Você está na página 1de 9

XXXVIII Congresso Brasileiro de Sistemas Particulados

ENEMP 22 a 25 de outubro de 2017


Departamento de Engenharia Química
2017 Universidade Estadual de Maringá
Maringá - Paraná

SÍNTESE DE ZEÓLITA A PARTIR DAS CINZAS LEVES OBTIDAS DO PROCESSO DE


GASEIFICAÇÃO DO CARVÃO DE CANDIOTA/RS

(dois espaços)
F.P. GUTERRES1*, M.M. MORAIS1, A.R.F. ALMEIDA1, W.H. FLORES1
(um espaço)
1
Universidade Federal do Pampa, Engenharia Química
*e-mail: fernanda_guterres@hotmail.com

(dois espaços)
RESUMO – Zeólitas são minerais, naturais ou sintéticos, que possuem estruturas
cristalinas bem definidas, microporosas e hidratadas. As zeólitas mais comuns são
aluminossilicatos e podem ser sintetizadas a partir de tratamento hidrotérmico de fontes
de Si e Al. As cinzas são os resíduos sólidos da eliminação dos compostos voláteis do
carvão mediante sua queima e são constituídas basicamente por compostos de Si e Al, o
que possibilita sua utilização como matéria-prima para síntese de zeólitas. Pelo exposto,
o objetivo do presente trabalho foi sintetizar e caracterizar zeólita a partir das cinzas leves
obtidas do processo de gaseificação do carvão de Candiota/RS. A síntese da zeólita
procedeu em duas etapas, sendo a primeira a fusão de uma mistura das cinzas com NaOH,
seguida de tratamento hidrotérmico. A zeólita sintetizada foi caracterizada quanto à sua
granulometria, massa específica real e aparente, área específica e fases cristalinas. A
zeólita obtida apresentou 18,39 μm de diâmetro médio. O valor de massa específica real
obtido foi de 2,38 g.cm-3 e a porosidade do leito estático das partículas foi de 0,81. Foi
obtido um valor de 33,936 m2.g-1 de área específica para a zeólita. Através das fases
cristalinas, pôde-se concluir que foi sintetizada a zeólita tipo sodalita.
(dois espaços)

indicados para uso no processo de gaseificação,


INTRODUÇÃO
(um espaço) o qual permite um melhor aproveitamento do
poder calorífico do carvão e aumenta a
O carvão mineral é considerado a mais
eficiência da conversão em energia elétrica
importante e a mais abundante reserva
(ANEEL, 2008; KALKREUTH et al. 2011;
energética não-renovável do planeta, tendo
ROHDE e MACHADO, 2016; CGTEE, 2017).
cerca de 109 anos de vida útil (BORBA, 2001;
A gaseificação do carvão acontece
PLANO ENERGÉTICO DO RIO GRANDE
quando o carvão reage com oxigênio
DO SUL, 2016). As reservas mundiais de
subestequiométrico e vapor d’água resultando
carvão mineral estão localizadas, em sua maior
em um gás combustível, chamado syngas ou
parte, nos Estados Unidos, países da antiga
gás de síntese, que pode ser utilizado como
União Soviética, China, Índia e Austrália
substituto do gás natural, ou ainda para
(SPEIGHT, 2009). No Brasil, as reservas mais
produção de produtos químicos ou líquidos
significativas estão localizadas na Bacia do rio
combustíveis (SMOOT e SMITH, 1985). O
Paraná, na região sul do país, sendo que a maior
processo de gaseificação ocorre em
parte das reservas nacionais se encontram no
equipamentos chamados gaseificadores.
Rio Grande do Sul (GARCIA, 2002).
Existem vários tipos de gaseificadores, sendo o
Os carvões fósseis sulbrasileiros são de
de leito fluidizado o mais indicado para carvões
baixo poder calorífico (3200 kcal/kg) e têm alto
com altos teores de cinza (GÓMEZ, 1996).
teor de cinzas (52 – 59%) e de enxofre (0,32 –
Além do syngas, o processo de
9,8%). Devido a isso, não são ideais para a
gaseificação tem mais dois coprodutos: o
combustão direta em termelétricas, porém são
2

alcatrão de carvão e as cinzas. As cinzas podem utilizada como uma fonte alternativa no
ser divididas em leves e pesadas. As cinzas tratamento hidrotérmico para síntese de
leves (ou cinzas volantes) são partículas zeólitas. Quando as cinzas são utilizadas, há
extremamente finas (3 – 5 μm), que são uma considerável redução nos custos de
arrastadas pelos gases durante o processo produção das zeólitas, além de agregar valor às
(OKA, 2004; BASU, 2006; ROHDE e cinzas (FUNGARO e SILVA, 2002; IZIDORO,
MACHADO, 2016). 2013).
As cinzas são os resíduos sólidos da Pelo exposto, o presente trabalho teve
eliminação dos compostos voláteis do carvão como objetivo sintetizar e caracterizar zeólita
mediante sua queima, e são constituídas utilizando as cinzas leves do processo de
basicamente por compostos de silício e gaseificação do carvão de Candiota/RS como
alumínio. Devido à sua composição, as cinzas matéria prima, a partir do tratamento
podem ser utilizadas como matéria prima para hidrotérmico destas cinzas.
síntese de zeólitas (SILVA et al., 1999; (um espaço)
IZIDORO, 2013). MATERIAIS E MÉTODOS
Zeólitas são minerais, naturais ou (um espaço)
sintéticos, que possuem estruturas cristalinas As cinzas leves do processo de
bem definidas, microporosas e hidratadas. Sua gaseificação do carvão foram coletadas
estrutura é composta por tetraedros do tipo TO4, diretamente do sistema de coleta da unidade
onde T = Si, Al, Ge, Fe, B, P, Co, sendo os piloto de gaseificação do Laboratório de
aluminossilicatos as zeólitas mais comuns. Tais Energia e Carboquímica (LEC) do campus
tetraedros são ligados de modo a formar uma Bagé da Universidade Federal do Pampa
estrutura que contém canais e cavidades (UNIPAMPA) e foram utilizadas sem nenhum
uniformes, resultando em uma porosidade tratamento prévio. Na Figura 1 pode-se
intrapartícula de dimensões regulares. Tal observar as cinzas leves utilizadas.
característica proporciona uma transferência de
massa seletiva do adsorvato quanto ao tamanho Figura 1: Cinzas leves da gaseificação do
e à forma, fato que permite a utilização das carvão
zeólitas como peneiras moleculares (LUZ,
1995; GIANNETO et al., 2000; AGUIAR et al.,
2002; PAYRA e DUTTA, 2003; SHINZATO,
2007; SIMÕES et al., 2011).
As zeólitas possuem diferenças em suas
estruturas e em sua composição química, o que
influencia em suas propriedades específicas
(MCCUSKER e BAERLOCHER, 2007). A
composição relativa de aluminossilicato em sua
estrutura tridimensional determina o tipo de
zeólita a ser formado. As cinzas leves e a zeólita sintetizada
A síntese convencional de zeólitas se dá foram caracterizadas quanto ao seu diâmetro
pelo tratamento hidrotérmico de soluções de médio por meio da análise granulométrica em
compostos de silício e alumínio, as quais um granulômetro a laser (CILAS, mod. 1190,
possuem um alto custo, quando comparado ao França); quanto à sua massa específica real e
custo das cinzas, que são um resíduo aparente, através de picnometria gasosa
(BYRAPPA e YOSHIMURA, 2001). O (picnômetro gasoso a gás hélio, marca
tratamento hidrotérmico consiste em dissolver QUANTACHROMME INSTRUMENTS,
ou recristalizar materiais, que são relativamente mod. Ultrapyc 1200e, EUA) e ensaio de
insolúveis em condições normais, sob proveta, respectivamente; quanto sua área
condições de alta pressão (≥ 1 atm) e alta específica através de um analisador de
temperatura (≥ 100°C) (BYRAPPA e partículas (marca QUANTACHROMME
YOSHIMURA, 2011). A cinza de carvão INSTRUMENTS, mod. NOVA 4200e, EUA)
contém Si e Al em sua composição e pode ser utilizando o método de Brunauer, Emmett e
3

Teller (BET), além da análise das fases Considerando a quantidade de cinzas


cristalinas através de difratometria de raios X leves e as quantidades adicionadas de hidróxido
(DRX), através de um difratômetro de raios X de sódio e aluminato de sódio, o rendimento do
da marca RIGAKU, mod. Ultima IV, EUA, processo de síntese da zeólita foi de 44,6%.
com geometria de Bragg-Bretano.
Para a síntese da zeólita, uma mistura de Granulometria
10 g de cinzas leves de carvão e 12 g NaOH
sólido foi macerada, colocada em um cadinho Na Tabela 1 pode ser observado os
de porcelana e aquecida em mufla a 550°C por valores de diâmetro médio das cinzas leves do
uma hora para que ocorresse a fusão alcalina. carvão mineral encontrado no presente trabalho
Depois de resfriar à temperatura ambiente, a e na literatura.
mistura foi macerada e em seguida adicionou-
se 100 mL de água e aluminato de sódio Tabela 1: Diâmetro médio das cinzas leves
(NaAlO2) para controle da razão molar Si/Al,
obtendo-se uma suspensão. Foi utilizada uma Autor dm (μm)
quantidade de NaAlO2 de modo que se Autor (2017) 34,57
obtivesse uma razão Si/Al = 1. A suspensão foi
Ribeiro (2016) 23,41
agitada à temperatura ambiente por 16 h a 150
Pires e Querol (2004) 49,30
rpm, e aquecida em estufa à 100°C por 7 h.
Após resfriar à temperatura ambiente, a Tergolina (2013) 16,73
suspensão foi lavada com 1 L de água Lacerda (2015) 54,22
deionizada e filtrada. A etapa seguinte foi a
secagem a 105°C por 16 h em estufa e então Pires e Querol (2004), Tergolina (2013) e
obteve-se a zeólita. Lacerda (2015) realizaram análise
granulométrica das cinzas leves da Usina
RESULTADOS E DISCUSSÕES Termelétrica (UTE) Presidente Médici, em
Candiota (RS). A diferença nos valores dos
Síntese da Zeólita diâmetros médios encontrados no presente
trabalho e na literatura pode ser explicado pela
A zeólita sintetizada pode ser observada diferença nos processos de obtenção das cinzas:
na Figura 2, a qual apresentou uma coloração neste trabalho foram utilizadas cinzas
bege, estando de acordo com Tergolina (2013); provenientes do processo de gaseificação do
este autor realizou a fusão alcalina para a carvão mineral, enquanto que os outros autores
síntese de zeólita nas temperaturas de 350, 600 utilizaram cinzas leves do processo de
e 800C e as colorações apresentadas foram de combustão.
cinza escuro, bege e verde claro, Ribeiro (2016) também caracterizou as
respectivamente. cinzas leves do processo de gaseificação do
carvão de Candiota – RS, obtidas na unidade de
Figura 2: Zeólita sintetizada a partir das cinzas gaseificação do LEC da UNIPAMPA. A
leves diferença entre o valor encontrado neste
trabalho (34,57 ± 3,33 μm) e o valor encontrado
por Ribeiro (2016) pode ser explicada pelo fato
de que as cinzas utilizadas foram de lotes
diferentes e pequenas variações nas condições
do processo (temperatura máxima da reação,
tempo da reação, pressão do sistema, vazão de
ar e vazão de alimentação de carvão) interferem
diretamente nas características das cinzas
formadas.
Na Tabela 2 são apresentados os valores
obtidos de diâmetro médio de partícula da
zeólita sintetizada no presente trabalho, bem
4

como valores de o diâmetro médio encontrados Tabela 3: Massa específica real das cinzas
na literatura para diferentes tipos de zeólita. leves

Tabela 2: Diâmetro médio da zeólita Autor ρreal (g.cm-3)


Autor (2017) 2,437 ± 0,005
Autor dm (μm)
Ribeiro (2016) 2,218 ± 0,005
Autor (2017) 18,39 Silva (2011) 2,448 ± 0,002
Soares (2010) 9,5; 7,1; 17,5 Sabedot et al. (2015) 2,18; 2,17; 2,19
Melo (2013) 6,67
Tergolina (2013) 33,67 Ribeiro (2016) quantificou a massa
Bessa (2016) 11,5 específica real de amostras de cinzas leves do
processo de gaseificação do carvão de Candiota
Soares (2010) realizou análise – RS realizado no LEC da UNIPAMPA,
granulométrica de zeólitas naturais obtendo uma diferença ao redor de 9,0%
provenientes de depósitos de Cuba, de comparada com a massa específica real das
diferentes regiões da Europa e da Bacia do partículas de cinzas leves utilizadas no presente
Parnaíba, no Brasil. Os diâmetros médios trabalho. Esta diferença dos valores pode ser
encontrados foram de 9,5, 7,1 e 17,5 μm, devido às amostras utilizadas serem de lotes
respectivamente. Melo (2013) analisou a diferentes. O gaseificador opera em batelada e
granulometria da zeólita 4A, sintetizada a partir cada corrida é diferente, com condições
do resíduo do polpamento de papel branco e operacionais distintas.
Tergolina (2013) quantificou o diâmetro médio Silva (2011) obteve um valor de massa
do material zeolítico obtido a partir das cinzas específica real de 2,448 ± 0,002 g.cm-3 para a
leves da UTE Presidente Médici, em Candiota cinza leve da UTE de Figueira (PR), a qual
(RS). Já Bessa (2016) mediu o diâmetro médio utiliza carvão fornecido pela Companhia
de zeólita A sintetizada a partir do caulim. A Carbonífera do Cambuí Ltda. Embora os
partir da comparação do diâmetro médio da processos de obtenção das cinzas tenham sido
zeólita obtida no presente trabalho com o distintos, o valor encontrado por Silva (2011)
diâmetro médio de outras zeólitas encontradas está próximo do obtido neste trabalho,
na literatura (6,7 μm a 33,7 μm), pode-se apresentando uma diferença de apenas 0,5%.
perceber que este parâmetro apresenta Sabedot et al. (2015) analisaram cinzas
diferenças para os materiais de diferentes fontes leves das empesas Braskem, CMPC e
e processos. Estas diferenças estão relacionadas Tractebel, as quais têm como fornecedora de
à fonte da matéria prima de síntese da zeólita, carvão a empresa Copelmi Mineração Ltda, que
ao tipo de zeólita, bem como pela metodologia extrai carvão da região do Baixo Jacuí (RS).
utilizada na análise granulométrica. Pode-se Obtiveram valores de massas específicas reais
afirmar também que o diâmetro médio das cinzas leves de 2,18 g.cm-3 para a cinza da
encontrado no presente trabalho (18,39 μm) empresa Braskem, 2,17 g.cm-3 para a cinza da
está dentro da faixa encontrada na literatura. empresa CMPC e 2,19 g.cm-3 para a cinza leve
da empresa Tractebel. Novamente, a diferença
Massa Específica Real e Aparente nos valores encontrados por estes autores e no
presente trabalho (diferença média ao redor de
Na Tabela 3 podem ser vistos os valores 10%) pode ser devido à diferença no processo
da massa específica real das cinzas leves de de obtenção das cinzas.
carvão obtidos no presente trabalho, bem como A massa específica aparente do leito
os obtidos na literatura. estático das partículas de cinza foi de 0,448
g.cm-3, enquanto que a porosidade do leito
estático apresentou um valor de 0,82.
Na Tabela 4 são apresentados os valores
de massa específica real para a zeólita
sintetizada no presente trabalho, bem como
5

para diferentes tipos de zeólitas sintetizadas em Tabela 5: Área específica das cinzas leves
trabalhos da literatura.
Autor Aesp (m2.g -1)
Tabela 4: Massa específica real da zeólita Autor (2017) 7,406
Silva (2011) 8,569
Autor ρreal (g.cm-3)
Tergolina (2013) 3,84
Autor (2017) 2,38 ± 0,001 Lacerda (2015) 3.37
Izidoro (2008) 2,54
Carvalho et al. (2010) 2,54 Silva (2011), analisou as cinzas leves da
2,00; 2,01; 2,24; UTE de Figueira (PR) e obteve um valor
Izidoro (2013)
2,20; 2,45 próximo do valor encontrado neste trabalho
(diferença média de aproximadamente 14%).
Para a zeólita sintetizada, o valor de Tergolina (2013) e Lacerda (2015) estudaram
massa específica real, obtido por picnometria as cinzas leves obtidas da UTE Presidente
gasosa está de acordo com a literatura, tendo em Médice, em Candiota (RS). A diferença nos
vista que Hemmings e Berry (1985) relataram valores encontrados pode ser explicada devido
que partículas com fase vítrea de a diferença no processo de obtenção dessas
aluminossilicatos, mulita e quartzo apresentam cinzas. Nas UTE’s as cinzas são do processo de
massa específica real na faixa de 2 a 2,5 g.cm-3. combustão do carvão mineral, enquanto que as
Izidoro (2008) e Carvalho et al. (2010) cinzas utilizadas neste trabalho foram
obtiveram a mesma massa específica real de provenientes do processo de gaseificação do
partículas de zeólita sintetizada a partir de carvão mineral. O tipo e as condições do
cinzas leves provenientes da UTE Carbonífera processo interferem diretamente nas
de Cambuí, localizada em Figueira, no Paraná. características físicas e morfológicas das
Izidoro (2013) obteve valores na faixa de 2 a cinzas. Pode-se observar que o valor de área
2,45 g.cm-3 para zeólitas sintetizadas a partir de superficial encontrado está dentro da faixa de
cinzas leves obtidas de cinco diferentes valores encontrada na literatura.
termelétricas brasileiras, sendo elas: UTE de Na Tabela 6 podem ser observados os
Figueira (PR), UTE Jorge Lacerda (SC), UTE valores de área específica da zeólita sintetizada
de São Jerônimo (RS), UTE de Charqueadas no presente trabalho, bem como aqueles
(RS) e UTE Presidente Médici (RS), todas encontrados na literatura para zeólitas obtidas
localizadas na região sul do Brasil. Destaca-se de diferentes fontes e tipos.
também que o valor da massa específica real da
zeólita sintetizada foi muito próxima do valor Tabela 6: Área específica da zeólita
das cinzas leves (2,44 g.cm-3).
O valor de massa específica aparente do Autor Aesp (m2.g -1)
leito estático das partículas de zeólita Autor (2017) 33,936
encontrado foi de 0,44 g.cm-3 e a porosidade do
Tergolina (2013) 4,118
leito estático apresentou um valor de 0,81.
Izidoro et al. (2013) 15,7; 10,9
Área Específica Izidoro (2008) 66,38
Lacerda (2015) 3
Na Tabela 5 pode-se observar os valores Rigo et al. (2009) 36
de área específica das cinzas leves obtidas no
presente trabalho e na literatura. Tergolina (2013) quantificou a área
específica de seu material zeolítico, sintetizado
a partir de cinzas leves da UTE Presidente
Médice em Candiota (RS). Izidoro et al. (2013)
obtiveram a área específica da zeólita A,
sintetizada a partir de cinzas leves da UTE de
Jorge Lacerda (SC) e da UTE de Charqueadas
(RS), respectivamente. Izidoro (2008)
6

quantificou a área superficial de zeólita substituição da caulinita presente no carvão


sintetizadas a partir das cinzas leves da UTE de pela mulita, a qual está presente nas cinzas. Do
Figueira (PR) e Lacerda (2015) sintetizou a mesmo modo, os estudos mineralógicos
zeólita tipo sodalita a partir de cinzas leves da realizados por Paprocki (2009) e Tergolina
UTE de Candiota (RS). Já Rigo et al. (2009) (2013) para cinzas leves provenientes da
quantificaram a área superficial específica de combustão de carvão mineral revelaram o
zeólita sintetizada a partir de argila natural. quartzo e a mulita como principais fases
De forma semelhante a outros parâmetros cristalinas.
da zeólita quantificados neste trabalho, pode-se Também percebe-se picos entre 30 e 50°,
observar que a área superficial específica está os quais são característicos da presença de
dentro da faixa encontrada na literatura. hematita (Fe2O3) (FERRET, 2004;
Novamente, a diferença nos valores PAPROCKI, 2009). Da mesma forma, os
encontrados pode ser explicada pela diferença difratogramas de cinzas leves da queima de
no tipo de zeólita sintetizada, bem como pela carvão mineral em termelétricas realizados por
diferença da matéria-prima e da metodologia de Paprocki (2009) e Silva (2011), apresentaram a
síntese. Pode-se perceber também que a zeólita hematita como fase cristalina presente em
sintetizada apresentou uma maior área pequenas quantidades.
específica do que as cinzas leves sem Constata-se, também, através do
tratamento. difratograma da Figura 3, uma sinuosidade
entre 15 e 35°, que, segundo Paprocki (2009),
Fases cristalinas está relacionada com fases de aluminossilicatos
amorfas.
O difratograma das cinzas leves de carvão O difratograma obtido no presente
mineral, obtido por DRX, pode ser observado trabalho apresentou grande semelhança com o
na Figura 3. encontrado por Ribeiro (2016) para cinzas leves
da gaseificação do carvão de Candiota (RS)
Figura 3: Difratograma das cinzas leves obtidas no LEC da UNIPAMPA. Este fato
demonstra que as duas amostras de cinzas leves
provenientes da gaseificação possuem
composição e fases cristalinas semelhantes,
mesmo sendo de lotes diferentes.
O difratograma da zeólita sintetizada,
obtido por DRX, pode ser observado na Figura
4.

Figura 4: Difratograma da zeólita sintetizada

Através da Figura 3 pode-se perceber a


presença da mulita (3Al2O3.2SiO2) e do quartzo
(SiO2) (PAPROCKI, 2009; RIBEIRO, 2016).
Conforme Silva (2011), as cinzas de carvão
geralmente apresentam o quartzo como forma
cristalina principal, o que está de acordo com o
encontrado nas cinzas deste trabalho. Segundo
Ferret (2004) e Sabedot et al. (2011), que
analisaram as cinzas leves provenientes da
A partir do difratograma apresentado na
combustão de carvão mineral em termelétricas,
Figura 4 e na literatura consultada (IZIDORO,
durante a queima do carvão ocorre a
7

2008; RIGO et al., 2009; CARVALHO, 2011; somente o custo da energia elétrica utilizada,
IZIDORO, 2013; LACERDA, 2015; bem como dos reagentes utilizados na síntese
LACERDA et al., 2016) pode-se inferir que no (NaOH e NaAlO2). Além disso,
material sintetizado houve a formação da contribui para a redução dos danos ambientais
zeólita tipo sodalita. Também há a presença de do descarte deste resíduo e proporciona um fim
mulita e hematita, além de diatomita (sílica nobre para as cinzas, transformando-as em um
amorfa). Não foi identificada a presença de produto utilizado em diversos setores da
quartzo no material zeolítico sintetizado. A indústria química.
presença da diatomita pode ser comprovada
pela larga sinuosidade presente entre 15 e 40°. NOMENCLATURA
A mulita é proveniente das cinzas que não
foram completamente convertidas durante o Diâmetro
tratamento realizado (LACERDA, 2015). dm médio da [µm]
Segundo Ferret (2004) a mulita é considerada partícula
como um composto de grande dificuldade de Massa
dissolução durante a síntese hidrotérmica. Para ρreal específica [g.cm-3]
que a estrutura cristalina da mulita seja real
totalmente degradada, é necessário um Área
Aesp [m2.g-1]
tratamento a temperaturas maiores do que específica
100°C e um tempo de reação superior a 6 dias
(FERRET, 2004). A hematita é considerada REFERÊNCIAS
uma fase não reativa das cinzas e permanece
inalterada antes e depois da síntese AGUIAR, M. R. M. P.; NOVAES, A. C.;
hidrotérmica (IZIDORO, 2008). GUARINO, A. W. S. Remoção de metais
pesados de efluentes industriais por
CONCLUSÕES aluminossilicatos. Química Nova, v. 25,
n. 6b, p. 1145–1154, 2002.
As propriedades físicas das cinzas leves e ANEEL. “Atlas da Energia Elétrica no Brasil”.
da zeólita sintetizada apresentaram valores Brasília: Agência Nacional de Energia
dentro da faixa encontrada na literatura para Elétrica, 3ª ed, 2008.
cinzas leves e para diferentes materiais BASU, P. Combustion and Gasification in
zeolíticos, respectivamente. Fluidized Beds. Cambridge: CRC Press,
A zeólita sintetizada através do 2006.
tratamento hidrotérmico das cinzas leves BESSA, R. D. A. Síntese e caracterização de
obtidas do processo de gaseificação do carvão compósitos de zeólitas magnéticas
mineral de Candiota – RS foi do tipo sodalita. utilizando caulim para abrandamento de
A identificação foi realizada através da análise águas. Fortaleza: Universidade Federal
dos difratogramas obtidos por DRX, que do Ceará, 2016.
permitiram também a identificação de outras BORBA, R. F. Carvão Mineral. In: Balanço
fases cristalinas presentes, sendo elas mulita e Mineral Brasileiro. DNPM -
hematita, além de diatomita. Departamento Nacional de Produção
As cinzas leves do processo de Mineral, 2001.
gaseificação do carvão mineral de Candiota – BYRAPPA, K.; YOSHIMURA, M. Handbook
RS, realizado no LEC da UNIPAMPA, of Hydrothermal Technology. 1 ed.
demonstraram comportamento satisfatório Oxford: William Andrew Publishing,
como matéria-prima na síntese de zeólitas. 2001.
A utilização das cinzas de carvão mineral CARVALHO, A. F. M. Síntese se zeólita “A”
como matéria-prima para síntese da zeólita a partir de diatomita como fonte de
proporciona uma diminuição no custo da aluminossilicato. Natal: Universidade
produção das mesmas, pois a fonte de Si e parte Federal do Rio Grande do Norte, 2011.
da fonte de Al são as cinzas, que são um resíduo CARVALHO, T. E. M.; FUNGARO, D. A.;
que é normalmente descartado, restando, então, IZIDORO, J. C. “Adsorção do corante
8

reativo laranja 16 de soluções aquosas por Beneficiamento Visando a Geração de


zeólita sintética”. Química Nova, v. 33, n. Energia Elétrica. 2011.
2, p. 358–363, 2010. LACERDA, L. V. Síntese e caracterização de
CGTEE, Companhia de Geração Térmica de zeólita tipo sodalita obtida a partir de
Energia Elétrica. “Candiota”. 2017. cinzas volantes de carvão mineral
Disponível em: < utilizado na usina termoelétrica de
http://cgtee.gov.br/UNIDADES/CANDI Candiota-RS. Porto Alegre: Universidade
OTA/> Acesso em 07 de julho de 2017, Federal do Rio Grande do Sul, 2015.
10:11. LACERDA, L. V.; ALVES, A. K.; BERUTTI,
FERRET, L. S. Zeólitas de cinzas de carvão: F. A. “Síntese e caracterização de zeólitas
síntese e uso. Porto Alegre: Universidade obtidas a partir de cinzas volantes de
Federal do Rio Grande do Sul, 2004. carvão”. Tecno-Lógica, v. 20, n. 1, p. 33,
FUNGARO, D. A.; SILVA, M. G. “Utilização 2016.
de zeólita preparada a partir de cinza LUZ, A. B. DA. Zeólitas: propriedades e usus
residuária de carvão como adsorvedor de industriais. Rio de Janeiro: CETEM,
metais em água”. Química Nova, v. 25, n. 1995.
6b, p. 1081–1085, 2002. MCCUSKER, L. B.; BAERLOCHER, C.
GARCIA, R. Combustíveis e combustão Zeolite Structure. In: CEJKA, J. et al.
industrial. Interciência, 2002. (Eds.). Introduce to zeolite science and
GIANNETTO, G.; MONTES, A.; practice. 3a ed. Amsterdam: Elsevier,
RODRÍGUEZ G. Zeolitas: 2007.
características, propiedades y MELO, C. R. Síntese de zeólita tipo 4A a partir
aplicaciones industriales. 2 ed. Caracas: de resíduo proveniente do processo de
EdIT Editorial Innovación Tecnológica, polpamento de papel branco.
2000. Florianópolis: Universidade Federal de
GÓMEZ, E. O. Projeto, construção e avaliação Santa Catarina, 2013.
preliminar de um reator de leito OKA, S. Fluidized Bed Combustion. New
fluidizado para gaseificação de bagaço de York: Marcel Dekker, 2004.
cana de açucar. Campinas: Universidade PAPROCKI, A. Síntese de zeólitas a partir de
Estadual de Campinas, 1996. cinzas de carvão visando sua utilização na
IZIDORO, J. C. Estudos sobre a remoção de descontaminação de drenagem ácida de
íons metálicos em água usando zeólitas mina. Porto Alegre: Pontifícia
sintetizadas a partir de cinzas de carvão. Universidade Católica do Rio Grande do
São Paulo: Universidade de São Paulo, Sul, 2009.
2008. PAYRA, P.; DUTTA, P. Zeolites: A Primer. In:
IZIDORO, J. C. Síntese e caracterização de AUERBACH, S. M.; CARRADO, K. A.;
Zeólita pura obtida a partir de cinzas DUTTA, P. K. (Eds.). Handbook of
volantes de carvão. São Paulo: Zeolite Science and Technology. New
Universidade de São Paulo, 2013. York: Marcel Dekker, 2003.
IZIDORO, J. C.; FUNGARO, D. A.; ABBOTT, PIRES, M.; QUEROL, X. “Characterization of
J. E.; WANG, S. “Synthesis of zeolites X Candiota (South Brazil) coal and
and A from fly ashes for cadmium and combustion by-product”. International
zinc removal from aqueous solutions in Journal of Coal Geology, v. 60, n. 1, p.
single and binary ion systems”. Fuel, v. 57–72, out. 2004.
103, p. 827–834, 2013. PLANO ENERGÉTICO DO RIO GRANDE
KALKREUTH, W.; LUNKES, K. M.; DO SUL. Rio Grande do Sul: Secretaria
OLIVEIRA, J.; HIDALGO, G.; GHIGGI, de Minas e Energia, 2016/2025, 2016.
M. L.; OSÓRIO, E.; SOUZA, K.; RIBEIRO, P. B. Investigação de coprodutos
SAMPAIO, C. Camadas Inferiores e provenientes da gaseificação, em leito
Superiores da Jazida de Candiota, RS – fluidizado, do carvão mineral de
Caraterização Geológica, Petrológica, Candiota/RS. Bagé: Universidade
Química e Ensaios de Reatividade e Federal do Pampa, 2016.
9

RIGO, R. T.; PERGHER, S. B. C.; SPEIGHT, James. Synthetic fuels handbook:


PETKOWICZ, D. I.; SANTOS, J. H. Z.; properties, process and performance.
“Um novo procedimento de síntese da New York: McGraw-Hill, 2008.
zeólita A empregando argilas naturais”. TERGOLINA, H. M. Síntese De Zeólitas E
Química Nova, v. 32, n. 1, p. 21–25, Estração De Sílica Amorfa a Partir De
2009. Cinzas Volantes De Carvão. Porto
ROHDE, G. M.; MACHADO, C. S. Alegre: Universidade Federal do Rio
Quantificação das cinzas de carvão fóssil Grande do Sul, 2013.
produzidas no Brasil. Porto Alegre:
CIENTEC, 2016.
SABEDOT, S.; SUNDSTRON, M. G.; BÖER,
S. C.; SAMPAIO, C. H.; DIAS, R. G. O.;
RAMOS, C. G. “Caracterização e
aproveitamento de cinzas da combustão
de carvão mineral geradas em usinas
termelétricas”. Anais do III Congresso de
Carvão Mineral. 2011.
SABEDOT, S.; SUNDSTRON, M. G.;
MILTZAREK, G. L.; SAMPAIO, C. H.
“Tecnologia mineral para cinzas da
combustão de carvão mineral da região
carbonífera do Baixo Jacuí-RS”.
Tecnologia em Metalurgia Materiais e
Mineração, v. 12, n. 3, p. 244–250, 2015.
SHINZATO, M. C. “Remoção de metais
pesados em solução por zeólitas naturais:
Revisão crítica”. Revista do Istituto
Geológico, v. 27–28, n. 1/2, p. 65–78,
2007.
SILVA, M. V. Desenvolvimento de tijolos com
incorporação de cinzas de carvão e lodo
provenientes de estação de tratamento de
água. São Paulo: Universidade de São
Paulo, 2011.
SILVA, N. I. W.; CALARGE, L. M.; CHIES,
F.; MALLMANN, J. E.; ZWONOK, O.
“Caracterização de cinzas volantes para
aproveitamento cerâmico”. Cerâmica, v.
45, n. 296, p. 184–187, 1999.
SIMÕES, A. N.; NEIVA, L. S.; ARAÚJO, A.
P.; OLIVEIRA, J. B. L.; RODRIGUES,
M. G. F.; GAMA, L. “Estudo da
influência dos parâmetros de síntese na
obtenção de zeólitas”. Revista Eletrônica
de Materiais e Processos, v. 6, n. 1, p. 35–
38, 2011.
SMOOT, L. D.; SMITH, P. Coal Combustion
and Gasification, 1985.
SOARES, F. S. C. Caracterização e Aplicação
de Zeólitas Naturais. São Carlos:
Universidade Federal de São Carlos,
2010.