coisa da Segurança. Fale para a dona lá que ela pode ficar
descansada: hospital a gente dá um jeito.
-- Ele foi preso como funcionário da Secretaria. É negócio de uns retirantes que chegaram à estação.
-- O quê!
-- O senhor não está sabendo?
-- Não. Que aconteceu?
-- Parece que houve uma briga dos retirantes com a polícia e o Carlos foi preso. O que eu sei é isso.
-- Escuta: desliga aí que eu tenho de encontrar o doutor Otavio.
-- Mas não é ele quem está falando?
-- Não, desculpe. É um assessor. O senhor vai me desculpar mas isso é normal. Estou aqui por causa
de outra coisa, serviço atrasado, e nem podia imaginar que. Alô?
-- Alô.
-- Vai me desculpar, hem? Sabe como é. É normal. Escuta: vou quebrar o seu galho. O doutor Otávio
vai hoje a uma festa nesse telefone. Anota aí.
-- Diz.
-- 5-3747. Eu sei que ele vai para lá. Telefona mais tarde que ele deve estar. Eu vou ver se encontro o
homem antes disso.

(Anotação do escritor:
Pesquisa sobre o filho, Robertinho.
1 ano -- Repete feitos que foram sucesso (A. Gesell). A mãe se entedia com a repetição, o pai
aplaude sempre. A criança está muito atenta à reação dos pais, aprende palavras, repete, aprende o
sentido. Me dá, ela dá. Piaget: “na medida

<108>
~:

em que se opera esta passagem do egocentrismo integral e inconsciente dos primeiros estágios à
localização do próprio corpo num universo exterior, se constituem os objetos”.
2 anos -- Curiosidade de descobrir novos objetos e ambientes. (Vai ao quarto dos pais e os encontra
abraçados, cena que vai querer reviver aos 5/6 anos e que fechará o conto.) Piaget: a construção de um
conjunto de relações entre os objetos, como a noção de atrás, sobre, dentro, fora, diante. Piaget: “na
criança, a aquisição da linguagem, quer dizer, do sistema de signos coletivos, coincide com a formação
do símbolo, isto é, do sistema de significantes individuais”.
3 anos -- Coisas que podia e coisas que não podia. O difícil era saber o quê, quando e como, decifrar
os códigos dos pais. Recorre então à simulação (M. y Lopez), rebeldia, ao fazer-escondido. A mãe
começa a achar que ele é fingido. O pai acha que ele representa.
4 anos -- Os objetos são mais dóceis, permitem mais invenções e jogos, adaptam-se melhor à
imaginação. As pessoas resistem ao pensamento mágico (Gesell, M. L.).
Em grifo ou parênteses virão os conceitos que não pertencem ao seu campo intelectivo; no final, as
palavras grifadas são um mínimo, porque ele domina a linguagem.)

Rua Tupis, 488, 14.0 andar


14h 59m
-- Boa tarde.
-- Boa tarde. É o gelo.
-- Que gelo?
-- Ai ai ai. O senhor não encomendou gelo?
-- Eu não.
-- Roberto J. Miranda. Não é aqui?
-- Não. É no apartamento de cima na cobertura.
-- Ah, desculpe. Muito obrigado. Desculpe o incômodo, bem?
-- Ora, foi nada. (Merda! Lá vem mais festa!)

Bar e Restaurante Lua Nova


19h 49m
-- Por que você não escreve?
-- Não dá. Agora não dá. Ando tão desanimado com tudo

<109>
~:

que não sei. Será que é isso que nossa geração tem de fazer?: escrever romance?
-- Então, porra, pára de bolar romance.
O outro estranhou. Estavam acostumados àquele jogo, o jogo do que é possível ou não é possível
fazer neste país. O Jogo dava-lhes a ilusão de serem, ao mesmo tempo, participantes-do-problema-
social-brasileiro e/ou escritores-impedidos-de-escrever-porque-o-Brasil-não-estava-precisando-disso-
agora. Ficaram algum tempo calados porque um deles tinha errado no jogo e era preciso adaptarem-se
uns aos outros novamente, esperar passar aquela pequena dificuldade. Numa hora dessas, as pessoas
tomam um gole de chope, giram um pouquinho o copo e aguardam. Então já podem falar:
-- E o Luís, hem gente?, que coisa estranha aquela relação com o pai dele, não é? Acha não?
-- Pô, se acho. Viu ontem?
-- Aqui para nós: é uma sacanagem, não é?
-- Não sei. É loucura. Vão acabar se matando.

Bar e Restaurante Lua Nova


22h 32m
-- 1980 vai julgar a gente! O que é que vocês fizeram? Nós temos de prestar contas a 1980! Quede
nossos livros, quede nossas revoluções? O que é que nossa geração fez? Nós estamos aqui julgando o
Fernando Sabino, o Paulo Mendes Campos, a geração Complemento, mas 1980 vai julgar a gente
também.
-- Está certo, Flávio. Paga logo a sua parte para a gente ir embora. A festa já começou.

Bar e Restaurante Lua Nova


20h 12m
-- Romance?
-- Talvez. Talvez uma novela. A idéia eu acho que é boa, falta desenvolver. É uma espécie de sátira
ao racismo. O título, não é por ser meu não, mas eu acho do caralho.
-- Qual é?

<110>
~:

(Anotação do escritor.
O Judeu Refratário. Escrever como se fosse um relatório de um comandante de um campo de
concentração, contando as tentativas para eliminar um dos prisioneiros. Tenta gás, forno, nada dá certo.
Bota o judeu vivo dentro do crematório, junto com os outros, todos mortos, e o judeu sai de lá de dentro
com os mesmos olhos lixos, alucinados: Mas não fala nada, não protesta. Tentam matá-lo a tiro; ele
sangra aos poucos, durante dias, sangra até as lendas cicatrizarem -- inclusive no coração -- e não
morre. Com baioneta, a mesma coisa. Mostrar o nazismo, a tortura, a opressão, a violência física. O
nazismo aí é como um símbolo, e o judeu refratário representa aquilo que nenhuma opressão consegue
destruir no homem.)

Farmácia e Drogaria Nossa Senhora do Carmo,


Rua Grão Mogol
21h 27m
-- O doutor Jorge está?
-- É ele.
-- Ah. O senhor não me conhece. A mulher do Carlos é que pediu para eu telefonar para o senhor.
-- Que Carlos?
-- Bicalho. A mulher diz que o senhor conhece.
-- Sei, sei. Que que há?
-- É que ele foi preso e o único advogado
-- Preso por quê?
-- Uma confusão lá na estação, negócio de uns nordestinos que chegaram aí. Foi preso como
agitador, parece que a situação dele não é boa não. A mulher pensou no senhor, que é amigo dele,
para ver se
-- Amigo dele nada. Olha, quer saber de uma coisa?: foi até bom para a gente ficar livre dele um
pouco. Esse cara torra o saco.
-- Bom, ele pode ser chato, mas não fez nada e o senhor, como advogado
-- Ah, tenho tempo para mexer com isso não. Estou muito ocupado agora, sabe? Amanhã eu vejo
isso.
-- É que a mulher
-- Amanhã, meu amigo, deixa isso para amanhã. Boa noite, viu?

<111>
~:

Cama
16h
Marília olha o relógio e pensa: está na hora do meu amor telefonar.

Rua Grão Mogol, 174, apartamento 11


21h 16m
Samuel, novamente em casa da mulher grávida, conversa com um casal que procura por Carlos. A
mulher é belíssima e o homem tem teorias:
-- É inegável que no campo administrativo eles têm feito alguma coisa. Olha, acredito até que vai dar
certo, O que não está certo é essa euforia de
-- O senhor não acha melhor ver se consegue soltar o seu amigo?
O homem sorriu, quase pedindo desculpas, e a mulher imediatamente não gostou de Samuel. A idéia
dela:
-- Tem um professor dele que é amigo do secretário de Segurança. É meio maluco, não sei se
resolve.

Rua Itapeva, 840, Vila Concórdia


20h 33m
-- Que festa é essa?
-- Aniversário de um moço.
-- Que moço?
-- Não sei. Amigo do Marcelo.
-- Não gosto desse Marcelo.
-- Ih, mamãe.
-- Ih o quê? Não gosto e está acabado.
-- Mas eu gosto.
-- Aurélia, Aurélia...
-- Gosto e não é da conta de ninguém.
-- Olha essa boca, olha essa boca!

Escritório da Corretora Dantas e Reis


16h 19m
-- Roberto? É o Marcelo. Tudo legal. Vou, lógico. Aqui: será que eu posso dar uma trepada aí no seu
apartamento?

<112>
~:

Depois da festa, é claro. Ahn-ahn. A gente combina aí, tá? Ciao.

Farmácia e Drogaria Nossa Senhora do Carmo,


Rua Grão Mogol
21h 26m
Samuel recebe o telefone das mãos do homem, que conta:
-- Não falei?: o velho é maluco. Disse que isso não é hora de incomodar um velho por causa de um
aluno qualquer que foi preso. Disse que não tem nada com isso e me mandou gozar a vida enquanto é
tempo.
A mulher belíssima sorriu, mas não gostava mesmo de Samuel.
-- É. É maluco mesmo.
Samuel não diz nada. Disca um número e espera.
-- O doutor Jorge está? -- Ah. O senhor não me conhece. A mulher do Carlos é que pediu para eu
telefonar para o senhor. -- Bicalho. A mulher diz que o senhor conhece. – É que ele foi preso e o único
advogado -- Uma confusão lá na estação, negócio de uns nordestinos que chegaram aí. Foi preso como
agitador, parece que a situação dele não é boa não. A mulher pensou no senhor, que é amigo dele,
para ver se -- Bom, ele pode ser chato, mas não fez nada e o senhor, como advogado -- É que a mulher
-- Ô filho da puta.

Rua Pernambuco, 1717, apartamento 306


20h 30m
Esta noite na festa vou fazer Mônica dizer na frente de todo mundo que me adora.
Sorriu.
Vou sim.

Praça Negrão de Lima, 36


13h 05m
Puta merda. Fim do mês taí. Onde é que eu vou arranjar a merda desse dinheiro? Bem que o Roberto
podia ter arrumado, não custava nada. Fresco. Mas hoje eu acerto ele.

<113>
~:

(Anotação do escritor;
Incluir em Antes da Festa várias “anotações do escritor” (inclusive esta). São projetos, frases, idéias
para contos, preocupações literárias, continhos relâmpagos, inquietações. Assim, o escritor seria, junto
com Samuel, personagem principal da história que está escrevendo. Personagem involuntário, porque é
“outro autor” -- ele mesmo, ou o homem que ele viria a ser, convivendo artificiosamente no tempo e no
espaço com o homem que ele tinha sido -- é “outro autor” quem junta os pedaços desconexos de suas
anotações.)

Farmácia e Drogaria Nossa Senhora do Carmo,


Rua Grão Mogol
21h 30m
Samuel percebe que o homem quer escapar com a mulher belíssima e deixa-lhe um peso:
-- Olha, eu nem conheço o rapaz e tenho de ver esse negócio para o jornal. O senhor é amigo dele, o
senhor faz o que achar melhor. Eu tenho de ir lá para a estação.
-- Mas o que que eu posso fazer?
-- Ah, não sei. O senhor vê aí. Olha: o doutor Otávio Ernâni estará nesse número hoje à noite. O
senhor vê o que ele pode fazer. Até logo, hem? Vai desculpar mas
Samuel se afasta com um gesto de ombros. O homem olha o papel e:
-- Uai é o número do Roberto. Então o homem está é lá. Que coincidência, menina.
A mulher belíssima aperta seu braço, sorrindo:
-- Que bom. Então vamos para lá.

(Anotação do escritor:
Nas ações e observações de Samuel, o verbo deve estar sempre no presente.)

Praça da Estação
21h 46m
Samuel conta quatro rádio-patrulhas e anota o número de cada uma. Conta quarenta homens da
Polícia Militar e anota.

<114>
~:
Peruas com chapas frias. Policiais à paisana. Um grupo de observação do Exército, cinco homens. Os
homens da Polícia Militar, de mãos dadas, formaram um cercado e, lá dentro, calcula que há umas
seiscentas pessoas. Algumas crianças choram, outras dormem, ouve-se um bzz-bzz de reza, uma
mulher lamenta-se em voz alta, os homens estão de cócoras, de pé, ou deitados. O cheiro não é nada
bom. Conversando com as pessoas, Samuel recolhe dados: tudo estava mais ou menos tranqüilo, mas
a confusão foi grande; no que os retirantes chegaram, apareceu a polícia; a ordem era não deixar o
pessoal retirante espalhar-se pela cidade; quando começaram a protestar, a polícia pediu reforços;
fizeram esse cercado e não deixaram ninguém sair até agora, nem para beber água; houve pancadaria,
acabou, prenderam uma porção de gente.

(Anotação do escritor:
O que eu laço com isso: um romance, um conto, uma crônica, nada?:
Um filme mudo de ficção-científica, leito em 1931, está sob guarda e vigilância do FBI. Paralelamente,
a organização realiza investigações para descobrir seus realizadores: atores, fotógrafos, produtor,
diretor, roteirista, cenógrafo. O filme, descoberto nos porões de um cinema que fechou por falta de
público na cidade de El Dorado, Arkansas, foi uma incômoda herança do governo Johnson para Nixon.
Detalhe curioso: El Dorado fica a pouco mais de quatrocentos quilômetros de Dallas, Texas.
O filme deve chamar-se “The assassination of the president”, conclusão a que chegaram os
investigadores baseados na anotação feita na primeira lata da pilha -- “The assas. of the pres.” -- porque
o primeiro rolo, que conteria o nome completo do filme e talvez os nomes da equipe de realizadores,
não foi encontrado. O dono do cinema, que o comprou do velho dono, não soube informar nada, apenas
comunicou às autoridades o seu achado; o velho e agora cego antigo proprietário, o texano Jerome
Prescott, lembra-se vagamente de ter guardadas algumas latas de alguns filmes realizados por
produtores independentes, que faziam sua própria distribuição. Era um serviço mal organizado, de
pequena empresa, e acontecia frequentemente sobrarem latas e até filmes inteiros guardados muito
tempo

<115>
~:

no cinema, à espera de que os homens passassem para apanhá-los. Aquele filme, disso lembrava-se
muito bem, foi um dos maiores fracassos da história do seu velho cinema em 1931, ou 2. Um filme sem
galã, sem uma garota como Lilian Gish ou Jean Harlow, com muita discussão política e uma história
anti-americana passada no futuro, só podia ser fracasso.
O filme conta, em minúcias que não se podem considerar coincidência, o assassinato a tiros de um
presidente K. nos Estados Unidos, em Dallas, Texas, 1963. Somente esse dado seria suficiente para
justificar uma investigação rigorosa. Mas há coisa melhor: a cena do crime coincide quase exatamente
com a realidade, trinta e dois anos depois! Alguns detalhes, como frisos dos carros, tom das roupas e
placas das casas comerciais, não são exatos, mas bastante aproximados. Parece que há algumas
divergências da história conhecida, mas quanto a esse ponto surgiram apenas suposições, porque
somente pessoas importantíssimas viram o filme -- e essas não falam. Segundo se diz, aparece no filme
mais um atirador e -- dizem -- pertencia aos quadros secretos do FBI. Busca aflita nos arquivos: o nome
com o qual ele aparece no filme nunca constou das listas dos agentes secretos. Nada disso tem muita
importância.
Até agora, passados quase dez meses de investigações, não foi possível localizar um só ator do filme.
Cópias fotográficas de suas caras foram distribuídas aos agentes, que procuram todos os velhos atores
das décadas de 20, 30 e 40. Ninguém se lembra daquelas caras, em Hollywood ou Nova York. A
investigação está agora estendendo-se ao Canadá e Inglaterra. “Você conhece esse homem? Ele era
assim em 1930. Escreva-nos ou telefone e ganhe uma geladeira se você acertar” -- diz a televisão em
três países, disfarçando a busca em concurso. Já há quem diga que o filme pode ter sido feito em
qualquer lugar do mundo. Nada impede que se coloquem legendas em inglês num filme mudo
argentino, por exemplo. As hipóteses extra-terrenas estão afastadas, por enquanto.
A mais recente sugestão, que partiu do chefe da Divisão de Cinema do FBI, é que o filme seja exibido,
com grande promoção. Os autores se apresentarão, diz ele, empurrados das sombras pela vaidade --
porque será um sucesso, sem nenhuma dúvida.
O presidente Nixon hesita. Com a exibição, o filme deixará de ser apenas mais um mistério do FBI e o
mundo já angustiado será tocado por um mistério insolúvel, insuportável.)
<116>
~:

Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social


18h 16m
-- É Marília?
-- É.
-- É Otávio.
-- Oi. Tudo bom?
-- Tudo bom. E aí?
-- Tudo bem.
-- Escuta: estou meio com pressa. É o seguinte: a festa do Roberto. A gente vai?
-- Ah vai, né? A que horas?
-- À hora que você quiser.
-- Cê passa aqui?
-- Passo.
-- A que horas?
-- À hora que você quiser.
-- Qualquer hora. Fico esperando.
-- Perto das nove, está bom? Tenho um problema de uns passes aqui para resolver. Vou entregar
para o Carlos Bicalho. É só o tempo de ir até em casa, tomar banho, um repousozinho, e passo aí. Tá?
-- Eu espero. Um beijo.

Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social


19h 01m
-- Otávio está?
-- É ele.
A voz não voltou, uma voz inesperadamente parecida com alguma. Insistiu:
-- Alô? Alô?
-- É Lena.
Há mais de um ano esperava aquele telefonema, e tinha sempre certeza de que seria uma coisa
difícil. A voz falou outra vez, antes que ele se recuperasse:
-- Ontem esperei você chamar.
-- Como? Eu nem sabia que você estava aqui.
Parecia que não tinha nada para conversar, as frases eram separadas por grandes espaços brancos.
Sempre soube que seria um telefonema difícil.
(Anotação do escritor:
Por que sempre soube que seria um telefonema? Por que

<117>
~:

não um encontro difícil, uma carta? Isso está me cheirando a literatice.)


Ela:
-- Não recebeu minha carta?
-- Carta? Recebi não.
Aquele velho amor complicado que sentia por ela estava voltando. Ele:
-- Você veio para ficar?
(Não é hora de perguntar.)
Ela, um pouco surpresa com a coragem dele:
-- Não sei. Não sei ainda.
(Vê se não faz nada errado desta vez. Já foi bastante duro agüentar este ano.)
Ele:
-- Quando é que a gente se encontra?
-- Não sei --
começou ela, e lembrou-se logo:
-- Você não vai à festa do Roberto? Ah, se não for eu não vou.
Percebeu saudoso a mesma Helena, à vontade preguiçosamente. Ela:
-- Vai?
-- Vou.
-- Então passa aqui para me apanhar. O fusca ainda anda?
-- Anda. A que horas você está pronta?
-- Das nove em diante, está bom?
-- Está.
Ficaram um momento em silêncio, não querendo desligar, esperando uma gentileza, um abraço, uma
saudade. Ela:
-- Então até logo.
-- Ciao.
Um abraço um abraço dou-te eu dou-te eu ao virar ao virar bem junto ao teu bem junto ao teu --
pensou ele enquanto desligava. E lembrou-se de repente:
-- Puta merda, e Marília?

Bar e Restaurante Lua Nova


20h 12m
-- A idéia eu acho que é boa, falta desenvolver. É uma

<118>
~:

espécie de sátira ao racismo. O título, não é por ser meu não, mas eu acho do caralho.
-- Qual é?
-- O Judeu Refratário.
-- Bom.
-- Mas tem um porém: não estou conseguindo escrever, Esdras. Tem sentido a gente escrever esse
negócio de judeu, hoje? E quem é que vai escrever sobre os nossos problemas? Não vê os intelectuais
russos? Siniavski, Sakharov, Amalrik, Medvedev e outros estão lá, batalhando os deles. Os americanos,
franceses, peruanos, mesma coisa. E aqui? Me diz ai: quem é que vai falar de nós, disso aqui?
-- Literatura não é economia. Vocês não podem estabelecer prioridades nacionais de investimento
literário, fazer um plano qüinqüenal e determinar o que deve ser escrito nos próximos cinco anos.
-- Não estou falando que é regulamento não, porra. Eu é que não consigo escrever, é um problema
meu. Tanta gente se policiando, com medo de dizer as coisas. Tanta gente parando de escrever e
quem não tem nada a dizer começa a dizer. Será que não tem mais gente sentindo o que eu sinto?
-- Se tem, põe num livro.
-- Ih, te fodeu.
-- Fodeu porra nenhuma. Fodeu por quê? E quer saber de uma coisa?: isso aqui é conversa
particular. O que eu acho, Esdras, é que há certos assuntos que não dá para o cara ir escrevendo, hoje.
Hoje, veja bem, 1970. Sabe lá se não vai encher o saco porque tem outras inquietações, coisas mais
próximas e que por isso mesmo tocam mais, e parar no meio o outro assunto, como esse do judeu?
Esse negócio de judeu parece aquelas coisas do tempo do Sartre.
-- Os latino-americanos estão escrevendo até sobre coisa nenhuma, são homens do mundo, e vocês
aqui, no Curral d’el Rey, querendo explicar a situação brasileira. Ô saco.

Praça da Estação
21h 45m
Samuel conversa com o investigador apelidado Frisante Michelon, que participou da prisão de Carlos
Bicalho.
-- Olha, aquele rapaz vai entrar pelo cano, viu? Nosso pessoal chegou aqui, já estava dono da
situação, quando apareceu

<119>
~:

esse tal de Carlos e começou a perturbar tudo. A ordem que a gente recebeu foi segurar esses paus-
de-arara aqui e embarcar tudo de volta no primeiro trem. Eles nem estavam discutindo, são até gente
boa. Aí chegou esse cara, esse Carlos, chegou e disse que não estava direito, que a Secretaria dele ia
dar um jeito, e os mendigos foram na onda dele, sabe como é? Acabou que o secretário do Trabalho
não resolveu porra nenhuma -- eu, pra mim, esse cara não é da Secretaria porra nenhuma -- e o cara
começou a levantar o povo contra nos, fazendo comício, agitação. Coisa de comunista. Aí o pau
começou a quebrar, prendemos o cara e mais uns cinco ou seis comuns. Foi ele que começou o
negócio todo, pode escrever aí.

(Anotação do escritor:
O papel está na máquina há uma hora e meia, branco até eu começar a escrever esta carta aberta a
quem interessar possa -- porra, porra, porra. Eu pus o papel na máquina para começar novamente a
escrever O Judeu Refratário e não consigo tirar nada de mim. Porra. Gostaria de dar uma porrada no
meu superego. Preciso entender direito o que é que me impede. Hipótese um: medo de crítica e eu
disfarço com escrúpulos de escrever um livro inútil. Hipótese dois: o ambiente rarefeito de liberdade me
inibe, inibe todo mundo, e escrever virou uma bobagem sem importância. Hipótese três: estou entre
deus e o diabo na terra do sol, entre escrever para exercer minha liberdade individual e escrever para
exprimir minha parte da angústia coletiva; imagino histórias que tenho vergonha de escrever porque são
alienadas e tenho medo de escrever histórias participantes porque são circunstanciais. Hipótese quatro.
sou consciente de estar vivendo num momento de obscurantismo da literatura, um daqueles períodos
estéreis de que a história não guarda nada e sei que é inútil escrever qualquer coisa, participante ou
não, que tudo sairá uma bosta e se perderá na noite da história e é melhor não desperdiçar meu tempo.
Hipótese cinco: tem muita porra estéril derramada por aí e eu não quero ser mais um punheteiro.
E o que é que eu faço com a minha porra? Hipótese um, vendo para um escritor norte-americano de
worst-sellers. Hipótese dois, escrevo um livro chamado “Se eu quisesse escrever um livro”. Porque uma
hora qualquer essa porra vai explodir.

<120>
~:

As pessoas me olham nas ruas como se eu fosse um tarado a ponto de espirrar porra por aí. Eu
preciso descarregar, em poluções noturnas ou em cartas abertas a quem interessar possa. Ofereço a
quem quiser algumas idéias, tudo de graça senhores, por que o autor se sente incapaz de resolver
alguns problemas pessoais. Oferecimento ao senhor Gláuber Rocha: argumento para um grande filme
épico alegórico em que os personagens são um gladiador, Cristo, Billy the Kid, um astronauta, um
cangaceiro, um samurai, Tutmés, o faraó guerreiro. Señor Garcia Márquez, interessa?: o trapezista de
circo saltou e ficou parado no ar uns cinco segundos, enquanto o trapézio ia e voltava e ia novamente,
até que o trapezista pegou-o na volta como quem pega um bonde andando e aquilo foi apenas uma das
coisas maravilhosas que ele fez na cidade, sendo a última ter desvirginado a filha do retratista e sumido
(a moça jura que ele sumiu antes de dobrar a esquina, fez puff e sumiu) para nunca mais voltar, e o filho
deles dois nasceu de catorze meses e aprendeu a falar no meio da segunda semana de nascido. E
esta, quem aceita?: o sujeito que ia com o fetozinho de um aborto numa caixa de sapatos, aborto
natural da mulher dele, ia levar para enterrar, e esqueceu no balcão da padaria e então -- ah, grande
Borges, quem sabe esta lhe serve?: um agente funerário é chamado a uma casa; chega lá, uma
senhora o atende na porta e diz que ninguém chamou; ele volta para a agência, chamam de novo, ele
vai ao mesmo endereço, de novo a mesma senhora o recebe na porta e diz que não foi de lá que
chamaram; ele volta para a agência muito puto da vida e então chamam de novo, ele diz que não vai,
estão pensando que ele é algum palhaço?; então a pessoa que estava telefonando vai até lá esclarecer
a situação, o agente explica que esteve na casa duas vezes, conferem o endereço, tudo certo; a pessoa
pede ao agente que descreva a mulher que o recebeu à porta, o agente a descreve com minúcias,
porque era um homem muito observador, e a pessoa sai apavorada pelas ruas: era ela, a morta, que
recebia o agente! Puta merda, essa me dá até arrepio. E esta aqui, algo para Hitchcock, talvez: o título
poderia ser O Desafio. Ou O Duelo. Um sujeito muito elegante, fino, coloca uma carta no correio. Corta.
Letreiros, música, a carta viajando através da burocracia dos Correios, até chegar às mãos do
destinatário, o chefe de polícia. Isso coincide com o fim dos letreiros. A carta, anônima evidentemente,
avisa ao chefe de polícia que seria morto Fulano de Tal e desafia a polícia a impedir o crime.

<121>
~:

Daria dois dias para a polícia pôr-se a campo e ele não “começar com muita vantagem”. Good sport.
Tenho aqui também, deixa-me ver, alguma coisa que poderia servir eventualmente ao senhor Robbe-
Grillet, não?: uma mesma cena é descrita repetidas vezes, com algumas pequenas modificações. Essas
modificações é que serão ao mesmo tempo a ação e o assunto da obra, serão o que se conta”. Como
se alguém, remoendo um fato na cabeça, tentasse lembrar-se de detalhes; lembra-se de uns, esquece-
se de outros; o conjunto escapa-lhe sempre. Pode-se construir também como se fosse a mesma coisa
vista por vários observadores. Começar com um período bem simples, como “o corpo caiu do 63º
andar”. Outros parágrafos, cada um valendo por si como um texto completo, contarão exatamente o que
aconteceu, embora o acontecimento seja um mistério para a personagem, porque ela não vê o
conjunto. Toim!)

Bar e Restaurante Lua Nova


20h 58m
Luis, que morava na rua atrás da estação, trouxe a notícia para os do suplemento.
Eu não cheguei perto porque começou a sair tiro e eu nem tenho perna para correr. Pelo que entendi,
o governo, ia empregar os retirantes na lavoura de cana e feijão, lá para o oeste de Minas. Não sei por
quê, resolveram mandar os homens de volta, e aí começou o quebra-pau. No meio deles tem um cara
que já andou com Lampião, era cangaceiro. Me disseram.
A turma do suplemento foi lá, ver.

Praça da Estação, Bar-Lanches Estação


21h 56m
Samuel telefona para o redator-chefe do jornal, conta o que está acontecendo e lembra:
-- Olha, é preciso mandar fotógrafo, esqueci de falar com o Ênio. Todo mundo tem fotógrafo aqui,
menos nós. O Estado está com dois repórteres. Já quebrou o maior pau.
-- E agora, como é que está ?
-- Tranqüilo. Mas pode quebrar o pau de novo.
-- Você já tem a história toda?
-- Toda não, quase toda. Eu tenho o lado da polícia, agora vou ouvir os nordestinos. Quer dizer, vou
tentar ouvir.

<122>
~:

-- Certo. Mantenha-se em contato comigo. Mas olha a hora, bem porra. Esse negócio tem de estar
aqui até às onze, estourando.

Rua Tupis, 488


23h 46m
Dois rapazes entram no elevador, depois de gentilmente cederem a passagem a um jovem casal que
perguntara ao porteiro se era esse o endereço de Roberto J. Miranda; ela muito bonita, com os seios
quase visíveis, ele um tanto orgulhoso e feliz. Ela e um dos rapazes avançam o braço para marcar o
andar e quase! suas mãos se tocam no caminho para o botão número 13. Um desses instantes
imprevisíveis e alegremente embaraçosos. Ela desiste, o rapaz hesita, aperta o botão, sorri para o
casal, o casal sorri, como vai ser gostoso, pensava ela.

Praça da Estação
21h 57m
Samuel atende o homem que o chama com tapinhas no braço. O homem, mulato, olha para os lados,
disfarçando, e chama-o para um canto, com um sinal de mão.
-- Você é repórter, não é? Eu te vi conversando com o investigador ali e vim até aqui.
-- Você viu o quebra-pau?
-- Estou aqui desde cedo, perto de sete horas. Tenho documento, olha aqui. Sou pintor. Olha aí meu
nome, Ataíde Pimenta.
-- Certo, certo. Qual é o galho?
-- Eu vi tudo, estou aqui desde cedo. Tenho mulher em casa esperando, moro ali em cima, ó, ali na
Rua Januária e estou aqui para ver o que vai dar. Vai na conversa daquele tira não.
Olha para os lados, cauteloso, e continua:
-- Eles já chegaram aqui com estupidez. Eu estava passando, passo aqui todo dia, voltando do
serviço. Eles chegaram juntando os flagelados num canto, de qualquer jeito, precisava ver a cara dos
coitados, não estavam entendendo nada. Falaram que eles não podiam parar aqui, que tinham de voltar
para a terra deles. Eles explicaram que não tinham dinheiro para voltar e pediram para ficar aqui
mesmo. O tenente disse que tinha
<123>
~:

ordens e não deixou. Aí o moço, deve ser esse Carlos que você estava falando com o investigador, não
sei como que apareceu. Conversou com o tenente, saiu para falar com um secretário não-sei-que-lá,
mas não arranjou nada. Aí ele tentou como se diz explicar aos flagelados que eles tinham de voltar, é
um moço bom, viu?, mas acabou escutando tanta miséria que pediu ao povo para ajudar os coitados.
Nessas alturas já tinha juntado uma porção de gente por aqui, gente voltando do trabalho pessoal que
vai pegar o subúrbio. Bem, aí esse Carlos, deve ser, explicava que aquele pessoal estava com fome e
não podia sair nem para arranjar comida. Estava falando verdade, eu vi tudo, mas o tenente mandou ele
calar a boca. Ah, pra quê. O moço disse que meganha nenhum fazia ele calar a boca e aí o tempo
fechou. Quiseram bater no rapaz, o povo não deixou, aí o rapaz disse que também era autoridade, que
trabalhava no governo, pediu ajuda para os nordestinos, aí o tenente mandou prender, aí ele reagiu, aí
entraram os baianos e foi porrada para todo lado, aí chegou mais polícia e acalmou. Pode botar no
jornal: o rapaz saiu daqui carregado. Agora tem mais de uma hora que está aí esse cerco. A gente vê
que não está certo, mas vai fazer o quê? Eu tenho minha mulher para olhar, não sou besta de entrar
nisso aí. Mas raiva, dá.

Rua Januária, 28-Fundos


22h 05m
O meu Deus, por que será que o Ataíde está demorando tanto?

Rua Tupis, 488, 15º andar


21h 06m
está chamando Está chamando. lúcio Anda Lúcio, atende, atende, atende, não está não está aposto
que não demora Por que essa demora? alguém alguém tem alguém não! será que não tem Não tem
ninguém em casa? alguém lá com ele! não não! Nem a empregada? tem alguém lá Será? com ele! Será
que tem alguém lá com ele não! e ele não quer atender? ai meu deus Não, isso não. Ai meu Deus eu
morro eu morro se isso acontecer no dia do meu aniversário. Anda Lúcio, atende! Atende! errado
número errado! Será que disquei o número errado? Isso. É isso, deve ser isso! Ligar de novo, o número
o número ah

<124>
~:

Dois dois quatro sete sete seis. chamando Está chamando. Certeza que está certo. negócio do
dinheiro quem sabe foi o negócio do dinheiro o dinheiro Ninguém em casa, é isso, dinheiro Oh, Lúcio,
por que foi me pedir dinheiro? Dinheiro estraga tudo Lúcio, e estava tão bom, tão lindo, amor não era
hora de atenderam! Alô. empregada irmã mãe
-- Alô. De onde fala?
Dois dois quatro sete sete seis, irmã voz chata Deve ser a irmã. o lúcio está?
-- Por favor, o Lúcio está? está um moment
Quem quer falar com ele? ora quem quer chata falar
-- É Roberto Miranda. chata.
Uai, ele disse que ia para sua casa, aqui! que tinha uma festa. Ai meu deus onde é que ele foi parar
Não chegou aí não? lógico que não sua burra
-- Não, lógico que não. Por isso que eu estou telefonando. que hora! Que hora que ele saiu? foi
agorinha agorinha mesmo não tem dez minutos agorinha
Deixa eu ver. Mais ou menos. . . pera aí. O mãe. chata Maiê! Que hora que o Lucinho saiu? agorinha
ainda agorinha Alô, Roberto.
-- Sim?
A mãe diz que ele saiu faz uns dez vinte minutos ai! E foi para aí mesmo. que que houve então que
que houve que que houve nada ai foi nada que que houve lúcio lúcio vai sacanear. Vai me sacanear
logo hoje? Algum lugar, sim é isso! passou antes, vai passar.
-- Ele disse se ia passar nalgum lugar antes? ah é mesmo falou sim
Não. Falou não. Mas ele deve estar chegando, né?
-- É. Deve ser isso. cigarro Vai ver parou para comprar cigarro, claro uma coisa assim. obrigado
Obrigado bem? Boa noite.
Boa noite. Clic. chata não simpática Foi até simpática, não tinha obrigação de chamar a mãe nem
nada, se interessou, ah ele vem ele vem Claro que ele vem. Foi comprar cigarro, foi? conversar um
pouco com aqueles amigos da esquina. Fala de mim, não! mal de mim, não! estou comendo uma bicha
aí não não não não descolar alguma grana. mentira mentira gostou de mim gosta gosta outra coisa
depressa grana não outra coisa meu deus meu deus antônio Ele vem, lógico que vem. Fico tão nervoso

<125>
~:

em dia de festa. antônio Parar de pensar nisso senão fico na fossa. antônio Será que está tudo em
ordem na copa? antônio
-- Antônio.
-- Senhor.
-- Tudo em ordem na copa?
-- Sim senhor.
ótimo ótimo -- Não falta nada?
-- Não senhor.
perfeito bonito que olhos será que o pau nossa! -- Muito bem. Diz ao Joaquim para não deixar faltar
bebida nem gelo para ninguém. Qualquer problema, fale logo comigo. Entendeu? que olhos
-- Sim senhor.
-- Pode ir.
Hum... se não fosse garçom. não! lúcio Desculpe, Lúcio, foi sem querer, a carne ai é fraca. Pensar
noutra coisa, deixar de bobagem. a festa a festa o que da festa? Vai ser uma festa linda isso linda,
linda. Será que Andrea louca esqueceu de convidar alguém? ai não ai não louca Acho que não
esquece. esquece não Ela é louca louca mas para essas coisas ela funciona, esqueceu ninguém não.
Já pensou? eu morro É tão desagradável explicar um esquecimento noivado desses. não andrea ai meu
deus o noivado Ela levou a sério essa história de casar. fui eu fui eu fui eu não! não! outra coisa outra
coisa Pensar nisso agora não. ela vem aí É preciso. ela vem aí como? como? como? Como que eu
faço? Combinamos anunciar esse não! casamento hoje. Que idéia, meu Deus, que idéia de Andrea
minha, e agora agora agora? Não posso, qual é essa de casar, gente? Então ela não vê não vê que eu
sou não sabe não sabe não fale! homossexual? falar com ela Casar!? Falar com ela, explicar que eu
conheci um rapaz anteontem lúcio -- Lúcio não chega, que demora é essa? vem logo lúcio vem logo me
ajudar Quem vai me ajudar a sair dessa? lúcio conheci um rapaz como é que é mesmo ah conheci um
rapaz anteontem, uma pessoa maravilhosa, e estou completamente é isso? falo? apaixonado. Ai meu
Deus, será que vou ter coragem? coitadinha tadinha tadinha Andrea, tadinha. que que eu faço? que que
eu faço? Andrea, meu amor, deixa te contar: conheci isso um rapaz vai vai anteontem isso isso vai e eu
acho que não quero mais vai! vai! casar com você. Tadinha, uma pessoa maravilhosa, gostosa, louca,
mas eu a festa -- Espero que isso não estrague a minha festa.

<126>
~:

Praça da Estação
22h 10m
Samuel apura: a ordem (parece) partiu da Secretaria da Segurança, entrosada com a do Interior e
Palácio, porque, de uma semana para cá, trens e caminhões despejaram uns cinco mil retirantes em
Minas, a maioria doente, todos sem emprego e com fome; a medida visa impedir que isso continue; não
há trabalho para esse tipo de gente na cidade, era melhor que voltassem para o campo; voltando,
aqueles diriam aos outros que não descessem para o sul e em breve o êxodo terminaria; certos setores
do governo acreditam que é o único meio de impedir essa invasão da miséria num Estado que, afinal de
contas, não tem nada com isso; a Secretaria daria quantos passes fossem necessários para a volta.
(São essas as informações que Samuel recebe de um assistente do doutor Otávio Ernâni, da Secretaria
do Trabalho, que estava na praça representando-a naquele momento.)

Praça da Estação
21h 40m
O retirante Viriato conta para a turma do suplemento: vieram de Curralinho, nas Alagoas, mas
juntaram-se com gente de Iguatu, Crato, Barbalho, Nazarezinho, do Ceará; gente da Paraíba, Rio
Grande do Norte; Pernambuco e Bahia; tudo seco; o que tinham, venderam; o dinheiro acabou no
caminho, comprando para comer; ninguém ali tinha terra no norte e a terra que havia o Capeta queimou
e tomou conta; agora, no sul, não podia nem sair da estação; voltar com quê, para onde e para quê?
A turma do suplemento queria conhecer o homem que tinha andado com Lampião.

(Anotação do escritor:
Epígrafe? “Verifica-se que um por cento da população brasileira participa da renda nacional com uma
renda bruta total que é superior ao total da renda de oitenta por cento de brasileiros; isto é, que quase
novecentos mil brasileiros ganharam em 1970 uma quantia maior do que a que perceberam setenta e
dois milhões de brasileiros; portanto, a renda de um por cento

<127>
~:

de brasileiros é maior do que a soma da renda de oitenta por cento.”)

Praça da Estação
22h 34m
Samuel ouve a resposta do redator-chefe do jornal:
-- Deixa isso para lá, rapaz. Amanhã o governo resolve o que faz.
-- Amanhã é tarde. A polícia vai embarcar todo mundo hoje à noite. O jornal podia telefonar para o
governador, pedindo uma providência. Aposto que ele não sabe o que esta acontecendo aqui.
-- Claro que sabe. Olha aqui, vê se traz logo essa matéria que está ficando tarde.
-- O jornal não vai fazer nada?
-- O jornal vai fazer o que jornal faz: publicar a matéria. Escuta, o fotógrafo chegou aí?
-- Não vi. Qual é o fotógrafo?
-- O Messias. Espera aí. Foi o Messias, né Ênio? É, foi o Messias. Chegou aí não?
-- Bom, eu não vi.
-- Deve estar ai sim. Vem logo escrever essa porra.
-- Tá.
Samuel desliga, desanimado. Pensa no estudante Carlos, simpatizando com ele. Aquele homem da
mulher belíssima e o tal de doutor Otávio fariam alguma coisa por ele, ou tentaram pelo menos?

Televisão Itacolomi
12h 10m
-- Tenho um pouco de medo de me pedirem para cantar. A gente não pode ter um minuto de sossego.
-- Se não quiser, não canta. Ninguém pode obrigar.
-- Isso é. Em todo caso, leva o violão e deixa no carro. O pessoal lá pode ser boa gente.

Avenida Olegário Maciel, 52, apartamento 26


21h 03m
Envolvida pela água quente, que corta seus pequenos

<128>
~:

seios pela metade -- na superfície, dois botões marronzinhos e tesos -- Andrea se excita com as coisas
que deveriam acontecer dentro de poucas horas e com a agradável ousadia da água, possuindo-a
delicadamente. O complicado mecanismo de suas certezas -- ela, oferta irrecusável, prêmio, maravilha
-- já havia elaborado o papel que passaria a representar: esposa. Ela, a fascinante e inalcançável
criação dos anos 50, concederia a um homem o privilégio de possuir sua intimidade, seus medos mais
secretos, aos trinta e sete anos de esquivanças.
Andrea amparava-se na semelhança entre eles, na timidez sexual dele e nas tentativas que faziam
juntos para superar o problema de cada um. Ela sentia, nos toques dele, o amadurecimento do seu
grande orgasmo e pressentia que o alcançaria quando conseguisse manter a ereção dele na hora de
ser penetrada.
Era pouco para mudar uma vida, mas algumas vidas mudam com o vento. No seu banho de noiva,
Andrea embala-se ao vento.

Praça da Estação
22h 54m
Samuel ouve o choro constante de uma criança dentro do cercado. Não sabe por que está tão irritado
agora e por que essa irritação cresce com aquele choro. O pai do menino o acalma com um tapa.
Samuel vai ao bar, compra um litro de leite, pão, biscoitos, volta depressa ao cercado, chama o pai, a
criança, a mãe, dá-lhes tudo. Outros precisavam, pedem -- pelo amor do Santíssimo, meu senhorzinho
-- ele volta, compra mais, dá; as pessoas que olhavam imitam Samuel, alegremente descobrindo para
que estavam ali; o homem do bar se espanta satisfeito com aquele movimento inesperado; uma revolta
cristã e irmanada que ninguém pode impedir, todos despertos naquele apressado fazer o bem,
solidários, salvos, quem dá aos pobres empresta a Deus; Fé, Esperança e Caridade; Deus te dê em
dobro tudo o que me desejares.

(Anotação do escritor:
Atravessamos o cordão de isolamento. A polícia nem ligou

<129>
~:

porque Pena Forte e Valdiki estavam dando show de bicha e parecia que aquele bando de veados não
ia atrapalhar nada. Fomos falar com o líder dos retirantes, Marcionílio. Para nós era folclore, um
programa nesta cidade de merda, porque o homem tinha o encanto de ter sido cangaceiro. Marcionílio
estava sendo entrevistado pelo Samuel Fereszin, do Correio conhecido nosso.
Ouvimos falar da fome (“Meu pai contou que na grande seca de 87 foram mortos dois bandidos
assaltantes e comidos pelo povo em Jacaré dos Homens.”)
da felicidade (“Aquela dona que ali está, dona Lália, está feliz e aliviada porque vendeu a filha de
catorze anos, nessa viagem mesmo, a um fazendeiro do sul da Bahia. A filha agora tem onde comer e
dormir, melhor do que nós.”)
de revolta (“Quando o vento sopra, o capim abaixa; quando o capim pega fogo, queima a mata toda.”)
do latifúndio (“Lá? Terra tem muita, dono mesmo tem pouco. Quando ele vê que a chuva não vem,
que não vai ter colheita, manda todo empregado embora. E ele tá errado? Tá certo. Errado é ele ser
dono de tanta terra.”)
de religião (“Deus? Eu nunca ouvi falar de coisa boa que ele fez, garantido que foi ele, a não ser muito
antigamente.”)
de coragem (“Estou com muito medo, mas se não tiver outro jeito eu misturo com um pouco de
coragem.”)
da morte (“Tem gente que morre menos e gente que morre mais. Quem morre mais, desaparece;
quem morre menos, fica exemplo.”)

Redação do Correio de Minas Gerais


23h 31m
-- Como é, meu filho? Já estou indo.
-- Espera, Haroldo, estamos fechando. Só falta a chamada dos nordestinos.
-- O Estado passou a matéria para nós?
-- Passou. Também, com aquele choro.
-- Notícia do Samuel?
-- Nenhuma. Muito estranho, isso.
-- Será que aconteceu alguma coisa mesmo? Vai ver, a desculpa que a gente deu para o Estado
passar a matéria para nós acaba sendo verdade.
Ênio dá três pancadinhas na mesa.

<130>
~:

-- Sabe que estou mesmo ficando preocupado com o garoto? Não, estou mesmo. Eu até já mandei o
Euclides passar lá depois que o jornal rodar. Aí ele telefona para a gente.
-- É, faz isso. E vê se fecha, pô. Não gosto de chegar tarde em festa. Acaba não sobrando mulher.

Dentro de um táxi
0h 03m
tanto de saber o que fazer ah mas não sei jorge se estou certa tentando fazer você ficar menos
egoísta menos voltado para si mesmo gostar um pouco mais dos outros de mim do que de você mesmo
ver se você ainda tem jeito salvação porque eu já estou me cansando e o pessoal só te aceita ainda por
minha causa não sei até quando quanto vou aguentar já ando cansada de

(Anotação do escritor:
Um desperdício deixar passar este momento sem tentar captar o sentido dele, ao menos um esboço
que mostre a alguém: era assim, naquele tempo. Era assim que as pessoas se destruíam, que as
consciências aceitavam, que os homens se diluíam entre o medo e o dever, que os escritores
procuravam esquecer ou não conseguiriam escrever nada.)
Sim, eu creio que é isso é que é uma luz e que estou certo. Algumas das minhas histórias podem
esperar uma década para serem escritas.

Praça da Estação
1h 12m
Samuel desiste de procurar ajuda. Pensa no jornal, na reportagem, como obrigações de outra
pessoa. Havia a festa, o pessoal que deveria conhecer naquela noite -- mas não se move,
comprometido com alguma coisa que teria de fazer por aquela gente. Pensa em Carlos Bicalho
dependendo daquele homem com a mulher belíssima, pensa na mulher grávida, em Andrea...
preocupações de outra pessoa.
Os soldados, cansados da tensão, largaram-se as mãos e

<131>
~:

permanecem de pé, conversando relaxados entre si, fazendo intervalo.


Os retirantes, também cansados, acomodam-se, fumam; as crianças dormem, os estômagos estão
mais calmos.
Na praça agora tranqüila e quase vazia de curiosos, um rapaz de vinte e quatro anos, mais bonito que
feio, mais sensível que esperto, reserva-se ansioso para o seu compromisso, quando o trem encostaria
e ele teria de fazer alguma coisa.

Rua Tupis, 488, 15º andar


21h 18m
é ele é ele! A campainha. lúcio! Deve ser Lúcio, deve ser ele. antônio deixe
-- Deixe que eu atendo, Antônio. é ele chegou chegou Estará com raiva de mim? não lógico que não
Claro que não, senão não viria, oh! Marcelo.
-- Olá Roberto.
-- Opa! Olá. Como vai. Entre, entre, e lúcio? aquele lúcio?
-- Antes de mais nada, um abraço.
-- Obrigado, muito obrigado. bonitinha cafoninha E essa, é sua namorada?
-- É. Aquela que eu te falei, lembra? Te telefonei hoje a tarde. Aurélia, esse é o Roberto.
-- Muito prazer.
cafoninha mesmo -- Encantado, Aurélia. Roberto Miranda. Entrem, entrem. Sabe de uma coisa,
Marcelo?
-- O quê?
-- Vocês foram os primeiros a chegar.
-- É muito cedo?
-- Não. A festa vai começar.

<133>
~:

Depois da festa

índice remissivo das personagens, por ordem de entrada ou de referência, com informações (*) sobre
o destino das que estavam vivas durante os acontecimentos da noite de 30 de março.

(*)
necessárias?
surpreendentes?
valiosas?
complementares?
desnecessárias?
inúteis?

<135>
~:

Nordestino,
moreno, Marcionílio
de Mattos.
Página 15.
Marcionílio esteve preso durante sessenta e oito dias. Pessoas que estavam presas com ele contam
que foi na noite do dia 5 para 6 de junho que Marcionílio sumiu. Sabe-se, sobre ele, pouca coisa além
do que consta dos seus depoimentos. As declarações de um certo retirante Viriato, identificando
Marcionílio com o Demônio, não foram levadas em consideração pela polícia, apesar de transmitirem
um fabuloso esboço do preso.
Marcionílio contou várias vezes a sua história aos interrogadores até o quadragésimo segundo dia de
prisão; a imprensa acompanhou suas peripécias com enviados especiais ao nordeste; durante os
primeiros vinte dias, tornou-se herói dos visionários, bandido das pessoas respeitáveis, assunto de
primeira página. Após quarenta e dois dias de depoimentos, foi acusado oficialmente como principal
responsável pelo motim e ficou no DOPS aguardando o fim do inquérito. Não se preocuparam mais com
ele até a noite do sexagésimo oitavo dia, quando o acordaram para novos interrogatórios.
Outros presos, também interrogados durante essa noite e o dia seguinte, declararam que nunca
ouviram Marcionílio fazer a menor referência a um atentado que haveria no nordeste nos primeiros dias
de junho As mesmas pessoas nem sabiam que o presidente da República estaria lá, nessa época, para
ver de perto o problema da seca. E Marcionílio sabia? Ninguém ouviu falar disso.

<136>
~:

Samuel
Aparecido
Fereszin,
o repórter.
Página 16.
Na primeira semana de abril, a polícia já sabia quase tudo a respeito de Samuel Aparecido Fereszin,
vinte e quatro anos, solteiro, jornalista, Rua Hermílio Alves, 333. Sabia principalmente da sua atuação
na Praça da Estação naquela noite de 30 de março.
Havia nebulosas na sua vida particular, coisinhas que seria preciso apurar embora quase nada
acrescentassem ao fato principal: o tumulto do dia 30. Por exemplo: ele conhecia ou não conhecia
intimamente Andrea de Almeida Laje, trinta e sete anos, solteira, jornalista, Avenida Olegário Maciel, 52,
apartamento 26? Afirma-se que não. Como então poderia saber que ela tem uma pinta no lado direito
do clitóris? Alguns cadernos encontrados no seu quarto são bastante descritivos a esse respeito.
Entretanto, seus colegas de jornal e a própria moça afirmaram, após uma rápida sindicância policial,
que Samuel e Andrea mal se conheciam, encontravam-se ocasionalmente na redação e às vezes no
cafezinho da esquina. Parece até que nunca se falaram. Ora, ora, como poderia então saber das
preferências dela pelo fellatio e cunnilingus, como está lá com todas as letras, nos seus cadernos?
Alguns repórteres contaram da grande curiosidade da Redação a respeito de Andrea e nisso Samuel
não era diferente da turma toda. A polícia chegou à conclusão de que seria preciso ouvir Andrea na
delegacia para esclarecer esse detalhe.
Apurou-se: Samuel foi sempre bom filho, estudioso, forte no português. Comprava livros e consta que
os lia. Trabalhava no jornal há uns oito meses e não ia mal, apesar de algumas distrações. Começava a
andar com a turma de intelectuais da cidade. Ultimamente tornara-se amigo de Roberto J. Miranda,
vinte e nove anos, solteiro, artista plástico, Rua Tupis, 488, 15º andar, o pintor que deu a festa, a
suspeita festa do dia 30, e que tinha também qualquer coisa com Andrea, a cronista. Andava
superficialmente interessado em política.
Quanto ao seu papel no tumulto da praça não há dúvidas, as testemunhas foram bem claras. Ataíde
Pimenta,

<137>
~:

vinte e oito anos, pardo, casado, pintor de paredes, Rua Januária, 28-Fundos, ficha limpa, disse que
Samuel chegou à praça mais ou menos às nove e meia. Viu-o fazer algumas entrevistas. Ajudou-o a
levar comida para os flagelados famintos. Os retirantes Marcionílio, Natanael e Hildo Pessoa não
divergiram: foi Samuel quem teve a idéia de botar fogo no trem. Combinou com os retirantes: todo
mundo ia sair em pânico do trem, na hora do fogo; depois, um grupo grande, forte, se organizaria à
esquerda da praça e se dispersaria pela cidade. Insistiu que todos deveriam entrar no trem em paz e
ficar quietinhos, até a hora do fogo.
Foi ele quem buscou a gasolina. Silvestre Brasil de Almeida, empregado do posto Shell, trinta e sete
anos, pardo, casado, Rua Herval, 1057, ficha limpa, contou que aquele rapaz do retrato apareceu sim
no posto, dizendo que acabara a gasolina do seu carro ali perto, se não podia vender um galão.
Silvestre ainda se lembrou: o rapaz estava muito calmo e se queixara do marcador de gasolina,
quebrado. Sabe-se: Samuel deu a volta por trás da estação, jogou gasolina em quatro vagões e botou
fogo.,
E depois lá estava ele, esperando o grupo que deveria conduzir pela cidade, dispersando aos quatro
ou cinco pelas esquinas, conforme o combinado, enquanto a polícia, tomada de susto e preocupada
com o incêndio, salvar o trem, não se reorganizava. O combinado: todos deveriam espalhar-se pela
cidade, procurar favelas, sítios, construções, feiras, sumir.
Samuel conduziu o grupo de umas trezentas pessoas na direção do Viaduto de Santa Teresa quando
surgiram aqueles oito/nove soldados, tiros, luta, e ele ficou caído na Avenida dos Andradas, morto.

Carlos
Bicalho,
o estudante.
Página 21.
Carlos Bicalho, condenado a um ano de prisão (Artigo nº , § , da Lei de Segurança Nacional), está
voltando para casa. Seus planos: estudar, trabalhar, cuidar da vida e da família, recuperar os dois anos
perdidos.

<138>
~:

Seus medos: poderia voltar para a faculdade?, seria possível arranjar emprego com aquela ficha de
ex-preso?, como cuidar da sua vida e de mais duas, mulher e filha, se não resolvesse os dois primeiros
problemas?
Carlos Bicalho, no trem de Juiz de Fora para Belo Horizonte, volta para casa com o medo que
trazem os ex-prisioneiros.

Delegado
Humberto Levita,
da Polícia
Social.
Página 24.
Morreu de rir, literalmente, em 1982. A estranha doença, certamente de origem nervosa, no mínimo
psicológica, manifestou-se pela primeira vez em 1978. Depois de rir durante três anos e seis meses, de
passar pelas maiores clínicas psiquiátricas do país (do sono profundo da sonoterapia emergia um
sorriso que monalisava o rosto), ele morreu sem forças, magro porque ria do macarrão, do arroz, do bife
malpassado, do feijão, do purê, da sopa, principalmente do macarrão, e não conseguia comer nada.
Morreu rindo fragilmente sua gargalhada terrível.

Candinho,
o marido
de Juliana.
Página 33.
Terça-feira, 24/3/71 -- Episódio da Rainha Midas.
Foi uma noite de solidão e tristeza e humilhação. Eu podia prever que seria assim. Ora, velho filho da
puta, pára de se enganar. A velhice é que corrompe. Eu compreendi o olhar dela e podia ter ido
embora. Mas um homem se sente tão só, às vezes. Tão necessitado de beleza, juventude, seios firmes
-- pelo menos para tocar! Aquele estranho jeito de me chamar de paizinho. Tira a roupa, paizinho. E
você? Você primeiro, paizinho. Então vamos tirar juntos. Que bobagem, paizinho. Foi a segunda
bobagem: tirar a roupa na frente daquele sorriso de

<139>
~:

deboche, daquela menina corrompida. Um velho de cinqüenta e dois anos fazendo strip-tease para uma
moça de vinte. Teria sido melhor não hesitar tanto. Que calma, paizinho, parece que nem me liga.
Durante o tempo todo eu tive vontade de provar que ela não era melhor do que eu. Tudo errado. Ela ria
como se fosse minha primeira vez, como se estivesse lidando com (riscado) ria talvez do meu esforço
para disfarçar a barriga. Um velho que não se responsabiliza pela própria barriga pode esperar algum
respeito nesse mundo? Um velho nu. O que faz um velho nu num quarto onde há uma moça vestida?
Outro erro: ter deitado. Que é isso, paizinho, não vai me ajudar a tirar a minha roupinha? Um velho nu
andando num quarto em direção a uma moça vestida rindo. É preciso dizer tudo isso?, anotar tudo
isso? Oh, me sinto tão só. Não, nada disso, não tenho nenhum direito de reclamar, eu escolhi essa
velhice. Agora, tudo menos choro. Vamos, velho filho da puta, conta tudo. Quando a tirei de suas
roupas ela era só beleza. Nossa, paizinho, que tesão, parece um rapaz. Minha excitação fazia cócegas
em sua nudez e ela me puxou pelo sexo: vem pra cama, paizinho. Puxava como se fosse um cabresto,
como se dissesse: olha aqui o que que eu faço com a sua tesão, velho. O efeito foi desastroso para
mim, o humilhado, mas não surpresa para ela: que é isso, paizinho, me quer mais não? Havia riso
misturado na pergunta. Deitados. Meus beijos -- na boca não, paizinho -- só faziam cócegas, por causa
do bigode, e ela ria como uma menina brincando. Tão distante de mim, do homem carinhoso e
respeitável que eu queria ser, tão excitante com aqueles seios. Ela não quis, recusou de novo meu
membro excitado, dirigindo minha cabeça aos seios, oferecendo a barriga, séria agora, oferecendo, os
olhos semicerrando -- eu podia ter adivinhado, desde o princípio, desde aquele primeiro olhar, e agora
ali deitados eu podia ter adivinhado, antes mesmo que ela sussurrasse: beija aí paizinho. Velho serve é
para isso. Com humilhação e desespero escondi minha cabeça entre suas coxas e a esgotei com ódio.
Aceitei depois seu cansaço e minha frustração: agora não, paizinho, estou morta. Nunca mais,
mãezinha.
Sei que não devo voltar lá. Penso todo dia nessa

<140>
~:

humilhação e acho que acabarei por desgastá-la aos poucos, como fiz com minha recusa da velhice,
com meu amor por Juliana. Estranho masoquismo. Voltarei lá porque tocar no ouro da sua juventude
compensa toda humilhação, tristeza e solidão daquela noite.

Deus.
Página 33.
Espírito Perfeitíssimo Criador do Céu e da Terra.

Velha amiga de Juliana.


Página 37.
Esta senhora surpreendeu o marido masturbando-se, espreitando-a tomar banho. Ficou tão lisonjeada
que parou de procurar homens e apaixonou-se de novo por ele. Através da neblina do boxe do
banheiro, adivinhava-o em sua febril ocupação, furtivo caçador. A caça, ansiosa, oferecia o peito ao tiro.

Juliana.
Página 41.
Confidência de Juliana a um rapaz:
-- Eu preciso pensar nisso direito: se eu gostava mais, como era antes. Talvez aquela loucura dele,
aquelas armadilhas para me matar, fossem amor por mim. Porque ... veja bem: agora ele sai às tardes,
catando menininhas com ar de devasso, nem sei como a polícia não vê. Está ficando até alegre. Mas eu
não participo disso, entende? Antes, quando -- quando ele queria matar a gente, era uma ligação. Está
me entendendo? É isso: naquela época eu acho que ele me amava porque queria morrer junto comigo,
não queria que eu fosse uma velha fútil pegando rapazinhos nas lojas de tecidos. Eu estava incluída no
plano dele. Agora não. Agora é cada um na sua, como vocês dizem. Envelhecer é isso, eu acho. Ele
atravessou a menopausa, saiu da crise. E se livrou de mim, entende?, se largou, me entregou a mim
mesma e agora não sei o que vai ser.

<141>
~:

-- Agora vem a sua menopausa, disse o rapaz com um sorriso.

Carlos,
o rapaz
que possui Juliana.
Página 41.
-- A sua única chance de voltar é fazer uma declaração pública renegando o comunismo. O reitor não
pretende impedir você de estudar. Veja bem. O que ele não quer é que você seja um mau exemplo para
os outros alunos.
-- Como é que eu vou renegar uma coisa que eu nunca, fui? Isso seria admitir uma coisa que eu tenho
negado desde o princípio.
-- A sua imagem é essa. A declaração atingiria apenas sua imagem.
-- E o senhor acha que eu teria algum ambiente para estudar nesta escola se fizesse uma declaração
dessas? Acha que os colegas iam me aceitar?
-- Por que não?
-- Ora, o senhor conhece estudante.
-- Bom, está nas suas mãos.
-- Eu não preciso de acordo com o reitor. Eu vou à Justiça. Se não ganhar a reintegração, faço
vestibular e começo no primeiro ano outra vez.
-- Ora, ora, senhor Carlos, perder quatro anos, fora esses dois que o senhor já perdeu?
-- Isso se eu não ganhar na Justiça.
-- Olha, meu filho, eu vou ser franco: não adianta. Um reitor atualmente tem meios... você sabe... a
qualquer momento ele pode agir, no interesse da comunidade universitária.

A empregada
de Juliana.
Página 41.
Lady (pronuncia-se ladi, como o pó-de-arroz de antigamente), a empregada, chamou o pronto-socorro
quando

<142>
~:

viu o doutor Candinho e dona Juliana contorcendo-se e gemendo após o jantar. Que foi que eu fiz,
minha Nossa Senhora! -- repetia desesperada, achando que era alguma coisa que teriam comido no
jantar.
Eles ficaram dois dias em perigo de vida no hospital e a dedicação, lágrimas e desespero de Lady não
impediram que a polícia a considerasse suspeita número 1: tinham encontrado arsênico na farinha de
trigo. Se os patrões morressem, ela entrava, avisou a polícia.
-- Ai meu Deus do céu -- gemia Lady, preta, trinta e oito anos, feia, sem namorado.

Andrea,
a cronista
social.
Página 51.
O escrivão pediu documento de identidade, colocou papel na máquina e escreveu. Andrea, a melhor
parte do processo, estava vestida para a estação: saia bem curta, a mais comprida que tinha em casa,
branca, de preguinhas; blusa de cambraia violeta, com o primeiro botão aberto: camiseta por baixo, sem
sutiã. Cinco homens olhavam para suas pernas.
-- Estado civil?
Os cinco homens olharam para seu rosto. (Por que sorrindo?)
-- Solteira.
-- Há quanto tempo conhecia Samuel Aparecido Fereszin?
Os cinco homens aprovaram a pergunta fazendo caras atentas para ela.
-- Bem, eu ... eu nem sei direito. Uns cinco meses, acho ...
Os cinco homens gostaram da resposta e se olharam. (Aprovando?) O escrivão insistiu:
-- Cinco meses.
Os homens olharam para ela, atentos. (Um pouco tensos?)
-- É... mais ou menos ... cinco meses. Conheço do jornal, só.

<142>
~:

Os cinco homens continuaram olhando-a. (Decepcionados?)


-- A senhorita tinha ou teve relações íntimas com esse rapaz?
Dois homens olharam para o escrivão. (Surpresos?)
-- Como assim?
Os dois homens olharam para ela. (Compreendendo seu espanto?) Eram olhos curiosos,
devassadores. (Me desejam.)
-- Relações sexuais.
Quatro homens sorriram, um dos que estavam sentados esfregou as mãos entre os joelhos. Ela
demorou um pouco a responder, surpresa, e o outro que estava sentado riu baixinho, de boca fechada.
O escrivão repreendeu-o com um olhar.
-- Não. Nunca.
(Por que esse tipo de pergunta?) Os homens aguardavam o próximo lance do escrivão.
(Decepcionados?)
-- A senhorita é comunista?
-- Não.
-- Conhecia as atividades políticas desse rapaz?
-- Não.
(Os homens estavam desinteressados?)
-- Sabe se ele era comunista?
-- Não.
-- Quer dizer que a senhorita não tinha intimidade nenhuma com ele?
Os cinco homens prestaram atenção.
-- Não.
O escrivão olhou para os lados e um homem sentado à direita balançou a cabeça, autorizando
alguma coisa. (Ou incentivando?) O escrivão tirou um caderno de uma gaveta.
-- A senhorita sabe da existência desse documento? Ela fez um gesto de ombros, como quem não
sabe.
O escrivão abriu o caderno numa determinada página e apontou para ela:
-- Leia.
Ela ouviu respirações ofegantes, qual dos homens esfregou as mãos?, um limpou a garganta. Leu:
“principalmente numa situação de perigo. Quando Andrea pegou meu pau e pôs na boca no terraço do
Edifício Acaiaca,

<144>
~:

eu sabia que ia começar. Parou de ler, vermelha, trêmula.


-- Continue.
Ela olhou para os homens, procurando apoio. Encontrou caras de pessoas assistindo a um filme.
-- Não, eu não.
-- Por favor.
(Eles não podem me obrigar. Por que não vim com um advogado?)
-- Não. Ler isso para quê?
Os homens olhavam intensamente para ela. (Para o caderno? Para as pernas?) Ajeitou-se na cadeira,
tentando puxar a saia para baixo. O escrivão estendeu a mão.
-- Eu posso ler para a senhorita. É preciso ficar claro se a senhora, senhorita, conhece o documento
ou não.
(Debochado?) Ela fez depressa um gesto de recuar a mão.
-- Não. Eu leio.
Os homens pareciam satisfeitos com a decisão do escrivão e com o susto dela. Pareciam não se
importar que ela lesse sozinha. (Todos já leram?) Fingiu ler, cobriu o decote com a mão esquerda,
vislumbrava os vultos olhando-a. Passavam palavras do caderno pelos seus olhos, palavras que ela
recusava: pequenos sei... cidade lá embai... alguém pod... ansiosa, respiração como um ataque de
asma, e a coisa” -- um dos homens que estavam em pé veio sentar-se no canto da mesa, para
acompanhar a leitura com ela, entortando o pescoço, e ela passou a página -- “língua... tempo... vindo
para mim... cheiro dela ou das flores... psicológico, eu acho... tempo ...” -- passou a página -- “pinguço,
coitada ... não é culp ... Posar nua, pintei-a toda em vez de... a tela... maravilha colorida no meu pau”.
Parou de ler. Ficou olhando o papel, ganhando tempo. O escrivão desconfiou que ela terminara.
-- A senhorita reconhece esta letra?
Olhou para o escrivão. Os cinco homens olhavam seu corpo, respirando um pouco apressados.
-- Não. Nunca a vi.
-- Isso não é a narração das relações dele com a senhorita?

<145>
~:

-- Não.
-- A senhorita conhece a letra dele?
-- Não.
Os homens não pareciam muito interessados no diálogo.
-- Nós temos três cadernos desses.
(Não, pelo amor de Deus.) O homem sentado na mesa entortava o pescoço para ver seu decote.
-- Precisamos esclarecer alguns detalhes para estabelecermos exatamente quais eram as relações do
rapaz com a senhorita.
-- Mas eu não tinha nada com ele!
O homem entortou mais o pescoço. Ela colocou a mão no decote. (Devo?) O homem sentado na
cadeira ao lado do escrivão riu de boca fechada, baixinho. O escrivão sorriu. (Atencioso? Fazendo
charme?)
-- As coisas que esse caderno diz, quando foi que aconteceram?
(Aconteceram?) Os homens se inquietavam.
-- Já disse que não tinha nada com ele. Isso é uma violência, vocês estão querendo me forçar. Eu não
tinha nada com ele, mal conhecia.
Falou alto, protestando. Os homens gostaram da reação dela. (Excitados?) O homem da mesa
sacudia a perna esquerda no ar, o pé direito estava apoiado no chão.
-- Nós temos meios de saber a verdade.
O escrivão falava sem abrir muito a boca, respirando diferente. (Ameaçador?) Os outros se contraíam,
tensos. A perna do homem parou de bater no ar. (Vão me bater!)
-- É a pura verdade. Nunca tive nada com ele.
Perceberam o medo na voz dela. Ninguém fumava.
-- Está bem. Se é assim que a senhorita quer.
O escrivão disse isso mexendo na gaveta. (Procurando um revólver?) Tirou um caderno parecido com
o que estava na mão dela. Ela quis colocar o caderno na mesa, recuou, com medo de esbarrar na
perna do homem que estava sentado nela. O homem tinha chegado os quadris mais para a frente.
(Querendo encostar?) O escrivão procurou uma página, apontou e:
-- Aqui diz que a senhorita tem uma pinta no lado direito do clítoris.
Ela olhou com olhos indignados para todos eles, procurando

<146>
~:

Socorro. O sangue tingiu de vermelho todo seu rosto e pescoço. O caderno tremia na sua mão. Ela
tentou rasgá-lo depressa, com ódio. O homem sentado na mesa avançou as mãos.
-- Não faz isso.
Segurou seus dois pulsos, impedindo-a de mover as mãos e prosseguir rasgando. Segurava a mão
esquerda dela muito perto do sexo dele. (Puxando-a mais para lá?) Ela abriu as mãos, soltou o
caderno, recuou com força a mão esquerda.
-- Larga.
O homem largou na mesma hora. (Quem mandou?) Apanhou o caderno e sentou-se novamente na
mesa.
-- É verdade ou é mentira?
O escrivão falara sorrindo (sensual?) como se fosse uma intimidade entre eles dois. Ela estava
de cabeça baixa e não respondeu.
-- Hem? O negócio da pinta, é verdade ou não?
Ela levantou o rosto e ainda tentou enfrentá-los. Estava chorando.
-- Não interessa! Não interessa!
Gritou. O escrivão, calmo, outra vez falando com a boca meio fechada:
-- Muito bem. Nós vamos fazer um exame pericial. Alguns riram excitados, outros mexeram-se nas
cadeiras, um enfiou a mão esquerda no bolso, o que estava sentado na mesa avançou um pouco mais
os quadris. Ela chorava, apavorada.
-- Não, pelo amor de Deus. É verdade, sim.
Estava entregue, dominada.
-- E como o Samuel podia saber disso, sem examinar?
-- Não sei.
Chorava.
-- Isso é um fato conhecido?
-- Não sei.
Chorava.
-- O lado que ele escreveu está certo? É do lado direito mesmo?
-- É.
Vencida.

<147>
~:

-- Lado direito seu ou de quem entra?


Risadas, farfalhar de roupas.
-- Meu.
-- Essas sacanagens que estão nos cadernos, você fez com ele?
-- Não.
-- Você faz chupetinha? Faz? Está escrito aqui! Faz? Fez?
-- Fiz.
-- E sessenta e nove.
-- É.
-- Gostou?
-- Pelo amor de
-- Gostou!? Gosta?
-- Gosto.
-- E como que ele sabia?
-- Não sei.
-- Fala!
-- Não sei, não sei.
-- As sacanagens do caderno, não aconteceram?
Ela confirmou com a cabeça.
-- Então como
-- Com outras pessoas, foi com outras pessoas.
-- Isso explica. Mas é verdade?
-- É.
-- Olha lá, hem?
-- Verdade.
Chorava. Só via vultos.
-- Você fez aquilo tudo? Sempre faz? Faz?
-- Por favor.
-- Faz, porra?
-- Depende.
Humilhada, entregue, aberta.
-- Do comprimento ou da grossura?
Risos. Ela chorava. Ouviu uma espécie de gemido, perto.
-- Fez com quem? Quem são as pessoas?
-- Um rapaz do jornal.
-- Quem?
-- Há muito tempo.
-- O nome dele.
-- Haroldo.

<148>
~:

-- Quem é esse?
-- Ele agora é o redator-chefe.
Alguém acendeu um cigarro.
-- E o sacana contou para o outro?
-- É, deve ser.
-- Que sacana, hem?
Não havia mais violência na voz do escrivão.
-- Quem mais?
-- Meu noivo. Ex-noivo.
-- E como é que esse Samuel ia saber disso tudo?
-- Não sei.
-- Era amigo dos caras?
-- Ultimamente tinha amizade com o Roberto, meu noivo.
-- O cara da festa de outro dia.
-- É.
-- Mas ele não é veado?
Risinhos. Mais três homens acenderam cigarros, com baforadas fundas. (Cansados?)
-- Não sei. Isso é com ele.
O escrivão começou a escrever à máquina.
-- Eles eram amigos, esse Haroldo e Samuel?
-- Acho que não. Não sei.
-- Como não sabe?
-- Ultimamente não ando mais com ele. Isso é coisa antiga.
O escrivão batia à máquina. Os homens fumavam, amolecidos. O choro dela diminuíra, era só umas
lágrimas e um lenço. Ofereceram-lhe cigarros, gentis. Um logo puxou fósforo. Ela não quis. O escrivão
parou de bater, puxou o papel, leu, entregou a ela.
-- Leia e assine, por favor.
Abaixo do cabeçalho, data, nome, carteira de identidade, etc, estavam escritas apenas umas cinco
linhas, que ela mal leu: “apenas o conhecia superficialmente... não sabe explicar... nada mais
havendo...” Assinou.
-- Obrigado. A senhorita está dispensada. Quer que alguém a leve em casa?
Ela procurava alguma coisa na bolsa. Encontrou: óculos escuros.
-- Não, obrigada. Posso ir?

<149>
~:

-- Lógico, lógico. Acompanhe a moça, Zé.


Ela colocou os óculos. O homem que estava sentado na quina da mesa levantou-se, solícito. O que
estava sentado à direita do escrivão levantou-se, bateu nas costas dele, rindo. Ela passou pelo homem
que chamaram de Zé e parou à porta, fechada. O homem que cumprimentava o escrivão falou:
-- Você foi perfeito, Maranhão. Só errou numa coisa.
Zé abriu a porta.
-- No quê?
Ela passou.
-- Não é clítoris que se diz. É clitóris.
Ela desapareceu.

O pai de
Andrea.
Página 51.
A família achava loucura as coisas que ele fazia: dormir com as empregadas, xingar as visitas, gastar
dinheiro à toa, beber demais, desaparecer muitos dias sem dizer nada e de vez em quando bater na
mulher. Há muitos anos, ainda no Rio, houve aquela história do desfalque. Deve ter sido o começo, o
primeiro sinal da loucura, pensavam.
Em abril, ouviu uma conversa no bar do Alpino: uma tal de Andrea tinha feito as maiores sacanagens
com aquele jornalista que morreu na Praça da Estação. O cara até escreveu um diário, coisas de
arrepiar. Certeza: é ela mesmo, cronista social do Correio. O velho quebrou o bar, aos urros. Levado
para casa, ficou um dia fechado no quarto, jogando coisas em quem botava a cara na porta.
Lugar de doido é no hospício. Arrastado, gritando puta e filhos da puta, ele foi. A mulher passou vários
dias sem sair de casa, com vergonha dos vizinhos. Depois de dois meses de tratamento, o doido estava
calmo, com uns olhos esquisitos. No dia de São Pedro ele saiu do hospício sem ninguém perceber e
nunca mais deu notícias.
Cinco anos depois, em 75, a família ouviu contar que

<150>
~:

um velho estranho morava numa ilha do Araguaia amigado com uma mestiça e um casal. A história saiu
numa revista de caça e pesca e a mulher teve um pressentimento: é ele. Olhos azuis, só pode ser ele.
O psiquiatra adotou uma posição estranha: se ele está feliz, como diz o caçador da revista -- se não é
mentira de caçador -- é melhor ficar por lá. Andrea escreveu do Rio: ora, mamãe, se ele quer ficar, que
fique. A mãe não admitia: isso é falta de religião.
A mãe foi lá, com o cunhado, irmão do doido. Era ele, sim, o doido, depois de nove dias de viagem. O
irmão achou o lugar belíssimo, ótimo para uma fazenda. O velho foi mostrar a cachoeira, nadou nu -- a
mulher muito constrangida, perto do cunhado. A mestiça não se mostrou, da chaminé saia uma
fumacinha. Quando chegou a hora de perguntar o que foi perguntado, o velho disse que não voltava.
Estava bem ali, queria morrer ali. Perguntou pelos meninos, pelas meninas. Assis?: jornalista no Rio,
bem colocado. Ana?: boa, com os meninos dela; tem dois. Andrea?: no Rio, acho que vai casar com o
Murilão, do Fluminense. Quem disse que vai? Me escreveu, falando. Ainda falam dela em Belo
Horizonte? Só na crônica social. Elogiando. O velho disse mais uma vez que era ali que queria morrer,
o irmão achou que estava bem, a velha concordou chorando.
E chorou muitos anos, com saudade dele, aquele doido.

O jovem
pleibói.
Página 54.
O jovem pleibói fazia o que fazem os pleibóis nas manhãs de abril quando telefonaram para dizer que
Andrea fora presa, onde e como. Vestiu-se apressado, a mulher disse como é que eu vou para casa,
ele disse se vire porra, saiu deixando a porta aberta e uma puta xingando na cama, correu para o
DOPS.
-- Aquela, a, como é que chama, a cronista social? Já foi para casa. Foi ontem.
Correu para a casa dela. Ontem? Porra, como é que

<151>
~:

não me avisaram? A mãe e a irmã, aflitas: está lá, foi hoje de manhã, tem duas horas que está lá.
Correu para o DOPS, puto.
-- A cronista? Acabou de sair.
-- Quero falar com o delegado.
-- Dr. Levita não está.
-- Olha aqui. Meu tio é general da ID-4. Vai querer se foder?
Hesitação do policial. Devia ser verdade, o rapaz estava seguro demais.
-- Pode entrar e olhar, pergunte a qualquer um. Quer telefonar para ela? Deve estar chegando em
casa.
Dedo no nariz.
-- Olha, eu vou lá. Se for mentira você vai se foder. Cadê o veado que me atendeu aqui antes?
-- Estou sabendo de nada.
-- Um moreninho de bigode fino. Pode dizer pra ele que vou fazer uma cama pra ele deitar.
Andrea estava em casa, chorando. Abraçou-o agradecida.
-- Fizeram alguma coisa com você? Encostaram a mão?
-- Não. É que -- eu fiquei com tanto medo. Eles são horríveis.
-- Fala. Se fizeram alguma sacanagem eu falo com meu tio.
-- Não, fizeram não. É o ambiente, eles, tudo lá é horrível.
-- Queriam saber o quê?
-- Se eu conhecia o Samuel. Aquele que morreu na praça.
-- Só isso?
-- É. Queriam saber se eu tinha alguma coisa com ele.
-- Tinha?
-- Não, lógico que não.
-- Então, por que apanharam logo você?
-- Acho que ele era apaixonado por mim.

<152>
~:

Haroldo,
o segundo
amante de
Andrea.
Página 57.
Procurado pelo investigador de apelido Bacalhau, o redator-chefe do Correio de Minas Gerais
ofereceu-lhe um uísque, falou de jornal, da trabalheira que dá, do seu repórter Samuel Aparecido
Fereszin e, muito folgaz, explicou que contava ao rapaz seus encontros com Andrea porque
-- Eu sou daqueles que gozam duas vezes: quando comem e quando contam.
Riram, riram. Bacalhau completou:
-- E o outro era dos que gozam quando ouvem.
Riram, riram.

O pintor
jovem.
Roberto J. Miranda.
Página 59.
No dia seguinte à festa, Roberto acordou às quatro e meia da tarde e encontrou a casa
maravilhosamente em ordem. Reparando bem: quase em ordem. Melhor: ai meu Deus! E afinal: uma
dolorosa tragédia. O veludo roxo do sofá, manchado de gordura, um círculo enorme. Na poltrona, furo
de cigarro. Furos de cigarro no carpete. Decapitada a Maria Antonieta de porcelana, século dezenove.
Pâté nos discos.
Procurou aflito um livro na estante, apanhou um, abriu-o e sentiu-se um pouco menos infeliz.
Tirou um dos pacotinhos que estavam no esconderijo do livro. Apanhou uma espátula e uma folha
branca. Derramou parte do pó do pacotinho na folha branca. Amassou-o com a espátula
cuidadosamente. Fez um rastilho de pó, bem fininho. Dobrou uma parte da folha e cortou-a com a
espátula. Cortou o pedaço de folha branca ao meio. Enrolou uma das metades do papel, fazendo um
canudinho fino. Enfiou o canudinho na narina esquerda, aproximou-o do rastilho de pó e aspirou com
força.

<153>
~:

Uma lésbica.
Página 60.
Depois daquele beijo na festa, Cora Adélia perseguiu Andrea pelos bares, pelos jornais, telefonava,
mandava flores. Tentou comprar na polícia uma cópia do famoso diário do terrorista, em que ele
contava as coisas que fazia com Andrea. Um investigador quase bateu nela, empurrou bastante. Um dia
ele mesmo veio procurá-la e vendeu uma cópia xerox por quinhentos cruzeiros. Cora Adélia deixou
crescer os bigodes em 1972.

A mãe,
Lenice.
Página 65.
Lenice disse ao coronel Bolivar, da Polícia Militar, pequeno herói de 64, que era um absurdo o que o
DOPS estava fazendo, tentando envolver seu filho naquela confusão da Praça da Estação. O coronel,
seu amante desde 1948, cauteloso e protetor:
-- O pessoal do DOPS está passando um momento difícil, Lenice. Se o Robertinho conhecia esse
Samuel e se esse rapaz iria à casa dele, a polícia tem de investigar, minha filha. É lógico que não vão
fazer nada com ele, porque eu já garanti ao Levita que o envolvimento de Robertinho é circunstancial,
que ele apenas conhece umas pessoas. Mas o pessoal do Levita tem de investigar a infiltração
comunista nessa festa. Tem gente lá de cima achando até que as ordens para o levante saíram da festa
do Robertinho, que as instruções partiram de lá, pelo telefone. Veja só as coincidências e se não é caso
de uma investigação minuciosa. Veja: o estudante Carlos, líder da primeira parte da revolta dos
retirantes, era um dos convidados. Um grupo de intelectuais de esquerda esteve na praça antes da
revolta, conversou com Samuel e com o retirante Marcionílio e depois foi para a festa. Isso é
comprovado, absolutamente verdadeiro. Duas horas depois, o tal Samuel pôs fogo no trem, começou o
tumulto. Os intelectuais podem ser um contato, não podem? O assistente do secretário do Trabalho, o
Otávio Ernâni, apesar de ser do governo, quer dizer: era, porque já foi exonerado, era do governo e é
meio esquerdinha.

<154>
~:

Estava lá, na festa. Assunto de retirante era da pasta dele. Não dá pra desconfiar, uai? E tem mais: foi
ele quem arranjou o emprego para esse estudante Carlos. Nas anotações do tal Samuel, estava o
telefone do Ernâni e da festa. Vai vendo só quanta coincidência. Essa moça, Andrea, cronista sua
amiga ai. Anda com os intelectuais que estiveram lá na praça e parece que foi descoberto um diário do
tal Samuel contando coisas, minha filha, coisas do arco-da-velha entre eles dois. Ela também estava lá,
na festa. Está vendo, quanta coincidência? É isso que é preciso investigar. Eu sei que o Robertinho não
tem nada com isso, expliquei como ele é. O Levita está sabendo, fique tranqüila.

Filho,
Roberto J.
Miranda.
Página 65.
Depois de cheirar o rastilho de pó branco, no dia seguinte à festa do seu vigésimo nono aniversário,
Roberto conferiu a ordem do banheiro, da cozinha, do quarto grego e oh surpresa! um casal estava
fazendo sessenta e nove no quarto azul. Eram quase cinco horas da tarde.

Deus.
Página 74.
Não é o mesmo deus da página 33. É outro, terrível, que apavora as crianças e que Roberto matou
aos doze treze anos.

Jorge Paulo
de Fernandes.
Página 77.
As coisas que Jorge contou à polícia:
a) havia tóxicos na casa, maconha e cocaína;
b) Roberto J. Miranda era viciado em cocaína;
c) a turma do suplemento esteve na Praça da Estação antes da festa;

<155>
~:

d) dessa turma, Luis, o aleijado, era viciado em maconha e batia no pai;


e) Jacob, Rodolfo e Fúlvio eram comunistas ou pelo menos simpatizantes;
f) Yan tinha correspondência com alguém na China, parece que um poeta que veio a Belo Horizonte
com o Grupo Acrobático da China;
g) Cláudia, socióloga e feminista, tinha trabalhado um dia inteiro como puta para ver como era;
h) Flávio andava dizendo que a revolução matou a cultura no Brasil, que tanto fazia morar aqui como
no Burundi, na África;
i) Andrea estava apaixonada por Roberto Miranda e não por Samuel Aparecido Fereszin, como
diziam;
j) Samuel era um dos convidados para a festa;
l) Otávio Ernâni foi chamado ao telefone duas ou três vezes, durante a festa, a respeito dos
nordestinos e da prisão de Carlos Bicalho, o estudante;
m) ele, Jorge, fora procurado por alguém para atuar como advogado na prisão de Carlos Bicalho;
alguém, uma voz ao telefone;
n) no quarto grego, uma bicha fez strip-tease;
o) conhecia Carlos Bicalho superficialmente, ele era amigo dos escritores do suplemento, mas podia
garantir que tinha tendências comunistas;
p) os escritores e outros intelectuais do suplemento souberam da prisão de Carlos Bicalho durante a
festa e não na Praça da Estação, por intermédio de Samuel;
q) a reação deles na festa era de medo do que poderia acontecer com eles agora;
r) Otávio Ernâni bebia muito;
s) Roberto Miranda tinha dois namorados na festa: Andrea e um rapaz chamado Lúcio não-sei-de-
quê;
t) a festa estava animadíssima;
u) para falar a verdade, ninguém na festa parecia muito preocupado com o que estava acontecendo
na Praça da Estação, a menos que falassem escondidos;
v) quem quisesse beijar Andrea na boca, beijava;
x) Samuel era muito pouco conhecido da turma, mais amigo de Roberto Miranda, talvez por causa de
Andrea ou talvez porque este quisesse pegar Samuel;
z) o uísque era nacional.

<156>
~:

Maria,
Empregada
de Jorge.
Página 77.
Maria trabalhou para Jorge até o dia em que começou a ver Nossa Senhora. Nesse dia, não anotado
mas certamente de 1971, a Mãe de Deus chamou-a para um particular, confidenciou um terrível
segredo sobre o fim do mundo e encarregou-a de salvar quantas almas pudesse, até a data do
Inevitável. Maria parou de trabalhar, conseguiu reunir um grupo de beatas -- inclusive a mãe de Mônica
-- e partiu em Cruzada. (Mônica às vezes recebia do interior recados sobre as maravilhas, como esse:
“Olhe para o sol hoje ao meio-dia; no sol, aparecerá um Sinal”. Mônica, indignada, recusava a Graça.)

Filinto
Müller.
Página 79.
O cadáver podre de Antônio Conselheiro ainda assustava a jovem República quando nasceu o filho
do senhor Júlio Müller, no primeiro ano do século; a viagem a Paris se fazia em dez horas de jato
quando ele morreu, no septuagésimo terceiro ano.
Filinto Müller viu tudo nesses setenta e três anos.
De que deus ouvia falar esse menino nascido em Cuiabá, Mato Grosso? (Muitos anos mais tarde ele
se diria agnóstico e revelaria que apreciara mais a obra de São Paulo do que a vida de Cristo.)
Que brincadeiras brincava, além de faiscar cristais nas ruas e vender ao pai como ouro? (Ouro! -- a
República ainda estava encantada com as maravilhas do Império; havia, nas famílias, casos de avós
ricos da noite para o dia.)
Que histórias aprendia na aula de história, tudo tão por vir?
O que aprendia esse menino quando os camponeses de Santa Catarina e Paraná fizeram a guerra do
Contestado contra os proprietários de terras, contra os imigrantes (primos seus, quem sabe!) e contra o
governo, durante quatro anos, de 12 a 16?

<157>
~:

E em 14, o que fazia, o que aprendia, que mistérios o tocavam quando o mundo começou sua
primeira guerra e em Juazeiro, Ceará, o padre Cícero e o deputado Flora Bartolomeu faziam também a
sua grande guerra de jagunços, capangas e cangaceiros contra o governo estadual, incentivados pelo
próprio governo federal?
Quem eram seus heróis, que faroestes. galopavam com esse menino, esse rapaz, que se preparava
para a Escola Militar do Realengo enquanto Virgulino Ferreira da Silva trocava Vila Bela, hoje Serra
Talhada, pela caatinga, em 1917?
Que napoleões o formaram tenente, em 22?
O segundo-tenente Müller estava no quartel da Vila Militar quando o Tenente Eduardo Gomes tornou-
se herói nacional no Forte de Copacabana, em 22, e um bando de artistas loucos iniciou uma revolução
nas artes no Teatro Municipal de São Paulo. Ele era um dos tenentes que pressionavam Artur
Bernardes, o novo presidente, o difamado por documentos apócrifos contra os militares, o oligarca, o
mão de ferro.
Ele estava lá e viu tudo, em 24, quando os paulistas (re)iniciaram a revolução: saiu de Quitaúna com
seu batalhão de artilheiros, juntou-se à revolução, viveu a derrota de Catanduvas, irmanou-se com os
paulistas à Coluna do Capitão Luis Carlos Prestes, que subia do sul com a idéia de uma revolução em
movimento, e foram companheiros até o breve refúgio da Coluna no Paraguai -- ele estava lá, lutou, viu
os homens lutando, conheceu seu futuro inimigo, Prestes, aquele bandido, que ainda não via como
bandido, ainda um militar revolucionário como ele, o Primeiro-Tenente Müller. Por que Müller não voltou
ao Brasil com a Coluna, guerreando, e preferiu ser exilado, chofer de táxi, quebra-galho, oh que
saudades que eu tenho?
Voltou dois anos depois, já sem Bernardes, o mão de ferro, sem Coluna, sem farda, no governo
Washington Luís; preso, defendeu-se solitariamente e a Justiça aprovou sua revolução com a liberdade.
Foi trabalhar na Mesbla até a próxima revolução, a de 30, a dos lenços vermelhos no pescoço, o nó em
que se enforcaria a Aliança Liberal.
Esta sim, foi uma boa revolução para o reintegrado

<158>
~:

Capitão Müller, secretário do interventor em São Paulo em 32, diretor da Guarda Civil no Rio em 32,
delegado de Ordem Política e Social em 33,chefe de Polícia em 37. Durante dez anos ele foi o cérebro
do inferno de Getúlio. Ele viu, nas prisões, os homens sem testículos e as mulheres rasgadas. Viu o
terror na cara dos homens que eram apanhados em suas casas para interrogatório, o terror dos
comunistas, dos integralistas, dos liberais e dos que simplesmente não concordavam. Ele viu verdades
históricas serem inoculadas em corrente de 110 volts. Que cenas teria na memória ao lembrar-se,
entrevistado pela revista Veja, em 72?: Foram 10 anos de trabalho intenso e de dedicação ilimitada”.
(Ah, Filinto, Filinto, melhor fora que houvesse limites.) O velho senador de setenta e dois anos tem um
certo orgulho da sua carreira, e mesmo aqueles anos, olha, aqueles anos... “Houve casos de torturas.
Que posso fazer? Dizer que cumpria ordens superiores? Não. Isso é deslealdade. Dizer que foram
arbitrariedades? Também não. Seria covardia. Eu fico com a responsabilidade, não a atiro para cima
nem para baixo.”
Em 45, quando derrubaram Getúlio Vargas, pai dos trabalhadores, ditador, o coronel Müller já estava
no Mato Grosso em campanha eleitoral, águia, iniciando sua carreira mais duradoura, a de senador.
Nos seus vinte e seis anos de Senado, foi líder da maioria (PSD) em 56 e, depois de apoiar a derrubada
do presidente João Goulart em 64 como “medida de salvação nacional ‘, tornou-se líder de outra maioria
em 68; foi presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (chora, musa), presidente
da Aliança Renovadora Nacional, presidente do Congresso (oh Lord!). Falou pouco nesses vinte e seis
anos, raposa discreta. Mas falou em 72, autocrítico: “O mal das ditaduras é que não são capazes de
limitar-se no tempo. E mais: em torno delas forma-se uma legião imensa de pessoas interessadas em
sua manutenção, dispostas a conservar o status quo, a todo preço. E essas forças interessadas via de
regra isolam o chefe do governo, mantendo-o fora do alcance da realidade do meio ambiente. E a
ditadura, que geralmente é implantada com a melhor das intenções e que produz resultados materiais
benéficos num período relativamente curto de sua atuação,

<159>
~:

logo se descaracteriza e passa a cuidar, quase exclusiva-mente, da sua permanência”.


Ah, o velho senador estava presente, viu as revoltas populares, viu os retirantes, viu Lampião, viu a
revolução das artes, viu a crise do café, viu as duas guerras, viu as revoluções e os golpes de 22, 24,
30, 32, 35, 38, 45, 55 e 64 -- foi o revoltoso, o exilado, o policial, o inquisidor, o simpatizante de Hitler, o
general reformado, o senador, o bom marido e pai, viu o choro e o riso do Brasil, até que morreu
silencioso, envenenado por um gás letal, na classe turista de um Boeing 707 da Varig, no dia do seu
septuagésimo terceiro aniversário.

Verinha
Nabuco,
a filantrôpega.
Página 79.
Ninguém se apiade de Verinha Nabuco: ela merece esse sofrimento, essa angústia, essa
felicidade, no dia 2 de abril de 1970. O seu vestido Rudi Gernreich estará perfeito, absolutamente
perfeito? A renda da festa em beneficio da Casa da Mãe Solteira será razoável ou maravilhosamente
fabulosa? Os artistas convidados a vinte e cinco por cento da renda das mães solteiras ficarão ligados,
absolutamente ligados? O governador da Guanabara irá mesmo, como prometeu? O serviço será
perfeito, nãofaltanadamente perfeito? O, meu Deus, verificar se aquele alucinado garçom do ano
passado não está entre os garçons contratados. A sua filha, a sua linda filhinha estará mesmo viciada
em drogas? Irá à festa, como prometeu? As mães solteiras precisam demais, não têm ajuda da família,
é comum matarem os filhos, tanta desgraça, santo Deus! É preciso fazer alguma coisa para ajudar os
pobres do Rio, os velhinhos, as velhinhas, os artistas, os favelados, os tuberculosos pobres, as mães
solteiras, o menor desamparado -- tanta miséria, santo Deus! Verinha Nabuco sofre anualmente com a
pobreza brasileira. Ninguém se apiade dela no seu grande dia de martírio. É também o seu dia de
glória.

<160>
~:

Rodolfo,
que não
suporta Jorge.
Página 80.
Ameaçaram quebrar a corcunda de Rodolfo se ele não revelasse quem dava as ordens, da casa de
Roberto J. Miranda, para as operações subversivas da Praça da Estação. Quem comandava a
operação? -- davam socos na corcunda. Quem comia quem? -- socos na corcunda. Ele foi interrogado
três vezes no prazo de dezesseis dias e solto sem explicação.

Mônica.
Página 80.
Mônica foi assassinada com dois tiros de revólver nas costas, pelo marido, Jorge Paulo de Fernandes,
no dia 28 de fevereiro de 1971, quase sete meses após o casamento. A vizinha do apartamento ouviu
gritos, nitidamente as palavras corno e dedo-duro, três tiros -- e chamou a polícia. Jorge foi preso em
flagrante, saindo da garagem.

Ruiter.
Página 82.
Doutor Ruiter, o advogado de defesa de Jorge, saiu na primeira página dos jornais quando anunciou
que o crime tinha relação com os acontecimentos da Praça da Estação, de quase um ano atrás. Uma
“trama diabólica” que ele só desenrolaria no dia do julgamento.

Carlos,
o estudante.
Página 85.
Carlos Bicalho começou a vender livros. Era seguido pelo investigador apelidado Pé-de-Mesa desde
que saia de casa -- não mais um apartamento no Carmo dos remediados, agora um barracão na
Cachoeirinha dos modestíssimos. Levava uma pasta estourando best-sellers

<161>
~:

de todos os tempos e gêneros, que comprava mais barato nas editoras para vender pelo preço das
livrarias.
Enquanto aguardava decisão judicial para reingressar na faculdade -- seu caso, de recurso em
recurso, chegara ao Superior Tribunal Federal -- tentara muitos empregos, provara algumas esperanças
e foi reconhecendo aos poucos seu lugar, até começar a carregar aquela pasta pelas repartições,
escritórios, redações de jornais. Seus pedidos de emprego, se~is concursos, esbarravam na ficha do
DOPS e as empresas o recusavam, temerosas de que ele corrompesse seus filhos queridos.
Trabalhava das nove da manhã às dez da noite. Depois de dois meses de pasta, andava meio de
lado, mesmo quando não a carregava. A mulher também começou a trabalhar. Sem preparo, o melhor
que conseguiu foi ser telefonista noturna. Quando Carlos chegava Ana saia, e revezavam-se nos
cuidados de Neusinha, a filha. De vez em quando copulavam cansados, sem muito carinho. Logo eles,
que tinham casado porque queriam foder muito.

Deus.
Página 86.
O Espírito Santo.

Ataíde.
Página 89.
Quando soltaram Ataíde, um mês e dez dias após os acontecimentos da Praça da Estação, ele ficou
sete horas e meia sem coragem de voltar para casa. Andava, parava numa esquina, hesitava, sentava
num banco -- sofria discretamente, parecia um homem tomando sol. Tinha quatro medos: a) saber das
desgraças que certamente teriam acontecido a Cremilda; b) a mão esmagada, inútil para o trabalho; c)
o seu futuro, com aquela mão, ao lado de Cremilda belíssima; d) o ódio.
A fome levou-o para casa. Ela ficou pálida e logo depois muito vermelha quando o viu e gritou “Tide!”
e o abraçou muito tempo, chorando. Durante o abraço ele soube como ia ser: ouvia a voz e não
conseguia deixar

<162>
~:

de ver a cara do Punzinho dizendo: Estivemos lá na sua casa, nós dois. Ele botou na frente e eu atrás.
Ela cozinhou para ele chorando, cuidou da mão quebrada, chorando e abraçando, perguntando e
ouvindo depois eu conto, depois, agora não, levou-o, penteou-o, fez sua barba, escovou seus dentes,
beijou, vestiu-o, deitou-o, esperou que ele relaxasse.aquele sofrimento, que ele dormisse (ouvia vozes:
Não fala não? Quer que a gente volta lá para comer sua mulher? Quer que a gente traz ela aqui para
comer aqui na sua frente?), que o sono dele se tornasse mais tranqüilo, e dormiu também, cansada de
emoção.

Cremilda
de Tal.
Página 89.
No fim da primeira semana de desaparecimento de Ataíde, chegaram dois homens querendo saber
coisas estranhas sobre ele: onde estavam as armas, os livros, quem eram os amigos deles, o que ela
fazia, se saía muito, com quem saíam. O espanto dela e as respostas sem hesitação convenceram os
homens de que ela não sabia de nada. Não quiseram dizer, de maneira nenhuma, onde ele estava.
Voltaram dois dias depois, perguntando as mesmas coisas, que ela não sabia. Mesmo assim eles a
sacudiram um pouco e chamaram de puta sem-vergonha.
Sumiram três dias. Apareceram juntos novamente, disseram que a tinham seguido para ver se falava
a verdade. Que parasse de procurar o homem, senão seria pior para ele. E para você também, disse
um deles, que estava meio de lado e quando se virou de frente estava com o pau para fora, meio mole.
Eles riram muito da brincadeira, do susto dela, e saíram.
Voltaram no dia seguinte. Ela não estava. Esperaram, foram até a casa do pai dela, obrigaram-na a
acompanhá-los para interrogatórios, disseram que se fizesse aquilo outra vez o Ataíde ia pagar, que
não saísse mais de casa sem a ordem deles. Aquele mesmo do dia anterior tirou o pau duro para fora e
disse: pega aqui. Ela não quis, eles bateram nela de leve, palmadas na bunda e tapinhas no

<163>
~:

rosto, durante uns cinco minutos, tapando-lhe a boca, e foram embora apressados dizendo que estava
na hora.
Voltaram no dia seguinte muito satisfeitos com a obediência dela. Disseram: se você for boazinha
conosco, hoje não batemos nele. Podamos fazer um trato. Só sacaneamos ele no dia que você nos
sacanear. Quer experimentar assim? Não deixamos ninguém tocar nele lá dentro. Mas você tem de dar
para nós dois, cada dia um. Tem uma coisa: se a gente não fizer acordo, não sei não, ele vai acabar
capado. Ela deu.
Quando eles voltaram no dia seguinte, ela não quis dar. Chorou, pediu, disse que queria ver Ataíde,
ao menos isso, quem garantia que ele estava lá, vivo. Bateram nela de leve, tapando-lhe a boca.
Disseram que comer à força não tinha graça, mas voltariam e ela não ia gostar. E não pensasse em
fugir.
Os seqüestradores voltaram com um gravador. Ataíde gritava. Eles falavam para Ataíde que tinham
estado com ela, comido na frente e atrás. Silêncio e depois gritos, sons mecânicos, gritos. Ela cedeu.
Cedeu todos os dias, sem falar nada. Quando iam embora, pedia que soltassem Ataíde, pelo amor de
Deus. Eles diziam que ele estava ótimo e que ia ser solto qualquer dia, dependia dela. Queriam novas
variações, ela obedecia. Vieram umas quinze vezes, depois faltaram um dia, dois dias, ela angustiada e
quase louca por Ataíde, querendo mesmo que eles viessem e lhe metessem por todos os lados, mas
que Ataíde não sofresse, estava assim na angústia do terceiro dia quando bateram na porta e ela foi
atender e era Ataíde.

Senhora mãe
de um rapaz,
Página 95.
Dona Celma -- Você me assusta, Ana. Aconteceu alguma coisa com Carlinhos?
Ana -- Não, nada disso. Eu nem tenho notícias dele.
Dona Celma -- Isso não quer dizer nada. Ele nunca foi de escrever mesmo. Lembra aquele tempo que
ele

<164>
~:

estava em Juiz de Fora? Só me escreveu duas cartas num ano. Para você também.
Ana -- Não. Pra mim ele escreveu oito cartas. E por que a senhora diz Juiz de Fora em vez de preso --
ah, deixa.
Dona Celma -- Está nervosa, Ana. Que que você tem?
Ana -- Dona Celma, a senhora sabe que eu sempre curti o Carlos, sempre gostei dele.
Dona Celma -- Sei minha filha, decerto.
Ana -- Deixa eu falar. Nesse tempo todo, com esses problemas todos, nunca descuidei da Neusinha,
fiquei quieta em casa, nunca tive problema na Telefônica nem nada. O Carlos dava pouca notícia, mas
dava.
Dona Celma -- A vida não é fácil para ele.
Ana -- Eu sei. Deixa eu falar primeiro, dona Celma. Espera um pouco. Até um ano atrás, eu sabia que
ele estava tentando arrumar uma coisa pra nós, um emprego, porque aí eu e a Neusinha podíamos ir
pra São Paulo também. Ele mandava um dinheiro, pouco, mas mandava. Esse dinheiro também tem
mais de um ano que não comparece. Lá em casa, papai não tem condições de dar muito conforto, a
senhora sabe não é, dona Celma?
Dona Celma -- Sei, minha filha, mas com a ajuda de Deus.
Ana -- Deus não tem ajudado muito lá em casa não, dona Celma.
Dona Celma -- Que é isso, minha filha, não fala uma coisa dessas.
Ana -- É isso mesmo, dona Celma. É isso mesmo. Se papai não tem, muito menos eu, com aquela
micharia da Telefônica. Quer dizer, é uma situação muito difícil.
Dona Celma -- Você sabe também como que eu vivo, minha filha, mas se precisar, eu dobro na
datilografia, ajudo um pouco.
Ana -- Não é só problema de dinheiro não. Estou só contando pra senhora como é que são as coisas.
Dona Celma -- Sei, sei. Mas se precisar.
Ana -- Primeiro deixa eu acabar de falar o que que eu vim falar. É o seguinte: o Carlos me abandonou
mais a Neusinha.
Dona Celma -- Não é isso, minha filha.

<165>
~:

Ana -- Não, é isso sim. Há mais de um ano que eu não tenho nem uma notícia, nem um tostão. Se
tivesse sido preso de novo, podia escrever. Se estivesse solto, trabalhando, podia escrever também e
mandar alguma coisa para a Neusinha. E se não faz é porque não quer mais saber da gente. Ou então
morreu.
Dona Celma -- Deus me livre! Não fala, Ana, Deus me livre de uma coisa dessas. Nossa Senhora.
Ana -- Mas o que é que eu posso pensar, me diz dona Celma. Eu vou pensar o quê?
Dona Celma -- Naturalmente aconteceu alguma coisa com ele.
Ana -- Deve ter acontecido mesmo, e não tem nada que ver com a gente. E eu, pra falar a verdade,
dona Celma, eu cansei. Já chorei muito, já sofri demais com essa história de Carlinhos, mas agora
chega.
Dona Celma -- O que é isso, Ana, pensa um pouco mais. Procure primeiro saber o que aconteceu
com ele.
Ana -- A última carta quem escreveu fui eu. Isso já faz mais de um ano. A senhora acha que eu sou
boba? Das duas uma: morreu ou arranjou outra mulher. De qualquer jeito, a senhora vai me desculpar
mas, de qualquer jeito, pra mim morreu.
Dona Celma -- Não fala isso, menina.
Ana -- Morreu! Morreu, dona Celma. Não quero mais saber e é isso que tem mais de seis meses que
eu estou querendo falar com a senhora.
Dona Celma -- Minha filha, pense com calma. Você não pode fazer isso com Carlinhos.
Ana -- E ele pode fazer comigo? Pode? Mãe desculpa tudo, a nora nunca tem razão. Eu sou moça,
tenho vinte e seis anos, dona Celma. Neusinha vai fazer sete anos e tem dois anos que não vê o pai.
Isso é direito? Me fala se a senhora acha isso direito.
Dona Celma -- Ninguém pode julgar sem saber ao certo o que aconteceu.
Ana -- Ahn, o que aconteceu. Mas a senhora não vê que tá na cara?
Dona Celma -- O papel da esposa é esperar. A mulher de Ulisses esperou dez anos.
Ana -- Não interessa o caso dela. Dez anos? Eu conheço ela?

<166>
~:

Dona Celma -- Ulisses, da guerra de Tróia.


Ana -- Bom, não interessa. Eu já resolvi: vou desquitar.
Dona Celma -- Que loucura, Ana. Só a morte pode separar marido e mulher.
Ana -- Que morte nada, dona Celma. Eu preciso viver minha vida.
Dona Celma -- A pior desgraça numa família é o desquite. Mulher sem marido, filhos sem pai.
Ana -- É como eu estou agora.
Dona Celma -- É diferente, minha filha. Casada, todo mundo respeita. Mulher desquitada pode não
fazer nada que todo mundo fala. Pensa na Neusinha.
Ana -- Tem seis meses que eu estou pensando. Eu vim aqui só falar com a senhora, para a senhora
não saber pelos outros. Eu quero casar de novo, dona Celma.
Dona Celma -- Casar! Você já é casada. Casada com meu filho! A mulher tem de zelar pelo nome do
marido, tem de respeitar a ausência do marido. Não sei o que deu em vocês de hoje, que nada vale
mais nada. Casamento é só para dormir com o namorado, depois acabou. E os filhos é que sofrem, eles
é que pagam pela cabeça de vocês. Eu bem que não queria que o Carlinhos casasse moço daquele
jeito, sem formar, sem ter experiência da vida. Ai, meu Deus, eu bem que não queria e ele não
entendeu nada, ficou falando que eu não gostava da namorada dele, que era um absurdo uma coisa
daquelas, que a gente também era pobre. Vê se eu ia importar porque seu Antônio era sapateiro, vê se
era por isso que eu não queria. Eu sou lá seu Nonato, que.não quis namoro dele com Cristina só porque
a gente era pobre? Eu não queria é isso que está acontecendo, Carlinhos sumido por aí, com
problemas, e a mulher procurando outro homem. Eu sabia que aquele namoro de vocês era só isso, só
sexo.
Ana -- Dona Celma, não é nada disso. Veja a minha situação.
Dona Celma -- Vai ver até já arranjou o noivo, não é?
Ana -- É isso mesmo: arranjei. Arranjei e vou casar de novo e vim aqui só para avisar e até logo.

<167>
~:

Delegado de
Polícia Social.
Página 101.
É o mesmo da página 140.

Flávio Le Coq.
Página 108.
É absolutamente impossível rastrear, após a fuga do inquérito e do pais, a vida deste visionário,
poeta, louco, que tentou ser sociólogo, dramaturgo, cineasta, funcionário autárquico, editor, jornalista,
egiptólogo. Sabe-se (como se sabe?, quem veio contar essa história extraordinária?, quem garante que
a mulher não o matou?) que estavam ele e a mulher no bar em frente às pirâmides de Gisé; de repente,
ele se levantou, apurando os ouvidos com as mãos em concha como se ouvisse algo, foi andando com
aquele seu andar ortopedicamente inviável, andando sem ouvir os chamados dela, entrou pelo deserto
e nunca mais se soube dele.

A mulher
belíssima, Cristina.
Página 108.
Acompanhou com os olhos a mão dela desorganizando o suor gelado do copo.
-- Estou pensando no Carlos.
-- Hum-hum.
-- Como eu fiquei louca naquela época.
-- E agora?
-- Sumiu da minha cabeça. Apagou. Sumiu.
Ele prestava muita atenção, porque o casamento seria amanhã.
-- E comum isso?: paciente ficar louca contra o analista?
-- Pode acontecer. Tudo pode acontecer.
-- Eu queria sacudir você, tirar você da sua frieza, ou de cima de mim. Sei lá.
-- Isso misturado com outras coisas.
Pensou que ele estivesse falando de amor.

<168>
~:

-- Ô bobo, eu não gostava de você naquela época.


-- Sentimento de culpa, abandonismo, rejeição.
Desarmada meio sem jeito, pegou o copo e bebeu um pouco do gim. Não gostou do sabor.
-- Pede um chope para mim? Meu gim ficou horrível.
Ele esperou o garçom passar perto e pediu, sem pressa. Bebeu um pouco de gim. Fez uma careta.
-- Hum, horrível mesmo. Não sei como você agüentou até agora.
-- Amargo, não é? É do limão.
Ela passeou um pouco por 1970 e voltou:
-- Se você tivesse gostado de mim naquela época eu não teria dado tanto vexame.
-- Sei lá.
-- Por que você não queria nada comigo?
-- Sei lá. Te achava feia.
Ela sorriu belíssima. Chegou o chope. Bebeu o primeiro gole acariciando o frio do copo. Limpou com a
língua o bigodinho de espuma. 1970: o quartel de Juiz de Fora, comida para o preso, vitaminas,
remédios, cálcio, ele precisa muito de cálcio e vitaminas, sustagem, farinha láctea, leite condensado,
frutas, chocolate, germe de trigo, iogurte. A culpa de não ter feito o que a mulher grávida pediu naquela
noite, de não ter tomado providências para tirar Carlos da prisão porque ia a uma festa, como se fosse
possível, que loucura; os cuidados com a mulher grávida para corrigir o erro de não ter ajudado antes; a
menininha que nasceu morta, recado, mensagem: mate-se; a loucura, Eduardo perdendo o controle da
análise, a procura de drogas para destruir-se culpada, e antes, antes, muito antes, menina, a freira
proibindo-a de cantar no coro da escola, e mocinha, mocinha, virgem sem coragem e Carlinhos virgem
ameaçando começar com uma uma uma puta se ela não coisasse com ele e nossa! como sofreu
quando ele disse que já tinha feito, perdeu aquilo para sempre, para sempre; e depois que mudaram de
Ponte Nova para Belo Horizonte quando o pai ganhou na loteria, o pai não querendo mais que
namorassem, que sofrimento; e Carlinhos preso ainda em Belô queimado de cigarro explicando que não
era culpa dela, triste, perdido, perplexo, e ela querendo abraçá-lo,

<169>
~:

carregá-lo, beijá-lo dali para fora, vitaminas., remédios, cálcio, leite condensado, farinha láctea e a
procura de homens, de um filho, o filho que a mulher de Carlos perdeu, um pai que tinha perdido; e
aquele caos foi dificílimo de vencer, mesmo com a ajuda de um homem que tinha amado ou ia amar
qualquer dia, Eduardo, atencioso vigiando, protegendo-a, e ela se atirava certa de que seria segura na
queda, trapezista.
-- Que loucura.
-- O quê?
-- Estava lembrando das coisas. Lembra que loucura?
-- Hum-hum.
-- Eu devia ser uma chata.
-- Era.
-- Eu também não gostava de mim naquela época. Acho que eu fingia um pouco, também. Todo louco
finge um pouco, não?
-- É, finge. Mas não consegue parar de fingir.
Ficou quieta, pensando, um pouco menos bonita. Ele, lembrando-se do paciente policiamento que se
impôs para não amá-la muito. Escondia-se na técnica, frágil proteção contra aquela beleza
desagregada. Estava gostando do silêncio dela. Seria capaz de saber até as palavras que ela pensava.
O rosto ia mudando outra vez para o sorriso, um jeito muito dela de lembrar. Depois o rosto ficou sério,
ela o olhou de frente, decidida, bonita:
-- Sabe?: sempre gostei de você. Desde o começo,
Ele sorriu meio embaraçado, bebeu um pouco de chope e pensou na perfeição a que ela havia
chegado, depois de tudo.

O homem,
bonito, meio feio,
Eduardo Santoro.
Página 108.
O depoimento do famoso psiquiatra Eduardo Santoro não foi muito proveitoso para a polícia.
Conheceu Carlos Bicalho através de uma cliente, conterrânea de Carlos, de Ponte Nova. Famílias
amigas há muitos anos. Não podia revelar o nome da cliente por razões de ética profissional,

<170>
~:

mas responsabilizava-se por ela, no caso. Ela não se interessava por política. Naquela noite da
confusão tinham marcado um encontro para irem juntos à festa, os três. Não conhecia as pessoas da
festa, era um meio-penetra, convidado de sua cliente. Chegaram à casa de Carlos e encontraram um
repórter, esse que morreu, procurando saber da história da prisão dele, para o jornal. Bem, ele disse
que era para o jornal. Tentaram tomar alguma providência para soltar o Carlinhos, mas nem sabiam
direito o que ele tinha feito. Falaram com o professor Cândido, professor dele, falaram com um tal de
Jorge, advogado que já andou na mesma turma que ele, tentaram falar com o doutor Otávio Ernâni. O
rapaz, o repórter, disse que tinha de ir para a Praça da Estação e deixou-o com a história do Carlinhos
na mão.
-- Tinha de ir? Ele disse que tinha de ir?
Foi o que ele disse. Supunha que deveria ser coisa do jornal, trabalho. Não simpatizaram muito com
ele, na hora. Rapaz meio ríspido. Não saberia dizer se Carlos conhecia outras pessoas que iam à festa,
a não ser, é lógico, o chefe dele, o Otávio Ernâni.
-- O senhor sabia que o repórter também ia àquela festa?
-- Ia?!
-- Está vendo? O senhor lá, falando com ele, procurando três pessoas que poderiam ajudar seu amigo
e, dos cinco, cinco não, seis, dos seis só o professor Cândido não ia àquela festa. Não é estranho,
muito estranho?

Escritor.
Página 108.
-- Este livro (diz o escritor recebendo os originais) é o resultado de um fracasso. É o que eu consegui
fazer de um projeto pretensioso que tracei em linhas gerais há uns dez anos ou mais (subtextualmente
revelando que aquilo que vinham dizendo seus inimigos era verdade) e no qual mexi apenas algumas
vezes nesse tempo todo, entravado pela falta de tempo, pelo lazer, pela preguiça, pelo sei lá será que
vale a pena e também por ser vencido cada vez que metia a mão na massa (modestamente diminuindo-
se ante o projeto, que afinal era seu, e quantos

<171>
~:

arquitetos há por ai famosos só pelos projetos não realizados?).


-- Sei (diz o amigo). Estou entendendo o que você quer dizer. O livro pode ser considerado ainda não
acabado (observou que o escritor reparava naquele não acabado e sabia que o assunto voltaria
sutilmente introduzido) ou acabado, tanto faz. Você poderia estender infinitamente a segunda parte ou
deixar como está. É isso.
-- E não é. O fracasso que eu digo está no miolo, que não existe. O livro se dividia originalmente em
três livros separados: Antes da Festa, A Festa e Depois da Festa. Acho que Ieronimus Bosch tem muito
que ver com isso. (Sorriu porque tinha inventado aquilo na hora e ficou parecendo que Bosch tinha sido
o ponto de partida do trabalho -- uma mentira; mas verdade, se olhasse agora a distância seu projeto.)
Depois da Festa seria o inferno do tríptico. Mas então, como eu ia dizendo: falta a festa.
-- Sei, sei. É (considerou o amigo), como concepção fica mais redondo.
-- Eu cheguei à conclusão de que o livro existe sem a parte do meio, mas isso não me impede de
enxergar a fissura. É claro que eu não vou deixar o leitor perceber isso. Mas me incomoda.
-- E como seria essa parte (disse o amigo, descobrindo que o escritor queria falar disso), A Festa?
-- Nessa parte eu jogaria com todas as pessoas apresentadas anteriormente e mais outras, muitas
outras, durante a festa. Os conflitos, as inquietações, a fofoca, a alegria, os jogos, as histórias, as
angústias (que é isso?, estou empolgado demais, pensou o escritor, e moderou seu entusiasmo) -- tudo
que acontece numa festa misturado à trama central do livro. O meu problema é de ordem técnica: não
haveria narração na terceira pessoa. Eu queria mostrar a festa sendo, entende?, não narrada.
(Levantando-se.) Eu tenho uns rascunhos, vou te mostrar (abrindo a gaveta, retirando uma pasta,
escolhendo três laudas, sentando-se). Olha aí (entregando as laudas ao amigo).
Ele lê: vontade de acabar com essa festa, mandar todo mundo embora. Ainda teve coragem de dizer
que era a garota dele, desaforo. Ah, Lúcio. que foi que eu fiz, vai embora, gente, vai

<172>
~:

embora, não posso mais -- António, me traz um gim.


-- Roberto!
-- Anh?
-- Onde foi que você arranjou essa maravilha de rapaz?
Meu Deus, meu Deus, agüentar tudo isso. -- Mandei fazer, Cora Adélia. Não agüento essas
intimidades de homossexual fêmea.
-- Beleza. Gastou a pedra toda? Não pinte esse rosto que eu gosto e que é só meu, Marina você já é
bonita com o que Deus lhe deu. Será que Andrea não pára de dançar com aquele sujeito?
(-- Casar mesmo, de véu e grinalda?
-- O véu foi-se, mas grinalda a gente dá um jeito.
-- E vocês têm trepado?
-- Cafajeste.
-- Que é isso, Andrea, logo comigo? E a nossa velha amizade?
Que que há? Está sentindo?
-- Não encosta, não faz isso.)
-- Quem é aquele sujeito que está dançando com Andrea, Roberto?
-- Haroldo. Conhece não?
-- Não.
-- Chefe dela no jornal.
-- Cuidado senão ele te toma a noiva.
Ah meu saco, como é que eu vou sair dessa. Cansa essa sapatona. -- Um minutinho, Cora Adélia,
que eu vou trocar o disco. Maldade: vou fingir que não estou gostando nada dessa relação entre
Andrea e Haroldo. Botar uma música menos sugestiva, não é? Ufa, até que enfim. Será que vai tudo
bem na copa? Tenho horror da irresponsabilidade dos garçons. É claro, a festa não é deles. Only you,
can make all this world seem right, only you can make the darkness bright. Será que essa música não
está muito lenta? Only

<173>
~:

you, and you alone, can thrill me like you do and fill my -- merda!: Lúcio e a negrinha. Anh, cantora de
televisão. Putinha, isso é que ela é. Lúcio, que foi que eu fiz? Júlia está triste, não pode, ninguém pode
ficar triste.
-- Precisa de alguma coisa, Júlia?
-- Não, obrigada, Roberto. Não falta nada.
Não consigo nunca me comunicar com Júlia. Fechada demais, medida demais. Uma chata, isso é que
é. O que fazer quando ela se cala? -- Onde está o Aníbal?
-- Dançando com a Elêusis. Não se preocupe, Roberto, eu estou bem. Aníbal está bem. Tudo, todos
estão bem. A receita é ótima. Misturar os ingredientes, bater alguns minutos, servir gelado. Preciso de
um pensamento inteligente para não ficar com cara de tacho no meio dessa festa. Que olhar é esse de
Aníbal em cima de mim
(-- Você não está achando a Júlia deprimida, Elêusis?
-- Sempre foi.
-- Me parece que ela agora está mais ... mais concentrada.
-- Se ela tivesse alguma coisa para contar, contaria a você, não?
Contaria?)
como se me visse agora, depois de muito tempo. Sorrio para ele? Sorrio.
-- De quem você está rindo?
-- De quem não, para quem.
-- Para quem, então?
-- Meu marido, dá licença?
-- Olha, que gracinha. Estão namorando?
-- Não amola, Flávio. Pede uma bebida para mim? Um uísque.
-- Garçom. Garçom! Aqui. Vê um uísque aqui para esta senhora. Com gelo não é Júlia? Com gelo.

<174>
~:

-- Certo. O senhor sabe quem é o doutor Otávio Ernâni? Telefone para ele, urgente.
-- Deixa que eu aviso. Busca o uísque.
Foi ali naquele canto que eu vi o Otávio agorinha mesmo. -- Um minutinho, Júlia, vou ali avisar o
Otávio.
(-- Então foi isso. Quando nós chegamos eu vi mesmo parada aqui em frente uma ambulância. Pensei
até que já era alguma coisa que tinham aprontado aqui. Então o porteiro me contou que um casal aqui
do prédio passou mal depois do jantar, parece que foi intoxicação violenta. Bom, isso já faz o quê?,
umas duas horas, não é Marília?
Entre les deux mon ccEur balance.
-- Não é Marília?
-- O quê, gente?
-- Que vimos a ambulância aqui na porta. Faz umas duas horas, não?
-- Não sei. Não foi comigo. Deve ter sido com outra pessoa.
Puta merda, foi com Lena que eu cheguei. Preciso parar de beber ou beber muito mais. Otávio)
-- Otávio.
-- Oi. Salvo.
-- Telefone para você. Urgente.
-- Um minutinho, gente. Salvo pelo gongo. Pela campainha.
-- É (disse o amigo) interessante. Tem mais?
-- Tenho (disse o escritor). São fragmentos, tempo perdido. Os truques que o projeto impunha eram o
melhor da criação, um bom desafio, mas por outro lado me traziam problemas que aos poucos fui
achando insolúveis. Primeiro, ficaria enorme, porque eu não poderia cortar arbitrariamente no tempo
como se faz numa narração na terceira pessoa (desconfiou que estava ficando aborrecido e resolveu
resumir bem depressa), um corte por exemplo assim: passaram-se duas horas, ou: duas horas

<175>
~:

mais tarde -- entende? E depois eu comecei a achar que ia ficar chato se ficasse grande e não achei
jeito de não ficar grande. Parei e o livro que eu fiz está aí como um pão sem miolo. (Ultimamente sentia
um certo prazer de diminuir-se e diminuir o que fazia, observou-se o escritora descobrindo aquelas
novas artimanhas de defesa.)
-- O livro realmente não parece acabado (disse o amigo, surpreendendo-se um pouco que tivesse ele
mesmo voltado ao assunto), como eu disse antes. Você poderia estender a segunda parte, pegando
todas as personagens citadas na primeira; poderia introduzir esse miolo de que você faia; poderia botar
mais dois ou três contos no princípio. É um livro que pode ter cem páginas ou quinhentas.
-- Certo. E a história? Preciso saber objetivamente o que você achou da história e das histórias.
-- História não. História não tem importância.
-- É só não chamar de sintagmas e sobressintagma.
-- Vamos tomar o livro pelas suas divisões e chamar de episódios, então. Ou segmentos.
-- Tá (disse o escritor sorrindo, porque ambos evitavam uma discussão que já os cansara), episódios.
-- Bom. O Documentário eu acho que não deveria ser o primeiro episódio. O leitor pensará que é um
livro só político, e não e.
-- Não é.
-- Você deveria abrir com o casal de velhos, das Bodas, que é o melhor conto, inclusive.
Isoladamente.
-- Exatamente onde eu não queria mexer é na primeira história -- perdão, estava pensando em inglês
--no primeiro episódio. E importante isso na estrutura do livro. Eu abro com os documentos e vou até à
fábula, no fim, quando a personagem se funde com o diabo (disse o escritor, satisfeito com a
oportunidade de explicar que havia pouca coisa não intencional no livro).
-- É (murmurou o amigo), aí... é. Outro probleminha que eu achei foi no episódio de Andrea. Não sei,
talvez você tenha suas razões, mas há ali muita interferência sua, conceituando a personagem,
explicando, ou melhor, explicitando o que o leitor descobriria se (um pouco delicado dizer isso) o conto
estivesse mais bem-feito.

<176>
~:

-- Talvez você tenha razão (disse o escritor decepcionado por o amigo não ter gostado justamente
daquele conto), porque naquele episódio eu fiquei meio amarrado pelo estilo, deliberadamente
Fitzgerald, quase uma homenagem ao poor Scott, digamos assim (indicando que mesmo tendo havido
um fracasso a intenção era sofisticada), e também porque eu queria mostrar a personagem vista
através dos preconceitos da sociedade que a envolvia. Daí o estilo Fitzgerald, a terceira pessoa, o
comentário -- como técnica. O autor daquele conto é também uma das pessoas mesquinhas e
preconceituadas da sociedade que julga Andrea. Ele também está lá, o filho da puta. É como se o xerife
de High Noon não tivesse direito nenhum de sair desprezando a cidadezinha. Mas isso eu acho que é
um problema sem solução.
-- E tem um negócio aqui (disse o amigo pegando os originais e procurando a página 23, achando,
apontando), aqui á, que não dá mais pé. (Lendo.) ‘Dele guardou ressentimento e uma fotografia 3 x 4.”
Esse tipo de enumeração até o Machado de Assis já esgotou: o amor durou nove meses e onze contos
de réis.
-- Faz uma cruzinha aí. Isso; Que mais?
-- Tem esse rapaz, o dedo-duro.
-- Eu não gosto desse episódio (preveniu o escritor).
-- Não é isso. Esse negócio de peidar é meio de mau gosto, não? Podia tirar isso.
-- Logo você vem me falar de bom gosto? Mas se eu estou mostrando exatamente a grossura, o
egoísmo, a vaidade tomando conta do cara quando ele fica sozinho em casa, justamente quando não
tem de se policiar, de ser hipócrita. É ali que o cara relaxa, porra, porque viver num fingimento como o
dele não é moleza. O peidinho ali acho até que entra bem.
-- Continuo achando de mau gosto (disse o amigo, fazendo depois um intervalo que foi ficando longo
e daí a pouco poderia ficar incômodo, lembrando-se de um deixado para depois, para talvez agora, e
murmurando num meio pigarro) não sei hrram (e retomando a conversa). Você leu O Curral dos
Enforcados, do Rui Mourão?
-- Eu sabia (disse o escritor, sorrindo e não dizendo o que sabia).

<177>
~:

-- Pois é (disse o amigo, não precisando de explicações), eu acho que, de alguma forma, tem o que
ver.
-- Talvez. Tem o que duas retas de um ângulo têm em comum: um ponto. No caso, os nordestinos.
Quando eu estava escrevendo, minha mulher me alertou para isso. Li o livro do Rui, vi que não tinha
nada que ver, e continuei. Acho até interessante a coincidência dos nordestinos. Fica parecendo que
aconteceu de verdade. Quanto ao resto, direções divergentes, extensões, intenções, concepções,
gerações, situações, ações.
-- Gerações principalmente (disse o amigo).
-- Situações, principalmente (corrigiu o escritor). Mil novecentos e setenta e todas as suas
impossibilidades. Eu não estou nem um pouco preocupado com geração. Em 70 minha geração não era
mais um grupo. Carlos, Samuel, o escritor, os intelectuais, são, cronologicamente, figuras de outra
geração, a geração pós 64, com uma dramática disponibilidade ainda sem saída.
-- Você quer esconder que o escritor é você? (disse o amigo, até um pouco espantado).
-- Não, que é isso. Pela idade e posição social, seriam da minha geração um Otávio, um Jorge, uma
Andrea, pessoas já estabelecidas, com bons empregos. O escritor sou eu mesmo, claro, como eu hoje,
neste 74, acho que seria em 1970 aquele intelectualzinho de 1960 (disse o escritor insistindo naquela
autodepreciação de ultimamente, e sorrindo disso e pensando: que será que eu tenho contra o que eu
fui, ou é contra o que sou hoje que tenho alguma coisa, ou não é nada disso). Mas as figuras principais,
as que realmente agem, são de uma geração muito mais velha, como Marcionílio, ou pouco mais nova,
como Samuel. Não é um livro sobre uma geração, mas sobre várias gerações que um dia se encontram
no 1970 brasileiro.
-- Mas vocês, seu grupo, são o grupo do livro, não?
-- Não (disse o escritor, pensando talvez uns segundos demais). Aliás, todos os grupos se parecem
em Belô (falando quem sabe para si mesmo). De qualquer forma, o grupo, em si, não foi minha
preocupação. Eu queria falar especificamente de pessoas, com suas histórias, envolvidas nos fatos e
clima de 1970.

<178>
~:

Mulher grávida.
Página 110.
Ana, a mulher de Carlos Bicalho, pariu na rádio-patrulha uma menina enforcada no cordão umbilical.
Um homem que passava pela porta da casa, alarmado com gritos de socorro e choro de criança que
vinham lá de dentro, chamou a polícia, por via das dúvidas. A contra-gosto o sargento aceitou levar a
mulher, já parindo, para o hospital.

Doutor
Otávio Ernâni.
Página 111.
Naquele dia 31 de março de 1970 o economista Otávio Ernâni acordou desgraçado e não sabia.
Tomou Alka Seltzer, Engov, banho, Melhoral, tentando lembrar-se que coisa ruim tinha-lhe acontecido
na festa. Telefonou para pessoas que ainda dormiam, viu que tinha emudecido a campainha do seu
próprio telefone e saiu apressado para a Secretaria com duas horas de atraso e a certeza de que
alguma coisa não estava certa. Quando bebia era assim: amnésia e dor de cabeça.
Otávio Ernâni tomou a primeira porrada daquele dia 31 de março às onze horas e trinta minutos da
manhã, quando o secretário disse que o governador exigia um responsável pelos distúrbios daquela
madrugada. E como era assunto do setor de Migração, deveria ser ele o responsável. Estranhou a
palavra “distúrbios”, mas pareceu-lhe que o importante naquele momento era:
-- Estamos apurando tudo. Pelo meu setor eu me responsabilizo. Dentro de uma hora falo com o
senhor.
Logo depois de sair do gabinete tomou a segunda porrada: ficou sabendo pelo jornal A Tarde e por
alguns funcionários que Carlos Bicalho fora preso e que houve uma verdadeira revolução na
madrugada com aqueles nordestinos que mandara recambiar. Enquanto queimava-se um trem, morriam
quatro pessoas, centenas de flagelados espalhavam-se pela cidade, dezenas de feridos eram
medicados nos hospitais e agitadores eram procurados, ele estava bêbado numa festa escandalosa.
Chamou um assessor para receber a terceira porrada:

<179>
~:

não poderia falar com Carlos Bicalho no DOPS porque ele estava preso incomunicável; o secretário da
Segurança pedira permissão ao secretário do Trabalho para investigar todo o pessoal do setor de
Migração; ele, Otávio Ernâni, era suspeito de envolvimento com os agitadores que organizaram a
revolta; o secretário empenhara sua confiança em Otávio perante o governador, apesar das suspeitas
de que ele fugira na madrugada após o malogro do plano.
-- Puta merda. Mas esse povo está louco?
Ao meio-dia e meia comunicou ao secretário que o seu cargo estava à disposição. Não, não havia
explicação possível para o que acontecera. Não, absolutamente não acreditava numa conspiração.
Enquanto aconteciam aquelas coisas ele estava numa festa de aniversário. Não, não fora avisado dos
distúrbios. Não, não poderia dizer nada sobre Carlos Bicalho se não pudesse falar com ele. Sim, daria
as explicações à imprensa, assumindo toda responsabilidade no âmbito da Secretaria. Certo, entrevista
coletiva às seis horas.
A dor de cabeça não passava. Não tinha comido nada. Pediu uma água mineral. Tinha a impressão
de estar exalando álcool no suor. Certamente estava. Falava de longe com as pessoas.
O secretário da Segurança recusava informações. Otávio falou pessoalmente com ele, explicou que
tinha entrevista com a imprensa às seis horas e precisava saber o que tinha acontecido e o que estava
acontecendo. A ironia da resposta (“Ora, você é capaz de saber mais do que eu.”) irritou-o. Mas
agüentou, político.
Às duas horas mandou vir um hamburgo, leite e uma pastilha para dor de estômago. Desconfiou que
o expediente normal da Migração não estava passando por ele. Melhor assim, por enquanto.
Conseguiu autorização do governador para obter informações na Segurança. Jacques telefonou para
comentar a festa e ele tomou a quarta porrada do dia: numa situação de polida disputa entre Lena e
Marília -- nem era ele exatamente o objeto do torneio, as duas disputavam quem era mais invulnerável,
quem menos se deixava perturbar pela presença da outra com relação a Otávio ou aos observadores --
naquela situação discreta

<180>
~:

e delicada, ele, Otávio, completamente bêbado, quebrou o cristal da conveniência perguntando:


“Por que a gente não faz um ménage a trois?”
-- Puta merda, Jacques.
O assessor da Segurança mandou saber que tipo de informação ele precisava. Fez um questionário
escrito, com cópia. A mulher de Carlos Bicalho chegou com a filhinha de dois anos e a barriga de oito
meses querendo saber qual era a situação do marido.
-- Vou dizer à senhora com franqueza: eu não sei nem de mim. Parece que todo mundo ficou louco.
Entre hoje e amanhã eles podem me pôr na rua e me prender. No mínimo me põem na rua.
Às quatro horas, disse que voltaria às cinco e meia e saiu. Comprou uma camisa, uma cueca, um par
de meias e foi para a sauna do Minas Tênis.
Na sauna, tomou coragem, ligou para a casa de Marília e tomou a quinta porrada do dia: ela não tinha
dormido em casa, não estava com o senhor?, ai meu Deus, será o que aconteceu, liguei para a casa do
senhor e ninguém etc etc. Seria absolutamente impossível que ela estivesse presa também. Tranqüilo a
esse respeito.
Chegou à Secretaria às cinco e meia, cheirando a eucalipto, sem dor de cabeça, leu duas vezes as
informações da Segurança, deu algumas checadas na Migração para completar informações e ficou
esperando a hora de atender os repórteres.
A imprensa queria saber como começou aquela história dos nordestinos.
-- Ontem de manhã, o secretário do governador da Bahia enviou uma mensagem ao nosso secretário,
informando que um trem com mil e duzentos retirantes da seca dirigia-se para Belo Horizonte. O
procedimento foi o normal: consultas ao governador sobre o que deveria ser feito, entendimento do
governador com os secretários da Segurança e do Trabalho e Bem-Estar Social. Somente às quatro
horas da tarde ficou resolvido que os retirantes deveriam ser recambiados. Eu, como assistente geral do
senhor secretário e diretor do Departamento de Mão-de-Obra, ao qual está subordinada a seção de
Migração, fui encarregado desse expediente. Expedimos os passes e solicitamos reforço policial para o
recambiamento,

<181>
~:

tudo dentro das normas. Os retirantes chegaram às seis e vinte da tarde. Às seis horas a polícia já
estava na Praça da Estação.
Qual o papel de Carlos Bicalho nos acontecimentos?
-- Esse rapaz é nosso oficial de gabinete. Como todos sabem, ele está preso. Contou à polícia que
estava saindo daqui, pouco depois das sete horas da noite, quando chamaram um representante da
Secretaria do Trabalho para resolver o problema da alimentação dos retirantes. Segundo ele disse à
polícia, foi lá verificar a situação e depois procuraria alguém competente para resolver o problema. O
resto, o que houve na praça entre eles, a polícia e os retirantes, ainda não sabemos. A polícia está
apurando.
Alguém da Secretaria sabia das atividades políticas de Carlos Bicalho?
-- Eu nunca soube que ele tivesse atividades políticas e continuo não sabendo. Não pude conversar
com ele depois do que aconteceu. Se alguém mais sabe-ia, não é do meu conhecimento.
Há quanto tempo ele trabalhava na Secretaria?
-- Um ano e meio.
Quem arranjou o emprego para ele?
-- Eu. Os oficiais de gabinete são dispensados de concurso.
Por que os nordestinos escolheram Belo Horizonte para emigrar?
-- É impossível determinar uma coisa dessas. Os retirantes não escolhem, vão para qualquer lugar.
Eles querem é sair de lá, fugir da seca. Minas, Rio, S~o Paulo, Paraná, Amazônia, tanto faz. Eles
querem é viver, só isso. E me parece uma pretensão justa.
É possível que alguém tenha tramado a vinda deles para Belo Horizonte?
-- Não acredito. Nosso mercado de trabalho não pode absorver mão-de-obra não qualificada.
Nenhuma indústria atrairia esse tipo de trabalhador, atualmente.
Falando mais claro, doutor Otávio: é possível que Carlos Bicalho os tenha atraído com fins políticos
usando a Secretaria?
-- Não acredito. Não tem lógica. Que intenção ele poderia ter, se fosse o caso?

<182>
~:

Agitação, claro.
-- Isso não tem sentido. Veja bem. Para um plano desses dar certo, ele teria de ter a colaboração do
governo do Estado, que decidiu recambiar os retirantes -- porque sem recambiar não haveria o
problema; a colaboração da polícia, que não soube conduzir ou não teve meios de controlar a situação
na praça, e ainda contar com a politização de uns pobres famintos -- o que seria pedir demais. É uma
idéia absurda.
Quantos nordestinos chegam a Belo Horizonte por ano?
-- Não temos elementos para responder. Chegam esparsamente, em pequenos grupos, e se
dissolvem na cidade. O censo deste ano poderá responder à pergunta. O fenômeno da migração
nordestina em massa só ocorre na seca. O nordestino gosta da sua terra e cerca de sessenta por cento
dos migrantes voltam quando começa a chover.
Afastando a hipótese de subversão, como o senhor explicaria os acontecimentos desta madrugada?
-- É simples: o burro manso de repente deu um coice. E todo mundo se espanta: ah, mas era um
burro tão mansinho. Acontece que esse burro veio sofrendo desde o nordeste em dez quinze dias de
viagem miserável. Chega aqui não tem comida, não tem trabalho, tem é de fazer o mesmo caminho de
volta sem parar para beber água. Natural que dê um coice. Coitado, agora já está arrependido do coice.
É o mesmo burro manso de antes, mas agora ninguém confia nele, trata igual burro bravo.

Esdras,
O Hermético.
Página 111.
Esse tipo de intelectual, que pode ser encontrado em certas épocas do ano no centro e sul do país,
costuma sair à tardinha, na primavera e no verão. Nas noites de inverno ele nunca sai, porque é muito
sensível ao frio. Nas noites de outono ele geralmente escreve geralmente poesia geralmente hermética.
É um ser desiludido, intelectualmente rigoroso (o livro que ele escreve e reescreve em segredo nunca
o

<183>
~:

satisfaz, não alcança a perfeição desejada -- e não nasce), pessoa de um amigo só, amargo quanto às
mulheres, pois não saberia o que fazer com um seio na mão, além de espremê-lo. Não acredita que a
arte tenha algum valor hoje em dia, mas é a única coisa de que realmente gosta. Só a usa em casa,
como um agasalho velho, fora de moda.
Quando Esdras, o Hermético, morreu, em 1987, o amigo único reuniu seus poemas e publicou um
volume póstumo. Umas quinze pessoas leram aquela pesada poesia. As únicas que poderiam
testemunhar que ele seria um marco na poesia, como Villon, Petrarca, Mallarmé -- e estas, por razões
desconhecidas, calaram-se. E a poesia de Esdras fechou-se sobre si mesma, perfeita.

O vizinho.
Página 113.
O vizinho de Roberto J. Miranda disse à polícia que todo dia 30 de março havia festa no apartamento
1501. O porteiro confirmou e disse que as pessoas eram quase sempre as mesmas. Isso desanimou
um pouco o Delegado Levita, que procurava uma ligação entre a festa e a agitação. Mas logo recuperou
o ânimo: o vizinho fora getulista e o porteiro aceitava gorjetas. Duas pessoas suspeitáveis.

Luís.
1946/1972.
Página 114.
Esta pequena história deixou perplexos os moços do suplemento:
Luís e o pai moravam sozinhos numa casa velha no bairro da Floresta, atrás da estação. Era um
jovem brilhante, amargo, aleijado das duas pernas por defeito congênito, muito bonito de rosto, erudito,
cruel, emocionalmente instável. Equilibrava-se por milagre em duas pernas de gelatina e não conseguia
escrever uma boa peça. O pai era triste, cinqüenta anos, funcionário público federal nível 14, auto-
punitivo. Luís o destruía calculadamente. Os moços do suplemento conheceram Luís na

<184>
~:

fase da bebida. Entregavam-no em casa de madrugada, amolecido e escorregadio, e antes de se


afastarem ouviam os gritos: “Não reclama não. Você é que me fez assim!” Viajou para a Europa e o
velho teve de pagar em prestações a conta assustadora. Virou homossexual para insultar o velho com
homens em casa. Fazia o pai pagar, quando era michê. “Olha essas pernas, olha essas pernas, olha o
que você fez, velho filho da puta!” Quando a maconha entrou em moda, em 1969, e os que precisavam
sonhavam através dela, ele a usou como forma de agressão. Depois veio a cocaína, em 72: ele
preparava seu sniff na frente do pai, olhando para ele, desafiando.
O pai sufocou-o ate a morte com um travesseiro e suicidou-se com um tiro no ouvido.

Doutor Jorge.
Jorge Paulo
de Fernandes.
Página 115.
Foi de Jorge ou do advogado Ruiter a idéia de colocar o assassinato de Mônica como conseqüência
dos acontecimentos da Praça da Estação?
A defesa baseou-se em duas teses: legítima defesa da honra, argumentando que a esposa vinha
mantendo conduta indigna com os próprios amigos do réu; e coação irresistível diante da revelação,
feita pela própria mulher, de que o traía, senhores jurados, obedecendo a um plano de vingança; e este
homem, integro, respeitador das tradições do país e dos costumes da generosa terra mineira, viu-se
envolvido numa trama diabólica, malha constrangedora que só poderia ser manobrada por elementos
afastados da fé cristã e da moral da família brasileira. Estes elementos, juntamente com a vitima,
planejaram a conduta indigna da vitima, a conduta prostitucional da vítima, para humilhar o réu aqui
presente e puni-lo por sua atitude patriótica durante a fase policial de apuração dos acontecimentos
ligados ao tumulto da Praça da Estação há quase dois anos. Testemunhou o réu, sob juramento, que
não pôde resistir ao impulso de matar quando a esposa revelou-lhe que o próprio casamento fazia parte
da vingança, que fora tudo planejado para que

<185>
~:

ele aprendesse a não entregar os amigos, que os homens com os quais ela manteve relações para
humilhá-lo foram escolhidos dentro do plano previamente traçado e fria-mente executado. Friamente,
mas não sem prazer carnal, acreditem. Cinicamente, ela revelou ao marido toda a trama quando
acabou de deitar-se com o último da lista e ainda trazia dentro de si o esperma do opróbrio. Está lá,
senhores jurados, está lá no laudo do médico-legista!

Marília.
Página 116.
Apanhados no mesmo susto, afastaram as bocas ao mesmo tempo: ela do pênis dele, ele da vullva
dela. A porta foi fechada afobadamente pela pessoa que os assustou e que, por sua vez assustada,
retirou-se. Ela hesitou um breve instante, torceu a bunda de excitação e voltou ao pênis dele; ele voltou
imediatamente à vulva dela.

A mulher belíssima.
Página 116.
Quando procurou um psiquiatra, em 1968, Cristina estava em pedaços. Pacientemente, Eduardo
Santoro, trinta e quatro anos, solteiro, analisado na Suíça, trabalhou aquele puzzle de mil e oitocentas
peças, montando pedacinho por pedacinho, fascinado, até obter a mulher perfeita com a qual se casou
três anos depois daquela festa que a fez desagregar-se novamente.

O homem
que tinha teorias.
Página 116.
Pacientemente, Eduardo Santoro, trinta e quatro anos, solteiro, analisado na Suíça, trabalhou aquele
puzzle de mil e oitocentas peças, montando pedacinho por pedacinho, fascinado, até obter a mulher
perfeita com a qual se casou três anos depois daquela maldita festa

<186>
~:

que a fez desagregar~se novamente. Tiveram três filhos e foram todos felizes ou infelizes nas épocas
apropriadas.
Aurélia.
Página 116.
Aurélia, abandonada por Marcelo na festa, parou de sair com rapazes ricos, arranjou namorado sério
e ficou noiva. Uma noite, o noivo estava na sala comendo broa de fubá com café, ouviu na televisão um
apelo da Santa Casa de Misericórdia aos doadores de sangue tipo O-positivo, despediu-se da noiva e
da futura sogra, foi, doou, pegou um tétano inexplicável e morreu dois dias antes do casamento. No
sábado, Aurélia começou um corre-corre para cabeleireiro, costureira, manicura, banheiro. A mãe mal
atendia um ou outro pedido de ajuda da filha, achando estranho ela arrumar divertimento dois dias
depois da morte do noivo, embora achasse certo que ela não se fechasse, morta para o mundo. Levou
um susto enorme, sentou-se na cadeira e começou a chorar baixinho quando a filha surgiu do quarto
vestida de noiva às quatro horas da tarde.

Marcelo.
Página 116.
Apanhados no mesmo susto, afastaram as bocas ao mesmo tempo: ele da vulva dela, ela do pênis
dele. A porta foi fechada afobadamente pela pessoa que os assustou e que, por sua vez assustada,
retirou-se. Ele voltou imediatamente à vulva dela; ela hesitou um breve instante, torceu a bunda de
excitação e voltou ao pênis dele.

“O velho é
maluco.”
Professor Cândido. Página 117.
-- Completamente improvável. Lady é da nossa inteira confiança.
-- Professor, professor. Alguém pôs o arsênico na

<187>
~:

lata de farinha. Se não foi ela, quem foi? O senhor? Dona Juliana? Tem de ser a empregada.
-- Mas cui prodest? Cui? Ela sabe que não temos dinheiro, la ficar é desempregada. Eu acho -- não
quero me meter no seu trabalho, mas eu acho que se deveria investigar a origem da farinha, a fábrica,
todas as farinhas da cidade. E se alguém come um pão e morre por aí?
-- Fomos às seis fábricas que vendem naquele supermercado e não encontramos nada. Putz,
professor, que fria.
(O detetive Pé-na-Cova tem uma hipótese que vai investigar sozinho: alguém, daquela festa do
décimo quinto andar, tinha interesse na morte do velho. Ele talvez soubesse de coisas que poderiam
comprometer o grupo, alguma conversa ouvida. .

Doutor Jorge.
Página 117.
Jorge Paulo de Fernandes foi absolvido por sete a zero. Um herói da família mineira.

Lúcio,
Praça Negrão
de Lima, 36.
Página 117.
Lúcio percebeu que Roberto estava com medo de ser preso, riu muito e começou a pedir. Para não
contar à polícia o que tinha acontecido na festa, ele exigiu, de abril ate agosto, quando Roberto não
suportou mais a chantagem e recorreu ao odiado coronel Bolívar:
500 cruzeiros
1 camisa azul de tela suíça
1 calça Lee importada
1 cinturão largo
1 sapato de salto alto
150 cruzeiros
1 colar de pedras coloridas do Saara
1 caneta esferográfica Cross
1 chute na bunda, na posição adequada: de quatro
1 viagem ao Rio, sozinho
<188>
~:

conta aberta na boate Around the Clock


3 camisetas estampadas italianas
o direito de aplicar-lhe tapas na cara, inclusive em público
300 cruzeiros
1 calça branca de brim flanelado
1 toca-discos
1 amplificador de som, importado
2 caixas de som
10 discos, fora os que levou da casa de Roberto
1 motocicleta Yamaha, 350 cilindradas
Lúcio não ganhou sua moto. Apareceram dois homens na sua casa, respeitosos, chamando sua mãe
de minha senhora e pedindo uma conversinha particular com Lúcio, não ia demorar nada, podia ser no
quarto mesmo. No quarto, um deles tirou um papel.do bolso, abriu o armário. Lúcio quis protestar, o que
é isso, o que é isso, e tomou um tapa seco, forte e curto na cara. Quis gritar, mamãe chama a, e tomou
outro tapa na cara. O outro homem olhava o papel, procurava no armário, rasgava. Rasgaram a camisa
azul, a calça Lee, as camisetas estampadas, botaram o colar no bolso, tiraram o dinheiro que
encontraram, empilharam os discos. Não falavam nada, apenas davam-lhe tapas na cara.
-- Tira a calça e os sapatos.
Uma hesitação, um tapa. Tirou sem muito medo, entendendo por quê. Rasgaram a calça, botaram
fogo num pé do sapato, cortaram o cinto com lâmina de barbear.
-- E a caneta?
Lúcio não entendeu imediatamente, mas entendeu jogo, com um pequeno tapa no rosto. Um dos
homens colocou a caneta no bolso; carregaram o som e os discos, com a ajuda de Lúcio, de cueca, e
colocaram na parte de trás do carro, uma perua C-14.
A mãe, que estava lá dentro fazendo um café para as visitas, veio ao portão reclamar que já se
fossem tão cedo e ficou indignada com Lúcio.
-- Que vergonha, meu Deus! Vem pôr uma roupa, Lúcio.
Os dois homens forçaram Lúcia para dentro do carro, sem que ela percebesse que o obrigavam,
fortíssimos e desculpando-se:

<189>
~:

-- Não tem nada não, minha senhora. Ele tem roupa aqui. E a pressa. Daqui a pouco ele está de volta.
Lúcio teve medo, pensou logo em Esquadrão da Morte. A angústia durou treze minutos, da casa à
boate Around the Clock. Entraram os três. O porteiro teria barrado Lúcio se um dos homens não o
tivesse afastado de maneira delicada e irresistível, com a mão no peito: “Não se mete não”. No balcão,
chamaram o gerente.
-- Esse pilantra não tem conta aqui mais.
Apesar do escurinho, muitos viam o rapaz de cueca e o reconheciam. Um dos homens perguntou:
-- Quantos tapas?
-- Faltam dois.
Plá e plá dentro da boate.
Voltaram para a Praça Negrão de Lima, Lúcio até pensou em Deus, agradecido. A mãe e também
uma moça vieram correndo quando ouviram o barulho do carro. Os homens fizeram Lúcia descer,
consultaram a lista, cochichando um pouco constrangidos pela presença das duas mulheres, a mãe
começando a acordar do choque, o homem resmungando fica de guatro, fica de quatro cachorro, o
outro forçando-o, a moça perguntando o que é isso Lúcio, um chute na bunda e os gritos da mãe, e alto,
no ouvido dele:
-- Entendeu, pilantra?
-- Fala!
-- Entendi.
-- Entendeu tudo mesmo?
-- Entendi.
-- Então desaparece, tá?
-- Se você aparecer, nós temos ordem para te quebrar todínho, osso por osso.

Otávio.
Página 118.
Otávio abriu a porta às nove horas da noite e, prejudicado por uma pequena surpresa e gosto de ovo
frito na boca, recebeu Lena de maneira quase desajeitada. Marília chegou à casa dos pais às seis e
pouco com o pressentimento de que iria embora se houvesse uma

<190>
~:

cena. Lena estranhou a hesitação de Otávio e disse logo chocante:


-- Estou atrapalhando? Marília está aí?
-- Não. Verdade. Eu hoje estou na maior confusão. Entra. Entra.
-- Esqueceu?
-- O quê? Diz. Nós marcamos aqui, não é? Pois é: esqueci. Hoje tudo é surpresa para mim.
-- É. Eu li no jornal.
-- Ah, foda-se. O pior foi o porre de ontem.
-- É. Você deu um bom vexame.
-- E você? Não me lembro de nada.
-- Bom, quer saber: eu também.
-- Me conta depois. Você está querendo ficar, não é?
-- É, pensei nisso. (Sorriu.) Quebrei a cara.
O pai de Marília queria saber onde ela esteve até aquela hora. Otávio ficou tenso quando ouviu
“quebrei a cara”, como se Lena já tivesse decidido, desistido. Ela procurou apoio no sofá e afundou em
paz até a próxima palavra.
-- Então você se demitiu.
-- É. Me forçaram.
-- Chato, hem? Vai fazer o quê, agora?
-- Aaahn-hum. Não sei. Acho que volto para o cursinho. Sei lá. (Sorriu.)
-- Me arruma um uísque? Estou morta de ódio de você.

Marília.
Página 120.
Marília não sabia se aquele gosto de pênis estava mesmo na sua boca ou na sua memória. Otávio
serve o uísque, sem gelo, como Lena gosta.
-- Ódio por quê, gente?
-- Por eu me ter enganado. E porque fui muito boba. Mas já está tudo bem. Quando eu digo as coisas
é porque estou bem.
-- Escuta, Lena. Você se lembra do telefonema de ontem, não lembra?
-- E daí?

<191>
~:

-- Você viu que eu fui sincero, eu disse na hora que queria você de volta, nem me lembrei de Manha.
Pois é isso: me dê tempo. Me deixe sair dessa confusão primeiro. E esquece a festa, esquece.
Marília brigou com o pai, com a mãe, arrumou a mala, disse que estava cheia daqueles dramas e saiu
de casa, para não voltar, perto das nove horas. Pouco antes das dez ela chegaria à casa de Otávio
procurando abrigo, estragando o reencontro dele com a mulher e contribuindo de modo definitivo para a
felicidade dos três.

Lena.
Página 121.
Lena bebeu de uma vez, como um homem que viu antigamente num balcão.
-- Sua amiga também estava alta ontem.
-- E você, não?
-- Não. Nessas horas eu me cuido.
-- Como agora?
-- Agora? (Sorriu.) Pode servir outro.
Otávio serviu uísque e serviu-se de cerveja. Marília chegou com a mala, abriu a porta com sua chave,
encontrou copos, bolsa, blusa, cigarros fumados; suspeitou uns ruídos no quarto. Indignou-se, pegou a
mala para ir embora, foi até à porta, voltou, apagou a luz, deitou no sofá e dormiu para afinal descansar
de seis orgasmos com Marcelo e brigas com os pais. Lena bebeu de novo como o homem do balcão
enquanto Otávio olhava-a com desejo paciente.
-- Sabe, Lena, estive pensando nesse dia de hoje, nessa confusão toda. Para mim tem um sentido: é
uma nova oportunidade, sabe? Recomeçar com você -- digamos, uma hipótese: recomeçar com você,
largar a Secretaria. Poxa, eu sei que recambiar retirante não resolve o problema, mas expedi os passes,
pedi policiamento. Agora acabou.
-- Alguém vai fazer isso no seu lugar.
-- Vai, lógico que vai. Mas não eu. E vou poder dar minha opinião quando acontecer uma coisa
dessas, fazer um artigo.
-- É. Vai.

<192>
~:

Por que essa ironia?, pensou Otávio. Marília não acordou quando Otávio, nu, acendeu a luz da sala,
inclinou-se para apanhar os cigarros no braço do sofá e viu-a, aterrorizado, e viu sua nova vida
destruída no primeiro dia. Lena pediu mais um uísque e preveniu:
-- Eu hoje vou pegar o porre que não peguei ontem.
-- E outras coisas também que não fez ontem.
Lena sorriu, bebeu, ficou séria.
-- Ela é mais bonita do que eu.
-- De corpo, não.
-- Mesmo?
-- Você é mais durinha.
Lena levantou-se decidida:
-- Vamos para o quarto.

Carlos Bicalho.
Página 122.
31 de dezembro de 1979.
-- Bonita?
-- Tinha um corpo lindo. Deve ter, ainda. Porra, vamos falar de outra coisa.
Pausa longa.
-- Lembra do fim da década de 60?
-- Pouco. Sei lá.
-- Porra, aqui no Recife... Eu era menino ainda, estava no CPOR. Fizemos uma farra, puta que o
pariu. Política para mim nem existia.
-- Eu tinha umas inquietações, coisa de estudante. A barra do pessoal naquele tempo era muito
pesada. Assalto, guerra. Dou para isso não.
-- Já tinha casado?
-- Tinha até filho. Quer dizer, filha. E estava esperando outra.
-- Duas?
-- Morreu. Nasceu morta. Eu estava preso em Juiz de Fora.
-- Aquele negócio dos retirantes, não foi?
-- É.
O mineiro, devagar, sondava a possibilidade de uma conversa pessoal, sentimental, saudosista -- e
nem se importaria de chorar um pouco. Por isso fez aquela pausa

<193>
~:

longa quando percebeu que estavam começando a falar de política. Ficou pensando na família,
querendo que o pernambucano perguntasse: e a sua família? O pernambucano bebeu um pouco de
cerveja. O mineiro compreendeu que do passado acabaria surgindo sua família e se sentaria com ele ali
naquela mesa de bar, no Recife. E continuou:
-- Foi comentado aqui?
-- Porra, se. Acho que no nordeste inteiro. Eu me lembro, eu era rapazinho e me lembro disso. Foi
uma confusão federal.
-- Foi.
O mineiro escapou novamente pelo passado. O que teria acontecido com aquelas pessoas de 1970?
-- Acho que naquela eu fui o único que se fodeu.
-- Como único? Morreu gente, não morreu?
-- Morreu está morto. Se fodeu que eu digo é com cadeia, escola, família. Eu queria naquela época
estudar economia, trabalhar em pesquisa. Me fodi.
-- Sozinho.
-- De certa forma foi. Eu fui o bode expiatório do meu grupo. Quer dizer, muitos foram envolvidos no
processo, levaram uma cana de dois, três dias, nada se apurou contra eles e ficou por isso mesmo. O
meu grupo, quer dizer, o nosso grupo começou a se formar aí por volta de 67 e se condensou em 68.
Confusão pra burro naquele ano, foi quando começou o negócio todo, aliás. Dos que estavam na
faculdade, só eu tinha um certo envolvimento estudantil. Nada de liderança ou uma coisa assim. Eu ia,
sabe como é?, participava. Em 68, acho que estava no segundo ano, levei um mês de cana por causa
do congresso proibido da UNE, em São Paulo. Aí fiquei marcado em Belô. Isso influiu muito no
comportamento da polícia comigo, em 70.
-- Desse seu grupo, só você foi a esse congresso.
-- Só. Hoje eu sei que era esse o meu papel no grupo. Tinha gente que falava: aquele pessoal do
suplemento é meio de esquerda, quando na verdade o pessoal não transava absolutamente essa de
esquerda, era só porque eu tinha sido preso em Ibiúna, nesse congresso, entende? O grupo
incorporava aquele meu papel, em 68,

<194>
~:

em 70 e no intervalo. Tanto é que a produção literária da turma era pesquisa de linguagem, abstrações
e só. E de lá pra cá não produziu grande coisa.
-- E você?
-- Eu? Eu fazia uma poesia toda errada. Coisa de outra geração. A minha era uma geração formada
no fim dos anos 60 e eu estava repetindo o trabalho de uma geração formada nos anos 50. Nesse
ponto a cana deu certo: livrou o pais de um mau poeta.
O mineiro ficou pensando naquela poesia e como ele gostava de fazê-la. Rimas de pão com canhão,
ilha com guerrilha, liberdade com vontade. Bebeu cerveja, que estava ficando meio quente. Talvez
estivesse falando demais e chateando o companheiro pernambucano. Pediram mais uma cerveja.
Quase meia-noite, perto da passagem da década, dos foguetes, da incômoda alegria alheia. O
pernambucano:
-- E o que aconteceu com aquele pessoal?
-- Não sei. Perdi o contato. Está por ai, trabalhando. Sei lá, perdi o contato. Quando sai da prisão não
tinha mais nada a trocar com eles, não procurei mais. Encontrei por acaso um ou outro. Já tem uns seis
anos que não vou a Belô.
-- Terminou a faculdade?
-- Não deixaram. Decreto 477. Entrei na Justiça, claro. Ficou aquele chove-não-molha uns dois anos,
sabe como é esse negócio de Justiça. Bom, aí fui para São Paulo. Também não pude estudar, não me
deram transferência.
-- A família junto.
-- Não, lógico que não. Nem emprego eu tinha. A família em Minas, com a sogra, esperando a
situação melhorar. Eu vendia livros, coleções, enciclopédias, mesma coisa que fazia em Belo Horizonte.
Andava até torto com a pasta, cheio de calos na mão. Depois entrei numa meio besta de bebida, depois
desbundei e andei por aí sem trabalho, meio hippie. Foi a minha pior fase nesses dez anos, incluindo a
prisão. E foi aí que minha mulher, depois de agüentar minha barra quase cinco anos, pediu desquite,
arrumou outro cara, tudo bem.
Resumiu tudo porque tinha desistido de chorar um pouco.

<195>
~:
-- Estava meio perdidão em São Paulo quando encontrei uns antigos companheiros dos tempos de
estudante e fui me ajustando, compreendendo as coisas, deixando a revolta pessoal de lado,
analisando a situação mais em profundidade, me politizando. Me arrumaram emprego e agora estou ai,
quase cinco anos nesse bati-dão político.
-- Você vai gostar do nordeste.
-- Acho que vou sim. Também se não gostar...
-- Isso é. Trabalho é trabalho.
Começaram a estourar os primeiros foguetes. O mineiro levantou o copo, o pernambucano levantou o
dele, tocaram-se em tlin.
-- Porra, tem tanto tempo que eu não vejo minha filha.
O mineiro estava melancólico, com os olhos um pouco úmidos.

O redator-chefe,
Haroldo.
Página 125.
Quem espalhava a história do diário de Samuel sobre Andrea? Como é que um fato, conhecido inteiro
apenas pela polícia, por uma mulher interessada em mantê-lo secreto e um repórter morto pode tornar-
se assunto de bar, das redações, dos chás, das masturbações? Como o pusilânime pode ser invejado?
À proporção que a história tornava-se conhecida, Haroldo, o homem que descobrira a pinta no lado
direito do clitóris de Andrea, era invejado, odiado, procurado por insatisfeitas senhoras em conversas
telefônicas.

O homem
mulato,
Ataíde.
Página 126.
Ataíde perdeu o primeiro dos seus quatro medos no dia seguinte à sua volta da prisão. Cremilda
desmentiu tudo, que investigador nenhum tinha agarrado ela, deveria

<196>
~:

ser algum truque deles. Pois, ela explicou, passou aqueles quarenta dias desesperada foi andando de
uns lugares para outros, para saber onde ele estava preso, que nem isso tiveram a caridade de
informar. Foi ao necrotério, ao pronto-socorro, a uma porção de hospitais, muitas delegacias, ao DOPS
(ele interrompia: que foi que eles falaram? Ela: que não, que ali não estava, que você devia é ter fugido
de casa, tem tanta mulher largada de marido por aí, eles falavam era isso), aos quartéis, disse que foi a
todos os lugares onde havia gente presa ou ferida daquela confusão da Praça da Estação.
O segundo medo Ataíde custou a vencer. Os médicos disseram que aquela mão não tinha mais jeito,
com os 05505 esmagados e sedimentados naquela posição e os ligamentos partidos. O medo de não
poder trabalhar só foi vencido quando aprendeu a pintar com a mão esquerda. Desesperava-se, urrava
de ódio, chutava o rolo de tinta mas acabou pintando quase tão rápido e tão bem quanto com a direita.
O terceiro medo, ter relações aleijado com Cremilda belíssima, nunca foi vencido. Nunca se
acostumaram, os dois, àquela mão seca. Evitava tocar em Cremilda com aquela mão. Descobriu um
truque: enfiava a mão debaixo do travesseiro quando estava em cima dela. Mas começar ficou difícil,
abraçar, ajudar a tirar a calcinha -- sempre gostou de ajudar, gostava muito de ver aparecerem os
cabelinhos. Perdeu o gosto. Antes, tinham relações até cinco vezes por semana. Agora, duas, uma.
O ódio, seu quarto medo, levou-o a planejar um crime com muito cuidado: avisar a todos os amigos e
vizinhos que ia mudar-se para São Paulo; vender móveis, televisão, tudo, e viajar; voltar uns sete
meses depois, com a mulher, escondido, no ônibus que chega às sete da manhã; procurar nos
anúncios uma casa para alugar e Cremilda pediria a chave para olhar se servia (não podia ser de uma
imobiliária porque exigiriam documentos para entregar a chave); depois Cremilda atrairia o investigador
Punzinho até a casa, onde ele já estaria escondido, esperando; que eles fossem tirando a roupa pela
casa vazia, para ele deixar por lá o revólver; que ela deitasse com ele no chão do quarto, como se fosse
trepar; chegar pé ante pé, descalço, encostar o revólver na cabeça dele;

<197>
~:
deixar que ele visse quem ia matá-lo, entregar o revólver para a mulher e enfiar a faca no homem
quantas vezes fosse preciso; limpar as impressões digitais, deixar lá só a calcinha para pensarem em
crime por causa de mulher; pegar o ônibus de volta para São Paulo, chegar pela manhã, trabalhar
normalmente, tentar esquecer tudo aquilo.
Perfeito. Mas por que Cremilda quis, ela mesma, dar as facadas?

“está chamando”
Roberto.
Página 127.
Somente quase um ano depois, Roberto esclareceu o mistério do diário pornográfico de Samuel,
havido, em 71, como um subversivo de ocasião (pela polícia), um anormal sexual (pelas mães de filhas
possuíveis) e um herói incômodo, acusador, símbolo, lição não compreendida que os fez calar durante
muitos anos, humilhados (pelos jovens intelectuais que o conheceram e o tratavam com
condescendência).
Esses detalhes não surgiram antes porque, como se sabe, Roberto não entrou no processo. Nas
vésperas de uma nova festa, a dos seus trinta anos, ele se sente feliz, folgaz, falaz -- e absolutamente
incapaz de segurar uma palavra dentro da boca, loquaz.
-- Era um romance. Li uns pedaços, até bonitos. O Samuel pretendia estender a experiência do
cinema-verdade e a experiência do Truman Capote com A sangue-frio. Seria um romance-verdade. Ele
dizia que pretendia uma reportagem sobre uma pessoa com as minúcias de um Michel Butor, usando
mesmo algumas técnicas do regard. No caso dele acho que era mais técnica do voyeur -- sem maldade,
hem gente. Queria captar toda a vida da pessoa, detalhes, aparências, intimidades, enganos, mentiras
-- toda a verdade. Escolheu Andrea para personagem, escolha maravilhosa, lógico. Melhor, só eu.
Qualquer informação sobre Andrea era anotada, checada, investigada. Se não morresse, ia ficar louco.
Dava dinheiro para o porteiro do prédio dela em troca de relatórios. Seguia-a na rua sem ser visto. Eu
mesmo contei muita

<198>
~:

coisa para ele, até as intimidades. Fiz uma biografia dela para ele que daria um conto maravilhoso.
Maravilhoso. Ele notava todas as roupas que ela usava, como permutava as roupas nos dias da
semana, as bijuterias. Tal colar só usava com tal blusa, tal saia no dia que usava cabelo para cima --
coisas assim, minuciosas. Por isso que eu falei em voyeur, foi sem maldade mesmo. Cada detalhe que
obtinha, aumentava o projeto: queria esgotar Andrea. Ela tem realmente alguma coisa de personagem,
se vê como numa tela iluminada de cinema. Sabe que eu morro de saudade dela? E sabe que eu tive
coragem de telefonar para ela no Rio, convidando para a festa? Não quis atender mas eu deixei recado.
Bom, voltando à historia. Aí, dentro desse esquema é que entra o Haroldo do Correio de Minas, também
um senhor personagem. Um calhorda, lógico. A parte que a polícia pegou do trabalho é a do
depoimento de Haroldo, na primeira pessoa. Acho que daí é que surgiu a confusão. Agora: eu não sei é
por que ele terá contado todas aquelas coisas para o Samuel, se nem sabia que era um romance o que
o outro estava escrevendo. E, sei de gente que já perguntou isso a ele, se ele sabia o que o Samuel
queria fazer com aquele material e ele disse que não. Acho que o filho da pê contava para se fazer
invejado pelo rapaz. Doença. Agora: não sei se são verdadeiros os detalhes íntimos da história, o tal
caso da pinta na xoxota. Se houve mentira foi de Haroldo, porque Samuel não inventava nada estava
fazendo um trabalho rigorosíssimo. O negócio estava meio parado porque chegou a um ponto em que a
colaboração de Andrea era imprescindível e Samuel não tinha coragem de se aproximar. Aí eu acho
que ele estava apaixonado por ela.

O retirante
Viriato.
Página 129.
A partir de 1970, que ficou sendo o ano da desgraça, e muito mais conhecido pelo apelido do que pelo
nome verdadeiro de 1970, os habitantes de Curralin’u, interior do sertão de Alagoas, não emigraram
mais para o sul. Dezessete famílias de Curralin’u emigraram em março

<199>
~:
daquele ano, chamado da desgraça, para Belo Horizonte, Belerizonte na opinião da maioria. Voltaram
sete famílias e Viriato, em agosto; faltavam dez famílias inteiras e mais treze pessoas das famílias que
voltaram, incluindo a mulher de Viriato, o contador da história da fuga, da desgraça e da volta; dos treze
que faltavam, nove eram crianças, uma velha de trinta anos, um filho rapaz, dois pais de família.
A história de Viriato, repetida através dos anos, tornou-se a única e incompreensível verdade em
Curralin’u. Uns dez ou quinze anos depois, a história ficou incompreensível para o próprio Viriato, que a
contava agregando palavras desocupadas, ouvidas talvez de outros participantes da viagem que não
ousavam ou não tinham o dom de historiar.
Se se tentasse dar uma ordem ao que Viriato contava em Curralin’u, em 1985, a história seria mais ou
menos esta:
“Deus tinha desistido de ajudar o sertanejo e o Capeta aproveitava para secar com seu calor os
lugares de que se apossava. Depois de dois anos de morada em terra do Capeta, dezessete famílias de
Curralin’u decidiram desocupar, sem questão. Andaram vários dias e por todo lugar encontraram a
marca latifundiária do Não-sei-que-diga. Em Cabrobó, encontraram trinta e duas famílias que iam
encontrar um homem chamado Marcionílio em Juazeiro. De lá, provável que fossem para o sul.
Formaram quarenta e nove famílias. Em Juazeiro encontraram Marcionílio, com carta de emprego para
lavradores em Minas Gerais, e já chefiando cento e cinqüenta e duas famílias. Ninguém sabia até então
que ele mesmo é que era o capeta Diabo. Algumas vezes pode ser que o Capeta saísse dele para
espairecer e Deus tomava conta, porque ele fazia surgir carne e farinha em bornal vazio, fazia aparecer
leite em garrafa de água, fazia menino quase morto andar. Ou pode ser que o Diabo também saiba
fazer milagres e Marcionílio fosse Capeta o tempo todo, sem descanso.
“Todos pensavam que sabiam para onde o Tinhoso levava o êxodo, Belerizonte. Mas como que a
viagem durou quase um mês, até fim de março? Todo mundo sabe

<200>
~:

que de Juazeiro até Belerizonte se gastam três dias; parando, uma semana. Trens e caminhões se
retardaram com duzentas e uma famílias até que se preparasse no estrangeiro uma cidade igual a
Belerizonte. O que deu mais trabalho foi o Parque, mas isso o Capeta saiu de Marcionílio e foi lá
resolver e voltou, sem perder o lugar.

“Chegados, começou a desgraça. Foram cercados e surrados pelos capangas de Marcionílio, diabos
meganhas, soldadesca. Depois ficaram lá cercados durante três dias, sem comida, esperando o trem
que os levaria vivos ao inferno. Vinha gente de longe ver os nordestinos brasileiros encurralados, como
feira de gado. Falavam a língua brasileira como se tivessem passado muito tempo treinando, mas se
percebia a tramóia por algumas palavras diferentes e o sotaque. Polícia chamava dópis. Meninos e
velhos morreram ali, no cerco. Eram gritos, lamentações, ladainhas, choro -- e aquilo foi fazendo um
barulho tão grande que não deixava mais o povo do lugar dormir. A dez léguas se ouvia o alarido. Então
o governo, com os ouvidos doendo, mandou acabar com aquilo e deixar a gente voltar para o sertão, de
trem. O Capeta dentro de Marcionílio ficou tão quente de ódio que incendiou o banco em que estava
sentado e todos os lugares em que ele encostava pegavam fogo. Virou um grande incêndio. Os
retirantes saíram correndo do trem, dos tiros, dos cavalos, dos carros, das sirenes. Muitos morreram
nessa correria. Do Curralin’u ficaram presas no dópis cinco famílias que tinham ficado juntas no
atropelo. Ali ficou confirmado que Marcionílio era o Demônio comunista e os dópis procuravam os
comparsas dele entre os presos. Muitos apanharam, porque esses dópis são iguais à polícia mesmo, e
alguns até sumiram, mas comida era uma fartura, até duas vezes por dia se comia. Entre outros presos
que chegavam todos os dias, chegaram mais duas famílias do Curralin’u, e foram esses todos os que
voltaram para o sertão. No mês de junho, faltando treze pessoas das sete famílias, foram levados a
uma fazenda do governo para colher milho e batata, vigiados com armas de fogo. Assim se pagava a
comida comida na prisão, muito justo. Trabalharam na colheita até meio de agosto e foram postos no
trem de volta para o sertão, com ordens de nunca mais voltarem a Minas

<201>
~:

Gerais. Marcionílio? Dizem que evaporou-se na prisão, como o Capeta mesmo.

Andrea.
Página 130.
Andrea morreu de pneumonia em 1997, lamentando não realizar seu grande sonho da velhice: ver a
passagem do século. Apesar de os epitáfios estarem completamente fora de moda, a sua exigência foi
cumprida. “Não se esqueçam de nós, do século XX.” -- diz a inscrição no seu túmulo.

Marcionílio
de Mattos.
Página 131.

“LÍDER CAMPONÊS MORTO EM TENTATIVA DE FUGA


O líder camponês e ex-cangaceiro Marcionílio de Mattos foi morto ontem em tiroteio com agentes de
segurança, após empreender espetacular fuga do xadrez do DOPS.
Marcionílio, o frustrado líder camponês que há três meses tentou trazer a subversão do campo para a
cidade, chefiando um verdadeiro regimento de famintos, em conexão com extremistas da capital,
arrebatou a arma de um policial, imobilizou a guarda, ganhou o saguão do DOPS e correu pela Avenida
Afonso Pena abaixo, atirando em seus perseguidores. Um tiro de um dos agentes que corriam em sua
perseguição atingiu o subversivo na cabeça, que caiu já sem vida.”
Esta nota foi distribuída pela Polícia Federal a todos os jornais da cidade e às sucursais dos jornais do
Rio e de São Paulo, no dia 6 de junho de 1970, com a recomendação de não dar destaque na
publicação, O Estado de Minas Gerais fez uma pequena alteração no princípio da nota, acrescentando:
“Segundo informações dos órgãos de segurança”. E o Correio de Minas Gerais substituiu, no final, a
expressão “o subversivo” pelo nome Marcionílio.

<202>
~:

Roberto.
Página 133.
Um grupo de trinta rapazes armados com longos cacetes de madeira invadiu a festa de aniversário de
Roberto em 1971. A porta foi aberta com estrondo de pontapé e os rapazes, de cabelos muito curtos,
civis, entraram correndo, atropelando, batendo, gritando. Excitados pelo pânico que criaram, rasgaram a
roupa de várias mulheres, gritando puta, sua putona; invadiram os dois banheiros da casa e num deles
deixaram desmaiada uma mulher. Quebraram o aparelho de som, televisão, discos, copos, espelhos,
esculturas, quadros, antiguidades, móveis, privadas, bidês, vidros de perfume, garrafas de bebidas,
bibelôs, pratos, cabeças, rasgaram livros, vestidos, cortinas. Quem tentava fugir era espancado na porta
por um grupo que formava uma parede. Roberto apanhava, sangrando, e ouvia: “Está pensando que
pode debochar da gente e ficar por isso mesmo, veado?” Veado, comunista e puta eram seus gritos de
guerra e excitação. Soou um apito e todos juntos largaram suas vitimas e desapareceram pela porta,
compactos, poderosos.
Foi a última festa.

<203>
~:

O AUTOR E SUA OBRA

Saudado pela crítica como uma das maiores revelações da literatura brasileira, Ivan Ângelo fez de “A
lesta” um livro sobre o nosso tempo.
Seu assunto principal, como diz uma das personagens, é o 1970 brasileiro com suas impossibilidades.
Mais que uma interpretação, a obra tem o sentido de um inquérito ou de uma indagação, à maneira de
Francesco Rosi, no filme “O caso Mattei”.
Além disso, o texto -- romance e contos, como quer o autor -- oferece vários tipos de leitura, a partir
da linear, isto é, página após página. Os episódios de sua primeira parte, por exemplo, podem ser lidos
sem nenhuma ordem, como num livro de contos. A segunda parte é um índice remissivo das
personagens, e pode ser lida recorrendo-se ou não à primeira parte. E há ainda leituras independentes
nos dois últimos capítulos, formando histórias autônomas.
São esses “fragmentos”, tratados sempre em estilo documental, jornalístico, evitando a interpretação
em favor da objetividade, que em conjunto conseguem caracterizar intimamente uma personagem,
construir um clima, definir uma situação. Caminhando junto com o leitor na captação de uma realidade,
o autor exprime a angústia de uma época marcada pelo desencanto,pela repressão, pela perplexidade.
Ivan Ângelo nasceu em 1937 e é mineiro. Em 1961 publicou, de parceria com Silviano Santiago,
“Duas faces”. Os sete contos de autoria de Ivan Ângelo haviam recebido, dois anos antes, o prêmio
Cidade de Belo Horizonte. Na capital mineira, o escritor participou da geração “Complemento”, reunida
em torno da revista do mesmo nome, que se publicava na época. Em São Paulo, onde reside desde
1966, trabalha como secretário de redação do “Jornal da Tarde”.