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04/10/2016 Ainda não começámos a pensar: A morte de Glauber Rocha (1981)

Ainda não começámos a pensar


                                               We have yet to start
thinking
 Cinema e pensamento | On cinema and thought                                                                              @ André Dias

A morte de Glauber Rocha (1981)

«Genial e incómodo; o mais conhecido – e é sem dúvida o maior – dos
cineastas  brasileiros  estava  um  pouco  esquecido.  Cinema  novo,
tropicalismo,  tricontinentalismo  estão  longe?  Ele,  Glauber  Rocha,  não
esquecia nada.

A  última  vez  que  vi  Glauber  Rocha  foi  nos  escritórios  dos  Cahiers  du
cinéma,  perto  da  Bastilha.  Não  o  conhecia,  mas  tinha  visto  os  seus
filmes  dez  anos  antes.  Já  ninguém  falava  dele,  excepto  para  dizer  que
tinha  ficado  louco  ou  que  se  tinha  comprometido  com  o  regime  militar
brasileiro. Tinha vindo a França mostrar, quase em bicos de pés, o seu
último filme, um filme a que tinha dedicado bastante tempo, dinheiro e
trabalho  e  que  tinha  deixado  os  festivaleiros  de  Veneza  pelo  menos
perplexos. Esse chamava­se A idade da terra e não se parecia a nada de
conhecido. Um filme torrencial e alucinado. Um Ovni fílmico, nem mais,
nem menos. Glauber estava em Paris para tentar distribuir o seu filme,
reatar  alianças,  fazer  o  ponto  da  situação.  Falava  muito,  delirava
certamente: nada do que dizia era insignificante.
Nos Cahiers,  pedimos­lhe  se  aceitaria  escrever  ou  dizer  alguma  coisa  a
propósito de Pasolini, que tinha conhecido, e a quem consagrámos então
um  número  especial.  Ele  fechou­se  num  gabinete,  e,  não  tendo
necessidade alguma de entrevistador, falou sozinho durante horas para
um pequeno gravador. Pouco à vontade, ouvíamos a sua voz veemente,
o charme do sotaque brasileiro em francês, o ajuste de contas raivoso e
afectuoso  com  PPP,  as  censuras  post  mortem.  Era  já  um  diálogo  de
mortos.  Não  o  voltámos  a  ver,  pois  partiu  para  Portugal  onde  parecia
trabalhar  num  projecto  de  filme.  Acaba  de  morrer,  no  seu  regresso  ao
Brasil, de complicações de uma doença de que nada sabemos.
Dos grandes agitadores do cinema moderno, Glauber Rocha era talvez o
mais  distante  de  nós.  Desde  logo  porque,  a  partir  dos  anos  70,  a  sua
reputação  tornou­se  francamente  má:  tinha  virado  a  casaca,  tinha  dito
bem  dos  regimes  militares  de  Geisel  e  de  Figueiredo  e  o  organismo  de
estado  do  cinema,  a  Embrafilme,  tinha  enfiado  muito  dinheiro  nesse
filme fleuve  e  louco,  o  ovni­A idade da terra.  Depois  porque,  no  fundo,
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04/10/2016 Ainda não começámos a pensar: A morte de Glauber Rocha (1981)

sempre  tinha  estado  longe,  tão  longe  de  nós  como  o  Brasil  pode  estar.
Se houve aproximação foi porque nessa época de loucuras, havia ainda
uma coisa que se chamava “história do cinema” que tecia sob os nossos
olhos  as  alianças  mais  paradoxais.  Glauber  Rocha  podia  discutir
montagem eisensteiniana com Godard, dizer em que é que Faulkner era
um  escritor  cinematográfico,  ou,  paradoxo,  porque  era  necessário
considerar  Buñuel  um  cineasta  “tricontinental”.  Não  parecia  haver
diferenças entre as guerrilhas que levavam as “novas vagas” do mundo,
fossem quais fossem as margens onde morriam. Resistia­se: resistia­se
a  Hollywood­Mosfilm,  com  uma  mistura  de  revolta  e  de  piedade.  Ainda
não  se  pensava  que  a  América  tinha  ganho  definitivamente  no  domínio
das imagens e dos sons.
Em  1963,  Glauber  Rocha  e  seus  amigos  (Diegues,  Hirzsman,  Guerra,
dos  Santos,  Saraceni,  etc.)  tinham  publicado  um  panfleto:  “Revisão
crítica do cinema brasileiro”. Nascido na Bahia em 1938, Glauber, como
toda  a  gente,  tinha  animado  um  cineclube  e  escrito  críticas  de  filmes.
Como  toda  a  gente  na  América  Latina,  ele  e  os  seus  amigos  tinham
aproveitado  um  momento  de  liberalização,  de  uma  trégua,  para  tentar
mudar,  do  interior,  o  cinema  brasileiro.  Três  filmes  estabelecem  a  sua
reputação: Deus  e  o  Diabo  na  terra  do  Sol  (63),  Terra  em  transe (66),
António das Mortes (68).
A crítica ocidental, sempre curiosa de folclore e ébria de rótulos, adorou
esse  novo  cinema,  esse  “cinema  nôvo”  que  Glauber  simbolizava.
Adorava­o  tanto  quanto  não  conhecia  nada  do  antigo,  nem  do  Brasil
aliás. Depois, à medida que os militares voltavam a agarrar pelo pêlo o
animal (e que animal!), esqueceu­o. Recambiados às suas contradições,
as cabeças de cartaz do dito cinema novo afrontaram cada um por si a
sequência  dos  acontecimentos:  Glauber  exila­se  em  1971,  Hirzsman
cala­se,  Ruy  Guerra  irá  para  Moçambique,  apenas  Diegues  se  torna
pouco  a  pouco  o  cineasta  brasileiro.  Glauber  Rocha,  o  mais
evidentemente  “genial”  de  todos,  terá  a  evolução  mais  errática.  Dois
filmes­monstros que era preciso rever hoje em dia, Der Leone have sept
cabeças (1969) e Cabeças cortadas (1970), o projecto não concluído de
uma  História  do  Brasil,  um  filme  falhado  em  Itália  (Claro),  uma
aparição­gag  em  Vent  d’est  de  Godard,  uma  curta­metragem
controversa (Di Cavalcanti), e, para acabar, A idade da terra.
Genial  mas  incómodo,  figura  vagamente  admirada,  temida  ou
desprezada da paisagem intelectual brasileira, personagem pública difícil
de  manipular,  mesmo  para  os  militares  a  quem  ele  tinha
escandalosamente  (como  táctica?)  elogiado  os  méritos  mas  de  quem
não  se  via  como  se  poderia  tornar  refém  ou  o  cineasta  oficial.
Demasiado  louco.  Glauber  Rocha  queimou  assim  muitas  pistas,  deixou
muitos  amigos,  disse  uma  quantidade  de  coisas  erradas.  Em  1980,  em
Veneza, porta­se muito mal e insulta Louis Malle, de quem Atlantic City
acabava  de  ser  coroado.  Vê  por  todo  o  lado  o  imperialismo  americano,
vê por todo o lado a mão de Hollywood.
Isto não era de ontem. Em 1967, declarava – ideia banal à época – “Os
instrumentos  estão  em  Hollywood  como  outros  estão  no  Pentágono.
Nenhum  cineasta  é  suficientemente  livre.”  Era  a  época  do  sonho  tri­
continental:  “As  escolhas  de  um  cineasta  tri­continental  intervêm  no
momento  em  que  a  luz  bate,  ou  seja  quando  a  câmara  se  abre  para  o
terceiro­mundo,  terra  ocupada.  Na  rua,  no  deserto,  nas  florestas,  nas
cidades,  a  escolha  impõe­se  e  mesmo  quando  a  matéria  for  neutra,  a
montagem faz­se discurso. Um discurso que pode ser impreciso, difuso,
bárbaro, irracional, mas em que todas as recusas são significativas.” Ao
ver, catorze anos mais tarde, A idade da terra, disse­me que sobre este
ponto  Glauber  não  tinha  mudado.  Um  filme  à  imagem  do  Brasil,  “povo
palavroso, falador, enérgico, estéril, histérico” (sempre segundo G.R.).
Nesse  filme  em  que  já  não  enganava  ninguém,  em  que  estava  sozinho
com  o  seu  delírio,  Glauber  fazia  voltar  à  nossa  memória  um  sonho
esquecido, esse de um outro cinema, outra coisa que o “made in USA”.
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04/10/2016 Ainda não começámos a pensar: A morte de Glauber Rocha (1981)

Porque isto existiu, em várias épocas, essa ideia de que os cineastas de
todos  os  continentes  podiam  arranjar  diferentemente  as  imagens,
propor  ao  cinema  outra  coisa  que  o  seu  triste  devir­televisão  ou  o  seu
sinistro devir­museu. Um cinema de montagem, físico e discordante, um
cinema­ópera para variar da opereta americana. Isto existiu outrora.
Ao  reler  as  velhas  conversas  entre  Glauber  e  os  Cahiers,  a  imagem  do
profeta intratável e duvidoso com a qual se tinha acabado por confundir
esfuma­se  um  pouco.  É  certo  que  ele  foi,  mais  que  qualquer  um,  o
artista  pequeno­burguês  que  todas  as  ortodoxias  odeiam,  o  eterno
aprendiz  de  feiticeiro  da  política,  inconstante,  provocador,  etc.  Era
mesmo  esse  o  tema  de  Terra  em  transe  [2ª,  dia  6,  21h30  ­
Cinemateca],  um  filme  brilhante  e  masoquista:  que  ditador  servirá  o
poeta?  No  entanto,  o  que  ressalta  dessas  entrevistas  é  a  prodigiosa
cultura  de  Glauber:  o  seu  conhecimento  íntimo  do  cinema  (incluindo  o
americano), a reivindicação de uma “brasileiridade” e, ao mesmo tempo,
essa ideia de que existem por toda a parte, debaixo das aparências dos
santos  oficiais,  os  ídolos  dos  dominados.  Por  trás  dos  quais,  por  vezes,
eles se sublevam. Os filmes de Glauber são westerns em que matadores
de  cangaceiros,  misticismo  camponês  e  manipulações  políticas  formam
um  único  argumento.  Sobre  o  “folclore”,  tinha  muito  a  ensinar­nos.  De
formação  protestante,  fascinado  pelos  rituais  católicos,  sabe  encontrar
por  trás  deles  os  deuses  africanos,  por  trás  de  S.  Jorge  as  divindades
que se chamam Oxosse ou Ogun, por trás da Igreja o Candomblé.
Mas  atenção,  não  há  para  ele  deuses  verdadeiros  e  falsos,  há  (diriam
Deleuze  e  Guattari)  deuses  que  “fazem  rizoma”,  há  imagens  que
deslizam umas sobre as outras, todas verdadeiras e todas falsas. O que
conta  não  é  a  Terra,  é  a  Idade.  Se  a  palavra  cultura  tem  hoje  um
sentido,  onde  senão  no  Brasil?  Um  cineasta  empoleirado  no  fluxo  das
imagens,  nas  línguas  do  mundo  inteiro,  quem  senão  Glauber?  É  um
pouco  a  censura  que  ele  fez  a  Pasolini  nos  escritórios  dos  Cahiers  du
cinéma: PPP foi perverso quando era preciso ser subversivo, mais grave:
sonhou com um Cristo­Édipo quando era preciso um Cristo negro e nu.
Não  espanta  que  a  referência  constante  de  Glauber  seja  Eisenstein.  O
autor  de  Potemkine  tornou­se  hoje,  nas  ruínas  dos  nossos  cineclubes,
uma glória longínqua e quase incompreensível. Esquece­se que qualquer
cineasta debutante nesse lado do mundo que a si próprio se inicia (esse
lado dito “terceiro”), o encontra no seu caminho. Nada de político aqui.
Eisenstein  faz  voltar  o  cabaré,  o  circo,  o  travesti,  a  paranóia  alegre,  o
gosto pelas formas e pelas suas metamorfoses, o pequeno e o grande, o
micro  e  o  macro.  A  cultura  enciclopédica  e  o  samba  perante  os  ídolos.
Fazer  surgir  das  coisas  uma  beleza  impura,  mestiça.  Para  Glauber,  o
diálogo  com  Eisenstein  nunca  se  acaba.  “Mesmo  para  Eisenstein,  a
tentativa de tornar estético o Novo Mundo equivalia à de levar a palavra
de  Deus  (e  os  interesses  dos  conquistadores)  aos  Índios”,  diz  ele.  A
idade  da  terra  é  um  pouco,  na  era  do  vídeo,  do  zoom  e  do  som
sobressaturado, a resposta a S.M.E., a terceira parte de Ivan, o terrível.
Ele  desconcertou,  inventou,  chocou,  decepcionou.  Nada  cedeu  do  seu
desejo.  Com  obstinação,  não  cessou  de  colocar  uma  questão  que,
receio,  se  tornou  obsoleta:  o  que  seria  um  cinema  que  não  devesse
nada aos USA? É talvez pedir demais. Mas quem responderá?
24 de Agosto de 1981»
Serge Daney, «La mort de Glauber Rocha», Ciné journal, Volume I /
1981­1982, Cahiers du cinéma, Paris, 1998, pp. 54­60.
  4.11.06

1 comentário:
Paulo Morais disse...
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04/10/2016 Ainda não começámos a pensar: A morte de Glauber Rocha (1981)
Paulo Morais disse...

Texto interessante, é bom encontrar blogs que falam de cinema brasileiro por aí,
principalmente depois de ler tantos e tantos outros que só tem olhos pra hollywood. Valeu

10/11/06 14:58

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