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Decisão da 1ª Instância

Comarca de Sobradinho
2ª Vara Judicial
Av. João Antônio, 537
134/1.15.0000519-4 (CNJ:.0000836-
Processo nº:
75.2015.8.21.0134)
Natureza: Indenizatória
Autor: Sucessão de Romildo Jose Rech
Cooperativa de Eletrificação Centro Jacui
Ltda- Celetro
Réu:
AES SUL Distribuidora Gaúcha de
Energia Elétrica S/A
Juiz Prolator:
Data: 16/04/2019

Vistos.

SUCESSÃO DE ROMILDO JOSE RECH, qualificado na inicial,


propôs AÇÃO DE INDENIZAÇÃO contra AES-SUL DISTRIBUIDORA GAÚCHA DE
ENERGIA ELÉTRICA S.A. e CELETRO - COOPERATIVA DE ELETRIFICAÇÃO
CENTRO JACUI LTDA, igualmente identificadas, narrando que é agricultor e plantador
de fumo de estufa. Referiu que no período 20 a 23 de dezembro de 2014, durante a fase de
secagem das folhas, processo realizado em estufa elétrica, houve a queda de energia por
tempo prolongado, resultando no escurecimento das folhas e consequente perda de qualidade.
Discorreu acerca do direito aplicável ao caso. Ao final, requereu as condenações das
demandadas ao pagamento dos prejuízos decorrentes da falta de energia elétrica. Postulou
ainda a concessão do benefício da assistência judiciária gratuita. Juntou documentos.
Foi deferida a assistência judiciária gratuita.
Citada, a CELETRO contestou. Discorreu acerca da natureza jurídica da
Celetro, dizendo que a parte autora também é “dono” da Cooperativa na condição de
associado. No mérito, disse que não produz a energia elétrica que entrega a seus associados,
mas possui pontos de suprimento junto às redes da Concessionária AES Sul, que se
denominam medições de fronteira, de modo que a ré é cliente da referida concessionária.
Asseverou que quanto ao evento ocorrido em dezembro/2014, a interrupção do fornecimento
de energia ocorreu em razão de um intenso temporal na região. Suscitou excludente de
responsabilidade civil, em razão de força maior e fato fortuito, consistente em um vendaval.
Alegou culpa exclusiva da vítima, a qual poderia ter provido métodos alternativos para
manter contínuo o seu processo produtivo na atividade de transformação de matéria-prima.
Referiu que em nada contribuiu, seja por ação ou omissão, bem como por ato ilícito, pois
decorrente de fato fortuito e força maior, tendo agido dentro de suas possibilidades, exigindo
da Concessionária o restabelecimento do suprimento da energia dentro de prazo razoável. Ao
final, requereu a improcedência dos pedidos da parte autora, caso não acolhida a preliminar
de ilegitimidade passiva.
Citada, a AES SUL apresentou contestação. Alegou inépcia da
denunciação da lide, por não ter sido individualizado em que pontos de entrega de energia da
Celetro estaria ligado, o que acarreta cerceamento de defesa. Argumentou que o fornecimento
de energia elétrica à unidade consumidora da parte autora, assim como de milhares de pessoas
do RS, abastecidas pela rede de distribuição das três concessionarias, sofreram várias
interrupções no período mencionado na inicial, em razão dos eventos climáticos que foram
muito significativos. Discorreu acerca da inexistência do dever de indenizar e da adequação
da prestação do serviço público. Defendeu não ser caso de responsabilidade civil
extracontratual e que deve ser excluído o nexo de causalidade por culpa exclusiva da vítima,
alegando que a parte autora não dispunha de gerador ou qualquer outro meio alternativo para
a utilização da estufa, assumindo os riscos do negócio. Arguiu que não houve comprovação
dos danos materiais suportados pela parte autora e que não é caso de aplicação das normas
do CDC, pois a relação entre as partes é negocial e não de consumo. Por fim, requereu a
improcedência dos pedidos do autor.
Houve réplica.
Em audiência de instrução e julgamento, procedeu-se com a oitiva das
testemunhas.
Aportou aos autos a resposta da empresa fumageira.
Vieram os autos conclusos para sentença.
É o relatório.
Decido.
- Da preliminar:
Alegou a requerida CELETRO ser parte ilegítima no feito, por ausência
de conduta comissiva ou omissiva sobre eventuais danos oriundos da interrupção da energia
elétrica, que seriam de responsabilidade da AES SUL. Disse que não produz a energia elétrica
que entrega a seus associados, mas possui pontos de suprimento junto às redes da
Concessionária AES Sul, que se denominam medições de fronteira, de modo que é cliente da
referida concessionária.
Não obstante as alegações da demandada, rejeito a preliminar,
considerando que a parte autora mantém contrato de distribuição de energia elétrica com a
ré, a qual mantém contrato com a AES SUL, possuindo o dever de zelar pela regularidade
dos serviços.
Nesse sentido, é o entendimento jurisprudencial:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. CORTE DO
FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA. 1.
PRELIMINARES. 1.1. DESNECESSIDADE DE DECLARAR A
NULIDADE DO DEPOIMENTO PRESTADO AO JUÍZO
DEPRECADO, MESMO SEM INTIMAÇAO DAS PARTES, VISTO
QUE OS DEMAIS ELEMENTOS DOS AUTOS SÃO SUFICIENTES
À SOLUÇÃO DO LITÍGIO. 1.2. LEGITIMIDADE PASSIVA DA RÉ
CELETRO. DEVER DE ZELAR PELA REGULARIDADE DOS
SERVIÇOS, VISTO QUE MANTÉM CONTRATO DE
FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA COM A AES SUL
1.3. INÉPCIA DA DENUNCIAÇÃO DA LIDE AFASTADA. ALÉM DE
NÃO HAVER IMPRECISÃO NO PEDIDO INICIAL, OS MOTIVOS
QUE ENSEJARAM A DENUNCIAÇÃO ESTÃO PRESENTES E
CLAROS IN CASU, MORMENTE A SE CONSIDERAR QUE AMBAS
AS RÉS POSSUEM CONTRATO DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA
ELÉTRICA. 2. MÉRITO. INTERRUPÇÃO DO FORNECIMENTO DE
ENERGIA ELÉTRICA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. ART. 37,
§6º, DA CF. DANO MATERIAL COMPROVADO. MORTE DE MAIS
DE MIL AVES MATRIZES DO AVIÁRIO. DANO MORAL
MANTIDO. QUANTUM INALTERADO. HONORÁRIOS
ADVOCATÍCIOS MANTIDOS. PRELIMINARES AFASTADAS.
RECURSOS DESPROVIDOS. (Apelação Cível Nº 70070976394, Sexta
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Elisa Carpim Corrêa,
Julgado em 27/10/2016).
Apelação Cível. Corte do Fornecimento de Energia. Demora no
Restabelecimento.Teoria da Responsabilidade Objetiva. Prestadora de
serviço público de fornecimento de energia elétrica. Aplicação do
disposto no art. 37, §6º, da CF/88. Fato do serviço, exteriorizado através
do defeito no fornecimento de energia elétrica, e não restabelecido de
forma competente - prazo máximo de 4horas, conforme previsto no artigo
176, §1º, da Resolução 414/2010 da ANEEL. Preliminares Desacolhidas.
1. Inépcia da Petição Inicial. Não assiste razão ao pedido da parte apelada
de inépcia da inicial, tendo em vista que não houve imprecisão do pedido.
A inépcia da inicial somente dever ser proclamada se realmente não
existir, ou não puder ser verificado, o direito que busca o autor. No caso
de não se viabilizar a defesa do réu, por impossível a aferição do objeto
da lide, o que não é o caso, restando claro o provimento pretendido pela
parte autora. 2. Cerceamento de Defesa. Da mesma forma em relação ao
cerceamento de defesa, não havendo que se falar em relação ao princípio
do Contraditório, sendo irrelevante o fato de que o autor não
individualizou em que pontos de entrega de energia da CEELETRO
estaria ligado, uma vez que o fato da interrupção do fornecimento de
energia elétrica resta incontroverso nos autos. 3. Ilegitimidade Passiva.
Descabe tais alegações, uma vez que conforme mencionado no item
anterior a própria Cooperativa revela que a localidade pertence a
área de atuação da requerida. Além disso, conforme bem coloca o
juiz singular "a AES SUL mantém com a CELETRO contrato de
fornecimento de energia elétrica, que por sua vez mantém contrato
de distribuição com seus cooperativados, assim, ambas as requeridas
possuem o dever contratual de zelar pela regularidade dos serviços,
responsabilizando-se de forma objetiva e solidária por quaisquer
danos aos usuários resultantes da má distribuição de energia. Com
essa fundamentação, mantenho indiscutivelmente a sentença no
ponto, afastando a preliminar. Dano Material. No que tange aos danos
materiais essa Câmara entende que estes prejuízos devem ser
comprovados nos autos para que se possa efetivamente fazer jus ao
ressarcimento do prejuízo. Por conseguinte, à respeito do dano material
e dos prejuízos ora sofridos pela interrupção do fornecimento de energia,
tenho que comprovado nos autos o montante de R$ 7.000,00, a que faz
jus a parte autora o devido ressarcimento, sendo, portanto, reformada a
sentença no ponto, no que tange ao quantum indenizatório. Dano Moral.
Pessoa Jurídica. Inocorrência. É inegável que a pessoa jurídica possa
sofrer ofensa ao seu bom nome, fama, prestígio ou reputação, ou seja,
pode ter sua honra objetiva ofendida, contudo, necessária a demonstração
nos autos, não sendo possível a classificação do dano como in re ipsa, o
que não ocorreu no presente caso, uma vez que não há qualquer prova
nos autos que evidencie ofensa à honra objetiva do demandante. RE
DERAM PARCIAL PROVIMENTO AOS APELOS, UNÂNIME.
(Apelação Cível Nº 70066818998, Sexta Câmara Cível, Tribunal de
Justiça do RS, Relator: Luís Augusto Coelho Braga, Julgado em
25/08/2016). - grifei.

Afastada a preliminar, passo ao exame do mérito.


Pretende a parte autora o ressarcimento dos prejuízos arcados pela perda
da produção de fumo, que teria sido ocasionada pela interrupção de energia elétrica.
Da aplicação do Código de Defesa do Consumidor:
O entendimento do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
é de aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor nos casos como o ora em análise,
considerando a hipossuficiência do pequeno produtor rural em face das empresas
fornecedoras de energia elétrica.
Neste sentido:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. FALHA NO
FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA. DANOS MATERIAIS.
CONCESSIONÁRIA DE ENERGIA ELÉTRICA.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA. CÓDIGO DE DEFESA DO
CONSUMIDOR. TEMPORAL. PREJUÍZO NA EXPLORAÇÃO DA
PRODUÇÃO DE LEITE. PERDA DA QUALIDADE DO PRODUTO.
1. A responsabilidade civil da demandada é objetiva, nos termos do art.
14 do CDC, somente isentando-se da responsabilidade quando
comprovada qualquer das excludentes constantes do §3º do artigo
supracitado, ou seja, a existência de culpa exclusiva da vítima ou
inexistência de defeito sobre o serviço prestado. 2. Aplicabilidade do
Código de Defesa do Consumidor ao pequeno produtor rural que, ainda
que não destinatário final do produto ou serviço, encontra-se em situação
de vulnerabilidade frente ao fornecedor. Mitigação da teoria finalista.
Precedentes do STJ. 3. Havendo demonstração nos autos de que a parte
autora sofreu prejuízos com a interrupção de energia elétrica em sua
propriedade, nos termos do laudo que constatou e quantificou tal
prejuízo, deve ser mantida a condenação. 4. Honorários recursais, nos
termos do art. 85, § 11, do NCPC. APELAÇÃO DESPROVIDA.
(Apelação Cível Nº 70071576342, Quinta Câmara Cível, Tribunal de
Justiça do RS, Relator: Isabel Dias Almeida, Julgado em 19/12/2016)

Assim, entendo que deve ser aplicado ao caso o Código de Defesa do


Consumidor, em consonância com o princípio da carga dinâmica da prova, segundo o qual
aquele que possui as melhores condições para comprovar determinado fato torna-se
responsável pela produção da prova.
Com isso o que quer se dizer é que o ônus da prova não é invertido em
desfavor das requeridas, mas é delas o dever de comprovarem os fatos que possuir melhores
condições de esclarecer.
Superada essa premissa, passo ao exame dos fatos.
A parte autora ampara sua pretensão reparatória na interrupção do
fornecimento dos serviços de energia elétrica durante os períodos de 20 a 23 de dezembro de
2014. As falhas ocasionaram a perda na qualidade de fumo, que se encontrava em processo
de cura em estufa, diminuindo-lhe, assim, o valor econômico. A CELETRO referiu que
quanto ao evento ocorrido em dezembro/2014, as interrupções com maior período de tempo
contínuo se deram por fatores de responsabilidade exclusiva da AES Sul, ocasionando a
interrupção do suprimento à Cooperativa, que por sua vez, restou impossibilitada de repassar
a energia elétrica aos seus associados, dentre eles a parte autora. A AES SUL, por sua vez,
argumentou que o fornecimento de energia elétrica à unidade consumidora do autor, assim
como de milhares de pessoas do RS, abastecidas pela rede de distribuição das três
concessionarias, sofreram várias interrupções no período, em razão dos eventos climáticos
que foram muito significativos.
A razão está com as rés. Há que se ter muita cautela no acolhimento de
pedidos de ressarcimento na hipótese de falta de energia elétrica, mormente por terem se
tornado corriqueiros na região. Ocorre que, por mais investimentos que se faça na rede de
transmissão, as concessionárias não conseguirão evitar que eventos climáticos mais severos
venham a ocasionar interrupções nos serviços que prestam e a generalização de indenizações,
nesses casos, transferirá os recursos que seriam aplicados na melhoria do sistema para o
pagamento das mesmas, em prejuízo aos próprios consumidores, a menos que se aceite uma
elevação constante da tarifa dos serviços.
Da análise dos autos, tenho que as demandadas lograram êxito ao
comprovarem que as interrupções no fornecimento de energia elétrica ocorridas entre o
período citado se deram por conta de violentas chuvas torrenciais e intensas rajadas de vento
ocorridas no estado à época do fato.
O relatório meteorológico e as reportagens e fotos acostados às fls. 99-
109 e 179-223 confirmam, efetivamente, a grande dimensão do evento natural verificado no
período.
A par disso, as reportagens juntadas pela parte autora (fls. 13-14),
extraídas do sítio da rede mundial de computadores e publicada por rádio local (Rádio
Sobradinho), dão conta da grande extensão dos danos ocorridos nas redes de distribuição,
ocasionados por temporais. Referem ditos documentos a extensão dos danos na cidade de
Arroio do Tigre, Ibarama, Segredo, Lagoão, Lagoa Bonita do Sul, Passa Sete e Sobradinho.
Em toda região foram constatados protestos em razão da falta de
fornecimento de energia elétrica por longo período de tempo.
Assim, de conhecimento público, inclusive em função das reportagens
referidas, a ocorrência de fenômeno climático de grandes proporções e que atingiu muitas
localidades do Estado do Rio Grande do Sul, o que não pode ser desconsiderado por este
juízo no julgamento da presente demanda.
Evidente, então, que o temporal em questão representou fenômeno de
caráter excepcional e causador de grandes estragos. Tampouco se pode cogitar de negligência
por parte da concessionária, pois a extensão dos danos e a dificuldade de locomoção em
virtude da queda de árvores e da própria estrutura da rede elétrica dificultaram a
movimentação das equipes destacadas pela concessionária.
Demais disso, o cenário retratado demonstra que o período em que
inequivocamente a parte autora ficou sem a prestação do serviço, demonstra-se proporcional
à gravidade do evento ocorrido.
Aliás, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul já possui
inúmeros julgados se manifestando sobre o evento natural ocorrido na época, classificando a
falta de energia como decorrência de caso fortuito em várias regiões do Estado:

APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE


INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. INTERRUPÇÃO DO
FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA. DEMORA NO
RESTABELECIMENTO. NÃO OCORRÊNCIA. SERVIÇO
RELIGADO EM PRAZO RAZOÁVEL. CONFIGURAÇÃO DE
FORÇA MAIOR. FORTE TEMPORAL OCORRIDO NO ESTADO
EM DEZEMBRO DE 2014. EVIDENCIADA CAUSA EXCLUDENTE
DE RESPONSABILIDADE. 1. As pessoas jurídicas de direito privado
que prestem serviço público estão sujeitas ao regime de responsabilidade
objetiva estatuído no artigo 37, § 6º, da Constituição da República. Tal
espécie de responsabilidade, todavia, embora dispense a demonstração de
culpa para sua configuração, reclama a presença de ação ou omissão
ilícita que mantenha nexo de causalidade com o dano afirmado pela parte.
2. Caso concreto em que o liame causal, no entanto, restou rompido por
ocorrência de força maior consubstanciada em temporal intenso, de
grande proporção, que assolou as cidades da região metropolitana,
inclusive o município de Alvorada, onde reside o autor. 3. Fenômeno
meteorológico, de caráter excepcional, que causou grandes estragos na
região em que domiciliado o consumidor, com quedas de árvores,
desabamento de estruturas e danificações de redes elétricas.
Circunstâncias fáticas que permitem concluir pela ausência de defeito na
prestação do serviço público concedido à pessoa jurídica demandada.
Interrupção do fornecimento de energia que, segundo a prova dos autos,
resultou de evento extraordinário e inevitável, originado de forças da
natureza. Assim, não pode a demandada ser responsabilizada civilmente
na espécie, à míngua de nexo causal entre a sua conduta e o prejuízo
alegado na petição inicial. 4. Lapso de tempo para o restabelecimento
da energia na unidade consumidora com numero de medidor 04166186
que, considerada a excepcionalidade do caso concreto, não desbordou dos
limites do razoável. APELAÇÃO DESPROVIDA. (Apelação Cível Nº
70073246985, Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Carlos Eduardo Richinitti, Julgado em 24/05/2017)

APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA.


TEMPORAL. REGIÃO METROPOLITANA DE PORTO ALEGRE.
DEZEMBRO DE 2014. SUSPENSÃO NO FORNECIMENTO DE
ENERGIA ELÉTRICA. FORÇA MAIOR CARACTERIZADA.
ROMPIMENTO DO NEXO CAUSAL. DANO MORAL NÃO
CONFIGURADO. A concessionária de serviço público fornecedora de
energia elétrica responde pelos prejuízos causados aos consumidores, por
defeito na prestação do serviço, de forma objetiva de acordo com o art.
37, § 6º, da Constituição Federal. Hipótese dos autos, no entanto, em que
configurada a excludente de responsabilidade. Força maior. Excesso de
chuvas em proporções fora dos padrões normais de previsibilidade e
inevitabilidade acarreta o rompimento no nexo causal, pela caracterização
da excludente de responsabilidade da força maior. Precedentes
jurisprudenciais. RECURSO DESPROVIDO. (Apelação Cível Nº
70070684394, Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Tasso Caubi Soares Delabary, Julgado em 14/09/2016)

APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE


REPARAÇÃO POR DANOS MORAIS. SECAGEM DE FUMO.
ENERGIA ELÉTRICA. INTERRUPÇÃO DO FORNECIMENTO DE
ENERGIA. DEMORA NO RESTABELECIMENTO. EVENTO DE
FORÇA MAIOR. EXCLUDENTE DE RESPONSABILIDADE CIVIL.
Comprovada nos autos a extraordinariedade do fato ocorrido, um
temporal de grande proporção, que atingiu diversos pontos do Estado, a
demora no restabelecimento de energia elétrica é plenamente justificada,
diante da excessiva demanda de pedidos para reparos, de modo autorizar
o reconhecimento da força maior como excludente de responsabilidade
civil da concessionária de serviço público. Inteligência do art. 14, §3º, do
CDC. Sentença reformada. APELAÇÃO DA RÉ PROVIDA.
APELAÇÃO DO AUTOR PREJUDICADA. (Apelação Cível Nº
70063562508, Décima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Paulo Roberto Lessa Franz, Julgado em 26/02/2015)

Necessário destacar, ademais, que a interrupção no fornecimento de energia


elétrica é um evento previsível. Assim sendo, aquele que investe na produção de fumo, com a
necessidade de posterior secagem por meio de estufa elétrica, deve considerar tal risco,
adquirindo um gerador para continuidade do processo de cura. Entendendo que o investimento
não vale a pena, deve optar pela secagem em estufa a lenha ou gás, opções igualmente existentes
no mercado.
Para muitos, bastaria exigir das concessionárias a realização de obras de
melhoria da rede e a contratação de mais funcionários. Quanto ao primeiro aspecto, necessário
lembrar que investimento também representa custo e significa, portanto, tarifa mais elevada, o
que é difícil de aceitar em um país com grande contingente de população de baixa renda. A
contratação de pessoal excedente, por sua vez, somente para períodos de excesso de demanda
de serviços, que sequer podem ser previstos, também representaria elevado dispêndio, a elevar
o preço da tarifa.
Portanto, a privação de energia elétrica por si só não enseja obrigação
automática de indenizar. Em tais hipóteses, somente a demora injustificada para o
restabelecimento dos serviços, demonstrada no caso concreto, poderia servir de causa à
responsabilização, o que não se evidencia nos autos. É de rigor, assim, a improcedência da
demanda.
DIANTE DO EXPOSTO, nos termos do art. 487, I, do Código de
Processo Civil, JULGO IMPROCEDENTE o pedido formulado na presente ação
indenizatória ajuizada por SUCESSÃO DE ROMILDO JOSE RECH contra AES Sul
Distribuidora Gaúcha de Energia S.A. e CELETRO – Cooperativa de Eletrificação Centro
Jacuí Ltda, condenando o autor ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios devido aos patronos das rés, fixados em 10% sobre o valor corrigido da causa
(art. 85, § 2º, CPC). Suspendo, no entanto, a cobrança dessas verbas, em razão da Assistência
Judiciária Gratuita, que ora defiro.
Publique-se. Registre-se. Intimem-se.
Sobradinho, 16 de abril de 2019.
Decisão da 2ª Instância

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZATÓRIA.


CONCESSIONÁRIA DE ENERGIA ELÉTRICA.
INTERRUPÇÃO DO FORNECIMENTO. PRODUTOR
RURAL. PREJUÍZO MATERIAL. DANOS MATERIAIS
FIXADOS. SENTENÇA REFORMADA.
A concessionária possui responsabilidade objetiva em reparar
os prejuízos sofridos em razão da prestação dos seus serviços.
O perito, em seu laudo técnico, concluiu que o autor teve danos
na cura do fumo diante da baixa tensão de energia elétrica, o
que ocasionou a danificação da produção.
Compulsando os documentos acostados com a inicial,
depreende-se que a parte autora logrou comprovar o fato
constitutivo de seu direito, conforme determina o inciso I, do
art. 373 do CPC.
Comprovado o dano material apontado, a concessionária ré
deve ser responsabilizada pelos prejuízos suportados pela
conduta praticada, em sua totalidade, reformando a sentença de
improcedência.
Sentença de improcedência reformada.
RECURSO PROVIDO.

APELAÇÃO CÍVEL DÉCIMA CÂMARA CÍVEL - REGIME


DE EXCEÇÃO
Nº 70082333873 (Nº CNJ: 0205296- COMARCA DE SOBRADINHO
48.2019.8.21.7000)

SUCESSAO DE ROMILDO JOSE RECH APELANTE

AES SUL DISTRIBUIDORA GAUCHA APELADO


DE ENERGIA ELETRICA S/A

COOPERATIVA DE ELETRIFICACAO APELADO


CENTRO JACUI LTDA- CELETRO

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.


Acordam os Magistrados integrantes da Décima Câmara Cível - Regime de
Exceção do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em dar provimento ao recurso.
Custas na forma da lei.
Participaram do julgamento, além da signatária, os eminentes Senhores DES.
JORGE ALBERTO SCHREINER PESTANA (PRESIDENTE) E DES. MARCELO
CEZAR MÜLLER.
Porto Alegre, 05 de março de 2020.

RELATÓRIO
DR.ª MARLENE MARLEI DE SOUZA (RELATORA)
SUCESSÃO DE ROMILDO JOSÉ RECH interpôs apelação contra a
sentença de improcedência proferida nos autos da ação de indenização por danos morais
movida em face de CELETRO – COOPERATIVA DE ELETRIFICAÇÃO CENTRO
JACUÍ LTDA e RGE SUL DISTRIBUIDORA DE ENERGIA S.A. A sentença
apresentou o seguinte dispositivo:

DIANTE DO EXPOSTO, nos termos do art. 487, I, do Código


de Processo Civil, JULGO IMPROCEDENTE o pedido
formulado na presente ação indenizatória ajuizada por
SUCESSÃO DE ROMILDO JOSE RECH contra AES Sul
Distribuidora Gaúcha de Energia S.A. e CELETRO –
Cooperativa de Eletrificação Centro Jacuí Ltda, condenando
o autor ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios devido aos patronos das rés, fixados em 10%
sobre o valor corrigido da causa (art. 85, § 2º, CPC).
Suspendo, no entanto, a cobrança dessas verbas, em razão da
Assistência Judiciária Gratuita, que ora defiro.

Em suas razões, salientou acerca do período de interrupção de energia elétrica


e dos eventos climáticos. Discorreu sobre a prova testemunhal. Afirmou que a parte ré
acostou documentos estranhos ao feito, que não possuem proximidade à localidade onde
reside. Expendeu sobre a indevida penalização do recorrente pela má prestação do serviço
oferecida pela concessionária recorrida. Alegou que a parte ré teria infringido as próprias
resoluções sobre prazos para estabelecimento de energia previstas na ANEEL. Argumentou
sobre o prejuízo material. Colacionou Jurisprudência. Postulou que seja julgada totalmente
procedente a ação. Pugnou, ao final, pelo provimento do recurso.
Sobrevieram contrarrazões às fls. 336-355 e 358-363.
Subiram os autos a esta Corte e vieram-me conclusos.
É o relatório.

VOTOS
DR.ª MARLENE MARLEI DE SOUZA (RELATORA)
Eminentes Desembargadores,
O recurso de apelação interposto atende aos pressupostos de admissibilidade,
razão pela qual merece ser conhecido.
Conforme relatado, a parte autora postulou a procedência do pedido de
indenização por perdas e danos, sob a alegação de que a falta do fornecimento da energia
elétrica na região teria provocado danos ao fumo que estava em processo de secagem na
ocasião, acarretando desclassificação do produto para classes inferiores e perda de parte da
produção.
De plano, destaca-se que a parte ré possui responsabilidade objetiva na
reparação de prejuízos causados em razão da prestação dos seus serviços, forte no artigo 37,
§ 6º, da Constituição Federal e no artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, in verbis:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer


dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e,
também, ao seguinte:
(...)
§ 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito
privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos
danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a
terceiros, assegurado o direito de regresso contra o
responsável nos casos de dolo ou culpa.
Art. 14. O fornecedor de serviços responde,
independentemente da existência de culpa, pela reparação
dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à
prestação dos serviços, bem como por informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos
§ 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança
que o consumidor dele pode esperar, levando-se em
consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se
esperam;
III - a época em que foi fornecido.
(...)
§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado
quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Ademais, conforme o art. 22 do CDC, a ré, como prestadora de serviço público


essencial, responde perante o consumidor em face do seu dever de fornecer serviços
adequados, eficientes e seguros1.
Desse modo, para a configuração de responsabilidade da ré e, assim, do dever
de indenizar, devem estar presentes os seguintes requisitos: a comprovação do dano efetivo,
podendo ser moral e/ou patrimonial, a conduta e o nexo causal entre o defeito do serviço e a
lesão sofrida pelo consumidor. Nesse sentido, para a exclusão da responsabilidade é
necessário comprovar a ocorrência de caso fortuito, a força maior, a culpa exclusiva da vítima
ou fato de terceiro, rompendo o nexo causal.
No caso em tela, é incontroverso entre as partes que o fornecimento de energia
foi interrompido no dia 20/12/2014 a 21/12/2014. Nesse viés, em análise do conjunto
probatório, verifica-se que o fato e o dano restaram devidamente comprovados nos autos,
conforme se depreende do parecer técnico de fl. 17 e das fotografias de fls. 15-16. Ressalta-
se que o perito, em seu laudo técnico, concluiu que o autor teve danos na cura do fumo diante
da interrupção da energia elétrica, o que ocasionou a danificação da produção.

1
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob
qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes,
seguros e, quanto aos essenciais, contínuos.
Ademais, as testemunhas Romar Arnt, Mário José Flesch e Ivonildo Machado
corroboram com os fatos relatos na inicial e com as demais provas produzidas, ressaltando
que os postes de luz da região estavam “podres e tortos” na época e que é comum a
interrupção da energia na região, afirmaram também que na época da perda do fumo não
ocorreu fortes tempestades.
Ressalta-se que no processo civil, em que quase sempre predomina o princípio
dispositivo, que entrega a sorte da causa à diligência ou interesse da parte, assume especial
relevância a questão pertinente ao ônus da prova.
Esse ônus consiste na conduta processual exigida da parte para que a verdade
dos fatos por ela arrolados seja admitida pelo juiz.
Não há um dever de provar, nem à parte contrária assiste o direito de exigir a
prova do adversário. Há um simples ônus, de modo que o litigante assume o risco de perder
a causa se não provar os fatos alegados e do qual depende a existência do direito subjetivo
que pretende resguardar através da tutela jurisdicional. Isto porque, segundo antiga máxima,
fato alegado e não provado é o mesmo que fato inexistente.
O artigo 373 do Código de Processo Civil, fiel ao princípio dispositivo, de
forma clara e expressa, estabeleceu as regras que definem o ônus subjetivo da prova,
repartindo-o da seguinte maneira: “O ônus da prova incumbe: I – ao autor, quanto ao fato
constitutivo do seu direito; II – ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo
ou extintivo do direito do autor”.
Acerca do referido artigo, os comentários do insigne Humberto Theodoro
Júnior2:
Cada parte, portanto, tem o ônus de provar os pressupostos
fáticos do direito que pretenda seja aplicado pelo juiz na
solução do litígio. Quando o réu contesta apenas negando o
fato em que se baseia a pretensão do autor, todo o ônus
probatório recai sobre este. Mesmo sem nenhuma iniciativa de
prova, o réu ganhará a causa, se o autor não demonstrar a
veracidade do fato constitutivo do seu pretenso direito. Actore
non probante absolvitur réus.

2
in ‘ Curso de Direito Processual Civil’, volume I, Editora Forense, RJ, 2007
Compulsando os documentos acostados com a inicial, depreendo que a parte
autora logrou comprovar o fato constitutivo de seu direito, conforme determina o inciso I, do
art. 373 do CPC.
Por conseguinte, constata-se que a Resolução n. 414/2010 da ANEEL prevê,
no artigo 176, que o fornecimento de energia deve ser restabelecido no prazo de 48 horas
para religação normal de unidade em área rural, como no caso, ou em até 8 horas se for caso
de urgência.
Todavia, este órgão fracionário possui o entendimento de que a limitação
constante em resolução normativa não pode se sobrepor à legislação consumerista e civilista,
as quais estabelecem que quem causar prejuízo ao consumidor por falha no serviço prestado
possui a obrigação de indenizar.
Dessa forma, evidente o prejuízo suportado pela autora diante da interrupção
do serviço da concessionária, cabe à ré o dever de indenizar. A propósito, nesse sentido, cito
julgados no âmbito deste órgão fracionário:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL.
CONTRARRAZÕES. DIALETICIDADE RECURSAL.
INTEMPESTIVIDADE DA APELAÇÃO. NÃO
OCORRÊNCIA. - Apelação apresentada dentro do prazo legal
estabelecido pelo art. 1.003, § 5º do Código de Processo Civil.
Início da contagem que se dá depois do primeiro dia útil da
publicação da Nota de Expediente. - Recurso que rebate os
fundamentos da sentença. Dialeticidade recursal evidenciada.
Obediência ao disposto no art. 1.010, inc. II, do CPC.
DEMORA INJUSTIFICADA PARA O RESTABELECIMENTO
DE SERVIÇO DE ENERGIA ELÉTRICA EM RESIDÊNCIA.
PREJUÍZOS À PRODUÇÃO DE LEITE. COMPROVADO.
ABALO MORAL OCORRENTE. QUANTUM. HONORÁRIOS.
MAJORAÇÃO - É cediço que a empresa concessionária de
serviço público responde objetivamente, a teor do art. 37, § 6°,
da Constituição Federal, pelos danos a que houver dado
causa, bastando à vítima a comprovação do evento lesivo e do
nexo etiológico entre este e a conduta do agente. - Hipótese em
que restou comprovada nos autos a falha do serviço,
consistente na demora no seu restabelecimento, sem que a
requerida tenha evidenciado a ocorrência de qualquer
situação capaz de justificar a impossibilidade de normalização
dentro de tempo razoável. - Parte demandante que trouxe
documentos aptos a comprovar a ocorrência de dano material.
- Dano moral in re ipsa. Evidenciada a falha na prestação dos
serviços da ré, privando a parte autora do uso de energia
elétrica, caracterizado está o dano moral puro e, por
conseguinte, o dever de indenizar, diante dos presumíveis
infortúnios que decorrem da falta de energia elétrica em uma
residência, dispensando comprovação específica. - Montante
indenizatório fixado em sentença mantido. R$ 3.000,00 (três
mil reais), o que se mostra adequado à espécie. - Honorários
advocatícios. Balizadoras do CPC. Majoração NEGARAM
PROVIMENTO À APELAÇÃO E DERAM PARCIAL
PROVIMENTO AO RECURSO ADESIVO.
UNÂNIME.(Apelação Cível, Nº 70082550310, Décima
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Jorge
Alberto Schreiner Pestana, Julgado em: 19-12-2019)

APELAÇÕES CÍVEIS. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO


DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E DANOS
MORAIS. SECAGEM DE FUMO. INTERRUPÇÃO DO
SERVIÇO DE FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA.
REVELIA. DEZEMBRO DE 2014 E JANEIRO DE 2015.
COMARCA DE SOBRADINHO. DEMORA NO
RESTABELECIMENTO. 1. A AES SUL Distribuidora Gaúcha
de Energia S.A na qualidade de concessionária de serviço
público essencial, tem o dever de fornecer energia elétrica de
forma adequada, eficiente, segura e contínua (art. 22 do CDC),
respondendo objetivamente pelos danos que decorram de
defeito na prestação do seu serviço. Incumbe à parte autora
demonstrar a ocorrência do evento danoso e o nexo de
causalidade entre os danos e a alegada falha na prestação do
serviço (arts. 37, §6º, da CF e 14, caput, do CDC) e à ré, por
sua vez, comprovar ausência de defeito na prestação do
serviço, a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro (§ 3º,
do art. 14, do CDC) ou, ainda, a ocorrência de caso fortuito
ou força maior (art. 393, do Código Civil). 2. Caso em que
restou comprovada a ocorrência de fortes temporais em várias
regiões do estado do Rio Grande do Sul, no mês de Dezembro
de 2014, o que configura evento de força maior, excludente do
nexo de causalidade e do consequente dever de indenizar.
Ausência de falha na prestação do serviço pois, diante da
extraordinariedade do evento climático, e excessiva demanda
de reparos nas regiões afetadas, plenamente justificável a
demora no restabelecimento da energia elétrica.
3.Referentemente à interrupção ocorrida em janeiro de 2015,
no caso concreto, considerando a revelia da demanda,
imperativa a confirmação da parcela da sentença que
reconheceu a ocorrência de danos morais e materiais no caso
telado. APELO PARCIALMENTE PROVIDO.(Apelação Cível,
Nº 70082903378, Décima Câmara Cível, Tribunal de Justiça
do RS, Relator: Thais Coutinho de Oliveira, Julgado em: 28-
11-2019)

Ademais, afasta-se o argumento de culpa concorrente/exclusiva do autor


diante da falta de gerador de eletricidade próprio, tendo em vista que não há como imputar
esta responsabilidade ao consumidor diante de sua vulnerabilidade e hipossuficiência.
Veja-se que imputar a obrigação de possuir geradores de energia instalados
na propriedade do produtor seria como transferir aos consumidores a função que compete à
concessionária.
Ressalta-se que o artigo 6º inciso VI, do Código de Defesa do Consumidor
dispõe que são direitos básicos do consumidor a efetiva reparação de danos patrimoniais
decorrentes do fato do serviço. Sendo assim, não há falar em culpa concorrente/exclusiva
do autor, pois os danos materiais foram devidamente comprovados pelo laudo.
Sendo assim, comprovado o dano material apontado, a concessionária ré
deve ser responsabilizada pelos prejuízos suportados pela conduta praticada, em sua
totalidade, reformando a sentença de improcedência.
Dessa forma, é devido o pagamento de indenização pelos danos materiais no
valor de R$ 5.187.60 (cinco mil e cento e oitenta e sete reais e sessenta centavos), montante
que deverá ser corrigido pelo IGP-M a partir da data do laudo (05/01/2015), acrescida de
juros moratórios de 1% ao mês contados da data da citação.
Nesse sentido a reforma da sentença é medida que se impõe.
Diante do exposto, voto em DAR PROVIMENTO AO RECURSO DE
APELAÇÃO, para dar provimento ao recurso e condenar a parte ré ao pagamento de
indenização a título de danos materiais, no valor de R$ 5.187.60 (cinco mil e cento e oitenta
e sete reais e sessenta centavos), montante que deverá ser corrigido pelo IGP-M a partir da
data do laudo e acrescida de juros moratórios de 1% ao mês contados da data da citação.
Em face da modificação do julgado, redimensiono os ônus de sucumbência
para fixar a responsabilidade da parte ré pelas custas judiciais e honorários advocatícios
devidos ao procurador da parte autora em 15% sobre o valor da condenação, com
fundamento no art. 85, §§ 2º e 11º do CPC/15. É como voto.