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CRIAÇÃO DA FILOSOFIA: MITO, LOGOS E CIÊNCIA/ TEMA

1 – Parte 01

A filosofia é uma área de conhecimento estranha a quem com ela não tem proximidade e
nem com ela convive na dimensão acadêmica. Porém, é um sistema de conhecimento que trata de
nossa vida enquanto seres históricos com racionalidade objetivas, concretas e metafísicas, pois
somos compostos de emoções, de razão, de experiências materiais e de desejos.
Filosofar é trazer à tona realidades nossas do dia a dia por meio de reflexões
minuciosamente iluminadas por meio da razão e de sentimentos, pois somos compostos dessas
prerrogativas categoriais como dualidades em nossa composição ontológica, ou seja, sentimentos,
emoções e raciocínios lógicos fazem parte de nós e a filosofia sistemática nos ajuda a organizá-los de
acordo com nossas contingências históricas e nossas circunstâncias socioculturais.
A filosofia trata do ser humano na perspectiva holística, ou seja, como um todo do ser, seja
na materialidade do corpo, seja na imaterialidade subjetiva, seja na perspectiva ontológica humana
de manter o pretérito no presente e, este, em expectativa no futuro. A filosofia é própria do ser
humano ocidental que convive com a natureza que existe em dimensões diferente deixando o
humano numa solidão profunda levando-o à reflexão em si mesmo e à sua relação social na cultural
e na própria natureza.
A filosofia trata do comportamento ideal humano em sociedade e na cultura chamado de
moral e estudada pela área filosófica da ética, pois em grego clássico significa hábitos, costumes e
maneiras de ser onde o individual se agrega ou se mescla ao coletivo compondo a substância da
realidade dos juízos de valores sociais, culturais, políticos e institucionais.
A filosofia trata, também, das maneiras como podemos alcançar, descobrir ou criar
conhecimentos chamada de epistemologia, pois episteme, do grego clássico, significa conhecimento
elogia deriva do termo básico da filosofia que é o logos: raciocínio lógico, dialético, coerente,
articulado.
Ética na conjuntura social em que vivemos e epistemologia como meio para conhecermos
realidades que nos cercam e das quais fazemos parte são instrumentos oferecidos pela filosofia para
nos hominizarmos, ou seja, nos tornarmos cada vez mais humanos na tendência da tolerância na
diversidade sociocultural e na disputa por melhores lugares, situações e condições nesta sociedade
de concorrência acirrada.
A filosofia nos oferece instrumentos racionais e emocionais por meio da estética que é a
área da filosofia que estuda o belo, a beleza e seus contrários porque, etimologicamente, estética
deriva extesis que, por sua vez, conota a capacidade humana de se espantar com o diferente tanto
para admirar como para repudiar a exemplo de assistir a uma ação humanitária, um por do sol que
mecha com nossas emoções e carências de saudades e de necessidade de complementação na
dicotomia do Eros e dos Poros na dualidade do amor como expressão do sentimento humano
sublime e maior.
A filosofia é como a água, se infiltra e se entranha nos seres materiais e imateriais
fornecendo oxigênio a quem precisa se entender e se situar nesta misteriosa existência, mas que
nem por isso deixa de ser exuberante e encantadora.

CRIAÇÃO DA FILOSOFIA: MITO, LOGOS E CIÊNCIA

A filosofia é uma prática pela qual o humano se constrói como ser racional, histórico e social
agindo como protagonista, crítico e sempre inovador de suas condições concretas na sociedade.
Porém, abordar a filosofia em seus primeiros momentos de criação é necessário fazer referências ao
mito, pois foi em contraponto a esse raciocínio narrativo coerente que os primeiros filósofos
iniciaram a construção (ou descoberta) do logos (raciocínio dialético) como potencial intelectual
humano.
Tradicionalmente, o filosofar foi criado numa mudança de perspectiva de leitura de mundo,
pois antes da prática do logos pelos filósofos pré-socráticos, o mundo era lido somente por meio das
narrações míticas construídas emocionalmente através de raciocínios narrativos acerca da existência
dos entes naturais e humanos.
Porém, o fato do ser humano ter descoberto, desenvolvido e construído a sua potência
racional não significa que ele tenha deixado de ser mítico, emocional, religioso e artístico, pois
desenvolver um potencial não significa anular os que já existiam.
O mito é praticado simultaneamente com a filosofia e com a ciência porque não há
sociedade humana sem mitologia. Houve e ainda há sociedades sem filosofia e sem ciência, mas sem
mito não existe porque o ser humano se compõe cronologicamente em três dimensões: passado,
presente e futuro e as construções míticas tratam da gênese e da origem de tudo que existe,
portanto, do passado que é praticado no presente em perspectiva, ou seja, no devir, no ideal da
existência, no que pode ou poderia ter sido nos primórdios da humanidade em simultaneidade com
o seu vir a ser: o devir.
O ser humano cria significados para a existência por meio de linguagens nos sistemas
míticos, nos sistemas do senso comum, nos postulados filosóficos e nas teorias científicas. Portanto,
o devir é o próprio humano em sua angústia de ser feliz e se libertar na ociosidade da existência, por
exemplo, o que seria do humano sem memória, sem futuro, sem perspectiva. Dizendo de outra
maneira, o ser humano cria significados e sentidos para a sua existência e a tudo o que existe em sua
circunstância.
Sem o mito não haveria filosofia e nem ciência, pois essa tríade é uma sequência que se
tornou simultânea, ou seja, pela perspectiva da evolução, a construção humana é composta pela fase
do raciocínio mítico, pela fase do senso comum, pela fase da filosofia e atualmente se experimenta a
fase científica e tecnológica.
Nas disputas de entidades míticas, geralmente, são metáforas para ilustrar a dicotomia de
gênero e de qualitativos bem/mal, escuro/claro, divindade/humanidade.
A filosofia foi criada como uma das possiblidades de explicação de realidades externas e
internas do ser humano proporcionando, assim, raciocínios críticos e construções inquietantes acerca
da existência e da procura pela unicidade ontológica de tudo o que existe. Em suas primeiras
construções, contribuiu com a construção da
organização da cidade, com a sedimentação do raciocínio sistematizado para a criação da
ciência como entidade composta por conhecimentos idealmente válidos para o conforto humano.
A ciência foi criada e é construída por meio de descobertas e de invenções tecnológicas para
elucidar mistérios e oferecer produtos que aliviem as angústias espirituais e corporais humanas.
Filosofia e ciência coexistem numa espécie de indiferença ao mito, porém, este é sobreposto à
história cronológica enfatizando a memória emocional humana nos rituais nos quais são cultuados
eventos e entidades sagradas lembradas pelos humanos para se confortar dizendo a si mesma que
“vale a pena viver”, pois é melhor está aqui a morrer sem qualquer segurança acerca do que virá.
O mito é universal, atemporal e não tem a pretensão de explicar a existência, pois somente
narra a origem dos deuses (teogonia) e a do universo harmonioso (cosmogonia). O mito também
estrutura (sistematiza) as sociedades e suas regras morais, pois derivam dessas narrações acerca das
origens de todos os seres.

FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA ANTIGA: PERÍODO SOCRÁTICO/


TEMA 01 - PARTE 02

Após a criação da filosofia e de suas respectivas construções acerca da arché pelos pré-
socráticos, os filósofos da fase socrática (séculos V-IV a. C.) dedicaram-se a postulados acerca do ser
humano enquanto ente racional e social perscrutando o humano em sua complexa composição:
social, psicológica, política, metafísica, mítica.
Pode-se dizer que essa mudança de abordagens da filosofia na Grécia Antiga tenha ligação
direta com as construções sociais e humanas experimentadas na criação, no apogeu e no declínio do
sistema democrático ateniense da época em que Péricles governou Atenas (século V a. C.) e adotou a
legislação elaborada por Clístenes (século VI a. C.). Portanto, os interesses dos filósofos socráticos
pelas questões humanas enquanto ser social e político são frutos das realidades da polis porque a
filosofia “é filha da cidade” e o ser humano se inquieta e se constrói na convivência se desdobrando
em suas propriedades individuais e em seus deveres na coletividade.
A polis impõe aos gregos criações de atitudes como a cidadania que é a ação individual no
espaço social na qual são construídas interlocuções de interesses individuais com os da coletividade
gerando, assim, as leis para convergirem direitos e deveres individuais em prol da coletividade.

Escola Platônica
Platão (Atenas, 427-347 a. C.) se chamava Aristócles. Por conta de sua alta estatura e dos
ombros largos o apelidaram de Platão que, em grego, significa ombros largos. Foi discípulo de
Sócrates, considerado o pai da filosofia. De origem abastada, viajou durante doze anos depois da
morte de Sócrates em 399 a. C. Retornou a Atenas em 387 a. C., fundou a Academia (escola de
filosofia, na qual só entrava quem tivesse conhecimento em geometria. Deu esse nome à sua escola
porque ela estava situada no jardim do herói acedemos) e retomou postulados de Sócrates dizendo
que a ideia não é somente um conhecimento verdadeiro, pois ela é o próprio ser, ela é a ideia
verdadeira e absoluta e eterna que existe independentemente de nós e os objetos sensíveis são
apenas reflexões definindo, assim, a base de seu postulado filosófico:
- O mundo sensível: visível, ilusório e dos reflexos;
- O mundo das ideias: invisível e inteligível.
- Teoria da Reminiscência: antes de a alma encarnar no corpo, ela vive no mundo puro,
absoluto, contemplativo, infinito, eterno, da sabedoria, da imaterialidade, da perfeição. Ao encarnar,
a alma se desequilibra, fica confusa em consequência dos reflexos causados pela constituição de
realidades sensíveis e materiais. A memória é prejudicada e somente pode ser recomposta por meio
do filosofar na direção da sabedoria e do mundo das ideias que é o próprio ser, o ontológico
absoluto.
- A imortalidade da alma que faz parte do próprio ser absoluto; Dentre as obras de Platão, as
mais destacadas são:
- Apologia de Sócrates. Apologia significa defender ou louvar alguém ou algo. Descreve o
julgamento de Sócrates.
- Banquete: discute o que é o amor;
- Geórgia: discute a retórica chamando a atenção para a linguagem que pode ser
considerada uma arma tanto para se defender como para matar. Diz que a sofistica não é filosofia.
Sofística é uma modalidade de instruções argumentativas propostas e ensinadas pelos sofistas.
- Teeteto: discute o que é a ciência;
- Menon: discute o que é a virtude. A virtude poder ser ensinada, aprendida ou é inata sendo
descoberta através de diálogos, da dialética?
- Fédon: discute a imortalidade da alma. Relata os últimos momentos de Sócrates.
- Eutifron: o que é a piedade;
- Crátilo: discute a linguagem, o ato de nomear. As coisas existem por si mesmas ou
dependem de que sejam percebidas por outrem para serem nomeadas e funcionais.
- A República: discute o que é justiça: harmonia da alma, homem e cidade justos, cidade
ideal, função da educação, o papel dos filósofos na cidade ideal: o de governar sem interesse e com
desapego do mundo sensível tão somente visando o bem coletivo, como uma cidade ideal de
governo justo pode se degenerar-se, as leis, o ser político. A república deve ser governada por
pessoas direcionadas pela razão à sabedoria, ao bem, à felicidade inteligível.

Imortalidade da Alma
A imortalidade da alma em Platão é discutida por Sócrates, Símias e Cebes, dois pitagóricos,
no Diálogo (livro) Fédon. Recebe este nome porque o dialogo é contado por Fédon em decorrência
de Platão está doente e não poder estar presente na última noite de vida de Sócrates. Para entendê-
la é necessário ter em mente a Teoria da Reminiscência platônica na qual a alma preexiste ao corpo e
antes de incorporar vivia no Hades. Ou seja, alma é a própria ideia de imortalidade da própria vida,
portanto, sem alma não há vida e a vida é essencialmente a perenidade inteligível sobreposta ao
mundo sensível, pois este é limitado, mortal e perecível.
Platão utiliza o raciocínio dialético para construir a compreensão da imortalidade da alma
através de postulados meta- empíricos porque os motivos da existência sensível estão além do
próprio ente. A alma como princípio de vida traz em sua subjacência a ideia de imortalidade, pois
sem vida há morte e a alma inexistiria.
Platão usa do argumento formal, ou seja, diz que a coisa fria é aquecida pelo fogo. A neve
derrete com o calor dos raios solares. A alma sai da coisa sensível quando a morte se aproxima dela,
por exemplo, quando os órgãos vitais do corpo param de funcionar a alma sai do corpo. Também
utiliza a forma dos opostos dizendo que a beleza existe independentemente da coisa bela ou feia,
pois a beleza é a ideia sublime indestrutível e imortal a todo ente material.
A dicotomia dos mundos sensível e inteligível é base do postulado platônico. É a partir dela
que Platão constrói o mundo das ideias, a teoria da reminiscência e demais conceitos que compõem
o sistema filosófico dele.
Embora a importância maior esteja na dimensão das ideias, Platão considera o mundo
sensível importante para a expiação da alma por meio do corpo carnal. É através do contato com o
mundo sensível que a alma passa a lembrar suas ideias puras e verdadeiras de quando vivia no
mundo inteligível, no mundo das ideias.
Para Platão, o mundo das ideias é o verdadeiro mundo e o mundo sensível é o ilusório, finito
e perecível. Ora, se o mundo sensível é ilusório, então, para que nós vivemos nele? Platão argumenta
que a alma incorpora a matéria para se purificar de erros e falhas em vidas passadas. O mundo
sensível, portanto, tem sua função no conjunto ontológico composto pelo mundo sensível e pelo
inteligível.
Para Platão, o contato da alma com o mundo sensível é necessário para que ela (a alma) se
purifique e direcione para o conhecimento a fim de enriquecer a alma e torná-la mais próxima do ser
absoluto e centro da felicidade eterna.
A primeira abordagem acerca da justiça feita por Platão está no livro A República I. Nele
Platão conceitua a dialética como método do diálogo composto pela hipótese a respeito de
determinado assunto. portanto, para confirmar ou refutar a hipótese fomentadora da construção do
conhecimento por meio da dialética da contradição que Platão chama de elenchos.
Encontravam-se Sócrates e outras pessoas reunidas quando a pergunta é feita por Sócrates.
Céfalo, amigo de Sócrates, diz que a justiça é sempre dizer a verdade e devolver o que foi tomado
emprestado. Sócrates pergunta se é justo devolver uma arma a um amigo translúcido, pois ele a
pode utilizar para tirar a própria vida ou a de outra pessoa. Portanto, poupar o amigo é uma ação de
justiça, mesmo que a aparência mostre que a justiça seja devolver a arma a seu proprietário,
portanto, aqui há uma aparente concepção da relatividade do que seja a justiça, mas não é, pois a
justiça, mesmo não sendo justa em si mesma, é praticada nos atos humanos e considerá-la em suas
consequências é um dever do justo.
Polemarco, filho de Céfalo, diz que a justiça é beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos.
Ora, a justiça não pode prejudicar quem que seja, nem os inimigos. A justiça deve ser a excelência e a
virtude humanas, pois o virtuoso e o excelente por igual a outros pode ser feliz, ou seja, o injusto não
é feliz e a meta da existência humana é a felicidade. A justiça deve ser direito de todos porque todos
têm direito à felicidade.
Trasímaco, sofista astuto, diz a Sócrates e aos demais presentes que justiça é fraqueza e
idiotice, pois ninguém se interessa por ela em si mesma porque o que há de movedor na sociedade é
o interesse particular e se há possibilidade de agir injustamente sem que seja percebida a pessoa não
pensa duas vezes e age.
A justiça é sempre o que pode ser e é vantajoso aos que estão no poder, na administração da
sociedade, pois tanto a moral como as leis são criadas para proteger seus interesses
indiferentemente aos interesses da coletividade. Ou seja, a justiça é ação de autossatisfação material
e não de consciência, pois o justo age para ser feliz consigo mesmo, ficar em paz com sua
consciência.
Gláucon e Adimanto, irmãos de Platão, argumentam que a justiça é age para evitar o mal.
Entre os seres humanos, age-se para parecer justo e não necessariamente com justiça por interesse
individual de ser justo, pois a injustiça é um contraponto da justiça somente no sentido de evitar
punições na sociedade e diante dos deuses que podem ser perdoadas com orações e sacrifícios.
Sócrates refuta a afirmação de Adimanto dizendo que a justiça é uma necessidade das
pessoas na convivência na Polis, pois o ser humano tem outras necessidades além das básicas físicas
de comer, de beber e de procriar. A justiça deve ser o equilíbrio social, é a virtude interior que faz o
homem agir voluntariamente sem interesse e sem receio de ser punido, ou seja, deve agir por se
sentir feliz e não agir porque é mandado ou influenciado por forças externas.
Considerando que à época do século V a.C. existiam invasões territoriais com finalidades de
conquistar escravos e terras férteis, Sócrates constrói uma analogia dizendo que a cidade deve ser
composta por três estratos sociais: a dos melhores soldados para governarem, a do restante dos
soldados para combaterem e os demais agricultores e artesãos comporiam o terceiro estrato. Essa
diferença causa uma impressão falsa porque aparenta que os membros de cada estrato social têm
almas com finalidades diferentes, ou seja, os governantes teriam o ouro, os guardas a prata e, os
demais, o bronze. Mas as almas são iguais em objetivos: a felicidade que é conquistada pela ação de
justiça que é resultado da virtude coletiva composta pela sabedoria dos governantes, pela coragem
dos guardas e pela obediência dos governados.
Os governantes e respectivos auxiliares teriam que ser desprovidos de qualquer privilégio e
de bens. Receberem instruções em literatura dos poemas homéricos, de música básica e de ginástica.
As mulheres e os soldados também poderiam ascender a postos de governantes e elas seriam
comuns aos homens de seus respectivos estratos sociais. As crianças seriam instruídas longe dos pais
em educandários porque Platão considerava a educação familiar excessivamente protetora e movida
à emoções comprometendo a formação intelectual e cidadã da criança.
A vida dos governantes não é atraente porque eles são privados de bens e de privilégios
além de terem que viver em comunidades. Porém, essa privação se dá porque a vida da coletividade
é mais importante do que os prazeres e satisfações de seus governantes que devem primar pelas
práticas virtuosas, pois a vida social baseada no equilíbrio da justiça depende das práticas virtuosas
dos indivíduos e dos estratos sociais que compõem a polis, a cidade.
Platão considera a virtude inata ao ser humano e, ao praticá-la fazendo o bem a si mesmo, a
pessoa faz o bem a outem. A virtude é o medidor das ações humanas porque fornece elementos para
que o homem aja com coragem, mas sem valentia e com justiça sem avareza. Fazer justiça é um
dever e agir com coragem é ser virtuoso, portanto, essas três categorias formam uma tríade na
filosofia platônica.
No Diálogo “O Banquete”, Platão diz que o amor é o sentimento procurado pelo humano em
sua própria natureza, ou seja, o homem busca o amor como uma necessidade para fazer sentido à
sua vida. Há quem se contente e se iluda com o amor por prazeres e satisfações materiais, porém, o
verdadeiro amor está pela completude, pela beleza absoluta, pela ideia absoluta que é o próprio ser
em si.
Há uma introspecção ontológica em Platão que lembra a psicanálise contemporânea que a
de que o ser humano precisa construir o amor por si mesmo para alcançar o autoconhecimento que,
por sua vez, teria a consecução da verdade, do absoluto, da realidade perfeita inteligível.

Escola Aristotélica
Aristóteles constrói seu postulado filosófico baseando-se no ser concreto e diz que a alma é
individual. Para ele, o ser é substância em movimento: o devir. Toda substância é perene, mas não
perde sua essência. Retoma a dialética de Heráclito e a justapõe ao absoluto ontológico de
Parmênides dizendo que o ser é absoluto e em contínua transformação sem deixar de perder sua
essência. Critica, também, a teoria platônica da separação dos mundos sensível e inteligível porque o
concreto é o que baseia a realidade, embora esta esteja em contínuo processo de mutação.
A ontologia aristotélica parte do concreto e se estende à metafísica, termo que Andronico de
Rodes, organizador dos livros de Aristóteles para publicação, deu a um texto de Aristóteles de
abordavam ontologia não material e criou um apêndice (Pós-fácil) ao Livro sobre Física e passou a se
chamar Metafísica, ou seja, meta =além e física = natureza, de onde tudo brota. Portanto, metafísica
se tornou a área da filosofia que trata da ontologia não material.
Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, região da Calcídica na Macedônia. Frequentou
a Academia de Platão e se tornou discípulo dele Platão. Foi conselheiro de Alexandre Magno. Funda
sua própria escola chamada de O Liceu, perto do bosque dedicado a Apolo Líelo. Aos seguidores da
filosofia aristotélica chamam: de peripatéticos. O que Atenas havia experimentado de riqueza e
apogeu político com as reformas de Clístenes declinou no século V e faliu no IV a. C. devido à guerra
com Esparta e a invasões dos persas. Evolveu-se e se decepcionou com a política, então, se exilou na
Eubéia, onde morreu. Aristóteles escreve sobre Lógica, Ética, Física, Filosofia, Botânica, Zoologia
Metafísica.
A substância é a essência do ente e a do ser humano é a racionalidade porque mesmo que
ele mude de forma e a ele sejam atribuídos adjetivos continuará sendo o mesmo em essência
(substância). Ser humano masculino: João da Silva. Se João engordou, empalideceu, deixou o cabelo
crescer, estudou, etc. são acidentes que a forma dele sofreu, mas sua substância, sua essência,
continua a mesma madeira.
Essa infinita cadeia ontológica incomodou Aristóteles procurando construir seu postulado na
dimensão material evitando, por conseguinte, a separação platônica dos mundos sensível e
inteligível, criticando tanto Parmênides pelo ser absoluto estável e Heráclito pelo não ser porque o
ser estaria em constante perenidade.
Aristóteles busca esse ser que seja o início e princípio fundamental da existência material e
imaterial que sempre existiu e que antes dele nada tenha existido: é o Motor Imóvel.
Escreveu a obra intitulada Ética a Nicômaco composta por dez livros e o dedicou ao pai dele,
Nicômaco, médico de Amintas II, pai de Filipe da Macedônia. Aristóteles experimentou o declínio e as
consequências do fim do apogeu democrático ateniense, portanto, sua obra acerca da ética está
contextualizada nessas mudanças políticas.
Todas as ações humanas visam o bem, no entanto, cada indivíduo age à sua maneira para
alcançá-lo, então, dada essa diversidade e visando eliminar a diversidade, é necessário agir em busca
do bem absoluto, do bem em si mesmo, porque, assim, o interesse é comum a todos. Porém, é
recomendável não exagerar em certas ações racionais ou emocionais, pois a sociedade é construída
por meio de ações dos cidadãos que devem agir em harmonia evitando as paixões e dando
preferência à razão porque é dela que provém o ser político na sociedade evitando, assim, injustiças
e exageros criando heróis e mártires e desprezando cidadãos que, também, possuem valores sociais
e políticos. Essa busca pelo bem em si mesmo é uma empreitada densa e louvável para ser executada
individualmente, então, todos devem se unir na convivência social para investir nessa busca que será
benéfica a todos. Essa é a finalidade da vida em sociedade e, à época de Aristóteles, a base da
sociedade estava na organização da polis constituída por três tipos de ações distintas: a prazerosa na
futilidade: escrava e bestial, a das regalias sugadas do poder público por meio de cargos no Estado:
defeito grave e prejudicial a todos e a contemplativa: honrosa e ideal, no entanto, fugaz e de
consistência duvidosa.
O bem é polivalente (vários poderes), polissêmico (vários sentidos) e polimorfo (várias
formas) requisitando sua abordagem por diferentes ciências na conceituação básica de substância
(Deus), qualidade (virtudes) ou relação (utilidade), mas sem se desvincular do seu sentido
fundamental: o devir perfeito e prático distanciando-se, assim, do bem inteligível de concepção
unicamente abstrata construído por Platão.O bem efetivo e prático é o caminho para a felicidade que
é o bem absoluto e autossuficiente que elimina a relatividade do bem e o direciona para a única
felicidade que é a almejada por todos. Essa via
prática do bem é viabilizada pela virtude como objetivo prático a ser executado pelos
indivíduos em sociedade em prol do bem coletivo. Ora, mas há outros animais que vivem em
sociedade, em cardumes, em bandos, fauna, revoada, etc., então, esses animais também almejam a
felicidade absoluta? Aristóteles responde que a virtude é o equilíbrio entre o racional e a emoção
sendo a primeira a substância que diferencia o ser humano dos demais animais, no entanto, a
prioridade da razão face à emoção não anula esta porque das coisas, a mais nobre é a justiça, a
melhor é a saúde e a mais doce é alcançar o que ou a quem se ama.
Aristóteles chama a atenção para o fato de que a felicidade é construída na sociedade,
portanto, na convivência e nessa circunstância há contingência que causam danos e percalços
amadurecendo a alma na consecução da felicidade por meio do amadurecimento da prática virtuosa.