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Contribuição sobre folha de salários e os valores pagos


a título de férias: equívocos do STJ com relação ao
alcance do REsp nº 1.230.957
Artigos 22 de agosto de 2014

1. Introdução

O presente artigo tem como objetivo demonstrar que a materialidade delimitada pelo
constituinte não permite que a contribuição previdenciária sobre folha de salários incida
sobre verbas que não remunerem trabalho realizado com habitualidade, como ocorre com
a remuneração paga no período de férias.

Em seguida, apontaremos os equívocos processuais em que incorreu o STJ ao afastar


importante precedente favorável à tese aqui defendida, por afirmar que um recurso que
tratava de matéria diversa teria motivado sua reforma por meio de embargos de
declaração.

2. A base de cálculo da contribuição previdenciária sobre folha de salários

Ao outorgar competência para a instituição da contribuição aqui em discussão, o


legislador constitucional delimitou expressamente sua materialidade no art. 195, I, “a” ,
autorizando sua incidência sobre duas formas distintas de remuneração: (i) os salários
pagos aos empregados e (ii) a remuneração devida ao trabalhador que presta serviços
sem vínculo empregatício.

Ora, como se trata de grandezas não afeitas ao Direito Tributário, é necessário recorrer à
legislação trabalhista para melhor precisarmos o alcance da contribuição.
Com efeito, a partir da interpretação dos artigos 457 e 458 da CLT, salário pode ser
definido como o montante que engloba todos os valores recebidos pelos trabalhadores
como contraprestação a trabalho realizado com habitualidade, independentemente da
forma de pagamento.

Neste sentido, em seu voto no RE nº 166.772-9, o Ministro Celso de Mello esclareceu que
salário deve ser entendido como “expressão econômico-financeira da contraprestação do
serviço realizado sob o regime de execução subordinada”.

A segunda grandeza sobre a qual incide a contribuição previdenciária do empregador, por


sua vez, consubstancia-se nos demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a
qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício.

Neste contexto, a contribuição apenas pode incidir sobre rendimentos de trabalho, o que
implica dizer que estes valores devem necessariamente ser caracterizados como
contraprestação por trabalho desempenhado.

Em conformidade com as prescrições da lei trabalhista e com a norma constitucional de


competência, o art. 22, I, da Lei nº 8.212/91 , determina, de maneira sintética, que a
contribuição previdenciária do empregador será calculada apenas com base nos valores
destinados a remunerar trabalho realizado com habitualidade.

Diante desses dispositivos não restam dúvidas de que uma verba que não seja destinada
a remunerar trabalho ou que remunere trabalho prestado sem habitualidade não é salário
e, tampouco, rendimento do trabalho. Por isso, não pode integrar a base de cálculo da
contribuição previdenciária do empregador prevista no art. 195, I, a, da CR.

A delimitação da base de cálculo da contribuição previdenciária, portanto, não está


condicionada à simples análise da natureza remuneratória ou indenizatória da parcela,
como sói acontecer nos julgamentos dos Tribunais Superiores. Isso porque existem
parcelas pagas aos trabalhadores que não apresentam natureza indenizatória, mas que,
ainda assim, não podem sofrer a incidência da contribuição sobre folha de salários por
não remunerarem trabalho realizado com habitualidade.
Assim, a linha divisória para a delimitação dos valores sobre os quais pode incidir a
contribuição previdenciária é a caracterização de remuneração como contraprestação de
trabalho realizado com habitualidade. Esta é a conotação prescrita na Constituição da
República. Neste contexto, os valores que não se enquadrarem nesta definição, caso não
só das verbas indenizatórias, devem ser afastados de tributação pela referida
contribuição.

Delimitada a conotação dos valores que podem compor a base de cálculo da contribuição
previdenciária criada pelo art. 195, I, “a”, da CR, passemos, então, à análise da forma de
pagamento de férias aos trabalhadores a fim de averiguar seu possível enquadramento.

3. Da inexistência de contraprestação a trabalho no pagamento de férias

As férias, como denominação do período de descanso ou de sua remuneração, têm


previsão constitucional, no art. 7º, XVII, que prescreve que os trabalhadores urbanos e
rurais têm direito ao “gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a
mais do que o salário normal”.

Ora, se as férias são remuneradas, não há dúvidas de que a remuneração devida pelo
empregador não é paga como contraprestação por trabalho realizado, justamente por ser
paga durante período em que o empregado não está exercendo nenhuma atividade
laboral.

O pagamento dessas parcelas tem como finalidade capitalizar o trabalhador no seu


período de descanso, para que possa efetivamente descansar no intervalo de tempo em
que lhe é vedado exercer atividade remunerada.

Neste contexto, não há como admitir a incidência das contribuições previdenciárias sobre
essas parcelas, por não serem pagas como remuneração por trabalho realizado.

Exatamente por este fundamento, o E. Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao


Recurso Especial nº 1.322.945, para afastar a incidência da contribuição. Com efeito,
neste Recurso, foi afastada a incidência da contribuição previdenciária,
independentemente do que prescreve a legislação infraconstitucional, por não haver
prestação de serviço. Assim, esses valores não apresentariam caráter retributivo, o que
impediria a incidência da contribuição.
4. Dos equívocos do STJ na interpretação do julgamento do REsp nº 1.230.957/RS

O Recurso Especial referido no tópico anterior tinha como objeto a discussão acerca da
incidência da contribuição previdenciária sobre os valores pagos aos empregados a título
de férias e também de salário-maternidade.

Por isso, como havia Recurso Especial submetido ao regime dos Recursos Repetitivos em
que se discutia a possibilidade de exclusão do salário-maternidade (REsp nº
1.230.957/RS), foram opostos embargos de declaração pela Fazenda Nacional que, ao
final, foram acolhidos para adequar, no que couber, o julgamento ao quanto decidido no
recurso representativo de controvérsia.

Nesta perspectiva surge a necessidade de analisar qual foi o objeto de julgamento do


REsp nº 1.230.957/RS para aferir em que ponto alterou o acórdão.

Ora, a partir da leitura da íntegra do acórdão, verifica-se que não foi objeto no Recurso a
discussão sobre a possibilidade de incidência da contribuição previdenciária sobre os
valores pagos em decorrência de férias, mas apenas sobre o terço constitucional de férias,
rubrica que apresenta disciplina própria.

Em que pese este Recurso sequer analisar a possibilidade de incidência da contribuição


previdenciária sobre os valores pagos a título de férias, em recentes decisões, o E. STJ
tem afirmado que os embargos de declaração no Resp nº 1.322.945 reformaram o acórdão
o que tornaria inaplicável o precedente

Neste contexto, não há dúvidas de que estes julgados incorreram em flagrante equívoco,
pois o acórdão que julgou o Recurso Especial nº 1.322.945 não foi reformado no que
decidiu sobre a impossibilidade de incidência da contribuição previdenciária sobre os
valores pagos a título de férias.

Com efeito, este Recurso representa um precedente ainda em vigor que deve ser adotado
em futuros julgamentos, pois tem como fundamento a correta interpretação da
materialidade constitucionalmente delimitada para a contribuição previdenciária sobre
folha de salários.

5. Conclusão
Pensamos ter deixado claro, assim, que o REsp nº 1.322.945 positiva a correta
interpretação da materialidade da contribuição previdenciária prevista no art. 195, I, “a”
da CR, ao afastar sua incidência sobre os valores pagos aos trabalhadores que não
tenham como contraprestação a realização de trabalho.

Da mesma forma, pensamos ter esclarecido que, apesar do posicionamento recente do E.


STJ, o acórdão do REsp nº 1.322.945, sobre o tema aqui explorado, permanece vigente e
deve, por isso, ser adotado em julgamentos futuros.

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Paulo de F. F. Pereira Leite


Mestrando em Direito Tributário na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -
PUC/SP. Sócio do escritório Lacerda Gama Advogados Associados

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