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1.

Introdução

Donald W. Winnicott é reconhecido hoje internacionalmente, por parte expressiva da


comunidade psicanalítica, como o mais importante pensador psicanalítico que se seguiu
a Freud e Klein, sendo inclusive considerado por alguns epistemólogos da psicanálise
como um revolucionador paradigmático desta “improvável ciência”. Por quase
cinquenta anos, Winnicott esteve profundamente envolvido na pediatria, psicologia
infantil, psiquiatria infantil e psicanálise.

Atendeu adultos e principalmente crianças (na sua grande maioria, evacuadas durante a
Segunda Guerra Mundial). Suas teorias e seus métodos clínicos são hoje
indiscutivelmente inovadores a partir do seu grande poder de observação e descrição da
subjetividade humana.

Enfatizou a participação da mãe em nossa constituição subjetiva como nenhum outro


psicanalista. Winnicott, por exemplo, ressaltou que não existe esta coisa como “a mãe”
ou “o bebê” e sim uma unidade chamada “mãe-bebê, e com isso, inovou”!

Ele ainda criou conceitos tais como “mãe suficientemente boa”, “relações objetais”,
“objeto transicional”, “fenômeno transicional”, “verdadeiro e falso self” dentre outros.

Este trabalho academico, objetiva apresentar as principais contribuições teórico-clínicas


de Donald Woods Winnicott, psicanalista oriundo da Escola Inglesa de Psicanálise.

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2. Bibliografia

Donald Woods Winnicott nasceu aos 7 de abril de 1896 em Plimude, Reino Unido.
Era filho de Elizabeth Martha (Woods) Winnicott e do Sr. John Frederick Winnicott,
um comerciante que se tornou cavaleiro em 1924 após servir duas vezes como prefeito
de Plymouth.
A família era próspera e aparentemente feliz, mas atrás desse verniz, Winnicott se viu
como oprimido por uma mãe com tendências depressivas como também por duas irmãs
e uma babá. Foi a influência do seu pai, que era um livre-pensador e empreendedor que
o encorajou em sua criatividade. Winnicott se descreveu como um adolescente
perturbado, reagindo contra a própria auto-repressão. Estas sementes de autoconsciência
se tornaram a base do interesse dele trabalhando com pessoas jovens e problemáticas.
Decidindo se tornar um médico, ele começou a estudar medicina em Cambridge, mas
interrompeu seus estudos para servir como cirurgião aprendiz - residente em um navio
(destroyer) britânico, o HMS Lúcifer, durante a Primeira Guerra Mundial. Ele
completou sua formação em medicina em 1920 e em 1923, no mesmo ano do seu
primeiro casamento com Alice Taylor, foi contratado como médico no Paddington
Green Children's Hospital em Londres. Foi também em 1923, que Winnicott iniciou sua
análise pessoal com James Strachey (1887 – 1967), o tradutor das obras de Sigmund
Freud para o inglês.
Em 1927 Winnicott foi aceite como iniciante na Sociedade Britânica de Psicanálise,
qualificado como analista em 1934 e como analista de crianças em 1935. Ele ainda
estava trabalhando no hospital infantil e posteriormente comentou que... "naquele
momento nenhum outro analista era também um pediatra, assim durante duas ou três
décadas eu fui fenômeno isolado…" O tratamento de crianças mentalmente
transtornadas e das suas mães lhe deu a experiência com a qual ele construiria a maioria
das suas originais teorias. “O curto período de tempo que ele poderia dedicar-se a cada
caso o conduziu ao desenvolvimento das suas inter-consultas terapêuticas” outra
inovação da prática clínica que introduziu.
Um acontecimento relevante da vida desse autor foi a chegada em Londres, no ano
1926, de Melanie Klein (1882-1960), uma das mais importantes analistas de crianças da
sua época, logo fazendo escola e seguidores. Winnicott aproximou-se e fez uma análise
adicional com um deles, Joan Rivière (1883-1962). A convicção do Kleinianos na
importância suprema, para saúde psíquica, do primeiro ano da vida da criança, foi
compartilhada por Winnicott. Contudo esta visão diverge um pouco da de Freud e de
sua a filha Anna Freud (1895-1982) - ela mesma uma analista de crianças, que também
vieram para Londres em 1938, refugiados do Nazismo na Áustria. Esboçando-se uma
divisão dentro da Sociedade Psicanalítica Britânica entre os Freudianos ortodoxos e o
Kleinianos; mas ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, um acordo tipicamente
britânico estabeleceu três cordiais grupos: os Freudianos, o Kleinianos e um grupo
“conciliador" ao qual Winnicott pertenceu juntamente com Michael Balint (1896-1970)
e John Bowlby (1907–1990).
Para Freud, ao brincar, a criança tem prazer na aparente onipotência que adquire ao
manipular os objetos cotidianos associando-os a símbolos imaginários como no jogo

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fort-da que evocava a presença da mãe na análise infantil que realizou. Não há dúvidas,
porém que foi Melanie Klein quem efetivamente trouxe a brincadeira para o trabalho
psicanalítico com crianças. Klein reconhecera uma similitude entre:
(1) A atividade lúdica infantil e o sonho do adulto;
(2) As verbalizações da criança ao brincar e a associação livre clássica.
Discípulo de Klein, Winnicott redimensiona a brincadeira, situando o brincar do analista
e o valor que essa atividade possui em si, instituída como uma atividade infantil, e que
também faz parte do mundo adulto. Para ele os analistas infantis por se ocuparem tanto
dos possíveis significados do brincar não possuíam um claro enunciado descritivo sobre
o brincar. Para ele "Brincar é algo além de imaginar e desejar, brincar é o fazer".
Durante os anos de guerra trabalhou como consultor psiquiátrico de crianças seriamente
transtornadas que tinham sido evacuadas de Londres e outras cidades grandes, e
separado de suas famílias. Ele continuou trabalhando ao Paddington Green Children's
Hospital nos anos 1960.
Passada a guerra, Winnicott tornou-se um médico contratado do Departamento Infantil
do Instituto de Psicanálise, onde trabalhou durante 25 anos. Foi presidente da Sociedade
Britânica de Psicanálise por duas gestões, membro da UNESCO e do grupo de experts
da OMS. Atuou como professor no Instituto de Educação e na London School of
Economics, da Universidade de Londres. Dissertou e escreveu amplamente como
atividade profissional independente.
Ele divorciou-se de sua primeira esposa em 1951 e, nesse mesmo ano, casou-se com
Elsie Clare Nimmo Britton, assistente social psiquiátrica e psicanalista. Morreu em 25
de janeiro de 1971, após o último de uma série de ataques de coração e foi cremado em
Londres, Reino Unido (Inglaterra).

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3. Principais conceitos

Winnicott foi um dos primeiros autores a hierarquizar o papel da mãe no funcionamento


mental da criança. Ele considerou que a mãe intervém como ativa construtora do espaço
mental da criança. Na teoria psicanalítica de Winnicott o ser humano não é apresentado
como um objeto da natureza, mas sim como uma pessoa que para existir precisa do
cuidado e atenção de outro ser humano. De acordo a esta analise Psicanalitica,
Winnicott desenvolveu a sua teoria definindo e construindo os pontos fundamentais
inerentes a eles:

3.1. Holding
Para Winnicott a sustentação ou holding protege contra a afronta fisiológica. O holding
deve levar em consideração a sensibilidade epidérmica da criança – tato, temperatura,
sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade às quedas – assim como o fato
de que a criança desconhece a existência de tudo o que não seja ela própria. Inclui toda
a rotina de cuidados ao longo do dia e da noite. A sustentação compreende, em especial,
o fato físico de sustentar a criança nos braços, e que constitui uma forma de amar. A
mãe funciona como um ego auxiliar.

Winnicott propõe que, durante os últimos meses de gestação e primeiras semanas


posteriores ao parto, produz-se na mãe um estado psicológico especial, ao qual chamou
de “preocupação materna primaria”. A mãe adquire graças a esta sensibilização, uma
capacidade particular para se identificar com as necessidades do bebê.

O holding feito pela mãe é o fator que decide a passagem do estado de não-integração,
que caracteriza o recém-nascido, para a integração posterior. O vínculo entre a mãe e o
bebê assentará as bases para o desenvolvimento saudável das capacidades inatas do
indivíduo.

3.2. Self Verdadeiro e Falso Self


O ser humano, para Winnicott, nasce como um conjunto desorganizado de pulsões,
instintos, capacidades perceptivas e motoras que conforme progride o desenvolvimento
vão se integrando, até alcançar uma imagem unificada de si e do mundo externo.
(Bleicmar e Bleicmar, 1992).

O papel da mãe é prover o bebê de um ego auxiliar que lhe permita integrar suas
sensações corporais, os estímulos ambientais e suas capacidades motoras nascentes.

Quando a mãe não fornece a proteção necessária ao frágil ego do recém-nascido; a


criança perceberá esta falha ambiental como uma ameaça à sua continuidade existencial,
a qual, por sua vez, provocará nela a vivência subjetiva de que todas as suas percepções

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e atividades motoras são apenas uma resposta diante do perigo a que se vê exposta.
Pouco a pouco, procura substituir a proteção que lhe falta por um “fabricada” por ela. O
sujeito vai se envolvendo em uma casca, às custas da qual cresce e se desenvolve o self.
O individuo vai se desenvolvendo como uma extensão da casca, como uma extensão do
meio atacante.

Winnicott diz que a “mãe boa” é a que responde a onipotência do lactante e, de certo
modo, dá-lhe sentido. O self verdadeiro começa a adquirir vida, através da força que a
mãe, ao cumprir as expressões da onipotência infantil, dá ao ego débil da criança. A
mãe que “não é boa” é incapaz de cumprir a onipotência da criança, pelo que
repentinamente deixa de responder ao gesto da mesma, em seu lugar coloca o seu
próprio gesto, cujo sentido depende da submissão ou acatamento do mesmo por parte da
criança. Esta submissão constitui a primeira fase do self falso e é própria da
incapacidade materna para interpretar as necessidades da criança.

Nos casos mais próximos da saúde, o self falso age como uma defesa do verdadeiro, a
quem protege sem substituir. Nos casos mais graves, o self falso substitui o real e o
indivíduo. Winnicott diz que na saúde o self falso se encontra representado por toda a
organização da atitude social cortês e bem educada. Produziu-se um aumento da
capacidade do individuo para renunciar a onipotência e ao processo primário, em geral,
ganhando assim um lugar na sociedade que jamais se pode conseguir manter mediante
unicamente o self verdadeiro. O falso self, especialmente quando se encontra no
extremo mais patológico da escala, é acompanhado geralmente por uma sensação
subjetiva de vazio, futilidade e irrealidade.

3.3. O objeto Transicional


O objeto transicional representa a primeira posse “não-ego” da criança, têm um caráter
de intermediação entre o seu mundo interno e externo.

Em Winnicott o conceito de objeto ou fenômeno transicional recebe três usos diferentes:


um processo evolutivo, como etapa do desenvolvimento; vinculada às angústias de
separação e às defesas contra elas; representando um espaço dentro da mente do
indivíduo. Ele propõe ainda que em determinadas condições, o fenômeno ou objeto
transicional pode ter uma evolução patológica, ou mesmo se associar a certas condições
anormais.

O objeto transicional é algo que não está definitivamente nem dentro nem fora da
criança; servirá para que o sujeito possa experimentar com essas situações, e para ir
demarcando seus próprios limites mentais em relação ao externo e ao interno.
Bleichmar e Bleichmar (1992) dizem que o objeto transicional está situado em uma
zona intermediária, na qual a criança se exercita na experimentação com objetos,
mesmo que estejam fora, sente como parte de si mesma.

Para explicar a constituição do objeto transicional, Winnicott remonta ao primeiro


vínculo da criança com o mundo externo, a relação com o seio materno. No princípio, a
criança tem uma ilusão de onipotência, vivenciando o seio como sendo parte do seu
próprio corpo. Mas, uma vez alcançada esta onipotência ilusória, a mãe deve
idealmente, ir desiludindo a criança, pouco a pouco, fazendo com que o bebê adquira a

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noção de que o seio é uma “possessão”, no sentido de um objeto, mas que não é ele
(“pertence-me, mas não sou eu”).

O objeto transicional ocupa para um lugar que Winnicott chama de ilusão. Ao contrario
do seio, que não está disponível constantemente, o objeto transicional é conservado pela
criança. Ela é quem decide a distância entre ela e tal objeto. Como os fenômenos
transacionais “representam” a mãe é essencial que ela seja vivenciado como um objeto
bom. Bleichmar e Bleichamar (1992) relatam que, quando dentro da criança, o objeto
materno está danificado, é pouco provável que ela recorra, de maneira constante, a um
fenômeno transicional.

Winnicott aponta algumas características que são comuns aos objetos transicionais: a
criança afirma uma série de direitos sobre o objeto; o objeto é afetuosamente ninado e
excitadamente amado e mutilado; deve sobreviver ao ódio, ao amor, e à agressão. É
muito importante que o objeto sobreviva à agressão, possibilitando a criança neutraliza-
la, dando-lhe, posteriormente, um fim construtivo, ao notar que esta não destrói os
objetos.

A ligação e o afastamento do objeto transicional deixam em cada sujeito uma marca:


fica na mente do indivíduo um espaço que, assim como o objeto transicional, é
intermediário entre o interno e o externo. É nesse espaço que se produz muitas das
atividades criativas do homem, como as artes, a musica, etc. que “representam” o
mundo interno para o exterior e, em certo sentido, “representa” a realidade para si
mesmo.

3.4. Desenvolvimento Psíquico


Winnicott propõe que a maturação emocional se dê em três etapas sucessivas:

(1) A da integração e personalização.


(2) A da adaptação à realidade.
(3) A de pré-inquietude ou crueldade primitiva.

3.4.1. Integração e Personalização


Para Winnicott as experiências iniciais ou diádicas são estruturantes do psiquismo,
participam da organização da personalidade e dos sintomas. O bebê nasce em um estado
de não integração. Onde os núcleos do ego estão dispersos e, para o bebê, estes núcleos
estão incluídos em uma unidade que ele forma com o meio ambiente. A meta desta
etapa é a integração dos núcleos do ego e a personalização – adquirir a sensação de que
o corpo aloja o verdadeiro self. O objeto unificador do ego inicial não integrado da
criança é a mãe e sua atenção (holding).

Na etapa inicial de desenvolvimento a questão primordial é a presença de uma mãe-


ambiente confiável que se adapte às suas necessidades de maneira virtualmente perfeita.
Gurfinkel (1999) lembra que Winnicott inclui entre as “necessidades do ego” tanto os
cuidados físicos quanto os psíquicos. Nem a realização mecânica das tarefas físicas

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ligadas ao lidar com o bebê, e nem a resposta imediata às suas demandas pulsionais
implicam a satisfação das necessidades do ego.

A integração é obtida a partir de duas séries de experiências: por um lado tem especial
importância a sustentação exercida pela mãe, que “recolhe os pedacinhos do ego”,
permitindo a criança que se sinta integrada dentro dela; por outro lado há um tipo de
experiência que tende a reunir a personalidade em um todo, a partir de dentro (a
atividade mental do bebê). Chega um período em que a criança, graças às experiências
citadas, consegue reunir os núcleos do seu ego, adquirindo a noção de que ela é
diferente do mundo que a rodeia. Esse momento de diferenciação entre “eu” e “não-eu”
pode ser perigoso para o bebê, pois o exterior pode ser sentido como perseguidor e
ameaçador. Essas ameaças são neutralizadas, dentro do desenvolvimento sadio, pela
existência do cuidado amoroso por parte da mãe.

A personalização – definida por Winnicott como “o sentimento de que a de que a


pessoa de alguém encontra-se no próprio corpo”. O autor propõe que o desenvolvimento
normal levaria a alcançar um esquema corporal, chamando-o de unidade psique-soma.
Gurfinkel (1999) diz que a psique e o soma – que formam o esquema corporal de todo
indivíduo – interpenetram-se e desenvolvem-se em uma relação dialética, e apresentam
o paradoxo da diversidade na unidade.

Para Winnicott mente e psique são conceitos diferentes; trata-se de registros


relacionados, mas heterogêneos. A psique é a elaboração imaginativa das partes,
sentimentos e funções somáticas e não se separa, nem se divide do soma. A mente, no
desenvolvimento saudável, não é nada mais do que um caso particular do
funcionamento do psicossoma, surgindo como uma especialidade a partir da parte
psíquica do psicossoma.

3.4.2. Adaptação à Realidade


À medida que o desenvolvimento progride, a criança tem um ego relativamente
integrado, e com a sensação de que o núcleo do si-próprio habita o seu corpo. Ela e o
mundo são duas coisas separadas. A etapa seguinte é conseguir alcançar uma adaptação
à realidade.

Nessa etapa a mãe tem o papel de prover a criança com os elementos da realidade com
que irá construir a imagem psíquica do mundo externo. A adaptação absoluta do meio
ao bebê se torna adaptação relativa, através de um delicado processo gradual de falhas
em pequenas doses.

Para Winnicott, a fantasia precede a objetividade, e o seu enriquecimento com aspectos


da realidade depende da ilusão criada pela mãe; tudo repousa no vínculo precoce da
criança com sua mãe. Mas o acoplamento entre alucinação infantil e os elementos da
realidade fornecidos pela mãe nunca poderá ser perfeito. No entanto, o lactante pode
vivê-lo como quase ótimo, graças a uma parte de sua personalidade, que procura
preencher o vazio entre alucinação e realidade – a mente.

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Winnicott considera que a atividade mental da criança faz com que um meio ambiente
suficiente se transforme em um perfeito, converte o relativo fracasso da adaptação em
um sucesso adaptativo. O autor fala que o que libera a mãe de ser quase perfeita é a
compreensão da criança.

A mente se desenvolve através da capacidade de compreender e compensar as falhas; é


uma função do ambiente à medida que ele começa a falhar, Gurfinkel (1999) diz que é
apenas à medida que a ambiente falha que ele começa a existir para o bebê enquanto
realidade. Portanto, se no início, a tarefa da mãe é adaptar-se de maneira absoluta às
necessidades do bebê, em seguida, será de fundamental importância que ela possa
fornecer um fracasso gradual da adaptação para que a função mental do bebê se
desenvolva satisfatoriamente. O resultado disto será a emergência da capacidade do
próprio sujeito de cuidar de seu self, atingindo um estágio de dependência madura.

Quando o ambiente não proporciona os cuidados que o psicossoma considera como


elementares, a mente se vê obrigada a uma hiperatividade, o pensamento do indivíduo
começa a assumir o controle e a organizar o cuidado ao psicossoma, podendo ocasionar
uma oposição entre mente e psicossoma, ocasionando um distanciamento do verdadeiro
self. Em estado de saúde, a mente não usurpa as funções do meio, mas possibilita uma
compreensão e eventual aproveitamento de sua falha relativa.

3.4.3. Crueldade Primitiva (fase de pré-inquietude)


Depois de a criança ter alcançado a diferenciação entre ela e o meio circundante e se
adaptar em certa medida à realidade, pela absorção de pautas objetivas dela, que
modificam suas fantasias, o último passo que deve dar é integrar em um todo,as
diferentes imagens que tem de sua mãe e do mundo.

Winnicott pensa que a criança pequena tem uma cota inata de agressividade, que se
exprime em determinadas condutas auto-destrutivas. O bebê volta seu ódio sobre si
mesmo para proteger o objeto externo; mas esta manobra não é suficiente e em sua
fantasia a mãe pode ficar intensamente danificada. (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

A mãe é, além do objeto que recebe, em certos momentos, a agressão da criança, é


também aquela que cuida dela e a protege. Quando a criança exprime raiva e recebe
amor, a criança confirma que a mãe sobreviveu e é um ser separado dela. O bebê
adquire a noção de que suas próprias pulsões não são tão danosas e pode, pouco a
pouco, aceitar a responsabilidade que possui sobre elas.

Bleichmar (1992) dizem que simultaneamente a mãe que é agredida e a mãe que cuida
vão se aproximando na mente do indivíduo, que assim adquire a capacidade de se
preocupar com seu bem-estar, como objeto total. Isto constitui o grande sucesso que,
que Winnicott identifica como a última das etapas do desenvolvimento emocional
primitivo. Desta forma, Winicott desenvolveu sobre essas bases a sua teoria sobre os
efeitos do cuidado materno.

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4. Teoria do efeito do cuidado materno

Para Winnicott, cada ser humano traz um potencial inato para amadurecer, para
se integrar; porém, o fato de essa tendência ser inata não garante que ela
realmente vá ocorrer. Isto dependerá de um ambiente facilitador que forneça
cuidados que precisa, sendo que, no início, esse ambiente é representado pela
mãe suficientemente boa. É importante ressaltar que esses cuidados dependem
da necessidade de cada criança, pois cada ser humano responderá ao ambiente
de forma própria, apresentando, a cada momento, condições, potencialidades e
dificuldades diferentes.

Segundo esse autor a mãe suficientemente boa (não necessariamente a própria


mãe do bebê) é aquela que efetua uma adaptação ativa às necessidades do bebê,
uma adaptação que diminui gradativamente, segundo a capacidade deste em
aquilatar o fracasso da adaptação e em tolerar os resultados da frustração.
(Winnicott, 1971)

Assim, podemos pensar que, se amadurecer significa alcançar o


desenvolvimento do que é potencialmente intrínseco, possíveis dificuldades da
mãe em olhar para o filho como diferente dela, com capacidade de alcançar certa
autonomia, podem tornar o ambiente não suficientemente bom para aquela
criança amadurecer. Não basta, apenas, que a mãe olhe para o seu filho com o
intuito de realizar actividades mecânicas que supram as necessidades dele; é
necessário que ela perceba como fazer para satisfazê-lo e possa reconhecê-lo em
suas particularidades.

Num artigo intitulado "A mãe dedicada comum", escrito em 1966 e publicado
numa colectânea de conferências e palestras radiofónicas, Winnicott descreveu
um estado psicológico especial, um modo típico que acomete as mulheres
gestantes no final da gestação e nas semanas que sucedem o parto. Nessa
palestra, o autor nos conta como, em 1949, surgiu quase que por acaso a
expressão "mãe dedicada comum", que serviu para designar a mãe capaz de
vivenciar esse estado, voltando-se naturalmente para as tarefas da maternidade,
temporariamente alienada de outras funções, sociais e profissionais.

Trata-se, pois, de uma condição psicológica muito especial, de sensibilidade


aumentada, que Winnicott chega a comparar a uma doença, uma dissociação, um
estado esquizóide, que, no entanto, é considerado normal durante esse período.
Observe-se também que não é raro um surto psicótico típico nesse período, o
que se denomina psicose puerperal.

Winnicott afirma que, na base do complexo de sensações e sentimentos


peculiares dessa fase, está um movimento regressivo da mãe na direcção de suas
próprias experiências enquanto bebê e das memórias acumuladas ao longo da
vida, concernentes ao cuidado e protecção de crianças.

Tão gradualmente como se instala, em condições normais, o estado de


“preocupação materna primária” deve dissipar-se. Essas condições incluem a

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saúde física do bebé e da mãe, após um parto não traumático, uma amamentação
tranqüila e pouca interferência de elementos estressantes.

Após algumas semanas de intensa adaptação às necessidades do recém–nascido,


este sinaliza que seu amadurecimento já o torna apto a suportar as falhas
maternas. A mãe suficientemente boa deve compreender esse movimento do
bebé rumo à dependência relativa e a ele corresponder, permitindo-se falhas que
abrirão espaço ao desenvolvimento.

De fato, na obra de Winnicott (1979/1983; 1988/2002) encontramos que a


capacidade das mães em dedicar a seus filhos toda a atenção de que precisam,
atendendo suas necessidades de alimentação, higiene, acalento ou no simples
contacto sem actividades, cria condições para a manifestação do sentimento de
unidade entre duas pessoas. Da relação saudável que ocorre entre a mãe e o
bebé, emergem os fundamentos da constituição da pessoa e do desenvolvimento
emocional-afetivo da criança.

A capacidade da mãe em se identificar com seu filho permite-lhe satisfazer a


função sintetizada por Winnicott na expressão holding. Ela é a base para o que
gradativamente se transforma em um ser que experimenta a si mesmo. A função
do holding em termos psicológicos é fornecer apoio egóico, em particular na
fase de dependência absoluta antes do aparecimento da integração do ego. O
holding inclui principalmente o segurar fisicamente o bebé, que é uma forma de
amar; contudo, também se amplia a ponto de incluir a provisão ambiental total
anterior ao conceito de viver com, isto é, da emergência do bebé como uma
pessoa separada que se relaciona com outras pessoas separadas dele.

Winnicott (1979/1983) também coloca que a mãe, ao tocar seu bebé, manipulá-
lo, aconchegá-lo, falar com ele, acaba promovendo um arranjo entre soma (o
organismo considerado fisicamente) e psique e, principalmente ao olhá-lo, ela se
oferece como espelho no qual o bebé pode se ver.

Winnicott considera o infante em processo contínuo de constituir-se sujeito em


um corpo que se desenvolve, amadurece e cresce em inter-relação permanente
com o ambiente, em sua teoria versa que pelo brincar a criança se apropria de
experiências com e através de um espaço situado entre o real e a fantasia.

Na visão winnicottiana, já nos primórdios da existência, é fundamental para a


constituição do self o modo como a mãe coloca o bebé no colo e o carrega; dá-
se, assim, a continuidade entre o inato, a realidade psíquica e um esquema
corporal pessoal.

O holding é necessário desde a dependência absoluta até a autonomia do bebé,


ou seja, quando os espaços psíquicos entre este e sua mãe já estão perfeitamente
distintos.

Winnicott (1976/1983), visando mostrar a pais leigos a importância do que eles


faziam naturalmente, traz uma descrição mais concreta do que está envolvido no
holding:

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Protege da agressão fisiológica, leva em conta a sensibilidade cutânea do
lactente – tacto, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual,
sensibilidade à queda (acção da gravidade) e a falta de conhecimento do lactente
da existência de qualquer coisa que não seja ele mesmo. Inclui a rotina completa
do cuidado dia e noite, e não é o mesmo que com dois lactentes, porque é parte
do lactente, e dois lactentes nunca são iguais. Segue também as mudanças
instantâneas do dia-a-dia que fazem parte do crescimento e do desenvolvimento
do lactente, tanto físicas como psicológicas. (Winnicott, 1979/1983, p.48)

Em sua teoria, conforme colocado anteriormente, afirma que o “estado de


preocupação materna primária” implica uma regressão parcial por parte da mãe,
a fim de identificar-se com o bebé e, assim, saber do que ele precisa, mas, ao
mesmo tempo, ela mantém o seu lugar de adulta. É, ainda, um estado
temporário, pois o bebé naturalmente passará da “dependência absoluta” para a
“dependência relativa”, o que é essencial para o seu amadurecimento.

A dependência absoluta refere-se ao fato de o bebé depender inteiramente da


mãe para ser e para realizar sua tendência inata à integração em uma unidade. À
medida que a integração torna-se mais consistente, o amadurecimento exige que,
vagarosamente, algo do mundo externo se misture à área de omnipotência do
bebé. Ser capaz de adoptar um objecto transaccional já anuncia que esse
processo está em curso e, a partir daí, algumas mudanças se insinuam. O bebé
está passando para a dependência relativa e pode se tornar consciente da
necessidade dos detalhes do cuidado maternal e relacioná-los, numa dimensão
crescente, a impulsos pessoais.

No início da passagem da dependência absoluta para a dependência relativa, os


objectos transaccionais exercem a indispensável função de amparo, por
substituírem a mãe que se desadapta e desilude o bebé. A transaccionalidade
marca o início da desmistura, da quebra da unidade mãe-bebê.

Na progressão da dependência absoluta até a relativa, Winnicott (1988/2002)


definiu três realizações principais: integração, personificação e início das
relações objectivas (já citadas acima).

É nesse período de dependência relativa que o bebé vive estados de integração e


não integração, forma conceitos de eu e não – eu, mundo externo e interno,
estágio de concernimento, podendo então seguir em seu amadurecimento, no
que o autor denomina independência relativa ou rumo à independência. Aqui, o
bebé desenvolve meios para poder prescindir do cuidado maternal. Isto é
conseguido mediante a acumulação de memórias de maternagem, da projecção
de necessidades pessoais e da introjeção dos detalhes do cuidado maternal, com
o desenvolvimento da confiança no ambiente.

É importante ressaltar que, segundo Winnicott, a independência nunca é


absoluta. O indivíduo sadio não se torna isolado, mas se relaciona com o
ambiente de tal modo que pode se dizer que ambos se tornam interdependentes.

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5. Obras Publicadas

• 1958: Da pediatria à psicanálise.

• 1964: A criança e seu mundo.

• 1965: A família e o desenvolvimento individual.

• 1965: O ambiente e os processos de maturação.

• 1971: O brincar e a realidade.

• 1971: Consultas terapêuticas em psiquiatria Infantil.

• 1977: The Piggle: o relato do tratamento psicanalítico de uma menina.


(Publicado 6 anos após o seu passamento físico).

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6. Conclusão

Winnicott era um pediatra que subordinou toda a sua obra ao propósito de elaborar uma
teoria dos processos maturacionais que explicasse as condições pelas quais um bebê,
imaturo e altamente dependente dos cuidados ambientais no início da vida, torna-se, aos
poucos, caso receba tais cuidados, uma pessoa integrada num eu, capaz de estabelecer
relações com a realidade externa, de cuidar de si mesmo, de responsabilizar-se em
grande parte pela própria vida, e de socializar-se; capaz, ainda, muitas vezes, de usufruir
ou mesmo de dar uma contribuição ao acervo cultural da humanidade, sentindo que, a
despeito de a vida conter problemas e sofrimentos, vale a pena vivê-la.

Para melhor exercer a sua tarefa de pediatra, Winnicott foi buscar conhecimento e
experiência na psicanálise, tendo se tornado psicanalista de crianças e, simultaneamente,
de adultos psicóticos. O intuito era usar, na sua clínica infantil, o que aprendia com os
fenômenos regressivos que observava no seu trabalho com psicóticos e, igualmente,
usar nesse trabalho o que aprendia com as mães e seus bebês. Acabou exercendo o que
ele próprio chamou de psiquiatra infantil com base em uma psicanálise radicalmente
modificada por ele mesmo. Essa modificação consiste, no essencial, em três pontos:

(1) A formulação de uma teoria do amadurecimento que passa a servir como teoria-
guia no entendimento das patologias maturacionais e das práticas clínicas, da qual faz
parte uma teoria da sexualidade;

(2) A valorização do fator ambiental, sobretudo o inicial, na constituição do indivíduo


humano, desde o seu nascimento;

(3) A substituição dos conflitos internos – resumidos no Complexo de Édipo e


privilegiados pela psicanálise tradicional – pelos problemas vividos no colo da mãe e
nos “círculos cada vez mais amplos” que substituem esse colo ao longo do
amadurecimento, tais como a família, a escola e a sociedade em geral.

A teoria winnicottiana dos processos maturacionais, por conceituar e descrever, a partir


do absoluto início, as diferentes tarefas, conquistas e dificuldades que fazem parte do
processo de amadurecer em cada um dos estágios da vida, serve de guia tanto para a
compreensão dos fenômenos da saúde – o que propicia que melhor se aproveitem os
recursos saudáveis de um dado indivíduo – como para diagnosticar e tratar, o mais
precocemente possível, as dificuldades não resolvidas de vários estágios maturacionais.
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Formulada nesses termos, a patologia maturacional winnicottiana traz uma contribuição
fundamental para a clínica psicanalítica e psicoterapêutica, orientando o diagnóstico e
dando um norte para o terapeuta. Este deve poder estar ciente da idade emocional em
que o paciente se encontra num dado momento da relação terapêutica, seja para dar-se
conta da imaturidade ali exposta, seja para acompanhar o paciente nas diferentes etapas
do seu amadurecimento, incluindo fases de grande dependência. Esse horizonte
favorece o tratamento dos casos chamados difíceis, que não podiam ser abrangidos pela
psicanálise tradicional. Mas não apenas. Essa teoria permite, ainda, repensar
procedimentos terapêuticos em vários outros campos da saúde – a pediatria, a
psiquiatria infantil, a fonoaudiologia, a enfermagem, o serviço social psiquiátrico,
a terapia ocupacional, assim como orientar o que compete à assistência social e
à educação em termos de cuidados que favoreçam o amadurecimento da criança. Traz
também uma preciosa contribuição a todos os que se envolvem em políticas de
prevenção.

“Quando somos capazes de ajudar os pais a ajudarem os filhos, o que fazemos na


verdade é ajudá-los a eles mesmos”. (Donald W.Winnicott)

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7. Referencias bibliograficas

https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/introducao-a-teoria-de-winnicott

https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/winnicott-principais-conceitos

https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Woods_Winnicott

http://iecomplex.com.br/eventos/folder_cartaz/FOLDER%20WINNICOTT.pdf

ABRAM, Jan. A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter, 2000.

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