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O conto que vou apresentar é A Algaravia do livro Casos do Beco das

Sardinheiras pelo escritor lisboeta Mário de Carvalho.


A história relata mais um dos estranhos acontecimentos que ocorrem no Beco
das Sardinheiras, o caso de Quim, um canalizador bastante conhecido no Beco por ter
um hábito bastante incomodativo de falar pelos cotovelos. Um dia, tinha acabado de
falar com Zé Metade, a sua vítima favorita, quando ao sair do beco lhe cai uma telha
no lado direito da sua cabeça. Foi levado para o hospital, mas ao voltar, ninguém o
entendia, já que este falava uma língua bastante estranha, no entanto Quim conseguia
perceber o que lhe perguntavam. O Zeca da Carris, o Andrade da Lua e o Malcheiroso
Vaz, preocupados, engendraram um plano que consistia em chamar o tio Borges, um
campeão de chinquilho, jogo onde é necessária muita pontaria, para lançar, do mesmo
local, uma telha que batesse no lado contrário de onde Quim tinha sido atingido. Com
tudo preparado, Zé Metade, ajudante do grupo, começou a falar com Quim no preciso
sítio onde tinham combinado, que, muito interessado em contar as suas histórias, se
posicionou mesmo à frente do interlocutor. O tio Borges lançou a telha e conseguiu
acertar corretamente em Quim, que caiu desmaiado. Desta vez, voltou a falar
corretamente o português, mas não entendia nada do que os outros lhe diziam. Assim,
Zeca, Andrade e Malcheiroso Vaz, embaraçados, decidiram não fazer mais nada e não
contar a ninguém, tendo o pobre coitado do Quim que se acostumar com linguagem
gestual.
Este conto é bastante interessante, já que mostra um pouco o pensamento das
pessoas mais tradicionais perante os problemas com que se deparam. Foi um pouco,
também, como uma “ironia do destino” o facto de Quim se ter deparado com
situações que não lhe permitiam uma eficaz comunicação com os outros, algo que
gostava bastante de fazer. Mostra, também, o facto de às vezes, ao tentarmos resolver
as coisas, acabarmos por fazer pior.
Os aspetos que eu mais gostei neste conto foram o cómico, sempre presente,
tanto de linguagem como de situação e, também, o uso de algumas onomatopeias que
nos fazem imaginar o ambiente vivido pelos personagens. Apreciei igualmente o facto
de as falas dos personagens se assemelharem bastante com a maneira de falar das
pessoas das zonas rurais e mais tradicionais.
Recomendo vivamente a leitura desta história, pois proporciona sem dúvida
um momento de humor e riso ao leitor.