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Universidade Federal do Pampa

Programa de Pós-Graduação em Engenharia


Disciplina de Mecânica dos Fluidos Viscosos

CALIBRAÇÃO E AFERIÇÃO DE MEDIDORES DE VAZÃO E VELOCIDADE EM


ESCOAMENTO INTERNO DE TUBULAÇÕES

RESUMO – A medição de vazões e velocidades na indústria são importantes devido ao


conhecimento dos fluxos dos fluidos para o projeto e estudo de processos. Essa medição
pode ser realizada a partir de medidores primários, que fornecem os dados para uma
quantidade física e são convertidos em quantidades mensuráveis pelos medidores
secundários. Estes medidores devem ser calibrados e/ou aferidos para seu correto
funcionamento. Portanto, o objetivo deste trabalho foi determinar os coeficientes de
calibração e aferição de diferentes tipos de dispositivos medidores de vazão em dois
sistemas (água e ar). Realizou-se a calibração de uma placa de orifício e um tubo de
Venturi para ambos os sistemas e foram aferidos um rotâmetro (sistema com água) e um
anemômetro (sistema com ar). Obteve-se valores para os coeficientes de calibração (αC)
de 1,5 e 2,27 para a placa de orifício e para o tubo de Venturi no sistema com água. Para
o sistema em que o fluido de trabalho era o ar estes valores foram de 0,17 e 8,98,
respectivamente. Os coeficientes de aferição para o rotâmetro e o anemômetro foram de
1,09 e 0,53, respectivamente.

arrastamento hidrodinâmico, entre outros


INTRODUÇÃO
(POTTER e WIGGERT, 2011).
A maioria dos medidores para
A determinação da vazão de fluidos é
escoamentos internos baseiam-se no princípio
uma importante área de aplicação dentro da
da aceleração de uma corrente fluida através de
mecânica dos fluidos. Numerosos dispositivos
foram desenvolvidos ao longo dos anos visando uma restrição da área de escoamento. A
variação de velocidade dessa corrente leva a
a medição de escoamentos e variam
uma variação na pressão que pode ser medida
amplamente em sofisticação tamanho e
por um medidor de pressão diferencial ou um
exatidão (ÇENGEL e CIMBALA, 2007;
manômetro. Já a vazão pode ser inferida a partir
POTTER e WIGGERT, 2011).
de uma análise teórica ou de uma correlação
Os instrumentos para medidas de vazão
experimental para o dispositivo. A vazão
podem ser divididos entre aqueles que
teórica pode ser relacionada com o diferencial
empregam meios de medida diretos e aqueles
de pressão entre dois pontos (a montante e a
que são indiretos. Os medidores diretos são
jusante da restrição) pela aplicação das
frequentemente utilizados como padrões
equações da continuidade e de Bernoulli. Para
“primários” para a calibração dos dispositivos
obtenção da vazão real, fatores de correção
de medida indireta. Estes medidores consistem
empíricos podem ser aplicados (FOX et al.,
em parte primária que está em contato com o
2010). Medidores diferenciais amplamente
fluido e parte secundária que converte a
utilizados em aplicações industriais são a placa
resposta da parte primária em uma quantidade
de orifício e o Venturi (POTTER e WIGGERT,
mensurável. Tais medidores podem ser
2011), os quais realizam medidas indiretas e
classificados de acordo com o princípio de
necessitam de calibração.
operação característico: medida de área-
A calibração de equipamentos é uma
velocidade, correlações de queda de pressão,
parte essencial em qualquer operação de
medição e controle industrial. A calibração é a função da vazão fornecida pelos dispositivos a
única garantia de que os instrumentos serem aferidos (ṁ D), conforme Equação 1.
industriais possuam precisão e faixa de
operação exigidas para manter sistemas em ṁ𝑟𝑒𝑎𝑙 = 𝛼𝐴 ṁ𝐷 (1)
condições controladas. A calibração não
garante necessariamente o bom funcionamento Para a calibração dos medidores
de um instrumento, mas fornece uma boa confeccionados (placa de orifício e Tubo de
indicação de que o seu desempenho pode ou Venturi) foi realizado um ajuste linear aos
não atingir as especificações de precisão e dados da vazão real (ṁ real) em função da raiz
limite nos quais o instrumento deve ser usado quadrada da variação das alturas manométricas
(SOISSON, 2002). dos dispositivos a serem calibrados (√∆𝐻) para
Assim como a calibração, a aferição a determinação do coeficiente de calibração
também apresenta importância no controle (αC), como mostra a Equação 2.
industrial, pois através dela é possível assegurar
que os instrumentos estão de acordo com os ṁ𝑟𝑒𝑎𝑙 = 𝛼𝐶 √∆𝐻 (2)
critérios de aceitabilidade e qualidade. Ela é
realizada em medidores confeccionados por Onde αA e αC são provenientes do balanço
meio da comparação entre a medida dos global de energia mecânica e dos coeficientes
mesmos e a medida fornecida por um medidor de contração, velocidade e vazão.
primário. Para a determinação da vazão real
Em vista disso, o presente trabalho fornecida pelo tubo de Pitot, utilizou-se a
objetivou a calibração e aferição de medidores Equação 3.
de vazão e velocidade.
ṁ𝑟𝑒𝑎𝑙 = 𝑣𝑟𝑒𝑎𝑙 𝐴𝜌 (3)
MATERIAIS E MÉTODOS
Onde A é a área da seção transversal, 𝜌 é a
Para a realização da aferição e da massa específica do fluido e 𝑣𝑟𝑒𝑎𝑙 é a
calibração dos medidores de vazão e velocidade velocidade real do fluido obtida pelo balanço
foram utilizados um fluido compressível (ar) e global da energia mecânica que resultou na
um fluido incompressível (água). Equação 4.
A Tabela 1 apresenta os dispositivos que
foram calibrados e os dispositivos que foram 2∆𝑃 (4)
𝑣𝑟𝑒𝑎𝑙 = 0,99 √ 𝜌
aferidos de acordo com o tipo de fluido.
Para vazões crescentes, determinou-se a
medida no equipamento primário bem como Sendo ∆𝑃 a queda de pressão medida pelo
nos equipamentos os quais se desejou realizar a tubo de Pitot.
calibração e aferição.
RESULTADOS E DISCUSSÃO

Tabela 1: Medidores calibrados e aferidos. Na Tabela 2 estão apresentados os


Água Ar coeficientes de correlação (R2), o qui-quadrado
(X²) e os coeficientes angulares (αC) dos ajustes
Placa de Placa de
aos dados experimentais da calibração dos
orifício orifício
Calibrados medidores de vazão para o sistema com água. A
Tubo de Tubo de
placa de orifício foi calibrada com um tubo de
Venturi Venturi
Pitot e o tubo de Venturi foi calibrado a partir
Aferidos Rotâmetro Anemômetro da relação volume/tempo.

Para a aferição dos medidores comerciais


(rotâmetro e anemômetro) o coeficiente de
aferição (αA) foi determinado por meio de um
ajuste linear aos dados da vazão real (ṁreal) em
Tabela 2 : Parâmetros dos ajustes de
calibração dos medidores de vazão de água. 1,0
Dispositivo R2 X2 αC

Vazão mássica (kg/s)


Placa de 1,501 ± 0,8
0,975 0,0015
orifício 0,033
0,6
Tubo de 2,270 ±
0,9948 0,0003
Venturi 0,019 0,4

A partir da Tabela 2 pode-se observar que 0,2


para ambos os dispositivos os valores de R² do
ajuste linear foram satisfatórios. Os valores de 0,1 0,2 0,3 0,4
X2 corroboram para a validação destes, visto 
(H) (m )
1/2

que foram baixos. Quanto menor for o X²


Figura 2: Ajuste aos dados experimentais para
melhor é a qualidade do ajuste, o que pode ser
a calibração do Tubo de Venturi com v/t.
verificado nas Figuras 1 e 2. Os coeficientes de
calibração dependem do balanço global de
Observando as Figuras 1 e 2 pode-se
energia do escoamento, portanto dependem do
perceber que os dados apresentam uma
sistema utilizado. Neste caso para a placa de
tendência linear, fato que é confirmado através
orifício o αC obtido foi de 1,5 e para o tubo de
dos coeficientes de correlação dos ajustes
Venturi foi de 2,27.
(Tabela 2), os quais apresentaram valores
Na Figura 1 é apresentado o ajuste para a
superiores a 0,9. Este comportamento
calibração da placa de orifício e na Figura 2 o
comprova que a vazão de um sistema é
ajuste para a calibração do tubo de Venturi,
proporcional à raiz quadrada da queda de
ambos utilizando como fluido de trabalho a
pressão causada pela perda de carga deste
água.
sistema. A constante de proporcionalidade é o
coeficiente angular (αC) obtido de um ajuste
linear.
0,8
Na Tabela 3 são apresentados os
resultados para a aferição do rotâmetro a partir
Vazão mássica (kg/s)

0,6
da relação v/t.
0,4
Tabela 3: Parâmetros de ajuste para a aferição
0,2
do rotâmetro no sistema com água.
Dispositivo R2 X2 αa
0,0 1,0972 ±
Rotâmetro 0,9959 0,0002
0,0081
0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5
(H)1/2 (m1/2)
Para a aferição dos medidores de vazão
Figura 1: Curva de ajuste para a calibração da quanto mais o coeficiente αa se aproxima da
placa de orifício com o tubo de Pitot. unidade, mais a vazão fornecida pelo
dispositivo se aproxima da vazão real fornecida
por um medidor de vazão primário. Como pode
ser observado através dos valores da Tabela 3,
o rotâmetro apresenta vazão próxima da vazão
real já que o valor de αa obtido para este
dispositivo está próximo a 1 (1,097) e o
coeficiente de correlação do ajuste apresentou
um valor de 0,99.
Na Figura 3 é apresentado o ajuste aos
dados experimentais para a aferição do
rotâmetro.
0,08
1,0

0,8 0,06
Vazão mássica real (kg/s)

Vazão mássica (kg/s)


0,6
0,04

0,4
0,02
0,2

0,0 0,00

0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 0,0 0,1 0,2 0,3 0,4
Vazão mássica do dispositivo (kg/s) 1/2 1/2
(H) (m )
Figura 3: Curva de ajuste para a aferição do Figura 4: Curva de ajuste aos dados
rotâmetro com v/t, no sistema com água. experimentais para a calibração da placa de
orifício com o tubo de Pitot e fluido de
Os dados experimentais de aferição do trabalho ar.
rotâmetro apresentam uma tendência linear que
é comprovada através dos valores de R² e X² do A curva de ajuste aos dados
ajuste (Tabela 3). O comportamento linear é experimentais de calibração do tubo de Venturi
coerente, visto que os dispositivos de medição com fluido de trabalho ar está mostrada na
de vazão devem fornecer valores de vazão Figura 5. Figura 5
próximos aos valores reais, obtidos pelo
medidor primário (recipiente graduado).
Na Tabela 4 estão mostrados os 6

coeficientes de correlação (R2), o coeficiente 5


angular (αC) e o qui-quadrado (X2) dos ajustes
Vazão mássica (kg/s)

4
aos dados experimentais da calibração dos
medidores de vazão de ar. 3

2
Tabela 4: Coeficientes do ajuste aos dados
experimentais da calibração dos medidores de 1
vazão de ar. 0
Dispositivo R2 X2 αC
0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7
Placa de 0,1773
0,8304 0,0001 1/2
(H) (m )
1/2
orifício ± 0,0129
8,9841 Figura 5: Curva de ajuste aos dados
Venturi 0,9792 0,1040 experimentais para a calibração do tubo de
± 0,2773
Venturi com o tubo de Pitot e fluido de
Os valores obtidos do ajuste pela trabalho ar.
calibração do dispositivo placa de orifício
mostram que esse dispositivo não se adequa Ambos αC, da calibração da placa de
para o uso como medidor de vazão, pois o valor orifício e do tubo de Venturi, são parâmetros
do coeficiente de correlação foi menor que 0,90 que dependem de diversos fatores físicos
e a probabilidade de os valores ajustados oriundos de um balanço de energia no
representarem o experimento foi menor que escoamento estudado. Dentre os parâmetros
1%. Já para o dispositivo de Venturi os dados dos quais o αC é composto está o coeficiente de
estatísticos mostram que ele pode ser utilizado escoamento (K). Este coeficiente depende de
como medidor de vazão com maior confiança. outros dois que estão relacionados ao
Na Figura 4 pode-se observar a curva dispositivo e ao escoamento: o coeficiente de
ajustada aos dados experimentais para a descarga (Cd) e o coeficiente de contração (Cc).
calibração da placa de orifício com o fluido de Cd relaciona a velocidade máxima ou ideal do
trabalho ar. escoamento e a velocidade real (que leva em
consideração as perdas de carga do sistema), linear, portanto, utilizando-se o valor
enquanto que Cc expressa a redução no encontrado para o coeficiente angular na Tabela
diâmetro do escoamento devido à presença do 5 tem-se a vazão real do sistema. O valor do αa
orifício. deveria ser próximo a unidade, entretanto,
Os coeficientes de correlação (R2), o devido a perdas de carga no anemômetro que
coeficiente angular (αC) e o qui-quadrado (X2) não podem ser obtidas o valor difere do ideal.
do ajuste aos dados experimentais da aferição
do medidor de velocidade de ar podem ser CONCLUSÃO
observados na Tabela 5.
No sistema em que o fluido de trabalho
Tabela 5: Coeficientes do ajuste aos dados era a água foram obtidos coeficientes de
experimentais da aferição do medidor de calibração para a placa de orifício e o tubo de
velocidade de ar. Venturi de 1,5 e 2,27, com valores de
Dispositivo R2 X2 αa coeficiente de ajuste de 0,97 e 0,99,
0,5377 respectivamente. O coeficiente de aferição
Anemômetro 0,9109 0,00005 ± obtido para o rotâmetro foi de 1,09 com R² de
0,0282 0,99, indicando que a vazão real é próxima à do
dispositivo.
Os coeficientes de correlação e o qui- Para o sistema com ar, os valores para os
quadrado mostram como o ajuste se deu aos coeficientes de calibração da placa de orifício e
dados experimentais, o valor do coeficiente de do Venturi foram de 0,17 e 0,98, com R² de 0,83
correlação foi maior que 0,90 o que determina e 0,97, respectivamente. Para a aferição do
um bom ajuste enquanto o qui-quadrado baixo anemômetro obteve-se um coeficiente αa de
mostra que a probabilidade dos dados ajustados 0,53 com R² de 0,91.
descreverem o experimento é baixo menos que
1%. O coeficiente angular do dispositivo foi de NOMENCLATURA
0,53 o que significa que esse valor deve ser
multiplicado pela vazão do dispositivo para se coeficiente
αA -
obter a vazão real. de aferição
Na Figura 6 pode-se observar a curva de coeficiente
αC m5/2 s-1
ajuste aos dados experimentais de aferição do de calibração
anemômetro utilizando o ar como fluido de Área da
trabalho. 𝐴 seção m²
transversal
0,08 Queda de
∆𝑃 Pa
Pressão
Variação da
Vazão mássica real (kg/s)

0,06
∆𝐻 altura mm H2O
0,04 manométrica
Massa
𝜌 kg m-3
0,02 específica
Vazão
ṁ real kg s-1
0,00
mássica real
0,00 0,03 0,06 0,09 0,12 0,15
coeficiente
Vazão mássica do dispositivo (kg/s)
R2 de correlação -
do ajuste
Figura 6: Curva de ajuste aos dados
Velocidade
experimentais de aferição do anemômetro com 𝑣𝑟𝑒𝑎𝑙 m s-1
real
o tubo de Pitot e fluido de trabalho ar.
X² Qui-quadrado -
Pela Figura 6 pode-se perceber que os
pontos experimentais se ajustaram a um modelo
REFERÊNCIAS

ÇENGEL, Y. A.; CIMBALA, J. M. (2007)


“Mecânica dos Fluidos: Fundamentos e
Aplicações”, Cengage Learning, p. 279-
295.
FOX, R. W.; PRITCHARD, P. J.;
McDONALD, A. T. (2010). “Introdução
à mecânica dos fluidos”, LTC, p. 341-
355.
POTTER, M. C.; WIGGERT, D. C. (2011)
“Mecânica dos Fluidos”, McGraw-Hill,
p. 523-553.
SOISSON, H. E. (2002). “Instrumentação
industrial”, Hemus, p. 51-82.