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APONTAMENTOS DE DIREITO OPERARIO Esta 32 edicfo foi facsimilada da 2° edigio, de 1971, feta em comemaragio to centenéro’ do hescimeinto.do aor. em eosdigao com # Editors Universidade de Sto Paulo Esta edi¢fo, no entanto, foi entiquecida com uum Postécio'e opiises erfcas a respelto. desta pioncira, editada em 1905," pela’ Imprensa Nacional, em brochure, num oifavo de’ 150. pé- as. Seu titulo, “Apontamentos de Dieito Opers- fio®, sevela, con primciro Tugat, a mouésti. do Autor, ©» em segundo higar, aun mareada posse Seu tinge on norman Juries do dito ttlar io trabalho ‘os operstos, sem quallfieagao. pro. fisional, desorganteados mirn mundo de economia compeitva e desigul. Diante desse pioneiismo em matéria de pur blicapio’ do Direto Opera, por autor renomado F por tre verptado, & que’ LTH conerataae 4 Tdsi'denovements' edit," ensejo da co. tmemoragéo de seu cinglentendro ‘A importincia deste livra é tho grande, que, ‘como nos. diz, n0 Postécio, vatisto. de. Moraes Filho, "fore do campo estritamente futidco, aro, fariscimo, € 0 ensaio sobre a histéra social brat Sileira que a cle nfo se refia”. Seu autor, Antonio Evarsto de Morees, que * vast de’ Moree, nasceu na cidade do Rio de Tanci, onde praticsmente passou toda ua existincia, Tomou parte na Aboligio e ne Repdblica, langue inteiro. no. chamado Encilhamento. Comecou 8 produit cedo, na matéria de Di reito Penal Inieresiouse por todos os acontecimentos im ortates da década final'do século, escrevendo, debarendo ¢ snailand oe. Em 1916, bacharelowse pele. Faculdade de Dirsto Teitera de Freitas de Nites articipou da campanha civilista de Rui Bar- bose oi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro Vitorosa 2 Revolugio_do_ 30, foi Consultor Jurtdico do Ministero do. Trabaho Com 0 Estado Novo, afasouse de Geta ‘Vargas, aue 0 nomeou Professor de Direito Penal ha atal Faculdade: de. Direto, da Universidade Federal doo de Ta [Nao se descurou, jamais, dos problemas ope- ricios da €pocs, dandomnos em sels Apna for as linhae mestas do ascente ‘Dire do ‘Peabaiho. EVARISTO DE MORAES APONTAMENTOS DE DIREITO OPERARIO LER 19864JUBILEU DE OURO Dados de Catalogacio na Publieagso (CIP) Internacional (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Moracs, Evaristo de, 1871-1939 — Mai99 “Apontamentos de direito operirio / Bvaristo de S.ed. Moraes, — 3.ed. — So Paulo : LTr, 1986, Facssim. : de 2. ed., Comemorativa do Cententrio do rnascimento do autor, acompanhada de introdusao feita por Evaristo de Morees Filho. So Paulo : Lfr, 1971. Inclui p. de rosto da ed. original : Rio de Janeiro ‘Imprensa Nacional, 1905. 1. Ditsito do trabalho 2. Dirvito do trabalho — Brasil’ I. Moraes Filho, Evaristo de, 1914 — Il. Titulo. cDU 54351 86.1725 34;354(81) Indices para catdlogo sistemitico: Direito do trabalho 34:551(81) Diteito operdrio 34:531081) Esta 5+ edicdo foi fac-similada da 2. edicio, de 1971, feita em comemoracao do Centenério do nascimento do autor, em co-edi¢io com a Editora da Universidade de Sfo Paulo. Apenas foi acrescentado 0 Posficio e opinides criticas. Assessoria Editorial Impressio HM — PRODARTE DAG (Céd. 555.5) (© Todos 05, direitos reservados Tits EDITORA LTDA. R. Apa, 165 - CEP 01201 - Fone: (011) 826-2788 - Sao Paulo - Brasil 1986 | Para ARMANDO CASIMIRO COSTA, Diretor de LTr “Legislagio do Trabalho’, que, incen- tivando o reaparecimento desta obra, manifestowse interessado em editd-la. INDICE Capitulo I Leis do Trabalho . Capitulo IT . LXXVII O Dircito Operdrio ¢ 0 Cédigo Civil ..... Capitulo I Criangas nas Fabricas ........--02++ Capitulo 1V Acidentes no Trabalho ....--..-+. ++ Capitulo V Diteito de Greve ...-.0..00eeeeee Capitulo VI ‘As Greves de Patroes © os “Trusts” . Capitulo VIE ‘Normas ou Regras do Trabalho ... Capitulo VII Sindicatos Operdrios ........2-06.++ 23 a 39 49 69 83 93 Capitulo 1X COUNEMENES 0c ns ena mue ties saeed Saeees 113 Apéndice Pareite We Geb sia dees ovens bcs 145 PORE 5 veteran coe ere eae eres 151 INTRODUGAO 1 — O significado déste livro na cultura juridica nacional. Com a fundacio do Correio da Manha, em 1901, logo representou éle uma tribuna livre para o noticiério ¢ 0 debate das reivindicagdes operdrias do inicio do século entre nés. Basta compulsar a colegio daquela época, para se verificar o interésse ¢ a acolhida que o jornal recém-fundado por Edmundo Bittencourt daya aos temas da chamada questo social, inclusive com inauguracio de uma coluna prépria a respeito do assun- to. Foi nas suas piginas, a partir de 1908, que se publi- caram 0s artigos de Evaristo de Moraes, que vicram mais tarde a se constituir nos seus Apontamentos de Direito Operdrio, editado no ano de 1905 pela Imprensa Nacio- nal. A publicagio original veio a lume, como brochura, num oitavo de 150 paginas. Como livro, sob forma mais ou menos ordenada de capitulos, procurando abranger alguns temas sistemd- ticos de Direito do Trabalho, nao ha chivida que ocupa posicao pioneira na literatura jurfdica nacional. Déle, hoje, se socorrem os historiadores sociais e também os socidlogos como fonte primaria de suas pesquisas. ‘Tra- tase, afinal de coutas, de um livro de doutrina ao mesmo tempo que de depoimento de algném que participou — ‘como ator, jornalista e advogado — das reivindicagies ¢ da organizacao das classes trabalhadoras entre nés. APONTAMENTOS DIREITO OPERARIO Poe Fvarigto de Morkes RIO DK JANEIRO IMPRENSA NACIONAL 1905 CAPITULO PRIMEIRO. LEIS DO TRABALHO CAPITULO PRIMEIRO LEIS DO TRABALHO I E digno de nota o que se passa, entre nés, com © movimento operério: fundam-se agremiagdes de classe, fazem-se greves, organizam-se _festividades, enfim, dé-se a0 piiblico ledor dos noticiarios a per- feita ilusio da existéncia de um partido operdrio, com idéias assentadas, programa discutido e geral- mente aceito, baseado em qualquer doutrina social- econémica e orientado no sentido de uns tantos prin- cfpios. Entretanto, em ocasides aproveitiveis, como a atual, bem se vé que, afora uma ou outra idéia de velho cunho liberal ¢ republicano, apenas preocupa striamente 0 nosso ardente € brioso proletariado a sempre lembrada conquista das famosas oito horas de trabalho; havendo, mesmo, quem se contente com sua decretacio para uso e g6z0 exclusivo dos operé- ios das oficinas piblicas, para os trabalhadores assalariados pelo Govérno... Até a presente data, bem nio se conhece qualquer programa de feigio possibilista, com outras exigén- cias minimas — que, ao menos, servisse para ponto 7 Divito Operéro i= de apoio a algum legislador mais consciencioso € adiantado, quando quisesse, porventura, prestar aten- fo aos drduos problemas sociais-econdmicos. O que, entre nds, mais se aproveita é 0 que se poderia cha- mar a liturgia do socialismo; tudo se limita a ex- terioridades brilhantes ¢ a declamagées entusidsticas, na sua maior parte sinceras — mas baldas de signi- ficagio pritica. De quando em ver, por ocasiio das greves, sempre se faz, de momento ¢ com cardter provisério, algum trabalho aproveitivel, conquistan- dose para operirios de certas especialidades umas tantas vantagens profissionais. E é $6... J era tempo, entretanto, de se cuidar, no terreno legislative, em abrir caminho a alguns institutos juri- dicos, especialmente destinados & protegio das classes trabalhadoras ¢ & modificagio das suas condicées de existéncia. Dada a “felicidade social” de que nos pode- mos orgulhar, confrontando nossa situacio com a de pafses em que a luta das racas € muito mais violenta € pronunciada; aproveitadas as condigdes admirdveis do nosso clima; tomada em consideragéo a relativa harmonizagio dos nossos capitalistas com os produto- res — ninguém dird striamente que, no Brasil, a le- gislaggo operdria, dentro de certos limites, ofereca maiores dificuldades do que ofereceu na Franga, na ‘Alemanha, na Itdlia, na Inglaterra ¢ nos Estados Uni- dos. Incontestavelmente, no que dizia respeito a velhas relagdes da vida social, a resistencia deveria ter sido, naqueles paises, muito mais tenaz € persistente do que poder ser aqui, onde nem existem partidos organiza- dos, onde os mais radicados interésses cedem a presses minimas ¢ a entusiasmos de ocasiao. ig, © fim déste nosso optisculo se reduz a vulgarizar algumas notas de Direito Operdrio, quigé valgrizveis. Estes estudinhos nao visam a doutrinar, mas, tao- somente, recordar e apontar o que se tem feito em prol dos operitios no seio de povos verdadeiramente Givilizados. Em todo caso, mos pareceu ser oportuno 0 momento de chamar a atengao dos operdrios para “tins tantos problemas ¢ reformas, que éles podem, a pouco € pouco, ir propondo e resolvendo, com ou sem intervengao dos podéres ptiblicos oe Os economistas clissicos mantém ainda, contra a evidéncia dos fatos, no interésse do capitalismo mo- derno, a crenga nas virtudes da liberdade de trabalho, nao admitindo regras, nem normas legais, que fixe: as bases do contrato entre © empregador ¢ 0 empre- gado, ou (como se diz na linguagem juridica brasileira) entre 0 locatério e 0 locador de servicos. © homem € livre — argumentam; tem 0 direito de vender o seu trabalho pelo prego € nas condigdes que quiser. Mas, na vida industrial moderna, essa liberdade de trabalho 36 tem gerado a opressio ¢ a ia, a exploracio do operariado e seu rebaixamento progressivo. Hoje, j4 ninguém contesta quanto influi a inexorivel lei da concorréncia na remuneracio do trabalho operirio — ¢ isso basta para desfazer 0 en- canto ilusério da “liberdade do trabalho”. Recen- temente, Paul Bureau, lente da Faculdade Livre de Direito de Paris, deixou fora de diivida — numa exce- lente monografia acérca do CONTRATO DE TRABALHO — que “a remuneragio de todos os trabalhadores ma- =b= nuais, que por qualquer forma e em qualquer propor- gio de esforco se empregam na produgio de uma mer- cadoria determinada, est sujeita a lei da concor- réncia Essa lei dos salérios niio pode ser desprezada por qualquer industrial, sem conseqiiéncias ruinosas. A filantropia, em casos tais, quer dizer faléncia certa. Demais, 0 trabalho — como t6das as mercadorias — superabunda no mercado. Daf resulta que, indo © oferecimento além da procura, impoese a lei da concorréncia pelo preco menor.* O que se passa entre 0s comerciantes, dé-se com os operdrios: éles se sujeitam a condigées rigidas, até onde podem suportar © péso do trabalho que lhes é exigido pelo menor salério possivel. O grande organizador do Socialismo Gientifico, Karl Marx, j4 havia dito que, nao obstante parecer que o trabalhador vende livremente seu trabalho, bem se percebe, afinal, que éle nio é um agente livre; que o tempo pelo qual éle empenha seu esférgo Ihe é impésto pelas circunstincias; e 0 capitalismo devorador nfo abandona a présa enquanto tem a sugar uns restos de sangue e de musculol... ‘Um alto e generoso espirito, bem separado de Karl Marx, por sua orientagio filoséfica, Herbert Spencer, em uma das suas obras menos conhecidas, escreveu paginas vibrantes acérca da triste condigéo a que o. industrialismo do nosso tempo arrastou o operariado. ‘Tratando dessa suposta liberdade que preside a0 1 bem cinhecda a (mula exabelecda pelo line-ambisia Ricardo. Cobden: “os talvien Be lease quando our patrons cove im busca de wm oper, Basar etna Ue "Sprivion Gem tea de um puro” see contrato de trabalho, observa que cla é pouca coisa, na pratica: pois, mudando de oficina, 0 operario apenas troca uma escravidio por outra. O constran- gimento que a vida industrial moderna exerce sobre © operdrio parece ao grande filésofo ¢ sociélogo inglés mais duro do que o do senhor em relagio ao escravo (V. Les INSTITUTIONS PROFESSIONELLES ET InDUsTRIELLES, pag. 419). A bem conhecida lei de bronze de Lasalle pretendia traduzir ésse estado de coisas, que, segundo a: f6r- mula recentemente proposta pelo j4 citado Bureau, pode ser assim expresso: normalmente, a duragio do trabalho impésto ao operirio, o esf6rgo ao qual éle & submetido ¢ 0 salétio que recebe — sio determi- nados, em tempo e em lugar dados, pelo tantum de fadiga e de privagdes que pode suportar, sem ecssagio da funcao vital ¢ da reprodutora. Em duas palavras: por téda parte, o industrialismo moderno paga, pelo menor prego possivel, a maior quantidade de trabalho que pode obter de uma criatura humana. Esférgo maximo — minima remuneragao! Essas_conseqiiéncias iniludiveis e tremendas da liberdade de trabalho indicam a necessidade de regu- larse, no interésse do trabalhador e sem prejuizo do industrial, as condigdes em que aquéle vendera a éste seu esfOrco consciente. £ preciso admitir e legalizar, até as maiores minuciosidades, conforme as induistrias e as circunstancias do lugar, 0 contrato de trabalho, fixando as trés condicées: — preco do trabalho ou taxa do salirio, duragio do trabalho ¢ qualidade do trabatho. Para ésse fim, 0s podéres piblicos, ¢ em especial tess © poder legislativo, tém das maneiras de agéo: decre- tacio de leis regulamentadoras do trabalho, e animacio, dos sindicatos profissionais, que serio chamados fre- qiientemente a colaborar com as autoridades; ajudan- dolhes a obra colossal da harmonizagio das forcas industriais, em continua luta, A experiéncia tem mostrado que, onde o trabalhador isolado sucumbe, vitorioso 0 obreiro sindicalizado. Ainda hé pouco, Millerand, servindo num dos iilti- ‘mos ministérios franceses € procurando, tanto quanto possivel, aplicar no govérno as doutrinas que sus- tentara quando deputado socialista. — proclamava, como principal idéia do seu programa, 0 desenvol vimento da organizagao sindical, a facilitacio feita aos sindicatos ¢ as bélsas do trabalho. Lavy, 0 comentador do que éle chamou Guvre de Millerand, — reconhece que o notével. ministro socialista sempre se inspirou nese pensamento: que a0 govérno cumpre animar as. associagdes_ profissio- nais dos trabalhadores, a fim de que éles, sentindo seu valor, sintam também o péso das responsabili- dades administrativas. E nfo se pense que sémente socialistas pregam a necessidade dessa transformacées econémicas e da criagio de novos institutos juridicos, que regulem o contrato de trabalho. Entre muitos juristas modernos a idéia féz caminho, ¢ ja sio éles que se apresentam aos governos dos seus paises. E assim que Cimbali, célebre civilista italiano, reclama para o Estado, em relagio ao movi- mento industrial, uma fungio superior ¢ mais ampla do que a de simples tutela; quer que sua acio seja mais orginica, que va até a integragio das forgas sociais, regulando a luta das classes, procurando diminuir os embates; as contendas ¢ as exploragoes. Sao palavras textuais de Cimbali: “Para evitar os efeitos desastrosos, derivados da lei férrea do sali a que dé lugar a tirania do capitalismo, recorreu-se & intervengio ,do Estado para que, mediante previ- dentes disposicées legislativas, estabeleca diretamente as justas condigdes do contrato de trabalho, tanto para a determinagio dos saldrios, como para a regu- lamentacfo {da quantidade ¢ da qualidade dos servigos fa prestar, Como, outrossim, para asseguragio das con- digdes de higiene ¢ de moralidade reclamadas pelas classes operdrias” ? Um jovem civilista’ portugués, que revela ilustra- io pouco comum — Abel de Andrade — reclamando modificagdes no direito codificado da sua terra, exigia, desde logo, a enérgica intervengio do Estado no sen- tido de estabelecer 0 equilibrio entre o salério minimo as razodveis necessidades do operariado, determi- nando, também, o maximum de horas de trabalho ¢ a eficaz protecio das mulheres e menores empregados nas fabricas.* I: Leroy-Beaulieu, 0 representante francés mais co- nhecido, entre nés, do otimismo econémico, e, portanto, dos ideais capitalisticos, num livro corriqueiro ¢ que parece — por que nfo dizé-lo? — preparado de enco- 2 A Nova Fase no Dutco Civ, trad. de Adherbal de Caneatho, 1900 5 A Nove Fase on Daun rat, Optirae f, Cimino, 108 ae menda‘, escreveu todo um avantajado capitulo para demonstrar que condigio normal do trabalho é a do salariato; que é humana, racional e esti fixada pela civilizagio a existéncia de patrées e operirios, de homens do capitél e homens do trabalho. Entre- tanto, no meio dos hinos pomposos entoados 4 civilizagio moderna, num lance inesperado de fran- queza, confessa 0. conhecido economista: “Quanto A fixagio da taxa do salirio, tal como a admitem a situagio da industria ¢ o mercado dos capitais, ¢ incuntestével que ope rério ¢ patrao procedem como vendedor e como comprador, e que, por isso mesmo, se acham colocados em certa_oposigio de interésses. Para que nenhuma das suas partes seja atin- gida, lesada no seu direito, para que a taxa dos saldrios seja__verdadeiramente —_determina- da pela propria natureza das coisas, pelas relagées econémicas, & mister que as leis, os costumes € 0 desenvolvimento intelectual ndo imponham a qualquer dos __contratantes__situagio de inferioridade em relagio ao outro”. 6 faltou ir até a conclusio légica dessas premissas. Consiste na condenagéo formal do sistema vigente, que se mascara com o nome de liberdade econémica, nao existindo, nem nas leis"nem nos costumes, essa igual- dade das condigdes a que se refere o notivel tratadista. A tal respeito, & sempre aproveitdvel a ligio de Karl Marx e de Lassalle. 4 Mt ee 0 thulo pare ajular dus intencicy da obra — Ena sctaca ne sensing as mguisis fx Toembets nina a adda DSNCUALADE Dab CONDE =a5 — © iiltimo mandava indagar de quem se entusias- masse diante da melhoria trazida pela civilizagio as condigées do operariado — se reconhecia a justeza da lei dos salérios; se a resposta fdsse negativa, Lassalle aconselhava que se deixasse 0 homem em paz, pois dava prova de ser enganador ou ignorante; se res- pondesse afirmativamente, era 0 caso de perguntar- Ihe, entéo, como éle podia negar os efeitos dessa lei ou sofisméla, sendo certo que nao daria solugio satisfatéria, : Diante dessa triste situagio do operariado, sujeito & bruteza do salério minimo, forga & convir que o direito tem de se modificar, e que a fungio do Es tado ou dos governos, ou dos podéres piiblicos (como queiram dizer) tem de se transformar; nao basta a tutela nem a expectacio; & necessirio intervir por meios legislativos, no sentido de ser efetivamente melhorada a posicéo econdmica do homem assalariado; € preciso regular as condigdes do trabalho, dando sa- tisfacao as necessidades humanas do trabalhador. Isso nem & utopia de roménticos idealistas, nem surto de propaganda socialista. O que se pede nasce da observagio calma dos fatos, idénticos em paises de varia cultura e de varia raga, de um ¢ de outro hemisfério, Nao sio socialistas que reclamam leis regulamentadoras do trabalho assalariado; sao juristas que pregam as doutrinas novas; sio parlamentares que as traduzem em projetos e em leis... © que Enrico Ferri escreveu -acérca do ta- balho assalariado — tal como é, geralmente, exercido,* 5 Socintner er Scunce Pownve, Pass, 189, pést 103/110, =aé= se encontra quase transcrito em trabalhos de alguns seus compatriotas, que estio longe de ser paradérios do socialismo, e também em substanciosas obras de Direito Civil, como as de Carle e de Cimbale. Eco- nomistas modernos, que se deram A apreciagio fi- loséfica dos fenémenos sociais (haja visto Cossa, Lampértico ¢ Léria), reclamam igualmente a modi- ficagéo das condigées do trabalho assalariado ¢ entendez que a liberdade econdmica & uma burla, € excan- dalosa mentira, quando se exerce no meio de tremen- das desarmonias sociais, quando sio_ sensivelmente desiguais 0 empregador ¢ o empregado, o capitalista ¢ © opertrio. A liberdade contratual do trabalho vem dat na organizagio pura e simples do dominio do mais forte. ‘A liberdade individual bastaria para assegurar a harmonia coletiva, observa Achiles Léria, professor de Economia Politica na Universidade de Padua — se nio reinassem intimeras desigualdades entre os indi- viduos, ou se suas situagées, sem serem geométricamente equivalentes, fOssem, a0 menos, pouco afastadas. Suponhamos dois homens dotados de férgas iguais. Nao é necessdrio promulgar leis para que éles no se batam ou no se prejudiquem; pois, no caso de um investir contra o outro, vird a’ imediata repulsa equilibrar as situagdes, sendo de interésse de ambos ficarem quietos, Mas, admitindo que nao tenham iguais fOrgas, se Ihes deixarmos téda a liberdade de agio, o mais robusto ndo se demorara para agarrar outro e subjugélo. Dai resulta éste principio: — dada a desigualdade a7 = de férgas econémicas, a liberdade sem freio constitui causa fatal de usurpagio ¢ de opressio. E déste prin- cipio surge a necessidade de se precisarem certas con- digdes do trabalho assalariado, pondo de parte o res- peito fetichistico da liberdade. Os socialistas exigem, em todos os seus programas individuais ¢ coletivos, a “legislacao internacional do trabalho”. £, por enquanto, um ideal de remota reali- zagao. (Ja se vio reunindo materiais para a Obra gi- gantesca da regulamentacao internacional do trabalho. Dos esforcos continuos empregados nos Congressos de Zurich, de Bruxelas (1897) ¢ de Paris (1900) re- sultou a idéia de ser fundada a “Associagio Interna- cional para a protegio legal dos trabalhadores”, que tem sua sede na Suica em Bile. J& foram realizados dois ‘congressos, um em 1902 € outro em setembro de 1903). Basta, para melhorar sériamente as condig6es dos tra. Ihadores, que os podéres ptiblicos de cada pais se compenetrem da sua fungio social-econémica ¢ de- cretem algumas leis para o trabalho. Nao se suponha que o que é verdade na Inglaterra, na Itdlia, na Franca, deixa de o ser no Brasil, Os vicios de regime capitalistico, baseado na liber- dade econémica a mais absoluta, séo iguais por téda parte, idénticas suas deploraveis conseqiiéncias em relagio 20 proletariado* A lei do salério minimo ato sel eaten Ui, Vee fe Sou apn Ao $i fgets pale noni se oe ese Reh ctueey bia egret el en a it le Bench natin” psy a oe =.= nao obedece a climas, nem afrouxa sob a acio do amolentamento hereditério de qualquer raca. % s6 ha um meio de evitar a manifestagio flagrante da liber- dade, posta, como agora, em antagonismo com a desi- gualdade social; — consiste, como ensinam os mestres, na imposigio de freios legais, de restrigées, que, sem ofender 0 desenvolvimento das forgas produtivas, sirvam de protecio para os principios soberanos da eqiiidade e da justica. Bsse € 0 dominio moderno do Direito Privado Social. Nos chamados Gédigos Civis muitos institutos novos podem ser admitidos, regulando 0 contrato de tra- balho, com vantagem para o operério ¢ sem prejuizo do capitalista, O Estado deve intervir no coutrato geralmente chamado de locagio de servicos, estabe- lecendo, como escreve um civilista portugués, 0 equi- Mbrio entre o salério mfnimo e as necessidades do operirio morigerado. ‘Até mesmo o prego do trabalho, a chamada taxa do salério, sofreré a influéncia dessa intervencio ofi- cial, porque, ao menos, nao se poderé diminuir a remu- neragio do esfOrgo por meios indiretos, tais como: substituigio de adultos por criancas ¢ mulheres, trabalho a noite, prolongacto de servigos por. meio de revezamentos forcados, fornecimento de géneros por abonos, etc., etc. Legislandose a propésito de tais abusos, tornan- do-se impossivel sua pritica, o saldrio do trabalhador ficard indiretamente aumentado. ‘A fixagio das horas de trabalho, conforme a na- tureza das indistrias, contribuiré igualmente para o bem-estar do operirio. te A lei sobre acidentes, ocorridos nas oficinas, £4 bricas, minas ¢ armazéns, daré maior garantia as vitimas de patrées gananciosos ¢ imprevidentes, ¢ assegurar4 0 futuro de muitos érfios e vitivas. A organizacio oficial de um tribunal compésto de patroes © operérios, destinado a resolver as questoes suscitadas a propésito do trabalho assalariado, evitard, até certo ponto, a explosio de greves, e resolverd sem prejuizo das partes, outras questdes. de somenos_im- portincia, mas dignas de atencao ¢ estudo. Pela necessidade dessas e outras leis, vai-se reconhe- cendo implicitamente que 0 contrato de trabalho nao pode persistir livre, como agora pretendem que seja. A verdade se impde aos menos perspicazes. A livre concorréncia é tio prejudicial 20 homem assalariado como favordvel ao capitalista, A tinica forga com que o operdrio entra em luta industrial é a dos seus bracos. Deixado entregue & suposta liberdade de trabalho, éle se vé, afinal, coagido, pela férrea lei dos salarios a vender seu esforco pelo pagamento infimo que Ihe querem dar os potentados da industria, os de- tentores do capital individualizado, Como evitar, in- daga Cimbali, ésses efeitos desastrosos do regime capitalistico vigente? Com a intervencéo legislativa, que s6 ela pode asse- gurar realmente a liberdade dos que realizam 0 con- trato do trabalho, pondo-os em iguais condigdes, so- cialmente falando, (V. De Greef — Le TRANSFORMISME Sociat, 1895, pag. 504). 86 a intervengio enérgica do Estado, mediante pro- videncias legislativas, pode estabelecer justas condigées para o contrato de trabalho. 20 — A acao do Estado — nese conceito moderno dos civilistas, que Cimbali acompanha — nao é de simples tutela, € de integragao € organizagio das varias classes sociais A lei intervém como meio de protegio direta, como recurso eminentemente social de equilfbrio de forcas. Surgiram para o Direito, nos tempos d’agora, no meio das opressdes industriais ¢ das lutas das classes, problemas novos, que respeitam A situagao da criatura humana diante da propriedade e da autoridade. ‘As antigas relacdes patronais cedem lugar a novas instituigdes mais garantidoras da vida e do bem-estar dos trabalhadores. A Alemanha e a Franca — nagdes que 0 antagonismo politico separa, ¢ sio tao diferentes em suas tradides sociais e econdmicas — atenderam, sob muitos pontos de vista por igual forma, as necess: dades operdrias e, modificando suas leis civis, impri- miram nelas acentuado cunho de protecio aos fracos € aos humildes. CAPITULO SEGUNDO O DIREITO OPERARIO E O CODIGO GIVIL CAPITULO SEGUNDO O DIREITO OPERARIO E O CODIGO CIVIL Ha tempos, o ilustre Sr. Dr. Luicio de Mendonga, juiz do Supremo Tribunal, lembrou a uma prestimosa associagao, que o convidara para colaborar na organi- zagio de um corpo de leis operdrias — o alvitre de se procurar introduzir, no nosso projetado Cédigo Civil, alguns institutos aproveitaveis aos trabalhadores; no- tando que, ali, bem pouco esté feito até agora, nesse sentido. Efetivamente, a “redagio final do projeto do Cédigo Givil Brasileiro” — que temos presente — principia por epigrafar, A moda velha, 0 conjunto das relagées dos trabalhadores ou assalariados, para com seus patrées ou empregadores: da locagio de servicos.” Dispensa ao assunto 22 artigos, Ao lado, 0 legislador cogitara da locagio de casas, muito mais detalhadamente. Isso denuncia todo o espirito da grande obra repu- blicana, sob o ponto de vista da legislagio social... Lembramo-nos, todavia, de terem os operdrios do 4 aludido grupo feito, em tempo oportuno, algumas pote Bdcaex, neon cb chtnthcta aa dn Reta tas Sy Pe. bao, pig, 0. Petia” te' que sera convenes odes um tape fbvet 90 igo" eferente 20 Direto: Opera 8 Oieito Opersro aie, reunides para a apresentacio dos seus ideais 4 comissio especial da Camara dos Deputados. Recordamo-nos, outrossim, de uns entusidsticos discursos que foram, entio pronunciados por nossos ‘eminentes colegas Dr. Alberto de Carvalho e Dra. Myr- thes de Campos. Nao sabemos a resultincia pratica de tamanhos esforgos, Se, de fato, chegou até os membros daquela comissio qualquer exposi¢io, relatério ou coisa semelhante, é de lamentar que nio se Ihe desse a devida atengio, 0 que bem se patenteia com a leitura do Cédigo em projeto, onde nenhuma das grandes questées operdrias foi resolvida satisfatdriamente, de acérdo com as necessidades das classes trabalha- doras.* Haverd ai, talvez, quem ainda suponha, ser inaceitivel 0 que alvitrou o Dr. Liicio de Mendonga, tendo em falsa consideracio 0 que se passou em outros paises, onde a legislagio operaria se vem fazendo, como j& dissemos, em separado do Cédigo Civil, ou espa- Thada em: decretos especiais, ou confundida com a legislagéo industrial, ‘Nao logra essa argumentagio convencer a qualquer espirito que se haja emancipado das velharias do Di- reito Givil. Em primeiro lugar: — ao tempo em que se decretaram, em alguns paises da Europa, os cédigos civis — eram desconhecidas as verdadeiras leis do tra- balho; s6 a sensibilice romantica fazia as despesas do Socialismo. Foi a vida industrial moderna, cm suas exigéncias brutais, com suas inexordveis injustigas, que féz surgir Taree que es em mica do Senador Ruy Barbosa um slate, que deiou, is bet ican a ve odin a ~%- @sse corpo de doutrinas sociais-econémicas, que dio satisfagio a umas tantas aspiragées dos trabalhadores, € que devem ser traduzidas em leis, A burla do trabalho livre, unida a desenfreada Conéorréncia industrial, criou, para 0 operariado mo- derno, situagdes novas de desespéro ¢ de sofrimento, despertou néle Ansias tremendas, levantou_ problemas cada vez mais pungentes, ¢ que, por téda parte, re- clamam solugo pronta. O espetéculo dessa luta de classes € muito do nosso tempo, nao se lhe encontra similar em outa ¢puca da vida coletiva do homem; resulta dessa famosa expanséo fabril e manufatureira, que faz o encanto dos economistas clissicos e que, entre. tanto, exige do trabalhador 0 supremo sacrificio do seu liltimo esféxg0, 0 depauperamento de todo o sangue, a destruicio de todo o muisculo, para dar-the, em troca, © direito de viver mal — apenas viver, mantido pelo salério minimo! Gomo poderiam vir ésses problemas sociais mo- dernos resolvidos em leis de outrora, que refletiam Outras instituigées, outras aspiragdes, outras situacdes econémicas? ‘Tomando a Franca para exemplo, apareceré, bem a0 vivo, a absurdez do argumento que vamos comba: tendo. O chamado Cédigo de Napoledo? surgi nos pi meiros anos do século passado, todo cheio de inspi TaGio daquele guerreiro disciplinadar, que j4 sonhava com a dominagio do seu povo para atirarse 4 conquista da Europa. Como poderia éle sentir a agitacao da massa 28, No Chiigo Civil Francés h4 sbmente dois argos que prtpriamente se veld cootatsis rive empegadon © emprepndons io ae aes Ted e TOT, =e trabalhadora, mal saida do regime das corporacdes de oficios? Como poderia a lei adiantarse aos fendmenos sociais-econdmicos, ditando’ normas para o futuro desconhecido, procurando absurdamente modelar a sociedade? Como poderia, Aquele tempo, sentirse a necessi- dade de protecio a0 homem assalariado?"® ‘Atualmente, porém, quando a doutrina social- econémica estd fixada acérca de algumas questées, quando é vastissima a legislagio uperdria nos paises mais cultos, quando as classes trabalhadoras se agitam ‘como grandes {6rgas, que sio, ¢ tendem a influir na direcio do Estado — fora érro imperdodvel nfo conso- lidar as mais estudadas e seguras das suas aspiracGes na codificacio sistematica das nossas leis. civis. Bsse € um trabalho a altura da época. Também 1A fora, no estrangeiro, distintos civilistas oferecem conselhos idénticos ao do Dr. Lticio de Mendonga. ‘A moderna orientagio dos sabedores do Direito Givil tda se concretiza na frase de Gianturco: — ‘A QUESTAO SOCIAL RESIDE NO CODIGO CIVIL. Por isso mesmo, quando na Itdlia se cogita de reformar 0 Cédigo de 1866, logo acodem os modernos civilistas com sua proposta de refundir inteiramente a legislacio, com critério social, introduzindo no Cédigo, como jA disse D’Aguanno, o principio da solidariedade, que se traduz na protecao dada ao traco. ‘Aos reclamos de D’Aguanno se associou uma pléiade ap eee iareyte Ole caren men i eg era =~ de tratadistas ¢ professdres que tém hoje fama uni- versal, ¢ dentre 0s quais podemos destacar Cimbali, Coviello, Salvioli ¢ Cavagnari, bem lidos ¢ conhecidos no Brasil. Exigem éles, embora sob variada orientagio fi- losdfica, a intromissio de novos principios sociais — econémicos no Cédigo Civil de sua terra. ‘Na Franga, obedecem 4 mesma tendéncia reformista se esgrimem contra os mais valorosos defensores do ‘Cédigo de 1804, no que diz respeito as leis do trabalho, notiveis escritores como Secrétan, Glasson, Courcy, Stocquart ¢ Bureau." Todos reclamam a integracio da legislacao social no organismo do Cédigo Civil, que pro- clamam insuficiente para resolver 0 magno problema da atualidade, que é 0 social-econémico. Hé escritores, na Itélia e na Franga, que chegam a contestar a legiti- midade do titulo que ainda se dd a ésse ramo da ciéncia juridica referente as pessoas, aos bens ¢ as obrigagdes; Direito Civil € para éles verdadeira sobrevivéncia do Romanismo, simples recordacio arcaica de sentimen- tos, instituigées e costumes que j4 no existem. Esse conjunto de relades juridicas, que faz objeto das obras de Troplong, Demolombe, etc., constitui para éles 0 Direito Social Privado ou o Direito Social Econémico. ‘Na Espanha, cujo- Cédigo Civil data de 1889, Pedro Dorado busca nos mais notveis autores italianos tpl Pac os ae Naas Ste coma om oe SESE DoSie"Ater Feulne Cus Gust Tey 0 owt, se Mein, a fp bates Sen Verburnd cng ah wt ft yl roe = 8 a orientagio que chama positiva, ¢ que consiste na atencio dada ao problema econémico, Demais, na patria de Cervantes, a agitagao operdria traz sobressaltados todos os espiritos, servindo de argu- mento para os que encontram na legislacio civil, insuficiente e retrégrada, a causa da crise social e da uta das classes. Em Portugal, reclama, igualmente, a reforma do Gédigo de 1867 alguns civilistas novos, de notéria capacidade, dignos de citagao encomiistica, como José Benevides e Abel de Andrade. Nao era, portanto, de estranhar 0 reclamo que 0s operarios residentes no Brasil levantassem, agora, pedindo aos legisladores republicanos um pouco de atengio para ésses sérios problemas que nio se des- prezam impunemente. Fendmenos bem manifestos de crise industrial ¢ de revolta operiria ai estéo denun- ciando a urgéncia de uma lei ou de leis tendentes a harmonizar 9 trabalho com 0 capital (como se diz nos discursos), E nao haverd ocasiéo que melhormente se preste para a feitura de obra durdvel, compa- tivel com as promessas do atual regime politico. © capitulo que 0 projeto do Cédigo Civil dedica 20 trabalho assalariado nao vai muito além das Orde- nagdes do Reino, nem das leis do Impéi A “locacio dos servigos” continua a lembrar aquéle dito de um romancista e poeta francés que comparou & servidio feudal o trabalho do opersrio. moderno, agravada a situagio d’agora com y escarnio do indus- trialismo pomposo ¢ impudente, que suga a vida, a li- berdade e a honra, e, muitas vézes, dispensa ao operdrio tratamento inferior ao dos cachorros de boa raga... CAPITULO TERCEIRO CRIANGAS NAS FABRICAS CAPITULO TERCEIRO CRIANGAS NAS FABRICAS ‘Ao regime republicano devem os operirios ‘resi- dentes no Brasil uma lei de cunho verdadeiramente social — o decreto n.° 1.313, de 1891, que dé regulamen- taco ao trabalho das criangas dos adolescentes nas fAbricas. O Direito Civil que mos legara o regime extinto também nio ia (convém deixar bem patente) muito além das velhas Ordenagées, no que dizia res- peito a legislagio do trabalho. Notase, mesmo, nos nnossos civilistas, a preocupagio de referir as normas do salariato tao-smente as relagdes de amos e criados.* Entretanto, sempre havia alguma coisa, consti- tuindo imperfeito esbdgo de legislagio social. Nao ¢ ocioso notar que, durante o regime imperial, se fixaram normas e regras especiais para contrato de trabalhadores estrangeiros, 0 que serviu para avo- Tumar, até certo ponto, essa legislagio que vamos ripidamente estudando. A Republica pés fim a tais distingdes — 0 que se deduz da letra e do espirita da Constituigio, ¢ ao que consta do decreto 218 de eu inet pata pews wera (hojeror 0 ie" Cw a 1890, que “revogou tddas as leis € disposigdes re- lativas aos contratos de locacio de servigo agricola”, Voltemos, porém, ao nosso ponto de partida. ‘A Ordenacio do liv. I, tit. 88, regula, em alguns dos seus pardgrafos, a aprendizagem de oficios. £ assim que obriga os mestres a prepararem. em tempo razodvel, os aprendizes que lhes forem confiados — ¢ isso por meio de escritura publica ou particular. Também aos mestres se dd obrigagio de mandar ensinar a ler e a escrever. Por outra parte, 0s menores que forem confiados por pais ou tutores com autorizacio judicial, aos mestres de oficios — ficam obrigados a prestacao de servigos gratuitos, regulado o tempo pelo costume, sob pena de indenizagio. A lei republicana a que fizemos referéncia co- gitou especialmente da _ocupagio coletiva de me- nores € adolescentes. Nao permite trabalho efetivo de criangas menores de 12 anos, podendo, por excegio, as de mais de ito anos principiar a aprendizagem nas fabricas de tecidos. Outras disposigées interessantes contém a lei 1.818. “Qs menores do sexo feminino de 12 a 15 anos 0s do sexo masculino de 12 a 14 anos s6 poderao trabalhar, no méximo, sete horas por dia, no consecutivas, de modo que nunca exceda de quatro horas 0 trabalho continuo; e€ os do sexo masculino de 14 a 15 anos até nove horas por dia, nas/mesmas condicdes, Os menores aprendizes — que nas fAbricas de tecidos podem ser admitidos desde 2m ito anos, sé poderao trabalhar trés horas. Se tiverem mais de 10 até 12 anos poderao trabalhar quatro horas, havendo um descanso de meia hora para os primeiros e de uma hora para os segundos. f proibido empregar menores no servigo de limpeza de méquinas fm movimento; bem como dar-lhes ocupa- do junto a rodas, volantes, engrenagens € correias em acio, pondo em risco sua vida. Nio é admissivel_o trabalho dos _menpres em depésitos de carvio, fabricas de acidos, algodio-pélvora, nitrogliccrina, _ fulminatos; nem empregt-los em manipulagdes diretas de fumo, chumbo, fésforos, etc.” Na Europa, desde muitos anos, os podéres pui- blicos se tém preocupado com essa magna questa do trabalho das criancas, quer sob 0 ponto de vista da aprendizagem, quer quanto as condigdes do ser- vigo nas fabricas. Em todos os paises verdadei mente civilizados encontramos leis de protegio ope- riria, com essa orientacio; nestes tiltimos 30 anos tem sido espantosa a atividade dos parlamentos ¢ dos govérnos empenhados em melhorar as leis exis- tentes. A Franca jd tinha lei regulamentadora do trabalho das criangas em 1841. Em 1848, no decreto de 9-14 de setembro, novamente se cogitou da mesma necessidade. Em 1874, uma lei especial referin-se ao assunto. Em 1892, promulgouse outta lei reguladora das condigdes do trabalho das criangas e mulheres, nas fabricas. Finalmente, em 1900, 0 grande ministro so- cialista Millerand conseguiu a decretacio de medidas ae suplementares, modificando as leis aludidas e am- pliando a a¢io fiscalizadora do Estado. Entre as grandes conquistas solidificadas nessa nova lei, avulta a da proibicéo formal e decisiva do trabalho noturno por parte de mulheres ¢ criangas, evitando-se habilmente todos os sofismas. Quanto a duracéo méxima do trabalho dos rapazes e raparigas (até 18 anos) ¢ das mulheres foi fixada em 11 horas, havendo uma ou mais ocasides de descanso, nunca inferiores a uma hora. Segundo prescrigio da mesma Ici, dois anos depois, isto é em 1902 — deveria ser 0 maximo de duracao do trabalho, baixado @ 10 horas e meia. Em 1904 ficou institnido o méximo de 10 horas, observados os descansos aludidos. — Na Inglaterra, a legislagio social vem de longa data, no que diz respeito A protegio dos menores. Em 1802, foi limitado 0 trabalho dos menores, nas fébricas de tecidos, a 12 horas. Em 1819 proibiu-se 0 emprégo industrial de menores de nove-anos. Em 1833 foram proibidas ocupacdes noturnas dadas a menores de 18 anos. Em 1867 permitiuse trabalho a menores de nove anos, mas s6 podendo serem ocupados seis horas e meia. Lei completa éa de 1874, mas nao é a ultima, como, ha pouco tempo, pretendia por equivoco, 0 eminente Cimbali. Efetivamente: nela se resolviam sérios problemas de moral social e de higiene coletiva. Entretanto, outra lei, de 27 de maio de 1878 — constituindo uma espécie de consolidagio da legislagao industrial e operdria inglésa — contém medidas de grande alcance e que, noutros paises, s6 mais tarde aye foram adotadas. Nao permite, por exemplo, que criangas sejam empregadas na limpeza das’ maquinas em agio (0 que mui comumente se vé entre nés, apesar da prescrigio idéntica da lei brasileira). ‘Torna obrigatoria a freqiiéncia na escola, que o in- dustrial deveré manter & sua custa. Protbe, como a lei brasileira, 0 trabalho de criangas em certas fabricagGes nocivas a sade. A 5 de agdsto de 1891 foi promulgada uma lei que ainda tornou mais severas as prescrigies da de 1878, referentes a menores € a mulheres. A 6 de jutho de 1895 nova lei se ocupa longamente do tra- balho dos adolescentes. A 6 de agésto de 1897 proi- biu-se o emprégo de rapazes menores de 16 anos ¢ rapa- rigas menores de 18 anos, em trabalhos perigosos. —Na Alemanha, a legislago industrial data prd- priamente de 1869 ¢ nela se encontram_prescrigdes protetoras do trabalho nas fabricas. £ certo, porém, que s6 em 1878 — foi bem regula- mentado trabalho dos menores, modificada aquela ei sObre a industria’ Depois de varias outras modificagdes parciais, sendo a mesma lei completamente refundida pela de 1.° de junho de 1891, em muitos artigos se cogitou do as- sunto que particularmente nos ocupa. Foi assim que se estabeleceu nfo poderem criangas e adolescentes traba- Thar antes das cinco ¢ meia horas da manha, nem depois das oito ¢ meia da noite, Determinowse que aos ope- rérios menores de 18 anos se deixasse tempo suficiente para irem a escola. 18-4 meen, todos 08 Jorals notlaram ave, cm. crt brie, uma opera de tl dae TH tae calla yor parle mesic Que 8 derma prs npr — Na Itilia, foi a lei de 18 de fevereiro de 1886 que primeiramente regulou 0 trabalho dos menores. Entre outras prescrigdes igualmente interessantes, dispde que os maiores de oito anos e menores de doze no poderdo trabalhar mais de oito horas por dia. © comentador Bassano Gabba — de cuja monogra- fia temos aproveitado alguns elementos neste capitulo = reconhece que a lei deixa muito a desejar. Todos os programas liberais aparecidos tltimamente na Itélia trouxeram, como uma das suas idéias capitais, a reforma daquela lei de 1886, por maneira a tornar mais séria a protegio aos jovens trabalhadores ¢ as mulheres ope- ririas, — A Bélgica, Holanda, Espanha e Portugal também promulgaram, nestes tltimos tempos, leis especialmente destinadas a regulamentagio do tra- batho das criangas ¢ das mulheres. — Aqui, no Brasil, j4 expusemos o que pos suimos. Quanto as garantias dadas ao trabalho das operirias adultas ficam, por enquanto, a mercé dos bons ou mans coragées dos industriais e seus prepostos. ¥ sua gandncia ou sua generosidade que regula 0 paga- mento do salério e a duragio do trabalho; é sua mora- lidade ou sua imoralidade que decide, soberanamente, das condigées em que as mulheres obreiras poderao ganhar o pao de cada dia, De vez em quando, por ocasiio de greves, alguns murmirios fazer suspeitar a existéncia de terriveis explorac6es ¢ tremendos escandalos. Depois... depois, passada a agitacio, satisfeita a necessidade momen- tinea, tudo se esquecel... CAPITULO QUARTO ACIDENTES NO TRABALHO. CAPITULO QUARTO ACIDENTES NO TRABALHO Ha 30 anos nao havia a menor discordancia entre os civilistas wera da maneira de entender a responsabilidade dos patrées para com os operarios, quando éstes, nas fabricas, minas, lugares de depésito, etc, vitimados por acidentes, eram prejudicados na satide ou na vida. Existia, sustentavam todos, um caso de culpa deli- twosa; isto ¢, da parte do empregador tinha havido negligéncia, imprudéncia ou inobservancia de alguma disposicio regulamentar, resultando dai, que sua situacio seria a mesma diante do trabalhador e diante de qualquer estranho, que, porventura, igualmente pudesse ser prejudicado por um acidente. A falsidade désse conceito foi demonstrada, pri- meiramente (se nfo nos enganamos) por Sainctelette, jurisconsulto belga. Pe deixou fora de diivida que 0 operirio e o patrao, quando se ligam pelo contrato de trabalho, contraem obrigagdes especialissimas, dentre a3 quais nao & menos importante a da seguranca material, que 0 empregador deve dar ao empregado. Este fica, de fato, sujeito as ordens do outro; tem de permanecer dentro de casas, minas, fossos, 2 Direito Opera —40- embarcagées, & mercé dos acidentes que Ihe sejam causados por culpa de quem Ihe alugou o esf6rgo, de quem assalaria 0 trabalho. Dai resulta que a culpa do patrio para com o operitio prejudicado é resul- tante do contrato, Quem emprega um trabalhador nfo 6 se obriga, dirctamente, a he pagar o salirio, como, implicitamente, a garantilo contra possiveis acidentes. ‘Na Franga, essa teoria foi, desde logo, aplaudida ¢ apoiada por civilistas notdveis como Labbé ¢ Glasson, da Faculdade de Lyon; encontrando a velha interpreta- do do Cédigo Civil no menos esforcado paladino na pessoa de Arthur Desjardins, juiz na Corte de Cassacio. £, entretanto, de somenos importincia para a nossa futura legislagio operiiria essa contenda de dou- trinadores; quando se considera que um direito névo, fixado em leis p6s fim as polémicas ¢ deu satisfagio completa as aspiragées humanitarias. Ou se conside- rasse a responsabilidade do patrao como delituosa, ou se considerasse como contratual, a prova judi- cidria era feita segundo as velhas formas. Quando o operirio ficasse ferido ou mutilado no exercicio do seu trabalho, tinha de demonstrar judi- cialmente, para reclamar indenizagio, que a culpa fora do patrao, do empregador, ou dos seus prepostos. Téda gente pode facilmente calcular quantas difi- culdades se antepunham ao trabalhador que quisesse entrar em pleito judicial com o capitalista, até 0 ponto de deixar Uquido seu direito & indenizagio. at = ‘As delongas, as chicanas e os gastos forenscs nio séo Arvores que vicejem apenas no Brasil. Por téda parte, 0 mundo dos tribunais é 0 inferno dos pobres € dos humildes, em razio dos meandros da proces: sualistica ¢ das alicantinas da rabulice. Admitindo que o operirio encontrassé patrono gratuito, as despesas com a agio judicidria de indenizagio do .dano colocavam o trabalhador em posi¢ao de evidente inferioridade perante a parte con- triria. A demonstracdo da culpa, isto é da responsa- bilidade civil do patréo, tornavase, em cada caso, ‘objeto de demanda renhida, onde o sofisma e a chicana funcionavam por longo tempo. Era, pois, necessério firmar direito névo; reconhe- cer a responsabilidade dos proprietirios de fibricas, oficinas, armazéns, e dos empregadores cm geral, pelos danos causados aos trabalhadores, mesmo em casos Jortuitos. Ja nao devia ser a culpa delituosa que servisse de base a0 direito; s6 0 infortimio do ope- ririo deveria ser seu alicerce seguro e inabalavel. Em linguagem técnica, chama-se a essa teoria a do Rusco ProrissionaL. Desjardins perguntava cheio de perplexidade, em 1888: implicaré a “locagzo de servigos” verdadeiro contrato de seguro contra acidentes? A resposta foi dada por lei, na patria do con- Geituoso jurisconsulto, e, até certo ponto, afirmati- vamente. Socorrendo-nos da exposi¢éo feita por Millerand, quando ministro do comércio na Franca, esboga- vemos a idéia bésica dessa conquista do Direito Ope- virio. Os riscos ou perigos do trabalho eram mal eet, garantidos, como acabamos de observar. Ferido ou inutilizado, o operério tinha de provar judicialmente que o patrao féra causa direta ou indireta da lesio ¢, portanto, do prejutzo. No caso de morte, a familia havia de fazer 0 mesmo, O caso fortuito e a “imprudéncia minima” do operdrio deixavam-no desarmado de qualquer direito; sendo, entretanto, certo que a gigantesca produgio industrial do nosso. tempo, aglomerando homens e multiplicando maquinismos, d4 ocasiio a perigos cada vez mais alarmantes. Desta forma, é incontestdvel que, mesmo reconhecido nos cédigos o direito de indenizagio, era 0 operdrio quem geralmente supor- tava a maior parte do péso désses acidentes, resul- tantes da produgio industrial. O direito névo, porém, muda a situagio do operdrio, dando ao risco o cardter de profissional £ uma das condig6es normais do exercicio da profissio, um dos encargos que ¢la implica, e deve figurar entre as despesas gerais e que a producio acarreta. Segundo a nova doutrina, consagrada em leis bem minuciosas — especialmente na Franga, na Alemanha, na Dinamarca e na Espanha — ja nao h4 motivo para procurar a causa dos acidentes, nem indagar quem pelos mesmos € responsivel. No con- trato do empregador com 0 empregado fica incluida a obrigagio de reparar o acidente, que constitui, afinal, uma das despesas da producio industrial. O operitio no corre 0 risco pessoal do acidente. ‘Assim como o patrio Ihe deve o saldrio-pagamento do trabalho — deve-the ou aos seus herdeiros a inde- nizagio, em caso de'lesio corporal ou de morte, moti- == vada por acidente, ocorrido no exercicio do tra- balho.* Todos os grandes paises industriais da Europa adotaram, uiltimamente, essa nova orientagio, que apenas deixamos esbocada. Em alguns, sem ser formalmente reconhecida a responsabilidade absoluta dos patrdes, modificou-se, entretanto, o direito antigo, dando maiores garantias aos operdrios, no caso de acidentes. Em geral, vingou © principio de obrigar os empregadores a segurarem ‘0s cmpregados contra 0 risco de acidentes, sendo ou nao aquéles os tinicos responsiveis pelos prémios dos seguros ¢ havendo ou nao intervengio direta do Estado, para cumprimento ¢ execugio dos contratos. A lei francesa de 9 de abril de 1898, sdmente posta em execucio a 1 de julho de 1899, deixa a cargo dos patrdes tddas as despesas com 0 seguro, nao pres- crevendo forma ou sistema determinado désse con- trato; competindo ao empregador verificar o que mais The convém, para poder satisfazer, em caso de aci- dente, a indenizagio que for fixada por decisio jndiciaria. O Estado intervém diretamente por meio de uma Caixa de Seguros, de comissdes de inspecio, € da fiscalizacio oficial dos prefeitos. ‘As formalidades forenses foram reduzidas ao mi- nimo, formando-se a prova do acidente perante 0 juizo de paz, em caso de morte, ¢, nas demais casos, sendo &se 0 proprio juizo do julgamento. 1M. Ui cctige supe, Poul Bolly, indo 2 cicmtns do, Conese Incermaciona de Miko (1804) ~aplah ‘2 tools do vaco.profisional, que Ihe parece ser conforme » Jatin (V. Las tao sociarines, pi. 43). ures — Na Alemanha, 0 legislador cogitou do direito & indenizagao por acidentes ocorridos no trabalho, a7 de junho de 1871. Prescreveuse 0 direito acérca dos casos graves ou mortais, salvo ao patrio a defesa fundada em ser o aci- dente resultante de forca maior ou de culpa da vitima. ‘A lei de 6 de julho de 1884 instituiu, além de outras providéncias favoriveis ao operirio, a obrigagao patronal do seguro contra risco de acidente. ‘Aforma désse contrato foi, como na Franca, en- tregue a livre vontade dos empregadores. Criou-se uma administragio imperial de seguros. Sem’ em- bargo dessa instituigio oficial, reconheceuse 0 direito A existéncia de associagdes de patrdes e de operarios, como outras tantas pessoas juridicas, que podem con- tmatar ¢ transigir com os operdrios e com 0 govérno, contribuindo para a caixa geral dos seguros, por meio de quotas fixas. Seria dificil resumir 0 funcionamento do sis- tema alemfo de protegio aos tabalhadores, no que respeita aos acidentes profissionais, como. dificilimo & resumir o sistema francés; mas a verdade é esta: — © império tudesco e a repiblica gauleza se irmanam esse ponto; protegem o direito de indenizagio, sem esmiugar a culpa direta ou indireta dos patroe estabelecem uma caixa destinada a ésse fim; garan- tem, afinal, a mantenca de relative bem-estar a familia operéria, ferida pelo infortiio. Na Alemanha, ainda em junho de 1900, uma lei de consolidagzo resumiu todos os ditames das anteriores, referentes aos desastres ocorridos na labu- taco operdria, gos Aléin disso, aumentou o numero de_ indistrias a que se referiam as leis anteriores. Ainda mai estabeleceu 0 direito & indenizagio em favor do ope- ririo ofendido por culpa propria e aumentou o valor io em caso de morte. Langou, também, a mesma lei as bases da_legislagio internacional acérca dos acidentes no trabalho. — A lei inglésa de 6 de agésto de 1897 é, incontesta- velmente, sob certo ponto de vista, a mais importante. Decretada antes da lei francesa, jé cogitava do principio do risco profissional, conforme notou Bas- sano Gabba. S6 o caso de culpa grave do operdsiv pode excluir seu direito a indenizagao. Nos demais casos, a obrigagio patronal se incorpora aos encargos inerentes & producio. — A lei austriaca € de 28 de dezembro de 1887. Da regras para o seguro contra os riscos do trabalho industrial. As despesas com 0 contrato aludido ficam a cargo do patrio e do operirio; o primeiro pa- gando 9/10 e.0 segundo pagando 1/10. Os estabeleci- mentos especiais criados para ésse seguro devem ser administrados por uma comissio composta de p: tres, de operdrios ¢ de membros do govérno provi cial. A lei austriaca foi melhorada ¢ ampliada em 1888, 1891, 1893 © 1894. —A lei dinamarquésa data de 1891. £ consi- derada a melhor pelo jé citado Gabba. Bascia o direito de indenizagio no risco profissional, salvos 0s casos de dolo ou de culpa grave por parte du operdri Estabelece o direito dos patroes de segurarem seus operirios, Institui a fiscalizagio direta do Estado. Foi modificada em 1898. a en — A lei espanhola foi decretada em 1900, Con- sagra 0 princfpio do risco profissional ¢ resolve tédas as _questées tedricas acérca dos acidentes no. tra- balho. Varios cantées suigos e varios Estados norte- americanos decretaram leis idénticas as que deixamos sumariamente resumidas. —No Brasil, os mais conhecidos justamente afamados consolidadores das leis civis — Teixeira de Freitas € Carlos de Carvalho — bem pouco espaco pu- deram dar a obrigagao resultante do dano causado por atos nio-criminosos. A responsabilidade pura- mente resultante da culpa contratual quase nao ocupou a atengio dos notiveis apanhadores ¢ co- mentadores da nossa legislagao civil. E mais adiante nao vai o projeto de lei a que jé nos temos referido. A tal propésito, guarda a wadigio luso-brasilei nao cogita do direito névo; nascido numa Repiblica sul-americana em 1902 se nos depara, a ése respeito, como se tivesse surgido em qualquer monarquia da Europa, a Rissia inclusive. 15 14 eaava eacto due capiso quando 6 depute Molkios « Albaqueraue pretend 6 pret que demos em apace CAPITULO QUINTO DIREITO DE GREVE CAPITULO QUINTO DIREITO DE GREVE A universalidade dos criuivalistas ent justamente proclamado as incertezas que rodeiam 0 Direito Penal Vigente nas suas relagdes com a Economia Social e com a Ciéncia das Finangas. Colocados no meio de escolas combatentes, tédas cheias de ardor, que, no século extinto, se disputa- ram a solucio do problema social-econdmico, os pena- listas nem sempre foram légicos, quer aceitando, quer tepudiando os princfpios dessa ou daquela escola. Demais, na fatura das leis, tiveram os legisladores de tomar em consideragio a pavorosa crise manifes- tada nas relagdes do Capital ¢ do Trabalho € 0 neces- sirio levantamento do “quarto estado”, que, no dizer dos positivistas, vai promovendo sua “integracio”, ¢, no dizer dos socialistas, trabalhou no pasado século ¢ ird trabalhando para a transformagio radical do ‘regime econdmico. No que diz respeito as greves, as dificuldades se retinem tédas, aumentadas de uma especial, que é a maior. Elas constituem arma perigosa do partido revo- lucionario-econdmico; sio 0 mais aconselhado dos seus as meios de combate. Os partidos que detém o poder publico, qualquer que seja o nome com que sx enfei- tem, sio, pelo lado econémico, profundamente con- servadores ¢ todos aceitam o principio capitalistico, contra o qual trabalham tédas as escolas socialistas ¢ libertérias. Dai essa maior dificuldade a que aludimos. Vejamos como tem sido ela resolvida em alguns paises da Europa (especialmente naqueles com que temos maiores ligacdes industriais e donde nos vém 08 colonos € operdrios); e, em seguida, estudemos nossa legislagdo a respeito, para saber se, aqui, os traba- Ihadores tém o “direito de greve”, isto é, em ultima anilise, 0 “direito de nao-trabalhar”. Em tédas as resenhas cientificas ou literdrias, nossa educagio espiritual nos leva a comecar_ pela Franca, No Brasil, salvo raras excecdes, bem poucos podem saber mais e melhor de outros paises, igual- mente cultos, Nio fujamos, pois, a ésse “hébito in- telectual”, ¢ tomemos para fonte um belo capitulo, — cheio de boa ¢ si doutrina, da obra de Fabreguettes — Soaéré, Exar, Patri, vol. 2°. © Code Penal, segundo a redacio de 1882, dispoe a respeito de gréves (paredes) ¢ coalitions (coligagoes) nos artigos abaixo transcritos. “Art, 414. “Sera puni de six jours 4 trois ans et d'une amende de 16 franes & 8.000 francs, ou d’une de ces peines seulement, — mt quiconque, & aide de violences, voies de fait, menaces ou manceuvres frauduleuses, aura amene ou tenté d’a- mener ou de maintenir une cessation concertée de travail, dans le but de forcer la hausse ou la baisse des salaires ou de porter atteinte au libre exercice de Vindustrie ou du travail.” “Art, 415. Lorsque les faits punis par Varticle précédent auront été commis par suite d'un plan concerté, les coupables pourront étre mis, par I'arrété du jugement, sous la surveillance de la haute police pendant deux ans au plus.” “Art. 416. Seront punis d'un emprisonnement de six jours & trois mois et d’une amende de 16 francs & 300 francs, ou d'une de ces deux peines seulement, tous ouvriers, patrons et entrepreneurs d’ouvrage qui, AYaide d’amendes, défenses, prescriptions, interditions, prononcées par suite d'un plan concerté, auront porté atteinte au libre exercice de l'industrie ou du travail.” Como bem diz Fabreguettes, pelo regime do Code Penal, nem operdrios nem patroes podiam livre- mente se concertar. Em 1864, a 25 de maio, foi pro- mulgada uma lei que, até certo ponto, abrandan o rigor dos artigos do Cédigo; mas, 4 primeira andlise, logo se reconheceu a incongruéncia da reforma. Ao mesmo Passo que permitia aos operarios 0 direito de coli- ga¢io (coalition), negavalhes o de se concertarem para onganizar a coligaco, 0 que vale dizer que. os ope- ririos se podiam entender entre éles, mas sem se reunirem. Por isso, Jules Simon perguntou muito sensatamente: “Querem, entio, que a idéia de coli- gacio € de cessagio do trabalho, ocorra a um tempo, 2ige = 0s espiritos de 300 ou 400 pessoas, por uma espécie de iluminacdo sibita ¢ simultinea? Pode se supor a existéncia de uma combinagio sem que as pessoas se entendam antes, reunidamente?” A lei de 1864 mantendo 0 att. 416 do Cédigo (conforme a redagio de 1882) queria ésse absurdo. Pela lei de 21 de marco de 1884 foi, afinal, concedida aos operdrios a liber- dade de associagio € ab-rogado, portanto, o art. 416. ‘Assim se vé que a lei de 1864 € a de 1884 se completam. Pela ultima, os operdrios podem formar sindi- catos protissionais, associagdes de classe, defender co- letivamente seus interésses econdmicos. ‘Apreciando 0 espirito da vigente legislagio fran- cesa, Fabreguettes, que é velho magistrado ¢ ultra- conservador, confessa: ; ‘ “C'est 14 un moyem redoutable, mais necessaire, accordé aux ouvriers pour fairse prévaloir leurs reven- dications et assurer le succés des conditions auxquelles ils subordonnent leur travail”. Em nota diz, mais: “Ce droit de gréve et de coali tenir absolu".” i Estas palavras de Fabreguettes no esto muito Jonge das de Benoit Malon, o conhecido socialista fran- cés. Disse éle: “A greve é 0 tinico meio de defesa do proletariado, no terreno econémico.”* m, il faut le main- Te Rainy cen my ts prim rc Tier ee ae fator_puntveis — que entrar A mt dl tame ee es Tan ten sence Sea eas, re soso Incpal. 26 parte 8D, D4. 38. EL, wewn parte da obra, uma == Embora, reconhecendo esta verdade, Millerand, quando ultimamente, foi ministro do comércio, no gabinete Waldeck-Rousseau, propés as Cémaras fran- esas uma lei de arbitramento, para evitar os con- flitos coletivos entre operdrios ¢ patroes. (V. A. Lavy — L'Clovre pe Muzeranp, 1902, pég 150; Jules Huret — Les Gives, 1901 Acérca-da legislagio italiana a respeito das greves (scioperi) temos seguros guias de Peratoner (Det. ne- LITTI CONTRO LA LineRTA), em Pincherli (Copice PENALI ITALIANO ANNOTATO), em Fabrizzi (Gui scloPERI NELLA SOCIOLOGIA ciuripicA), em Laschi (I DELITTI CONTRO LA UIBERTA DEL Lavoro), livro éste recentemente publi- cado. © Cod. toscano € 0 God. sardo estavam, a ésse respeito, em completo antagonismo. O primeiro, se- guindo 0 exemplo da legislacdo germanica, nao punia a coligagio; 0 segundo, calcado no molde francés, apenava ésse legitimo meio de defesa social. Peratonner, referindo-se ao legislador toscano, vé néle um “sapiente legislatore”, porque dew. “all’ope- raio il diritto di disporre a suo piamento della sua persona ¢ del suo lavoro”, punindo, entretanto, “la violazione che un operaio ovesse potuto. commettere della liberta altrni”. (Obra cit., pag. 361). Pincherle reconhece que “il codice toscano fu tra i primi in Europa a dichiarare la liberta di coalizione € di sciopero, € awviso che vi fosso delitto quando gli operaio cessasero in tre 0 piu dal lavoro e usassero de violenza per farne cessare i compagni od impedire ad altri di intraprenderlo”. (Obra cit. pag. 248). De 1878 a 1886 andaram os legisladores italianos guts cogitando de uma lei especial referente a0 assunto, tendo uma comissio parlamentar proposto que essa lei reconhecesse 0 direito de coligacéo tanto aos ope- ririos como aos patroes. ‘Afinal, a lei ficou em projeto ¢ s6 deu, por saldo, um relatério muito aproveitavel, de San Giuliano, apre- sentado A Camara dos Deputados, em 1888. Na falta de uma lei especial, 0 Cédigo de 1890 aceitou a boa doutrina, que era a do Cod. toscano. Em trés artigos garantese a liberdade individual no trabalho ¢ na industria. Eilos: “Art. 165. Chiungue, com violenza 0 minacci restringe 0 impedisce in qualssia modo Ia liberta del- industria, 0 del commercio, é punito com la deten- zione sino a venti mesi e con multa da lire cento a tremila.” “Art. 166. Chiunque, com violenza 0 minaccia, cagiona o fa perdurate une cessazione 0 sospenzione di lavoro, per imporre, sia ad operaio, sia a padroni 0 imprenditori, una diminuzione ad un aumento di salarii, oyvero patti diversi da quelli precedentemente consentiti, € punito con la detenzione a sino venti “Art. 167. Quando si siano capi o promotori del fatti preveduti negli articoli precedenti, la pena per esse della detenzione da tre mesi a tre anni ¢ delle multa da lire cinquecento a cinque milla’ Bem se vé que, como diz Pincherle, 0 moderno Cédigo Penal italiano abandonou o caminho seguido pelo Cédigo sardo e enveredou pelo que seguiu o tos- cano, indo até o fim, proclamando a liberdade de greve © punindo a violentagio da vontade individual. == Assim ficou reconhecida (diz ainda ‘Pincherle) “la perfetta uguaglianza, in faccia alla legge, dei capita- listi e degli operaio”. Os criminalistas da nova Escola, representados por Fabrizi, nao se mostraram ainda satisfeitos; que- rendo que as palavras violenza e minaccia se actescen- tasse 0 qualificativo grave. Nao obstante esta c tica ter 0 apoio da opinido de Enrico Ferri, alias apresentada no Parlamento, nao nos parece admis- sivel, pois a jurisprudéncia bem pode firmar o grau de intimidacio ou coaggo suficiente para caracterizar a violéncia ou a ameaca puntvel. sos A Inglaterra, neste assunto como em outros, bem merece 0 epiteto de “pais da liberdade”. Desde 1824 (os ingléses gozaram mais ou menos do direito de co- ligagio. Até aquela data uma qualquer reuniio operd- ria, com simples fins econdmicos, era equiparada a uma conspiracao (conspiracy). Até entio dominava 0 famoso Gonspiration Act?” Pela lei de 1824 punia-se apenas a violéncia e a ameaca ‘empregadas como meios de coagio para a greve. £ verdade que em 1825 foi modificada a lei do ano anterior, sendo diminuidos os direitos dos operérios: mas, ainda assim, ficaram éles com o de se associarem para defesa de certos interésses econdmicos. Obseiva Peratunner que foi sob o dominio da lei de 1825 que se organizaram essas associagées_ modelos, 19. Aleandre Lara, Drorr Anetasy, vol 2 las. 259260 nancy imptia vo sign de Wolomsky a Revur be uation ey yuan 10 Dieto Opervio ae cheias hoje de prestigio e de vantagens, que sio os Trades Unions, essas que deram as greves seu verda- deiro aspecto de movimento, ao mesmo tempo, poderoso ¢ pacifico. De 1868 2 1890, segundo uma estatistica pu- Dlicada por Benoit Malon, se reuniram na Inglaterra 24 congressos unionistas, representando 2.715 Trades Unions, que por sua vez se compunham de 122.130, 147.164 operarios.. Por ésse espirito de solidariedade operéria puderam os empregados das docas sustentar a pavorosa greve de 1885, cujos resultados foram enormes. Pelo lado dos socorros materiais basta considerar que s6 0s operdriuy d'uma coldnia inglésa — a Austrilia — forneceram a seus irmios 25.000 libras!... Pelo lado dos auxilios morais, é suficiente recordar que 03 operdrios obtiveram a intervengio do cardeal Manning. Masa lei de 1825 no ¢ a que, hoje, regula a hipd- tese na Inglaterra. Foram outras, mais liberais, decretadas em 1859 ¢ 1871, Finalmente, em 1875, fixaram os ingléses seu direito acérca do assunto. Data désse titimo ano (18 de agésto), The conspiracy and protection of pro- perty, que assegura o mais amplo direito de coligagao ¢ pune com prisio ¢ multa todo ato de violéncia ou de frande, seja praticado por operdrio, seja praticado por patrao, ofensivo da liberdade de indiistria ¢ de tra- balho." pny ‘A legislacio alema ¢ favoravel, também, ao direito de greve € de coligacio. Pode ser resumida com a cita- Ey sao de dois artigos da chamada Lei sébre a Indiistria, cuja tiltima e definitiva modificagao data de 1 de junho de 1891. So os artigos: 152 — que protbe téda restri- ‘Gao ou penalidade aplicada a greves; 153 — que decreta penas contra o emprégo de constrangimento, de amea- as, de ultrajes e interdi¢o como meios de provocagio de greves. Von Liszt trata magistralmente do assunto em duas obras que temos presente: LE DROIT CRIMI- NEL DES ETATS EUROPEENS, 1894, pags. 301 ¢ 302 e DIREITO PENAL ALEMAO (trad. do Dr. José Tygino), vol. I, pag. 104. Nesta se 1é: “Gum se ve, lei trata formalmente em pé de igualdade os patrdes 0s operdrios. £ necessdrio que a coacio seja feita A pes- soa, niio bastam violencias contra as coisas, como a des- truicio de instrumentos, entulhamento de pocos, etc.”. ee. deixamos para o fim a legislacio portuguésa, pois foi aproveitada em 1890, pel codificador. Peat Os casos esto todos previstos no art. 277. Reza assim: “Sera punida com a prisio de um ano a seis meses, € com a multa de 5$ a 200$000: 12 Téda a coligacio entre aquéles que empregam quaisquer trabalhadores, que tiver por fim produzir abusivaueute diminuiggo do saldrio, se fOr seguida do coméco de execuci 2° Téda a coligagao entre os individuos de uma profissao, ou de empregados em qualquer servico, ou de Sees quaisquer trabalhadores, que tiver por fim suspender, ou impedir, ou fazer subir 0 prego do trabalho, regu- lando as suas condicdes, ou de qualquer outro modo, se houver coméo de execugio. Pardgrafo tnico. Os que tiverem promovido a coli- gacio on a dirigirem, ¢ bem assim os que usarem de violéncia ou ameaga para assegurar a execucio, serio punidos com a prisio de um a dois anos, ¢ poderd determinar-se a sujei¢io A vigilincia especial da policia, sem prejuizo da pena mais grave, se os atos de violén? cia a merecem.” Bem se percebe que o Cédigo Penal Portugués de 1886, indo de encontro ao espirito liberal da época ¢ desaproveitando os exemplos da Itélia ¢ da Franca, para nfo falar nos da Inglaterra ¢ da Alemanha, nega 20s ope- ratios 0 direito de greve e de coligacao, nao hes permi- tindo promoverem pacificamente a melhoria das suas condigées econémicas.” legislador brasileiro de 1890 parece ter tido & vista 0 Cédigo Portugués ao escrever os arts. 205 © 206. Eilos: “Art, 205, Seduzir ou aliciar operdrios ¢ traba- Ihadores para deixarem os estabelecimentos em que forem empregados, sob promessa de recompensa ou ameaca de algum mal: Penas: de prisio celular por um a trés meses € multa de 200§ a 500§000. ‘rt, 206 — Causar ou provocar cessacio ou sus- “EE See mon bon cmt ae epe, onle a, e Eee omic "peratoner(Obre city plas, 356-359, ¢ Lash, ma awa obra Je — 59 - pensio de trabalho, para impor aos operdrios ou patrées aumento ou diminuigéo de servigo ou salério: Pena: de prisio celular por um a trés meses”. Estes dispositivos, porém, foram bem cedo (dois meses apés a decretagio do Cédigo) modificados da forma que se vé no decreto n. 1162, de 12 de dezembro do aludido ano. Motivou a modificagio uma justa campanha feita pelo entio recém-nato Partido Operé- rio. Publicando 0s novos artigos referentes & hipdtese, facilmente se verd a diferenga e a vantagem da redagio, para 0s operarios, Reza 0 decreto citado: “Art. 1.° Os arts. 205 € 206 do Cédigo Penal ¢ seus pardgrafos ficam assim redigidos: 1° Desviar operdrios ou trabalhadores dos esta- belecimentos em que forem empregados, por meio de ameagas, constrangimento ou manobras fraudulentas: Penas: de priséo celular por um a trés meses ¢ de multa de 200§ a 500$000. 2.9 Causar ou provocar cessio ou suspensio de trabalho por meio de ameagas ou violéncias para impor 05 operdrios ou patrdes aumento ou diminuigio de saldrio ou servigo: Penas: de prisio celular por dois a seis meses ¢ de multa de 200$ a 500§000, Art. 2° Revogamse as disposigées em con- trério. De maneira que, pela lei penal vigente no Brasil, 0 direito de greve estd plenamente reconhecido. Assim como um operério pode isoladamente deixar de trabalhar, muitos operdrios tém 0 direito de recusar © esf6rc0 dos seus bracos ao chamamento e As neces- er sidades dos patrdes. Nem seria compativel com um govérno republicano a negacio désse direito, que deriva das condigées econdmicas do nosso tempo. ¥ realmente para ser admirada a relutincia que, ainda nos ltimos anos de sua preclara vida, opunha 0 Conselheiro Batista Pereira, autor do Céd. de 1890, a nova redagao dada aos artigos 205 © 206. Em um dos seus substanciosos artigos, publicados na Revista De JurisrRuvENciA (n.° XVIL), 0 saudoso juris- consulto pretendeu sustentar que “a coalizio, embora desacompanhada de meios materiais, nfo perde o seu caréter delituoso”. As razes_apresentadas pelo Dr, Batista Pereira so das que, nao obstante o respeito devido a0 mestre, se poderiam nulificar em poucas has. Nao hé, todavia, motivo sério para ésse trabalho; pois nas palavras do codificador de 1890, somente se pode enxergar legitimo ressentimento de velho conser- vador, € a lei, que € 0 decreto 1.162, nfo deixa margem. para dividas. © mesmo Dr. Baptista Pereira, nao abandonando sua opinigo, confessou, todavia: “na teoria legal, a greve nao é crime” (Rev. cit. pég. 253). big ‘A oxganizacio operdria, que se vai fazendo nesta cidade, trouxe, como principal conseqiiéncia, a multi- plicagio das greves. Nao ¢ ocasiio de aprofundar 0 assunto, indagando se h4 aqui, efetivamente, entre as classes trabalhadoras, os meios de resisténcia neces- sdrios para essas manifestagdes coletivas do direito de nido-trabalhar. Verdade & que tivemos de assistir, nos liltimos anos, a0 itrompimento d’umas cinco ou seis “greves, quase tédas bem sucedidas. ‘A reagio apareceu, afinal, por parte do poder executivo, representado pela policia, Continuou com a intervencao do poder judicidrio. £ bem possivel que, diante de qualquer movimento operitio, que venha a suéeder, entre em servigo 0 poder legislativo, com cuja contribuigio de arrécho ja foram ameagados os ope- ririos... estrangeiros! Por orasiaa da chamada greve dos cocheiros — triste tentativa sem plano e sem chefes — téda gente imparcial se sentiu indignada diante dos processos violentos do pessoal da policia, que pds a capital da Repiiblica em estado de sitio, prendendo, ameacarido, coagindo por tédas as formas. Mandou-se dizer pelos noticirios das gazetas que © govérno nao recuaria nem wransigiria com os gre- vistas. Para prova dessas disposigdes terroristas, a -policia deteve a diretoria d’uma associago pacifica e ordeira, ¢ declarou a um advogado que estava dis- posta a liquidar a questio, fésse como fasse.. Viuse, entio, ésse espeticulo inaudito: irse 20 fundo das cocheiras ¢ dos corticos e de 14 conduzir, presos para os cubiculos da Detengio, pobres homens, que, nem por atos, nem por palavras, haviam con- tribufdo para a cessacio do trfego urbano, Parece que a intengao dominante era imporse a volta ao trabalho por meio do terror. E 0 efeito foi conseguido, sem que ninguém se lembrasse de indagar qual o crime que haviam cometido dezenas de cartoceiros, pri- vados de liberdade. Sig Essa reagio policial, todavia, nao nos pareceu tio significativa como a manifestada, depois, com o jul gamento de uma junta correcional. Notaram alguns maliciosos que 0 tribunal se compusera com o irmao do ministro da justica, um inspetor seccional ¢ um comandante de guarda noturna. Para nés, nenhum interésse se patenteia nessa apreciagio de persona- lidades. ponto de vista juridico ¢ a significagao social do acontecimento bastariam para motivar as mais sérias ponderagées. : Em primeiro lugar, provocou reparos ter 0 pro- cesso comecado por queixa particular € no por de- mincia, Certa firma fabricante de calgado foi quem se queixou da diretoria de uma sociedade operiria ¢ a ar- rastou ao banco’dos réus. Ora, a greve dos sapateiros durou meses: dew ocasiio a varias intervengdes policiais ¢ a no poucas prisées arbitrdrias. Se tivesse havido manobras cri- minosas por parte da aludida diretoria, a policia, que naturalmente abrira inguérito, deveria télas conhecido e estaria na obrigagio de as comunicar ao ministério publico, que, certamente, diante de sérios indicios de criminalidade, provocaria a agio da foi um patrio que, substituindo © drgio da defesa social, entendeu dever qucixar-sc, como piinica vitima de atos publicos ¢ notorios, que s6 éle considerara criminosos! E é de lamentar que, para fazer, tivesse esquecido a lei, obrigando o tribunal julgador a condenar ee ATO3 QUE JA NiO sko PUNIDOS, SENAO PELO céDIGO PENAL PorTucuts. Se nao, vejamos: ‘A peticio de queixa aceitou a redagio do art, 206 do Cédigo Penal, quando é certo que ela esté modifi- cada pelo decreto n.° 1.162, de 12 de dezembro de 1890. Os arts. 205 © 206 do nosso Cédigo Penal, que, nesse particular, nao seguira o italiano, eram assim redigidos como jé vimos: Art. 205. Seduzir ou aliciar operdrios ¢ trabalhadores para deixarem os estabeleci- mentos em que forem empregados, sob pro- messa de recompensa ou ameaca de algum mal: Penas — de prisio celular por um a trés meses ¢ multa de 200$ a 500$000. Art. 206. Causar ou provocar cessacio ‘ou suspensio de trabalho, para impor aos operdrios ou patrées aumento ou diminuicéo de servigo ou salévio: Pena — de prisio celular por um a wés meses. A fonte a que recorreu nosso legislador penal — foi, evidentemente, conforme dissemos, 0 Cédigo Penal Portugués onde, alias, a greve é punida no mesmo capitulo em que 0 sao... 0 monopélio e 0 contra bando!. Decretado, porém, o Cédigo, em 11 de outubro de 1890, 0 Centro das Classes Operdrias daquela época empreendeu contra aquéles dois artigos a mais importante € proveitosa das suas campanhas, ¢ 0 nerando Marechal Deodoro mandou fazer a modifi- == cagio que consta do citado decreto, aproximando-se a nova redagio nfo sé da wiltima que foi dads, — em 1864, ao art. 414 do Cédigo Penal Francés, como da dos arts, 165 ¢ 168 do Cédigo Penal Italiano. Eis 0 teor de todo o decreto: “Art. 1,9 Os arts, 205 e 206 do Cédigo Penal e seus pardgrafos ficam assim redi- gidos: 1. Desviar os operétios ou trabalhadores dos estabelecimentos em que foram empre- gados, por meio de ameacas. constrangi- ‘mento. Penas: — de prisio celular por um a tés meses ¢ de multa de 200$ a 500$000. 2.9 Causar ou provocar cessagio on sus- pensio de trabalho por meio de ameacas ou violéncias para impor aos operdrios ou patrdes aumento ou diminuigio de salirio ou servico. Penas: — de prisio celular por dois a seis meses € multa de 200§ a 500$000. Art, 2.9 Revogam-se as disposigdes em contrario’ Bem se percebe que, com a nova redacdo, entrou como elemento condicional dos delitos o emprégo de qualquer dos seguintes meios: ameaca, constrangi- mento ou violéncia, Deixou de ser criminoso o simples fato de causar ou provocar cessaco ou suspensio do trabalho que é a expresso natural do direito de greve; e éste pode ser exercido por um individuo ou por um grupo de individuos coligados em associacio. Entretanto, todo o fim da acusagio, 0 alvo de todos os seus esforcos fre combinacio de um artigo revogado com a di Fe foi, 0 aludido processo, determinar a “‘responsa- bilidade coletiva” que tinham ‘0s diretores da. asso- ciagdo dos operdrios, na declaragio e mantenca da greve dos sapateiros. Sendo a responsabilidade penal _exclusivamente pessoal (art. 25 do Cédigo Penal); devendo, nos cri- mes em que tomarem parte membros de associagio, recair a dita responsabilidade .sdbre cada um dos que participarem do fato criminoso (pardgrafo tinico do mesmo artigo); nao sendo, como nao é da indole do nosso direito penal, admitirse a societas sceleris, ‘a queixa nfo tinha razio de ser, a menos que nio se demonstrassem 0s atos de ameaca, constrangimento ou violéncia, praticados individualmente pelos diversos membros da diretoria. Demais, a queixa, pondo em vigor o art. 206, tal como esté no Cédigo, tinha enveredado, desde logo, por mau caminho. Veio a sentenca ¢ condenou os diretores da associagio dos sapateiros como incursos no art. 206, § 1.°, combinado com o art. 2.° do decreto 1.162, de 12 de dezembro de 1890, o que quer dizer: posicao nova que o substitufra. O art. 206, § 1.°, punia a coligagéo e dava pena especial para os chefes ou cabecas. O decreto citado, modificando profundamente a redagio dos arts. 205 € 206, nao sé estabeleceu a legitimidade da coligacéo, sancionando, em sua ple- nitude, o direito dé greve, como também pés fim a essa distinggo absurda que destacava caberas ou che- fes no seio dos grevistas. A diretoria condenada sofreu, portanto, o péso duma condenagio iniqua, baseada em lei morta. == No tribunal superior, 0 processo nio foi julgado de meritis, por ser nulo. E de lamentar; pois, estamos certos, seria re- conhecido 0 direito de greve. CAPITULO SEXTO AS GREVES DE PATROES E OS “TRUSTS” ~ 65 - No tribunal superior, 0 processo nio foi julgado de meritis, por ser nulo, E de lamentar; pois, estamos certos, seria re- conhecido o direito de greve. CAPITULO SEXTO AS GREVES DE PATROES E OS “TRUSTS” CAPITULO SEXTO AS GREVES DE PATROES E OS “TRUSTS” x © que mais se patenteia, quando ha sibita parada da atividade operaria, em qualquer ramo da industria, € a intervencio coativa dos podéres puiblicos, que se colocam ao lado dos patrdes e querem forcar ao tra- balho os que déle se afastaram. Haja ou nao haja violéncia por parte dos operérios, essa atitude & manifesta, especialmente pelo lado da Policia, e apenas poderd ser dissimulada durante os primeiros dias de uma greve, enquanto a irritagio dos industriais nao chega a seu auge, por confiarem ainda na falta de clementos dos seus antagonistas. E nao areca que fazemos simples referéncia a sucessos lo- ais. Essa manifestagio de apoio a0 capitalismo é observada por téda parte. Ainda mais: 0 sistema de provocagio policial, que tanta revolta produz nas almas bem formadas, ése infernal processo de irritar os animos para depois reprimir brutalmente, € conhecido e tristemente cele- brizado em paises bem mais cultos do que o Brasil. A ésse propésito, como a respeito de muitas coisas boas —10— més, a Franga pode ser proclamada “mestra do mundo”, Ainda esto na meméria de téda gente os fuzilamentos de Fourmies... Em todo caso, deixemos isso, Vinhamos dizendo que as piblicas administragdes (com a Policia 4 frente) tomam, sempre ¢ sempre, decididamente, 0 partido dos patrdes. Daf resulta que, no obstante o adian- tamento da legislagio relativa as coligacdes ¢ as greves, parece cnxergar-se um delito onde ha simples exercicio de um direito: — 0 de nao trabalhar. JA nfo se procnra, em certos tempos e em dadas circunstancias, reprimir 0 perturbador da ordem ¢ 0 abusador do direito alheio, 0 operario que coage seu companheiro ou Ihe tolhe a liberdade; mas, sim, ‘empurram-se, a baionetas ¢ a sécos, para’ dentro das oficinas desertas, os que delas se retiram. Parale- lamente, vaise no interior das casas em que moram pretensos chefes ou cabecas e se Ihes intimam ordens de ceder, sob ameaca de cadeia. As prisbes em massa assinalam a resistencia dos violentados. Observa-se, entio, ésse espeticulo, inaudito que apresentam grupos e grupos de grevistas, marchando ‘em fileiras cerradas, para as prises, sem que se Ihes instaure proceso, nem se lhes impute a sombra de um delito! Serenados 0s Animos, terminadas as greves, nin- guém sabe dizer, sériamente, quais foram as vontades propulsoras que 2s moveram, quais as influéncias reais que as determinaram. Entretanto, um estudo esmiugante das origens viria, muitas vézes, revelar que tinham sido greves de patrées. Até parece que isso € tio desconhecido -n- entre nés, como esquecido é o meio legal de repressio que o Cédigo estabelece, Nao s6 ao operdrio que atenta contra a liberdade de industria se pode aplicar a lei penal; ela também se refere ao patriio que causa ou provoca cessacio ou suspensio de trabalho, para impor diminuigio de salitio (art. 206 do Cédigo Penal, modificado pelo decteto n.° 1.162, de 12 de dezembro de 1890). £ bem de ver que o elemento moral do delito — emprégo de ameaca ou violéncia — no é tio facil de provar, em se tratando de patrées, quio facil parece & Policia, quando se trata de tingir processos contra tra- balhadores. Entretanto, ¢ inegivel, pelo menos, 0 emprégo de ameagas diretas e indiretas, no interior de certas ofi- cinas, quando é preciso fazer baixar a taxa do salério, dada a superabundincia de obra manufaturada ou fa- bricada, ow a falta de procura no mercado. A simples noticia do despedimento em massa constitui, nfo ha megar, a mais tremenda das ameacas. A eficicia désse meio nao & desconhecida dos pa- trdes, quando preparam seus manejos para a baixa dos salérios. Por tda a parte se tem observado que & apre- sentagio de uma tabela minima precede a dispensa inesperada de grupos de operirios, Afinal, 0 wiltimo recurso consiste na declaragao da greve. ‘Todos 0s meios servem para tal fim; 0 emprégo de agentes provocadores nio & novidade em qualquer centro industrial. Sao @les que se mostram mais inflamados nos 11 Ditto Operério ig clubes: que fazem, nas esquinas € nos botequins, reu- nides de companheiros ¢ Ihes pregam a necessidade da revolta imediata; que anunciam, no seio das classes, a impossibilidade de séria resisténcia por parte dos patrées que semeiam as idéias mais violentas fantasiam 0s projetos. mais temerdrios. Bem sabem ésses assalariados da miséria, autores de um verda- deiro crime social, que as almas bondosas ¢ simples dos seus companheiros nao lhes podem descobrir a manha ¢ a peconha, ¢ que & pouco provivel o castigo da infimia: —trabalham, pois, com seguranga, Rebentando o movimento, redobram as astticias € as maquinagées. J& obtivemos certeza, nesta cidade, de uma torpeza inqualificavel: serem alguns pobres operirios levados a embriaguez alcodlica por seus pa- tres, com o fim de concitélos & pritica de violéncias, durante uma greve que haviam provocado! Numa de- legacia policial, perante testemunhas, tudo ficou de- darado e comprovado. Haverd, af, quem esteja estranhando a toada déste capitulo e nio vislumbra o interésse que pode haver para os patrées na provocagio de uma greve. Facil- mente s¢ explicaré o que, em geral, d4 origem ao fenémeno: ou a superprodugio, enchendo o mer- cado, torna desnecessitio, por certo tempo, 0 fabrico @, portanto, 0 pagamento a milhares de trabalhadores ( ése € um caso bem comum); ou ¢ necessitio, em dadas ocasides, forcar a mao aos podéres publicos, dos quais se quer obter um favor ou vantagem como, per exemplo, a suspensio de um impésto. Na pri- meira hipétese, a crucldade do industrialismo mo- derno se exibe, em téda a sua hediondez. Pouco Ate importa ao capitalista que centenas de familias fiquem, de um dia para outro, sem 0 pio escasso que Ihes advém do trabalho honrado, que éles fazem cesar impondo uma tabela usurdria ou empregando outros meios indiretos. O que éle almeja é diminuir o stock dos seus armazéns abarrotados ¢ provocar re- Iativa clevagio de precos. Desde que as en¢omendas possam ser aviadas e que os fregueses nao reclamem — nada hd a recear. Demais, tem na greve um meio ficil de explicar, faltas comerciais, nao-cumprimento de obrigagdes bancé- ras, ete. = Quando se trata de resistir a impostos ou de obter qualquer medida de protegio oficial, em regra, © incitamento do operariado reveste a forma de uma Protecio téda paternal: “somos forcados — dizem os empregadores — a fechar nossas fAbricas ou a dimi- nuir vossos salrios, diante da pressio que 0 govérno contra nés exerce; sois os prejudicados, agora, como depois seré 0 consumidor nés.nio somos culpados; queixai-vos dos governantes, que oprimem 0 co- mércio e abandonam a indtistria nacional”, Bsses lamentos ¢ ésses queixumes, misturados com a ameaga do despedimento ou do rebaixamento dos salirios, no deixam de produzir algum efeito nos grémios operdrios, onde se introduzem, sempre, 0s porta-vozes de alguns patroes. Principiada a luta entre a policia e os grevistas (pois outro nome nav merece uv yue se observa co- mumente), encolhem-se os patrdes, pedem garantias, negam qualquer solidariedade com os instrumentos dos seus interésses. -mh- E nfo é raro verse, no momento do apérto, quando retumbam as energias oficiais e as ameagas de leis ¢ priticas odiosas, serem os primeiros a porse do lado da policia aquéles que maiores responsabilidades tiveram no movimento... Quem poderd, nessas condigdes, por baixo de uma espéssa camada de canalhice e de hipocrisia, perceber que se trata de uma GREVE DE PATROES? IL Em liviy recente, H. Dayan estabelece o parale- lismo entre a decretagio das greves de patroes e a organizacao dos trusts. Entre nds, dltimamente, se tem falado, bastante nessas gigantescas coligagdes de capitais que vio realizando a monopolizagio de certas indistrias. Em especial, aqui, s4o citados, sob impressio de subido pasmo, 0s sucessos e as vantagens dos trusts norte-americanos. J4 sio nossos conhecidos alguns dos seus mais importantes organizadores, tais como os arqui-milionarios Carnegie, Schwab, os dois Rockfeller, Morgan, Gould, etc. Nao vem ao caso discutir se as aparéncias en- ganam, nem esmincar as condicées pouco morali- vadoras em que nascem e progridem esas colossais organizagées capitalisticas. Por agora, nos basta, a0 aproveitar 0 estudo de Dagan, tornar precisa a sig- nificagio do que seja um trust, Lazaro Weiller definiu-o concisamente: — a combinagio entre pro- dutores de um mesmo género, feita com o intuito de manter ou elevarlhe 0 preco, 0 que se consegue eee tornando.o raro, ou diminuindo diretamente a pro- dugio® Para maiores explicagdes temos um seguro guia na pessoa do professor Thomaz E. Will, do Ruskin Gollege, de Trenton. Vése a importincia do subsidio quando se con- sidera que Trenton € a pequenina capital do Estado de New-Jersey, onde bem se desenvolvem, desde alguns anos, 0s trusfs e as mais audaciosas espe- culagées industriais, sob a protec’o de leis escan- dalosas ¢ de costumes os mais... livres, comer cialmente falando. Will, que nio esconde seu entusiasmo pelos trusts, acompanhando 0 Gentury-Dictionary, depois de definir 0 que éles sao, passa a mostrar as formas do seu funcionamento e 0 segrédo dos scus pro- gressos. Os acionistas de emprésas que exploram a mesma industria entregam suas agdes a um grupo de administradores gerais, abdicando os podéres de voto € ontros, de maneira que a0 comité dos trustees in- cumbe privativamente nomear os gerentes das varias emprésas e dirigilas no sentido do interésse co- mum, £ natural que, para boa resultincia dessa administragio enorme, os trustees fiquem autorizados (como, de fato, ficam) a suspender o trabalho em alguns estabelecimentos coligados, diminuindo gastos regulando a produgao. Outro nao é o fim principal de um trust 123. V. Ls ceases oon cnand reuPLs, 193, pig. 1 mas compli, conten,» expo de "uw" 6 @ de Ratlaoeich ~6- Will nem disfarca 0 que h4 de doloroso, para os operdrios, nessa maneira de agir. Francamente diz que éles, assim, ficam com- preendendo & sua custa “as leis da oferta e da procura”, Essas rdpidas nogdes vieram aqui para tornar mais evidente a verdade que se contém no trabalho de Dagan. Antes, porém, de acompanhar 0 autor em suas observacées através do mundo industrial, lem- bremos que, na grande obra de Benoit Malon, jé se apontava o perigo que os trusts ou rings traziam, modernamente, para a vida dos homens do irabalho, mas sob outro ponto de vista. Malon mostrava que os objetos de primeira necessidade, tais como o carvio, 0 petréleo e 0 acticar, ficavam mais caros, ‘em razio das monopolizacdes realizadas pelos “trusts”. ‘Vamos ver que nfo sé tornam dificil a vida do trabalhador mal remunerado, como Ihe tiram, fre- qiientemente, todos os recursos, suprimindo 0 trabalho! Dagan, tendo analisado as origens € as peripécias de uma centena de greves, ocorridas na segunda metade do século recém-findo, afirma que nem sempre elas foram obra coletiva dos assala- riados; sim, foram, em muitos casos, resultados de uma premeditacio individual ou de uma combinagao prévia de patrées, grandes ou pequenos industriais. Quanto aos fins désses movimentos, aparecem varios: — diminuiggo de despesas gerais, cessacio da produgio, vontade pura e simples de acabar os negécios, etc. Entre nés, jé tivemos uma greve de patroes (alids, mascarada) com o intuito de hostilizar a decretagio ism de um impésto. Entre 0s trinta ou quarenta exemplos que nos oferece Dagan, de greves de patrées decla- radas na Franca durante sete anos, vemos 10 oriundas de motivo idéntico. O empregador, em casos tais, fecha a oficina, atira na rua dezenas ou centenas de empregados; depois, deixa que se diga que éstes fizeram... grevel ‘A aplicagio, em 1899, da lei relativa aos aci- dentes do trabalho (que jd tratamos) deu ‘em resultado umas oito greves de patrées. E nfo é s6 na Franca que o fato se observa. Dagan sustenta, com provas imediatas, que, nos tiltimos tempos, as greves a que aludimos tém sido numerosas e violentas, por t6da a parte, notada ‘mente na Inglaterra, na Franca € nos Estados Uni dos da América do Norte. As coligagdes industriais conhecidas pelos nomes esquisitos de pools, rings, trusts, cartells e sindicatos — tém originado, nestes ‘iltimos vinte anos, repetidas cessagoes de traba- Iho, Dagan cita Vigouroux, que, estudando os grandes Tances da especulacio norte-americana, acentuou, como conseqiiéncia: — aumentar 0 mimero de ope- ratios desempregados. Rousiers, 0 tratadista que mais profundamente se ocupou com as indistrias monopolizadas nos Estados Unidos, nio esconde 0 fato.7* “Para diminuir a produgio, os pools recorrem a dois processos: ou fecham completamente as fi “HV. A vn awencann, ta, brat de Désan Snir, S. Paul, 1964. <8 bricas sindicalizadas, ou reduzem 0 niimero dos ope- ririos ou 0 das horas de trabalho” Por ocasiio de organizarse, nos Estados Unidos, © célebre “trust” do aciicar, em 1887, sé em Boston foram dispensados... 1.300 operirios refinadores! O Wisky-Trust, reunindo oito grandes estabele- cimentos de distilagio, fechou 68!. “trust” do petréleo — Standard Oil — dirigido pelo St. Rockefeller, s6 d’uma vez despediu 1.600 ope- ririos e baixou de 15% o salério dos que ficaram. Na Alemanha, quase na mesma época, se onga- nizaya definilivamente o sindicato do carvao, na Westphalia. A primeira medida foi reduzir de 10% a produgio. Fécil é calcular quantas dezenas de mineiros dispensados!... Na Franca, entre outros fatos, tornou-se saliente 0 dos industriais do algodio, na Normandia. Decidiram adotar, além de outros meios para di- minuir a producio, o seguinte: suspender 0 trabalho As segundas-feiras, em t6das as fabricas. © exemplo mais completo de greve de patio é, todavia, a de Carmaux — que, diga-se a puridade, nada teve com qualquer ‘rust. Foi uma greve patronal'— individual, O patrio, Sr. Ressigner, de quem trata elogiosa- mente Huret no seu livro Les Gréves, tendo um grande stock de garrafas nos seus vastos depésitos, ptovocou a paralizacio do trabalho, despedindo dois operdrios, sob pretextos fuiteis, e depois nao quis aceitar os grevistas, mesmo sujeitando-se éles a tédas as imposicées. (O homem tinha armazenado seis milhoes de garrafas...) =a — Voltemos 4 nefasta influéncia dos “trusts” na produgao das greves de patrdes. Na indistria de fun- digao observou-se que, no norte da Inglaterra, de 1900 a 1901, os patrdes apagaram 47 fornos. A propésito da mesma industria do ferro, observa © Sr. Georges Blondel, que, tiltimamente, depois dos trusts, na Alemanha, vio sendo dispensados operd- Tios ¢ vio sendo diminuidos seus salérios. No Times de 80 de junho de 1901, se lia que o trust do ago norteamericano havia dispensado vinte mil operarios!® . Os fatos acumulados no substancioso estudo de Dagan, sio imimeros. Damos, apenas, pequenfssima e insignificante amostra. E nem pareca que nés aqui, no Brasil, nada temos com isso. © trust é uma resultante do regime capitalistico; 6 disse-o Will, sua conseqiiéncia tiltima, a organizagio suprema do industrialismo. Nao h4 motivos para crer que estejamos preservados dessa moderna calamidade dinheirosa, Ja temos algumas coligarées morais (perdéem o térmo); amanha, teremos as coligagdes materiais, primeira peceudade” ara st fotar’ is idee fenene spatectne the Tet 3 atrumentad' cdo ave 2 ie‘Nontine datos ae'Reoee (Erne ae 150) 55 fran apa ote serine Jn, Ret, edd oe em, ee in macs lar ar mn, So ea, 4 apres, go teabaing es Nervin co Tuplor do Pxtado c cmpobreecr Go pow. ara reap, a cto pout, of him melo: 2 organizacio do operaiado x 1 bio db cocbeatisme £°dD wont! — 80 — isto é, os paties que jé se congregam para fixar normas de conduta, argumentar contra leis, discutir seus interésses_ coletivos, provavelmente reunirao, também seus capitaii danosos da concorréncia desenfreada. Virao os trusts, 0s pools, os cartells, os sindicatos. Repetir- seo 0s espeticulos que observamos no estrangeiro. quando sentirem os resultados — CAPITULO S&TIMO NORMAS OU REGRAS DE TRABALHO CAPITULO SETIMO NORMAS OU REGRAS DE TRABALHO Na regulamentagio do trabalho nio hd questio mais intimamente ligada aos interésses_vitais da criatura humana do que a que diz respeito a0 tempo ‘ou duracéo da atividade profissional. Para resolver © problema, adotou uma escola socialista a teoria chamada dos trésoito, segundo a qual a duracio do trabalho deve ser limitada a uma térca parte do dia (oito horas). Qualquer que seja a opinigo que se possa _manter diante dessa aspiracio doutrindria, é incontestavel a necessidade de se modificarem as con- digées atuais do trabalho assalariado, que traduzem nao 6 indiferenga criminosa, como _lamentavel ignorancia das leis naturais que regem o esforgo humano. A bem dizerse no sio sbmente os operdrios que sofrem com essa exigéncia excessiva, que os retém nas oficinas por mais tempo do que o permitido pelas suas energias fisioldgicas; a produgio in- dustrial também, diretamente afetada na quan- tidade ¢ na qualidade. As ligdes dos competentes estio indicando a neces- sidade da reforma, eee Ainda ha pouco, o Dr. Toulouse, estudando as “regras do trabalho” — observava que, quando se adquire uma méquina, logo se indaga qual sua {orca de resisténcia e quanto ela pode produzir, em dadas condigdes de atividade. Entretanto, a méquina hu- mana, a mais preciosa de t6das, é empregada quase sem precaugies, Até agora no se tem procurado, seria- mente, verificar quais as circunstincias ou con- digdes em que o trabalho humano ¢ realmente pro- dutivo, Sio, em geral, desprezadas as regras fisio- Tégicas do trabalho, que é exercido um tanto as Dnutas, com desperdicio de férgas ¢ cstrago de orga- niismos. ‘A éste propésito poderseiam amontoar citagées, ‘em busca de seguros clementos que denionstrassem ser 0 trabalho, tal como é praticado, provocador da fadiga, esgotador de energias, diminuidor da pro- dugio. ‘Limitar-nos-emos as verdades comezinhas, 4 al- tura déste trabalhinho de vulgarizagio, e compativeis com 0 insignificante preparo de quem o escreve. ‘Os escritores. mais modernos, que tém estudado © funcionamento do sistema nervoso, observam que a fadiga produz perturbagées da atengio ¢ da sensi- bilidade em geral. Quer a fadiga seja intelectual, quer seja fadiga muscular, as conseqiiéncias sio as. mesmas. Ha, ‘como observa Charles Férré, meio facil de se verificar ésse fendimenv depressivo, apenas se considcrando a influéncia da “energia motora” sobre a “atencio”. ‘A. observacio e a experimentacio tém demons- trado que tudo que perturba a atencio diminui a mes one Sieh energia do movimento e demora 9 tempo da reagio nervosa. Sob a acio da fadiga, os movimentos séo menos enérgicos. (Os Gregos no estabeleciam, na sua lingua tio bem dotada, nenhuma distingéo entre dor ¢ fadiga: — quem o notou foi Cicero), Juntandose a fadiga a outras condigées. suscetiveis de deprimir a nutricéo, como a falta de ar respi- ravel, 0 excessivo calor ou o frio intenso, a falta de alimentagao sadia, etc, ¢ de imaginar como se de- prime a energia humana e como essa depressio. or ganica reage na producio industrial. Por isso mesmo, outro neuropatologista francés, 0 talentoso Dr. Maurice de Fleury, vé na fadiga uma terrivel adversdria das civilizagdes muito adiantadas. (Ixrropuction A La Mépecine ve 1’Esprrr, pag. 210). Uma observacdo muito expressiva foi feita pelo Dr. Elia Sachnine: — os acidentes no trabalho sucedem, em geral, quando éste dura muito. A estatistica nos Fornece, a ésse respeito, poderoso elemento de con- viegao, mostrando que os desastres se dio mais fre- qiientemente nas tltimas horas do trabalho. Por qué? Naturalmente pelo cansago da atengio. Também na Alemanha se observou que ha mais acidentes nos liltimos dias da semana; a causa parece ser a mesma, Economistas clissicos, alguns notoriamente escra- vizados aos interésses capitalisticos, no escondem a bruteza das normas industriais vigentes quanto a duragio do trabalho. Temos presente a jé aqui citada obra de Leroy- Beaulieu acérca da “Reparticio das Riquezas”. — A 36 V. de Fé, La Parmotocte bes EMoTON, 1892 plan 106 © spuintea ie pag. 419, éle reconhece francamente que 0 aumento das forgas produtivas do homem nao tem sido grande. ‘As miquinas, que tanto se tm multiplicado, nio contribuiram para que se trabalhe menos do que outrora. Nao tém sido aproveitados 03 nossos maravilho- sos meios de producio para diminuir sensivelmente os encargos do operario. Ainda bem que isso é reco- nhecido por autoridade tio insuspeita, neste ponto de pleno acérdo com Marx, Lassalle e Benoit Malon, As centenas de tristissimas narragdes e de severos comentarios que nos oferecem éstes mestres socia- listas podemos juntar a descrigio recentissima, feita por uma dama inglésa da mais alta linhagem, que se propés, hd pouco tempo, estudar as condicdes do trabalho feminino nos Estados Unidos, patria dos pode- rosos € afamados trusts e das trapacagens financei- ras as mais escandalosas. A cidade escolhida foi a de Pittsburg, cuja atividade industrial € bem conhe- cida, sendo um térgo da respectiva populagio com- posta por operarios2™ A critica genérica que a aristocrata britinica faz a0s Estados Unidos é esta: aquilo nio é, como se pensa, uma democracia, mas, sim, uma reuniio de pequenos reinos, em que os déspotas, que sio os pa- trdes arquimilionarios, reinam sbre um povo de es cravos, ‘que sio seus operdrios. Passando A descrigao do trabalho que se exige, em certas industrias, para em retribuigio dar a classe operdria um salério mi- Gy oreo tee wn herve tn tpl Ttnse'e ho orwvalae aux Brave Use ‘obra: hoje a ponies Sto dust ep = nimo — apenas necessitio para nio morrer de fome — a corajosa observadora mostra como o organismo se estraga € quase se aniqilila, sob a acio dum exer- cicio brutificante, que dura 11 ou 12 horas, em condi- Ges deploraveis, sem higiene e sem repouso. A leitura das paginas a que nos referimos deixa, no espfrito mais indiferente, a idéia perfeita dum désses “infer- nos industriais” a que, ha pouico, se referia, também Dr. Romme, de Paris. Néles se tortura a natureza, se violenta o orga- nismo, abreviando a vida humana. O trahalho, que deve ser entendido e praticado como meio de vida, constitui, de fato, em certos lugares e em certas con- digdes, meio de depauperamento e de morte. As leis do trabalho humano — sabiamente estudadas por Nitti, ainda s4o, nos nossos tempos modernos, desconhecidas pelos industriais, pela minoria burguésa, egoista ¢ gananciosa, que governa todos os paises aparente- mente civilizados. O trabalho deve ser feito de boa vontade, com esférgo moderado, para nio provocar fadiga* ‘A energia do trabalho — diz Niui — depende da energia vital do individuo que o pratica. Tédas as vézes que 0 homem excede’o limite das suas fOrgas, pro- vocando fadiga, aparece uma sensagio penosa, que modifica a quantidade e a qualidade das coisas pro- duzidas. Ora, essa perda de energia é, evidentemente, prejudicial & sociedade. £ preciso wir 0 trabalho cada vez menos penoso, Daf resultam duas neces- 7 Ski Pog 106, ol. ssa ogo @ eit, cemonsvando erin pour comim. 0 live Fabsegee rete. ace 12. Direito Opera ee sidades: a limitacZo das horas do trabalho ¢ 0 estabele- cimento de certas condig6es de salubridade, conforme a natureza das indiistrias. Publicistas conservadores — como o velho magistrado Fabreguettes — reconhe- cem, neste sentido o direito de intervengao do Estado." © estudo da legislagao social comparada mostra que essa intervengio tem se dado principalmente em rela- io ao trabalho das mulheres e das criangas. No que diz respeito ao trabalho dos adultos, os votos dos congres- 305 socialistas nfo tm encontrado sério apoio nos paises mais adiantados. Entretanto, 0 préprio inte- résse do Estado aconselha a modificagio radical désse sistema de laissez faire, que deprime a energia humana € provoca a degeneracio das classes pobres. Os patolo- gistas, os higienistas, e, em especial, os neurologistas tém notado a influéncia direta do trabalho excessivo ¢ insalubre na produgio de terriveis moléstias, no au- mento da mortalidade infantil, na diminuigao da vita- lidade humana. ‘Aqui se complicam, na solucio désse 4rduo proble- ma, as exigencias econémicas com as necessidades so- ciais ¢ com 08 altos principios da higiene coletiva. & absurdo exigir do trabalhador mais do que éle pode dar, estragando a produgio ¢ degradando o organism de modo as vézes fatal ow irrecuperdvel. ‘A experiéncia demonstra que a diminuigio das ho- ras de trabalho — zwitando a fadiga — nao acarreta pre- juizo. O interésse dos patroes deveria contribuir para o estabelecimento de novas regras de trabalho. ce, ma excente Remue Interne So le Le tral humane 29 Lemon 0 trabalho de Natt em neva tonle dS oe pub em ae Entre nés, jé vimos que s6 uma lei de cunho verda- deiramente social foi decretada pela Repiblica, ¢ se re- fere ao trabalho das criangas nas fibricas. Em relagao 0s adultos, nada h4 que lembre, a0 menos, as conquistas mais antigas do operariado francés ou do operariado alemio. Demais, nio ha quem fiscalize a execucio daquela lei, a que aludimos. ‘Ninguém dird sériamente que 0s patrdes sejam in- teressados em cumpri-la, F de lembrar como, na Europa, consticui problema importante a maneira de fiscalizagio dessas leis pro- tetoras do trabalho; constantemente se modificam as condigdes dessa fiscalizacio, tornando-a enérgica ¢ efi- caz, subordinando as oficinas ao inspecionamento mais minucioso. Nesta cidade, sabemos existirem fabricas onde tra- balham criangas de 7 a 8 anos, junto a méquinas, na iminéncia aflitiva de terriveis desastres, como al- guns j4 sucedidos. © trabalho noturno das criangas é praticado em certas fabricas — como o das mulheres — cercado de to- dos os inconvenientes ¢ desmoralizagdes, que tanto tém sido combatidos no estrangeiro, Ainda nenhum Minis- tro da Inddistria sentiu a necessidade de um inquérito, que servisse para evitar abusos e verdadeiros crimes, ¢ indicasse a necessidade das reformas ¢ a maneira de as exccutar. ‘Aqui, 0 trabalho industrial é exercido em condigies primitivas. Se de algum conférto gozam operitios de certas fabricas — & isso devido & bondosa iniciativa de = alguns patrdes, que, alids, no se empobrecem com a pritica da generosidade... Se éstes apontamentos’ servissem, a0 menos, para despertar ‘a atengio dos que podem, querem e man- dam, darmieia por muito feliz. CAPITULO OLTAVO SINDICATOS OPERARIOS CAPITULO OITAVO SINDICATOS OPERARIOS I No ano pasado, o eminente economista italiano ‘Achile Loria, chamado por um dos mais pre ‘mosos editéres da sua terra para escrever uma obra de resumo acérca do movimento operdrio, pos em ‘evidéncia a acio decisiva dos sindicatos e das coope- ativas no desenvolvimento da vida econdmica mo- derma.” ‘A experiéncia tem demonstrado, efetivamente, que a organizacao sindical dos operdrios corrige os maiores defeitos do regime capitalistico e atenua as im- pposigées da grande industria, quase insuportiveis, ¢ dia a dia mais vexatérias ¢ deprimentes. E quem quiser apreciar o valimento dessas vastas _organi- zagées profissionais, deve procurar conhecé-las, prin- cipalmente, na Inglaterra, nos Estados Unidos ¢ na ‘Austrilin, onde o genio britinico ja vai tirando delas 0s mais formosos resultados, Na Franga, até A presente data, parece que nao se tem colhido frutos BO V. Te Morante Ovens, eligio de Remo Sandron, 1803. Stat tio brilhantes, contribuindo para isso introme- timento do socialismo revoluciondrio e da_poli- ticagem, que avassalam o movimento operério na- quele pais. & por isso mesmo que os economistas conservadores, ¢ em especial Yves Guyot, dirigem a maior parte das suas censuras a0 que se observa na Franca, procurando, em pequenos fatos © insucessos pouco significativos, encontrar razdes para combater a moderna organizacao corporativa dos operirios. Entretanto, outros escritores imparciais, da mesma origem, apontam, com justeza, as razdes désse rela- tivo insucesso, ¢, comparando as instituigdes fran- esas com as ingléses ¢ norte-americanas, mostram a sem razio das eriticas prematuras. & assim que Hubert Valleroux, na sua obra laureada acérca das “Associagées Operdrias e Associagdes de Patroes", reconhece a importéncia da situacdo moral dos sin- dicatos ingléses (trade-unions). Os patrdes ¢ 0 publico em geral os consideram, visto que rednem sem duivida a melhor parte da populagao operéria. ‘Anualmente, quando celebram seus congressos em varias cidades da Inglaterra, vé-se 0 apoio que Ihes € dado pelas municipalidades. A Camara dos Co- muns ja foram enviados alguns unionistas; um dos mais eminentes jd mereceu a honra de fazer parte de um ministério inglés. Cumpre notar que os sindicatos ingléses sto diferentes dos franceses quanto 4 sua constituigao. Estes sdmente se organizam com profissionais de uma mesma cidade, aquéles se organizam por classes, através de todo Reino Unido, ¢ deitam ramos para 0 estrangeiro. Os congressos das Trade-Unions sto 69 = pacificos e priticos, confessa 0 nosso autor, bem di- ferentes dos que, nfo ha muito, nos descrevia Sei- Ihac, nos seus tremendos trabalhos criticos, acérca do movimento sindicalista ¢ socialista francés." © velho magistrado Fabreguettes, de cuja impar- iidade nao & licito duvidar, também se refere a distincéo apontada por Valleroux, mas patenteia a mais fundada esperanca na melhoria dos. sindicatos franceses, Tratando da lei que Ihes deu existéncia legal, ¢ que vem de 21 de marco de 1884, afirmiava que cla acabaria dando excelentes resultados, uma vez que fdsse modificada. A principal reforma indi- cada por Fabreguettes (proposta oficialmente, pouco depois, por Millerand) era a revogagio do art. 6.° da itada lei, que proibe o pleno ¢ amplo exercicio do direito de propriedade, pelos sindicatos, Em seguida diz Fabreguettes: “Espero que entre nés se dé futu- ramente com os sindicatos 9 que se dé com os trade-unions na Inglaterra”. Reconhece o distinto publicista e respeitado juris- consulto que aquelas poderosas associagées_britinicas tém evitado greves, impondo benéficamente a acéo coletiva do operariado. Em nota, observa que, no ano de 1897, 18 trade-unions inglésas possuiam um fundo de reserva superior a 28 milhdes de francos! Nao menos expressiva ¢ a opinido de Paul Bureau. O estudio que dedica ao assunto merece ser meditado SE Gm crm Fs 1 — i Mowe Sn, See eet re ele ereetereeteery . ee eee Seta tiers meek oes 2 ee eee Sa See a aig = pelos que se acostumaram a ajuizar dos sindicatos, através das criticas catilindrias de Leroy-Beaulieu, Molinari e Yves Guyot. ‘A evolugo do movimento operirio mostra qué a greve precede o sindicato: no principio, porém, o sindicato ¢ quase tio-sdmente dedicado & preparacio da greve. Mas, como se viu na Inglaterra ¢ nos Estados Unidos, essa fase nao dura muito. ‘A ela sucede 0 periodo da verdadeira organizacio profissional, em que os sindicatos se transformam em. jal ¢ de educagio operaria. iusuumentos de paz 3 ‘A medida que os sindicatos se tornam mais fortes € mais ricos, vio compreendendo que podem tratar pacl- ficamente com os capitalistas as condigées’ do trabalho assalariado, sem .socorrerse do recurso extremo da greve.®® Dioutra parte, 0 industrial sabe que nao é facil resis- tir a um movimento dessa ordem, quando um sindicato poderoso tem elementos para manter seus membros em inatividade coletiva. Essa importincia que tém hoje a trade-unions inglésas foi estabelecida 4 custa de grandes esforgos, de Tntas violentas, de greves tremendas, de muitas uto- pias abandonadas. Nos Estados Unidos, se verificou a mesma evolucio. E qual é a situagao atual, ali? Leiase para sabéJo a circular do Museu Social, 10 10, série RB, datada de 29 de junho de 1897, onde se descreve 0 movimento trade-unionista nos Estados Uni- A mcims evolglo x cperou a. Alemania. “Quando, % pringionaindaee se banat so tnken_ sbictive era prepara a, eves Hole poder ver it Baaea ia he gue Searevempe ot, ses ~ La benognaT SOc ‘AtleNasoes por ged Milhaud, pans 944 80h == dos, como um trabalho gigantesco, que frutificou em resultados espléndidos. Depois de repetidas desilusdes, de desastres varios € de experiéncias infelizes, as trade-wnions norte-ame- icanas chegaram a influir, como agora se observa, na educagio dos operarios, na legislagéo social, nas condi- s6es do trabalho assalariado ¢ na pacificagio dos con- flitos entre empregados ¢ empregadores. Para ésse resultado, observa Bureau, é preciso em- pregar perseverantes esforcos. Sendo 0 sindicato uma forma strperinr de caesio operiria, nia pade chegar A perfeigao sem travar rudes combates, nao sé com a opi- nigo pitblica, como também com a apatia e a ignoran- cia dos préprios assalariados. Entretanto, segundo nos informa o mesmo escritor, j4 se vao percebendo, no seio de varios sindicatos franceses, 03 primeiros linea- mentos duma organizagio mais metédica e mais pacitfica.* I Logo de coméco, pusemos cuidado em prevenir a objecao que, geralmente, se levanta, nos paises latinos, contra a organizagio dos sindicatos, chamandose a atengio publica para o relativo insucesso dos que tém sido formados na Franca, Reparamos, somente agora, que haviamos presumido da parte dos nossos lei- tores 0 conhecimento dos fins e das fungées dos sindi- catus profissionais; quando € uatual que nem todos estejam bem a par do assunto. Vejamos, pois, que papel representa um sindicato profissional operério no 134 Paul Dose — La concen aavatt er ux nour nes rca easy 902, exp. i, 1 mormon 9g mundo industrial moderno. £ uma associagio de traba- Ihadores da mesma profissio ou especialidade ou de profisses conexas € similares, que tem por fim de- fender seus interésses materiais € morais, perante os patroes ¢ 0s podéres piblicos, intervindo nas condigées do trabalho, na fixagio do saldrio, na regulamentagio das horas de atividade profissional, na forma da apren- dizagem, finalmente, em tudo que diga ao bem-es- tar dos associados. Dai resulta que ndo podem fazer parte do sindicato individuos estranhos 4 profissio. Outrossim, nio ¢ admissivel, no seu seio, a defesa de interésses politicos ou outros que nao digam respeito 4 vida econémica e social dos seus membros, Na Inglaterra, no inicio do movimento unionista, um dos principais fins dos sindicatos consistia na as- seguracio de socorros para os casos de velhice, de inva- lidez ou de falta de trabalho. Webb, na sua Hisréxia po ‘TRape-UntonisMo, mostra o valor désse servigo prestado aos trabalha- dores pelos sindicatos ingléses, numa época em que © Estado ainda nfo havia bem compreendido a ne- cessidade de incorporar 4 sua legislagio as normas relativas ao “seguro-operdrio”. Outra fungio das trade-unions, posta em relévo por Achiles Loria, € a referente a determinagio de um saldrio-tipo, isto ¢, o salério minimo que 0 capi- talista ou industrial deve pagar, respeitada a natureza do trabalho ¢ tendo em consideracao a cidade ou loca- lidade em que é exercido: Nesse particular, variam as regras adotadas, pois uns sindicatos preferem o trabalho por empreitada, outros adotam o regime = 699) = do salitio fixado para certo tempo de trabalho. fstes liltimos, como ¢ natural, procuram mais do que os outros a diminuicio das horas normais do trabalho, exigindo, também, a regularidade absoluta da hora de entrada e da de saida, nas fébricas. Também se tém ocupado 03 sindicatos ingléses ¢ norte-ameri- anos com a melhoria das condicées higiénicas do trabalho. Outro fim importante a que se propuseram as trade-unions consistiu em obter a limitacio do’ ni- mero de criancas e mulheres empregadas nas f4- bricas. A ésses fins, eminentemente priticos, associaram as trade-unions inglésas e norte-americanas 9 em prégo de esforcos para colocagio pronta dos seus membros, quando desempregados.”* Témse visto casos, € no poucos, de ser um profissional sindicalizado remetido de Londres aos cui- dados da sucursal em New York, ou em Melbourne, ou em Johannesburgo, quando hé dificuldade em em- pregé-lo naquela cidade principal, centro da sua trade- union. Para gozar de todos ésses beneficios basta o ope- ritio entrar com uma pequena contribuicio, sujei- tandose a0 regulamento do sindicato, que, em regra, pouco difere do de qualquer associacio corporativa, Sendolhe permitido sair quando Ihe aprouver, apenas sujeito a perda das cotizacdes pagas 5 Na Alesanha, € obrigacto do sindicato garam a0 operteio sem caprten (Wrote a una ie Ws) Bis tle de at na ase ae (OF gie nto cacontrans faba ae. 310. p = 00 Demais, no seio do sindicato podem-se criar a3so- ciagBes de socorros miituos, caixas econdmicas, et. Os adyersirios do sindicalismo opdem a essas yantagens do sistema uma consideragio teérica, a que se costuma ligar maior atengio do que merece. rgios diretos do capitalismo, escrevendo quase todos por conta do desumano industrialismo do nosso tempo ousam atacar o sindicalismo em nome dos “sagrados principios da liberdade do trabalho”, estabelecendo, entdo, o simile entre a organizagio profissional mo- derna e a das antigas “corporagoes de oficivs” Yves Guyot, na sua barulhenta obra LES CON- FLITS DU TRAVAIL, lembrava, tltimamente, 0 edito de Turgot, que, em 1776, suprimiu as referidas cor- poragdes, dando a entender que elas tém revivido nos sindicatos ¢ trade-unions®, com grave escindalo dos principios democriticos ¢ igualitérios. Ora, a objecio tinha seu valor, quando ainda havia quem sériamente acteditasse na liberdade que, se dizia, beneficiava 0 trabalho do operdrio moderno. Essa crenca passou, depois dos estudos, fartamente documentados, dos socialistas cientificos, continua: dores de Karl Marx, ¢ do apoio que as mesmas obser- vag6es tém trazido, uma valorosa e moderna escola de economistas independentes. Todos apontam os tristes e Iamentaveis efeitos dessa famosa liberdade econdmica, de que tanto abusa © capitalismo dominador. ‘A formula de evolugao econdmica que resolve a objegio apresentada por Guyot foi brilhantemente 35 Obra it, 190, pen 99 © esinten = i101 — dada por Achile Loria. Téda gente conhece a lei do binémio, descoberta por Newton. O bindmio é uma soma de varios térmos que crescem progressiva- mente até um maximo, além do qual vao declinando até chegar de névo a um minimo, Esta fér- mula fornece a lei geral da curva de uma pardbola. ‘Acchiles Loria explica como tédas as manifestagoes da vida se reduzem a ésse mesmo principio. A evolugio econémica nao escapa ao seu dominio absoluto. Humil- de, ao principio, quase sufocada, na Idade Média; por leis absurdas, que encadeiavam a industria ¢ a agricul- tura, a liberdade econémica se revolta afinal, nao s6 aju- dada pelos fisiocratas franceses, como, depois, au- xiliada por impulso vigoroso de Adam Smith, que a guiou, de triunfo em triunfo, A soberania com- pleta do mundo civilizado. Seu império foi, entio, absoluto. Mas os resultados nefastos dessa liberdade sem freio nfo tardaram em manifestarse tornandose de mais em mais graves e intolerdveis, provocando rea- Ges por téda a parte. Verifica-se hoje, nas relagées dos assalariados com seus patrées, que a liberdade é para aquéles uma burla. De fato: — a liberdade individual ssmente poderia bastar para assegurar a harmonia coletiva, se mio houvesse profundas desigualdades das {6rcas individuais, a liberdade sem freio tornou-se uma causa fatal de usur- pagio e de opressio. isolamento entre 0s assalariados foi o meio mais seguro de conduzi-los ao estado de inferioridade em que se encontram. — 102 — De maneira que tem razio Paulo Bureau, dizendo que a liberdade do operirio s6 serve para motivo de retoriquice. Da verificagio do sofisma econdmico se chegou, entéo, 4 necessidade de canalizar essas forgas vivas que os fisiocratas ¢ Adam Smith puseram em livre movimento. Tornou-se preciso estabelecer novos freios para a liberdade, no os da escola feudal, bér- baros e violentos; mas, seguras restrigdes, aconse- Iadas pela experiéncia, que permitam o desenvol- vimento normal das classes produtoras, protegendo 0s fracos contra os fortes, em nome do principio da Justica. processo evolutivo da idéia econdmica foi, por- tanto, conforme a curva de uma pardbola, na expres- sio feliz de Achile Loria. Mas, neste sentido, cumpre dizer que, dadas as novas condigdes mentais ¢ emocionais da humanidade, nio voltamos as regras arbitrarias, contrarias 4 eqiii- dade, que dominavam as corporacdes de oficios; sim, a um minimo de liberdade, compativel com 0 nosso tempo, com as necessidades vitais do homem mo- derno. Os sindicatos operdrios realizam, até certo ponto, o ideal do trabalho remunerativo e feliz. ‘Vejamos como tendem a modificar as condicdes do contrato de trabalho, isto é, as relagdes entre empre- gadores e assalariados. m1 Na discussie do projeto de lei francesa sobre os sindicatos, dizia Floquet, a 21 de maio de 1881: “Que querem fazer as associagées sindicais? —1103-—. Vender a mais preciosa das mercadorias, 0 tra- balho humano, ¢ vendéla nas melhores condigées. Até hoje, a mercadoria que se chama trabalho tem sido vendida a retalho, parcela por parcela, po» homens isolados; presentemente, é preciso, por meio de asso- ciagio, estabelecer 0 comércio por atacado, coletivo, dessa mercadoria que se chama trabalho humano”. £ o ideal a atingir, incontestavelmente, ésse da substituigio do contrato. individual pelo contrato coletivo de trabalho. E 0 sindicato operdrio esta destinado a realizar essa revolugio no sistema indus- trial moderno, Dia vird em que o sindicato nao sera sdmente 0 porta-vor das reclamacées e das reivindi- cages operdrias; serd 0 contratador do trabalho, fixard com os sindicatos patronais as condigdes em que os trabalhadores poderdo contribuir com sua atividade* profissional para o desenvolvimento da indvistria, res- pondendo, como pessoa juridica, pela perfcita exe- cucio do contrato, pasado em nome dos seus mem- bros. Na Inglaterra, os trade-unions tém realizado con- tratos coletivos, com resultado satisfatério, Sucede, porém, que, em caso de desavenca, nem sempre ¢ completo o resultado, porque, como observa Acchiles Loria, nas “comiss6es mistas”, compostas de operdrios e patrées, éstes dominam quase em absoluto, nio dando satisfacio as justas reclamagdes dos trabalhadores. & de supor que a organizacio de tribunais conciliatérios influa decisivamente para a me- Thoria do sistema. Outrossim, nao negamos a importincia da objecio apresentada por Hubert Valleroux. Dando razio a certas 13. Dieta Opersro — 108 — belecimento; uma ver que éle se sindicalizou, que, no seu interésse, abdicou de uma parte da sua liberdade em favor de uma associagio de classe, esta tem o di- reito de impor-lhe a mesma coisa. O ‘patrio também no se pode queixar sériamente, pois ninguém pode obrigar outrem a vender-lhe, sem querer, uma mer- cadoria — ¢ outra coisa nao é 0 trabalho humano. Por outro lado, os patrées nao fazem combinacées idénticas? Nao se tem visto serem despedidos operé- ios, por fazerem parte de sindicatos? Nao é sabido, outrossim, que os patroes reco- mendam mal, de uma para outra oticina, certos ope- rérios que se tornam importunos ou Ihes causam incémodos? Entre nés, aqui mesmo, nao € sabido 0 procedimento, nesse sentido, da famosa associa¢io de industriais do calgado? Acchiles Loria estabelece rigorosa comparagio entre 0s dois processos — o dos industriais e 0 dos operdrios —€ conclui que ¢ juridica a acio dos sindicatos, exercida com moderagio, sem excitagao, sem constran- gimento, sem violéncia, Tal como se dé com as greves). Quem pode evitar, por exemplo, de acérdo com as leis modernas, que um grupo de operdrios sindicalizados que se recuse a trabalhar, em certa oficina, com companheiros nao sindicalizados? De fato hd, no caso, um convite indireto para o despedimento déstes iltimos; mas nao hé violéncia, nem ameaca punivel. O patrao fard o que lhe ordenar seu interésse. Foi essa mesma orientagio que decidiu Millerand a admitir, no seu projeto de 1899 acérca do papel dos direitos dos sindicatos, a legitimidade da mise en — 109 — nterdict, alias j4 doxain: ate na jurisprudéncia francesa. Certamente nao se que> conceder ao sindicato 0 poder de compelir todos os operé.-'os a entrarem para éle; mas niio se Ihe pode re-usar o direito de, sem emprégo de yioléncias, de ameacas, de znanobras fraudulentas, langar o interdito profissional em um estabelecimento, preibindo seus membros de trabaharem néle, bem como espalhando 0 descrédito sdbre as aptides ¢ a moralidade dos operdrios que se queir..n sujeitar ao patrdo condenado pelos legitimos repres.ntantes: da classe. Quem pode obrigar o operdrio a ser amigo do com- panheiro: indigno ¢ desbriado? Além dessas consideragées, € atendivel a obser- vaco ieita por Paul Bureau: 0 boycottage atinge, geralmente, uma minoria insignificante, composta de operarios cuja habilidade profissional e cujo valor moral sio notdriamente inferiores 4 habilidade e 4 moralidade dos seus colegas sindicalizados. E, pois, muito natural que éses queiram vender mais barato seu trabalho. Vé-se bem clara a situacio: Um sindicato luta para impor as condigdes mais favoraveis da atividade operdria, com vantagem para todos 0s da classe, algando o prego da mercadoria-tra- balho. Afinal, consegue, & custa de muitos sacrificios fe de no pequenas despesas, elevar a taxa dos salirios, Javorecendo a sindicalizados ¢ a nao sindicalizados. Em dada ocasiao, sob qualquer pretexto, um patrio se revolta contra o sindicato; é sna oficina posta em interdito. Entendem, porém, 0s operdrios naosin- dicalizados, fundados na especiosissima liberdade de tra- — m0 — batho, fornecer sua energia profissional ao patrio boicotado, Pode ser isso agradivel a classe que se constitui em sociedade e organizou seu micleo de resisténcia, com vantagem para todos? possivel evitar a malquerenga entre a maioria sindicalizada e a minoria dos leprosos? E depois de passada a crise, quando o patréo cede, natural a unido entre dois grupos tio diferentes, separados por uma compreensio tio diferente dos deyeres profissionais?! Vese como & légica a boycottage, atingindo a patroes © a operdrios ndusindicalizadus ou Waidores. Do seu uso moderado depende em grande parte 0 sucesso dos sindicatos. E isso ficou demonstrado nao sé na Inglaterra ¢ nos Estados Unidos, como dltimamente, na Alemanha. Outrossim, 0 Gongresso Socialista Internacional reunido em Paris, em 1900, aconselhou a organiza. lo dos sindicatos, para garantia das gréves € da b cottage, que disse — com. razao — serem meios legiti- mos de combate. CAPITULO NONO COOPERATIVAS CAPITULO NONO COOPERATIVAS — SEUS SISTEMAS E SUA SITUAGAO JURIDICA i Ao paso que a organizacio sindical, pelos seus _desvinx © pelo intrometimento das paixdes politicas, ‘ainda nao conseguiu imporse ao regime patronal, as ‘cooperativas operdrias tém conseguido, nos lugares ‘onde lograram firmar sua influéncia no proletariado, imporse a grande e A pequena industria ¢ modificar ‘sensivelmente as condigdes do comércio. No Rio de Janeiro, como em todo o Brasil, ainda nao se experimentaram as vantagens do sistema coo- _ perativo. Deuse, mesmo, o lamentdvel emprégo da palavra cooperativa para letreiro de certo armazém suburbano, filiado 2 um banco que, por sua vez, de ‘operirio sé tinha o titulo... Frutificando 0 exemplo, vimos aparecer, em mais de um estabelecimento de mercearia, a aparatosa e mentirosa designacio, usada como simples meio de reclamo comercial, Entre- tanto, ao tempo em que se comecou, aqui, essa obra de deserédito ¢ de mistificagio, nao era dificil cuidar, striamente, na organizagao de cooperativas. Agora, nio obstante a suposta movimentacio da massa operdria, sentimos que as dificuldades aumentaram, em razio da desconfianga provocada pela falsa organizagZo ban- ciria e cooperativa de 1890. — 16 — Ha uma cooperativa de consumo — ensina o pro- fessor Charles Gide, da Universidade de Montpellier — tédas as vézes que varias pessoas se combinam ou se associam para prover em comum aS suas ne- cessidades individuais. Monsenhor Ketteler, arcebispo de Mayenga, dizia que a questio de cooperativa se reduzia, afinal, a uma “questo de alimentagio”. Nao & exato. A cooperativa de consumo pode satisfazer outras necessidades da criatura humana, nao sé ma- teriais, como intelectuais e morais, Atualmente existem teatros cooperativos, academias populares cooperativas, centros de instrucio moral cooperati- vos, etc. O fim comum de tédas esas associagies consiste em satisfazer as necessidades dos seus mem- bros melhor € mais econémicamente do que o faz a organizago capitalistica atual. (Por exemplo, em se tratando de pao, 0 que se quer é fornecé-lo de melhor qualidade ¢ mais barato do que os padeiros).* Incontestavelmente, da Inglaterra partiu a mais poderosa demonstragio prética da importincia que podem adquirir as cooperativas de consumo. Muitas véres se tem escrito a histéria, sempre instrutiva, dos “Eqiiitativos Sapadores de Rochdale’. Foi no fim de 1848. Uma greve improdutiva, provocada por tremenda crise industrial, tinha ¢sgo- tado os recursos dos tabalhadores ingléses, que sofriam, mais do que nunca, as imposigdes da gandn- cia comercial, Reuniramse em Rochdale, perto de Manchester, 28 tecelées, associando-se para a compra de mercadorias em comum. As quotas fixadas foram Ga Chaves Clie, Les soins cocreaarves ne consumations, 1904, pun 1 2 ‘A. Bllable Ponncers of Rochdale, <7 insignificantes: um tostéo ou pouco mais por semana. Quando possufam, pouco mais ou menos, quivhentos mil-réis, alugaram pequeno armazém, onde coloraram alguns géneros de primeira neces- sidade para vendé-los aos associados, com pequeno Iucro ¢ a dinheiro a vista. Antes dessa cooperativa, outras se haviam fundado na Inglaterra; mas, como cbservam Gide ¢ Bancel, de cooperativas sé tinham © nome. Com razio se pode dizer dos “Sapadores de Rochdale” que foram os pais da cooperacio. H4 quem pretenda que éles se inspiraram nas idéias do socia- iiss Robert Cwen. Déste parecer € 0 eminente tra- tadista do cooperativisazo Hugo Rabbeno. (LA COOPE- RAZIONE II: INGHILTERRA, pag. 36). Kespona: Ihe, porém, com vantagem, 0 ndo menos erudito Ghino Valenti, da Universidade de Modena, mostranao que vai profunda diferenca entre o comunismo de Owen e as modernas cooperativas. Nao ints svistir analogia de formas; é preciso atender as fungGes de cada um: instituto. Facilmente se verificaré que estas sio diferen- tes. Verdade é que o funcionamento da cooperativa de Rochdale se patenteow’ cheio de originalidade e tem sido até agora imitado pelas mais présperas cooperativas de consumo. Antes dela, nas supostas cooperativas a que alu- dimos, os lucros cram totalmente divididos entre os acionistas, que nem sempre compravam no armazém da sociedadc, Charle Howarth e seus companheitos mo- WB Gh Vale Sneociasone coueeaarns, Modena, 192, pign 5 € Sb = 18 — dificaram profundamente 0 sistema, dando apenas 5% dos lucros aos acionistas € o resto dividindo entre os compradores, proporcionalmente ao valor das compras. % facil compreender que ésse sistema _mantém firme 0 consumidor e nio ha associado que nfo 0 queira ser. Em 1852, um {ato importante imprimiu enorme impulso @ cooperacio, na Inglaterra. Foi a lei que deu existéncia legal as cooperativas, até ento sem garantias € sem pérsonalidade civil. Para ésse resul- tado nfo contrihnin pouco o grande economista Stuart Mill. Oito anos depois, fundou-se a Unido Gooperativa, que reuniu todos os cooperadores ingléses. Em 1862 eriouse a Federagio de compras por atacado, ou Wholesale, em Manchester. Homens de grande valor intelectual ¢ moral. se associaram A idéia, ja vitoriosa. Citamse os nomes do advogado Leudlow, do pastor protestante Kingsley, dos publicistas Vansittart-Neale ¢ Helyoake sendo éste 0 autor da mais completa histéria do cooperativismo. ‘Trinta e seis anos depois da fundacio da coo- perativa de Rochdale, isto ¢, em 1880, 0 ntimero dos seus associados se elevava a 10.613, possuindo um ca- pital, em acées, no valor que um publicista francés fixa em 7.314.250 francos. Os lucros distribuidos tinham sido de 1.213.625 francos, tendose realizado negécios na importincia 7.091.975 francos, 0 que quer dizer que o lucro foi de 17% sobre o fundo social. ‘navi iad por benoit Malton soci tnreoral, wl, 2°, ph 2 = 119 = Na Inglaterra, propriamente dita, ¢ no Pais de Gales, existiam, em 1882, nada menos de 1.053. so- ciedades cooperativas, com 573.000 associados, yen- dendo 575 milhées de francos. Atualmente, segundo nos informa Bancel, a. sb cooperativa de Rochdale distribui por ano 1 milhio de lucro a seus aderentes! Em junho de 1903, por ‘ocasiéo do 35.° congresso das cooperativas. inglésas, verificouse que clas eram em numero de 1476 (dmente as de consumo), tendo 1.893.000 associados. Os negécios do ano anterior subiram a mais de um bilh’o de francos, sendo distribufdos lucros_no valor de duzentos © dezessete milhdes de francos.. Ha cooperativas, como a de Leeds, que se com- poem de 45.000 associados. Muitas delas reinem 20 € 25 mil. Observa, a propésito, Hubert Valleroux que, em geral, t6das essas poderosas agremiagdes_ principiaram modestamente. Recorda as origens da de Rochdale, que tem servido de modélo para tédas as outras. O pe- quenino armazém que em 1844 foi aberto pelos 28 ope- rérios, primeiros associados, em um beco escuro, trans- formou-se como por encanto. O jé citado Holyoake, na sua Histéria da Cooperacao, dizia, em 1880, que aquéle depésito era representado, entio, por 14 ou 15 armazéns especiais. Em 1903 0 era por 74... No depésito central, situado no mais belo lugar da cidade, encontram-se instalados cursos cientificos, escolas primérias, bibliotecas, telescdpios, etc. De. mais, por téda_a cidade se deparam bens iméveis pertencentes & Cooperativa, havendo ruas inteiras que se compoem de casas que ela mandou construir. 14 Direito Opera = 120 — A. acio. das cooperativas inglésas é centralizada fortificada na Wholesales, que sio agrupamentos de sociedades. A mais importante ¢ a de Manchester, a que j4 nos referimos. Foi fundada por Abraham Greenwood, presidente dos “Sapadores de Rochdale”, em 1864, Em 1880 tinha trés estabelecimentos princi- pais, destinados a produgio: em Lichester uma fAbrica de sapatos, produzindo anualmente 30.000 pares; em Crumpell uma fébrica de biscoitos e de bombons, aque estava anexa outra de sabonete; em Durham uma f4brica de sabio. Demais, sustentava um grande fentreposto de manteiga na Irlanda; mantinna um banco, onde havia depositados 6 milhées de libras. Em 1908, a Wholesale de Manchester reunia 1.106 associagées, com 1.392.000 membros. Seu capital se ele- vava a 87 milhdes de francos. ‘Aquele tempo, dizia Dufourmantelle, em uma conferéncia, realizada no MUSEU SOCIAL, de Paris: “& dificil conceber qualquer coisa mais grandio- samente enorme do que 0 Wholesale de Manchester.” ‘Atualmente ela tem outras fabricas de varios géne- ros, além das que citamos, entregandose a muitas cexploragdes industriais, até mesmo fora da Inglaterra, como se pode saber minuciosamente lendo a obra de Valleroux". Bancel di nfio menos minuciosas infor- magées e publica gravuras interessantissimas.* En- tre estas se destaca a de um navio, “Liberty”, pro- priedade da Wholesale de Manchester. Por vézes 0 comércio britinico tem querido abater a poderosa associacio: baldados tém sido seus esforgos. 47 14 Georeasmos, 1901, pigs 10-161 {8 Ue Corsaro, 190, pls 114118 =e ‘As cooperativas escocesas dependem, em geral, do Wholesale de Glascow, que, em 1903, ocupava em suas varias f4bricas ¢ oficinas, nada menos de 5.000 operarios. Em 1901 aderiram 4 Wholesale de Glascow 116 associagdes. Os produtos fabricados durante o ano foram no valor de 8.659.000 de francos. Cumpre dizer que mmuitas cooperativas inglésas no se abastecem nas fabricas das duas grandiosas Wholesales; tém suas oficinas prdprias. Atual- mente vai alm de 150 o ntimero das cooperativas que assim procedem. A mais importante dentre clas é a cooperativa de Leeds, que, junto aos seus armazéns de venda, fabrica roupas, escévas, calgado, méveis, etc. J& vimos que a cooperativa de Leeds (Industrial Society) retine perto de 50.000 associados. Seus negdcios montam a 28.000.000 de francos, dando 4.000.000 de lucro.# _ — Correspondentes, guardadas as devidas propor- es, aos bons resultados das cooperativas de consumo inglésas, so os das cooperativas belgas. Téda gente tem ouvido falar no Wooruit ¢ na Casa do Povo. Aquéle estd estabelecido na cidade de Gand; esta na de Bruxelas. Nessas duas cidades & cooperagio se tem desenvolvido gracas, principal- mente, & propaganda do partido operirio socialista e A cmulagio desperteda no scio do partido operdrio catélico. 49 em vf como fot feta, Paul Ler Ef ‘mae prfeta Paul Leroy Belle, quando, em 1882, 0 agg & He's Gurion Orvstane anuacsn 3 cela iro ka ene ri ats sper bis Direito Operdio 12 - Um dos apéstolos do cooperativismo,, 0 j& muito citado Charles Gide, concede primazia, nessa luta aben- coada, a0 partido socialista, que nao 36, como dizia ‘Anseele, faz do armazém cooperative “uma fortaleza para bombardear a sociedade capitalistica a tiros de batatas ¢ pies de quatro libras", como também um centro de revigoragéo moral e intelectual, de instru- cio e de recreagio. Referese 0 professor de Montpellier a famosa instituiggo denominada atualmente Wooruit (Para diante), que se fundou, em 1873, sob o titulo Vrije Bakkers (Padeiros livres). De 1881 datam seu novo titulo ¢ seu progresso, devido & brilhante iniciativa do referido Anseele e de outros socialistas como Van Beveren, Dewitte, Verbouwen ¢ Hurdeyns. ‘A. instituiggo possui padarias, mercearias, bote- quins (onde nio se vendem bebidas alcodlicas), carvoarias, sapatarias, oficinas de confeccées para os dois sexos, etc, Mantém um dispensirio, uma sala de conferéncias, um jornal e uma biblioteca. © Wooruit conseguin disciplinar seus associados a0 ponto de éles se sujeitarem ao pagamento adian- tado do pio que consomem. Efetivamente: todos os domingos, 0 empregados da instituigao vio as casas dos sécios perguntarThes quantas fichas querem; so as fichas a moeda com que se pagam as compras; 08 societérios adquirem, pois, as fichas equivalentes, aos quilos de po que desejam gastar; depois disso tddas as manhas, passa a carrocinha do Wooruit que Thes traz 0 pao, deixando tantos quilos quantas as Jichas recebidas. © operirio se subordina de bom grado a ésse sis- 1238 — tema, sabendo que tem direito aos luctos (ristourne), Bsses, porém, sio pagos também em fichas, com as quais se podem comprar os outros géneros do Wooruit. é Bem se percebe 0 que vai de pratico ¢ seguro nessa maneira de pagar os lucros: 0 cooperativista nao pode com élés abastecer-se em armazéns_ estranhos A associacao. ‘As condigées de entrada para 0 Wooruit so: ser operirio, contribuir com 25 centésimos para a caderneta e um franco de jéia, ser bem comportado ¢ pertencer a0 partido operdriosocialista. A prova dessa vltima condigio nem sempre ¢ rigorosamente exigida. Convém nao esquecer que ao Wooruit esta ligada uma sociedade de socorros miituos, que dé direito a tratamento médico, a fornecimento de remédios ¢ a um auxilio para entérro ou luto, De 1907 em diante serio pagas pensdes, mediante condigoes eqiita- ttivas. Em 1897, 0 Wooruit contava 6.911 associados. A receita total de 1896 foi de 2.000.000 de fran- 0s, entrando a da renda de pio, que foi de 800.000 francos! Em 1902 0 Wooruit vendia 100.000 pies por semana... Nao menos importante ¢ 0 movimento da Casa do Povo, de Bruxelas. Foi fundada essa instituicio em 1882, Vinte anos depois, isto & em 1902, vendia 200.000 francos por semana, tendo 20.000 freguéses associados! A Casa do Povo, esté atualmente instalada em um belo e gran- = 144 — dioso edificio. Nao mantém, todavia, estabelecimentos de muitos géneros, limitando'se a padarias, mercearias, agougues € botequins ‘As sucursais sio atualmente em nimero de 25 ocupando 400 empregados. Por téda a Bélgica encontramse Casas do Povo que sio, hoje, em mimero superior a duzentas. Em 1901, numa instrutiva conferéncia feita em Paris, 0 deputado belga Vandervelle mostrava o rapido progresso que tinha feito, entre outras, uma Casa do Povo de pequena cidade, vendendo, em um ano, 52,000 francos com lucro de 5.000. — Relativamente falando, o pais da Europa onde mais se tem espalhado ¢ desenvolvido as cooperativas de consumo é a Suica. Em 1901 tinham elas vendido géneros no valor de 47,000.00. de francos. No ano seguinte, conta- vam-se na Suica $53 associagbes cooperativas, com 181.000 sécios, Entre os grupos de associagées & mais digno de referéncia o de Bile, que reine 125. Tem por titulo Unido Suisa de Sociedades de Consumo. Essa instituigao exerce, pouco mais ou menos, o papel de um Wholesale. Como suas similares inglésas, a Unio vai, agora, procurando produzir, tendo j4 uma grande [Abrica de massas alimenticias. Realiza a Unido congressos anuais e envia a todos os recan- tos da Suica seus propagandistas mais entusiastas, que procuram, por meio de conferéncias, tornar sim- itico o sistema cooperative. Além désse método de propaganda, usa a Unido de uma publicagio quinzenal, da qual se imprimem 40.000 exemplares, e de uma semana) de 5.000 exemplares. = 185 — Outra federagio, ¢ a chamada Unido da Suica Oriental, que reine 124 associagoes."” ‘A Franca enveredou por caminho diferente. Desde 0s primeiros tempos, o sistema cooperative foi mais adaptado & producio do que ao consumo. Escritores franceses de orientagées diferentes, como o socialista Benoit Malon, o economista liberal Yves Guyot, o ju- tista Valleroux, 0$ cooperativistas Gide ¢ Bancel, re- conhecem a inferioridade da sua patria, no que diz respeito 4 cooperagio, quando comparada com a In- glaterra, Dése o mesmo fato que observamos em Telagio aos sindicatos operirios: o sistema, que ja funcionava perfeitamente na Inglaterra, quando transplantado para a Franca, 86 produziu resultados desanimadores, para nao dizer negativos. Na Franga se pretendeu estabelecer_prematura- mente 0 cooperativismo de producio. Ora, a expe- riéncia tem demonstrado que éle s6 pode vir a prosperar ¢ a firmarse striamente quando assenta fm uma vasta agremiagio de cooperativas de con- sumo. Fora disso, s6 uma forte organizagio sindical poderia tornar os operdrios de uma determinada classe bons cooperadores de produgio. ‘A explicacio & dbvia, Enquanto na cooperativa de consumo nio é exigivel a unidade de profissio, podendo se associar pessoas de varias classes € pro- fisses, movidas por um interésse comum; av contrério, para organizarse uma cooperativa de pro- ns ates» momar de Hes Yau [Caeser toot ies ES — 126 — ducio, é mister se coligarem tio-simente os operd- rios da mesma classe. Se, antes de pensarse em cooperativa, ja se tem solidificado e impésto um sindicato operério, é bom de dizerse que os companheitos estio maduros para a idéia ¢ capazes para a acio. Vimos, porém, como a organizagio sindical é fraca na Franca. agora, vamos ver como ali se principio pela coope- ragio produtiya e pouco se cuidou da distributiva, donde aquela podia derivar, com vantagem. Em 1881, um discfpulo de Saint-Simon, depois transformado em socialista cristio, Buches, procla- mou 0 princ{pio cooperative, como sendo 0 tinico que podia livrar 0 operariado da “preponderancia tira- nica do capital” No ano seguinte, foi fundada a Association des owvriers bijoutiers en doré. Até 1848 0 movimento cooperativista foi insignificante na Franga, mas, aquela época, com o irrompimento da revolugio, tornouse a Franga, como depois se disse, a “terra clissica da cooperagio de producio”. Fun- daramse umas 200 cooperativas, sem os necessérios recursos, A Assembléia Nacional pés 4 disposicao delas trés_milhdes de francos, mas essa quantia enorme foi considerada insuficiente. O regime reacionério, que derivou do golpe de Estado de 2 de dezembro, exerceu-se, também, contra as cooperativas, desabrocha- das ao sol republicano de 1848. Depois, sob a influéncia pessoal de Napoledo II, que sempre mostrou interessar-se pelas questécs. sociais, “iV, Beno Malon, Socaue Uepcant, pig. 26, Sb a deca inflnéoia de Becta, Rae Nabe Vaeroue bra ey pe 18 —17— pensouse na alta administragio em proteger as coope- rativas, dandothes existéncia legal definida. Reuniram-se os gerentes da maioria das associagdes € manifestaram sua desaprovacio a essa idéia. Queriam que se melhorasse a lei comum, no ponto aplic4vel & cooperacio, mas’ Ihes repugnaya uma legislacio es- pecial. O Govérno determinou que se ouvissem os inte- ressados € 0s competentes, Das observagées ¢ criticas de todos resultou limitarse 0 trabalho legislativo a um capitulo da lei sobre sociedades por acées. Foram as cooperativas, assim, consideradas “sociedades de ca- pital varidvel”. A lei é de 29 de julho de 1867. O titulo IIL (arts. 48 a 54) é que se refere is cooperativas, de- signadas como acima se vé.%* Sucedeu, porém, nio obstante a protecio oficial, ficar 0 movimento cooperativista parado desde 1868. Para isso contribuiu bastante a quebra do Credit du Travail, importante institui¢zo bancéria popular, que se fizera caixa ¢ centro propulsor do movimento. A ésse tempo, como dissemos, todos os entusiasmos eram pelas cooperativas de producao. Apenas sao citadas por Gide, como representando a cooperacio distributiva ou de consumo, 2 associagdes estabelecidas em Lyon (que era, aquela época, 0 centro do movimento), a Revén- dication, fundada em Puteaux, sob inspiracio e direcio de Benoit Malon, a Abeille Suresnoise, devido aos es- forgos de Clavel, e & sociedade da XVIII arrondissement de Paris. Em 1879 era desanimador 0 estado das coopera- St Ver s ovina dipasiis da Ie, comentaa por Fabregweten,Socerh, fr, Daont, vie £ Bie SH: Valerout obra iene th "Cles a cae plese 128 — tivas na Franga, quando, morrendo um antigo adepto, da cooperacio, aliés grande industrial ¢ capitalis's, Ben- jamin Rampal, deixou 1.400.000 francos & cidade de Paris, com a condicio de auxiliar as associagoes de con sumo, de producio, etc., Os pedidos de socorros foram jntimeros. Felizmente, pouco se gastou da avultada quantia — ¢ em pura perda.® De 1880 por diante recomecou a atividade coo- perativista, ¢ se veio expandindo por tal forma que, feis anos depois, estava assegurado, na Franca, @ Vitoria do cooperativismo, nao obstante as dissidéncias entre cooperadores e socialistas coletivistas. 'A situagio atual, merc do amortecimento dessas lamentaveis contendas, ¢ auspiciosa. Existiam, Ultima- mente, na Franca, 335 cooperativas de producio, das quais 182 em Paris, Essas associagSes reuniam, em 1903, 10.000 operdrios. Pelo lado das cooperativas de consumo, o niimero yeio, desde alguns anos, em aumento extraordindrio, tendo em consideragao que, na Franca, sb muito tarde se lies dedicou a devida atengio. Eram 938 em 1892. Dez anos depois se elevavam a 1.761. Das primeiras associagBes de consumo a mais im- tante é a Moissoneuse, de Paris. Em 1874, ao ser fundada, eram 82 0s associados; atualmente sio 18,000, fazendo a cooperativa oito mi- Ihdes de negécios, anualmente. ‘Nao tem contribuide pouco para o desenvolvi- mento da cooperagio na Franga a proteyao legal com que vai sendo beneficiada. As leis de 4 de junho de 1888 ¢ 29 de julho de 1893 permitiram 2s cooperativas Te Vaberous, oben ty wig: 39, — 129 — es A adjudicagio dos fornecimentos ¢ traba- Thos feitos por conta do Estado ¢ das comunas. Em varios orgamentos enc : rg ontram-se verbas des- tinadas 4 subvengao das cooperativas."* Por mais de uma vez, nestes siltimos vinte anos se tem querido legislar, na Franca, a respeito de coo- perativas. Chegou-se a votar, na Camara dos Deputa- dos, em 1894, um proj , um projeto de lei, logo ab: diante de imimeras reclamagics. Sunnie Juristas franceses, como Fal Be aaa eulnaal a We one” a, provam a lei especial. 6 : Adiante saberemos quai juridi gg aa Ja vimos como predominou na Inglaterra _a cooperagio de consumo e na Franca a cooperagio produtiva. Vamos ver os progressos feitos pela cooperacio de crédito na Alemanha. Téda gente tem ouvido falar em Schulze, natural de Delitzsch, pequena Jocalidade de Saxe, onde exercia as funcdes de juiz de paz. Foi éle 0 iniciador dos bancos populares, em 1850, tendo softido, por suas idéias, as agruras de um processo criminal. Hoje seu nome goza de fama universal ¢ 03 bancos populares constituem a gléria do cooperativismo alemio. Atualmente existem, na Alemanha, 12,000 cooperativas de crédito, entre urbanas ¢ rurais. Cumpre confessar que nao sao instituigées de cadier exclusivamente operdrio, nem se filiam tédas aos principios socialistas, pois muitas associam i i jam o operariado e 0 pequeno comércio, bem como SAV, Fabregueuen obra cit, pe. 500/512 = 130 — © lavrador € 0 pequeno proprictério rural. Ainda se deve a Schulze, conhecido por Schulze Delitzch, a orga- nizacio da Federagao das Sociedades Cooperativns Ale- mas, que foi iniciada em 1859, ¢ hoje transformada na Unido Geral de Berlim, Desta se separaram, em 1902, as cooperativas de consumo que tinham tendéncias ‘ocialisticas. Schulze escreveu, em colaboragio com © Dr. F. Schneider, um manual prdtico para orga- nizagio ¢ funcionamento das Sociedades Cooperativas, do qual possuimos a tradugio francesa, precedida @’ama carta de Benjamin Rampal, 0 mesmo que legou 1.400.000 francos & obra da cooperacao francesa. f realmente espantoso o desenvolvimento que tem tido na Alemanha 0 cooperativismo de crédito, nao 36 na forma criada por Schulze, como no sistema, contemporineo daquele, devido a Raffeisen. Fin 1900, por ocasiéo da Exposigio de Paris, verificowse, por um relatério de Cruger, que existiam, ali, 1.802 cooperativas de crédito urbano ¢ rural. Responderam ao boletim estatistico 862 do tipo Schulze ¢ pelas respostas se patenteou que reuniam 497.000 sécios, aos quais tinham, até 1898, aberto cré- @itos na importincia de 1.907 milhGes de marcos, sendo seu capital de cérca de 122 milhoe ‘A. propésito se encontram seguras informagbes na substanciosa monografia de Chino Valenti, — jd citada — (pags. 95-99). "As cooperativas, na Alemanha, foram striamente protegidas pela legislagio desde 4 de julho de 1868. ‘A primeira vantagem dessa lei — disse-o Schulze — foi conceder As novas associagbes personalidade juridica sob 0 ponto de vista comercial, podendo represen = 181 arse seus dit is i: tarse por seus dirctors, meliame seis no sx _ & preciso deixar patente que nao s6 oa de crédito se tem deserved na aeiatea: ea deparam muitas cooperativas de consumo, endo mais prdspera a de Breslau, com 85,000. ass0- ciados. Em Hamburgo existe uma unio de coo tivas:(espécie de. Wholesale. inglésa) que reunia, eo 1902, 188 associacées, tendo outras 484 a eguesas. No ano anterior, havia repartido entre stus associados 15 milhdes de marcos, representados mercadorias. ead A originalidade da cooperagio italiana i oa principalmente, pela reunido soliddria rhe Ihadores). que se associam para, sem pattoes, nem empriteios, realizar certo tabalbos de construcio, de viagla feet, de agricaltura, etc, Sio os chainagox No centro e no norte da Itdlia sio m Mi seacciscies. Een opbaviaemieleaeee, 43 dessas cooperativas; cinco anos depois, eram 250; amalmente passin de 300. Achille Loria, que no se manifesta apologista do cooperativismo (no obstante econhecer-Ihe os progressos), destaca 0s braccianti como 05 mais legitimos cooperativistas da sua patria. (I. Mo- ViMENTo Oreraro, 1903, pig. 269). ; ot provincias de Bolonha, Emilia, Mantua e Mo- se coligaram as associagdes de braccianti para © preco do trabalho e impuseram sua tabela una, evitando a depreciagio da mio-de-obra. Entre os Ve, pate on deta, 9 obra ci talk de Simoni, pigs 15 © seguinen tat — trabalhos mais importantes feitos pelos trabalhadores italianos, assim associados, destacam-se 0s dos esgdtos de Milio, onde ganharam 400.000 francos. Valenti reconhece que os braccianti desenvolve- sam por tal forma suas associagdes, que modificaram as condigées do trabalho em certas regides da Itdlia. (Obra cit., pigs. 143-144). Outra forma de cooperagio, que tem tido grande de- senyolvimento na Itélia, é a bancéria, nfo s6 do tipo Schulze, como do tipo Raiffeisen.” Os bancos populares so, ali, numeros{ssimos. Em 1870 eram 50. Em 1903 eram 800. So prin- cipais os de Pédua, Bolonha ¢ Roma. O mais impor- tante € 0 Banco Popular, de Milao, fundado em 1866 pelo conhecido economista-cooperativista Luigi Luzzati. Possui, atualmente, um capital de 10 milhdes de francos ¢ fundo de reserva de 5 milhies. Havia, as tiltimas datas, mais de 700 caixas ru- rais, na Itélia, tendo por apoio as caixas econdmicas. Sua federagio esti estabelecida em Padua. Valenti observa que dos paises europeus foi a Itélia 0 que mais se aproximou da Alemanha nos progressos. do crédito popular (obra cit, pag. 96). O mesmo escritor discorre longamente, mos- trando as vantagens dessa forma de cooperacio ¢ sua superioridade, quando comparada com o sistema ban- cério comum. Pelo que diz respeito a outras espécies, ¢ digna de nota a Unione Cooperativa, de Milao, fundada em Ge Railicuen, tmolo de schule, reideme cm Neuwed,,n0 Palatnado, cu 2 ne ge Homecem sr taennyimas necenurinn 2 — 138 — 1886, com capital de 1.712. Inspiraram-se sens iniciado- res nos estatutos dos Equitable Pioneers of Rochdale. Hoje pertencem a essa poderosa associagio 5.000 pessoas, dentre as quais 2.000 do sexo feminino, Seus negécios anuais sobem a cinco milhdes de francos — segundo Bancel. Ocupa a Unione o grandioso Palazzo Fiori, um dos mais suntuosos edificios de Milao. Fstudadas perfuntdriamente, quase as carreiras, as varias formas de cooperagao ¢ a realizacio pritica que tém tido em varios paises da Europa, ¢ tempo de firmar 0s caracteres distintivos do sistema ‘econdmico-cooperativistico, Parece-nos que ¢, sobremodo, interessante co- nhecer 0 funcionamento das cooperativas de con- sumo, pois sio as mais praticdveis € as que podem setvit de inicio ao movimento no Brasil. J& 0 sa- bemos: elas, em geral, se organizam pela associagao de proletirios que retinem pequenas quantias, até constituir o necessério para sortir um armazém, no qual todos os sécios se abastecem. _A primeira questio que se oferece a0 expirito critico é esta: os géneros e objetos sera0_vendidos pelo prego do custo ou pelo prego corrente no mercado a varejo? A primeira solucao foi adotada por poucas coope- tativas. Hoje, predomina a segunda, conforme a sibia liggo de Rochdale. Ocorre, em seguida, indagar: a cooperativa deve yender apenas aos associados ou também ao piblico = 14 em geral? As cooperativas que vendem pelo prego do custo naturalmente no podem vender ao piblico, ‘As outras, porém, geralmente o fazem. A experiéncia tem demonstrado que a venda ao ptiblico ¢ vantajosa; sendo, antes de tudo, um meio cficaz de propaganda.*™ © que & preciso é imitar, ainda nese ponto, o exemplo de Rochdale: fazer 0 publico participar dos lucros, distribuindo uma parte déles na proporcio das compras. Segundo o testemunho de Charles Gide, adotam, na sua maioria, o sistema de venda ao piblico as cooperativas da Inglaterra, da Bélgica, da Suica, da Espanha, da Ttdlia, da Holanda ¢ da Riissia. As associagdes francesas so geralmente contrérias a ésse sistema, Admitem, de preferéncia, uma classe de ade- rentes, que sio pessoas néo-associadas, mas que se afreguesam por meio de um pequeno direito de entrada ¢ séo contempladas na distribuicio dos lucros. Em parte, as associagdes francesas no vendem ao pi blico, porque a legislagio fiscal estabeleceu impésto mais pesado para as cooperativas que assim procedem. Pensa, por isso mesmo, o eminente professor de Montpellier que, uniformizado o impésto, as coopera- tivas francesas seguirdo o exemplo das outras, vendendo a0 pubblico em geral. Deve venderse a dinheiro, a vista ou a crédito? FF Vi Va, ba ce, wie: Valles, abr sty pig, 15: Giae, ob, Has 1849. 1 © bom senso ¢ a experiéncia indicam que a venda a dinheito de contado & mais produtiva para associagio e para o consumidor. Os mais abalisados cooperativistas mostram as Fazes dessa preferéncia.* No entanto, Bancel concorda em que hé situagées dificeis, que sancionam a venda fiado. Para evitar o falseamento do sistema, pode-se criar, como se féz na Revendication, de Puteaux, ao lado da cooperativa de consumo, uma caixa de empréstimos sem juros. Valenti aponta, Qutrossim suitas associagdes cooperativas que vendem a crédito, Até mesmo na Inglaterra, néo obstante a severidade dos mandamentos de Rochdale, e, em cen- tenas de cooperativas, admitindo 0 negregado sistema! Vamos a outra questio. A maneira de distribuigio de lucros est4 pouco mais ou menos uniformizada, especialmente entre as cooperativas que vendem ao piiblico ou a aderentes, no associados. Antes do sempre lembrado exemplo de Rochdale, era costume distribuir os lucros pelos sécios proporcionalmente as suas quotas sociais. Depois, adotouse o sistema, hoje geralmente usado, de distribuir 5 ou 10% dos lucros a0s asso- ciados e o restante aos consumidores em geral, na Proporcio das suas compras. J4 bem se vé que dessa distribuigio proporcional ao valor das compras também patticipam os compradores nao-sécios. evidente a vantagem désse sistema." pias Ye, V8 is. 90; Banc, nder 40-41; Valen, pen S144 Gide, 99 V. Gide, pign $6.99; Valeroue, niga 146-10; Valent plan 75 € seiner — 136 — Quanto & administragio das cooperativas de con- sumo, € confiada, na sua maioria, a um gerente, que sai, quase sempre, do operariado. As deliberagdes coletivas sio tomadas em assembléias, notandose que cada associado, qualquer que seja o mimero de suas acées ou quotas, s6 tem direito a um voto — ¢ essa é uma das originalidades da organizacio cooperativistica. ‘As vantagens ¢ os beneficios morais ¢ materiais, que advém das cooperativas de consumo, sao todos compendiados por Bancel, (pags. 34 a 82) € por Valenti (pags. 91 a 94). Tantos s40 € tio variados que dificil seria fazer uma resenha razodvel. Passemos a estudar a ti- tuagio juridica das cooperativas. wr © conhecido comercialista italiano Marghieri hos apresenta, no seu monumental Tratado (vol. 1, pigs. 249-250), as trés categorias de legislagdes a respeito das sociedades cooperativas. ‘A primeira pertence a inglésa, que considera a cooperativa como sociedade de responsabilidade li- mitada; & segunda pertence a germinica, que im- poe aos sécios responsabilidade ilimitada; na_ter- ceira se incluem as demais legislagdes, que per- mitem aos sécios assumirem livremente o grau de responsabilidade que Ihes aprouver. Sob 0 ponto de vista da denominacio se podem destacar dois tipos de legislagdes: de uma parte, temos a francesa, que nio fala propriamente em cooperativa, mas. sim em sociedade de capital varidvel (arts. 48 a 54, da lei — 137 de 29 de julho de 1867); de outro lado, temos as de- mais legislacdes, que empregam a expressko coope- rativas, designando uma forma econémica sui-ge- neris. Nese segundo grupo de leis, o,*eminente jurista distingue a da Bélgica, como sendo aquela ‘em que mais precisamente foi definida a cooperativa. De fato, pela legislacgo belga, se entende ser asso- ciagao ou sociedade cooperativa a que se compoe de sécios em mimero ilimitado, que entram com quotas varias, € cujas agdes no podem ser_transferidas a terceiros. Em alguns paises se tém decretado leis ‘especiais, referentes as cooperativas. Na Inglaterra, o primeiro bill as mesmas con- cernentes data de 30 de julho de 1852. Até 1862 apareceram outras leis regulamentando ¢ desen- volvendo a matéria da primeira. Afinal, a 7 de agosto de 1862, em um sé Ato foram todos reunidos. A lei belga a que nos referimos & de 21 de maio de 1873. Na Holanda se decretou lei especial em 1876. Na Austria em 1878. . Hi paises, como a Franca e a Itélia, em que nao h4 eis especiais a respeito das sociedades cooperativas. Na Franga j4 sabemos quais sto as disposigies ainda em vigor. Na Itdlia sio os arts. 219 ¢ 228 do Cédigo Comercial. é Ja se quis fazer lei especial, mas uma comissio composta de verdadeiras notabilidades, estudando o assunto, deu parecer contrério, propondo apenas algumas modificagdes ¢ acréscimos no Cédigo alu- dido. (Tit. IX, secao VII). Os mais notaveis comercialistas franceses ocupam-se detidamente com as _sociedades _cooperativas. — 188 — 5 clissicos Lyon-Caen ¢ Renault dedicam um trecho do seu Manual 4 demonstragio da seguinte tese: as sociedades de capital varidvel, cujo tipo carac teristico & a cooperativa, nao constituem espécie nova, diferente das demais sociedades civis € comerciais; sendo a variabilidade do capital uma espécie de mo- dalidade que se pode encontrar nas sociedades de forma civil, nas de nome coletivo, nas constituidas em comandita e nas andnimas. (Pig. 187). Boistel, nio menos avalizado mestre, no seu Curso de Direito Comercial, sob a epigrafe Sociedades de capital varidvel, comenta todos os artigos ja citados na lei de 1867 ¢ reconhece, também, que ela nfo criou um tipo névo de sociedade. (P4g. 240). Na pritica, tem-se yerificado a justeza dessas ¢ outras idénticis observagdes. No sew inicio, as. socie- dades Cooperativas francesas foram de trés tipos: ou de comandita, ou de nome coletivo, ou socieda- des civis. Depois de 1867 a maior parte das coopera- tivas se aproveitaram das disposigdes da lei nova e se modalizaram por ela. Cumpre, porém, observar que as cooperativas que vendem ao publico tém de ser, por forca, consideradas sociedades comerciais. A forma & que pode variar. Discutem ainda hoje os cooperativistas e outros escritores a respeito da forma preferivel. Charles Gide encara o assunto sob todos os pontos de vista. Conclui aconselhando a forma and- nima, tal como foi regulada pela lei de 1867 — ¢ da os motivos, que sio da mais alta relevincia” @ ci rs ety phe — 139 — ‘A mesma opinido parece ter Hubert Valleroux.** De quanto expendem autores franceses e italia. nos s6 as pode tirar, em verdade, uma conclusio irre- futivel, apoiando o pensar de Ghino Valenti: a coope- ragiio é um instituto econdmico e niio um instituto juri- dico. Nao menos precisamente jé dissera Gobbi que a cooperacio é uma forma de organizagzo econémica & qual nio se pode adaptar uma espécie exclusiva de contrato de sociedade; devendo o direito privado, sem garantias especiais, sem privilégios, garantir o livre desenvolvimento da cooperacio. De fato: como bem demonstrou Valenti, o legis- lador, quando presume regular as fungdes da coope- rativa, s6 consegue perturbar seu exercicio. © mais que se pode fazer é, como sucedeu na Alemanha, em 1889, legislar acérca da constituigo da sociedade ¢ da responsabilidade dos seus sdcios. — pois isso é de interésse puiblico, Em duas palavras: © ideal a realizar, por t6da parte, com vantagem das classes trabalhadoras, é a integragao do cooperativismo na legislagio comercial comum. a8 Para funcionar no Brasil uma cooperativa pode tomar a forma de sociedade civil ou comercial, No pri- meiro caso regerse-d pelas leis comuns que regem as sociedades civis ¢ poder adquirir personalidade jurt- dica, sujeitandose as formalidades prescritas pela lei n© 173, de 10 de setembro de 1893. Se tomar forma comercial, a preferivel é a andni- ma, podendo estabelecer-se a variabilidade do capital ¢ 0 GE Oba dt, pie. 188 15. Dirsito Operéio = id= aumento do niimero de sécios por meio de deliberagao de assembléias gerais, de acérdo com as prescrigées do decreto n.° 434, de 4 de julho de 1891, que consolidow as disposigdes referentes as sociedades andnimas. O que caracteriza uma companhia ou sociedade andnima ¢ ter seu capital dividido em agdes, ser limitada a responsa- bilidade dos sécios as quotas ou valor das ages que subscreverem e ser necessério 0 concurso, pelo menos, de sete pessoas para se organizar a sociedade (art. 1.9 do decreto n.° 434), E necessirio pedir autorizagio a0 govérno quando a associagio tiver por fim 0 comércio ou fornecimento de géneros ou substancias alimentares. Foi nessa conformidade que, em 1895, O Sr. Roberto J. Kisman Benjamim, nome bem simpitico as classes operdrias, requereu ao govérno do Dr. Prudente de Moraes autoriza¢io para organizar a Sociedade Coope- rativa Nacional, que lhe foi concedida pelo decreto n.° 2.214, de 9 de janeiro de 1896. Segundo se vé dos estatutos aprovados pelo go- vémno, a associagio era de consumo, de produgio ¢ de crédito, pretendendo abrir armazéns de mercearia, acougues, padarias, farmécias, etc, bem como fabricar carvio, drogas ¢ roupas, ter campos de criacio, fundar caixas econémicas. O capital seria de mil contos, divi- didos em 50.000 agdes de 20$ cada uma, podendo ser aumentado por decisio de assembléia geral dos acio- nistas, ordinaria ou extraordinaria. O pagamento das entradas das agdes_realizarse-ia pela maneira se- guinte: 2§ no ato da assinatura e o resto por entradas semanais de igual quantia, Nao nos consta que tivesse se instalado essa asso- ciagio cooperativa. Antes, conforme j4 lembramos, =m = tinha havido uma pretensa cooperativa, ligada a um nao menos suspeito Banco Operirio, nascido da febre bolsista de 1890 ¢ levado na torrente das quebras e dis- solugdes que bem cedo liquidou tédas as fantasias daquela época. Entretanto, j4 aqui, como em varios paises, se havia estabelecido 0 reprovado sistema de protecio fiscal em favor das cooperativas, isentando de direitos de importagio os objetos que clas fizesem vir do estrangeiro. Nio acreditamos que a maioria de associagSes ope- rarias (que ainda nem sao esbogos de sindicatos profis- sionais) possa tentar, com vantagem, a fundacao de cooperativas, entre nés. Hi, todavia, outras associagdes de socorros mituos, como, entre outras, a da Estrada de Ferro, a Caixa Telegrafica e a da Imprensa Na- cional, que poderiam experimentar o sistema. ‘Dos operrios foram os sapateiros que melhores ele- ‘mentos reuniram, hé pouco tempo, para a organizagio de um sindicato profissional, de onde poderia sair uma cooperativa de produc Parece que aquéle radiante entusiasmo passou, sem deixar fruto duradouro. Da luta ingente sustentada contra os patrées nao resultou o que mais poderia levantar a classe, evitando situacdes desastradas ¢ emprégo de meios extremos. Vimos, todavia, como a greve pode ser um incita- mento para a cooperacio: outra nao foi a origem da imiciativa de Kochdale, de que derivou todo 0 movi- mento cooperativistico moderno. PROJETO DE LEI Quando j4 estavam entregues A imprensa os ori- ginais déste trabalho, foi apresentado a Camara dos Deputados pelo ilustre homem de letras, Medeiros Albuquerque, um projeto de Ici relativo aos acidentes no trabalho. Folgamos em ter visto apoiadas no discurso, com que mostrou os fundamentos da lei proposta, as idéias que haviamos desenvolvido. Dando, neste opiisculo, publicidade ao projeto, prestamos a devida homenagem a quem tao desinte- Tessadamente esposou a causa dos trabalhadores, fi mandoa nas modernas teorias do Direito Operdri PROJETO NN. 169-1904 Dispie sobre os acidentes ocorridos a operdrios no exercicio de suas profissoes e a respectiva indenizagdo © Gongresso Nacional decreta: Art. 12 Quando um operdrio, ocupado em algum dos servigos enumerados no art. 42, vitima de um acidente que reduuz, a titulo permanente ou temporario, a sua capacidade de trabalho, tem, dentro dos limites marcados por esta lei, direito 4 indenizagio, contra as conseqiténcias da perda que sofre na sua capacidade de trabalho, contanto que o acidente tenha sido 2a causado ou pelo trabalho ou pelas condigées em que éle tem lugar, ou ainda pelos meios de exploracio usados. Art. 29 Como operirio, no sentido em.que esta designa- io € usada na presente lei, entendese qualquer pessoa que serve nas exploragoes industriais de que trata 9 art. 4.°, quer ‘mediante salirio, quer por empreitada, quer sem remuneraglo, como ajudante ou aprendiz, quer ainda como encarregado de uma fiscalizagio ou direcio técnica, se, tratandose desta liltima hipétese, 0 seu ganho mensal nfo excede de 255000. ‘Art. $9 A lei aplicase 20s empresdrios seguintes: 10) 08 individuos ou sociedades que tenham respansabilidade de qualquer das exploragées mencionadas no art. 4; +) 08 individuos ou sociedades que empregam para qualquer servigo méquinas movidas, quer a vapor, quer a eletricidade, quer por meio de gés, agua, vento ou animais, ou empreguem diretamente as referidas méquinas, com seus anexos: polias, ‘eixos, correias, cordas, condutos de qualquer espécie, ou deri- vvages € transmissdes de orga motria 6) @ Unifio, os Estados ou as Municipalidades, quando este- jam em qualquer das hipéteses acima mencionadas. Art. 4° As exploragées visadas por esta lei abrangem 0 trabalho industrial sob tédas as suas formas € mais: @) a exploragio de pedreiras ¢ caieiras, de fornos de cal, de telha e preparo de pedras © da excavagio de pocos; b) os trabalhos de construgées incluindo a execugio, 0 acabamento, a transformagio, a reparagio, a modificagio © a demoligio dos edificios, excecio feita dos trabalhos executados no interior dos prédios, sem auxilio de andaimes, ©) as construgdes mavais; d) a construgio assentamento de estradas de ferro, linhas de bondes, pontes, estradas, diques, canais ¢ comportas, assim como tédas as construgées hidréulicas, os trabalhios de exca- — 147 - vvagdes, aterros, drenagens, instalagdes de esgotos, encana- mento de agua, gés ¢ cletricidade; 0 estabelecimento, con- servagio € supressio de condutores telegriticos, telef6- nicos, elétricos, assim como para-raios; ¢) a exploragio de caminhos de ferro, bondes, diligéncias ou automévei f) a carga ou descarga de mercadorias; 8) © trabalho dos mergulhadores; Wi) thda a exploragio, em que se empregam mAquinas ou aparelhos que nao sejam movidos pelo homem; 4) 0 servigo das costureiras, quando trabalham em oficinas; J) 0 servigo de minas ¢ salinas; 4) 0 pessoal assalariado dos teatros; 2) tOda industria ow trabalhos andlogos aos compreendidos ‘na enumeragio precedente. Art. 5. Os operdrios tém direito & indenizacio de que trata o art, 1.° nos térmos das disposigées seguintes: @) se 0 acidente produzir uma incapacidade temporaria de servigo, 0 patrdo abonard a vitima, destle 9 dia do acidente, metade do seu jornal. Se a incapacidade durar mais de um ano, considerarse permanente; >) se 0 acidente produzir uma incapacidade permanente absoluta para todo trabalho, o patrio devera abonar & vitima uma indenizagio igual ao saldrio de dois anos; ©) quando a incapacidade, embora absoluta para 0 género de trabalho a que o operirio se dedicava, permitir que fle se dedique a outra espécie de servigo, 0 patrio pagarihea apenas dezoito meses de indenizacio, ou, se o quiser empre- ar com remuneragio igual A que tinha, no trabalho para que esté apto, somente um ano. Pardgrafo tinico. Até que se verifique se a incapacidade € permanente, nos térmos das letras b ou ¢ € que © patrdo, = 148 — nesses casos, tenha pago a indenizagio devida, éle esté na obrigagio de fornecer 20 operirio a assisténcia médica € far- macdutica. Art. 6.9 Quando o acidente produzir a morte do operirio, © patréo fica obrigado a pagar tédas as despesas do enterro, nao excedendo estas de cem mil-éis (100$000) ¢ a indenizar a vitiva, descendentes menores de 16 anos € ascendentes, pela forma estabelecida nas disposicdes seguintes: 4) com uma soma igual ao salirio de dois anos, se éle deixar vitiva, filhos ou netos érfGos, que se achassem a seu cuidado; 4) com uma soma igual ao salério de dezoito meses, se 86 deixar filhos ou netos; 6) com um ano de salirio se 96 deixar viva sem filhos. sem outros descendentes. d) com dex meses de salério, se, nfo deixando nem vitva, nem descendentes, tivesse a seu cargo ascendentes maiores de sessenta anos. Pardgrafo tinico. As indenizagies marcadas nos arts. 5.° € 69 serfo elevados 20 d6bro, sempre que se provar que os patrées no tinham nas suas fabricas os aparelhos proteto- res de que trata o artigo seguinte, Art. 78 © Ministério da Industria e Viagio constituiré uma junta técnica, que indicard quais os aparelhos de pro tecéo indispensiveis em cada género de indistria Art, 8° O proprietério dos estabelecimentos ou emprésas industriais de que trata esta lei pode substituir as indeni- rages de que fala 9 ail G2 sempre que avegurar aos her- deiros pensées vitalicias, nas seguintes proporcées: 44) nos casos das letras a ¢ b, de wma soma igual a 40% do sakério da vitima; — 149 — 16) nos casos da letra ¢, de uma soma igual 2 20%; c) nos casos da letra d, de uma soma igual a 10% a cada um dos ascendentes pobres, ndo excedendo éles de trés, casos em que caberia a todos, repartidamente, 30%, Pardgrafo tmico. A pensio dos filhos e netos cessaré logo que éles cheguem a maioridade, Art. 9° Para 0 cdlculo das indenizagies estabelecidas por esta Jei, entendese por salirio 0 que efetivamente receba o operitio, contando o més normal com 26 dias titeis. © salério minimo didrio munca se consideraré inferior a 19500, mesmo tratandose de aprendizes que niio percebam remuneragao alguma ou de operirios que recebam menos do que aquela quantia. Art, 10. £ licito aos responséveis pelas prescrigies desta lei substituir as suas obrigacées, estipuladas nos arts. 6.2, 6° € 8. por obrigacées idénticas assumidas por companhias de segu- 10s, aprovadas ¢ fiscalizadas pelo Govérno Federal. Art. 11. As dividas para com 0s operdrios ou seus herdeiros, em virtude do disposto nos arts. 5:, 6° € 89, preferem a quais- quer outras, sejam quais forem os titulos que as garantam. Art. 12. £ inteiramente nula ¢ destitulda de valor qual- quer remincia total ou parcial aos beneficios desta lei e, em geral, qualquer acdrdo contra as suas disposigdes. Art. 18, No féro do Distrito Federal ¢ perante a Justica da Unifio, sempre que a ela seja caso de recorrer, os papéis, documentos de qualquer natureza e formalidades processuais esto inteiramente isentos de sélo e custas, tanto para os operdrios, como para seus herdeiros. Art. 14. # passivel da multa de um conto de réis (1:0005), ‘cada vez que for encontrado em falta, todo diretor de fébrica ou estabelecimento industrial de qualquer natureza, onde no