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Revista Augustus | ISSN 1415-398X | Rio de Janeiro | v. 16 | n.

32 | Julho de 2011 | Semestral TEMAS LIVRES

A literatura latino-americana: um breve olhar1


Ercilia Bittencourt
Professora Doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Professora do Curso de Letras do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)
e.bitten@globo.com

RESUMO

Este artigo apresenta um breve estudo sobre a literatura latino-americana,


baseado essencialmente nos escritores distinguidos com o Prêmio Nobel:
Gabriela Mistral (1945), Miguel Ángel Asturias (1967), Pablo Neruda
(1971), Gabriel García Márquez (1982), Octavio Paz (1990) e Mario Vargas
Llosa (2010). Suas obras, em poesia e prosa, apontam para uma literatura
jovem de face própria e original, ao unirem a tradição ocidental e a mitologia
indígena.

Palavras-chave: Literatura latino-americana. Prêmio Nobel. Autor - vida e obra.

LATIN AMERICA LITERATURE: A BRIEF VIEW

ABSTRACT

This paper presents a brief study on Latin American literature, based mainly
on the distinguished writers with the Nobel Prize: Gabriela Mistral (1945),
Miguel Ángel Asturias (1967), Pablo Neruda (1971), Gabriel García Márquez
(1982), Octavio Paz (1990) and Mario Vargas Llosa (2010). Their works, in
poetry and prose, point out to a young literature that presents a proper and
original face, by joining Occidental tradition and Indian mythology.

Keywords: Latin American literature. Nobel Prize. Author - Life and work.

1 INTRODUÇÃO

No período relativamente curto de 65 anos, seis a cada decênio após a Segunda Grande Guerra,
autores latino-americanos foram contemplados dessa literatura, vista não mais como apêndice
com o Prêmio Nobel, láurea máxima da literatura
1. Palestra proferida na 9ª Semana Acadêmica de Ciências Hu-
internacional. O que representa o reconhecimento, manas do Centro Universitário Augusto Motta em 25 out. 2012.

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A literatura latino-americana

da que se escrevia em Portugal e na Espanha ou nesses nomes estão representadas as três Américas,
como marginal com respeito às grandes tradições predominando a América do Sul.
literárias do Ocidente. É certo que o prêmio Sabe-se que esse modo de abordagem do
é individual – é a obra de determinado autor tema é bastante subjetivo, portanto, insuficiente.
que é contemplada – mas, invariavelmente, o Entretanto, para referendá-lo, lembramos palavras
próprio escritor laureado a indica como fruto de Octavio Paz (2003, p. 126):
de sua língua materna e de suas raízes culturais.
Se abrirmos um livro de história do Equador
Portanto, acredita-se não haver dúvidas quanto ou da Argentina, encontraremos um capítulo
à importância da literatura latino-americana. dedicado à literatura nacional. Pois bem, o
nacionalismo não é só uma aberração moral; é
Contudo, a maior dificuldade com que aqui se também uma falácia estética. Nada distingue a
defronta é estabelecer os limites de nosso texto. literatura argentina da uruguaia, nem a mexicana
da guatemalteca. A literatura é mais ampla do
Trata-se de uma literatura cuja grandeza se faz da que as fronteiras.
participação de vinte países (aí incluído o Brasil),
que, apesar das diferenças e das características É evidente que essa unidade literária se
próprias, forma um conjunto harmônico. Fazer um fundamenta na unidade linguística trazida, no
esboço literário geral, que ficaria forçosamente caso, pelo colonizador espanhol que, ao conquistar
incompleto e meramente descritivo? Examinar a América, impôs-lhe sua língua e cultura. O
as características principais em que se apoiou mesmo Paz declara, no entanto, que “unidade
essa “revolução” literária? Optar pelos escritores não é uniformidade” (PAZ, 2003) e que “não há
de um determinado país e pelo exame das obras escolas nem estilos nacionais; em compensação há
que os imortalizaram? Apresentar um trabalho famílias, estirpes, tradições espirituais ou estéticas”
monográfico sobre determinado autor? (PAZ, 2003). Tradições essas que nascem num
Examinadas as múltiplas possibilidades, e já passado histórico de descobrimento, conquista
que foram mencionados inicialmente o número e colonização e que irmanam esses países nos
sugestivo de ganhadores do Nobel, optou-se por mesmos anseios de libertação e autonomia.
apresentar a literatura latino-americana por meio de Filha da Contra-Reforma e da Monarquia, a
uma breve notícia sobre suas vidas e obras. Dessa América é um projeto europeu utópico, nomeada
maneira, o período vai de 1945, ano de premiação antes mesmo de ser inteiramente descoberta. É
da chilena Gabriela Mistral, até 2010, quando o o Novo Mundo a ser construído, não só histórica
agraciado foi o peruano Mario Vargas Llosa. Os e geograficamente, mas na sua cultura, e já que o
demais são o guatemalteco Miguel Ángel Asturias passado ficou para trás, também na sua maneira de
em 1967; o chileno Pablo Neruda em 1971; o olhar o mundo e o futuro.
colombiano Gabriel García Márquez em 1982 e o E o futuro prescinde dos contornos políticos
mexicano Octavio Paz em 1990. Como se observa, dos novos países independentes para fazer surgir

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uma literatura jovem que, diante da Europa e do solidão, maternidade, morte, humanismo. Daí,
mundo, apresenta uma face própria e original. É “Los sonetos de la muerte”, “Muerte de mi madre”,
a literatura fantástica, o realismo, o criacionismo, “La muerte-niña”, “Muerte del mar”, “Amo amor”,
o crioulismo e tantas outras tendências estéticas “La abandonada”, “Luto”, “Poema del hijo”,
e intelectuais que formam o mosaico da atual “Electra en la niebla”, poemas de livros intitulados
literatura latino-americana. Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938)
e Lagar (1954), os únicos que publicou em vida.
2 GABRIELA MISTRAL: DESOLAÇÃO E No entanto, sua obra é vasta: há compilações de
TERNURA seus escritos dispersos em periódicos, de cartas e
conferências, publicadas postumamente em vários
Gabriela Mistral (1889-1957), pseudônimo idiomas.
de Lucila Godoy Alcayaga, chilena que alia à Enquanto se dedicava à educação, colaborava
sua obra poética de grande beleza estilística a em revistas como Sucesos de Valparaiso e
união indissolúvel entre práxis e pensamento, é a Elegancias de Rubén Darío, quando usou outros
primeira latino-americana a ser premiada. pseudônimos reveladores como Alma, Alguém,
Conhecida como a professora rural que se Solidão. E assim percorreu o Chile conhecendo sua
torna exemplo para várias gerações dentro e gente, numa itinerância que a levou à Europa pela
fora de seu país, ela expressa muito mais em sua primeira vez em 1924. Em Genebra, atuou como
poesia, de amor e de morte, de forte tendência membro do Instituto de Cooperação Internacional,
mística, explicação talvez dos labirintos de seu dependente da então Sociedade das Nações, onde
ser. Armando Donoso assinala que o misticismo chefiou a Seção de Letras Iberoamericanas. Aos
“chama a atenção não só nos temas subjetivos de 36 anos de idade participava com Henri Bergson,
que ela trata, mas passa como um clarão de mistério Paul Claudel, Alfonso Reys, entre outros,
e religiosidade nos temas objetivos que canta.” quando lhe oferecem o cargo de embaixadora
(DONOSO apud RODRÍGUEZ VALDÉS, 1990, plenipotenciária do Chile na América Central.
p. 14). A verdade é que em Gabriela observamos Em 1939 viaja ao Brasil no cargo do consulado
uma mescla curiosa de cristianismo, judaísmo, chileno, estabelecendo-se em Niterói e depois
budismo, panteísmo e franciscanismo. em Petrópolis, onde recebe a notícia do Prêmio
Marcada na infância pelo abandono do pai, na Nobel. Também percorreu, dando conferências,
juventude pelo suicídio do noivo e na maturidade os Estados Unidos, onde residiu por último e veio
pelo suicídio do filho adotivo, além das mortes a falecer.
da mãe, da irmã e uma sobrinha, sua poesia não Também é importante mencionar sua estada
poderia ficar imune a tão trágicos acontecimentos. no México (1922-24), convidada pelo governo do
Daí, os temas fundamentais de sua poética: amor, país a colaborar na reforma educacional iniciada

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por José Vasconcelos. Lá fundou a escola que leva com uma poética depurada. Em Tala, está presente
seu nome e colaborou na organização de várias a cosmovisão dolorosa de Desolación. E em Lagar,
bibliotecas públicas, além de compor poemas para estão presentes todas as mortes, as tristezas, as
crianças (Rondas de niños, 1923) e textos didáticos perdas e o sentimento de seu próprio fim.
como Lecturas para mujeres (1924). E assim parte essa mulher apaixonada que,
Mas se viveu uma vida que a tornou cidadã do desde o primeiro “Soneto da morte”, já havia
mundo, nunca esqueceu sua pátria entre cordilheira cantado para o amado morto: “Me alejaré
e mar, nem sua gente, que semeia os campos, que cantando mis venganzas hermosas, / ¡ porque a
vende sua força de trabalho, que ensina e sofre. ese hondor recóndito la mano de ninguna / bajará
Deles se nutre grande parte de sua obra e não se a disputarme tu puñado de huesos!” (MISTRAL
pode definir o que foi mais importante para ela, pois apud RODRÍGUEZ VALDÉS, 1990, p. 97).
os poemas e a prosa revelam que nunca pôde separar
artificialmente o ser humano de seu contexto. 3 MIGUEL ÁNGEL ASTURIAS: LENDAS E
A poesia de Gabriela é considerada pós- VENTO FORTE
modernista, expressando os elementos vitais e
poéticos, que sendo específicos da América Latina, Após se ouvir a “voz ácida e original, cheia
atingem a universalidade. Pois os “piececitos de piedade e dor humana” (MARTÍNEZ, 1979,
azulosos de frio” do menino pobre latino-americano p. 77) de Gabriela Mistral, falemos um pouco
dividem a miséria de todos os deserdados e a “mujer do guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1899-
de tostada frente” que se inclina para semear o 1974), escritor que associa a noção de realismo
trigo tem a pele curtida de todas as camponesas do mágico à mentalidade do índio pré-colonial, como
mundo. Além dessa visão social, ela compartilha afirma em entrevista de 1970:
sua situação pessoal com todas as pessoas que
Las alucionaciones, las impressiones que
viveram o amor e a solidão, a tristeza e o abandono: el hombre obtiene de su medio tienden a
“Como soy reina y fui mendiga, ahora vivo em transformarse en realidades, sobre todo allí
donde existe una determinada base religiosa
puro temblor de que me dejes” (MISTRAL apud y de culto, como en el caso de los indios. No
RODRÍGUEZ VALDÉS, 1990, p. 128). se trata de una realidad palpable, pero si de
una realidad que surge de una determinada
Para expressar essa temática, ela utiliza imaginación mágica. Por ello, al expresarlo,
lo llamo “realismo mágico” (ASTURIAS apud
uma linguagem simples e coloquial, de grande
CHIAMPI, 1980, p. 45).
musicalidade e um simbolismo atento à tradição
folclórica. Em Desolación, predomina o sentimento Asturias, poeta, romancista, dramaturgo,
sobre o pensamento, ao tratar da morte de seu noivo. jornalista e diplomata, se notabilizou pela obra
Em Ternura, pratica uma inovadora poesia escolar, romanesca, em que se aliam o lirismo, o apuro
renovando os gêneros tradicionais da poesia infantil formal e a reivindicação social. Estudou na

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Sorbonne e, sob a direção do professor Georges textos maias, as palavras possuem valor ritual, têm
Raynaud, traduziu o Popol Vuh, em colaboração significado religioso e são a própria substância do
com o escritor mexicano José Maria Hurtado culto, dotadas de poderes de cura, encantamento
de Mendoza. O texto é um manuscrito em e feitiçaria. Consciente desse poder da palavra,
língua quiché do século XVI por um indígena o escritor transmite sua mensagem por meio
provavelmente discípulo dos primeiros de imagens literárias tão bem construídas que
missionários, pois apresenta caracteres latinos. mereceu o epíteto de “el mago de la imagen”.
Popol, quer dizer comunidade, conselho e vuh Segundo o próprio autor, Hombres de maíz
significa livro, daí ser conhecido também como
inspira-se na luta sustentada entre o indígena do
“Livro do Conselho” ou “Livro da Comunidade”. campo, que entende que o milho deve semear-se
Seus primeiros títulos são: Leyendas de Guatemala só para alimento, e o homem criollo, que o planta
para negociar, queimando bosques de madeiras
(1930) que se baseia no folclore dos maias. Em preciosas e empobrecendo a terra para enriquecer-
seguida, El señor Presidente (1946), romance em se (ASTURIAS apud JOZEF, 1986, p. 73).

que descreve a sombria realidade sob uma ditadura.


Publicou depois Hombres de maíz (1949) e a trilogia Os “homens de milho” são os indígenas
bananeira Viento fuerte (1950), El Papa Verde (1954) descendentes dos maias que consideram esta planta
e Los ojos de los enterrados (1960). como dádiva dos deuses e se veem perplexos e
O Papa Verde é Thompson, poderoso desesperados diante de sua comercialização pelos
funcionário e acionista da Tropical Platanera S.A., brancos. Surge, então, um mundo mágico, no qual
que enriquece em suas atividades agrícolas na a própria terra acusa o cacique Gaspar Ilóm, deitado
América Central à custa de violenta expropriação sobre ela, de estar sendo destruída em razão de sua
de terras. apatia e resignação. A terra ainda se comunica mais
duas vezes com Ilóm, mostrando que há inimigos
[…] la tierra sólo es una, pero tiene cuatro
“susurros” para los grandes jefes. El susurro es querendo destruí-la e prometendo-lhe ajuda de
el ruido que hace cada una de las tierras que se proporções cósmicas, caso resista. No entanto,
frota sobre la piel del elegido. Tendrás majestad
única y estarás en todas partes. Ser jefe es ser o personagem, de origem maia, acaba derrotado
múltiple. Ser jefe es poder estar en muchas pelos maiceros, que queimam a terra para cultivar
partes (ASTURIAS apud LOPES; PEÑUELA
CAÑIZAL, 1982, p. 81). milho para comercialização. Sem esperanças,
o índio se atira ao rio, que, mitologicamente, se
Para Asturias, o mito indígena funciona como transforma nele próprio.
elemento de compreensão da realidade presente. Esta é a primeira das seis histórias que
Para alcançar esse objetivo, não basta absorver compõem o romance, unidas entre si pela vingança
temas regionais, mas proceder a uma renovação cósmica que se processa pela morte do cacique
da própria linguagem. No Popol Vuh e antigos Ilóm, pelas crenças e valores da cultura maia.

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Ao aproximar o mito antigo de novas formas putrefação e germinação: o amassilho


primordial. Vida não intra-uterina, mas intra-
de expressão, Asturias sintetiza o passado e o terrestre: “el tiempo que debajo del océano nos
presente, o indígena e o europeu, o telurismo e mira” (PAZ, 2003, p. 148).

o refinamento, realizando, em suas narrativas, a


epopeia do homem americano, de que ele tinha Com Tercera residencia (1945), parte final
plena consciência: “Minha obra continuará da trilogia, o poeta abandona a descrição de
refletindo a voz do povo e ao mesmo tempo tratará seus próprios sentimentos, como fizera nas
de inspirar uma consciência universal a respeito primeiras obras, para advogar um ativo papel na
dos problemas latino-americanos” (ASTURIAS transformação social. Assim, esse livro deve ser
apud JOZEF, 1986, p. 76). visualizado em dupla perspectiva: a da arte e da
sociedade, a da poesia e da política. Aliás, o próprio
4 PABLO NERUDA: AMOR E RESIDÊNCIA Neruda (1968, p. 97) informa, na explicação
NA TERRA que antecede o poema “Las furias y las penas”
(palavras extraídas de um verso de Quevedo):
Focaliza-se, agora, Pablo Neruda (1904-
En 1934 fué escrito este poema. Cuántas cosas
1973), prolífico poeta chileno que publicou mais han sobrevenido desde entonces! España, donde
de 50 livros em meio século (1923-1973), numa lo escribí, es una cintura de ruinas. Ay¡ si con
sólo una gota de poesia o de amor pudiéramos
atividade incessante, mesmo em momentos aplacar la ira del mundo, pero eso sólo lo pueden
la lucha y el corazón resuelto.
difíceis de sua vida. El mundo ha cambiado y mi poesia ha cambiado.
Sua vocação de poeta surgiu cedo: aos 22 Una gota de sangre caída en estas lineas quedará
viviendo sobre éllas, indeleble como el amor
anos já havia publicado seis livros, entre os quais Marzo de 1939
Crepusculario (1923) e Veinte poemas de amor
y una canción desesperada (1924). Nessa fase, Mas é no Canto général (1950) que o poeta
a lírica amorosa é marcada pela comparação escreverá seu testamento épico, social e político.
sensual entre a mulher e a natureza, elevando a Enquanto descreve e interpreta acontecimentos
figura feminina a um nível cósmico, como uma históricos do continente, ele entrelaça a sua
verdadeira força do universo. própria trajetória épica. Como se sabe, embora
Residencia en la tierra (1933), publicado em tenha iniciado o poema em 1935, ele só o terminou
duas partes, é o primeiro grande livro de Neruda. em 1948, enquanto fugia clandestinamente do
Investigando a que terra o poeta se refere, afirma governo chileno.
Octavio Paz: Ao retornar do exílio em 1953, Neruda inicia
uma nova fase poética: mantém sua posição
Não é uma terra histórica, não é Chile nem
tampouco a América pré-colombiana; é uma
de poeta público, porém sem preocupação de
geologia mítica, um planeta em fermentação, engajamento político, e aprofunda sua lírica

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amorosa em linguagem cada vez mais simples. É 5 GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ: AMOR E
o momento de Cien sonetos de amor (1959), partes SOLIDÃO
de Estravagario (1958) e La barcarola (1967).
“Muda es la fuerza (me dicen los árboles) / y la O escritor que se segue é o colombiano Gabriel
profundidad (me dicen las raíces) / y la pureza (me García Márquez (1928), que recebeu o Nobel em
dice la harina) [...]” (NERUDA, 1968, p. 275). 1982. Foi jornalista e roteirista, mas se destacou
Em 1971, Neruda declina de se candidatar à na ficção romanesca. Seus romances e contos,
presidência do país em favor de Salvador Allende, que nos quais o fantástico e a realidade se unem para
vence as eleições. O poeta viaja para a França como criar um mundo imaginário extremamente rico,
embaixador, onde recebe a notícia do Prêmio Nobel. refletem a vida e os conflitos da Colômbia e da
Mas, retorna já doente. Em 11 de setembro de 1973, o América Latina.
governo é derrubado e o presidente se suicida. O que o autor oferece em seus textos é um
Narra-se o seguinte diálogo, depois do golpe retorno à origem histórica da América como meio
militar, entre um capitão do exército e o poeta: de encontrar a sua face autêntica e, ao encontrá-la,
perceber que ela se faz contemporânea sob a forma
– Procure, pois, capitão. Aqui só tem uma coisa
perigosa para vocês.
intemporal de invariantes míticas.
O oficial deu um pulo. É o que ocorre em quase toda a sua ficção, mas
– Que coisa? – perguntou, alarmado, levando
uma das mãos, talvez, ao coldre de sua arma. especialmente no romance que o consagrou: Cien
– A poesia! – disse o Poeta... (EDWARDS, años de soledad (1967). José Luis Martínez, citando
1993, p. 177).
obras renomadas nas letras contemporâneas da
Na semana seguinte, o poeta do amor e do mar América Latina, destaca esta:
é internado e falece em 23 de setembro.
Mas, entre todas, uma já alcançou, em várias
Essas são as palavras finais de Jorge Edwards línguas, uma fama não só literária, mas popular,
talvez por ser a obra-prima desse período, Cien
na biografia de Neruda: años de soledad, de García Márquez. É um livro
de amor e de imaginação. Tudo está nele: história
[...] vejo o Poeta que desce de sua estátua, e mito, protesto e confissão, alegoria e realidade,
solitário, que se instala na proa de um barco de e tudo é contado com uma velha arte que quando
roda, durante a navegação por um rio da antiga aparece realmente vence as fórmulas literárias,
Araucânia, como em um dos poemas iniciais de que tanto é dom quanto obra da inteligência e do
Memorial, e contempla com olhos muito abertos espírito, o velho segredo da narração que uma
vez mais nos cativa (MARTÍNEZ, 1979, p. 81).
a vastidão, a variedade, a beleza do mundo
(EDWARDS, 1993, p. 254-255).
Emir Rodríguez Monegal alerta o leitor para as
Como diz sua própria poesia: “[...] y resbalo en
influências latentes nessa narrativa sedutora:
las cosas, / en el aire, / porque sigue mi sombra en
otra parte / o soy la sombra de un porfiado ausente” Se García Márquez parece adaptar os
(NERUDA, 1968, p. 276). ensinamentos recolhidos simultaneamente em

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Faulkner e na Virginia Woolf de Orlando (livro y para mencionarlas había que señalarlas con
que Borges traduziu para o espanhol), à criação
desse Macondo imaginário em que vive e morre el dedo” (GARCÍA MÁRQUEZ apud LOPES;
o coronel Aureliano Buendía, convém advertir PEÑUELA CAÑIZAL, 1982, p. 67).
desde logo que a gente não deve deixar-se
enganar pelas aparências. O já ilustre narrador Nesse romance, apesar ou até mesmo por
colombiano está fazendo algo a mais do que causa da rica e imaginativa matéria narrativa, de
contar uma fábula de infinito encanto, humor
inesgotável, fantasia envolvente: está apagando um realismo maravilhoso sem par, depreende-
com a prática mais insidiosamente persuasiva
a enfadonha distinção entre realismo e fantasia
se o clima intensamente poético, resultado da
no próprio corpo do romance, para apresentar – contaminação de gêneros literários. É um romance
numa só frase e num mesmo nível metafórico –
a “verdade” narrativa daquilo que vivem e o que poético ou uma poesia romanceada? O que se pode
sonham seus entes de ficção. deduzir dessas características é que Cien años de
Enraizado simultaneamente no mito e na
história, traficando com episódios dignos de Mil soledad oferece material tão infenso a classificações
e uma noites ou da parte mais arcaica da Bíblia, que da poetização narrativa brota uma “América
Cien años de soledad só alcança plena coerência
nessa realidade fundíssima da linguagem mágica”, fruto da tradição realista ocidental aliada
(MONEGAL, 1979, p. 154-155).
ao maravilhoso das mitologias indígenas.
O romance instaura uma visão ao mesmo Infelizmente, García Márquez hoje não mais
tempo estética e metafísica da solidão (“as estirpes escreve. Devido à doença irreversível de que
condenadas a cem anos de solidão”). Sua saga sofre, interrompeu a meio sua autobiografia.
familiar, cujas raízes estão nos contos populares,
nas histórias fabulosas que ouvia de sua avó 6 OCTAVIO PAZ: PALAVRA E LABIRINTO
antes dos oito anos, tem como principal motivo a
maldição que cai sobre os membros de uma estirpe: O próximo escritor é o mexicano Octavio Paz
terão um filho com rabo de porco se se casam entre (1914-1998), premiado em 1990. Poeta, ensaísta,
parentes próximos. tradutor e diplomata, ele se destaca na poesia latino-
Apesar da aparente linearidade narrativa, os americana por um “lirismo intenso e profundo,
acontecimentos e os personagens se mesclam, espírito singularmente lúcido, em que se cruzam os
devido principalmente à repetição dos nomes, conflitos e as experiências culturais da história de
criando um confuso tempo cíclico, o que termina nosso tempo” (MARTÍNEZ, 1979, p. 78).
por afetar também o espaço. A casa dos Buendía Sua poesia tem algo da tradição do barroco,
e o povoado de Macondo parecem dissolver-se, do surrealismo de Breton, da invenção formal
talvez fundidas no pântano de que surgiram, para de Mallarmé e da síntese oriental do haicai. Em
contar a história do mito do incesto. determinado momento, se vale da experiência
O mundo criado pelo romance corresponde à concretista – ele julgava o concretismo brasileiro
criação do mundo no Gênesis: “El mundo era tan como a vanguarda dos anos 50 –, como no grande
reciente, que muchas cosas carecían de nombre, poema Blanco (1967), que pode ser lido de três

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maneiras diferentes devido ao aspecto tipográfico, filhos da Malinche” desse instigante livro:
e em Discos visuales (1968), poemas escritos em
O mexicano e a mexicanidade se definem como
dois discos que rodam um sobre o outro por um ruptura e negação. E portanto como busca,
mecanismo manual, fazendo surgir novos textos como vontade de transcender esse estado de
exílio. Em resumo, como viva consciência da
escondidos debaixo das figuras que se formam. solidão, histórica e pessoal. A história, que não
Nessas experiências, o que ressalta é o dinamismo nos podia dizer nada sobre a natureza de nossos
sentimentos e de nossos conflitos, pode mostrar-
da poesia como uma arte em movimento. Assim o nos agora como se realizou a ruptura e quais
foram as nossas tentativas para transcender a
livro está e não está escrito, pois o leitor, convidado
solidão (PAZ, 2003, p. 260).
a também ser poeta, encerra-o, mesmo que diga o
que já está implícito no discurso do poeta. Em El arco y la lira (1956), Paz examina a
Haroldo de Campos encontra duas linhas na natureza do poema, analisando seus componentes:
poesia de Paz: a elíptica e a metalinguística. Na linguagem, ritmo e imagem. “No todos los mitos
primeira, a dicção poética surge nos haicais, como son poemas, pero todo poema es mito. Como en
em “Pleno sol”: “A hora é transparente: / vemos, el mito, en el poema el tiempo cotidiano sufre una
se o pássaro é invisível, / a cor do seu canto”. Na transmutacion: deja de ser sucesión homogénea
segunda, alcança o apogeu em “As palavras”, y vacía para convertirse en ritmo” (PAZ apud
verdadeira luta corporal entre elas e o poeta, na LOPES; PEÑUELA CAÑIZAL, 1982, p. 152).
qual ele, após “chicoteá-las”, “chupar-lhes sangue Para o autor, não há uma sólida distinção entre
e medula”, entre outros atos erótico-violentos, a prosa e a poesia. Também reflete sobre as
intenta “fazer com que engulam todas as suas diferenças e as semelhanças entre a experiência
palavras” (PAZ, 2003, p. 311). poética e a religiosa e, finalmente, a relação entre
O ensaísmo do autor, com toques de Heidegger, a poesia e a história. “[...] o poema é histórico de
é reconhecido pela crítica como original e inovador. duas maneiras: a primeira como produto social; a
Sua criação de ideias e análises, nas quais sobressai segunda, como criação que transcende o histórico,
o tom altamente poético, provoca e mobiliza mas que, para ser efetivamente, precisa se encarnar
consciências sociais e artísticas da modernidade. de novo na história e se repetir entre os homens”
Ao indagar sobre as origens do México, a (PAZ, 1982, p. 228).
colonização e seus dolorosos traumas, focalizando Em Signos en rotación (1964), o ensaio é
o mexicano, o pachuco em sua mitologia e história, quase um manifesto, uma pedra de toque para
em El laberinto de la soledad (1950), suas palavras o significado político de toda criação poética.
discutem a questão identitária, ao mesmo tempo Quando escreve sobre matérias tão diversas como
constante e em transformação, não só no seu país, Breton e a busca do início, a poesia de Mallarmé,
mas em toda a América Latina. de Matsuo Bachô, de Fernando Pessoa ou o cinema
Assim, Octavio Paz conclui o capítulo “Os filosófico de Buñuel, o que o poeta persegue, na

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A literatura latino-americana

ânsia de se comunicar, é a unidade e a comunhão. de liberdade, paixão e violência, reconhecendo


Analisando o pensamento político de Octavio a dimensão plural do tempo, mas ainda assim
Paz, é o que confirma Celso Lafer: arraigado à solidez da terra.
Mas essa terra não vale por si mesma, e sim
A grande tarefa da América Latina é encontrar
novas formas viáveis de convivência humana
pelos personagens, que são mais importantes
e associação política pelas quais a reforma ou na narrativa. Por exemplo, a força interior que
a revolta, dependendo do caso, confiram aos
nossos países a feição e o rosto de comunidades impulsiona o romance La casa verde (1965) é
(LAFER apud PAZ, 2003, p. 280). fundamentalmente humana, passando pelo enredo
do inconsciente antes de deparar com a paisagem
7 MARIO VARGAS LLOSA: CIDADE E da selva, que funciona como pano de fundo.
HISTÓRIA Vargas Llosa separa os campos do criador
e do cidadão, não subordinando um ao outro,
Finalmente, chega-se a Mario Vargas Llosa reconhecendo o papel livre do artista ao escolher os
(1936), peruano que recebeu o Nobel em 2010. seus temas, suas formas, suas obsessões. Assim, por
Paralelamente à sua vocação de escritor e professor exemplo, trata artisticamente da vida num colégio de
universitário exerceu atividade jornalística e política, cadetes em Lima no romance La ciudad y los perros
chegando a ser candidato a presidente do país. (1963), queimado em praça pública da capital por
Está ligado ao apogeu do romance latino- ter sido considerado ofensivo às forças armadas; em
americano, para o qual contribui com obra de La casa verde (1965), cinco histórias se entrelaçam
temática variada, abrangendo desde a sociedade entre a cidade provinciana de Piúra no noroeste
peruana do século XX ao sertão brasileiro do desértico do país e a selva tropical amazônica na
século XIX. Em seus textos, observa-se, sobretudo, região nordeste; Conversación en la catedral (1969)
uma consciência da estrutura romanesca e uma é, segundo José Miguel Oviedo, “uma espécie de
aguda sensibilidade para a linguagem como pirâmide de diálogos que expandem suas ondas
matéria-prima do narrativo. Aproveita as novas concêntricas pelo tempo e pelo espaço” (OVIEDO
técnicas (descontinuidade cronológica, monólogos apud NAVARRO, 1988, p. 61); em Pantaleón y las
interiores, pluralidade dos pontos de vista e dos visitadoras (1973), constrói simultaneamente uma
personagens) para estruturar algumas visões sátira e um apólogo moral; e, em La tia Julía y el
simultaneamente tradicionais e modernas do seu escribidor (1977), o jovem jornalista Varguinhas é
país natal. Suas inspirações vão desde o romance um personagem autobiográfico.
de cavalaria a Flaubert e Faulkner. Instaura uma Em La guerra del fin del mundo (1981), o
nova forma de realismo: um realismo que rejeita o escritor focaliza o episódio histórico de Canudos,
maniqueísmo e o romance de protesto, construindo no sertão baiano do século XIX, objeto em sua
vários mundos sociais, onde dominam os dramas época do romance Os sertões (1902) do brasileiro

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Ercilia Bittencourt

Euclides da Cunha. Não se trata aqui de comparar não prevalecem ou estão inseridos outros fatores,
os dois textos, mas de frisar que o romance como os políticos e econômicos e não apenas os
histórico, sendo romance, não é mais histórico, estéticos e literários?
integra-se no plano artístico em que não importa Quanto aos escritores aqui mencionados,
a veracidade dos fatos, mas sua verossimilhança. encontram-se em suas biografias pontos de
No caso do romance brasileiro, há maior intenção contato, tais como: a participação política no
de interpretar ideologicamente os fatos históricos, destino de seus países que os levou ao exílio e/ou
o texto aproximando-se de um ensaio sociológico, à diplomacia e o engajamento de sua literatura em
ao passo que Vargas Llosa evidencia inicialmente causas sociais. No entanto é incontestável o valor
o contrário a partir do próprio subtítulo do seu e a perenidade de suas obras literárias. Outros
romance: “A saga de Antônio Conselheiro na contemplados estão inteiramente esquecidos, mas
maior aventura literária do nosso tempo”. não estes. O que ocorre é que, como em toda tarefa
humana, sempre há insatisfações. Mesmo estes
Canudos? – murmurou o Barão. – Epaminondas
procede bem em querer que não se fale mais
não foram aceitos totalmente. Na época indagou-
desse assunto. Esqueçamo-lo, é o melhor. É se por que não o argentino Jorge Luís Borges? Ou
um episódio infeliz, turvo, confuso. Não serve.
A história deve ser instrutiva, exemplar. Nessa o brasileiro Jorge Amado? Enfim...
guerra ninguém se cobriu de glória. E ninguém Ainda nesse quesito, de êxito e consagração,
entende o que houve. As pessoas decidiram
baixar a cortina. É sábio, saudável (VARGAS é interessante observar a opinião de Vargas Llosa
LLOSA, 1985, p. 353). em 1966, na época do boom latino-americano,
portanto antes de receber o seu Nobel:
Este, portanto, caracteriza-se pelo talento
criativo do autor para inovar nos tipos e Entendo que quando tinham Proust e Joyce,
os europeus mal se interessassem ou não se
personagens, históricos e fictícios, e nas descrições interessassem por Santos Chocano ou Eustásio
coloridas e ágeis – como se a narrativa fosse uma Rivera. Mas agora que só têm Robbe-Grillet,
Nathalie Sarraute ou Giorgio Bassani, como não
epopeia cinematográfica. voltar os olhos para fora de suas fronteiras em
busca de escritores mais interessantes, menos
letárgicos e mais vivos? Procurem na literatura
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS europeia dos últimos anos, um autor comparável
a Julio Cortázar, um romance da qualidade de El
siglo de las luces, um poeta jovem de voz tão
Após estas breves palavras sobre estes autores, o profunda e subversiva como a do peruano Carlos
Germán Belli; não aparecem em parte alguma.
leitor poderia ainda questionar: por que estes e não A literatura europeia atravessa uma terrível crise
de frivolidade e isto favoreceu a difusão dos
outros, igualmente importantes? A aquisição do escritores latino-americanos na Europa (VARGAS
Nobel é critério válido para a eleição de um corpus LLOSA apud COULTHARD, 1979, p. 59).

de amostragem da literatura latino-americana? Até A questão é vista por outro prisma por Octavio
que ponto nos motivos que norteiam essas escolhas Paz, em 1967, também antes de receber o seu

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A literatura latino-americana

Nobel: REFERÊNCIAS

Em primeiro lugar, a palavra êxito produz em CHIAMPI, Irlemar. O realismo maravilhoso:


mim rubor: não pertence ao vocabulário da forma e ideologia no romance hispano-americano.
literatura mas ao dos negócios e do esporte.
São Paulo: Perspectiva, 1980. (Debates, 160).
Em segundo lugar: a voga das traduções é um
fenômeno universal e não exclusivo da América
Latina. É uma consequência do auge editorial, COULTHARD, George Robert. A pluralidade
um epifenômeno da prosperidade das sociedades cultural. In: FERNÁNDEZ MORENO, César
industriais. Ninguém ignora que os agentes dos (Coord.). América Latina em sua literatura.
editores percorrem os cinco continentes, das São Paulo: Perspectiva, 1979. (Estudos, 52).
pocilgas de Calcutá aos pátios de Montevidéu e
os bazares de Damasco, em busca de manuscritos
de romances. Uma coisa é a literatura e outra a
EDWARDS, Jorge. Adeus poeta: uma biografia
edição (PAZ apud RETAMAR, 1979, p. 334). de Pablo Neruda. São Paulo: Siciliano, 1993.

JOZEF, Bella. Romance hispano-americano.


E arremata com as seguintes palavras: “Pelo São Paulo: Ática, 1986. (Fundamentos, 14).
visto, para que uma obra seja considerada entre
LOPES, Edward; PEÑUELA CANIZAL,
nós, deve contar antes com a bênção de Londres, Eduardo. O mito e sua expressão na literatura
Nova York ou Paris. A situação seria cômica se não hispano-americana. São Paulo: Duas Cidades,
1982. (O Baile das Quatro Artes).
implicasse uma demissão” (PAZ apud RETAMAR,
1979, p. 334). MARTÍNEZ, José Luis. Unidade e diversidade.
Estas são ideias conflitantes, mas que podem In: FERNÁNDEZ MORENO, César (Coord.).
América Latina em sua literatura. São Paulo:
aspirar à harmonia, ainda que no nosso desejo. Perspectiva, 1979. (Estudos, 52).
Por isso, queremos ensaiar uma sucinta e parcial
conclusão com as palavras sensatas de Pablo Neruda: MONEGAL, Emir Rodriguez. Tradição e
renovação. In: FERNÁNDEZ MORENO, César
(Coord.). América Latina em sua literatura.
O mundo das artes é uma grande oficina em
que todos trabalham e se ajudam, mesmo que
São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 131-159.
não o saibam ou acreditem. E, em primeiro (Estudos, 52).
lugar somos ajudados pelo trabalho dos que nos
precederam e já se sabe que não há Rubén Darío NAVARRO, Márcia Hoppe. O romance na
sem Gôngora, nem Apollinaire sem Rimbaud, América Latina. Porto Alegre: EDUFRGS,
nem Baudelaire sem Lamartine, nem Pablo 1988. (Síntese Universitária, 13).
Neruda sem todos eles juntos (NERUDA apud
COULTHARD, 1979, p. 59).
NERUDA, Pablo. Antologia poética. Rio de
Janeiro: Sabiá, 1968.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. 2. ed. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Coleção Logos).

______. Signos em rotação. São Paulo:


Perspectiva, 2003. (Debates, 48).

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Ercilia Bittencourt

RETAMAR, Roberto Fernández.


Intercomunicação e nova literatura. In:
FERNÁNDEZ MORENO, César (Coord.).
América Latina em sua literatura. São Paulo:
Perspectiva, 1979. (Estudos, 52).

RODRÍGUEZ VALDÉS, Gladys. Invitación a


Gabriela Mistral: (1889-1989). Guadalajara:
Fondo de Cultura Económica, 1990.

VARGAS LLOSA, Mario. A guerra do fim do


mundo. 12. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1985.

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