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BATALHA NO SETOR VEGA

Autor
K. H. SCHEER

Tradução
Maria M. Würth Teixeira

Digitalização
VITÓRIO

Revisão
ARLINDO_SAN
Terceira Potência conheceu um período de paz após a ameaçadora invasão de seres
extraterrenos, rechaçada por Perry Rhodan com o auxílio da técnica arcônida e dos
extraordinários poderes de seu corpo de mutantes. A Terceira Potência representa a mais
poderosa nação terrestre, a despeito de sua reduzida dimensão territorial.
Galáxia, a supermoderna cidade dotada de uma imensa base espacial, e de amplos
complexos industriais operados quase que exclusivamente por robôs, é o monumento mais
impressionante da nova civilização.
Mas, de repente, Galáxia é colocada em estado de alarma. A bordo da Good Hope, a
nave auxiliar do destruído cruzador cósmico dos arcônidas, Perry Rhodan decola em
direção ao sistema planetário de Vega, na distante constelação de Lira.

= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.


Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.
General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial dos Estados Unidos.
Dr. Frank Haggard — Ministro da saúde da Terceira Potência e fundador da Clínica
Arcônida.
Homer G. Adams — Ministro das finanças da Terceira Potência, e diretor da General
Cosrnic Company.
Coronel Freyt — Chefe da Força de Caça Espacial da Terceira Potência.
Major Deringhouse — Comandante do 1o Grupo de Caça Espacial da Terceira Potência.
Major Nyssen — Comandante do 2o Grupo de Caça Espacial da Terceira Potência.
Capitão Klein — Agente de segurança da Terceira Potência.
Tenente Li Shai-tung — Oficial de ligação da Terceira Potência com o Serviço Secreto
da Federação Asiática.
Thora e Crest — Arcônidas, respectivamente, comandante da nave arcônida destruída, e
cientista-chefe da raça.
Betty Toufry — Telepatia e telecinésia.
John Marshall — Telepatia e supercérebro.
Tako Kakuta — Teleportação.
Wuriu Sengu — visão raio-X.
Ralf Marten — parapsicologia e exopersonificação.
Allan D. Mercant — Chefe do Conselho Internacional de Defesa.
Marechal Gregor Petronski — Chefe da Defesa Aérea e Espacial Oriental.
Kosselov — Chefe do Serviço Secreto Oriental.
Thort — Chefe supremo dos ferrônios e do sistema Vega.
Chaktor — Ferrônio resgatado no espaço por Rhodan e seu intérprete.
Lossos — Cientista-chefe ferrônio.
Crek-Orn — Almirante-chefe dos tópsidas
Galáxia — Cidade da Terra, capital da Terceira Potência.
Good Hope — Nave com que Rhodan viaja para Vega. Ex-nave auxiliar do cruzador
arcônida destruído na Lua.
Perrol — Oitavo planeta de Vega, habitado pelos ferrônios.
Rofus — Nono planeta de Vega, com a capital Chuguinor.
Tópsidas — Raça oriunda do sistema Orion-Delta, a estrela dupla. Descendentes de
répteis, são inteligentes, altamente civilizados, porém cruéis e
insensíveis.
Ferrônios — Raça semelhante à humana. Inteligentes e avançados, têm pele azul e
povoaram os planetas do sistema Vega.
Em obediência à estridente voz de comando, duzentos braços mecânicos ergueram no
ar seu fulgor metálico. Cem fuzis de raios apontaram as bocas para o céu sem nuvens do
deserto de Gobi. Cem soldados-robôs de aço perfilaram-se em total imobilidade, porém
com as entranhas eletrônicas em silenciosa e invisível atividade.
— Nosso visitante será recebido com as devidas honras! — disse o coronel Freyt,
com um olhar irônico para o oficial que comandava os guerreiros de metal.
O capitão Klein pigarreou discretamente. Semicerrando os olhos, examinou a
aeronave recém-pousada.
— Um tanto familiar, não lhe parece? — comentou. — Você oficia a cerimônia,
coronel?
Rígido como um boneco, Freyt, chefe da Força de Caça Espacial da Terceira
Potência, encaminhou-se para o avião. O leme do gigantesco bombardeiro a jato ostentava
a insígnia da Força Espacial dos Estados Unidos. Freyt aguardou junto à escada rolante.
Na estreita porta de desembarque desenhou-se um vulto alto e imponente. Em
silêncio, o general Lesley Pounder, chefe da Força Espacial americana, olhou em torno.
Por instantes, seu olhar se deteve sobre a formação impecável das máquinas de lutar.
Correspondeu com displicência à continência do capitão Klein. Sua atenção estava voltada
para as manobras tonitruantes dos aparelhos, mal e mal visíveis no céu azul a considerável
altura. Estava-se no mês de maio e o relógio marcava pouco mais de treze horas. O calor
era opressivo.
Uma série de estrondosos trovões indicou que a esquadrilha, rumando para o espaço
cósmico, rompera a barreira do som. Porém os minúsculos pontinhos prateados
desapareceram do campo visual muito antes que as ondas de som alcançassem o solo.
— Um belo espetáculo! — elogiou Pounder, impressionado. — Como vai, Freyt?
Faz tempo que não nos vemos, não é?
Comentário óbvio, para disfarçar o constrangimento. Também para Pounder o
momento do reencontro era um tanto deprimente.
— Sim, cerca de três anos, general — confirmou Freyt, evasivamente. — O senhor
tinha me enviado à Lua, num foguete do tipo Stardust. A missão resultou tão desastrosa
quanto a aterrissagem no nosso satélite. E se Perry Rhodan não nos tivesse resgatado com
a nave esférica, o senhor teria mais três nomes de pilotos de provas em sua lista de baixas.
Pounder, o baixo e corpulento chefe da Força Espacial, reprimiu a custo sua
conhecida irritabilidade.
— Sorte sua... — constatou em tom seco. — E em conseqüência disso, o senhor tem
usado nos últimos três anos a farda da Terceira Potência. Mas até que o uniforme é bonito.
Um tanto utópico, talvez... Vejo que foi promovido.
O coronel Freyt preferiu não dar resposta. Pounder vinha visitar a Terceira Potência
em caráter oficial; portanto, não havia sentido algum em discutir com seu antigo superior
hierárquico.
— O carro está a sua espera, general! — disse, para desviar o assunto. — O chefe
ainda não regressou. Enviou-nos uma mensagem há meia hora. Encontra-se nas
proximidades de Marte, testando um caça espacial.
O general Pounder engoliu igualmente aquela pílula. Com que naturalidade seu ex-
subordinado falava de proezas ainda inconcebíveis para homens comuns!
— Nas proximidades de Marte, ora vejam! — murmurou Pounder. — Como soam
importantes suas palavras, coronel! O senhor foi longe... certamente muito mais longe do
que lhe seria possível na Força Espacial. E isto aqui progrediu, não é?
Cheio de admiração, o general lançou um demorado olhar aos distantes edifícios em
forma de torre da nova cidade. Ficavam ao norte, perto do lago Goshun. Perry Rhodan
dera à capital da Terceira Potência o nome de Galáxia.
A última visita de Pounder datava de três anos, quando as instalações não passavam
de construções provisórias. E agora aquilo! Só os dois aeroportos constituiriam motivo de
orgulho para qualquer nação. E a base espacial ultrapassava qualquer empreendimento
jamais criado por mãos humanas.
— Planejamos para o futuro — respondeu Freyt, em tom neutro. — O território que
adquirimos da Federação Asiática abrange quarenta mil quilômetros quadrados. E Galáxia
conta, segundo o último censo, duzentos e trinta mil habitantes. Pronto para embarcar,
general? Nosso pessoal se encarregará do avião.
Com um ligeiro olhar para o enorme bombardeiro, acrescentou com uma ponta de
ironia:
— Carreta meio primitiva essa! Vocês ainda empregam os antiquados propulsores
atômicos?
— Foi este tipo de propulsão que o levou à Lua, Freyt! Faz mesmo questão de me
mostrar o quanto estamos atrasados, não? Mas convém não esquecer que tanto o senhor
como Perry Rhodan receberam sua formação na Força Espacial. Se eu não tivesse enviado
Rhodan à Lua, ele jamais encontraria os arcônidas. É assim que se chamam os
extraterrenos, não?
— Exatamente, general! — confirmou Freyt.
— E este progresso todo só foi possível com a colaboração dos cérebros espaciais —
disse Pounder, com um riso sarcástico. — Rhodan teve muita sorte em conquistar-lhes a
confiança. Foi o que lhe permitiu criar a Terceira Potência. Mas deixemos o assunto de
lado. Que tal é Rhodan como chefe de Estado?
— Refere-se ao senhor Presidente, general?
Resfolegando indignado, Pounder explodiu:
— Freyt, para mim, seu presidente continuará sendo sempre o major Rhodan! O
recruta que treinei pessoalmente e designei para o primeiro vôo tripulado à Lua... E dê-lhe
este recado na primeira ocasião!
— Ele não esqueceu, general! — respondeu Freyt, rindo. — E, aparte nossas
diferenças, afirmo-lhe que é um prazer revê-lo entre nós. Pretende negociar com o chefe
sobre o fornecimento de pulsopropulsores?
O general deteve seus passos. Da distante base espacial vinha novamente o rugido
avassalador. Silhuetas fulgurantes ganharam o espaço, impelidas por quase imperceptíveis
fluxos de impulsos. Pounder aguardou a diminuição da infernal barulheira.
— O esquadrão de Deringhouse — explicou Freyt. — Ótimo elemento este rapaz... O
senhor soube escolher seus homens, general, sem dúvida!
— Naturalmente! E foi por isso que Rhodan fez de vocês seus oficiais. Para mim, foi
uma perda lamentável. Como sabe de meus planos?
Freyt não estranhou a brusca mudança de rumo da conversa, nem a expressão severa
do rosto do general.
— O chefe me falou disso. Se me permite um palpite, acho inútil insistir na obtenção
de propulsores completos. A Terceira Potência reserva-se o privilégio de construir naves
espaciais mais velozes do que a luz. Sugiro que desista do intento. Mas tenho autorização
para mostrar-lhe nossos novos estaleiros oficiais, caso esteja interessado. Normalmente
estão interditados para visitantes. Porém guardamos afeto todo especial ao nosso antigo
comandante...
Pounder afastou-se sem uma palavra. O sorriso do homem mais jovem o atingira em
cheio. Ainda calado, tomou lugar no turbo-carro aberto. Seus olhos se voltaram para a
cintilante cúpula energética visível do aeroporto. Aliás, o extenso domo de dez
quilômetros de diâmetro não podia deixar de ser notado.
Freyt acomodou com alguma dificuldade o corpo comprido ao lado do general. Este
estabeleceu involuntariamente uma comparação: Freyt e Perry Rhodan poderiam ser
irmãos. Ambos altos e magros, com as diminutas rugas no canto dos olhos revelando
permanente disposição para rir. E haviam recebido formação idêntica, numa escola tida
comumente por dura e implacável.
Pounder sentiu-se invadido por uma onda de orgulho. Aqueles jovens tinham criado
uma instituição que prometia revolucionar toda a ordem até então estabelecida no mundo.
Com um breve aceno para Klein, Freyt comentou:
— Ele fez parte outrora do serviço secreto da OTAN, sob as ordens de Allan D.
Mercant. Inacreditável, não?
Com um suspiro, o coronel continuou:
— A raça humana parece estar criando juízo devagarinho. Ainda posso recordar o
momento em que dei ordem para lançar as três bombas de hidrogênio. Na ocasião em que
destruímos o cruzador arcônida... Nossa velha Lua entrou em ebulição em alguns pontos.
Mas muita coisa mudou depois disso. A humanidade parece ter compreendido, afinal.
— Compreendido? — repetiu o general. — Eu diria que ficou convencida. Se algum
doido conseguisse eliminar sumariamente a Terceira Potência, o mundo se tornaria um
hospício da noite para o dia! As nações desencadeariam uma luta mortal pela posse de seus
conhecimentos técnico-científicos. “No interesse de nossa autoconservação lamentamos
ser obrigados à adoção de rigorosas medidas preventivas.” Não é assim que se
expressariam os diplomatas?
O pessimismo do general, aparentemente acabou com o bom humor de Freyt. O
chefe da Força de Caça Espacial mostrou rugas de preocupação.
— Não conjure os demônios, general! — disse, pensativo. — Aquela cúpula
energética foi alvejada por mais de seis mil projéteis de fabricação terrena por semanas
inteiras, sem o menor resultado. Apenas um poder superior será capaz de nos destruir e não
existe na face da Terra ninguém com capacidade para isso. Todos nós temos que aceitar
como fato irrefutável a existência de seres extraterrestres altamente civilizados. E se não
nos acautelarmos, qualquer dia nossa própria sobrevivência estará em jogo. É mais do que
hora de adotar e manter atitudes racionais. A idéia de Perry Rhodan é estabelecer um
governo terrestre central, com representantes de todas as nações do mundo. A questão da
cota de participação de cada uma pode ser resolvida mais tarde; acho que não será difícil
chegar a um entendimento.
— Impraticável! — afirmou Pounder, secamente. — Freyt, você pode ser um bom
militar e um astronauta excepcional, mas não entende coisa alguma de assuntos desta
espécie. Que é aquilo ali?
“Tática de evasão”, disse Freyt para si mesmo. E teve a desagradável sensação de
que o general lhe ocultava algo da maior importância.
Dirigiu o olhar para os prédios do complexo industrial do qual se aproximavam. Uma
série de hangares e torres, imaculadamente limpos, sem traço da fumaça ou fuligem
provocadoras de poluição ambiental. E, no entanto, a produção era superior à de qualquer
fábrica do mundo.
— As seções de acabamento final — disse Freyt, com naturalidade. — E os estaleiros
oficiais da Terceira Potência para fabricação de naves espaciais. Tudo criado do nada em
pouco mais de três anos.
— Complexos industriais acabados em apenas três anos? — duvidou Pounder. —
Produção dos foguetes, estandes de testes, linhas de montagem final? Freyt, qualquer
mortal comum levaria três anos só para lançar os fundamentos de uma obra tão gigantesca!
— Colocamos dez mil robôs especializados em ação — explicou Freyt, com um
sorriso levemente arrogante. — Além disso, empregamos máquinas que executaram o
trabalho de aplainamento com a ajuda de campos antigravitacionais de alta intensidade.
Com recursos comuns, a tarefa levaria pelo menos vinte anos! É difícil conceber a
magnitude dos recursos arcônidas.
Pounder desistiu. Era inútil discutir com pessoas que argumentavam com conceitos
super-humanos e utilizavam máquinas extraterrenas.
O veículo parou diante da linha vermelha. A poucos passos erguia-se a parede de
inconcebível energia, mal e mal visível de tão perto.
— Um campo estrutural em cinco dimensões — explicou Freyt, sorrindo.
— Com quem posso me entender aí dentro? — indagou Pounder, ignorando o
esclarecimento dado por Freyt.
Espiou para a área coberta pela cúpula energética. Era fértil e viçosa, com alguns
poucos edifícios esparsos. Mas estes eram gigantescos. O palácio do governo da Terceira
Potência representava uma combinação harmoniosa de elementos arquitetônicos arcônidas
e terrestres. Todo branco, o belo prédio se destacava entre os demais.
— Sua excelência, o ministro da segurança, lhe concederá audiência — observou
Freyt, esforçando-se por disfarçar a ironia. — Pois o senhor ministro, ou seja, o capitão
Reginald Bell, manifestou extrema simpatia diante de sua visita iminente.
— Bell! — gemeu o general. — Essa não! Aquele palerma que ria à toa e nunca
conseguia manter a disciplina! Quantos esforços me custou impedir sua degradação ao
posto de tenente! E está disposto a me conceder audiência... Pois bem, vá dizer ao seu
ministro que talvez eu o reconheça como representante da Terceira Potência... caso ele
consiga fazer uma continência mais ou menos correta!

***

Homer G. Adams apareceu no telecom, ocupando com seu rosto de testa larga quase
toda a tela colorida e tridimensional. O legendário diretor da General Cosmic Company,
denominada abreviadamente GCC, chamava da distante Nova Iorque.
— Ah, o chefe ainda está viajando? Que pena! — a voz de Adams soava impessoal e
fria no alto-falante. — Escute, Bell, não me agrada a idéia de saber que você está sozinho
com Pounder. Não leve a mal meus escrúpulos, porém considero-me um bom psicólogo.
Pounder é um gênio militar, fato que em si não constitui risco maior. Mas, além disso, é
um homem extraordinário, a quem você deve gratidão, respeito e consideração, mesmo
que recuse admiti-lo. Acho que você não tem condições para enfrentar o general. Espere
pelo chefe!
O homem baixo e atarracado, trajando o uniforme verde-pálido da Terceira Potência,
disfarçou o constrangimento com um sorriso. Reginald Bell não se sentia de fato à altura
da situação. Lá em Nova Iorque seus olhos azuis muito claros apareciam como pálidas
manchas luminosas na tela.
— Vou aceitar sua sugestão, Adams! — disse Bell, acenando com a cabeça. — Mas
pode me pôr a par de suas intenções? A visita do general não foi iniciativa sua?
— Certamente; porém eu ignorava que Perry Rhodan estaria ausente, em vôo de
experiência. Bell, ganhe tempo com o general! Aguarde pelo menos até que eu chegue ao
deserto de Gobi. Não lhe reconheço competência para conduzir negociações delicadas
como essas! Pounder embrulharia você com a maior facilidade.
— Acho que está certo, Adams. Afinal, não é à toa que você é o nosso ministro das
finanças, não é? — respondeu Bell, sorrindo. — Minha vontade se resume em abraçar o
velho ferrabrás e bater um papo amistoso. Fazem bem quatro anos que não o vejo... Você
pode vir imediatamente?
— Meio difícil... — respondeu Adams, indeciso. — Encontro-me em negociações
com uma companhia de mineração latino-americana. Vocês querem cobre barato, não é?
Bell levou os dedos inconscientemente à cintilante insígnia de seu posto, no bolso
superior esquerdo. Curioso, no íntimo tinha a inquietante sensação de que as conversações
com Pounder já estavam fadadas ao fracasso antes mesmo de terem começado.
— Sim, confesso que me sinto em desvantagem diante do velho! — disse, com
inusitada gravidade. — Emocionalmente, compreende?... Gosto demais dele. O general
comeu fogo por nossa causa. E foi ele que nos equipou com todo o conhecimento de que
hoje fazemos uso. Jamais teríamos chegado à Lua se não fosse o total apoio de Pounder.
Largue tudo e corra para cá, Adams! Acho que o representante do poder econômico
número um do mundo pode se dar ao luxo de adiar uma conferência.
Homer G. Adams, o mutante de memória fotográfica, tido como maior gênio
financeiro de todos os tempos, deixou ver um pouco de calor humano em seu sorriso. Pena
do ar meio desamparado de Bell, talvez...
— Bem, chamei você para combinarmos tudo direitinho. Não queremos cometer
erros, não é? Vou providenciar minha partida imediata. Mais alguma coisa?
O rosto de Adams mudou de expressão ao perceber a repentina tensão de seu
interlocutor. Ao mesmo tempo, o ótimo sistema de som fez ouvir um uivo estridente. Bell
transformou-se instantaneamente no homem dos nervos de aço. Algo de inesperado devia
ter ocorrido em Galáxia.
— Bell! — gritou Adams, alarmado. — Que foi que aconteceu?
— Pode cancelar a viagem, por enquanto, Adams. Espere novo comunicado. Estamos
sob alarma. Transmissão encerrada!
Adams viu a imagem se desvanecer na tela côncava do telecom. Permaneceu imóvel
em sua cadeira. O gabinete no topo do gigantesco arranha-céu lhe pareceu de repente nu e
desolado. O uivo das sirenas continuava. Chegava ligeiramente atenuado à grande
metrópole, porém seu impacto não foi menor do que o causado no palácio do governo da
Terceira Potência.
Homer G. Adams não era homem de se deixar descontrolar por barulhentas
manifestações de aparelhamento acústico. Principalmente naquele dia, quando a jovem
Terceira Potência, sob a direção do ex-major e piloto de provas da Força Espacial dos
Estados Unidos, Perry Rhodan, era o eixo econômico, político e militar do planeta Terra.
O fato de aquele conglomerado de poderes ser fruto da inteligência superior e capacidade
de produção de uma raça cósmica, alheia à Terra, era de menor importância. O mais
surpreendente no caso era ver reconhecida como potência mundial uma pequena nação
perdida no coração do continente asiático; não sem algumas dificuldades iniciais, é claro.
Uma vez estabelecida a soberania da Terceira Potência, a General Cosmic Company
encontrara bases sólidas para se desenvolver. Adams estava em vias de revolucionar toda a
economia mundial com os produtos e técnicas arcônidas. Segundo o cômputo mais
recente, o capital social da GCC se elevara a duzentos bilhões de dólares; e estava
iminente o lançamento de novas subscrições no montante de mais setenta bilhões. Sem
dúvida, a instituição criada por Homer G. Adams era sólida e economicamente estável.
Nada, até então, levara este homem a perder a calma e a serenidade, nem sequer por
uma fração de segundo. Portanto, era bastante estranho vê-lo trêmulo e de olhos
arregalados, atento para o lamento das sirenas. Momentos após chegou a confirmação
ótica. Luzes violetas piscavam ininterruptamente. Aos poucos, a tonalidade alarmante
predominou sobre a iluminação natural na peça semi-obscurecida.
Homer G. Adams sobressaltou-se, como que despertando de um pesadelo.
— Não! — murmurou, com os lábios comprimidos num esgar de angústia. — Isso
não! Meu Deus, tudo, menos isso!
— Para trás com esse carro! — gritou o jovem oficial de guarda. — Não vê que a
passagem está impedida? Ande! Recue pelos menos uns trinta metros!
O rapaz suava em bicas. Após o cessar do frenético lamento das sirenas, o território
da Terceira Potência parecia ter virado casa de loucos. Para cúmulo da confusão, acabara
de chegar a coluna de transportes da Mongólia, com seu carregamento de máquinas. E o
tenente encarregado do posto na fronteira era impotente para prestar auxílio aos
perturbados asiáticos. Pois o cérebro-robô positrônico dos arcônidas assumira a direção
dos acontecimentos.
A máquina era inexorável. Acionada ao primeiro sinal de alarma, deixava aos
humanos o prazo de apenas dois minutos exatos para se porem em segurança. Depois a
cerca de energia foi erguida, estendendo-se ao longo de toda a fronteira. Uma barreira
luminosa e flamejante de energia pura impedia a passagem do que quer que fosse. E era
irremediavelmente mortal. Também não era aconselhável sobrevoar o intrincado
entrelaçado de linhas e espirais energéticas; acoplado a inúmeros localizadores, o cérebro-
robô não hesitaria um só instante em abater o invasor alado com uma bateria de canhões de
raios. Afinal, o alerta geral fora amplamente difundido, a fim de evitar ocorrências desta
espécie.
O tenente recolheu-se apressadamente a sua casamata de concreto, dentro da cerca
energética. Os enormes soldados-robôs — pesadas máquinas portando armas nos braços
articulados e providos de mini-mecanismos atômicos nos corpos metálicos — recusavam
há quatro minutos qualquer ordem humana. Eram comandados agora pelo cérebro
eletrônico.
Momentos após chegou o comunicado automático a todos os postos de fronteira e
estações de controle:

Alerta com prioridade 1 em efeito.

Ninguém poderia deixar o território da Terceira Potência e, muito menos, entrar nele.
A imensa cúpula energética, localizada no centro geométrico dos quarenta mil
quilômetros quadrados de área da nação, intensificou seu brilho. O fulgor intenso e
ofuscante feria os olhos. Tinha-se a impressão de ver surgir de repente um sol artificial.
Da base espacial, agora invisível, os novos caças da Força de Caça Espacial se
projetaram, rugindo, para o alto. O general Pounder, cujo carro cruzara os limites no
último instante, segundos antes da barreira energética entrar em funcionamento, viu-se de
repente abandonado. Apenas um soldado-robô montava guarda ao veículo. Pálido e
consternado, o general não obtinha resposta às suas inquietas perguntas. Todo mundo
parecia ignorar sua presença ou esquecê-la de todo.
O coronel Freyt desaparecera com uma sonora praga. Correndo provavelmente, para
seu posto de comando nas cercanias da base espacial...
Pounder não viu outra solução a não ser armar-se de paciência e esperar. Alguém
acabaria por dar-lhe atenção. Desconhecendo o funcionamento de um cérebro-robô
positrônico, não podia saber que este já registrara sua presença. Não era em vão que o
soldado-robô tomara posição junto ao carro do general.
Assim que o cérebro-robô arcônida verificou que o general era inofensivo e que se
tratava de pessoa devidamente anunciada, enviou uma inaudível ordem radiofônica ao
guerreiro mecânico. Com um sobressalto, Pounder sentiu o carro arrancar bruscamente e
rumar em alta velocidade para o palácio do governo.
Lá, deparou com um oficial do serviço de segurança à sua espera. Após ligeira
hesitação, Pounder reconheceu o homem sorridente e atencioso. Li Shai-tung ganhara as
manchetes mundiais três anos atrás. Ocupava agora o posto de elemento de ligação com o
Serviço Secreto da Federação Asiática.
Levando a mão ao quepe, Pounder pensou consigo mesmo: “Mais um velho
conhecido, ora veja!”...
— Queira aguardar na recepção, por favor! — foi-lhe dito. — Espero que
compreenda a indisponibilidade momentânea de qualquer dos dirigentes.
— Qual a razão do alarma? — indagou o general, secamente. — Pode me explicar o
que está acontecendo?
— Fui destacado especialmente para informá-lo, general. Queira entrar, por
obséquio. Não se deixe impressionar pela atitude ameaçadora dos robôs; faz parte do
sistema de alarma. Não há perigo algum; eles são controlados automaticamente. Por aqui,
general!...
Pounder inspecionou com o olhar o amplo recinto composto de vidros, material
sintético e efeitos luminosos. Também aqui a movimentação era febril. Percebeu ao fundo
os vãos fulgurantes dos fabulosos elevadores antigravitacionais. Tanto na construção,
como nos acabamentos e nas instalações, evidenciava-se a aplicação de técnicas
superavançadas.
“Devem ter gasto uns cento e vinte milhões de dólares nisso”, calculou o general,
habituado a fazer avaliações daquela espécie.
— Bell não tardará a vir cumprimentá-lo, general. Sua inesperada presença acabou
sendo providencial. Fui encarregado de lhe prestar as informações preliminares. É
provável que lhe solicitemos, em vista das circunstâncias, a convocação urgente da
Comissão de Segurança Mundial, em caráter de emergência prioritária. Talvez em Pequim,
por sua localização centralizada. Terá que tomar decisões muito rápidas. Nossos meios de
comunicação estão ao seu dispor.
A emoção embargava a voz de Pounder.
— Compreendo, tenente! A situação está preta outra vez, não? Ainda recordo a crise
anterior, há três anos, quando seres extraterrenos se introduziram sorrateiramente nos
corpos e mentes de nossos mais destacados cientistas e políticos, subjugando-os por
completo. Os serviços de segurança já foram informados?
— Sim. O código preestabelecido foi emitido automaticamente. Não perdemos tempo
aqui, general... Ainda não dispomos de informações precisas. Nossa estação de observação
em Plutão apenas nos transmitiu os dados registrados pelos sensores de deformação da
estrutura espacial.
— Tenente, você tem diante de si um homem de boa paz, que se pergunta de vez em
quando com que direito se intitula chefe da Força Espacial dos Estados Unidos —
observou Pounder, sarcástico. — Voamos em foguetes obsoletos, enquanto vocês usam
naves espaciais mais velozes do que a luz. Que diabo vem a ser um sensor de deformação
da estrutura espacial?
Li Shai-tung sorriu. Lá fora reboava um rugido infernal. Foi crescendo de forma
alarmante, até se extinguir gradualmente, à medida que as ondas sonoras se dissipavam no
ar. Pounder conhecia bem o fenômeno mas não com tal intensidade.
— É a Good Hope decolando sob o comando dos dois arcônidas — explicou o agente
chinês, com displicência. — A nave auxiliar do cruzador arcônida destruído na Lua,
lembra?
— Nave auxiliar! — suspirou o general. — Tenente, para mim, uma nave espacial
esférica com sessenta metros de diâmetro representa um verdadeiro colosso, entendeu? E o
que é um sensor de deformação da estrutura espacial?
— Um aparelho de detecção arcônida, para localizar e medir diretamente alterações
quadridimensionais da estrutura espacial no cosmo normal. O instrumento mede desvios
de gravitação. E como a gravitação é uma forma de energia do hiperespaço, os sensores
funcionam forçosamente a velocidades superiores à da luz. Quando emitem sinal, sabemos
que em algum ponto situado num raio de cerca de cinqüenta anos-luz a estrutura curva do
espaço foi abalada, rompida por forças poderosas. Por experiência, sabemos que isso só
pode ser ocasionado pelo hipersalto de uma nave mais veloz do que a luz: a denominada
transição. E quando o fato se dá a uma distância tão próxima, a Central de Defesa da
Terceira Potência toma providências imediatas. Pois a coisa pode ser conosco, general!
Pounder murchou, sem ter entendido uma só palavra da explicação.
— Está bem, tenente! Pode poupar seu latim. Não passo de um homem das cavernas
diante dos conhecimentos científicos de Rhodan e você. Sempre lhe dei apoio total;
primeiro, quando desobedeceu às minhas ordens; depois às custas de minha consciência de
militar; mais tarde com a sanção oficial do meu governo. Pode ir, eu espero... Deve ter
obrigações a cumprir. Só não esqueça que deixou um homem desarvorado sentado aqui.
— General, todos estes conhecimentos serão amplamente divulgados no dia em que a
humanidade chegar a uma verdadeira comunhão espiritual. Não há dúvida de que cresce
dia a dia a garantia de uma paz mundial permanente e duradoura; mas, por enquanto, para
a própria consolidação deste objetivo, é preciso que o poder se concentre exclusivamente
nas mãos de Perry Rhodan. O que lhe acarreta a obrigação de proteger tanto o seu mundo
quanto o nosso. Medite sobre o que eu disse, general, por favor. Os chefes dos três grandes
serviços secretos devem chegar dentro de uma hora, no máximo. E agora, peço permissão
para me retirar. Tenho efetivamente obrigações a cumprir.
Li afastou-se apressado. Perturbado e preocupado com o que ouvira, Pounder fixou o
olhar ausente sobre o mostrador do relógio.
Porém, pôs-se de pé rapidamente ao avistar a jovem. Conhecia-a bem; mas, da frágil
menina de rosto pálido e olhos ardentes, apenas ouvira falar.
— Como está? — indagou ele, mecanicamente, enquanto procurava sondar os
misteriosos olhos infantis.
Recapitulou mentalmente o que sabia sobre aquela menina. Sem dúvida, Betty
Toufry fazia parte do legendário Exército de Mutantes da Terceira Potência.
Pounder engoliu em seco, impressionado com o incrível da situação. Porém sabia que
o pai de Betty trabalhara num laboratório nuclear, tendo sofrido alterações em seu gen. Na
filha, estas alterações não se manifestaram sob a forma de deformidade física, mas
resultaram numa capacidade mental extraordinária, muito acima da de qualquer ser
humano comum. Pounder ignorava as qualidades específicas da inteligência da menina,
mas decidiu levar o caso ao chefe do Serviço Secreto Ocidental. Não lhe agradava a idéia
de ver Perry Rhodan dar guarida a tais monstruosidades; muito menos a de que as
submetia a treinamento especial.
Sobressaltou-se ao ver Betty se afastar abruptamente. Chegando junto ao cintilante
campo energético dos elevadores antigravitacionais, a menina murmurou:
— O senhor não devia pensar isso, general!
As palavras cruzaram o vasto recinto como um sussurro trazido pela brisa.
Pounder deixou-se cair de volta na cadeira. Percebera estar diante de uma telepata
espontânea, um ser para o qual não existiam pensamentos secretos e privados. O general
sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

***

Um vulto corria alucinado pelo negrume do espaço. O silvo agudo dos pulso-
propulsores trabalhando no máximo de sua capacidade parecia passar inteiramente
despercebido para o homem imóvel, sentado diante dos controles.
Os pensamentos de Perry Rhodan, no entanto, fervilhavam. Cruzou a órbita lunar a
toda a velocidade. Na frente do pequeno caça espacial brilhava já a Terra. Os jatos de
reversão de campo cuspiam para a frente uma torrente de partículas, em sentido contrário à
direção do vôo. Em conseqüência, o pequeno aparelho em forma de torpedo era freado,
com uma desaceleração da ordem de quinhentos quilômetros por segundo.
Rhodan verificou mais uma vez os dados do aparelho automático de aproximação. À
altura da órbita dos satélites, o caça deveria estar na velocidade apropriada para a
aterrissagem. Pontinhos luminosos dançavam na tela do hipersensor, que trabalhava com
velocidade superior à da luz. No alto-falante audiofônico espocavam palavras esparsas. O
que se projetava para o espaço, ali à sua frente, era obra construída por mãos humanas,
assim como eram humanos os ocupantes das exíguas cabinas pressurizadas.
O rosto de um rapaz surgiu na pequena tela do telecom. Sorrindo e acenando com a
cabeça, ele informou:
— Deringhouse para Cometa 1: segundo grupo decolando a fim de tomar posição de
alerta. Alguma ordem, chefe?
Rhodan puxou o microfone articulado para diante da boca. À frente de seu caça, a
Terra emergia do vazio espacial como uma gigantesca bola de inflar. Avistava-se
nitidamente as Américas e um extenso trecho do Oceano Pacífico. O litoral europeu
envolvia-se lentamente nas sombras crescentes da noite.
— Nenhuma; ao menos por enquanto. Nada de explicações compridas, por favor.
Recebi o aviso. O alarma foi desencadeado?
— Conforme programado. Aquilo lá embaixo virou um inferno!
Rhodan cortou a comunicação.
Os caças sob o comando de Deringhouse prosseguiram em sua alucinante corrida
para o espaço, enquanto Rhodan iniciava a primeira órbita de frenagem. Após uma volta
completa em torno do globo terrestre, ele mergulhou nas camadas superiores da atmosfera,
com os anteparos térmicos flamejando. Os gases incandescentes das massas de ar
violentamente deslocadas precipitavam-se estourando no vácuo criado pelo aparelho em
queda. Parecia um meteoro consumindo-se em fogo, na atmosfera cada vez mais espessa.
Era a técnica de aterrissagem de aproximação rápida dos arcônidas. Cabia a
projetores especiais, embutidos nos anteparos térmicos, a tarefa de ionizar as renitentes
moléculas gasosas, a fim de expulsá-las da trajetória do aparelho que se precipitava em
direção ao solo.
Também aquilo constituía um processo avançado, que mesmo um homem
competente como o general Pounder não imaginava nem em sonhos. Perry Rhodan valia-
se dele com a tranqüila naturalidade do iniciado. Por força do hábito, mal percebia a
violenta turbulência produzida na atmosfera agora mais densa.
Seus pensamentos se concentravam inteiramente no alarma. Uma situação aguardada
com lúcida ansiedade tinha se concretizado, afinal!
No entanto, Rhodan ainda ignorava os detalhes essenciais. Mas, como o cérebro-robô
positrônico havia desencadeado o alarma, era de supor que a posição galáctica do planeta
Terra corria risco imediato.
A posição galáctica! Durante os últimos três anos, toda a preocupação de Rhodan
havia girado em torno deste ponto. Pois há três anos, pouco após a criação da Terceira
Potência, seres extraterrenos haviam conseguido pôr pé na Terra pela primeira vez.
Debelado o perigo, semanas, meses e anos decorreram sem ocorrências dignas de menção,
a não ser que se considerasse fora do comum a febril atividade de construção desenvolvida
na área territorial da Terceira Potência.
Rhodan fora brindado com uma trégua de três anos. E neste espaço de tempo o ex-
major e piloto de provas da Força Espacial dos Estados Unidos conseguira pelo menos
estabilizar definitivamente a vacilante paz mundial e congregar as nações mais poderosas
da Terra numa coalizão de defesa.
Mas tudo aquilo seria ilusório caso a Terra fosse novamente descoberta! O que
ocorreria caso as indubitavelmente existentes inteligências extraterrenas tentassem
alcançar a pátria dos homens — com armas de poderio infinitamente superior — a fim de
estabelecer-se nela, ou desencadear um ataque de surpresa? O alarma declarado tinha
vindo confirmar os temores recônditos de Rhodan.
O litoral norte da Sibéria surgiu à vista. Os sensores indicavam que o caça estava
sendo detectado por diversas estações de radar. Que diferença fazia? O pessoal lá embaixo
sabia muito bem quem era o suposto maluco que se precipitava do espaço pilotando um
aparelho aparentemente desgovernado.
Rhodan avistava agora a Mongólia. Quando começou a aparecer nas telas a cercadura
luminosa em torno da área territorial da Terceira Potência, Rhodan recordou o desesperado
pouso de emergência feito ali três anos antes. Ele regressava da Lua, onde fora o primeiro
homem a pisar, trazendo consigo os dois arcônidas. E a presença dos seres extraterrenos é
que o tinha levado a descer num ponto isolado do globo.
Aquilo havia sido o começo de tudo. Seguiram-se graves e profundos
desentendimentos com as nações mais poderosas da Terra; atacaram seguida e
impiedosamente o novo poder em formação, até verificar a total impotência diante da
tecnologia e armas de defesa dos extraterrenos. O termo arcônidas passou a ser assunto de
manchetes mundiais. Agora reconhecia-se de bom grado os benefícios prestados à
humanidade pela raça interestelar. Por outro lado, existia o ponderável fato de que a vinda
acidental dos arcônidas à Terra aumentara muito o risco de esta ser descoberta por outros
seres cósmicos.
Provavelmente o planeta Terra continuaria sendo um corpo celeste desconhecido por
anos e anos se o cruzador arcônida, destruído por mãos humanas, não tivesse irradiado
pedidos de socorro. Os sinais se espalharam pelo cosmo. E dali em diante acabara-se a
doce ilusão da humanidade de ser única no universo.
Rhodan forneceu o código apropriado, para que o cérebro-robô lhe permitisse
passagem; o caça passou a ser pilotado pela estação de controle remoto em terra. Perry
Rhodan ficou livre para entregar-se às suas cogitações. Percebia com nitidez que a
humanidade se encontrava diante de um repentino despertar, que encerrava um terrível
potencial de perigo. E os homens teriam que admitir a existência positiva de outros seres
dotados de inteligência, talvez superior à deles próprios. E o pior, pouco ou nada tinham
para opor-se a eles...
A face do homem alto e magro, confinado na apertada cabina pressurizada do caça,
denotava profunda preocupação. Pois compreendia que caberia a ele e aos dois arcônidas
sobreviventes tomarem medidas para a segurança da Terra.
A nave pousou suavemente. O pequeno reator de alto rendimento, por trás da
blindagem anti-radiação na cabina do piloto, foi desligado. Em conseqüência, cessou
igualmente a atividade do poderoso conversor de energia, e do aparelhamento auxiliar,
sem os quais jamais seria possível controlar o tremendo potencial de força liberado.
O coronel Freyt estava a postos para receber o comandante que regressava. Sua
saudação foi curta e breve, enquanto fitava Rhodan com expectativa. Empurrando para trás
o capacete, Rhodan aceitou o cigarro oferecido. Nos olhos cinzentos brilhava mal contida
tensão.
Porém nada em sua aparência externa denotava que há menos de uma hora se
encontrava nas proximidades de Marte, testando um novo caça espacial. Era o impassível
comandante de sempre, o homem sem nervos. Possuía, pelo menos, extraordinária
capacidade de negar a existência de semelhantes contingências físicas.
— A Good Hope decolou com Thora e Crest, chefe! — informou Freyt
laconicamente. — Deringhouse e Nyssen estão no espaço, com quarenta e cinco aparelhos
cada um. Conservei o terceiro esquadrão em terra, em rigorosa prontidão. Apto para
levantar vôo em cinqüenta segundos, se for preciso. O general Pounder chegou pouco
antes do alarma. Está aguardando no palácio do governo. Posso fazer uma pergunta, chefe!
Que se passa! Cá embaixo, nós...
— Bell não deu um pio, não é? — interrompeu Rhodan. — A mim não adianta
perguntar. Não tenho a menor idéia. Mas fique de olhos abertos, está bem? Meu
aparelho?...
Freyt ficou vendo o helicóptero se afastar com uma expressão de profunda
inquietação. Em flagrante contraste com as avançadas instalações na área da Terceira
Potência, o helicóptero era produto terrestre comum. Lá longe, a cintilante cúpula
energética desfez-se por um breve segundo, admitindo a entrada do aparelho. Mas tornou a
erguer-se outra vez com o mesmo brilho contra o céu azul do deserto de Gobi.
Rhodan pousou no heliporto do palácio do governo, situado no topo do edifício.
Recebeu com um sorriso irônico as honras militares prestadas pelos robôs de guarda.
Sempre lhe parecera fútil sobrecarregar os complexos cérebros dos guerreiros mecanizados
com aquela programação supérflua.
Além dos robôs, só uma pessoa havia comparecido para recebê-lo. Rhodan
dispensava as cerimônias de estilo. O homem de cabelos negros e rosto fino envergava
igualmente o uniforme da Terceira Potência. Porém, o elegante macacão não trazia
insígnias de posto; apenas no bolso esquerdo superior luzia um símbolo estranho. Olhando
de perto, via-se que era um cérebro cercado por brilhante auréola.
O mutante John Marshall procurou o olhar de Rhodan. Adivinhava intuitivamente o
que ia na cabeça do presidente. E pareceu-lhe que Rhodan retardava propositalmente a
entrada na Central de Comando do palácio.
— Olá, Marshall! Como vai indo a leitura de pensamentos?
— Mal, no que toca ao senhor, chefe! — constatou o mutante. — O senhor está
sendo aguardado. Bell está uma pilha de nervos. Dentro de quinze minutos chega o pessoal
dos serviços secretos. Que fazemos com eles?
Sem uma palavra, Rhodan entrou no campo cintilante dos elevadores
antigravitacionais. Libertos de peso, flutuaram suavemente para baixo.
Marshall procurava antecipar mentalmente a provável atitude de Rhodan naquela
emergência. Em contraste com a frenética agitação reinante no palácio do governo,
Rhodan era a calma personificada. Marshall sondou cautelosamente as ondas cerebrais de
seu acompanhante, ainda metido em seu traje espacial e com os cabelos louro-escuros
empastados de suor.
— Desista, Marshall! — disse a voz grave. — É como dar contra uma parede...
Chegou a sondar o general Pounder?
Marshall fez uma careta, com os olhos brilhando de indignação.
— Ele nos toma por monstros! — resmungou. — Há gente que se recusa a
compreender que o que eles chamam de monstros resultou de pesquisas monstruosas, das
forças nucleares que jogaram contra nós...
— Mas fora isso, Pounder é legal, não é? — respondeu Rhodan, sorrindo. — Escute,
John, você não devia levar a sério essas alusões a monstros e coisas semelhantes. Procure
pensar de preferência na impressão que seus dotes super-humanos causam em viventes
comuns. Pois eu...
Suas palavras foram abafadas pelo rugido de uma nave espacial em processo de
aterrissagem. Rhodan saltou do elevador no pavimento seguinte.
— Ué, a Good Hope está voltando?
— Era o recado que eu tinha para lhe dar. Thora acha mais conveniente, por
enquanto, deixar a nave abrigada sob a cúpula energética. Bell bloqueia o cérebro; não
consegui saber o que ele pensa a respeito disso tudo. Nem ao menos sei o que está se
passando!
As linhas angulosas do rosto contraído de preocupação suavizaram-se num
momentâneo sorriso.
— Que falta de consideração de Bell, não acha? Muito bem, Marshall, chegou o
momento! Você percebeu que eu procurava ganhar tempo, não?
Rhodan fitou a pesada porta blindada de aço arcônida que constituía a única entrada
para a Central de Comando do palácio. Dois enormes soldados-robôs montavam guarda
diante dela, com as carabinas energéticas engatilhadas, prontas para disparar seus raios
mortais.
O telepata sorriu; claro que tinha percebido.
— Vamos lá! E peça a Deus para que saiamos disso incólumes também desta vez!
Por enquanto, a Terra é fraca demais para enfrentar ataques de alguma poderosa nação
galáctica. Nossos diminutos caças espaciais não valeriam nada diante de uma frota de
verdade. Venha!
A atitude dela era fria, controlada e arrogante. Mas ninguém podia ter certeza de que
dominava efetivamente seus nervos. Thora, a ex-comandante do cruzador espacial em
missão de pesquisa, forçado a pousar na Lua e posteriormente destruído por obra humana,
tornava a tomar consciência de sua condição de arcônida. Rígida e ereta, sua atitude
denotava mais tensão do que propriamente dignidade. Em silêncio, ela observava a agitada
movimentação de pessoas dentro da Central de Comando.
Rhodan achava melhor não instalar aquela Central de Comando, o ponto vital da
Terceira Potência, no subsolo. Pois no caso de a cúpula energética falhar, fosse qual fosse
a causa, até os mais sólidos abrigos subterrâneos seriam inúteis.
O belo rosto de Thora, que não permitia adivinhar sua verdadeira idade,
assemelhava-se a uma máscara sem expressão. Já tinha apresentado suas exigências. Agora
cabia a Perry Rhodan definir-se, mostrando até onde estava disposto a satisfazê-las.
Thora não se sentia à vontade entre aquelas pessoas afobadas, ocupadas e entregues a
acaloradas discussões. Descendente direta da dinastia reinante do Império Arcônida, ela
dera a entender por mais de uma vez que considerava a raça humana inferior e
subdesenvolvida.
Seu olhar dirigiu-se para o fundador e dirigente da mininação terrestre chamada
Terceira Potência. Um travo de amargura repuxou involuntariamente os lábios bem
formados. Perry Rhodan era, sem dúvida, um ser humano excepcional. E depois de haver
absorvido, através da aprendizagem hipnótica, todos os conhecimentos da raça arcônida,
tinha adquirido status super-humano. Nada mais conseguiria surpreendê-lo.
Mas nem por isso justificava-se sua atual soberba; devia lembrar-se com mais
freqüência de que devia toda aquela capacidade e conhecimento aos arcônidas. Era a
opinião de Thora, pelo menos. Irritava-a um pouco ver com que grandiosa e
impressionante naturalidade Rhodan fazia uso dos conceitos fornecidos por uma cultura
superior, cultura que os homens, três anos atrás, nem em sonhos imaginavam existir.
E, no entanto, Rhodan manuseava forças elementares e projetos ousados com uma
segurança incrível, fazendo até a mulher arcônida perder o fôlego. E ela tirara a falsa
conclusão de que Rhodan era a única pessoa merecedora de atenção no meio dos quase
quatro bilhões de habitantes da Terra.
Uma ira profunda transpareceu na testa franzida quando Thora percebeu o pressuroso
entusiasmo de seu conselheiro científico e companheiro de raça. Crest, o líder dos
cientistas arcônidas e representante da grandeza intelectual do Grande Império, parecia
estar inteiramente subjugado à vontade de Rhodan. Era surpreendente ver o quanto esse
homem dominava o melhor cérebro do planeta Árcon.
Thora continuava a se manter à parte, na expectativa, absorta em seu estranho
sentimento de amor-ódio pelo homem que lhe despertava incontida admiração, mas a
quem não fazia concessão alguma. Ao lado de uma ilimitada indignação, turbilhonavam
em sua mente pensamentos suaves e ternos.
Nas telas côncavas do cérebro-robô positrônico piscavam e brilhavam as fórmulas
dos cálculos finais. Rhodan manipulava os controles com incrível desembaraço,
dominando uma máquina cuja perfeição mecânica jamais deveria admitir ordens humanas.
E, no entanto, ela obedecia a Rhodan.
— Ruptura estrutural No 118! — anunciou a voz rouca de um homem atarracado, de
ombros largos.
Thora estremeceu. Reginald Bell, ex-capitão da Força Espacial dos Estados Unidos e
pioneiro lunar, demonstrava seu propalado sangue-frio diante de emergência. Mas era
preciso conhecê-lo bem para adivinhar a férrea calma que ia por trás da face zombeteira.
— Mais um salto, a centésima décima nona transição... — disse Bell, elevando a voz
acima do zunido dos aparelhos. — É o quanto basta! Para que continuar escutando as
mensagens? E agora?...
Seu olhar ia de Perry Rhodan para Crest, num incessante vaivém. Sabia que as
opiniões dos dois homens divergiam.
— Insiste nisso, Crest? — perguntou Rhodan, erguendo-se da cadeira giratória.
O arcônida demonstrava sinais de excitação. Ocorrência incomum na maneira de ser,
em geral ponderada e cordata, do ser extraterreno. Rhodan sentia que a Terceira Potência
do planeta Terra se encontrava em vias de entrar numa nova fase. Portanto, acrescentou à
sua pergunta:
— Parece-me que acaba de iniciar-se a segunda etapa de nosso empreendimento.
Medite sobre isso. As informações transmitidas por nossas estações-robôs em Plutão
indicam com clareza que as rupturas registradas pelos sensores estruturais ocorreram no
setor do sol Vega. Foi constatado igualmente que inúmeras astronaves, vindas do
hiperespaço, executaram ali sua reentrada no universo normal. Significando que seres
desconhecidos estão explorando ativamente o sistema planetário que deve existir em torno
de Vega. Conserve-se lúcido, Crest! Prezo muito sua inteligência e tolerância e o auxílio
que prestou à Terra e aos homens tem sido inestimável.
— Pois então não lhe custaria nada atender uma vez a um pedido nosso! —
interrompeu Thora, do lugar onde estava.
Haggard e Manoli, os dois médicos, se entreolharam. O cenho franzido de Haggard
revelava séria preocupação: Thora estava criando problemas!
— Não nos foi possível até agora atender os pedidos que me fizeram — respondeu
Rhodan, secamente. — A posição galáctica da Terra precisa ser mantida em segredo, custe
o que custar. Já me bastou o incidente com invasores extraterrenos há três anos passados.
Crest, está redondamente enganado com suas suposições!
— Pois continuo pedindo e implorando uma expedição imediata ao setor do sol
Vega! — insistiu Crest. — Meus cálculos provam, sem sombra de dúvida: o mundo que
tenho procurado tão desesperadamente se encontra entre os planetas do sistema Vega!
Perry, pelo menos uma vez, aceda aos meus desejos! Faz quase quatro anos, na medida
terrena do tempo, que fomos forçados a descer na Lua. Coisa que não fazia parte dos
nossos planos. Eu vim para este setor remoto da galáxia em busca de um planeta cujos
habitantes conhecem o segredo da conservação biológica das células. O que quer dizer: a
vida eterna.
— Mas o senhor ainda nem pode afirmar com certeza que Vega possui planetas! —
objetou Reginald Bell. — Seus cálculos podem estar corretos. Mas e daí? Para mim não é
motivo suficiente para alguém se jogar naquele caldeirão de bruxas. As naves que
emergiram lá do hiperespaço não ameaçam a Terra por enquanto, mesmo que o cérebro
positrônico tenha alvitrado a possibilidade da Terra ter sido descoberta. Por razões óbvias,
não creio que seja o caso.
Rhodan persistia em seu inquietante mutismo. Lá embaixo, no vasto salão de
conferências, aguardavam os chefes dos serviços secretos e os delegados das nações
terrestres. O alarme fora de âmbito mundial. E agora aquela surpresa!
— Mas trata-se de naves arcônidas, cujos comandantes vêm igualmente com a
missão de procurar o mundo da vida eterna, tenho certeza! — teimou Crest.
A impassibilidade de Rhodan parecia transtorná-lo profundamente.
Novamente a resposta foi dada por Bell:
— Por que tenta iludir-se a si próprio, Crest? Todos nós sabemos que a outrora
poderosa e ativa raça dos arcônidas degenera a olhos vistos. O declínio mental já era tão
acentuado há quatro anos que a tarefa de equipar seu cruzador de pesquisa custou esforços
inauditos. A turma que surgiu do hiperespaço lá em Vega não tem nada a ver com seus
patrícios, os arcônidas. Confie em meu instinto. Recuso decolar com a Good Hope num
vôo mais rápido do que a luz. Assim como detectamos e localizamos com exatidão os
abalos da estrutura espacial, os desconhecidos nos perceberão por sua vez. Com o que
delataríamos a posição de nosso sistema solar. Que diabo, afinal eu sou o ministro da
segurança, não é?
Bell ergueu-se da poltrona de controle. Acima dele cintilavam as telas dos hiper-
sensores, funcionando em velocidade superior à da luz. O major Nyssen, comandante do 2o
Grupo de Caça Espacial, comunicava não haver vestígio de objetos estranhos no âmbito do
sistema solar.
— Viu? — exclamou Bell, carrancudo, com os pálidos olhos azuis cheios de
animosidade. — Crest, ninguém vai me forçar a sacrificar a Good Hope! Os sensores
estruturais em Plutão registraram até agora cento e vinte e duas transições. Todas na
vizinhança imediata de Vega! Pretende mesmo jogar nossa única espaçonave grande no
meio daquele caos? Seria rematada loucura!
— Sua opinião não é a decisiva, Bell! — exclamou Thora, acremente, enquanto
assumia uma postura ainda mais rígida. Porém o rosto denotava intensa comoção.
“Uma bela mulher!” constatou Rhodan. Não pela primeira vez; já se habituara a
reconhecer a beleza da arcônida, e seu cérebro apenas confirmava automaticamente o fato,
como coisa rotineira. Ficou observando Thora com os olhos semicerrados.
Ela emudeceu no meio da frase ao ver o estranho sorriso de Rhodan. A face contraída
não escondia mais o nervosismo.
— Prossigamos! — encorajou Rhodan. — Que mais precisa ser dito?
Bell cerrou os poderosos punhos.
— Eu nada tenho a dizer! — reclamou, irritado. — Perry é que é o chefe. Sei que não
me suporta, Thora; mas bem que poderia pensar um pouco na nossa nave. E a única mais
rápida do que a luz disponível no momento. A sorte ainda nos protegeu desta vez, está
claro? Quando escutei o primeiro sinal de alarma da estação em Plutão, imaginei ver surgir
sobre a Terra uma frota atacante. Prefiro pecar por excesso de cautela, o que não pode
prejudicar nem a Humanidade, nem a vocês, arcônidas. Dentro de aproximadamente um
ano, nossos estaleiros terão concluído a construção das novas naves e então poderemos
fazer outros planos. Vou erguer as mãos para os céus se nos deixarem em paz até lá.
Atualmente não dispomos ainda de armas para enfrentar inteligências cósmicas. E
justamente nestas circunstâncias você insiste em fazer o que vínhamos evitando nos
últimos três anos, por medida de segurança: um hipersalto espacial. E em direção de Vega,
ainda por cima, onde acaba de aparecer uma numerosa frota espacial!
Rhodan pigarreou.
John Marshall sorriu zombeteiro. O coronel Freyt, chefe da Força de Caça Espacial,
que chegara momentos antes, divertia-se com a eloqüente arenga de Bell.
— Você me recusa toda e qualquer oportunidade, Perry! — queixou-se o arcônida,
com voz magoada. — Durante três anos tem se oposto até a viagens curtas, no raio de
cinqüenta anos-luz.
— Exato. Sempre fui obrigado a refrear minha própria curiosidade a bem da
segurança da Terra. Poderiam nos localizar. Sabe muito bem que nenhuma concentração
de energia incipiente é tão fácil de localizar quanto uma distorção da estrutura
gravitacional.
— Já esperamos bastante! Continuo a afirmar que as naves surgidas no sistema Vega
provêm de Árcon, minha pátria. Justamente por causa da degeneração que se alastra cada
vez mais, somos obrigados a tentar prolongar a vida útil das mentes ainda sãs,
submetendo-as a um processo artificial de rejuvenescimento. O Conselho Central de Árcon
deve ter feito um esforço supremo a fim de possibilitar ainda no último momento a
descoberta do planeta da preservação celular.
— Exijo a partida imediata! — manifestou-se novamente Thora. — Estou certa de
poder entrar em contato com meu povo no sistema Vega. Transmitimos a você tudo que
sabemos através da hipnoinstrução, portanto não precisa mais de nós, Rhodan. Faço-lhe
presente da Good Hope. Leve adiante seu plano de elevar sua tão amada Humanidade a um
poder galático, da forma que achar melhor. Mas primeiro será preciso domar os seres
primitivos de sua raça, dominados pelo instinto. Meios para isso não lhe faltam. Portanto,
repito minha exigência: quero decolar e ser conduzida para Vega!
— Que idéia absurda! — gritou Bell, furioso. — Será preciso lhe dizer claramente
que a altiva raça arcônida chegou ao fim? Sinto muito, porém é tempo de que alguém lhe
abra os olhos, Thora. Ainda guardo nitidamente na memória a expressão passiva e
sonolenta dos rostos dos tripulantes de seu cruzador aniquilado. Você e Crest podem se dar
por satisfeitos, ainda conservam a mente ilesa. Pois usem-na para pensar e não para
alimentar fantasias irreais!
As palavras eram duras, de uma franqueza quase brutal. Rhodan aguardou o resultado
delas.
Thora tremia de indignação. Crest pareceu desmoronar interiormente. Abalado,
deixou-se cair no primeiro assento que encontrou. Na Central de Comando o silêncio era
opressivo. Apenas o berreiro incessante do radio-transmissor galático se fazia ouvir da
peça vizinha.
— Coronel Freyt!
A voz de Rhodan era seca e impessoal. Sobressaltando-se, Freyt assumiu
involuntariamente a posição de sentido.
Bell fitou o comandante com os olhos arregalados. Conhecia bem aquela expressão.
Rhodan era o tipo humano classificado pelos psicólogos da Força Espacial como de
adaptação instantânea. E o hipnotreinamento recebido dos arcônidas intensificara ainda
mais essa capacidade.
Perry Rhodan era agora o comandante severo e intransigente que não admitia
contradições.
— Às ordens! — respondeu Freyt, engolindo em seco.
— Mande o major Deringhouse aterrissar imediatamente! Nyssen fica em órbita
lunar com seu grupo. Obrigado! Capitão Klein?
O segundo homem se perfilou diante do comandante. Os olhos cinza-névoa deste não
encorajavam perguntas. Rhodan não tinha consciência de que dominava os presentes com
o poder de sua vontade, forçando-os inconscientemente a aceitar suas sugestões.
— Colocar em prontidão um esquadrão de emergência. Cinqüenta homens bastam.
Assuma o comando. Sintonize igualmente cem guerreiros-robôs para freqüência
individual. Decolamos dentro de cinco horas, exatamente. Obrigado!
Dois homens abalados deixaram o recinto.
Crest ergueu-se lentamente; o rosto ao mesmo tempo jovem e idoso refletia profunda
emoção.
— Muito obrigado! — falou, com voz embargada. — Encontrará todo o apoio
imaginável no sistema Vega. Talvez eu possa conseguir até que lhe cedam um cruzador
espacial realmente capaz de enfrentar batalhas. O Grande Império protegerá a Terra em
toda e qualquer circunstância. Jamais esqueceremos o que fez por nós. Eu!...
Mas Crest calou diante do olhar do homem magro, de estatura elevada. Pois leu no
fundo dos olhos claros um remoto indício de piedade, amenizando a anterior expressão
autoritária.
— Crest, lamento ter que dizer isso, mas não vai encontrar uma só nave arcônida no
sistema Vega! Não se iluda! A ansiedade enche sua mente de sonhos. A raça arcônida não
possui mais condições para desencadear um ataque maciço desta espécie. Lembre-se de
que localizamos mais de cento e vinte espaçonaves em transição. Isso não é gente sua!
O corpulento ministro da defesa se adiantou.
— Exatamente o que penso! Mas por que insiste em decolar, Perry, se é que me
permite a pergunta? De acordo com as observações feitas, o ataque não se dirige contra
nós. Por que atrair a atenção dos desconhecidos, homem? Por quê, Rhodan? É mais do que
evidente que a ação deles se concentra em torno do sol gigante. Será que refreamos à toa
nossa impaciência por vôos interestalares nestes três últimos anos? Parece que todo mundo
ficou biruta de repente por aqui!
— Se eu fosse ditador, você estaria frito agora, Bell! — murmurou Rhodan, com seu
famoso sorriso enigmático brincando no canto dos lábios. — Nunca lhe ocorreu que
poderia estar enganado?
— Enganado, eu? — replicou Bell, atônito.
— Sim, isso mesmo. A Good Hope decola dentro de cinco horas! Exclusivamente no
interesse da Terra, em missão de reconhecimento. Pensa que vou permanecer de braços
cruzados diante de uma invasão extraterrena a apenas vinte e sete anos-luz daqui? E trata-
se efetivamente de uma invasão! Negociantes ou pesquisadores nunca se apresentariam
assim em massa, com naves evidentemente poderosas. E mais uma coisa!...
Perry Rhodan olhou em torno com ar severo.
— ...mais uma coisa, senhores, que passou despercebida de todos: alguém, lá longe
no espaço galático, cometeu um pequeno erro de cálculo. Esta invasão tinha por objeto real
a Terra, e não Vega. Os chamados de socorro emitidos da Lua pelo cruzador arcônida
foram registrados com uma falha infinitesimal. Ora, levando em conta as distâncias
galácticas, um desvio mínimo na navegação hiperespacial resulta em errar o alvo visado
por vinte e sete anos-luz. É por isso que vamos dar uma olhada nos acontecimentos.
Senhores, a segunda etapa está se iniciando. Ou a segunda crise, se preferirem. Marshall,
anuncie-me aos delegados no salão!
Rhodan colocou o quepe na cabeça, fez uma rápida continência e encaminhou-se para
a porta blindada. O tenso silêncio provocado por suas últimas palavras foi rompido por
uma risada sarcástica.
Reginald Bell postou-se com ar de desafio diante dos complicados aparelhos de
detecção.
— Veremos quem está com a razão, comandante. Mas, se com esta doidice atrairmos
seres estranhos para a Terra, eu me permitirei a liberdade de taxar de irresponsável o
ilustre major Perry Rhodan, dirigente da Terceira Potência. E, com sua licença,
comandante, se algum subordinado meu cometesse erro de tal monta, eu o mandaria
submeter à corte marcial, sob a acusação de comprometer deliberadamente a segurança
mundial.
Firmando as mãos sobre o encosto de uma das poltronas, o Dr. Manoli aguardou
fremente a reação de Rhodan. Voltando-se lentamente, ele declarou em tom suave,
acompanhado de uma olhar enigmático:
— Eu também faria o mesmo, Bell!
A porta de aço fechou-se com um baque surdo. Os braços metálicos dos guerreiros-
robôs de fabricação arcônida abaixaram imediatamente as armas apresentadas em
continência. O chefe se retirara.
— Bom psicólogo é que você não é! — comentou o Dr. Haggard, ministro da saúde
da Terceira Potência desde sua criação e fundador da renomada Clínica Arcônida.
O corpulento gigante tomou o rumo da porta blindada. Eric Manoli, ex-médico de
bordo da Stardust acompanhou-o sem comentários. Reginald Bell seguiu-os com um olhar
sombrio. Depois fitou os dois arcônidas.
E compreendeu, num relance, por que Rhodan desistira de sua contínua oposição
contra viagens espaciais mais rápidas do que a luz: porque fora obrigado a ceder.
As circunstâncias não permitiam mais a recusa de um vôo interestelar. Pois a
possibilidade de transformar Thora e Crest em ferrenhos inimigos da Humanidade era
muito mais arriscada do que a eventual descoberta da Terra por seres estranhos.
Além disso, havia desconhecidos operando relativamente perto dali...

***

O ruído dos potentes pulsopropulsores em funcionamento fazia pensar no rufar de


imensos tambores acionados por gigantes invisíveis. Rugindo, a Good Hope se ergueu no
ar.
Seu local de pouso ficava debaixo da grande cúpula energética. Assim que a
curvatura do pólo superior da esfera com sessenta metros de diâmetro ameaçou tocar a
radiosa cobertura, o cérebro-robô positrônico reagiu, com a precisão de um mecanismo
desprovido de nervos. O campo energético entrou em colapso, deixando passar a nave.
Porém, segundos após, voltou a ver-se a intensa luminosidade produzida pela
incompreensível força desconhecida. Com o reerguimento do anteparo protetor emudeceu
igualmente o tonitruante rugido do aparelho em ascensão. Segundos após, ele sumiu no
céu do deserto. Rhodan acelerava com valores que levariam à incandescência, por efeito da
fricção do ar, qualquer outro veículo.
O general Pounder refreou a custo seus sentimentos. Para o homem habituado à
atividade espacial, constituía espetáculo grandioso ver a gigantesca nave projetar-se para o
alto com tamanha facilidade. Diante daquilo, os foguetes usados pela Força Espacial dos
Estados Unidos pareciam lerdos e pesados; ineficientes com seu primitivo sistema de
propulsão nuclear. E não só os americanos!
Também o marechal Gregor Petronski, chefe da Defesa Aérea e Espacial Oriental,
não conseguia disfarçar a emoção nos traços pétreos do rosto. Os olhares dos dois altos
oficiais se cruzaram.
Pounder disse:
— Que é feito de nosso orgulho? Uma formiguinha pisada por pé gigante não poderia
se sentir mais indefesa e insignificante...
O marechal preferiu não responder. Sua atitude era significativa. Não havia mais
lugar para divergências e inimizades mal disfarçadas. Pelo menos aquilo Perry Rhodan
conseguira obter com o simples fato de criar sua Terceira Potência.
O homem baixo e franzino, aureolado com uma coroa de cabelos dourados, sorriu
com benevolência. Ninguém diria que se tratava do chefe todo-poderoso de um serviço
secreto denominado Conselho Internacional de Defesa.
Allan D. Mercant avançou alguns passos. A conferência-relâmpago realizada por
Rhodan causara tremendo impacto. Mercant consultou o relógio. Sua voz era calma e
amável como sempre:
— Vamos, cavalheiros? Ou alguém ainda duvida da existência de raças altamente
desenvolvidas além da nossa? Em caso negativo, rogo-lhes que comuniquem aos
respectivos governos o resultado de nossas conversações. Estarei em Washington durante
os próximos dias. Viajamos juntos, general?
Pounder concordou com um aceno.
— E o que acontecerá caso o vôo de Rhodan acabe em insucesso? — indagou uma
voz.
Pertencia a Kosselov, o chefe do Serviço Secreto Oriental.
Mercant enxugou o suor da testa com as costas da mão.
— Neste caso, só nos restaria fazer votos pela não-descoberta da Terra. Senhores, é
imprescindível alertar nossos governos para o fato de que não estamos mais sós! E seria
mais do que oportuno renunciar de uma vez por todas a qualquer preconceito ainda
existente contra a unidade universal. A Humanidade não pode apresentar-se desunida
diante de eventuais invasores cósmicos.
O grupo se desfez.
— Faço votos pelo êxito da expedição! — murmurou Petronski. — Se os dados
registrados pelos localizadores forem corretos, Rhodan vai se meter num verdadeiro
inferno. Qual é a capacidade de reação da Good Hope?
— Tudo depende das armas possuídas pelos adversários desconhecidos!
— Bem, aguardemos! — respondeu Petronski. — Vou preparar o alarma atômico em
minha área de comando. Pois gostaria de estar razoavelmente preparado caso seres
estranhos comecem a se interessar por nós.
A densa floresta de Vênus ainda reverberava com o eco da estrondosa decolagem da
Good Hope, porém a nave já desaparecera no turbilhão convulso que sua ascensão
provocara na cobertura de nuvens do segundo planeta do sistema solar. As massas de ar
violentamente deslocadas e comprimidas haviam sido aquecidas até quase a
incandescência; uma faixa luminosa revelava o rumo tomado pela nave, que decolara
verticalmente, após vencer a distância Terra—Vênus em cerca de quarenta minutos.
Para Perry Rhodan, a escala em Vênus não passava de um breve pouso com a
finalidade de colher informações. Porém estas informações eram de vital importância. É
que o cérebro-robô, relativamente pequeno, existente na área terrestre da Terceira Potência
não continha dados sobre o provável sistema planetário do sol Vega; portanto, Rhodan
alimentava a vaga esperança de encontrar algo no computador gigante de Vênus. O
monstro mecânico-positrônico, construído por cientistas arcônidas na remota era de sua
expansão galáctica, fornecera de fato os dados que Perry Rhodan precisava.
O mais difícil fora convencer Thora e Crest da necessidade do pouso prévio em
Vênus. Mas, por trás do sorriso amável, a exigência de Rhodan era explícita: só arriscaria a
transição para Vega, a apenas vinte e sete anos-luz de distância dali, se pudesse obter
primeiro dados reais e concretos sobre a família planetária da estrela gigante.
Thora a Crest encerraram-se em teimoso mutismo. A situação a bordo da Good Hope
beirava perigosamente os limites de uma séria desavença. E Rhodan percebia a
necessidade urgente de chegar a uma solução mediadora.
A consulta ao gigante positrônico, mil vezes mais eficiente do que o cérebro retirado
da Good Hope e instalado na Terra, resultou positiva. Realmente, as naves arcônidas
tinham explorado as vizinhanças do Sistema solar há cerca de dez mil anos, em contagem
terrena de tempo, por ocasião das expedições migratórias então efetuadas. A fortaleza em
Vênus fora construída com a finalidade de servir como uma espécie de refúgio cósmico
para situações de emergência.
Na ocasião, os atualmente degenerados arcônidas deviam encontrar-se ainda em
plena posse de sua capacidade mental e criativa. Nada mais natural, portanto, do que
acumular informações acerca do armamento vizinho à Terra.
Perry Rhodan contara com isso. Mas, para Thora e Crest, era uma inesperada
surpresa. Como o cérebro-robô do cruzador de pesquisa destruído não continha tais dados
em seu banco de memória, os dois arcônidas haviam concluído que o computador gigante
de Vênus nada saberia também acerca do sistema planetário de Vega.
Rhodan viu-se obrigado, a contragosto, a chamar a atenção do cientista Crest para um
engano freqüentemente cometido por sua raça: o arquivo positrônico central do distante
planeta Árcon não era tão completo quanto os arcônidas julgavam. Acabavam de ter uma
prova positiva disso. De onde se poderia concluir que muitas das expedições feitas pelos
arcônidas a mundos afastados jamais haviam sido reveladas e registradas. Fato que Crest
costumava negar com veemência.
Provido com informações essenciais, Rhodan levantou vôo de Vênus, mas agora com
seu rumo bem traçado.

***

Na cabina de comando da nave esférica mal se ouvia o ronco surdo dos propulsores
trabalhando em carga máxima. Carga máxima; isso significava a expulsão, à velocidade
exata da luz, de um jato de partículas coerentes, compactadas por um campo energético
gerado em espaço hiperestrutural.
Perry Rhodan e os arcônidas denominavam o processo onda de corpúsculos, noção
que provocara verdadeira sensação nos meios científicos terrestres. A tecnologia arcônida
parecia estar ferozmente empenhada em invalidar as teorias prevalentes na Terra, e em
tornar realidade impossibilidades científicas. A julgar pela última aula de Rhodan na
mundialmente famosa Academia Espacial, seria preciso esquecer a maior parte do que os
homens tinham aprendido até então caso quisessem enfronhar-se nos conhecimentos
arcônidas. Ou então reformular por completo a maneira de ver as coisas.
Pulsopropulsão e onda de corpúsculos eram conceitos explicáveis apenas através da
matemática pentadimensional.
A Good Hope acelerou na razão aparentemente alucinante de quinhentos quilômetros
por segundo, o que, em teoria, lhe permitiria alcançar velocidade igual à da luz em dez
minutos.
Também aqui se aplica o princípio claramente estabelecido para a velocidade
relativística, de acordo com a simples relação linear de que a velocidade é igual a tempo
vezes aceleração constante.
Para o observador na Terra, no entanto, após dez minutos de aceleração constante, a
nave teria alcançado apenas uma velocidade correspondente a 70% da luz.
Para Rhodan se tornavam aplicáveis os conceitos mais elementares da contração
relativística proporcional do tempo. Sob o ponto de vista dos conhecimentos humanos, as
equações envolvidas eram bastante complexas; porém, arcônidas do nível de Crest
costumavam fazer os cálculos mentalmente.
O domínio de uma nave interestelar acarreta inúmeros problemas. A despeito de sua
excepcional capacidade científica,, Rhodan e Reginald Bell se defrontariam com
obstáculos insuperáveis não fosse o hipnotreinamento recebido dos arcônidas. Rhodan
pilotava com mão firme e ânimo tranqüilo a nave, em seu vertiginoso vôo pelo sistema
solar. Os controles quase totalmente automatizados permitiam que a Good Hope fosse
controlada por uma só pessoa em caso de necessidade, desde que esta estivesse
familiarizada com a técnica arcônida.
Crest e Thora aguardavam a transição iminente com a indiferente calma provinda do
hábito. Rhodan e Bell, no entanto, não escondiam seu nervosismo, apesar de terem sido
devidamente preparados para a experiência. E as coisas corriam bem demais!... Os
cálculos necessários para o vencimento de um trecho espacial correspondente a, vinte e
sete anos-luz já estavam sendo feitos, com Vega por objetivo final. Compilando os dados
básicos fornecidos pelos localizadores — a distância do alvo, a massa da nave e os campos
gravitacionais prevalentes — o computador galatonáutico calculou a taxa de impulsão,
conceito completamente incompreensível para pessoas comuns, e que os arcônidas
denominavam hipervelocidade de fuga universal.
Rhodan sabia muito bem que o rompimento da barreira da luz não podia ser nem
concebido nem explicado com a matemática terrena. Portanto viu-se obrigado a relegar ao
esquecimento toda sua bagagem de aprendizado tradicional e guiar-se apenas pelos
preceitos da ciência arcônida. Era suficiente para provocar tanto nele como em Bell
profundos conflitos emocionais. Haviam passado por todas as experiências possíveis e
imagináveis, o que não os impedia, porém de se sentir agora como o homem pré-histórico
diante de seu primeiro contato com o fogo: sabiam como usá-lo, porém ainda ignoravam
que ele podia igualmente ferir e matar.
O ruído dos quatro pulsopropulsores sincronizados intensificou-se, lembrando
trovoada roncando ao longe. Quanto mais a Good Hope se aproximava da velocidade exata
da luz, tanto mais acelerado se tornava o trabalho das máquinas de fabricação extraterrena.
A órbita terrestre ficara para trás. A nave afastava-se do Sol, a fim de iniciar o salto
hiperespacial ainda no âmbito do sistema solar. Quando o ponteiro do velocímetro chegou
a uma fração centesimal da marca que indicava a velocidade da luz e os sinais acústicos do
piloto automático principal clamaram por empuxo adicional, Rhodan soltou as mãos dos
controles e girou em sua poltrona.
Apenas os líderes da reduzida tripulação se encontravam reunidos na cabina de
comando. Nas numerosas telas de observação externa cintilavam sóis remotos, muitos dos
quais deviam possuir sistemas planetários.
Um rápido toque no comutador extinguiu as luzes piscantes no painel do hiper-
controle. Thora olhou para Rhodan intrigada, perguntando em tom inquieto:
— Por que suspendeu a aceleração, Rhodan?
O comandante ergueu-se lentamente de seu assento. Bell ficou na expectativa. Algo
estava errado.
— O excelente hipnotreinamento que recebi me gravou firmemente na memória que
não é aconselhável iniciar um hipersalto de dentro de um sistema planetário — explicou
Rhodan, pausadamente. — Vamos prosseguir em queda livre até atingir a órbita de Júpiter,
em velocidade um por cento abaixo da luz. Prefiro não provocar indesejáveis distúrbios no
campo magnético da Terra. Querem vir comigo até a cantina?
Bell ligou os hipersensores, para detecção imediata de qualquer corpo estranho,
conectando-os com os projetores dos anteparos de defesa. Depois seguiu Rhodan. O piloto
automático inteiramente positrônico merecia total confiança, mais do que qualquer ser
humano.
John Marshall, o mutante dotado de qualidades telepáticas, sondou de longe os dois
arcônidas. Não conseguindo penetrar nas mentes bloqueadas, virou-se para pedir auxilio à
menina magra, de olhos imensos.
Betty Toufry brindou-o com um ligeiro sorriso que, no entanto, não tinha nada de
infantil. Com um movimento de ombros, deu a entender que também ela não conseguia
captar o conteúdo mental dos extraterrenos, apesar de seus dons serem mais fortes do que
os de Marshall.
Tako Kakuta, o diminuto japonês que ainda há pouco estivera de pé ao lado de Bell,
desapareceu de repente. O jovem com o espantoso dom da teleportação preferira mais uma
vez o caminho mais curto. Era parte de sua constante prática e treinamento.
Além de Marshall, Betty e do franzino japonês, encontravam-se a bordo duas pessoas
que Bell antes da decolagem conhecia apenas de nome. Rhodan mandara dois caças
espaciais ultra-rápidos ir buscá-los em Vênus, onde ambos concluíam seu curso de
especialização.
Dizia-se que Wuriu Sengu, o japonês gordo e troncudo, era capaz de enxergar através
de corpos sólidos usando exclusivamente sua força mental. Mineiro de profissão, sempre
maravilhara seus companheiros com sua infalível precogniçâo da produtividade de tal ou
qual nova galeria de carvão aberta. O Corpo de Busca de Mutantes da Terceira Potência
fora descobrir Sengu no Japão.
Ralf Marten, nascido igualmente no Japão, filho de um comerciante alemão e mãe
nativa, possuía dotes ainda mais espantosos. Também ele pertencia à geração vinda ao
mundo pouco após a explosão atômica sobre Hiroshima. O alto e esbelto jovem era capaz
de abolir temporariamente a própria identidade, assumindo parapsicologicamente a de
outra pessoa. Via por seus olhos e ouvia por seus ouvidos, sem que a vítima encontrasse
meio de eximir-se dessa invasão. Capacidade que poderia explicar o extraordinário êxito
de Ralf Marten no mundo dos negócios.
Tako Kakuta, cuja mera presença provocava acessos de irritabilidade em Reginald
Bell, possuía o dom da teleportação. Sem qualquer artifício, transportava seu corpo para
outro local em questão de segundos.
Betty, a menina, era duplamente excepcional. Além de seus poderosos dons
telepáticos, era capaz de executar a telecinésia: usar seu poder mental para mover objetos
sem tocá-los com as mãos.
Estranhos tripulantes aqueles cinco mutantes! Para os arcônidas, cuja cultura mais
adiantada admitia tais fenômenos, o grupo ainda era considerado tolerável. Mas os
tripulantes humanos comuns consideravam-nos verdadeiras monstruosidades. Claro que
jamais alguém expressava esta opinião em voz alta, evitavam até pensar nisso, porém era a
maneira de ver que predominava entre os demais membros da tripulação.
Na espaçosa cantina da ex-nave auxiliar do cruzador arcônida, adaptada às
necessidades humanas, formou-se uma nítida barreira de separação entre os mutantes e os
cinqüenta homens da tropa de choque destacada para a missão. Apenas olhares carregados
de respeito, admiração incontida, desconfiança e curiosidade voavam de um lado para
outro. O Exército de Mutantes, unidade especial da Terceira Potência, constituía poderoso
fator de segurança. Era compreensível que os cinqüenta integrantes da tropa de choque se
sentissem inferiorizados, a despeito de sua formação categorizada.
Rhodan tinha plena consciência de não poder harmonizar em uma só geração o cisma
profundo entre pessoas normais e mutantes. Portanto contentava-se em obter um convívio
razoavelmente tolerável entre os dois grupos.
Reinava na cantina um clima feito de extrema tensão, excitamento e conformada
resignação. Esta provinha principalmente de Reginald Bell, que via suas enérgicas
objeções à expedição interestelar serem completamente ignoradas.
Rhodan foi breve. O impaciente olhar para o relógio denotou que não estava disposto
a perder tempo com argumentos prolixos.
— Assim que chegarmos à órbita de Júpiter, partimos para o primeiro salto
hiperespacial jamais realizado por homens! — anunciou, calmamente. No entanto, seu
nervosismo íntimo era aparente. — Peço-lhes encarecidamente que obedeçam à risca às
instruções dadas. Os doutores Haggard e Manoli se encarregarão da assistência médica
assim que emergirmos no hiperespaço. A ocorrência de danos físicos é pouco provável; a
mente também não será afetada. Se o processo fosse perigoso, a raça arcônida teria sido
extinta dez mil anos atrás. Mantenham o maior relaxamento possível durante a transição. A
desmaterialização é inevitável durante o fenômeno de passagem para o hiperespaço
pentadimensional. Nossos organismos sofrerão uma passageira solução de continuidade,
pois não podem subsistir no estado presente num plano supernatural. Mas podem estar
certos de que, por ocasião do regresso à dimensão quadridimensional de nosso mundo
normal, cada qual encontrará novamente seu apêndice no lugar exato determinado pela
mãe-natureza. Mais uma observação...
Rhodan percorreu a atenta audiência com um olhar imperscrutável.
— O cérebro-robô de Vênus forneceu-me dados exatos sobre o sol Vega. De acordo
com ele, a estrela contava há dez mil anos, tempo terrestre, com quarenta e dois planetas.
Fato nada surpreendente, em vista de suas dimensões gigantescas. Uma expedição
arcônida andou explorando a área na época mencionada, colhendo informações detalhadas.
Vida inteligente só foi constatada no oitavo planeta, denominado Ferrol. Consta que os
ferrônios têm aparência humana; pelo menos possuem dois braços, duas pernas, uma só
cabeça e andam eretos. Quando os arcônidas visitaram Ferrol, os nativos acabavam de
descobrir a pólvora. O que nos permite deduzir que atualmente, dez mil anos após,
possuam armas nucleares, ou estejam capacitados para viagens interestelares. Podemos
deparar com uma raça altamente desenvolvida; ou com um monte de detrito planetário,
girando deserto e solitário em torno de seu sol, inteiramente arrasado pela radioatividade.
Seja como for, estejam preparados para surpresas e mantenham a calma. Recomendo uma
hora de sono para quem conseguir adormecer. Seria ótimo passar pela transição em estado
de sonolência.
Rhodan despediu-se com uma breve saudação e voltou à cabina de comando. O
capitão Klein dispensou os homens. O major Deringhouse, responsável pelos dois caças
arcônido-terrestres trazidos a bordo, decidiu ir inspecionar seus aparelhos.
Ao acionar a porta blindada que dava acesso ao hangar dos aviões, ele murmurou
consigo mesmo:
— Sei lá, a coisa não me cheira bem!
Bell alimentava dúvidas semelhantes.
Dispensando o elevador antigravitacional, subiu resfolegando pela escada espiral de
emergência.
Entrando na central de comando repleta de instrumentos que ainda lhe aturdiam os
pensamentos, Bell percebeu um ligeiro clarão à sua frente. Do nada emergiu um vulto
humano que, em fração de segundos, se materializou na frágil e inequívoca silhueta do
japonês Kakuta. A face infantil e compenetrada mostrava um amável sorriso:
— Esqueceu seu quepe, capitão! — disse ele. — Aqui está!
Contando mentalmente até três, Bell desferiu um soco na direção do risonho jovem.
Mas como este voltara a tornar-se invisível, não havia o que acertar e o golpe se perdeu no
ar.
Bell encaminhou-se para o assento do co-piloto. Rhodan recebeu-o com expressão
impassível; mas as minúsculas rugas nos cantos dos olhos revelavam vontade de rir.
— Os mutantes têm ordem para treinar seus excepcionais poderes sempre e onde
puderem! — comentou, ironicamente.
Bell fixou o olhar sobre as telas fronteiras, sem dar resposta. Marte, o planeta
vermelho, aparecia no quadrante direito superior da tela de estibordo. A Good Hope
cruzava em velocidade máxima.
Thora, a esguia arcônida, ocupava o assento diante do computador galatonáutico. Sua
expressão era enigmática.
— Como se sente? — indagou Rhodan.
— Ótima, obrigada! Perry, você se parece com um campo energético instável, pronto
a entrar em colapso a qualquer momento.
Sem responder, Rhodan mantinha o olhar fixo para a frente. Em algum lugar das
profundezas do espaço devia estar o ponto cujas coordenadas estavam sendo levantadas
pelo computador. Era essencial que o hipersalto se processasse exatamente na fração de
segundo determinada.
Thora lançou um olhar suplicante para Crest. Não sabia por que se sentia de repente
tão deprimida.
A transição se processou com a rapidez de um relâmpago. Fugaz demais para ser
percebida pela consciência. Mal ressoou nos ouvidos o reboar estrondoso dos conversores
do campo estrutural, acionados espontaneamente, as telas refletiram luz violeta e tudo se
transformou de repente.
A cabina de comando parecia o olho incandescente de um gigante mitológico; o
aparelhamento foi se dissolvendo em névoa e desapareceu.
A incipiente sensação de dor era aguda e lancinante. Cessou ao atingir o auge, como
se o sistema nervoso tivesse se desligado espontaneamente.
Dentro do campo estrutural erigido com toda a energia disponível, a fim de excluir
por completo a entrada de qualquer força quadridimensional, a Good Hope transformou-se
num corpo incapaz de continuar mantendo sua estabilidade. A física avançada dos
arcônidas dava ao fenômeno o nome de efeito de sublimação. Ao mesmo tempo, as ondas
corpusculares que acionavam os pulsopropulsores convertiam-se em unidades energéticas
pentadimensionais, uma vez que também não conseguiam conservar as características
normais dentro do campo de absorção esférico. Portavam-se como água diante de uma
fonte térmica intensa: era forçada a vaporizar-se, por não poder continuar em estado
líquido no ambiente modificado.
Rhodan tentara passar pela transição em estado consciente. Porém não havia
evidentemente diferença entre cérebros arcônidas e humanos neste particular. Seu último
pensamento, antes de penetrar no hiperespaço, foi para a futura rematerialização. Afinal,
transformar matéria em energia era simples; porém nunca se conseguira obter substância
física de energia pura, fosse qual fosse seu estado ou constituição.
Todavia, no caso de uma transição, o efeito ocorria forçosamente, só que a
rematerialização consistia apenas na reversão exata ao estado de origem.
O processo todo durou pouquíssimo. O anterior conceito relativista de tempo perdera
toda a validade. Anos podiam valer por segundos, e vice-versa. A sombria cor vermelha
ainda predominava no ambiente quando a dor excruciante voltou, aliada a aguda sensação
de desintegração. Mas os contornos dos objetos eram novamente visíveis na cabina de
comando.
O regresso ao universo normal foi espontâneo, sem qualquer estágio intermediário. A
visão clareou, os sentidos retomaram o funcionamento normal, como se nunca o tivessem
interrompido.
Apenas as imagens captadas pelas telas eram radicalmente diferentes. Nos vídeos
frontais brilhava de forma deslumbrante uma imensa estrela, que, de forma alguma,
poderia ser confundida com o sol terrestre. Era grande e quente demais para isso, além de
irradiar luz mais clara.
Perry Rhodan foi arrancado do estado semiconsciente pelo zumbido do sistema de
alarma. Um gemido de dor acabou de acordá-lo. Ao seu lado, uma voz preocupada dizia:
— Parada dura, não é chefe? Tudo em ordem agora?
Rhodan viu-se diante de Tako Kakuta. O mutante capaz de teleportação achava-se de
pé diante do painel de controle aparentando total indiferença.
— Senão...! — suspirou o comandante. — Como é que você?...
— Ora, estou mais do que familiarizado com o processo. Rematerializações são
sempre iguais, quer sejam provocadas por forças físicas ou psíquicas. Com o tempo a
gente se acostuma, pode crer. O alarma, comandante! Os localizadores detectaram algo.
Rhodan não se preocupou com as irritadas exclamações de seu co-piloto, que
levantava cambaleante do assento. Com a face contraída de dor, Bell apalpou os membros,
um por um. Mas o sinal de alarma seguinte fez com que ele ficasse instantaneamente
alerta. Também Crest e Thora davam sinais de vida. Das várias seções da nave chegavam
comunicados dizendo que estava tudo bem. Haggard e Manoli confirmaram o bom estado
da tripulação.
O alarma fora ativado pelos sensores estruturais da própria nave; tinham detectado
violentas deformações na estrutura do espaço. Os sinais continuaram a manifestar-se por
alguns momentos; depois foram rareando, até que a última lâmpada se extinguiu.
Rhodan fitou os companheiros em silêncio. Estavam todos presentes e, ao que
parecia, sem ter sofrido o menor dano. A atitude de Thora denotava tal superioridade e
condescendência que Rhodan não ousou expressar a pergunta que lhe queimava os lábios.
Bell, no entanto, não se dominava tão bem. Vacilando, e com a vista turva,
aproximou-se das telas, indagando:
— Chegamos inteiros? Isso ai é Vega?
Soberbamente, a arcônida respondeu:
— Que acha? As hipertransições de nossas naves sempre se processam com absoluto
êxito!
— Saltamos por cima de vinte e sete anos-luz? — Bell engoliu em seco, praguejando
baixinho. Sem mais comentários, voltou à sua poltrona, e pôs-se a recolher as informações
que iam sendo fornecidas, numa fita, pelo painel de controle. Sim, tudo corria muito bem.
Um acontecimento inédito e espetacular para a tripulação humana decorrera com a
precisão de um mecanismo de relógio bem ajustado. E ninguém parecia impressionar-se
com isso, muito menos os arcônidas.
Crest postara-se, fremente, diante dos calculadores dos sensores estruturais. O
resultado dos cálculos, inteiramente automáticos, indicava a aproximação do primeiro
planeta. O fato era confirmado pelos hipervelozes localizadores; seus impulsos se
projetavam na dianteira da Good Hope, sendo refletidos com a mesma incalculável
rapidez.
Nas telas começaram a brilhar inúmeros pontinhos verdes. Eram eles que
despertavam o ardoroso interesse do cientista arcônida.
— Nossas naves! — murmurou Crest, comovido. — E uma frota inteira! Veja as
indicações dos sensores estruturais, Rhodan: mais de cinqüenta delas emergiram quase
simultaneamente do hiperespaço.
— Quando, exatamente? — indagou Rhodan, com fria impassibilidade.
— Bem ao mesmo tempo que nós.
— Ótimo! — exclamou Rhodan. — Portanto não devem ter detectado o abalo
estrutural que provocamos com nossa aparição. Coincidência benéfica, não?
— Seria conveniente proceder a um reconhecimento mútuo — interveio Thora,
excitada. — Não sinto disposição para prolongar as buscas. Mande calcular o curso para o
oitavo planeta, por favor. Garanto que daremos com nossas naves de pesquisa lá.
— É, talvez tenha razão, Thora... — respondeu Rhodan com voz pausada.
Depois levantou a voz, ordenando energicamente:
— Bell, todos em prontidão de combate! Dê alarma geral. Thora, encarrregue-se dos
localizadores. Bell, você fica com o comando do centro de armamento!
Bell não fez comentários. O brilho dos olhos de aço do chefe lhe dizia o suficiente.
As campainhas de alarma se fizeram ouvir em todas as dependências da nave.
Entreolhando-se alarmados, os homens fizeram seus preparativos.
Deringhouse anunciou pelo intercom que os dois caças estavam prontos para a
manobra de ataque.
— Você enlouqueceu? — gritou Thora, com os olhos vermelhos flamejando de ira.
Ereta, diante do homem alto e magro, tremia de ódio.
— Talvez sim, talvez não... — replicou Rhodan com a maior tranqüilidade. — Mas
não sou louco bastante para me precipitar ébrio de alegria num sistema planetário
desconhecido. Já lhes disse mais de uma vez que não creio na existência de naves
arcônidas. Queira ocupar sua posição de combate, por obséquio.
Furiosa, Thora obedeceu, sob o olhar indiferente de Rhodan.
— Capitão Klein! Cuide da orientação... — ordenou Rhodan, tranqüilo. — Wuriu
Sengu, mantenha-se atento. Atravessaremos o sistema Vega em cerca de oito horas. São
quarenta e dois planetas, com distâncias fabulosas entre um e outro. Obrigado, é tudo!
Ao retomar seu lugar de piloto, os reatores do circuito externo começaram a
funcionar ruidosamente. Em torno do revestimento da nave foi-se formando, após breves
lampejos luminosos, o anteparo protetor de unidades energéticas extradimensionais.
Seguiu-se o campo repulsor de corpos materialmente estáveis. Com isso, a Good Hope
munira-se dos recursos defensivos mais avançados da tecnologia arcônida.
Os pontinhos verdes continuavam a luzir nas telas dos sensores. Distantes ainda, a
mais de três horas-luz, que a Good Hope percorreria com sua velocidade normal.
— Exijo uma transição de curta distância! — gritou Thora.
Rhodan não lhe respondeu. Thora calou-se, porém era evidente que não se
conformava. Ao fundo da cabina, os cinco mutantes formavam um grupo unido e quieto.
Betty Toufry e John Marshall captavam sensações e pensamentos que nenhum mortal
comum perceberia.
Momentos após, a menina murmurou, baixinho:
— Ouço almas chorando! Tem gente morrendo. Muitos mortos. O espaço está repleto
de lamentos e soluços. Desespero, dor, morte!
Os olhos profundos estavam dilatados, vastos como o espaço cósmico. Bell fitou-a,
impressionado. Nas telas dos detectores da nave interestelar os pontos verdes se
multiplicavam. Rhodan ordenou alarma total, o sistema positrônico de mira entrou em
funcionamento. No vídeo, Vega brilhava como o olho ciclópico de um deus ameaçador.
Lá adiante, nas profundezas do sistema planetário da grande estrela, sucedia algo
ainda não de todo compreensível...

***

O grito ecoou surdamente na cabina de comando. Ninguém havia contado com o que
estava acontecendo e os fatos tinham chegado de surpresa, precipitando-se sobre eles como
uma ágil fera dando o bote.
A gigantesca Vega, principal estrela da constelação da Lira, refletia-se nos vídeos
como uma imensa bolha de sabão iridescente. Um sol de proporções verdadeiramente
avantajadas.
Com isso, a tripulação tardou a discernir os longínquos raios luminosos, finos como
fios de cabelo, e o relampejar contínuo de minúsculas explosões. Apenas as telas
amplificadoras, com sua magnitude de foco, acabaram revelando a ocorrência de um
tremendo conflito nas imediações da órbita do décimo quarto planeta.
Cinco minutos após a detecção positiva, os hipervelozes sensores de localização se
fizeram ouvir. Seu estridente clamor ainda prosseguia. O equipamento altamente sensível,
que reagia à presença de descargas energéticas, não fora instalado em vão. Mas era tarde
demais, pois a Good Hope seguia com a mesma velocidade, quase igual à da luz. Portanto
seria impossível desviar das naves surgidas de maneira tão inesperada, ou esquivar-se de
passar através de suas confusas trajetórias.
Os propulsores gêmeos de estibordo rugiram numa furiosa exibição de força. Um
desvio mínimo de rumo bastaria, naquela velocidade alucinante, para arrancar a Good
Hope da área imediata de perigo. Mas os amortecedores de inércia protestaram
guinchando, obrigados a dissipar a energia que Rhodan canalizara, momentos atrás, para
os projetores dos anteparos de defesa.
A seta luminosa que se lançava contra a Good Hope não podia estar se movendo com
a velocidade da luz. Pois se estivesse, os videoscópios só captariam sua imagem no
momento do impacto. Porém ela vinha com rapidez suficiente para arrancar exclamações
de susto dos homens na cabina de controle. Conheciam o cintilante fenômeno; por trás de
seu aspecto inofensivo se escondia a morte.
Rhodan acionou novamente o reostato dos propulsores de estibordo. Porém era
impossível forçar uma mudança de rumo acentuado naquela altura. Também a técnica
arcônida tinha as suas limitações e continuava aceitando o princípio de que um corpo
voando à velocidade da luz não pode ser detido em instantes. E as manobras de
esquivamento não podiam ser executadas abruptamente, nem em ângulo reto. O máximo
que se podia conseguir era uma deflexão curva, com um arco de pelo menos dois milhões
de quilômetros. Afinal, massa em movimento era massa em movimento e nada podia ser
feito a respeito.
No entanto, a manobra forçada, que submetia o material da nave a uma rigorosa
prova de resistência, bastou para arrancar a esfera da zona perigosa no momento crucial. A
seta luminosa, formada por um fogo energético concentrado de alta intensidade, passou a
um escasso quilômetro da nave desviada, perdendo-se no vazio do espaço interplanetário.
— Bela recepção! — reclamou Rhodan, furioso.
Muito pálida, Thora encarou o comandante, cujos traços se contraíam de
preocupação. A seguir, aconteceu o que era inevitável diante daquele aglomerado de
naves.
Os pontinhos anteriormente avistados apareciam agora nos videoscópios como
corpos volumosos, agrupados no espaço em fileiras densas e traçando na escuridão
profunda do cosmo uma filigrana multicolorida.
A exclamação de angústia viera de Crest. Com os olhos fixos nas telas, fitava
estarrecido as naves que apareciam nitidamente. Eram de dois tipos diversos. Klein
focalizava justamente uma delas no localizador de curta distância. Tratava-se de uma das
unidades ovóides, presentes na área conflagrada em nítida superioridade numérica. O
propulsor traseiro desta nave expulsava jatos de luz extremamente intensa, cujo brilho
ofuscante feria os olhos.
Porém a quantidade delas não impedia que fossem rapidamente dizimadas pelas
naves adversárias. O espaço interplanetário de Vega enchia-se de catastróficas explosões
nucleares, sob o efeito das quais as naves ovóides se desintegravam em número crescente.
Pareciam completamente indefesas, o que se poderia atribuir em primeiro lugar à
volumosidade excessiva.
Os computadores já haviam revelado a Rhodan que as naves desconhecidas possuíam
reduzida taxa de aceleração. Com isso, suas manobras eram penosamente lentas. E iam-se
transformando em bombas, uma a uma, sob o impacto das setas luminosas.
— Elas não têm anteparos protetores! — gritou Klein, excitado. — Nem sistema
detector de energia, chefe! Não passam de tartarugas, não têm chance alguma!
Rhodan atentava para suas ousadas manobras de esquivamento. Caso a Good Hope
prosseguisse no rumo atual, mergulharia inevitavelmente no grosso da confusão.
Crest deixou escapar nova exclamação.
No vídeo mais amplo da popa surgiu outro tipo de nave. Em contraste com as
rotundas e pesadas formas antes avistadas, estas apresentavam o aspecto de um longo e
delgado cilindro. No meio deste destacava-se um forte abaulamento central. Como se
alguém tivesse atravessado uma castanha com um lápis, deixando-a espetada exatamente
no meio.
— Depressa! Aumente a deflexão! — gritou Crest, fora de si. Sua habitual
compostura desaparecera agora. Naquele instante, o sábio arcônida não era mais do que
um trêmulo feixe de nervos.
A resposta de Rhodan era dispensável. Com os propulsores soltando fogo, a Good
Hope procurava evitar o centro da batalha, porém continuava sendo alvejada. Havia uma
quantidade excessiva das misteriosas e desconhecidas naves espalhadas num extenso setor
espacial de Vega. Mais uma vez perceberam, no último instante, a seta luminosa, quase tão
rápida como a luz. O sistema de detecção positrônico entrou em ação automaticamente,
porém os propulsores recusavam fornecer empuxo mais poderoso. Já estavam funcionando
com carga máxima.
A seta atingiu a Good Hope em cheio. E ela saltou fora de seu curso, rodopiando,
como uma bola chutada com violência. No amplo videoscópio externo brilhou uma
descarga luminosa de fulgor ofuscante; um tremendo estouro acompanhou o fenômeno
luminoso. O corpo da nave, feito de aço arcônida, pôs-se a reverberar como um sino, em
conseqüência das vibrações resultantes do impacto.
O imaterial dedo de fogo continuou sua trajetória pelo espaço. Lá longe, uma das
naves cilíndricas se afastava velozmente. Fora de sua cúpula armada que partira o tiro.
Os tripulantes da cabina de comando viram Rhodan rir. Não podiam ouvir a risada,
pois o eco trovejante produzido pelo tiro quase fatal ainda reboava pelo recinto.
Crest continuava de pé diante das telas. A área conflagrada foi ficando para trás. As
naves espaciais, fielmente retratadas há pouco, voltaram a assumir a forma de pontinhos
luminosos. Em troca, a relativamente pequena nave esférica dos arcônidas deixou de ser
alvejada.
Muito atrás da Good Hope, as naves ovóides continuavam a explodir. Seu número se
reduzia mais e mais, principalmente porque novas formações inimigas acabavam de
emergir do hiperespaço.
A última situação crítica surgiu quando atravessaram com velocidade alucinante uma
massa de gás incandescente. Segundos antes, uma das naves ovóides explodira no local,
atingida pelo inimigo. Os anteparos protetores externos uivaram novamente seu protesto,
mas a Good Hope conseguiu passar incólume. À frente dela brilhava o décimo quarto
planeta de um sistema solar nunca imaginado. Parecia tratar-se de uma imensa esfera
gasosa, semelhante a Júpiter. Rhodan desligou os propulsores de estibordo; a cessação do
barulhento ronco do motor foi bem-vinda e a nave dirigiu-se em queda livre para o ainda
distante planeta.
— Grandes recursos é que eles não possuem! — comentou Reginald Bell, com a
irritante calma de um homem que nada consegue abalar. — Será que consideram aquela
beliscadinha arma energética? Quem tem comentários a fazer?
Bell olhou de esguelha para Rhodan, que se levantava do lugar do piloto.
Vagarosamente, aproximou-se dos dois arcônidas. Crest esboçou um gesto de recuo diante
do sorriso semidisfarçado do comandante. Mas logo Rhodan reassumiu o ar severo do
inflexível piloto de provas que não admitia situações ambíguas.
— Estava querendo dizer qualquer coisa antes de sermos atingidos — disse Rhodan.
— O que era?
O aspecto de Crest era lamentável. Pálido e desfeito, afundara numa poltrona.
— Eu estava enganado! — murmurou o grande cientista, com voz embargada. —
Cometi realmente um erro! Perdoe-me!
— Um erro? Ora, isso não é novidade que abale o mundo. O que ia dizer no
momento do ataque?
Os olhos vermelhos de Crest suplicavam: sua perturbação era evidente.
— Aquelas naves cilíndricas, com o bojo central... eu as conheço! Qualquer arcônida
as conhece. Não pode haver dúvida. Só uma raça em toda a galáxia emprega esse sistema
extraordinariamente incomum de aeronaves.
— E de onde vêm eles?
Crest vacilou. O Dr. Haggard conduziu-o de volta à sua poltrona. Dali, o sábio
arcônida explicou, abalado:
— Não é Árcon, é claro. A raça dos tópsidas provém de um tronco reptílico. São
altamente inteligentes, ativos e cruéis. Não têm nada de humanos! Dominam três pequenos
sistemas solares. Seu mundo principal é Topsid. Em relação à Terra, o sistema fica a cerca
de oitocentos e quinze anos-luz, no setor de Órion. O planeta Topsid gravita em torno de
Orion-Delta, a estrela dupla. Uma tem luz branca; a da outra é roxa. Não posso imaginar o
que é que os tópsidas procuram aqui. Foi a primeira raça colonial que se sublevou contra o
poder do Grande Império. Há uns mil anos, em tempo terrestre, enviamos algumas
expedições punitivas contra eles.
Rhodan deu uma curta risada.
— Há mil anos! — repetiu, suspirando. — Ora, meu caro! E ainda queria me
convencer de que seu povo conseguiu reunir energia suficiente para organizar uma
poderosa expedição de pesquisa! Aliás, eu posso revelar-lhe o que esses sujeitos
procuravam.
— Nós? — indagou o capitão Klein, inquieto.
— Exatamente! E nós, patetas, lhes fizemos o favor de nos colocar diretamente na
mira de seus canhões energéticos! Estamos às voltas com uma poderosa nação galáctica e
a Terra tem desesperadamente pouco com que se opor a ela. Não adianta aborrecer-se,
Thora! Seu famoso Grande Império encontra-se em derrocada. É tempo dos arcônidas
tomarem conhecimento do que se passa na periferia da galáxia. Ainda julga conveniente
chamar alguma daquelas naves pelo rádio? É evidente que os tópsidas conhecem
navegação interestelar. Talvez lhe ofereçam uma carona para Árcon, caso se disponham a
reconhecer sua posição de descendente dos soberanos arcônidas.
As palavras eram ofensivas. A única reação dos dois arcônidas foi a de abaixar as
cabeças. Rhodan afastou-se, mas foi detido pela pergunta de Crest:
— Mas a quem pertencem aquelas naves pesadonas? Viu com que facilidade se
deixavam aniquilar?
— Claro! Não passavam de um rebanho de mansas e tranqüilas ovelhas diante dos
ferozes agressores. Representavam exatamente o papel que nos tocaria, em escala mais
ampla, caso os tópsidas resolvessem invadir o sistema solar. Bell, quer fazer o favor de
tirar os dedos dos controles das armas? Se um só de nós perder a cabeça agora, teremos
aquele bando de lagartixas pululando sobre a Terra amanhã. Não descobriram, por
enquanto, seu pequeno engano; e não darão por ele enquanto os nativos de Vega
continuarem a reagir de maneira semelhante à que faríamos nós próprios. Mas os coitados
só podem se defender, serão inexoravelmente vencidos. Deve se tratar dos seres
inteligentes que habitam Ferrol, o planeta de Vega descoberto há dez mil anos por uma
viagem de exploração arcônida. Os seres, então primitivos, evoluíram para espaçonautas
capazes. E estão sendo forçados a engolir o angu preparado para nós.
Rhodan calou-se. A Good Hope disparava pelo espaço sem ser molestada. O campo
de batalha tinha ficado longe.
— E agora? — indagou Reginald Bell. — Sumimos do cenário? E, em caso
afirmativo, como?
Rhodan sentou-se pensativo em sua poltrona de comando.
— Sim, no interesse da Terra, temos que desaparecer; porém, discretamente. Vamos
atravessar o sistema de Vega em velocidade ligeiramente inferior à da luz. Depois teremos
que arriscar um hipersalto espacial. Tudo indica que a distorção estrutural não será
percebida no meio do caos reinante. Tem alguma coisa a dizer, Crest?
O arcônida sacudiu negativamente a cabeça. Rhodan deu início à programação.
Novamente os propulsores de estibordo da Good Hope entraram em ação, rugindo. A
manobra de retorno consumiria um considerável espaço de tempo, pois Rhodan não
pensava em desacelerar até zero, para depois rumar em sentido oposto.
As ordens se sucederam, breves e concisas. No pólo superior da nave esférica, o
major Deringhouse saiu, resmungando, da carlinga de seu caça. Havia contado o tempo
todo com uma emocionante expedição punitiva.
Três minutos após, os sensores indicaram a proximidade de objetos à frente da nave.
Destroços juncavam o trajeto a ser percorrido. Era evidente que, recentemente, houvera
violenta batalha nas proximidades do décimo quarto planeta.
— Interessante! — comentou Bell. — Será que há sobreviventes? Suponho que esses
tais de ferrônios conhecem trajes espaciais... Bem que poderíamos tentar conversar com
um deles.
Rhodan levou alguns momentos para responder, absorvido por um pequeno ajuste
nos controles. Todos os quatro propulsores da Good Hope começaram a rugir; desta vez,
porém, com os jatos em reversão.
Crest estremeceu. Mal aquele homem esguio tinha acabado de declarar que
precisavam afastar-se do sistema Vega o mais depressa possível, ele recorria a toda a
potência da nave para uma manobra de frenagem. Rhodan era imprevisível, uma pessoa
fenomenal. Ocorreu a Crest que em todo o Grande Império não existia mais ninguém
capaz de tomar decisões com tanta rapidez.
— Armamento em prontidão! — ordenou Rhodan, em voz rouca. — Sabe que a idéia
não é má, Bell?
— Parece que é bem fácil fazê-lo mudar de opinião, não é, Perry? — disse Thora,
ironicamente. — É só dar um palpite e você faz exatamente o contrário do que pretendia
antes.
Raramente se via Rhodan sorrir tão zombeteiro. A face de Thora tingiu-se de rubro
sob o olhar do comandante.
— Há um ligeiro engano — corrigiu ele, mansamente. — Não foi a sugestão de Bell
que me fez mudar de idéia e sim as informações mais recentes dos computadores
positrônicos. Olhe para estes diagramas! Os compridos canudos dos tópsidas não podem
comparar-se com a Good Hope em matéria de aceleração. Antes que consigam atingir a
velocidade da luz, temos dez oportunidades de sumir no hiperespaço. As naves ovóides
dos ferrônios são ainda mais vagarosas. O cérebro do computador determinou a natureza
da propulsão que empregam: geradores de fótons ultraconcentrados. Não se pode esperar
nenhum rendimento espetacular de propulsores desta espécie. Portanto, vamos examinar
de perto o que flutua aí na nossa frente, no vácuo.
— Destroços sem conta! — murmurou o Dr. Manoli. — Olhe! Os localizadores
respondem de todas as direções. Deve haver, de fato, sobreviventes.
Betty Toufry olhou para Rhodan com um sorriso tímido. Conseguira ler parte de seus
pensamentos. Rhodan fizera a Good Hope parar não porque a sabia superior às naves
inimigas. Pensava também nos seres vivos talvez existentes naquela área vizinha do
décimo quarto planeta, perdidos e abandonados no vazio.
A taxa de desaceleração era agora de quinhentos quilômetros por segundo. No hangar
dos pequenos caças de bordo, o major Deringhouse tornava a espremer a elevada estatura
na apertada carlinga pressurizada. Os homens da tropa de choque fecharam a cúpula
transparente sobre sua cabeça.
A manobra não fora nada fácil, visto que tinha que ser executada sob a intensa
atração gravitacional de um planeta gigante. O número quatorze devia ter três vezes o
diâmetro de Júpiter. O próprio Crest demonstrou surpresa diante das dimensões enormes
daquele mundo.
Os destroços do que haviam sido naves espaciais já iniciavam a lenta e inevitável
descida para a superfície do planeta, atraídos pela gravidade, antes que Rhodan
conseguisse posicionar a Good Hope em rumo e velocidade adequados para a operação de
salvamento. Buscas prolongadas no vazio resultaram no resgate de um sobrevivente. Um,
apenas...
Após trazer a criatura para bordo com os jatos de sucção, através da escotilha
estanque, verificaram que se encontrava semimorta por asfixia. Além disso, o corpo do
estranho estava coberto de queimaduras, causadas evidentemente pela radiação ultravioleta
da imensa Vega.
O pobre ser se mantivera trêmulo e intimidado num canto, até que as atenções dos
doutores Haggard e Manoli lhe provaram que ninguém atentaria contra a sua vida.
Tratava-se, efetivamente, de um ferrônio. Descendente dos que uma expedição de
pesquisa arcônida localizara há dez mil anos. Já haviam ultrapassado a idade da pólvora,
evidentemente. Porém Rhodan achou que a raça poderia ter avançado mais naqueles dez
mil anos. A humanidade havia precisado de apenas quinhentos para chegar da arma de
fogo ao primeiro foguete-satélite. Aplicando padrão semelhante, os ferrônios deveriam
conhecer há séculos as viagens interestelares.
Mas seus sistemas de propulsão tinham se detido no ponto máximo permitido pelos
princípios adotados. Uma evolução maior requereria conceitos inteiramente diversos.
Donde era possível deduzir que os ferrônios eram incapazes, por natureza, de
raciocinar em termos de quinta dimensão; portanto, criar um sistema matemático
correspondente não cabia em sua capacidade mental. E sem essa matemática em nível
superior, condicionada pelo poder do raciocínio abstrato, as viagens mais rápidas do que a
luz eram irrealizáveis. Em conseqüência, os ferrônios continuavam a fazer uso de seus
propulsores quânticos, extraordinariamente eficientes, e que lhes permitiam alcançar
facilmente a velocidade da luz.
Por outro lado, tinham desenvolvido uma tecnologia fabulosamente exata no campo
da micromecânica. Rhodan emitiu assobios de admiração ao examinar superficialmente
alguns pedaços dos destroços trazidos para bordo.
De uma maneira geral, era preciso reconhecer que os ferrônios eram muito superiores
aos homens em todos os sentidos. Jamais a Humanidade havia alcançado um estágio tão
avançado. Porém ferrônio algum podia medir-se com a técnica superior dos arcônidas.
Assim que o ferrônio foi embarcado e quando seus processos mentais começaram a
emergir da letargia da exaustão total, Rhodan comunicara pelo intercom a toda a
tripulação:
— Ele está voltando a si. Os mutantes vão lançar as primeiras bases para a
comunicação, por meio da telepatia. Ordeno que ninguém se refira ao planeta Terra. Não
esqueçam que a localização de nosso mundo deve permanecer em absoluto segredo. Muita
atenção neste particular, portanto! Para qualquer ser vivente, seja qual for seu nome ou
aparência, nós somos arcônidas! A Good Hope é prova evidente dessa afirmação. Além
disso, a aparência física com os arcônidas nos favorece. Risquem da memória, por
enquanto, o fato de sermos terrestres. Esqueçam até onde fica a Terra! É tudo!
A ordem era clara e explícita. Com uma sensação de amargura, os dois arcônidas
perceberam que Rhodan se preocupava apenas com seu mundo e com a Humanidade. A
atitude poderia passar por egoísta. Mas a própria Thora foi obrigada a admitir, a
contragosto, que a camuflagem era absolutamente necessária. Para ela, o súbito
aparecimento da raça reptílica fora um golpe severo.
O instrumento especial, de funcionamento totalmente positrônico, era mais uma das
maravilhas da técnica arcônida. Era o tradutor automático. Assim que registrou e
classificou os primeiros sons da língua ferrônia, a comunicação se processou com
facilidade.
Fazia três horas que o ferrônio tinha sido recolhido. Betty Toufry e John Marshall
anotavam telepaticamente uma série de dados que eram fornecidos à máquina tradutora.
Assim a tarefa era relativamente simples.
Crest e Thora, valendo-se do privilégio de possuir memória fotográfica, já
começavam a falar aos poucos a língua ferrônia. Enquanto isso, a Good Hope continuava a
descrever a ampla órbita em torno do décimo quarto planeta.
Perry Rhodan mantinha-se à parte do grupo empenhado na conversação, apesar de
ser alvo constante dos olhares do estranho. Este parecia ter percebido que era aquele
homem alto e magro quem dava as ordens.
Rhodan examinou-o atentamente. O ferrônio era de estatura relativamente baixa,
porém robusto e de músculos poderosos. Ferrol, seu planeta nativo, possuía uma gravidade
de 1,4 g. Portanto, o corpo atarracado não era de surpreender.
Braços e pernas eram do tipo humanóide; assim como a cabeça e a espessa cabeleira.
Os olhos eram miúdos e afundados por trás de uma fronte fortemente abaulada. A boca era
surpreendentemente pequena. A diferença mais flagrante com a raça humana residia na cor
da pele, de um azul pálido, o que contrastava com os cabelos cor de fogo. Enfim, não se
tratava de nenhum monstro. Devia haver, forçosamente, diferenças anatômicas, porém era
mais difícil determinar o fato de imediato.
Atento ao som das palavras que não compreendia, Rhodan tentava analisar uma
sensação indefinível que crescia dentro dele. Nada de concreto e perceptível; apenas uma
vaga e distante noção de perigo iminente.
John Marshall acercou-se da poltrona do comandante. O olhar do ferrônio o seguiu.
Quando Rhodan se voltou, o estranho empertigou-se, levando a mão direita ao peito.
Rhodan acenou com a cabeça. O traje espacial do ferrônio era de excelente qualidade, tão
bem acabado nos detalhes que permitia avaliar com precisão a adiantada técnica que o
produzira. Para Rhodan, era um tanto melancólico constatar o quanto a Humanidade estava
atrasada em relação àqueles seres. Não obstante, o ferrônio salvo demonstrava claramente
sua convicção de encontrar-se diante de gente infinitamente superior ao seu povo.
— Que há? — indagou Rhodan. — Problemas? A expressão de seu rosto não me
agrada.
O telepata mostrou um sorriso contrariado.
— Crest está enchendo o espírito do estranho com relatos fabulosos e mirabolantes
acerca do poderio do Grande Império! — queixou-se Marshall.
— Sei disso. Foi ordem minha. Que mais?
— Ordem sua? Essa não! Também deu ordem para contornar todas as questões
importantes e ficar perguntando insistentemente sobre o tal mundo da vida eterna? Há
aspectos que me parecem muito mais merecedores de atenção no momento.
— Ele não desiste, não é? — murmurou Rhodan. — A comunicação funciona?
— Maravilhosamente bem. A máquina é fenomenal e Crest já formou um
vocabulário bastante amplo.
— Vantagem da memória fotográfica... Que diz o ferrônio sobre a batalha?
John Marshall lançou um olhar ao desconhecido. Haggard acabava de administrar-lhe
a segunda injeção, que o ferrônio suportou calmamente.
— Chama-se Chaktor e comandava uma pequena nave, destruída há cerca de vinte e
quatro horas. Aqui, diante do décimo quarto planeta, ficava a primeira linha de defesa. A
segunda está sendo dispersada no momento presente. A terceira fica em torno do planeta
principal, o oitavo. Chaktor informou que as naves inimigas surgiram há uma semana, de
surpresa. O pânico tomou conta de Ferrol. A frota espacial dos ferrônios está sendo
totalmente aniquilada. O ferrônio implora freneticamente por ajuda, baseando-se no
ilimitado exagero das palavras de Crest. Chefe, isso não me parece direito!
Marshall mordeu os lábios. Parecia estar muito perturbado.
— Que mais possuem os ferrônios? — perguntou Rhodan.
— Muito pouco. Não têm a menor noção de viagens interestelares. Daí o imenso
respeito que nos devotam. Para Chaktor, você é um personagem miraculoso. Não possuem
anteparos protetores de espécie alguma. Quando uma de suas naves é atingida pelos raios
energéticos, está perdida. Dispõem de uma frota espacial muito numerosa, porém formada
em sua maioria por naves comerciais, equipadas com armas de pequeno calibre. Não
conhecem armas energéticas. Empregam principalmente projéteis-foguete dotados de
cabeçotes atômicos que explodem por impacto; e são espetacularmente eficientes.
Valeram-lhes brilhantes vitórias no começo da luta. Crest diz que os invasores tópsidas
têm armas defensivas verdadeiramente desprezíveis. Seus anteparos protetores não valem
nada. Chaktor confirmou isso. Mas os tópsidas aprenderam gradualmente a esquivar-se dos
foguetes atômicos. Estes alcançam mal e mal 30% da velocidade da luz, e demoram a
atingir o alvo. Sabendo disso, os tópsidas tomam medidas preventivas a tempo. Acertam,
também, os projéteis ferrônios em vôo com seus raios energéticos, fazendo-os explodir
muito antes de chegar ao destino. Chefe, nós devíamos...
Rhodan interrompeu-o com um gesto da mão.
— Um momento, John! Como é que os ferrônios possuem uma frota espacial tão
vasta? Existem outros seres inteligentes por aqui?
— Só subdesenvolvidos. Os ferrônios povoaram, além de seu mundo principal, só os
planetas sete e nove. Em especial este último. Respiram oxigênio, porém em temperatura
superior à que nós estamos habituados. O oitavo deve ser bastante quente, mas
suportaríamos viver no nono. O Ferrônio pede para ser deixado ali. O planeta se chama
Rofus.
Rhodan agradeceu. Ouvira o suficiente. Olhou para Bell, pensativo; este se reclinava
com aparente indiferença na poltrona ao lado.
— E então? Que lhe parece?
— Grato por indagar minha opinião! — resmungou Bell, com sarcasmo na voz. —
Foi-se nosso plano de sumir sem mais nem menos, percebe, Perry? Enquanto as coisas não
estiverem em ordem por aqui, a Terra corre perigo. Que representam os insignificantes
vinte e sete anos-luz para os tópsidas? Acho melhor explorar um pouco esta zona,
principalmente para conhecer os pontos fracos do adversário. Creio que podemos chegar a
um entendimento satisfatório com os ferrônios. E proveitoso ao mesmo tempo... Possuem
uma série de coisinhas de que a Humanidade poderia fazer bom uso. Gostei de seus
métodos de produção e fabricação; técnica e acabamento de primeira. Não custa examiná-
los mais de perto. Dificilmente correremos algum risco. A Good Hope sobrepuja as naves
tópsidas tanto em velocidade como em poder ofensivo. E ainda nos resta o recurso de
mergulhar no hiperespaço a qualquer instante, se for preciso.
Rhodan ergueu-se com ar meditativo.
— É, seu miolo ainda funciona... Era exatamente o que eu tencionava fazer. Localize
o oitavo planeta e forneça os dados ao computador positrônico. Não quero perder tempo.
Incomoda-me saber que o verdadeiro objetivo dos tópsidas era a Terra. Vamos olhar esses
caras de perto. Dê as ordens necessárias.
Momentos após, Rhodan estava diante do estranho. Chaktor dobrou humildemente
um joelho. Depois pôs-se a falar apressadamente. O tradutor automático dava a versão em
linguagem humana.
Crest interrompeu, excitado:
— Constatei a existência de algumas contradições surpreendentes nesta gente!
Possuem transmissores de matéria, coisa que só é possível mediante o conhecimento da
matemática pentadimensional. No entanto, os ferrônios não têm a menor capacidade para
construir tais aparelhos, que transportam corpos desmaterializados com a velocidade da
luz. O que é indício evidente da existência de uma raça superior entre eles! Chaktor falou
qualquer coisa sobre contato com entes superiores em época muito remota. Perry, você
precisa ir até o planeta principal dos ferrônios! Estou convencido de que o mundo da vida
eterna se encontra no sistema Vega. É de lá que procedem esses transmissores de matéria,
tenho certeza!
— Bem que eles me interessariam! — disse Rhodan, secamente.
— O cavalo de batalha de sempre, não é, Perry? Tudo pelo bem da Humanidade... —
interrompeu Thora com sarcasmo.
Rhodan voltou-se para Chaktor, cuja atitude era quase solene. Sentia uma impressão
estranha. Há quatro anos, ele próprio era bem mais ignorante do que aquele comandante
espacial ferrônio. Naquela ocasião, Rhodan seria nitidamente o inferior. Os olhos
vermelhos de Thora zombavam. Parecia adivinhar o que ia pela mente do comandante.
— Vou conduzi-lo ao nono planeta de seu sistema — disse Rhodan no microfone da
máquina de traduzir. — Pode providenciar que suas próprias naves não nos ataquem?
Chaktor aguardou a tradução. Depois a face achatada irradiou alegria. Novamente
repetiu a embaraçosa genuflexão.
— Distância para o oitavo cerca de onze horas-luz! — informou Bell.
Chaktor confirmou a indicação, fazendo uso de símbolos já conhecidos pelo tradutor.
O ferrônio olhava maravilhado para o pequeno aparelho. Pouco a pouco era levado a
considerar aqueles homens como deuses. Depois sua resposta chegou. Sim, ele poderia
transmitir o código adequado, caso lhe fornecessem um transmissor.
— Puxa, e agora? — exclamou Klein. — Que será que esses caras usam para
transmitir?
— Mostre-lhe o funcionamento dos aparelhos terrestres, temos alguns deles
instalados na nave. Talvez ele saiba como usar a onda curta normal. Garanto que não
conhecem o sistema de hipertransmissão.
Três horas mais tarde, segundo o relógio de bordo, o aprendizado terminara. Chaktor
não teve, aparentemente, dificuldade em entender o funcionamento do rádio terreno.
Betty Toufry, a menina telepata-, comunicou a Rhodan, com um sorriso
disfarçadamente zombeteiro:
— Chaktor se pergunta em que monte de lixo vocês poderiam ter recolhido esse
trambolho primitivo.
Thora explodiu numa sonora gargalhada. Rhodan fitou o estranho com ar atônito,
enquanto Bell praguejava entre dentes:
— Que diabo! É o mais moderno, avançado e complexo transmissor jamais
construído na Terra! E o sujeito vem me dizer que é um trambolho primitivo!
O capitão Klein disfarçou um sorriso, enquanto Rhodan, respirando fundo, procurava
uma saída diplomática.
— Betty, diga-lhe que adquirimos o aparelho de uma tribo selvagem num mundo
remoto, apenas por curiosidade. Nossa intenção era exibi-lo num museu.
O Doutor Haggard estava achando aquilo tudo engraçadíssimo.
Chaktor tomou conhecimento da resposta de Rhodan, o que o relegou novamente à
anterior posição de inferioridade.
— Pílula amarga essa! — disse Rhodan. — Doutor, pare com essas risadas!
Poderiam nos denunciar... E você, Thora, não me venha de novo com a perpétua acusação
de que seríamos uns ignorantes sem sua preciosa técnica arcônida. Com o tempo isso
satura, entendeu?
Rhodan ligou o sistema de radiocomunicação interna e postou-se diante do vídeo.
— Atenção! Do comandante a toda a tripulação: largada para uma curta transição de
cerca de onze horas-luz. Que nos levará à área espacial entre o oitavo e o nono planeta
deste sistema. Manter rigorosa prontidão de combate e não dar importância excessiva à
ligeira sensação de dor. É possível que nos precipitemos bem no meio de uma violenta
batalha. Fogo livre para todas as armas. Mostrem o que valemos. Major Deringhouse, de
prontidão para ataque, junto com o capitão Klein. Vou ejetá-los no espaço assim que
chegarmos. Ajustem os localizadores de contato dos caças aos sensores da Good Hope,
para poderem nos reencontrar. Em caso de emergência, aterrissem em Rofus, o nono
planeta. Chaktor anunciará nossa chegada. Verão uma cidade imensa na zona equatorial, a
única do planeta, que é uma espécie de colônia dos ferrônios. Fim!
Dez minutos depois, a nave alcançava a velocidade exata da luz. O enorme mundo
número quatorze ficou para trás. Não havia um só adversário à vista. O espaço
interplanetário do sistema Vega parecia ter sido totalmente evacuado.
Se horas atrás tinham acreditado estar no meio de uma acirrada batalha espacial,
agora se defrontavam com um verdadeiro inferno.
Os enervantes sinais dos detectores eram ininterruptos. O espaço todo estava repleto
de naves. Mas não se tratava evidentemente de uma competição pacífica entre duas
culturas de igual nível de civilização. E a nave subitamente surgida foi recebida com um
chuveiro de cintilantes raios energéticos. Antes mesmo que Rhodan superasse a dor da
transição, a Good Hope já se encontrava sob fogo cruzado.
Nos vídeos brilhava o nono planeta do sistema Vega. Pelo menos a transição de curta
distância funcionara com a mais absoluta precisão. Mas bem que Rhodan teria preferido
emergir no hiperespaço a alguns milhões de quilômetros dali. Mas talvez isso não viesse
alterar basicamente a situação, pois a feroz batalha se desenrolara praticamente num plano.
No entanto, as naves estavam espalhadas por uma área de alguns milhões de quilômetros
quadrados.
Antes que o eco dos gritos de comando de Rhodan se apagasse, Bell já abria fogo
contra o inimigo. Por entre o estrondoso trovejar dos raios energéticos acertando seus
alvos, os torretes armados da Good Hope entraram em ação. A mira era controlada
automaticamente. Todo o trabalho de Bell era conferir as coordenadas fornecidas pelos
localizadores e calcar botões. Mais uma demonstração da eficiência da tecnologia
arcônida.
Usando a força total dos propulsores, Rhodan arrancara a nave da área imediata do
fogo cruzado dos azulados raios energéticos. Mais uma vez o superdimensionado anteparo
de defesa provou ser imune a armas rotineiras, que não conseguiam nem rompê-lo, nem
neutralizá-lo. Apenas as furiosas descargas não podiam ser evitadas.
Além do intenso efeito térmico, a violenta repercussão se transmitia ao casco externo
da nave.
Pelo jeito, os tópsidas não possuíam armamento teledirigido mais veloz do que a luz,
pois o campo de repulsão mecânico-gravitacional da Good Hope ainda não fora obrigado a
entrar em ação. Ou então o inimigo preferia lutar exclusivamente com seus canhões
energéticos. Quando o clamor estridente do último impacto diminuiu, ouvia-se o pipocar
das armas arcônidas. Neste ponto, pelo menos a Good Hope estava muito melhor provida
do que várias naves tópsidas somadas. Como nave auxiliar de um cruzador de pesquisa
sempre exposto a riscos, o equipamento de defesa era suficientemente amplo para
satisfazer até o mais exigente artilheiro.
John Marshall tomava conta dos detectores; Quando a primeira linha das naves
cilíndricas atacantes ficou para trás da Good Hope, e os tiros de perseguição não
conseguiam mais emparelhar com a nave mais rápida do que a luz, Marshall anunciou o
aparecimento de novas unidades. Porém estavam mais espalhadas. Além disso, travavam
luta com um infindável enxame de naves ovóides, no meio das quais as explosões se
sucediam sem parar.
— Corrigir a mira! — gritou Rhodan no minúsculo microfone do radiotransmissor
embutido no capacete. Já não havia condições para a comunicação normal diante da
ensurdecedora barulheira reinante. — Temos que forçar passagem a qualquer custo, senão
nunca nos livraremos desse inferno! Thora, dê uma mãozinha a Bell. Acione as bombas
gravitacionais. Vejamos do que elas são capazes.
Bell espiou rapidamente para a sua esquerda, onde a mulher arcônida assumia o
comando dos manipuladores de controle.
“Bombas de gravidade”, pensou ele, com um ligeiro arrepio. “A mais poderosa arma
criada pelos arcônidas.”
Na realidade, não se tratava de bombas na acepção usual do termo. Ao menos Bell
achava impróprio dar o nome de bomba a um campo em espiral de energia estabilizada,
projetada com a velocidade da luz. Campos que eram quanta energéticos
extradimensionais, com a extraordinária capacidade de dissolver matéria comum,
arrancando-a da estrutura curva do espaço.
Luzes vermelhas brilharam na tela de mira de Bell. O localizador automático
detectara três alvos. Quando apertou os botões, os três pulsocanhões abriram fogo
simultaneamente, sacudindo com violência a nave de ponta a ponta, por efeito da força de
recuo dos tiros. Faixas roxas de energia se lançaram pela perpétua escuridão do espaço,
com a velocidade exata da luz. Não deixavam ao adversário tempo para percebê-las. Antes
que qualquer instrumento chegasse a acusar seu brilho, elas atingiam o alvo visado.
O inimigo ainda se encontrava a cerca de dois milhões de quilômetros de distância.
Precisamente sete segundos após o disparo, viu-se um relampejar por entre as densas
fileiras das naves tópsidas. Os impactos foram registrados pelos hipersensores antes que o
brilho ofuscante das explosões se tornasse visível, sete segundos mais tarde.
John Marshall manejava agora os pesados projetores neutrônicos. Seu efeito só se
tornava aparente quando se via a nave inimiga perder o rumo e vagar desarvorada no
espaço, por falta de mãos nos controles. Pois os ultraconcentrados raios neutrônicos
afetavam apenas a vida orgânica.
Thora lançou duas bombas gravitacionais. A tripulação acompanhou com o olhar o
trajeto das tremeluzentes espirais, afundando nas trevas. Duas unidades inimigas
desintegraram-se por entre ofuscantes explosões.
Rhodan nunca vira a bela e estranha mulher em tal estado. Absolutamente imóvel, ela
se limitava a tocar com as pontas dos dedos os botões de controle das terríveis armas.
Apenas nos olhos transparecia o fogo interior que a consumia. Sua educação inflexível
vinha à tona naquele momento e ela agia de acordo com a máxima fundamental da dinastia
arcônida soberana: quem quer que se oponha ao poder do Grande Império deve perecer.
— Eles devem ter percebido agora com quem lidam! — murmurou ela, com voz fria
e impessoal. — Cabeças ocas! Vou acabar com eles antes que consigam fugir!
Rhodan gritou nova série de ordens. A trajetória em arco iniciada não podia ser
alterada. A Good Hope ia ter que passar bem no meio das fileiras cada vez mais densas do
adversário, a toda a velocidade.
— Deringhouse! Aprontar para ejeção! — berrou ele no radiofone. — Abra uma
brecha nas fileiras, depois cubra nosso flanco. Fique perto de nós, entendido?
Deringhouse confirmou a ordem recebida. Jamais imaginara possíveis os
acontecimentos que presenciava. Enquanto a Good Hope em pleno vôo mantinha o fogo e
o decrescente bombardeio energético do inimigo totalmente confuso era neutralizado pelos
anteparos de defesa, os dois caças com Deringhouse e Klein chisparam para fora dos tubos
de lançamento. Já lançados com a velocidade da nave-mãe, ainda levavam a vantagem da
mobilidade maior. Afastaram-se da Good Hope em ângulo agudo e segundos após os
canhões fixos da popa despejaram fogo. Tratava-se de pulso-canhões de grosso calibre,
ocupando com seu volume a maior parte do espaço dos pequenos aviões. A apenas dois
segundos-luz das naves tópsidas, ambos os caças acertaram nos alvos pela primeira vez.
Depois a Good Hope emparelhou com eles e o grupo cruzou velozmente através de
nuvens de fogo, que instantes atrás haviam sido pesadas astronaves.
Também desta vez precisaram apenas de alguns instantes para atravessar as cerradas
filas inimigas. Todas as armas concentravam o fogo sobre a área que acabavam de cruzar.
A tripulação sentiu-se invadida por incontrolável sensação de euforia, incrementada pelo
excitado ferrônio, que saudava cada tiro com estridentes berros de alegria ou apoio.
Rhodan sabia dos riscos implícitos contidos naquela sensação de superconfidência. A
situação poderia sofrer uma súbita reviravolta. O mutante Tako Kakuta devia ter lido seu
pensamento. Arrancou o ferrônio de seu lugar diante das telas, empurrando-o para diante
do equipamento tele-radiofônico pronto para funcionar. Rhodan manejava os controles
com gestos rápidos e enérgicos. Os quatro propulsores em plena ação aumentavam ainda
mais o fragor da fantástica batalha.
— Diga a ele que envie sua mensagem! — gritou Rhodan para Betty Toufry. —
Depressa! As naves dos ferrônios começam a apontar na nossa frente. Meu Deus, como
são lerdas! Vou desacelerar!
Enquanto a Good Hope reduzia sua velocidade igual à da luz com o máximo poder
de repulsão, disponível, Chaktor começou a falar rapidamente no microfone. Ainda não era
certo que o captassem imediatamente. Devido à desaceleração, produzia-se um fenômeno
curioso: os raios energéticos das naves tópsidas, apesar de menos velozes do que a luz,
ganhavam terreno agora. Aproximavam-se mais e mais da nave em processo de
desaceleração constante.
Impossível pensar em manobras de esquivamento durante o processo de frenagem.
Portanto, Rhodan recebeu com estóica tranqüilidade os dois impactos — o homem
desprovido de nervos, o comandante que observava com calma férrea e não perdia um só
detalhe.
A nave recomeçou a vibrar. Apesar da maior abertura do foco do raio, devido à
distância percorrida, o impacto foi tremendo. Mas o destrutivo efeito térmico não chegou a
alcançar o casco da nave. O pessoal da central de força comunicou uma sobrecarga
passageira nos diversos reatores de corrente. O hipercampo de alta tensão devorava imensa
quantidade de energia, que nem o aparelhamento arcônida estava em condições de
fornecer.
— Não exagere! — gemeu Crest. — Lembre-se de que tem em mãos uma simples
nave auxiliar e não um cruzador equipado com máquinas poderosas!
Rhodan teve que rir. Crest tinha conceitos muito peculiares sobre potência e
capacidade destrutiva.
No rastro da Good Hope reinava a maior balbúrdia. Thora acionara também os
canhões desintegradores, capazes de desmanchar totalmente qualquer estrutura cristalina.
Os incansáveis aparelhos positrônicos acusavam fielmente os resultados obtidos.
— Passamos! — anunciou Bell, com voz neutra. Mas tinha o corpo todo banhado em
suor. — Os anteparos defensivos deles não resistem a uma só de nossas armas.
— Obtivemos contato! — gritou Tako Kakuta, agitando as mãos, excitado. —
Chaktor conseguiu se comunicar! O pessoal dele já nos percebeu. Temos permissão para
atravessar as linhas dos ferrônios quando for preciso.
Rhodan virou-se. Na ampla tela do videofone via-se o rosto sorridente de um
Ferrônio idoso. Um oficial superior, obviamente. Apontando para o painel de controle,
Chaktor despejou nova torrente de palavras no microfone. O som das palavras se perdia
por entre o fragor das armas em ação e do rugido dos motores. Apenas os dois telepatas se
encontravam em condições de inteirar-se do conteúdo mental do nervoso ferrônio.
Betty alinhavou uma explicação através do fone de seu capacete.
— Aquele é o comandante da frota ferrônia. Comunicou nossa aparição ao quartel-
general no nono planeta. Chaktor está combinando um código suplementar, válido
especialmente para nós... Espere! O comandante está fazendo um pedido insistente: quer
que continuemos a prestar-lhe ajuda na batalha. Perry, ele diz que está disposto a passar-
lhe o comando geral!
Rhodan não conseguiu reprimir uma praga. O alucinante ímpeto da Good Hope
dificilmente poderia ser contido antes de chegar às linhas das naves ovóides. Os
propulsores já sobrecarregados não se prestariam de maneira alguma a uma desaceleração
superior aos quinhentos quilômetros por segundo que vinha fazendo.
— Diga a ele que se defenda! — ordenou Rhodan. — Vou atacar o inimigo pelos
flancos e do alto. E mande Chaktor dar o recado de que é impraticável organizar uma
frente de defesa eficiente com uma única nave. Nossa atuação terá que reduzir-se a ataques
de provocação, mais não podemos fazer.
Concretizara-se, pois, o dilema sempre presente no subconsciente de Rhodan. O
observador neutro, vindo apenas para avaliar a situação, acabara se tornando participante
ativo de acontecimentos que, por enquanto, não representavam risco iminente para a
Humanidade. Porém forçavam Rhodan a tomar medidas preventivas, rechaçando os
agressores tópsidas.
Eles não eram humanos. Quando se compenetrou desse fato, sua própria condição de
homem tornava inevitável sua intervenção no conflito. Pela primeira vez na sua existência
concordou com a máxima arcônida de que entes não-humanos só poderiam ser tolerados
em circunstâncias muito excepcionais. Pois regiam-se por uma ética muito diversa,
alimentando conceitos existenciais incrivelmente estranhos. Se apareciam com más
intenções, não havia outra alternativa a não ser a guerra de extermínio.
A Good Hope encontrava-se a apenas alguns segundos-luz das oscilantes linhas
ferrônias quando ecoou o clamoroso som de alarme emitido pelos hipersensores. Junto
com o berreiro dos alto-falantes, a tremenda zoeira se transformava em algo quase
palpável. Depois os alto-falantes emudeceram de repente, assim como as indicações
luminosas da tela dos instrumentos.
Algo de proporções monstruosas devia ter abalado a curvatura estrutural do universo
normal nas imediações. O anteparo protetor da Good Hope foi percorrido por cintilante
luminescência. Por segundos, o campo energético entrou em completo colapso. Os reatores
de corrente giraram em seco, sem carga alguma. Descargas coruscantes saltavam
intermitentemente dos fusíveis dos conversores de energia. Os supersensíveis sensores
estruturais se fundiram. O odor acre e penetrante invadiu a cabina de comando.
Compreendendo intuitivamente o acontecido, Rhodan deu ordem para a colocação dos
capacetes pressurizados. As esferas transparentes foram encaixadas nos aros magnéticos
dos trajes espaciais. Automaticamente entraram em funcionamento os sistemas vitais de
fornecimento de ar condicionado, oxigênio e radiocomunicação.
Reduzida a uma velocidade correspondente a apenas 25% da da luz, a Good Hope
viu-se de repente no meio de uma descarga energética de inacreditável intensidade.
Chamas azuis envolveram o casco externo de aço. Todo o poder ofensivo até então
desenvolvido pelas naves invasoras tornava-se insignificante diante daquela força titânica.
O grito de pavor foi ouvido por todos. Alastrando-se por intermédio dos alto-falantes
embutidos nos capacetes, acendeu nos cérebros humanos uma centelha de pânico. Rhodan
viu Crest correr para o painel do hipercomunicador. Antes que as oscilações da nave se
estabilizassem, o cientista arcônida começou a falar diante das telas transmissoras
iluminadas.
Até então Rhodan estivera entregue à tarefa de manter a Good Hope mais ou menos
sob controle. Deu, então, com o monstruoso vulto de metal e energia que emergia do
hiperespaço, a cerca de cinqüenta quilômetros de distância dali.
— Não! — gemeu ele. Depois berrou: — Thora, isso é...?
— Uma nave de guerra arcônida! — completou ela, afobada. — Da classe imperial, o
último modelo desenvolvido pelo Império. Conheço bem o tipo. Eu poderia conquistar um
sistema solar inteiro com ela. Perry, nossa gente está chegando! Crest, transmita o código
de reconhecimento. Lá em Árcon devem ter percebido o que ocorre em Vega. Veja só,
Perry! Um gigante invencível, equipado com magníficas armas. Deve ter um diâmetro
mínimo de oitocentos metros, segundo os padrões terrestres. Eu...! O que está fazendo?
As juntas dos dedos crispados de Rhodan se abateram sobre o reostato que
comandava os quatro propulsores principais. Luzes de controle piscantes indicavam uma
reversão de cento e oitenta graus nos campos de força dos jatos. Mal acabara a manobra de
frenagem, a nave retomou impulso com o máximo de velocidade. O rosto de Rhodan
estava contraído. Reginald Bell foi o primeiro a compreender. Seu grito rouco de alerta se
transmitiu através do intercom. Apenas os dois arcônidas continuavam radiantes. Mas
momentos depois Crest caiu em si e afastou-se do hipercomunicador, profundamente
perturbado.
— Contato nulo! — queixou-se ele. — Mas o computador central da nave de guerra
deveria ter identificado imediatamente o código dado. Não compreendo o que...!
— Ainda não percebeu que naquela nave não há um só arcônida? — gritou Rhodan,
exaltado.
— Ela está dando volta e abre fogo contra as linhas ferrônias! — anunciou a voz do
mutante Ralf Marten que estava tomando conta dos detectores.
Rhodan não podia fazer mais do que já fizera. O gigante espacial, produto máximo da
técnica arcônida, não perdia terreno para a Good Hope em fuga. Apesar de suas
impressionantes dimensões, conseguia uma taxa de aceleração idêntica. Quando o raio
violeta se projetou da gigantesca esfera, era tarde demais para desviar. Disparado com a
velocidade exata da luz, percepção e impacto do raio foram simultâneos na relativamente
minúscula nave auxiliar do ex-cruzador arcônida. O artilheiro da nave de guerra não lhe
concedera a menor chance.
A potente faixa energética, ultraconcentrada, media bem quarenta metros de
diâmetro. Caso tivesse atingido a Good Hope em cheio, esta se transformaria
instantaneamente numa nuvem gasosa. Porém a nave resistiu ao tremendo impacto
produzido pelo tiro de raspão. Descargas flamejantes explodiram ruidosamente nos
anteparos de defesa; o campo energético desmoronou, impotente para opor-se a forças tão
poderosas. Reduzida agora a uma simples partícula de pó, a esfera espacial virou joguete
indefeso de uma tremenda onda energética, desferida pelo gigante voador sem maiores
preocupações, apenas de passagem, para aproveitar a situação.
Rhodan ainda chegou a perceber que quase toda a maquinaria da Good Hope tinha
deixado de funcionar. O baque violento de comportas de segurança fechando-se
automaticamente provava que mesmo o tiro de raspão provocara tremendos estragos.
Antes de ser arrancado de seu assento diante dos controles, ainda escutou o incipiente
zumbido da reversão dos campos de força. Processo automático, cuja finalidade era
canalizar, em caso de catástrofe, a energia disponível para os amortecedores de inércia. Se
isso não tivesse acontecido, não haveria mais vida na nave violentamente arrancada de seu
rumo por uma força extraordinária.
O major Deringhouse, cujo veloz caça se havia aproximado até uma distância de
cerca de dois quilômetros da Good Hope em virtude da manobra de frenagem desta, viu
que a nave esférica rodava desarvorada pelo espaço, como uma bola chutada com
violência.
Só Deringhouse se encontrava em posição de verificar que o terrível raio energético
tocara apenas a curvatura do pólo inferior da nave. No entanto, ele estava incandescente. O
aço arcônida derretera como manteiga ao sol ardente do deserto. Cintilantes vapores
metálicos se desprendiam ainda da parte inferior da esfera. A Good Hope arrastava
consigo pelo espaço uma extensa cauda luminosa, como se fosse um cometa.
A luminescência dos anteparos defensivos se extinguira. A única avaria visível agora
era o pólo inferior em brasa.
Deringhouse chamou desesperadamente Rhodan e os outros tripulantes a bordo da
Good Hope, porém não obteve resposta alguma. Só lhe restava acompanhar a pobre nave
ferida em sua trajetória de fuga forçada. Muito adiante o supergigante esférico deslizava
pela escuridão do espaço, com os torretes armados espalhando destruição. Estava
transformando as semi-organizadas linhas ferrônias num confuso amontoado de vultos
fugitivos, dominados pelo pânico total. O número das naves ovóides reduzia-se
aceleradamente sob o impacto dos tremendos golpes desferidos por um atacante de poder
ofensivo infinitamente superior.
Era um golpe fatal para os ferrônios. Pálido e desfeito, Deringhouse tinha os olhos
fixos nas telas de seu caça. A Good Hope corria em direção do nono planeta, com a avaria
mortal em seu casco brilhantemente rubra.
— Acho que eles sobreviveram ao tiro! — disse de repente uma voz no alto-falante
do telecomunicador de bordo do caça. Era o capitão Klein, no segundo aparelho. —
Aguardemos, está bem? Foi apenas um tiro de raspão. Se for preciso, posso tentar engatar
no canal de lançamento superior. Eles voam apenas com 30% da velocidade da luz.
— Tiro de raspão?! — exclamou Deringhouse, com um riso sarcástico. — De onde
será que surgiu o diabo daquele monstro espacial? Apareceu de repente... Ande,
acerquemo-nos deles. Vão direto para o planeta nove!
Reduzida a dois propulsores em funcionamento precário, a Good Hope precisou de
oito horas para completar a viagem. Poderia ter desenvolvido velocidade maior caso os
neutralizadores de inércia estivessem funcionando; mas estavam seriamente avariados. E
com eles fora de ação, a desaceleração tinha que se limitar à capacidade de absorção dos
projetores, cujo funcionamento era intermitente.
A penetração na densa atmosfera do nono planeta assemelhou-se a um mergulho do
alto na água. Rhodan viu-se obrigado a submeter a tripulação a uma desaceleração de
gravidade extremamente severa, pois as forças de inércia geradas não podiam mais ser
absorvidas. Também tivera que ligar rapidamente a carga máxima de retropropulsão, pois
ao primeiro contato com as moléculas de ar deixaram de funcionar os projetores de
campos de absorção.
Portanto a nave auxiliar se precipitou através das massas de ar cada vez mais densas
como um meteoro em brasa. Caso os aparelhos antigravitacionais tivessem recusado
igualmente funcionar, a Good Hope se espatifaria contra o solo do planeta. No entanto,
com a nave quase desprovida de peso, foi possível equilibrá-la ainda, se bem que a
aterrissagem não fosse das mais suaves.
Todas as instalações da metade inferior da nave haviam sido destruídas. Seria
impraticável fazer reparos durante a morosa operação de frenagem; além da elevada
temperatura reinante na zona avariada, surgira nela uma mortal radiação gama.
Numa fração de segundo, a Good Hope fora transformada num destroço indefeso. Já
não havia condições para pensar em vôos mais rápidos do que a luz. Os hiperconversores,
essenciais para a formação dos campos estruturais de defesa, haviam sido totalmente
destruídos. O grupo de reparos, protegido por trajes espaciais, só encontrou montinhos de
metal fundido por ocasião da vistoria feita posteriormente. Os demais aparelhos poderiam
ser consertados, mas aquele equipamento essencial estava definitivamente perdido.
Antes de mergulhar na atmosfera, sob a orientação de Chaktor, Perry Rhodan tomara
consciência do irreversível fato de que se tornara prisioneiro do sistema Vega.
Após a descida no espaçoporto da cidade principal do nono planeta, foram recebidos
com bastante frieza pelos oficiais ferrônios. Estes limitaram-se a providenciar a retirada da
nave severamente avariada da pista de aterrissagem desprotegida. Agora a Good Hope
repousava num hangar subterrâneo, estalando em todas as juntas enquanto se processava
gradualmente o resfriamento da massa superaquecida. O recinto não apresentava nada de
extraordinário; em qualquer ponto da Terra se encontraria um semelhante.
Klein e Deringhouse tinham aterrissado sem maiores problemas. Rhodan enviara-os
novamente ao espaço, a fim de prestar apoio à frota ferrônia em sua precipitada retirada e
escoltá-la até a volta ao oitavo planeta. Aquela pequena colaboração em prol da defesa
comum lhe parecera imprescindível.
Quando Deringhouse anunciou pelo hiperrádio que a gigantesca nave aparecida de
surpresa se juntara às fileiras dos tópsidas, um sorriso frio surgiu nos lábios de Rhodan.
Dali em diante, pouco falou. Encontravam-se num mundo alheio, entre seres estranhos,
que pareciam encarar o desastre ocorrido com a Good Hope com sentimentos
contraditórios.
A análise psicológica da situação efetuada pelo Dr. Haggard fora quase
desnecessária. Mesmo sem ela, Rhodan sabia que o vivo entusiasmo inicial da tripulação
por ele, e a confiança no poder ofensivo da Good Hope tinham diminuído
consideravelmente.
Chaktor, o ferrônio resgatado do vácuo, ocupava passivamente uma poltrona na
cabina de controle. Bell e uma equipe de técnicos tentavam recuperar pelo menos a
aparelhagem de controle mais importante. Crest parecia ter desmoronado interiormente;
matinha-se num canto, silencioso e apático. Thora, ainda mais suscetível do que o sábio
arcônida, debatia-se contra um incipiente colapso nervoso.
Os mutantes circulavam, procurando avaliar as circunstâncias. Ralf Marten, o homem
dotado das qualidades mais peculiares em todo o grupo, rondava ã sua maneira, por perto e
por longe: há mais de uma hora não se movia da poltrona, rígido e hirto como se estivesse
em transe. Periodicamente relatava, em voz impessoal, o que observara através dos olhos
de algum chefe ferrônio, ou o que escutara pelos ouvidos dele. Pelo que informava, os
habitantes do planeta não nutriam intenções malévolas contra os visitantes humanos. O
sentimento predominante era de profunda desilusão, diante do súbito fim das esperanças
despertadas pelo aparecimento da espaçonave terrena. Os telepatas confirmaram as
observações de Ralf Marten.
Diante disso. Rhodan deu ordem para recolher os guerreiros-robôs, prontos para
entrar em ação, ao compartimento de carga da nave. Reginald Bell emergiu da estreita
portinhola das escadas de emergência. Os elevadores antigravitacionais já não
funcionavam. Resmungando baixinho, ele se desembaraçou do pesado traje protetor e
estendeu a mão para um cigarro. Entrementes, as pessoas presentes na cabina de comando
tinham adquirido a impressão de que Rhodan se transformara de repente num calado
sonhador. Fazia horas que não pronunciava uma só palavra.
Mas ergueu a cabeça com a chegada de Bell. Vagarosamente ele se levantou do
assento que ocupava. Os olhares dos dois homens se cruzaram.
— E agora?
As palavras ficaram no ar, carregadas de inquietação.
Bell deu de ombros. Esmagou o cigarro recém-aceso sob a sola do sapato.
— Fim da linha para nós! — declarou, sem o menor traço de emoção no rosto. —
Aquele raio energético da supernave acabou com a Good Hope. Começo a compreender
agora as contínuas alusões de Crest, classificando nosso veículo de nave auxiliar. Não
passava de porcaria diante de uma nave de guerra autêntica, apesar de nos julgarmos
possuidores de uma arma poderosa.
— Foi suficiente para revidar o ataque das naves tópsidas!
— Certo, mas faríamos feio diante de um cruzador arcônida. E quando se topa de
cara com uma supernave que lança raios energéticos de diâmetro quase superior ao da
Good Hope, então...
Bell interrompeu-se, com uma risada seca. Depois concluiu:
— Pois é, que mais posso dizer? Estamos encalacrados. Foi quase um milagre
conseguirmos aterrissar mais ou menos inteiros. Os pulsopropulsores precisam de
completa revisão. Viagens interestelares estão fora de cogitação. E como os ferrônios
desconhecem os princípios envolvidos no sistema, nosso destino é ficar em Vega até o fim
de nossos dias. Em resumo: a pior calamidade jamais sofrida até hoje pela Terceira
Potência. A central de força pode ser reparada. Portanto poderemos pelo menos notificar a
Terra. Daqui por diante, vai depender do coronel Freyt mantê-la forte e unida. Se a sorte
nos favorecer de maneira extraordinária, nosso pessoal talvez venha nos buscar daqui a uns
dois anos, quando concluírem a construção das novas espaçonaves.
— A idéia é sedutora, mas improvável — corrigiu Rhodan, friamente. — Lembre-se
de que as novas naves jamais levantarão vôo sem nossos conhecimentos especializados.
— Intensa comoção em área próxima! — avisou Betty Toufry, a telepata. De olhos
fechados, ela continuou a dizer: — Grande consternação entre os ferrônios. Pensamentos
confusos se cruzando. Um alto dignitário abandonou seu povo.
— Marten, tente introduzir-se na mente de um ferrônio bem informado. De
preferência um dos que se encontram no local que Betty estuda. Ajude-o, menina!
Marshall, entre no circuito também.
Entre Rhodan e Bell surgiu uma aura luminosa, que deu lugar ao aparecimento do
teleportador Tako Kakuta. O frágil rosto infantil mostrava evidentes sinais de cansaço.
Desde a aterrissagem o rapaz estivera constantemente em movimento.
— Caos em todo o planeta! — anunciou ele. — Mas parece que os tópsidas
desistiram de um ataque direto; colocaram apenas algumas naves de observação em órbitas
bem afastadas. O planeta é jovem, o clima terrestre, o povoamento escasso. Há oceanos,
montanhas e planícies muito semelhantes às da Terra. Esta cidade se chama Chuguinor, a
única concentração populacional mais densa do planeta, que leva o nome de Rofus. É aqui
que fica o espaçoporto principal, só que não vi muitas naves ferrônias. Devem estar todas
no espaço. Apenas uma ou outra unidade avariada ficou em terra. Novas ordens, chefe?
— Descanse um pouco, Tako — murmurou Rhodan, absorto. — Você parece
fatigado. Por enquanto pouco nos interessa o aspecto da paisagem. Este planeta não deve
diferir muito de dez mil outros da mesma espécie. Interessante... aos poucos começo a
raciocinar em termos cósmicos. — Rhodan riu, depois acrescentou, com um sorriso: —
Nada de esforços desnecessários agora, Tako! Em breve vou ter que destacá-lo para uma
missão bem difícil.
Alertado pelo tom da voz de Rhodan, Bell fitou-o, intrigado. Depois comentou:
— Você anda tramando alguma coisa, não é?
O hipertransmissor trazia uma mensagem do major Deringhouse, cuja.face se tornou
visível na tela. Foi um bom pretexto para poupar Rhodan de responder.
— Estamos perto do planeta principal — informou Deringhouse. — A derradeira
linha de defesa dos ferrônios está sendo destroçada. Abatemos sete naves tópsidas, mas
agora a grandona anda olhando para o nosso lado. Parece não estar gostando de nossa
interferência. Que faço, chefe? O gigante vem em minha direção. Estou com ele na mira.
Ataco?
—Você ficou louco? — gritou Rhodan.
— Trate é de dar o fora, e depressa, ouviu? Com toda a potência das máquinas!
Tática de esquivamento e cuidado para não se deixar espetar pelas setas de fogo do
gigante. Ainda vou precisar de você, rapaz! Volte imediatamente!
— Chefe, os ferrônios não vão gostar! Cada caça nosso vale por cem das naves
ovóides. Por incrível que pareça, acabamos sendo a espinha dorsal da frota ferrônia.
— Caia fora, já disse! Klein também! Se a nave de guerra não for no encalço de
vocês, podem voltar para a luta. Mas por enquanto tomem distância. Que tal a cena em
torno do oitavo planeta?
— Os tópsidas começam a aterrissar. Sem lançar grandes ataques. Contentam-se com
o bombardeio de locais determinados; centros militares, provavelmente. Estão poupando
as cidades. Posso contar nos dedos as explosões nucleares lá embaixo. E nem são das
grandes.
Rhodan desligou, comentando:
— Bem que acertei quando preferi não pousar em Ferrol. Aquilo virou um inferno.
As lagartixas vão aterrissar, instalar-se na área e dar início à conquista dos planetas-
colônias vizinhos. Por enquanto estamos seguros aqui. Que tem ele?
Rhodan percebera que Chaktor dialogava diante do videofone comum com um
companheiro de raça.
Bell prestou atenção. Crest mantinha-se na mesma atitude de apática resignação,
desinteressado do que acontecia.
Ninguém aguardava novidades naquele momento. Deringhouse anunciou
alegremente que a nave gigante se desinteressara de vez pelos caças, aprestando-se, pelo
jeito, para aterrissar no oitavo planeta.
— Não ganhamos em velocidade, mas somos mais ágeis do que ela — continuou a
informar Deringhouse.
— Crest!
O chamado foi tão enérgico que o arcônida se ergueu num pulo. Viu-se diante de um
homem de expressão dura e decidida.
— Antes que torne a mergulhar novamente na letargia, quero uma curta informação.
Tem certeza de que a nave gigante é um vaso de guerra de sua raça?
— Claro! Que outra espaçonave seria capaz de nos derrotar?
— É pouco provável que arcônidas participem de uma invasão promovida por seres
não-humanos. Portanto, a nave deve ter tripulação tópsida. Sabe me dizer como é que esses
indivíduos conseguiram se apoderar de uma das naves mais poderosas da frota imperial?
Crest deu de ombros, desanimado, sem encontrar resposta. Thora fitava com olhar
ausente a parede mais próxima.
— Existem duas possibilidades — continuou Rhodan. — Ou a nave foi entregue aos
tópsidas por oficiais arcônidas decadentes, indiferentes ao destino de sua raça, ou foi
simplesmente capturada pelo inimigo. O que não seria de admirar, diante da inigualável
passividade e apatia de seu povo. Em qualquer dos casos, porém, pergunto-me como é que
os tópsidas conseguem manejar tão bem o complexo aparelhamento de uma espaçonave de
guerra arcônida. Talvez as duas hipóteses sejam válidas: arcônidas cativos passaram seus
conhecimentos aos tópsidas.
— Isto é um insulto! — protestou Thora.
— Apenas repetição do que ocorreu conosco. Vocês estavam em situação difícil e
compartilharam sua ciência conosco. Só que caíram nas mãos de seres humanos e não de
tópsidas. Nisto reside a diferença. Thora, peço que inicie imediatamente o treinamento dos
meus homens!
Ela ergueu a cabeça, surpresa. Rhodan encaminhou-se para o ferrônio, que
prosseguia em sua animada palestra diante do videofone. Na tela, além do rosto de seu
interlocutor, via-se um vasto recinto abobadado.
— Que treinamento? — indagou a arcônida, com evidente incompreensão. O
interesse de Crest parecia despertar, se bem que sua testa se enrugasse de preocupação.
Bell sorriu. Conhecia a fundo seu ex-capitão. Para ele, a palavra impossível não existia.
— Perdi sete homens na batalha. Portanto você, que já comandou um cruzador de
guerra vai se encarregar de instruir os quarenta e três sobreviventes no manejo dos
principais instrumentos de uma supernave bélica. Ou ela pode ser controlada por um só
homem?
— Nunca! Seriam imprescindíveis pelo menos trezentos homens especialmente
treinados, apesar da automatização quase total. Perry, você enlouqueceu! Não pode...
— Posso e não vai demorar muito! — interrompeu Rhodan, secamente. — Ou acha
que pretendo passar o resto de meus dias num planeta de Vega? As naves ferrônias não
ultrapassam a velocidade da luz; portanto não me interessam. E jamais entenderemos o
funcionamento daqueles trambolhos tópsidas. Logo, só nos resta a opção de pensar na
supernave arcônida, pelo menos seu manejo nos deve ser mais familiar. Vamos abocanhar
o naco maior, entendeu? Inicie o treinamento imediatamente. Obrigado!
O chefe falara. Os presentes trocaram olhares significativos. Os dois arcônidas ainda
não haviam se recuperado da surpresa. Por fim, Thora murmurou:
— Já lhe ocorreu que a nave de guerra está aterrissando no oitavo planeta?
Rhodan sorriu de leve.
— Estou começando a me preocupar com este aspecto do problema — disse,
mansamente. — Já olhou para esta tela? Observe aqueles imensos aparelhos em formato
de coluna ligados a potentes cabos de força. Deve estar lembrada de que Crest se referiu a
algo semelhante a transmissores de matéria, com os quais os ferrônios poderiam transladar
qualquer espécie de matéria. Pois bem, o que cintila naqueles campos energéticos bem
pode ser vida orgânica!
O zumbido surdo proveniente dos alto-falantes chamou-lhe a atenção. Chaktor
apontava excitado para a tela, gritando algumas palavras para Betty Toufry. Ela traduziu
sem demora:
— Vejo na mente dele que pensa numa pessoa altamente colocada. Está se
definindo... Dá ao dignitário o nome de Thort. Não é um nome próprio, e sim um título.
Assim como rei ou imperador. Não, não é bem isso... O Thort é o Senhor, o
governante.
— Estão abandonando o barco que soçobra — murmurou Rhodan, semicerrando os
olhos. — Chegam mulheres e crianças, também. Portanto, a família governante evacua a
pátria ameaçada para vir refugiar-se aqui. As coisas estão ficando interessantes. Que foi?
Chaktor dirigia-se a Rhodan, numa arenga nervosa. Betty captou o sentido das
palavras lendo a mente do ferrônio.
— O Thort quer conferenciar com você, imediatamente. O comandante da frota
ferrônia fez um relato completo há algumas horas. O Thort está perfeitamente a par de
nossa atuação. Sabe igualmente que fomos alvejados. Não vai ter que perder tempo em
explicações.
Rhodan engoliu em seco; depois pigarreou. Bell foi menos reticente. Respirando
fundo, opinou:
— Puxa, se o chefão em pessoa se digna pisar num transmissor só para falar com
você, estamos feitos! Essa gente é bem superior ao gênero humano. Caso consigamos um
entendimento com o Thort, o futuro pode ser risonho. Nós...
— Em primeiro lugar, temos que voltar para a Terra — interrompeu Rhodan, com
sarcasmo. — No momento, precisamos manter a aparência de superioridade. Aliás, não
nos resta outra alternativa; temos que poupar o coitado de uma tremenda desilusão. Parece
que nós e a Good Hope representamos o recurso derradeiro para a salvação deles. Além
disso... — Rhodan fez uma pausa para pensar, e continuou: — ...além disso, é muito fácil
negociar com oprimidos e refugiados. Costumam ser acessíveis a argumentos lógicos.
Prefiro tratar com o Thort aqui na cabina de comando. Eu me sentiria inseguro demais lá
fora. Bell, ligue a máquina de traduzir. Precisamos aprender o idioma ferrônio. Crest pode
nos dar uma mão com um breve hipnotreinamento. A memória do aparelho já possui um
bom estoque de vocábulos.
Rhodan fitou Chaktor que fremia de reverente antecipação. Evidentemente este seria
o primeiro encontro de sua vida com o Thort.
— Vamos com calma, Perry! — observou Bell. — Afinal, o homem domina todo um
sistema planetário!
Rhodan aproximou-se do tradutor automático. Chaktor seguiu-o, emocionado.
— Betty, diga que o comandante desta espaçonave solicita a visita do Thort, uma vez
que só aqui poderão ser superadas as dificuldades de comunicação; o aparelho destinado a
isso não é portátil.
A telepata transmitiu o recado a Chaktor, através da máquina; imediatamente, o
ferrônio repetiu a mensagem no telecom, em seu próprio idioma. A confirmação levou
apenas alguns segundos: sim, o Thort viria. Na tela do vídeo surgiu um ferrônio de meia-
idade.
— É Lossos, o mais eminente cientista ferrônio — informou Betty.
Rhodan murmurou algumas palavras no minúsculo transmissor em seu pulso. No
compartimento de carga da nave, os guerreiros-robô despertaram. Com passos pesados,
mas surpreendentemente rápidos, marcharam pela ampla rampa de descarga para o ar livre.
— Não faça bobagens! — cochichou Bell, preocupado. — Para que isso?
— Para impressionar, mais nada! — respondeu Rhodan. — Marshall, seu uniforme é
bastante decorativo. Sabe berrar?
— Como um touro, chefe, se for preciso.
— Pois então, poste-se no alto da rampa e comande os robôs. Quero cerimônias
militares em grande estilo, apesar de achá-las ridículas há alguns dias. O Thort deve ser
recebido com todas as honras.
O mutante desapareceu.
— Será que vai dar certo? — indagou Thora, nervosa. — O que vai dizer ao Thort?
Não se esqueça de que lida com uma raça superiormente civilizada.
— Sei disso! — concordou Rhodan, com franqueza. — Os conhecimentos deles são
superiores aos dos homens, exceto nós mesmos. Peço-lhe que não me contradiga enquanto
falo com eles. Para os ferrônios, somos todos arcônidas, vindo de um planeta a trinta e
quatro mil anos-luz daqui...
— Como quiser — disse ela, ironicamente.
Rhodan ajustou seu uniforme. Os dois guerreiros-robôs de pé na cabina de comando
receberam instruções especiais. As luzes de controle dos poderosos geradores de pulsos se
acenderam. As máquinas estavam prontas para funcionar.
— Tudo deve ter a aparência de estar em perfeita ordem — disse Rhodan. — Bell, o
tradutor automático está ligado? Obrigado! Betty, sonde o conteúdo mental do governante
ferrônio. Gostaria de saber o que se oculta por trás de seus gestos e palavras.
A menina aquiesceu, com um leve sorriso lhe brincando nos lábios.
Do lado de fora ouviu-se um brado sonoro:
— A-pre-sen-taaar armas! Realmente, Marshall berrava como se quisesse alertar o
mundo inteiro contra um ataque inesperado.
Seguiu-se um rumor surdo. Os braços armados dos robôs perfilados haviam se
erguido simultaneamente, atendendo à ordem dada.
O ferrônio idoso estacou. Os oficiais de sua comitiva demonstravam profunda
admiração. A figura de Marshall surgiu nas telas. Em rígida posição de sentido, prestando
uma continência que arrancaria louvores até do general Pounder, caso estivesse presente.
O Thort agradeceu, com as mãos estendidas para a frente. Era um belo quadro.
— Senhores! Não esqueçam por um só instante que representamos o gênero humano.
Portem-se com urbanidade, mas com dignidade. Evitem dar a impressão de se sentirem
superiores. Bell, você se encarrega das formalidades de recepção e introdução.
— E como você quer que eu o apresente? — gemeu Bell, transpirando nervosamente.
— Como presidente da Terceira Potência, idêntica com o Grande Império. Para o
Thort, o título de presidente vale tanto como qualquer outro. Deve achá-lo tão estranho
quanto a denominação Thort é para nós. Aí vem ele!
— Pretensioso! — murmurou Thora. Mas Crest sorriu, compreensivo. O eminente
sábio arcônida adivinhara as intenções de Rhodan.
Este postou-se imóvel ao lado do aparelho tradutor. Quando a saudação de Bell, em
idioma ferrônio, ecoou através do alto-falante, o Thort recebeu o segundo choque de
surpresa. Evidentemente atônito, fitou a extraordinária máquina. Rhodan sorriu-lhe com
cordialidade. Sua saudação foi respeitosa, porém ligeiramente mais condescendente do que
a de Bell.
Depois os dois representantes de culturas tão diversas se viram frente a frente. O
Thort, idoso, baixo e acabrunhado; Perry Rhodan, alto, esbelto, senhor de si da cabeça aos
pés.
— Seja bem-vindo, Senhor. Tome lugar, por favor.
Os dois guerreiros-robôs postaram-se silenciosamente ao lado do comandante, com
as bocas de suas armas apontando para o alto. Após examiná-los demoradamente, o
governante ferrônio deixou-se cair numa das poltronas. Rhodan expressou ainda algumas
frases de cortesia, por meio do aparelho automático.
O Thort aguardou a tradução. Sua resposta foi breve e surpreendente. Parecia
compreender o que se ocultava por trás daquelas demonstrações e aceitava plenamente as
implicações nelas contidas. Tinha consciência de estar diante de um ser totalmente
estranho, conforme ocorria igualmente com Rhodan. Mas sabia que os humanos tinham
corrido em socorro dos ferrônios durante a luta.
— Sua espaçonave está seriamente avariada — dizia o aparelho, traduzindo as
palavras do Thort. — E o senhor sabe que, sem sua ajuda, nós estaremos perdidos.
Portanto, em que posso ajudá-lo? Meu império está à sua disposição. A nave pode ser
reparada?
Palavras claras e explícitas, que não causaram estranheza a Rhodan. O Thort não era
um fraco e sim um pensador lúcido. A resposta ainda mais breve e sucinta correspondia ao
caráter de Rhodan. A situação exigia a mais absoluta franqueza.
Mas antes que Rhodan pudesse responder, o hiperrádio trouxe a notícia de que a
imensa nave esférica tinha aterrissado no oitavo planeta. O major Deringhouse aguardava
novas ordens. Rhodan mandou-o prosseguir na missão de observação, pedindo ao mesmo
tempo que procurasse obter boas telefotos da nave. Depois desligou.
— Eram os pilotos daquelas naves minúsculas? — indagou um dos altos oficiais,
excitado. Rhodan confirmou.
— Mas como é que conseguem comunicar-se com tal rapidez?
— Distância não tem significação para nós. Assim como viajamos com velocidade
superior à da luz, dominamos a comunicação audiovisual hiperrápida.
Ao ser divulgada a tradução, o oficial ferrônio olhou em torno, triunfante.
Aparentemente já fizera afirmações naquele sentido antes, deparando com a incredulidade
de seus colegas. Rhodan bem podia imaginar o que se passava no íntimo daquela gente.
Dali por diante, os oficiais ferrônios guardaram respeitoso silêncio. Apenas os olhos
atentos do Thort examinavam tudo com a maior atenção.
— Com sua licença, posso saber se chegou até aqui por meio de um transmissor de
matéria? — perguntou Rhodan.
Percebeu uma reação estranha no regente de pele azul.
— Claro! Fui forçado a deixar o oitavo mundo. Que sabe sobre os transmissores?
Conhece o princípio que os faz funcionar? É o maior segredo do universo!
— Nem tanto! — replicou Rhodan, suavemente, porém sem acrescentar mais
nenhum comentário. A perturbação do Thort já era suficiente. — Oferece-me sua
assistência, senhor. Sim, minha nave não tem mais condições de vôo. Não pode ser
reparada com os recursos de que dispõe. O tiro da espaçonave bélica que surgiu tão
inesperadamente foi fatal.
— Quer dizer que sou obrigado a renunciar ao seu auxílio?
Rhodan viu a face azul entristecer-se. Nos olhos mortiços refletia-se o desespero.
— De maneira nenhuma. Seria necessário apenas que me cedesse sua estação
transmissora de matéria. Acabei de saber que a nave gigante pousou no oitavo planeta.
Preciso de uma oportunidade para ir até lá e os transmissores resolverão este problema.
Caso não possa utilizá-lo para transportar meus homens, serei obrigado a recorrer à
alternativa mais trabalhosa de usar meus dois caças.
O Thort parecia assombrado. Porém concordou imediatamente. No entanto, ainda
alimentava uma dúvida:
— Que pretende fazer lá? O planeta está ocupado pelos inimigos.
— Vou apoderar-me da nave de guerra! Depois disso faremos novos planos.
Rhodan sorria.
— Conforme já disse, esta pequena nave já não me serve. Era apropriada para a curta
expedição exploratória que empreendíamos. Caso eu tivesse sabido que se processava uma
invasão por aqui, teria vindo com uma frota inteira. Lamento...
Bell dominava-se a custo. Os ferrônios faziam perguntas excitadas. Rhodan explicou
detalhadamente quem eram os tópsidas, de onde vinham e qual era sua natureza. O Thort
prometeu toda a assistência possível. Rhodan recebeu permissão para usar os
transmissores. Depois veio a pergunta embaraçosa:
— Vai ser capaz de manejar a nave gigante?
— Trata-se de um vaso de guerra de meu povo, senhor! — disse Rhodan,
tranqüilamente. A reação foi violenta. Os oficiais imobilizaram-se em respeitoso silêncio.
Apenas o Thort não se alterou. Sabia raciocinar.
— Mas não tripulado por gente de sua raça, não é verdade?
— Claro que não. Não imagino como foi parar nas mãos dos tópsidas. Portanto,
necessito urgentemente de um tópsida vivo, custe o que custar. Existem prisioneiros?
Não, os ferrônios não tinham conseguido capturar um só tópsida vivo. No entanto,
um oficial mais jovem informou ter visto um bote salva-vidas tópsida destacar-se de uma
das naves abatidas. Havia descido na região do pólo norte do planeta. Os soldados
ferrônios destacados para aprisionar a tripulação não conseguiam aproximar-se pois eram
repelidos com armas desconhecidas.
Rhodan não hesitou um momento.
— Senhor, mande levar dois de meus homens ao local, o mais rápido possível e dê
ordem de retirada às suas próprias tropas. Preciso daqueles sujeitos vivos!
— Eles possuem armas terríveis! — objetou Lossos, o cientista ferrônio.
— As nossas são melhores. Tome as providências necessárias, Senhor, e ponha à
disposição de meu pessoal sua aeronave mais veloz, ou uma pequena nave espacial. Não
podemos perder tempo.
Enquanto o Thort agia, Rhodan pôs-se a examinar com atenção os membros
presentes de sua tripulação. Por fim decidiu:
— Tako Kakuta e Betty, aprontem-se. Equipem-se com psicorradiadores e
convençam aqueles tópsidas a sair de suas tocas como meninos obedientes. Aguardo aqui.
Quero de preferência os oficiais. Deve haver alguns entre eles. Tako, se for preciso, salte
para a retaguarda dos tópsidas. E procurem voltar inteiros!
Os mutantes aprontaram-se. O japonês sorria, Betty era a calma personificada.
— Como? É com estas pessoas que pretende dominar uma tripulação fortemente
armada?! — exclamou o Thort, com o rosto azul se tingindo de sombras escuras. Pela
primeira vez Rhodan o via descontrolado.
— São mais do que suficientes. Dispomos de poderes que o senhor desconhece. O
transporte está pronto?
Tako retirou-se, piscando um olho. O Thort tornou a sentar-se, calado.
— Isso ultrapassa minha compreensão — murmurou ele no microfone do aparelho de
tradução. — Quem são vocês? De onde vêm? Infundem temor com suas capacidades
aparentemente ilimitadas...
Rhodan forneceu as explicações necessárias, porém sem aludir à Terra. Para os
ferrônios, eles eram e continuariam a passar por arcônidas. As palavras de Rhodan foram
aceitas sem a menor sombra de dúvida.
Ele procurou aproveitar o período de espera. Gradualmente estabeleceu um excelente
relacionamento com o Thort, cujo cargo não era hereditário, conforme depreendeu da
conversa. Após sua morte, um novo Thort seria eleito entre os homens mais capazes do
reino. Intrigas políticas pareciam ser coisa desconhecida. Rhodan entrevia um futuro
brilhante para aquela raça mas percebia que faltava algo indefinível para concretizá-lo.
Duas horas mais tarde, segundo o relógio de bordo, Tako manifestou-se por meio do
microtransmissor que levara.
— Conseguimos, chefe! Cinco tópsidas vivos, sendo que dois deles são oficiais. Foi
brincadeira. Betty localizou-os e eu saltei para perto deles. Reagiram logo aos
psicorradiadores. Dentro de meia hora estaremos de volta. A aeronave é bem veloz.
— Vamos ver o que acontecerá agora — disse Rhodan, em tom neutro.
O Thort estremeceu. De repente via aquele homem com outros olhos. Toda a
urbanidade desaparecera. Com um sorriso apenas perceptível, o governante observou:
— Começo a compreender que não passo de um insignificante funcionário de
província diante de sua elevada posição. Disponha de mim, mas só lhe peço que ajude meu
povo.
Nunca em toda a sua vida Rhodan sentira tão embaraçosa comoção. Bell mordeu os
lábios e o Dr. Haggard mal disfarçava o constrangimento.
— Se há mesmo oficiais tópsidas entre os prisioneiros, devem falar o idioma
intercosmo, conhecido em todos os sistemas do Grande Império — disse Crest. — Todo
oficial tópsida é obrigado a conhecê-lo.
Momentos após, os prisioneiros foram introduzidos, completamente submissos à
vontade do mutante Kakuta. O profundo efeito pós-hipnótico do raio psíquico fazia dos
estranhos obedientes autômatos.
Com uma exclamação de susto, o Thort ergueu-se da poltrona. Nunca vira um
tópsida de perto e os ferrônios ignoravam a natureza de seus agressores.
Instintivamente, os oficiais levaram as mãos às suas armas. Eram pistolas de raios,
altamente eficientes: seu funcionamento baseava-se em quanta luminosos de alta
concentração. As passivas criaturas que penetravam na cabina de comando viram-se diante
de uma bateria de bocais finos como agulhas, até que Rhodan disse, com um suspiro
nervoso:
— Por favor, baixem essas armas! Poderiam precipitar um acidente. Seus homens
estão preocupados, senhor. Diga-lhes que eu me responsabilizo por sua segurança.
O Thort transmitiu as ordens necessárias. As pequenas pistolas de raios foram
recolocadas nos respectivos coldres.
O interrogatório foi realizado na cabina de comando semidestruída. Os doutores
Haggard e Manoli ausentaram-se brevemente, a fim de irem buscar algum instrumental
médico na enfermaria de bordo.
Não havia a menor dúvida; aqueles seres nada tinham de humanos! Percebia-se
claramente que descendiam de répteis. Rhodan examinou-os de cima a baixo. Vestiam
uniformes justos, que acentuavam ainda mais as linhas dos corpos altos e delgados.
— Tako, mande o da esquerda tirar a roupa. E depressinha! Marshall, sonde as
mentes desses indivíduos.
Tako dirigiu o foco do psicoirradiador, em leque bem aberto, para o tópsida colocado
à esquerda do grupo. Com gestos ágeis, ele começou a despir as peças da farda. Rhodan
mordeu os lábios, a fim de não deixar escapar um gemido, conforme sucedia com o
regente ferrônio. Pela primeira vez lhes era revelada a verdadeira natureza dos tópsidas. Os
dois médicos, que acabavam de retornar, complementariam as observações.
— Meu Deus! — suspirou o Dr. Haggard, com a face congestionada. — Por isso eu
não esperava!
— Diga-lhe que pode tornar a vestir-se — ordenou Rhodan, com voz rouca. — Bell!
Thora e Betty podem voltar à cabina. O caso está resolvido. Tako, regule o radiador para
bloco-hipnose. Transmita ordem permanente para responderem com a verdade às nossas
perguntas.
Enquanto Tako regulava o aparelho, Rhodan lançou um último olhar perscrutador aos
estranhos indivíduos. Apesar de possuírem dois braços, duas pernas e andarem eretos, não
eram humanóides. Respiravam igualmente oxigênio, porém com isso acabava a
semelhança com seres humanos. A pele escamosa, marrom-escura, já constituía prova
insofismável. Também a constituição orgânica devia ser radicalmente diferente e Rhodan
nem se arriscava a conjeturar sobre seu sistema metabólico.
Os crânios achatados e calvos eram nitidamente de répteis, com lábios finos como
lâminas de faca e enormes olhos protuberantes, de surpreendente mobilidade. A intensa
luminosidade de Vega devia ser-lhes bastante desconfortável.
Sua grande inteligência não ocultava o fato de possuírem caráter frio e desumano,
com conceitos radicalmente diversos sobre tolerância, ética e moral. Compaixão e piedade
eram sentimentos inexistentes neles. No entanto, tinham suas próprias regras de conduta,
que aos olhos dos homens eram estranhas e até ridículas. Só com a maior cautela se
poderia tratar com aqueles reptilóides providos de seis dedos nos membros. Conforme
Crest já observara anteriormente, qualquer acordo ou tratado feito com eles não
conservava a validade por muito tempo.
Rhodan começou a interrogar um dos oficiais. O prisioneiro respondeu em fluente
intercosmo, o que dissipou qualquer dúvida por ventura ainda existente quanto à sua real
identidade. Após algumas perguntas rotineiras, Rhodan foi ao âmago do problema:
— Declara que sua nave foi abatida por um pequeno veículo arcônida nas
proximidades do nono planeta. O senhor era o comandante. Portanto, deve saber de onde
veio aquela nave gigante arcônida, do tipo Império, de modo tão inesperado. Como é que
foi parar nas mãos dos tópsidas? Quem são seus tripulantes? Há arcônidas a bordo?
— Foram mortos! — explicou o oficial, em tom monótono.
Os enormes olhos mortiços pareciam não enxergar, sob a influência constante do
psicoirradiador.
— Capturamos a nave de guerra no planeta Topsid III. Ela desceu lá para se
reabastecer com água potável. A tripulação dormia. Dominamos as sentinelas com gás. Os
arcônidas foram forçados a nos treinar. Aquela nave representa o sustentáculo de nossa
frota espacial.
As explicações vinham aos arrancos, interrompidas por numerosas perguntas.
Rhodan deu-se por satisfeito; guardas ferrônios levaram os prisioneiros.
— Bem que gostaria de saber o que os levou a atacar o sistema Vega. Mas esse
sujeito parece não ter a menor idéia. O almirante-chefe dos tópsidas é que deve saber.
Como se chama?
— Crek-Orn — informou o cientista arcônida. — Nome bastante conhecido; o
homem está em vias de tornar-se uma personalidade importante no reino tópsida. Seria
bom ficar de olho nele.
Assim que os tópsidas saíram, Rhodan entrou imediatamente em contato radiofônico
com o major Deringhouse. Os dois caças já rumavam para o nono planeta.
O Thort acompanhava atentamente o diálogo.
— Calma em toda a frente — informou Deringhouse. — A nave de guerra pousou
num imenso espaçoporto. A invasão encontra resistência quase nula. Em terra travam-se
violentas lutas, mas os ferrônios estão em desvantagem. No setor do espaço em que me
encontro, não há sombra de naves inimigas. Concentraram-se exclusivamente sobre o
mundo principal. Cerca de cento e cinqüenta unidades da frota ferrônia, entre naves
grandes e pequenas, regressam conosco. Não podemos acelerar muito, senão ficam para
trás. Portanto, ainda temos um bom tempo de viagem. Estamos exaustos.
Deringhouse esperou a resposta de Rhodan, que não tardou:
— Não espere pelas outras naves. Acelere o mais que puder e venha logo. Os caças
estão intactos?
— De ponta a ponta. Apenas Klein tem uns arranhões na pintura externa, escapou por
pouco de um tiro energético.
O sorriso de Deringhouse iluminava sua face coberta de sardas. Acenou alegremente
para o Thort, quando este se mostrou na tela do caça. Rhodan sorriu imperceptivelmente e
desligou.
— Meus homens estão prontos, senhor! — disse ele ao Thort. — Ficar-lhe-ia muito
grato se providenciasse a fim de que sejam instruídos no uso dos transmissores.
O Thort respondeu:
— Vou ter que deixá-los agora. Mas logo contarão com a assistência do engenheiro-
chefe de uma fortaleza secreta do deserto. Trata-se de fortificações subterrâneas,
construídas na época em que os diversos grupos de minha raça ainda viviam desunidos. Eu
recomendaria o transporte da nave avariada para esse local. Os transmissores daqui terão
que ser inativados, pois estão ligados diretamente ao meu palácio. Meus homens não
conseguirão defendê-lo por muito tempo, o que poderia ocasionar uma utilização
indesejável dos transmissores. Portanto, em hipótese alguma vocês poderiam usar os
daqui. A fortaleza no deserto possui equipamento similar, plenamente utilizável. Vou
tomar as providências necessárias imediatamente.
Com isso, o senhor supremo de um sistema planetário inteiro se retirou.
— Bem, este caso está resolvido! — exclamou Rhodan. — Crest, calcule onda e
direção para um hiperchamado à Terra. Vou ditar a mensagem ao codificador. Quero que
seja enviada em freqüência muito alta, com condensação máxima. E mande repeti-la várias
vezes, pois o coronel Freyt não poderá acusar o recebimento de modo algum sob risco de
sermos localizados. Temos que enviá-la ao acaso, esperando que seja devidamente
captada. Capriche nos cálculos, Crest!
Para a Good Hope iniciava-se um período de repouso. Quando Rhodan se
encaminhou para sua cabina foi interpelado por Bell, que parecia fatigado.
— Não acha bom a gente se interessar de perto por esses transmissores de matéria,
chefe? Estou vindo do laboratório de controle dos ditos cujos. Os troços são enormes e,
pelo jeito, funcionam com velocidade superior à da luz. A Humanidade poderia fazer bom
uso deles...
Rhodan esforçou-se por sorrir. Bell semicerrou os olhos, resignado, ao escutar o leve
suspiro do comandante.
— Meu caro, até você dar pela coisa, eu já agi. Por que acha que insisti tanto em usar
as máquinas? Pois, em caso de emergência, poderíamos voar para o oitavo planeta nos
caças, espremendo quatro pessoas em cada um, não é verdade? Mas é hora de dormir!
Quando você tornar a ver Vega surgir no firmamento amanhã, com todo o seu esplendor,
terá com que se ocupar.
Rhodan desapareceu. Reginald Bell afastou-se, resmungando, em direção à sua
própria cabina.
Não, Rhodan não era homem de deixar passar despercebida qualquer coisa que, em
última instância, pudesse beneficiar a Humanidade. Porém mesmo um homem loucamente
temerário como Bell era forçado a confessar que não seria tarefa fácil apoderar-se da nave
gigante arcônida. Mas tinham que tentar! Antes de qualquer outro empreendimento, era
preciso garantir a retaguarda.
A noite caía sobre o nono planeta de Vega. O espaço estava tão vazio como se jamais
houvesse existido uma frota tópsida. Só se via as estrelas, e elas eram eternas.

***

A Good Hope não passa de um destroço incapaz de


voltar ao sistema solar. Perry Rhodan está consciente
disso. Mas sabe que os tópsidas possuem uma espaçonave
que corresponderia aos planos que tem em mente.
Portanto, Rhodan concebe algo incrivelmente
arrojado e ataca de surpresa com seus mutantes.
A próxima aventura de Perry Rhodan intitula-se
MUTANTES EM AÇÃO.