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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

ISABELA FERNANDES PENA

A HIPERSEXUALIZAÇÃO DA MULHER NEGRA

Uma visão pós-colonial

Belo Horizonte
2018
RESUMO

O presente artigo propõe-se tratar das questões relativas ao estereótipo


hipersexualizado da mulher negra, buscando compreender o conceito de duplo
narcisismo de Frantz Fanon, em ‘’Pele Negra, Máscaras Brancas’’, expandindo a
análise com a perspectiva de outros autores que enfatizam as diferenças de gênero.

Palavras-chave: hipersexualização, negra, Frantz Fanon, pós-colonial, gênero.

INTRODUÇÃO

Frantz Fanon, um psiquiatra nascido na Martinica, escreveu um dos livros mais


importantes sobre racismo, intitulado de Pele Negra, Máscaras Brancas’em 1952.
Neste trabalho, o autor defende a tese que o racismo é o elemento que alicerça toda
a lógica psíquica e factual da colonização.

Para o autor, as reflexões intelectuais devem se prestar a fins sociais. O corpo, que
é o lugar onde se atua e justifica a dominação, é instrumento político, e deve ser
descolonizado, ser objeto de questionamento e reflexão. O objetivo deste trabalho é
entender as dinâmicas do racismo, a partir da análise da obra ‘’Pele Negra,
Máscaras Brancas’’, de Frantz Fanon e expandir as perspectivas de Fanon através
do diálogo com outros autores pós-coloniais para buscar respostas que elucidem a
questão de gênero, com o intuito de repensar e provocar a desnaturalização do
estereótipo hipersexualizado da mulher negra, refletindo sobre seus mecanismos
fixantes.

Em meados do século XX, iniciou-se a ascensão dos estudos raciais e feministas.


No entanto, percorridos mais de 70 anos, percebemos que tais estudos ainda são
muito necessários, especialmente no Brasil, que tem uma carga de quatro séculos
de escravidão, marcados por relações de dominação, que vitimizam duplamente a
mulher negra.

Anne McClintock, estudiosa zimbabuense, contribui muito para as elucidações das


dinâmicas de colonialismo e gênero. Ela discorre no primeiro capítulo de seu livro
‘’Couro Imperial’’ sobre a perspectiva inerentemente feminina da colonização. Ela
começa com as palavras de Adreinne Rich: “Eu não sou o campo de trigo. Nem a
terra virgem” (p.20). Referindo-se à imagem ambígua de seu corpo de mulher como
algo a ser colhido ou conquistado, e a terra colonial como inerentemente feminina.
Além dessa imagem feminina, a colonização se relaciona com os corpos das
mulheres negras de maneira extremamente sexual, fetichista, anacrônica e
teleológica:

"No século XIX" diz Gilman, "a mulher negra era percebida como possuidora
não só de um apetite sexual primitivo', mas também dos sinais externos
desse temperamento - órgãos sexuais primitivos".Em1810, a exibição da
africana Saartjie Baartman tornou-se o paradigma da invenção do corpo
feminino como anacronismo. O suposto excesso dos genitais dessa mulher
(representados que eram por um excesso de visibilidade do clitóris na figura
do "avental hotentote") foi superexposto e patologizado diante do olhar
disciplinar da ciência médica masculina e do public voyeur. Cuvier, em sua
notória medica- Itzaçáo de seu esqueleto, comparou a mulher da "mais
baixd' espécie humana ao "mais alto macaco" (o orangotango) vendo uma
afinidade atávica na aparência anômala do "órgão de geração" da mulher
negra. Como em Lineu, a reprodução sexual servia como paradigma da
ordem e da desordem sociais.

Na superexposição dos órgãos genitais africanos e na patologização médica


o prazer sexual feminino (especialmente o prazer clitoridiano, que estava
fora da teleologia reprodutiva da heterossexualidade masculina), os
cientistas vitorianos encontraram um fetiche para incorporar, medir e
embalsamar a ideia do corpo feminino como espaço anacrônico. Assim,
uma contradição na formação da classe média (entre sexualidade
clitoridiana - sexo para o prazer feminino - e sexualidade reprodutiva - sexo
para o prazer masculino e geração de filhos) era projetada no domínio do
império e na zona do primitivo. Como órgão inerentemente inadequado, diz
Freud, "o órgão genital feminino é mais primitivo que o masculino" e o
clitóris "é o protótipo normal dos órgãos inferiores". Como anacronismo
histórico, ademais, o imaturo clitóris deve ser disciplinado e subordinado
numa narrativa linear do progresso heterossexual reprodutivo - a tarefa
vaginal de gerar um filho com o mesmo nome do pai. (MCCLINTOCK, p. 74,
2010)

São comuns as representações hipersexualizadas do corpo físico das mulheres


negras, em ‘’Caderno de Memórias Coloniais’’ de Isabela Figueiredo, objeto de
pesquisa de Cintia Belonia, nele é retratada conversas de mulheres brancas, as
quais se referem às vaginas das mulheres negras por ‘’conas largas’’ (p.13),
relegando a estas o caráter de muito ativas sexuais, parideiras natas.

A colonização também atua nos corpos, e age mais ferozmente no corpo feminino,
segundo Spivak, especialmente na mulher negra pobre, que combina em si todos
os ‘’fatores de risco’’ para a subalternização. (p. 85, 2012)
A QUESTÃO DO NEGRO

Frantz Fanon explicita que a relação de dominação entre colonizadores brancos e


colonos negros tinha uma aparato muito mais profundo e complexo do que apenas a
presença ostensiva de europeus em seus territórios: dominação ocorre de maneira
efetiva no campo do psicológico. Ele argumenta que a única interpretação lógica
para o não desmantelamento do colonialismo é justamente um desequilíbrio
psíquico, pois

Há na Martinica duzentos brancos que se julgam superiores a trezentos mil


elementos de cor. Na África do Sul devem existir dois milhões de brancos
para aproximadamente treze milhões de nativos, e nunca passou pela
cabeça de nenhum nativo sentir-se superior a nenhum branco (2008, p.90)’.

A explicação para tal apatia se dá através do complexo de inferioridade, fundado na


infância, pois existem discrepâncias entre o universo privado das crianças negras e
do universo público, marcado pela dominação, soberania e valores brancos
europeus.

No início de seu trabalho, analisando os complexos da situação colonial, o autor se


pergunta o que o homem negro quer e conclui que ele quer ser humano, e por
conseguinte, branco. (FANON, 2008, p.26).

Fanon (2008) reconhece a importância do amor como uma forma de abertura ao


outro, e diz que o ‘’Homem é movimento em direção ao mundo e ao seu semelhante.
Movimento de agressividade que engendra a escravização ou a conquista;
movimento de amor, de doação de si’’ (FANON, 2008, p. 53). Ele dedica dois
capítulos para dissecar as relações interraciais. No capítulo 3 de seu livro, intitulado
de ‘’Homem de cor e mulher branca’’ ele postula

Da parte mais negra de minha alma, através da zona de meias-tintas, me


vem este desejo repentino de ser branco.
Não quero ser reconhecido como negro, e sim como branco.
Ora — e nisto há um reconhecimento que Hegel não descreveu —
quem pode proporcioná-lo, senão a branca? Amando-me ela me prova que
sou digno de um amor branco. Sou amado como um branco. Sou um
branco. Seu amor abre-me o ilustre corredor que conduz à plenitude…
Esposo a cultura branca, a beleza branca, a brancura branca. Nestes seios
brancos que minhas mãos onipresentes acariciam, é da civilização branca,
da dignidade branca que me aproprio (Fanon. 2008, p.69)’’.
Para o homem negro, casar com uma branca é uma das maneiras de elevar seu
status social, no entanto, ele tem outras formas de adentrar em espaços brancos,
ele tem maior margem de ação (ao pensarmos que a burocracia, o exército, estudos
e alguns outros tipos de trabalhos também podem trazer o ‘’branqueamento social’’)
enquanto a mulher negra, por sua vez fica submissa às relações das quais ‘’aceitam
tudo’’ dos parceiros brancos, inclusive a informalidade do relacionamento. O autor
reconhece que por mais que as máscaras brancas sejam uma estratégia de
sobrevivência, elas trazem consequências reais e subjetivas.

Para Fanon, existe uma dinâmica de duplo narcisismo, na qual o “branco está preso
em sua brancura e o negro está preso em sua negrura” (2008, p. 27). Sendo assim,
a representação de si dentro dessas categorias se constrói na relação de oposição
ao outro, através de uma alteridade limitada, as quais cada parte da equação está
limitada as suas “características fundamentais’’. O branco é fixado em seu super-eu
ultracivilizado, destacado de impulsos corpóreos, enquanto o negro é puro Id,
‘’Quanto aos negros[…] eles têm a potência sexual. Pensem bem, com a liberdade
que tem em plena selva! Parece que se deitam em qualquer lugar e a qualquer
momento. Eles são genitais.” (FANON, 2008, p.131).O branco se auto-constrói como
ser racional e superior, e deposita no Outro atributos instintuais, como agilidade,
força, rítmo e sensualidade, numa estratégia de desumanização do outro e super-
humanização de si. Sendo assim, nesta mesma chave, o negro passa a ser temido e
invejado pelo branco, justamente por essa aura mística de potência sexual
animalesca, criando-se, assim, uma relação ambígua.

Outro teórico que tratou sobre a temática é o indiano Homi K. Bhabha (1998) que
discorre sobre a questão em seu livro ''O local da Cultura''. Para o autor, o
estereótipo é uma forma limitada de alteridade, é fixante, mas não é reducionista ou
simplista, porque representa uma pseudo-realidade, que reconhece o Outro,
negando-o enquanto individuo. É ambivalente pois cria um discurso de aproximação,
curiosidade e outro de dominação, diferenciação. Um estereótipo tem o caráter de
ser sempre repetido e retomado, permanecer em looping de afirmação e
legitimação. Dessa forma, mecanismos sociais são criados para marcar estes
estereótipos, como no caso das mulheres negras, que são constantemente
retratadas por filmes, músicas de maneira excessivamente sexualizada. Além da
ambivalência, o estereótipo objetifica sexualmente, fetichisa o corpo negro. Ao
mesmo tempo que este é selvagem, animalesco e estranho, é também artigo de
curiosidade e desejo.
Em consonância com Homi Bhabha, Robert Young (1995) também percebe essa
ambivalência ao lidar com o outro. Para ele, as mesmas estruturas que serviam para
legitimar a supremacia cultural inglesa (ele analisa a Inglaterra vitoriana), criavam o
desejo sexual interracial.
O autor descreve o colonialismo como uma 'máquina de administração de
guerra desejante' cujas "conexões e disjunções" forçadas de territórios,
histórias e povos também produziram sua "própria fantasia mais escura", as
abundantes uniões sexuais (inter-raciais) 'não-naturais' (SILVA, 2006)’’.

Essa percepção impacta e desestabiliza profundamente a autoimagem do inglês,


que se percebe constantemente recalcando esse sentimento de curiosidade,
transformando-o em nojo e aversão.
O autor examina concepções de raça, cultura, civilização, hibridismo e sexualidade,
e explicita que, a projeção da imagem que o branco tinha de si, em contraste com a
imagem estereotipada que se tinha do negro logravam o status de superioridade,
justificando o papel auto-atribuído de civilizadores globais, na chave de ‘’fardo do
homem branco’’, com as garantias de consciência tranquila no ato de opressão
colonial.

A questão da mulher negra

Frantz Fanon ilumina de maneira muito eficiente a questão dos indivíduos negros, no
entanto, naturaliza as diferenças entre os gêneros e esquece todo um aparato
colonial de sexismo, que enaltece a superioridade masculina em detrimento da
feminina, sendo exprimida em repressão e degradação da mulher. (ALVES, 2013)
Ao longo da história ocidental1 da civilização humana, a mulher foi construída sob
um ‘’potentado’’ masculino lhe forçou um papel subalterno. Ela foi compreendida
como um outro, e nela projetados também todo aquilo que o homem não queria para
si, assim tornando reflexo distorcido de sua autoimagem. Segundo Jean Delumeau
(2009), em seu ‘’História do Medo no Ocidente’’ a mulher era identificada inclusive
como um dos medos mais comuns. Os mitos fundadores do cristianismo, como
Adão e Eva refletem e ajudam a perpetuar papéis desfavoráveis dados a essa
parcela da sociedade, com a imposição da culpa judaico-cristã ainda mais cruel para
as mulheres, que são responsáveis até pela expulsão do Paraíso. Nem mesmo
Freud, ‘’pai da psicanalise’’ conseguiu nos emancipar do papel de parte da costela
de Adão, com sua teoria falocêntrica.
No tocante dos estudos conhecidos como pós coloniais, a questão se complexifica:

Durante a era da expansão colonialista – entre os séculos XVIII e XIX –, o


sexismo, aliado ao colonialismo, que pregava a superioridade branca, cristã
e patriarcal, negando aos povos conquistados os direitos civis, se estendeu
com maior violência às mulheres das sociedades conquistadas. A mulher
branca, europeia, já nasce cercada pela ideologia da opressão e dessa
forma o construto de seu pensamento é essencialista: a elas cabem os
castigos, a prostituição, humilhações várias, tudo sem questionamento
aparente. Este costume também deveria ser adotado pelas mulheres
colonizadas, que, ao recusarem os critérios ocidentais patriarcais como
únicos, sofriam maiores barbáries que aquelas sofridas pelas mulheres
brancas, e muitas delas causadas por estas e também por seus parceiros.
Neste contexto patriarcal e colonial, deve-se considerar a dificuldade de a
mulher negra reagir contra os pressupostos sexistas e assumir sua posição
na sociedade enquanto sujeito agente. (ALVES, 2013)
A indiana Gayatri Spivak (2010), no quarto capíltulo de seu livro ‘’ Pode o Subalterno
Falar?’’ se direciona à mulher, especialmente à “pobre e negra” (p.85, 2010) que
preenche todos os requisitos que lhe conferem a condição de subalternidade:
pobreza, gênero e cor, garantindo com isso que a mulher negra permaneça ainda
mais silenciada, vulnerável e à margem. Se o sujeito subalterno não tem história e
1
A historiadora nigeriana Oyeronke Oyeyumi apresenta uma crítica e expande os conceitos
feministas, ao abordar em seu livro ‘’The Invention of Women: Making an African Sense of Western
Gender Discourses’’ que estas categorias ditas ‘’universais’’ de gênero não o são, pois gênero é uma
construção sociocultural e histórica. Em várias outras organizações sociais, especialmente na África,
as sociedades são matrilineares. Nestas sociedades não predominava a fixação binária, característica
dos ocidentais (feminino/masculino, negro/branco, homossexual/heterossexual). Nas famílias Iorubás,
a autora percebe o protagonismo da mãe e a importância do laço primário entre a mãe e a prole,
ressaltando a experiência da maternidade como instituição. Sendo assim, foi o contato com os
europeus, após o comércio de escravos e a colonização que alteraram as dinâmicas sociais. As
mulheres passaram a ser identificadas pelos seus corpos e a não mais fazerem parte das estruturas
de poder, sendo assim, só então entraram na dinâmica de subordinação aos homens. A história da
África é retomada pelos historiadores europeus a partir de seus próprios binóculos, com lentes
viciadas em ver a partir de suas próprias perspectivas, quando os europeus enxergam um trono
esperam que seja o lugar de um homem, e dessa maneira apagam toda a trajetória das mulheres em
determinadas sociedades
não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na
obscuridade (SPIVAK, 2010, p.85). McClintock também sugere que as categorias de
gênero, raça e classe não existem isoladas, elas funcionam em uma relação íntima,
orbitando uma ao redor da outra. Na mulher colonizada o processo de resistência
foi sempre mais difícil devido, principalmente, ao seu papel duplo de sujeição.

Assim como todo corpo negro é hipersexualizado, a mulher é ainda mais vitimizada.
Através do fetiche do sexo interracial, a mulher negra é constantemente vista e
representada como faceira, sensual e naturalmente inclinada para o sexo, mais
provocantes e que seus corpos suportam atos mais intensos (estereótipos que a
mídia alimenta constantemente). É notório que mulheres negras se sentem
rejeitadas e sexualmente descartáveis, fato que se tornou ditado popular , herança
época do Brasil colonial: ‘’branca para casar, negra para trabalhar, mulata pra fuder’‘
(PACHECO, 2008). Em uma sociedade patriarcal, o referido’’ apetite sexual’’ da
negra (que como foi visto é um estereótipo fixante, construído através de uma
alteridade limitada) a empurra ao abandono afetivo, pois não anda em conformidade
com os parâmetros que julgam o caráter da mulheres.

O estereótipo hipersexualizado da negra é reproduzido inclusive por mulheres


brancas, que para reforçar os padrões de castidade impostos a elas e que em
muitas situações não se veem com liberdades para gozarem dos prazeres da carne,
inferiorizam a negra, por terem mais ‘’liberdade’’ (liberdade relativa, pois as negras
foram comumente vitimizadas por abusos sexuais) como o referido em ‘’Caderno de
Memórias Coloniais’’ de Isabela Figueiredo, objeto de pesquisa de Cintia Belonia

Os brancos iam às pretas. [...]As pretas tinham a cona larga e essa era a
explicação para parirem como pariram, de borco, todas viradas para o chão,
onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas
não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque
à cona sagrada das brancas só lá tinham chegado o do marido, e pouco, e
com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e
convinha que uma soubesse disso das outras. (FIGUEIREDO, 2010, p. 13)

Além da questão da alteridade limitada, não podemos deixar de explicitar as marcas


profundas deixadas pela lógica deturpada da escravidão, que subjugou cruelmente o
corpo da mulher negra, uma vez que elas tiveram sua força de trabalho explorada,
sua cultura expropriada e seu corpo violado pelo sadismo senhorial.
A mulher negra sofre de maneira mais profunda a pressão no sentido
do branqueamento, especialmente, do ponto de vista estético [...] E
por ser, geralmente, a principal responsável pela educação dos
filhos, a mulher negra é utilizada como canal de repasse dos
sentimentos de inferioridade impostos pela sociedade, e que causa
tantos danos á auto-estima de crianças e jovens negros. Por outro
lado, o homem negro, também vítima destas contradições, tende a
afastar-se da mulher negra em virtude da ideologia que os inferioriza,
relegando- a a solidão [...] (Programa de Ação do Movimento Negro
Unificado, Salvador, 1992, pp.17-18 apud PACHECO 2008)

O abandono afetivo é um elemento recorrente na literatura do feminismo negro, fato


inclusive confirmado pelo Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) que revelou que as mulheres negras são as que
menos se casam, sendo a maioria na categoria de “celibato definitivo”, ou seja, que
nunca tiveram um cônjuge. Todas essas nuances perpassam pela lógica da
hipersexualização da negra, e que embora não seja o único fator, é um grande
contribuinte para que as mulheres negras muitas vezes tenham parceiros não
formais, sendo assim, este tipo de racismo traz consequências reais e subjetivas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na década de 1970, as negras feministas encontravam obstáculos sexistas dentro


do Movimento Negro de ocuparem as mesmas posições dos homens e no
Movimento Feminista encontravam a face racista, que privilegiava pautas das
mulheres brancas que lutavam pela equiparação dos direitos civis, mas não levavam
em conta que as negras feministas ainda carregavam o peso da escravatura. Sendo
assim, além das reivindicações por direitos civis, elas ainda se viam ocupando
posições servis perante as mulheres brancas. As negras lutam em dois fronts, são
minoria dentro da minoria. Dessa maneira, ainda há muito que caminhar.
Como visto, são muitas as forcas contrárias que atuam sobre as mulheres negras,
no entanto, em consonância com Robert Young (1995) e Gayatri Spivak (2010),
cabe ao historiador pós-colonial perceber as dinâmicas e retomar a história do
subalterno, e ao fazer isso o projeto imperialista é colocado em cheque.

‘’Superioridade? Inferioridade? Por que simplesmente não tentar sensibilizar


o outro, sentir o outro, revelar-me outro? Não conquistei minha liberdade
justamente para edificar o mundo do Ti? Ao fim deste trabalho, gostaríamos
que as pessoas sintam, como nós, a dimensão aberta da consciência.
Minha última prece: Ô meu corpo, faça sempre de mim um homem que
questiona!’’. (FANON, 2008, p.191)

Que a prece de Frantz Fanon, que tanto se preocupou com a emancipação do negro
não seja em vão. Que o corpo, seja entendido como espaço político, onde atuam
forças e por isso, espaço de análise e questionamento. A compreensão dos
mecanismos de sujeição da mulher negra é uma forma libertadora de perceber como
o racismo e sexismo se estruturam, para dessa forma os desnaturalizar.

A liberdade da mulher negra estará afirmada apenas quando a sua posição (racial e
de gênero) não esteja atrelada nem a uma sensualidade imposta, nem a uma
subordinação feminina. “Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo,
para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você” (ANZALDÚA, 2000,
p. 232).

Bibliografia:

ALVES, Elizandra Fernandes. A REPRESENTAÇÃO NEGRA FEMININA NA


NARRATIVA CONTEMPORÂNEA. ANAIS DO V ENIEDUC – ENCONTRO
INTERDISCIPLINAR DE EDUCAÇÃO 2013

ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do


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Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo. In: revista eletrônica
literatuta e autoritarismo: violência de gênero. N.28, 2016.
https://periodicos.ufsm.br/LA/article/view/23468/14699

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

BRASIL. IBGE “Pesquisa das Características Étnico-Raciais da População: um


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DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente 1300 – 1800: Uma cidade
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colonial. Trad. Plínio Dentzien. Campinas, Editora da Unicamp, 2010.

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