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1 Com vocês, Samurai X

Samurai X ou Rurouni Kenshin na língua original, a japonesa, alcança o público


brasileiro de inícios de 1999 até inícios de 2000 exibido pelo programa Tv Globinho
(Rede Globo) e entre 2001 e 2002 pelo bloco de animes do canal Cartoon Network.

Diferente das produções norte-americanas sempre presentes na grade televisiva e


sendo absolutamente distante da realidade brasileira (de novo: a obra é japonesa), havia
uma série de elementos considerados polêmicos para aquele contexto do Brasil, pautado
pelo crescimento do grupo dos evangélicos neopentecostais mais conservadores.

Se por um lado falamos de uma obra que desafiava as visões do que seria o Satã
cristão, por outro falamos de um dos desenhos mais desafiadores para a televisão
brasileira (como todos os animes o são): para atenuar um pouco a mensagem de seus
elementos, episódios foram exibidos fora de ordem, com erros de corte e o próprio
horário inicial de exibição, o matutino, impensável, precisou ser revisto. Ninguém
espera ver um samurai cortando cabeças, braços e fazendo uma meia lua no ar na hora
do café da manhã.

No entanto, considerando somente os elementos narrativos e a “moral da história”


de Samurai X, podemos compreender a necessidade de pensá-lo como um ícone da
indústria cultural japonesa; podemos dizer, um clássico sobre sua própria história
(1868).
Ao nosso ver, há pelo menos dois símbolos dentro da série: a figura samurai e sua
lógica, e a questão da relação japonês/modernização.

Enfim, aqui o fã e o pesquisador podem se fundir para tentar demonstrar os


motivos de Samurai X ainda ser uma obra presente no imaginário de uma juventude de
18-35 anos, pois nela ficamos conhecendo em um só esforço midiático a história do
Japão, a história dos samurai e os usos possíveis dessa lógica samurai pela vida do
personagem principal, Kenshin Himura. Vejamos.

2 Um pouco de história.

O autor, Nobuhiro Watsuki (1970 –), pensou o seguinte contexto: no interior do


Japão Meiji de 1868-1912, encontramos Himura Battousai, o famoso espadachim de
finais do governo Tokugawa (1600-1868), buscando restauração pessoal pelos seus atos
de quando era um retalhador.

Como sabemos, antes da famosa Renovação Meiji – quando o poder real de


legislar e defender os interesses nacionais é devolvido ao imperador – o Japão estava em
convulsão; havia a crise interna do próprio sistema Tokugawa, causada pela perda
crescente de poder prático das elites locais e o próprio xogunato Tokugawa estava
enfraquecido perante o aumento dos interesses estrangeiros pelo Japão.

Os senhores locais, conhecidos daimyo, estavam superando o poder central


através de estreitas relações com o grupo de comerciantes, chōnin, desde sempre
malvistos pelo seu potencial poder de influenciar as bases tradicionais japonesas,
através da introdução de artigos ou ideias comerciais não conhecidas e potencialmente
perigosas.

Neste contexto moderno (1640-1857) temos notícia de intensas relações entre


japoneses e holandeses para o estudo das “coisas de Holanda”, como ciência, religião,
matemática e política (balística). Isso faz ruir aquelas ideias datadas de isolamento e
ocidentalização, visto que os japoneses já lidavam com este intenso fluxo de ideias
muito antes e, mesmo após esse contexto crítico, precisaram analisar as ideias ocidentais
que viriam a conhecer.

A estes fatos podemos somar o choque civilizacional ocasionado pela chegada de


Perry, o comodoro norte-americano designado para missões de dominação e expansão
da influência desta nação para outras áreas menos conhecidas ou menos dominadas
pelas potências europeias.

A intenção de Perry era abrir os portos japoneses para negociações com os EUA e
nesta primeira oportunidade a assinatura do Tratado de comércio de Kanagawa (1854).
O movimento seguinte, seu retorno em 1857, marca essa intenção imperialista com mais
ênfase, visto que a abertura foi imposta junto a concessão de espaços para órgãos
ocidentais como consulados, mercados e escolas.

Assim, o Japão fora desafiado e vencido, visto que os samurais não conseguiriam
fazer frente aos efetivos militares estrangeiros, quando eles se acreditavam invencíveis
se aplicassem a ética samurai!

O xogunato passa a ser considerado inábil e passível de críticas. Aqui já temos o


rascunho do famoso período do Bakumatsu (1853-1867), quando grupos liderados pelos
samurais de Satsuma e Chōsū impetram o lema “reverenciar o imperador, expulsar os
bárbaros” (Sonnō jōi). Na famosa batalha de Toba-Fushimi (27 a 31 de janeiro de 1868)
o xogunato foi vencido e vitória imperial foi proclamada, dando início ao reinado de
Mutsuhito (imperador Meiji) e seu corpo de ministros.

Esse apanhado histórico é necessário, pois toda a história de Samurai X se passa


durante esses acontecimentos e ficamos conhecendo Kenshin no meio disso tudo.
Hitokiri no Battousai. Foi assim que Kenshin Himura ficou conhecido no período
imediatamente anterior as intensas transformações da modernização.

Durante o período de desordem que antecede a renovação da figura imperial,


nosso herói vivia de vender seus serviços de espadachim. Com a derrota do projeto
nacionalista dos samurais, Himura começa a repensar os seus atos e assume uma vida de
peregrinação para expiar os seus pecados.

Sua história havia se tornado uma lenda, pois os atos para os quais era contratado,
basicamente, consistiam em eliminar alvos de senhores locais. Um daimyo é senhor de
terras, do trabalho dos camponeses e de parte da produção. Seu domínio podia ou não
possuir uma guarnição destacada para proteger ou atacar outros daimyo. Kenshin era
contratado para invadir essa defesa e eliminar o poder nas cúpulas.
Dados os sucessos, ficou conhecido pela alcunha que citamos, Retalhador, e
tornou o seu estilo de combate igualmente conhecido – o estilo Hiten Mitsurugi.

Em suas andanças, encontra um bairro de Edo onde um farsante usa o seu nome e
alcunha para fazer maldades e vilanias. Dentre elas, invadir casas de artes marciais,
como o Dojô Kamiya, regido por Kaoru Kamiya. Nossa história começa aqui.

Kaoru merece uma olhada mais detida: filha de um samurai, portador do estilo
Kamiya (também uma invenção), Kaoru assume a tarefa de liderar e organizar a escola
com o falecimento do pai.

A imagem retratada é pouco usual, mas não inexistente como se pensa, visto que
as mulheres que se envolviam com o estudo de artes marciais realmente existiram – as
chamadas onna-bugeisha.

O aspecto interessante é retratá-las nesse momento Meiji, pois depois da


restauração, assim como os homens samurai, elas foram proibidas de ensinar os seus
caminhos da arte. Às mulheres seria permitido o aprendizado de artes sociais e o
caminho da gueixa – as damas de companhia que poderiam ou não lidar com o sexo.

Kaoru é uma mulher com liderança num Japão machista, que não somente sabe se
defender, mas tem o senso do código samurai entranhado muito mais que Kenshin,
homem. A autoria de Nobuhiro conduz a uma reavaliação do lugar histórico da figura
feminina? Penso que sim.
Ela estaria disposta a morrer pela honra do estilo, contudo a cena tem um desfecho
feliz: o vilão é detido após a intervenção de Kenshin. Kaoru e Kenshin se envolvem
minimamente: ela deixa ele se instalar em sua casa, compartilha de sua comida e
espaço, usa de seus serviços para manter as coisas em ordem e a história começa com os
dois.

Não é um relacionamento tão romântico, mas notamos de cara o envolvimento e o


possível desenvolvimento dele como fio condutor de algumas situações. Afinal,
Kenshin precisa dela para se reencontrar. Precisa ter alguém para começar a reavaliar o
peso do seu passado e estar na posição de aprendiz pode ser crucial para a retomada da
sua identidade – ou a sua reconstrução.

Ele tem um trauma, de ter sido um retalhador, e isso o faz mudar de


personalidade, para tentar simular ser outra pessoa; ele foge do seu próprio eu, forjado
nos anos de intensas batalhas. Esse retrato é mais bem definido na série de filmes do
que na animação.
A sua percepção de si mesmo e da sociedade estava em reconstrução, e todas
essas transformações subjetivas passariam a ter o relacionamento, o amor (à moda
japonesa) como baliza.

Conhecer Kaoru lhe permitiria juntar os cacos da história, contando duas grandes
questões mentais: o seu lugar no mundo em transformação e o seu eu necessitado de
reformulação.

Por tabela, conhecer Kenshin leva a todos os outros personagens do seu círculo.
Somos apresentados a mais integrantes desse grupo: Sanosuke Sagara, inicialmente um
bad boy; Hajime Saito, “ex-samurai” como Himura, mas que entrou no setor da
segurança pública com muito menos danos psicológicos; Yahiko Myōjin, um jovem
dado como pagamento por uma dívida familiar, resgatado por Kenshin.

Saito foi um dos samurais que rivalizava com Himura em tempos de matança.
Ambos participaram do grupo de samurais servidores do xogum, o Shinsengumi. Saito
ficou conhecido por sua técnica extremamente rápida e mortal, focada na perfuração de
longa distância (gatotsu).

A parte interessante sobre ele é a sua inspiração em uma figura histórica real da
história japonesa, Yamaguchi Hajime (1844-1915), também samurai e pertencente do
Shinsengumi. A diferença entre ambos é que na ficção Saito sobrevive ao período e ao
deixar a causa pró-xogunato torna-se um respeitado policial e investigador.

Sanosuke chamado “Sano” em nossa dublagem, era um membro da tropa Sekihō,


de acordo com a narrativa, uma força paramilitar que objetivava a reforma agrária e um
desenvolvimento menos acelerado da modernização, mas que foi perseguida e
eliminada pelas forças do governo Meiji. Sanosuke sobrevive ao massacra graças ao
sacrifício do líder da tropa que o criou como se fosse um pai. O ódio nutrido por esse
personagem vai sendo tratado aos poucos, mas demonstra a possibilidade de a
incompreensão das desigualdades ser o gatilho de ações sociais delinquentes.

Yahiko, uma criança que foi dada por seus pais como pagamento de uma dívida,
servia em casas ao redor do Kyoto, sendo resgatado por Kenshin. O jovem passa a
integrar esse círculo íntimo de nosso protagonista, que assume o dever de lhe ensinar o
caminho da espada para autodefesa e autoconhecimento. Embora ainda um menino,
Yahiko vai se tornando um espadachim e ingressa seu estudo no estilo Kamiya Kasshin,
e se torna um dos aliados mais confiáveis de Kenshin na história. Todos orbitam a vida
de Himura tendo como missão mostrar possíveis respostas ao grande questionamento
sobre os rumos possíveis para as pessoas em contextos de grandes transformações na
conjuntura.

Himura e todos os demais personagens que aparecem, encontram-se em um


profundo desencaixe nesse estado de coisas. Estão fora do lugar por não terem
participado totalmente da renovação e da política que dela nasceu.

Por exemplo, aos samurais não foi permitida total participação na montagem
dessa sociedade moderna, pois eram uma força potencialmente disruptiva, que poderia
colocar tudo a perder nesse processo. A qualquer momento poderiam pegar em armas e
retomar a lógica do xogunato.

Não atoa o primeiro elemento a ser repensado foi a estrutura de classes e a


abolição das classes anteriormente estabelecidas em prol de algo mais moderno, dentre
estas os samurais.

De certa forma, a primeira imagem de Kenshin como um andarilho que chega a


alterar sua personalidade é uma forma de Nobuhiro mostrar a capacidade opressiva da
transformação operada pelas elites Meiji, quando se desfaz de grupos sociais inteiros.

Samurai X, portanto, apresenta uma visão da modernização: Kenshin, Kaoru,


Sano, Yahiko e Saito são amostragens ficcionais originais e riquíssimas dessa história
da era Meiji. Eles são as partes de um discurso sobre Meiji de Nobuhiro para o fã
japonês – e para nós? – que ainda não foi totalmente datado e permeia nossos
imaginários sobre o que é o Japão.