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Os primeiros raios de sol penetravam o interior do quarto.

Sobre as curvas maliciosas do corpo


de sua amante, Daniel disperta a sua retina, ainda anestesiada pelo suspiro ofegante de
Manuela que dormia com os seus braços em volta do seu tronco robusto. Embora cansada, seu
rosto parecia evidenciar a satisfação após uma noite intensamente sexual. Seu sono profundo
foi o suficiente para Daniel vestir-se e sair apressadamente sem que de sua ausência ela
notasse.

Eram quase sete horas, como dona de casa, era habitual Maria levantar-se cedo para organizar
os afazeres domésticos nas primeiras horas. Somente aos fins de semana tinha tempo para tal,
considerando que o trabalho não a permitia noutro espaço semanal. Com a responsabilidade
de um matrimonio e de cuidar do seu filho, a sua silhueta, outrora fulminantemente esbelta,
esvanecia a cada ausência do seu esposo em sua cama. Enquanto arrumava alguns imóveis,
tentava perceber relutante porquê seu marido se distanciava cada vez mais do seu lar:

Tenho de saber o que se passa! Não pode ser normal ele trabalhar tanto assim...

Seu pensamento foi logo interrompido pelo barulho da porta que se abria, seguido de um
tilintar das chaves que infalivelmente reconhecia. Seu esposo acabara de chegar a casa. Com o
seu terno bem arranjado, parecia realmente ter saído do trabalho. Embrenhado na exaustão e
com os seus olhos ainda meio dormentes, cumprimentou com um aceno de mão a sua mulher,
e sem que ela pudesse puxar conversa, dirigiu-se rapidamente para o quarto. Maria, sua
esposa, não coadunando com tal comportamento, decidiu encará-lo depois de confirmar que o
seu filho ainda dormia profundamente no quarto ao lado:

Mas ôh Daniel, então acabas de chegar e é assim que cumprimentas a tua mulher? - Nem
sequer foste ao quarto ver como está o miúdo ! Ultimamente tens estado distante, o que se
passa ?!

Estou cansado! Sabes muito bem que tenho tido muito trabalho ultimamente, é isso que se
passa. Sei que o nosso filho está bem, caso contrário já estarias a me ligar toda hora para me
chatear. Deixa-me tomar um banho e descansar pelo menos um pouco. Estás a ficar muito
insegura durante esses dias.

Maria apenas o observava com o seu sexto sentido enquanto resmungava, tentava, sem que
ele se apercebesse, encontrar algum detalhe fora do comum em suas vestes. Tal como todas
as mulheres que desconfiam ou sentem o cheiro da infidelidade, Pela primeira vez, sentiu nas
palavras de seu amado, o falecimento da atração passional que ele nutria por ela.

Quanto mais tempo Daniel passava as escondidas com a sua amante, mais se distanciava da
sua família. O fogo e a beleza juvenil de Manuela o faziam perder a cabeça e por consequente
esquecer-se deles. Certo dia, o seu primogênito , apanhou uma gripe que o deixou febril
durante a noite, supostamente no serviço e com o telefone desligado, sobrou para a sua
esposa levá-lo ao hospital sozinha. Valendo-lhe no dia seguinte uma discussão cerrada.

Nos dias laborais, quando terminava o serviço, Maria pegava o seu filho do infantário e iam
juntos para casa. Aos poucos, nem mesmo Jorge, agora com cinco anos, parecia cada vez mais
sentir menos a falta do pai que só via practicamente aos fins de semana.pois, acordava cedo
para ir ao trabalho e quando voltava ja era demasiado tarde. Maria sentia falta de seu amado,
com trinta e dois anos, o seu corpo aclamava urgente pelo calor e o toque de Daniel. Portanto,
numa noite decidiu esperá-lo e preparar-se sensualmente:
Com essa lingerie não tem como! Ele fica maluco quando me visto assim. agora é só preparar
aquela comida que ele tanto gosta e claro, o meu perfume preferido!

Eram por volta das vinte horas quando Daniel chegou em casa, neste dia realmente saía do seu
local de serviço. Com apenas trinta e cinco anos, ja era responsável pela gestão de uma
empresa comercial que traçava os seus primeiros passos rumo ao sucesso. Logo no primeiro
contacto, sentiu a fragrância que o pescoço de sua mulher exalava. Fez festinhas ao Jorge até
adormecer depois da refeição. Levou-o a cama, enquanto Maria o aguardava cheia de prazer, e
para a sua felicidade, sentiu o mesmo em Daniel que se apressava para voltar a vê- la entre
quatro paredes.

Enquanto fazia amor com Sua amada, sua mente viajava para o corpo de Manuela, imaginava
todas as suas curvas, tocava-a em todas as suas zonas proibidas. Ao olhar para o rosto de
Maria, que ardia de prazer e gemia sussurando o seu nome entre mordidas na sua orelha,
percebeu então, que não era apenas uma atração sexual pela sua amante e talvez, seria a
ultima grande noite de prazer entre os dois.

Capítulo II

Manuela vive sozinha num apartamento alugado já a quase dois anos. com os seus vinte e seis
anos, cuida da sua beleza regularmente. Raras vezes faltava ao ginásio e está sempre muito
bem apresentada com roupas de alta qualidade e que denunciam propositadamente as suas
envolturas físicas bem atribuídas. Desde que descobriu o que poderia conquistar com o seu
corpo, não deixava passar uma oportunidade de ser paparicada por um pretendente, desde
que o bolso valesse o seu nível e tempo. Não lhe faltavam encontros noturnos para jantares e
festas. Frequenta sempre os lugares da elite e por vezes até, dormia com um “papoite” caso
garantisse o suficiente. Não se considerava prostituta de luxo, mas não se importava muito
com os homens ou em possuir um relacionamento monogâmico.

A cinco meses atrás, numa das badaladas noites de Luanda, exibia um vestido azul decotado e
justo, em seus pés, uns sapatos altos de uma grande marca condiziam com os seus acessórios.
A ligeiros metros de distância, um rapaz muito bem apresentado e corpulento apreciava-a
subtilmente. Sem que deixasse ela escapar-se de sua visão, deixou-se levar pela sedução
sublime daquela felina humana enquanto ia em sua direção e, gentilmente a pediu para
dançar, aproveitando o som da kizomba que se abrilhantava sonoramente nas colunas. Em
passos lentos, com a mão sobre a sua cintura, proferiu algumas palavras que despertaram
algum interesse de Manuela. Além dos elogios encantadores, que de certa forma ja estava
acostumada, o corpo atlético e o seu charme muito bem acentuado era demasiado
interessante para não chamar a sua atenção. Apenas uma dança foi o suficiente para
finalmente trocarem impressões:

...

Eu sou o Daniel, prazer em conhecê-la.

Capítulo III
Eram vinte e três horas, Maria sentiu uma vibração que acabou por dispertá-la enquanto
dormia nos braços de Daniel. Ao lado, o visor do telefone exibia uma mensagem que mudou o
rumo do sentimento que a pouco rejuvesneceu por baixo dos lençóis. O texto evidenciava-lhe
a certeza do que temia:

Boa noite amor, estou com saudades tuas. Quero estar contigo amanhã. Feliz noite!

O rosto que sorria de alegria, foi agora invadido pela angústia de uma traição. Em Seus olhos
caíam lágrimas enquanto sua mente cogitava morbidamente sobre as possibilidades que
motivaram Daniel a ser-lhe infiel.

No dia seguinte, Maria acordou como se nada tivesse acontecido. Como habitual, preparou
Jorge para levá-lo a creche e preparou o pequeno almoço de Daniel que se vestia para mais um
dia laboral. Daniel, ainda no quarto, sorria inocente depois de responder a mensagem que
havia recebido durante a noite:

Também estou cheio de saudades tuas, quando sair do serviço passo em tua casa. Beijos!

Daniel saiu do quarto e se dirigia para a sala, em seus braços, veio a correr Jorge. Seu filho
ainda embriagado pelas festinhas que o pai o deu na noite anterior, ansiava por mais alguns
miminhos. Ao despedir-se de Maria, sentiu em seus olhos uma tristeza e fúria que nem mesmo
ela conseguia esconder o suficiente para passá-lo despercebido:

Passa-se alguma coisa Maria? - estás estranha!

Eu estou bem! - Diz-me tu se tens algo para contar-me.

Claro que não! Se está tudo bem então até logo. Posso chegar tarde hoje.

Sei que chegarás tarde! Bom trabalho.

No serviço, Daniel tentava perceber o que sua esposa quis dizer com “sei que chegarás tarde”.
Será que ela desconfia de alguma coisa? Seu pensamento foi interrompido com o toque de
chamada. No visor, o número de Manuela abrilhantou o seu semblante:

Oi amor, estás bem?

Não. Temos um problema sério por resolver. A sua esposa ligou para mim.

Espera aí! Como ligou para ti? - O que aconteceu?

Por algum descuido teu, de certeza que ela entrou no teu telefone e viu o suficiente e pegou o
meu número. Disse-me que sabe de tudo entre nós, pareceu-me estar muito furiosa e proferiu
palavras de ameaça caso continuarmos a nos ver. Sabes que eu gosto de ti mas acho melhor
terminarmos antes que aconteça o pior.

Daniel foi invadido por um misto de sentimentos. Não sabia o que dizer nem como reagir.
Apenas desligou o telefone, tentando conter a raiva que a informação o produzia.

Quando saiu do serviço, decidiu tomar uns copos,talvez para ajuda-lo a enfrentar a batalha
que teria inevitavelmente com sua esposa logo que chegasse em casa.

Era sexta-feira, neste dia, Maria achou melhor levar Jorge para a casa de sua mãe. Adorava
passar o fim de semana com a sua avó. Além das brincadeiras com os seus primos, comia
muito mais do que a sua mãe o permitia. Tal decisão de Maria foi intencional, sabia das
consequências que causaria para o seu filho caso visse os pais numa briga intensa.
Daniel abriu a porta com alguma dificuldade, fruto da embriaguez que dominava o seu juízo e
seu corpo. Na sala esperava Maria, que percebeu que ele já sabia da sua traição ao ver o seu
estado. Com lágrimas escorrendo, dispoletou a sua raiva:

O que foi que eu não fiz pelo nosso casamento?! - Cinco anos ao teu lado e nunca fui infiel
contigo Daniel!!! - Achas que eu nunca descobriria?- essas noites todas que mentias estar no
serviço foram para isso? - para dormires com uma miúda qualquer enquanto eu ficava sozinha
a cuidar do teu filho?- foi para isso que prometeste me amar no altar?

Daniel olhava para Maria que disparava descontroladamente a sua decepção em forma de
histeria.

Fica calma. Deixa-me explicar...

Cala-me essa boca, não quero ouvir nenhuma das tuas justificações. Tu não prestas! És um
malandro como qualquer outro homem que não vive sem um rabo de saia. Não te quero em
minha casa, sai daqui...

Daniel tentou encostar em Maria, mas recebeu uma bofetada na tentava de tentar acalmá-la.
Infelizmente, tal atitude de sua esposa dispoletou uma intolerância em Daniel, que por sua
vez, reagiu agressivamente sobre o corpo de Maria. Com toda força em seus braços,
empurrou-a agressivamente, caindo de costas para o chão da sala.

Não admito que me faltes respeito! É melhor te acalmares antes que eu perca a cabeça.

Banhada em lágrimas, nem mesmo a dor da pancada a fez reduzir a raiva, enquanto Daniel
falava, levantou-se e em seguida atirou-lhe um dos imóveis que avistou por perto. Atingindo-
lhe a parte frontal de sua cabeça. As consequências foram inevitáveis, abrindo espaço para um
espancamento incontornável. Aos gritos, Maria tentava cobrir desesperadamente as partes do
corpo que recebiam vários murros e pontapés de Daniel, totalmente possuído pela fúria e pelo
álcool. Por mais resistência que Maria fizesse, mostrava-se incapaz de fazer frente ao físico e a
força de Daniel. Seu corpo tornou-se um saco de pancada durante dez minutos, tempo
suficiente para acabar desfalecida no chão da sua sala com o rosto inchado e algumas lesões
que se evidenciavam com sinais de sangue. Daniel, ainda furioso, pegou nas chaves do carro e
saiu de casa, ignorando o sofrimento e o estado deficiente que acabara de causar em sua
mulher.

Uma das vizinhas que acabava de chegar, viu o estado anormal de Daniel, que ainda fora de sí,
arrancou o seu carro a uma velocidade acima do limite aceitável. Com alguma inquietação,
tocou a campanha, mas a demora a permitiu concluir que algo de errado havia acontecido.
Decidiu ligar para o numero de sua vizinha, haviam trocado o numero ja a bastante tempo e
davam-se muito bem, praticamente amigas. Ouviu a voz de Maria que ainda com dificuldade,
reproduzia dolorosamente ofegante o termo ajuda-me! Sem perder tempo, dona Carla chama
pelo seu marido para arrombar a sua porta.

Manuela bebia uma taça de vinho, em seu sofá, pensava com algum receio sobre o que
poderia acontecer depois de contar a Daniel sobre a chamada que recebeu de sua mulher
durante o dia. Porém, Daniel acabava de chegar em seu apartamento.

Meu deus Daniel, o que aconteceu?- estás a sangrar no rosto e estás fora de si. O que acabaste
de fazer?!
Manuela assustada, ajuda-o a deitar-se desesperadamente e em seguida tenta estancar o
sangue que escorria na ferida que se marcava em sua testa.

Acabei por ter uma discussão com a minha mulher e perdi a cabeça.

Estás maluco?! - tu espancaste a tua mulher por minha causa?! - E a deixaste sozinha?

Não me interessa isso agora, eu já não a suportava já a um tempo, atingimos o limite...

Manuela interrompeu-o sem que terminasse o seu desabafo:

Tens noção do que isso implica?

Antes que continuasse, Manuela, agora com medo achou melhor não dar continuidade ao
assunto, entendeu que no estado em que Daniel se encontrava o pior poderia acontecer com
ela. Achou melhor apasigua-lo:

Tenta descansar, amanhã resolvemos isso!

Daniel, acabou por adormecer. Só conseguiu cair no sono devido o estado alcoólico que o
dominava.