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UMA TEORIA

DA JUSTICA
John Rawls

Tradugfio
ALMIRO PISETTA
LENITA M. R. ESTEVES

Martins Fontes
S60 Paulo ZOOO
1
a
I

* Indice
I

Esta abrafoi publicada originalmente em inglés com 0 titulo \

A THEORY OF JUSTICE par Harvard University Press, U.SA.


Copyrighr © I971 by the President and Fellows ofHarvard College.
Publicado arravés de acordo com Harvard University Press.
Copyrighl © Livraria Marlins Fontes Edilora Li‘da.,
S60 Paulo, I 997, para a presenre edigao.

1‘ edigio
agosro dc I997
2' tiragem
abril de 2000 3%
fiaduqio
I Prefacio d edig:a'0 brasileira ........................................ .. XIII
ALMIRO PISETTA l Prefdcio ........................................................................ .. XXI
LENITA M. R. ESTEVES

P.
Revisio técnica
§ PRIMEIRA PARTE
Dr. Gilda Rios
Revisio grifica
Solange Martins ' TEORIA
Maria Cecilia de Maura Madaras
Produqio gréfica
g -- Geraldo Alves
Capitulo I Jusfiga como equldade ........................... .. 3
.- Pa___gina;.iofFotolitos
Studio 3 Dbaenvolvimento Editorial 1. 0 papel da justiga ............................................... .. 3
‘ 2. O objeto da justiqa.................. .......................... .. 7
Katia Hflrumi Terasaka
I 3. A idéia principal da teoria da justiga .................. .. 12
. 4. A posiqfio original e sua justificativa ................. .. 19
Dildos I dc Cal_lloga|;i0 na Publicagio (CIP)
(Cfimara do Livro, SP, Brasil) A 5. O utilitarismo classico .......... ............................ .. 24
Rawls, John .- ; 6. Algumas disparidades inter-relacionadas ........... .. 30
Uma teoria da justiqa I John Rawls ; tradu<;£io Almiro Pisetta e
Lcnita M. R. Esteves. - S50 Paulo : Martins Fontes, 1997. -
35 7. O intuicionismo .................................................. .. 36
(Ensino Superior) ' 8. O problema da prioridade ................................... .. 44
Titulo original: A" theory of justice. l 9. Algumas observaqfies sobre a teoria moral ........ .. 49
ISBN as-336-0681-s
1. Direito - Filosofia 2. Justiga - Teoria I. Titulo. II. Série. l Capitulo II - Os principios da justiga ........................ .. 57
97-3089 CDU-340.114
Indices para catélogo sistemético:
E 10. As instituigfies e a justi<;a formal ....................... .. K5]
1. Justiga : Dineito : Teoria 340.114
if
-| ' 1 1. Os dois principios da justiga .............................. .. »64“\
’ 12. Interpretagfies do segundo principio ........ ........ .. 69
Todos as direitos para 0 Brasil reservados a 13. A igualdade democratica e 0 priincipio da dife-
Livraria Martins Fontes Editora Lida.
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340
. renga ................................................................... .. 79
01325-000 S60 Paulo SP Brasil A] 14. A igualdade eqiiitativa de oportunidades e a justi- .
Tel. (I1) 239-3677 Fax (11) 3105-6867
e-mail: inf0@marrinsfames.c0m
= ga procedimental pura......................................... .. 89
htrp.'l/wvvw.martin.sf0nres.c0m
l 34. A toleréncia e o interesse comum ...................... .. 229
15. Os bens sociais primarios como a base das ex-
35. A tolerancia para com os intolerantes ................ .. 235
pectativas ............................................................ .. 96
36. A justica politica e a constituicao....................... .. 241
16. Posicfies sociais relevantes ................................. .. 101 w

37. Limitacées do principio de participacao ............ .. 249


17. A tendéncia a igualdade ..................................... .. 107
38. O estado de direito ............................................. .. 257
l8. Principios para individuos: 0 principio de eqiii-
39. Definicao da prioridade da liberdade ................ .. 266
dade .................................................................... .. 116
40. A interpretacao kantiana da justica como eqiii-
19. Principios para individuos: os deveres naturais 122
dade .................................................................... .. 275
Capitulo III — A posicfio original ................................ .. 127
Capitulo V - As parcelas distributivas....................... .. 285
20. A natureza do argumento a favor das concep-
c6es da justica ............................. ............ .. ....... .. 127 1 41. O conceito de justica na economia politica ........ ..
42. Algumas observacfies sobre os sistemas econo-
286
21. A apresentaciio das alternativas .......................... .. A 131
22. As circunstancias da justica ............................... .. 136 micos .................................................................. .. 293
I

23. As restricoes formais do conceito de justo ......... .. 140


I
1 .
43. Instituicfies basicas da justica distributiva ......... .. 303
24. O véu de ignoréincia ........................................... .. 146 44. O problema da justica entre geracfies ................. .. 314
25. A racionalidade das partes ................................. .. 153 45. Preferéncia temporal .......................................... .. 324
26. O raciocinio que conduz aos dois principios da 46. Outros casos de prioridade ................................. .. 329
justica ........................ .......... .1 ...... ............. 162 47. Os preceitos da justica........................................ .. 335
27. O raciocinio que conduz ao principio da utilida- 48. Expectativas legitimas e mérito moral ............... .. 342
de média .......................... ............................ 173 49. Comparacao com concepcoes mistas ................. .. 348
1
28. Algumas dificuldades do principio da utilidade 50. O principio da perfeicfio. .................................... .. 359
média .............. .. .......... ...................................... .. 179
29. Alguns argumentos principals a favor dos dois Capitulo VI - Dever e obrigacao ................................ .. 369
principios da justica ............................... ....... .. 190 51. Os argumentos a favor dos principios do dever
I3
30. Utilitarismo classico, imparcialidade e benevo- natural................................................................. .. 369
léncia .................................................................. .. 200 52. Os argumentos a favor do principio da eqiii-
dade ............................................................. .. 380
53. O dever de obedecer a uma lei injusta................ .. 388
SEGUNDA PARTE 54. A importancia da regra da maioria ..................... .. 395
55. A definicao de desobediéncia civil .................... .. 402
INSTITUICOES 56. A definiciio da objecéio de consciéncia .............. .. 407
57. A justificativa da desobediéncia civil ................ .. 411
Capitulo IV - Liberdade igual .................................... .. 211 58. A justificativa da objeciio de consciéncia .......... .. 418
31. A seqiiéncia de quatro estagios .......................... .. 211 59. O papel da desobediéncia civil ........................... .. 423
32. O conceito de liberdade ...................................... .. 218 ‘E
33. lgual liberdade de consciéncia ..... .................. 223
7

TERCEIRA PARTE 86. O bem do senso de justica ......... ..


87. Consideracées finais explicativas
OBJETIVOS
Notas ................................................... ..
Capitulo VII - A virtude como racionalidade ........... .. 437
Indice remissivo ................................... ..
60. A necessidade de uma teoria do bem ................. .. 437
61. A definicao de bem para casos mais simples ..... .. 441
62. Uma nota sobre o significado ............................ .. 447
63. A definicao de bem para planos de vida ............ .. 450
64. A racionalidade deliberativa............................... .. 460 ‘-0
65. O principio aristotélico ....................................... .. 469
66. A definicao do bem aplicada as pessoas ............ .. 479
67. Auto-estima, exceléncias e vergonha ................. .. 487
68. Varias diferencas entre 0 justo e o bom ............. .. 494 §

Capitulo VIII ~ O senso de jusfica .............................. .. 503


69. O conceito de sociedade bem-organizada .......... .. 504
70. A moralidade de autoridade ................................. 512
71. A moralidade de grupo ....................................... .. 518
72. A moralidade de principios ................................ .. 524
73. Caracteristicas dos sentimentos morais .............. .. 532
>

74. A ligacao entre as atitudes morais e as atitudes


naturais ............................................................... .. 539 1
75. Os principios da psicologia moral ...................... .. 544
76. O problema da estabilidade relativa ................... .. 551 i
77. A base da igualdade ........................................... .. 560

Capitulo IX — O bem da justiqa .................................. .. 571


78. Autonomia e objetividade .................................. .. 571
79. A idéia de uniao social ....................................... .. 579
80. O problema da inveja ......................................... .. 589 tr

81. Inveja e igualdade ............................................... .. 594


82. Os fundamentos para a prioridade da liberdade 602
83. Felicidade e objetivos dominantes...................... .. 610
84. O hedonismo como um método de escolha........ .. 617 |
I

85. A Lmidade do eu ................................................. .. _ 623 I


I_‘_I‘__II_I
II[__'!|R__I_li''It"‘s|_I _| _I_
#3
Prefécio ii edigiio brasileira

I5 com grande prazer que escrevo este prefacio £1 edicao


brasileira de Uma teoria dajustipa‘, que segue o da edicao fran-
cesa dc 1987. Apesar das varias criticas £1 obra, ainda aceito
suas principais coordenadas e defendo suas doutrinas centrais.
Sem dfivida e como se poderia esperar, gostaria de ter procedido
de forma diferente em algunspontos, e atualmente faria varias
revisoes importantes. Mas se estivesse reescrevendo Uma tea-
ria da justiga, nao escreveria, como algumas vezes dizem os
autores, um livro completamente diferente.
Como o prefacio a ediciio francesa foi o primeiro e o imi-
co que escrevi para as edicfies traduzidas, aproveito esta opor-
tunidade para repetir que em fevereiro e marco de 1975 o texto
original em inglés foi consideravelmente revisado para a edi-
1 cao aleméi, que foi publicada naquele ano. Até onde sei essas
revis6es foram incluidas em todas as traducfies seguintes e nao
foi feita mais nenhuma desde entao. Portanto, todas as tradu-
coes, incluindo esta, foram feitas a partir do mesmo texto revi-
sado. Como esse texto inclui o que acredito serem importantes
aperfeicoamentos, as edicoes traduzidas (uma vez preservada a
precisao) sao superiores a edicao em lingua inglesa.
Antes de comentar sobre as mais importantes revisoes e
por que elas foram feitas, quero enfatizar a concepcéio da justi-
ca apresentada em Uma teoria dajustipa, uma concepcao que
chamo dc “justica como eqiiidade”. Considero as idéias e os ob-
jetivos centrais dessa concepcao como os de uma concepcéio
1 filosofica para uma democracia constitucional. Minha espe-
ranca é a dc que a justica como eqiiidade pareca razoavel e fitil,
1
XIV UMA TEORIA 0.4 JUSTIQA PREFA'c10.-4‘ 15019-i"0 BRASILEIRA XV
mesmo que niio seja totalmente convincente, para uma grande Esse ensaio tenta responder o que vim a considerar como sendo
gama de orientacfies politicas ponderadas, e portanto expresse as mais importantes objecoes de Hart. Afirma-se ali que as
uma parte essencial do m'1cleo comum da tradicfio democratica. liberdades e direitos basicos e sua prioridade garantem igual-
Fiz referéncia aos objetivos e idéias centrais dessa concep- mente para todos os cidadaos as condicoes sociais essenciais
céio no prefacio :31 edicao em lingua inglesa. Como explicado ali para o desenvolvimento adequado e para o exercicio pleno e
(no segundo e no terceiro paragrafos desse prefacio) minha consciente de seus dois poderes morais - sua capacidade para
intencao foi formular uma concepcao da justica que fornecesse um senso de justica e sua capacidade para uma concepciio do
uma alternativa razoavelmente sistematica ao utilitarismo, que, bem — naquilo que chamo de os dois casos fimdamentais. Resu-
de uma forma ou de outra, dominou por um longo tempo a tradi- midamente, o primeiro caso fundamental é a aplicacao dos prin-
céio anglo-saxa do pensamento politico. A razao principal para cipios da justica a estrutura basica da sociedade pelo exercicio
buscar essa alternativa é, no meu modo de pensar, a fragilidade do senso de justica dos cidadéios. O segundo caso filndamental é
da doutrina utilitarista como fundamento das instituicoes da a aplicacéio dos poderes de raciocinio e pensamento critico dos
democracia constitucional. Em particular, nao acredito que o cidadéios na formacao, na revisao e na busca racional de sua
utilitarismo possa explicar as liberdades e direitos basicos dos concepcao do bem. As liberdades politicas iguais, incluindo o
cidadfios como pessoas livres e iguais, uma exigéncia de im- seu valor eqiiitativo (uma idéia introduzida na Secfio 36), a
portancia absolutamente primordial para uma consideracfio das liberdade de pensamento, a liberdade de consciéncia e a liber-
instituicfies democraticas. Utilizei uma versao mais geral e dade de associacao, devem garantir que o exercicio dos poderes
abstrata da idéia do contrato social usando para isso a idéia da po- morais possa ser livre, consciente e efetivo nesses dois casos.
sicao original. Uma explicaciio dasliberdades e direitos basi- Considero que essas mudancas na explicacao da liberdade po-
cos, e também de sua prioridade, foi o primeiro obj etivo da jus- dem se encaixar confortavelmente na estrutura da justica como
tica como eqiiidade. Um segtmdo objetivo foi integrar essa ex- eqiiidade apresentada no texto revisado.
plicacao a um entendimento da igualdade democratica, o que Uma outra deficiéncia séria da edicao original em lingua
conduziu ao principio da igualdade eqiiitativa de oportunida- inglesa foi a analise dos bens primarios. Afirma-se nesse texto
des e ao principio da diferencaz. que os bens primarios siio as coisas que as pessoas racionais
Nas revisoes feitas em 1975, stentei retirar certas deficien- desej am, independentemente de quaisquer outras coisas que
cias da edicfio em lingua inglesa. Tentarei indica-las agora, em- elas desej em; a definicao dessas coisas e a sua justificativa de-
bora receie que muito do que direi nao seja inteligivel sem um ven'am ser explicadas pela analise do bem feita no Capitulo VII.
conhecimento prévio do texto. Deixando de lado essa preocupa- Infelizmente, essa analise era ambigua quanto a questao de o
ciio, uma das mais sérias deficiéncias era a explicacfio da liber- estatuto de bem primario depender unicamente dos fatos natu-
dade, cujos pontos fracos foram apontados por H. L. A. Hart em rais da psicologia hllmana ou também depender de uma con-
sua discussfio critica feita em 19733. Comecando com a Secao cepcfio moral de uma pessoa que incorpora um certo ideal.
1 1 do Capitulo II, fiz revisfies para esclarecer varias das dificul- Essa arnbigiiidade deve ser resolvida em favor da segtmda hi-
dades notadas por Hart. Entretanto, devo dizer que a explicacfio potesez devemos considerar que as pessoas tém dois poderes
apresentada no texto revisado, embora bastante melhorada, ain- morais (mencionados acima) e interesses de uma ordem supe-
da nao é totalmente satisfatoria. Uma versao melhor pode ser rior no desenvolvimento e no exercicio desses poderes. Os
encontrada em um ensaio de 1982, intitulado “Basic Liberties bens primarios siio agora caracterizados como aquilo de que as
and Their Priority” [“As liberdades basicas e sua prioridade”]“. pessoas necessitam em sua condicao de cidadiios livres e iguais,
XVI UMA TEORIA DA JUSTIQA PREFA'C10 .4‘ 501910 BRASILEIRA XVII
e dc membros normais e totalmente cooperativos da sociedade principios de justica, considerados como uma unidade, e o prin-
durante toda uma vida. Comparacfies interpessoais para propa- cipio de utilidade (media) como o anico principio de justica.
sitos de justica politica devem ser feitas em terrnos dc uma lista Na segunda comparacao, as partes decidiriam entre ostdois
ordenada de bens primarios dos cidadaos, e considera-se que principios de justica e esses mesmos principios mas com uma
esses bens respondem as suas necessidades como cidadaos, em mudanca irnportante: o principio da diferenca é substituido
oposicao as suas preferéncias e desejos. Comecando pela Se- pelo principio da utilidade (media). (Os dois principios, apés
cao 15, fiz revis6es para expressar essa mudanca de visao, mas essa substituicao, passaram a ser chamados de uma concepcao
essas revisfies ficam aquém da exposicao mais completa que mista, e aqui se entende que o principio da utilidade deve ser
fiz num ensaio posterior, também de 1982, intitulado “Social aplicado obedecendo as restricfies dos principios anteriores: o
Utility and Primary Goods” [“Utilidade social e bens prima- principio das liberdades iguais e o principio da igualdade eqiii-
rios”]5. Como acontece com as mudancas na consideracao das tativa de oportunidades.) A utilizacao dessas duas compara-
liberdades basicas, julgo que as mudancas exigidas por essa caes tem o mérito de separar os argumentos a favor das liberda-
declaracao podem ser incorporadas na estrutura do texto revi- des basicas iguais com sua respectiva prioridade dos argumen-
sado. tos a favor do préprio principio da diferenca. Os argumentos a
Muitas outras revisfies foram feitas, especialmente no Ca- favor das liberdades basicas iguais sao a primeira vista muito
pitulo III e também, embora nao tantas, no Capitulo IV. No mais fortes, enquanto os argumentos a favor do principio da
Capitulo III eu simplesmente tentei tornar o raciocinio mais diferenca envolvem urn equilibrio de consideracfies mais deli-
claro ou menos aberto a mal-entendidos. As revisées sao muito cado. O alvo principal da justica como eqfiidade é atingido a
numerosas para serem indicadas aqui, mas, na minha opiniao, partir do momento em que fica claro que os dois principios se-
nao desviam de forma significativa da visao apresentada na riam adotados na primeira comparacao, ou mesmo em uma ter-
edicao em lingua inglesa. Do Capitulo IV em diante houve ceira corrrparacao na qual a concepcao mista da segunda com-
poucas mudancas. Revisei a Secao 44 do Capitulo V sobre paracao fosse adotada substituindo o principio da utilidade.
poupanca justa, mais uma vez na tentativa de torna-lo mais Continuo a considerar importante o principio da diferenca e
claro; reescrevi também os seis primeiros paragrafos da Secao ainda o defenderia, pressupondo (como na segunda compara-
82 do Capitulo IX para corrigir um erro sério no argumento a cao) uma base institucional que satisfaca os dois principios
favor da prioridade da liberdade“; e ha outras mudancas no res- anteriores. Mas é melhor reconhecer que esse caso é menos
to dessa secao. Tendo identificado o que considero serem as evidente e provavelmente jamais tera a forca do argumento a
duas mudancas importantes, as mudancas feitas nas considera- favor dos dois principios anteriores.
cfies das liberdades basicas e dos bens primaries, talvez essas Uma outra coisa que agora faria de modo diferente é dis-
indicaeaes sejam suficientes para transmitir a natureza e a ex- tinguir com mais precisao a idéia de uma democracia da pro-
tensao das revis6es. priedade privada (introduzida no Capitulo V) da idéia dc estado
Se estivesse escrevendo Uma teoria da justigsa agora, ha do bem-estar social’. Essas idéias sao bastante diferentes, mas
duas coisas que trataria de modo diferente. Uma diz respeito a como ambas perrnitem a propriedade privada de patriménios
como apresentar o argumento a favor dos dois principios da produtivos, podemos ser erroneamente levados a considera-las
justica (ver Capitulo II) a partir da posicao original (ver Capi- como sendo essencialmente a mesma coisa. Uma diferenca
tulo HI). Teria sido melhor apresenta-lo em terrnos dc duas principal é que as instituicées basicas da democracia da pro-
comparacées. Na primeira as partes decidiriam entre os dois priedade privada, com seu sistema de mercados competitivos
PREF/Ic10 A EDIQA0 BRASILEIRA XIX
XVIII UMA TEORIA DA JUSTICA
sociedade. A énfase recai sobre a crescente dispersao, ao longo
(viaveis), tenta dispersar a posse de riqueza e capital, e desse do tempo, da propriedade de capitais e recursos, por intermédio
modo impedir que uma pequena parte da sociedade controle a de direito das sucessfies, sobre a igualdade eqiiitativa de oportu-
economia e, indiretamente, a prépria vida politica. A democra- nidades assegurada por provisiies para a educacao, treinamen-
cia da propriedade privada evita isso nao pela redistribuicao de tos técnicos e coisas afins, e também sobre as instituicées que
renda em favor daqueles que tém menos ao fim de cada perio- dao sustentacao ao valor eqiiitativo das liberdades politicas.
do, mas sim assegurando a posse amplamente difundida de ati- Para termos uma dirnensao de toda a forca do principio da dife-
vos produtivos e capital humano (qualificacfies profissionais e renca, devemos considera-lo no contexto da democracia da
habilitacfies técnicas) no inicio do cada periodo, tudo isso so- propriedade privada (ou de um regime liberal-socialista) e nao
bre uma base de liberdades basicas iguais e igualdade eqiiitati- no contexto de um estado do bem-estar social: trata-se de um
va de oportunidades. A idéia nao é simplesmente auxiliar aque- principio dc reciprocidade, ou mutualidade, para a sociedade
les que malogram devido a um acidente ou a uma falta de sorte considerada como um sistema eqiiitativo de cooperacao entre
(embora isso deva ser feito), mas sim colocar todos os cidadaos cidadaos livres e iguais, de uma geracao para a outra.
em posicao de lidar com seus préprios problemas e tomar parte A mencao (feita algumas linhas atras) de um regime libe-
na cooperacao social, tendo como sustentaculo o respeito ma- ral-socialista me obriga a acrescentar que a justica como eqiii-
tuo sob condicfiessapropriadamente iguais. dade nao decide se os seus principios sao realizados com mais
Notem-se aqui duas concepcfies muito diferentes do obje- sucesso por algmna forma de democracia da propriedade pri-
tivo das instituicfies politicas através do tempo. Em urn estado vada ou por urn regime liberal-socialista. Deixa-se a questao
do bem-estar social, 0 objetivo é que ninguém fique abaixo de em aberto, para que seja resolvida pelas condicées histéricas,
um padrao decente dc vida, e que todos possam receber certas tradicfies, instituicées e forcas sociais de cada nacaos. Como
protecfies contra acidentes e a ma sorte, por exemplo, seguro- uma concepcao politica, a justica como eqiiidade nao inclui,
desemprego e assisténcia médica. A redistribuicao de renda ser- portanto, nenhum direito natural de propriedade privada dos
ve a esse propésito quando, ao fim de cada periodo, aqueles que meios de producao (embora de fato inclua um direito dc pro-
precisam de assisténcia podem ser identificados. Esse sistema priedade pessoal como necessario a independéncia e a integri-
pode permitir grandes desigualdades hereditarias de riqueza dade dos cidadaos), nem um direito natural a propriedade e a
que sao incompativeis com o valor eqiiitativo das liberdades gestao de empresas pelos trabalhadores. Em vez disso, oferece
politicas (apresentado na Secao 36), como também grandes dis- uma concepcao da justica a luz da qual, dadas as circunstancias
paridades de ganho que violam o principio da diferenca. Embo- particulares de uma nacao, essas quest6es podem ser resolvi-
ra se esforce para assegurar a igualdade eqiiitativa de oportuni- das de forma racional.
dades, o sistema é insuficiente, ou ainda ineficaz, dadas as dis-
A John Rawls
paridades de riqueza e a influéncia politica por elas permitida . Novembro, 1990.
Em contraste, em uma democracia da propriedade parti-
cular o objetivo é levar a cabo a idéia dc sociedade como um
sistema eqiiitativo de cooperacao ao longo do tempo, entre os
cidadaos como pessoas livres e iguais. Dessa forma, as institui-
cfies basicas devem desde o principio conceder aos cidadaos
em geral, e nao apenas a uns poucos, os meios produtivos que
lhes permitam ser membros totalmente cooperativos de uma
Prefacio

Ao apresentar Uma teoria dajustiga, tentei reunir em uma


visao coerente as idéias veiculadas nos artigos que escrevi ao
longo dos altimos doze anos aproximadamente. Todos os tapi-
cos centrais desses artigos sao retomados, de modo geral com
muito mais detalhamento. As outras questfies necessarias para
completar a teoria também sao discutidas. A exposicao se divi-
deem trés partes: A primeira parte cobre, corn muito maior
elaboracao, o mesmo terreno de “Justice as Fairness” [“Justica
como eqiiidade”] (1958) e “Distributive Justice: Some Adden-
da” [“Justica distributiva: alguns adendos”] (1968), enquanto
os trés capitulos da segtmda parte correspondem, respectiva-
mente, mas com muitos acréscimos, aos tépicos de “Constitu-
tional Liberty” [“Liberdade constitucional”] (1963), “Distribu-
tive Justice” [“Justica distributiva”] (1967), e “Civil Disobe-
dience” [“Desobediéncia civil”] (1966). O segtmdo capitulo da
filtima parte cobre os temas de “The Sense of Justice” [“O senso
de justica”] (1963). Exceto em uns poucos lugares, os outros ca-
pitulos dessa parte nao sao paralelos aos ensaios publicados.
Embora as idéias principais sejam em grande parte as mesmas,
tentei eliminar inconsisténcias e completar e fortalecer o argu-
mento em muitos pontos.
Talvez eu possa explicar o meu objetivo principal neste
livro da seguinte forma: em grande parte da filosofia moral mo-
derna, a teoria sistematica predominante tem sido alguma
forma de utilitarismo. Um dos motivos para isso é que o utilita-
rismo foi adotado por uma longa linhagem de brilhantes escri-
tores, que construiram um corpo de pensamento verdadeira-
XXII UMA TEORIA DA JUSTIQA PREF/1'c10 XX111
mente impressionante em seu alcance e refinamento. Algumas tratualista, e se apontar o caminho para a uma elaboracao maior
vezes esquecemos que os grandes utilitaristas, Hume e Adam dessa concepcao. Entre as vis5es tradicionais, acredito ser essa
Smith, Bentham e Mill, foram teéricos sociais e economistas a concepcao que mais se aproxima de nossos juizos pondera-
de primeira linha, e que sua doutrina moral foi estruturada para dos sobre a justica, e que constitui a base moral mais apropria-
responder as necessidades de seus interesses mais amplos e da para uma sociedade democratica.
para se encaixar em um esquema abrangente. Aqueles que os Este é um livro longo, nao apenas em nfrmero de paginas.
criticaram com freqiiéncia o fizeram a partir de uma perspecti- Portanto, a fim de facilitar as coisas para 0 leitor, seguem algu-
va muito mais restrita. Eles apontaram as obscuridades do prin- mas observacfies a titulo de orientacao. As idéias intuitivas
cipio da utilidade e notaram as aparentes incongruéncias entre fundamentals da teoria da justica sao apresentadas nos §§ 1-4
muitas de suas implicacées e nossos sentimentos morais. Mas do Capitulo I. Dai é possivel ir diretamente para a discussao
creio que nao foram capazes de construir uma concepcao mo- dos dois principios de justica para instituicées nos §§ l 1-17 do
ral sistematica e viavel que se opusesse a esse principio. O Capitulo II, e depois para a explicacao da posicao original que
resultado é que muitas vezes parecemos forcados a escolher ocupa todo o Capitulo III. Urna olhadela no § 8, a respeito do
entre o utilitarismo e o intuicionismo. O mais provavel é que no problema da prioridade, A pode revelar-se necessaria se essa
fim acabemos nos acomodando em uma variante do principio nocao nao for conhecida. Em seguida, partes do Capitulo IV, os
da utilidade que é circunscrita e limitada no arnbito de certas §§ 33-35, sobre a liberdade igual, e os §§ 39-40, sobre o signi-
forrnas ad hoc por restricfies intuicionistas. Tal visao nao é ir- ficado da prioridade da liberdade e a interpretagao kantiana,
racional e nao ha certeza de que possamos fazer coisa melhor. oferecem o melhor quadro da doutrina. Até aqui, temos cerca
Mas isso nao é motivo para que nao tentemos. de urn terco do todo, que refine a maior parte do que é essencial
Minha tentativa foi de generalizar e elevar a uma ordem a teoria.
mais alta de abstracao a teoria tradicional do contrato social re- Entretanto, ha perigo de que, sem uma consideracao do
presentada por Locke, Rousseau e Kant. Desse modo, espero argumento da altima parte, a teoria da justica nao seja correta-
que a teoria possa ser desenvolvida de forrna a nao mais ficar mente entendida. Em particular, as seguintes secées devem ser
aberta as mais ébvias obj ec6es que se lhe apresentam, muitas enfatizadas: os §§ 66-67 do Capitulo VII, sobre valor moral,
vezes consideradas fatais. Além disso, essa teoria parece ofere- respeito préprio e nocfies correlatas; o § 77 do Capitulo VIII, a
cer uma explicacao sistematica altemativa da justica que é base daigualdade; os §§ 78-79, sobre autonomia e uniao social;
superior, ou pelo menos assim considero, ao utilitarismo domi- o § 82, sobre a prioridade da liberdade, e os §§ 85-86, sobre a uni-
nante da tradicao. A teoria resultante é altamente kantiana em dade do eu e a congruéncia, todos no Capitulo IX. Acrescen-
sua natureza. Na verdade, devo abdicar de qualquer pretensao tando essas sec6es as outras ainda temos bem menos da metade
de originalidade em relacao as visfies que apresento. As princi- do texto. -
pais idéias sao classicas e bem conhecidas. Minha intencao foi Os titulos das secfies, as observacaes que introduzem cada
organiza-las em uma estnrtura geral através da utilizacao de capitulo e o indice remissivo indicarao ao leitor o conterfrdo do
certos recursos simplificadores, de modo que toda a sua forca livro. Esse comentario parece supérfluo, exceto para dizer que
pudesse ser apreciada. Minhas ambicfies para o livro estarao evitei discussiies metodolégicas extensivas. Ha uma breve con-
completamente realizadas se ele possibilitar ao leitor uma vi- sideracao sobre a natureza da teoria moral no § 9 e sobre a jus-
sao mais clara das principais caracteristicas estruturais da con- tificativa no § 4 e no § 87. Uma pequena digressao sobre o sig-
cepcao alternativa de justica que esta irnplicita na tradicao con- nificado do “bem” pode ser encontrada no § 62. Ocasional-
XXIV UMA TEORIA DA JUSTICA PREF/1C10 XXV
social de uni6es sociais e a da prioridade da liberdade. Tive
mente ha comentarios metodolégicos e apartes, mas em geral
discuss6es proveitosas com David Richards sobre os proble-
tento levar a cabo uma teoria consistente da justica. Compara-
mas da obrigacao e do dever politicos. Embora a supereroga-
cries e contrastes com outras teorias, assim como criticas oca-
cao nao seja um tépico central do livro, fui auxiliado em meus
sionais que lhes faco, especialmente ao utilitarismo, sao consi-
comentarios sobre o assrmto por Barry Curtis e John Troyer;
deradas como meios para atingir esse fim.
mesmo assim eles podem ainda ter obj ec6es ao que digo. Devo
Ao nao incluir a maior parte dos Capitulos IV-VIII nas
também agradecer a Michael Gardner e Jane English por va-
partes mais basicas do livro, nao pretendo sugerir que esses ca-
rias correcfies que consegui fazer no texto final.
pitulos sejam periféricos, ou simplesmente aplicacfies. Ao con-
Tive a felicidade de receber valiosas criticas das pessoas
trario, acredito que um teste importante para uma teoria da jus-
que discutiram meus ensaios em resenhas e artigos‘. Agradeco
tica é verificar com que grau de eficiéncia ela pode introduzir
a Brian Barry, Michael Lessnoff e R. P. Wolff por suas discus-
ordem e sistema em nossos juizos ponderados relativos a uma
s6es sobre a forrnulacao dos dois principios da justica e sobre o
ampla gama de quest6es. Portanto, os tépicos desses capitulos
precisam ser tratados, e as conclusfies atingidas devem, por sua argumento que os sustenta’. Nos pontos onde nao aceitei as
conclusaes deles, fiii obrigado a ampliar a argurnentacao para
vez, modificar a visao proposta. Mas, com respeito a isso, o
responder as suas objecfies. Espero que a teoria como agora se
leitor esta mais livre para seguir suas preferéncias e examinar
apresenta nao esteja mais exposta as dificuldades que eles
os problemas que mais lhe interessem.
levantaram, nem aquelas apontadas por John Chapmani. A re-
lacao entre os dois principios da justica e o que chamo de con-
Ao escrever este livro contrai muitas dividas, além daque-
cepcao geral da justica é semelhante aquela proposta por S. I.
las indicadas no texto. Algumas eu gostaria de indicar aqui.
Benn“. Agradeco a ele, e também a Lawrence Stem e Scott
Trés versfies diferentes do manuscrito passaram pelas maos de
Boorman, por sugestfies nesse sentido. A esséncia das criticas
alunos e colegas, e me beneficiei dc modo incalculavel das
de Norman Care a concepcao da teoria moral encontrada nos
iniuneras sugestfies e criticas que recebi. Agradeco a Allan
ensaios me parece sélida, e eu tentei desenvolver a teoria da
Gibbard por sua critica a primeira versao (1964-65). Para res-
justica de modo a evitar as suas obj e<;6e.s5. Fazendo isso, apren-
ponder as suas objecfies ao véu de ignorancia como apresenta-
dimuito com Burton Dreben, que me esclareceu a visao de W.
do entao, pareceu necessario incluir uma teoria do bem. A
V Quine e me convenceu de que as nocfies de significado e
nocao de bens primarios, baseada na concepcao discutida no
analiticidade nao tém papel essencial na teoria moral tal como
Capitulo VII, é o resultado. Também devo agradecimentos a
a concebo. Sua relevancia para outras questties filoséficas nao
ele, juntamente com Norman Daniels, por terem apontado as
precisa ser discutida aqui num ou noutro sentido, mas eu tentei
dificuldades da minha explicacao do utilitarismo como um
tornai a teoria da justica independente delas. Assim, segui com
fundamento para os deveres e obrigacoes individuais. As obje-
algumas modificacfies a visao apresentada em meu “Outline
cfies deles me levaram a eliminar grande parte desse tépico e a
for Ethics” [“Esboco para a ética”]‘. Também gostaria de agra-
simplificar o tratamento dessa parte da teoria. David Diamond
decer a A. K. Sen por suas perspicazes discussfies e criticas
fez sérias objecfies a minha discussao da igualdade, particular-
sobre a teoria da justica’. Sua colaboracao me possibilitou me-
mente porque ela deixava de considerar a relevancia do status.
lhorar a apresentacao em varios pontos. Seu livro revelar-se-a
Por fim acabei incluindo uma consideracao sobre o respeito
indispensavel aos filésofos que desejem estudar a teoria mais
préprio como um bem primario para tentar lidar com essa e
formal da escolha social, da maneira como os economistas a
com outras quest6es, inclusive a da sociedade como uma uniao
XXVI UMA TEORIA DA JUST[CA PREF/1'C10 XXVI}

consideram. Ao mesmo tempo, os problemas filoséficos rece- de expressar meu profundo reconhecimento por seu apoio em
bem urn tratamento cuidadoso. 1969-1970, e também pelo apoio das fundacées Guggenheim
Muitas pessoas se dispuseram a fazer comentarios por e Kendall em 1964-1965. Agradeco a Anna Tower e a Mar-
escrito sobre as varias versfies do manuscrito. Os comentarios de garet Griffin pela ajuda no manuscrito final.
Gilbert Harman em relacao ao primeiro manuscrito foram fun- Sem a boa vontade de todas essas boas pessoas eu nunca
damentais e me forcaram a abandonar varias posicfies e a fazer teria podido terminar este livro.
algumas mudancas basicas em muitos pontos. Recebi outros
John Rawls
enquanto estava no Instituto de Filosofia em Boulder (verao
Cambridge, Massachusetts
de 1966), de Leonard Krimerman, Richard Lee e Huntington
Agosto, 1971.
Terrell; posteriorrnente, mais um de Terrell. Tentei me acomodar
a eles, e também aos comentarios bastante extensos e instrutivos
de Charles Fried, Robert Nozick e J. N. Shklar, cada um tendo
sido de grande ajuda ao longo de todo o meu trabalho. No desen-
volvirnento de uma explicacao do bem, recebi muitas contribui-
cties de J. M. Cooper, T. M. Scanlon e A. T. Tymoczko, como
também das discussfies ao longo de muitos anos com Thomas
Nagel, a quem também devo o esclarecimento da relacao entre a
teoria da justica e o utilitarismo. Devo também agradecer a R. B.
Brandt e a Joshua Rabinowitz por suas varias e ilteis idéias para
o aperfeicoamento do segundo manuscrito (1967-1968), e a B. J.
Diggs, J. C. Harsanyi e W. G. Runcirnan por uma iluminadora
correspondéncia.
Durante a redacao da terceira versao (1969-1970), Brandt,
Tracy Kendler, E. S. Phelps e Amélie Rorly foram uma fonte
constante de aconselhamento, e suas criticas foram de grande
ajuda. Para esse manuscrito, recebi de Herbert Morris, Lessnotf
e Nozick muitos comentarios e sugest6es de mudanca que fo-
ram altamente valiosos. Essas sugestées e comentarios me li-
vraram dc varios lapsos e tornaram o livro muito melhor. Sou
particularmente agradecido a Nozick por sua incansavel ajuda
e encorajamento nas irltimas etapas. Lamentavehnente, nao
pude lidar com todas as criticas recebidas, e estou plenamente
consciente das falhas que ainda persistem; mas a medida de
minha divida nao é a deficiéncia em relacao ao que poderia ter
sido, mas a distancia percorrida desde os primardios.
O Centro de Estudos Avancados em Stanford me forne-
ceu um lugar ideal para completar meu trabalho. Eu gostaria
mEM<m
§_m2Em fi_ _ Qr_L
Capitulo I
Justiga como eqfiidade

Neste capitulo introdutério esboco algumas das principais


idéias da teoria da justica que desejo desenvolver. A exposicao
é informal e visa preparar o caminho para os argumentos mais
detalhados que vém em seguida. Inevitavelmente ha alguma
superposicao entre esta e outras discussées. Comeco descre-
vendo o papel da justica na cooperacao social e apresentando
uma breve explicacao do obj eto primario da justica, a estrutura
basica da sociedade. Apresento em seguida a idéia da justica
como eqiiidade, uma teoria da justica que generaliza e leva a
urn nivel mais alto de abstracao o conceito tradicional do con-
trato social. O pacto social é substituido por uma situacao ini-
cial que incorpora certas restricfies de conduta baseada em
razfies destinadas a conduzir a um acordo inicial sobre os prin-
cipios da justica. Também trato, para fins de esclarecirnento e
contraste, das concepcfies classicas da justica — a utilitaria e a
intuiciorrista e considero algumas das diferencas entre essas
vis6es e a da justica como eqiiidade. O objetivo que me norteia
é elaborar uma teoria da justica que seja uma alterrrativa para
essas doutrinas que ha muito tempo dominam a nossa tradicao
filoséfica.

1. O papel da justica

A justica é a primeira virtude das irrstituicfies sociais, como


a verdade o é dos sistemas de pensamento. Embora elegante e
econamica, uma teoria deve ser rejeitada ou revisada se nao é

,-
\.

4 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 5


verdadeira; da mesma forma leis e instituicfiies, por mais efi- I-._ . .-n-nub‘
seus préprios esforcos. Ha um conflito de interesses porque as
cientes e bem organizadas que sej am, devem ser reformadas ou pessoas nao sao indiferentes no que se refere a como os benefi-
abolidas se sao injustas. Cada pessoa possui uma inviolabilida- cios maiores produzidos pela colaboracao matua sao distribui-
Q-__

de fundada na justica que nem mesmo o bem-estar da socieda- i


dos, pois para perseguir seus fins cada um prefere uma partici-
de como um todo pode ignorar. Por essa razao, a justica nega pacao maior a uma menor. Exige-se um conjunto de principios
que a perda da liberdade de alguns se justifique por um bem I
para escolher entre varias formas de ordenacao social que de-
maior partilhado por outros. Nao permite que os sacrificios im- terminam essa divisao de vantagens e para selar um acordo so-
postos a uns poucos tenham menos valor que o total maior das 9
bre as partes distributivas adequadas. Esses principios sao os
vantagens desfrutadas por muitos.) Portanto numa sociedade principios da justica social: eles fornecem um modo de atribuir
A

justa as liberdades da cidadania igual sao consideradas invio- direitos e deveres nas instituicées basicas da sociedade e defi-
laveis; os direitos assegurados pela justica nao estao sujeitos a i nem a distribuicao apropriada dos beneficios e encargos da
negociacao politica ou ao calculo de interesses sociais. A {mica r
2 cooperacao social. -
coisa que nos permite aceitar um teoria erranea é a falta de E
Digamos agora que uma sociedade é bem-ordenada nao
uma teoria melhor; de forma analoga, uma injustica é toleravel apenas quando esta planejada para promover o bem de seus
somente quando é necessaria para evitar uma injustica ainda membros mas quando é também efetivarnente regulada por
maior. Spendo virtudes primeiras das atividades humanas, a ver- uma concepcao publica de justica. Isto é, trata-se de tuna socie-
dade e a justica saoindisponiveis. dade na qual (1) todos aceitam e sabem que os outros aceitam
Essas proposicaes parecem expressar nossa conviccao os mesmos principios de justica, e (2) as instituicaes sociais
intuitiva sobre a primazia da justica. Sem dirvida estao expres- I basicas gerahnente satisfazem, e geralmente se sabe que satis-
sas de modo excessivamente forte. De qualquer forrna, desejo fazem, esses principios. Neste caso, embora os homens possam
indagar se essas afirmacfies ou outras semelhantes sao bem fitn- fazer excessivas exigéncias mutuas, eles contudo reconhecem
dadas, e, caso o sejam, como se podem explicar. Com esse in- um ponto de vista comum a partir do qual suas reivindicacaes
tuito é necessario elaborar uma teoria da justica a luz da qual podem ser julgadas. Se a inclinacao dos homens ao interesse
essas assercées possam ser interpretadas e avaliadas. Comeca- préprio torna necessaria a vigilancia de uns sobre os outros,
rei considerando o papel dos principios da justica. Vamos assu- seu sentido pilblico de justica torna possivel a sua associacao
mir, para fixar idéias, que uma sociedade é uma associacao segura. Entre individuos com objetivos e propésitos dispares
mais ou menos auto-suficiente de pessoas que em suas rela- ~<~'4QIu~|Iv
&
uma concepcao partilhada de justica estabelece os vinculos da
ciies mutuas reconhecem certas regras de conduta como obri- v
,-.

convivéncia civica; o desejo geral de justica limita a persecu-


gatérias e que, na maioria das vezes, agem de acordo com elas.
1

5\
cao de outros fins. Pode-se imaginar uma concepcao da justica
Suponhamos também que essas regras especifiquem um siste- como constituindo a carta fundamental de uma associacao hu-
ma de cooperacao concebido para promover o bem dos que fa- Z

mana bem-ordenada.
zem parte dela. Entao, embora uma sociedade seja um empre- 5
/ Sociedades concretas sao, é ébvio, raramente bem-orde-
endimento cooperativo visando vantagens matuas, ela é tipica- t
nadas nesse sentido, pois o que é justo e 0 que é inj usto esta ge-
mente marcada por uni‘ conflito bem como por uma identidade ralmente sob disputa. Os homens discordam sobre quais prin-
de interesses. Ha uma identidade de interesses porque a coope- cipios deveriarn definir os termos basicos de sua associacao.
racao social possibilita que todos tenham uma vida melhor da ! Todavia ainda podemos dizer, apesar dessa discordancia, que
que teria qualquer um dos membros se cada um dependesse de I
cada um deles tem sua concepcao da justica. Isto é, eles enten-
I
1

TEORJA 7
6 UMA TEORIA DA JUSTICA
nortear a acao; e quando ocorrem infracées, devem existir for-
dem que necessitam, e estao dispostos a defender, a necessida- 1

de de um conj unto de principios para atribuir direitos e deveres


\
cas estabilizadoras que impecam maiores violacfies e que ten-
basicos e para determinar o que eles consideram como a distri- dam a restaurar a organizacao social. Agora é claro que esses
buicao adequada dos beneficios e encargos da cooperacao tres problemas estao vinculados com o da justica. Na auséncia
social. Assim parece natural pensar no conceito de justica de uma certa medida de consenso sobre o que é justo e o que é
inj usto, fica claramente mais dificil para os individuos coorde-
como sendo distinto das varias concepciies de justica e como
sendo especificado pelo papel que esses diferentcs conjuntos nar seus planos com eficiéncia a fim de garantir que acordos
de principios, essas diferentes concepcées, tém em comum‘. rnutuamente benéficos sejam mantidos. A desconfianca e o
Desse modo, os que defendem outras concepcaes de justica ressen-trmento corroem os vinculos da civilidade, e a suspeita e
podem ainda assim concordar que as instituicfres sao justas I
alhostrlrdade tentam os homens a agir de maneiras que eles em
quando nao se fazpem distincées arbitrarias entre as pessoas na crrcunstancias diferentes evitariarn. Assim, embora o papel
atribuicao de direitos e deveres basicos e quando as regras de- drstrntrvo dasconcepcaes da justica seja especificar os direitos
terminam um equilibrio adequado entre reivindicacfies concor- I
e deveres basicos e determinar as partes distributivas apropria-
I

rentes das vantagens da vida social. Os homens conseguem i das, a maneira como uma concepcao faz isso necessariamente
afizta os problemas de eficiéncia, coordenacao e estabilidade.
concordar com essa descricao de instituicfies justas porque as
nocaes de uma distincao arbitraria e de um equilibrio apropria- Nao podemos, em geral, avaliar uma concepcao da justica uni-
do, que se incluem no conceito de justica, ficam abertas a in- camente por seu papel distributivo, por mais irtil que ela seja na
terpretacao de cada um, de acordo com os principios da justiqa rdentrfrcacao do conceito de justica. Precisamos levar em conta
que ele aceita. Esses principios deterrninam quais semelhancas 1-.
suas conexfies mais amplas; pois embora a justica tenha uma
e diferencas entre as pessoas sao relevantes na determinacao de
1
certa prioridade, sendo a virtude mais importante das institui-
direitos e deveres e especificam qual divisao de vantagens é 1. c6es, ainda é verdade que, em condicfies iguais, uma concep-
apropriada. E claro que essa distincao entre o conceito e as va- cao da justica é preferivel a outra quando suas conseqiiéncias
rias concepcfies de justica nao resolve nenhuma questao im- mais amplas sao mais desejaveis.
portante. Simplesmente ajudaa identificar o papel dos princi-
pios dajustica social.
Um certo consenso nas concepcaes da justica nao é, toda- 2. O objeto da justica
via, o unico pré-requisito para uma comunidade humana via-
vel. Ha outros problemas sociais fundamentais, em particular Muitas espécies diferentes de coisas sao consideradas jus-
os de coordenacao, eficiéncia e estabilidade. Assim, os planos tas e IHJLISIEISI nao apenas as leis, as instituicées e os sistemas
dos individuos precisam se encaixar uns nos outros para que as sociais, mas também determinadas acées de muitas espécies,
varias atividades sej am compativeis entre si e possam ser todas ll'lCll.I1I1(I0 decisées, julgamentos e imputacées. Também cha-
executadas sem que as expectativas legitimas de cada um so- mamos de justas e injustas as atitudes e disposicées das pes-
soas, e_ as proprras pessoas. Nosso tépico, todavia, é 0 da justi-
fram frustracfies graves. Mais ainda, a execucao desses planos
ca socral. Para nés o objeto primario da justica é a estrutura
deveria levar a consecucao de fins sociais de formas eficientes
basica ‘dasociedade, ou mais exatamente, a maneira pela qual
e coerentes com a justica. E por fim, o esquema de cooperacao
as rnstrturcfies sociais mais importantes distribuem direitos e
social develser estavel: deve ser observado de modo mais ou
menos regular e suas regras basicas devem espontaneamente deveres fundamentais e determinam a divisao de vantagens
8 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 9

provenientes da cooperacao social. Por instituicfies mais im- vantajoso ou desvantajoso, estaremos interessados em apenas
portantes quero dizer a constituicao politica e os principais acor- uma rnstancia de sua aplicacao. Nao ha motivo para supor de
dos econamicos e sociais. Assim, a protecao legal da liberdade antemao que os principios satisfatérios para a estrutura basica
de pensamento e de consciéncia, os mercados competitivos, a se mantenham em todos os casos. Esses principios podem nao
propriedade particular no ambito dos meios de producao e a funcronar para regras e praticas de associacfies privadas ou
familia monogamica constituem exemplos das instituicaes so- para aquelas de grupos sociais menos abrangentes. Podem ser
ciais mais importantes. Tomadas em conjunto como um unico irrelevantes para os diversos usos informalmente consagrados
esquema, as instituicées sociais mais importantes definem os e comportamentos do dia-a-dia; podem nao elucidar a justica,
direitos e deveres dos homens e influenciam seus projetos de ou melhor talvez, a eqiiidade de organizacfies de cooperacao
vida, o que eles podem esperar vir a ser e o bem-estar econ6mi- voluntarra ou procedimentos para obter entendimentos contra-
co que podem almejar. A estrutura basica é o objeto primario tuars. As condicées para o direito internacional talvez exija
da justica porque seus efeitos sao profundos e estao presentes principios diferentes descobertos de um modo um pouco dife-
desde o comeco. Nossa nocao intuitiva é que essa estrutura rente. Ficarei satisfeito se for possivel formular um concepcao
contém varias posicées sociais e que homens nascidos em con- I razoavel da justica para a estrutura basica da sociedade conce-
dicfies diferentes tém expectativas de vida diferentes, determi- brda por ora como um sistema fechado, isolado de outras socie-
nadas, em parte, pelo sistema politico bem como pelas circuns-
I
dades. A importancia desse caso especial é ébvia e nao precisa
tancias econémicas e sociais. Assim as instituicées da socieda- de nenhuma explicacao. E natural conjeturar que, assim que
de favorecem certos pontos de partida mais que outros. Essas trvermos uma teoria sélida para esse caso, a sua luz os proble-
sao desigualdades especialmente profundas. Nao apenas sao mas restantes da justica se revelarao administraveis. Com mo-
difusas, mas afetam desde o inicio as possibilidades de vida dificacfies adequadas essa teoria deveria fornecer a chave para
1

dos seres humanos; contudo, nao podem ser justificadas me- J


algumas outras questfies.
I --_-'

diante um apelo as noc6es de mérito ou valor. E a essas desi- ,_,A,out1fa ..1iI11iI%1§-50 em nossa discussao é que na maioria
gualdades, supostamente inevitaveis na estrutura basica de dos casos examino os principios de justica que deveriam regu-
qualquer sociedade, que os principios da justica social devem lar uma sociedade bem-ordenada. Presume-se que cada um aja
ser aplicados em primeiro lugar. Esses principios, entao, regu- I
com justrca e cumpra sua parte para manter instituicfies justas.
lam a escolha dc uma constituicao politica e os elementos prin- Embora a justrca possa ser, com observou Hume, a virtude cau-
cipais do sistema econamico e social. A justica de um esquema I telosa e ciumenta, ainda podemos perguntar como seria uma
social depende essencialmente de como se atribuem direitos e sociedade perfeitamente justaz. Assim examino primeiramente
deveres fundamentais e das oportunidades econamicas e con- o que chamo de teoria da conformacao estrita em oposicao a
dicfies sociais que existem nos varios setores da sociedade. teoria da conformacao parcial (§§ 25, 39). Esta altima estuda
O alcance de nossa indagacao esta limitado de duas ma- _QS principios que determinam como devemos lidar com a in-
neiras. Primeiramente, preocupa-me um caso especial do pro- jus_t_ica_,_ Abrange tépicos tais como a teoria da pena, a doutrina
blema da justica. Nao considerarei a justica de instituicfies e da guerra justa e a justificagao das varias maneiras de oposicao
praticas sociais em geral, nem, a nao ser de passagem, a justica a regimes injustos, variando da desobediéncia civil e da obje-
das leis nacionais e das relacfies internacionais (§ 58). Portan- cao de consciéncia a resisténcia armada e a revolucao. Tam-
to, se supusermos que o conceito de justica se aplica sempre bém se incluem aqui questées de justica compensatéria e da
que ha uma distribuicao de algo considerado racionalmente avaliacao de uma forma de injustica institucional em relacao a
10 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 11

outra. E ébvio que os problemas da teoria da submissao parcial parte mais importante, de uma tal concepcao. Um ideal social
sao questaes prementes e urgentes. Sao coisas que enfrentamos esta, por sua vez, ligado a uma concepcao dc sociedade, uma
no dia-a-dia. A razao para comecar com a teoria ideal é que ela visao do modo como os objetivos e propésitos da cooperacao
oferece, creio eu, a anica base para o entendimento sistematico social devem ser entendidos. As diversas concepcées da justica
desses problemas prementes. A discussao da desobediéncia ci- sao o resultado de diferentes noc6es de sociedade em oposicao
vil, por exemplo, depende dela (§§ 55-59). No minimo, quero ao conjunto de vis6es opostas das necessidades e oportunida-
presumir que de nenhum outro modo se pode conseguir um des naturais da vida hurnana. Para entender plenamente uma
entendimento mais profundo, e que a natureza e os obj etivos de cdncepcao da justica precisamos explicitar a concepqao de
uma sociedade perfeitamente justa sao a parte ftmdamental da cooperacao social da qual ela deriva. Mas ao fazermos isso nao
teoria da justica. -\
deveriamos perder de vista o papel especial dos principios da
Ora, admitimos que o conceito de estrutura basica é um justica ou 0 objeto principal ao qual eles se aplicam.
tanto vago. Nao esta sempre claro quais instituicées ou quais Nessas observacfies preliminares fiz uma distincao entre o
de seus aspectos deveriam ser incluidos. Mas seria prematuro conceito dc justica significando um equilibrio adequado entre
’ flu

preocupar-se com essa questao agora. Prosseguirei discutindo reivindicacoes concorrentes e uma concepcao da justica como
principios que realmente se aplicam aquilo que é certamente um conjunto de principios correlacionados com a identificacao
uma parte da estrutura basica como a entendemos intuitiva- das causas principais que deterrninam esse equilibrio. Também
mente; tentarei depois estender a aplicacao desses principios caracterizei a justica como sendo apenas uma parte de um ideal
de modo que cubram o que pareceria constituir os elementos -- - social, embora a teoria que vou propor sem dilvida amplie seu
principais da estrutura basica. Talvez esses principios demons- significado quotidiano. Essa teoria nao é apresentada como uma
trem ser perfeitamente gerais, embora isso seja improvavel. E descricao de significados comuns mas como uma avaliacao da
suficiente que se apliquem aos casos mais importantes de justi- importancia de certos principios distributivos para a estrutura
ca social. O ponto que se deve ter em mente é que a concepcao basica da sociedade. Pressuponho que qualquer teoria ética
da justica para a estrutura basica tern valor intrinseco. Nao razoavelmente completa deva incluir principios para esse pro-
deveria ser descartada s6 porque seus principios nao sao satis- blema fundamental e que esses principios, sejam quais forem,
fatérios em todos os casos. constituem sua doutrina da justica. Considero por conseguinte
Deve-se, entao, considerar que uma concepcao da justica que o conceito de justica se define pela atuacao de seus princi-
social fornece primeiramente um padrao pelo qual se devem pios na atribuicao de direitos e deveres e na definicao da divi-
avaliar aspectos distributivos da estrutura basica da sociedade. sao apropriada de vantagens sociais. Uma concepcao da justica
Esse padrao, porém, nao deve ser confundido com os princi- é uma interpretacao dessa atuacao.
pios que definem outras virtudes, pois a estrutura basica e as Mas essa abordagem nao parece adequar-se com a tradi-
organizacaes sociais em geral podem ser eficientes ou inefi- cao. Creio, porém, que o faz. O sentido mais especifico que
cientes, liberais ou nao liberais, e muitas outras coisas, bem Aristételes atribui a justica, e do qual derivam as formulacfjes
como justos ou injustos. Uma concepcao completa, definidora mais conhecidas da justica, é o dc evitar a pleonexia, isto é,
de principios para todas as virtudes da estrutura basica, junta- evitar que se tire alguma vantagem em beneficio préprio to-
mente com seus respectivos pesos quando conflitantes entre mando o que pertence a outrem, sua propriedade, sua recom-
elas, é mais que uma concepcao da justica; é um ideal social. pensa, seu cargo, e coisas semelhantes, ou recusando a alguém
Os principios da justica sao apenas uma parte, embora talvez a o que lhe é devido, o cumprimento de uma promessa, o paga-
12 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 13

mento de uma divida, a demonstracao do respeito devido, e cos e determinar a divisao dc beneficios sociais. Os homens de-
assim por diante3. Evidentemente essa definicao esta estrutura- vem decidir dc antemao como devem regular suas reivindica-
da para aplicar-se a acées, e as pessoas sao consideradas justas c6es mutuas e qual deve ser a carta constitucional de fundacao
na medida em que tenham, como um dos elementos permanen- de sua sociedade. Como cada pessoa deve decidir com o uso da
tes de seu carater, um desejo firme e eficaz de agir com justica. razao o que constitui o seu bem, isto é, o sistema de finalidades
A definicao de Aristételes claramente pressupée, todavia, uma que, de acordo com sua razao, ela deve buscar, assim um grupo
explicacao do que propriamente pertence a uma pessoa e do de pessoas deve decidir de uma vez por todas tudo aquilo que
que lhe é devido. Ora, tais direitos muitas vezes derivam, creio entre elas se deve considerar justo e injusto. A escolha que ho-
eu, de instituicfies sociais e das expectativas legitimas que elas mens racionais fariam nessa situacao hipotética de liberdade
originam. Nao ha motivo para pensar que Aristételes discorda- equitativa, pressupondo por ora que esse problema de escolha
ria disso, e ele certamente tem um concepcao de justica social tem uma solucao, determina os principios da justica.
para explicar essas pretensaes. A definicao que adoto objetiva Na justica como eqiiidade a posicao original de igualdade
aplicar-se diretamente ao caso mais importante, a justica da corresponde ao estado de natureza na teoria tradicional do con-
estrutura basica. Nao ha conflito com a nocao tradicional. trato social. Essa posicao original nao é, obviamente, concebi-
da como uma situacao histérica real, muito menos como uma
condicao primitiva da cultura. E entendida como uma situacao
3. A idéia principal da teoria da justica puramente hipotética caracterizada de modo a conduzir a uma
certa concepcao da justicas. Entre as caracteristicas essenciais
Meu objetivo é apresentar uma concepcao da justica que dessa situacao esta o fato de que ninguém conhece seu lugar na
generaliza e leva a um plano superior de abstracao a conhecida sociedade, a posicao de sua classe ou o status social e ninguém
teoria do contrato social como se lé, digamos, em Locke, conhece sua. sorte na distribuicao de dotes e habilidades natu-
Rousseau e Kant‘. Para fazer isso, nao devemos pensar no con- rais, sua inteligéncia, forca, e coisas semelhantes. Eu até presu-
trato original como um contrato que introduz uma sociedade mirei que as partes nao conhecem suas concepcfies do bem ou
particular ou que estabelece uma forrna particular de govemo. suas propensfres psicolégicas particulates. Os principios da
Pelo contrario, a idéia norteadora é que os principios da justica justica sao escolhidos sob um véu de ignorancia. Isso garante
para a estrutura basica da sociedade sao o objeto do consenso que ninguém é favorecido ou desfavorecido na escolha dos
original. Sao esses principios que pessoas livres e racionais, principios pelo resultado do acaso natural ou pela contingéncia
preocupadas em promover seus préprios interesses, aceitariam de circunstancias sociais. Uma vez que todos estao numa situa-
numa posicao inicial de igualdade como definidores dos ter- cao semelhante e ninguém pode designar principios para favo-
mos fundamentais de sua associacao. Esses principios devem recer sua condicao particular, os principios da justica sao o
regular todos os acordos subseqiientes; especificam os tipos de resultado de um consenso ou ajuste eqiiitativo. Pois dadas as
cooperacao social que se podem assumir e as formas de gover- circunstancias da posicao original, a simetria das relacaes mu-
no que se podem estabelecer. A essa maneira de considerar os tuas, essa situacao original é eqiiitativa entre os individuos
principios da justica eu chamarei de justica como eqiiidade. tomados como pessoas éticas, isto é, como seres racionais com
Assim, devemos imaginar que aqueles que se comprome- objetivos préprios e capazes, na minha hipétese, de um senso
tem na cooperacao social escolhem juntos, numa acao conjun- de justica. A posicao original é, poderiamos dizer, o status quo
ta, os principios que devem atribuir os direitos e deveres basi- inicial apropriado, e assim os consensos fundamentais nela
l4 UMA TEORIA DA JUST[CA TEORIA 15

alcancados sao eqiiitativos. Isso explica a propriedade da frase de ser um sistema voluntario, porque vai ao encontro dos prin-
“justica como eqiiidade”: ela transmite a idéia de que os princi- cipios que pessoas livres e iguais aceitariam em circunstancias
pios da justica sao acordados numa situacao inicial que é equi- eqiiitativas. Nesse sentido seus membros sao auténomos e as
tativa. A frase nao significa que os conceitos de justica e eqiiida- obrigacées que eles reconhecem sao auto-impostas.
de sejam a mesma coisa, assim como a frase “poesia como me- Uma caracteristica da justica como eqiiidade é a de conce-
tafora” nao significa que os conceitos de poesia e metafora sej am ber as partes na situacao inicial como racionais e mutuamente
a mesma coisa. I desinteressadas. Isso nao significa que as partes sejam egois-
A justica como eqiiidade comeca, como ja disse, com uma tas, isto é, individuos com apenas certos tipos de interesses, por
das mais genéricas dentre todas as escolhas que as pessoas po- exemplo, riquezas, prestigio e poder. Mas sao concebidas como
dem fazer em conjunto, especificamente, a escolha dos primei- pessoas que nao tém interesse nos interesses das outras. Elas
ros principios de uma concepcao da justica que deve regular to- devem supor que até seus objetivos espirituais podem sofrer
das as subseqiientes criticas e reformas das instituicdes. Depois oposigao, da mesma forma que os objetivos dos que professam
de haver escolhido uma concepcao de justica, podemos supor religiiies diferentes podem sofrer oposicao. Além disso, o con-
que as pessoas deverao escolher uma constituicao e uma legis- ceito de racionalidade deve ser interpretado tanto quanto possi-
latura para elaborar leis, e assim por diante, tudo em consonan- vel no sentido estrito, que é padrao em teoria politica, dc adotar
cia com os principios da justica inicialmente acordados. Nossa os meios mais eficientes para determinados fins. Até certo
situacao social sera justa se for tal que, por essa seqiiéncia de ponto modificarei este conceito, como esta explicado mais
consensos hipotéticos, nos tivermos vinculado por um sistema adiante (§ 25), mas deve-se tentar nao introduzir nele nenhum
de regras que a definem. Além disso, supondo que a posicao
elemento ético. A situa<;ao inicial deve ser caracterizada por
acordos totalmente aceitos.
original determine um conjunto de principios (isto é, que uma
I Ao elaborarmos a concepcao da justica como eqiiidade
concepcao particular de justica seja escolhida), sera verdade
que, quando as instituicaes sociais satisfazem esses principios, uma das principais tarefas é a de determinar que principios da
os que participam podem afirmar que estao cooperando em justica seriam escolhidos na posicao original. Para fazé-lo pre-
termos com os quais eles concordariam se fossem pessoas cisamos descrever essa situacao com alguns pormenores e for-
livres e iguais cujas rela<;6es mutuas fossem eqiiitativas. Todos mular com cuidado o problema de escolha que ela apresenta.
poderiam considerar sua organizacao como correspondendo as Essas questaes serao tratadas nos capitulos imediatamente sub-
condicfies que eles aceitariam numa situacao inicial que incor- seqiientes. Pode-se observar, porém, que uma vez que os prin-
pore restricaes amplamente aceitas e razoaveis a escolha dos cipios de justica sao considerados como conseqiiéncias de um
principios. O reconhecimento geral desse fato fomeceria a consenso original numa situacao de igualdade, fica aberta a
base para a aceitacao publica dos principios correspondentes questao de se saber se o principio da utilidade seria reconheci-
da justica. Obviamente, nenhuma sociedade pode ser um sis- do. A primeira vista, parece pouco provavel que pessoas que se
tema de cooperacao que os homens aceitam voluntariamente véem como iguais, com direito a fazer exigéncias mutuas, con-
num sentido literal; cada pessoa se encontra ao nascer numa cordariam com um principio que pode exigir para alguns ex-
posicao particular dentro de alguma sociedade especifica, e a pectativas de vida inferiores, simplesmente por causa de uma
natureza dessa posicao afeta substancialmente suas perspecti- soma maior de vantagens desfrutadas por outros. Uma vez que
vas de vida. No entanto, uma sociedade que satisfaca os princi- cada um busca proteger seus préprios interesses, sua capacida-
pios da justica como eqiiidade aproxima-se o maximo possivel de de promover sua concepcao do bem, ninguém tem razao
16 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 1'7

para aceitar uma perda duradoura para si mesmo a fim de cau- necessaria para o bem-estar de todos“. Uma vez que decidimos
sar um saldo liquido maior de satisfacao. Na auséncia de im- buscar uma concepcao da justica que impeca a utilizacao dos
pulsos benevolentes fortes e duraveis, um homem racional nao acidentes da dotacao natural e das contingéncias de circumstan-
aceitaria uma estrutura basica simplesmente porque ela maxi- cias sociais como trunfos na demanda de vantagens econ6mi-
mizaria a soma algébrica de vantagens, independentemente cas e politicas, somos levados a usar esses principios. Eles
dos efeitos perrnanentes que pudesse ter sobre seus interesses e expressam a conseqiiéncia do fato de deixarmos de lado aque-
direitos basicos. Assim, parece que o principio da utilidade é in- les aspectos do mundo social que parecem arbitrarios de um
compativel com a concepcao da cooperacao social entre iguais ponto dc vista moral.
para a vantagem matua. Parece ser inconsistente com a idéia dc O problema da escolha dos principios é, porém, extrema-
reciprocidade implicita na nocao dc uma sociedade bem-orde- mente dificil. Nao espero que a resposta que vou sugerir seja
nada. De qualquer forma, argumentarei nesse sentido. convincente para todos. Por isso, vale a pena observar desde o
Sustentarei, ao contrario, que as pessoas na situacao ini- inicio que a justica como eqiiidade, como outras visfies contra-
cial escolheriam dois principios bastante diferentes: o primeiro tualistas, consiste em duas partes: (1) uma interpretacao de
exige a igualdade na atribuicao de deveres e direitos basicos, uma situacao inicial e do problema da escolha colocada naque-
enquanto o segundo afirma que desigualdades econamicas e le momento, e (2) um conjunto de principios que, segundo se
sociais, por exemplo desigualdades de riqueza e autoridade, procura demonstrar, seriam aceitos consensualmente. Pode-se
aceitar a primeira parte da teoria (ou alguma variante dela), mas
sao justas apenas se resultam em beneficios compensatérios
nao a outra, e vice-versa. O conceito de situacao contratual ini-
para cada um, e particularmente para os membros menos favo-
cial pode parecer razoavel, embora os principios particulates
recidos da sociedade. Esses principios excluem instituicaes
propostos sejam rejeitados. Certamente quero sustentar que a
que se justificam com base no argumento de que as privacdes
concepcao mais apropriada dessa situacao conduz a principios
dc alguns sao compensadas por um bem maior do todo. Pode de justica contrarios ao utilitarismo e perfeccionismo, e que
ser conveniente mas nao é justo que alguns tenham menos para portanto a doutrina do contrato oferece uma alternativa para
que outros possam prosperar. Mas nao ha injustica nos benefi- essas visdes. Todavia é possivel contestar esse ponto dc vista
cios maiores conseguidos por uns poucos desde que a situacao mesmo concedendo que o método contratualista seja uma ma-
dos menos afortunados seja com isso melhorada. A idéia intui- rreira atil de estudar teorias éticas e de apresentar os pressupos-
tiva é a dc que, pelo fato de 0 bem-estar de todos depender de tos em que se baseiam.
um sistema de cooperacao sem o qual ninguém pode ter uma A justica como eqiiidade é um exemplo do que chamei de
vida satisfatéria, a divisao de vantagens deveria acontecer de teoria contratualista. Pode haver uma objecao ao termo “con-
modo a suscitar a cooperacao voluntaria de todos os partici- trato” e expressaes correlatas, mas suponho que ele sera bas-
pantes, incluindo-se os menos emsituados. No entanto, sé se tante util. Muitas palavras tém conotacées enganosas que no
pode esperar isso se forem propostos termos razoaveis. Os dois comeco tendem a confundir. Os terrnos “utilidade” e “utilita-
principios aludidos parecem constituir uma base eqiiitativa rismo” certamente nao sao uma excecao. Eles também causam
sobre a qual os mais dotados, ou os mais afortunados por sua sugestfies infelizes que criticos hostis se mostraram inclinados
posicao social, duas coisas de que nao podemos ser considera- a explorar; todavia, sao terrnos suficientemente claros para
dos merecedores, poderiam esperar a cooperacao voluntaria quem esta preparado para estudar a doutrina utilitarista. O
dos outros quando algum sistema viavel fosse uma condicao mesmo deveria ser verdade para o termo “contrato” aplicado a
18 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 19

teorias morais. Como ja mencionei, para entendé-lo é preciso outros estritamente relacionados com eles; nao procura discutir
ter em mente que implica um certo nivel de abstracao. as virtudes de uma forma sistematica. Naturalmente se a justi-
Especificamente, o conteudo do consenso pertinente nao con- ca como eqiiidade der resultados razoavelmente bons, um pra-
siste em format uma determinada sociedade ou adotar uma ximo passo seria estudar a visao mais geral sugerida pela ex-
determinada forma dc governo, mas em aceitar certos princi- pressao “probidade como eqiiidade”. Mas mesmo essa teoria
pios morais. Além disso, os compromissos a que nos referimos mais ampla nao abrange todas as relacfies morais, uma vez que
sao puramente hipotéticos: uma visao contratualista acredita aparentemente incluiria apenas nossas relacaes com outras pes-
que certos principios seriam aceitos numa situacao inicial bem soas e nao levaria em conta como devemos nos comportar em
definida. j relacao aos animais e o resto da natureza. Nao afinno que a no-
O mérito da terminologia do contrato é que ela transmite a cao do contrato ofereca um modo de abordar essas questaes
idéia de que principios da justica podem ser concebidos como que sem dtivida sao da maior importancia; e deverei deixa-las
principios que seriam escolhidos por pessoas racionais e que de lado. Precisamos reconhecer o alcance limitado da justica
assim as concepcfies da justica podem ser explicadas e justifi- como eqiiidade e do tipo genérico de visao que ela representa.
cadas. A teoria da justica é uma parte, talvez a mais significati- Em que medida suas conclusaes devem ser revisadas depois
va, da teoria da escolha racional. Mais ainda, os principios da que essas outras questfies forem respondidas nao se pode deci-
justica tratam de reivindicacfies conflitantes sobre os benefi- dir antecipadamente.
cios conquistados através da colaboracao social; aplicam-se as
relacfies entre varias pessoas ou grupos. A palavra “contrato”
sugere essa pluralidade, bem como a condicao de que a divisao 4. A posicao original e sua justificativa
apropriada de beneficios aconteca de acordo com principios
aceitaveis para todas as partes. A condicao de publicidade dos Afirmei que a posicao original é o status quo inicial.‘apro-
principios da justica é também sugerida pela fraseologia con- ‘ priado para assegurar que os consensos basicos nele estabeleci-
tratualista. Assim, se esses principios sao o resultado de um dos sejam eqiiitativos. Esse fato delimita o conceito de “justica
consenso, os cidadaos tém conhecimento dos principios que os como eqtiidade”. Esta claro, portanto, que eu quero afirmar que
outros seguem. E tipico das teorias contratualistas ressaltar a uma concepcao da justica é mais razoavel do que outra, ou mais
publicidade dos principios politicos. Finalmente ha uma longa justificavel no que diz respeito a “justica como eqiiidade”, quan-
tradicao da doutrina contratualista. Expressar o vinculo com do pessoas racionais na situacao inicial escolhem seus principios
essa linha de pensamento ajuda a definir idéias e esta de acordo para o papel da justica preferindo-os aos de outra concepcao. As
com a lealdade natural. Ha portanto varias vantagens no uso do concepcaes da justica devem ser classificadas por sua aceitabili-
termo “contrato”. Tomadas as devidas precaucaes, ele nao de- dade perante pessoas nessas circunstancias. Entendida dessa
veria ser enganoso. forma a questao da justificativa se resolve com a solucao de um
Uma observacao final. A justica como eqiiidade nao é uma problema de deliberacao: precisamos definir quais principios
teoria completa contratualista. Pois esta claro que a idéia con- seriam racionalmente adotados dada a situacao contratual. Isso
tratualista pode ser estendida a escolha de um sistema ético associa a questao da justica a teoria da escolha racional.
mais ou menos completo, isto é, um sistema que inclua princi- Para que essa visao do problema da justificativa dé bons
pios para todas as virtudes e nao apenas para a justica. Na maio- resultados, precisamos, naturalmente, descrever com alguns
ria das vezes, considerarei apenas os principios da justica e detalhes a natureza do problema da escolha. Um problema de
20 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 2l

decisao racional encontra uma resposta definitiva somente tados. O obj etivo é excluir aqueles principios cuja aceitacao de
quando conhecemos as crencas e os interesses das partes, suas um ponto de vista racional so se poderia propor, por menor que
relacdes entre si, as alternativas entre as quais devem escolher, fosse sua probabilidade de éxito, se fossem conhecidos certos
o processo pelo qual tomam suas decis6es, e assim por diante. fatos que do ponto de vista da justica sao irrelevantes. Por exem-
Como os contextos diferem sao aceitos diferentes principios que plo, se um homem soubesse que era rico, ele poderia achar
lhes correspondem. O conceito de posicao original, do modo racional defender o principio de que varios impostos em favor
como o utilizo, é o que apresenta, do ponto de vista filoséfico, do bem-estar social fossem considerados injustos; se ele sou-
a interpretacao mais adequada dessa situacao de escolha inicial besse que era pobre, com grande probabilidade proporia o prin-
para os propésitos de uma teoria da justica. cipio contrario. Para representar as restricdes desejadas imagi-
Mas como devemos decidir qual é a interpretacao mais na-se uma situacao na qual todos estejam privados desse tipo
apropriada? Em primeiro lugar, suponho que exista um amplo de informacao. Fica excluido o conhecimento dessas contin-
consenso de que os principios da justica devem ser escolhidos géncias que criam disparidades entre os homens e perrnitem que
em condicfies determinadas. Para demonstrar uma descricao eles se orientem pelos seus preconceitos. Desse modo chega-se
particular da situacao inicial mostra-se que ela incorpora os ao véu de ignorancia de maneira natural. O conceito nao deve
pressupostos aceitos. Argumenta-se, partindo de premissas de causar nenhuma dificuldade se tivermos em mente as restri-
ampla aceitacao mas muito genéricas, para chegar a conclusées c6es aos argumentos que expressa. A qualquer momento pode-
mais especificas. Cada um dos pressupostos deveria ser em si mos utilizar a posicao original, por assim dizer, simplesmente
natural e plausivel; alguns deles podem parecer inécuos ou obedecendo a um certo procedimento, isto é, argumentando em
mesmo triviais. O objetivo da abordagem contratualista é o de defesa de principios da justica de acordo com essas restricfies.
estabelecer que tomados em seu conjunto esses pressupostos es- Parece razoavel supor que as partes na posicao original
tabelecem parametros adequados para os principios de justica sao iguais. Isto é, todas tém os mesmos direitos no processo da
aceitaveis. O resultado ideal seria que esses principios determi- escolha dos principios; cada uma pode fazer propostas, apre-
nassem um unico conjunto de principios; mas eu me darei por sentar raz6es para a sua aceitacao e assim por diante. Natural-
satisfeito se eles bastarem para classificar as concepcdes mais mente a finalidade dessas condicaes é representar a igualdade
tradicionais da justica social. entre os seres humanos como pessoas éticas, como criaturas
Nao nos deveriamos deixar enganar pelas condicfies algo que tém uma concepcao do seu préprio bem e que sao capazes
incomuns que caracterizam a posicao original. A idéia aqui é de ter um senso de justica. Toma-se como base da igualdade a
tornar nitidas para nas mesmos as restricfies que parece razoa- similaridade nesses dois pontos. Os sistemas de objetivos nao
vel impor a argumentos que defendem principios de justica e, sao classificados por seu valor; e sup6e-se que cada homem
portanto, aos préprios principios. Assim parece razoavel e ge- tenha a capacidade necessaria para entender quaisquer princi-
ralmente aceitavel que ninguém deva ser favorecido ou desfa- pios que sej am adotados e agir de acordo com eles. Juntamente
vorecido pela sorte natural ou por circunstancias sociais em com o véu de ignorancia, essas condicées definem os princi-
decorréncia da escolha de principios. Também parece haver pios da justica como sendo aqueles que pessoas racionais preo-
amplo consenso sobre o fato de que seria impossivel adaptar cupadas em promover seus interesses consensualmente aceita-
principios as condiciies de um caso pessoal. Mais ainda, deve- riam em condicdes de igualdade nas quais ninguém é cons-
riamos garantir que inclinacdes e aspiracdes particulates e con- ciente de ser favorecido ou desfavorecido por contingéncias
cepciies individuals sobre o bem nao afetarao os principios ado- sociais e naturais.
22 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 23

Todavia, ha um outro aspecto para a justificativa de uma os julgamentos que provisoriamente tomamos como pontos
determinada descricao da posicao original, que consiste em fixos estao sujeitos a revisao. Por meio desses avancos e re-
observar se os principios eventualmente escolhidos combinam cuos, as vezes alterando as condicaes das circunstancias em
com nossas ponderacaes sobre a justica ou se as arnpliam de um que se deve obter o acordo original, outras vezes modificando
modo aceitavel. Podemos observar se a aplicacao desses princi- nossos juizos e conformando-o com os novos principios, supo-
pios nos levaria a fazer, a respeito da estrutura basica da socie- nho que acabaremos encontrando a configuracao da situacao
dade, os mesmos julgamentos que agora fazemos intuitivamen- inicial que ao mesmo tempo expresse pressuposicées razoaveis
te e nos quais depositamos a maior confianca; ou se, nos casos e produza principios que combinem com nossas convicciies
em que nossas opiniaes atuais sao vacilantes, esses principios devidamente apuradas e ajustadas. A esse estado de coisas eu
mostram uma solucao que podemos aceitar apés reflexao. Sa- me tefito como equilibrio teflexivo’. Trata-se de um equilibrio
bemos com certeza que ha petguntas que devem ser respondi- porque finalmente nossos principios e opini6es coincidem; e é
das de determinada maneira. Por exemplo, acreditamos que a reflexivo porque sabemos com quais principios nossos julga-
intolerancia religiosa e a disctiminacao racial sao injustas. Acha- mentos se conformam e conhecemos as premissas das quais
mos que ja examinamos essas questties com cuidado e atingi- derivam. Neste momento tudo esta em ordem. Mas este equili-
mos o que julgamos set um juizo imparcial que exclui a proba- brio nao é necessariamente estavel. Esta sujeito a ser perturba-
bilidade de distotcao provocada pot uma atencao excessiva aos do pot outro exame das condicaes que se pode impor a situacao
nossos ptéprios interesses. Essas conviccaes sao pontos fixos contratual e pot casos particulates que podem nos levar a revi-
provisérios nos quais considetamos que qualquer concepcao da sar nossos julgamentos. Mas pot enquanto fizemos o possivel
justica deve se coincidir. Temos, porém, muito menos certeza para tornar coerentes e justificar nossas convicciies sobre justi-
acerca de qual é a correta distribuicao da riqueza e da autorida- ca social. E atingimos uma concepcao da posicao original.
de. Talvez nesse ponto estejamos procurando um modo de eli- Obviamente nao elaborarei esse processo em toda a sua
minar nossas dfrvidas. Podemos entao avaliar uma interptetacao extensao. Ainda assim, podemos pensar na interpretacao da po-
da situacao inicial pela capacidade de seus principios em aten- sicao original que apresentarei, como sendo o resultado desse
der as nossas conviccfies mais profundas e oferecer otientacao tipo de roteito hipotético de reflexao. Ele representa a tentativa
onde se fizer necessario. de acomodar num unico sistema, tanto os pressupostos filos6-
Na procura da descricao mais adequada dessa situacao ficos razoaveis impostos aos principios, quanto os nossos jui-
inicial trabalhamos a partir dos dois exttemos. Comecamos por zos ponderados sobre a justica. No processo para atingir a in-
descrevé-la de modo que represente condicées geralmente par- terptetacao mais adequada da situacao inicial, nao recorre a
tilhadas e preferivelmente genéticas. Obsetvamos entao se es- nocao de evidéncia no sentido tradicional, seja a respeito das
sas condicées tém fotca suficiente para produzir um conjunto concepcées gerais, seja a respeito das conviccées particulates.
significativo de principios. Em caso negativo, procuramos ou- Nao ptetendo que os principios de justica propostos sejam vet-
ttas premissas igualmente razoaveis. Mas em caso afitmativo, dades necessarias ou que possam set derivados desse tipo de
e se esses principios correspondem as nossas ponderadas con- verdade. Uma concepcao da justica nao pode ser deduzida de
vicc6es sobre a justica, entao até este ponto tudo esta correto. premissas axiomaticas ou de presupostos impostos aos princi-
Deve-se, porém, supor que havera discrepancias. Nesse caso pios; ao contrario, sua justificativa é um problema da corrobo-
temos uma escolha. Podemos ou modificar a avaliacao da si- tacao matua de muitas consideracfies, do ajuste de todas as
tuacao inicial ou revisar nossos juizos atuais, pois até mesmo partes numa {mica visao coerente.
24 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 25
o contraste entre a visao contratualista e o utilitarismo permane-
Um comentario final. Queremos dizer que certos princi-
ce essencialmente a mesma em todos esses casos. Portanto,
pios de justica se justificam porque foram aceitos consensual-
compararei a justica como eqiiidade com as conhecidas varian-
mente numa situacao inicial de igualdade. Tenho enfatizado
tes do intuicionismo, do petfeccionismo e do utilitarismo a fim
que essa posicao original é puramente hipotética. Se esse con-
de mosttar as diferencas subjacentes da maneira mais simples.
senso jamais acontece de fato, é natural perguntar por que de-
Tendo em mente esse objetivo, o tipo de utilitarismo que descre-
veriamos nos interessar por esses principios, morais ou de
verei aqui é a rigotosa doutrina classica que em Sidgwick tem
outra natureza. A resposta é que as premissas incorporadas na
talvez sua formulacao mais clara e acessivel. A idéia principal é
descticao da posicao original sao premissas que de fato aceita-
a de que a sociedade esta ordenada de forma correta e, portanto,
mos. Ou, se nao as aceitamos, talvez possamos convencer-nos
justa, quando suas instituicaes mais importantes estao planeja-
a fazé-lo mediante 0 raciocinio filoséfico. Pode ser demostra-
das de modo a conseguir o maior saldo liquido de satisfacao
do o fundamento de cada aspecto da situacao contratual. As-
obtido a partir da soma das participacfies individuais de todos
sim, o que faremos é juntat num tinico conceito um numero dc
os seus membros”.
postulados para os principios que, apés as devidas reflexfies,
Ptimeiramente podemos notat que ha, de fato, um modo
estaremos dispostos a aceitar como razoaveis. Essas restricaes
de vet a sociedade que facilita a suposicao de que o conceito
exptessam aquilo que estamos prontos a considerar como limi-
mais racional de justica é utilitarista. Pois considetemos: cada
tes em tetrnos eqiiitativos de coopetacao social. Uma forma de
considerar a idéia da posicao original é, portanto, vé-la como
Ur

homem ao realizar seus interesses é livre para avaliar suas per-


das e ganhos. Podemos nos impor um sacrificio agora por uma
um recurso de exposicao que resume o significado desses pos-
vantagem maior depois. Uma pessoa age de um modo muito
tulados e nos ajuda a exttair suas conseqiiéncias. Por outro
aptopriado, pelo menos quando outros nao sao afetados, com o
lado, essa concepcao é também uma nocao intuitiva que sugere
sua prépria elaboracao, de modo que, conduzidos por ela, intuito de conseguir a maximizacao de seu bem-estar, ao pro-
mover seus objetivos racionais o maximo possivel. Ora, por
somos levados a definir mais claramente o ponto de vista a par-
que nao deveria uma sociedade agir baseada exatamente no
tir do qual podemos melhor interpretar as condutas morais da
forma mais adequada. Precisamos de uma concepcao que nos
mesmo principio aplicado ao grupo e, portanto, considerar
aquilo que é racional para um unico homem como justo para
capacite a visualizat nosso obj etivo a distancia: a nocao intuiti-
va da situacao inicial devera fazé-10*.
uma associacao de seres humanos? Exatamente como o bem-
estar de uma pessoa se constréi a partir de uma série de satisfa-
caes que sao experimentadas em momentos diferentes no decor-
ter da vida, assim, de modo muito semelhante, o bem-estar da
5. O utilitarismo classico
sociedade deve ser construido com a satisfacao dos sistemas dc
Ha muitas formas de utilitarismo, e o desenvolvimento des- desejos de numerosos individuos que a ela pertencem. Uma
vez que o principio para um individuo consiste em promover
sa teoria tem continuado nos tiltimos anos. Nao farei aqui um
na medida do possivel seu ptéprio bem-estar, seu préptio siste-
levantamento de suas formas nem levarei em conta os numero-
sos aperfeicoamentos encontrados em discussfies contempora- ma de desejos, o principio para a sociedade é promover ao
maximo o bem-estar do grupo, realizar até o mais alto gtau o
neas. Meu objetivo é elaborar uma teoria da justica que repre-
abrangente sistema de desejos ao qual se chega com a soma
sente uma alternativa ao pensamento utilitarista em geral e con-
seqiientemente a todas as suas diferentes vers6es. Actedito que dos desejos dc seus membros. Exatamente como um individuo
26 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 27
avalia vantagens presentes e fututas com perdas presentes e miza 0 bem como algo definido antetiotmente. Segundo, a teo-
futuras, assim uma sociedade pode contrabalancar satisfacaes ria possibilita que alguém julgue o bem em cada caso sem in-
e insatisfaciies entre diferentes individuos. Dessa forma, por dagar se cotresponde ao que é justo. Por exemplo, se dizemos
meio da observacao dos fatos, chega-se ao principio da utilida- que o prazer é o finico bem, entao é possivel ptesumit que os
de dc um modo natural: uma sociedade esta adequadamente ptazetes podem ser reconhecidos e classificados por seu valor
ordenada quando suas instituicées maximizam o saldo liqiiido mediante ctitérios que nao ptessupfiem nenhum padrao do que
de satisfacées. O principio da escolha para uma associacao de é justo ou do que notmalmente julgatiamos como tal. Ao passo
seres humanos é interpretado como uma extensao do principio da que se a distribuicao de bens for também considetada como um
escolha para um ilnico homem. A justica social é 0 principio bem, talvez um bem de ordem superior, e se a teoria nos orien-
da prudéncia aplicado a uma concepcao somatica do bem-estar tar a produzir o maximo de beneficios (incluindo-se entre os
do grupo (§ 30)‘°. outros o bem da distribuicao dos bens), ja nao temos uma visao
Essa idéia se torna muito mais atraente mediante mais teleolégica no sentido classico. O problema da distribuicao é
uma considetacao. Os dois conceitos principais de ética sao os abatcado pelo conceito de justo como o entendemos intuitiva-
de justo e de bem; creio que deles deriva o conceito de uma mente, e assim a teoria nao tem uma definicao independente do
pessoa motalmente digna. Entao a estrutura de uma teoria ética bem. A clateza e simplicidade das teorias teleolégicas classi-
é em grande parte determinada pelo modo como ela define e cas deriva em grande parte do fato de que elas decompfiem nos-
interliga essas duas nocfies basicas. Ora, parece que a maneira sos juizos morais em dois tipos de classes, sendo um caracteri-
mais simples de relaciona-las é a praticada pelas teorias teleo- zado separadamente enquanto o outro é depois vinculado ao
légicasz o bem se define independentemente do justo, e entao o primeiro pot um principio de maximizacao.
justo se define como aquilo que maximiza o bem“. Mais preci- As teorias teleolégicas diferem, muito claramente, em seu
samente, justas sao aquelas instituicées e a<;6es que das alter- modo de especificar a concepcao do bem. Se ele for tomado
nativas possiveis retiram o bem maior, ou pelo menos tanto como a realizacao da exceléncia humana nas diversas formas
bem quanto quaisquer outras instituicaes e acfies acessiveis de cultura, temos o que se pode chamar de petfeccionismo. Es-
como possibilidades reais (uma disposicao adicional necessa- sa nocao se encontra em Atistételes e Nietzsche. Se o bem for
ria quando ha mais de uma possibilidade de otimizacao). As definido como prazer, temos o hedonismo; se for como felici-
teorias teleolégicas tam um profundo apelo intuitivo porque dade, o eudemonismo, e assim pot diante. Tomarei o principio
parecem incotporat a idéia de racionalidade. E natural pensar da utilidade na sua forma classica como aquele que define o
que a racionalidade consiste em maximizar algo e que, em bem como a satisfacao do desejo, ou talvez melhor, como a
questaes morais, o que deve ser maximizado é o bem. De fato, satisfacao do desejo racional. Isso esta de acordo com todos os
é tentador imaginar como evidente a afirmacao dc que as coi- pontos essenciais da teoria e creio que oferece dela uma inter-
sas deveriam ser planejadas de modo a conduzir ao bem maior. pretacao correta. Os termos apropriados da cooperacao social
E essencial ter em mente que numa teoria teleolégica o sao estabelecidos pot tudo quanto, em detetminado contexto,
bem se define independentemente do justo. Isso significa duas consiga a satisfacao maxima da soma dos desejos racionais dos
coisas. Ptimeiro, a teoria consideta nossas avaliacaes acerca do individuos. E impossivel negar a plausibilidade e apelo inicial
que constitui o bem (nossos julgamentos de valor) como uma desta concepcao.
espécie das avaliacfies que se pode opetat intuitivamente pelo A catactetistica sutpteendente da visao utilitarista da jus-
senso comum, e depois ptopae a hipétese de que o justo maxi- tica reside no fato de que nao importa, exceto inditetamente, o
23 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 29
modo como essa soma de satisfacfies se distribui entre os indi- Portanto, a maneira mais natural dc chegar ao utilitarismo
viduos assim como nao importa, exceto indiretamente, o modo (embora nao seja, é ébvio, a unica maneira) é adotar para a so-
como um homem distribui suas satisfacaes ao longo do tempo. ciedade como um todo os principios da escolha racional utili-
A di-stribuicao correta nos dois casos é aquela que permite a zados para um unico ser humano. Reconhecendo isso, logo se
maxrma realizacao. A sociedade deve distribuir seus meios de entende o lugar do observador impatcial e da énfase na solida-
satisfacao, quaisquer que sej am, direitos e deveres, oportunida- riedade na histéria do pensamento utilitarista. E de fato por
des e privilégios, e varias fonnas de riqueza, de modo a conse- meio da concepcao do observador impatcial e do uso da identi-
guir, se for possivel, esse gtau maximo. Mas por si sé nenhuma ficacao solidaria na orientacao de nossa imaginacao que o prin-
disttibuicao de satisfacao é melhor que outra, excetuando-se cipio adequado para um unico set humano se aplica a sociedade.
que a disttibuicao mais uniforme deve ser preferida em situac6es E esse observador que é concebido como realizador da necessaria
de impasse”. E verdade que certos preceitos de justica ditados organizacao dos desejos de todas as pessoas num anico sistema
pelo senso comum, particulannente aqueles que se referem a coerente de desejos; é por meio dessa construcao que muitas
protecao de liberdades e direitos, ou que exptessam reivindica- pessoasse fundem numa s6. Dotado de poderes ideais de soli-
ciies de mérito, parecem contradizer esse entendimento do pon- dariedade e imaginacao, o observador impatcial é o individuo
to de vista. Mas uma visao utilitarista da explanacao desses pre- perfeitamente racional que se identifica com os desejos dos
ceitos e de seu carater aparentemente petsuasivo mostra que, outros e os experimenta como se fossem de fato seus. Desse
segundo a experiéncia, esses preceitos deveriam set rigotosa- modo ele avalia a intensidade desses desejos e lhes atribui seu
rnente respeitados e s6 deveriam ser abandonados em circuns- peso aproptiado no sistema unico de desej os cuja satisfacao o
tancras excepcionais, se a soma das vantagens precisar set legislador ideal tenta entao maximizar com o ajuste das regras
maxrmizada“. Todavia, como acontece com todos os outros pre-
do sistema social. Nessa concepcao da sociedade os individuos
ceitos, os da justica detivam do ilnico objetivo que é o de atin-
isolados sao vistos como um nfrmero correspondente de linhas
gir o saldo maximo de satisfacfies. Assim em principio nao ha
ao longo das quais direitos e deveres devem ser atribuidos e os
razao para que os beneficios maiores de alguns nao devam com-
parcos meios dc satisfacao disttibuidos de acordo com certas
pensar as perdas menores dc outros; ou, mais importante, para
regras, de modo a petmitir o preenchimento maximo de catén-
que a violacao da liberdade de alguns nao possa ser justificada
cias. A natureza da decisao tomada pelo lc gislador ideal nao é,
pot um bem maior partilhado por muitos. Simplesmente acon-
portanto, substancialmente diferente da de um empteendedor
tece que em muitissimas situacfies, pelo menos num estagio ra-
zoavelmente avancado da civilizacao, a maior soma de vanta- que decide como maximizar seus luctos por meio da producao
gens nao é obtida desse modo. Nao ha duvida de que o rigor desta ou daquela mercadoria, ou da de um consumidor que de-
dos preceitos dc justica ditados pelo senso comum tam uma cide como maximizar sua satisfacao mediante a compta desta
certa utilidade na limitacao das tendéncias humanas para a in- ou daquele conjunto de bens. Em cada um desses casos ha uma
justica e para acfies socialmente ofensivas; mas o utilitarista {mica pessoa cujo sistema de desejos determina a melhor dis-
acredita que seja um erro afirmar esse rigor como um principio tribuicao de meios limitados. A decisao correta é essencial-
basico de costumes morais. Pois assim como é racional que um mente uma questao de administtacao eficiente. Essa visao da
homem maximize a realizacao de seu sistema de desejos, tam- cooperacao social é a conseqiiéncia de se estender a sociedade
bém é justo que uma sociedade maximize o saldo liqiiido de sa- 0 principio da escolha para um irnico ser humano, e depois,
tisfacao obtido com referéncia a todos os seus membros. - fazer a extensao funcionar, juntando todas as pessoas numa sf)
30 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 3l

attavés dos atos criativos do observador solidario e impatcial. conttabalanca a tendéncia humana natural de violar preceitos e -
O utrlrtatrsmo nao leva a sétio a diferenca entre as pessoas. direitos nao sancionadas pela utilidade. Quando entendemos
isso, a disparidade aparente entre o principio utilitarista e a
forca dessas conviccées de justica ja nao constitui uma dificul-
6. Algumas disparidades inter-relacionadas dade filoséfica. Assim enquanto a doutrina contratualista acei-
ta nossas convicciies acerca da prioridade da justica como glo-
Afigurou-se a muitos filésofos,-e isso parece apoiar-se nas balmente sélidas, o utilitarismo procura explica-las como uma
convrccfies do senso comum, que nas por principio estabelece- ilusao socialmente util.
mos uma distincao entre as exigéncias da liberdade e do direito Uma segunda difetenca reside no fato de que, enquanto o
de um lado e, do outro lado, a desejabilidade do aumento do utilitarista estende a sociedade o principio da escolha feita por
bem-estar social agregado, e que damos uma certa prioridade, um unico ser humano, a justica como eqiiidade, sendo uma visao
quando nao um peso absoluto, aquelas exigéncias. Cada mem- contratualista, sustenta que os principios da escolha social, e
bro da sociedade é visto como possuidot de uma inviolabilida- portanto os principios da justica, sao eles préptios o objeto de
de fundada na justica, ou, como dizem alguns, no direito natu- um consenso original. Nao ha tazao para supor que os princi-
ral, que nem mesmo o bem-estar de todos os outros pode anu- pios que deveriam regular uma associacao de seres humanos
lat. A justica nega que a perda da liberdade para alguns se justi- sej am simplesmente uma extensao do principio de escolha para
fique por um bem maior partilhado por outros. O raciocinio um unico individuo. Pelo contrario, se asstunirrnos que o prin-
que equilibra os ganhos e as perdas de diferentes pessoas como cipio teguladot correto para qualquer coisa depende da nature-
se elas fossem uma pessoa s6 fica excluido. Portanto, numa za da coisa, e que a plutalidade de pessoas diferentes com sis-
sociedade justa as liberdades basicas sao tomadas como pres- temas distintos de objetivos é uma caractetistica essencial das
supostos e os direitos assegurados pela justica nao estao sujei- sociedades humanas, nao deveriamos esperar que os principios
tos a negociacao politica ou ao calculo dos interesses sociais. da escolha social fossem utilitarios. Com certeza, nada do que
A justica como eqiiidade tenta explicar essas convicciies dissemos até aqui demonstrou que as partes na posicao original
do senso comum a respeito da prioridade da justica, mostrando nao escolhetiam o principio de utilidade para definir os termos
que sao a conseqiiéncia de principios que seriam escolhidos na da cooperacao social. Essa é uma questao dificil que sera exa-
posicao original. Esses entendimentos tefletem as preferéncias minada mais adiante. E perfeitamente possivel, por tudo o que
racionais e a igualdade inicial das partes contratantes. Embora sabemos a esse respeito, que alguma forma do principio de uti-
o utilitarista teconheca que, rigorosamente falando, sua doutri- lidade seja adotada, e portanto a teoria do contrato no fim con-
na conflita com esses sentimentos de justica, sustenta que os duza a uma justificacao mais profunda e mais indireta do utili-
preceitos dc justica ditados pelo senso comum e as nocfies dc tarismo. De fato uma derivacao desse tipo é algumas vezes
direito natural tam apenas uma validade subordinada como sugerida por Bentham e Edgeworth, embora nao seja elaborada
regras secundarias; essas decorrem de que, nas condicaes da por eles de forma sistematica e pelo que eu sei nao se encontre
sociedade civilizada ha uma grande utilidade social em segui- em Sidgwick". Pot ora simplesmente presumirei que as pes-
las na maioria dos casos e em petmitir sua violacao apenas em soas na posicao original tejeitariam o principio de utilidade-e
crrcunstancras excepcronais. Até mesmo o zelo excessivo com que em seu lugar adotatiam, pelas raz6es anteriotmente esbo-
que estamos inclinados a afirrnar esses preceitos e a apelar cadas, os dois principios de justica ja mencionados. Seja como
para esses direitos adquire uma certa utilidade, uma vez que for, partindo-se do ponto de vista da teoria do contrato nao se
32 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 33

pode chegar a um principio de escolha social simplesmente desejo racional.) Naturalmente, nao é impossivel que a maxi-
gstendendo-se o pnncrpro da sabedorra racional ao sistema de mizacao do bem venha a ser realizada, mas isso seria uma coin-
esejos ponstturdo pelo observador impatcial. Agir assim sig- cidéncia. A questao de se obter o maior saldo liquido de satis-
grfrca nao levar a sérro a plutalidade e disparidade dos indivi- facao nunca se apresenta na justica como eqiiidade; o principio
uos nem reconhecer como a base da justrca aquilo que os da maximizacao nao é utilizado de forma alguma.
seres humanos consensualmente aceitariam. Aqui podemos Ha mais um aspecto do inter-relacionamento das diver-
observar uma ocurrosa anomalia. Habitualmente se pensa que o géncias. No utilitarismo a satisfacao de qualquer desejo tem
utrlrtarrsmo ‘é individualista, e com certeza ha boas razaes para algum valor em si mesnra que deve set levado em conta na de-
ISSO. Os utrlrtaristas foram atdotosos defensores da liberdade e cisao do que é justo. No calculo do maior saldo de satisfacao
do pensamento livre, e acreditavam que o bem da sociedade é nao importa, exceto indiretamente, quais sao os obj etos do dese-
constrtuido pelas vantagens desfrutadas pelos individuos. No jo”. Devemos otdenar as instituiciies de modo a obter a maior
entanto, 0 utilitarismo nao é individualista, pelo menos quando soma de satisfacfies; nao questionamos a sua otigem ou quali-
sic clhega a ele pelo caminho mais natural da teflexao, no senti- dade mas apenas o medo como a satisfacao afetaria a totalidade
o _ e que, unrfrcando todos os sistemas de desej os, ele aplica a do bem-estar. O bem-estar social depende direta e exclusiva-
sociedade os principios da escolha feita por um anico set hu- mente dos niveis de satisfacao ou insatisfacao dos individuos.
mano, E assim vemos que o segundo contraste esta ligado ao Assim se os seres humanos tam certo prazer na disctiminacao
prrmerro, pOlS é essa unificacao, e o principio nela baseado, mirtua, na sujeicao de outtem a um gtau inferior dc liberdade
true submete os direitos assegurados pela justica ao calculo dos como um meio de aumentar a sua auto-estima, entao a satisfa-
interesses sociais. cao desses desejos deve ser pesada em nossas deliberacfies de
. A iiltima difetenca que mencionarei agora é que o utilita- acordo com a sua intensidade, ou qualquer outro patametro, em
trsrno e uma teoria teleolégica ao passo que a justica como compatacao com outros desejos. Se a sociedade decidir negar-
eqirrdade nao o é. Pot definicao, portanto, a segunda é uma mo- lhes a satisfacao, ou suprimi-los, é porque esses desejos tendem
a ser socialmente destrutivos e um bem-estar maior pode ser
Ha de°m9198iCfl, que ou nao especifica o bem independente-
Erente do justo, ou nao rnterpteta o justo como rnaximizador do obtido de outras maneiras.
em. (Deve-se notat que as teorias deontolégrcas se definem Na teoria da justica como eqiiidade, por outro lado, as pes-
como nao teleolégicas, e como entendimentos que nao caracte- soas aceitam de antemao um principio de liberdade igual e o
rrzam a justeza de instituicées e atos independentemente de fazem sem conhecer seus préptios obj etivos pessoais. Implici-
suas conseqiiéncias. Todas as doutrinas éticas metecedoras de tamente concotdam, portanto, em confotmar as concepcaes do
nossa atencao levam em consideracao as conseqiiéncias no jul- seu ptoprio bem com aquilo que os principios da justica exi-
gamento da justeza. Aquela que nao 0 fizesse seria simples- gem, ou pelo menos em nao insistir em reivindicacaes que os
mente irracional, inservivel.) A justica como eqiiidade é uma violem diretamente. Um individuo que descobre que gosta de
teoria deontolégica no segundo sentido. Pois se presumirmos vet os outros em situacfies de liberdade menor entende que nao
cjue as pessoas na posicao original escolheriam um principio de tem direito algum a essa satisfacao. O prazer que ele sente com
liberdade igual e restringitiam as desigualdades econamicas e as privacées alheias é algo errado. em si mesmo; é uma satisfa-
sociais aquelas do interesse de todos, nao ha razao para pensar cao que exige a violacao de urn principio com o qual ele con-
que rnstrturcaoes justas maximizatao o bem. (Aqui suponho, cordaria na posicao original. Os principios do justo, e portanto
com o utrlrtansmo, que o bem se define como a satisfacao do da justica, impfiem limites estabelecendo quais satisfacfies sao
34 UMA TEORIA DA ./usT1¢A TEORIA 35
validgs; limpaem testricdes sobre o que sao concepcées fazgé- citcunstancias nao indica de um modo muito claro quais sao
vers 0* em pessoal. Ao fazer planos e ao decidir sobre suas esses desejos e tendéncias. Isso por si s6 nao constitui uma
asprracoes os seres humanos devem levar em conta essas restri- objecao ao utilitarismo. E apenas uma catacteristica da doutri-
coes. Conseqiientemente na justica como eqiiidade nao se to- na utilitaria essa grande dependéncia dos fatos e contingéncias
ttrgrm as tendencras e 1ncl1nac6es dos homens como fatos admi- naturais da vida humana para determinar que formas de catater
tl 9;» qualquer que sejaa sua natureza, e depois se procura a moral devem ser incentivadas numa sociedade justa. O ideal mo-
me. or~manerta de realrza-las. Pelo contrario, seus desejos e ral da justica como eqtiidade esta mais profundamente incor-
asprtacoes sao restrmgrdos desde o inicio pelos principios de porado nos principios fundamentais da teoria ética. Isso é tipi-
justrca que especificam os limites que os sistemas humanos de co das concepcaes do direito natural (a tradicao contratualista)
finalidades devem tespeitar. Podemos expressar essa idéia em compatacao com a teoria da utilidade.
d1aend°d‘l"@ na justicacomo eqiiidade o conceito de justo pre- Ao estabelecer essas diferencas entre a justica como eqi'rida-
oc S o dc bem. Um sistema social justo define o escopo no de e o utilitarismo, pensei apenas na doutrina classica. Trata-se
am rto fo qual os rndrvrduos
' ' ' devem desenvolver seus objeti-
- _ da visao de Bentham e Sidgwick e dos economistas utilitaristas
V08; e o erece uma estrutura de direitos e oportunidades e Edgeworth e Pigou. O tipo de utilitarismo adotado por Hume
meios de satrsfacao pelos quais e dentro dos quais esses fins nao setvitia para o meu propésito; a rigor, nao é realmente utili-
podem set equrtatrvamente perseguidos. A prioridade da justi- tarista. Em suas famosas demonstracfies contra a teoria do con-
ca se explica, em parte, pela aceitacao da idéia de que os inte- trato de Locke, pot exemplo, Hume sustenta que os principios de
resses que exrgem a vrolacao da justica nao tém nenhum valor. fidelidade e obediéncia estao ambos fundamentados na utilida-
Nao tendo absolutamente nenhum mérito eles nao podem anu de, e que portanto nada se ganha quando se baseia a obtigacao
lat as rervrndrcacfies da justica“.
I 0 a , —

politica num contrato original. A doutrina de Locke representa,


Essa prioridade do justo em relacao ao bem acaba sendo a para Hume, uma complicacao desnecessaria: podia-se muito
catacteristica central da concepcao da justica como eqiiidade bem apelar para a utilidade”. Mas tudo o que Hume parece que-
Imp6e certos critérios ao modelo da estrutura basica como um rer dizer com utilidade é o conjunto geral de interesses e necessi-
todo; esses crrtenos nao devem gerar tendéncias e atitudes con- dades da sociedade. Os principios de fidelidade e obediéncia
trarias aos dors ptrncrpros da justrca (rsto é, a determinados prin- detivam da utilidade no sentido de que a manutencao da ordem
crpros que desde o rnrcro tem um conteudo definido) e devem social é impossivel se esses principios nao forem geralmente tes-
assegurat one as n1st1tu1c6es justas sao estaveis. Assim certos li- peitados. Mas depois Hume sup6e que cada homem sai luctan-
mites rnrcrars sao estabelecidos para dizer o que é bom e quais do, considerando-se a sua vantagem a longo ptazo, quando a lei
formas de catater sao moralmente dignas, e igualmente que tipos e o governo se adaptam aos preceitos fundamentados na utilida-
de pessoas os seres humanos deveriam ser. Qualquer teoria da de. Nao ha mencao alguma aos ganhos de alguns supetando as
justrca estabelece alguns limites dessa natureza, isto é, os limi- desvantagens de outros. Para Hume, portanto, a utilidade parece
tes que se exrgem para que os seus principios primeiros pos- identificar-se com alguma forma do bem comum; as instituicaes
sam ser satrsfertos em quaisquer circunstancias. O utilitarismo satisfazem a suas exigéncias quando cuidam dos interesses de
exclui aqueles desejos e tendéncias que, se incentivados ou pet- todos, pelo menos a longo prazo. Se essa interptetacao de Hume
mrtrdos num dadowcaso concteto, levatiam a um menor saldo estiver correta, nao ha a primeira vista nenhum conflito com a
lrqurdo de satrsfacao. Mas essa testricao é em grande parte fOr_ prioridade da justica nem irrcompatibilidade alguma com a dou-
mal, e na ausencra de um conhecimento bastante detalhado das trina do contrato de Locke. Pois o papel dos direitos iguais em
36 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 37

Locke é precisamente garantir que os unicos desvios permitidos nosso entendimento mais refletido, é o mais justo. Uma vez
em relacao ao estado de natureza sao aqueles que respeitam os atingido um certo nivel de generalidade, o intuicionista afirma
direitos e beneficiam 0 interesse comum. Esta claro que todas as que nao existem critérios construtivos de ordem superior para
transformacoes do estado de natureza aprovadas por Locke satis- determinar a importancia adequada de principios concorrentes
fazem essa condicao e sao de tal espécie que seres humanos da justica. Enquanto a complexidade dos fatos morais exige
racionais preocupados em promover seus fins poderiam consen- varios principios distintos, nao ha um padrfio unico que os
ti-las num estado de igualdade. Hume nao contesta em parte explique ou lhes atribua seus pesos proprios. As teorias intui-
alguma a propriedade dessas restricoes. Em sua critica a doutri- cionistas tém, entéio, duas caracteristicas: primeiro, consistem
na do contrato de Locke ele mmca lhe nega a tese fundamental; em uma pluralidade de principios basicos que podem chocar-se
nem sequer parece reconhecé-la. e apontar diretrizes contrarias em certos casos; segundo, nao
O mérito da visao classica como ép formulada por Bentham, incluem nenhum método especifico, nenhuma regra de priori-
Edgeworth e Sidgwick consiste em reconhecer claramente o dade, para avaliar esses principios e compara-los entre si: pre-
que esta em jogo, isto é, a prioridade relativa dos principios da cisamos simplesmente atingir urn equilibrio pela intuicao, pelo
justica e dos direitos derivados desses principios. A questao é que nos parece aproximar-se mais do que é justo. Ou entao, se
saber se a imposicao de desvantagens a alguns pode ser com- houver regras de prioridades, elas sao consideradas mais ou
pensada por uma soma maior de vantagens desfrutadas por menos triviais e nao oferecem grande ajuda na fonnacao de um
outros; ou seo peso da justica requer uma liberdade igual para ju1gamento“‘.
todos e permite apenas aquelas desigualdades economicas e Varios outros pontos de vista sao geralmente associados ao
sociais que representam dos interesses de cada pessoa. Implicita intuicionismo como, por exemplo, os de que os conceitos do
nos contrastes entre o utilitarismo classico e a justica como justo e do bem-estar nao sao analisaveis, de que os principios
eqfiidade esta a diferenca nas concepcoes fundamentais da
morais quando formulados adequadamente expressam propo-
sociedade. Num caso, pensamos numa sociedade bem-ordena- sicoes evidentes sobre exigéncias morais legitimas, e assim por
da como sendo um sistema de cooperacfio para a vantagem
diante. Mas nao tratarei dessas questoes. Essas doutrinas episte-
reciproca regulada por principios que as pessoas escolheriam
mologicas tipicas nao constituem uma parte essencial do intui-
numa situacao inicial que é eqiiitativa; no outro, como sendo a
cionismo como eu o entendo. Talvez seja melhor falarmos do
administracao eficiente de recursos sociais para maximizar a
intuicionismo no sentido amplo de pluralismo. Ainda assim,
satisfacao do sistema de desejos construido pelo observador im-
parcial a partir dos imimeros sistemas individuais de desejos uma concepcao da justica pode ser pluralista sem exigir que
aceitos como dados. A comparacao com o utilitarismo classico avaliemos seus principios intuitivamente. Ela pode conter as
em sua derivacao mais comum salienta esse contraste. regras prioritarias necessarias. Para enfatizar o apelo direto ao
nosso julgamento na busca do equilibrio dos principios, parece
apropriado pensar no intuicionismo dessa maneira mais genéri-
7. O intuicionismo ca. Saber em que medida essa visao esta comprometida com
certas teorias epistemologicas é uma questao a parte.
Tratarei do intuicionismo de uma forma mais genérica do Ora, entendido assim, ha muitas espécies de intuicionis-
que é habitual: isto é, tomando-o como a doutrina segundo a mo. Nao apenas sao desse tipo as nossas opinioes do dia-a-dia
qual ha um conjunto irredutivel de principios basicos que de- mas o mesmo talvez aconteca com a maioria das doutrinas
vemos pesar e comparar perguntando-nos qual equilibrio, em filosoficas. Uma forma de distinguir entre as visoes intuicio-
TEORIA 39
38 UMA TEORIA DA JUSTICA
geralmente consiste em ponderar varios objetivos economicos
nistas consiste em observar o nivel de generalidade de seus
e sociais. Por exemplo, suponhamos que a eficiéncia alocativa,
principios. O intuicionismo do senso comum toma a forma de
grupos de principios bastante especificos, cada grupo aplicam- o pleno emprego, uma renda nacional maior e sua distribuicao
do-se a um problema particular de justica. Ha um grupo de pre- mais igual sejam aceitos como fins sociais. Entiio, dada a pon-
ceitos que se aplica a questéio do salario justo, outro a questéio deracao desses fins e dada a estrutura institucional existente,
dos impostos, ainda outro a questao da punicao e assim por os preceitos do salario justo, dos impostos justos e assim por
diante. Na busca da nocfio do salario justo precisamos de diante receberéio sua devida énfase. A fim de se conseguir maior
algum modo equilibrar varios critérios concorrentes como, por eqiiidade e eficiéncia, pode-se seguir uma politica que enfatiza
exemplo, as alegacoes de habilidade, treinamento, esforco, res- a habilidade e o esforco para o calculo do salario, deixando a
ponsabilidade e riscos do trabalho, e também levar um pouco regra da necessidade para que seja negociado de alguma outra
em conta a necessidade. Presume-se que ninguém decidiria ba- forma, talvez por meio de transferéncias feitas pela previdén-
seando-se em uma so dessas regras; é preciso estabelecer algum cia social. Um intuicionismo dos fins sociais fomece uma base
equilibrio entre eles. A definicao de salarios através das insti- para decidir se a determinacéio de salarios justos faz sentido em
tuicoes existentes também representa, de forma concreta, uma vista dos impostos a serem cobrados. O modo de ponderar as
ponderacao particular dessas reivindicacoes. Essa ponderacao, regras num grupo se ajusta ao modo de pondera-los noutro
todavia, sofre geralmente a influéncia das demandas de interes- grupo. Assim conseguimos introduzir uma certa coeréncia em
ses sociais diferentes e portanto das suas posicoes relativas de nossos julgamentos da justica; ultrapassamos o compromisso
poder e influéncia. Conseqiientemente, é possivel que nao se de interesses estreito e de facto para atingir uma visao mais
adapte a concepcao de salario justo de nenhuma pessoa em ampla. Naturalmente ainda nos resta um apelo a intuicao na
particular. Isso pode perfeitamente acontecer sobretudo porque ponderacao dos proprios fins politicos de ordem superior. Pon-
pessoas com interesses diferentes provavelmente enfatizariio deracoes diferentes neste caso nao sao de forma alguma varia-
os critérios que favorecem seus obj etivos. Os que tem mais habi- coes triviais, pois muitas vezes correspondem a conviccoes
lidade e treinamento tendem a enfatizar as alegacoes de habili- politicas profundamente opostas.
dade e treinamento, ao passo que os que nao tem essas vanta- Os principios das concepcoes filosoficas sao da espécie
gens insistem na alegacao da necessidade. Mas nossas idéias mais genérica. Nao sao concebidos apenas para explicar os fins
comuns de justica nao sao influenciadas apenas pela nossa si- da politica social, pois a énfase que é dada a esses principios
tuacfio, sao também fortemente marcadas pelo costume e pelas deveria de modo igual determinar o equilibrio dos fins. Como
expectativas vigentes. E por quais critérios devemos julgar a ilustracao, vamos discutir um conceito bastante simples e fa-
justica do proprio costume e a legitimidade dessas expectati- miliar baseado na dicotomia acumulacao/distribuicfio. Ela tem
vas? Para atingir algum ponto de entendimento e consenso que dois fimdamentos: a estrutura basica da sociedade deve ser pla-
va além de uma simples solucao de facto para interesses con- nejada primeiro para produzir 0 maximo bem no sentido do
correntes e confianca nos costumes consagrados e nas expecta-
maximo saldo liquido de satisfacao e, segundo, para distribuir
tivas estabelecidas, é necessario utilizar um sistema mais geral satisfacoes de modo igualitario. Os dois principios tém, natu-
que determine o equilibrio das regras ou pelo menos que 0 si-
ralmente, clausulas ceteris paribus. O primeiro principio, o da
tue dentro de limites mais definidos.
utilidade, age neste caso como um padrao de eficiéncia, insti-
Assim podemos considerar os problemas da justica com
gando-nos a produzir o maximo que nos for possivel, em circuns-
referéncia a certos fins da politica social. No entanto também
tancias iguais; ao passo que o segundo principio serve como
essa abordagem tende a depender da intuicao, uma 'vez que
40 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 4-I

um padrao de justica forcando a busca do bem-estar coletivo e vas de indiferenca sao formadas ligando-se pontos considera-
equilibrando a distribuicao de vantagens. dos igualmente justos. Assim, a curva I na figura 1 consiste nos
Essa concepcao é intuicionista porque nao fomece nenhu- pontos que tem valor igual ao do ponto A que esta naquela
ma regra de prioridade para determinar como esses dois princi- curva; a curva II consiste nos pontos que tém valor igual ao do
pios devem ser equilibrados entre si. Pesos totalmente diferen- ponto B e assim por diante. Presumimos que essas curvas des-
tes sao consistentes com a aceitacfio desses principios. E sem cam obliquamente para a direita; e também que nao se cruzem,
duvida natural fazer certas presuncoes sobre como agiria na pra- caso contrario os julgamentos que representam seriam incon-
tica a maioria das pessoas para equilibra-los. Em primeiro lugar, sistentes. A inclinacao em qualquer ponto da‘curva expressa os
em combinacoes diferentes de satisfacao total e graus de igual- pesos relativos da igualdade e da satisfacao total na combina-
dade, nos presumivelmente atribuiriamos a esses principios pe- cao representada pelo ponto; a alteracao da inclinacao numa
sos diferentes. Por exemplo, se ha uma grande satisfacaototal curva de indiferenca mostra como a urgéncia relativa dos prin-
mas distribuida desigualmente, é provavel que considerariamos cipios muda na medida em que eles sao mais ou menos satisfei-
mais urgente aumentar a igualdade do que o seria se o grande tos. Assim, percorrendo qualquer uma das curvas de indiferen-
bem-estar coletivo ja fosse distribuido de modo bastante iguali- ca na figura 1, vemos que diminuindo a igualdade exige-se um
tario. Pode-se mostrar isso mais formahnente recorrendo as curvas aumento cada vez maior da soma de satisfacoes para compen-
de indiferenca dos economistas”. Suponhamos que nos seja pos- sar uma diminuiciio ainda maior da igualdade.
sivel medir a extensao em que conjunturas especificas da estru- Além disso, ponderacoes muito diversas sao consistentes
tura basica satisfazem esses principios; representemos a satisfa-
com esses principios. Suponhamos que a figura 2 represente os
cao total no eixo positivo das abscissas e a igualdade no eixo
julgamentos de duas pessoas diferentes. As linhas continuas re-
positivo das coordenadas. (Pode-se imaginar que este tem um
limite superior no ponto da igualdade perfeita.) A medida que a presentam os julgamentos de alguém que atribui um peso rela-
conjuntura da estrutura basica satisfaz esses principios pode ser tivamente grande a igualdade, enquanto as linhas tracej adas re-
representada por um ponto no plano. presentam os julgamentos de outra pessoa que atribui urn peso
relativamente grande ao bem-estar total. Assim, enquanto a
primeira pessoa classifica a conjuntura D como sendo igual a
\ C, a segunda julga D superior. Essa concepcao da justica nao
\ \\\ impoe nenhum limite estabelecendo quais sao as avaliacoes cor-
retas; e portanto permite que pessoas diferentes cheguem a di-
_ _ \C \ ferentes equilibrios de principios. Contudo, se uma concepcao
dade
-guo >
dude
—guu D intuicionista como essa tivesse de se adaptar as nossas concep-
\ coes através da reflexao, de modo algum perderia sua impor-
\
I tancia. No minimo isolaria os critérios que sao significativos,
Bem-ester Total Bem-ester Total os eixos visiveis, por assim dizer, de nossas concepcoes sobre a
FIGURA l FIGURA 2 justica social. O intuicionista espera que, identificados esses
eixos ou principios, os homens iréio de fato equilibra-los de
Ora, claro esta que um ponto que fica a nordeste de outro modo mais ou menos semelhante, pelo menos quando sao im-
indica uma conjuntura melhor: é superior nos dois aspectos. Por parciais e nao movidos por uma atencao excessiva aos seus
exemplo, 0 ponto B é melhor que o ponto A na figura l. As cur- proprios interesses. Ou, se isso nao acontecer, eles no minimo
42 UMA TEORIA DA Jr/sT1¢A TEORIA 43
podem concordar com algum sistema dentro do qual suas ava- de e a simplificacfio excessiva, como quando se resolve tudo
liacoes se equilibrem. pelo principio da utilidade. A {mica maneira portanto de con-
E essencial observar que o intuicionista nao nega que pos- testar o intuicionismo esta em apresentar critérios reconhecida-
samos descrever 0 modo como ponderamos principios concor- mente éticos para explicar os pesos que, em nossas avaliacoes,
rentes ou como qualquer ser humano consegue isso, supondo- julgamos apropriado atribuir a pluralidade de principios. Uma
se que os avaliemos de modo diferente. O intuicionista aceita a refutacfio do intuicionismo consiste em apresentar o tipo de cri-
possibilidade de que esses pesos possam ser representados térios implicitos que se afirma nao existirem. Cerfamente, a
pelas curvas de indiferenca. Conhecendo a descricfio desses nocao de um principio reconhecidamente ético é vaga, embora
pesos, os julgamentos a serem feitos sao previsiveis. Neste sen- seja facil dar muitos exemplos extraidos da tradicfio e do senso
tido esses julgamentos tém uma estrutura coerente e definida. comum. Mas nao tem sentido discutir essa questao de modo
Naturalmente, pode-se alegar que na atribuicao de pesos so- abstrato. O intuicionista e seu critico teriio de resolver esse pro-
mos orientados, sem ter consciéncia do fato, por certos outros blema depois que este ultimo houver apresentado sua avaliacao
padroes ou pela melhor maneira de se conseguir um determina- de modo mais sistematico.
do fim. Talvez os pesos atribuidos sejam aqueles que utiliza- Pode-se perguntar se as teorias intuicionistas sao teleolo-
riamos se tivéssemos de aplicar esses padroes ou perseguir esse gicas ou deontologicas. Podem ser de uma espécie ou de outra,
objetivo. Admite-se que qualquer equilibrio de principios esta e qualquer visao ética precisa confiar até certo ponto na intui-
sujeito a ser interpretado dessa maneira. Mas o intuicionista afir- cao em muitos casos. Por exemplo, alguém poderia sustentar,
ma que, de fato, tal interpretacao nao existe. E argumenta que como fez Moore, que a afeicao pessoal e o entendimento hu-
por tras desses pesos nao existe nenhuma concepcao ética que mano, a criacao e a contemplacao de certo tipo de beleza, e a
se possa expressar. Uma figura geométrica ou uma funcao ma- aquisicao e apreciacao do conhecimento sao os bens mais im-
tematica podem descrevé-los, mas nao ha critérios morais im- portantes, juntamente com o prazer’°. E alguém poderia igual-
plicitos que estabelecam a sua racionalidade. O intuicionismo mente sustentar (o que Moore nao fez) que esses sao os unicos
afirma que em nossos julgamentos sobre a justica social deve- bens intrinsecos. Uma vez que esses valores sao especificados
mos atingir uma pluralidade de principios basicos a respeito independentemente da nocao de justo, temos uma teoria teleo-
dos quais possamos apenas dizer que nos parece mais correto logica de uma espécie perfeccionista se o justo for definido
equilibra-los de um certo modo e nao de outro. como maximizador do bem. Mas na avaliacao do que produz o
Nao ha nada intrinsecamente irracional nessa doutrina in- sumo bem, a teoria pode afirmar que esses valores devem ser
tuicionista. De fato, ela pode ser verdadeira. Nao podemos pre- ponderados e comparados entre si pela intuicfioz pode dizer que
sumir que nossos julgamentos sobre a justica social devem aqui nao ha critérios substantivos para a nossa orientacao. Mui-
derivar por completo de principios reconhecidamente éticos. tas vezes, porém, as teorias intuicionistas sao deontologicas.
Ao contrario, o intuicionista acredita que a complexidade dos Na apresentacfiio definitiva de Ross, a disnibuicao das coisas
fatos morais desafia nossos esforcos para achar uma explica- boas segundo critérios morais (justica distributiva) esta inclui-
cao plena de nossos julgamentos e considera indispensével da entre os bens que devem ser promovidos; e enquanto o prin-
uma pluralidade de principios concorrentes. Ele argumenta que cipio da maximizacéio do bem esta classificado como um princi-
tentativas de ir além desses principios ou se reduzem a triviali- pio basico, é justamente um principio que precisa ser avaliado
dade, como quando se diz que a justica social consiste em dar a pela intuicao numa comparacéio com os outros principios a
cada homem o que lhe é devido, ou entao conduzem a falsida- prima facil verdadeiros“. A caracteristica distintiva, portanto,
44 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 45
das visoes intuicionistas nao esta no fato de serem teleologicas mos reconhecer a possibilidade de nao haver nenhum jeito de
ou deontologicas, mas na importancia proeminente que confe- eliminar a pluralidade de principios. Sem duvida, qualquer
rem ao apelo as nossas capacidades intuitivas, sem dispor da concepcao da justica devera até certo ponto depender da intui-
orientacao de critérios implicitos e reconhecidamente éticos. O cao. Contudo, deveriamos fazer o que nos é possivel para redu-
intuicionismo nega que exista uma solucao explicita e util para zir o apelo direto aos nossos juizos ponderados. Pois, se os ho-
o problema da prioridade. Passo agora a uma breve discussao mens avaliam os principios finais de maneira diferente, como
desse topico. I se presume que facam com freqiiéncia, as suas concqpcoes da
justica sao diferentes. A atribuicao de pesos nao é uma parte
secundaria, mas sim essencial da concepcao da justica. Se nao
8. O problema da prioridade soubermos explicar como esses pesos devem ser determinados
mediante critérios éticos razoaveis, os meios de uma discussao
Vimos que o intuicionismo levanta o problema na medida racional chegaram ao fim. Pode-se dizer que uma concepcao
em que é possivel explicar sistematicamente os nossos juizos intuicionista da justica é apenas uma concepcao parcial. De-
ponderados sobre o justo e o injusto. Em particular, essa con- veriamos fazer tudo o que esta ao nosso alcance a fim de for-
cepcao afirma que nao se pode dar nenhuma resposta ao pro- mular principios explicitos para o problema da prioridade, mes-
blema da atribuicao de pesos a principios conflitantes de justi- mo que a dependéncia em relacao a intuicao nao possa ser in-
ca. Pelo menos neste ponto, devemos confiar em nossas capa- teiramente eliminada.
cidades intuitivas. O utilitarismo classico tenta, naturalmente, Na justica como eqiiidade, oi papel da intuicao esta limita-
evitar o apelo sistematico a intuicao. E uma concepcao de um do de varias maneiras. Por ser a questao toda bastante dificil,
unico principio com um unico critério decisivo; o ajuste dos pe- farei aqui apenas alguns comentarios cujo significado pleno so
sos é, pelo menos em teoria, estabelecido pela referéncia ao ficara claro mais adiante. O primeiro ponto esta ligado ao fato
principio da utilidade. Mill pensava que devia haver apenas um de que os principios da justica sao os que seriam escolhidos na
unico critério dessa natureza, caso contrario nao haveria como posicao original. Sao o resultado de uma certa situacao de es-
arbitrar entre critérios concorrentes, e Sidgwick argumenta exaus- colha. Sendo racionais, as pessoas na posicao original reconhe-
tivamente que o principio utilitarista é o unico que pode assu- cem que deveriam considerar a prioridade desses principios.
mir esse papel. Ambos sustentam que os nossos juizosimorais 4
Pois, se desej amestabelecer padroes consensuais para julgar as
sao implicitamente utilitarios no sentido de que quando se con- suas reivindicacoes miltuas, elas precisam de principios para a
frontam com um choque de preceitos, ou com nocoes de natu- § \ atribuicao de pesos. Nao podem supor que os seus juizos intui-
reza vaga e imprecisa, nao temos nenhuma alternativa a nao ser tivos serao sempre os mesmos; devido as suas diferentes posi-
adotar o utilitarismo. Mill e Sidgwick acreditam que em alguns coes na sociedade, certamente nao serao. Assim, postulo que
pontos devemos ter um unico principio para por em ordem e na posicao original as partes tentem alcancar algum consenso
sistematizar os nossos juizos”. Inegavelmente um dos grandes acerca do modo como os principios de justica devem ser ava-
atrativos da doutrina classica é o seu modo de encarar o proble- liados entre eles. Parte do valor do conceito da escolha de prin-
ma da prioridade e sua tentativa de evitar a dependéncia em cipios esta no fato de que as razoes latentes de sua adocao ini-
relacao a intuicao. cial também podem lhes conferir certos pesos. Visto que na
Como ja observei, nao ha nada necessariamente irracional justica como eqiiidade os principios da justica nao sao concebi-
no apelo a intuicao para resolver questoes de prioridade. Deve- dos como evidentes, mas tom sua justificacao na sua escolha
46 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 4'7
hipotética, podemos encontrar nas razoes de sua aceitacao al- estabelecerem exigéncias definidas que possam ser satisfeitas,
guma orientacao ou limitacao acerca de como devem ser pon- os principios que vém depois jamais poderao ser utilizados.
derados. Dada a situacao da posicao original, pode ficar claro Assim, o principio de liberdade igual pode assumir uma posi-
que certas regras de prioridade sao preferiveis a outras, em cao anterior uma vez que, como suponho, pode ser satisfeito.
grande parte pelas mesmas razoes que determinam a aceitacao Todavia, se o principio de utilidade viesse antes, tornaria ocio-
inicial dos principios. Sendo enfatizado o papel da justica e das sos todos os critérios subseqiientes. Tentarei demonstrar que,
caracteristicas especiais da situacao inicial de escolha, o pro- pelo menos em certas circunstancias sociais, a ordenacao serial
blema da prioridade pode mostrar-se mais facil de tratar. dos principios de justica oferece uma solucao aproximada para
Uma segunda possibilidade é a de que venhamos a encon- 0 problema da prioridade.
trar principios que possam ser inseridos no que chamarei de Finalmente, a nossa dependéncia da intuicao pode ser mi-
ordem serial ou lexical”. (O termo correto é “lexicografico”, norada pela colocacao de questoes mais definidas e pela subs-
mas é muito desajeitado.) Este é um método que exige que o tituicao de juizos morais por juizos da sabedoria. Assim, al-
primeiro principio da ordenacao seja satisfeito antes de poder- guém que depare com os principios de uma concepcao intui-
mos passar para o segundo, o segundo antes de considerarmos cionista pode responder que, sem algumas orientacoes sobre
o terceiro, e assim por diante. Um determinado principio nao como deliberar, ele nao sabera o que dizer. Pode sustentar, por
entra em jogo até que aqueles que o precedem sejam plena- exemplo, que nao poderia ponderar a utilidade total com a
mente aplicados ou se constate que nao se aplicam ao caso. eqiiidade na distribuicao das satisfacoes. As nocoes envolvidas
Uma ordenacao serial evita, portanto, que sequer precisemos nao sao apenas demasiado abstratas e abrangentes para que ele
ponderar principios; os que vém antes na ordenacao tom um deposite alguma confianca em seu juizo, mas ha também enor-
peso absoluto, por assim dizer, em relacao aos que vém depois, mes complicacoes na interpretacao do que significam. A dico-
e valem sem excecao. Podemos considerar essa ordenacao tomia acumulacao/distribuicao é sem dovida uma idéia atraen-
como sendo analoga a uma seqiiéncia de principios maximos te, mas neste caso parece inutil. Nao decompoe os problemas
obrigatorios. Pois podemos supor que qualquer principio na da justica social em fatores suficientemente pequenos. Na jus-
ordem deve ser polarizado desde que o principio precedente tiga como eqiiidade, o apelo a intuicao é focalizado de dois
tenha sido plenamente satisfeito. Como exemplo de um caso modos. Primeiro escolhemos uma certa posicao no sistema
especial importante, proporei uma ordenacao dessa espécie social a partir da qual o sistema deve ser julgado, e depois per-
classificando o principio de liberdade igual para todos antes do guntamos se, do ponto de vista de um homem representativo
principio que regula as desigualdades sociais e economicas. dessa posicao, seria racional preferir uma ordenacao da organi-
Isso efetivamente significa que a estrutura basica da sociedade zacao basica em vez de outra. Dados certos pressupostos, as
deve ordenar as desigualdades de riqueza e autoridade de ma- desigualdades economicas e sociais devem ser julgadas em ter-
neiras consistentes com as liberdades justas exigidas pelo prin- mos das expectativas a longo prazo do grupo social menos fa-
cipio anterior. Certamente, o conceito de uma ordem serial, ou vorecido. Naturalmente, a especificacao desse grupo nao é
lexical, nao parece, a primeira vista, muito promissor. De fato, muito precisa, e com certeza os nossos juizos de sabedoria tam-
parece ofender ao nosso senso de moderacao e bom discerni- bém concedem um alcance consideravel a intuicao, uma vez
mento. Mais ainda, pressupoe que os principios nessa ordem que talvez nao saibamos formular o que os define. Todavia, fi-
sejam de um tipo bastante especial. Por exemplo, se os princi- zemos uma pergunta muito mais limitada e usamos um juizo
pios anteriores nao tiverem uma aplicacao bem definida e nao de prudéncia racional em substituicao a um juizo ético. Muitas
48 UMA TEORIA DA JUSTJQA TEORIA 49

vezes fica muito claro como deveriamos decidir. A dependén- Avaliei duas maneiras simples e obvias para tratar cons-
cia da intuicao é de uma natureza diferente e é muito menor do trutivamente do problema da prioridade: isto é, ou usando um
que na dicotomia agregacao/distribuicao da concepcao intui- unico principio geral ou usando uma pluralidade de principios
cionista. em ordem lexical. Outras maneiras sem duvida existem, mas
Na discussao do problema da prioridade, o que se deve fa- nao examinarei sua possivel natureza. As teorias morais tradi-
zer é reduzir a nossa dependéncia em relacao a juizos intuiti- cionais sao na maioria intuicionistas ou se baseiam num unico
vos, e nao elimina-los completamente. Nao ha razao para supor principio, de modo que a elaboracao de uma ordenacao serial
que podemos evitar todos os apelos a intuicao, de qualquer ja é novidade suficiente para comecar. Se parece claro que,
espécie, ou que deveriamos fazé-lo. A finalidade pratica é al- geralmente, uma ordem lexical pode nao ser rigorosamente cor-
cancar um consenso confiavel no modo de julgar, a fim de se reta, ela pode, por outro lado, constituir-se numa abordagem
estabelecer uma concepcao coletiva de justica. Se os juizos esclarecedora em certas condicoes especiais, embora muito sig-
intuitivos dos homens sobre as prioridades forem semelhantes, nificativas (§ 82). Assim, pode indicar a estrutura mais abran-
nao importa, na pratica, se eles nao podem formular os princi- gente dos conceitos de justica e sugerir os caminhos pelos
pios que explicam essas conviccoes, ou sequer provar que exis- quais sera possivel encontrar um melhor ajustamento.
tem. Todavia, entendimentos contraditorios criam uma dificulda- - \
a

de, pois a base para atender reivindicacoes é obscura na mesma


medida das contradicoes. Assim, nosso obj etivo deveria ser for- 9. Algumas observacoes sobre a teoria moral
mular uma concepcao da justica que, por mais que apele para a
intuicao, ética ou sabia, tenda a tomar convergentes os nossos A esta almra parece desejavel, para evitar mal-entendidos,
entendimentos meditados sobre a justica. Se essa concepcao de discutir brevemente a natureza da teoria moral. Farei isso expli-
fato existe, entao, do ponto de vista da posicao original, haveria cando com mais detalhes 0 conceito de juizos ponderados em
fortes razoes para aceita-la, pois é racional introduzir uma coe- equilibrio refletido e as razoes para introduzir esse conceito“.
réncia maior nas nossas conviccoes sobre a justica. De fato, Suponhamos que cada pessoa que atingiu uma certa idade
quando olhamos para as coisas do ponto de vista da situacao e possui a capacidade intelectual necessaria desenvolva um sen-
inicial, o problema da prioridade nao esta em como lidar com a so de justica dentro das circunstancias sociais normais. Ad-
complexidade de fatos morais concretos que nao podem ser al- quirimos uma habilidade para julgar que certas coisas sao jus-
terados. Ao contrario, esta no problema de formular propostas tas ou injustas e para fundamentar esses juizos. Mais ainda,
razoaveis e geralmente aceitaveis, para produzir o consenso
geralmente desejamos agir de acordo com esses sentimentos e
desejado nos entendimentos. Numa doutrina contratualista os esperamos um desejo semelhante da parte dos outros. E claro
fatos morais sao determinados pelos principios que seriam es-
que essa aptidao moral é extraordinariamente complexa. Para
colhidos na posicao original. Esses principios especificam
ver isso basta observar a variedade e o numero potencialmente
quais consideracoes sao pertinentes do ponto de vista da justi-
infinito de juizos que estamos prontos a fazer. O fato de muitas
ca social. Pois, se cabe as pessoas escolher esses principios,
vezes nao sabennos o que dizer e de algumas vezes pensarmos
também cabe a elas decidir o grau de complexidade ou simpli-
cidade que desejam para os dados éticos. O consenso original
que nossa mente esta confusa nao reduz a complexidade da
estabelece em que medida elas estao preparadas para transigir nossa aptidao.
e simplificar a fim de estabelecer as regras de prioridade ne- Pode-se pensar a teoria moral primeiramente (e enfatizo a
cessarias para uma concepcao coletiva de justica. - natureza provisoria deste enfoque) como uma tentativa de des-
TEORIA 51
50 UMA TEORIA DA JUSTICA

Até agora, porém, eu nada disse sobre os juizos pondera-


crever a nossa capacidade ética; ou, no presente caso, pode-se dos. Como ja sugeri, eles se apresentam como aqueles juizos
ver a teoria da justica como a descricao do nosso senso de justi- nos quais as nossas qualidades morais tom o mais alto grau de
ca. Essa descricao nao significa simplesmente uma lista dos jui- probabilidade de se mostrarem sem distorcao. Assim, ao deci-
zos sobre instituicoes e acoes que estamos prontos para em- dir quais dentre os nossos juizos devemos levar em conta, po-
preender juntamente com as respectivas fundamentacoes, quan- demos com bom senso selecionar uns e excluir outros. Por
do realizadas. Ao contrario, o que se requer é a formulacao de exemplo, podemos descartar aqueles juizos feitos com hesita-
um conjunto de principios que, quando conjugados as nossas cao ou nos quais nao depositamos muita confianca. De manei-
crencas e ao conhecimento das circunstancias, nos levaria a ra semelhante, podem ser postos de lado os juizos formulados
emitir esses juizos com suas fundamentacoes, se tivéssemos de quando estamos nervosos ou com medo, ou quando por uma
aplicar esses principios de forma consciente e inteligente. Uma razao ou por outra estamos numa posicao de vantagem. Todos
concepcao da justica caracteriza a nossa sensibilidade moral esses juizos tém probabilidade de estar errados ou influencia-
quando os nossos juizos do dia-a-dia sao formulados de acordo dos por uma atencao excessiva aos nossos proprios interesses.
com seus principios. Esses principios podem servir como parte Juizos ponderados sao simplesmente os que sao feitos sob con-
das premissas de uma demonstracao que atinge um entendi- dicoes favoraveis ao exercicio do senso de justica, e portanto
mento correspondente. Nao entendemos o nosso senso de justi- em circunstancias em que nao ocorrem as desculpas e explica-
ca antes de sabermos, por sua aplicacao sistematica um grande coes mais comuns para se cometer um erro. Presume-se entao
numero de casos, o que sao esses principios. que a pessoa que emite o juizo tem a habilidade, a oportunida-
Podemos estabelecer aqui uma comparacao com o proble- de e o desejo de chegar a uma decisao correta (ou que, no mini-
ma de descrever o senso de correcao gramatical das frases da nossa mo, nao deseja evita-la). Além disso, os critérios que identifi-
lingua natal”. Nesse caso, 0 objetivo é caracterizar a habilidade cam esses juizos nao sao arbitrarios. Sao, na verdade, seme-
de reconhecer frases bem formadas mediante a formulacao de lhantes aqueles que escolhem nossos juizos ponderados de
principios claramente expressos que fazem as mesmas distin- qualquer espécie. E uma vez que consideramos o senso de jus-
coes utilizadas pelos que a utilizam como lingua natal. Essa tica como uma capacidade mental, envolvendo o exercicio do
tarefa sabidamente exige construcoes teoricas que em muito pensamento, os juizos pertinentes sao aqueles apresentados em
ultrapassam os preceitos ad hoc do nosso conhecimento grama- condicoes favoraveis para a deliberacao e o julgamento em
tical explicito. Pode-se presumir que uma situacao semelhante geral.
ocorra na teoria moral. Nao ha razao para supor que o nosso Volto-me agora para a nocao do equilibrio refletido. A
senso de justica possa ser caracterizado adequadamente pelos necessidade dessa idéia surge da seguinte maneira: segundo o
preceitos do senso comum ou derivados dos principios mais objetivo provisorio da filosofia moral, pode-se dizer que justi-
obvios da aprendizagem. Uma explicacao correta das atitudes ca como eqiiidade é a hipotese segundo a qual os principios
éticas certamente envolve principios e construcoes teoricas que que seriam escolhidos na posicao original sao idénticos aque-
vao muito além das normas e padroes referidos no dia-a-dia; les que correspondem aos nossos juizos ponderados e, assim,
eventualmente pode também exigir um conhecimento bastante esses principios descrevem o nosso senso de justica. Mas é
sofisticado da matematica. Assim, a idéia da posicao original, claro que essa interpretacao é excessivamente simplificada. Na
onde se da um consenso acerca de principios, nao parece por de- descricao do nosso senso de justica, deve-se fazer uma conces-
mais complicada ou desnecessaria. Na verdade, essas nocoes sao a probabilidade de os juizos ponderados estarem sujeitos a
sao bastante simples e podem servir apenas para um inicio.

f
cl

52 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 53

certas irregularidades e distorcoes, apesar de serem formula- da justica que nos sao conhecidas através da tradicao da filoso-
dos em circunstancias favoraveis. Quando uma pessoa depara fia da moral e quaisquer outras que nos ocorram, e depois
com uma explicacao intuitiva atraente do seu senso de justica examinar cada uma delas. Isso é praticamente o que farei, pois
(uma, por exemplo, que engloba varios pressupostos razoaveis na apresentacao da justica como eqiiidade compararei seus
e naturais), ela pode revisar os seus juizos para conforma-los principios e demonstracoes com algumas outras concepcoes co-
com esses fundamentos, mesmo que a explicacao nao se adapte nhecidas. A luz dessas observacoes, a justica como eqiiidade
perfeitamente aos novos juizos. Tendera especialmente a fazé-lo pode ser entendida como a afirmacao de que os dois principios
se puder achar uma explicacao para as divergéncias que sola- anteriormente mencionados seriam escolhidos na posicao ori-
pam sua confianca nos seus juizos iniciais e se a concepcao apre- ginal em detrimento de outras concepcoes tradicionais de justi-
sentada produzir um entendimento que ela agora pode aceitar. Do ca como, por exemplo, as da utilidade e da perfeicao; e de que
ponto de vista da teoria ética, a melhor explicacao do senso de esses principios, apos uma reflexao, combinariam melhor com
justica de uma pessoa nao é a que combina com suas opinioes nossos juizos ponderados do que essas alternativas identifica-
emitidas antes que ela examine qualquer concepcao de justica, das. Assim, a justica como eqiiidade nos aproxima mais do ideal
mas sim a que coordena os seus juizos em um equilibrio refleti- filosofico; sem, obviamente, atingi-lo.
do. Como vimos, esse estado é aquele que se atinge depois que Essa explicacao do equilibrio refletido sugere imediata-
uma pessoa avaliou varias concepcoes propostas e decidiu ou mente varias outras questoes. Por exemplo, sera que existe um
revisar seus juizos para conformar-se com um deles ou manter- equilibrio refletido (no sentido do ideal filosofico)? Se existir,
se firme nas proprias conviccoes iniciais (e na concepcao cor- é ele unico? Mesmo que seja unico, pode ser atingido? Talvez
respondente). os juizos dos quais partimos, ou o proprio curso da reflexao, ou
Ha, porém, varias interpretacoes do equilibrio refletido. as duas coisas, afetem o ponto de equilibrio, se houver algum,
Pois essa nocao varia dependendo de se saber se a pessoa deve que eventualmente venhamos a alcancar. Seria, porém, iniitil
considerar apenas os tipos que em grau maior ou menor corres- especular aqui sobre essas questoes. Estao muito além de
pondem as suas opinioes atuais, salvo discrepancias secunda- nosso alcance. Nem sequer indagarei se os principios que
rias, ou se deve considerar todas as alternativas possiveis com caracterizam os juizos ponderados de uma pessoa sao os mes-
as quais pudesse plausivelmente conformar seus juizos, junta- mos que caracterizam os de outra. Presumirei que esses princi-
mente com todas as demonstracoes filosoficas pertinentes. No pios sao provavelmente os mesmos para pessoas cujos juizos
primeiro caso estariamos delineando o senso de justica de uma estao em estado de equilibrio refletido, ou, caso nao sej am, que
pessoa mais ou menos como ele é, embora permitindo a suavi- seus juizos se dividem ao longo de algumas linhas mestras
zacao de certas irregularidades; no segundo caso, o senso de representadas pela familia de doutrinas tradicionais que vou
justica de uma pessoa pode sofrer ou nao uma mudanca radi- discutir. (Na realidade, uma pessoa pode encontrar-se simulta-
cal. Claro esta que é o segundo tipo de equilibrio refletido que neamente dividida entre concepcoes opostas.) Se, finalmente,
nos preocupa na filosofia da moral. Certamente ha duvida ficar demonstrado que as pessoas tém, entre elas, concepcoes
quanto a se saber se alguém pode sequer atingir esse estado. diferentes de justica a maneira como diferem é uma questao de
Pois, mesmo se a idéia de todas as alternativas possiveis e deto- primeira importancia. Obviamente nao podemos saber como
das as demonstracoes filosoficas pertinentes estiver bem defi- essas concepcoes variam entre si, ou mesmo se isso acontece,
nida (o que é questionavel) nao podemos examinar cada um até obtermos uma explicacao melhor de sua estrutura. E ainda
deles. O maximo que podemos fazer é estudar as concepcoes nao dispomos disso, mesmo no caso de um imico homem ou de
54 UMA TEORIA DA JUST1(,"A TEORIA 55

um grupo homogéneo de homens. Se pudermos caracterizar o flmdamento da nossa compreensao do significado e dernons-
senso de justica de uma unica pessoa (instruida), é possivel que tracao de enunciados da logica e da matematica possibilitado
tenhamos um bom ponto de partida na direcao de uma teoria da pelos desenvolvimentos obtidos a partir de Frege e Cantor. Um
justica. Podemos supor que todos tém em si mesmos o modelo conhecimento das estruturas fundamentais da logica e da teoria
completo de uma concepcao moral. Assim, para os propositos dos conjuntos e de sua relacao com a matematica transformou
deste livro, as concepcoes do leitor e do autor sao as unicas que a filosofia dessas disciplinas de uma tal maneira que a analise
contam. As opinioes dos outros sao usadas apenas para escla- conceitual e as investigacoes lingiiisticas jamais conseguiriam
recer as nossas proprias mentes. fazer. Basta simplesmente observar o efeito da divisao das teo-
Quero sublinhar que, pelo menos em seus estagios iniciais, rias em teorias que sao decidiveis e completas, indecidiveis
uma teoria da justica é precisamente isso, uma teoria. E uma mas completas, e nem completas nem decidiveis. O problema
teoria dos sentimentos morais (para evocar uma denominacao do significado e da verdade na logica e na matematica foi pro-
do século XVIII) que estabelece os principios que controlam as fundamente alterado pela descoberta de sistemas logicos que
nossas forcas morais, ou, mais especificamente, o nosso senso ilustram esses conceitos. Uma vez que o conteudo substantivo
de justica. Existe uma classe definida, embora limitada, de fatos das concepcoes morais for melhor compreendido, uma trans-
em relacao aos quais principios hipotéticos podem ser verifica- formacao semelhante pode ocorrer. E possivel que nao haja
dos; sao os nosso juizos ponderados em equilibrio refletido. outra maneira de descobrir respostas convincentes para ques-
Uma.teoria da justica esta sujeita as mesmas regras de método toes do significado e da justificativa de juizos morais.
de outras teorias. Definicoes e analises de significado nao ocu- Desejo pois sublinhar a posicao central do estudo das nos-
pam um lugar especial: a definicao é apenas um recurso usado sas concepcoes morais substantivas. Mas o corolario do reco-
na montagem da estrutura geral da teoria. Assim que o arcabou- nhecimento da sua complexidade é a aceitacao do fato de que
co inteiro estiver criado, as definicoes nao tom um status distin- as nossas teorias atuais sao primitivas e apresentam defeitos
to e se mantém de pé ou caem por terra com a propria teoria. graves. Precisamos ser tolerantes com as simplificacoes quan-
Seja como for, é impossivel desenvolver uma teoria substantiva do elas revelam e tomam acessiveis os esquemas gerais dos nossos
de justica fundada imicamente em verdades de logica e defini- juizos. Objecoes na forma de contra-exemplos devem ser feitas
coes. A analise de conceitos morais e dos seus a priori, como com cuidado, porque ha a possibilidade de que nos mostrem
quer que sejam entendidos tradicionahnente, é uma base fragil apenas o que ja sabemos, isto é, que a nossa teoria esta errada
demais. A filosofia da ética deve ter a liberdade de usar hipoteses em algum ponto. O que é importante é descobrir com que fre-
contingentes e fatos genéricos como lhe aprouver. Nao ha outra qiiéncia e em que medida esta errada. Todas as teorias estao
maneira de fornecer uma explicacao dos nossos juizos pondera- presumivelmente erradas em certos pontos. O verdadeiro pro-
dos em equilibrio refletido. Essa é a concepcao da matéria ado- blema em qualquer situacao é saber qual das concepcoes ja pro-
tada pela maioria dos autores classicos britanicos via Sidgwick. postas é a melhor abordagem global. Para averiguar isso, certa-
Nao vejo razao para afastar-me dela 26. mente se exige algum entendimento da estrutura de teorias rivais.
Além disso, se conseguirmos encontrar uma explicacao E por essa razao que tentei classificar e discutir concepcoes da
precisa das nossas concepcoes morais, os problemas de signifi- justica referindo-me as suas idéias intuitivas basicas, porque
cado e demonstracao poderao mostrar-se muito faceis de resol- estas desvendam as principais diferencas entre elas.
ver. Alguns deles na verdade talvez ja nem se apresentem como Na apresentacao da justica como eqiiidade, estabelecerei
problemas reais. Note-se, por exemplo, o extraordinario apro- um contraste com o utilitarismo. Procedo assim por varias ra-
\.___,/

56 UMA TEORIA DA JUSTIQA Capitulo II


Os principios dajustiga
zoes, em parte como um recurso expositivo, em parte porque as
diversas variantes da visao utilitarista por muito tempo domi-
naram a nossa tradicao filosofica e continuam a fazé-lo. E esse
dominio se tem mantido apesar das persistentes duvidas que o
utilitarismo tao facilmente desperta. A explicacao para essa
situacao peculiar reside, creio eu, no fato de que nao foi apre-
sentada nenhuma teoria alternativa que tenha as mesmas virtu-
des de clareza e sistematizacao e que, ao mesmo tempo, inves-
tigue aquelas duvidas. O intuicionismo nao é construtivo, o
perfeccionismo é inaceitavel. Minha conj ectura é que a doutri-
na contratualista adequadamente elaborada pode preencher A teoria da justica pode ser dividida em duas partes prin-
essa lacuna. Penso que a justica como eqiiidade é um esforco cipais: (1) uma interpretacao da situacao inicial e uma formu-
nessa direcao. lacao dos varios principios disponiveis para escolha ali, e (2)
E claro que a justica como eqiiidade aqui apresentada esta uma demonstracao estabelecendo quais dos principios seriam
suj eita as dificuldades que acabamos de observar. Nao constitui de fato adotados. Neste capitulo, dois principios de justica para
uma excecao a natureza primitiva que caracteriza as teorias éti- instituicoes e varios principios para individuos sao discutidos e
cas existentes. E desalentador, por exemplo, constatar que mui-
seu significado é explicado. Assim, por enquanto me ocupo de
to pouco se pode dizer sobre as regras de prioridade; e embora a apenas um imico aspecto da primeira parte da teoria. Somente
ordem lexical possa funcionar razoavelmente bem em alguns
no proximo capitulo retomo a interpretacao da situacao inicial
casos importantes, suponho que nao sera completamente satis-
e inicio a demonstracao de que os principios aqui considerados
fatoria. Contudo, podemos usar recursos simplificadores, e foi
seriam realmente validados. Varios topicos sao discutidos: as
o que muitas vezes fiz. Deveriamos ver uma teoria da justica
instituicoes como objeto da justica e o conceito de justica for-
como um esquema orientador destinado a enfocar as nossas
mal; tres tipos de justica procedimental; o lugar da teoria do
sensibilidades morais e colocar diante das nossas capacidades
intuitivas problemas mais limitados e administraveis para jul- bem; e o sentido em que os principios da justica sao igualita-
garmos. Os principios da justica identificam certas considera-
rios, entre outros. Em todos os casos o obj etivo é explicar o sig-
coes como sendo moralmente pertinentes e as regras de priori- nificado e a aplicacao dos principios.
dade indicam a precedéncia apropriada quando elas conflitam
entre si, enquanto a concepcao da posicao original define a
idéia subjacente que deve informar as nossas ponderacoes. Se o 10. As instituigoes e a justiga formal
esquema como um todo parece, ao refletirmos, esclarecer e or-
denar os nossos pensamentos, e se tende a reduzir dissensoes e a O primeiro objeto dos principios da justica social é a es-
alinhar conviccoes divergentes, ja fez tudo o que se pode razoa- trutura basica da sociedade, a ordenacao das principais institui-
velmente esperar. Entendidas como partes de uma estrutura que coes sociais em um esquema de cooperacao. Vimos que esses
de fato parece util, as numerosas simplificacoes podem ser vis- principios devem orientar a atribuicao de direitos e deveres nes-
tas como provisoriamente justificadas. sas instituicoes e determinar a distribuicao adequada dos bene-
ficios e encargos da vida social. Os principios da justica para
instituicoes nao devem ser confundidos com os principios que
M15!‘-'-'3“:-'1‘?

TEORIA 59
53 UMA TEORIA DA ./USTIQA
proco do entendimento mutuo de que sua conduta esta de acor-
se aplicam aos individuos e as suas acoes em circunstancias
do com as regras que se devem aceitar‘.
particulares. Esses dois tipos de principios se aplicam a dife-
Ao afirmar que uma instituicao, e portanto a estrutura ba-
rentes sujeitos e devem ser discutidos separadamente.
sica da sociedade, é um sistema publico de regras, quero dizer
Por instituicao entendo um sistema publico de regras que
que todos os que estao nela engaj ados sabem o que saberiam se
define cargos e posicoes com seus direitos e deveres, poderes e
essas regras e a sua participacao na atividade que elas definem
imunidades, etc. Essas regras especificam certas formas de
fossem o resultado de um acordo. Uma pessoa que faz parte de
acao como permissiveis, outras como proibidas; criam também
uma instituicao sabe o que as regras exigem dela e dos outros.
certas penalidades e defesas, e assim por diante, quando ocor-
Também sabe que os outros sabem disso e que eles sabem que
rem violacoes. Como exemplos de instituicoes, ou, falando de
ela sabe disso, e assim por diante. Certamente, essa condicao
forma mais geral, de praticas sociais, posso pensar em jogos e
nao é sempre preenchida no caso de instituicoes existentes,
rituais, julgamentos e parlamentos, mercados e sistemas de
mas é uma presuncao simplificadora razoavel. Os principios
propriedade. Pode-se considerar uma instituicao de dois mo-
da justica devem ser aplicados ornamentos sociais que sao con-
dos: primeiro, como um objeto abstrato, ou sej a, como uma for-
siderados publicos nesse sentido. Nos casos em que as regras
ma possivel de conduta expressa por tun sistema de regras;
de determinada parcela de uma instituicao sao conhecidas ape-
segundo, como a realizacao das acoes especificadas por essas
nas por aqueles que pertencem a ela, podemos supor que ha um
regras no pensamento e na conduta de certas pessoas em uma
entendimento de que essas pessoas podem criar regras para si
dada época e lugar. Ha uma ambigiiidade, portanto, quanto ao
proprias conquanto que essas regras sejam destinadas a atingir
que é justo ou injusto: a instituicao como realizacao concreta
finalidades aceitas de forma geral e que os outros nao sejam
ou a instituicao como um objeto abstrato. Parece melhor dizer
afetados negativamente. A publicidade das regras de uma insti-
que justa ou injusta é a instituicao concreta e administrada efe-
tuicao assegura que aqueles nela engajados saibam quais limi-
tiva e imparcialmente. A instituicao como um obj eto abstrato é
tes de conduta devem esperar uns dos outros, e que tipos de
justa ou injusta na medida em que qualquer realizacao concreta
acoes sao permissiveis. Ha uma base comum para a determina-
dela poderia ser justa ou injusta.
cao de expectativas mutuas. Além do mais, em uma sociedade
Uma instituicao existe em um certo tempo e lugar quando
bem-ordenada, regulada de forma efetiva por uma concepcao
as acoes especificadas por ela sao regularmente levadas a cabo
compartilhada de justica, também ha um entendimento comum
de acordo com um entendimento publico de que 0 sistema de
quanto ao que é justo e injusto. Mais tarde, farei a suposicao de
regras que definem a instituicao deve ser obedecido. Dessa for-
que os principios da justica sao escolhidos sob a condicao do
ma, as instituicoes parlamentares sao definidas por um certo
reconhecimento de que eles devem ser publicos (§ 23). Essa é
sistema de regras (ou, para permitir variacoes, por familias
uma condicao natural em uma teoria contratualista.
desses sistemas). Tais regras enumeram certas formas de acao,
E necessario notar a distincao entre as regras constitutivas
variando desde a realizacao de uma sessao parlamentar, pas-
de uma instituicao, que estabelecem seus varios direitos, deve-
sando pela votacao de um projeto de lei e chegando até ao le-
res etc., e as estratégias e regras de conduta acerca de como
vantamento de uma questao de ordem. Varios tipos de normas
tirar o melhor proveito da instituicao para propositos particularesl.
gerais sao organizadas em um esquema coerente. Umainstit11i-
As estratégias e regras de conduta racionais se baseiam em uma
cao parlamentar existe em uma certa época e lugar quando cer-
analise de quais acoes permissiveis os individuos e grupos vao
tas pessoas desempenham as acoes adequadas, se engaj am nes-
escolher em vista de seus interesses, crencas e das conjecturas
sas atividades da forma exigida, com um reconhecimento reci-
60 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 61

que fazem sobre os planos uns dos outros. Essas estratégias e qiiéncia do modo como elas se combinam em um unico siste-
maximas nao sao em si mesmas uma parte da instituicao. Per- ma. Uma instituicao pode encoraj ar e aparentemente justificar
tencem, isso sim, a sua teoria, por exemplo, a teoria da politica expectativas que sao negadas ou ignoradas por outra. Essas dis-
parlamentar. Normalmente, a teoria de uma instituicao, assim tincoes sao bastante obvias. Elas simplesmente refletem o fato
como a de um jogo, toma as regras constitutivas como dadas e de que na avaliacao de instituicoes podemos enxerga-las em
analisa o modo pelo qual o poder é distribuido, explicando co- um contexto mais amplo ou mais restrito.
mo aqueles engajados nela provavelmente irao se valer de suas Deve-se notar que ha instituicoes em relacao as quais o
oportunidades. Ao projetar ou reformar as organizacoes so- conceito de justica normalmente nao se aplica. Um ritual, por
ciais devemos, é claro, examinar os esquemas e taticas que ela exemplo, nao é em geral considerado como justo ou injusto,
permite, e as formas de comportamento que tende a encorajar. embora sem duvida se possam imaginar casos em que isso nao
Idealmente, as regras devem ser fixadas de modo a fazer com seja verdade, como o rito sacrificial do primogénito ou de pri-
que os homens sejam conduzidos por seus interesses predomi- sioneiros de guerra. Uma teoria geral da justica levaria em con-
nantes a agir de modos que promovam fins sociais desejaveis. sideracao casos em que rituais e outras praticas, que geralmen-
A conduta dos individuos, guiada por seus planos racionais, te nao sao considerados como justos ou injustos, sao de fato
deve ser coordenada tanto quanto possivel para atingir resulta- submetidos a essa forma de critica. Presumivelmente eles
dos que, embora nao pretendidos ou talvez nem mesmo previs- devem envolver de alguma forma a distribuicao de certos direi-
tos por eles, sejam mesmo assim os melhores do ponto de vista tos e valores entre as pessoas. Nao vou, entretanto, prosseguir
da justica social. Bentham pensa nessa coordenacao como a nesse questionamento mais amplo. Nosso interesse é unicamen-
identificacao artificial de interesses; Adam Smith, como o tra- te a estrutura basica da sociedade e suas principais instituicoes,
balho da mao invisiveli. Esse é o objetivo do legislador ideal ao e portanto os casos-padrao de justica social.
elaborar as leis, e-o do moralista ao promover as suas reformas. Suponhamos entao que exista uma determinada estrutura
Ainda assim, as estratégias e taticas seguidas pelos individuos, basica. Suas regras satisfazem uma certa concepcao da justica.
apesar de essenciais para a avaliacao das instituicoes, nao sao Podemos nao aceitar seus principios; podemos até considera-
parte dos sistemas publicos de regras que as definem. los odiosos ou injustos. Mas eles sao principios da justica na
Podemos também distinguir entre uma (mica regra (ou gru- medida em que para esse sistema assumem o papel da justica:
po de regras), uma instituicao (ou uma parte maior dela) e a fornecem uma atribuicao de direitos e deveres fimdamentais e
estrutura basica do sistema social como um todo. A razao para determinam a divisao de vantagens advindas da cooperacao so-
fazermos isso é que essa regra ou essas varias regras de uma cial. Imaginemos ainda que essa concepcao da justica tem uma
ordenacao podem ser injustas embora o sistema social como ampla aceitacao na sociedade e que as instituicoes sao impar-
um todo nao o seja. Nao so existe a possibilidade de que regras cial e consistentemente administradas por juizes e outras auto-
e instituicoes isoladas nao sejam em si mesmas suficientemen- ridades. Ou seja, casos similares sao tratados de modo similar,
te importantes, mas também a de que dentro de uma estrutura as similaridades e diferencas sendo aquelas identificadas pelas
ou sistema social uma aparente injustica compense uma outra. normas existentes. A regra correta definida pelas instituicoes é
O todo é menos injusto do que seria se contivesse apenas uma regularmente observada e adequadamente interpretada pelas
das partes injustas. Além disso, é concebivel que um sistema autoridades. A essa administracao imparcial e consistente das
social possa ser injusto mesmo que nenhuma de suas institui- leis e instituicoes, independentemente de quais sejam seus prin-
coes, tomadas separadamente, o seja: a injustica é uma-conse- cipios fimdamentais, podemos chamar de justica formal. Se pen-
TEORIA 63
62 UMA TEORIA DA JUSTIQA
dariam alguma seguranca. Por outro lado, ainda pode ser me-
samos que a justica sempre expressa algum tipo de igualdade,
lhor, em casos particulares, aliviar o suplicio daqueles que sao
entao a justica formal exige que em sua administracao as leis e
injustamente tratados através de desvios das normas existentes.
instituicoes se devam aplicar igualmente (ou seja, do mesmo
Ate que ponto temos justificativas para fazer isso, especial-
jeito) aqueles que pertencem as categorias definidas por elas.
mente em detrimento das expectativas fundadas de boa-fé nas
Como enfatizou Sidgwick, esse tipo de igualdade esta implicito instituicoes vigentes, é uma das questoes intrincadas da politi-
na propria nocao de lei ou instituicao, uma vez que ela seja
ca de justica. Em geral, tudo o que se pode dizer é que a forca
considerada como um sistema de regras gerais‘. A justica for- das exigéncias da justica formal, da obediéncia ao sistema,
mal é a adesao ao principio, ou, como disseram alguns, a obe- depende claramente da justica substantiva das instituicoes e
diéncia ao sistemas. das possibilidades de sua reforma.
E obvio, acrescenta Sidgwick, que a lei e as instituicoes Alguns afirmaram que na verdade a justica formal e a jus-
podem ser igualitariamente executadas e mesmo assim injus- tica substantiva tendem a caminhar juntas, e portanto, pelo
tas. Tratar casos similares de modo similar nao basta para ga- menos grosso modo, as instituicoes injustas nunca, ou pelo me-
rantir uma justica substantiva. Isso depende dos principios de nos raramente, sao administradas de forma consistente e im-
acordo com os quais a estrutura basica é montada. Nao ha con-
parciali. Aqueles que defendem ordenacoes injustas e lucram
tradicao em supor que uma sociedade escravocrata ou de cas- com elas, negando com desprezo os direitos e as liberdades dos
tas, ou alguma outra sociedade que sanciona as formas mais outros, provavelmente nao deixarao que escropulos relaciona-
arbitrarias de discriminacao, seja administrada de forma equi- dos ao estado de direito interfiram em seus interesses em casos
librada e consistente, embora isso possa ser improvavel. No particulares. A inevitavel imprecisao das leis em geral, e a am-
entanto, a justica formal, ou justica como regularidade, exclui pla gama permitida para a sua interpretacao, encoraj am uma
tipos significativos de injusticas. Pois se supomos que as insti-
arbitrariedade na tomada de decisoes que apenas uma submis-
tuicoes sao razoavelmente justas, é entao de grande importan-
sao a justica pode debelar. Assim, afirma-se que onde encon-
cia que as autoridades devam ser imparciais e nao se submetam
tramos a justica formal, o estado de direito e o respeito as ex-
a influéncia de consideracoes pessoais, monetarias ou quais- pectativas legitimas, provavelmente encontraremos também uma
quer outras consideracoes irrelevantes ao lidarem com casos justica substantiva. O desejo de seguir as leis de forma impar-
particulares. A justica formal no caso das instituicoes legais é cial e consistente, de tratar casos similares de forma semelhan-
meramente um aspecto do estado de direito que apoia e assegu- te, e de aceitar as conseqiiéncias da aplicacao de normas pL'1bli-
ra expectativas legitimas. Um tipo de injustica é a falha dos jui-
cas, esta intimamente ligado ao desejo, ou pelo menos a dispo-
zes e de outras autoridades que nao aderem as regras e inter-
sicao, de reconhecer os direitos e liberdades dos outros e de
pretacoes adequadas no julgamento de reivindicacoes. Uma
compartilhar de forma justa os beneficios e os encargos da
pessoa é injusta na medida em que por carater e inclinacao esta
cooperacao social. Um desejo tende a ser associado com o ou-
disposta a tais acoes. Além disso, mesmo nos casos em que as
tro. Essa alegacao certamente é plausivel, mas nao vou exami-
leis e instituicoes sao injustas, muitas vezes é melhor que elas
na-la aqui. Pois nao podemos avalia-la adequadamente antes de
sejam consistentemente aplicadas. Desse modo, aqueles sub- saber quais sao os mais razoaveis principios da justica substan-
metidos a elas pelo menos sabem o que lhes é exigido e podem
tiva e sob quais condicoes os homens vém a afirma-los e a
se proteger adequadamente; ao passo que existe uma injustica viver de acordo com eles. Uma vez entendido o conteildo des-
ainda maior se os que ja estao em desvantagem sao tratados de
ses principios e o seu fundamento na razao e nas atitudes huma-
forma arbitraria em casos particulares em que as regras lhes
64 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 65

nas, teremos condicoes de decidir se a justica substantiva e a asseguram liberdades basicas iguais e os aspectos que especifi-
justica formal estao entrelacadas uma a outra. cam e estabelecem as desigualdades economicas e sociais. E
essencial observar que é possivel determinar uma lista dessas
liberdades. As mais importantes entre elas sao a liberdade poli-
11. Os dois principios da justiga tica (o direito de votar e ocupar um cargo publico) e a liberdade
de expressao e reuniao; a liberdade de consciéncia e de pensa-
Apresentarei agora, de forma provisoria, os dois princi- mento; as liberdades da pessoa, que incluem a protecao contra
pios de justica sobre os quais acredito que haveria um consenso a opressao psicologica e a agressao fisica (integridade da pes-
na posicao original. A primeira formulacao desses principios é soa); o direito a propriedade privada e a protecao contra a pri-
ainda um esboco. Na medida em que prosseguirmos, deverei sao e a detencao arbitrarias, de acordo com o conceito de esta-
considerar varias formulacoes e me aproximar passo a passo da do de direito. Segundo o primeiro principio, essas liberdades
elaboracao final, que sera feita bem mais tarde. Tal procedi- devem ser iguais.
mento permite, creio eu, que a exposicao se desenvolva de um Nessa primeira abordagem, o segundo principio se aplica
modo natural. a distribuicao de renda e riqueza e ao escopo das organizacoes
A primeira afirmacao dos dois principios é a seguinte: que fazem uso de diferencas de autoridade e de responsabilida-
de. Apesar de a distribuicao de riqueza e renda nao precisar ser
- Primeiro: cada pessoa deve ter um direito igual ao mais igual, ela deve ser vantajosa para todos e, ao mesmo tempo, as
abrangente sistema de liberdades basicas iguais que seja compa- posicoes de autoridade e responsabilidade devem ser acessi-
tivel com um sistema semelhante de liberdades para as outras. veis a todos. Aplicamos o segundo principio mantendo as posi-
Segundo: as desigualdades sociais e economicas devem coes abertas, e depois, dentro desse limite, organizando as
ser ordenadas de tal modo que sejam ao mesmo tempo (a) consi- desigualdades economicas e sociais de modo que todos se
deradas como vantajosas para todos dentro dos limites do razoa- beneficiem.
vel, e (b) vinculadas a posicoes e cargos acessiveis a todos. Esses principios devem obedecer a uma ordenacao serial, o
primeiro antecedendo o segundo. Essa ordenacao significa que as
Ha duas frases ambiguas no segundo principio, ou seja violacoes das liberdades basicas iguais protegidas pelo primeiro
“vantajosas para todos” e “acessiveis a todos”. A determinacao principio nao podem ser justificadas nem compensadas por
mais exata de seu sentido conduzira a uma segtmda formulacao maiores vantagens economicas e sociais. Essas liberdades tom
do principio no § 13. A versao final dos dois principios é dada um ambito central de aplicacao dentro do qual elas so podem
no § 46; o § 39 considera a interpretacao do primeiro principio. ser limitadas ou comprometidas quando entram em conflito
Como ja foi dito, esses principios se aplicam primeira- com outras liberdades basicas. Uma vez que podem ser limita-
mente a estrutura basica da sociedade, govemam a atribuicao das quando se chocam umas com as outras, nenhuma dessas
de direitos e deveres e regulam as vantagens economicas e so- liberdades é absoluta; entretanto, elas sao ajustadas de modo a
ciais. A sua formulacao pressupoe que, para os propositos de formar um (mico sistema, que deve ser o mesmo para todos. E
uma teoria da justica, a estrutura social seja considerada como dificil, talvez impossivel, fazer uma especificacao completa
tendo duas partes mais ou menos distintas, o primeiro principio dessas liberdades independentemente das circunstancias parti-
se aplicando a uma delas e o segundo principio a outra. Assim culares, sociais, economicas e tecnologicas, de uma dada socie-
distinguimos entre os aspectos do sistema social que definem e dade. A hipotese é de que a forma geral consiste numa lista que
66 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 67
pode ser definida com exatidao suficiente para sustentar essa tribuidos igualitariamente: todos tém direitos e deveres seme-
concepcao de justica. Sem dflvida, liberdades que nao constam lhantes, e a renda e a riqueza sao partilhadas de modo impar-
nessa lista, por exemplo, o direito a certos tipos de propriedade cial. Esse estado de coisas fornece um ponto de referéncia para
(digamos, os meios de producao), e a liberdade contratual como julgarmos melhorias. Se certas desigualdades de riqueza e
determina a doutrina do laissez-faire, nao sao basicas; portanto, diferencas de autoridade colocam todos em melhores condi-
nao estao protegidas pela prioridade do primeiro principio. goes do que nessa posicao inicial hipotética, entao elas estao de
Finalmente, em relacao ao segundo principio, a distribuicao de acordo com a concepcao geral.
renda e riqueza, e de posicoes de autoridade e responsabilidade, Pelo menos teoricamente, é possivel que, pela renimcia a
devem ser consistentes tanto com as liberdades basicas quanto algumas de suas liberdades fundamentais os homens sejam su-
com a igualdade de oportunidades. ficientemente compensados através dos ganhos economicos e
Os dois principios sao bastante especificos em seu con- sociais resultantes. A concepcao geral de justica nao impoe
teudo, e sua aceitacao se apoia em certas suposicoes que tenta- restricoes quanto aos tipos de desigualdades pennissiveis; ape-
rei ainda explicar e justificar. Por enquanto, devemos observar nas exige que a posicao de todos seja melhorada. Nao precisa-
que esses principios sao um caso especial de uma concepcao mos supor nada tao drastico como aceitar uma condicao de
mais geral de justica que pode ser expressa como segue: escravidao. Imaginemos, em vez disso, que os homens pare-
cam dispostos a renunciar a certos direitos politicos quando as
Todos os valores sociais - liberdade e oportimidade, renda e
riqueza, e as bases sociais da auto-estima — devem ser distribuidos compensacoes economicas forem significativas. E esse tipo de
igualitariamente a nao ser que uma distribuicao desigual de um ou permuta que os dois principios excluem; sendo organizados em
de todos esses valores traga vantagens para todos. ordem serial, eles nao permitem permutas entre liberdades
basicas e ganhos sociais e economicos, a nao ser em circuns-
A injustica, portanto, se constitui simplesmente de desi- tancias atenuantes (§§ 26, 39).
gualdades que nao beneficiam a todos. Sem dovida, essa con- Na maioria das vezes, vou deixar de lado a concepcao ge-
cepcao é extremamente vaga e exige uma interpretacao. ral de justica, para examinar os dois principios em ordem serial.
Como um primeiro passo, suponhamos que a estrutura A vantagem desse procedimento é que, desde o inicio, a questao
basica da sociedade distribua certos bens primarios, ou seja, das prioridades é reconhecida, e ha um esforco na busca de
coisas que todo homem racional presumivelmente quer. Esses principios para lidar com ela. Somos levados a observar todo o
bens em geral tém uma utilidade, nao importam quais sej am os tempo as condicoes sob as quais seria razoavel admitir o peso
planos racionais de vida de uma pessoa. Para simplificar, supo- absoluto da liberdade em relacao as vantagens sociais e econo-
nhamos que os principais bens primarios a disposicao da socie- micas, como definido de acordo com a ordenacao serial dos dois
dade sej am direitos, liberdades e oportunidades, renda e rique- principios. A primeira vista, essa classificacao parece um caso
za. (Mais tarde, na Parte 3, o bem primario da auto-estima extremo e demasiadamente especial para que seja de grande in-
ganha um lugar central.) Esses sao os bens primarios sociais. teresse; mas ha mais justificativas para ela do que se poderia
Outros bens primarios como a saude e o vigor, a inteligéncia e imaginar de inicio. Em todo o caso, é isso que sustentarei (§ 82).
a imaginacao, sao bens naturais; embora a sua posse seja in- Além do mais, a distincao entre direitos e liberdades fundamen-
fluenciada pela estrutura basica, eles nao estao sob seu contro- tais, por um lado, e beneficios sociais e economicos, por outro,
le de forma tao direta. Imaginemos, entao, uma organizacao ini- marca uma diferenca entre os bens sociais primarios que sugere
cial hipotética na qual todos os bens primarios sociais sao dis- uma importante classificacao no sistema social. Sem dilvida, as
. re. 1..

68 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 69

distincoes feitas e a ordenacao proposta sao, na melhor das aplica a distribuicoes de determinados bens a individuos parti-
hipoteses, apenas aproximacoes. Certamente ha circunstancias psplares cjue podem ser identificados por seus proprios nomes.
em que elas falham. Mas é essencial tracar claramente as linhas situacao em que alguem esta pensando como distribuir cer-
principais de uma concepcao razoavel da justica; e, de qualquer tos bens a pessoas necessitadas que lhe sao conhecidas nao esta
forma, em muitas situacoes, os dois principios em ordem serial dentro do alcance dos principios. Os principios se propoem a
podem servir bastante bem. I regular os sistemas mstltuclonais basicos. Nao devemos supor
O fato de os dois principios se aplicarem a instituicoes que haja muita similaridade, do ponto de vista da justica, entre
tem certas conseqiiéncias. Em primeiro lugar, os direitos e I
uma alocacao admmistrativa de bens para pessoas especificas
liberdades basicas a que se referem esses principios sao aque- 6 at concepcao adequada da sociedade. Nossas intuicoes para a
les definidos pelas regras publicas da estrutura basica. Sao os primeira, regidas pelo senso comum, podem ser um guia preca-
direitos e deveres estabelecidos pelas mais importantes insti- r1o para a segunda.
tuicoes da sociedade que determinam se os homens sao livres O segundo principio insiste que cada pessoa se beneficie
ou nao. A liberdade é um certo padrao de formas sociais. O pri-1 gas desigualdades perinissiveis na estrutura basica. Isso signi-
meiro principio simplesmente exige que certos tipos de regras, ica que cada homem representativo definido por essa estrutu-
aquelas que definem as liberdades basicas, se apliquem igual- ra, quando a observa como um empreendimento em curso, deve
mente a todos, e permitam a mais abrangente liberdade compa- achar razoavel preferir as suas perspectivas com a desigualda-
tivel com uma igual liberdade para todos. O unico motivo para ge as suas perspectivas sem ela. Nao se permite que diferencas
circunscrever as liberdades basicas e torna-las menos abran- . e renda ou em posicoes de autoridade e responsabilidade se-
gentes é que, caso contrario, elas interfeririam umas com as jam justificadas pela alegacao de que as desvantagens de uns
outras. em uma posicao sao compensadas pelas maiores vantagens de
Além disso, quando os principios mencionam pessoas, ou putrps em posicoes diferentes. Muito menos ainda podem in-
exigem que todos lucrem com a desigualdade, a referéncia é racoes a liberdade ser contrabalancadas desse modo. En-
feita a pessoas representativas que ocupam as varias posicoes tretanto, obvio que ha infinitas maneiras de todos poderem
(D~.

sociais ou cargos estabelecidos pela estrutura basica. Assim, ter vantagens quando a organizacao inicial de igualdade é to-
ao aplicar o segtmdo principio, suponho que seja possivel atri- mada como um ponto de referéncia. Como entao devemos es-
buir uma expectativa de bem-estar a individuos representativos colher entre essas possibilidades? Os principios devem ser es-
que ocupam essas posicoes. Essa expectativa indica suas pers- pecificados de modo a permitirem uma conclusao determina-
pectivas de vida consideradas a partir de sua posicao social. da. Volto-me agora a esse problema.
Em geral, as expectativas das pessoas representativas depen-.
dem da distribuicao de direitos e deveres em toda a estrutura
basica. As expectativas estao ligadas: elevando as perspectivas 12. Interpretacoes do segundo principio
do homem representativo em uma posicao, por suposicao
aumentamos ou diminuimos as perspectivas dos representantes Ja mencionei que como as frases “vantajosas para todos” e
em outras posicoes. Uma vez que isso se aplica a formas insti- “igualmente abertos a todos” sao ambiguas, cada uma das par-
tucionais, o segundo principio (ou melhor, a primeira parte tes do segundo principio tém dois sentidos correntes. Devido a
dele) se refere as expectativas de individuos representativos. serem esses sentidos independentes um do outro, o principio tem
Como discutirei adiante (§ 14), nenhum dos dois principios se quatro significados possiveis. Supondo que o primeiro principio
TEORJA 71
70 UMA TEORJA DA JUSTIQA
as posicoes estao abertas aqueles capazes de lutar por elas e
de liberdade igual tenha sempre o mesmo S6I1fi£10, _t@n_105d@nt5° dispostos a isso, levara a uma distribuicao justa. Considera-se
quatro interpretacoes dos dois principios, que sao lndwfl HS 113 que atribuir direitos e deveres desse modo resulta num esque-
tabela abaixo: ma que distribui renda e riqueza, autoridade e responsabilida-
de, de modo eqiiitativo, nao importa qual seja a forma de distri-
“Vantajosas para todos” buicao. A doutrina inclui um elemento importante da justica
procedimental pura que também esta presente nas outras inter-
“igualmente abertos” Principio da eficiéncia Principio da diferenca
pretacoes.
Igualdade como Sistema de Liberdade Aristocracia Natural Neste ponto é necessario fazer uma pequena digressao
carreiras abertas Natural _ para explicar o principio da eficiéncia. Trata-se simplesmente
a talentos Igualdade Liberal Igualdade Democratica do principio do “otimo de Pareto” (como é conhecido pelos
Igualdade como
igualdade de
economistas) formulado de modo a se aplicar a estrutura basi-
oportunidades ca’. Usarei o termo “eficiéncia” porque ele esta literalmente
eqiiitativas correto e o termo “otimizacao” (utilizado pelos economistas) su-
gere que o conceito seja muito mais amplo do que é na realida-
Esquematizarei estas trés interpretacoes: o sistema Ide deg. Com certeza, esse principio so se destinava originalmente
liberdade natural, a igualdade liberal e a igualdade democrati- a configuracoes particulares do sistema economico, por exem-
ca. Sob certos aspectos, essa seqiiéncia é _a mais intuitiva, mas a plo, a distribuicao de bens entre os consumidores ou a modos
seqiiéncia via interpretacao da aristocracia natural nao deixa de de producao. O principio afirma que uma configuracao é efi-
ser interessante e farei dela um breve comentario. Elaborando a ciente sempre que é impossivel muda-la de modo a fazer com
justica como eqiiidade, devemos decidir qnal mterpretacao e que algumas pessoas (pelo menos uma) melhorem a sua situa-
preferivel. Adotarei a da igualdade democratica, explicando na cao sem que, ao mesmo tempo, outras pessoas (pelo menos
proxima secao o que significa essa nocao. O rac1oc1n1o em uma) piorem a sua. Dessa forma, uma distribuicao de um esto-
defesa de sua aceitacao na posicao original so comeca no pro- que de mercadorias é eficiente se nao existe redistribuicao des-
ximo capitulo. M _ sas mercadorias que melhore a situacao de pelo menos um des-
A primeira interpretacao (em qualquer das sequencias) ses individuos sem que um outro fique em desvantagem. A
vou me referir como 0 sistema de liberdade natural. ‘Nessa ver- organizacao da producao é eficiente se nao existe um modo de
sao, a primeira parte do segundo principio é €l'1t€l1d1Clfl.CO1‘l:lO o alterar os insumos a fim de aumentar a producao de algum bem
principio da eficiéncia ajustado de modo a se. aplicar a1nst1tu1- sem que se diminua a producao de outro. Pois, se pudéssemos
coes ou, nesse caso, a estrutura basica da sociedade; e a segun- ter mais quantidade de um bem sem ter de nos privar de um
da parte é entendida como um sistema social abeno no qual, outro, o maior estoque de bens poderia ser usado para melhorar
para usarmos a frase tradicional, as carreiras estao abertas aos a situacao de algumas pessoas sem piorar em nada as de outras.
talentos. Suponho em todas as interpretacoes que o primeiro Essas aplicacoes do principio mostram que ele é, de fato, um
principio de liberdade igual é satisfeito e que a economia e, principio de eficiéncia. Uma distribuicao de bens ou um esque-
dizendo de forma geral, um sistema de mercado livre, embora ma de producao é ineficiente quando ha modos de fazer algo
os meios de producao possam ou nao ser propriedades pnva- ainda melhor para alguns individuos sem fazer nada pior para
das. O sistema de liberdade natural afirma, entao, que uma es- os outros. Presumirei que as partes na posicao original aceitam
trutura basica que satisfaz o principio da eficiéncia, e na qual
72 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 73

. . . - - -~ ' ‘ '" s so- da linha reta que liga esses dois pontos também devem estar no
esse p1'1I1C1plO para julgar a eficiencia das Ol'.g3I1lZ3§.O€-in o conjunto. Circulos, elipses, quadrados, triangulos, etc. sao conjuntos
ciais e economicas. (Ver a discussao do pnnciplo da 8 ICIBHCIB convexos.
a seguir.) Esta claro que ha muitos pontos eficientes, na verdade, todos os
pontos da linha AB. O principio da eficioncia nao seleciona, por si so,
O principio da eficiéncia uma distribuicao particular de mercadorias como a mais eficiente.
Suponhamos que exista um estoque fixo de bens para ser distri- Para selecionar entre as distribuicoes eficientes é necessario um outro
buido entre duas pessoas, x, e x2 . Que a linha AB represente Q5 P011‘ principio, por exemplo, um principio de justica.
tos em que, dado o ganho de x1 no nivel correspondente, nao ha como De dois pontos, se um esta a nordeste do outro, esse ponto é
distribuir os bens de modo a fazer com que X2 fique em melhor situa- superior pelo principio da eficiéncia. Pontos a noroeste ou a sudeste
cao do que o ponto indicado pela curva. Consideremos o ponto D = nao podem ser comparados. A ordenacao definida pelo principio da
(a, b). Mantendo entao x1 no nivel a, o melhor que pode ser f€1lIO. ppr eficiéncia é apenas parcial. Assim, apesar de na figura 4 C ser supe-
x2 é o nivel b. Na figura 3 o ponto O, a origem, representa a posicao rior a E, e D ser superior a F, nenhum dos pontos da linha AB sao
antes que qualquer bem seja distribuido. Os pontos da linha AB sao superiores ou inferiores uns em relacao aos outros. A classe dos pon-
os pontos eficientes. Pode-se ver que cada ponto em AB satisfaz o cri- tos eficientes nao pode ser classificada comparativamente. Até mes-
terio de Pareto: nao ha redistribuicao que melhore a s1tufl<;fl0 de qual‘ mo os pontos extremos A e B, nos quais uma das partes tem tudo, sao
quer uma das pessoas sem que piore a da outra. Isso e ilustrado pelo eficientes, exatamente como os outros pontos de AB.
fato de que a linha AB desce obliquamente curvando-se para a direita. Observe-se que nao podemos dizer que qualquer ponto da linha
Uma vez que so existe um estoque fixo de itens, supoe-se que na AB é superior a todos os pontos no interior de OAB. Cada ponto
medida em que uma pessoa ganha a outra perdez (Com certeza, essa de AB é superior apenas aqueles pontos no interior que estao a su-
suposicao se torna invalida no caso da estrutura basica que e um siste- doeste dele. Assim, o ponto D é superior a todos os pontos que estao
ma de cooperacao que produz uma soma de vantagens positivas.) dentro do retangulo indicado pelas linhas pontilhadas que unem D
Normalmente, supoe-se que a regiao OAB seja um conjunto COI1V@X0- aos pontos a e b. O ponto D nao é superior ao ponto E. Esses pontos
Isso significa que dado qualquer par de pontos no conjunto, os pontos nao podem ser classificados comparativamente. O ponto C, entretan-

X2 X2
B
B -, c
W/II; -

/
/

b D b

O O A X1 O 0 A X1

FIGURA 3 HGURA 4
74 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 75

to, é superior a E, assim como todos os pontos da linha AB que per- Existem, devo supor, muitas organizacoes eficientes da es-
tencem a pequena regiao triangular sombreada que tem o ponto E trutura basica. Cada uma delas especifica uma divisao de van-
como um de seus extremos. tagens advindas da cooperacao social. O problema é escolher
Por outro lado, se tomarmos a linha com inclinacao de 45° como
entre elas, encontrar uma concepcao da justica que eleja tam-
indicadora do locus de distribuicao igual (isso supoe uma interpreta-
bém como justa uma dessas distribuicoes eficientes. Se conse-
cao cardinal interpessoal dos eixos, algo que nao havia sido suposto
guirmos fazer isso, teremos ido além da mera eficiéncia, mas
nas observacoes precedentes), e se considerarmos essa linha como
uma base adicional de decisoes, entao, considerando tudo, o ponto D de um modo compativel com ela. Mas é natural testar a idéia de
pode ser preferivel ao ponto C e ao ponto E. O ponto D esta muito que, se o sistema social é eficiente, nao ha motivo para nos
mais proximo dessa linha. Podemos até decidir que um ponto interior preocupannos com a distribuicao. Nesse caso, todas as organi-
como F deve ser preferivel a C, que é um ponto eficiente. Na verdade, zacoes eficientes sao declaradas igualmente justas. Sem duvida,
na justica como eqiiidade os principios de justica sao anteriores a con- no caso da alocacao de bens particulares para individuos con-
sideracoes de eficiéncia e, portanto, falando de fonna geral, os pontos cretos, essa sugestao seria bizarra. Ninguém iria supor que, do
interiores que representam distribuicoes justas serao geralmente pre- ponto de vista da justica, nao importa se um entre varios ho-
feriveis em relacao aos pontos eficientes que representam distribui- mens possui tudo. Mas a sugestao parece igualmente irrazoa-
coes injustas. Com certeza, a figura 4 representa uma situacao muito
vel para a estrutura basica. Dessa forma, pode ser que, sob cer-
simples e nao pode ser aplicada a estrutura basica.
tas condicoes, um regime de servidao nao possa ser significati-
vamente reformado sem a diminuicao das expectativas de al-
O principio da eficiéncia pode ser aplicado a estrutura ba-
gum homem representativo, por exemplo, dos proprietarios de
sica em referéncia as expectativas dos homens representativos“.
terras, e nesse caso o regime servidao é eficiente. No entanto,
Assim, podemos dizer que uma organizacao de direitos e deveres
pode também acontecer, sob as mesmas condicoes, que um sis-
na estrutura basica é eficiente se, e somente se, é impossivel tema de trabalho livre nao possa ser mudado sem diminuir as
mudar as regras, redefinir o esquema de direitos e deveres, de expectativas de algum outro homem representativo, por exem-
modo a aumentar as expectativas de qualquer dos homens re- plo os trabalhadores livres, e portanto esse arranjo é igualmen-
presentativos (pelo menos um) sem ao mesmo tempo diminuir te eficiente. De forma mais geral, podemos dizer que sempre
as expectativas de um (pelo menos um) outro homem represen- que uma sociedade esta dividida em um niunero significativo
tativo. E claro que essas alteracoes devem ser consistentes com de categorias é possivel, suponhamos, maximizar as expectati-
os outros principios. Ou seja, ao mudarmos a estrutura basica vas de qualquer um de seus homens representativos. Esses pon-
nao nos é permitido violar o principio de liberdade igual ou a tos maximos fornecem pelo menos o mesmo numero de posi-
exigéncia de posicoes abertas. O que pode ser alterado é a dis- coes eficientes, pois nenhuma delas pode ser abandonada no
tribuicao de renda e riqueza e o modo pelo qual aqueles em intuito de elevar as expectativas de outros sem diminuir aque-
posicao de autoridade e responsabilidade regulam as atividades las do homem representativo em relacao ao qual o maximo é
cooperativas. Consistente com as restricoes de liberdade e aces- definida. Assim, cada um dos extremos é eficiente, mas certa-
sibilidade, a alocacao desses bens piimarios pode ser ajustada mente eles nao podem ser todos justos.
para modificar as expectativas dos individuos representativos. Essas reflexoes demonstram apenas o que sempre soube-
Uma organizacao da estrutura basica é eficiente quando nao ha mos, ou sej a, que o principio da eficiéncia sozinho nao pode
como mudar essa distribuicao de modo a elevar as perspectivas servir como uma concepcao da justica‘°. Portanto é preciso
de alguns sem diminuir as perspectivas de outros. - completa-lo de alguma forma. No sistema de liberdade natural
TEORIA 77
76 UMA TEORIA DA JUSTICA
das porcoes seja influenciada por esses fatores tao arbitrarios
o principio da eficiéncia é restringido por certas instituicoes do ponto de vista ético.
basicas; quando essas restricoes sao respeitadas qualquer dis- O que chamarei de interpretacao liberal tenta corrigir isso
tribuicao eficiente resultante é aceita como justa. Falando de acrescentando a exigéncia de carreiras abertas a talentos a condi-
forma aproximativa, o sistema de liberdade natural seleciona cao adicional de uma eqiiitativa igualdade. A idéia aqui é que as
uma distribuicao eficiente como segue: suponhamos que sabe- posicoes nao devem estar abertas apenas de um modo formal,
mos, com base na teoria economica, que, nas condicoes padro- mas que todos devem ter uma oporumidade eqiiitativa de atingi-
nizadas que definem uma economia de mercado competitiva, a las. A primeira vista, nao fica claro o que isso significa, mas
renda e a riqueza serao distribuidas de um modo eficiente, e podemos dizer que aqueles com habilidades e talentos seme-
que a distribuicao eficiente particular resultante em qualquer lhantes devem ter chances semelhantes na vida. Mais especifica-
periodo é determinada pela distribuicao inicial de ativos, ou mente, supondo que haja uma distribuicao de dotes naturais,
seja, pela distribuicao inicial de renda e riqueza, e de talentos e aqueles que estao no mesmo nivel de talento e habilidade, e tom
habilidades naturais. Com cada distribuicao inicial, chega-se a a mesma disposicao para utiliza-los, devem ter as mesmas pers-
um resultado eficiente. Dessa forma, se devemos aceitar o pectivas de sucesso, independentemente de seu lugar inicial no
resultado como justo, e nao apenas como eficiente, deveremos sistema social. Em todos os setores da sociedade deveria haver,
também aceitar a base sobre a qual, ao longo do tempo, a distri- de forma geral, iguais perspectivas de cultura e realizacao para
buicao inicial de ativos é determinada. todos os que sao dotados e motivados de forma semelhante. As
No sistema de liberdade natural a distribuicao inicial é re- expectativas daqueles com as mesmas habilidades e aspiracoes
gulada pelas organizacao implicita na concepcao de carreiras nao devem ser afetadas por sua classe social‘ ‘.
abertas a talentos (como se definiu anteriormente). Essa orga- A interpretacao liberal dos dois principios busca, entao,
nizacao pressupoe uma base de liberdade igual (especificada mitigar a influéncia das contingéncias sociais e boa sorte expon-
pelo primeiro principio) e uma economia de mercado livre. Ela tanea sobre a distribuicao das porcoes. Para atingir esse objetivo
exige uma igualdade formal de opornmidades, no sentido de é necessario impor ao sistema social condicoes estruturais'basi-
que todos tom pelo menos os mesmos direitos legais de acesso cas adicionais. Devem ser estabelecidas adaptacoes do merca-
a todas as posicoes sociais privilegiadas. Mas como nao ha do livre dentro de uma estrutura de instituicoes politicas e le-
esforco algum para preservar uma igualdade, ou similaridade, gais que regule as tendéncias globais dos eventos economicos e
de condicoes sociais, a nao ser na medida em que isso seja preserve as condicoes sociais necessarias para a igualdade
necessario para preservar as instituicoes basicas indispensa- eqiiitativa de oportunidades. Os elementos dessa estrutura sao
veis, a distribuicao inicial de ativos para cada periodo de tempo bastante familiares, embora possa ser util relembrar a impor-
é fortemente influenciada pelas contingéncias naturais e so- tancia de se evitarem acumulos excessivos de propriedade e
ciais. A distribuicao existente de renda e riqueza, por exemplo, riqueza e de se manterem iguais oportunidades de educacao
é o efeito cumulativo de distribuicoes anteriores de ativos natu- para todos. As oportunidades de se atingir conhecimento cultu-
rais — ou seja, talentos e habilidades naturais - conforme eles ral e qualificacoes nao deveriam depender da posicao de classe
foram desenvolvidos ou nao, e a sua utilizacao foi favorecida de uma pessoa, e assim o sistema escolar, seja publico ou priva-
ou desfavorecida ao longo do tempo por circunstancias sociais do, deveria destinar-se a eliminar barreiras de classe.
e eventualidades fortuitas como pela eventualidade de acidentes Embora a concepcao liberal pareca claramente preferivel
ou da boa sorte. Intuitivamente, a mais obvia injustica do siste- ao sistema de liberdade natural, intuitivamente ela ainda parece
ma de liberdade natural é que ele permite que a distribuicao
I "!'\1E'

78 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 79

defeituosa. Em primeiro lugar, mesmo que funcione perfeita- Mas tanto a concepcao liberal quanto a de aristocracia na-
mente eliminando a influéncia das contingéncias sociais, ela tural sao instaveis. Pois uma vez que somos perturbados pela
ainda permite que a distribuicao de renda e riqueza seja influen- influéncia de qualquer um dos dois elementos, seja da contin-
ciada pela distribuicao natural de habilidades e talentos. Dentro géncia social, seja do acaso natural, na determinacao de parce-
dos limites permitidos pelas organizacoes basicas, a distribui- las distributivas, ao refletirmos somos compelidos a ficar preo-
cao das fracoes é decidida pelo resultado da loteria da natureza; cupados também pela influéncia do outro elemento. De um
e, de uma perspectiva ética, esse resultado é arbitrario. Nao ha ponto de vista moral, ambos parecem igualmente arbitrarias.
mais motivos para permitir que a distribuicao de renda e riqueza Portanto, independentemente de como afastemos do sistema de
obedeca a distribuicao de dotes naturais do que para aceitar que liberdade natural, nao podemos ficar satisfeitos com nada que
ela se acomode a casualidade historica ou social. Além do mais, nao seja a concepcao democratica. Ainda tenho de explica-la.
o principio de oportunidades eqiiitativas so pode ser realizado E, além do mais, nenhuma das observacoes anteriores é um
de maneira imperfeita, pelo menos enquanto existir algum tipo argumento a favor dessa concepcao, ja que em uma teoria con-
de estrutura familiar. A extensao do desenvolvimento e da fun- tratualista todas as demonstracoes, estritamente falando, de-
vem ser construidos em termos do que seria racional aceitar na
cao das capacidades naturais é afetada por todos os tipos de
posicao original. No entanto, estou interessado aqui em prepa-
condicoes sociais e atitudes de classe. Mesmo a disposicao de
rar o caminho para a minha interpretacao preferida dos dois
fazer um esforco, de tentar, e de ser assim merecedor, no senti-
principios, de modo que esses critérios, especialmente o segun-
do comum do termo, em si mesma depende de circunstancias
do, nao parecam exagerados para o leitor. Uma vez que esta-
sociais e familiares felizes. Na pratica, é impossivel assegurar
mos tentando encontrar para eles uma interpretacao que trate
oportunidades iguais de realizacao e de cultura para os que re-
todos igualmente como pessoas morais, e que nao meca a parte
ceberam dotes semelhantes, e portanto talvez se prefira adotar
de cada homem nos beneficios e encargos da cooperacao social
um principio que reconheca esse fato e também mitigue os efei- em funcao da sua fortuna social ou sua sorte na loteria natural,
tos arbitrarios da propria loteria natural. O fato de a concepcao a interpretacao democratica é a melhor escolha entre as quatro
liberal fracassar nesse ponto nos encoraja a buscar uma outra alternativas. Com esses comentarios a guisa de prefacio, VOl'[O-
interpretacao para os dois principios da justica. me agora para essa concepcao.
Antes de nos voltarmos para a concepcao da igualdade de-
mocratica, deveriamos observar a da aristocracia natural. Nes-
sa visao, nao se faz tentativa alguma de regular as contingén- 13. A igualdade democratica e 0 principio da diferenca
cias sociais além do que exige a igualdade formal de oportuni-
dades, mas as vantagens das pessoas com maiores dotes natu- Como sugere a tabela, chega-se a igualdade democratica
rais devem limitar-se aqueles que promovem o bem dos setores por meio da combinacao do principio da igualdade eqiiitativa
mais pobres da sociedade. O ideal aristocratico é aplicado a um de oportunidades com o principio da diferenca. Este ultimo eli-
sistema que é aberto, pelo menos de tun ponto de vista legal, e mina a indeterminacao do principio da eficiéncia elegendo
a melhor situacao daqueles favorecidos por ele é considerada uma posicao particular a partir da qual as desigualdades econo-
justa apenas quando menos possuiriam os que estao em posi- micas e sociais da estrutura basica devem ser julgadas. Supon-
cao inferior se menos fosse dado para os que estao em posicao do-se a estrutura de instituicoes exigida pela liberdade igual e
superior”. Desse modo, a idéia de noblesse oblige é transferida pela igualdade eqiiitativa de oportunidades, as maiores expec-
para a concepcao de aristocracia natural. . tativas daqueles em melhor situacao sao justas se, e somente
80 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 31
bens primarios sao distribuidos igualitariamente. A curva OP esta
se, funcionam como parte de um esquema que melhora as ex-
sempre abaixo da linha a 45°, uma vez que x1 esta sempre em melho-
pectativas dos membros menos favorecidos da sociedade. A res condicoes. Dessa forma, as imicas partes relevantes das curvas de
idéia intuitiva é de que a ordem social nao deve estabelecer e indiferenca sao as que ficam abaixo dessa linha, e por esse motivo, a
assegurar as perspectivas mais atraentes dos que estao em me- parte superior a esquerda da figura 6 esta em branco. E possivel ver
lhores condicoes a nao ser que, fazendo isso, traga também com clareza que 0 principio da diferenca so é perfeitamente satisfeito
vantagens para os menos afortunados. (Ver a seguir a discussao quando a curva OP apenas tangencia a mais alta curva de indiferenca
do principio da diferenca.) que atinge. Na figura 6, esse ponto tangencial é representado por a.
Note-se que a curva de contribuicao OP se eleva a direita porque
O principio da diferenca se supoe que a cooperacao social definida pela estrutura basica é
mutuamente vantajosa. Nao se trata mais de distribuir aleatoriamente
Suponha-se que as curvas de indiferenca representem agora as um estoque fixo de bens. Além disso, nada se perde se é possivel uma
distribuicoes que sao consideradas como igualmente justas. Entao, o comparacao interpessoal precisa dos beneficios. Basta que a pessoa
principio da diferenca é uma concepcao fortemente igual no sentido menos favorecida possa ser identificada e a sua preferéncia racional
de que, se nao houver uma distribuicao que melhore a situacao de
determinada.
ambas as pessoas (limitando-nos, para simplificar, ao caso de duas Uma visao menos igualitaria que o principio da diferenca, e tal-
pessoas), deve-se preferir uma distribuicao igual. As curvas de indife-
vez mais plausivel a primeira vista, é aquela na qual as curvas de indife-
renca tomam a forma representada na figura 5. Na verdade, essas cur-
renca para distribuicoes equivalentes (ou para todas as coisas consi-
vas sao feitas de linhas verticais e horizontals que se interseccionam
deradas) sao curvas regulares e convexas em relacao a origem, como
em angulos retos na altura da linha com inclinacao de 45° (mais uma
na figura 7. As curvas de indiferenca para as fmicoes de bem-estar
vez supondo-se uma interpretacao cardinal e interpessoal dos eixos).
social sao freqiientemente representadas desse modo. Esse fonnato
Nao importa o quanto a situacao de cada pessoa seja melhorada; do
das curvas expressa o fato de que dado que cada uma das pessoas ga-
ponto de vista do principio da diferenca, nao ha ganho algum a nao
nha em detrimento da outra, o aumento de beneficios para ela se torna
ser que o outro também ganhe. 3
menos valioso de um ponto de vista social.
Suponha-se que x, seja o homem representativo mais favorecido
Um utilitarista classico, por outro lado, é indiferente quanto ao
na estrutura basica. A medida que as suas perspectivas aumentam,
aumentam também as perspectivas de x2, o homem menos favoreci- modo de distribuicao de uma quantia fixa de bens. Ele so recorre a
do. Na figura 6, admite-se que a curva OP represente a contribuicao igualdade para resolver impasses. Se so ha duas pessoas, entao, su-
para as expectativas de x2 causadas pelas maiores expectativas de xl. pondo uma interpretacao cardinal interpessoal dos eixos, as linhas de
O ponto de origem O representa o estado hipotético no qual todos os indiferenca do utilitarista para distribuicoes sao linhas retas perpendi-

x2 x,

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O
In-IQ! 7"” ' 41

O
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i. . _. . _ 1

45 _ _ _________ 451*, W j ii 0 0 W if lip; _


‘ O X1 O 0 X1 X1 b ° X1
FIGURA 5 FIGURA 6 ' FIGURA 7 FIGURA s
TEORIA 83
82 UMA TEORIA DA JUSTICA
eficiente, a inovacao se instaure num ritmo mais acelerado, e
culares a linha com inclinacao de 45°. Entretanto, uma vez que x, e x2 assim por diante. Nao considerarei até que ponto essas suposi-
sao homens representativos, os ganhos obtidos por eles devem ser
coes sao verdadeiras. O importante é que deve haver alguma
avaliados pelo numero de pessoas que cada um representa. Como pre-
argumentacao desse tipo para que essas desigualdades satisfa-
sumivelmente x2 representa muito mais pessoas que x1, as linhas de
indiferenca se tornam mais horizontais, como mostra a figura 8. A
cam o principio da diferenca.
proporcao entre 0 numero dos favorecidos e o nfimero dos desfavore- Farei agora algumas observacoes sobre esse principio. Em
cidos define a inclinacao dessas linhas retas. Desenhando como antes a primeiro lugar, ao aplica-lo, devemos distinguir entre dois ca-
mesma curva de distribuicao OP, vemos que a melhor disnibuicao de sos. O primeiro caso é aquele em que as expectativas dos me-
um ponto de vista utilitarista é alcancada no ponto que esta além do nos favorecidos estao de fato maximizadas (obedecendo, é claro,
ponto b onde a curva OP atinge 0 seu maximo. Como o principio da as restricoes mencionadas). Nenhuma mudanca nas expectati-
diferenca seleciona o ponto b e b esta sempre a esquerda de a, o utili- vas daqueles que estao em melhor posicao pode, nesse caso,
tarismo permite, quando as outras circunstancias sao iguais, maiores melhorar a situacao dos menos favorecidos. Da-se entao o que
desigualdades. chamarei de esquema perfeitamente justo. O segundo caso é
aquele em que as expectativas de todos os mais favorecidos de
Para ilustrar o principio da diferenca, consideremos a dis- qualquer forma contribuem para o bem-estar dos menos favo-
tribuicao de renda entre as classes sociais. Suponhamos que os recidos. Ou seja, se suas expectativas fossem diminuidas, as
varios grupos pertencentes a diferentes faixas de renda estej am perspectivas dos menos favorecidos cairiam da mesma forma.
correlacionados a individuos representativos, e que em refe- No entanto, ainda nao se atingiu o maximo. Expectativas ainda
réncia as expectativas destes ultimos possamos julgar a distri- mais elevadas para os mais favorecidos elevariam as expectati-
buicao. Ora, digamos que aqueles que de inicio sao membros vas daqueles que estao em posicao mais baixa. Afirmarei que
da classe empresarial na democracia com propriedade privada tal esquema é totalmente justo, mas nao a organizacao mais
tém melhores perspectivas do que aqueles que de inicio estao justa. Um esquema é injusto quando uma ou mais das maiores
na classe dos trabalhadores nao especializados. Parece prova- expectativas sao excessivas. Se essas expectativas fossem di-
vel que isso sera verdadeiro mesmo quando as injusticas so- minuidas, a situacao dos menos favorecidos seria melhorada.
ciais agora existentes forem eliminadas. O que, entao, pode A medida da injustica de um ordenamento depende de quao
justificar esse tipo de desigualdade inicial nas perspectivas de excessivas sao as expectativas mais altas e da extensao em que
vida? De acordo com o principio da diferenca, a desigualdade é sua realizacao dependa da violacao dos outros principios da
justificavel apenas se a diferenca de expectativas for vantajosa justica, por exemplo, a igualdade eqiiitativa de oportunidades;
para o homem representativo que esta em piores condicoes, mas nao tentarei medir os graus de injustica. O ponto a ser no-
neste caso o trabalhador representativo nao especializado. A tado aqui é que apesar de o principio da diferenca ser, estrita-
desigualdade de expectativas seria justificavel somente se a mente falando, um principio maximizador, ha uma distincao
sua diminuicao tornasse a classe trabalhadora ainda mais des- significativa entre os casos que nao atingem a melhor ordena-
favorecida. Supostamente, dada a clausula do segundo princi- cao. Uma sociedade deveria tentar evitar situacoes em que as
pio referente as posicoes abertas e o principio da liberdade de contribuicoes marginais dos mais favorecidos sej am negativas,
uma maneira geral, as maiores expectativas permitidas aos em- uma vez que, todas as demais coisas permanecendo iguais, isso
presarios os encorajam a fazer coisas que elevam as perspecti- parece um erro mais grave do que nao atingir o melhor esque-
vas da classe trabalhadora. Suas perspectivas melhores funcio- ma quando as contribuicoes sao positivas. A diferenca ainda
nam como incentivos para que o processo economico‘ seja mais
84 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 85

favorecida obedecendo as limitacoes exigidas. Contanto que


maior entre as classes viola o principio de vantagens motuas e
também o da igualdade democratica (§ 17). isso traga beneficios para todos, como supus até agora, os ga-
Um outro ponto a considerar é o seguinte. Vimos que o sis- nhos estimados em relacao a situacao de igualdade hipotética
tema de liberdade natural e a concepcao liberal vao além do sao irrelevantes, quando nao impossiveis de determinar. Pode
principio da eficiéncia, criando certas instituicoes basicas e dei- haver, entretanto, um outro sentido em que todos se beneficiam
xando o resto ao encargo da justica procedimental pura. A con- quando o principio da diferenca é satisfeito, ao menos se fizer-
cepcao democratica sustenta que, embora a justica procedimen- mos algumas suposicoes. Suponhamos que as desigualdades
tal pura possa ser invocada pelo menos em certa medida, o modo nas expectativas estao ligadas em cadeia: ou seja, se uma van-
como as interpretacoes anteriores fazem isso ainda deixa muita tagem tem o efeito de elevar as expectativas da posicao mais
coisa para a casualidade social e natural. Mas deve-se notar que baixa, ela também eleva as expectativas de todas as camadas
o principio da diferenca é compativel com o principio da eficién- intermediarias. Por exemplo, se as maiores expectativas para os
cia. Pois, quando o primeiro é totalmente satisfeito, é de fato empresarios beneficiam os trabalhadores nao especializados,
impossivel melhorar a situacao de qualquer homem representati- também devem beneficiar os semi-especializados. Note-se que
vo sem piorar a de outro, ou sej a, a do homem representativo a ligacao em cadeia nao diz nada a respeito do caso em que os
menos favorecido cujas expectativas devemos maximizar. As- menos afortunados nao ganham, de modo que nao significa
sim, a justica é definida de modo a ser consistente com a eficién- que todos os efeitos atuam uns sobre os outros. Suponhamos
cia, pelo menos nos casos em que os dois principios sao perfeita- ainda que as expectativas estao intimamente entrelacadas: ou
mente satisfeitos. E claro que, se a estrutura basica for injusta, seja, é impossivel elevar ou abaixar a expectativa de qualquer
esses principios autorizarao mudancas que podem diminuir as homem representativo sem elevar ou abaixar a expectativa de
expectativas de alguns dos que estao em situacao melhor, e por- qualquer outro homem representativo, especialmente a do me-
tanto a concepcao democratica nao é consistente com o principio nos favorecido. Nao ha pontas soltas, por assim dizer, no modo
da eficiéncia se considerarmos que esse principio significa que como as expectativas se entrelacam. Ora, com essas suposicoes
sao permitidas apenas mudancas que melhoram as perspectivas
ha um sentido em que todos se beneficiam quando o principio
de todos. A justica tem primazia sobre a eficiéncia e exige algu-
da diferenca é satisfeito. Pois o homem representativo que esta
mas mudancas que nao sao eficientes nesse sentido. A consis-
em melhores condicoes em qualquer comparacao de mao-du-
téncia se verifica apenas no sentido de que um esquema perfeita-
pla ganha pelas vantagens que lhe sao oferecidas, e o homem
mente justo é também eficiente.
em piores condicoes ganha por meio das contribuicoes origina-
A seguir, podemos considerar uma certa complicacao re-
das pelas desigualdades. Sem dovida, essas condicoes podem
lacionada com o significado do principio da diferenca. Acei-
nao se verificar. Mas nesse caso aqueles que estao em situacao
tou-se sem questionar a hipotese de que se o principio é satis-
melhor nao deveriam ter poder de veto em relacao aos benefi-
feito, todos se beneficiam. Existe um sentido obvio no qual
isso é verdadeiro: a posicao de cada homem é melhorada em cios disponiveis para os menos favorecidos. Ainda temos de
maximizar as expectativas daqueles menos favorecidos (Ver a
relacao a ordenacao inicial de igualdade. Mas é claro que nada
depende de sennos capazes de identificar essa ordenacao ini- seguir a discussao sobre a ligacao em cadeia.)
cial; de fato, o quao bem estao os homens nessa situacao nao tem
nenhum papel essencial na aplicacao do principio da diferenca.
Simplesmente maximizamos as expectativas da posicao menos
86 UMA TEORJA DA JUSTICA TEORIA 87

Ligacao em cadeia Na figura 9 as expectativas médias podem estar subindo além do


ponto a, embora as expectativas dos menos favorecidos estejam cain-
Para simplificar, suponha-se que ha trés homens representati-
do. (Isso depende dos pesos dos varios grupos.) O principio da dife-
vos. Que x1 seja o mais favorecido e x3 o menos favorecido, com x2
entre ambos. Que as expectativas de x1 sejam marcadas ao longo do renca exclui essa possibilidade e seleciona o ponto a.
1

eixo horizontal e as expectativas x2 e x3 ao longo do eixo vertical. As Entrelacamento significa que nao ha trechos planos nas curvas
curvas que mostram as contribuicoes do mais favorecido para os para x2 e x3. Em cada ponto ambas as curvas estao subindo ou descen-
outros grupos comecam na origem, que é a posicao hipotética de do. Todas as curvas ilustradas estao intimamente entrelacadas.
igualdade. Além disso, ha um limite para o ganho maximo do mais
favorecido que se baseia na suposicao de que, embora o principio da Nao vou examinar qual é a probabilidade de a ligacao em
diferenca o permitisse, haveria efeitos injustos sobre o sistema politi- cadeia e o entrelacamento se verificarem. O principio da dife-
co e outros sistemas semelhantes, efeitos esses que sao excluidos pela renca nao depende de essas relacoes serem satisfeitas. Entre-
prioridade da liberdade.
tanto, quando as contribuicoes das posicoes mais favorecidas
O principio da diferenca seleciona o ponto onde a curva para X3
atinge seu maximo, por exemplo, o ponto a na figura 9. se espalham de forma geral por toda a sociedade, nao ficando
A ligacao em cadeia significa que em qualquer ponto onde a confinadas a setores particulares, parece plausivel que se os
curva x3 esta subindo para a direita, a curva x2 também esta subindo, menos favorecidos se beneficiam, o mesmo acontece com os
como nos intervalos a esquerda dos pontos a e b, nas figuras 9 e I0. A outros das camadas intermediarias. Além disso, uma ampla
ligacao em cadeia nao diz nada sobre o caso em que a curva x3 esta difusao de beneficios é favorecida por duas caracteristicas das
descendo para a direita, como no intervalo a direita do ponto a na instituicoes, ambas exemplificadas pela estrutura basica: pri-
figura 9. A curva X2 pode estar subindo ou descendo (como indica a meiro, elas sao montadas para promover certos interesses fun-
linha tracej ada x'2). A ligacao em cadeia nao se verifica a direita de b
damentais que todos tom em comum; e, segundo, os cargos e
na figura 10.
posicoes sao abertos. Assim, parece provavel que se a autorida-
de e o poder dos legisladores e juizes, por exemplo, melhoram
a situacao dos menos favorecidos, irao melhorar também a
X2 situacao dos cidadaos em geral. A ligacao em cadeia pode mui-
--. X2
tas vezes ser verdadeira, contanto que os outros principios da
1 -~ '\ Xi justica sejam satisfeitos. Se é assim, entao podemos observar
2 3
. X3 que dentro da regiao de contribuicoes positivas (a regiao na
qual as vantagens daqueles em posicoes privilegiadas aumen-
X A X
0 1 b 1 tam as perspectivas dos menos favorecidos) qualquer movi-
FIGURA 9 FIGURA 10 mento na direcao da ordenacao perfeitamente justa melhora as
expectativas de todos. Nessas circunstancias, o principio da di-
Os intervalos em que tanto a curva x2 quanto a curva x3 estao ferenca tem conseqiiéncias praticas relativamente semelhantes
subindo definem os intervalos de contribuicoes positivas. Qualquer as dos principios da eficiéncia e da utilidade media (se a utili-
deslocamento para a direita aumenta a expectativa média (utilidade dade é medida pelos bens primarios). Sem duvida, se a ligacao
média, se a utilidade for medida pelas expectativas) e também satis-
em cadeia raramente se verifica, essa semelhanca nao é impor-
faz o principio da eficiéncia como um critério de mudanca, on seja, os
pontos a direita melhoram a situacao de todos. tante. Mas parece provavel que, dentro de um esquema social
justo, uma difusao geral de beneficios freqiientemente ocorra.
88 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 89

Existe uma outra complicacao. Supomos o entrelacamen- uma regra para escolha em condicoes de grande incerteza (§ 26),
enquanto o principio da diferenca é um principio da justica. Nao
to a fim de simplificar o enunciado do principio da diferenca.
E claramente concebivel, nao importando a probabilidade ou o é recomendavel usar o mesmo nome para duas coisas tao dis-
significado disso na pratica, que os menos favorecidos nao se- tintas. O principio da diferenca é um critério muito especial: apli-
jam afetados de nenhum outro modo por algumas mudancas ca-se em primeiro lugar a estrutura basica da sociedade através
nas expectativas dos que estao em melhor posicao, embora es- dos individuos representativos cuj as expectativas devem ser
sas mudancas beneficiem outros. Nesse tipo de caso o entrela- estimadas por uma lista ordenada de bens primarios (§ 15).
camento falha, e para resolver a situacao podemos expressar Além disso, chamar o principio da diferenca de principio maxi-
um principio mais geral, como o seguinte: em uma estrutura min pode sugerir erroneamente que o argumento principal para
basica com n representantes relevantes, primeiro maximizar o esse principio na posicao original deriva de uma suposicao de
bem-estar do homem representativo em pior situacao; segundo, aversao muito alta ao risco. Existe de fato uma relacao entre o
para obter igual bem-estar do representante em pior condicao, principio da diferenca e essa suposicao, mas atitudes extremas
maximizar o bem-estar do homem representativo cuja posicao frente ao risco nao sao postuladas (§ 28); e, de qualquer modo,
desfavorecida vem logo apos a do primeiro; e assim por diante ha muitas consideracoes a favor do principio da diferenca nas
até o oltimo estagio que é, para obter igual bem-estar de todos quais a aversao ao risco nao desempenha papel algum. Assim,
os representantes que precedem n-I , maximizar o bem-estar do é melhor usar a expressao “critério maximin” apenas para a re-
homem representativo na melhor situacao. Podemos pensar nisso gra de escolha em situacoes de incerteza.
como o principio do intervalo lexical“. Penso, entretanto, que
em casos concretos é improvavel que esse principio seja perti-
nente, pois quando os maiores beneficios potenciais para os 14. A igualdade eqiiitativa de oportunidades
mais favorecidos sao significativos, certamente havera algum e a justica procedimental pura
modo de também melhorar a situacao dos menos favorecidos.
As leis gerais que govemam as instituicoes da estrutura basica Gostaria agora de comentar a segunda parte do segundo
asseguram que nao surgirao casos que exijam o principio lexi- principio, que de agora em diante deve ser entendido como o prin-
cal. Assim, deverei sempre usar o principio da diferenca em cipio liberal da igualdade eqiiitativa de oportunidades. Portan-
sua forma mais simples, e por isso o resultado das nossas ulti- to, nao se deve confundi-lo com a nocao de carreiras abertas a
mas secoes é que o segundo principio se interpreta desta forma: talentos; nem devemos esquecer que, como estaligado ao prin-
cipio da diferenca, esse principio tem conseqiiéncias claramen-
As desigualdades economicas e sociais devem ser ordena- te distintas da interpretacao liberal dos dois principios tomados
das de modo a serem ao mesmo tempo (a) para o maior benefi- em conjunto. Em particular, tentarei demonstrar mais adiante
cio esperado dos menos favorecidos e (b) vinculadas a cargos e
(§ 17) que esse principio nao esta sujeito a objecao de que sua
posicoes abertos a todos em condicoes de igualdade eqiiitativa
de oportunidades. aplicacao conduz a uma sociedade meritocratica. Desejo agora
considerar alguns outros pontos, especialmente a sua relacao
Finalmente, um comentario terminologico. Os economis- com a idéia da justica procedimental pura.
Em primeiro lugar, porém, devo notar que as razoes da
tas podem desejar se referir ao principio da diferenca como o
critério maximin, mas eu cuidadosamente evitei esse nome por exigéncia de posicoes abertas nao sao unicamente, nem mesmo
varias razoes. Geralmente se entende o critério maximin como principalmente, os da eficiéncia. Eu nao sustentei que os car-
TEORIA 91
90 UMA TEORIA DA Jr/sr1¢A
In

menos enquanto estiver dentro de certos limites. A nocao da


gos devem necessariamente estar abertos para que, de fato, to- justica procedimental pura é melhor entendida através de uma
dos se beneficiem com uma ordenacao. Pois pode ser possivel comparacao entre justica procedimental perfeita e justica pro-
melhorar a situacao de todos através da atribuicao de certos po-
cedimental imperfeita. Para ilustrar a primeira, considere-se o
deres e beneficios a determinados cargos, apesar do fato de cer- caso mais simples de divisao justa. Um certo numero de ho-
tos grupos serem excluidos delas. Embora o acesso seja restrito. mens deve dividir um bolo: supondo que a divisao justa seja uma
talvez esses cargos possam, nao obstante, atrair talentos supe-
divisao equitativa, qual sera o procedimento, se é que existe
riores e encorajar melhores desempenhos. Mas o principio das
um, que trara esse resultado? Questoes técnicas a parte, a solu-
posicoes abertas impede isso. Ele expressa a conviccao de que
cao obvia é fazer com que um homem divida o bolo e receba o
se algumas posicoes nao estao abertas a todos de modo equita-
ultimo pedaco, sendo aos outros permitido que peguem os seus
tivo, os excluidos estariam certos em sentir-se tratados injusta-
pedacos antes dele. Ele dividira o bolo em partes iguais, ja que
mente, mesmo que se beneficiassem dos maiores esforcos da-
desse modo pode assegurar para si proprio a maior parte possi-
queles autorizados a ocupa-las. Sua queixa seria justificada nao
vel. Esse exemplo ilustra os dois tracos caracteristicos da justi-
so porque eles foram excluidos de certas recompensas externas
ca procedimental perfeita. Primeiro, ha um critério indepen-
geradas pelos cargos, mas porque foram impedidos de experi-
dente para uma divisao justa, um critério definido em separado
mentar a realizacao pessoal que resulta de um exercicio habili- e antes de o processo acontecer. E, segundo, é possivel criar um
doso e devotado dos deveres sociais. Seriam privados de uma
procedimento que com certeza trara o resultado desejado. Na-
das principais formas de bem humano.
turalmente, ha aqui certas suposicoes, como a de que o homem
Eu afirmei que a estrutura basica é o objeto primeiro da
escolhido é capaz de dividir o bolo em partes iguais, quer a par-
justica. Sem duvida, qualquer teoria ética reconhece a impor-
te maior possivel, e assim por diante. Mas podemos ignorar
tancia da estrutura basica como objeto da justica, mas nem to-
esses detalhes. O essencial é que haja um padrao independente
das as teorias consideram essa importancia do mesmo modo.
para decidir qual resultado é justo e um procedimento que com
Na justica como eqiiidade, a sociedade é interpretada como um
certeza conduzira a ele. E evidente que a justica procedimental
empreendimento cooperativo para a vantagem de todos. A es-
perfeita é rara, para que nao se diga impossivel, em casos de in-
trutura basica é um sistema publico de regras que definem um
teresse muito mais concretos.
esquema de atividades que conduz os homens a agirem juntos
A justica procedimental imperfeita é exemplificada pelo
no intuito de produzir uma quantidade maior de beneficios e
processo criminal. O resultado desej ado é que o réu seja decla-
atribuindo a cada um certos direitos reconhecidos a uma parte
rado culpado se, e somente se, ele cometeu o crime de que é
dos produtos. O que uma pessoa faz depende do que as regras
acusado. O procedimento do julgamento esta estruturado para
publicas determinam a respeito do que ela tem direito de fazer,
buscar e estabelecer a verdade em relacao a isso. Mas parece
e os direitos de uma pessoa dependem do que ela faz. Alcanca-
impossivel determinar as regras legais de modo que elas sem-
se a distribuicao que resulta desses principios honrando os di-
pre conduzam ao resultado correto. A doutrina do processo
reitos determinados pelo que as pessoas se comprometem a
examina quais procedimentos e critérios de provas, entre ou-
fazer a luz dessas expectativas legitimas.
tros elementos semelhantes, sao os mais indicados para alcan-
Essas consideracoes sugerem a idéia de se tratar a questao
car esse proposito de uma forma coerente com as outras finali-
das partes distributivas como uma questao de justica procedi-
dades da lei. Podemos esperar que ordenacoes diferentes para
mental pura“. A idéia intuitiva é conceber o sistema social de
depoimentos perante o tribunal produzam os resultados certos
modo que o resultado seja justo qualquer que seja-ele, pelo
.§.a (\-
’ ..1-.
Si
1 ._
I

92 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 93


em diferentes circunstancias, nao sempre, mas pelo menos na ter sido alcancado pela obediéncia a um processo justo. Isso
maior parte do tempo. Um julgamento é, portanto, um exemplo seria ir muito longe. Permitiria que alguém dissesse que quase
de justica procedimental imperfeita. Mesmo que a lei seja cui- todas as distribuicoes de bens sao justas, ou equitativas, uma
dadosamente obedecida, e os processos conduzidos de forma vez que elas poderiam ser o resultado de jogos justos. O que
justa e adequada, pode-se chegar ao resultado errado. Um ho- torna o resultado final das apostas justo, ou nao injusto, é que
mem inocente pode ser considerado culpado, um homem culpa- ele tenha sido ocasionado por uma série de apostas justas. Um
do pode ser libertado. Nesse casos falamos de um erro judiciario: procedimento eqiiitativo traduz a sua eqiiidade no resultado
a injustica nao nasce da falha humana, mas de uma combina- apenas quando é efetivamente levado a cabo.
cao fortuita de circunstancias que frustra a finalidade das nor- Portanto, a fim de se aplicar a nocao de justica procedi-
mas legais. A marca caracteristica da justica procedimental im- mental pura as partes distributivas, é necessario construir e
perfeita é que, embora haja um critério independente para pro- administrar imparcialmente um sistema justo de instituicoes.
duzir o resultado correto, nao ha processo factivel que com Apenas em referéncia ao contexto de uma estrutura basica jus-
certeza leve a ele. ta, que inclui uma constituicao politica justa e uma organizacao
Contrastando com isso, a justica procedimental pura se justa das instituicoes economicas e sociais, é que podemos
verifica quando nao ha critério independente para o resultado dizer que existe o pré-requisito do procedimento justo. Na Par-
correto: em vez disso, existe um procedimento correto ou justo te 2 descreverei uma estrutura basica que tem as caracteristicas
de modo que o resultado sera também correto ou justo, qual- necessarias (§ 43). Suas varias instituicoes sao explicadas e
quer que seja ele, contanto que o procedimento tenha sido cor- ligadas pelos dois principios da justica.
retamente aplicado. Essa situacao pode ser ilustrada pelo jogo. O papel do principio da igualdade eqiiitativa de oportuni-
Se um certo numero de pessoas se engaja em uma série de dades é assegurar que o sistema de cooperacao seja um sistema
apostas justas, a distribuicao do dinheiro apos a ultima aposta é de justica procedimental pura. A nao ser que esse principio seja
justa, ou pelo menos nao injusta, qualquer que seja essa distri- satisfeito, nao se aplicar a justica distributiva, nem mesmo den-
buicao. Suponho aqui que apostas justas sao aquelas que tom tro de uma dimensao restrita. A vantagem pratica da justica
uma expectativa zero de ganho, que as apostas sao feitas de procedimental pura é que nao é mais necessario controlar a
fonna voluntaria, que ninguém trapaceia, e assim por diante. O infindavel variedade de circunstancias nem as posicoes relati-
processo de apostas é justo e aceito livremente em condicoes vas mutaveis de pessoas particulares. Evitamos o problema de
que sao justas. Assim, as circunstancias contextuais definem definir principios que déem conta das enormes complexidades
um procedimento justo. Ora, qualquer distribuicao de dinheiro que surgiriam se esses detalhes fossem pertinentes. E um erro
cuja soma é igual a quantia inicial possuida por todos os indivi- focalizar nossa atencao sobre as posicoes relativas variaveis
duos poderia resultar de uma série de apostas justas. Nesse sen- dos individuos e exigir que toda mudanca, considerada como
tido, todas essas distribuicoes particulares sao igualmente jus- uma transacao unica e isolada, seja em si mesma justa. E a
tas. Uma caracteristica distintiva da justica procedimental pura organizacao da estrutura basica que deve ser julgada, e julgada
é que o processo para a determinacao do resultado justo deve a partir de um ponto de vista geral. A nao ser que estejamos
ser realmente levado a cabo; pois nesses casos nao ha critério preparados para critica-la do ponto de vista de um homem re-
independente em referéncia ao qual se pode demonstrar que presentativo em alguma posicao particular, nao temos queixas
um resultado definitivo é justo. E claro que nao podemos dizer contra ela. Assim, a aceitacao dos dois principios constitui um
que um estado particular dos negocios é justo porque poderia consenso para descartar como irrelevantes em relacao a justica
TEORJA 95
94 UMA TEORIA DA JUSTICA
ser notado aqui é que o utilitarismo nao interpreta a estrutura
social grande parte da informacao e muitas das complicacoes
basica como um esquema de justica procedimental pura. Pois o
do dia-a-dia.
utilitarista tem, pelo menos em principio, um padrao indepen-
Na justica procedimental pura, entao, as distribuicoes de dente para julgar todas as distribuicoes, ou seja, o fato de elas
vantagens nao sao avaliadas em primeiro lugar através do con- produzirem o maior saldo liquido de satisfacoes. Nessa hipotese,
fronto entre uma quantia disponivel de beneficios, por um lado, as instituicoes sao organizacoes mais ou menos imperfeitas cuja
e desejos e necessidades dados de individuos determinados, por finalidade é atingir esse objetivo. Dessa forma, dados os dese-
outro. A alocacao dos itens produzidos ocorre de acordo com o jos e as preferéncias concretas e os desenvolvimentos futuros
sistema publico de regras, e esse sistema determina o que é pro- permitidos por eles, o obj etivo do homem de Estado é construir
duzido, quanto é produzido, e por que meios. Também determi- os esquemas sociais que melhor se aproximem de um alvo ja
na reivindicacoes legitimas que, quando respeitadas, criam a especificado. Uma vez que esses programas de acao estao sujei-
distribuicao resultante. Assim, nesse tipo de justica procedi- tas as inevitaveis restricoes e obstaculos do quotidiano, a estru-
mental, a correcao da distribuicao esta fundada na justica do tura basica é um caso de justica procedimental imperfeita.
esquema de cooperacao do qual ela surge e na satisfacao das Por enquanto, presumirei que as duas partes do segundo
reivindicacoes de individuos engajados nele. Uma distribuicao principio sao lexicalmente ordenadas. Assim, temos uma orde-
nao pode ser julgada separadamente do sistema do qual ela é o nacao lexical dentro de outra. A vantagem dessa concepcao espe-
resultado ou sem levar em conta o que os individuos fizeram, de cial é que ela tem um formato definido e sugere certas questoes
boa-fé, a luz de expectativas estabelecidas. Se perguntarmos de a investigar; por exemplo, baseada em quais suposicoes, se é
forma abstrata se uma distribuicao de um dado estoque de coi- que existe alguma, a escolha da ordenacao lexical deveria ser
sas para individuos concretos com desejos e preferéncias feita? Nossa pesquisa toma uma direcao particular e deixa de
conhecidas é melhor que uma outra, simplesmente nao havera estar preso a generalidades. E certo que essa concepcao das
resposta para essa pergunta. A concepcao dos dois principios da parcelas distributivas é, obviamente, uma grande simplifica-
justica nao interpreta o problema primario da justica distributi- cao. Ela se destina a caracterizar de modo claro uma estrutura
va como um problema de justica alocativa. basica que utiliza a idéia da justica procedimental pura. Mas,
A justica alocativa, por sua vez, se aplica quando um dado mesmo assim, deveriamos tentar encontrar conceitos simples
conjunto de bens deve ser dividido entre individuos concretos que possam ser reunidos formando uma concepcao razoavel da
com necessidades e desejos conhecidos. O conjunto a ser aloca- justica. As nocoes de estrutura basica, véu de ignorancia, or-
do nao é a producao desses individuos, nem eles se apresentam dem lexical, posicao menos favorecida, assim como a nocao de
em uma relacao cooperativa concreta. Uma vez que nao existe justica procedimental pura, sao todas exemplos disso. Nao se
reivindicacao prévia das coisas que devem ser distribuidas, é pode esperar que nenhum desses elementos funcione isolada-
natural dividi-las de acordo com desejos e necessidades, ou até mente, mas, reunidos de forma adequada, eles podem servir
mesmo maximizar o saldo liquido de satisfacao. A justica se muito bem. Seria exagero supor que existe uma solucao razoa-
torna um tipo de eficiéncia, a nao ser que se prefira a igualdade. vel para todos osproblemas morais, ou mesmo para a maioria
Adequadamente generalizada, a concepcao alocativa conduz a deles. Talvez apenas alguns possam ser satisfatoriamente re-
visao utilitarista classica. Pois, como vimos, essa doutrina assi- solvidos. De qualquer modo, a sabedoria social consiste na
construcao de instituicoes tais, que dificuldades incontrolaveis
mila a justica a benevoléncia do espectador imparcial e este ulti-
nao surj am com muita frequéncia, e na aceitacao da necessida-
mo é, por sua vez, assimilado ao projeto de instituicoes mais
de de principios claros e simples.
efeciente para promover o maior saldo de satisfacoes. O ponto a
93 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 99
geralmente estar seguros de obter um maior sucesso na realiza- forma serial, esse problema é grandemente sirnplificado. As
cao de suas intencoes e na promocao de seus objetivos, quais- liberdades basicas sao sempre iguais, e ha uma igualdade equi-
quer que sej am eles. Os bens sociais primarios, para apresenta- tativa de oportunidades; nao é necessario comparar essas liber-
los em categorias amplas, sao direitos, liberdades e oportuni- dades e direitos com outros valores. Os bens sociais primarios
dades, assim como renda e riqueza. (Um bem primario muito que variam em sua distribuicao sao os direitos e prerrogativas
importante é um senso do proprio valor, mas a titulo de simpli- de autoridade, além da renda e da riqueza. Mas devido a natu-
ficacao deixo esse item de lado,para retoma-lo bem mais tarde, reza do principio da diferenca, as dificuldades nao sao tao
no § 67.) Parece evidente que, em geral, essas coisas correspon- grandes como poderiam parecer a primeira vista. O unico pro-
dem a descricao dos bens primarios. Sao bens sociais em vista blema da lista ordenada que nos diz respeito é o de estabelecé-
de sua ligacao com a estrutura basica; as liberdades e oportuni- la para o grupo menos favorecido. Os bens primarios aprecia-
dades sao definidas pelas regras das instituicoes mais importan- dos por outros individuos representativos sao ajustados de
tes, e a distribuicao de renda e riqueza é por elas regulada. modo a elevar essa lista, obedecendo, é claro, as restricoes
_A interpretacao do bem adotada para explicar os bens pri- usuais. E desnecessario definir em detalhes os pesos para as
marios sera apresentada de forma mais completa no Capitulo posicoes mais favorecidas, contanto que estejamos certos de
VII. E uma teoria bastante familiar, que vem desde Aristoteles, que elas sao as mais favorecidas. Mas freqiientemente isso é
e algo semelhante a ela é adotado por filosofos tao diferentes facil, pois muitas vezes essas posicoes tom mais de cada bem
em outros aspectos como Kant e Sidgwick. Ela nao é ponto de primario que é distribuido de forma desigual. Se sabemos co-
discordia entre a doutrina contratualista e o utilitarismo. A idéia mo a distribuicao de bens para os mais favorecidos afeta as
principal é a de que o bem de uma pessoa é determinado pelo expectativas dos menos beneficiados, isto é suficiente. O pro-
que é para ela o mais racional plano de vida a longo prazo, blema da lista ordenada se reduz entao ao problema de medir
dadas circtmstancias razoavelmente favoraveis. Um homem é os bens primarios para os menos favorecidos. Tentamos fazer
feliz quando é mais ou menos bem-sucedido na maneira de rea- isso assumindo o ponto de vista do individuo representativo
lizar seu plano. Para resumir, o bem é a satisfacao de um desejo desse grupo e perguntando qual combinacao de bens sociais
racional. Devemos supor, entao, que cada individuo tem um primarios seria racional que ele preferisse. Fazendo isso nos
plano de vida racional delineado de acordo com as condicoes apoiamos conscientemente em estimativas intuitivas. Mas isso
com que se defronta. Esse plano é tracado de modo apermitir a nao pode ser inteiramente evitado.
satisfacao harmoniosa de seus interesses. Ele programa ativida- Uma outra dificuldade é esta: pode-se objetar simples-
des a fim de que varios desejos possam ser satisfeitos sem inter- mente que as expectativas nao deveriam ser definidas como
feréncias. Chega-se a ele rejeitando outros planos cuja realiza- uma lista ordenada de bens primarios, mas sim como as satis-
cao é menos provavel, ou que nao permitem uma consecucao de facoes esperadas quando os planos sao executados usando
esses bens. Afinal de contas, é na realizacao desses planos que
obj etivos tao abrangente. Dadas as alternativas disponiveis, um
os homens conseguem a felicidade, e portanto a estimativa das
plano racional é aquele que nao pode ser aperfeicoado; nao ha
expectativas nao deveria ser fundada nos meios disponiveis.
outro plano que, levando-se tudo em conta, seja preferivel.
Entretanto, a justica como equidade assume um ponto de vista
Consideremos varias dificuldades. Um problema evidente diferente. Pois essa concepcao nao investiga o uso que as pes-
é a construcao da lista ordenada de bens sociais primarios. Su- soas fazem desses direitos e oporttmidades para medir as satis-
pondo-se que os dois principios da justica sejam ordenados de facoes que elas atingem, muito menos ainda para maximiza-

num;
.a

100 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 101


las. E nem tenta avaliar os méritos relativos de diferentes con- qiiéncias quanto pela aceitabilidade prima facie de suas pre-
cepcoes acerca do que seja o bem. Em vez disso, supoe-se que missas. Na verdade esses dois aspectos nao podem ser separados,
os membros da sociedade sao pessoas racionais capazes de e, portanto, a discussao das questoes institucionais (especial-
ajustar as suas concepcoes do bem a propria situacao. Nao ha mente na Parte 2), que a primeira vista podem parecer estranhas
necessidade de comparar o valor das concepcoes de pessoas a filosofia, é de fato inevitavel.
diferentes, ja que se supoe que elas sao compativeis com os
principios da justica. A todos é assegurada igual liberdade para
que persigam qualquer plano de vida que lhes agrade, contanto 16. Posigroes sociais relevantes
que isso nao viole as exigéncias da justica. Os homens parti-
lham dos bens primarios seguindo o principio de que alguns Na aplicacao dos dois principios de justica a estrutura ba-
podem ter mais se esses bens sao adquiridos por modalidades sica da sociedade, tomamos a posicao de certos individuos re-
que melhoram a situacao daqueles que tom menos. Uma vez presentativos e consideramos qual é a visao que eles tom do
que toda a organizacao foi feita e funciona, nao se fazem per- sistema social. A perspectiva dos que estao nessas situacoes
guntas sobre os totais de satisfacao ou perfeicao. define um ponto de vista geral adequado. Mas certamente nem
Vale a pena notar que essa interpretacao das expectativas todas as posicoes sociais sao relevantes. Pois nao so existem,
representa, com efeito, um consenso para comparar as situacoes por exemplo, produtores rurais, mas também produtores de la-
dos homens apenas em referéncia as coisas das quais presumi- ticinios, produtores de graos, agricultores que cultivam gran-
velmente todos eles em geral precisam para realizar seus pla- des extensoes de terra, o mesmo se aplicando a outras ocupa-
nos. Esse parece ser o modo mais factivel de se estabelecer um coes e grupos indefinidamente. Nao podemos ter uma teoria
objetivo publicamente reconhecido e uma medida comum que coerente e administravel se levarmos em consideracao essa mul-
pessoas sensatas possam aceitar. Ao passo que nao pode haver tiplicidade de posicoes. E impossivel avaliar tantas reivindica-
um consenso semelhante a respeito de como estimar a felicida- coes concorrentes. Portanto, precisamos identificar certas po-
de definindo-a, por exemplo, pelo sucesso dos homens na exe- sicoes como mais basicas que as outras e capazes de fornecer
cucao de seus planos racionais, e muito menos um consenso
um ponto de vista apropriado para o julgamento do sistema
sobre os valores intrinsecos desses planos. Fundamentar as
social. Assim, a escolha dessas posicoes se torna parte da teo-
expectativas nos bens primarios é um outro instrumento sim-
ria da justica. Baseando-se em que principio, porém, devem
plificador. Gostaria de comentar de passagem que essa e outras
simplificacoes vém acompanhadas de algum tipo de explicacao elas ser identificadas?
filosofica, embora isso nao seja estritamente necessario. E evi- Para responder essa questao, deve-se ter em mente o pro-
dente que as suposicoes teoricas devem fazer mais do que sirn- blema fundamental da justica e a maneira como ele é tratado
plificar; elas devem identificar elementos essenciais que expli- pelos dois principios. O objeto primeiro da justica, como ja en-
quem os fatos que queremos entender. Da mesma forma, as fatizei, é a estrutura basica da sociedade. A razao para isso é
partes de uma teoria da justica devem representar caracteristi- que seus efeitos sao muito profundos e penetrantes, e presentes
cas morais basicas da estrutura social, e se tivermos a impres- desde o inicio. Essa estrutura favorece algrms lugares de parti-
sao de que algumas dessas caracteristicas estao sendo deixadas da em detrimento de outros na divisao dos beneficios da coope-
de lado, é desejavel que nos asseguremos de que nao se trata racao social. Sao essas desigualdades que os dois principios
disso. Tentarei seguir essa regra. Mas, mesmo assim, a coerén- devem regular. Uma vez satisfeitos esses principios, permite-se
cia da teoria da justica é demonstrada tanto por suas conse- que outras desigualdades surjam, como resultado das acoes
102 UMA TEORJA DA JUSTIQA TEORIA 103

voluntarias dos homens de acordo com o principio de liberdade ficiarao a todos de forma semelhante. Assim, regras sensatas
de associacao. Desse modo, as posicoes sociais relevantes sao, para manter a ordem publica e a seguranca ou medidas eficien-
por assim dizer, os lugares de partida generalrzados e agI'l1Pa' tes no setor de saude e previdéncia social promovem o interesse
dos de forma adequada. Ao escolher essas p0§190;$ 991119 d§fl' publico nesse sentido. Da mesma forma o promovem esforcos
nidoras do ponto de vista geral, segue-se a rdera e que osl <2; coletivos para a defesa nacional em uma guerra justa. Pode-se
principios tentam mitigar a arbitrariedade do acaso natura e sugerir que a manutencao da saude e da previdéncia social ou a
boa sorte social. conquista da vitoria em uma guerra justa tém efeitos distributi-
Suponho entao que na maioria dos casos cada pessoa vos: aqueles que tém expectativas mais elevadas se beneficiam
’ , 6 - -

ocupa duas posicoes relevantes: a da cidadania igual e _a posi- mais, uma vez que tém mais a perder. Mas se as desigualdades
cao definida pelo seu lugar na drstriburcao de renda e rrquezua. economicas e sociais sao justas, pode-se deixar esses efeitos de
Os homens representativos relevantes sao, portanto, o crdadao lado e aplicar o principio do interesse comum. O ponto de vista
representativo e os representantes daqueles que tfimddlffgelifles apropriado é o da cidadania igual.
expectativas em relacao aos bens primarios distribui os~ e or- A definicao dos homens representativos para julgarmos as
ma desigual Como suponho que, em geral, Outras P0519095 $39 desigualdades economicas e sociais é menos satisfatoria. Em
ocupadas voluntariamente, nao precisamos considerar o ponto primeiro lugar, tomando esses individuos como especificados
de vista dos homens nessas posicoes ao julgar a estrutura basi- pelos niveis de renda e riqueza, suponho que esses bens sociais
ca Em vez disso devemos ajustar todo o esquema dc modo
0 9
primarios estao suficientemente correlacionados com as diferen-
que ele se corresponda as preferéncras daqueles que ocupam os cas de autoridade e responsabilidade. Ou seja, suponho que as
assim chamados lugares de partida. _ _ pessoas que tém maior autoridade politica ou aquelas com mais
Na medida do possivel, a estrutura basica deve ser avalia- responsabilidades nas varias associacoes sao em geral mais fa-
da a partir da posicao de cidadania igual. Essa p0S19?-'19 é de_f1I11' vorecidas em outros aspectos. De modo geral, essa suposicao
da pelos direitos e liberdades exigidos pelo pI'1I1C1p1O de liber- parece bastante segura para nossos propositos. Também existe
dade igual e pelo principio da igualdade eqiirtatrva de oportun~1- a questao de saber quantos desses homens representativos sele-
dades Quando os dois principios sao satisfeitos, todos sao cionar, mas isso nao é um problema crucial porque o principio
Cidadiios iguais e portanto todos ocupam essa posicao. Nesse da diferenca seleciona um unico homem representativo para
um papel especial. A dificuldade séria esta em como devemos
, 0

sentido a cidadania igualdefine um ponto do V1816 0011111111 O3


9 , , ,

problemas de deliberacao que envolvem as liberdades basicas definir o grupo menos favorecido.
sao resolvidos com referéncia a ele. Discutirei essas questoes Para fixar idéias, vamos selecionar os menos favorecidos
no Capitulo IV Mas deve-se notar aqui que muitas questoes de como aqueles que sao menos beneficiados de acordo com cada
politica social podem também ser consideradas a partir dessa um dos trés tipos principais de contingéncias. Dessa forma, esse
posicao. Pois ha assuntos que interessam a todos e em relacao grupo inclui pessoas cuja origem familiar e de classe é menos fa-
aos quais os efeitos distributivos sao irrelevantes. Nesses ca- vorecida que a de outros, cujos dotes naturais (na medida em que
sos, pode-se aplicar o principio do interesse 0011111111 Segundo estao desenvolvidos) lhes permitem um bem-estar menor, e cuja
tal principio as instituicoes sao classrfrcadas de acordo com a
, I
sorte ao longo da vida acaba por revelar-se menos feliz, tudo
sua eficacia em garantir as condicoes necessarias para que dentro do espectro da normalidade (como se nota abaixo) e com
todos promovam seus objetivos de forma lgual, ou segundo a as medidas relevantes baseadas nos bens sociais primarios. Na
sua eficiéncia em proporcionar objetivos partilhados que bene- pratica, com certeza varios refinamentos serao necessarios, mas
*6‘

TEORIA 105
104 UMA TEORIA DA JUSTICA
diferenca. Qualquer procedimento tende a ser, numa certa me-
essa definicao aproximativa dos menos favorecidos expressa de
dida, ad hoc. No entanto, temos o direito de em algum ponto
forma adequada a ligacao com o problema da contingéncia e
recorrer a consideracoes praticas, pois, mais cedo ou mais
deve bastar para nossos propositos aqui. Farei entao a suposicao
tarde, os argumentos filosoficos e de outro tipo podem se reve-
de que todos tom necessidades fisicas e capacidades psicologi-
lar incapazes de fazer discriminacoes mais refinadas. Suponho
Cas que estao dentro da normalidade, de modo que as questoes
que as pessoas na posicao original entendem esses problemas,
de cuidados médicos especiais e de como tratar os deficientes
e que avaliam adequadamente o principio da diferenca em com-
mentais nao se apresentam. Além des introduzir prematuramente
paracao com outras alternativas“.
questoes que nos podem conduzir além da teoria da justica, a
consideracao desses casos dificeis pode confundir a nossa per-
Na medida do possivel, entao, a justica como equidade
analisa o sistema social a partir da posicao de cidadania igual e
cepcao moral, levando-nos a pensar em pessoas que estao dis-
dos varios niveis de renda e riqueza. Algumas vezes, entretan-
tantes de nos e cujo destino desperta pena e ansiedade. Por seu
lado, 0 primeiro problema da justica se refere as relacoes entre to, pode ser necessario que outras posicoes sejam levadas em
consideracao. Se, por exemplo, ha direitos basicos desiguais
as pessoas que no curso quotidiano das coisas sao participantes
integrais e ativas da sociedade e estao direta ou indiretamente frmdados em caracteristicas naturais fisicas, essas desigualda-
associadas entre si durante toda a sua vida. Assim, o principio des selecionarao posicoes relevantes. Uma vez que essas carac-
teristicas nao podem ser mudadas, as posicoes definidas por
da diferenca deve ser aplicado a cidadaos engajados na coope-
elas contam como lugares de partida na estrutura basica. Dis-
racao social; se o principio falhar para esse caso, provavelmente
tincoes baseadas no sexo entram nessa categoria, assim como
falharia em termos gerais.
as que dependem da raca e cultura. Dessa forma, se os homens
No entanto, parece impossivel evitar uma certa arbitrarie-
dade na identificacao concreta do grupo menos favorecido. sao favorecidos na atribuicao de direitos basicos, essa desi-
gualdade so é justificada pelo principio da diferenca (na inter-
Uma possibilidade é escolher uma posicao social particular,
pretacao geral) se trouxer vantagens para as mulheres e for
por exemplo, a do trabalhador nao especializado, e entao consi-
derar como menos favorecidos todos aqueles que tém aproxi- aceitavel do ponto de vista delas. E a condicao analoga se apli-
ca a justificacao dos sistemas de castas, ou das desigualdades
lnadamente a mesma renda e riqueza que as pessoas ocupando
essa posicao, ou inferior. Um outro critério é o que se aplica em raciais e étnicas (§ 39). Essas desigualdades multiplicam as
termos da renda e riqueza relativas, sem referéncia a posicoes posicoes relevantes e complicam a aplicacao dos dois princi-
sociais. Por exemplo, todas as pessoas com menos da metade pios. Por outro lado, essas mesmas desigualdades raramente
da média podem ser consideradas como integrantes do seg- trazem, se é que chegam a trazer, vantagens para os menos
favorecidos, e portanto em uma sociedade justa o menor nume-
mento menos favorecido. Esse critério depende apenas da me-
ro de posicoes relevantes seria em geral suficiente.
tade inferior da distribuicao, e tem o mérito de focalizar a aten-
E essencial que os juizos feitos a partir das posicoes rele-
Qao na distancia social entre aqueles que tom menos e o cida-
vantes anulem as reivindicacoes que tendemos a fazer em si-
dao médio”. Qualquer um desses critérios parece abarcar os mais
desfavorecidos pelas varias contingéncias, fornecendo uma tuacoes mais particulares. Nem todos se beneficiam sempre
através do que os dois principios exigem, se pensamos em nos
base para detenninar em que nivel um minimo social razoavel
mesmos em termos de nossas Posicoes mais especificas. E, a
pode ser fixado, a partir do qual, em conjunto com outras me-
nao ser que o ponto de vista das posicoes relevantes tenha prio-
didas, a sociedade poderia comecar a satisfazer o principio da

-1 _
106 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 107

ridade, ainda teremos um caos de reivindicacoes concorrentes. 17. A tendéncia a igualdade


Assim, os dois principios expressam, com efeito, um entendi-
mento que visa a nossos interesses atribuindo a algum deles Desejo concluir esta discussao dos dois principios expli-
um peso especial. Por exemplo, as pessoas envolvidas em uma cando o sentido em que eles expressam uma concepcao igual de
industria particular muitas vezes consideram que o livre co- justica. Também gostaria de antecipar a objecao ao principio da
mércio vai contra os seus interesses. Talvez a industria nao oporttmidade equitativa, segtmdo a qual ele conduz a uma so-
possa continuar prosperando sem tarifas alfandegarias ou ou- ciedade meritocratica. A fim de preparar o caminho para isso,
tras restricoes. Mas se o livre comércio é desejavel do ponto de enfatizo varios aspectos da concepcao de justica que expus.
vista dos cidadaos iguais ou dos menos favorecidos, ele se jus- Em primeiro lugar, podemos observar que o principio da
tifica mesmo que interesses mais especificos sofram tempora- diferenca da algum peso as consideracoes preferidas pelo prin-
riamente. Portanto devemos de antemao concordar com os prin- cipio da reparacao. De acordo com este ultimo principio, desi-
cipios e com a sua aplicacao consistente do ponto de vista de gualdades imerecidas exigem reparacao; e como desigualdades
certas posicoes. Nao ha como garantir a protecao de todos os de nascimento e de dotes naturais sao imerecidas, elas devem
interesses em cada periodo de tempo quando a situacao dos ho- ser de alguma forma compensadas”. Assim, o principio deter-
mens representativos é definida de forma mais restrita. Tendo mina que a fim de tratar as pessoas igualitariamente, de pro-
reconhecido certos principios e um certo modo de aplica-los, porcionar uma genuina igualdade de oportunidades, a socieda-
so nos resta aceitar as conseqiiéncias. Naturalmente, isso nao de deve dar mais atencao aqueles com menos dotes inatos e aos
significa que deveriamos permitir que os rigores do livre co- oriundos de posicoes sociais menos favoraveis. A idéia é de
mércio nao ficassem fora de nosso controle. Mas as ordena- reparar o desvio das contingéncias na direcao da igualdade. Na
coes no sentido de abranda-las devem ser consistentes a partir aplicacao desse principio, maiores recursos devem ser gastos
de uma perspectiva geral apropriada. com a educacao dos menos inteligentes, e nao o contrario, pelo
As posicoes sociais relevantes especificam, entao, o ponto menos durante um certo tempo da vida, digamos, os primeiros
de vista geral a partir do qual os dois principios da justica de- anos de escola.
vem ser aplicados a estrutura basica. Desse modo, os interesses Ora, o principio da reparacao nao foi, que eu saiba, pro-
de todos sao levados em consideracao, pois cada pessoa é um posto como o unico critério de justica, como unico objetivo da
cidadao igual e todos tom um lugar na distribuicao de renda e ordem social. Ele é, tanto quanto os outros, plausivel como urn
riqueza ou no conjunto de caracteristicas naturais fixas nas principio primafacie, que deve ser colocado na balanca junta-
quais as distribuicoes se baseiam. E necessaria uma certa sele- mente com os outros. Por exemplo, devemos pondera-lo em
gao das posicoes relevantes para que se obtenha uma teoria coe- relacao ao principio da melhoria do padrao médio de vida, ou
rente da justica social, e as posicoes escolhidas devem estar de da promocao do bem comum“. Mas quaisquer que sejam os
acordo com os seus principios basicos. Selecionando os assim outros principios adotados, as reivindicacoes de reparacao
chamados lugares de partida, obedecemos a idéia de mitigar os devem ser levadas em conta. Considera-se que esse principio
efeitos do acaso natural e da contingéncia social. Ninguém se representa um dos elementos de nossa concepcao da justica.
deve beneficiar dessas contingéncias, a nao ser de maneiras Mas o principio da diferenca certamente nao é o principio da re-
que redundem no bem-estar dos outros. paracao. Ele nao exige que a sociedade tente contrabalancar as
desvantagens como se fosse esperado de todos que competis-
sem numa base eqtiitativa em uma mesa corrida. Mas o principio

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TEORIA 1 ()9
103 UMA TEORIA DA JUSTICA
Tendo em vista essas observacoes, podemos rejeitar o ar-
da diferenca alocaria recursos na educacao, por exemplo, a fim gumento de que a ordenacao das instituicoes é sempre defei-
de melhorar as expectativas a longo prazo dos menos favoreci- tuosa porque a distribuicao de talentos naturais e as contingén-
dos. Se esse objetivo é atingido quando se da mais atencao aos cias das circunstancias sociais sao injustas, e essa injustica
mais bem-dotados, é per-missivel fazé-lo; caso contrar1o,_nao. deve inevitavelmente trarrsferir-se para as organizacoes huma-
E, nessa tomada de decisao, o valor da educacao nao deveria ser nas. Ocasionahnente, essa reflexao é apresentada como uma
avaliado apenas em termos de eficiéncia economica 6 bem-estar desculpa para se ignorar a injustica, como se a recusa a concor-
social. O papel da educacao é iguahnente importante, se nao mais dar com a injustica fosse o mesmo que a incapacidade de acei-
importante ainda, no sentido de proporcionar a uma pessoa a tar a morte. A distribuicao natural nao é justa nem injusta; nem
possibilidade de apreciar a cultura de sua sociedade e de tomar é injusto que pessoas nascam em alguma posicao particular na
parte em suas atividades, e desse modo proporcionar a cada_m- sociedade. Esses sao simplesmente fatos naturais. O que é
dividuo um sentimento de confianca seguro de seu valor proprio. justo ou injusto é o modo como as instituicoes lidam com esses
Assim, embora o principio da justica nao seja igual ao fatos. As sociedades aristocraticas e de castas sao injustas por-
principio da reparacao, ele de fato realiza pelo menos uma que fazem dessas contingéncias a base de referéncia para o
parte dos intentos deste ultimo. Ele transforrna os objetivos da confinamento em classes sociais mais ou menos fechadas ou
estrutura basica de modo que o esquema global das institurcoes privilegiadas. A estrutura basica dessas sociedades incorpora a
deixa de enfatizar a eficiéncia social e os valores tecnocraticos. arbitrariedade encontrada na natureza. Mas nao é necessario
O principio da diferenca representa, com efeito, um consenso que os homens se resignem a essas contingéncias. O sistema
em se considerar, em certos aspectos, a distribuiclao de talentos social nao é uma ordem imutavel acima do controle humano,
naturais como um bem comum, e em partilhar os maiores mas um padrao de acao humana. Na justica como eqiiidade os
beneficios sociais e economicos possibilitados pela comple- homens concordam em se valer dos acidentes da natureza ou
mentaridade dessa distribuicao. Os que foram favorecidos pela das circunstancias sociais, apenas quando disso resulta no be-
natureza, sejam eles quem forem, podem beneficiar-se de sua neficio comum. Os dois principios sao um modo eqiiitativo de
boa sorte apenas em termos que melhorem a situacao dos se enfrentar a arbitrariedade da fortuna; e embora sem duvida
menos felizes. Os naturalmente favorecidos nao se devem be- sejam imperfeitas em outros aspectos, as instituicoes que satis-
neficiar simplesmente porque sao mais bem-dotados, mas ape- fazem esses principios sao justas.
nas para cobrir os custos de treinamento e educacao e para usar Um outro ponto é que o principio da diferenca expressa
os seus dotes de maneiras que ajudem também os menos favo- uma concepcao de reciprocidade. E um principio de beneficio
recidos. Ninguém merece a maior capacidade natural que tem, mutuo. A primeira vista, entretanto, pode parecer injustamente
nem um ponto de partida mais favoravel na sociedade. Mas, é distorcido em favor dos menos privilegiados. Para considerar-
claro, isso nao é motivo para ignorar essas distincoes, muito mos essa questao de um modo intuitivo, suponhamos, para
menos para elimina-las. Em vez disso, a estrutura basica pode simplificar, que ha apenas dois grupos na sociedade, um deles
ser ordenada de modo que as contingéncias trabalhem para o notavelmente mais afortunado que o outro. Obedecendo as res-
bem dos menos favorecidos. Assim somos levados ao principio tricoes usuais (definidas pela prioridade do primeiro principio
da diferenca se desejamos montar o sistema social de modo e pela igualdade eqiiitativa de oportrmidades), a sociedade
que ninguém ganhe ou perca devido ao seu lugar arbitrario na poderia maximizar as expectativas de qualquer um dos grupos,
distribuicao de dotes naturais ou a sua posicao inicial na socie- mas nao de ambos, uma vez que podemos maximizar apenas
dade sem dar ou receber beneficios compensatorias em troca.
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110 UMA TEORIA DA Jr/sr1<;A TEORIA 1 11


um objetivo de cada vez. Parece claro que a sociedade nao de- Dessa forma, nao é correto que individuos com maiores
veria fazer o melhor possivel em favor daqueles inicialmente dotes naturais, e com o carater superior que tornou possivel o
mais favorecidos; por isso, se rejeitarmos o principio da dife- seu desenvolvimento, tenham o direito a um esquema coopera-
renca, deveremos preferir maximizar alguma média ponderada tivo que lhes possibilite obter ainda mais beneficios de manei-
das duas expectativas. Mas se derrnos algum peso aos mais afor- ras que nao contribuem para as vantagens dos outros. Nao me-
tunados, estaremos atribuindo um valor intrinseco aos ganhos recemos nosso lugar na distribuicao de dotes inatos, assim
que os mais favorecidos obtiveram por meio contmgencoras como nao merecemos nosso lugar inicial de partida na socieda-
naturais e sociais. Ninguém tinha um direito prévio a ter sido de. Também é problematica a questao de saber se merecemos o
beneficiado desse modo; entao, maximizar uma média ponde- carater superior que nos possibilita fazer o esforco de cultivar
rada é, por assim dizer, favorecer duplamente os mais afortuna- nossas habilidades; pois esse carater depende em grande parte
dos. Assim, os mais favorecidos, quando consideram a questao de circunstancias familiares e sociais felizes no inicio da vida,
a partir de uma perspectiva geral, reconhecem que o bem-estar as quais nao podemos alegar que temos direito. A nocao de
de cada um depende de um esquema de cooperacao social sem mérito nao se aplica aqui. Com certeza, os mais afortunados
o qual ninguém teria uma vida satisfatoria; reconhecem tam- tém um direito aos seus dotes naturais, como qualquer outra pes-
bém que so podem esperar uma cooperacao voluntaria de todos soa; esse direito é coberto pelo primeiro principio da liberdade
se os termos do esquema forem razoaveis. Entao, consideram- basica, que protege a integridade da pessoa. E assim os mais
se. ja compensados, como efetivamente estao, pelas vantagens favorecidos tém direito a qualquer coisa que possam obter de
as quais ninguém (inclusive eles proprios) tinha um direito pro- acordo com as regras de um sistema equitativo de cooperacao
vio. Abandonam a idéia de maximizar uma média ponderada e social. Nosso problema é saber como esse esquema, a estrutura
consideram o principio da diferenca como uma base equitativa basica da sociedade, deve ser concebido. De um ponto de vista
de regulacao da estrutura basica.
geral apropriado, o principio da diferenca parece aceitavel
Pode-se objetar que os mais bem situados _merecem as
tanto para os individuos mais favorecidos quanto para os me-
maiores vantagens que poderiam conseguir para s1 mesmos em
nos favorecidos. Sem duvida, nada do que foi dito aqui é, estri-
outros esquemas de cooperacao, nao importando se essas van-
tamente falando, um argumento a favor do principio, ja que em
tagens sao ou nao obtidas de modos que beneficiem os outros.
Ora, é verdade que, existindo um sistema justo de cooperacao uma teoria contratualista os argumentos sao construidos do
como uma estrutura de regras comuns, e estando as expectati- ponto de vista da posicao original. Mas essas consideracoes
vas fixadas por ele, aqueles que, com aperspectiva de melho- intuitivas nos ajudam a esclarecer o principio e o sentido em
rarem a sua condicao, fizerem o que o sistema promete recom- que ele é igualitario.
pensar, tem o direito de ver suas expectativas realizadas. Nesse Observei anteriormente (§ 13) que uma sociedade deveria
sentido, os mais afortrmados tom direito a sua melhor situacao; tentar evitar a regiao do grafico onde a contribuicao marginal
suas reivindicacoes sao expectativas legitimas estabelecidas dos que estao em melhor posicao para o bem-estar dos menos
pelas instituicoes sociais e a comunidade é obrigada a satisfa- favorecidos sao, negativas. A sociedade deveria operar apenas
zé-las. Mas esse sentido de mérito é o sentido de se ter direito a no trecho ascendente da curva de contribuicao (incluindo é
alguma coisa. Ele pressupoe a existéncia de urn esquema coo- claro o ponto maximo). Nesse segmento da curva o critério de
perativo vigente e é irrelevante para a questao de saber se esse beneficio mutuo é sempre satisfeito. Além disso, ha um sentido
proprio esquema deve ser concebido de acordo corn o principio semelhante em que a harmonia dos interesses sociais é atingida;
da diferenca ou obedecendo a algum outro critério (§ 48). os homens representativos nao ganham as custas uns dos ou-
.
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.11‘. 3

ll2 UMA TEORIA DA JUSTICA


TEORIA 1 13
vantagens, exceto quando isso traz beneficios para os outros
tros uma vez que apenas vantagens reciprocas sao permitidas.
que estao em pior situacao. A familia, em sua concepcao ideal
Com certeza, o formato e a inolinacao da curva de contribuicao
sao determinados, pelo menos em parte, pela loteria natural e muitas vezes na pratica, é um lugar em que o principio de ma-
ximizacao da soma de vantagens é rejeitado. Os membros de
dos bens inatos e, como tais, nao sao justos nem injustos. Mas
uma familia geralmente nao desej am ganhar a nao ser que pos-
suponha-se que, em nossa consideracao, a linha com inclina-
sam fazer isso de modos que promovam os interesses dos ou-
cao de 45° representa o ideal de uma perfeita harmonia de inte-
tros. Ora, querer agir segundo o principio da diferenca traz pre-
resses; é a curva de contribuicao (uma linha reta, nesse caso)
cisamente esse resultado. Aqueles que estao em melhor situa-
ao longo da qual todos ganham de forma igual. Parece entao
que a aplicacao consistente dos dois principios da justica tende
cao estao dispostos a receber seus obj etivos mais elevados ape-
a elevar a curva e aproxima-la do ideal de uma perfeita harmo- nas dentro de um esquema no qual isso resulte em beneficios
nia de interesses. Assim, tao logo uma sociedade vai além do para os menos aforumados.
maximo, ela opera ao longo do trecho de inclinacao descen- Algumas vezes se considera que o ideal de fratemidade
dente da curva e ja nao existe uma harmonia de interesses. En- envolve lacos sentimentais que, entre membros da sociedade
quanto os mais favorecidos ganham, os menos favorecidos per- mais ampla, nao seria realista esperar. E essa é certamente mais
dem, e vice-versa. Assim, é para realizar o ideal da harmonia uma razao para que ele seja relativamente negligenciado na
doutrina democratica. Muitos sentirarn que esse ideal nao tem um
de interesses nos termos que a natureza nos deu, e para satisfa-
zer o critério de beneficio mutuo, que deveriamos tentar per- lugar proprio nas questoes politicas. Mas se for interpretado
manecer na regiao de contribuicoes positivas. como um principio que incorpora as exigéncias do principio da
Um outro mérito do principio da diferenca é que ele fome- diferenca, ele nao é uma concepcao impraticavel. Parece de
ce uma interpretacao do principio da fratemidade. Em comparacao fato que as instituicoes e as politicas que com a maior seguran-
com a liberdade e a igualdade, a fratemidade tem ocupado um ca consideramos justas satisfazem as suas exigéncias, pelo
lugar menos importante na teoria democratica. Considera-se menos no sentido de que as desigualdades permitidas por elas
que ela é um conceito menos especificarnente politico, que nao contribuem para o bem-estar dos menos favorecidos. Ou, de
define em si mesmo nenhum dos direitos democraticos, mas qualquer modo, é essa proposta que tentarei tornar plausivel no
que em vez disso expressa certas atitudes mentais e formas de Capitulo V. Nessa interpretacao, portanto, o principio da frater-
conduta sem as quais perderiamos de vista os valores expres- nidade é um padrao perfeitamente factivel. Uma vez que o
sos por esses direitos”. Ou entao, o que esta intimamente rela- aceitarrnos, podemos associar as idéias tradicionais de liberda-
cionado a isso, considera-se que a fratemidade representa uma de, igualdade e fratemidade com a interpretacao democratica
certa igualdade de estima social manifesta em varias conven- dos dois principios da justica da seguinte maneira: a liberdade
coes sociais e na auséncia de atitudes de deferéncia e subser- corresponde ao primeiro principio, a igualdade a idéia de igual-
viéncia’-°. Nao ha duvidas de que a fratemidade implica tais dade no primeiro principio juntamente com a igualdade equita-
coisas, assim como um senso de amizade civica e solidarieda- tiva de oportunidades, e a fratemidade corresponde ao princi-
de social, mas, entendida desse modo, ela nao expressa nenhu- pio da diferenca. Desse modo encontramos um lugar para a
ma exigéncia definida. Ainda temos de encontrar um principio concepcao da fratemidade na interpretacao democratica dos
de justica que se combine com a idéia subjacente. O principio da dois principios, e percebemos que ela impoe uma exigéncia
diferenca, entretanto, parece corresponder a um significado na- definida sobre a estrutura basica da sociedade. Os outros as-
tural de fratemidade: ou sej a, a idéia de nao querer ter maiores pectos da fratemidade nao devem ser esquecidos, mas o princi-
1 14 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 115

pio da diferenca expressa o seu significado fundamental do pon- gostaria de mencionar mais uma questao. Supus até agora que
to de vista de justica social. _ a distribuicao de dotes naturais é um fato da natureza e que nao
Ora, parece evidente, a luz dessas observacoes, que a 1n- se faz nenhuma tentativa de altera-lo, ou mesmo de considera-
terpretacao democratica dos dois principios nao conduzira a lo. Mas, em alguma medida, essa distribuicao tende a ser afeta-
uma sociedade meritocratica“. Essa forma de ordem social se- da pelo sistema social. O sistema de castas, por exemplo, tende
gue o principio das carreiras abertas a talentos, e usa a igualda- a dividir a sociedade em populacoes biologicamente isoladas,
de de oporttmidades como um modo de liberar as energias dos enquanto uma sociedade aberta encoraja a maior diversidade
homens na busca da prosperidade economica e do dominio genética possivel”. Além disso, é possivel adotar politicas de
politico. Existe uma visivel disparidade entre a classe maisoalta eugenia, mais ou menos explicitas. Nao vou considerar ques-
e a classe mais baixa, tanto nos meios de vida quanto nos direi- toes de eugenia, limitando-me ao longo de todo este trabalho as
tos e privilégios da autoridade organizacional. A cultura dos preocupacoes tradicionais da justica social. Apesar disso, de-
estratos mais baixos é empobrecida, enquanto a da elite gover- veriamos notar que, em geral, propor politicas que reduzem os
nante e tecnocratica é solidamente baseada no servico em prol talentos dos outros nao traz vantagens para os menos favoreci-
dos objetivos nacionais de poder e riqueza. A igualdade de dos. Por outro lado, uma vez que se aceita o principio da dife-
oportunidades significa uma chance igual de deixar para tras renca, as maiores habilidades sao consideradas como um bem
os menos afortunados na busca pessoal de influéncia e posicao social a ser usado para o beneficio comum. Mas também é do
social”. Assim, uma sociedade meritocratica é um perigo para interesse de cada um ter maiores dotes naturais. Isso permite
outras interpretacoes dos principios da justica, mas nao para a que as pessoas busquem urn plano de vida preferido. Na posi-
concepcao democratica. Pois, como acabamos de ver, o princi- cao original, entao, as partes querem assegurar para seus des-
pio da diferenca transforma os objetivos da sociedade em as- cendentes a melhor dotacao genética (pressupondo que a sua
pectos fundamentais. Essa conseqiiéncia é ainda mais obvia se propria seja fixa). A busca de politicas razoaveis com respeito
observarmos que devemos, quando necessario, levar em consi- a isso é algo que as geracoes anteriores devem as posteriores,
deracao o bem primario essencial da auto-estima, e o fato de sendo essa uma questao que surge entre geracoes. Assim, ao
que uma sociedade bem-ordenada é uma tmiao social de unioes longo do tempo, uma sociedade deve tomar atitudes para pelo
sociais (§ 79). Segue-se que a seguranca da auto-estima deveria menos preservar o nivel geral de capacidades naturais e impedir
ser buscada para os menos favorecidos, e isso limita as formas a difiisao de defeitos graves. Essas medidas devem ser guiadas
de hierarquia e os graus de desigualdade permitidos pela justi- por principios com os quais as partes estariam dispostas a con-
ca. Assim, por exemplo, os recursos para a educacao nao de- cordar para o bem de seus sucessores. Menciono essa dificil
vem ser alocados apenas ou necessariamente de acordo com o questao especulativa para mais uma vez indicar o modo pelo
seu retorno em estimativa de habilitacoes especializadas para a qual o principio da justica tende a transforrnar os problemas da
producao, mas também de acordo com o seu valor no enrique- justica social. Podemos conj ecturar que, a longo prazo, se hou-
cimento da vida pessoal e social dos cidadaos, incluindo-se aqui ver um aumento das capacidades, acabaremos atingindo uma
os menos favorecidos. Na medida em que a sociedade progri- sociedade com a maior liberdade igual, cujos membros desfru-
de, esta ultima consideracao se torna cada vez mais importante. tam o mais alto nivel de talentos iguais. Mas nao vou prosseguir
Essas observacoes devem bastar para um esboco da con- nessa linha de pensamento.
cepcao de justica social expressa pelos dois principios para ins-
tituicoes. Antes de abordar os principios para individuos, eu

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1 16 UMA TEORIA DA JUSTICA Raciocin 1'0 Pratico

18. Principios para individuos: 0 principia lia aqiiidade

Na discussao feita até aqui, considerei os principios que se


aplicam a instituicoes ou, mais exatamenta, a 6St1'l11111'a basica conceito de valor conceito dejusto conceito de mérito moral
da sociedade. Entretanto, é claro que devem também ser esco-
lhidos principios de um outro tipo, ja que uma teoria completa
do justo inclui também principios para iI1diVid110S- D6 fato,
como indica o diagrama a seguir, precisamos acrescentar prin-
cipios para o direito internacional, e, naturalmente, regras de (III) direito internacional (1) S1°tenfasi sim-aos 8
mstzrurgoes
(H) i"div1'd"0$

prioridade para a atribuicao de pesos qLla1’1d0 OS principios


entram em conflito. Nao abordarei, a nao ser de passagem (§ 58),
os principios para o direito internacional; 119111 tentarei fazer
uma discussao sistematica dos principios para individuos. Mas
certos principios desse tipo sao parte essencial de qualquer teo- ex; éncias (llc) perm issaes
justipa eficiéncia 3
ria da justica. Nesta secao e na proxima, o significado de varios
desses principios é explicado, embora o exame das razoes da
sua escolha seja postergado (§§ 51-52). indifeyemes supererogatérzas
O diagrama a seguir é puramente esquematico. Nao se
sugere que os principios associados aos conceitos na parte
inferior da arvore sejam deduzidos dos que estao na parte supe- (Ub) 0brigfl§5€S (Ha) deveres naturais
rior. O diagrama simplesmente indica os tipos de principios

\
que devem ser escolhidos antes que se tenha B111 111508 uma Con-
beneficéncia
cepcao completa do justo. Os algarismos r0I11aI10S expressam a coragem
ordem em que os varios tipos de principios devem ser reconhe- misericérdia
cidos na posigao original. Assim, deve haver primeiramente eqmdade POSIIWOS
' ' nega t'zvos
um consenso sobre os principios para a ostrutura basica da fidelidade
sociedade, em seguida, sobre os principios para individuos, e
depois sobre os principios para o direito intemacional. Por ulti-
mo, sao adotadas as regras de prioridade, embora possamos
garanrirjustipa nao lesar
experimentalmente escolhé-las antes, contanto que as subme- ajuda M13111-fl nao prejudicar
tamos a uma revisao posterior. FBSPBIYO mlifiw os inocentes
A ordem em que os principios apareccm levanta varias
questoes que nao vou levar em consideracao. O importante é
(IV) Regras de Prioridade
que os varios principios devem ser adotados em uma seqiiéncia
definida e os motivos dessa ordenacao estao ligados as partes
mais dificeis da teoria da justica. A titulo de ilustracao: embora
para principios institucionais para principigs individuais
seja possivel escolher muitos dos deveres naturais antes dos
1 18 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 119

deveres para com a estrutura basica sem mudar os principios de lisar o conceito de justo no sentido tradicional. Em vez disso, o
modo substancial, a sequéncia em ambos os casos reflete o fato sentido mais abrangente da probidade como equidade deve ser
de que as obrigacoes pressupoem principios para as organiza- entendido como um substituto de concepcoes correntes. Nao é
coes sociais. E alguns deveres naturais também pressupoem es- necessario dizer que ha uma semelhanca de significado entre o
ses principios, por exemplo, o dever de apoiar instituicoes jus- termo “justo” (e seus correlatos) em seu uso ordinario e as
tas. Por esse motivo, parece mais simples adotar todos os prin- locucoes mais elaboradas das quais necessitamos para expres-
cipios para individuos depois dos principios para a estrutura sar esse conceito de justo contratualista e ideal. Para os nossos
basica. O fato de os principios para instituicoes serem escolhi- propositos aqui, aceito 0 entendimento de que a melhor manei-
dos antes demonstra a natureza social da virtude da justica, sua ra de entender uma analise bem fundamentada é vé-la como a
intima ligacao a praticas sociais que sao enfatizadas com tanta apresentacao de um substituto satisfatorio, que atenda certas
freqiiéncia pelos idealistas. Quando Bradley diz que o indivi- necessidades e, ao mesmo tempo, evite certas obscuridades e
duo é uma mera abstracao, podemos, sem muita distorcao, in- confusoes. Em outras palavras, explicacao é eliminagao: come-
terpretar seu enunciado como afirrnando que as obrigacoes e camos com um conceito cuja expressao correspondente é até
os deveres de uma pessoa pressupoem uma concepcao moral certo ponto problematica; mas que serve a certos fins dos quais
das instituicoes, e, portanto, que o conteudo das instituicoes nao podemos abdicar. Uma explicacao alcanca esses fins de
justas deve ser definido antes que as exigéncias para os indivi- outros modos que sao relativamente isentos de dificuldades”.
duos possam ser detenninadas“. E isso quer dizer que, na maio- Assim, se a teoria da justica como equidade, ou, num sentido
ria dos casos, os principios para obrigacoes e deveres devem ser mais geral, da retidao como eqiiidade, corresponde em nossos
determinados depois dos principios para a estrutura basica. juizos ponderados, que sao fruto de um equilibrio refletido, e
Portanto, para formular uma concepcao completa do justo, se nos possibilita dizer tudo o que queremos apos um exame
as partes na posicao original devem escolher, numa ordem cuidadoso, fornece um modo de eliminar clichés em favor de
definida, nao apenas uma concepcao da justica, mas também outras expressoes. Entendendo as coisas desse modo, podemos
os principios que acompanham cada um dos conceitos princi- considerar que a justica como eqiiidade e a retidao como equi-
pais subordinados ao conceito de justo. Suponho que esses con- dade fornecem uma definicao ou explicacao dos conceitos de
ceitos sej am relativamente poucos e tenham uma relacao deter- justica e de justo.
minada entre si. Assim, além dos principios para instituicoes, Volto-me agora para um dos principios que se aplicam aos
deve haver um consenso sobre certas nocoes como as de equi- individuos, o principio de eqiiidade. Tentarei usar esse princi-
dade e fidelidade, respeito mutuo e beneficéncia, na medida pio para explicar todas as exigéncias que sao obrigacoes, e nao
em que se aplicam aos individuos, assim como sobre os princi- deveres naturais. Esse principio afirma que uma pessoa deve
pios para a conduta das nacoes. A idéia intuitiva é a seguinte: o fazer a sua parte conforme definem as regras de uma institui-
conceito de que uma determinada coisa é justa é o mesmo que, cao, quando duas condicoes sao observadas: primeiro, que a
ou melhor, pode ser substituido pelo conceito de que essa coisa instituicao seja justa (ou equitativa), isto é, que ela satisfaca os
esta de acordo com os principios que, na posicao original, se- dois principios da justica; e, segundo, que a pessoa tenha vo-
riam reconhecidos como aplicaveis a coisas do mesmo tipo. Na luntariamente aceitado os beneficios da organizacao ou tenha
minha interpretacao, esse conceito de justo nao fornece uma aproveitado a vantagem das oportunidades que ela oferece para
analise do significado do termo “justo” como é empregado promover os seus interesses proprios. A idéia principal é a de
normalmente em contextos morais. A intencao aqui nao é ana- que quando algumas pessoas se comprometem em uma empre-
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2,1.
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120 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 121


sa de cooperacao mutuamente vantajosa de acordo com certas Ha varios tracos caracteristicos das obrigacoes que as dis-
regras, e assim restringem sua liberdade do modo necessario a tinguem de outras exigéncias morais. Em primeiro lugar, elas
fim de produzir vantagens para todos, os que se submeteram a se originam como resultado de atos voluntarios; esses atos po-
essas restricoes tém o direito a uma atitude semelhante da parte dem ser a manifestacao de um compromisso explicito ou tacito,
dos que se beneficiaram com a sua submissao“. Nao devemos como acontece com as promessas e os acordos, mas nao o sao
lucrar com os trabalhos cooperativos dos outros sem que tenha- necessariamente, como no caso da aceitacao de beneficios. Além
mos contribuido com nossa quota justa. Os dois principios da disso o teor das obrigacoes é sempre definido por uma institui-
justica definem o que é uma quota justa no caso de instituicoes cao ou por um costume, cujas regras especificam o que se exige
pertencentes a estrutura basica. Portanto, se essas organizacoes de cada um. Finalmente, as obrigacoes sao em geral devidas a
sao justas, cada pessoa recebe uma quota justa quando todos individuos definidos, ou seja, aqueles que cooperam juntos
(inclusive ela) fazem a sua parte. para manter a ordenacao em questao”. Como um exemplo ilus-
Ora, por definicao, as exigéncias especificadas pelo prin- trativo dessas caracteristicas, consideremos a acao politica de
cipio de eqiiidade sao as obrigacoes. Todas as obrigacoes sur- concorrer a um cargo publico em um regime constitucional, e
gem dessa maneira. No entanto, é importante notar que o prin- (se houver sucesso) vir a ocupa-lo. Essa acao origina a obriga-
cao de cumprir os deveres do cargo, e esses deveres determi-
cipio da eqiiidade tem duas partes, a primeira, que afirma que
nam o teor da obrigacao. Aqui estou pensando nos deveres nao
as instituicoes ou praticas em questao devem ser justas; e a
como deveres morais, mas como tarefas e responsabilidades
segunda, que caracteriza os atos voluntarios exigidos. A pri-
atribuidas a certos cargos nas instituicoes. No entanto, pode
meira parte formula as condicoes necessarias para que esses
ocorrer que uma pessoa tenha um motivo moral (baseado num
atos voluntarios tenham como resultado as obrigacoes. Pelo
principio moral) para desobrigar-se de tais deveres, como
principio da equidade, nao é possivel o vinculo com institui-
acontece quando alguém é obrigado a fazer isso pelo principio
coes injustas, ou pelo menos com instituicoes que excedam os da eqiiidade. Além disso, uma pessoa que assume um cargo
limites toleraveis da injustica (que até agora nao foram defini- publico deve obrigacoes aos seus concidadaos, cuja confianca
dos). Particularrnente, nao é possivel dever obrigacoes a for- e fidelidade ela buscou e com os quais esta cooperando, na
mas autocraticas e arbitrarias de govemo. Nesses casos, nao direcao de uma sociedade democratica. De forma semelhante,
existe a base necessaria para que as obrigacoes se originem de assumimos obrigacoes quando nos casamos e também quando
atos consensuais ou de outro tipo, independentemente de como aceitamos cargos de autoridade judicial, adrninistrativa, ou de
eles se expressem. Os vinculos obrigacionais pressupoem ins- outro tipo. Contraimos obrigacoes através de promessas e com-
tituicoes justas, ou razoavelmente justas segundo as circtms- promissos tacitos, e até mesmo quando entramos num jogo, ou
tancias. Portanto, é um erro argumentar contra a justica como seja, a obrigacao de jogar seguindo as regras do jogo e com
eqiiidade, e as teorias contratualistas de uma forma geral, ale- esportividade.
gando que elas tém como consequéncia o fato de os cidadaos Todas essas obrigacoes sao, creio eu, abrangidos pelo prin-
deverem obrigacoes a regimes injustos que conquistam seu cipio da eqiiidade. Ha, porém, dois casos importantes, que sao
consentimento sob coercao, ou conseguem a sua aceitacao de certa forma problematicos, a saber, a obrigacao politica que
tacita de modos mais refinados. Locke, em especial, foi objeto se aplica ao cidadao médio e nao, por exemplo, aqueles que
dessa critica equivocada que ignora a necessidade de certas ocupam cargos publicos, e a obrigacao de cumprir promessas.
condicoes basicas”. - No primeiro caso nao esta claro qual é a acao vinculatoria exi-
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122 UMA TEORJA DA JUSTICA TEORIA 123


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gida e nem quem a desempenhou. Julgo que nao existe, falan- o proximo, independentemente de nos termos comprometido
do estritamente, obrigacao politica para os cidadaos em geral. ou nao com esses atos. Nao vale como desculpa ou defesa
No segrmdo caso é necessaria uma explicacao de como surgem dizermos que nao fizemos uma promessa de nao ser cruéis, ou
de prestar auxilio ao proximo. De fato, uma promessa de nao
as obrigacoes baseadas na confianca, nascidas para tirar vanta-
gens em uma pratica justa. Nesse caso, precisamos exammara matar, por exemplo, é, em geral, de uma redundancia risivel, e
natureza da pratica pertinente. Discutirei essas questoes mais seria equivocado sugerir que ela estabelece uma exigéncia mo-
adiante (§§ 51-52). ral que nao existia anteriormente. Tal promessa so faz sentido,
se é que chega a fazer sentido, apenas quando, por razoes espe-
ciais, alguém tem o direito de matar, quem sabe em uma situa-
19. Principios para individuos: os deveres naturais cao originada numa guerra justa presumindo que em determinadas
circunstancias as guerras de autodefesa se justificam. Uma outra
Enquanto todas as obrigacoes sao explicadas pelo princi- caracteristica dos deveres naturais é que eles se aplicam as pessoas
pio da equidade, ha muitos deveres naturais, positivos e negati- independentemente de suas relacoes institucionais; vigoram entre
vos. Nao vou tentar reuni-los sob urn unico principio. Com cer- todos, que sao considerados como pessoas morais iguais. Nesse
teza, esta falta de unidade cria o risco de exigir muito das regras sentido, os deveres naturais sao devidos nao apenas a individuos
de prioridade, mas terei de deixar de lado essa dificuldade. Sao concretos, por exemplo, os que cooperam juntos em uma ordena-
exemplos de deveres naturais: o dever de ajudar o proximo cao social particular, mas a pessoas em geral. Essa caracteristica,
quando ele esta necessitado ou correndo perigo, contanto que em particular, sugere a propriedade do adjetivo “natural”. Um obje-
possamos fazer isso sem perda ou risco excessivo para nos tivo do direito internacional é assegurar o reconhecimento desses
mesmos; o dever de nao lesar ou agredir o proximo, e o dever deveres na conduta das nacoes. Isso é especialmente importante na
de nao causar sofrimento desnecessario. O primeiro desses de- restricao dos meios usados na guena, supondo que, pelo menos em
veres, o de ajuda mutua, é um dever positivo, no sentido de ser certas circunstancias, guerras de autodefesa saojustificadas (§ 58).
o dever de fazer algo de bom pelo proximo; enquanto os dois Do ponto de vista da justica como equidade, um dever na-
ultimos deveres sao negativos, pois exigem que nao facamos tural fundamental é o dever da justica. Esse dever exige nosso
algo que é ruirn. A distincao entre deveres positivos e negativos apoio e obediéncia as instituicoes que existem e nos concernem.
é intuitivamente clara em muitos casos, mas muitas vezes pode Ele também nos obriga a promover organizacoes justas ainda
falhar. Nao vou enfatizar esse ponto. A distincao so é impor- nao estabelecidas, pelo menos quando isso pode ser feito sem
tante em sua ligacao com o problema da prioridade, ja que pa- nos sacrificar demais. Assim, se a estrutura basica da socieda-
rece plausivel afirrnar, quando a distincao é clara, que os deve- de é justa, ou justa como é razoavel esperar que seja dentro de
res negativos tom mais peso que os positivos. Mas nao vou determinadas circunstancias, todos tom um dever natural de
insistir nessa questao aqui. fazer a sua parte no esquema existente. Cada um esta vincula-
Em contraste com as obrigacoes, a caracteristica dos deve- do a essas instituicoes independentemente de seus atos volun-
res naturais é que eles se aplicam a nos independentemente de tarios, sej am eles de execucao ou de outro tipo. Assim, embora
nossos atos voluntarios. Além disso, eles nao tom nenhuma os principios do dever natural sejam derivados de um ponto de
ligacao necessaria com instituicoes ou praticas sociais; seu teor vista contratualista, eles nao pressupoem nenhum ato de assen-
nao é, de forma geral, definido pelas regras dessas organiza- timento, tacito ou explicito, e nem mesmo nenhum ato voluntario,
coes. Assim, temos o dever natural de nao ser cruéis, ou de ajudar para que possam ser aplicados. Os principios que valem para

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I24 UMA TEORIA DA JUST1CA TEORIA 12 5

os individuos, exatamente como os principios validos para as de acoes sem importancia, devo limitar a discussao a teoria da
instituicoes, sao aqueles que seriam reconhecidos na posicao justica social. Podemos observar, porém, que, depois de esco-
original. Esses principios sao entendidos como o resultado de lhidos todos os principios que definem exigéncias, nao é mais
um acordo hipotético. Se a sua formulacao mostra que a sua necessario nenhum reconhecimento para definir as permissoes.
aplicacao nao pressupoe nenhuma acao obrigatoria, seja ela Isso acontece porque as permissoes definem os atos que temos
consensual ou nao, entao eles se aplicam incondicionalmente. a liberdade de desempenhar ou nao. Sao atos que nao violam
O motivo pelo qual as obrigacoes dependem de atos volunta- nenhuma obrigacao ou dever natural. A0 estudarmos as per-
rios se explica pela segunda parte do principio da eqiiidade, missoes, desejamos selecionar aquelas que sao significativas
que estipula essa condicao. Ele nao tem nada a ver com a natu- de um ponto de vista moral, e explicar a sua relacao com os de-
reza contratualista da justica como eqiiidade”. De fato, uma vez veres e obrigacoes. Muitas dessas acoes sao, de um ponto de
que temos em maos o conjunto completo de principios, uma vista moral, indiferentes ou sem importancia. Mas, entre as per-
concepcao do justo plenamente formulada, podemos simples- missoes, existe a interessante classe dos atos supererrogatorios.
mente esquecer a concepcao da posicao original e aplicar esses Sao atos de benevoléncia e misericordia, de heroismo e auto-
principios como fariamos com quaisquer outros. sacrificio. Pratica-los é um bem, mas nao constitui obrigacao
Nao ha nada inconsistente, nem mesmo surpreendente, no ou dever para ninguém. Os atos supererrogatorios nao sao exi-
fato de que a justica como eqiiidade permite principios incon- gidos, embora normalmente o seriam, se nao fosse pela perda
dicionais. Basta mostrar que as partes na posicao original con- ou risco que envolvem o proprio agente. Uma pessoa que prati-
cordariam com principios que definem os deveres naturais que, ca um ato supererrogatorio nao invoca a isencao permitida pelos
quando formulados, se aplicam incondicionalmente. Devemos deveres naturais. Pois, embora tenhamos um dever natural de
notar que, uma vez que o principio da eqiiidade pode estabele- promover um grande bem, caso tenhamos condicoes de fazé-lo
cer um vinculo com ordenacoes justas existentes, as obriga- facilmente, estamos dispensados desse dever quando o custo
coes abrangidas por ele podem sustentar um vinculo ja presen- para nos mesmos é consideravel. Os atos supererrogatorios le-
te, que deriva do dever natural da justica. Assim, uma pessoa vantam questoes de suma importancia para a teoria ética. Por
pode ter ao mesmo tempo um dever natural e uma obrigacao de exemplo, parece, a primeira vista, que a visao utilitarista classi-
suj eitar-se a uma instituicao e de fazer a parte que lhe compete. ca nao pode explica-los. Pareceria que somos obrigados a de-
O que devemos observar aqui é que ha varios modos pelos quais sempenhar atos que promovem um bem maior para os outros,
podemos estar vinculados a instituicoes politicas. Na maioria independentemente do custo para nos mesmos, contanto que a
dos casos o dever natural da justica é o mais fundamental, ja soma do total de vantagens causadas por eles excedesse a soma
que vincula os cidadaos de uma forma geral e sua aplicacao de vantagens causadas por outros atos que nos sao acessiveis.
nao exige atos voluntarios. O principio da eqiiidade, por outro Nao ha nada ai que corresponda as isencoes incluidas na for-
lado, vincula apenas aqueles que ocupam cargos publicos, por mulacao dos deveres naturais. Assim, algtms dos atos que a jus-
exemplo, ou aqueles que, estando em melhor situacao, promo- tica como eqiiidade considera supererrogatorios podem ser exi-
veram seus objetivos dentro do sistema. Ha, entao, um outro gidos pelo principio da utilidade. Nao vou, entretanto, prosse-
sentido de noblesse oblige: ou seja, que os mais privilegiados guir na discussao desse assunto. Os atos supererrogatorios sao
provavehnente terao obrigacoes que os vinculam de um modo
mencionadas aqui buscando complementar a analise. Devemos
mais forte a um esquema justo. 1 agora nos voltar para a interpretacao da situacao inicial.
Vou falar muito pouco sobre o outro tipo de principios para
individuos. Pois, embora as autorizacoes nao sej am uma classe
Capitulo III
A posigiio original

;-:4 .

Neste capitulo, discuto interpretacao filosofica mais feliz da


situacao inicial. Refiro-me a essa interpretacao como a posicao
original. Inicio fazendo um esboco da natureza da demonstracao
das concepcoes da justica, e explicando como as alternativas se
apresentam de modo que as partes devam escolher a partir de
uma lista definida de concepcoes tradicionais. Parto entao para a
descricao das condicoes que caracterizam a situacao inicial sob
varios aspectos: as circunstancias da justica, as restricoes formais
do conceito de justo, o véu de ignorancia e a racionalidade das
partes contratantes. Em cada caso, tento indicar por que as carac-
teristicas adotadas para a interpretacao preferida sao razoaveis de
um ponto de vista filosofico. Em seguida, sao examinadas as li-
nhas naturais de raciocinio que conduzem aos dois principios da
justioa e ao principio da utilidade média, para que depois se faca
uma consideracao das vantagens relativas dessas duas concepcoes
da justica. Sustento que os dois principios seriam admitidos e
lanco algtms dos principais fundarnentos para sustentar essa afir-
macao. A fim de esclarecer as diferencas entre as varias concep-
coes da justica, o capitulo termina com outro exame do principio
classico da utilidade.

20. A natureza do argumento a favor


das concepcoes da justica

A idéia intuitiva da justica como eqiiidade é considerar


que os principios primordiais da justica constituem, eles pro-
prios, o objeto de um acordo original em uma situacao inicial

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128 UMA TEORIA DA Jr/sT1¢A TEORJA 129

adequadamente definida. Esses principios sao aqueles que pes- cada um promovendo seus interesses, cedem uns aos outros aqui-
soas racionais interessadas em promover seus interesses aceita- lo a que podem renunciar com mais facilidade, em troca do que
riam nessa posicao de igualdade, para determinar os termos mais desejam. O equilibrio é 0 resultado de acordos livremente
basicos de sua associacao. Deve-se demonstrar, portanto, que l4 firmados entre os negociantes interessados. Para cada pessoa, é a
os dois principios da justica sao a solucao para o problema de melhor situacao que se pode atingir através da livre permuta, con-
escolha apresentado pela posicao original. Com esse objetivo, sistente com o direito e a liberdade dos outros de promover seus
deve-se estabelecer que, dadas as circunstancias das partes, e o interesses do mesmo modo. E por isso que esse estado dos nego-
seu conhecimento, crencas e interesses, um acordo baseado nes- cios constitui um equilibrio, que persistira se nao houver mudan-
ses principios é a melhor maneira para cada pessoa de assegu- cas posteriores nas circunstancias. Ninguém tem incentivo algum
rar seus obj etivos, em vista das alternativas disponiveis. para altera-lo. Se urn desvio dessa situacao coloca em acao ten-
Ora, obviamente, ninguém pode ter tudo o que quer; a sim- déncias que possam restaura-la, o equilibrio é estavel.
ples existéncia de outras pessoas impede isso. O melhor possi- Sem duvida, o fato de a situacao ser de equilibrio, mesmo
vel para cada homem é que todos os outros o acompanhem na que esse equilibrio seja estavel, nao implica que ela seja justa.
promocao de sua concepcao do bem, independentemente do Significa apenas que, dadas as avaliacoes feitas pelos homens
que venha a ser essa concepcao. Ou, se isso nao for possivel, que em relacao a sua posicao, eles agem efetivamente para preser-
se exija de todos os outros que ajam de forma justa, mas que a va-la. E claro que um equilibrio de odio e hostilidade pode ser
esse homem seja permitido, sempre que queira, se isentar dessa estavel; cada um pode considerar que qualquer alteracao facti-
exigéncia. Como as outras pessoas nunca irao concordar com vel sera pior. O melhor que cada pessoa pode fazer por si
uma associacao nesses termos, essas formas de egoismo seriam mesma talvez seja uma condicao de menor injustica, e nao de
rej eitadas. Os dois principios da justica, entretanto, parecem ser maior bem. A avaliacao moral de situacoes de equilibrio de-
uma proposicao razoavel. De fato, eu gostaria de demonstrar pende da situacao basica que as determina. E nesse ponto que a
que esses dois principios sao a melhor resposta que alguém po- concepcao da posicao original incorpora caracteristicas pecu-
de dar as exigéncias correspondentes dos outros. Nesse sentido, liares a teoria moral. Pois, embora a teoria de precos, por exem-
a escolha dessa concepcao da justica é a unica solucao para o plo, tente explicar as transacoes de mercado através de suposi-
problema colocado pela posicao original. goes sobre as tendéncias efetivamente em acao, a melhor inter-
Argumentando dessa forma, seguimos um procedimento pretacao filosofica da situacao inicial incorpora condicoes que
bastante conhecido na teoria social. Ou seja, descreve-se uma se considera razoavel impor a escolha dos principios. Em con-
situacao na qual individuos racionais com certos objetivos, e traste com a sociologia, o objetivo é caracterizar essa situacao
relacionados de certas formas com outros individuos, devem de modo que os principios escolhidos sejam aceitaveis de um
escolher entre varios cursos de acao possiveis, em vista de seu ponto de vista moral, independentemente de quais venham a
conhecimento das circunstancias. O que esses individuos fa- ser. A posicao original é definida de modo a ser um status quo no
rao é entao obtido, através de um raciocinio estritamente de- qual qualquer consenso atingido é justo. E um estado de coisas
dutivo, dessas suposicoes sobre suas crencas e interesses, sua no qual as partes sao igualmente representadas como pessoas
situacao e as opcoes disponiveis. Sua conduta é, nas palavras dignas, e o resultado nao é condicionado por contingéncias arbi-
de Pareto, o resultado das preferéncias e dos obstaculos‘. Na trarias ou pelo equilibrio relativo das forcas sociais. Assim, a
teoria dos precos, por exemplo, considera-se que o equilibrio justica como eqiiidade é capaz de usar a idéia da justica proce-
entre mercados competitivos surge quando muitos individuos, dimental pura desde o inicio.

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130 UMA TEORJA DA JUSTIQA TEORIA 131

Fica claro, entao, que a posicao original é uma situacao das, do que se afirma serem suas crencas e interesses, de quais
puramente hipotética. Nao é preciso que nada semelhante ocor- alternativas lhes estao disponiveis, e assim por diante. Nesse sen-
ra concretamente, embora possamos simular as reflexoes das tido, ha muitas teorias contratualistas possiveis. A justica como
I
partes seguindo, de forma deliberada, as restricoes que ela re-
; 5:...

equidade é apenas uma delas. Mas a questao da justificativa é


presenta. Nao se pretende que a concepcao da posicao original resolvida, na medida do possivel, através da demonstracao de
explique a conduta humana, exceto na medida em que ela tenta que ha uma interpretacao da posicao inicial que expressa da
dar conta de nossos juizos morais e nos ajuda a explicar o fato melhor forma as condicoes que, de um modo generalizado, se
de termos um senso de justica. A justica como eqiiidade é uma considera razoavel impor a escolha dos principios mas que, ao
teoria de nossos sentimentos morais, que se manifestam por mesmo tempo, conduz a uma concepcao que caracteriza nossos
nossos juizos ponderados, em estado de equilibrio refletido. juizos ponderados decorrentes de uma reflexao equilibrada. A
Esses sentimentos presumivelmente afetam, em certa medida, essa interpretacao mais adequada, ou interpretacao padrao, vou
nossos pensamentos e acoes. Portanto, embora a concepcao da me referir como a posicao original. Podemos conjecturar que para
posicao original faca parte da teoria da conduta, nao se pode cada concepcao tradicional da justica existe uma interpretacao
dai depreender, em hipotese alguma, que haja situacoes reais da situacao inicial, na qual seus principios sao a solucao preferi-
que se assemelhem a ela. O necessario é que os principios que da. Assim, por exemplo, ha interpretacoes que conduzem ao
seriam aceitos desempenhem em nosso raciocinio moral e em principio classico da utilidade, outras que conduzem ao princi-
nossa conduta o papel exigido. pio da utilidade média. Essas variantes da situacao inicial serao
Seria também preciso observar que nao imaginamos a acei- mencionadas conforme prosseguirmos. O procedimento das teo-
tacao desses principios como uma lei psicologica ou como uma rias contratualistas fornece, entao, um método analitico geral
probabilidade. Pelo menos idealmente, eu gostaria de mostrar para o estudo comparativo das concepcoes da justica. Tentamos
que o reconhecimento dos principios é a unica escolha consis- definir as diferentes condicoes incorporadas na situacao contra-
tente com a descricao completa da posicao original. Para tanto tual em que seus principios seriam escolhidos. Desse modo,
a demonstracao pode procurar ser estritamente dedutiva. Com forrnulamos as varias suposicoes subjacentes, das quais pare-
certeza, as pessoas na posicao original tém uma certa psicolo- cem depender essas concepcoes. Mas se uma interpretacao é
gia, ja que se fazem varias suposicoes sobre suas crencas e filosoficamente preferivel, e se seus principios caracterizam
interesses. Essas suposicoes surgem acompanhadas por outras nossos juizos ponderados, temos também tun procedimento de
premissas na descricao dessa situacao inicial. Mas é claro que prova. Nao podemos saber de inicio se essa interpretacao existe,
as demonstracoes derivadas dessas premissas podem ser total- mas pelo menos sabemos o que buscar.
mente dedutivos, como atestam as teorias politicas e economi-
cas. Deveriamos buscar um tipo de geometria moral, com todo
o rigor que essa expressao conota. Infelizmente, o raciocinio 21. A apresentacao das alternativas
que fornecerei ficara muito aquém disso, por ser altamente in-
tuitivo em todo o seu desenvolvimento. No entanto, é essencial Passemos agora dessas observacoes metodologicas para a
termos em mente 0 ideal que gostariamos de atingir. descricao da posicao original. Comecarei pela questao das alter-
Uma ultima observacao. Como ja afirmei, existem muitas nativas abertas as pessoas nessa situacao. E claro que, ideal-
interpretacoes possiveis da situacao inicial. Uma concepcao mente, gostariamos de dizer que elas devem escolher uma den-
varia, dependendo de como as partes contratantes sao concebi- tre todas as concepcoes possiveis da justica. Uma dificuldade
1

TEORJA 133
I32 UMA TEORIA DA JUSTICA

suficientes para uma unica concepcao dajustica que fosse a me-


obvia é como caracterizar essas concepcoes de modo a apresen-
lhor, e entao expor um conceito que satisfizesse essas condi-
ta-las aqueles que ocupam a posicao original. Mesmo admitin-
coes. Talvez possamos chegar a fazer isso. No momento, entre-
do que essas concepcoes possam ser definidas, nao ha certeza
tanto, nao vejo como evitar métodos incompletos e frageis. Por
de que as partes fariam a melhor opcao; é possivel que os prin-
outro lado, disso, a utilizacao desses procedimentos pode indicar
cipios que deveriam ser preferidos sejam negligenciados. De
fato, a melhor alternativa pode nem existir: é concebivel que uma solucao geral para nosso problema. Assim, pode vir a acon-
tecer que, a medida que fizermos essas comparacoes, o racio-
para cada concepcao da justica haja uma outra melhor. Mesmo
que exista uma alternativa superior a todas, parece dificil de- cinio das partes selecione como desejaveis certas caracteristi-
finir os poderes intelectuais das partes de modo que essa con- cas da estrutura basica, e que essas caracteristicas tenham pro-
cepcao otima, ou mesmo as concepcoes mais plausiveis, fatal-
priedades naturais maximas e minimas. Suponhamos, por exem-
mente lhes ocorra. Algumas solucoes para o problema da escolha plo, que seja racional que as pessoas na posicao original prefi-
ram uma sociedade com a maior liberdade igual possivel. E
podem ficar bastante claras se fizermos uma reflexao cuidado-
suponhamos também que, embora prefiram que as vantagens
sa; mas descrever as partes de modo que suas deliberacoes ge-
rem essas alternativas ja é outra questao. Assim, embora os dois economicas e sociais promovam o bem comum, essas pessoas
principios da justica possam ser superiores as concepcoes que insistam que tais vantagens devem mitigar os modos pelos quais
nos sao conhecidas, talvez algum conjunto de principios, ainda os homens sao beneficiados ou prejudicados pelas contingén-
nao formulados até o momento, seja ainda melhor. cias naturais e sociais. Se essas duas sao as unicas caracteristi-
A fim de lidar com esse problema, recorrerei a seguinte es- cas pertinentes, e se o principio da liberdade igual é o mais alto
tratégia. Simplesmente tomarei como dada uma pequena lista grau natural da primeira delas, e o principio da diferenca (limi-
de concepcoes tradicionais da justica, por exemplo, aquelas tado pela eqiiitativa igualdade de oportunidades) é o da segun-
discutidas no primeiro capitulo, juntamente com algumas da, entao, deixando de lado o problema da prioridade, os dois
outras possibilidades sugeridas pelos dois principios da justica. principios sao a solucao otima. Nao apresenta obstaculo para
Suponho entao que essa lista é apresentada as partes, das quais essa conclusao o fato de que nao possamos caracterizar ou enu-
se pede que elejam unanimemente, como a melhor, uma unica merar, de forma conclusiva, todas as possiveis concepcoes da
concepcao dentre as enumeradas. Podemos supor que se chega justica, ou mesmo descrever as partes de modo que pensem ne-
a essa decisao através de uma série de comparacoes em pares. cessariamente nessas concepcoes.
Assim, demonstrar-se-ia que os dois principios sao preferiveis, Nao seria proveitoso nos alongarmos nessas especulacoes.
ja que todos concordam que eles devem ser escolhidos em rela- Por enquanto, nenhuma tentativa sera feita para lidar com o
cao a cada uma das altemativas. Na maior parte deste capitulo, problema geral da melhor solucao. Limitarei a demonstracao a
considerarei a escolha entre os dois principios da justica e duas afirmacao menos incisiva de que os dois principios seriam es-
formas do principio da utilidade (o principio classico e o da colhidos dentre as concepcoes da justica que constam na lista a
utilidade média). Mais tarde, serao discutidas comparacoes seguir:
com o perfeccionismo e com as teorias mistas. Desse modo,
tento demonstrar que, a partir dessa lista, os principios da justi- A. Os dois Principios da Justica (em ordem serial)
1-. O principio da maior liberdade igual
ca seriam os escolhidos.
Admito que esse é um modo de proceder insatisfatorio. Se- 2. (a) O principio da (justa) igualdade de oportunidades
ria melhor se pudéssemos definir as condicoes necessarias e (b) O principio da diferenca
2-_., 1

134 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 135

B. Concepcoes Mistas. Substituir A2 por uma das seguintes aberta a criticas nao é necessariamente suficiente para elimina-
alternativas la. Do mesmo modo, certas caracteristicas desejaveis nem sem-
1. O principio da utilidade média; ou pre sao conclusivas a seu favor. A decisao das pessoas na posi-
2. O principio da utilidade média, submetido a uma das se- cao original depende, como veremos, de um equilibrio de va-
guintes restricoes: _ rias consideracoes. Nesse sentido, ha um apelo a intuicao na
(a) Que um certo minimo social seja mantido, ou base da teoria da justica. No entanto, tudo somado, pode ficar
(b) Que a distribuicao total nao seja muito ampla; ou perfeitamente claro onde reside o equilibrio logico. Os fatores
3. O principio da utilidade média suj eita uma das duas res- relevantes podem ter sido decompostos e analisadas através da
tricoes em B2 e também a restricao da igualdade equita- descricao da posicao original de tal maneira que é possivel dis-
tiva de oportunidades A tinguir uma concepcao da justica como preferivel em relacao
C. Concepcoes Teleologicas Classicas as outras. A demonstracao a seu favor nao é, estritamente fa-
l. O principio classico da utilidade lando, uma prova, pelo menos nao por enquanto; mas, nas pala-
2. O principio da utilidade média vras de Mill, pode apresentar motivos capazes de persuadir a
3. O principio da perfeicao mente?
D. Concepcoes Intuicionistas A lista das concepcoes é, em grande medida, auto-expli-
1. Equilibrar a utilidade total com o principio da distribui- cativa. Entretanto, uns poucos e breves comentarios podem ser
cao igual uteis. Cada concepcao é expressa de um modo razoavelmente
2. Equilibrar a utilidade média com o principio da repa- simples, e cada uma se aplica incondicionalmente, ou seja, quais-
racao quer que sej am as circunstancias ou o estado da sociedade. Ne-
3. Equilibrar uma lista de principios primafacie (conforme rrhum dos principios depende de determinadas condicoes sociais
for adequado) ou de outra natureza. Uma razao para isso é manter a simplici-
E. Concepcoes Egoisticas (Ver § 23, onde se explica por que, dade. Seria facil elaborar um grupo de concepcoes em que
estritamente falando, as concepcoes egoisticas nao sao al- cada uma fosse destinada a se aplicar apenas se certas circuns-
ternativa.) tancias se verificassem, sendo essas condicoes exaustivas e mu-
1. Ditadura da primeira pessoa: Todos devem servir aos tuamente exclusivas. Por exemplo, uma concepcao poderia apli-
meus interesses car-se a um estagio de uma cultura, uma concepcao diferente a
2. Clausula de liberdade: Todos devem agir de forma justa, um outro. Esse grupo de concepcoes poderia ser considerado, em
exceto eu, se assim o escolher si mesma, como uma concepcao da justica; seria um conjunto
3. Geral: A todos é pennitido que promovam seus interes- de pares ordenados, sendo cada par uma concepcao da justica
ses como desej arem acompanhada das circunstancias em que ela se aplica. Mas, se
concepcoes desse tipo fossem acrescentadas a lista, nosso pro-
O mérito dessas teorias tradicionais com certeza basta para blema se tornaria por demais complicado, ou até mesmo im-
justificar o esforco de classifica-las. E, de qualquer maneira, o possivel de administrar. Além disso, ha um motivo para excluir
estudo dessa classificacao é um modo util de intuir o caminho alternativas desse tipo, pois é natural perguntar qual é o princi-
que conduz a questao maior. Cada uma dessas concepcoes tem pio subj acente que determina os pares ordenados. Suponho aqui
certamente suas vantagens e riscos; qualquer alternativa sele- que alguma concepcao reconhecidamente ética especifica os prin-
cionada tera seus pros e contras. O fato de uma conoepcao estar cipios apropriados, dadas cada uma das condicoes. Na verdade,

.
136 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 1 3 '7

é esse principio incondicional que define a concepcao expressa duzidos pela sua colaboracao sao distribuidos, pois, a fim de
pelo conjunto de pares ordenados. Dessa forma, permitir que perseguir seus objetivos, cada um prefere uma parte maior a
esses grupos entrem na lista é incluir alternativas que dissimu- uma parte menor. Assim, principios sao necessarios para que
lam seus proprios fundamentos. Portanto, também por esse mo- se escolha entre as varias ordenacoes sociais que determinam
tivo, vou exclui-las. Além do mais, pode ser desejavel caracte- essa divisao de vantagens, e para que se firme um acordo quan-
rizar a posicao original de modo que as partes devam escolher to as partes distributivas adequadas. Essas exigéncias definem
principios que se apliquem incondicionalmente, nao importan- o papel da justica. As condicoes basicas que dao origem a essas
do quais sejam as circunstancias. Esse fato esta ligado a inter- necessidades sao as circunstancias da justica.
pretacao kantiana da justica como eqiiidade. Mas deixarei esse Essas condicoes podem ser divididas em dois tipos. Pri-
assunto para mais tarde (§ 40). meiro, existem as circunstancias objetivas que tomam a coope-
Finalmente, um ponto obvio. Um argumento a favor dos racao humana simultaneamente possivel e necessaria. Assim,
dois principios, ou, na verdade, a favor de qualquer concepcao, muitos individuos coexistem ao mesmo tempo em um territo-
é sempre relativo a alguma lista de alternativas. Se alterarmos a rio geografico definido. Esses individuos sao, grosso modo,
lista, o argumento tera, em geral, de ser diferente. Um tipo de semelhantes em suas capacidades fisicas e mentais; ou, pelo
observacao semelhante se aplica a todas as caracteristicas da menos, suas capacidades sao comparaveis no sentido de que
posicao original. Ha infinitas variantes da situacao inicial, e nenhum deles pode dominar os outros. Eles sao vulneraveis a
portanto, certamente, infinitos teoremas de geometria moral. ataques, e estao todos sujeitos a ter os seus planos frustrados
Apenas uns poucos tom algum interesse filosofico, ja que a pela uniao de forcas dos outros. Em segundo lugar, ha uma
maioria das variantes nao tem relevancia de um ponto de vista condicao de escassez moderada implicita, para atender a uma
moral. Devemos tracar nossa rota evitando questoes laterais, e, ampla gama de situacoes. Os recursos naturais ou de outro tipo
ao mesmo tempo, sem perder de vista as hipoteses especificas nao sao abundantes a ponto de tornarem supérfluos os esque-
do argumento. mas de cooperacao, e nem as condicoes sao tao dificeis a ponto
de condenarem empreendimentos frutiferos ao insucesso. Em-
bora as ordenacoes mutuamente vantajosas sejam factiveis, os
22. As circunstancias da justica beneficios gerados por elas ficam aquém das exigéncias apre-
sentadas pelos homens.
As circunstancias da justica podem ser definidas como as As circunstancias subjetivas sao os aspectos relevantes
condicoes normais sob as quais a cooperacao é tanto possivel dos sujeitos da cooperacao, das pessoas que trabalham juntas.
quanto necessaria’. Assim, como notei no inicio, embora uma Assim, embora as partes tenham interesses e necessidades apro-
sociedade seja urn empreendimento cooperativo para a vanta- ximadamente semelhantes, ou necessidades e interesses que
gem mutua, ela é tipicamente marcada por um conflito e ao sao de muitas formas complementares, o que torna possivel a
mesmo tempo por uma identidade de interesses. Ha uma iden- sua cooperacao mutuamente vantajosa, essas partes tom no en-
tidade de interesses, uma vez que a cooperacao social possibili- tanto seus proprios planos de vida. Esses planos, ou concep-
ta para todos uma vida melhor do que qualquer um teria se ten- coes do bem, as levam a ter objetivos e propositos diferentes, e
tasse viver apenas por seus proprios esforcos. Ha ao mesmo a fazer reivindicacoes conflitantes em relacao aos recursos na-
tempo um conflito de interesses, uma vez que os homens nao turais e sociais disponiveis. Além disso, embora nao se supo-
sao indiferentes em relacao a como os maiores beneficios pro- nha que os interesses promovidos por esses planos sej am inte-
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138 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA I 139


resses associados ao “cu”, eles sao interesses de uma pessoa Surge, no entanto, a questao de saber se as pessoas na po-
concreta que considera a sua concepcao do bem como digna de sicao original tom obrigacoes e deveres para com terceiros, por
reconhecimento e que faz em seu nome exigéncias igualmente exemplo, com seus descendentes imediatos. Responder afinna-
merecedoras de satisfacao. Também suponho que os homens tivamente seria um modo de apresentar questoes da justica en-
sofram de varias deficiéncias de conhecimento, pensamento e tre geracoes. Entretanto, o objetivo da justica como eqiiidade é
julgamento. Seu conhecimento é necessariamente incompleto, procurar deduzir todos os deveres e obrigacoes da justica de
seus poderes de raciocinio, memoria e atencao sao sempre li- outras estipulacoes razoaveis. Entao, se possivel, essa saida
mitados, e seu julgamento tende a ser distorcido pela ansieda- deve ser evitada. Ha varias outras rotas disponiveis. Podemos
de, pelo preconceito e pela preocupacao com seus proprios adotar uma suposicao de motivos, e considerar as partes como
interesses. Alguns desses defeitos nascem de falhas morais, do representantes de uma linhagem continua de reivindicacoes. Por
egoismo e da negligéncia; mas, em grande medida, simples- exemplo, podemos pensar nas partes como chefes de familias
mente sao parte da situacao natural do homem. Como conse- que tom, portanto, um desejo de promover pelo menos o bem-
quéncia disso, os individuos nao so tom planos de vida diferen- estar de seus descendentes mais proximos. Ou podemos exigir
tes, mas também existe uma diversidade de crencas filosoficas que as partes concordem com principios sujeitos a restricao de
e religiosas, e de doutrinas politicas e sociais. que elas desejam que todas as geracoes precedentes tenham se-
Vou me referir a essa constelacao de condicoes como as guido exatamente aqueles mesmos principios. Através de uma
circunstancias dajustica. A explicacao que Hume oferece a esse combinacao adequada dessas estipulacoes, acredito que toda a
respeito é especialmente perspicaz, e o resumo anterior nao cadeia de geracoes pode ser abrangida, e que se, possa chegar a
acrescenta nada de essencial a sua discussao, que é muito mais um acordo sobre principios que levem em conta de forma ade-
completa. Para simplificar, muitas vezes enfatizo a condicao de quada os interesses de cada uma delas (§§ 24, 44). Se isso for
escassez moderada (entre as circunstancias objetivas) e o con- justo, teremos conseguido derivar os deveres para com as outras
flito de interesses (entre as circtmstancias subjetivas). Assim, geracoes a partir de estipulacoes razoaveis.
podemos dizer, em resumo, que as circunstancias da justica se Deve- se notar que eu nao faco nenhuma suposicao restriti-
verificam sempre que pessoas apresentam reivindicacoes con- va a respeito das concepcoes que as partes tom do bem, exceto
flitantes em relacao a divisao das vantagens sociais em condi- que elas sao planos racionais a longo prazo. Embora esses pla-
coes de escassez moderada. A nao ser que essas circunstancias nos deterrninem os objetivos e interesses de uma determinada
existam, nao ha oportunidade para a virtude da justiga, exata- pessoa, os objetivos e interesses presumivelmente nao sao egois-
mente como nao haveria, na falta de ameacas de agressao a vida ticos ou interesseiros. Decidir se esse é ou nao o caso depende
ou a integridade corporal, oporttmidade para a coragem fisica. dos tipos de objetivos perseguidos por alguém. Se a riqueza, a
Varios esclarecimentos sao necessarios. Em primeiro lu- posicao, a influéncia, bem como as honras do prestigio social,
gar, presumirei, sem duvida, que as pessoas na posicao original sao os propositos finais de uma pessoa, entao com certeza a
sabem que as circunstancias da justica se verificam. Esse fato sua concepcao do bem é egoistica. Seus interesses dominantes
sobre as condicoes de sua sociedade é considerado um pressu- estao centrados em si mesmo, e nao sao simplesmente, como
posto. Uma outra suposicao é a de que as partes tentam promo- devem sempre ser, os interesses de um eu‘. Nao ha inconsistén-
ver a sua concepcao do bem da melhor maneira possivel, e que cia, portanto, em supormos que, removido o véu de ignorancia,
ao fazerem isso elas nao estao ligadas entre si por vinculos as partes descobrem que tom vinculos de sentimento e afeicao,
morais prévios. - e desejam promover os interesses dos outros e ver os seus obje-
140 UMA TEORIA DA JUSTICA
TEORIA 141

tivos atingidos. Mas o postulado da indiferenca mutua na post- justo, visto que elas se aplicam a escolha de todos os principios
cao original visa a assegurar que os principios da justrca nao éticos e nao apenas aos principios da justica. Se as partes tives-
dependem de suposicoes muito exigentes. Lembremo-nosflyde sem de reconhecer principios também para as outras virtudes,
que a posicao original tem por objetivo incorporar condrcoes essas restricoes também se aplicariam.
amplamente partilhadas e, também, pouco pretensrosas. Uma Considerarei primeiramente restricoes as alternativas. Ha
concepcao da justica nao deve pressupor, entao, lacos abran- certas condicoes formais que parece razoavel impor as concep-
gentes de sentimento natural. Na base da teoria, tentamos pre- coes da justica que se incluem na lista apresentada as partes.
surnir o minimo possivel. _ ~ _ Nao alego que essas condicoes decorrem do conceito do justo,
Em conclusao, deverei supor que as partes na posrcao ori- muito menos ainda do significado da moralidade. Evito recor-
ginal sao mutuamente indiferentes: elas nao estao dispostas a rer a analise dos conceitos em pontos cruciais como esse. Ha
sacrificar seus interesses em beneficio dos outros. A intencao muitas restricoes que podem ser razoavelmente associadas ao
aqui é imitar a conduta e os motivos dos homens em casos onde conceito de justo, e a partir delas diferentes selecoes podem ser
surgem questoes de justica. Os ideais espirituais de santos e de feitas e consideradas como definitivas dentro de uma teoria
herois podem ser tao irreconciliaveis entre si quanto quaisquer particular. O mérito de qualquer definicao depende da solidez
outros ideais. Os conflitos na busca desses ideais sao os mars da teoria resultante; por si mesma, uma definicao nao pode
tragicos de todos. Assim, a justica é a virtude de praticas nas resolver nenhuma questao fundamentals.
quais ha interesses concorrentes, e as pessoas se sentem habili- A adequacao dessas condicoes formais decorre da funcao
tadas a impor seus direitos umas as outras. Em uma assocracao que tom os principios de justo na conciliacao das reivindica-
de santos que concordassem com um ideal comum, se tal comu- coes que as pessoas fazem as instituicoes e umas as outras. Se
nidade pudesse existir, disputas sobre a justica nao ocorreriam. os principios da justica devem desempenhar o seu papel, o de
Cada um trabalharia abnegadamente para um objetivo determi- atribuir direitos e deveres basicos e de determinar a divisao das
nado por sua religiao comum, e a referéncia a esse objetivo (su- vantagens, essas exigéncias sao suficientemente naturais. Cada
pondo que ele fosse claramente definido) resolveria todas as uma delas é adequadamente flexivel, e suponho que todas se-
questoes da justica. Mas uma sociedade humana é caracterizada jam atendidas pelas concepcoes tradicionais da justica. Entre-
pelas circunstancias da justica. A explicacao dessas condicoes tanto, essas condicoes excluem, de fato, as varias formas de
nao envolve nenhuma teoria particular da motivacao humana. egoismo, como sera indicado adiante, o que mostra que elas
Em vez disso, seu objetivo é refletir, na descricao da posicao nao deixam de ter uma certa forca moral. Isso torna ainda mais
original, as relacoes dos individuos entre si, relacoes estas que necessario que as condicoes nao sejam justificadas pela defini-
preparam o cenario para as questoes dajustica. cao ou pela analise dos conceitos, mas apenas pelo carater ra-
zoavel da teoria da qual elas fazem parte. Eu as organizo em
cinco grupos.
23. As restricoes formais do conceito dc justo Em primeiro lugar, os principios devem ser gerais. Ou seja,
deve ser possivel forrnula-los sem a utilizacao do que reconhe-
A situacao das pessoas na posicao original reflete certas ceriamos intuitivamente como o nome de uma pessoa, ou des-
restricoes. As alternativas que estao abertas a elas e o seu co- cricoes definidas disfarcadas. Assim, os predicados usados em
nhecimento de suas circunstancias sao limitados de varias ma- sua formulacao devem expressar relacoes e propriedades ge-
neiras. A essas restricoes chamo de restricoes do-concerto de rais. Infelizmente, profundas dificuldades filosoficas parecem
142 UMA TEORIA DA JUsT1¢A TEORIA 143

constituir um obstaculo para uma explicacao satisfatoria des- tipos e numeros de distincoes feitas por eles. Além disso, Se a
sas questoes“. Nao vou tentar aborda-las aqui. Na apresentacao aplrcacao de um principio por todos atingir resultados autocon-
traditorios ou inconsistentes, ele é excluido. Da mesma forma
de uma teoria da justica, podemos evitar o problema da identi- . , _ _ ’ . I O 9

ficacao das propriedades e relacoes gerais, e de nos guiar pelo S6113’ tambem rnadmrssrvel obedecer a um prmcrpro que fosse
razoavel apenas quando os outros acertassem um principio dife-
que parece razoavel. Além do mais, uma vez que as partes nao
tom informacoes especificas sobre si proprias e sua situacao, rente. ‘Os pnncrpros devem ser escolhidos em vista das conse-
elas nao podem, de qualquer forma, identificar-se a si mesmas. quencras decorrentes de sua acertacao por todos.
0 F“ Assim definidas, a generalidade e a universalidade sao con-
Mesmo que uma pessoa conseguisse convencer os outros a acei-
drcoes distintas. Por exemplo, o egoismo, na forma da ditadura
tarem as suas exigéncias, ela nao saberia como formular os prin-
cipios de modo a se beneficiar. As partes sao efetivamente for- da primeira pessoa (todos devem seguir os meus interesses —
cadas a seguir os principios gerais, entendendo-se aqui a nocao gudos de Pericles), satrsfaz a universalidade mas nao a generali-
a e. Embora todos possam agir de acordo com esse principio,
de um modo intuitivo.
e os resultados possam, em alguns casos, nao ser de todo preju-
A naturalidade dessa condicao reside, em parte, no fato de
drcrars, dependendodos interesses do ditador, o pronome pes-
que principios basicos devem poder servir como estatuto publi-
co de uma sociedade perpetuamente bem-ordenada. Sendo in- Soal (ou o nome) viola a primeira condicao. Por sua vez, os
principios gerais podem nao ser universais. E possivel que
condicionais, eles sempre se aplicam (dentro das circunstan-
sejam formulados para se aplicar a uma classe restrita de indi-
cias da justica), e o seu conhecimento deve ser acessivel aos
individuos de qualquer geracao. Assim, o entendimento desses V'1d119S, p0r_cxemplo, aqueles selecionados através de caracte-
risticas sociais ou biologicas, tais como a cor do cabelo ou a
principios nao deve exigir um conhecimento de particularida-
srtuacao de classe, ou qualquer outro parametro. Com certeza,
des contingentes, nem, com certeza, uma referéncia a indivi-
ao longo de suas vrdas, os individuos adqurrem obrigacoes e
duos ou associacoes. Tradicionalmente, o teste mais obvio des-
assumem deveres que lhes sao peculrares. No entanto, esses
sa condicao é a idéia de que justo é aquilo que é conforme a
varios deveres e obrrgacoes sao consequéncra do primeiro prin-
vontade de Deus. Mas, de fato, essa doutrina em geral se apoia
C1p10, e se aplicam a todos como pessoas éticas; a deducao des-
num argumento baseado em principios gerais. Por exemplo,
sas exrgencras tem uma base comum.
Locke afirmava que o principio moral fundamental é o seguin-
Uma tercerra condrcao é a publicidade, que surge n3tu1-31-
te: se uma pessoa é criada por uma outra (no sentido teologi-
mente em uma vrsao contratualista. As partes consideram que es-
co), entao essa pessoa tem o dever de obedecer os preceitos que
tar; escolhendo principios para uma concepcao comum da justi-
foram estipulados por seu criadorl. Esse principio é perfeita-
mente geral e, dada a natureza do mundo segundo a visao de Qa - Acfcdltam que todos saberao a respeito desses principios
tudo o que saberiam se a sua aceitacao fosse o resultado de um
Locke, elege Deus como a autoridade moral legitima. A condi-
consenso‘. Ass1m,_a consciéncia geral de sua aceitacao univer-
cao de generalidade nao é violada, embora possa parecer assim
sal deverra ter efeitos desejaveis e apoiar a estabilidade da coo-
a primeira vista.
Em segundo lugar, os principios devem ser universais em peracao social. A drferenca entre essa condicao e a condicao da
sua aplicacao. Devem se aplicar a todos, em virtude de todos universalidade e que a ultima nos leva a avaliar principios com
serem pessoas éticas. Assim, suponho que cada um pode enten- base no fato de que eles sao regular e conscientemente segui-
der esses principios e usa-los em suas deliberacoes. Isso impoe dos por todos. Mas é possivel que todos entendam e sigam um
uma espécie de limite superior a sua complexidade, e sobre os P1‘11101p1o, e no entanto esse fato nao seja amplamente sabido
l-. -<-

TEORIA 145
144 UMA TEORIA DA JUSTICA
A quinta e illtima condicao é a do carater terminativo dos
ou explicitamente reconhecido. O ponto importante .da condi- principios. As partes devem avaliar o sistema de principios
cao de publicidade é fazer com que as pa1't6S C0I1S1dBf¢m as como a iiltima instancia de apelacao do raciocinio pratico. Nao
concepcoes da justica como instituicoes da yida social publica- ha padrao mais elevado ao qual os argumentos em favor das
mente reconhecidas e totalmente eficazes. E facil perceber que reivindicacoes possam recorrer; o raciocinio bem-sucedido fei-
a condicao de publicidade esta implicita na doutrina kantiana to a partir desses principios é conclusivo. Se pensarmos em ter-
do imperativo categorico, na medida em que este exige que.atue- mos da teoria genérica plena que tem principios para todas as
mos de acordo com principios que, como pessoas racionais, es- virtudes, entao essa teoria especifica a totalidade de considera-
tariamos dispostos a elaborar como leis para 0 reino dos obj eti- coes pertinentes e seus pesos apropriados, e suas exigéncias
vos. Kant pensava nesse reino como uma comunidade ética, sao decisivas. Elas se sobrepoem as reivindicacoes da lei e do
por assim dizer, que tem esses principios morais como seu es- costume, e, de uma forma geral, das regras sociais. Devemos
tatuto pflblico. ordenar e respeitar as instituicoes sociais seguindo o direciona-
Uma outra condicao é que uma concepcao de justo deve mento dos principios do justo e da justica. As conclusoes obti-
impor as reivindicacoes conflitantes uma ordenacao. Essa exi- das a partir desses principios também se sobrepoem as consi-
géncia nasce diretamente do papel de seus principios no ajuste deracoes de prudéncia e interesse proprio. Isso nao significa
de exigéncias concorrentes. Entretanto, ha uma dificuldade de que esses principios insistem no auto-sacrificio; pois, ao for-
decidir o que seja uma ordenacao. E claramente desejavel que mular a concepcao do justo, as partes levam em conta seus in-
uma concepcao da justica seja completa, ou seja, capaz de or- teresses da melhor maneira possivel. As reivindicacoes de pru-
denar todas as reivindicacoes que possam surgir (ou que, na déncia pessoal ja foi dado um peso apropriado dentro do sistema
pratica, tem probabilidade de surgir). E a ordenacao deveria, integral de principios. O esquema completo é final no sentido
em geral, ser transitiva: se, por exemplo, uma primeira ordena- de que, quando 0 curso de raciocinio pratico que ele define
cao da estrutura basica é considerada mais justa que uma se- atinge uma conclusao, a questao esta decidida. As reivindica-
gunda, e a segunda mais justa que uma terceira, entao a primei- coes das ordenacoes sociais concretas e do interesse pessoal ja
ra deve ser mais justa que a terceira. Essas condicoes formais foram devidamente acatadas. Nao podemos considera-las uma
sao bastante naturais, embora nem sempre seja facil satisfaze- segunda vez no final so porque nao gostamos do resultado.
1as". Mas sera o recurso a forca uma forma de arbitragem‘? Tomadas em conjunto, entao, essas condicoes impostas
Afinal de contas, o conflito fisico e o recurso as armas resul- sobre as concepcoes do justo resumem-se no seguinte: uma
tam em uma ordenacao; certas reivindicacoes de fato derrotam concepcao do justo é um conjunto de principios, gerais em sua
outras. A principal obj ecao contra essa ordenacao nao é qne ela forma e universais em sua aplicacao, que deve ser publicamen-
pode ser intransitiva, mas sim que é justamente para evitar o te reconhecido como uma filtima instancia de apelacao para a
ordenacao das reivindicacoes conflitantes de pessoas éticas. Os
apelo a forca e a esperteza que os principios de justo e de justi-
principios da justica sao identificados por seu papel especial e
ca sao aceitos. Assim, assumo que dar a cada um de acordo
pelo assunto a que se aplicam. Mas, por si proprias, as cinco
com seu poder de ameacar nao pode fazer parte de uma con-
condicoes nao excluem nenhuma das concepcoes tradicionais
cepcao da justica. Isso nao permite estabelecer uma ordenacao
da justica. Deveriamos notar, entretanto, que elas de fato ex-
no sentido exigido, uma ordenacao baseada em certos aspectos
cluem as variantes do egoismo listadas anteriormente. A con-
relevantes das pessoas e de sua situacao, que nao dependem de sua
_ ~ . . . . - ~ ~ 0 dicao de generalidade elimina tanto a ditadura da primeira pes-
posicao social, ou de sua capacidade de intimidacao e coercao‘ .

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146 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORJA 1 47

soa quanto as formas de interesse exclusivista, ja que, em cada justos. O obj etivo é usar a nocao de justica procedimental pura
como fundamento da teoria. De algum modo, devemos anular
caso, exige-se um nome proprio, ou urn pronome, ou uma descri-
cao definida e dissimulada, seja para identificar o ditador ou para os efeitos das contingéncias especificas que colocam os ho-
mens em posicoes de disputa, tentando-os a explorar as cir-
caracterizar o interesse exclusivista. No entanto, a generalidade
cunstancias naturais e sociais em seu proprio beneficio. Com
nao exclui o egoismo corrente, pois a cada pessoa é permitido fa-
esse proposito, assumo que as partes se situam atras de um véu
zer qualquer coisa que, segimdo seu julgamento, possa com mais
facilidade promover seus proprios objetivos. E claro que o princi-
de ignorancia. Elas nao sabem como as varias alternativas irao
pio pode ser aqui expresso de um modo perfeitamente genérico. E
afetar o seu caso particular, e sao obrigadas a avaliar os princi-
a condicao da ordenacao que torna inadmissivel o egoismo, pois pio unicamente com base nas consideracoes gerais“.
se é verdade que todos estao autorizados a promover seus interes- Supoe-se, entao, que as partes nao conhecem certos tipos
ses como desejarem, ou se todos devem promover seus proprios de fatos particulares. Em primeiro lugar, ninguém sabe qual é o
seu lugar na sociedade, a sua posicao de classe ou seu status
interesses, também é verdade que as reivindicacoes concorrentes
nao estao de fonna alguma classificadas, e o resultado final é social; além disso, ninguém conhece a sua sorte na distribuicao
de dotes naturais e habilidades, sua inteligéncia e forca, e
determinado pela forca ou pela esperteza.
Os varios tipos de egoismo, portanto, nao constam na lista assim por diante. Também ninguém conhece a sua concepcao
apresentada as partes. Eles sao eliminados pelas restricoes for- do bem, as particularidades de seu plano de vida racional, e
mais. Esta claro que essa nao é uma conclusao surpreendente, nem mesmo os tracos caracteristicos de sua psicologia, como
pois é obvio que, ao escolherem uma dentre as outras concep- por exemplo a sua aversao ao risco ou sua tendéncia ao otimis-
c6es, as pessoas na posicao original podem fazer muito mais em mo ou ao pessimismo. Mais ainda, admito que as partes nao
seu proprio beneficio. Uma vez que se indaga com quais princi- conhecem as circunstancias particulares de sua propria socie-
pios todos deviam concordar, nenhuma forma de egoismo é um dade. Ou seja, elas nao conhecem a posicao economica e poli-
tica dessa sociedade, ou o nivel de civilizacao e cultura que ela
candidato sério a consideracao em caso algum. Isso apenas con-
firma o que ja sabiamos, ou sej a, que embora o egoismo seja lo- foi capaz de atingir. As pessoas na posicao original nao tém
gicamente consistente e nesse sentido nao irracional, ele é in- informacao sobre a qual geracao pertencem. Essas restricoes
compativel com o que consideramos intuitivamente ser o ponto mais amplas impostas ao conhecimento sao apropriadas, em
de vista moral. Filosoficamente, o egoismo é importante nao co- parte porque as questiies da justica social surgem entre gera-
mo uma concepcao alternativa do justo, mas como um desafio a <;6es e também dentro delas, por exemplo, a questao da taxa
qualquer concepcao desse tipo. Na justica como eqiiidade, isso apropriada de poupanca de capital e da conservacao de recur-
se reflete no fato de podermos interpretar o egoismo corrente sos naturais e ambientais. Também existe, pelo menos teorica-
como o ponto da dissensao. E aquilo a que as partes se apega- mente, a questao de uma politica genética razoavel. Nesses ca-
riam se nao fossem capazes de alcancar um entendimento. sos também, a fim de levarem adiante a idéia da posicao origi-
nal, as partes nao devem conhecer as contingéncias que as
colocam em oposicao. Elas devem escolher principios cujas
24. O véu de ignorancia conseqiiéncias estao preparadas para aceitar, nao importando a
qual geracao pertencam.
!\I'

A idéia da posicao original é estabelecer um processo Na medida do possivel, o unico fato particular que as par-
eqiiitativo, de modo que quaisquer principios aceitos sejarn tes conhecem é que a sua sociedade esta sujeita as circunstan-

‘1-.?', - '|¢‘i=::i_h_
. _ 21-1.’._
148 UMA TEORIA DA JUSTIQA 1
s TEORIA 1 49
W;

cias da justica e a qualquer conseqiiéncia que P0883 d6C0I'T¢T


. #2,
ex- que esta excluido pelo véu de ignorancia. A avaliacao dos prin-
.-:1:-" ‘L.-

disso. Entretanto, considera-se como um dado que elas conhe- e-=


.‘-
cipios deve proceder em termos das conseqiiéncias gerais de
seu reconhecimento publico e aplicacao universal, supondo-se
4

cem os fatos genéricos sobre a sociedade humana. Elas enten-


2/, 9
.,.,

II.“ .¢

dem as relacoes politicas e os principios da teorla eC0I10I111¢fl; que todos obedecerao a eles. Dizer que uma certa concepcao
Q.

conhecem a base da organizacao social e as leis que regem a


$1.
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da justica seria escolhida na posicao original equivale a dizer
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psicologia humana. De fato, presume-se que as partes conhe- .(.1%. . 2
que a deliberacao racional que satisfaz certas condicoes e res-
.~ S’
tricoes atingiria uma certa conclusao. Se fosse necessario, o
.\.|r

cem quaisquer fatos genéricos que afetem a escolha dospr1nc1- .-,_‘< .5-

-an
w-

pios da justica. Nao ha limites para a informacao genenca, ou ‘Y


argumento que conduz a esse resultado poderia ser elaborado
sej a, para as leis e teorias gerais, uma vez cjue as concBp90@$ da
-5*
“M

€_
mais formalmente. No entanto, falarei todo o tempo da nocao
justica devem ser ajustadas as caracteristicas dos sistemas de da posicao original. Isso é mais economico e sugestivo, e enfa-
1

cooperacao que devem regular, e nao ha razao para excluir K‘


tiza certos tracos essenciais que, caso contrario, poderiam fa-
esses fatos. Em vista das leis da psicologia moral, por exemplo, \
/v cilmente ser ignorados.
seria uma consideracao contra uma concepcao da justica pen- Essas observacoes demonstram que a posicao original nao
sar que os homens nao sentiriam um desejo de agir de acordo deve ser considerada como uma assembléia geral que inclui,
com a justica, mesmo quando as instituicfies de sua sociedade a num dado momento, todas as pessoas que vivem numa deter-
minada época; e menos ainda como uma assembléia de todos
$5

satisfizessem. Pois, nesse caso, haveria dificuldade em assegu-


rar a estabilidade da cooperacao social. Uma caracteristica os que poderiam viver numa determinada época. Ela nao é uma
importante de uma concepcao da justica é que ela deve gerar a reuniao de todas as pessoas reais ou possiveis. Se concebermos
sua propria sustentacao. Seus principios devem ser tais que, a posicao original de uma dessas duas maneiras, a concepcao
quando sao incorporados na estrutura basica da sociedade, os deixaria de ser um guia natural para a intuicao e nao teria um
homens tendem a adquirir o senso de justica correspondente e sentido claro. De qualquer forma, a posicao original deve ser
desenvolver um desejo de agir de acordo com esses principios. interpretada de modo que possamos, a qualquer tempo, adotar
Nesse caso, uma concepcao da justica é estavel. Esse tipo de a sua perspectiva. Deve ser indiferente a ocasiao em que
informacao genérica é admissivel na posicao original. alguém adota esse ponto de vista, ou quem o faz: as restricoes
A nocao do véu de ignorancia levanta varias dificuldades. devem ser tais que os mesmos principios sao sempre escolhi-
Alguns podem objetar que a exclusao de quase todas as.infor- dos. O véu de ignorancia é uma condicao essencial na satisfa-
macoes particulares pode dificultar o entendimento do signifi- cao dessa exigéncia. Ele assegura nao apenas que a informacao
cado da posicao original. Assim, pode ser util observar que disponivel é relevante, mas também que é a mesma em todas as
uma ou mais pessoas podem, a qualquer tempo, passar a ocu- épocas.
par essa posicao, ou, talvez melhor, simular as deliberacoes Pode-se protestar que a condicao do véu de ignorancia é
que seriam tomadas nessa situacao hipotética, simplesmente irracional. Com certeza, alguns podem objetar que os princi-
raciocinando de acordo com as restricoes apropriadas. Ao ar- pios deveriam ser escolhidos a luz de todo o conhecimento dis-
gumentarmos a favor de uma concepcao da justica, devemos ponivel. Ha varias respostas para esse argumento. Aqui esbo-
ter certeza de que ela esta entre as alternativas permitidas e carei aquelas que enfatizam as simplificacoes que sao necessa-
satisfaz as restricoes formais estipuladas. Nao se pode apresen- rias se quisermos ter qualquer teoria. (Outras, baseadas na
tar a seu favor quaisquer recomendacfies, a nao ser aquelas que interpretacao kantiana da posicao original, serao apresentadas
seja racional recomendar caso nos falte o tipo de conhecimento mais tarde, no § 40.) Para comecar, esta claro que, como as

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150 UMA TEORIA DA JUSTIQ4 TEORIA 151


- ~ ' tem o dever de economizar para a posteridade. As geracoes
diferencas entre as partes lhes sao desconhecldas, e todo s sao
anteriores podem ou nao ter economizado; nao ha nada que as
igualmente racionais e estao situados de forma semelhante,
partes possam fazer para mudar tal fato. Nesse exemplo, o véu
cada um é convencido pelos mesmos argumentos. PO1Tfl11f0,
podemos considerar o acordo na posica0 Oflglnal 3 Part“ do de ignorancia nao consegue assegurar o resultado desejado.
Portanto, para lidar com a questao da justica entre geracoes, eu
ponto de vista de uma pessoa selecionada ao acaso. Se qual-
modifico a suposicao motivacional e acrescento mais uma res-
quer pessoa depois da devida reflexao, prefere “ma ~°°n°ep9a°
9 .
tricao (§ 22). Com esses ajustes, nenhuma geracao é capaz de
da justiga a uma outra, entao todos a preferem, e pode-se atin-
gir um acordo unanime. Podemos, para tornar as c1rcunStflI1¢1flS formular principios especialmente destinados a promover a sua
mais sugestivas, imaginar que das partes se exige que se comu-
propria causa, e alguns limites importantes para a poupanca
niquem umas com as outras através de umarbitro, que age co- podem ser deduzidos (§ 44). Nao importa qual seja a posicao
mo intermediario, e que deve anunciar quais 2lllt3l'I1fl'[lV3S,fOl'.&IT1 de uma pessoa no tempo, cada uma é forcada a escolher por
todas".
sugeridas e os motivos oferecidos em seu apoio. Esse arbitro
proibe a tentativa de formar coalizoes, e mforma as partes As restricfies impostas as informacoes particulares na posi-
'
quando elas chegaram a um entendimento. ' 'tro é
ll/las esse arbl cao original sao, portanto, de fundamental importancia. Sem
elas nao seriamos capazes de elaborar nenhuma teoria da justi-
na verdade supérfluo, supondo-se que as deliberacoes das par-
tes devem ser semelhantes. _ HA _ ca. Teriamos de nos contentar com uma formula vaga afirman-
Assim, decorre a importantissima consequencila do queas do que a justica é aquilo com o que concordariamos, sem po-
partes nao tém base para negociar no sentido usua(iN1ngueLn dermos dizer muito, talvez nada, sobre a substancia do proprio
conhece a sua situacao na sociedade nem os seus ptes na ,- acordo. As restricfies formais do conceito de justo, que se apli-
. . . . . . n 1_ cam diretamente aos principios, nao sao suficientes para o
1'211S, e portanto mnguem tem possibilidade de formu ar prr c
pios sob medida para favorecer a s1 proprio. Podemos 1ma_glnfll‘ nosso proposito. O véu de ignorancia possibilita a escolha una-
que um dos contratantes ameace nao dar o seu assentimento a nime de uma concepcao particular da justica. Sem esses limites
nao ser que os outros concordem com principiosyque lhe sic impostos ao conhecimento, o problema da negociacao na posi-
favoraveis. Mas, como ele sabe quais sao os principios que d6 cao original se tornaria insoluvel. Mesmo que teoricamente
interessam especialmente? O mesmo se aplica a formacao 6 existisse uma solucao, nao seriamos capazes de determina-la,
coaliz6es' se um grupo decidisse se cohgar para prejudlcar os
-.>
pelo menos por enquanto.
outros, seus integrantes nao saberiam como beneficiar a s1 pro- A nocao do véu de ignorancia esta implicita, creio eu, na
prios na escolha dos principios. Mesmo que conseguissem que ética kantiana (§ 40). No entanto, o problema de definir o
todos concordassem com a sua proposta, eles nao terlam certe- conhecimento das partes e de caracterizar as alternativas aber-
za de que isso resultaria em seu beneficio, ja que nao S<gp<?d§I11 tas a elas foi muitas vezes ignorado, até mesmo pelas teorias
. . - - '
identificar a s1 mesmos, seja por nome ou descricao. umc
() contratualistas. Algumas vezes a situacao que define a delibe-
caso em que essa conclusao fracassa é o da poupanca. Como as racao moral é apresentada de um modo tao indeterminado que
pessoas na posigfio original sabem que sao contemporaneas ..x'.‘__-'_,_.
-.5-<,-A
*4
5-315-1;-‘Z» .
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nao podemos ter certeza de qual sera o seu resultado. Assim, a
- .‘\f:.7€’§: '

(interpretando o tempo presente como o tempo de rnscncao na


--\._-, ,1,
.T'1,w;i;,:‘ ‘.
..-51; doutrina de Perry é essencialmente contratualista: ele afirma
p()3iQ§() original) elas podem favorecer a sua geracao, recusan-
#2”
' .'_:§-2»"1.‘.:;"'
que a integracao social e pessoal deve proceder por principios
. . .5:-‘$Pi'}q=;' 1

do-se a fazer quaisquer sacrificios em favor de seus sucessores;


~ -Haw."
inteiramente diferentes, esta illtima pela prudéncia racional, a
elas simplesmente reconhecem o principio de que ninguém primeira pelo concurso de pessoas de boa vontade. Parece que
G-'

152 UMA TEORJA DA JUSTICA A.


"<4;\;
.‘ ,1 -».

2.11;.
TEOR]/I

ele rejeita o utilitarismo baseando-se nas mesmas premissas


:4.-.1
-. ~.-: A-. _,
.- 1;-
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fato genérico lhes é ocultado. Paco isso principahnente para evi-
‘fit

sugeridas anteriormente: ou sej a, que o utilitarismo estende, de €i:


tar complicacoes. No entanto, uma concepcao da justica deve ser
uma maneira impropria, o principio de escolha que se aplica ao
.%
/ill
o fundamento pfiblico dos termos da cooperacao social. Como o
-,_ ','.

individuo para as escolhas que se referem a sociedade. O modo


fifi
A5. .4; .
entendimento comum exige que se imponham certos limites a
de acao correto é caracterizado como aquele que da melhor complexidade dos principios, pode também haver limites im-
forma promove os objetivos sociais que seriam formulados postos ao uso do conhecimento teorico na posicao original. Ora,
através de um acordo ponderado, dado que as partes tém pleno é claro que seria muito dificil classificar e ordenar o grau de
conhecimento das circunstancias e sao movidas por uma preo- complexidade de varios tipos de fatos genéricos. Nao farei ne-
nhuma tentativa nesse sentido. No entanto, reconhecemos uma
=“_ -.,. .
a .32;
3%
cupacao benevolente pelos interesses umas das outras. Nao ha
nenhum esforco, entretanto, no sentido de especificar de um I‘-'&L*-£'-*1
.~‘;l,.'=-I-=:'."'.-~l'.%:=>-i.:-'.-'-Q.'*._
~_->_~;_.
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construcao teorica intrincada quando deparamos com ela. As-
modo preciso os resultados possiveis desse tipo de acordo. De -.*.. -'-.-at '-
.'
-
S1I1'1, parece razoavel dizer que, em circunstancias iguais, uma
fato, sem uma explicacao bem mais elaborada, nao se pode ? $-
concepcao da justica deve ser preferida a outra quando se funda
chegar a conclusao alguma“. Nao quero aqui fazer criticas aos ,,. 0.‘.
=5
em fatos genéricos marcadamente mais simples, e a sua escolha
outros; em vez disso, desejo explicar a necessidade do que as ‘r
nao depende de calculos elaborados a luz de um amplo conjunto
de possibilidades teoricamente definidas. E desejavel que os
,_,.
2?‘

vezes pode parecer um conjunto de detalhes irrelevantes.


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A . .=- Q ,.;.

fundamentos para uma concepcao comum da justica sejam evi-


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M-‘.9-. -.

Ora, as raz6es para recorrermos ao véu de ignorancia ul- 3' u

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dentes para todos quando as circunstancias o permitem. Essa
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' -".r_-.s- .

trapassam a mera simplicidade. Queremos definir a posicao .5:


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original de modo a chegarmos a solucao desejada. Se for per-


. .3:-.5: \-. _

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consideracao favorece, creio eu, os dois principios da justica em
mitido um conhecimento das particularidades, o resultado sera
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uma;
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demmento do critério da utilidade.


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influenciado por contingéncias arbitrarias. Como ja foi obser- ~ Q.


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vado, dar a cada um de acordo com seu poder de ameacar nao é E-’1?;;~'\
§?3‘?I1I_<.'.' ='. '
a‘

um principio da justica. Para que a posicao original gere acor-


d‘&
25. A racionalidade das partes
fin
dos justos, as partes devem estar situadas de forma eqiiitativa e fig?

devem ser tratadas de forma igual como pessoas éticas. A arbi- 4.


s . Supus até aqui que as pessoas na posicao original sao
trariedade do mundo deve ser corrigida por um ajuste das cir-
1
¥1 racionais. Mas também presumi que elas nao conhecem a sua
cunstancia da posicao contratual inicial. Além disso, se, na 1-
Gk
concepcao do bem. Isso quer dizer que, embora saibam que
escolha dos principios, exigissemos a unanimidade mesmo . ixré
‘-.1
-*
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tém algum plano racional de vida, elas nao conhecem os deta-
-1

quando ha um pleno conhecimento das informacoes, apenas


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1- :--_=.. ..3 . .
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1.‘ .
lhes desse plano, os objetivos e interesses particulares que ele
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alguns casos muito obvios poderiam ser decididos. Nesse caso, busca promover. Como podem entao decidir quais concepcoes
uma concepcao da justica baseada na unanimidade seria de Yfifiw
.-f3§_u,h‘~(. .
1- .,~A,' J,‘ da justiea lhes trazem mais beneficios? Sera que devemos su-
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fato fragil e irrelevante. Mas, uma vez excluido o conhecimen- 3 I :21; "- por que essas pessoas estao reduzidas a mera emissao de palpi-
'- 1'1.-.~"-I

to, a exigéncia da unanimidade nao é impropria, e o fato de que


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tes? Para enfrentar essa dificuldade, postulo que elas aceitam a
pode ser satisfeita é de grande importancia. Oferece-nos a pos- ‘J-
_~ -3'.15.-._§_; "r
_:-;_1.:'v._ A-; *
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<3 "iii 1-11..-1, _"
_r_-. . .\.
@- explicacao do bem que foi abordada no capitulo anterior: essas
sibilidade de afirmar que a concepcao da justica aqui privile- pessoas supoem que geralmente preferem ter uma quantidade
giada representa uma genuina conciliacao de interesses. de bens sociais primarios maior ao invés de uma menor. Sem
Um ultimo comentario. Na maioria das vezes, presumirei duvida, depois de removido o véu de ignorancia, pode vir a
que as partes possuem todas as informacoes genéricas. Nenhum ocorrer que algumas delas nao queiram, devido a motivos reli-
154 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 155

giosos ou de outro tipo, uma maior quantidade desses bens. Uma outra objecao ao nosso procedimento é a de que ele esta
Mas, do ponto de vista da posicao original, é racional que as por demais distanciado da realidade. Certamente, os homens
partes suponham querer uma fatia maior, ja que, de qualquer sao acometidos por esses sentimentos. Como pode uma con-
forma, elas nao sao obrigadas a aceitar mais se nao o deseja- cepcao da justica ignorar tal fato? Enfrentarei esse problema
rem. Assim, embora nao tenham nenhuma informacao a res- dividindo o argumento a favor dos principios da justica em duas
peito de seus objetivos particulares, as partes tém con_hecimen- partes. Na primeira, os principios sao derivados com base na
to suficiente para classificar as alternativas. Elas sabem que, suposicao de que a inveja nao existe; na segunda, considera-
em geral, devem tentar proteger as suas liberdades, ampliar as mos se a concepcao resultante é aplicavel em vista das circuns-
suas oportunidades, e aumentar os seus meios de promover os tancias da vida humana.
seus objetivos, quaisquer que sejam eles. Guiadas pela teoria _ Um motivo para esse procedimento é que a inveja tende a
do bem e pelos fatos genéricos da psicologia moral, suas deli- piorar a situacao de todos. Nesse sentido, é coletivamente des-
beracoes deixam de ser um exercicio de adivinhacao. Elas po- vantajosa. Presumir a sua auséncia resulta na suposicao de que,
dem tomar uma decisao racional no sentido comum. na escolha dos principios, os homens deveriam considerar a si
O conceito de racionalidade invocado aqui, a nao ser por proprios como pessoas que tém, cada uma, seu proprio plano
uma caracteristica essencial, é aquele conceito classico famoso de vida, e que esse plano é auto-suficiente. Elas tém um senso
na teoria social“. Assim, de forma genérica, considera-se que seguro de seu proprio valor, de modo que nao desejam abando-
uma pessoa racional tem um conjunto de preferéncias entre as nar nenhum de seus objetivos para que outros tenham menos
opc6es que estao a seu dispor. Ela classifica essas opcoes de meios de promover os seus. Vou elaborar uma concepcao da
acordo com a sua efetividade em promover seus propositos; se- justica baseada nessa estipulacao para ver o que acontece. Mais
gue o plano que satisfara uma quantidade maior de seus dese- tarde, tentarei demonstrar que, quando os principios adotados
jos, e que tem as maiores probabilidades de ser implementado sao postos em pratica, eles conduzem as organizacoes sociais
com sucesso. A suposicao especial que faco é que um individuo nas quais a inveja e outros sentimentos destrutivos provavel-
racional nao é acometido pela inveja. Ele nao esta disposto a mente nao serao intensos. A concepcao da justica elimina as
aceitar uma perda para si mesmo apenas para que os outros tam- condicoes que dao origem a atitudes disruptivas. Portanto, ela é
bém obtenham menos. Nao fica desanimado por saber ou per- intnnsecamente estavel (§§ 80-81).
ceber que os outros tém uma quantidade de bens sociais primarios A suposicao da racionalidade mutuamente desinteressada,
é maior que a sua. Ou, pelo menos, isso se verifica na medida em portanto, resulta nisto: as pessoas na posicao original tentam
que as diferencas entre esse individuo e os outros nao exceda cer- reconhecer principios que promovem seus sistemas de objeti-
tos limites, e que ele nao acredite que as desigualdades existentes vos da melhor forma possivel. Elas fazem isso tentando garan-
estao fundadas na injustica ou resultam da aceitacao do acaso, sem tir para si mesmas o maior indice de bens sociais primarios, ja
nenhum proposito social visando compensa-las (§ 80). que isso lhes possibilita promover a sua concepcao do bem de
A suposicao de que as partes nao sao movidas pela inveja forma efetiva, independentemente do que venha a ser essa con-
levanta algumas questoes. Talvez devéssemos também supor cepcao. As partes nao buscam conceder beneficios ou impor
que elas nao sao suscetiveis a outros sentimentos como a ver- prejuizos umas as outras; nao sao movidas nem pela afeicao nem
gonha e a humilhacao (§ 67). Uma explicacao satisfatoria da pelo rancor. Nem tentam levar vantagem umas sobre as outras;
justica tera eventualmente de lidar com essas questoes tam- nao sao invejosas e nem vaidosas. Falando em termos de um
bém, mas por enquanto deixarei essas complicaciaes de lado. jogo, poderiamos dizer: elas lutam pelo maior numero absoluto
A
Q1 TEORIA 1 57
I}-
156 UMA TEORIA DA JUSTIQA ‘ ‘HF-s

-
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liarem as concepcoes da justica, as pessoas na posicao original
.. A.
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de pontos possiveis. Nao desejam para seus oponentes um ! . -‘s.
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devem supor que aquela que escolherem sera estritamente obe-
nfimero de pontos alto ou baixo, nem buscam maximizar ou
~; .
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1. ,.
4' A; decida. As conseqiiéncias de seu acordo devem ser depreendi-
A .1'-41.,
A...
- .,- .-,1 .
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minimizar a diferenca entre seus sucessos e os dos outros. A ~ -'...:r-.


..
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das desse fundamento.
idéia de um jogo nao se aplica de fato, pois as partes nao estao era
a>'\-V Com as observacoes anteriores sobre a racionalidade e a
interessadas em ganhar, mas em obter todos os pontos possi- .1,
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=7.-‘j
'
motivacao das partes, a descricao da posicao original esta qua-
H.ii,
veis, a julgar pelo seu proprio sistema de obj etivos. . _~ .= .1-
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‘;-‘\ Q.‘
se completa. Podemos resumir essa descricao seguindo a lista
Ha uma outra suposicao para garantir uma obediéncia es- .-,_ 1

5
' de elementos da posicao inicial e suas variantes. (Os asteriscos
trita aos principios. Presume-se que as partes sao capazes de F
:3.
41*‘ '
A: marcam as interpretacoes que constituem a posieao original.)
um senso de justica, e esse fato é de conhecimento publico Jgfw“

§.
'
entre elas. Essa condicao tem por objetivo assegurar a integri- W. 5 l. A Natureza das Partes (§ 22)
dade do acordo feito na posicao original. Nao significa que, em *a. pessoas ligadas por uma continuidade (chefes de fami-
suas deliberacoes, as partes apliquem alguma concepcao parti- lia, ou linhagens genéticas)
cular da justica, pois isso derrubaria o argumento da suposicao b. individuos isolados
J).

motivacional. A0 contrario, significa que as partes podem con- 3- c. associacoes (estados, igrejas ou outras pessoasjuridicas)
fiar umas nas outras no sentido de que todas entendem e agem 1‘;
2. Objeto da Justica (§ 2)
dc acordo com os principios acordados, quaisquer que sejam *a. estrutura basica da sociedade
eles. Uma vez reconhecidos os principios, as partes podem ter b. regras de pessoas juridicas
uma confianca mfitua quanto a sua obediéncia. Ao chegarem a c. direito internacional
um acordo, portanto, elas sabem que esse acordo nao existe em 3. Apresentacao de Alternativas (§ 21)
vao: a sua capacidade para um senso de justica assegura que os *a. lista mais longa (ou mais curta)
principios escolhidos serao respeitados. E essencial observar, b. caracterizacao geral das possibilidades
entretanto, que essa suposicao ainda permite que consideremos 4. Momento de Entrada (§ 24)
a capacidade dos homens de agir de acordo com as varias con- *a. qualquer momento (durante a idade da razao) para as
cepcoes da justica. Os fatos genéricos da psicologia humana e pessoas vivas
os principios dos ensinamentos morais sao questoes pertinen- b. todas as pessoas reais (aquelas que estao em alguma
tes que as partes podem examinar. Se uma concepcao da justica época) simultaneamente
nao implica a sua propria sustentacao, ou se lhe falta estabili- c. todas as pessoas possiveis simultaneamente
dade, tal fato nao deve ser ignorado. Pois, nesse caso, uma con- 5. Circunstancias da Justica (§ 22)
cepcao da justica diferente poderia ser preferida. A suposicao *a. condicoes de Hume relativas a escassez moderada
afirma apenas que as partes tém aptidao para a justica num b. as condicoes acima, as quais se acrescentam outros ex-
sentido puramente formal: levando em conta tudo o que é rele- tremos
vante, inclusive os fatos genéricos da psicologia humana, as 6. Condicoes Formais Impostas aos Principios (§ 23)
partes irao aderir aos principios conseqiientemente escolhidos. *a. generalidade, universalidade, publicidade, ordenacao e
Elas sao racionais no sentido de nao fazerem acordos que carater terminativo
sabem que nao poderao manter, ou que so poderao manter com b. as condicoes acima, exceto a publicidade, por exemplo
grande dificuldade. Juntamente com outras consideracoes, elas 7. Conhecimento e Crencas (§ 24)
levam em conta a forca do compromisso (§ 29). Assim, ao ava-
15 8 UMA TEORJA DA JUSTIQA TEORJA 159

*a. veu de ignorancia por nossas atitudes e inclinacoes particulares. Certamente sera
b. informacao plena dificil corrigir nossas varias tendéncias e aversoes no esforco
c. conhecimento parcial de aderir as condicoes dessa situacao idealizada. Mas nada
8. Motivacao das Partes (§ 25) disso afeta a afirmacao de que, na posicao original, as pessoas
*a. desinteresse mfltuo (altruismo limitado) racionais assim caracterizadas tomariam uma certa decisao.
b. elementos de solidariedade social e boa vontade Essa proposicao pertence a teoria da justica. Saber com que
c. altruxsmo perfeito
'

. A.
grau de sucesso os seres humanos podem assumir esse papel na
9. Racionalidade (§§ 25, 28). regulacao de seu raciocinio pratico ja é outra questao.
*a. utilizar meios efetivos para atingir objetivos, com ex- _ Como se supoe que as pessoas na posicao original nao tém
pectativas unificadas e uma interpretacao objetiva das interesse pelos interesses dos outros (embora possam se preo-
probabilidades cupar com terceiros), pode-se pensar que a justica como eqiii-
b. como acima, mas sem as expectativas unificadas e dade é, em si mesma, uma teoria egoistica. Sem duvida, ela nao
usando o principio da razao insuficiente é uma das trés formas de egoismo mencionadas»anteriormente,
l0. Condicao para o Acordo (§ 24) mas alguns podem pensar, como pensava Schopenhauer a res-
*a. unanimidade perpétua peito da doutrina de Kant, que, mesmo assim, ela é egoistica“.
b. aceitacao da maioria, ou alguma outra condicao, por Mas essa é uma opiniao equivocada. Pois o fato de que na posi-
um periodo limitado cao original as partes sao mutuamente desinteressadas nao
1 l. Condigao de Obediéncia (§ 25) implica que, na vida comum ou em uma sociedade bem-orde-
*a. obediéncia estrita nada, as pessoas que defendem os principios supostamente acor-
b. obediéncia parcial em varios graus dados nao tém, da mesma forma, interesse umas pelas outras. E
12. Auséncia de Acordo (§ 23) 1 claro que os dois principios da justica, bem como os principios
*a. egoismo corrente da obrigacao e do dever natural, exigem que consideremos os
b. estado de natureza direitos e reivindicacoes dos outros. E o senso de justica é, nor-
malmente, urn desejo efetivo de agir de acordo com essas res-
Podemos nos voltar agora para a escolha dos principios. tricoes. A motivacao das pessoas na posicao original nao deve
Mas antes mencionarei alguns mal-entendidos que devem ser ser confundida com a motivacao das pessoas na vida quotidia-
evitados. Em primeiro lugar, devemos ter em mente que as par- na, que aceitam os principios da justica e que tem o senso de
tes na posicao original sao individuos definidos teoricamente. justica correspondente. Nas questoes praticas, um individuo
As razoes para o seu assentimento sao fundadas na descricao tem realmente conhecimento de sua situacao e pode, se desejar,
da situacao contratual e na sua preferéncia pelos bens prima- explorar as contingéncias em beneficio proprio. Se o seu senso
rios. Assim, dizer que os principios da justica seriam adotados de justica o levar a agir de acordo com os principios do justo
é afirmar que essas pessoas, em sua decisao, seriam movidas que seriam adotados na posicao original, seus desejos e objeti-
das maneiras descritas por nossa explicacao. Sem dovida, quan- vos com certeza nao serao egoisticos. Ele adota voluntariamen-
do simulamos a posicao original em nossa vida quotidiana, ou te as limitacoes expressas pela interpretacao do ponto de vista
sej a, quando tentamos nos conduzir em discussoes morais seguin- moral. Assim, de um modo mais geral, a motivacao das partes
do as exigéncias de suas restricoes, presumivelmente descobri- na posicao original nao determina diretamente a motivacao das
remos que nossas deliberacoes e julgamentos sao influenciados pessoas em uma sociedade justa. Pois, neste filtimo caso, supo-

3..

~~ A:l¢>7""‘
'~ :*'; '.
160 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 16]

mos que os membros dessa sociedade justa crescem. e vivem Finalmente, se concebemos que as proprias partes fazem
propostas, elas nao tém incentivo para sugerir principios ino-
sob uma estrutura basica justa, como exigem os dOlS princi-
teis ou arbitrarios. Por exemplo, ninguém exigiria que privile-
pios; em seguida, tentamos descobrir que tipos de concepcoes
do bem e quais sentimentos morais as pessoas iriam adquirir gios especiais fossem concedidos aqueles que tém exatamente
1,80 m de altura, ou que nasceram num dia de sol. Da mesma
(cap. VIII). Portanto, o desinteresse mutuo das partes determi-
forma, ninguém apresentaria o principio segundo o qual os
na outras motivacoes apenas de forma indireta, ou sej a, atraves
direitos basicos devessem depender da cor da pele ou datext11-
de seus efeitos sobre o acordo em relacao aos principios. Sao
esses principios, juntamente com as leis da psicologia (na ra do cabelo. Ninguém pode saber se esses principios lhe tra-
medida em que agem obedecendo as condicoes de instituicoes riam beneficios. Além do mais, cada principio desse tipo é uma
justas), que dao forma aos objetivos e aos sentimentos morais limitacao imposta a nossa liberdade de acao, e essas restricoes
dos cidadaos em uma sociedade bem-organizada. nao devem ser aceitas sem uma razao que as justifique. Certa-
Na consideracao da idéia de uma teoria contratualista, é mente, podemos imaginar circunstancias peculiares nas quais
tentador pensarmos que ela nao produzira os principios que de- essas caracteristicas seriam relevantes. Os nascidos em um dia
sejamos a nao ser que as partes sejam, pelo menos em alguma de sol podem ser agraciados com um temperamento alegre, e,
medida, movidas pela boa vontade, ou por um interesse pelos para algumas posicoes de autoridade, esse pode ser um atributo
interesses mfituos. Perry, como ja mencionei antes, considera favoravel. Mas essas distincoes nunca seriam propostas como
que sao justos os padroes e decisoes que promovem os obj etivos principios basicos, pois estes devem ter alguma ligacao racio-
atingidos por meio de um acordo ponderado em circunstancias nal com a promocao de interesses humanos definidos de um
que visam a imparcialidade e a boa vontade. Ora, a combinacao modo amplo. A racionalidade das partes e a sua situacao na
do de-sinteresse mutuo e do véu de ignorancia atinge pratica- posicao original garantem que os principios éticos e as concep-
mente o mesmo proposito da benevoléncia. Pois essa combina- coes da justica tenham esse conteodo geral“. Inevitavelmente,
cao de condicoes forca cada pessoa na posicao original a levar entao, a discriminacao racial e sexual pressupoe que alguns
em consideracao o bem dos outros. Na justica como eqiiidade, ocupam uma situacao favoravel no sistema social, situacao esta
portanto, os efeitos da boa vontade sao gerados por varias condi- que estao dispostos a explorar em beneficio proprio. Do ponto
coes que atuam juntas. A impressao de que essa concepcao da de vista de pessoas colocadas de forma semelhante em uma si-
justica é egoistica é uma ilusao fomentada pela consideracao de tuacao inicial que é eqiiitativa, os principios de doutrinas racis-
apenas um dos elementos da posicao original. Além disso, esse tas explicitas nao so sao injustos. Sao também irracionais. Por
par de suposicoes tem enormes vantagens em relacao ao par esse motivo, podemos dizer que eles nao constituem, de forma
benevoléncia e conhecimento. Como ja notei, este riltimo é tao alguma, concepcoes morais, mas simplesmente meios de
complexo que nao permite a elaboracao de nenhuma teoria defi- repressao. Eles nao tém lugar em uma lista razoavel de concep-
nida. Nao so os obstaculos causados por tanta informacao sao goes tradicionais da justica". Sem dilvida, essa afirmacao nao
intransponiveis, mas também a suposicao motivacional exige depende, de forma alguma, de um problema de interpretacao.
esclarecimentos. Por exemplo, qual é a forca relativa dos desejos Muito mais que isso, é uma conseqiiéncia das condicoes que
benevolentes? Em resumo, a combinacao do desinteresse mrituo caracterizam a posicao original, especialmente as condicoes da
e do véu de ignorancia tem os méritos da simplicidade e da clare- racionalidade das partes e a do véu de ignorancia. Que as con-
za e, ao mesmo tempo, assegura os efeitos de suposicoes que, a cepcoes do justo tém um certo conterido e excluem principios
primeira vista, sao mais atraentes de um ponto de vista moral. arbitrarios e inilteis é, portanto, uma inferéncia da teoria.
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162 UMA TEORIA DA JUs1r1g3A TEORJA 163


I

sua aceitacao dessas desigualdades economicas e institucionais


26. O raciocinio que conduz aos dois principios da justica
é apenas o reconhecimento das relacoes de oposicao em que os
homens se colocam dentro das circunstancias da justica. Eles
Nesta secao e nas duas seguintes abordo a escolha entre os
nao tém fundamentos para se queixar dos motivos uns dos ou-
dois principios da justica e o principio da utilidade média.
tros. Assim, as partes discordariam da existéncia dessas diferen-
Determinar a preferéncia racional por uma dessas duas opcoes
cas apenas se ficassem frustradas simplesmente porque percebem
é talvez o problema central do desenvolvimento da concepcao
ou sabem que os outros estao em melhor situacao; mas suponho
da justica como eqiiidade como uma alternativa viavel a tradi-
que elas decidem como quem nao é motivado pela inveja. Assim,
cao utilitarista. Comecarei apresentando nesta secao algumas
a estrutura basica permite essas desigualdades contanto que
observacoes intuitivas que favorecem os dois principios. Tam-
elas melhorem a situacao de todos, inclusive a dos menos favo-
bém discutirei brevemente a estrutura qualitativa da demons-
recidos, desde que elas sejam consistentes com a liberdade
tracao que precisa ser feita para que a escolha desses principios
igual e com a igualdade eqiiitativa de oportunidades. Devido ao
seja conclusiva.
fato de as partes comecarem a partir de uma divisao igual de
Consideremos entao o ponto de vista de uma pessoa qual-
todos os bens sociais primarios, aqueles que se beneficiam
quer na posicao original. Essa pessoa nao tem meios de obter r

menos tém, por assim dizer, um poder de veto. Chegamos assim


vantagens especiais para si propria. Por outro lado, também
ao principio da diferenca. Tomando a igualdade como a base de
nao ha fundamentos para que ela concorde com desvantagens
comparacao, aqueles que ganharam mais devem to-lo feito em
especiais. Como nao é razoavel que ela espere mais do que uma
termos que sao justificaveis aos olhos daqueles que ganharam o
parte igual na divisao dos bens sociais primarios, e como tam-
minimo.
bém nao é racional que ela concorde em obter menos, o sensato
é reconhecer, como o primeiro passo, um principio que exija
A Por um raciocinio desse tipo, entao, as partes podem che-
l
ll
gar aos dois principios da justica em ordem serial. Nao tentarei
uma distribuicao igual. De fato, esse principio é tao obvio em i
1 justificar essa ordenacao aqui, mas as observacoes seguintes
vista da simetria das partes, que ocorreria imediatamente a
podem transmitir a idéia intuitiva. Suponho que as partes se
qualquer pessoa. Assim, as partes comecam com um principio
véem como pessoas livres, que tem objetivos fundamentais, e
que exige liberdades basicas iguais para todos, bem como uma
interesses em nome dos quais julgam legitimo fazer reivindica-
igualdade eqiiitativa de oportunidades e uma divisao igual da
renda e da riqueza. _
coes reciprocas em relaeao a estrutura basica da sociedade. O
interesse religioso é um exemplo historico conhecido; o inte-
Mas, mesmo que defendamos a prioridade das liberdades
resse na integridade da pessoa é outro. Na posicao original, as
basicas e da igualdade eqiiitativa de oportunidades, nao ha mo-
tivos para que esse reconhecimento inicial seja definitivo. A partes nao sabem que formas particulares esses interesses assu-
mirao; mas elas supoem que tém esses interesses e também que
sociedade deve levar em consideracao a eficiéncia economica e
as liberdades basicas exigidas para protege-los sao garantidas
as exigéncias organizacionais e tecnologicas. Se existem desi-
pelo primeiro principio. Como precisam assegurar esses inte-
gualdades na renda e na riqueza, assim como diferencas na au-
resses, classificam o primeiro principio como prioritario em
toridade e nos graus de responsabilidade que atuam para melho-
relacao ao segundo. O argumento a favor dos dois principios
rar a condicao de todos, em relacao ao ponto de referéncia da
pode ser fortalecido com uma explicacao mais detalhada da
igualdade, por que nao pemiiti-las? Podemos pensar que, ideal-
nocao de pessoa livre. Em termos muitos gerais, as partes con-
mente, os individuos gostariam de servir uns aos outros. Mas,
sideram ter interesses de uma ordem superior no modo como
como se supoe que as partes sao mutuamente desinteressadas, a

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164 UMA TEORIA DA JusT1g?A


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TEORJA 165

todos os seus outros interesses, inclusive os fundamentais, sao todas as liberdades basicas possam ser completamente institui-
moldados e regulados pelas instituicoes da sociedade. Elas nao
se julgam inevitavelmente obrigadas a buscar ou a se identifi- I das. A realizacao completa dos dois principios em ordem serial
é a tendéncia a longo prazo dessa ordenacao, pelo menos em
car com nenhum complexo particular de interesses fundamen- condicoes razoavelmente favoraveis.
tais que possam vir a ter em um momento dado qualquer, em- Parece, levando-se em conta as observacoes acima, que
bora tenham o direito de promover esses interesses (contanto os dois principios sao, pelo menos, uma concepcao plausivel
que sejam admissiveis). Em vez disso, as pessoas livres conce- da justica. A questao é, porém, como argumentar a favor deles
bem a si proprias como seres que podem revisar e alterar seus de um modo mais sistematico. Ha varias coisas a fazer.
objetivos finais e que dao prioridade total a preservacao de sua Podemos definir as suas conseqiiéncias para as instituicoes e
liberdade nessas questoes. Portanto, nao so elas tém objetivos observar suas implicacoes para a politica social fundamental.
finais que, em principio, podem buscar ou rejeitar, mas tam- Desse modo, eles sao testados através de uma comparacao
bém a sua fidelidade e dedicacao continua a esses obj etivos de- com nossos juizos ponderados sobre a justica. A Parte II deste
vem ser formadas e afirmadas em condicoes de liberdade. livro se dedica a isso. Mas podemos também tentar encontrar
Como os dois principios asseguram uma estrutura social que man- argumentos a seu favor que sejam decisivos do ponto de vista
tém essas condicoes, num acordo seriam eles os escolhidos, e da posicao original. Para ver como isso pode ser feito, seria
nao o principio da utilidade. So mediante esse acordo é que as util, como uma estratégia heuristica, pensar nos dois princi-
partes podem ter certeza de que seus interesses de ordem supe- pios como a solucao maximin para o problema da justica
rior de pessoas livres estara garantido. social. Ha uma relacao entre os dois principios e a regra maxi-
A prioridade da liberdade significa que, sempre que as li- min para a escolha em situacoes de incerteza“. Isso fica evi-
berdades basicas podem ser efetivamente estabelecidas, nao é dente a luz do fato de que os dois principios da justica sao
permitido trocar uma liberdade menor ou desigual por uma aqueles que uma pessoa escolheria para a concepcao de uma
melhoria do bem-estar economico. So quando as circunstan- sociedade em que 0 seu lugar lhe fosse atribuido por seu ini-
cias sociais nao permitem o estabelecimento efetivo desses migo. A regra maximin determina que classifiquemos as alter-
direitos basicos é que podemos consentir com a sua limitacao; nativas em vista de seu pior resultado possivel: devemos ado-
e mesmo assim, essas restricoes so podem ser aceitas na medi- tar a alternativa cujo pior resultado seja superior aos piores
da em que sejam necessarias a fim de preparar o caminho para resultados das outras”. Com certeza, as pessoas na posicao
o tempo em que elas deixem de se justificar. A negacao das li- original nao supoem quea sua posicao inicial na sociedade é
berdades iguais so pode ser defendida se isso for essencial para decidida por um oponente malévolo. Como observo abaixo,
a mudanca das condicoes da civilizacao, de modo que, no elas nao devem raciocinar baseando-se em falsas premissas. O
momento devido, essas liberdades possam ser usufruidas. As- véu dc ignorancia nao viola essa idéia, uma vez que uma
sim, ao adotarem a ordem serial dos dois principios, as partes auséncia de informacao nao é uma informacao equivocada.
estao supondo que as condicoes de sua sociedade, quaisquer Mas o fato de que os dois principios da justica seriam escolhi-
que sejam elas, admitem a realizacao efetiva das liberdades dos se as partes fossem forcadas a se proteger contra uma tal
iguais. Ou, caso nao a admitam, que essas circunstancias sao contingéncia explica o sentido em que essa concepcao é a
no entanto suficientemente favoraveis para que a prioridade do solucao maximin. E essa analogia sugere que se a posicao ori-
primeiro principio aponte as mudancas mais urgentes e identi- ginal foi descrita de modo a ser racional que as partes adotem
fique o melhor caminho que conduz ao estado social em que a atitude conservadora expressa por essa regra, pode-se de

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166 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 167

fato construir um argumento conclusivo a favor desses princi- dificilmente sao aceitaveis. A situacao envolve sérios riscos.
pios. E claro que a regra maximin nao é, em geral, um guia Com certeza, essas caracteristicas funcionam mais efetivamen-
adequado de escolha em situacoes de incerteza. Ela se aplica
apenas a situacoes marcadas por certas caracteristicas espe-
I 1
te quando combinadas. A situacao paradigmatica para seguir-
mos a regra maximin se da quando as tres caracteristicas se ve-
ciais. Meu objetivo, entao, é demonstrar que se pode construir rificam no mais alto grau possivel.
um bom exemplo a favor dos dois principios baseado no fato Facamos uma breve revisao da natureza da posicao origi-
de que a posicao original tem essas caracteristicas em um grau nal, tendo em mente essas trés caracteristicas especiais. Para
muito alto. comecar, o véu de ignorancia exclui todo o conhecimento das
Parece haver trés caracteristicas principais de situacoes T
probabilidades. As partes nao tem base para determinar a natu-
que conferem plausibilidade a essa regra incomum’°. Em pri- 1
1 reza provavel de sua sociedade, ou o seu proprio lugar nela.
meiro lugar, como a regra nao leva em conta as probabilidades 1% Assim, nao tém base para calculos probabilisticos. Elas tam-
das circunstancias possiveis, deve haver algum motivo para ‘=-
Y

bém devem levar em consideracao o fato de que a sua escolha


que se descartem sumariamente as estimativas dessas probabi- k
dos principios deve parecer razoavel perante os outros, em par-
-1

lidades. A primeira vista, a mais natural regra de escolha pare- 39


firi-

i
ticular para os seus descendentes, cujos direitos serao profun-
ceria ser computar a expectativa de ganho monetario para cada damente afetados por ela. Essas consideracoes ganham forca
decisao, e em seguida adotar o curso de acao que apresenta a 1*
>< com o fato de que as partes sabem muito pouco a respeito dos
perspectiva mais alta. (Essa expectativa se define da seguinte
‘F

estados possiveis da sociedade. Nao so elas sao incapazes de


maneira: suponhamos que gij representa os numeros da tabela conjecturar sobre as probabilidades das varias circunstancias
de perdas e ganhos, onde i é o indice da linha e j o indice da possiveis, mas também nao podem dizer muito sobre quais sao
colrma; e que pj, j = 1, 2, 3, sejam as probabilidades das cir- .,|.
as circunstancias possiveis, muito menos enumera-las e prever
-:»:.
I
cunstancias, com Zpj = 1. Nesse caso, a expectativa para a ene- I
1.. .\

o resultado de cada alternativa disponivel. Os que estao em


sima decisao é igual a Epjgij.) Isso deve corresponder, por r
posicao de decidir ficam muito mais no escuro do que sugere a
1
exemplo, a situacao em que o conhecimento das probabilida- 1
1
ilustracao de tabelas numéricas. E por esse motivo que falei
des é impossivel, ou, na melhor das hipoteses, extremamente apenas de uma relacao com a regra maximin.
incerto. Nesse caso, seria irracional nao adotar uma postura Varios tipos de argumentos a favor dos dois principios da
cética em relacao a calculos probabilisticos a nao ser que nao justica ilustram a segunda caracteristica. Assim, se pudermos
houvesse outra saida, principalmente se a decisao for funda- sustentar que esses principios fornecem uma teoria aplicavel
mental e necessitar de uma justificativa perante os outros. da justica social, e que sao compativeis com exigéncias razoa-
A segunda caracteristica sugerida pela regra maximin é a veis de eficiéncia, essa concepcao garante um minimo satisfa-
seguinte: a pessoa que escolhe tem uma concepcao do bem que torio. Se refletirmos, talvez haja poucos motivos para tentar
a leva a preocupar-se muito pouco, ou nem um pouco, com o fazer coisa melhor. Assim, grande parte da argumentacao, es-
que possa ganhar acima do estipéndio minimo que, de fato, ela pecialmente na Parte 2, tem o objetivo de mostrar, através de
pode ter certeza de obter seguindo a regra maximin. Para ela, sua aplicacao a algumas das principais questoes da justica so-
nao vale a pena arriscar-se em nome de uma vantagem a mais, cial, que os dois principios sao uma concepcao satisfatoria.
especialmente quando existe o risco de perder muito do que Essas minucias tém um proposito filosofico. Além disso, essa
preza. Esta ultima possibilidade introduz a terceira caracteristi- linha de pensamento é praticamente decisiva se pudermos esta-
ca, ou seja, que as alternativas rejeitadas tom resultados que belecer a prioridade da liberdade. Pois essa prioridade implica

A 12.+"Ar-..-- -
16g UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 169
1

titulo de ilustracao: as disparidades mais extremas na renda e


que as pessoas na posicao original nao desej am tentar maiores
na riqueza sao permitidas, contanto que sejam necessarias para
vantagens em detrimento das liberdades basicas iguais. O mi-
elevar as expectativas dos menos afortunados em um grau mi-
nimo assegurado pelos dois principios em ordem lexical nao é r
nimo. Mas, ao mesmo tempo, desigualdades semelhantes que
um minimo que as partes desejem colocar em risco em nome
I

I favorecem os mais privilegiados sao proibidas quando os que


de maiores vantagens economicas e sociais (§§ 33-35).
estao em pior posicao perdem, por pouco que sej a. Mas parece
Por ultimo, a terceira caracteristica é valida se podemos
extraordinario que o carater justo do aumento das expectativas
supor que outras concepcoes da justica podem conduzir a insti-
dos mais bem colocados em um bilhao de dolares, por exem-
tuicoes que as partes considerariam intoleraveis. Por exemplo,
plo, dependa de uma elevacao ou de uma diminuicao das pers-
afirmou-se algumas vezes que, sob certas condicoes, o princi-
1 pectivas dos menos favorecidos em um centavo. Essa obj ecao é
pio da utilidade (em qualquer das duas formas) justifica, se nao 1
1
11 1
analoga a conhecida dificuldade apresentada pela regra maxi-
a escravatura e a servidao, pelo menos sérias infracoes da liber-
min, que ilustro a seguir. Consideremos a seqiiéncia de tabelas
dade, em nome de maiores beneficios sociais. Nao precisamos I

de perdas e ganhos:
considerar aqui a veracidade dessa alegacao. Por enquanto, essa
opiniao serve apenas para ilustrar o modo pelo qual as concep-
coes da justica podem permitir resultados que talvez se reve- 0 n
lem inaceitaveis para as partes. E dispondo da alternativa dos
-m._ __¢
1/n l
dois principios da justica, que asseguram um minimo satisfato-
para todos os numeros naturais n. Mesmo que, para algum
rio, parece insensato, senao irracional, correr o risco de nao ter
numero pequeno, seja razoavel escolher a segunda fileira, cer-
essas condicoes satisfeitas.
tamente ha um outro ponto, que surgira mais tarde na sequen-
Esta entao terrninado o breve esboco das caracteristicas da
cra, em que sera irracional nao escolher a primeira fileira, o
situacoes nas quais a regra maximin é uma rnaxima util, e do
que e contrario a regra.
modo pelo qual os argumentos a favor dos dois principios da
_ Parte da resposta é que o principio da diferenca nao tem o
justica podem enquadrar-se nelas. Assim, se a lista de concepcoes 1
1 intuito de se aplicar a possibilidades tao abstratas. Como eu ja
tradicionais (§ 21) representa as decisoes possiveis, esses prin-
1 disse, o problema da justica social nao consiste na alocacao ad
cipios seriam selecionados pela regra. A posicao original exibe 1
libitum de varias quantias de algo, seja dinheiro, propriedade
essas caracteristicas em um grau suficientemente alto, levan-
ou qualquer outra coisa, entre individuos concretos. Nem exis-
do-se em conta o carater fundamental da escolha de uma con-
te alguma matéria com a qual se facam suposicoes que podem
cepcao da justica. Essas observacoes sobre a regra maximin
ser transferidas de um homem representativo para outro em to-
tém como intuito apenas esclarecer a estrutura do problema da
das as combinacoes possiveis. As possibilidades visadas pela
escolha na posicao original. Concluo esta secao abordando uma
objecao nao surgem em casos reais; o conjunto factivel delas é
objecao que pode ser feita contra o principio da diferenca, e
talo restrito que elas sao excluidas“. A razao para isso é que os
que conduz a uma questao importante. A obj ecao é a seguinte:
dois principios estao unidos como uma concepcao da justica
uma vez que devemos maximizar (obedecendo as restricoes
que se aplica a estrutura basica da sociedade como um todo. A
usuais) as perspectivas dos menos favorecidos, parece que o
operacao dos principios da liberdade igual e da igualdade equi-
carater justo de grandes aumentos ou diminuicoes das expecta-
tativa de oportunidades impede que essas contingéncias ocor-
tivas dos mais privilegiados pode depender de pequenas mu-
ram. Pois elevamos as expectativas dos mais favorecidos ape-
dancas nas perspectivas dos que estao em piores condicoes. A

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nas segundo as formas necessarias para que se melhore a situa- _rr.:,i -


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dependem em grande medida dos fatos naturais acerca dos ho-
cao dos menos privilegiados. Maiores expectativas para os mens em sociedade. Essa dependéncia se torna explicita pela
mais beneficiados presumivelmente cobrem os custos de trei- K1211-I

~ ‘en descricao da posicao original: a decisao das partes é feita a luz


namento ou respondem a exigéncias organizacionais, contri- I
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do conhecimento geral. Além disso, os varios elementos da
buindo dessa forma para o beneficio geral. Apesar de nada ga- - §.£é.'i -' .
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posicao original pressupoem muitas coisas sobre as circunstan-
rantir que as desigualdades nao serao significativas, ha uma cias da vida humana. Alguns filosofos consideraram que prin-
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tendéncia persistente para que elas sejam niveladas, através do .:.._;;; , _ ..


_Q\';_f;‘.= cipios primeiros da ética deveriam ser independentes de todas
aumento da disponibilidade da habilitacao especializada e até as suposicoes contingentes, que eles nao deveriam tomar como
de uma ampliacao das oportunidades. As condicoes estabeleci- --*
w dada nenhuma verdade, exceto as verdades do dominio da logi-
das pelos outros principios asseguram que as disparidades que 1
'1' -flif

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ca e outras que decorrem destas através dc uma analise de con-
1
provavelmente resultarao serao muito menores que as diferen- ceitos. As concepcoes morais deveriam valer para todos os
cas que os homens muitas vezes toleraram no passado. 3.‘
mundos possiveis. Ora, tal visao transforma a filosofia moral
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Devemos também observar que o principio da diferenca . }=’5s“‘I


1-*.'.*/‘.’..'. ‘
no estudo da ética da criacao: um exame das reflexoes que uma
31%.»?-=1‘ ;
nao apenas supoe a operacao de outros principios, mas presu- 0.. , ..
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divindade onipotente faria na determinacao do melhor dos mun-
me também uma certa teoria das instituicoes sociais. Em parti- dos possiveis. Até mesmo os fatos genéricos da natureza
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cular, como discutirei no Capitulo V, ele se apoia na idéia de devem ser escolhidos. Certamente, temos um interesse religio-
—--_ ., >y'

5-

que numa economia competitiva (com ou sem propriedade pri- so natural pela ética da criacao. Mas ela parece ultrapassar a
vada) favorecendo um sistema de classes aberto, desigualdades compreensao humana. Do ponto de vista da teoria contratualis-
excessivas nao serao a regra.'Dadas a distribuicao dos dotes na- A
ta, a ética da criacao equivale a supor que as pessoas na posicao
turais e as leis da motivacao, nao persistirao grandes disparida- 11
original nao sabem absolutamente nada sobre o seu mundo.
1

des. O ponto que deve ser enfatizado aqui é o de que nao ha ob- 1 .,- 1,-..
Como, entao, podem elas tomar uma decisao? Um problema de
jecao a que a escolha dos dois principios se baseie nos fatos escolha so é bem definido se as alternativas sao adequadamen-
genéricos da economia e da psicologia. Como vimos, existe a - 4- _ .
7,3
te limitadas por leis naturais e outras restricoes, e os que estao
suposicao de que as partes na posicao original conhecem os na posicao de decidir ja tem certas inclinacoes para escolher
fatos genéricos da sociedade humana. Como esse conhecimen- 1 entre elas. Sem esse tipo de estrutura definida, a questao colo-
to entra nas premissas dc suas deliberacoes, a sua escolha dos F .
cada é indeterminada. Por esse motivo, na escolha dos princi-
_.;

principios da justica se refere a esses fatos. O essencial, é claro, 1 pios da justica, nao devemos hesitar em pressupor uma certa
é que essas premissas sejam verdadeiras e suficientemente ge-
1 teoria das instituicoes sociais. De fato, evitar suposicoes sobre
rais. Muitas vezes se faz a objecao, por exemplo, de que o utili- os fatos genéricos é tao impossivel quanto dispensar uma con-
tarismo pode permitir a escravatura e a servidao, além de ou- cepcao do bem com base na qual as partes classifiquem as al-
tras infracoes a liberdade. Saber se essas situacoes se justifi- ternativas. Se essas suposicoes sao verdadeiras e adequada-
cam passa a depender de calculos atuariais que demonstrem que mente generaljzadas, tudo esta em ordem, pois sem esses ele-
elas fornecem um maior saldo de felicidade. A isso, o utilitaris- mentos todo o esquema seria inutil e vazio.
ta responde que a natureza da sociedade é tal que esses calculos Fica evidente, a partir dessas observacoes, que tanto os
sao geralmente contra essas negacoes da liberdade. fatos genéricos quanto as condicoes morais sao necessarios mes-
A teoria contratualista concorda, entao, com o utilitaris- mo no argumento a favor dos principios basicos da justica. Na-
mo, na afirmacao de que os principios fundamentais da justica turalmente sempre foi obvio que as regras morais secundarias e

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TEORIA 173
172 UMA TEORIA DA JUSTICA 4
Ar
I-3% 1,1.
r.-1_-'
- =;J~. 3.- vantagem real no fato de as pessoas declararem umas as outras,
os juizos éticos especificos dependem tanto de premissas ver- de umas vez por todas, que, embora os computos teoricos da
dadeiras como de principios normativos. Numa teoria contra- iéji; .1,
'1"‘,_.. utilidade sempre acabem favorecendo as liberdades iguais
tualista essas condicoes morais assumem a forma de uma des-
» -..-

(supondo que esse seja realmente o caso aqui), elas nao dese-
cricao da situacao contratual inicial. Também ha claramente jam que as coisas tivessem sido diferentes. Uma vez que na
uma divisao de trabalho entre os fatos genéricos e as condicoes ._,;1.'-.“4.§
._ X ..
j-.'- fir
'-_|!|_1,_-. justica como eqiiidade as concepcoes morais sao p1'1blicas,a
I ."=‘¢".i_‘..‘

morais na busca de concepcoes da justica, e essa divisao pode '~%'r-.£_Y;-'-:-


|;$1=’E|_ '_
ilijrrs’ '.
. . . .,,-ii escolha dos dois principios é, com efeito, uma declaracao
variar de uma teoria para a outra. Como observei antes, os prin- dessa natureza. E os beneficios dessa declaracao coletiva favo-
~..
1.‘?. .¥3‘-.<~ 3
cipios diferem na medida em que incorporam o ideal moral - oi?"
- J./,g.,€f’_;.'
’-:/;=§~:' recem esses principios, mesmo se as suposicoes classicas do
r~
desejado. Uma caracteristica do utilitarismo é que ele deixa ‘-.13;-.~
.
Q-,-;.~; .-
.5‘—.."5‘ - utilitarismo fossem verdadeiras. Essas questoes serao conside-
~ --A-"v.

muito por conta dos argumentos extraidos dos fatos genéricos. 1 radas mais detalhadamente em sua ligacao com a publicidade e
'
O utilitarista tende a responder as objecoes afirmando que as -- ~-1+;
1 a estabilidade (§ 29). O ponto relevante aqui é o seguinte:
leis da sociedade e da natureza humana excluem casos que P

embora em geral uma teoria ética possa certamente invocar


ofendem nossos juizos ponderados. A justica como eqiiidade, fatos naturais, pode haver no entanto boas razoes para incorpo-
1;
ao contrario, incorpora os ideais da justica, em seu sentido l

r
aw

rarmos conviccoes da justica aos principios basicos dc um modo


usual, aos seus principios primeiros de uma forma mais direta. mais direto do que realmente possa ser exigido pela compreen-
Essa concepcao depende menos dos fatos genéricos na busca sao teoricamente plena das contingéncias do mundo.
de uma adaptacao aos nossos juizos da justica. Ela assegura
essa adequacao a uma gama maior de hipoteses possiveis.
Ha dois motivos que justificam essa incorporacao de ideais 27. O raciocinio que conduz a0 principio
aos principios primeiros. Em primeiro lugar, como fica muitis- da utilidade média
simo evidente, as suposicoes classicas do utilitarista que con-
duzem as conseqiiéncias desej adas so podem ter uma veracida- Desejo agora examinar o raciocinio que favorece o princi-
de provavel, senao duvidosa. Além disso, seu significado e uti- pio da utilidade média. O principio classico é discutido mais
lizacao maximos podem ser demasiado fundamentados em con- adiante (§ 30). Um dos méritos da teoria contratualista é reve-
jecturas. O mesmo pode ser dito de todas as hipoteses gerais lar que esses dois principios sao concepcoes marcadamente
necessarias para sustentar o principio da utilidade. Do ponto de distintas, embora suas conseqiiéncias praticas coincidam em
vista da posicao original, talvez seja irracional depender dessas muitos pontos. As suposicoes analiticas subjacentes a cada um
hipoteses e, portanto, é muito mais sensato incorporar o ideal distam muito uma da outra, pois associam-se a interpretacoes
de modo mais explicito nos principios escolhidos. Assim, pare- contrastantes da situacao inicial. Ou, pelo menos, é o que tenta-
ce que as partes prefeririam assegurar suas liberdades de modo rei mostrar. Mas, em primeiro lugar, direi algumas palavras
mais direto, em vez de fazé-las depender do que talvez sejam sobre o significado da utilidade. No sentido tradicional, ela é
calculos atuariais especulativos e incertos. Essas observacoes entendida como a satisfacao de desejos, e admite comparacoes
serao confirmadas adiante pela conveniéncia de se evitarem ar- interpessoais, as quais, no minimo, podem ser somadas sepa-
gumentos teoricos complicados na busca de uma concepcao radamente. Também suponho que a utilidade é medida por al-
comum da justica (§ 24). Em comparacao com o raciocinio que gum procedimento que é independente das escolhas que envol-
conduz aos dois principios, os fundamentos do critério da utilida- vem riscos, por exemplo, pela postulacao de uma habilidade de
de transgridem essa restricao. Mas, em segundo lugar, ha uma

-.= '5-;,~.; '


1 .¢ . .,.~ ;-_;,‘\;..;1,r-_ _
A "1 1 ."_~.;.-_-._
174 UMA TEORIA DA JUSTICA ;~ -I-1
TEORIA 1 75
‘ 1?-*.;‘=.'. .-\
.5
. .. I

.. ."-=:.v.-..;
-1-.-

hierarquizar difereneas entre niveis de satisfaeao. Essas sao as ¥


do que o maximo da utilidade total seja atingido. Isso implica
hipoteses tradicionais, e embora sejam muito fortes, nao serao ._ que‘, desde que a ut1l1dade médla por pessoa decresqa de forma
criticadas aqui. Na medida do possivel, quero examinar a dou- ,1
.~. ‘ _<s| \~. .

.1~ _ - 1.' suficientemente lenta a medida que 0 nfimero de individuos


trina historica em seus proprios termos. I -:54. ~
Q‘. -'..;;;_y '5,
5? 112 .
cresce, a populaqéio deve ser encorajada a crescer indefinida-
Aplicado a estrutura basica, 0 principio classico exige que A
'7'--1*‘. I.‘

f3" v.i_ . _ ?.;


-‘M
.
mente, nao unportando o quanto o nivel da média tenha dimi-
as instituieoes sejam ordenadas de forma a maximizar a soma nuido. Nesse caso, a soma de utilidade acrescida pelo maior
ponderada absoluta das expectativas dos homens representati-
.1 __ F
x.~_Ԥ*'.__=!3
‘ J55!‘ . nfimero de pessoas é suficientemente grande para compensar o
vos envolvidos. Chega-se a esse valor conferindo a cada expec-
v \- -=~..
..‘:_, -‘ _'-?-<.'v~:-

rifir‘ ' 4
15" I. .
declinio da utilidade per capita. Por uma questao de justiea e
“i'.*,g|.?.i.
tativa 0 peso equivalente ao m'1mero de pessoas na posieao cor- ii.
nao de preferéncia, uma média muito baixa de bem-estar pode
A
respondente e entfio fazendo a soma dos resultados. Assim, em -
igT?%<'¥.=f*
.11“
ser exigida. (Ver a figura abaixo.)
circunstancias iguais, quando o nilmero de pessoas na socieda- .I _
.,'*"
._._, _
.. . .

de dobra, a utilidade total é duas vezes maior. (Como é eviden-


at 3
$1
~:I~ I.Ke ,;---..<>-
.4!-_
1' Crescimento indefinido da populaqfio
te, na visfiio utilitarista as expectativas devem medir as satisfa- Formalmente, a condiqfio para o crescimento indefinido da
eoes totais que estfio sendo desfrutadas e as previstas. Elas nao .
f»;.‘;-_;,1

‘,1, ,.
populagao é que a curva y = F(x), onde y é a média per capita e x 0
tamanho da populaeao, seja mais plana que a hipérbole retangular xy
r -r ,_ pl

sao, como na justiea como eqiiidade, simplesmente indices de i Tag“ "


..\ . ..,,-1 _/.-.-. \
= c. Pois xy é igual a utilidade total, e a area do retangulo que repre-
\§’” ’

bens primarios.) Por seu lado, 0 principio da utilidade média .Ia.1->';


..''.-=,-!='
-t-~14f-11*. ;-

senta esse total aumenta na medida em que x aumenta, sempre que a


leva a sociedade a maximizar nao a utilidade total, mas a utili- J1‘:-"
$.,_-
curva y = F(x) for mais plana que xy = c.
dade média (per capita). Essa parece ser uma viséio mais mo- ‘%

derna, tendo sido defendida por Mill e Wicksell e recentemente T\

outros autores lhe deram um novo fimdamento”. Para que essa 7‘


a
concepeao seja aplicada a estrutura basica, é necessario que as ,>w
*1
instituigoes sejam organizadas de modo a maximizar a soma 5."
x
Y
#-

ponderada percentual das expectativas dos individuos repre-


sentativos. Para chegar a essa soma, multiplicamos as expecta-
tivas pela fraeao da sociedade que ocupa a posieao correspon- 1 z: v=FM
xy=C
dente. Assim, deixa de ser verdadeira a afirmagfio de que, em
circunstéincias iguais, quando uma comunidade tem a sua po-
O x
pulaqiio duplicada, a utilidade é duas vezes maior. Ao contrario,
enquanto as porcentagens nas varias posiefies continuam as Essa conseqiiéncia do principio classico parece mostrar
mesmas, a utilidade nao se altera. que ele seria rejeitado pelas partes em favor do principio da uti-
Qual desses dois principios de utilidade seria preferido na lidade média. Os dois principios seriam equivalentes apenas se
posigao original? Para responder a essa pergunta, devemos ob- houvesse a suposieao de que a média de bem-estar sempre cai
servar que as duas variantes resultam no mesmo, se o tamanho de modo suficientemente rapido (pelo menos, além de um
da populagao for constante. Mas quando a populaqao se altera, certo ponto), de modo que nao ha nenhum conflito sério entre
ha uma diferenea. O principio classico exige que, na medida em eles. Mas essa suposieao parece questionavel. Do ponto de vis-
que as instituiqoes afetem 0 tamanho das familias, a idade de ta das pessoas na posigao original, pareceria mais razoavel
casamento, e coisas assim, elas devem ser organizadas de mo-

9E}".=
< L;.>;r.-
g 1» 2

‘:'!1f"1»,;-"T
‘J: .
- q . M.
‘~‘-'5'
176 UMA TEORIA DA JUSTIQA A; ‘_ < TEORJA 1'7"]
1-‘X; (
.- we“-ft ‘Eh
p '24‘

1,15%" sua expectativa de bem-estar. Ele calcula sua perspectiva para


concordar com algum tipo de limite inferior para o bem-estar f
=+1':,

médio. Uma vez que as partes desejam promover seus proprios


1
1._=j"1.. _
uma dada sociedade tomando, como utilidades alternativas,
1; 5;-14-._ "

interesses, elas nao desejam, de fonna alguma, maximizar o


1'}‘l::‘_
M\__. ‘ '.
aquelas dos membros representativos daquela sociedade, e,
"l r

saldo total de satisfacéio. Suponho, portanto, que a alternativa como as probabilidades para cada posicao, a sua estimativa de
utilitarista mais plausivel para os dois principios da justica é o *
e. "_-3:? suas chances de alcanca-la. Sua expectativa se define, portan-
_\' {,1

principio da utilidade média, e nao 0 classico. p


fa -" -
Y" _"€i'.§< to, por uma soma ponderada das utilidades dos individuos re-
Desejo agora considerar como as partes podem chegar ao
. bx; ,.
.:~:- _. - presentativos, ou seja, pela expressao Xpiui, onde pi é a proba-
principio da utilidade média. O raciocinio que esbocarei é ab- bilidade de ele atingir a im“ posicao, e ui a utilidade do homem
solutamente genérico e, se tivesse fundamento, evitaria inteira-
*~>-=r .
representativo correspondente. Pode entao escolher a socieda-
mente o problema de como apresentar as alternativas. O princi- de que oferece a expectativa mais alta.
pio da utilidade média seria reconhecido como o finico candi-
L-
Varias outras modificacoes aproximam a situacao aquela
dato razoavel. Imaginemos uma situacao em que um finico in- fig
fig da posicao original. Suponhamos que 0 candidato hipotético
dividuo racional possa escolher qual dentre varias sociedades
~__‘;.I 31:.
.
~’;s:= 2 ~,
.» .4 .,~
nao sabe nada sobre as suas habilidades ou sobre 0 lugar que
deseja integrar”. Para fixar as idéias, suponhamos em primeiro
2;‘

<1:
\| 4..-
.
provavelmente ocupara em cada sociedade. Ainda se supfie,
‘ -‘ V.:£ -0}:-

lugar que os membros dessas sociedades tém todos as mesmas


\
“ ;= _‘-Z19 “.1-
W /'--‘a;
-sl--.

A
3 R5,
4
“A\. //1.13 5
¢~.».~;-'§;
porém, que as suas preferéncias sao iguais as dos membros des-
rs
sas sociedades. Suponhamos agora que ele continua a racioci-
.-
,x.; .. »_,.=-
} ».';>\-,5;-5:.

preferéncias. E suponhamos também que essas preferéncias sa- .-.:I,‘ »£a1"@"-"


.-.-:‘-.c =._ .
..‘\' '=_ .

tisfazem condicoes que nos permitem definir uma utilidade


.'~‘+' is. C.
- .-;~<‘:._
-a
nar em termos probabilisticos, acreditando que tem possibili-
~ dades iguais de ser qualquer individuo (ou seja, que a sua chan-
cardinal. Além disso, cada sociedade tem os mesmos recursos
e a mesma distribuicéio de talentos naturais. No entanto, indivi-
[:{.I4r~!1:1f/
5112131 1
t~ ;r-*.- ' '
ce de corresponder a qualquer homem representativo é a fraciio
duos com diferentes talentos tém rendas diferentes; e cada so-
A; $11 :;
:i:a==;.‘:- .
)A|‘)|"‘ .
da sociedade que esse homem representa). Nesse caso, suas
-‘ ‘_(§A;r..;_-;='

ciedade tem uma politica de redistribuicao que, se pressionada


‘ E1,-‘.?_"_'W“
'§§i51‘*.“3;Y-"‘;':
5'-"l'~'(;'.'§'.‘.“
perspectivas ainda sao idénticas a utilidade média para cada
além de um certo ponto, diminui os incentivos e conseqiiente- . sociedade. Essas modificacoes acabararn por alinhar os seus
mente diminui a producao. Supondo que essas sociedades sigam
~
3315:. " >4 .-
;;=;.1.=_r
rm--: "
~
'!:-;»f- .‘
'\:;_-_\.‘_>
ganhos esperados para cada sociedade com o bem-estar médio
politicas diferentes, como um individuo ira escolher a socieda-
‘ :~~-1:: ~
t'~.fL§£“4

2‘
respectivo.
de de que deseja participar? Se ele conhece de forma precisa os p
‘M


Até este ponto, supusemos que todos os individuos tém
seus interesses e habilidades, e se tem inforrnacoes detalhadas so- preferéncias semelhantes, independentemente de pertencerem
bre essas sociedades, sera capaz de prever o bem-estar que, com ou nao a mesma sociedade. As suas concepcoes do bem sao,
quase toda a certeza, desfrutara em cada uma delas. Pode, por- em termos gerais, as mesmas. Uma vez que se descarte essa su-
tanto, decidir com base nisso. Nao é necessario que ele faca posicao altamente restritiva, damos o passo final e chegamos a
nenhum calculo probabilistico. uma variante da situacao inicial. Nada se sabe, digamos, sobre
Mas essa situacéio é bastante especial. Vamos altera-la pas- as preferéncias particulares dos membros dessas sociedades,
so a passo, de modo a aproxima-la cada vez mais da situacfao ou da pessoa que esta em posicao de decidir. Esses fatos, como
de uma pessoa na posicao original. Suponhamos entao, em pri-
também um conhecimento da estrutura dessas sociedades, es-
meiro lugar, que 0 candidato hipotético nao tenha certeza do tao excluidos. O véu de ignorancia é agora completo. Mas ainda
papel que seus talentos lhe possibilitaréio desempenhar nessas podemos imaginar que 0 candidato hipotético raciocina da
varias sociedades. Se supuser que as suas preferéncias sao iguais mesma forma que antes. Supfie que existe u1na probabilidade
as de todos os outros, ele pode decidir tentando maximizar a
igual de ele vir a ser um qualquer dos membros de uma socie-
w

£-

yqg 1/_.
111.4’
2 ~4‘L‘=
~-:,-4 I ~
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--11. W \ -
1‘ :_';J

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178 UMA TEORIA DA JUSTICA 22»;


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:‘é%§2?*.:__.
.
TEORIA 1-79
.~-(..
:1-gm":
-i§_.-{+- '
nhecido deriva da constru ao de Neuinann-M r
_; Ԥ_ . .

dade, possuindo exatamente as mesmas preferéncias, habilida- '53‘;-;' .-


I~L~‘:§‘.'-\.'

des e posicao social desse membro. Mais uma vez, sua expectati- baseia em escolhas entre pgrspectivas que envofvgginjlfdgs El$1:98;
va é mais alta na sociedade que apresenta a maior utilidade mé- A0 contrario da nocfiio tradicional, essa medida leva em conta as
dia. Podemos observar isso do seguinte modo: Seja n 0 niimero
-4; I

.
atitudes diante da incerteza, e nao busca fornecer uma base para
1*
de pessoas em uma sociedade. Sejam seus niveis de bem-estar .r-.r-
comparacoes interpessoais. No entanto, ainda é possivel formu-
ul, U2, ..., u,,_ Entfio, a utilidade total é Zui, e a utilidade média é “ad
£0!
2
lar o principio da utilidade média usando esse tipo de medida:
Eui/n. Supondo que alguém tem uma chance igual denser qual- "r
1?
supomos que as partes na posicao original, ou em alguma de suas
quer pessoa, a sua perspectiva é: l/n ul + l/n U2 + + l/n un, ou
><
WY variantes, térn uma funcao de utilidade do tipo Neumam1-Mor-
r-

Eui/n. O valor da expectativa é idéntico a utilidade média. 7? genstern, e que avaliam as suas perspectivas de acordo com ela”.
Assim, se deixarmos de lado o problema das comparacées V9
1
5*‘
Natinalmente, algumas precaucfies devem ser tomadas; por
interpessoais de utilidade, e se as partes sao consideradas co- .,"Y§‘_...
:_-,..;;]§.-
=s-
exemplo, essas funcoes de utilidade nao podem levar em conta
mo individuos racionais que nao tem aversao ao risco e que se- Y: <‘~‘- \
~_-§\;::,I_\. I
todos os tipos de consideracoes, mas sim refletir a estimativa das
partes quanto ao que promove o seu bem. Se elas fossem influen-
.'~'._£. §. J

guem o principio da razao insuficiente no calculo das probabi- ‘5;'<"~.'~#1~= "


.,,,,-q:_‘.~_,-3
~';‘¢.2'._aT~

lidades (0 principio subjacente aos calculos probabilisticos -1;:g§}f*.‘-,e';-


-A”/.1'f*:I. .
ciadas por outras razoes, nao ten'amos uma teoria teleologica.
precedentes), entao a idéia da situacfio inicial conduz natural- r1¢§;'-i*-
>2:%,€:-‘w
.. .;-,_
No entanto, quando essas restricoes sao observadas, pode-se
mente ao principio da utilidade média. Ao escolhé-lo, as partes ;.a1‘
1..< .-5.
.u-
formular uma visao da utilidade média que leva em conta o alto
maximizam o seu bem-estar esperado, visto segundo essa pers-
5

nivel de aversao ao risco que, ao que parece, qualquer pessoa nor-


..,&r.
pectiva. Portanto, uma forma de teoria contratualista fornece ~:~"VS<?; ‘-
3"‘-‘~?"
¢ .. 4 .
.~ ;¢_‘._..§.-..
naal teria na posicao original; e, quanto maior essa aversao ao
um modo de argumentar a favor do principio da utilidade mé- 4'3.-.'_.-.'§.'
il».> -
pp-¢;.;;_. Ia. .- ._
nsco, tanto mais essa forma do principio de utilidade seria seme-
.2 *>
5-. _a 1'-

dia em detrimento do entendimento classico. Caso contrario, co-


;

A2111/Iva’-;;
'
/.

lhante ao principio da diferenca, pelo menos quando a avaliacao


J: Mir’
mo seria possivel explicar o principio da utilidade média? ‘
''-='£’e¢§§*,=;.
>'>.>¢;'-:-.-"-;-- '
_..
\2~.‘..;.-..
'3' "$1? 1,.
de beneficios economicos esta em questfio. E claro que os dois
Afinal de contas, falando num sentido estrito, nao se trata de 1..
"2 s‘-.< .
principios nao sao idénticos, ja que ha entre eles muitas diferen-
uma doutrina teleologica, como é 0 caso da visao classica, e . f‘.'1§_\|:-
\_-__-; .
.
cas importantes. Mas existe esta semelhanca: de uma perspectiva
portanto falta-lhe algo do apelo intuitivo da idéia de maximizar
’ '-'.=‘
- M.M ,..
“"“'::-L‘I,2?‘
;§§»*?. .
‘E.
adequadamente geral, tanto o risco quanto a incerteza conduzem
0 bem. Presumivelmente, uma pessoa que defendesse o princi- =: - "-.,
as duas visoes a dar mais peso as vantagens daqueles cuja situa-
~. ‘Y-.

pio da utilidade média desej aria invocar a teoria contratualista, ~r-=1". .


sfi *‘
; " .ir-J
i-_.r.<_5;'.r_\'-_ '
.:-.-- -1:; -
»
cao é menos favorecida. Na realidade, uma vez avaliadas as enor-
pelo menos nessa medida. ..->.
~-er
{Y
¥?"\1!=1"
.,= R.
mes incertezas da decisiio na posicao original, uma aversao ra-
_ .p__?.‘..__

Na discussao anterior, supus que a utilidade é entendida, zoavel ao risco pode ser tfio grande que a ponderacao feita pelo
no sentido tradicional, como a satisfacao de desejos, e que as utilitarista pode ser, para propositos praticos, suficientemente
comparacoes interpessoais cardinais sao consideradas possi- préxima daquela que decorre do principio da diferenca para que a
veis. Mas essa nocfio de utilidade foi em grande parte abando- .,: ;-.QJ 3 _j.'<
~}‘\=..
simplicidade deste illtimo decida a seu favor (§ 49).
nada pela teoria econémica nas filtimas décadas; considera-se <-Jbi
JV
~';' ‘- Ly.‘
.|1%.;“-. .
.

.v,.."' ".‘-'!."'

que ela é por demais vaga para desempenhar alguma papel es- V’ -P
‘I~§»',,.. 3--'._
.15/"-.
MQN, 1'-
.,_-3 '

sencial na explicacao do comportamento econfnnico. Hoje em


_;x . an H
" 28. Algumas dificuldades do principio da utilidade média
dia, a utilidade é entendida como um modo de representar as
‘C; k .

mgr./-_,__.
igag ..
escolhas dos agentes economicos, e nao como uma medida de ‘1
.,._), _. _-
_ Antesde abordar os argumentos a favor dos dois princi-
satisfacao. O principal tipo de utilidade cardinal atualmente reco- €‘I=
‘§§‘z£"3 '
~--fisi. '
pl0S da _]l.1SlI1Q&, d@S6_]0 mencionar varias dificuldades do principio
--.,- v =
'- .r _.
1.--‘$.~'
* 3:»
=:-$1.;*
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v; '

:""~""7.*.-'11? '1
1-’: .1;
‘ -; 1;“4:'2'.."
- "-'1'|':'
180 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 181

da utilidade média. Em primeiro lugar, porém, devemos notar ‘a\fy*. .


‘*1 T .
pretar a teoria da justica hipoteticamente quando nao consegui-
Luna objeciio que, na verdade, é apenas aparente. Como ja vi- .:w_,_ .
mos descobrir os motivos adequados do consentimento para ex-
.‘~.~v,-;= ~.

mos, esse principio pode ser considerado como a ética de um p 31%;“:


' plicar os deveres e obrigacoes dos individuos, e, ao mesmo
1?»
iinico individuo racional disposto a correr qualquer risco ne- A tempo, nos apoiar em situacoes reais de risco para descartar os
cessario para maximizar todas as suas expectativas do ponto de principios que nao queremos”. Assim, na justica como eqiiida-

E, 5}"-

vista da situacfio inicial. (Se nao ha nenhuma base obj etiva para
;.' _=\
.-1%. de, o modo de refutar o argumento do escravocrata é demons-
as probabilidades, elas sao computadas pelo principio da razao trar que o principio que ele invoca seria rejeitado na posicéio
‘E2,-#>;~.‘_

insuficiente.) E tentador argumentar contra esse principio ale-


§='=*§;'
11;? ',~'4?*I_'
original. Nao temos alternativa, a nao ser explorar os varios
M .. r

gando que ele pressupoe uma aceitacao real e igual do risco por
. §;e=
£3‘
3% .‘
JI;
.__
aspectos dessa situacéio inicial (em referéncia a interpretacao
parte de todos os membros da sociedade. Em algum momento,
.
preferida) para demonstrar que a ponderacao das expectativas
todos deveriam ter efetivamente concordado em correr os mes-
1:. . .
.1.»
favorece os doisprincipios dajustica.
ar.‘sai1‘;-5 I9

mos riscos. Como é claro que nunca houve tal momento, o A primeira dificuldade apresentada pelo principio da utili-
principio nao se sustenta. Consideremos um caso extremo: um dade média ja foi por mim mencionada na discussao da regra
defensor da escravatura, ao confrontar-se com seus escravos, 1
maximin como um dispositivo heuristico de ordenacao dos argu-
tenta justificar a sua posicfio perante eles alegando que, em pri- is fflf‘
l-~_1‘
,'.'-51>-q_>,-
mentos a favor dos dois principios. Ela se relaciona com o
meiro lugar, dadas as circunstancias de sua sociedade, a insti- :5 -_. 1"’.
modo como um individuo racional deve estimar as probabilida-
=._=
tuicao escravocrata é de fato necessaria para produzir a maior -‘$5 . 8
des. Essa questfio surge porque parece nao haver fundamentos
‘ '*=*§<».'4*§" ~.

felicidade média; e, em segundo lugar, que na situacao contra- objetivos na situacao inicial para se supor que uma pessoa tem
;.;

tual inicial, ele escolheria o principio da utilidade média mes- .


p, .
I/_
If. uma probabilidade igual de vir a ser qualquer membro de uma
mo correndo assim o risco de ser, mais tarde, transformado jus- as-:;';‘ sociedade. Ou sej a, essa suposicao nao se funda em caracteristi-
tificadamente ele proprio em um escravo. Ora, a primeira vista, ire”
».“-~.
s 3-'_.
,. .
cas conhecidas dessa sociedade. Nos primeiros estagios da argu-
nos inclinamos a rejeitar os argumentos do escravagista como mentacfio que conduz ao principio da utilidade média, o candi-
sendo irrelevantes, ou até ultraj antes. Podemos pensar que nao V dato hipotético de fato tem algum conhecimento de suas habili-
faz diferenca alguma o que ele escolheria. A nao ser que os
- '~\\ .4 < ;.

3 .
1 .»-- -~.‘ H 1 dades e da estrutura das sociedades entre as quais deve fazer sua
1'?-‘.‘I- : .-1' 1'

individuos tenham realmente concordado com uma concepcéio


1l;$,_¢%f
11?;;’. _.
escolha. As estimativas dc suas probabilidades sao baseadas
da justica sujeita a riscos reais, ninguém estara comprometido .’
’-'»,'.1.€-,
I; 1/4,
. .' ;';.<
-“TI-.‘
I-,5?‘ ,_._ .
nessa informacao. Mas, no estagio final, ha uma ignorancia
com as respectivas exigéncias. -,; - .
completa a respeito de fatos particulares (com a excecao daque-
Na visao contratualista, entretanto, a formulacao geral do les que estao implicitos nas circunstéincias da justica). A cons-
argumento do escravocrata esta correta. Seria um erro se os trucao da perspectiva do individuo depende, nesse estagio, ape-
escravos retorquissem que as opinioes deles sao irrelevantes, nas do principio da raziio insuficiente. Quando nao se tem
uma vez que nao houve um momento real de escolha, nem uma nenhuma evidéncia, considera-se que os casos possiveis sao
diviséio igual dos riscos quanto ao resultado concreto. A doutri- ‘.15-.-L5-'.¥“>';
~::'l§i{:""; .
igualmente provaveis. Assim, Laplace ponderou que, quando
.‘§§*"'§;'-'

na contratualista é puramente hipotética: se uma concepciio da . . ‘I‘\4.


-3.
Brig-rȣ7'--
)= . .\;_!_.
: extraimos de duas umas, cada uma contento uma quantidade
justica fosse consensualmente escolhida na posicao original,
;~_:¥;:£‘»;<t
.~ ~==:‘<..
1 *5.
- Y;/.
diferente de bolas pretas e vermelhas, mas nao temos informa-
_..-.- .3.- \'1\...
.‘.‘.'

seria correto aplicar os seus principios. N50 constitui uma ob-


iii“

‘i.
J1’-Zr"/.1‘
:33-‘I.
§'
I cfio sobre qual das umas esta a nossa frente, deveriamos partir
jecao o fato de que tal entendimento nunca aconteceu e jamais ';_;=Ir . 3.’.
do pressuposto de que a probabilidade de escolha é a mesma
para cada urna. A idéia é a de que o estado de ignorancia em que
Ar.

acontecera. E impossivel ter as duas coisas: nao podemos inter- <"'


W»-§..:=
' '.»'
7%‘:
. ~.
F‘

1‘!1§u¢'- -

..-._-, a .~ ,.,_
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*.r¥.'';._-'_.-2;
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1- 1;.
.,_.
182 UMA TEORIA DA JUSTIQA - ..
~_
.- ..._ A
501 :.-
TEORIA 1 83
Com certeza, ha suposicoes sobre a sociedade que, se fos-
se baseiam essas probabilidades aprioristicas apresenta o mesmo 1}:
~ P53‘-'1"
.

sem fundadas, permitiriam que as partes chegassem a estimati-


‘iw, ~,-J. .
~ ~._,\".
_~ ~ -. _\>

tipo de problema da situacao em que se tém muitas provas de


vas objetivas de probabilidade igual. Para verificarmos isso,
Y} ‘L1, _
. .rj_'

que uma determinada moeda é imparcial. O que caracteriza o f1:‘;.;g


,.,,i‘1.\

basta que transformemos a argumentacao de Edgeworth a favor


uso do principio é 0 fato de que ele nos permite incorporar di- i
1 do principio classico numa argumentacao a favor do principio
ferentes tipos de informacao numa unica estrutura estritamente 1'

da utilidade média”. Na verdade, o seu raciocinio pode ser


probabilista e fazer ilacoes sobre as probabilidades mesmo na
ajustado de forma a fimdamentar qualquer padrao politico ge-
auséncia de conhecimento. As probabilidades aprioristicas, in- 3L

ral. A idéia de Edgeworth é formular algumas suposicoes ra-


all

dependentemente de como chegamos a elas, sao parte de unica I

teoria juntamente com as estimativas das probabilidades ba- l


zoaveis nas quais seria racional que as partes, que defendem os
seadas em amostragem aleatoria. O caso limite da completa E
seus proprios interesses, concordassem com o padrao de utili-
. ~‘=\:_.

auséncia de infonnacao nao constitui 11111 problema teorico”. De


.-I"; .- .
:..
dade como um principio politico para a avaliacao de politicas
qualquer modo, a medida que a evidéncia se acumula, as proba- 3-‘
5: :'_I§_= .
~_'=:)§
_. 5.? .3‘.:1 _
~"
sociais. A necessidade de tal principio surge porque o processo
bilidades aprioristicas vao sendo revisadas e 0 principio da
er "1
s-‘ii politico nao é competitivo, e essas decisoes nao podem ser dei-
“ ‘rt
xadas a cargo do mercado. Deve-se encontrar algum outro mé-
razao insuficiente no minimo garante que nenhuma possibili- fr
A todo para conciliar interesses divergentes. Edgeworth acredita
dade fica excluida desde 0 inicio. ** 2 '1

Farei a suposicao de que as partes atribuem pouco peso as


:4‘ que o principio da utilidade seria escolhido como 0 critério de-
4' e

probabilidades obtidas apenas com base nesse principio. Essa


,<
§'1;.T“=
sejado pelas partes interessadas em defender 0s seus proprios
P
1
‘$1.,
interesses. Ele parece considerar que, ao longo de varias oca-
suposicao é plausivel, em vista da importancia fundamental do . 5
si6es, a politica de sempre maximizar a utilidade tem a maior
.6!

acordo original e do desejo de fazer com que nossa decisao pareca ‘


. 1;¢_:':,_

responsavel aos olhos de nossos descendentes, que por ela serao


‘ g.~¢"
».I.t A
‘-'-‘u/9?-. probabilidade de fornecer a utilidade maxima para cada pes-
afetados. Relutamos mais em arriscar por eles do que por nos mes-
~ ~-‘¢§f.3'.-.3,-1 = .
_ soa, individualmente. Calcula-se que uma aplicacao consisten-
mos; e estamos dispostos a fazé-lo apenas quando nao ha como =a_~
&
te desse padrao a legislacao sobre tributos e propriedades, e a
evitar essas incertezas, ou quando os ganhos provaveis, estimados
v ¢<
mug--,1

. outros casos semelhantes, produz os melhores resultados, do


Vi‘-':-‘ 5 =
~;.¢fE‘-~,=
ponto de vista de qualquer pessoa individualmente. A aplica-
segundo infonnacoes objetivas, sao nao grandes que a recusa da 5’.-"I':-.-*.* .
. .;,_\/;;|.
1~1£§»1“'-Z". '

oportunidade oferecida pareceria irresponsavel aos olhos deles,


‘5;1‘@~ ;~' ,
‘ ;»;~'.--.
2£%'1':'¢j l cao coerente desse padrao a uma legislacao sobre tributos, pro-
priedades e assim por diante, é calculada visando aos melhores
;.,
"°F “-r»V_.
. ~.%i'2if~: --
mesmo que a aceitacao pudesse, de fato, trazer maus resultados. ' 3-5-Tt\.'.'.'

Uma vez que as partes tém a altemativa dos dois principios dajus- resultados do ponto de vista de todos indistintamente. Portanto,
tica, elas podem, em grande medida, evitar incertezas da posicao
adotando esse principios, as partes interessadas em defender os
seus proprios interesses tém uma certeza razoavel de que no
original. Podem garantir a protecao de suas liberdades, além de
um padrao de vida razoavelmente satisfatorio, em funcao do que é fim nao serao prejudicadas e, de fato, poderao elevar as suas
perspectivas no grau maximo.
permitido pelas condicoes de sua sociedade. De fato, como argu-
A falha na concepcao de Edgeworth é que as suposicoes
mentarei na proxima secao, podemos questionar se a escolha do
principio da utilidade média realmente oferece uma perspectiva necessarias sao extremamente afastadas da realidade, especial-
melhor, desconsiderando-se o fato de que ele se baseia no princi- mente no caso da estrutura basica”. Basta formular tais suposi-
pio da razao insuficiente. Parece, portanto, que o efeito do véu de goes para ver como elas sao poucos plausiveis. Nao so devemos
ignorancia é favorecer os dois principios. Essa concepcao da justi-
supor que os efeitos das decisoes que constroem o processo po-
litico sao relativamente independentes, mas que sao também,
ca é mais adequada a situacao de completa ignorancia. -

-.
>§-»~'.- '
184 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 1 85
~

em termos genéricos, da mesma ordem em seus resultados 3'tis<


t

forma por se nivelar. Antes, precisamos escolher nossa concep-


-€
sociais, que, de qualquer forma, nao podem ser muito grandes cao de justica reconhecendo plenamente que esse nao é o caso
pois, caso contrario, esses efeitos nao poderiam ser independen- nem poderia ser.
tes. Além disso, devemos supor que qualquer homem pode se " 5411- '
Parece, portanto, que, para que o principio da utilidade mé-
deslocar de uma posicao social para a outra aleatoriamente, e ‘ ."-aw -‘
1..
3.. . dia seja aceito, as partes devem raciocinar a partir do principio
.‘ Hf .-

viver o tempo suficiente para que os ganhos e perdas sejam con- .


1 {L
1:5’?
.
:

\~' =.
da razao insuficiente. Devem seguir a chamada regra de Lapla-
trabalancados, ou entao que ha algmn mecanismo que assegure <1 ..-.
~/,
»:.>‘ I

..\ .‘_ :-.<--


-.
'1 ce para escolhas em condicoes de incerteza. As possibilidades
l
que a legislacao guiada pelo principio da utilidade distribui os l:
l A, 3* ‘.8
X
sao identificadas de algum modo natural, e a cada uma é atri-
seus beneficios de fonna regular ao longo do tempo. Mas esta buida a mesma probabilidade. Nao ha nenhum fato genérico
vi
- '

claro que a sociedade nao é um processo estocastico desse tipo; In -,3-11


.-..-:~ .
> ~'.-r-
_--5-‘ . _;-.A”-
la; _- sobre a sociedade que possa servir de base para essas atribui-
e algumas questoes da politica social sao muito mais vitais que l €)'->'1’-.¥--
f
.:- :1-
I
I
)1‘ A_ I

coes; as partes realizam calculos probabilisticos como se dis-


outras, muitas vezes causando grandes e duradouras mudancas I

I
i
9?: .
'~» : ‘(A-
' 3.: ' _ ‘y-._-,.
:4

pusessem de informacoes. Nao posso discutir aqui o conceito


=9 $1-§

na distribuicao institucional das vantagens. !: . 3;.-


de probabilidade, mas alguns pontos devem ser observados”.
Considere-se, por exemplo, o caso de uma sociedade que ‘;_
,4..,
_~»1‘
.5
\-._'
1..'.~< -
Em primeiro lugar, pode ser surpreendente que 0 significado
Lt‘ 3
esteja contemplando uma mudanca em sua politica de comércio -2,
1

Jag #8
.0‘

da probabilidade venha a surgir como uma questao da filosofia


exterior. A questao é saber se ela deve abolir antigas tarifas so- ‘M
"I
~.=' moral, especialmente da teoria da justica. Tal é, no entanto, a
bre a importacao de produtos agricolas no intuito de conseguir E
. i. @-
__“|. ... _ conseqiiéncia inevitavel da teoria contratualista que concebe a
. '1‘

alimentos mais baratos para os trabalhadores de seu novo par- . ' ,1 8-


'~.'1
,?.~.":-’- filosofia moral como parte da teoria da escolha racional. Con-
;i;;._ .i_;;

que industrial. O fato de a mudanca se justificar por razoes utili- sideracoes de probabilidades tendem a ser pertinentes, dada a
tarias nao significa que ela nao tera um efeito permanente sobre .12 -;'
10;“.
maneira como a situacao inicial é definida. O véu de ignoran-
“ .5"
l
as posicoes relativas dos membros das classes dos industriarios \
'1 t

cia conduz diretamente ao problema da escolha em situacoes


e produtores rurais. O raciocinio de Edgenworth se sustenta { *.{-=,._
l 325%‘?
§ ,1‘.
2| ~~ ‘
,3,-,5 de incerteza. Sem duvida, é possivel considerar que as partes
-' s-_~!,;=
quando cada uma das numerosas decisijes exerce uma influén- ~.\‘.*~,:
~--M;
A‘ P_._;.,-
I-
,/.2.= .
.,;,¢\+:;<, ‘
sao completamente altruistas, e supor que elas raciocinam co-
cia temporaria relativamente pequena sobre as partes distributi- "~1‘
AT. - A
'1 A 1
4,-
A
mo se tivessem a certeza de estar na posicao de cada pessoa.
.754‘: :..‘

vas e existe algum dispositivo institucional que garante a aleato-


“Ant/;.=.

.. ,3,
Essa interpretacao da situacao inicial afasta 0 elemento do ris-
riedade. Em circtmstancias realistas, portanto, seu argtmiento :4-. .

. '1-1 .'.'a
co e da incerteza (§ 30).
pode, na melhor das hipoteses, estabelecer que o principio da uti- Na justica como eqiiidade, entretanto, nao ha como evitar
lidade ocupa um lugar subordinado na condicao de um padrao completamente essa questao. O essencial é nao permitir que os
:..
legislativo para questoes administrativas menores. Mas isso cla- principios escolhidos dependam de atitudes particulares peran-
ramente implica que o principio nao funciona para os principais te 0 risco. Por esse motivo, o véu de ignorancia também exclui
problemas de justica social. A influéncia difusa e continua de E o conhecimento dessas inclinacoesz as partes nao sabem se tém
nosso lugar inicial na sociedade e de nossas dotacoes nativas, e ou nao uma aversao caracteristica a correr riscos. Na medida
do fato de que a ordem social é um sistema unico, isso é o que do possivel, a escolha de uma concepcao da justica deveria de-
I7

caracteriza o problema da justica em primeiro lugar. Nao po- pender de uma analise racional da aceitacao dos riscos, que nao
demos permitir que pressupostos matematicamente atraentes nos é afetada por preferéncias individuais particulares por uma ou
levem a imaginar que as contingéncias das posicoes sociais dos outra maneira de se arriscar. Naturalmente, um sistema social
cidadaos e as assimetrias de suas situacoes acabem de. alguma pode tirar vantagem dessas propensoes variaveis, criando insti-
_$~ .:
:'_(§'.‘\~
, ~.

“'/1‘. .
.1§;‘s' A
:;<-
re‘ -
186 UMA TEORIA DA JUSTICA \
. _ _A_ -
:“_%‘
TEORIA 1 87
...5.%

tuigfjes que permitam seu pleno desenvolvimento visando a - -2€;!-L?‘


"2 ».. comum de forma sistematica, e nao de um modo irregular e
.,
.‘ J
f
~55

inexplicado. Mas nada disso afeta a afirmacéio de que os julga-


fins comuns. Mas, pelo menos idealmente, a concepcao bflS1Cfl
mentos de probabilidade devem ter alguma base objetiva nos
-2]-s
. :...

do sistema nao deve depender de uma dessas atitudes (§ 81). -1!':;-


A }‘_.‘§3_'
fatos conhecidos a respeito da sociedade para que constituam
Portanto nao constitui um argumento a favor dos dois princi-
.2 '
‘ \-z‘_. "_.~

9 0 l. :»
. da Justica
pios - - o fato de eles expressarem um pont o dc vista A .,
fundamentos racionais de decisao na situacao especial da posi-
‘:1f. g
cao original.
peculiarmente conservador quanto a se correrem riscos na po- -

- ~ original.
sicao - - O que deve ser demonstrado e' qufi, dadas a C a-,
i .. . 1. - ~.‘ ---;= A ultima dificuldade que vou mencionar se refere a pecu-
liaridade da expectativa no ultimo passo do raciocinio a favor
i ., _,__
-.|.
;.-. "i\

racteristicas singulares dessa situacao, escolher esses P111101-


pios e nao o principio da utilidade, é racional para qualquer
, -.0 ' '.-ti‘.
[
1
., . _
.,. .
fl‘.- ‘I,
to do principio da utilidade média. Quando as expectativas sao
2 .
calculadas na situacao normal, as utilidades das alternativas (o
pessba cuja aversao a incerteza, no que toca a possibilidfldfi <16 “L. 5.
W,-"4'

garantir os seus interesses fundamentais, esta dentro da faixa


I: ‘ 1-1‘;
..
-1:j¥1;‘ 4;

1, :11"
,’_ _;t¢;.. .
termo ui na expressao Epiui) sao derivadas de um sistema unico
i ‘flit:-I‘i"
‘ ' _\r_.
de preferéncias, a saber, aquelas do individuo que faz a esco-
normal. _ ' 15.
s
- . .-¥§
lha. As utilidades representam o valor das alternativas para
Em segundo lugar, simplesmente supus que os julgamen- i 1 1‘-.‘-‘-1?,L-,j_
A‘. 1;
essa pessoa, estimadas segundo seu sistema de valores. No
tos de probabilidade, para que sejam motivos dc uma dB¢1Sfl0
_ .48‘ '
.<‘_;.::‘

‘ 1‘-"xi?

racional 9 devem ter uma base objetiva, 011 Sela, ser baseados
w
_.-fis’ " caso presente, entretanto, cada utilidade se baseia nas preferén-
, . no
cias de uma pessoa diferente. Para cada pessoa, existe uma uti-
E in

conhecimento de fatos particulares (ou em crencas razoaveis).


g
:7
lidade diferente. Nao resta duvida de que esse raciocinio pres-
Essa evidéncia nao precisa assumir a forma de relatorios de 1
rL-:~'-
-
-- A - I'6l3tlV3S>
frequencias - mas devem‘ ' l°m°°e{fiP1dam°nt° s P ara ~',

‘fl. 7--
$1,
supoe comparacoes interpessoais. Mas deixando de lado o pro-
-1,.
.--,-2-J
blema de defini-las, o ponto que devemos observar aqui é que
que se avalie a forca relativa das varias.t6I-1d€I1€Jl&.S que afetam o ~. ,
if-‘*5;
£5.

resultado. A necessidade de razoes 0b_]6'(1V&S e ainda mais pre-


J1 -‘

se considera que o individuo escolhe como se nao tivesse ne-


-A El‘.
al- nhum objetivo que julgue ser particularmente seu. Ele aceita o
mente se considerarmos a importancia fundamental da escolha
na posicao original e o fato de as partes desejarem que as suas 1¢
risco de ser qualquer uma entre varias pessoas, cada uma delas
tendo seu proprio sistema de objetivos, suas proprias habilida-
0
1
?
decisoes parecam bem fundamentadas ‘aos olhos outros. Presu-
mirei portanto, para completar a descriqflo da P051930 (K1811131-
des e sua posicao social. Podemos entao nos perguntar se essa
9 . - -

que as partes excluem estimativas de probabilidades que nao Sc expectativa é relevante. Como nao ha um esquema unico de
.\;.¢ -
preferéncias pelo qual as suas estimativas foram calculadas, pa-
baseiam em um conhecimento de fatos particulares, e que deri- . . . ‘s-;..

:-.-r
._~._

vam em grande parte do principio da razao insuficiente. A exi- w


t

at 8
§

ma}.
*5. rece que falta a ela a unidade necessaria.
géncia de bases objetivas nao parece estar em discussao entre
r‘¢¢-
Q":

F-;or
Para esclarecer esse problema, vamos distinguir entre a
os teoricos neo-bayesianos e aqueles que aderem as idéias mais
,;v "f.
ii\‘rit.
.- "l’
. avaliacao de situacoes objetivas e a avaliacao dos diversos as-
classicas. A controvérsia, nesse caso, refere-se a definir até que 1‘-,r$“*
la
~ .4‘-1-54,14 -
pectos de uma pessoa: do nosso ponto de vista, muitas vezes é
.7.-
bastante facil avaliar a situacao de um outro individuo através
ponto estimativas intuitivas e imprecisas de probabilidades, l » ii 1. a,_j\:-
aw"!
1

baseadas no senso comum e coisas semelhantes, devem ser


‘J-9’
~ r ;;‘ -A -
u

de sua posicao social, riqueza e coisas afins, ou através de suas


incorporadas no aparelho formal da teoria da probabilidade,
‘:..__,: ,
Av‘ -1 ;.
expectativas em termos de bens primarios. Nos nos colocamos
i.

em vez de usadas ad hoc para ajustar as conclusoes tiradas por


‘I
no lugar desse individuo, com todos os nossos tracos de carater
métodos que desconsideram essa i11fonna<;503°- Aqui, 05 11°0- e preferéncias (e nao os dele), e julgamos como nossos planos
bayesianos tém um argumento forte. Com certeza, é melhor, i
seriam afetados. Podemos ir muito mais longe. Podemos anali-
quando possivel usar nosso conhecimento intuitivo e o senso s
9
fl
f
sar o que significa para nos estar no lugar de outra pessoa, as-
7

‘T
E
és
188 UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 1
E? xi
sumindo pelo menos algumas de suas caracteristicas e objeti- _. -E-.
siderar que essas regras de comparacao (como vou chama-las)
vos. Conhecendo nosso plano de vida, podemos decidir se para 1-. A_.‘ ,_p.
. ¢‘.w;,qTi,3.;
._-ri!-.-‘-m;!
derivam, por exemplo, de certas leis psicologicas que determi-
nam a satisfacao das pessoas, dados certos parametros tais
4 :.

nos seria racional ter essas caracteristicas e objetivos, e po11an- 5'.


I‘
~:. -‘ ‘IQ
<’

to se seria aconselhavel desenvolvé-los e encoraj a-los na medi- If


l.
it--.”
._ j
»: ‘
-.
-
como a forca das preferéncias e desejos, das habilidades natu-
.-1;. 3.
da do possivel. Mas, ao construirmos nossa expectativa, como rais e dos atributos fisicos, de bens privados e publicos usufrui-
devemos avaliar o modo de vida e o sistema de objetivos finais dos, e assim por diante. Concorda-se com a hipotese de que
dc outra pessoa? Com base nos nossos objetivos ou nos dela? individuos caracterizados pelos mesmos parametros devem ter
O argumento contratualista supoe que devemos decidir seguin- a mesma satisfacao; e portanto, estando garantida a aceitacao
do o nosso ponto de vista: 0 valor que atribuimos ao modo de dessas regras de comparacao, a satisfacao média pode ser defi-
vida de outra pessoa e a realizacao de seus objetivos (o contex- nida e é possivel supor que as partes maximizam sua satisfacao
to total onde ela esta inserida) nao é igual, como supoe a expec- esperada definida desse modo. Assim, todos consideram a si
tativa anteriormente construida, ao valor atribuido por essa proprios como tendo a mesma funcao profunda de utilidade,
pessoa. Além disso, as circunstancias da justica implicam que por assim dizer, e consideram a satisfacao atingida pelos outros
esses valores diferem de modo radical. Reivindicacoes confli- como itens legitimos de suas proprias expectativas, considera-
tantes surgem nao apenas porque as pessoas querem tipos se- das a partir da perspectiva da posicao original. A mesma ex-
melhantes de coisas para satisfazer desejos parecidos (por pectativa unificada se aplica a todos e (utilizando a regra de
exemplo, comida e roupas para suprir as necessidades basi- Laplace) temos, como conseqiiéncia, o acordo em relacao ao
cas), mas porque as suas concepcoes do bem diferem; e embo- principio da utilidade média.
ra se possa concordar que o valor que atribuimos aos bens E essencial notar que esse raciocinio pressupoe uma con-
sociais primarios é comparavel ao valor atribuido por outros, cepcao particular da pessoa. As partes sao concebidas como
essa concordancia nao pode ser estendida a satisfacao de nos- nao tendo um interesse de ordem superior ou obj etivos fimda-
sos objetivos finais. Com certeza, as partes nao conhecem mentars em referéncia aos quais decidem que tipos de pessoas
seus proprios objetivos finais, mas sabem que, de modo gené- querem ser. Elas nao tem, por assim dizer, nenhum tipo deter-
rico, esse objetivos se opoem e nao se prestam a uma medida ‘ - :51’ .1.‘
minado de vontade. Sao, poderiamos dizer, pessoas vazias: se-
. 5.
£5923?
comum aceitavel. O valor que alguém atribui ao contexto total p J -_..

gundo determinam certas regras de comparacao, estao igual-


em que se insere nao é igual ao valorque nos atribuimos a esse -‘ "fin
. “A _ .3‘
mente preparadas para aceitar, como elementos que definem o
mesmo contexto. Assim, a expectativa do ultimo passo na ar- . A--5‘
_ 1 .1; <1-; seu bem, quaisquer avaliacoes que essas regras atribuam a reali-
gumentacao a favor do principio da utilidade média nao pode '4'-1--vi_.
‘w E‘-. 11:.‘

rrpi
.'A1‘»‘l*-
,,,'r_,.
zacao de seus objetivos finais, ou os de qualquer outra pessoa,
estar correta. 5 38
1'52- mesmo se essas avaliacoes entram em conflito com aquelas exi-
Podemos formular a dificuldade de urn modo ligeiramen- <sflf
31.‘;
gidas por seus interesses fundamentais concretos. No entanto,
te diferente. O raciocinio a favor do principio da utilidade mé- é‘-1;-.
4'. f
4\4 .
*r$i partimos da hipotese de que as partes tém de fato um carater e
- "A -.1 3-5‘

dia deve, de alguma forma, definir uma expectativa unificada. I


;
- ‘-_'».‘!;A
-_.~1_~_ ,~.__._.
IL:
uma vontade determinada, embora a natureza especifica do seu
Suponhamos, entéio, que as partes concordem em basear as
‘:-. -g-,\_ _.
_
‘ afar
I .1
'Y
..
sistema de objetivos lhes seja desconhecida. Elas sao, por assim
comparacoes interpessoais em certas regras. Essas regras se § ; dizer, pessoas determinadas: tém certos interesses de ordem
T .1
2.H.‘/F'.
r
tomam parte do significado do principio da utilidade, exata- _
.- .g,;;,..
- ,1? ‘:_
superior e objetivos fundamentais em referéncia aos quais deci-
mente do mesmo modo que um indice de bens primarios é par- i
I
- ;.:=1-;=
‘ {£12 ,
315*-’ F’; drnam que tipo de vida e que obj etivos secundarios consideram
te do significado do principio da diferenca. Assim, pode-se con- -afiar
1
rf
*5-_.
;.*.1_:\‘~'- '
aceitaveis. Sao esses interesses e objetivos, independentemente
-*'€'*;~
A

~<.
v‘

_r
.
i .- -r'-'
.f ,_ 7‘; >
1‘ .:;_
E-
TEORIA 191
190 UMA TEORIA DA JUSTICA
E
enquadram no esquema heuristico sugerido pelas razoes que
do que venham a ser, que elas devem. tentar proteger. Conio justificam a adooiio da regra maximin. Ou seja, eles ajudam a
sabem que as liberdades basicas garantidas pelo pnmeiro prin- mostrar que os dois principios si-'10 uma concepeao minima ade-
:
cipio assegurarao esses interesses, elas devem escolher os dOlS E
quada da justiea em uma situaoao de grande incerteza. Qual-
principios da justiea, e nao 0 principio da utilidade. '0 i
quer outra vantagem que possa ser conquistada pelo principio
s Para resumir: afirmei que a suposieao na qnal se apoia 0 da utilidade, ou por qualquer outro principio, é altamente pro-
raciocinio a favor do pI‘1I1ClplO da utilidade media e'fa_lha em blematica, enquanto as dificuldades seriam intoleraveis se hou-
dois pontos Primeiro, como nao ha fundamentos Ob]6'[1VOS na vesse insucesso. E nesse ponto que 0 conceito de um contrato
posigao original para a aceitaoao de probabilidades iguais, ou, i-
s tern um papel definido: sugere a condieao da publicidade e
F

na verdade de nenhuma outra distlibuioiio probabilistioa, essas


’ I
delineia os limites do que pode ser acordado.
probabilidades sao meras suposieoes. Elas dependem unica- 1'

O primeiro argumento que confirma os dois principios pode


mente do principio da razao insuficiente, e nao f_omecern111n =4
ser explicado em termos do que anteriormente chamei de a foroa
motivo independente para que se aceite oprincipio da utillda- )‘¥"%‘1
£-
1
do compromisso. Afirmei (§ 25) que as partes tém uma capacida-
de. A0 contrario, o apelo a essas probabilidades e, com efeito, 3'

de para ajustiea no sentido de que lhes pode ser assegurado que 0


um modo indireto de estipular esse principio. Eni segundo seu acordo nao foi em vao. Supondo que tenham levado tudo em
lugar, 0 argumento utilitarista supoe que as partes nao tem von- conta, incluindo os fatos genéricos da psicologia moral, as partes
tade ou carater definidos, e que nao tém 0b]6'[lVOS finais deter- E.‘
3
i-t
podem ter uma confianea mtitua de que todos irao aderir aos prin-
minados, nem uma concepqao particular de seu proprio bem, cipios adotados. Assim, nao podem firmar acordos que possam
que estejam interessadas em proteger. Assim, levando-se em trazer conseqiiéneias inaceitaveis. Evitarao aqueles a que podem
a<w\r:x*;>av_es'm&~>z»=H7n‘rzfi*:s#!¢lI@1~;*:-'4’
conta os dois pontos juntos, 0 raciocinio utilitarista chega a aderir apenas com grande esforoo. Uma vez que o acordo original
uma expressiio puramente formal de uma expectativa que, to- é definitivo e tem carater perpétuo, nao existe segtmda oportuni-
davia, nao tem um significado apropriado. como se conti- dade. Em vista da seriedade das possiveis conseqiiéncias, a ques-
nuassemos a utihzar argumentos propabilisticos e modos de Li; tfio do peso do compromisso é primordial. Uma pessoa esta esco-
fazer comparaqoes interpessoais muito tempo d6p0lS. de as lhendo em carater definitivo todos os padroes que devem gover-
condieoes necessarias para 0 seu uso legitnno terem S1dO ex- nar suas perspectivas de vida. Além do mais, quando fimlamos
cluidas pelas circunstancias da posioao original. um acordo, devemos ser capazes de honra-lo mesmo que as pio-
res possibilidades venham a se concretizar. Caso contrario, nao
teremos agido de boa-fé. Desse modo, as partes devem ponderar
29. Alguns argumentos principais a favor corn cuidado se serao capazes de manter o compromisso em to-
dos dois principios da justiqa das as circunstancias. Sem dfivida, ao responder a essa questfio,
.\ . _
elas so contam com um conhecimento genérico da psicologia hu-
Nesta seeao, meu objetivo é utilizar as condieoes da publi- .
; -‘i;
at
mana. Mas essa infonnaefio é suficiente para indicar qual con-
cidade e do carater definitivo para apresentar alguns dos prin- ..
. t

\

cepeao dajustioa envolve a maior tenséio.


cipais argumentos a favor dos dois principios da justioa. Vou o 1‘ . .. Com respeito a isso, os dois principios da justiea tem uma
me basear no fato de que, para que um acordo seja valido, as
‘l: ,

zI'T;>iWI lI- ._v


:\
2
3 1 vantagem clara. Nao so as partes asseguram os seus direitos
partes devem ser capazes de honra-lo em todas as circunstan- I
basicos, mas também se protegem contra as piores eventualida-
cias pertinentes e previsiveis. Deve haver uma certeza raeional des. Nao correm o risco de ter de concordar com uma perda de
de que isso pode ser realizado. Os argumentos que aduztrei se
192 UMA TEORIA DA JUSTICA 1.
{*4
‘5 .=
TEORIA 1 93

liberdade ao longo de suas vidas para que outros gozem de um A “'7


‘Ls pios da justica. Assim, estes filtimos serao uma concepcao mais
bem maior, um compromisso que, em circunstancias reais, elas
W

\_M
I?
._

’ t
estavel, na medida em que essa identificacao é dificil de obter.
talvez nao conseguissem manter. Na verdade, esse tipo de acor- 6
Quando os dois principios sao satisfeitos, as liberdades basicas de
do excede a capacidade da natureza humana. Como podem as Al ‘ _ v'
-1 D
J‘
“I.,.. cada pessoa sao asseguradas, e ha um senso definido pelo princi-
H _'_‘.

partes saber, ou estar suficientemente seguras, de que poderao ‘E,


Y1] i Q‘
pio da diferenca, no qual todos se beneficiam da cooperaciio
cumpri-lo‘? Certamente, nao podem basear a sua confianca a
35¢

i
u"
V
-. ’.

‘_- social. Portanto, podemos explicar a aceitacéio do sistema social e


dos principios que ele satisfaz pela lei psicologica segundo a qual
Lid’-‘ _;-

num conhecimento genérico da psicologia moral. Na verdade, F

qualquer principio escolhido na posicao original pode exigir de as pessoas tendem a amar, defender e apoiar qualquer coisa que
alguns um grande sacrificio. Para os beneficiarios de institu- assegure o seu proprio bem. Uma vez que o bem dc todos é de-
o "5.
?.
=1‘1- ";
icoes claramente injustas (aquelas fundadas em principios que 1r
~; i
is
$-
fendido, todos adquirem tendéncia a apoiar o sistema.
nao tem nenhum direito a antecipacao) pode ser dificil acost11-
."
-'-
Quando o principio da utilidade é satisfeito, entretanto, nao
mar-se as mudancas que se fizerem necessarias. Mas nesse K
existe essa garantia de que todos se beneficiem. A obediéncia
caso deveriio saber que, de qualquer forma, eles nao poderiam ao sistema social pode exigir que alguns, em especial os menos
manter sua posicao. Em qualquer caso, os dois principios da .?~
favorecidos, renunciem a beneficios em favor de um bem
justica fornecem uma alternativa. Se os imicos candidatos pos- a
maior para todos. Assim, o sistema nao sera estavel, a nao ser
S

siveis envolvessem todos os mesmos riscos, o problema das 1


o
que os que devem fazer sacrificios tenham uma forte identifi-
tensoes do compromisso teria de ser afastado. Esse nao é o Z
4 cacfio com interesses mais amplos que os seus proprios. Mas
caso, e, a luz dessa consideracao, os dois principios da justica ir nao é facil criar essa situacao. Os sacrificios em questfio nao
parecem evidentemente superiores. J
'5
h

sao aqueles que se exigem em épocas de emergéncia social,


Uma segunda consideracao invoca a condicao da publici- I
quando todos ou alguns sao obrigados a trabalhar pelo bem
dade, assim como a das restricoes impostas a acordos. Vou 5 t
comum. Os principios da justica se aplicam a estrutura basica
apresentar o argumento em termos da questéio da estabilidade 2
a do sistema social e a detenninacao das expectativas de vida. O
psicologica. Anteriormente, afirmei que um ponto forte a favor Re
6‘ que o principio da utilidade exige é justamente um sacrificio
da uma concepcao da justica é que ela gera a sua propria sus- . .*'r,=,.*':-
dessas expectativas. Mesmo quando somos menos afortuna-
tentacao. Quando se reconhece publicamente que a estrutura o lré-3.5
.‘UJI.' F1‘ dos, temos de aceitar as maiores vantagens dos outros como
151- ‘-1

basica da sociedade satisfaz os seus principios por um longo 1‘,


A, »"‘\_
31- ' pa uma raziio suficiente para termos expectativas mais baixas ao
V <1»
periodo de tempo, as pessoas sujeitas a essas ordenacoes ten- longo de toda a nossa vida. De fato, quando a sociedade é con-
:-1?
dem a desenvolver um desejo de agir de acordo com esses prin- $512; 1‘ -
cebida como um sistema de cooperaciio destinado a promover
cipios e fazer a sua parte em instituicoes que lhes servem de o bem de seus membros, parece inviavel esperar que alguns ci-
modelo. Uma concepcao da justica é estavel quando o reconhe- dadaos aceitem, com base em principios politicos, perspectivas
cimento geral de sua realizacao por parte do sistema social de vida ainda menores para que os outros se beneficiem. Fica
tende a fomentar o senso de justica correspondente. Se isso de . -.~ _\~ -
“vii -
evidente, entfio, o motivo que leva os utilitaristas a enfatizarem
fato ocorre ou nao depende, sem dfivida, das leis da psicologia 0 papel da compreensao no aperfeicoamento moral e 0 lugar cen-
moral e da disponibilidade dos motivos humanos. Discutirei es- . £’\‘4
tral da benevoléncia entre as virtudes morais. A sua concepcao
sas questoes mais tarde (§§ 75-76). Por enquanto, podemos da justica é ameacada pela instabilidade, a nao ser que a com-
observar que o principio da utilidade parece exigir uma identifi- preensfio e a benevoléncia sejam ampla e intensamente cultiva-
cacfio maior com os interesses dos outros do que os dois princi- das. Considerando a questao do ponto de vista da posicfio ori-

.19»; I-
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194 UMA TEORIA DA JUSTICA


A.‘% r, -\"
1 1,’;A TEORIA 195
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todos é incluido em um sistema de beneficio mutuo e essa afir-


ginal, as partes rejeitariam o principio da utilidadee aceitariam macao publica, nas instituicoes, dos esforcos de cada homem
a idéia mais realista do se conceber a ordem social com baS.c sustenta a auto-estima de todos os homens. O estabelecimento
num principio de vantagens reciprocas. Sem duvida, nao PYe°1" da liberdade igual e a operacao do principio da diferenca ten-
samos supor que, na vida quotidiana, as pessoas nunca faQam dem a produzir esse efeito. Os dois principios sao equivalentes,
sacrificios substanciais umas pelas outraS:Ja que mums vezffs como ja observei, a um compromisso de se considerar a distri-
0 fazem, quando sao movidas pela afc19a° 6 P01’ 13905 S_€-int?’ buicao das habilidades naturais, sob certos aspectos, como um
mentais. Mas essas acoes nao s50 filfiigldflsa em Home daJu5t1' dom coletivo, de modo que os mais afortunados se possam be-
ca, pela estrutura basica da sociedade. , o _ _ ' neficiar apenas de formas que ajudem os menos beneficiados
Além do mais, o reconhecimento publico dos dois pI'lI1Cl- (§ 17). Nao estou afirmando que as partes sao movidas pela
pios da justica confere uma sustentacao mais fortea auto-esti- qualidade ética dessa idéia. Mas ha motivos para que elas acei-
ma das pessoas, e esta, por sua vez, aumenta a eficacia da coo- tem esse principio. Pois, organizando-se as desigualdades de
peracfio social. Os dois efeitos sao motivos para que se ‘con- modo que haja vantagens mutuas e abstendo-se da exploracao
corde com a adocao desses principios. clflramfiflte Taclonal das contingéncias do acaso natural e social dentro de uma
que os homens assegurem sua auto-estima. senso C16 S611 estrutura de liberdades iguais, as pessoas expressam sua obri-
proprio valor é necessario para que 616$ Pfifslgam 3 Sua °_°n' gacfio com o respeito umas pelas outras na propria constituicao
cepgao do bem com satisfacao e tenham prazer em sua realiza- de sua sociedade. Desse modo, asseguram seu respeito a si
cao. A auto-estima nao é tanto uma parte <16 algum Plano Ta‘ proprios, como é racional que facam.
cional de vida, mas é o senso de que vale a pena realizar esse
Um outro modo de colocar a questao é dizer que os princi-
plano. Mas nossa auto-estima geralmente depende do respeito pios da justica manifestam, na estrutura basica da sociedade, o
dos outros. A nao ser que sintamos que nossos esforcos sao 1'65- desejo dos homens de tratar uns aos outros nao apenas como
peitados por eles, nos é dificil, talvez 1II1p0SSlV6l,.lTl?1I1t6I‘ a con- meios, mas como finalidades em si mesmos. Nao posso exami-
viccao dc que vale a pena promover nossos 0b_]811lVOS (§ 67). nar aqui a visao kantiana“. Em vez disso, vou interpreta-la livre-
Assim, por esse motivo, as partes aceitariam o dever natural mente a luz da doutrina contratualista. A nocao de os homens
do respeito miltuo, que exige que as pessoas tratem umas as serem tratados como fins em si proprios, e ntmca como apenas
Outras com civilidade e estej am dispostf-18 8 @XP11°§T 05 mm‘ um meio, obviamente necessita de uma explicacfio. Como pode-
vos de suas acoes, especialmente quando as pretensoes dos ou- mos sempre tratar a todos como um fim e nunca apenas como
tros sao rejeitadas (§ 5 1). Além disso» PQd°m°§ supor (l“_e um meio? Certamente, nao podemos dizer que isso equivale a
aqueles que respeitam a si proprios tem n1u1t0 111315 Probabll“ tratar a todos pelos mesmos principios gerais, ja que essa inter-
dades de respeitarem uns aos outros, e vice-versa. O desprezo pretacao iguala o conceito a a justica fonnal. Na interpretacao
por si proprio conduz ao desprezo pelos outros e ameaca 0 contratualista, tratar os homens como fins em si mesmos impli-
bem desses outros tanto quanto a inveja. A auto-estima se ca, no minimo, trata-los de acordo com os principios com os
auto—sustenta reciprocamente. __ quais eles consentiriam em uma posicao original dc igualdade.
Assim, uma caracteristica desej avel de uma concepcao do ..; K», _|i_;;
, r l \. 44 ‘
Pois, nessa situacao, os homens tém uma representacao igual, na
justiqa é que ela expresse publicamente 0 respeito mutuo entre ~,~ 1-»
.% qualidade de pessoas éticas que se consideram como fins e os
os homens. Desse modo, eles asseguram um senso de seu pro- ‘£1
principios que aceitam serao racionalmente formulados, visando
prio valor. Ora, os dois principios da justica atingem esse 0b_]€- '1*._ ._,_
a protecao das reivindicacoes de sua pessoa. A viséio contratua-
tivo. Pois, quando a sociedade segue esses principios, 0 bem dc
196 UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORJA 197

lista, assim apresentada, define um sentido no qual os homens de nossos objetivos quando, sendo ja menos favorecidos, te-
devem ser tratados como fins e nao apenas como meios. mos de aceitar uma perspectiva menor de vida em favor dos
Mas surge a questfio de saber se existem principios subs- outros. Ha uma probabilidade ainda maior de isso acontecer
tantivos que expressam essa idéia. Se as partes desej am expres- quando a cooperacao social é organizada visando a atingir o bem
sar essa nociio de forma visivel na estrutura basica de sua dos individuos. Ou seja, aqueles que tem maiores vantagens
sociedade, a fim de assegurar o interesse racional de cada ho- nao alegam que essas vantagens sej am necessarias para preser-
mem em auto-estima, que principios devem escolher? Ora, pa- var certos valores religiosos ou culturais que todos tem a obri-
rece que os dois principios da justica atingem esse objetivo: pois gacao de manter. Nao estamos aqui considerando uma doutrina
todos tem liberdades basicas iguais e o principio da diferenca de ordem tradicional, nem o principio do perfeccionismo, mas
interpreta a distincao entre tratar os homens apenas como meios sim o principio da utilidade. Nesse caso, entao, o auto-respeito
e trata-los também como fins em si mesmos. Considerar as dos homens depende de como eles consideram uns aos outros.
pessoas como fins em si proprias na concepcfio basica da so- Se as partes aceitam o critério da utilidade, nao terao para o seu
ciedade é concordar em abdicar dos ganhos que nao contribuem ...: <. .jF,=-5:‘ . ;
‘.3.
1'.__, '1.
auto-respeito 0 apoio fomecido pelo compromisso dos outros
5:5 . _ _.

para as expectativas de todos. Em contraste com isso, conside- ‘ -P‘


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4
de organizar as desigualdades para que todos se beneficiem e de
¢

rar as pessoas como meios é estar disposto a impor aqueles ja “ a


1 £1
garantir as liberdades basicas a todos. Em uma sociedade publi-
1 s

menos favorecidos perspectivas ainda mais baixas de vida, em ax ca utilitarista, sera mais dificil para os homens, e especialmente
lf

favor das expectativas mais altas de outros. Assim, vemos que .'_: 3.
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'3'
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I
para os menos favorecidos, ter confianca em seu proprio valor.
0 principio da diferenca, que a primeira vista parece extrema-
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e.
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v
i_;?Tj *1 O utilitarista pode responder que, com a maximizacao da
do, tem uma interpretaoao razoavel. Se supusermos também hf. 1.;
M; ‘
utilidade média, essas questoes ja sao levadas em conta. Se, por
que a cooperacao social entre aqueles que respeitam uns aos .rut_,ws-+W~tfi_
. 4+1;-
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—-:|.:\.-.1-I-> "'~31":
-5-_ 1}
;.;~[ exemplo, as liberdades iguais sao necessarias para a auto-esti-
outros e a si proprios no quadro de suas instituicoes tende a ser
. is Pa5.“.1-;>
-P
ma L-+_‘
.___ --Al-

as . .
ma dos homens, e a utilidade média é mais alta quando elas sao
mais efetiva e harmoniosa, o nivel geral de expectativas, su- l
l _r_
.3:-£11"
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A L H...
<11; I
-as
defendidas, entao é claro que elas devem ser estabelecidas. Até
L .".~‘.‘.
pondo que possamos estima-lo, pode ser mais alto do que ima- 1
‘ V ‘-*3‘-e .
1?. aqui, nao ha duvida. Mas o ponto é que nao devemos perder de
E. . K °§..:- .

ginariamos quando os dois principios da justica sao satisfeitos. ‘


vs 1". .
--.1 ._..;.:-§_.121;
Y5'::.3il‘-' 2‘
F. _,f..,&‘
vista a condicao da publicidade. Ela exige que, ao maximizar-
-‘I..1 -.,A ., 4/. .

Nesse aspecto, a vantagem do principio da utilidade deixa de


,
,
-R ‘
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.-_~;>_t
;:r_=.-;‘| I» '

pg - __;;{Y‘l-',
.3. .,;.,;_ E}- mos a utilidade média, obedecamos a restricao de que o princi-
ser tfio clara.
l ,, ‘--.41. .
‘1-~;',_§1_§-
;"'~>z' .3.
:- .+":"r*.-" 1.
pio utilitarista seja publicamente aceito e seguido como o esta-
r.-..
Pode-se presumir que o principio da utilidade exige que
~ 3.51 ..

.
‘ V.-.5‘ :"1?‘.-_!:1I
_,}
tuto fundamental da sociedade. O que nao podemos fazer é ele-
alguns que sao menos favorecidos aceitem perspectivas de vida . ;..J1r:
var a utilidade média encorajando os homens a adotarem e a
ainda mais baixas visando a promocéio do bem dos outros.
*3
'.X@,5"‘"’r j
aplicarem principios nao utilitaristas da justica. Se, por algum
.'_:;\.c ., +-
..=>. Xtgl
. 1': -

Com certeza, nao é necessario que os que tém de fazer tais sa-
J;
~a.~I
'v4»~i -;--‘.".&.*"

Ag P!‘-?:.*1;
motivo, o reconhecimento publico do utilitarismo acarretar al-
,§c;.=.1;5-:2.;

crificios racionalizem essa exigéncia, reduzindo a apreciacao


-A -'1 ' *5
.‘,> »
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-.~.:=.v
2,-_-,.,.r .
guma perda de auto-estima, nao ha como contornar essa des-
de seu proprio valor. N50 decorre da doutrina utilitarista que os E
'.J*
.5
!4‘=.,=_

.»1-.,.~;_-.-:='
,-....--'_, 3,f‘
..
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vantagem. Ela é um inevitavel preco a ser pago pelo utilitaris-


objetivos de alguns individuos sao triviais ou sem importancia M1
>
“*-N;"-4. :5_-1!"!
..
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mo, dadas as nossas estipulacoes. Suponhamos, assim, que a
l -' . _

porque as suas expectativas sao menores. Mas as partes devem



\l
w ="' _, J __ I
{ Y .1 .,_.,,, utilidade média seja realmente maior se os dois principios da
>1.

considerar os fatos genéricos da psicologia moral. Certamente,


l
'4' justica forem afirmados e implementados na estrutura basica.
é natural experimentar uma perda de respeito a si proprio, um \_...
:..--, =..4
..--t.-1.;
. Pelas razoes mencionadas, podemos conceber que esse seja o
,_ . . ,.»0
*;_

enfraquecimento do senso do valor que atribuimos a realizacao


Jr‘
Q; 5:;-5; 3_._-
.-
caso. Esses principios representariam entao a perspectiva mais
1, ,

gi@
25:!’ --

198 UMA TEORIA DA JUST1CA TEORIA 199

atraente, e, dc acordo com as duas linhas de raciocinio exami- intencfiio de honra-lo, mas também racionalmente acreditar que
nadas ha pouco, os dois principios seriam aceitos. utihtarista podemos fazer isso. Portanto, a condicao do contrato exclui um
nao pode responder que estamos realmente maximizando ago- certo tipo de aleatoriedade. Nao podemos concordar com um
ra a utilidade média. De fato, as partes teriam escolhido os d01S principio se existe uma possibilidade real de que ele traga algum
principios da justica. _ resultado que nao seremos capazes de aceitar. Nao vou comentar
Devemos observar, entao, que o utilitarismo, como o defi- mais sobre a condicao da publicidade, a nao ser para observar
ni, é a visao segundo a qual o principio da utilidade e o princi- que ela se liga a desejabilidade de incorporar ideais nos princi-
pio correto para a concepcao poblica da Justlca de uma socie- pios basicos (fim do § 26), e também a simplicidade (§ 49) e a
dade. E para demonstrar tal fato devemos argumentar one esse estabilidade. Esta oltima é examinada com mais detalhe no que
critério seria escolhido na posiciio original. Se quisermos,
:~ j,»
‘-5?.
chamei de a segunda parte do argumento (§§ 79-82).
podemos definir uma outra variante da situacao inicial, em que O carater do argumento a favor dos dois principios é que a
a suposicao motivacional é a de que as partes querem ad0tflr~0S ponderacao de razoes os favorece em relacao ao principio da
principios que maximizam a utilidade média. A-s observacoes utilidade média, e, supondo que se aplique a condicao de tran-
anteriores indicam que os dois principios da _]L1SIl(}3 podem .¢Au= sitividade, também em relacao a doutrina classica. Assim, o
ainda ser escolhidos. Mas, em caso afirmativo, é um erro cha- op -?- ' 7:.
~11 'Tj:::;,'-l-
.1‘
acordo das partes depende da ponderacao de varias considera-
£‘.,._._._

mar esses principios — e a teoria na qual eles aparecem — de uti- .4¢;


'1-‘f'.'>.-.|
coes. O raciocinio é informal e nao constitui uma prova, haven-
litaristas. A hipotese motivacional nao determina, por s1 pro- I
v"

do um apelo a intuicfio como base da teoria da justica. No


‘if

pria, o carater da teoria como um todo. De fato, o argumento a ’r entanto, como observei (§ 21), quando tudo é somado, pode
favor dos dois principios da justica é fortalecido se eles forem ficar evidente onde reside 0 equilibrio dos motivos. Em caso afir-
escolhidos com base em hipoteses motivacionais diferentes. mativo, entao, na medida em que a posicao original incorpora
Isso indica que a teoria da justica tem fundamentos firmes e
3‘
condicoes razoaveis usadas na justificacéio dos principios na
nao esta sujeita a leves mudancas dessa condicao. O que onero-
.5

-4'
vida quotidiana, a alegacao de que concordariamos com os
dois principios da justica é perfeitamente razoavel. Assim, eles
I

mos saber é qual concepcao da justica caracteriza nossos JLIIZOS


';‘:>'i‘.7" "

~:?<¥'9"* " A

ponderados em equilibrio refletido e serve da melhor forma


;-,1, .; .
1271 ‘LG '

.
podem servir como uma concepcao da justica, em cuja aceita-
9-.,*-11 .,|
.. ~51,

como a base moral poblica da sociedade. So quem afirma que '- org./£5.
_.;-"¢t.'-
-1--1--*:'.
cao ptiblica as pessoas podem reconhecer sua boa-fé reciproca.
essa concepcao é fornecida pelo principio da utilidade pode ser
-1 >'L.~..--
.3--1».
. -.-

1151-x
.

\ 1-_'..-3
Neste ponto, pode ser otil fazer uma lista de alguns dos
chamado de utilitarista”. principais argumentos a favor dos dois principios da justica em
A forca do compromisso e a condicao da publicidade, detrimento do principio da utilidade média. Que as condicoes
ambos pontos discutidos nesta secao, também sao importantes. de generalidade do principio, da universalidade de aplicacao, e
A primeira surge do fato de que, em geral, a classe de _co1sas da informacao limitada nao sao por si mesmas suficientes para
que sobre as quais é possivel estabelecer um acordo esta 1HCll1l- que se exij am esses principios fica claro a partir do raciocinio a
da na classe das coisas que podem ser racionalmente 6SCOlh1- favor do principio da utilidade (§ 27). Outras suposicoes
das, mas é menor que ela. Podemos optar por correr um risco e, devem, portanto, ser incorporadas na posicao original. Assim,
ao mesmo tempo, ter o firme proposito de fazer 0 que puder- supus que as partes se consideram como tendo certos interes-
mos para reverter a situacao, caso as coisas déem errado. Mas, .11
*6
ses fundamentais que, se puderem, devem proteger e que, como
se firmarmos um acordo, temos de aceitar o resultado; e assim, ='=@.i-.%‘I
- ‘H < 1I._I
pessoas livres, tom um interesse de ordem mais elevada em
manter a sua liberdade de revisar e alterar esses obj etivos (§ 26).
J.-;1

para selar de boa-fé um compromisso, devemos nao apenas ter a "}i3&’:.» -

~. . .\
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4-,“. .<
‘==‘.*._- ~‘<A :1‘. ‘
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"M
2()() UMA TEORIA DA JUSTIQA TEORIA 20 1
l

As partes sao, por assim dizer, pessoas com determinados inte-


.~v Aw-
de vista contratualista, entao, o principio classico esta abaixo
resses e nao meras potencialidades para todos os interesses dessas as alternativas. Deve, portanto, ter uma origem totalmen-
F
possiveis, embora o carater especifico desses seus interesses lhes 5
te diversa pois, historicamente, é a forma mais importante de
-:'.>- -.-;/
1 n

seja desconhecido. Elas devem tentar assegurar condicoes fa- A


‘N’
‘; utilitarismo. Com certeza, os grandes utilitaristas que 0 adota-
voraveis para a promocao desses objetivos definidos, quaisquer '" =4}! F
y ram nao estavam equivocados quando consideraram que 0 prin-
,'.‘=;i‘-1;
._.-.136.-. -
que sej am eles (§ 28). A hierarquia de interesses e a sua relacao J‘ _.
1- cipio classico seria escolhido na situacao que chamo de posicao
com a prioridade da liberdade é abordada mais tarde (§§ 39, 82);
»,“§~¢§
T’:- -41:‘-;_
~
original. Alguns deles, especialmente Sidgwick, reconheceram
,-_
mas a natureza geral do argumento a favor das liberdades basi- :1Z\}i;‘k£T-‘T9.’
claramente o principio da utilidade média como uma alternativa
cas é ilustrada pelo exemplo da liberdade de consciéncia e de
-- Ag,‘
e o rejeitaram”. Como a visao classica esta intimamente rela-
pensamento (§§ 33-35).
M-1., .
cionada ao conceito do espectador compreensivo e imparcial,
Além disso, interpreta-se que o véu de ignorancia signifi- vou considerar esse conceito, a fim de esclarecer a base intuiti-
ca nao apenas que as partes nao tom conhecimento de seus ‘,-.1-=._:

1., ._.
rag. va da doutrina tradicional. .
objetivos e finalidades particulares (exceto o que esta t30H'[1dO Z3“ r
,,
at
.‘ $551..
»~. - Consideremos a seguinte definicao, que remete a Hume e
_. I3‘,

na vaga teoria do bem), mas também que o registro h1S'toI‘lC0 q

.1!
n

1
Adam Smith. Algo é justo, por exemplo, um sistema social, se
lhes é inacessivel. As partes nao sabem, nem podem enumerar,
-=.;,\
L,‘ . NA
55‘ 1
;;
for aprovado por um espectador idealmente racional e impar-
.» _=
:2; 1r.-

as circunstéincias sociais nas quais talvez se encontrem, ou o


,\..

cial que ocupa um ponto de vista geral e possui todo o conheci-


5}
ii; __

conjunto de técnicas que sua sociedade talvez tenha a sua dis-


~--z ,

I».-"-'
-1

mento pertinente das circunstancias. Uma sociedade justamen-


.l;3!» /5?

posicao. Elas nao tom, portanto, nenhuma razao objetiva para


.,
,,;-1; r _"-.
.vW;
>;“\¢."
L l"%E~‘~ '1'
te ordenada é aquela que recebe a aprovacao desse observador
se basearem em uma determinada distribuicao probabilistica e
2 -, - '

:
*5; 3:1-"
-'
ideal“. Ora, essa definicao pode apresentar varios problemas,
nao em outra, e o principio da razao insuficiente nao pode ser 6
\l~I\\ .- 4
por exemplo, a questao de saber se as nocoes de aprovacao e de
invocado como um modo de contornar essa limitacao. Essas :;_"_-;;§_.';‘ 2 '
4;?-?.x ._ -
conhecimento pertinente podem ser especificadas sem circula-
ridade. Mas deixarei de lado essas questoes. O ponto essencial
.; -»\';a\: '

consideracoes, juntamente com aquelas que surgem quando supo-


mos que as partes tom interesses fundamentais determinados, <,. /-
._..__ ../ aqui é que, por enquanto, nao ha conflito entre essa definicfio e
*.'4 ~ ~.

implicam que a expectativa construida pelo argumento a favor I


,;$“.r‘>

_;;-;;;g=
9 "t
'
a justica como eqiiidade. Pois suponhamos que se defina 0 con-
do principio da utilidade é mal fundamentada e nao possui a T
‘ 285;-
5:‘

3:4
I’.

~2."<’4§ H
E

ceito de justo dizendo que algo é justo se, e somente se, satisfaz
;-:-*--

unidade necessaria (§ 28).


31??
os principios que seriam escolhidos na posicao original para se
aplicarem a coisas desse mesmo tipo. Poderia muito bem acon-
E tecer que um espectador idealmente racional e impatcial apro-
i
30. Ufilitarismo classico, imparcialidade e benevoléncia vasse um sistema social se e somente se satisfizesse os princi-
pios da justica que seriam adotados no esquema contratualista.
|
Quero agora comparar o utilitarismo classico com os dois 1
Ambas as definicoes podem ser verdadeiras com referéncia as
principios da justica. Como ja vimos, as partes na posicao origi- mesmas coisas. Essa possibilidade nao é excluida pela defini-
nal rejeitariam o principio classico em favor do principio da I
I
céio do observador ideal. Como essa definicéio nao faz nenhu-
1

maximizacao da utilidade média. Como estao preocupadas em ma suposicao psicologica especifica sobre o espectador impar-
promover seus proprios interesses, elas nao desejam maximizar cial, ela nao fornece principios que expliquem as suas aprova-
o total (ou o saldo liquido) de satisfacoes. Por motivos seme- coes em condicoes ideais. Alguém que corresponde a essa defini-
lhantes, prefeririam os dois principios da justica. De-um ponto cléio esta livre para aceitar a justica como eqiiidade para esse pro-

,-1,1-_-
~‘~?F¢'-2
.~,.3’ I Yéilr

'3‘ }. -
gog UMA TEORIA DA JUSTICA TEORIA 203

0 interesse proprio iniba a disposicao mental que permite a com-


posito: simplesmente permite que um observador ideal aprove os
preensao dos outros, mas também que anule a sua influéncia na
sistemas sociais contanto que satisfacam os dois principios da
determinacao de nossas acoes. No entanto, quando os homens de
justica. Ha uma diferenca essencial, portanto, entre essas duas de-
fato observam as suas instituicoes de um ponto de vista geral,
finicoes do justo. A definicao do observador imparcial nao faz
Hume considera que a compreensao é 0 unico principio psicolo-
suposicoes a partir das quais se possam derivar os principios de
gico em acao, e ela no minimo guiara nossos juizos morais pon-
justo e de justica”. Em vez disso, ela se destina a isolarcertos tra-
derados. Por mais fraca que seja a compreensao, ela constitui,
cos centrais caracteristicos da discussao moral, o fato de que ten-
mesmo assim, uma base comum para que nossas opinioes morais
temos apelar para os nossos juizos ponderados apos uma reflexao
entrem num acordo. A capacidade natural dos ho-mens para a
conscienciosa, e coisas afins. A definicao contratualista vai mais
compreensao, adequadamente generalizada, fornece a perspecti-
além: tenta fomecer uma base dedutiva para os principios que
va da qual eles podem atingir um entendimento a respeito de uma
explicam esses julgamentos. Pretende-se que as condicoes da
concepcao comum dajustica.
situacao inicial e a motivacao das partes formulem as prennssas
Assim, chegamos a seguinte visao. Um espectador com-
necessarias para que se atinja esse objetivo. preensivo, racional e imparcial é uma pessoa que adota uma
Ora, apesar de ser possivel suplementar a definicao do
perspectiva geral: assume uma posicao em que seus proprios
espectador imparcial com a perspectiva contratualista, existem
interesses nao estao em jogo e possui toda a inforrnacao e todo o
outros modos de conferir-lhe uma base dedutiva. Assim, supo-
poder de raciocinio necessarios. Assim posicionado, ele sente
nhamos que o observador ideal é concebido como um ser dota-
uma compreensao igual pelos desejos e satisfacoes de todos os
do dc uma compreensao perfeita. Entao ha uma deducao natural
que sao afetados pelo sistema social. Respondendo aos interes-
do principio classico da utilidade ao longo das linhas seguintes.
ses de todos da mesma forma, um espectador imparcial libera
Uma instituicao, digamos, é justa, se um espectador idealmen-
sua capacidade de identificacao compreensiva, considerando a
te compreensivo e imparcial a aprova de forma mais veemente
situacao de cada pessoa na forma pela qual afeta essa pessoa.
do que qualquer outra instituicao possivel nas respectivas cir-
Assim, ele se imagina no lugar de cada pessoa, e apos ter feito
cunstancias. Para simplificar podemos supor, como faz Hume