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Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão

Secretaria de Recursos Humanos


Departamento de Normas e Procedimentos Judiciais
Coordenação-Geral de Elaboração, Sistematização e Elaboração das Normas

NOTA TÉCNICA Nº 285/2011/CGNOR/DENOP/SRH/MP


Assunto: Acumulação de Cargos

SUMÁRIO EXECUTIVO

1. A Defensoria Pública Geral da União - DPGU, por meio do Ofício nº 2932/2010-


CRH/DPGU, fls. 9, consulta acerca da impossibilidade de marcação de férias no Sistema
Integrado de Administração de Recursos Humanos – SIAPNET do servidor
XXXXXXXXXXXX, em função da incompatibilidade de horário concernente aos cargos em que
atualmente ocupa: Defensor Público Federal, lotado na Defensoria Pública da União no Estado
do Rio de Janeiro, e de Professor, lotado na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
ANÁLISE

2. Consta em informação proveniente do Ofício supracitado, que o Conselho


Superior da Defensoria Pública da União decidiu, examinando a situação funcional do servidor
em comento, que não existe, no caso, violação às normas constitucionais e legais de
incompatibilidade de horários, motivo pelo qual não há sentido para que seja impossibilitado o
respectivo gozo de férias.

3. Entretanto, a Coordenação de Recursos Humanos da DPGU se manifestou, por


intermédio do Memorando nº 6.685/2010-SRH/DPGU, fls. 8, pela impossibilidade de marcação
do benefício requerido, em virtude da mensagem “jornada excede limite permitido” no
SIAPNET, tendo em vista que a carga horária de 40 (quarenta) horas semanais, para cada cargo,
totaliza 80 (oitenta) horas semanais.

4. Em que pese o entendimento do Conselho Superior da Defensoria Pública da


União, o qual não vislumbrou a existência de infração às regras legais que possam culminar
incompatibilidade de horários nos cargos ocupados pelo servidor em comento, cumpre-nos
destacar que cabe a esta Secretaria de Recursos Humanos (SRH), na condição de Órgão Central
do Sistema – SIPEC, exercer a competência normativa em assuntos relativos ao pessoal civil do
poder Executivo no âmbito da Administração Pública Federal, em conformidade com as
disposições exaradas no artigo 171 da Lei nº 7.923, de 12 de setembro de 1989.

5. No que diz respeito à legislação correlata ao caso apresentado nos autos, convém
ressaltar que no Direito Brasileiro, a acumulação remunerada de cargos e empregos públicos é
proibida por preceitos de ordem constitucional. As exceções estão expressas nas alíneas, a, b e c
do inciso XVI do art. 37, in verbis:

Art. 37 A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficácia e, também, ao seguinte:

XVI – é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quanto houver


compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI.
(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)

a) a de dois cargos de professor; (Incluída pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)


b) a de um cargo de professor com outro de técnico ou científico; (Incluída pela
Emenda Constitucional nº 19, de 1998)
c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões
regulamentadas; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 34, de 2001) (grifos
nossos)

6. Em relação às exceções constitucionalmente previstas, há de se ressaltar que a


acumulação, ainda que licita, impõe a Administração Pública verificar primeiramente se a
situação funcional do servidor está de acordo com as excepcionalidades definidas no texto
constitucional. Nesse sentido, assim dispõe o art. 118 da Lei nº 8.112, de 1990:

Art. 118. Ressalvados os casos previstos na Constituição, é vedada a acumulação


remunerada de cargos públicos.

§ 1º A proibição de acumular estende-se a cargos, empregos e funções em autarquias,


fundações públicas, empresas públicas, sociedades de economia mista da União, do
Distrito Federal, dos Estados, dos Territórios e dos Municípios.
§ 2º A acumulação de cargos, ainda que lícita, fica condicionada à comprovação da
compatibilidade de horários.
§ 3º Considera-se acumulação proibida a percepção de vencimento de cargo ou emprego
público efetivo com proventos da inatividade, salvo quando os cargos de que decorram
essas remunerações forem acumuláveis na atividade. (Incluído pela Lei nº 9.527, de
10.12.97)

7. Depreende-se do acima transcrito, que a compatibilidade de horários fica


configurada quando houver possibilidade de exercício dos dois cargos, funções ou empregos, em
horários distintos, sem prejuízo de número regulamentar das horas de trabalho de cada um, bem

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Art. 17. Os assuntos relativos ao pessoal civil do poder Executivo, na Administração Direta, nas autarquias, incluídas as em
regime especial, e nas fundações públicas, são da competência privativa dos Órgãos integrantes do Sistema de Pessoal Civil da
Administração Federal - Sipec, observada a orientação normativa do Órgão Central do Sistema, revogadas quaisquer disposições
em contrário, inclusive as de leis especiais.

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como o exercício regular das atribuições inerentes a cada cargo.

8. A Advocacia-Geral da União - AGU impõe no bojo do Parecer n° GQ - 145,


publicado no Diário Oficial de 1° de abril de 1998, que é lícita a acumulação de cargos, desde
que não sujeite o servidor a carga horária semanal total superior a 60 horas, sendo essa
acumulação considerada lícita enquanto se comprovar materialmente que o servidor consegue
conciliar a carga horária dos dois cargos.

9. Com relação à jornada de trabalho, a Medida Provisória nº 2.174-28, de 24 de


agosto de 2001, estabelece que ao Defensor Público Federal não é facultado requerer a redução
da jornada de trabalho de oito horas diárias e quarenta semanais.

10. Dessa forma, neste caso concreto, apesar de o cargo de Professor ser acumulável
com o de Defensor Público Federal, resta improcedente a acumulação de dois no que tange ao
quesito da compatibilidade de horários, uma vez que existe uma extrapolação das 60 (sessenta)
horas da jornada de trabalho permitida.

11. Importa constatar que, malgrado o servidor tenha informado ao DPU,


formalmente, por meio do Ofício n° 73/2010/3º NAR, fl. 1, de 03 de dezembro de 2010, que não
foi possível marcar as férias diretamente no sistema SIAPENET, vez que aparece a mensagem
“CACOPENDENT”, em virtude da incompatibilidade de horários dos cargos que atualmente
ocupa, infere-se que a Unidade Administrativa do Ministério da Justiça não adotou nenhuma
providência quanto a acumulação ilegal de cargos pelo servidor, tampouco lhe prestou
orientações relativas às exceções legais de acumulação de cargos.

12. Assim, ao ser detectada a acumulação ilegal de cargos, empregos ou funções


públicas, a Coordenação de Recursos Humanos da Defensoria Pública da União deverá observar
o que determina o artigo 143 c/c o art. 133, da Lei n° 8.112, de 11 de dezembro de 1990,
podendo, inclusive, culminar com a instauração de processo administrativo disciplinar.
CONCLUSÃO

13. Ante o exposto, entende-se, que a despeito da viabilidade de acumulação dos


cargos supramencionados, a ilicitude proveniente da incompatibilidade de horários constatada
pelo acúmulo de 80 (oitenta) horas semanais de trabalho.
14. Nesse contexto cabe frisar a interpretação exarada pelo Advogado Geral da União,

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que, no uso de sua prerrogativa de fixar a interpretação da Constituição da República Federativa
do Brasil (CRFB) a ser seguida por toda a Administração Pública, por intermédio de Parecer nº
GQ – 145, de 30 de março de 1998, entendeu ser ilícita a acumulação de dois cargos públicos
sujeitos em sua totalidade a uma carga horária superior a 60 (sessenta) horas semanais, por não
vislumbrar a possibilidade fática de harmonização dos horários, de maneira a permitir condições
normais de trabalho e de vida do servidor.

15. Ademais, a situação funcional de incompatibilidade de horários que ora se


apresenta enseja à autoridade competente a aplicação das disposições dos artigos 133 e 143 da
Lei 8.112, de 11 de dezembro de 1990.

16. Com tais esclarecimentos, sugerimos a restituição dos autos à Coordenação de


Recursos Humanos da Defensoria Pública da União, para conhecimento e providências
subsequentes, com cópia à Auditoria de Recursos Humanos desta Secretaria – AUDIR, para
conhecimento e adoção das medidas cabíveis.

À consideração superior.
Brasília, de de 2011.

IGOR SIMÕES DA CUNHA MÁRCIA ALVES DE ASSIS


Estagiário da DIPCC Chefe da DIPCC

De acordo. Encaminhe-se à consideração superior.

Brasília, 10 de junho de 2011.

GERALDO ANTÔNIO NICOLI


Coordenador-Geral de Elaboração, Sistematização e Aplicação das Normas

Aprovo. Encaminhe-se à Coordenação de Recursos Humanos da Defensoria


Pública da União, na forma proposta.
Brasília, 10 de junho de 2011.

VALÉRIA PORTO
Diretora do Departamento de Normas e Procedimentos Judiciais