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83 FORMALIZAGAO E AXIOMATIZAGAO DE PROVAS ONTOLOGICAS: DAS CONJECTURAS DE JEANS E SCHRODINGER A FORMULACAO. COMPUTACIONAL DE BENZMULLER E WOLTZENLOGEL PALEO DA PROVA DE GODEL Vinicius Carvalho da Silva" RESUMO Kurt Godel foi um dos maiores matemiticos do séeulo XX, com contribuigdes para a logica e também para o campo da cosmologia a partir da elaboragio de solugdes para as equagdes de Einstein. Como filésofo, Gadel dedicou-se a légiea e aplicou-se a axiomatizagao nao foumal de uma prova outolégica. Benzmiiller e Woltzenlogel Paleo desenvolveram, por meios computacionais, uma formalizagao do sistema axiomético gédeliano. O trabalho pode abrir novas perspectivas para a aplicagao de técnicas das cigncias da computacao no campo da légica matematica, suscitar questoes epistemologicas importantes, além de ser historicamente relevante por colocar em destaque um trabalho nao publicado de Godel. Apresentamos a tradugao do trabalho de Benzmiiller e Woltzenlogel Paleo, antecedida por um artigo com consideragdes gerais sobre diferentes provas outoldgicas, cosmoligicas e fisico-teleolégicas. PALAVRAS-CHAVE: Formalizagio computacional. Sistema axiomitico. Prova ontolégica. ABSTRACT Kurt Gédel was one of the greatest mathematicians of the twentieth century, with contributions to logic and also in the field of cosmology from the elaboration of various relativistic models, with solutions to Einstein's equations. As a philosopher, Godel devoted himself to logic and the non-formal axiomatization of an ontological proof, Benzmilller and Woltzenlogel Paleo developed, by computational means, a formalization of the Godelian axiomatic system. The work may open new perspectives for the application of computer science techniques in the field of mathematical logic, raise important epistemological questions, and is historically relevant because it highlights an unpublished work by Godel. We present the translation of the work of Benzmiiller and Woltzenlogel Paleo . preceded by general considerations about different ontological, cosmological and physical-teleological proofs, KEYWORDS: Computational formalization, axiomatic system, ontological proof. 1 A RELEVANCIA DO ESTUDO DAS PROVAS ONTOLOGICAS PARA AS CIENCIAS PURAS * Doutor em Filosofia da Cigncia e Teoria do Conhecimento pela UERJ. Professor da Universidade Estadual do Tocantins — UNITINS. Artigo recebido em 15/10/2019 e aceito em 16/11/2019, Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduagao em Filosofia da UFT - v. 2. 84 Nese trabalho assumimos a posigao defendida por Weizsacker em The Structure of Physics, obra em que © fisico fildsofo alemo prope uma classificagdo da ciéneia em “cigncias puras” e “ciéncias empiricas”. As ciéncias puras seriam a logica e a matematica e as cigncias empiticas seriam fisiea, astrouomia, quimica, biologia, psicologia, entre outras. A fiisica seria a cigncia empirica fundamental, Para Weizsticker seria impossivel desenvolver a fisica sem a logica ¢ a matemética, pois as “leis universais da natureza so essencialmentematemiticas” (WEIZSACKER. 2006, p. 334)°. O platonismo de Weizsiicker fica evidente nesta passagem, pois ele trata da matemética nao como uma invengao do sujeito cognoscente, mas como uma propriedade ontolégica fundamental da estrunura do mundo, Assim, assumindo uma determinada metafisiea, ele se inseriu na tradi¢do da filosofia natural neoplaténica de Galileu, ao fazer da matematizagao da natureza, bem como Heisenberg € outros fisicos filésofos, o pressuposto de sua filosofia da fisica (SILVA. 2016, p. 242) Nao somente concebemos, com Weizsicker, que ao lado da matematica a légica compie © quadro das “cigncias puras”, como partimos do pressuposto, com Einstein e Heisenberg, que as proprias teorias fisicas so “sistemas logicos de pensamento™ (EINSTEIN. 2006, p. 21)*. Para Heisenberg “Uma ‘teoria fechada’ [como a mecanica newtoniana] & caracterizada por um sistema de definigdes e axiomas que estabelecem os WEIZSACKER. Carl Von. The Soucture of Physies. Atlanta: Springer, 2006. > SILVA, Vinicius Carvalho da Silva. Teoria Quéntica, Fisica Nuclear e Filosofia Grega: Ensaio sobre os Jfsicos filésofos do século XX. Griat: Revista de Filosofia, Amargosa, Bahia — Brasil, v.1 5, n.1, p.233-250, jiumho/2017. * Em Fisica e Realidade Einstein considera que o sistema logico de emunciados sobre 0 mundo, elaborados a partir de “conceitos primérios” que tratam de entidades e eventos fisicos, no pode ser construido pelo método indutivo, Embora as proposigoes da fisica devam concordar com 0s fatos naturais, o sistema Louico da teoria fisica s6 pode ser elaborado mediante o emprego da imaginacdo pura, da “especulagto livre". O objetivo da ciéncia & “em primeiro Ingar. a mais completa compreensio conceitual de experiéncias sensiveis em toda sua variedade € sua interconexao légica. Em segundo lugar porém, atingir este objetivo através do uso de um minimo de conceitos e relagdes primirias (aspiragao por uma visto de mundo unificada mais logica possivel ou simplicidade logica de seus fandamentos)” (EINSTEIN. 2006, p. 10). Nao é pela inducao, xno entanto, que podemos alcancar tal objetivo. A teoria fisica & um sistema logico necessariamente dedlutivo: “Nao hi método indutivo que conduza 20s conccitos fimdamentais da Fisica. O desconhecimento deste fato foi o erro filosofico bsico de muitos pesquisadores do saculo XIX: ele foi certamente o motivo pelo qual a teoria molecular ¢ a teoria de Maxwell so logtaram se impor tardiamente. O pensamento légico € necessariamente dedutivo e baseado em conceitos hipotéticos e axiomas” (p. 15-16). Ver. EINSTEIN, Fisica e realidade. Rev. Bras, Ensino Fis, (online). 2006, vol.28, 1.1. pp.9-22. A definicdo de teoria que Popper apresenta em 4 Logica da Pesquisa Cientffica & proxima: as teorias sto “sistemas de signos ou mbolos”, que formam “enunciados universais” (POPPER. 2013, p. 53). Ver: POPPER, K. 4 Lésica da Pesquisa Cientfica, Sto Paulo: Cultrix, 2013. STdem Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UFT - v. 2u. 2 (2017) conceitos fundamentais e suas interrelagdes” (HEISENBERG. 1974, p. 186)°. As chamadas provas légicas que veremos a seguir possuem a mesma propriedade: sto sistemas logicos de definigdes © axiomas, que estabelecem conceitos fundamentais chegam a conclusdes formais. No eutanto, as provas légieas habitun © mundo da légica pura, e delas nao pretendemos extrair conclusoes sobre 0 mundo natwal ou a natureza da realidade fisica, embora muitas vezes sejam elaboradas com esse intuito A logica é uma cigneia exata, formal, eas fonmalizagdes das diversas provas ontolégicas, como a de Gadel, e de “conjecturas ontolégicas”, como as de Jeans Schrddinger’, que veremos a seg \ir, constittem um importante objeto de investigagaio, nao necessariamente pelo contetido conceitual do que esta sendo “provado”, mas pela estrutura formal das provas, pela utilizagio de linguagens logicas e pelos desenvolvimentos em logica e ciéncias da computagdo que estes trabalhos podem demandar. E nesta exata medida que uma formalizagdo computacional do sistema axiomitico da prova ontolégica de Gédel pode contribuir nao somente para a Histéria da Légica como também para a epistemologia das cigneias puras, na terminologia de Weizsacker. Antes de chegarmos ao traballio de Gddel, passaremos de forma breve por diferentes argumentos ou provas, destacando argumento ontologico de Anselmo, o argument cosmoldgico de Newton em sua Optica, o trabalho mais recente de Swinburne, e ofereceremos uma formalizagio para as conjecturas de Jeans e Schrédinger, que para as finalidades deste artigo chamaremos de “argumento de Jeans-Sehrddinger” 2 OS ARGUMENTOS OU PROVAS DA EXISTENCIA DE DEUS Diversos filésofos buscaram elaborar argumentos € provas logicas da existéncia de Deus, de modo que tal existéncia fosse um objeto da razio e nao somente de crenga. De S HEISENBERG. W. Across the Frontiers. Michigan: Harper & Row, 1974, ” Desconhecemos na literatura a utilizagao do termo “argumento de Feans-SchrOdinger” para se referir a0 que James Jeans em O Universo Mysterioso e Erwin Schrodinger em Minha Concepedo do Mundo propuseram como solusao para o problema da existéncia do mundo, ¢ que nés consideramos nessa ocasiao como argumentos onfolbgicos to proxios epistemologicamente que podem set unificados em wma mesma estrutura logica, No entanto, cabe ressaltar que Jeans e Schrddinger nao sistematizaram suas concepeoes metafisicas em um conjunto de premissas logicamente conectadas. Nosso exercicio intelectual. abstrato nnesse sentido, ¢ justamente converter 0 contedido conceitual de sas concepedes metafisicas em unm sistema loaico formal, composto por definigdes e axiomas. * Nio € nossa intengio, nessa ocasiio, discomrer dealhiadamente sobre os argumentos e seus respectivos contra-argumentos, mas apresentar um panorama geral até culminarmos com a formalizagao do argumento de ‘Gédel por Benzmiller e Woltzenlogel Paleo Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT -v. 21.2 (2017) 86 uum modo geral, estes trabalhos podem ser classificados em trés classes: “argumentos ontolégicos”, “argumentos cosmoldgicos” e “argumentos teleologicos”. Grosso modo, estes argumentos sao dedutivos®, mas podem ser indutivos e também abdutivos. Nao é nossa intengio uma reconstugao histarica ou epistemolégica de tais argumentos, de modo que seremos brevissimos em sua apresentagao. 3 ARGUMENTOS ONTOLOGICOS ‘Desde Anselmo de Cantuaria’®, os argumentos ontolégicos visam deduzir Deus como ens realissimum, O Set mais real, nao a partir de fatos empiricos, mas de demonstragdes logicas!*. O argumento de Anselmo, em uma forma simplificada e atual, poderia ser apresentado da seguinte maneira: ‘Ax: Deus é 0 Ser mais perfeito que pode ser concebido. Az: E possivel conceber um Ser perfeito que nao existe. As: E possivel conceber um Ser perfeito que existe! Cz: Posto que a existéncia seja uma perfei¢do, um ser existente é mais perfeito que uum ser inexistente e mais perfeito que um ser meramente possivel. Cz Disto se segue que o Ser mais perfeito que pode ser concebido deve existir necessariamente. Podemos ainda resumir 0 argumento de Anselmo de outra maneira, nos valendo do ‘uabalho de Glymour (2015). Premiissa 1: Podemos conceber um ser do qual nada maior pode ser concebido, ° De acordo com Kant, 2 teologia natural possui cariter dedutivo (logo, seus argumentos também): “A teologia natural deduz 0s atributos e a existéncia de um autor do mundo a partir da constituigao, da ordem € da unidade que se encoutram neste mundo, no qual € necessério admitir uma dupla espécie de causalidade, assim como a regra de wma e de outra, ot seja, a natureza ea liberdade, Assim, ascende deste mindo até @ inteligéncia suprema como ao principio de toda a ordem e perfeigao, seja na natureza seja no dominio moral. No primeiro caso denomina-se teologia fisica, no tiltimo teologia moral. Ver: KANT. Immanuel. Critica da Razo Pura. Trad, Manuela Pinto dos Santos. Lisboa Fundagdo Calouste Gulbenkian, 2001. A 632 B 660 ® Prosiogion ILIV © Ver: RUSSEL. Bertrand, Histéria da Filosofia Ocidental, Trad. Breno Silveira, Sao Paul Editora Nacional, 1968. p258, Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT - v. 21.2 (2017) »: Companhia 87 Premissa 2: O que quer que seja concebido existe no entendimento de quem 0 concebe, Premissa 3: Aquilo que existe no universo de quem o concebe e também existe na realidade maior do que algo similar que existe apenas no entendimento de quem 0 concebe, Portanto, um ser concebido. do qual nada maior pode ser concebido, deve existir na realidade assim como no entendimento. Premissa 4: Deus & um ser do qual nada maior pode ser concebido. Conclustio: Deus existe na realidade. (GLYMOUR, 2015, p. 16) ‘Varias formalizagdes do argumento de Anselmo foram propostas, como, p. ex., por Robinson (2004, p. 11)'°, Fonalizagdes alternativas podem ser encontradas, por exemple, no trabalho de Adams (1971) The Logical Structure of Anselm’s Arguments!. O artigo de Silvestre (2017), Sobre a formalizacao légica do argumento ontolégico de Anselmo" apresenta um panorama detalhado da fonmalizagdo de Adams e de outros papers que trataram do mesmo objeto. 4 ARGUMENTOS COSMOLOGICOS Em Aristoteles encontramos as raizes dos argumentos cosmologicos na teoria do ptimeiro motor, que aparece em sua Metafisica'®. A prova aristotélica da existéucia de un primeirissimo ente foi cristianizada e reelaborada na Escolistica por Tomas de Aquino (Ver as “cinco vias”), Argumentos cosmologicos partem de verdades evidentes acerca do mundo natural, deduzindo a existéncia de Deus como sua melhor explicagao, Uma forma atual e bastante simplificada do argumento cosmolégico seria ® ROBINSON, Timothy A. 4 New Formalization of Anselm's Ontological Argument (2004). Philosophy Faculty Publications. Paper 6 hrtp://digtalcommons esbsiu.eduphilosophy_pubs6 8 ADAMS, Robert. The Logical Structure of Anselm's Arguments. The Philosophical Review, 1971, 80:28- sa, # SILVESTRE, Ricardo Souza. Sobre a formalizagdo légica do argumento ontolégico de Anselmo. Revista Brasileira de Filosofia da Religito. Brasilia /v.2.n2/ p 142-161 / dez. 2015 / ISSN. 5 De acordo com Aristteles em sua Metafisica [1073a 23]: “O principio, isto é,o primeiro entre os entes, é do-suscetivel de movimento, em si mesmo e por concomitincia, e promove o movimiento primeiro ¢ etemo, que tinico, Dado que, necessariamente, aquilo que € movido € movido por algo:dado que o primero motor é em si mesmo, nao-suscetivel de movimento: dado que 0 movimento etemo é promovido por algo eterno, € ‘um movimento tinico, por algo tinico: dado que, além da locomosao simples do Todo, a qual dizemos que a primeira esséncia nio-suscetivel de movimento promove, vemos que ha outras locomogses etemas, a dos planetas (de fato, 0 compo que se move em circulo € etemo e sem repouso: provottse isso nas discusses sobre a natureza), necessariamente, também cada uma dessas locomogGes & movida por uma esséncia etema que, em si mesma, € nfo suscetivel de movimento”. Ver: ARISTOTELES. Cad. Hist. Fil. Ci.. Campinas. Satie 3, v. 15, n, 1, p. 201-221, jan-jun, 2005, Tal arguntento aristotélico aparece nas cinco vias tomistas, a saber: 1, Primeiro motor; 2. Caiisa eficiente; 3. Ser necessirio e Ser contingente; 4. Graus de perfeigao e 5 Ordenamento teleologico. Para saber mais: TOMAS, Aquino, Suma de Teologia, Madri: Biblioteca de autores cristianos, 2001. p. 110-113. ¢.23. Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT -v. 21.2 (2017) 88 AL: Se algo existe, ento um Ser que o causon tem de existir necessariamente C1: O mundo existe. C2: Disto se segue que necessariamente existe um Ser que é causa do mundo. 5 ARGUMENTO TELEOLOGICO O argumento do designio é um argumento teleoldgico, ou fisico-teoldgico, conforme Kant. Argumentos de tal tipo partem da constatago da elevada ordem e beleza do mundo'®. Como entender tal ordenamento senao assumindo a existéneia de um ordenador? Se o universo é ordenado como um projeto, tem de ser obra de um projetista. Un exemplo de tal argumento pode ser encontrado no Livro III, Parte I da Optica’” de Isaac Newton, um. tuatado acerca da natureza da luz, Newton constata o “perfeito” funcionamento da mecénica natural, concluindo que a natureza é ordenada e © mundo é “governado” por leis universais"® A questiio fundamental colocada por Newton é: como se origina “toda aquela ordem @ beleza que vemos no mundo?” (NEWTON. 2000, p. 279). Tudo nos revela de modo impactante que a natureza é dotada de ordem, beleza ¢ unidade, da mecinica celeste & anatomia humana, 0 mundo fineiona conforme leis que podem ser compreendidas pela razio, ¢ commmicadas pela cigneia por meio de uma linguagem matematica ‘Nao seria razoavel coneluir que o mundo surgiu por acaso, argumenta Newton. Como o acaso poderia produzir uma ordem tao complexa e vasta, mas unificada por meio de leis simples e cognosciveis? (NEWTON. 2000, p. 297). Newton sustenta que partindo da observago e da experimentagao da natureza, coneluimos que sua ordem pode ser explicada — somente — se admitimos a existéncia de um “principio” ou Ente Supremo que organiza o real: um “Ser incorpéreo, vivente, imeligente, onipresente” que imprimiu ordem a todas as coisas (NEWTON. 2000, p. 280). 'S 4 quinta via, elaborada por Tomas de Aquino em sua Summa Teolégica, parte da constatagao da ordem no mundo para entao assumir que tal ordem necessita de uma causa e que tal causa ¢ Deus. Referencias: ¥ NEWTON. L. Os Pensadores. $a0 Paulo: Editora Nova Cultural, 2000 '8 0 filosofo alemao Gottfiied Wilhelm von Zeibn: também apresentou um argunento da existéncia de Deus tendo como base a observagao da orem e beleza reinantes no unnudo, Para saber mais: NEWNTON, Isaac: LEIBNIZ, Gottfiied. Os Pensadores. Sao Paulo: Abril, 1983. E ainda: LEIBNIZ, Gottitied. Os Pensadores I. Sao Paulo: Abril, 1980. Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UET - v. 2u. 2 (2017) 89 © argumento fisico-teleoldgico, em uma formulago simples, seria uma operagio abdutiva: (a) Existe o mundo. (b) O mundo é ordenado. (c) Hipotese: Deus existe. (@) cexplicaaeb. (© E muito provavel que c 6 0 ARGUMENTO DE SWINBURNE © filosofo Richard Swinbume (1934 -) buscou formular um argumento teleolégico indutivo, Em tese, as criticas kantianas teriam atingido a dedugao e a abdugao. A indugao estaria imune? Conforme Kant, 0 argumento fisico-teleoldgico se reduz ao argumento ontolégico, que ¢ dedutivo. J4 0 argumento de Swinbume, sendo indutivo, partiria da existéncia do mundo e de regularidades naturais coustatadas pela experiéncia até assumir a existéncia de Deus como a hipétese altamente provavel, o que em certa medida nos remete ao argumento de Newton. Swinbume elabora o argumento a partir de trés observagdes: Or: O mundo existe Os: O mundo é oxdenado (tal ordenagio é fantasticamente sofisticada). Os: Este universo ordenado gerou estruturas organicas complexas. ‘A cigncia ou 0 senso comum seriam eapazes de explicar a origem do universo e das leis naturais? A resposta, confonme Swinbume, é negativa. A ciéneia poderia explicar quais leis fundamentais existem, mas no pode explicar por que elas existem. Como poderiamos entender o por que da existéncia do mundo? Uma hipotese razoavel, talvez a linica possivel, seria assumir a existéncia de um Ser plenamente livre capaz de eriar 0 mundo. Assim Swinbume chega ao seguinte argumento: Pi: Observa-se F (F1, F2, F3). [Que o mundo existe] Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UFT - v. 2u. 2 (2017) 90, Pz: A hipotese D explica F. {Que Deus criow o mundo} C: Logo, & muito provavel queD. __[Logo, que Deus existe ¢ muito provivel] 7 OS ARGUMENTOS DE SCHRODINGER E JAMES JEANS COMO RECURSOS HEURISTICOS DE FUNDAMENTACAO LOGICA DO SISTEMA DE ENUNCIADOS DA MECANICA QUANTICA®. No tratamento ondulatério da mecanica quantica?® (MQ), as particulas subatémicas so descritas como entidades matemiticas abstratas representadas por uma fngao de onda, cuja evolugao temporal em um espago de Hilbert é dada pela equagao de Schrodinger Uma fimgo de onda nao ocupa uma posigdo pontual da métrica espago-temporal e no pode ser concebida, em sentido usual, como um objeto material. No entanto, nos eventos de observagio tais entidades aparecem, objetivamente, como particulas ou ondas °° E possivel afirmar que o tipo de interpretagao idealista e de argumento ontol6gico de Schridinger e Jeans {ise encontra no pensamento do Bispo Berkeley: “Um dos argumentos centrais empregados por Berkeley a fim de fomecer a scu sistema imaterialista solidez logica, profundidade metafisica, ¢ eventualmente um importante meio de refutar quaisquer acusagGes de solipsismo € que a existencia das coisas sensiveis € baseada em iltima instancia nelas serem continuamente percebidas (concebidas) por Deus, ot — em outras palavras — nelas existirem na mente de Deus” p. 263. Ver: BRADATAN, C. Principios. Natal, v.16, n.26 jul./dez, 2009, p. 257-284 ® Formulado por de Broglie ¢ Schringer. Para uma andlise das diferengas entre as formulagdes ondulatorias da mecénica dos quanta de De Broglie e Schiidinger ver: MARTINS, R.A. De Louis de Broglie ‘a Erwin Schrodinger: uma comparagio In Teoria Quantica: estudos historicos e implicagdes culturais [online] (FREIRE JR. O., PESSOA JR, O., and BROMBERG. JL., orgs). Campina Grande: EDUEPB: Sao Paulo: Livraria da Fisica, 2011 2 Na verdade desde que Schiiktinger demonstrou, ainda nos anos 1930, a equivalencia matemtitica entre a ‘mecinica ondulatéria e a mecénica matricial desenvolvida por Heisenberg, as entidades quanticas sio representadas por fimgoes de onda na mecénica quantica de um modo geral. © que esta em disputa entre diferentes interpretagdes da MQ € 0 que provoca o colapso da fangao de onda e também qual & a natureza da fangéo de onda. Em uma interpretagto instrumentalista @ fungto de onda pode ser compreendida como uma “constructo” (conceito desenvolvido por Wigner para se referir aos objetos da fisica teérica), um instrumento de céleulo, sem que com isso atribuamos @ ela uma realidade fisica objetiva — 0 que se aproxima da abordagem positivista de Mach para o étomo, Ja em tuna abordagem realista, a ontologia da MQ se modifica, @ A funcio de onda é atribuido o estatuto de uma entidade fisica objetiva cuja duracio e extensto possuem valores reais na métrica espago-temporal. Para ilustrar a contraposigao entre tais posigdes, vale a pena destacar um trecho de David Bohm em Causalidade e acaso na fisiea moderna, quando defende uma interpretacdo da MQ de acordo com a qual, para cada corpo (entidade quantica), ha uma onda associada: “..essa onda & a oscilae2o de um novo tipo de campo, representado matematicamente pelo campo w de Schrodinger. Em outras palavras, no supomos mais que a fingao de onda de Schrodinger scja 56 um mbolo matemético conveniente para 0 célculo de certas probabilidades, Em vez disso, ela passa a tepresentar um campo objetivamente real, algo como 0s campos gravitacional ¢ elettomagnético”. Ver: BOHM, D. Cansalidiade e acaso na fisica maderna. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015, p. 2016. Para uma abordagem a um sé tempo técnica (rica ¢ detalhada quanto ao fermalismo matensitico) e historiea, com maces epistemologicas, sugerimos capitulo 14 (principalmente a apresentagéo das varias formulagdes da equagao de Schrisdinger em p. 421-436) de Fisica Moderna: Origens Classicas e Fundamentos Quénticos de Caniso © Oguri, Ver: CARUSO, F: OGURI, V. Fisica Moderna: Origens Classicas e Fumdamentos Quénticos de Caruso e Oguri. Rio de Janeiro: LCT. 2016. Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT - v. 21.2 (2017) 91 detectadas pelo aparato de medida, com posigdo @ momentum caleulaveis conforme as relagdes de incerteza de Heisenberg’. Impde-se, ento, um dos mais. tradicionais problemas da MQ: O que promove o colapso da fingaio de onda? John von Neumann propde em The Mathematical Foundations of Quantum “Mechanics (1932) que é a medida (mensuragao, ou “evento de observacio”) que faz com que a “fungdo de onda” se materialize em um objeto fisico tal como um elétron (ou bem em forma particular (discreta) ou bem em forma ondulatéria). Neumann assume que a medida pressupde um observador e sustenta que qualquer tentativa de estabelecer uma demareagao precisa entre o sujeito senciente que realiza a medida, 0 evento de medigao e o objeto medido, é arbitraria, A consciéncia do sujeito da medigo constitui parte do sistema fisico no qual a medida & tomada, de modo que o processo de medigdo $6 esti completo 1955, p. 419). Em iltima instancia, ¢ o observador™ a pega chave do colapso da fungio de onda”® quando se torna parte da consciéncia do medidor (NEUMANN. Conforme Santos e Pessoa Junior (2011)*° a interpretagao “mentalista” ou “subjetivista” da MQ surgitt quando Neumann (1932), London e Bauer (1939)°" e Eugene Wigner (1960), laureado com o Nobel de Fisica de 1963, defenderam que o “observador” ® De acordo com o qual nao podemos medir a posigdo e a velocidade de uma particula com absoluta precisio. Quanto maior for a precisa da medida de wm desses valores. proporeionamente menor seré a do outro valor. Quatto das diversas interpretagdes do principio de incerteza podem ser consultadas em: SILVA, V. C. O principio de incerteza de Werner Heisenberg e suas interpretagoes ontoldgica, episiemolégica, teenolégica e estarstica, In: Scientiarum Historia VII - E este lado 0 ouito lado, 2014, Rio de Janeito, E este lado o outro lado, Rio de Janeiro: UFRJ-HCTE, 2014. v. 1. p. 485.502, 3 NEUMANN, J. v. The Mathematical Foundations of Quantum Mechanics. Princeton, NI: Princeton University Press, 1955. [Publicado originalmente em alemao em 1932 com o titulo Meshematische Grundlagen der Quantenmechank, Berlin: Springer] * Conforme Freitas ¢ Freire Ir: “Formalmente pode-se dizer que a passagem de uma superposicio de estados para um estado especifico é feita por un operador de projesdo e, assnn, essa redugao de estado (ou redueao do pacote de onda) acontece de acordo com 0 postulado de projegao. Como a medigao, reaida por esse postulada, é sempre feita por um observador que é extemo ao sistema quantico e naa pode ser descito por esse formalismo (a0 menos nao enquanto no papel de observador). essa formulagao também pode ser chamada de formulagao da observagio extema” (FREITAS: FREIRE JR. 2007. p. 2307-4). Ver: FREITAS. F: FREIRE IR., O. 4 fornnilacao dos ‘estados relaivos’ da teoria quanica. Rev. Bras. Ensino Fis, online] 2008, vol 30, n2, pp.2307.1-2307.15. ® © que levanta diversas questoes filos6ficas acerca da relagao mente-corpo, da natureza da mente e de seus ‘mods de inferago com a matéria, No campo da epistemologia da MQ um dos problemas mais conhecidos & odo “paralelismo psico-fsico”. ® SANTOS, F. M: PESSOA JUNIOR, O. Delineando 0 problema da medigdio na mecdnica quéntica: 0 debaie de Margenau e Wigner versus Putnam. Sci. stud. {online}. 2011, vol9, 23 [cited 2019-10-01]. p.625-644 * LONDON, F: BAUER, E, La théorie de observation en mécanique quantique. Pasis: Hermann, 1939, Para saber mais sobre a relagao entre Neumann ¢ Wigner let: SANTOS, F.M. Na fromeira entre a ciéncta © a flosofia: reflexoes filosdficas de Eugene P. Wigner: Dissertagao (mestrado) ~ Universidade Federal da Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT - v. 2.2 (2017), 92 deve possuir uma conseiéneia e que tal deve ser tomada como parte fundamental da descrigdo do sistema fisico. Assim, Wigner considera que ¢ uma “conclusio inevitivel” que 0 conceito de “observador” nao se refere a um aparato inanimado, mas a um ser dotado de consciéueia (Wigner, 1995)”. Em certo sentido o mentalismo de Neumann, Fritz e Bauer e Wigner chega a uma conclusao semelhante a da Interpretagao de Copenhagen: Nao é possivel falar do sistema observado sem fazer referéncia ao evento de observagdio, Mas enquanto para Bobr, Heisenberg et al., aparato de medigaio e 0 evento de observagao sto descritos como objetos macroseépicos clssicos inanimados, para os mentalistas 0 tratamento deve incluir necessariamente a consciéncia (SANTOS, 2009). O observador nao pode ser simplesmente ‘um aparato de medida ow un arranjo experimental, implicando, a introdugdo no sistema, de ‘um ser dotado de consciéncia, na qual se registraré a medida, concluindo-se a observagao. Nessa “tradigdo mentalista” (Neumann, London e Bauer, Wigner), 0 observador é sempre tratado como o observador de um evento fisico particular, 0 que significa que o universo em si munca é tomado como uma entidade quintica, nao havendo uma “fungao de onda do universo”, Sendo assim, seria desnecessario postular um “observador universal” *. © que pretendemos explorar nessa oportunidade é o que chamaremos de “tradigdo do monismo idealista”, pouco explorada em nossa literatura especializada. Nessa ontra perspectiva mentalista, representada pelos comentarios filosoficos informais de James Jeans e Erwin Schrodinger, a mente que traz o mundo a realidade nao é a mente particular do sujeito senciente que faz 0 papel de observador em um evento de medida ao colapsar a fuugdo de onda de um sistema quintico, mas a conscigueia de wn “Observador Universal”, que realiza a medigao nao deste ou daquele sistema fisico durante um evento experimental, ‘mas que “ ‘pserva” de modo tinico ¢ simulténeo todos os objetos do universo. ‘Uma possivel dificuldade conceitual parece se impor. Se 0 universo esti sendo “observado”, entdo ha um ente extemo ao universo, o que nos leva a severas contradigdes. Se 0 universo € a totalidade do espago-tempo entio nfo ha um lado de fora a partir do qual Bahia, Faculdade de Filosofia c Ciéncias Humanas, 2009. Além do fato de que o trabalho de Santos foi orientado por um de noss0s miaiotes especialistas em Historia da Mecdnica Quantica, Olival Freite Jr, 0 ‘proprio autor se destaca pela meticulosidade de suas pesquisas sobre a obra de Wiener. ® WIGNER, E. Philosophical Reflections and Sinthese. New York: Springer, 1995. * & questao € abordada no debate entre Putuam, Wigner ¢ Margenau, Wigner ¢ Margenau. em resposta a0 artigo de Putnam no qual o fil6sofo argumenta pela inconsisténcia logica do fonmalismo da escola do observador extemo para a MQ, sustentam que asstunir uma fungao de onda do universo (e, portanto um observador universal que provoque seu colapso) é um passo desnesessério para o desenvolvimento da teoria, Detalhes sobre a querela podem ser lidos em Santos e Pessoa Junior (2011) op. cit Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT - v. 21.2 (2017) 93 poderia ser observado por uma entidade externa. A teoria de um observador universal seria conceitualmente imprecisa e logicamente inconsistente. Em The Many-Worlds Interpretation of Quantum Mechanics*' Hugh Everett, ao contrario de Wigner, postula uma “fuungdo de onda do universo”, mas nega o seu colapso, atacando 0 “observador externo” como postulado necessério para a mecdnica quantica. Se o univers deve ser tratado como entidade quantica, existindo em uma miriade de estados superpostos, ¢ se a fungao de onda no sofre nenhum tipo de redugGo, entdo para cada estado superposto hi um mundo euja realidade fisica objetiva é auténoma em relagdo aos mundos que correspondem aos outros estados superpostos. Everett nos brinda com a falsa promessa de simplicidade. Ele de fato elimina o observador externo da MQ, mas para tanto, multiplica ao infinito a existéncia de Many-Worlds, convertendo todos os mundos quanticamente possiveis em infindiveis ‘universos objetivamente reais. Nas concepgdes metafisicas de Jeans e Scluddinger, que podem ser simplesmente compreendidas como formas fortes de idealismo, nao € necessitio lidar com esta dificuldade especifica que 0 conceito de “observador extemno” traz quando aplicado a0 universo. © observador nao observa o universo fora, mas dentro de si. Todos os observadores particulares siio extemos as entidades fisicas que observam. No espago E no tempo Tum contador Geiger registra a passagem de um elétron e um estudante toma nota dos dados, um arranjo de placas com emulsdes nucleares em Chacaltaya registra a “trajetoria” de uma particula, e César Lattes identifica wm méson-1, os subsistemas de detectores do ATLAS do LHC no CERN sio acionados e a anailise do evento nos leva a concluir que dos diversos produtos gerados pela colisio proton-proton, um se trata do boson de Higgs. Em todos esses casos os eventos acontecem em E7= 2+" e so montados. executados ¢ interpretados por observadores Entre esses observadores e tais eventos, por mais sofisticados que sejam, ha uma relago cuja natureza & exatamente a mesma que a do evento trivial de um observador que vé uma caneta em sua mesa, ao alcance de suas miios. Sujeito ¢ objeto sio duas entidades fisicas independentes, cuja interagao jamais violenta o que Einstein chamou de “prineipio de separabilidade”®? dos objetos na métrica espaco-temporal. Por isso, afinal, o observador 3 EVERETT. H. The Many-Worlds Imerpretation of Quantum Mechanics. Princeton NJ: Princeton University Press, 1973 * Conforme Dahem: “sistemas espacialmente separados possuem realidades independentes” (DAHMEN 2006, p. 7). Ver: DAHMEN, S. R. Einstein e a Filosofia, Rev, Bras, Ensino Fs, [online]. 2006, vol.28, 1.1, pps Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UFT - v. 2u. 2 (2017) 94 é “extemo” na MQ de Neumann e Wigner. Mas na metafisica de Jeans e Schrodinger 0 principio de separabilidade € vilido somente quando tratamos de eventos fisicos particulares © seus respectivos observadores igualmente particulares. A relagio entre o observador universal e o universo seria invertida, regida por wna inseparabilidade radical: o evento de observagao é na verdade um evento de “introspecca0” ~ ele ocorre no interior. ow nia “conscigncia” do observador. © Observador Universal nao observa 0 universo olhando em uma dada diregdo, ou tomando nota dos dados registrados em detenminado arranjo experimental, mas tendo o universo presente como objeto de sua conscigneia®> Por conta de sua posi¢ao metafisiea idealista Popper considerou que “Schrodinger era um parmediano confesso (interpretava o “ser uno” de Parménides como pensamento ou conscigneia)” (POPPER. 2014, p 237)°*. Schridinger desenvolveu uma filosofia idealista u “mentalista” influenciada pelo pensamento indiano antigo*’, mas parece que Popper preferiu omitir a influéncia do pensamento oriental e enfatizar a presenga de Parménides no pensamento do formulador da mecdnica ondulatéria. Em linhas gerais, de sua obra Minha Concepcéo do Mimdo podemos dizer que Schrodinger acreditava que todos os entes, tanto os psiquicos, para os quais cabem nomes como “eu” e “tu”, quanto os fisicos, que chamamos de “elétrons”, “fotons” e assim por diante, formam uma unidade. A impossibilidade de separagao entre sujeito e objeto, j4 abragada em obras como Ciéncia e Humanismo (Schrodinger, 1996)°*, é levada a0 extremo em stia cosmovisio idealista quando defende em Minha Concepeao do Mundo que a “hipotese do nnmdo exterior real” ndo & mais plausivel ou menos metafisica do que a hipétese de que “em tealidade todos somos unicamente aspectos diversos do Uno”*” (SCHRODINGER, 1988. p. 125). E o Uno ~ e como Popper afirma, deve ser entendido como “consciéncia” na metafisica de Schrodinger ~ que estabelece a “totalidade do mundo” (SCHRODINGER, 1988, p. 38). Esse idealismo permitiria a Schrddinger reintroduzir o determinismo na mecnica quantica, pois, afinal, como destaea Piza, por meio dele poderiamos inferir que o ® Com essa explanagao mio assumimes simplesmente que o “postulado da observagio interna” ov da “intvospecgio” seja mais consistent, sob qualquer aspecto, que a “teoria do observador externo % POPPER. K. O Mundo de Parmenides: Ensaios sobre o Imninismo pré-socratico. Sao Paulo: Esitora ‘Unesp. 2014 SILVA, V. C. A Filosofia da Narureza de Erwin Sehi¥dinger. Ensaios Filos6ficos.v. IV.p. 167.2011, ® SCHRODINGER, E. 4 Natureza e 0s Gregos: seguido de Ciencia e Humanisma. Lisboa. Edges 70, 1996 * Tmnportante fisar que Schiddinger nao pretende extrait uma ontolowia da Hilosofia indiana, tampouco afima que a mesma pode ser organizada em um sistema de sentensas logieas, enfatizando que dela podemos ‘obter um postulado ético (1988, p. 125) Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT - v. 2.2 (2017) 95 ‘movimento aparentemente acausal de todos os étomos seria, em tiltima insténcia, controlado, ou determinado, por uma variivel oculta absoluta (PIZA. 2007, p. 277)** ‘Vamos assumir momentaneamente a teoria de Wigner de que so 05 eventos de observagaio dos sistemas fisicos que promovem a passagem dos entes quanticos potenciais ou virtuais para entes quanticos “atuais”, mensurdveis®, ou seja, de que é 0 observador que provoca 0 colapso da fungao de onda. Se os eventos de observagao é que promovem a (tualizagdo” da realidade, a passagem da possibilidade matematica 4 realidade fisiea, 0 que ocorre com o universo, uma vez que nunca é globalmente observado? Como responderiamos a tal questio a partir da “teoria da unidade e totalidade do mundo” de Schrédinger? Como o universo nao oseila entre o ser e o néo-ser, pois sempre 6, ento deve haver, necessariamente, um evento universal de observagdo, por meio do qual 0 universo nao € somente uma miriade infindavel de sistemas potenciais inobserviveis, mas se atualiza como 0 universo fisico que observamos. O universo nunca deixa de ser “observado”, por que, na terminologia de Schrédinger, nunca perde sua totalidade e unidade, nunca deixa de estar presente no Uno. % Coufonmne Piza a0 se referir a adesto de Schridinger a0 pensamento indiano: “..) 0 Bu, no sentido mais amplo do termo, € quem controla 0 movimento dos atomos de acordo com as les da Nanureza. Essa posigao € confrontada com a dos Upanishads (Athman=Braliman, o eu passoal identificado com eu onipresente & eterno) ¢ coma frase dos misticos: Deus Factus sum (Eu me fiz Deus)”. Ver: PIZA. AF.RT. Schrodinger e Heisenberg: 4 Fisica além do senso comun. Sio Paulo: Odysseus, 200 Hngh Everett oferece uma interpretaclo alternativa para tal questo em “Relative State” Formulation of Quantum Mechanics, negando qualquer passagem do “potencial ao atual”. Para Everett, em uma Superposigio quantica, todos os estados superpostos so igualmente atuais, todos sio objetivamente existentes: “Toda a questao da transigao do ‘possivel” para “real” é tratada uma maneira muito simples na teoria - nfo existe essa transicRo, nem € necessiria uma transigao para que a teoria esteja de acordo com a nossa experiéneia, Do ponto de vista da teoria, todos elementos de uma superposicao (todos os “ramos") sao ‘reais’, nenlnum mais “real” que todos os demais, E desnecessirio supor que todos, exceto um, sejamt de alguma forma destruidos, uma vez que todos os elementos separados de uma superposicto obedecem individualmente a equagao da onda com completa indiferenca & presenga ou auséacia (‘atualidade’ ou 20) {de quaisquer outros elementos® (EVERETT. 1957, p. 15), Ver: EVERETT, H, “Relative Siaie” Formulation of Quem Mechanics. Rev. Mod. Phys. 29, 454, 1957, Para nossos propositos aniais ¢ importante frisar a0 menos dais pontos acerca da interpretacio de Everett: (1) Na fomulacto da MQ de Everett & possivel considerar a existéncia nao somente de fansoes de onda de sistemas fisicos pasticulares (desta ou daquela particula, por exemplo), mas também da “fungio de onda do universo” (Lim dos aspectos presentes no debate entre Wigner, Margeneau Putnam), estendendo as implicagoes da MQ 4 cosmologia ¢ (2) Se em uma superposigao de estadas quanticos emaranhadas cada estado é iguslmente “atual", no havendo colapso da fungao de onda (pois quando 0 observador realiza a medicao de um estado, todos os demais permanecem existindo de modo independente), se segue, na interpretagao convencional da teoria de Everett, que cada estado “atual” ndo observado constinii parte de um mundo igualmente independente — dai a teoria ser também conhecida como “teoria dos nmitos mmundos”. Para saber mais ver Freitas e Freire Jr. (2008), op. cit. * Para saber mais: SCHRODINGER. E. Mi concépcion del Mundo. Barcelona: Tusquets Editores, 1988 Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT - v. 2.2 (2017) 96 fisico-filésofo britanico James Jeans também defendeu uma posigao metafisica semelhante 4 de Schrodinger“. Para Jeans “Um pensamento ou ideia nfo existe sem que exista uma mente que o pensa” (JEANS. 1932, p. 1988). Em seguida assume que todos 05 objetos fisicos existem enquanto “ideias”. Ora, © que promove a unificagaio do real se mesmo objeto existe como ideia em 7 mentes diferentes? O que se passa com o objeto x quando ninguém o percebe ¢ ele nao se encontra presente em nenhuma mente? Desaparece? Deixa de ser? O problema s6 se resolve quando introduzimos no sistema una mente que seja universal, na qual todos os objetos estejam inintermuptamente presentes: © planeta Phutao, por exemplo, existia hé muito tempo antes que uma ‘mente hinmana existisse. (..) Consideragtes como essa levaram Berkeley a postular um Espirito Etemo, cuja mente observa todos os objetos que existem (...) A cigneia modema, me parece, nos conduz, por outras vias, a ‘uma conclusto no muito diferente. (JEANS. 1932, p. 188-189) E prossegue Nao ha discusstio se “o objeto existe em minha mente ou na mente de outro individuo”; sua objetividade decorre de sua existéncia na mente de um “Espirito Etemo”, JEANS. 1932, p. 188-189) Embora sejam concepgdes distintas, com histérias e sutilezas filosoficas peculiares, vamos assumir, ainda que “instrumentalmente”, uma equivaléncia logico-semautica entre o conceito de “ser tinico” *” de Schrodinger e o de “Espirito Eterno” de Jeans. De um modo geral e no sistematico, ndo como uma interpretagio formal da mecanica quantica, mas como uma filosofia da natureza, uma concepgo metafisica do mundo a partir dos resultados da cigncia de seu tempo, o que basicamente os autores esto argumentando é que toda entidade existente ¢ uma ideia na conscigncia, que a totalidade das entidades existentes (0 universo) possti unidade, logo deve ser igualmente tratada como uma entidade existente, mas 0 universo nao pode ser una ideia em uma consciéneia particular, logo necessariamente deve existir uma consciéneia universal, que chamaremos de “observador universal”. Aplicando 0 raciocinio ao problema da “fungio de onda do universo”, poderiamos assumir que todos os universos superpostos existem potencialmente * para saber mais, ver: JEANS, James. L imiverso misterioso, Mildo: Treves, 1932. Ver Schrodinger, ao comentar a filosofia vedanta, que assume como “sistema ético": “Em poucas palavras, a assergdo € que 16s, todos os setes Vivos, estamos juntos por que em realidade somos todos os aspectos de lum ser dnico, que na terminologia ocidental € chamado de Deus, mas nos Upanishads se chiama Brahina (SCHRODINGER. 1988, p. 114). Ora, se Deus é a realidade, em sua unicidade e totalidade, entao 0 universo existe em Deus. Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UET - v. 2u. 2 (2017) ” rna conseiéneia do observador universal, e que por algum “motivo”, que nto faria sentido tentarmos xplicar”, o observador promove o colapso da fungo de onda, selecionando ‘um desses universos potenciais ¢ o atualizando como 0 universo fisico objetivo, dentro do qual existem todos os demais seres. Embora nao seja um argumento ontolégico clissico e explicitamente formulado. defendemos que as concepgdes metafisicas de Schrédinger ¢ Jeans possuem wm argumento ontologico implicito, que pode ser resumido em um sistema de definigdes (D), conclusdes (C) e axiomas (A): (As) Axioma 1: Algum universo é positivamente real R: ‘x é real’ T: *x € um universo. ® Com isso ha uma conciliagao entre o mais radical idealismo e © mais rigoroso realismo. O universo & um ente na mente de Deus, nao em nossas mentes. Para cada um de nds a realidade fisica objetiva permancce senddo a mesina, Um elétron, por exemplo, existe independente de ser observado por este ou aquele individio particular, e suas propriedades fisicas nao dependem de qualquer fendmeno de natureza subjetiva. Ora, se Deus éa realidade, em sua nicidade e totalidade, entao o universo existe em Deus. Deus passaria aqui a ser “come” wm coneeito “fisico", ¢ podera ser pensado como um “campo? Em realidade, o proprio nome se tomtatia logicamente desnevessirio ¢ fisicamenteinrelevante? © que importaria conceitualmente seria a admissio de um “campo” G qualquer, com a propriedade de conter a fungio de onda do universo, registrando todos seus estados possiveis? Mas isso nto nos traria grandes dificuldades conceituais? Afinal, lum campo existe no espago-tempo, e se o universo, em sentido geométrco, ¢ a toalidade do espaso-tempo, como poderia haver um “campo” coutendo-o? A natureza desse campo seria nfo-local? Traar-se-ia de um Para que 0 conceito de waiverso nao se aplique também a esse campo, seria necessitia una descontinuidade, um “contorno de conjunto”, enire © campo e 0 universo por ele contido. Qual seria a natureza dessa “descontimidade” ou “singularidade”? Quanto mais avancamos, mais se avolumam as dificuldades os desafios, e maior se toma a demanca por una definigdo clara dos conceitos. Qual resposta 0 idealismo — ou monismo psicofisico — de Jeans e Schrodinger ofetece para o problema do colapso da fangao de onda, e da fimgio de onda do universo? Aqui teriamos ao menos duas possibilidades. On bem hi o colapso da fmeao de onda por meio do evento de observacao (intema/introspeceao). Por meio de algun ‘rocesso interno, dentre fodos os mnundos possiveis, supetpostos na Fngdo de onda, ao G se “deter” ent un, todos os demiais “desvaneceriam”, como pensamentos que deixam de ser 0 objeto de concentragio ou atengao dde um sujeito, ou bem nao ha colapso da fungao de onda co universo, ¢ tosdos os mundos quanticamente possiveis existem igualmente, ¢ assim como esse universo en que habitamos existe objetivamente, associndo 1 um dos estados quanticos da fingao de onda, existem imimeros outros universos fisicamente objetivos, cada qual correspondendo a um estado possivel dentre todas as superposigSes. Em iiltima palavra, 0 idealismo de Jeans ¢ Schrédinger parece compativel tanto com a teoria do colapso por asao do obscrvador extemo, de Wigner, quanto com a teoria dos muitos mundos, em que no hit colapso, de Everett, Evidentemente 0 leitor deve estar atento para o fato de que nessa ocasiao nosso interesse se volta exclusivamente para a exposigio do tema, e para a anilise de suas possiblidades e dificuldades conceituais e lowicas, e nao para uma defesa ou adesto a nenhium sistema metafisico dentre os apresentados. * Temos que tomar por autoevidente que a0 menos wnt wniverso — este em que vivemos — é positivamente real, Por positivamente real entendemos aquilo cuja realidade fisica ¢ objetiva e no apenas potencial. Temos ‘que inttoduzir 0 conceito de “positivamente real” por conta do problema da fungao de onda, que estabelece as categorias de realidade postiva (ou objetiva) e reaidade potencial como conceitos fisicos, Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduagao em Filosofia da UFT - v. 21.2 (2017) 98 3x(Tx A Rx) (Aa) Axioma: Se um observador é observador do universo* entao é Deus, Az ‘x é 0 observador do universo” G é Deus’, vx(Ar > Gr) (D1) Definigao 1: Para todo sistema quantico, uma entidade fisiea é positivamente real se, e somente se, ¢ objeto de um evento de observagiio F:‘y uma entidade fisica’ R: ty é real’ 0: “x é um objeto de observagaio” x((Fx > Ry) <> Or) (D:) Definigio 2: Para todo evento de observagio, wm observador 6, necessariamante, positivamente real R: ‘yé real’ B: ‘x é um observador’. YxRx <9 Sx(Br A Rx) (Ds) Definieso 3: Para todo sistema quintico, algun universo, ao qual pertence, & uma entidade fisica F: ‘y € uma entidade fisica’ T: ‘x € um universo. ve ax(Tx 9 Ex) jpservador Universal’ Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UET - v. 2u. 2 (2017) 99 (C1) Conelusio 1: Se algum universo ¢ positivamente real (R), entdo é objeto de ‘um evento de observagiio T: °x € um universo. Ro ty real’ 0: é um objeto de observagao" Bx(Tx 0 Rx) > Or (C2) Conclusao 2: Se algum universo é objeto de um evento de observagio, entio 0 observador do universo é positivamente real B: ‘x é.um observador’. T: ‘y € um universo. R: ‘x é real’ 0: “xv é um objeto de observaca 3x(Tx \ Ox) > 3x(Ox A Rx) © axioma 2 € deduzido do pressuposto no formal de que somente um ser com os atributos de Deus poderia ser capaz de observar 0 universo globalmente, por ser onisciente © onipresente, evitando assim a sua absurda oscilagao entre o ser ¢ 0 nao-ser. O que o axioma assume é que se ha um observador do universo, entio é Deus. Nesta oportunidade representaremos formalmente o sistema de emmcindos do argumento de Jeans-Schrédinger da seguinte maneira: At. ax(Tx \ Rx) yxy > Gx) 9x((Fr > Ry) © Ov) Dp. ¥x(Rv@ 3x(Be A Rx) Dy. ¥x 3o(Tx A Fx) Cy. Sx(Tx \ Rx) > Or C2, Sa(Tx \ Ox) > 3x(Ox 0 Rx) Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UET - v. 2u. 2 (2017), 100 © que chamamos de argumento de Teans-Schrodinger constitui um sistema logico de enunciados que parte dos pressupostos (1) da realidade objetiva do mundo e (2) de que somente Deus poderia ser um observador universal, apresentados como 0s axiomas do sistema, A existéncia de tal observador universal é demonstrada na conclusio 2. 8 A PROVA ONTOLOGICA DE GODEL“ Kutt Gadel, (1906-1978) famoso por seu teorema da incompletude, ¢ considerndo uum dos mais importantes légicos do século pasado, com importantes trabalhos em ‘matemética pura e fisica tebrica, tendo contribuido para a fisica relativistica com solugdes no estiticas para as equagdes de Einstein, Um universo relativistico de Godel & un universo rotatorio que permite o retrocesso temporal, ou a “viagem ao passado” *” em que ‘um viajante parte de Q e chega a P, sendo que tP >. Conforme Woltzenlogel Paleo, quando os autores enviaram 0 presente trabalho para o Arxiv, a pesquisa nessa area estava s6 comegando, Depois desse abstract, 08 autores publicaram varios papers explorando a fundo muitas variantes da prova ontologica de Gadel, além de outros tépicos relacionados. A maior parte deste -— trabalho est disponivel eu: >. Informagdes bibliogréficas sobre seus prineipais papets estio disponiveis aqui >. Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UFT - v. 2u. 2 (2017) AL a 1 Di AB Ad bz D3 13 ‘Uma propriedade ou sua negacio 6 positiva, mas nfo ambas: ‘Uma propriedade necessariamente implicada por uma propriedade positiva é positiva, As propriedades positivas sao possivelmente exemplificadas: Um ser como-Detr possui todas ‘as propriedades positivas: A propriedade de ser como-Deus & positiva: Possivelmente, Deus existe: As propricdades positivas sao ecessariamente posit A esséncia de um indi propriedade possuida por ele, € necessariamente implica qualquer ‘uma de suas propriedades: Ser como Deus é uma esséncia de qualquer ser como-Deus* A existéncia necessivia de um individuo & a necessivia cexemplifcagto de todas as suas essencias A evisténcia necessaria € uma ropriedade positiva Necessariamente, Deus existe: 107 volPC-O) <> >P (6) V9 VY [P@) A dvs[0) > YO) > PY) VOLP(O) = 03rd (x)] Gx) VOLPE) > 4@)] PO OxG(x) velP() >oP9)] Geass. x= O(x) AWE (Y (X) > OVY 0) > YO) Vx [G(x) > G ess. x] NE (x) © wold ess, x > 03y0G)] P(NE) n3rG(x) A versio de Scott da prova de Godel foi analisada pela primeira vez com um grau de detalie sem precedentes, e formalizada com a ajuda de sheorem provers; ef. [40,39]. Foi feito o seguinte (nesta ordem): ® NT: Godse, no original NT: No original “Being God-like is an essence of any God-like being” Perspectivas - Revista do Programa de Pos-Graduacao em Filosofia da UFT - v. 2.2 (2017) 108 - Uma prova de dedugao natural detalhada - Uma formalizagao dos axiomas, definigdes e teoremas na sintaxe TPTP THF (37) - Verificagdio automatiea da consisténcia dos axiomas e definigdes com Nitpick [24] = Demonstragio automética dos teoremas com os provadores LEO-I [6] ¢ 3]. - Uma formalizagao passo a passo usando o assistente de prova Coq [22] Satallax [ - Uma formalizagao usando 0 assistente de prova Isabelle [34], onde os teoremas (e alguns adicionais lemmata) foram automatizados com Sledgehammer [23] ¢ Matis [33] E um desafio foumalizar e verificar a prova de Godel, pois esta requer wna linguagem légica expressiva com operadores modais (possivelmente e necessariamente) & com quantificadores para individuos e propriedades: Nossas formalizagdes computacionalmente assistidas dependem de uma incorporagao da légica modal por uma logica clissica de ordem superior com semantica de Henkin [5,4]. Assim, a formalizagao é essencialmente feita em légica clissica de ordem superior, onde a légica modal quantificada é emulada, Em nosso estudo computacional em andamento da prova de Godel, obtivemos os seguintes resultados: - A logica modal bisica K ¢ suficiente para provar T1, C e T2 ~ A logica modal $5 nao é necesséria para provar T3; a légica KB é suficiente. = Sem o primeiro conjunto (x) em D2, 0 conjunto de axiomas e definigdes seria inconsistemte - Para provar 0 teorema Tl, apenas a diregdo esquerda-direita do axioma Al é necessiria. No entanto, a diregao reversa de Al é necessiria para provar T2. Este trabalho atesta a maturidade de ferramentas contemporaneas automatizadas e interativas de dedugao para a logica classica de ordem superior e demonstra a elegancia e a relevancia pritiea de abordagens baseadas em embarcamentos®’. Mais importante, nosso NT: A expressio utilizada pelos autores no original é “embeddings-based approach”. Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UFT - v. 2u. 2 (2017) 109 trabalho abre novas perspectivas para uma filosofia tedrica assistida por computador. A diseussio critica dos conceitos subjacentes, definiges e axiomas permanece uma responsabilidade humana, mas 0 computador pode ausiliar na construgdo € verificagio de argumentos légicos rigorosamente corretos. Em caso de disputas logico-filoséficas. 0 computador pode verificar se os argumentos da disputa cumprem parcialmente o ditado de Leibniz: Calculemus - Vamos calcular! 1, RM, Adams. Introductory note to 1970. In Kurt Godel: Collected Works Vol. 3: Unpublished Essays and Letters. Oxford University Press, 1995 2. A.C. Anderson and M. Gettings. Gédel ontological proof revisited. In Gidel’96: Logical Foundations of Mathematics, Computer Science, aud Physics: Lecture Notes in Logie 6, pages 167-172. Springer, 1996. 3. Matthias Bentert, Christoph Benzmiiller, David Streit, and Bruno Woltzenlogel Paleo. Analysis of an ontological proof proposed by Leibuiz. In Charles Tandy, editor, Death and Anti-Death, Volume 14: Four Decades after Michael Polanyi, Three Centuries after G.W. Leibniz. Ria University Press, 2016. 4. C, Benzmitiller and L.C. Paulson, Exploring properties of normal multimodal logies in simple type theory with LEO-II. In Festschrift in Honor of Peter B. Andrews on His 70th. Birthday, pages 386-406, College Publications, 2008, 5. C, Benzmilller and L.C. Paulson. Quantified multimodal logies in simple type theory. Logica Universalis (Special Issue on Multimodal Logics), 7(1):7-20, 2013. 6. C, Benzmiiller, F. Theiss, L. Paulson, and A. Fietzke, LEO-II - a cooperative automatic theorem prover for higher-order logic. In Proc. of IICAR 2008, volume $195 of LNAL pages 162-170. Springer, 2008, 7. Christoph Benzmiiller, Gédel’s ontological argument revisited ~ findings fom a computer-supported analysis (invited). In Ricardo Souza Silvestre and Jean-Yves B’eziau, 0 original foi publicado no arXiv.org da Comell University. Todo 0 texto, © que evidentemente inelui as referéneias, segue outta nomnatizagao que nfo a da ABNT. Decidimos meter a forma ¢ estrutura do original, nao 0 adequando as normas seguidas pela revista. Desta feta, as referéncias que se seguem estio rigorosamente conforme ao do manuscrito original Perspectivas - Revista do Programa de POs-Graduagao em Filosofia da UET - v. 2u. 2 (2017) 110 editors, Handbook of the Ist World Congress on Logic and Religion, Joao Pessoa, Brazil, page 13, 2015. (Invited abstract), 8. Christoph Benzmiiller, Leon Weber, and Brno Woltzenlogel Paleo. Computer-assisted analysis of the Andersou-Hajek ontological controversy. In Ricardo Souza Silvestre and Jean-Yves Beziau, editors, Handbook of the Ist World Congress on Logic and Reli Joao Pessoa, Brasil, pages 53-54, 2015. (superseded by 2016 article in Logica Universalis) 9. Christoph Benzmiiller, Leon Weber, and Brno Woltzenlogel Paleo. Computer-assisted analysis of the Anderson-H’ajek controversy. Logica Universalis, 11(1):139-151, 2017. 10. Christoph Benzmiiller and Bruno Woltzenlogel Paleo. Gédel’s God in Isabelle/HOL. Archive of Formal Proofs, 2013. (Formally verified). 11, Christoph Benzmiiller and Bruno Woltzenlogel Paleo. Gédel’s God on the computer. In S. Schulz, G. Sutcliffe, and B. Konev, editors, Proceedings of the 10th Intemational Workshop on the Implementation of Logics, 2013. (Invited paper), 12. Christoph Beazmmiller and Bruno Woltzenlogel Paleo. Automating Gédel’s ontological proof of God’s existence with higher-order automated theorem provers. In Torsten Schaub, Gerhard Friedrich, and Barry O'Sullivan, editors, ECAI 2014, volume 263 of Frontiers in Axtificial Intelligence and Applications, pages 93 — 98. IOS Press, 2014. 13, Christoph Benzmiller and Bruno Woltzenlogel Paleo. 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