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Auguste Comte – Opúsculos de Filosofia

Social - 1819 -1828

SUMÁRIO
Prefácio Especial
Primeiro Opúsculo (Julho de 1819)
Separação geral entre as opiniões e os desejos
Segundo Opúsculo (Abril de 1820)
Sumária apreciação do conjunto do passado moderno
Terceiro Opúsculo (Maio de 1822)
Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade
Quarto Opúsculo (Novembro de 1825)
Considerações filosóficas sobre as ciências e os cientistas
Quinto Opúsculo (Março de 1826)
Considerações sobre o poder espiritual
Sexto Opúsculo (Agosto de 1828)
Exame do tratado de Broussais sobre a "irritação"

PREFÁCIO ESPECIAL

do APÊNDICE GERAL do 4.° e último volume do SISTEMA DE POLÍTICA


POSITIVA, de AUGUSTO COMTE, publicado em Paris, em agosto de 1854.

De acordo com o anúncio feito em 1851, no início do Tratado que acabo de


terminar, junto a este volume final uma escrupulosa reprodução de todos os meus
primeiros Opúsculos sobre a Filosofia Social.
Fazendo ressurgir aqui escritos incluídos em periódicos há muito esquecidos,
poderá este Apêndice facilitar a iniciação positivista dos espíritos dispostos a seguir
exatamente marcha idêntica à minha. Este apêndice é, porém, sobretudo destinado a
manifestar a perfeita harmonia entre os esforços que caracterizam minha juventude e
os trabalhos realizados em minha idade madura.
Pelos hábitos dispersivos que impedem, em nossos dias, qualquer apreciação
sintética, essa plena continuidade se acha frequentemente obscurecida pela
excepcional extensão de minha obra. Quando não se percebe nela a relação necessária
entre a base filosófica e a construção religiosa, as duas partes de minha carreira
parecem obedecer a direções diferentes. Convém, pois, fazer especialmente sentir que
a segunda se limita a realizar o objetivo preparado pela primeira. Este Apêndice deve
espontaneamente inspirar tal convicção, fazendo verificar haver eu tentado, desde o
meu início, fundar o novo poder espiritual que hoje instituo. O conjunto de meus
primeiros ensaios me levou a reconhecer que essa operação exigiria, antes de tudo, um
trabalho intelectual, sem o qual não seria possível solidamente estabelecer a doutrina
destinada a encerrar a revolução ocidental. Eis por que consagrei a primeira metade da
minha elaboração a construir, de acordo com os resultados científicos, uma filosofia
verdadeiramente positiva, única base possível da religião universal. Mas, depois de ter
suficientemente lançado esse fundamento teórico, devi consagrar diretamente todo o
resto de minha existência ao fim social que eu havia, a princípio, suposto ser
imediatamente acessível.
Além da dificuldade natural de abarcar este vasto plano, uma tendência pessoal
leva frequentemente a desconhecer a íntima conexidade de meu Sistema de política
Positiva com o meu Sistema de Filosofia Positiva. Embora o término da revolução
ocidental seja geralmente desejado, a indisciplina própria à nossa anárquica situação
ainda inspira ativas simpatias, sobretudo entre os letrados. Muitas individualidades
sentem-se chocadas pelo advento direto do sacerdócio Positivo, que deve fazer
universalmente prevalecer, no procedimento não só público, mas também privado,
regras tanto mais inflexíveis quanto hão de ser sempre demonstráveis. Estas
repugnâncias inspiradas pela minha construção religiosa dispõem a considerá-la
contraditória com a sua base filosófica, cujo atrativo mental naturalmente se
encontrava isento de qualquer conflito moral. Este Apêndice mostrará, porém, a
inconsequência dos partidários intelectuais do Positivismo, que hoje repelem a sua
aplicação necessária ao destino social diretamente proclamado em seu primeiro
esboço. Seja que não possam apreender o conjunto de minha elaboração, seja que
lastimem ver cessar o interregno religioso, sua adoção especulativa da nova síntese os
obriga a lhe permitir completar-se, resumir-se e concluir. Minha política, longe de
contrariá-la, é de tal modo a consequência natural de minha filosofia, que esta foi
diretamente instituída para servir de base àquela, como prova o presente Apêndice.
De conformidade com este objetivo, ele deve somente abranger os Opúsculos
que gradualmente caracterizam minha direção geral, afastando os escritos prematuros
que me inspirou a funesta ligação através da qual se realizou minha estreia espontânea.
Dessas produções efêmeras só incluo aqui duas indicações decisivas de minha
tendência contínua para a religião positiva. A primeira surgiu em 1817, desta sentença
característica, no meio de vã publicação: "Tudo é relativo, eis o único princípio
absoluto", Quanto à segunda, menos pronunciada, porém mais desenvolvida, ocorreu
em 1818, na memória especial em que considerei a liberdade de imprensa como
propiciando a todos os cidadãos uma autoridade consultativa. Tais são as únicas
menções que me parecem, afinal, merecer minhas publicações anteriores aos seis
opúsculos de que se compõe este Apêndice: desautorizo, de antemão, qualquer outra
reprodução de trabalhos meus publicados e já destruí os meus escritos inéditos.
O primeiro Opúsculo foi composto em julho de 1819 para o único periódico (o
censor) que a posteridade distinguirá no Jornalismo francês. Mas esse artigo jamais foi
inserto no referido jornal. Publico-o hoje aqui não só para indicar como eu tendia, aos
21 anos, para a divisão dos dois poderes, como também visando à utilidade que tal
esclarecimento conserva ainda hoje.
Depois de haver, em abril de 1820, deixado passivamente atribuir o segundo
opúsculo ao diretor do periódico (o Organizador) que o inseriu, reivindico afinal sua
autoria, então conhecida somente de alguns leitores. Dando-lhe aqui seu verdadeiro
título, eu o assinalo como o primeiro esboço de minha concepção geral do passado
moderno, onde já separei os dois movimentos, positivo e negativo, cujo concurso
caracteriza a revolução ocidental. O contraste histórico entre a França e a Inglaterra, de
acordo com o prevalecimento do poder central ou da força local, aí foi bastante
fundamentado para, desde então, guiar vários escritores que jamais lhe indicaram a
fonte.
Minha direção a um tempo filosófica e social foi irrevogavelmente determinada
em maio de 1822 pelo terceiro opúsculo, onde surgiu minha descoberta fundamental
das leis sociológicas. Seu próprio título, único que deve figurar aqui, bastaria para
indicar a íntima combinação entre os dois pontos de vista, científico e político, que até
então me haviam igualmente preocupado, mas em separado. A publicidade deste
trabalho decisivo ficou, a princípio, limitada a cem exemplares, gratuitamente
comunicados como provas. Quando, em 1824, foi reproduzido em mil exemplares,
com alguns acréscimos secundários, acreditei dever superpor ao seu título especial o
título prematuro de Sistema de Política Positiva, desde então destinado ao conjunto de
minhas composições. Não se poderia desconhecer a unidade de minha carreira, vendo
assim prometida, desde o seu início, a sistematização que só o presente Tratado podia
realizar.
O quarto opúsculo manifesta, em 1825, até mesmo pelo seu título, uma
tendência mais direta para o estabelecimento de nova autoridade espiritual, esteada
numa filosofia fundada sobre a ciência. Uma suficiente demonstração de minhas duas
leis fundamentais aí precede a apreciação geral da marcha contínua da humanidade
para a reorganização do poder teórico.
O quinto opúsculo expôs, enfim, de maneira decisiva, em março de 1826, na
mesma publicação (O Produtor), a divisão filosófica e social dos dois poderes
elementares.
Minha contínua tendência para fundar um novo sacerdócio tornou-se, desde
então, bastante pronunciada, de modo a me atrair, ao mesmo tempo, as censuras da
Escola Revolucionária, sob o pretexto de teocracia, e as felicitações da Escola
Retrógrada, em nome da ordem. O contraste das duas apreciações que esse trabalho
inspirava a dois conceituados escritores (Benjamin Constant e Lamennais) já indicava
a atitude normal do partido que eu instituía relativamente àqueles de que eram os
respectivos chefes. Esta oposição pode ser especialmente verifica da num mesmo
espírito quando o eloquente defensor do Catolicismo se tornou cegamente hostil à
doutrina positiva, à medida que degenerava em declamador revolucionário.
Basta comparar estes cinco opúsculos, e sobretudo os três últimos, para neles
reconhecer uma progressão constante, onde o termo final caracteriza o seu objetivo
geral: a reorganização do poder espiritual adaptado à renovação da filosofia. Assim se
preparou meu tratado fundamental, cuja elaboração oral realmente começou em abril
de 1826, embora o seu primeiro volume só tenha sido publicado em julho de 1830.
Realizando essa fundação filosófica, terminada em 1842, nela fiz sempre pressentir,
cada vez mais, a construção religiosa que seu destino social exigia e motivou ser ela
empreendida.
No sexto e último opúsculo, publicado pelo Jornal de Paris em agosto de 1828,
percebe-se a passagem de minha estreia social para minha carreira intelectual, que
inaugurou, no ano seguinte, a completa execução do curso começado em 18263 e logo
suspenso em consequência de minha crise cerebral. As luzes resultantes deste episódio
foram especialmente utilizadas para o decisivo exame do memorável trabalho onde
Broussais dignamente combateu a influência metafísica. Este opúsculo final
conservará sempre um interesse histórico por ter suscitado o nobre esforço através do
qual esse grande biologista ilustrou o fim de sua bela carreira, ao apreciar, de maneira
digna dele, a admirável tentativa de Gall, até então por ele desconhecida.

PRIMEIRO OPÚSCULO
(Junho de 1819)

SEPARAÇÃO GERAL ENTRE AS OPINIÕES E OS DESEJOS

Os governantes desejariam fazer admitir a máxima segundo a qual só eles são


capazes de discernir com exatidão em política, e que, por consequência, somente a eles
compete ter opinião a respeito.
Têm suas razões para pensar assim, e os governados também têm as suas -
precisamente as mesmas - para se recusarem a admitir tal princípio, o qual, de fato,
considerado em si mesmo e independentemente de qualquer preconceito, quer de
governante, quer de governado, é de todo absurdo.
Com efeito: os governantes, por sua posição - mesmo supondo-os honestos -
são, pelo contrário, os mais incapazes de possuir opinião justa e elevada sobre a
política geral, pois é certo que, quanto mais nos dedicamos às funções práticas, menos
aptos nos tornamos para as teóricas.
Condição essencial para o publicista, que quer possuir ideias políticas largas, é
abster-se rigorosamente de qualquer emprego ou função pública: como poderia ele ser,
ao mesmo tempo, ator e espectador?
Neste particular, porém, caiu-se de um excesso em outro. Combatendo-se a
pretensão ridícula de ser a ciência política privilégio dos governantes, produziu-se, nos
governados, o preconceito, não menos ridículo, embora menos perigoso, de que
qualquer homem é apto a formar, simplesmente por instinto, justa opinião acerca do
sistema político, e cada indivíduo pretendeu dever arvorar-se em legislador.
Como observou Condorcet; é estranhável, considerem os homens impertinente
a pretensão de saber física ou astronomia, etc., sem, estudar estas ciências, e julguem,
ao mesmo tempo, possam todos conhecer a ciência política, e ter opinião segura e
categórica, relativa a seus princípios mais abstratos, sem se darem ao trabalho de
refletir sobre o assunto, e sem dele haverem feito um objeto .especial de estudo. Isto
resulta - como deveria ter acrescentado Condorcet - da circunstância de não ser ainda a
política uma ciência positiva. Evidentemente, logo que haja assumido tal caráter, todos
compreenderão que, para conhecê-la, é indispensável haver estudado as observações e
as deduções sobre as quais há de fundar-se, Para tudo conciliar, no entanto, eliminando
tal preconceito, sem ressuscitar o princípio da indiferença política, tão caro aos
governantes, seria conveniente distinguir, mais do que se tem até hoje feito, as
opiniões dos desejos.
É razoável e natural, é mesmo necessário tenham todos os cidadãos desejos
políticos, porque todos possuem um interesse qualquer na direção dos negócios
sociais. E muito natural, por exemplo, que todos os cidadãos estranhos à classe dos
privilegiados, vivendo do produto de seu trabalho desejem a liberdade, a paz, a
prosperidade industrial, a economia nas despesas públicas e o bom emprego dos
impostos.
Uma opinião política, no entanto, exprime mais do que desejos; é, ainda, na
maior parte das vezes, a expressão muito afirmativa e muito absoluta de que tais
desejos somente podem ser satisfeitos por tais e quais meios, e de modo algum por
outros. Ora, este é um ponto sobre o qual é ridículo e desarrazoado julgar sem ter
especialmente sobre ele meditado.
Por que é evidente que, em determinado problema, tal medida, tal instituição, é
própria para atingir certa finalidade? Há uma cadeia de raciocínios e reflexões que
exige, para ser bem feita, estudo especial desse gênero de considerações. Na falta de
tal estudo, julgar-se-ão próprios, para conseguir certos fins, meios que produziriam
efeito absolutamente oposto. f: por isto que muitas pessoas desejam sinceramente a
liberdade e a paz, e têm, ao mesmo tempo, ideia tão falsa quanto aos meios próprios
para proporcioná-las, que, se suas sugestões fossem postas em prática, provocariam, ao
contrário, a desordem e a arbitrariedade.
A meu ver, dessa análise das opiniões e dos desejos, em política, resultam duas
consequências importantes.
Em primeiro lugar, encarando as coisas sob este prisma, e considerando as
opiniões políticas dos homens não esclarecidos apenas como a expressão de desejos,
confundidos com os meios, ver-se-á que existe mais uniformidade do que geralmente
se imagina nas vontades políticas de uma nação.
Em França, por exemplo, entre os indivíduos que professam opiniões
retrógradas, há apenas pequeno número, composto de antigos privilegiados, que deseja
realmente, isto é, com conhecimento de causa, o restabelecimento das antigas
instituições. A massa quer, no fundo, como todos, a liberdade, a paz e a economia; e se
acrescenta a este desejo a ideia de regime feudal, é unicamente porque o considera o
único próprio para garantir-lhe esses bens.
Em segundo lugar, a meu ver, deriva da mesma análise a determinação da parte
que a massa de uma nação deve ter no governo. Só o público deve indicar o objetivo a
ser alcançado, porque, se nem sempre ele sabe o que lhe é necessário, sabe
perfeitamente o que quer, e ninguém deve pensar em querer por ele.
Dos meios para atingir esse objetivo, ocupar-se-ão, entretanto, exclusivamente
os especialistas em política, desde que tal objetivo seja claramente indicado pela
opinião pública. Seria absurdo que a massa pretendesse discorrer a esse respeito. A
opinião deve querer, os publicistas propor os meios de execução, e os governantes
executar. Enquanto estas três funções não forem distintas, haverá confusão e arbítrio
em maior ou menor grau.
Numa palavra: quando a política tornar-se uma ciência positiva, o público
deverá conceder aos publicistas, e lhes concederá necessariamente, em política, a
mesma confiança que atualmente confere aos astrônomos, quanto à astronomia, aos
médicos, quanto à medicina, etc., com uma diferença, entretanto: ao público
exclusivamente há de competir o alvo e o fim do trabalho.
Esta confiança, que apresentou os mais graves inconvenientes enquanto a
política foi misteriosa, vaga, inapreciável, numa palavra, teológica, não os apresentará
mais quando se tornar uma ciência positiva, isto é, de observação, tal como acontece
com a confiança que depositamos, sem temor, em um médico, na dependência de
quem colocamos frequentemente a nossa vida.
Neste estado de coisas, a submissão devida à razão e as precauções a serem
tomadas contra o arbítrio, serão perfeitamente conciliadas.

SEGUNDO OPÚSCULO
(Abril de 1820)

SUMARIA APRECIAÇÃO DO CONJUNTO DO PASSADO MODERNO

O sistema social, que a marcha da civilização nos leva a substituir, era formado
pela combinação do poder espiritual, ou papal e teológico, com o poder temporal,
feudal e militar.
Quanto ao poder espiritual, o nascimento desse sistema remonta ao começo da
preponderância do cristianismo na Europa, isto é, ao terceiro ou quarto século,
enquanto a origem do poder temporal se encontra nas primeiras grandes tentativas de
estabelecimento dos povos do Norte na Europa meridional, e nos primeiros
desmembramentos do Império Romano, ou seja, quase na mesma época.
A constituição definitiva desses dois poderes ocorreu nos séculos XI e XII.
Nessa época, de um lado, o feudalismo estabeleceu-se por toda parte, sobre bases
fixas, como poder nacional; e, de outro, a autoridade da Santa Sé organizou-se,
completamente, como poder europeu.
Detenhamo-nos, por um momento, nessa época notável, a fim de apresentar
duas importantes observações.
Em primeiro lugar, efetuou-se essa dupla organização em pouco tempo e sem
grandes dificuldades, porque havia sido gradualmente preparada durante os sete ou
oito séculos decorridos desde a origem de ambos os poderes.
O estabelecimento do poder temporal foi a consequência da destruição do
império romano pelos povos setentrionais. Se esse poder não se constituiu logo após
tal aniquilamento, foi porque, para isto, era evidentemente necessário se pusesse, antes
de mais nada, um termo ao sistema de invasão: foi o que ocorreu através das
conquistas das nações estabelecidas em primeiro lugar, relativamente às que tentavam
novas invasões. Talo objetivo das guerras de Carlos Magno contra os saxões e
sarracenos, e, em seguida, o das Cruzadas.
A constituição do poder espiritual havia sido preparada pelo aniquilamento do
politeísmo e pela instituição do cristianismo, cujo numeroso clero se disseminara por
toda a Europa.
Quando o Papa Hildebrando, no século XI, proclamou diretamente a
supremacia da autoridade pontifícia, como poder europeu, sobre os poderes nacionais,
não fez senão resumir um princípio, cujas bases já estavam estabelecidas em todas as
cabeças, ou, em outros termos, redigir uma crença, cujos elementos se achavam todos
adotados havia muito tempo.
Em segundo lugar merece ser notada a coincidência dos dois poderes quanto à
época de sua origem e constituição definitiva. Observa-se a mesma analogia em
relação à sua decadência, e esta simultaneidade constante tende a provar -
independentemente do raciocínio, que mostra se apoiarem esses dois poderes um ao
outro - deverem eles desaparecer ao mesmo tempo, não podendo o poder temporal ser
substituído por outro de natureza diversa, sem que análoga substituição ocorra, no
tocante ao poder espiritual, e reciprocamente.
Nascera este sistema social durante a existência do sistema anterior, e
exatamente na época em que acabava de atingir seu desenvolvimento integral.
Da mesma forma, quando, na Idade Média, o sistema feudal e teológico se
constituiu, o germe de sua destruição começava a nascer, e acabavam de ser criados os
elementos do sistema que deve hoje substituí-lo.
Com efeito, quanto ao poder temporal, foi nos séculos XI e XII que se iniciou a
emancipação das comunas; no atinente ao poder espiritual, foi pouco mais ou menos
na mesma época que as ciências positivas se introduziram na Europa através dos
árabes.
Fixemos toda a nossa atenção sobre este fato capital, verdadeiro ponto de
partida da série de observações através das quais devemos hoje esclarecer nossa
política.
A capacidade industrial, ou seja as artes e ofícios, deve substituir o poder
feudal ou militar.
Na época em que a guerra era e devia ser considerada como o primeiro meio de
prosperidade para as nações, era natural estivesse a direção dos negócios temporais da
sociedade nas mãos de um poder militar, e a indústria, tida como subalterna, fosse
apenas empregada como instrumento. Ao contrário, quando, finalmente, as sociedades
se convencem, pela experiência, de que o seu único meio de adquirir a riqueza consiste
na atividade pacífica, isto é, nos trabalhos industriais, a direção dos negócios
temporais deve naturalmente passar à capacidade industrial, e a força militar, por sua
vez, não pode mais ser classificada senão como subalterna, força puramente passiva, e
até, conforme é verossímil, destinada a tornar-se, algum dia, completamente - inútil.
Ora, a libertação das com unas lançou a base deste novo estado de coisas;
preparou-lhe a possibilidade, e mesmo a necessidade, que, em seguida, se desenvolveu
cada vez mais, como provaremos em breve. Essa libertação constituiu a capacidade
industrial, porquanto estabeleceu, para ela, uma existência social independente do
poder militar.
Antes dessa época, além de estarem os artesãos, coletivamente, na dependência
absoluta dos militares, cada um deles se achava inteiramente sujeito ao arbítrio
individual do dono da terra de que fazia parte.
Deixando a emancipação subsistir o primeiro gênero de arbítrio, aniquilou o
segundo, e, em consequência, criou o germe da destruição do primeiro. Antes, os
artesãos nada possuíam de seu; tudo quanto tinham, e eles próprios, pertenciam ao
senhor; não possuíam senão o que este, porventura, lhes queria deixar.
A emancipação criou uma propriedade industrial tendo, como origem, o
trabalho, propriedade distinta, independente, e bem cedo rival da propriedade
territorial, puramente de origem e natureza militar.
Por esta memorável inovação, a capacidade industrial pôde desenvolver-se,
aperfeiçoar-se, estender-se, e as nações conseguiram organizar-se, em todas as suas
partes, sobre uma base industrial, permanecendo militar unicamente a cúpula da
sociedade, bem como a sua direção geral, cuja posse continuou a conservar.
Façamos, agora, quanto ao poder espiritual, observações análogas às que
acabamos de explanar relativamente ao temporal.
A capacidade científica positiva deve, por sua vez, substituir o poder espiritual.
Na época em que todos os nossos conhecimentos particulares eram
essencialmente conjeturais e metafísicos, era natural estivesse a direção da sociedade,
no tocante a seus negócios espirituais, em mãos do poder teológico, pois os teólogos
eram, então, os únicos metafísicos gerais. Ao contrário, quando todos os ramos de
nossos conhecimentos unicamente se baseiam em observações, a direção dos negócios
espirituais deve ser confiada à capacidade científica positiva, visto ser evidentemente
muito superior à teologia e à metafísica.
Ora, a introdução das ciências positivas, na Europa, pelos árabes, criou o germe
dessa importante revolução, agora plenamente terminada quanto aos nossos
conhecimentos especializados e quanto às nossas doutrinas gerais atinentes à parte
crítica.
Apenas os árabes começaram a fundar, nas regiões da Europa, que haviam
conquistado, escolas para o ensino das ciências de observação, logo um ardor geral
dirigiu todos os espíritos de escol para essa nova luz. Criaram-se dentro em pouco
escolas semelhantes em toda a Europa ocidental: na Itália, na França, na Inglaterra, na
Alemanha, foram instituídos observatórios, salas de anatomia, gabinetes de história
natural. Desde o século XIII, Rogério Bacon cultivava, com brilho, as ciências físicas.
A superioridade do positivo sobre o conjetural, da física sobre a metafísica, foi de tal
modo sentida desde a origem, mesmo pelo poder espiritual, que vários membros
eminentes do clero, e, entre outros, dois papas, pouco mais ou menos na mesma época,
foram completar sua educação em Córdoba, estudando aí as ciências de observação
sob a direção de professores árabes.
Resumindo as ponderações precedentes, podemos estabelecer, como princípio
resultante da observação, que, no momento em que o sistema feudal e teológico
definitivamente se organizou, os elementos de um novo sistema social começaram a
formar-se. Uma capacidade temporal positiva, isto é, a capacidade industrial, nasceu
ao lado do poder temporal, que chegara ao seu completo desenvolvimento; e uma
capacidade espiritual positiva, isto é, a capacidade científica, ergueu-se por detrás do
poder espiritual no instante em que este começava a desenvolver toda a sua atividade.
(A divisão da sociedade, e de tudo quanto lhe concerne, em temporal e
espiritual, deve subsistir no sistema novo, como acontecia no antigo. Esta divisão, que
não existia entre os romanos, é o mais importante aperfeiçoamento realizado pelos
modernos na organização social. Foi ela que primitivamente possibilitou fazer da
política uma ciência, permitindo tornar sua teoria distinta da prática. Somente esta
divisão, em o novo sistema, não se refere mais a dois poderes, mas a duas
capacidades).
Antes de passar ao exame dos fatos ulteriores, consideremos, entre os dois
sistemas, notável diferença, que aparece desde o nascimento do novo, fato que
procurei exprimir pela oposição das palavras poder e capacidade. Não digo: um novo
poder se ergue ao lado de cada um dos dois antigos, mas, uma capacidade se levanta
ao lado de um poder. Foi, em outros termos, a ação dos princípios, que então nasceu,
para substituir-se, em nossos dias, à ação dos homens: a razão para substituir a
vontade.
Sendo militar, no antigo sistema, exigia o poder temporal, por sua natureza, o
mais alto grau de obediência passiva da parte da nação. Muito ao revés, na capacidade
industrial, encarada como devendo dirigir os negócios temporais da sociedade, o
arbítrio não entra nem poderia entrar, porque, de um lado, tudo é julgável no plano que
pode ser formado para trabalhar pela prosperidade geral, e, de outro, a execução de tal
plano não exige senão grau muito fraco de comando.
Assim também, sendo o poder espiritual, por sua natureza, conjeturável, devia
necessariamente exigir o mais alto grau de confiança e submissão do espírito. Era esta
uma condição indispensável à sua existência e à sua ação.
A capacidade científica positiva, ao contrário, concebida como devendo dirigir
os trabalhos espirituais da sociedade, não exige nem crença cega, nem mesmo
confiança, pelo menos da parte de todos os que são capazes de compreender as
demonstrações. Quanto aos demais, a experiência tem provado suficientemente que
sua confiança nas demonstrações, unanimemente aceitas pelos cientistas positivos, não
pode jamais ser-lhes prejudicial, não sendo este gênero de confiança, em última
análise, suscetível de abusos.
Assim, pode-se considerar, se se quiser, a capacidade científica positiva como
suscitando um poder, na medida em que cria uma força; mas é o poder de
demonstração em vez do de revelação.
Tal é, pois, nosso ponto de partida.
No século XI, os poderes temporal e espiritual constituíram-se definitivamente,
e, ao mesmo tempo, duas capacidades positivas começaram a formar-se por detrás
desses dois poderes, preparando-lhes a decadência e a substituição. Numa palavra:
instituiu-se um sistema e outro começou a surgir. Desde esta época, esses dois
sistemas sempre coexistiram, entrando em choque, ora surdamente, ora abertamente, e
de maneira que o primeiro cada vez mais perdia suas forças, enquanto o segundo dia a
dia se fortalecia.
O exame do passado divide-se, portanto, a partir desse instante, em duas séries
contemporâneas: a das observações relativas à decadência do antigo sistema, e a do
surto do novo. Tal será também a divisão que seguiremos em tudo quanto nos resta
dizer.

Primeira Série
Na época, que acabamos de fixar para a origem de nossas observações, as
forças eram demasiadamente desiguais entre os dois sistemas coexistentes (um deles
entrava no seu apogeu, enquanto o outro apenas surgia) para que, por muito tempo,
pudesse manifestar-se entre eles qualquer luta direta e perceptível. A história mostra-
nos, também, que a luta só começou a existir abertamente no século XVI. Os
quatrocentos ou quinhentos anos precedentes constituíram o período de esplendor do
sistema feudal e teológico. Mas todo esse esplendor se apoiava sobre um terreno
minado.
Se os historiadores houvessem analisado melhor e aprofundado mais o exame
da Idade Média, não nos teriam falado apenas da parte visível de tal período; teriam
verificado a preparação gradual de todos os grandes acontecimentos que se
desenrolaram mais tarde, e não teriam apresentado as explosões do século XVI e
seguintes como repentinas e imprevistas. Seja como for, é incontestável que só no
século XVI .começou a luta franca entre os dois sistemas. É a partir daí que vamos
examiná-la.
O ataque de Lutero e de seus co-reformadores, contra a autoridade pontifícia,
derrubou, de fato, o poder espiritual, como força europeia, e este era o seu verdadeiro
caráter político. Ao mesmo tempo, solapou radicalmente a influência que ainda restava
à autoridade teológica, destruindo o princípio de crença cega, substituindo-o pelo
direito de exame que, contido, a princípio, dentro de limites bem estreitos, devia
inevitavelmente ampliar-se mais e mais, e abranger, por fim, um campo indefinido.
Esta dupla mudança operou-se de maneira tão completa nos países que se
conservaram católicos, e principalmente na França, quanto nos que abraçaram o
protestantismo.
Houve, todavia, a seguinte diferença indispensável de observar: nos países que
se mantiveram católicos, sentindo o poder espiritual estar destruído, como autoridade
distinta e independente, pôs-se ao serviço do poder do rei, oferecendo-lhe o apoio
dessas mesmas doutrinas através das quais havia outrora dominado.
Esta mudança de atitude do clero teve por efeito prolongar, um pouco além do
termo natural, a duração de sua influência política, mas criou, para a realeza, o
inconveniente capital de ligar mais intimamente a sua sorte à de doutrinas que haviam
perdido crédito entre as classes instruídas.
A execução da reforma (em virtude das guerras que acarretou) consumiu a
totalidade do século XVI e o começo do XVII. O ataque ao poder temporal realizou-se
imediatamente após na França e na Inglaterra. Nos dois países, esse ataque foi
efetuado pelas comunas, tendo, como chefe, um dos dois ramos do poder temporal. A
tal respeito, não houve entre as duas nações senão uma diferença. Na Inglaterra, foi o
feudalismo que se ligou com as com unas contra a autoridade real, enquanto em
França, foi a realeza que se pôs à sua frente contra o poder feudal.
Essa combinação das comunas com uma das metades do poder temporal,
contra a outra, nascera em ambos os países logo após a sua emancipação, e mesmo não
contribuíra pouco para determiná-la. Os efeitos de tal combinação haviam-se
manifestado desde muito antes do século XVII, através de inequívocos resultados, que
haviam preparado os acontecimentos importantes desenrolados nesse século.
Em França, o Cardeal Richelieu trabalhou diretamente para abater o
feudalismo, e, depois dele, Luís XIV terminou esse combate. Reduziu a nobreza à
mais completa nulidade política, à insignificância mais absoluta, e não lhe deixou
outro papel a desempenhar a não ser o de guarda de honra da realeza. É essencial
observar que Richelieu e Luís XIV animaram ambos, poderosamente, as belas-artes, as
ciências, as artes e ofícios; procuraram elevar a existência política dos cientistas, dos
artistas e artífices, ao mesmo tempo em que derrubaram a dos nobres. Essa intenção
foi principalmente manifestada pelo ministro Colbert, ele próprio um artesão.
Voltaremos, porem, a este fato em nossa segunda série. Por enquanto basta-nos
mencioná-lo.
A luta teve como resultado, na Inglaterra, a revolução de 1688, que limitou o
poder da realeza tanto quanto era possível fazê-lo sem destruir o antigo sistema.
Destarte, o ataque ao poder temporal produziu, separadamente, em cada um desses
países, o enfraquecimento, tão completo quanto possível, de uma parte diferente desse
mesmo poder. Assim, portanto, os dois povos haviam realizado a destruição do poder
temporal até certo ponto, além do qual essa destruição se tornava impraticável, a não
ser saindo do antigo sistema social. Para que este resultado completo pudesse realizar-
se, de uma parte e outra, bastava adotasse cada uma dessas nações a modificação feita
pela outra. E o que acaba de ocorrer em França pela adoção da constituição inglesa.
A coligação das com unas com uma parte do poder temporal, a fim de atacar a
outra, bem como a proteção, muito ativa, concedida pelo poder temporal de vários
países contra o espiritual (na época da reforma), fizeram que, sem um exame muito
aprofundado, se torne impossível compreender a verdadeira natureza de tais ataques.
Daí resultou um erro muito difundido, que cumpre assinalar e destruir. Ao
invés de ver em tais acontecimentos a luta das comunas, tendo, como chefe, certas
porções do sistema feudal e teológico em oposição a outros elementos desse sistema
neles se viu apenas a contenda dos reis contra os papas, e das autoridades, real e
feudal, uma contra a outra. As comunas não foram consideradas senão como
instrumentos empregados pelos diferentes poderes, e quase nunca sob outro aspecto.
Antes de apresentar as considerações, por meio das quais se pode retificar o
erro que acabamos de indicar, vem a propósito lembrar que, seja qual for o ponto de
vista adotado a respeito, nossa série atual não será afetada; não ficará sendo, por isto,
menos verdadeira, pois sua finalidade essencial é verificar a decadência contínua do
antigo sistema. Apesar disto, longe está de ser indiferente ignorar ou conhecer a
verdadeira ação que os artífices, os artistas e os cientistas (os quais, considerados
coletivamente, formavam as comunas) exerceram para determinar essa decadência.
Estabelecemos, como princípio, ser evidente sinal de decadência qualquer
cisão entre os elementos de um sistema. E, assim, ao observar o primeiro grande ato de
divisão entre o poder temporal e o espiritual, poderíamos predizer a queda mais ou
menos próxima de ambos.
Divisões desse gênero manifestaram-se muito cedo no antigo sistema;
evidenciaram-se, mesmo, antes de haver-se organizado completamente, e tornaram-se
contínuas quase logo após sua constituição definitiva. Se refletirmos bem sobre este
fato, reconheceremos serem tais divisões inevitáveis nesse sistema.
Os poderes são necessariamente rivais e ciosos, uns dos outros, mesmo quando
o interesse comum mais evidente lhes impõe, como lei, a mais íntima união. E, na
verdade, não sendo esses poderes suscetíveis de serem claramente caracterizados, era
natural pretendesse cada um deles a totalidade do domínio. Verdadeira combinação,
combinação sólida, somente pode existir entre capacidades positivas. A combinação
torna-se, neste caso, possível, e, por assim dizer, forçada, porque tende cada uma das
capacidades, por si própria, a limitar-se ao seu papel natural, sempre circunscrito tão
nitidamente quanto possível. A pretensão à universalidade, única que poderia perturbar
este arranjo natural, apresenta-se, à vista de todos, como absurda, e não poderia, por
consequência, conseguir jamais número bastante elevado de partidários de modo a
tornar-se perigosa.
As comunas, evidentemente demasiado fracas no começo de sua existência
política, foram forçadas, para lutar contra o antigo sistema, a unir-se aos chefes do
campo adverso. Procuraram aproveitar-se das dissensões que nele se manifestavam, e
sua prudência foi tal que, efetivamente, sempre se beneficiaram com elas. Seu plano
foi bastante simples: consistiu em prestar constantemente apoio ao poder que se
mostrava, em cada época e em cada país, mais liberal, vale dizer, mais conforme aos
seus interesses. Este foi o plano que seguiram constantemente, por uma espécie de
admirável instinto, em todas as crises parciais que precederam as duas grandes lutas
dos séculos XVI e XVII. Seu procedimento nestas últimas épocas não foi, assim, de
modo algum acidental: resultou de longos hábitos contraídos.
Eis o que explica a razão pela qual as comunas se colocaram, na Inglaterra, ao
lado dos lordes contra os reis, enquanto, em França, se ligaram à realeza contra o
feudalismo. Em tempos mais remotos, em França e na Inglaterra, haviam as comunas,
de modo análogo, abraçado a causa do poder espiritual, por ser então o mais liberal.
Assim, na realidade, não eram as comunas instrumentos nas mãos dos antigos
poderes; estes é que, pelo contrário, deveriam ser considerados como tendo servido de
instrumentos às comunas, muito embora movidos por impulso próprio. De fato, foi
pelas comunas, e em seu proveito, que o ataque ao antigo sistema se realizou. Se
alguém foi então logrado, certamente não foram elas.
As comunas exerceram, além disto, nas duas lutas dos séculos XVI e XVII,
uma ação inteiramente direta e só procedente delas. Os dois elementos do novo
sistema, as capacidades industrial e Científica, forneceram, cada qual, sua parte nessa
ação. Se bem que houvessem atuado sempre concorrentemente, foi, no entanto, a
segunda, isto é, a capacidade científica, que se ligou particularmente ao poder
espiritual, bem como a primeira - a capacidade industrial - ao poder temporal,
conforme exigia a natureza das coisas. Cada capacidade combate, corpo a corpo, o
poder correspondente e (o que merece ser notado) nos raciocínios então empregados
pela capacidade científica a fim de derruir as doutrinas teológicas, foi na própria
teologia que se julgou inicialmente obrigada a buscar suas bases ou, pelo menos, se
considerou forçada a acomodá-las à maneira teológica. É o que se observa,
principalmente, em todas as obras do chanceler Bacon.
Este fato, na luta espiritual, corresponde ao da coligação das comunas com uma
das metades do poder militar na luta temporal. Não temos necessidade de verificar a
influência fundamental que os progressos das ciências de observação exerceram sobre
a reforma de Lutero, porque essa influência não é hoje, por ninguém, posta em dúvida;
basta-nos mencioná-la. Quanto à influência, menos forte e menos direta, do progresso
das artes e ofícios sobre essa mesma reforma, os melhores historiadores, que têm
tratado de tal época, dela fizeram ressaltar notável exemplo, indicando a ação
incontestável exercida sobre esse ponto pelo grande desenvolvimento impresso ao
comércio e, consequentemente, à indústria, pela descoberta da América e do caminho
das índias através do cabo da Boa Esperança, descoberta que, por seu turno, decorria
dos progressos das artes industriais, combinados com os das ciências de observação,
Duas outras descobertas de primeira ordem, uma nas artes, outra nas ciências,
feitas, a mais antiga no fim do século XV, a outra cerca de um século mais tarde,
vieram assegurar e apressar a decadência do antigo sistema, imprimindo, à luta
empreendida pelos elementos do novo, marcha ao mesmo tempo mais direta, mais
segura, mais calma e mais rápida.
A primeira foi a da imprensa, que, se não contribuiu para determinar a reforma,
serviu, ao menos, para propagá-la de maneira infinitamente mais rápida e mais
completa do que poderia tê-lo sido sem o seu concurso. Mas não foi este o seu efeito
mais essencial quanto à decadência do antigo sistema.
Não repetiremos os raciocínios, muito conhecidos, que fazem sentir a imensa
mudança operada por essa descoberta na ordem social ao criar a soberania da opinião
pública. Considerá-la-emos sob o único ponto de vista que aqui nos ocupa.
Deste ponto de vista diremos: 1º - ela assegurou ao novo sistema os meios de
tomar a iniciativa, mais direta e mais completa, a fim de preparar a substituição do
antigo, sem ser obrigado a continuar sob a proteção de qualquer dos poderes a
extinguir; 2º - fez desaparecer, em grande parte, o caráter violento apresentado, até
então, pela luta, porque mudou o ataque em crítica.
A segunda descoberta, a que aludi, é a da verdadeira teoria astronômica,
encontrada por Copérnico, provada e estabelecida por Galileu.
Comumente os melhores espíritos não medem o valor exato da ação,
verdadeiramente poderosa, exercida pela mudança operada por essa teoria em todas as
cabeças, relativamente ao aniquilamento radical do sistema teológico. Essa influência
foi de tal ordem que só ela bastaria para determinar a destruição desse sistema.
Limitar-nos-emos a indicá-la pela consideração seguinte, que cada qual pode
amplamente desenvolver.
Todo o sistema teológico se fundamenta na suposição de haver sido a Terra
feita para o homem, e o Universo inteiro para a Terra: eliminai esta hipótese e todas as
doutrinas sobrenaturais se desmoronam. Ora, tendo-nos Galileu demonstrado ser o
nosso planeta um dos menores, em nada se distinguindo dos outros, girando, como os
demais, em torno do sol, a hipótese de haver sido a natureza toda feita para o homem
choca tão manifestamente o bom-senso, está de tal modo em oposição com os fatos,
que não pode deixar de parecer absurda e ser logo derrubada, arrastando com ela as
crenças de que é a base. Numa palavra: as doutrinas teológicas são absolutamente
incompatíveis com a plena convicção da teoria astronômica moderna, mesmo para os
espíritos em que essa convicção não repousa no conhecimento das demonstrações que
a determinam.
Se pesarmos suficientemente esta reflexão, haveremos de nos convencer de
haver a Inquisição exercido bem o seu papel de sentinela do poder espiritual,
procurando sufocar, ao nascer, a teoria de Galileu.
Resumindo tudo quanto até aqui dissemos, verifica-se que, no fim do século
XVII, dois ataques parciais se haviam dado contra o antigo sistema: um, no século
XVI, contra o poder espiritual, e outro, no XVII, contra o temporal.
À primeira vista, esse duplo ataque poderia parecer suficiente, mas faltava
muito para que o fosse, havendo sido o sistema abalado em seus elementos e não em
seu conjunto; fora abatido em algumas de suas partes, restando derrubá-lo como
sistema. Além disto, tendo ocorrido sob a direção de um ramo dos antigos poderes,
cada luta particular não tivera caráter bastante claro; não se tinha pronunciado bastante
firmemente, como choque, entre um sistema e os elementos do outro. Era esta outra
razão, diversa da precedente, que explica a insuficiência das duas primeiras lutas.
Por conseguinte, quem, no fim do século XVII, tivesse perfeito conhecimento
do verdadeiro estado das coisas, teria podido predizer, com plena segurança, que os
dois ataques parciais, até então realizados, eram apenas preparatórios, e que, no século
seguinte, o ataque se dirigiria, de maneira geral, contra o conjunto do sistema, e,
finalmente, seria decisivo para a sua queda. Tais acontecimentos eram a consequência
inevitável de todo o passado, desde o século XI, e o desfecho imediato dos dois
séculos que acabavam de extinguir-se [séculos XVI e XVII].
Seria supérfluo entrar aqui em qualquer particularidade sobre fatos tão
recentes, e que se acham na memória de todos. O século XVIII foi, na realidade, o que
devia ser - a continuação, o complemento e o resumo dos dois precedentes.
Quanto ao poder espiritual, o princípio do direito de exame em matéria
religiosa estabelecido por Lutero, mas de maneira muito restrita, foi ampliado até seu
limite extremo. A aplicação mais ousada desse direito caminhou paralelamente com as
tentativas feitas para estabelecê-lo em toda a sua amplitude. Submetidas à discussão,
as crenças teológicas foram completamente destruídas, e, sem dúvida, com demasiada
imprudência, precipitação e leviandade, com um esquecimento por demais absoluto do
passado, e pontos de vista muito confusos sobre o futuro. Mas foram, enfim
destruídas, e de modo a não poderem reerguer-se, porque a crítica foi levada até ao
ponto de cobri-las de ridículo aos olhos dos homens menos instruídos. Não se poderia
negar este fato nem julgamos essa crítica: apenas a observamos.
Quanto ao poder temporal, se examinarmos o que ocorreu a seu respeito na
França, onde todo o século XVIII deve ser principalmente observado, veremos que o
feudalismo, depois de haver perdido, no século precedente, todo o seu poder político,
perdeu, neste, toda a sua consideração civil.
Tendo a realeza chegado, sob Luís XIV, à plena posse do poder temporal,
graças ao apoio que lhe haviam prestado as comunas, deixou de unir-se a elas, o que
constituiu uma grande falha de sua parte. Luís XIV cometeu grave erro unindo-se à
nobreza que se resignava, enfim, a ter, à custa de dinheiro e honrarias, existência
política subalterna e insignificante, parecendo esquecer-se de haver outrora ombreado
com a autoridade real.
Se Luís XIV não tivesse cometido esse erro capital; se tivesse abandonado à
sua sorte um poder que se tornara caduco, um poder cujo destino estava
irrevogavelmente fixado nos decretos do espírito humano, e ele próprio havia
eficazmente concorrido para destruir; se tivesse, enfim, continuado a seguir
simplesmente a direção das comunas, teria, sem dúvida, poupado todas as desgraças
que, mais tarde, caíram sobre Luís XVI.
Foi isto, com efeito, o que primitivamente desacreditou a realeza aos olhos das
comunas e dela as afastou. A vergonha que, em seguida, recaiu sobre o poder real, em
consequência dos costumes do Regente e da libertinagem de Luís XV, levou ao
cúmulo essa desconsideração. Ao mesmo tempo, havendo os filósofos sujeitado o
poder temporal à mesma discussão feita a propósito do espiritual, aquele não ofereceu
maior resistência, porque era, em grande parte, baseado nas mesmas doutrinas desde a
reforma.
Levou, assim, o século XVIII a crítica dos dois poderes a seus últimos limites,
e terminou a destruição do antigo sistema em seus elementos e em seu conjunto. Um
exame pormenorizado da maneira pela qual essa destruição se operou seria aqui
descabido. Indicarei, apenas, a influência que os progressos imensos e sempre
crescentes, realizados pelas ciências de observação desde Galileu exerceram e deviam
exercer sobre a destruição das doutrinas teológicas.
A descoberta de uma lei física geral por Newton, a análise realizada por
Franklin do principal fenômeno meteorológico, assim como a invenção do meio de
submetê-lo ao poder do homem, e, finalmente, todas as descobertas notáveis,
efetuadas, em tão grande número, no corrente século, em astronomia, física, química e
fisiologia, contribuíram mais para a destruição radical e irrevogável do sistema
teológico do que todos os escritos de Voltaire e de seus cooperadores, apesar de sua
prodigiosa influência. Os partidários do antigo sistema e seus adversários não deram
muita atenção a este fato.
Preparada, ou, para melhor dizer, reclamada, como indispensável, por esse
estado de coisas, a revolução francesa explodiu, e tomou, desde a sua origem, uma
falsa direção, havendo destruído a realeza. Não tardou, entretanto, esta última a
reconstituir-se, porque, sendo, em Franca, a cabeça e o coração do antigo sistema, só
com ele pode extinguir-se, assim como um sistema não pode ser extinto senão quando
outro iá existe completamente formado e pronto para imediatamente substituí-lo.
O resultado final de todo esse grande abalo foi a abolição dos privilégios, a
proclamação do princípio da liberdade ilimitada de consciência e, por fim, o
estabelecimento da constituição inglesa outorgada pelo próprio poder real.
A abolição dos privilégios não fez senão completar a ruína do feudalismo e
reduzir inteiramente o poder temporal apenas ao do rei.
A proclamação do princípio da liberdade ilimitada de consciência aniquilou
completa e irrevogavelmente o poder espiritual.
(Esta proclamação tornou impossível o estabelecimento de qualquer autoridade
teológica, quer política, quer simplesmente moral; porque, sendo deixadas as crenças
ao arbítrio de cada indivíduo, não poderá haver, talvez, duas profissões de fé
completamente uniformes, e a de cada indivíduo poderá mudar da manhã para a tarde,
seguindo todas as variações inspiradas pelo estado perpetuamente móvel de suas
afeições morais e físicas, bem como pelas circunstâncias sociais, igualmente variáveis,
nas quais o mesmo indivíduo se encontrará sucessivamente colocado. Numa palavra, é
claro que a liberdade ilimitada de consciência e a indiferença teológica absoluta
significam exatamente o mesmo quanto às consequências políticas. Em ambos os
casos, as crenças sobrenaturais não podem mais servir de base à moral. É um fato que,
longe de dever ocultar-se, não se poderia salientar em demasia por provar a
necessidade de constituir-se sobre outros princípios positivos (isto é, deduzidos da
observação), a moral, que é a base, ou, antes, o laço geral da organização social).
Finalmente, o estabelecimento da constituição inglesa deve ser considerado sob
dois aspectos diversos, e, até certo ponto, opostos. Por um lado, continuou a demolição
do antigo sistema, limitando o poder real (que é o seu único vestígio evidente) tanto
quanto era possível fazê-la, sem sair desse sistema. Por outro, criando uma câmara
representativa da opinião pública, instituiu o verdadeiro meio de transição, meio que
permite chegar pacificamente, sem esforço e com rapidez, ao sistema que deve seguir-
se, logo que estiver formado e apto a entrar em atividade.
Tendo chegado ao fim do último termo da primeira série de observações, vou
resumir, em poucas palavras, as consequências deste exame.
Meu ponto de partida era este: no século XI, o sistema feudal e teológico
constituiu-se definitivamente quanto aos poderes temporal e espiritual.
Nessa mesma época, surgiram os elementos de um novo sistema social, isto é,
a capacidade industrial ou dos artesãos (nascida com a emancipação das comunas), à
retaguarda do poder temporal ou militar; e a capacidade científica (nascida com a
introdução das ciências de observação na Europa, pelos árabes), por detrás do poder
espiritual.
Estes dois sistemas coexistiram durante quatrocentos ou quinhentos anos sem
se chocarem abertamente, em virtude da desigualdade de forças: a luta se preparava
em silêncio durante esse intervalo.
A partir do começo do século XVI, deram-se três ataques principais dos
elementos do novo sistema contra o antigo: dois parciais e um geral: cada qual durou
cerca de um século.
O século XVI assistiu ao ataque contra o poder espiritual; o XVII viu o ataque
contra o temporal; e, finalmente, o ataque geral e decisivo, contra o antigo sistema,
ocorreu durante o século XVIII, determinando a queda do regime teológico-militar.
O verdadeiro estado atual do antigo sistema é este, sem qualquer exagero: de
um lado, não há mais doutrina, todas as crenças que lhe serviam de base estão extintas
ou prestes a extinguir-se; o poder espiritual, portanto, não pode mais agir senão sobre a
última classe da sociedade.
De outro lado, o poder temporal está reduzido unicamente a um só de seus
ramos, e este, o poder do rei, acha-se reduzido às menores dimensões que possa ter
para não deixar cair, como massa inerte, todo o antigo sistema nele suspenso.
Enfim, o antigo sistema só tem hoje a força estritamente necessária para manter
a ordem até o estabelecimento do novo; e é por demais duvidoso que consiga mantê-la
se esse estabelecimento for excessivamente retardado.
Deixo a cada qual julgar, em face desta exposição, se a organização do novo
sistema é, ou não, urgente, e se os artistas, os cientistas e os artesãos não cometem o
maior erro despreocupando-se a esse respeito.
Tal é o verdadeiro estado presente da sociedade sob o aspecto do antigo
sistema. Logo veremos, pelo exame da segunda série de observações, se é mais
satisfatório quanto ao novo sistema.

Segunda Série

Tanto nos pareceu tempestuosa a marcha da civilização na série precedente,


quanto a acharemos calma na que vamos examinar. Consideramos anteriormente a
desorganização sucessiva do antigo sistema social; mas, ao mesmo tempo em que se
efetuava essa decadência, a sociedade, a pouco e pouco, se organizava em todas as
suas partes, segundo um sistema novo, que se acha agora bastante desenvolvido a fim
de poder substituir o antigo, já em extrema decrepitude. É este desenvolvimento
gradual do novo sistema que nos resta observar e explicar.
Estabeleçamos, antes de tudo, o ponto de partida.
Vimos que, no século XI, no momento preciso em que o antigo sistema
acabava de constituir-se, nasciam os elementos de uma nova organização social. Esses
elementos eram, quanto ao temporal, a capacidade da indústria nascida da
emancipação das comunas, e, quanto ao espiritual, a capacidade científica, resultante
da introdução das ciências positivas na Europa pelos árabes.
Se algum homem de gênio tivesse podido observar, desde essa época, tal
estado de coisas, com suficientes esclarecimentos, teria infalivelmente previsto, em
sua origem, toda a grande revolução que se efetuou depois; teria reconhecido tenderem
inevitavelmente os dois elementos, acabados de surgir, a derrubar os dois poderes cuja
combinação formava o sistema então em vigor. Teria igualmente previsto que esses
dois elementos se desenvolveriam, cada vez mais, à custa dos dois poderes, de modo a
constituírem, pouco a pouco, um sistema que devia acabar por substituir o antigo.
Apliquemo-nos, primeiro, a verificar nitidamente este apanhado fundamental,
que nos mostrará estar o germe desta segunda série totalmente contido em seu
primeiro termo. Examinaremos, em seguida, a maneira pela qual se operou de fato a
organização do novo sistema.
Esta dupla tendência do novo sistema (igualmente necessária sob os dois
aspectos) para destruir o antigo e substituí-lo, resultava diretamente das duas seguintes
causas: em primeiro lugar, pela própria força das coisas, a capacidade industrial e a
capacidade científica são antagônicas, uma do poder militar, a outra do poder
teológico.
Em segundo lugar, essas duas capacidades, em consequência da maneira pela
qual acabavam de constituir-se, estavam estabelecidas fora do antigo sistema,
pertencendo sob este aspecto, a classes distintas e independentes dos poderes temporal
e espiritual. Esta última circunstância, ao mesmo tempo em que assegurava, no futuro,
às duas capacidades, a possibilidade de atingirem seu desenvolvimento integral,
imprimia-lhes um caráter fundamental e indelével de oposição e incompatibilidade
com o antigo sistema. Tem-se, até hoje, prestado tão pouca atenção a esta observação
essencial, que é indispensável desenvolvê-la com alguma amplitude.
No estado social, que ainda hoje subsiste na Rússia, onde todas as empresas de
artes e ofícios são dirigidas, em última análise, por homens da classe feudal, a
capacidade industrial não se apresenta como oposta, por sua natureza ao poder militar,
e como devendo corresponder a um sistema social distinto. Não adquiriu, ainda,
caráter que lhe seja próprio. Os artesãos são apenas instrumentos passivos nas mãos
dos militares. O mesmo sucede à capacidade científica, quando a cultura das ciências é
ainda exercida pelo poder teológico, o que ocorreu no começo da civilização, nas
antigas teocracias do Oriente, e se tem prolongado até hoje na China. A capacidade
científica não é então, na realidade, senão um instrumento de domínio para o
sacerdócio.
Tal foi, precisamente, o estado de coisas na Europa, até a memorável época que
tomamos para ponto de partida.
Antes da emancipação das comunas, a incipiente indústria agrícola, comercial e
manufatureira, que existia, se achava completamente, senão sob a direção, pelo menos
na dependência absoluta do poder temporal. Assim também, antes da introdução das
ciências positivas na Europa, pelos árabes, as poucas luzes existentes se encontravam
totalmente nas mãos do poder espiritual.
Notemos que este estado de coisas, enquanto subsistiu, assegurava ao antigo
sistema uma vida indestrutível, não só porque os dois elementos, que podiam preparar
o novo, estavam absolutamente na dependência dos antigos poderes, mas também
porque, em consequência desta mesma causa, as duas capacidades se achavam
indefinidamente estacionárias em seu desenvolvimento.
Enquanto as ciências e as artes são consideradas unicamente como
instrumentos, não podem nunca elevar-se acima de certo grau muito pouco elevado,
conforme se pode observar na China e na Índia.
Ao contrário, assim que as comunas se emanciparam e as ciências positivas
foram exclusivamente cultivadas pelos leigos, o que aconteceu logo após sua
introdução na Europa, as coisas mudaram completamente de figura.
Estes dois grandes acontecimentos permitiram, a princípio, às artes e às
ciências, tenderem livremente para o seu completo desenvolvimento, e não impuseram
à expansão das duas capacidades positivas outros limites, a não ser os da duração da
espécie humana.
Em segundo lugar, desde esse momento, a capacidade industrial e a capacidade
científica, desprendidas, para sempre, do antigo sistema, constituíram-se solidamente
fora dele e adquiriram existência própria, característica, independente. Ora, elas não
podiam deixar de ser instrumento do antigo sistema sem se tornarem suas inimigas: é o
caso do adágio: "Qui non est me, contra me est" (Quem não está comigo, está contra
mim).
Esta revolução fundamental criou, portanto, na sociedade, duas forças novas - a
industrial e a científica - que, desde a sua origem, e em virtude dessa própria origem,
ficaram impregnadas, para sempre, do duplo caráter de antagonistas da antiga ordem
política, e de elementos constitutivos de uma ordem nova.
O desprezo e o ódio que o feudalismo e a teologia mostraram constantemente,
desde essa época, um pelas artes e ofícios, a outra pelas ciências de observação,
reforçaram essa divergência, tornando-a mais acentuada.
Assim, pois, a mudança operada no século XI continha, ao mesmo tempo, o
princípio de destruição do antigo sistema e o germe de um novo. Todo o passado,
desde essa época, foi unicamente a consequência e o desenvolvimento desse duplo
estado primitivo da sociedade.
Na série precedente consideramos este desenvolvimento sob o primeiro
aspecto. Vamos, agora, ocupar-nos exclusivamente em acompanhá-lo e estudá-lo sob o
segundo prisma.
Seria certamente absurdo pensar que a organização sucessiva do novo sistema
haja sido dirigida pelos cientistas, artistas e artesãos, de acordo com um plano
premeditado, seguido de maneira invariável, desde o século XI até os nossos dias. Em
nenhuma época o aperfeiçoamento da civilização obedeceu a determinada marcha
assim combinada, concebida previamente por um homem de gênio e adotada pela
massa.
(O grande erro dos legisladores e filósofos da antiguidade consistiu,
precisamente, em quererem sujeitar a marcha da civilização a seus pontos de vista
sistemáticos, quando, ao contrário, seus planos é que lhe deveriam ser subordinados.
Este erro foi, no entanto, muito desculpável e natural da parte deles, porque, nessa
época, os homens estavam ainda muito próximos do começo da civilização para
poderem observar que ela segue determinada marcha e reconhecer a direção seguida,
e, com mais forte razão, para perceberem que essa marcha independe de nós. Só se
podia evidentemente chegar a esta verdade a posteriori, e não a priori. Em outros
termos, a política somente podia tornar-se uma ciência baseando-se em observações, e
estas não podiam existir senão após a existência de uma civilização muito
desenvolvida. Era necessário o estabelecimento de um sistema de ordem social,
admitido por uma população muito numerosa, composta de várias grandes nações, e
toda a duração possível de tal sistema a fim de que uma teoria pudesse fundar-se sobre
essa grande experiência).
Isto é de todo impossível, pela própria natureza das coisas; porque a lei
suprema dos progressos do espírito humano impulsiona e domina tudo; para ela, os
homens não são mais do que instrumentos. Conquanto esta força derive de nós, não
está em nosso poder subtrairmo-nos à sua influência ou lhe dominar a ação, como
também não podemos modificar, de acordo com a nossa vontade, o impulso primitivo
que faz circular nosso planeta em torno do sol.
Os efeitos secundários são os únicos sujeitos à nossa dependência. Tudo quanto
podemos consiste em obedecer a essa lei (nossa verdadeira providência) com
conhecimento de causa, dando-nos conta da marcha que ela nos prescreve, ao invés de
sermos cegamente por ela impelidos; e, digamos de passagem, é nisto que consistirá
precisamente o grande aperfeiçoamento filosófico reservado à época atual. Mas,
apesar disto, quando vemos, na ordem política, uma série de acontecimentos que se
encadeiam de modo semelhante, como se os homens, que foram seus agentes,
houvessem procedido de acordo com um plano, não será permitido empregar esta
suposição para tornar mais evidente tal encadeamento?
(Notarei, aliás, que, se é verdade só tornar-se uma ciência positiva ao basear-se
em fatos observados, cuja exatidão seja geralmente reconhecida, é também
incontestável (de acordo com a história do espírito humano em todas as direções
positivas) que um ramo qualquer de nossos conhecimentos só se torna uma ciência na
época em que se ligam, por meio de uma hipótese, todos os fatos que lhe servem de
fundamento. Assim, quando a política se constituir em ciência, é certo que nela se
empregarão hipóteses, como se tem feito nas outras ciências, e se empregarão no
sentido que acabo de indicar).
É seguir neste caso - somente afastando-nos muito menos da realidade - o uso
adotado nas ciências físicas, onde, para apresentar mais claramente um conjunto de
fenômenos, se atribuem, à própria matéria inorgânica, intenções e desígnios
combinados. Além disto, uma necessidade inevitável, que encadeia uma série de
acontecimentos, e um plano premeditado que os dirige, assemelham-se muito, por suas
consequências, e veremos haver sido a marcha seguida pelo novo sistema exigida pela
situação de seus elementos em sua origem.
O plano que pode ser considerado como tendo sido seguido pelas comunas,
desde a época de sua emancipação, a fim de preparar, pouco e pouco, a organização da
sociedade sobre as bases que lhe eram próprias, foi o seguinte: trataram unicamente de
atuar sobre a natureza para modificá-la tanto quanto possível, da maneira mais
vantajosa à espécie humana, não procurando exercer ação sobre os homens, a não ser a
fim de determiná-los a concorrer para essa atuação geral sobre as coisas.
Tal é, em poucas palavras, a simples marcha que os cientistas e os artesãos
seguiram, de maneira invariável, desde o começo, visando a estudar, exclusivamente,
uns a natureza, a fim de conhecê-la, outros procurando aplicar esse conhecimento à
satisfação das necessidades e desejos do homem.
De tal modo foi prudente esta marcha que não teria sido possível escolher outra
melhor, se aos cientistas e aos artesãos fosse facultado procederem de conformidade
com ideias premeditadas desde o início e livremente discutidas.
Enfim, tão perfeito se revela este plano que tudo quanto hoje nos resta a fazer é
(sem nada alterar nele) aplicá-lo à direção do conjunto da sociedade, assim como os
nossos antepassados conseguiram gradualmente a ele ligar todas as partes da ação
social isoladamente considerada.
É fácil explicar por que este plano foi seguido sem nunca haver sido
combinado, nem mesmo pressentido por ninguém. Depois de termos dado esta
explicação, indicaremos, sumariamente, os motivos do bom êxito que obteve.
Pelo próprio fato de sua emancipação, desembaraçaram-se as com unas da
dependência individual, que antes pesava sobre cada um de seus membros; mas
continuaram sujeitas à dependência coletiva exercida sobre a massa dos artesãos e dos
cientistas pelo conjunto dos militares e dos teólogos.
Esta dependência era tão grande, a princípio, e as comunas de tal modo fracas,
que não podiam, evidentemente, conceber a ideia de se subtraírem a ela. Este
obstáculo, que, à primeira vista, parecia dever ser-lhes funesto, foi precisamente o que
assegurou o triunfo de seus estorços: impediu-as de se transviarem e forçou-as, por
necessidade invencível, a seguirem a marcha que, no fundo, era a melhor.
Não podendo pensar em participar da autoridade e nem mesmo em subtraírem-
se ao despotismo coletivo, procuraram as comunas apenas aproveitar-se do grau de
liberdade individual, que já haviam obtido, a fim de desenvolverem, o mais possível, a
capacidade industrial e a capacidade científica.
Cientistas e artífices procuraram atuar somente sobre a natureza, uns para
penetrarem, por meio de observações e experiências, no conhecimento de suas leis, os
outros para aplicarem tais conhecimentos à produção dos objetos necessários, úteis ou
agradáveis. Nisto não fizeram mais do que seguir a tendência natural que nos impele
para o melhoramento de nossa sorte, pois, pela própria circunstância de sua
inferioridade política, a ação sobre a natureza era o único caminho, então aberto, para
melhorarem as comunas a sua condição social. Vê-se, destarte, bem claramente, qual
foi a força que obrigou as comunas a seguirem, sem disto se darem conta, o plano que
há pouco indiquei.
Para compreender quanto este plano se conformava com os seus verdadeiros
interesses, façamos, primeiro, uma suposição: admitamos que o estado de coisas não
fosse, a princípio, tal como acabo de descrever; imaginemos que as comunas, logo
após a sua emancipação, tivessem obtido uma parte plena e total no exercício do
supremo poder político então existente. Que teriam feito desse poder? Que teria
sucedido? Provavelmente, o seguinte:
Essa participação na autoridade ter-lhes-ia feito perderem de vista seu
verdadeiro objetivo: o desenvolvimento das capacidades industrial e científica. Tal
desenvolvimento teria sido, pelo menos, infinitamente mais lento e, por conseguinte,
as comunas teriam permanecido, durante muito mais tempo, subalternizadas
relativamente aos poderes militar e teológico, porquanto a não ser por um grande
desenvolvimento da força do interesse comum, combinada com a da demonstração,
podiam elas esperar lutar, com êxito apreciável, contra a força física associada à da
superstição. Vemos, assim, as comunas mostrarem-se, até época muito recente, pouco
apressadas em participar da autoridade legislativa que lhes fora outorgada, em França
e na Inglaterra, por um dos ramos do poder temporal durante as contendas entre
realeza e feudalismo.
(A coligação das comunas com uma das metades do poder temporal, contra a
outra, em França e Inglaterra, foi realmente muito útil aos artífices e aos cientistas;
mas não é sob este ponto de vista que a examinamos aqui; é relativamente à destruição
do antigo sistema que deve essa coligação ser considerada, e não relativamente à
organização do novo. Sob este aspecto, estudei-a em minha primeira série de
observações. Quanto ao fato de se apressarem pouco as comunas em participar da
autoridade legislativa, que lhes havia sido proporcionada por seus aliados do antigo
sistema, foi muito sensível na Inglaterra, onde, aliás, visaram, com muito maior
assiduidade do que em qualquer outra parte, a esse gênero de progresso político. Sabe-
se que, antes da época em que começaram a opinar para o voto do imposto,
consideravam as comunas um trabalho muito penoso enviar deputados ao Parlamento,
porque os militares só apelavam para elas a fim de se informarem da quantia com que
podiam contribuir, a fim de pilhá-las com perfeito conhecimento de causa).
Examinemos, agora, de maneira direta, as vantagens da marcha seguida pelas
comunas. Organizaram todos os trabalhos particulares - cuja disposição lhes havia sido
deixada livre - com o fito único de atuar sobre a natureza, sem se preocuparem com a
maneira pela qual os militares e os teólogos dirigiam o conjunto da sociedade, e
fazendo, por assim dizer, abstração do antigo sistema. Por este procedimento prudente,
tiveram a certeza não só de não contrariar os poderes existentes, mas de ser-lhes
agradáveis, deles recebendo todos os estímulos compatíveis com o exercício da
autoridade. Mais ainda: estavam certas de chegar, pouco a pouco, através de maior
ação exercida sobre a natureza, e também através da riqueza e consideração dela
oriunda, a se libertarem sucessivamente da maior parte da autoridade que as oprimia.
Deviam, enfim, contar ainda que, pelo crescimento sucessivo da capacidade
industrial e da científica, adquiririam força cada vez maior, que lhes permitiria pouco a
pouco tratarem, de igual para igual, com seus dominadores, e, mais tarde, até mesmo
se lhes anteporem, o que hoje, efetivamente, se tornou possível.
Os que fazem consistir toda a sua felicidade em exercer uma autoridade
arbitrária, unicamente pelo prazer de exercê-la, são felizmente anomalias muito raras
em a natureza humana. Se os homens, em sua maior parte, almejam o poder, quando
está a seu alcance, não é como fim, mas como meio. E menos pelo amor do poder
(Este amor do poder, que certamente é indestrutível no homem, foi anulado,
entretanto, em grande parte, pelos progressos da civilização, ou, pelo menos, seus
inconvenientes desapareceram, pouco a pouco, em o novo sistema. De fato, o
desenvolvimento da ação sobre a natureza mudou a direção desse sentimento,
transportando-o para as coisas. O desejo de governar os homens transformou-se
gradativamente no de fazer e desfazer a natureza à nossa vontade. Desde então, a
necessidade de dominar, inata em todos os homens, deixou de ser nociva, ou, pelo
menos, pode-se perceber a época em que deixará de ser prejudicial e tornar-se útil. A
civilização aperfeiçoou assim, o moral do homem, não só relativamente à sua
inteligência, mas também quanto às suas paixões. Embora, de acordo com as leis da
organização humana, esta segunda ordem de funções vitais não seja, por si mesma,
perfectível, assim se torna através da influência da inteligência) do que pelo fato de
acharem cômodo, para sua indolência e incapacidade, fazerem trabalhar os outros em
seu proveito, em vez de cooperarem nesse trabalho.
Em última análise, o principal desejo de quase todos os indivíduos não é atuar
sobre o homem, mas sobre a natureza. Não há ninguém, por assim dizer, que não
renuncie logo a uma autoridade muito absoluta, quando o seu exercício exclui o gozo
das vantagens da civilização resultante da ação exercida sobre as coisas. O nababo
inglês, que adquiriu fortuna em Bengala, e exerce o poder ilimitado sobre milhares de
indianos, suspira pelo momento em que poderá voltar à Europa a fim de fruir aí dos
prazeres da vida, conquanto saiba muito bem que, na Inglaterra, não poderá cometer o
menor ato arbitrário contra o mais ínfimo marinheiro a não ser arcando com os riscos e
perigos, E bem certo, portanto, que se obterá dos homens, quando lhes for proposto, o
sacrifício de uma parte do seu poder a fim de conseguirem, em troca, certa dose de
ação sobre a natureza.
O bom êxito do plano político seguido pelas comunas, desde a sua
emancipação, era, pois, fundado numa lei derivada da organização humana.
Julgamos ter explicado, pelo que precede, a causa de todos os progressos
importantes até aqui realizados pelos elementos do novo sistema social em sua
organização gradativa. Tais progressos resultaram, de fato, essencialmente, da
constância com que as comunas seguiram o plano, tão simples e tão perfeito, que
acabamos de expor. Acontecimentos independentes desse plano aceleraram-lhe o
triunfo, mas este deve ser-lhe sempre atribuído em última análise. Não nos resta mais,
portanto, do que fazer a recapitulação desses progressos.
Para evitar, no que vamos expor, a confusão do desenvolvimento do novo
sistema, no temporal e no espiritual, é necessário, em primeiro lugar, distinguir os
progressos feitos pela massa das comunas, dos que foram realizados por seus chefes
temporais e espirituais. Além disto, consideraremos, separadamente dos políticos, os
progressos civis do novo sistema.
Entendemos por progressos civis do novo sistema seu desenvolvimento
próprio, considerado independentemente de todas as relações com o antigo sistema, e,
por progressos políticos, a influência que o antigo sistema deixou o novo tomar na
formação do plano político geral, assim como a parte da autoridade legislativa por ele
obtida.
Consideremos, primeiro, os progressos civis e políticos do novo sistema
relativamente ao temporal, e, antes de tudo, os progressos civis.
Não nos propomos mencionar aqui, nem mesmo sumariamente, os progressos,
em verdade imensos, realizados pelas artes e ofícios, desde a emancipação das
comunas: limitar-nos-emos a considerá-los na parte em que se relacionam com a
organização do novo sistema.
Desde essa época a capacidade industrial adquiriu tal desenvolvimento que a
imaginação mais viva não poderia apresentar a esse respeito um quadro exato. Todas
as artes, até então conhecidas, foram prodigiosamente aperfeiçoadas, e novas, em
quantidade incomparavelmente maior, foram criadas. A agricultura multiplicou seus
produtos em enorme proporção. As relações comerciais se aperfeiçoaram em grau
incalculável, e, ao mesmo tempo, tomaram extensão de grande vulto, mormente depois
da descoberta do Novo Mundo. Finalmente a ação da espécie humana sobre a natureza
cresceu em proporção inapreciável, ou, para dizer melhor, só então foi
verdadeiramente criada.
Como resultado deste acréscimo de ação, parte muito maior da espécie
humana, nos países civilizados, achou-se abundante e seguramente provida das coisas
necessárias à vida, embora houvesse a população aumentado consideravelmente e se
disseminasse em proporção análoga, o uso dos objetos de comodidade e adorno.
Eis as principais consequências desses melhoramentos no tocante à
organização temporal do novo sistema.
As comunas adquiriram, progressivamente, influência e consideração
preponderantes. Tudo, na sociedade, caiu sob sua dependência, enfeixando, em suas
mãos, todas as forças reais: a própria força militar lhes ficou subordinada desde a
invenção da pólvora.
Por um lado, esta última descoberta fez desaparecer a superioridade física dada
pelas armas aos militares sobre os artesãos, e assegurou a estes os meios de se
garantirem contra as violências sem necessitarem receber educação militar. Por outro
lado, colocou todo o sistema de guerra na dependência das artes industriais e das
ciências de observação.
Ao mesmo tempo, tornando-se a guerra, por esta mesma razão, cada vez mais
dispendiosa, não pôde mais fazer-se sem empréstimos, através dos quais o poder
militar caiu na estreita dependência das comunas. Em uma palavra, chegaram as coisas
sucessivamente ao ponto de não poder a guerra deflagrar-se se o setor industrial e o
científico lhe recusassem cooperação.
Os progressos políticos do novo sistema, relativamente ao temporal, foram a
consequência direta e necessária de seus progressos civis. À medida que as comunas
adquiriram maiores riquezas, maior consideração e maior importância civil, tiveram
também maior influência sobre a direção geral da sociedade e maior autoridade
política direta.
É principalmente na Inglaterra que a marcha das comunas deve ser observada
sob este aspecto, pois foi aí que se manifestou com maior evidência.
(Quase logo depois de sua emancipação, as comunas foram chamadas, tanto
em França quanto na Inglaterra, a fim de concorrer para a formação dos Estados
Gerais. Mas, em França, este fato quase não teve consequências. Aproveito este ensejo
para dizer que entendi não dever tomar em consideração as tentativas levadas a efeito,
pouco tempo depois da emancipação, em quase todos os pontos da Europa civilizada,
especialmente na Itália e na Alemanha, a fim de organizar sociedades industriais.
Essas tentativas, que eram apenas o despertar do novo sistema, não deixaram qualquer
traço duradouro; não tiveram, nem podiam ter, caráter orgânico. Em uma exposição
tão sumária como esta, lançariam confusão nas ideias, em vez de esclarecê-las).
Havendo as comunas, no Parlamento da Inglaterra, começado por obter uma
espécie de voz consultiva no voto do imposto, chegaram, pouco a pouco, a obter voz
deliberativa, e sucedeu mais tarde, enfim, que o voto do imposto lhes foi
especialmente outorgado. Este direito exclusivo foi estabelecido como princípio
fundamental, e de maneira irrevogável, em consequência da revolução de 1688.
Ao mesmo tempo, a influência das comunas sobre a formação do plano de
política geral foi cada vez maior. Na Inglaterra, na mesma época, chegou essa
influência a ponto de conseguir que o antigo sistema admitisse, como princípio,
basear-se a prosperidade social na indústria, e dever, por conseguinte, o plano político
ser concebido no interesse das comunas. Sob este duplo aspecto, a modificação do
antigo em favor do novo foi levada tão longe quanto possível, enquanto a sociedade
estivesse sujeita, em seu conjunto, àquele sistema. Este passo, dado pelas comunas,
foi, sem dúvida, muito essencial, mas é também necessário não exagerar-lhe a
importância. É imprescindível não ver, em simples modificação, uma mudança total de
sistema.
Em princípio, o direito exclusivo de votar o imposto, conferido às comunas,
devia investi-las do supremo poder político; mas, na realidade, esse direito muito
pouco útil lhes tem sido, até agora, pois, de fato, não foi por elas exercido. A Câmara
denominada dos Comuns, não tem sido mais, no fundo, do que uma espécie de
apêndice da realeza e do feudalismo; não tem sido mais do que um instrumento do
antigo sistema.
Assim também o axioma admitido na Inglaterra pelo poder temporal, segundo
o qual o plano político deve ser concebido no interesse da indústria, não foi, até o
presente, senão muito pouco útil às comunas. A razão é que, tendo o antigo sistema
ficado com o direito de formar esse plano, e devendo necessariamente conservar a
mesma função até que o novo sistema seja definitivamente organizado, não pôde
oferecer às comunas, a fim de contribuir para a sua felicidade, senão os seus próprios
meios de ação, isto é, a força e a astúcia. Foi assim que, depois do famoso ato de
navegação, o poder temporal fez guerras sistemáticas e combinou planos
maquiavélicos tendo em vista servir os interesses das comunas.
O estabelecimento do regime parlamentar, na Inglaterra, deve, portanto, ser
considerado unicamente como tendo modificado, o mais possível, o antigo sistema, e
constituído os meios de passar ao novo. Apenas sob este ponto de vista foi útil às
comunas, porque, considerado em si mesmo, de maneira absoluta, suas consequências
lhes foram pelo menos tão funestas quanto vantajosas.
A França, pela recente adoção da constituição inglesa, colocou-se no mesmo
nível da Inglaterra, sob o duplo aspecto que acabamos de examinar. Apenas, como
essa mudança se operou numa época de civilização muito mais adiantada, foi muito
mais completa. Tendo sido eliminado o feudalismo antes de instituído o regime
parlamentar, a modificação do antigo sistema, em França, pareceu infinitamente maior
do que na Inglaterra. O princípio que considera o interesse das comunas como o fim e
o regulador das combinações políticas, apresentou aí um caráter muito mais amplo,
mais geral e mais preponderante.
Finalmente, pelo fato de haver sido esse regime estabelecido, em França, numa
época em que era profundamente sentida a necessidade de mudar, de modo completo,
o sistema político, o caráter de transição, típico do regime parlamentar, aí se tornou
muito mais pronunciado.
Observemos, agora, os progressos civis e políticos do novo sistema
relativamente ao espiritual.
Antes da introdução das ciências positivas na Europa, todos os nossos
conhecimentos, particulares e gerais, eram inteiramente teológicos e metafísicos. Os
poucos raciocínios que então se faziam sobre a natureza fundavam-se unicamente em
crenças religiosas. Mas desde essa época memorável, as ciências naturais começaram a
basear-se, progressivamente, nas observações e experiências; mesmo assim, as
ciências continuaram, até época muito recente, confundidas com a superstição e a
metafísica. Só no fim do século XVI e nos primeiros anos do XVII conseguiram
desembaraçar-se inteiramente das crenças teológicas e das hipóteses metafísicas.
A época em que as ciências começaram a tornar-se verdadeiramente positivas
deve ser reportada a Bacon, que deu o primeiro sinal dessa grande revolução; a
Galileu, seu contemporâneo, a quem se deve o seu primeiro exemplo; e, enfim, a
Descartes, que destruiu irrevogavelmente, nos espíritos, o jugo da autoridade em
matéria científica. Foi então que nasceu a filosofia natural e que a capacidade
científica encontrou seu verdadeiro caráter: o de elemento espiritual de um novo
sistema social.
A partir dessa época, as ciências tornaram-se sucessivamente positivas na
ordem que deviam seguir para tal fim, isto é, na ordem do grau maior ou menor de
suas relações com o homem. Foi deste modo que a astronomia, em primeiro lugar,
depois a física, mais tarde, a química, e, finalmente, em nossa época, a fisiologia,
foram constituídas ciências positivas. Esta revolução está, portanto, plenamente
efetuada em todos os nossos conhecimentos particulares e tende, evidentemente, a
operar-se agora na filosofia, na moral e na política, sobre as quais a influência das
doutrinas teológicas e da metafísica já foi destruída aos olhos de todos os homens
instruídos, sem que, todavia, estejam ainda essas ciências fundadas em observações. É
a única coisa que falta ao desenvolvimento espiritual do novo sistema social.
À medida que as ciências se tornaram positivas, e, por consequência, fizeram
progressos sempre crescentes, uma quantidade, cada vez maior, de ideias científicas
entrou na educação comum, ao mesmo tempo em que as doutrinas religiosas perdiam
gradativamente sua influência. Criaram-se escolas especiais para as ciências, nas quais
a ação da teologia e da metafísica era, por assim dizer, nula. Enfim, o estado dos
espíritos mudou de tal modo, sob este aspecto, que hoje o sistema de ideias de cada
indivíduo, desde o cidadão menos instruído até o mais esclarecido, corresponde quase
totalmente ao das ciências positivas, e as antigas crenças não ocupam aí,
comparativamente, mais do que pequena parte, mesmo nas classes em que tais crenças
conservaram maior força.
Pode dizer-se, sem exagero, que as doutrinas religiosas não têm sobre os
espíritos outra influência senão a que deriva do fato de ainda lhes estar ligada a moral.
Esta influência durará, necessariamente, até a época em que a moral tiver sofrido o
influxo da revolução, já efetuada em todos os nossos conhecimentos particulares,
tornando-se positiva. A partir desse momento, o império das crenças teológicas
extinguir-se-á para sempre, pois é claro que este estado de coisas, onde todas as partes
de nosso sistema de ideias se tornaram positivas, enquanto as destinadas a servir de
laço geral continuam supersticiosas, não poderá deixar de ser transitório, sem o que
haveria contradição na marcha geral dos acontecimentos.
Os progressos políticos do novo sistema, no atinente ao espiritual, foram, como
no temporal, a consequência de seus progressos civis. Desde o estabelecimento das
primeiras escolas para o ensino das ciências de observação, ocorrido no século XIII, o
poder real, em França, e o feudalismo na Inglaterra, animaram constante e
progressivamente as ciências e deram realce à existência política dos seus
representantes. Em França, a realeza contraiu, de modo crescente, o hábito de
consultá-las sobre assuntos de sua competência, e procurar obter-lhes a aprovação, o
que equivalia a reconhecer implicitamente a superioridade das ideias científicas
positivas sobre as teológicas e metafísicas.
O que nossos reis, a princípio, não haviam considerado senão como coisa
louvável, chegaram, pouco a pouco, a encarar como dever, e reconheceram a
obrigação de animar as ciências e submeterem-se às decisões dos cientistas. A criação
da Academia das Ciências, instituída no reinado de Luís XIV pelo ministro Colbert, é
uma declaração solene deste princípio. Essa instituição foi, ao mesmo tempo, o
primeiro passo para a organização política do elemento espiritual do novo sistema.
O número das academias multiplicou-se prodigiosamente, desde essa época,
em todos os pontos do território europeu pela ação da capacidade científica sobre os
espíritos. Ela foi constituída de maneira regular e legal; sua autoridade política cresceu
em proporção análoga e exerceu influência direta e ascendente sobre as diretrizes da
educação nacional. Se se considerarem sob este aspecto, as atribuições legais de que
está atualmente investida a primeira classe do Instituto, convir-se-á que são, pouco
mais ou menos, tão amplas quanto podem sê-lo enquanto não estiver a corporação que
as exerce encarregada do ensino da moral.
(Em tese geral, é claro que a direção suprema da educação nacional e o ensino
da moral devem estar nas mesmas mãos; separá-las seria absurdo. Por conseguinte,
enquanto a moral continuar baseada unicamente em crenças religiosas, é inevitável
que as diretrizes gerais da educação pertençam, em última análise, a uma corpo ração
teológica, ou, pelo menos, ao espírito teológico. Os homens que hoje se insurgem tão
vivamente contra os jesuítas, os missionários e outras corporações religiosas,
deveriam, pois, compreender que o único meio de extinguir o resto da influência
dessas sociedades é fundar a moral na observação dos fatos. Até que um trabalho desse
gênero se realize, todas essas reclamações serão quase inúteis, porque, em grande
parte, induzirão a erro).
Ora, isto somente poderá acontecer na época em que a moral tornar-se uma
ciência positiva. Deste modo, sob tal ponto de vista, como sob todos os que temos
considerado até aqui, o antigo sistema cedeu o lugar ao novo, e tanto quanto lhe era
possível, lhe desbravou o caminho. Não se podia ir mais longe, a não ser organizando
o novo sistema.
É essencial observar que, à medida que a ação científica foi constituída e cada
vez mais ampliada em cada nação europeia, considerada isoladamente, a combinação
das forças científicas dos diversos países se efetuou, também, progressivamente. O
sentimento de nacionalidade, sob este aspecto, foi totalmente afastado e os cientistas
de todas as partes da Europa formaram indissolúvel liga, que tendeu sempre a tornar
europeus todos os avanços científicos realizados em cada ponto particular. Esta santa
ali anca, contra a qual o antigo sistema não possui qualquer meio de resistência, é mais
forte, para operar a organização do novo, do que pôde ser para impedi-lo, ou
simplesmente enfraquecê-lo, a coligação de todas as baionetas europeias.
A mesma combinação ocorreu, até certo ponto, entre as capacidades industriais
das diferentes nações europeias, mas em grau infinitamente mais fraco. O sentimento
de rivalidade nacional, as inspirações de um patriotismo feroz e absurdo, decorrentes
do antigo sistema, e por ele cuidadosamente mantidas, conservaram ainda grande
influência quanto ao temporal. Este fato determinou que a liga das diferentes nações
europeias, para organizar o novo sistema, só pudesse começar no espiritual. A
coligação das capacidades temporais só poderia realizar-se depois, e como resultante
da precedente. Cumpre, enfim, observar que, enquanto os dois elementos obtiveram
separadamente desenvolvimentos nacionais e europeus, para a organização política
final, a combinação entre eles, e, por conseguinte, a formação do sistema também se
efetuou progressivamente.
Uma classe intermediária surgiu entre os cientistas, os artistas e os artesãos - a
classe dos engenheiros; e, desde este momento, começou a combinação das duas
capacidades. Ela se tornou cada vez maior, a tal ponto que hoje, na opinião geral dos
cientistas e dos artífices - embora em grau menor entre estes últimos - o verdadeiro
destino das ciências e das artes é de se combinarem para modificar a natureza em
benefício do homem, umas estudando-a para conhecê-la, e as outras aplicando tal
conhecimento.
Em Franca e na Inglaterra principalmente, numerosos estabelecimentos
públicos e particulares vivificaram esse princípio, organizando um começo de
combinação. Tais são, em Franca, o conservatório das artes e ofícios e as diferentes
escolas Que com ele se relacionam, a sociedade de incentivo à indústria e a escola de
pontes e calçadas, etc.
Por este modo, não só cada um dos dois elementos do novo sistema tendeu,
sucessivamente, para sua organização completa, e acabou superando o elemento
correspondente do antigo, mas também sua combinação adquiriu progressos sempre
crescentes, que os prepararam para coordenarem-se conjuntamente a fim de dirigirem
a sociedade.
Consideramos, apenas, em tudo quanto precedeu, os progressos civis e
políticos, conseguidos pelos chefes temporais e espirituais do novo sistema.
Resta-nos observar os passos feitos pela massa das comunas para a nova
organização social. Foram de duas espécies: consistiram, uns, na capacidade adquirida
pelo conjunto das comunas, tanto no temporal, como no espiritual, de viver sob o novo
regime; referem-se os outros à coordenação sucessiva da massa popular sob os novos
chefes temporais e espirituais.
É necessário que uma população haja adquirido certo grau de capacidade
temporal e espiritual a fim de conseguir viver sob um sistema de ordem social em que
não esteja sujeita, quanto ao temporal, ao império da força física, e, quanto ao
espiritual, ao das crenças cegas. O homem que, no temporal, não contrair certos
hábitos de ordem, de economia e de amor ao trabalho, e, no espiritual, não possuir
certo grau de instrução e previdência, não está em condições de ser emancipado; tem
indispensavelmente necessidade de ser guiado. O mesmo ocorre com um povo;
enquanto não houver preenchido essas condições, somente poderá ser governado por
meios arbitrários. Os servos da Rússia, por exemplo, que, em épocas de grande
escassez, comem o trigo destinado à sementeira, são ainda incapazes de gozar da
própria liberdade individual. Tentar sua emancipação, antes que tenham contraído
melhores hábitos, seria verdadeiro absurdo e não poderia dar bom resultado. Em
França, porém, onde a massa inteira da nação sabe suportar a fome ao lado do trigo de
semente, sem tocá-lo, o povo já não tem mais necessidade de ser governado (isto é,
dirigido). Para a manutenção da ordem, basta que os interesses comuns sejam
administrados.
Assim também, no espiritual, o povo que, por exemplo, acreditar em
feiticeiros, a ponto de deixar-se guiar por eles em seus negócios importantes, tem
necessidade seja o seu espírito governado arbitrariamente por homens mais
esclarecidos. Não poderia ficar entregue a si mesmo sem inconveniente para seus
próprios interesses. É evidente, porém, que tão logo a massa de um povo se encontre
em condições de conduzir-se nos negócios comuns da vida, segundo seus próprios
conhecimentos, satisfazendo, por conseguinte, às duas condições que estabelecemos,
já não tem absolutamente necessidade de ser governada; pode conduzir-se por si
mesma, sem correr qualquer perigo a tranquilidade. Podemos até acrescentar que toda
ação de mando, exercida sobre o povo, em época em que se torna inútil, tende mais a
perturbar a tranquilidade do que a mantê-la.
Desde a emancipação das comunas, a massa da população francesa contraiu,
pouco a pouco, hábitos e adquiriu luzes suficientes para viver sob o novo sistema. A
abolição da escravatura tornou, por si mesma, todos os indivíduos proprietários; desde
então, não existiram mais verdadeiros proletários, na acepção rigorosa desta palavra.
Convém notar que a propriedade industrial oriunda da emancipação, exige, por sua
natureza, bem maior capacidade do que a propriedade territorial, tal como existiu
depois, porquanto esta, quando separada da agricultura, não requer outro talento senão
o de gozar das próprias rendas com moderação a fim de não comprometer os capitais.
É o cultivador quem necessita de capacidade, e não o possuidor da terra.
Tornando-se proprietário, contraiu o povo progressivamente todos os hábitos
de amor à ordem e ao trabalho, de previdência e respeito à propriedade, e, ao mesmo
tempo, adquiriu de modo bastante geral em França, na Inglaterra, e na Alemanha do
norte, o primeiro grau de instrução.
(Depois de ter visto, durante a terrível fome de 1794, no momento em que a
última classe do povo era extremamente poderosa, esta mesma classe morrer de fome,
aos milhares, sem que a tranquilidade haja sido perturbada um só momento, em
consequência de tal fome, podemos afirmar saber o povo francês respeitar a
propriedade).
Sob estes dois aspectos, resta, sem dúvida, muito a realizar, e principalmente
sob o segundo. Mas o aperfeiçoamento foi bastante grande para que o povo não tenha
mais necessidade de ser governado pela força e pelas crendices. Adquiriu capacidade
para tornar-se associado, vivendo sob o novo sistema onde a ação de governar deve
reduzir-se ao indispensável a fim de estabelecer uma subordinação de trabalhos na
ação geral dos homens sobre a natureza, objetivo final do sistema. De fato, só pelos
novos hábitos do povo a tranquilidade é essencialmente mantida em nossos dias; para
isto o aparelho militar do poder temporal não contribui senão mui acessoriamente, tal
qual o "aparelho infernal" do outro poder.
(A ação do antigo sistema é ainda indispensável para a manutenção da ordem,
mas não o é sob o ponto de vista que acabamos de considerar; é apenas, para impedir
perturbem os ambiciosos e intrigantes a tranquilidade, disputando-se um poder, que
lhes despertará a cobiça até que possa extinguir-se pela organização definitiva do novo
sistema. Ora, não é o povo quem visa por este modo ao poder: é a classe ociosa e
parasitária da sociedade, isto é, na França atual [1820], o antigo feudalismo e o
feudalismo de Bonaparte).
Examinemos, agora, de que maneira a população se organizou,
sucessivamente, sob os novos chefes temporais e espirituais.
Antes da emancipação das comunas, a massa do povo tinha, no temporal, como
chefes únicos e permanentes, os militares. Depois da emancipação, pelo contrário, o
povo desligou-se, pouco a pouco desses chefes, e, ao mesmo tempo, organizou-se sob
a direção dos chefes das artes e ofícios. Contraiu, para com estes, hábitos de
subordinação e disciplina, que, sem serem rigorosos, eram todavia suficientes para
manter a ordem nos trabalhos e a boa harmonia na sociedade.
A época da separação completa entre o povo e seus chefes militares pode
reportar-se à origem da instituição dos exércitos permanentes e assalariados no
governo de Carlos VII. No intervalo que decorreu desde a emancipação até o
nascimento dessa instituição, o povo foi, simultaneamente, dirigido por essas duas
espécies de chefes. Para todos os trabalhos pacíficos habituais, estava sob a direção
dos chefes industriais, mas, para os trabalhos e exercícios militares, se achava, em
geral, sob o comando dos chefes militares.
Quando foram instituídos os exércitos permanentes e assalariados, tendo-se
tornado a profissão de soldado a finalidade de uma fração particular e separada da
população, a massa do povo não teve mais nenhuma relação com os chefes militares, e
só se organizou industrialmente. O que se fazia soldado não se considerava e não era
mais tido como pertencendo ao povo. Passava das classes do novo sistema às do
antigo; deixava de pertencer às comunas e tornava-se feudal, e eis tudo: era ele que se
desnaturava, e não o sistema de que antes fizera parte.
Assim, essa instituição dos exércitos permanentes, tornada hoje, pelos
progressos da civilização, tão onerosa e tão inútil, foi uma fase intermediária
indispensável a fim de chegar-se à organização do novo sistema.
Observe-se agora o estado do povo e ver-se-á que, efetivamente, no atinente ao
poder temporal, não se encontra mais em relação direta e contínua senão com seus
chefes industriais. Siga-se, através do pensamento, em suas relações cotidianas,
qualquer operário, seja na agricultura, nas manufaturas, ou no comércio, e ver-se-á que
não é subordinado e não está em contato a não ser com os chefes agricultores,
manufatureiros e comerciantes, e de modo algum, por exemplo, com o grande senhor
proprietário da terra, ou com o capitalista ocioso a quem pertencem, no todo ou em
parte, a manufatura ou a casa de comércio. Suas relações com os chefes militares da
sociedade acham-se todas compreendidas nas relações gerais do novo sistema com o
antigo; já não existem relações de outra espécie.
Vem a propósito notar a diferença fundamental, relativa ao povo em seu
proveito, existente entre seu entrosamento atual com os chefes industriais, e sua antiga
submissão aos chefes militares. Esta diferença fará ressaltar um dos contrastes mais
importantes e mais felizes entre o antigo e o novo sistema.
No antigo sistema, o povo era arregimentado em relação a seus chefes; em o
novo, é combinado com eles. Da parte dos chefes militares havia comando; da dos
chefes industriais não há mais do que direção. No primeiro caso, o povo era súdito, no
segundo é societário. Tal, efetivamente, o admirável caráter das combinações
industriais: todos aqueles que para elas concorrem são, realmente, colaboradores e
associados, desde o mais simples operário até o fabricante mais opulento e o
engenheiro mais esclarecido.
Em uma sociedade, onde entram homens que não trazem nem capacidade, nem
capitais, há necessariamente senhores e escravos, sem o que os trabalhadores não
seriam bastante tolos para consentirem em semelhante organização, se dela pudessem
eximir-se: não se pode mesmo conceber tal sociedade, havendo começado de outro
modo senão pela força. Mas, em uma cooperação onde todos trazem uma capacidade e
capitais, há verdadeira associação, e não existe outra desigualdade a não ser a das
capacidades e dos capitais necessários, isto é, inevitáveis, e seria absurdo, ridículo e
funesto pretender que desapareçam.
Cada indivíduo obtém um grau de importância e de benefícios proporcionais à
sua capacidade e ao seu capital, o que constitui o mais alto grau de igualdade possível
e desejável. Tal o caráter fundamental das sociedades industriais, e foi o que o povo
ganhou, organizando-se em relação aos chefes das artes e ofícios. Seus novos chefes
sobre ele não exercem outro comando além do estritamente necessário à boa ordem do
trabalho, vale dizer, muito pouca coisa. À capacidade industrial, por sua natureza,
repugna tanto exercer a arbitrariedade, quanto suportá-la. Não nos esqueçamos, além
disto, que, em uma sociedade de trabalhadores, tudo tende naturalmente para a ordem;
a desordem é sempre promovida, em última análise, pelos ociosos.
Observemos, finalmente, que, multiplicando os progressos da indústria, das
ciências e das belas-artes os meios de subsistência ao diminuir o número de
desocupados, ao esclarecer os espíritos e ao aperfeiçoar os costumes, tendem, cada vez
mais, a extinguir as três maiores causas de desordens: a miséria, a ociosidade e a
ignorância.
Faremos, em relação ao espiritual, observações análogas às que acabam de ser
apresentadas no tocante ao temporal.
Antes da introdução das ciências positivas na Europa, ou, para dizer com maior
precisão, antes de haverem as ciências passado das mãos do clero para as dos seculares
(acontecimento que se seguiu ao primeiro muito de perto), a massa do povo estava
espiritualmente organizada por seus chefes teológicos. O povo dava crédito às suas
palavras, consultava-os sobre tudo e aceitava cegamente suas decisões: as doutrinas,
por eles estabelecidas, tornavam-se suas. Em uma palavra, o povo contraíra, em
relação aos chefes espirituais, o hábito de confiança absoluta e de submissão espiritual
inteiramente ilimitada. No momento, porém, em que as ciências positivas adquiriram
certo desenvolvimento, essa confiança e respeito foram pouco a pouco retirados do
clero e transferidos sucessivamente aos cientistas.
Esta modificação foi poderosamente secundada por mudança análoga já
efetuada no temporal. O povo organizado industrialmente compreendeu logo que os
seus trabalhos habituais de artes e ofícios não estavam, de modo algum, relacionados
com as ideias teológicas; que não podia obter, com os teólogos, quaisquer luzes reais
sobre os objetos de suas ocupações cotidianas; e, em toda parte onde pôde entrar em
contato com os cientistas, quer direta, quer indiretamente, perdeu o hábito de consultar
os padres e contraiu o de pôr-se em contato com os que possuíam conhecimentos
positivos. Sem dúvida, este contato está ainda muito longe de ser tão íntimo como
poderia e deveria ser, e isto se dá, principalmente, não porque o povo tenha pouco
desejo de instruir-se, mas em consequência da falta de meios para conseguir a
instrução, e do pouco cuidado, ainda existente, em fazê-lo adquirir os conhecimentos
que lhe seriam úteis.
O povo, pelo contrário, é bem mais ávido de instrução do que os ociosos de
nossos salões, porque seus trabalhos lhe fazem sentir, a cada instante, a necessidade
dela. Em toda parte onde tem encontrado possibilidades de estudar, ele o tem feito.
Mas, embora a ação da capacidade científica sobre o povo seja ainda muito
fraca, em face do que poderia ser, não é menos certo que se mostra maior do que
comumente s.e pensa. Fatos evidentes e incontestáveis provam depositar o povo hoje,
na opinião unânime dos sábios, o mesmo grau de confiança que depositava, durante a
Idade Média, nas decisões do poder espiritual.
Assim, por exemplo, há perto de um século o povo deixou unanimemente de
crer na imobilidade da Terra, admitiu a teoria astronômica moderna e deposita nela
tanta confiança quanta jamais atribuiu às antigas crenças religiosas.
Qual o motivo desta revolução nas opiniões populares? Será por ter o povo
tomado conhecimento das demonstrações que estabelecem a teoria do movimento da
Terra? Certamente não, porque essas demonstrações não são talvez compreendidas por
três mil indivíduos em toda a população francesa. A confiança do povo provém,
evidentemente, da unanimidade que encontra nas opiniões dos cientistas sobre este
ponto de doutrina.
Examinem-se, nas ciências de observação, todas as descobertas hoje populares,
e ver-se-á que se Vulgarizaram de igual maneira: o povo admitiu sucessivamente a
circulação do sangue, a identidade entre a matéria do raio e a eletricidade, etc., etc.
Além disto, em assunto de ciência, todos os que não estão em condições de
compreender as demonstrações, acham-se englobados no povo. A mesma confiança
que levou os leigos a admitirem a análise do ar e da água, a lei da gravitação universal,
a decomposição da luz, e tantas outras descobertas astronômicas, físicas, químicas e
fisiológicas, fará igualmente o povo aceitá-las um pouco mais tarde.
Está, portanto, provado, pelos fatos mais evidentes, que o povo se acha hoje,
espiritualmente, confiante e subordinado em relação a seus chefes científicos, da
mesma forma que o está, temporalmente, em relação aos chefes industriais, e tenho,
por consequência, o direito de concluir estar a confiança tão bem organizada em o
novo sistema quanto a subordinação.
Devemos igualmente observar aqui ser a confiança do povo em seus novos
diretores espirituais inteiramente distinta, por sua natureza, da que consagrava a seus
chefes teológicos no antigo sistema. Esta consistia numa submissão de espíritos
inteiramente cega, exigindo, em cada indivíduo, uma abdicação absoluta de sua
própria razão. Outro é o caráter da confiança na opinião dos cientistas. É o
assentimento dado a proposições sobre coisas suscetíveis de verificação, proposições
unanimemente admitidas pelos homens que adquiriram e provaram capacidade
necessária para julgá-las.
Na realidade, o fato é admitido sem provas; mas só o é pela razão de julgar-se
o povo incapaz de acompanhar as demonstrações de tais verdades, Esta confiança
encerra sempre, implicitamente, a reserva expressa do direito de contradição sempre
que novas demonstrações apresentadas provarem ser mal fundadas, ou quando luzes
suficientemente adquiridas pelos que aceitam por fé permitem derrubar as opiniões
recebidas, O povo está, portanto, longe de renunciar, por isto, ao livre exercício de sua
razão.
Esta confiança do povo nas opiniões dos cientistas é absolutamente da mesma
ordem, embora muito mais ampla, do que a dos sábios entre si.
Os matemáticos creem nos fisiologistas sob palavra e, reciprocamente, confiam
na palavra uns dos outros antes de haverem podido conhecer e julgar as
demonstrações. Qualquer matemático admite, sem exame, uma proposição afirmada
pela autoridade de Lagrange.
Esta crença não apresenta nenhum inconveniente nas ciências, porque nunca
deixa de ser provisória, A confiança depositada pelo povo nos cientistas tem
precisamente o mesmo caráter; apenas é um provisório que se prolonga
indefinidamente, sem jamais ser considerado definitivo, Não é, destarte, esta confiança
de modo algum humilhante para o povo, e nunca poderá ter, para os seus interesses, a
menor das consequências funestas da submissão de espírito aos teólogos.
O temor de ver estabelecer-se, um dia, qualquer despotismo fundado nas
ciências, seria quimera tão ridícula quanto absurda, somente podendo nascer nos
espíritos estranhos a qualquer ideia positiva,
Pelo que precede vê-se que, achando-se hoje o povo organizado, temporal e
espiritualmente, em relação ao novo sistema, a parte mais difícil do seu
estabelecimento está plenamente realizada, Esta grande modificação simplificou, tanto
quanto possível, o trabalho a ser feito para o seu definitivo triunfo, reduzindo a meras
relações entre os chefes do novo e do antigo sistema tudo quanto resta fazer a tal
respeito,
O povo foi eliminado da questão. E para ele que ela se resolverá, mas
conservar-se-á de fora e passivo.
O único perigo a temer, a única precaução a tomar consiste em não deixarmos
nos desviem da meta visada as intrigas dos ambiciosos que procuram disputar o
decrépito poder do antigo sistema.
Tais, em esboço, as partes principais do quadro que nos apresenta, desde o
século XI, a marcha da civilização considerada sob o aspecto do desenvolvimento
gradual do novo sistema social. Procuremos, agora, resumir, o mais sumariamente
possível, os resultados dessa grande série orgânica.

Resumo da Segunda Série

Partimos deste fato fundamental: a emancipação das comunas e a introdução


das ciências positivas na Europa constituíram, no século XI, os dois elementos do
novo sistema social: a capacidade industrial e a capacidade científica.
Fizemos ver em seguida:
1º) - As duas capacidades .elementares do novo sistema social estavam
assentes em bases de natureza diversa das dos poderes em que repousava o antigo
sistema;
2º) - Essas duas capacidades se haviam constituído fora do antigo sistema e de
maneira a se tornarem tão independentes dele quanto possível;
3º) - As comunas, ou as duas capacidades reunidas, tomaram, desde o início, a
prudente decisão de não pretenderem participar da autoridade do antigo sistema, e se
propuseram unicamente aproveitar o grau de independência, de que gozavam, a fim de
exercer sobre a natureza a maior ação possível;
4º) - Deste plano, invariavelmente seguido, decorreu o duplo efeito que devia
decorrer: de um lado, os elementos do novo sistema adquiriram seu completo
desenvolvimento, donde resultou tornar-se preponderante sua força civil; e, de outro,
obtiveram, pouco a pouco, maior grau de liberdade, da qual usaram sempre de igual
modo, e, por fim, foram naturalmente investidos de parte da autoridade legislativa, que
não havia sido por eles diretamente almejada;
5º) - Todas as forças temporais e espirituais da sociedade passaram às mãos das
comunas, e até a força militar se subordinou à sua influência;
6º) - As comunas obtiveram todo o ascendente que podiam ter sobre o plano
político formado pelo antigo sistema, até que esse plano seja instituído por elas
mesmas, admitindo o poder temporal, como princípio, deva, no interesse delas, ser
articulada toda a organização social;
7º) - O poder temporal estabeleceu o regime parlamentar, o qual, pelo voto
exclusivo do imposto concedido às comunas (ao menos, em princípio), as investiu de
toda a autoridade legislativa que lhes podia ceder, sem destruir-se;
8º) - Esta autoridade é mais do que suficiente a fim de poderem as comunas
atuar hoje diretamente, e de maneira legal, na organização definitiva do novo sistema;
9º) - Concomitantemente com esses progressos, realizados pelos chefes
temporais e espirituais do novo sistema, a massa das comunas se desligou por
completo de seus chefes militares e teológicos, organizando-se, sob os aspectos
temporal e espiritual, mediante a direção dos chefes das duas capacidades positivas.
Deste modo, cedeu o antigo sistema ao novo tudo quanto lhe podia ceder, sem
aniquilar-se, e assim aplainou, para o novo sistema, o caminho pelo qual deve marchar
para a sua definitiva constituição.
Como resultado de todo o passado, desde o século XI, o estado atual do novo
sistema é o seguinte: todas as forças da sociedade lhe pertencem.
Todas as doutrinas necessárias à sua organização existem em seus elementos,
que são as ciências de observação. Finalmente, a sociedade está organizada em todas
as suas partes para atuar sobre a natureza. Nada mais resta a fazer senão organizar, de
modo idêntico, o seu conjunto. Existem, para tal, os meios de que necessitavam as
comunas.

Resumo geral das duas séries

Quando o antigo sistema social se constituiu definitivamente, no século XI,


nasceram os elementos do sistema que devia suceder-lhe.
Desde essa época, duas ações de natureza diversa foram exercidas
simultaneamente e sem interrupção pelo novo sistema: de um lado, tendeu a destruir o
antigo, e, de outro, a substituí-lo.
Para a primeira ação, ligaram-se as comunas, a princípio, com um dos poderes
do antigo sistema contra o outro, aproveitando as divisões que se haviam manifestado
entre eles; e, depois da vitória sobre o poder que haviam combatido, formaram nova
liga com uma das frações do poder de que tinham sido aliadas contra a outra fração
desse mesmo poder.
Para a segunda ação, conservaram-se as comunas estranhas ao antigo sistema,
limitando-se a atuar sobre a natureza.
Combinaram-se sempre essa destruição e organização de maneira que o novo
sistema se apoderou, sucessivamente, de todas as posições ocupadas pelo antigo, à
medida que foram por este abandonadas.
Durante a época de seu pleno vigor, dirigiu o antigo sistema, simultaneamente,
a ação geral da sociedade e todas as ações sociais particulares, tanto no espiritual
quanto no temporal. Todas as ações privadas e todos os conhecimentos particulares
desembaraçaram-se, a pouco e pouco, dos laços do antigo sistema e coordenaram-se
de acordo com o novo. Este se organizou em todas as particularidades da sociedade.
O antigo sistema, depois de haver perdido, de modo absoluto, toda a sua
influência sobre as particularidades, perdeu sucessivamente, no temporal e no
espiritual, a mair parte de seu poder sobre a ação social em seu conjunto. Continuou
dirigindo a formação do plano político geral, o que não poderia deixar de ser até a
organização total do novo sistema. Mas foi admitido, como princípio fundamental, que
esse plano devia ser combinado no interesse das comunas.
O poder temporal foi reduzido às menores dimensões que podia ter até a
extinção completa do antigo sistema e sua substituição pelo novo. O poder espiritual
foi completamente destruído, como poder político. Não possui mais outra influência
senão a derivada do ensino da moral, que se acha ainda em suas mãos, por se encontrar
ainda fundado em suas doutrinas.
Depois de haver obtido a direção exclusiva de todas as particularidades da
sociedade, o novo sistema ganhou, sucessivamente, na direção geral, tudo quanto o
antigo perdera.
No temporal, reconheceu-se terem as comunas o direito de modificar, à
vontade, o plano político geral, e o exercício legal deste direito foi regularmente
constituído, o que estabeleceu, ao mesmo tempo, o meio de transição. No espiritual, a
capacidade científica obteve, sobre a educação nacional, toda a influência que podia
ter enquanto o ensino da moral não passar para a sua direção.
A força dos dois sistemas, sob o aspecto da ação por eles exercida sobre a
direção do conjunto da sociedade, é, hoje, pouco mais ou menos a mesma: a diferença
é, antes, em favor do novo sistema do que do antigo. Destarte, o estado presente da
sociedade é a coexistência de um sistema decrépito e de um sistema vigoroso, tendo o
velho perdido toda influência sobre as particularidades e a metade da que possuía
sobre o conjunto, dominando o novo todas as partes e mais a metade do conjunto.
Não tem o novo sistema, portanto, mais do que um degrau a galgar para
alcançar a sua completa organização e acabar de substituir o antigo. Resta unicamente
completar seus progressos no temporal e no espiritual. No temporal, apoderando-se da
câmara dos comuns; no espiritual, estabelecendo a moral em princípios unicamente
deduzidos da observação. Ora, tudo está preparado para isto: os meios existem, só
resta empregá-los.

TERCEIRO OPÚSCULO
(Maio de 1822)

PLANO DOS TRABALHOS CIENTÍFICOS NECESSÁRIOS PARA


REORGANIZAR A SOCIEDADE

Introdução

Um sistema social que se extingue e outro que atingiu sua completa


maturidade, estando em via de constituir-se, eis o caráter fundamental assinalado à
nossa época pela marcha geral da civilização. De conformidade com este estado de
coisas, dois movimentos de natureza diferente agitam hoje a sociedade: um de
desorganização e outro de reorganização. Pelo primeiro, considerado isoladamente, a
sociedade é impelida para profunda anarquia moral e política, que parece ameaçá-la de
próxima e inevitável dissolução. Pelo segundo, é conduzida para o estado social
definitivo da espécie humana, o mais conveniente à sua natureza, aquele em que todos
os seus meios de prosperidade devem receber seu mais completo desenvolvimento e
sua aplicação mais direta. E na existência destas duas tendências opostas que consiste
a grande crise pela qual passam as nações mais civilizadas. É sob esse duplo aspecto
que ela deve ser considerada para ser compreendida.
Desde o momento em que essa crise começou a manifestar-se, até o presente, a
tendência para a desorganização do antigo sistema foi dominante, ou melhor, a única
que claramente se pronunciou. Estava na própria natureza das coisas que a crise assim
começasse, e isto foi útil a fim de que o antigo sistema se modificasse bastante de
modo a permitir proceder-se diretamente à formação do novo.
Hoje, porém, quando esta condição está plenamente satisfeita, e o sistema
feudal e teológico se acha tão atenuado quanto possa ser, até que se estabeleça o novo,
a preponderância da tendência crítica é o maior obstáculo aos progressos da
civilização, e mesmo à destruição do antigo sistema. Esta preponderância é a causa
principal dos abalos terríveis e sempre renascentes, que acompanham a crise.
A única maneira de pôr termo a esta tempestuosa situação, detendo a anarquia
que invade dia a dia a sociedade, reduzindo, por fim, a crise a simples movimento
moral, é determinar as nações civilizadas a deixarem a direção crítica a fim de
tomarem direção orgânica, convergindo todos os seus esforços para a formação do
novo sistema social, meta definitiva da crise, e para a qual é simplesmente preparatório
tudo quanto se tem feito até o presente.
Tal é a primeira necessidade de nossa época. Este também, em resumo, o alvo
geral de meus trabalhos e a finalidade particular deste escrito, que tem por objetivo pôr
em jogo as forças que devem impelir a sociedade na senda do novo sistema.
Um exame sumário das causas que têm impedido até agora a sociedade, e ainda
a impedem, de tomar francamente a direção orgânica, deve naturalmente preceder a
exposição dos meios a empregar a fim de fazê-la tomar essa diretriz.
Os esforços múltiplos e contínuos empreendidos pelos povos e pelos reis, para
reorganizarem a sociedade, provam que a necessidade de tal reorganização é
geralmente sentida. Mas não o é, de uma e de outra parte, senão de maneira vaga e
imperfeita. Estas duas espécies de tentativas, embora opostas, são igualmente viciosas
sob pontos de vista diversos. Não têm tido até o presente, e nunca poderão ter,
resultado algum verdadeiramente orgânico. Longe de tenderem para a terminação da
crise, contribuem unicamente para prolongá-la. Tal a verdadeira causa que, apesar de
tantos esforços, mantendo a sociedade na direção crítica, a entrega, como presa, às
revoluções.
A fim de estabelecer esta asserção fundamental, basta lançar um golpe de vista
sobre os ensaios de reorganização, empreendidos pelos reis e pelos povos.
O erro cometido pelos reis é mais fácil de compreender-se. Para eles, a
reorganização da sociedade consiste na restauração pura e simples do sistema feudal e
teológico, em toda sua plenitude. A seus olhos, não há outro meio de fazer cessar a
anarquia, resultante da decadência desse sistema.
Seria pouco filosófico considerar tal opinião como ditada principalmente pelo
interesse particular dos governantes. Por mais quimérica que seja, devia apresentar-se
naturalmente aos espíritos que procuram, de boa-fé, um remédio para a crise atual, e
sentem, em toda sua plenitude, a necessidade de uma reorganização, mas que não
levaram em conta a marcha geral da civilização. Não encarando o estado atual das
coisas senão através de uma só face, não percebem a tendência da sociedade para o
estabelecimento de um novo sistema, mais perfeito e não menos consistente do que o
antigo. Em uma palavra, é natural que essa maneira de ver seja propriamente a dos
governantes, pois, do ponto de vista em que se colocam, devem necessariamente
perceber, com mais evidência, o estado anárquico da sociedade e, por conseguinte,
sentir, de maneira mais imperiosa, a necessidade de remediá-lo.
Não é oportuno insistir aqui sobre o absurdo manifesto de tal opinião. Ele é
hoje universalmente reconhecido pela maioria dos homens que possuem
esclarecimentos a esse respeito. Procurando reconstruir o antigo sistema, os reis, sem
dúvida, não compreendem a natureza da crise atual, e longe estão de haver medido
toda a extensão de seu empreendimento.
A queda do sistema feudal e teológico não se liga, como eles julgam, a causas
recentes, insuladas, e de algum modo acidentais. Em lugar de ser o efeito da crise, é,
ao contrário, o seu princípio. A decadência deste sistema realizou-se de maneira
contínua, durante os séculos precedentes, por uma série de modificações,
independentes de qualquer vontade humana, para as quais concorreram todas as
classes sociais, tendo sido os próprios reis, muitas vezes, os seus principais agentes, ou
os seus mais ardorosos promotores. Foi, em última análise, a consequência necessária
da marcha da civilização.
Não bastaria, portanto, para restabelecer o antigo sistema, fazer retrogradar a
sociedade até a época em que a crise atual começou a pronunciar-se. De fato,
admitindo que se conseguisse isto, o que é absolutamente impossível, colocar-se-ia de
novo o corpo social na situação que determinou a crise. Seria necessário, por
conseguinte, remontando os séculos, reparar, sucessivamente, todas as perdas que o
antigo sistema sofreu desde seiscentos anos, e em relação às quais, as ocorridas nestes
últimos trinta anos não apresentam importância alguma. Para conseguir isto, não
haveria outro meio senão anular, um a um, todos os desenvolvimentos da civilização,
que determinaram tais perdas.
Assim, por exemplo, seria em vão que se suporia destruída a filosofia do século
XVIII, causa direta da queda do antigo sistema sob o ponto de vista espiritual, se não
se supusesse também abolida a reforma do século XVI, da qual a filosofia do século
passado não é mais do que a consequência e o desenvolvimento. Mas, como a reforma
de Lutero não é, por seu turno, senão o resultado necessário do progresso das ciências
de observação, introduzidas na Europa pelos árabes, nada se teria feito para assegurar
a restauração do antigo sistema, a não ser que se conseguisse também sufocar as
ciências positivas.
Da mesma forma, sob o ponto de vista temporal, seríamos levados,
gradualmente, até colocar de novo as classes industriais em estado de escravidão,
porque, em última análise, a emancipação das comunas foi a causa primeira e geral da
decadência do feudalismo. Enfim, para acabar de caracterizar tal empresa, depois de
ter vencido tantas dificuldades, das quais a menor, considerada isoladamente, está
acima de todo o poder humano, o que apenas se obteria seria adiar a queda definitiva
do antigo sistema, obrigando a sociedade a recomeçar-lhe a destruição, porque não se
teria anulado o princípio da civilização progressiva, inerente à natureza da espécie
humana.
Um projeto tão monstruoso, quer por sua extensão, quer por seu absurdo, não
pôde, é claro, ser concebido, em seu conjunto, por cérebro algum. Mesmo a
contragosto, somos de nosso século. Os espíritos que mais acreditam lutar contra a
marcha da civilização, obedecem, sem perceber, à sua irresistível influência, e
concorrem por si mesmos a secundá-la.
Também os reis, ao mesmo tempo em que projetam reconstruir o sistema
feudal e teológico, caem em constantes contradições, contribuindo por seus próprios
atos, seja para tornar mais completa a desorganização desse sistema, seja para acelerar
a formação do que deve substituí-lo. Os fatos deste gênero apresentam-se em grande
quantidade ao observador.
Para só mencionar aqui os mais notáveis, vê-se que os reis consideram honroso
encorajar o aperfeiçoamento e a propagação das ciências e das belas-artes, e estimular
o desenvolvimento da indústria; criaram, para este fim, numerosos e úteis
estabelecimentos, conquanto seja aos progressos das ciências, das belas-artes e da
indústria que deve, em última análise, ser atribuída a decadência do antigo sistema.
Foi assim ainda que os reis, pelo tratado da Santa Aliança, degradaram, tanto
quanto lhes foi possível, o poder teológico, principal base do antigo sistema, formando
um conselho europeu supremo, onde esse poder não tem, sequer, voz consultiva.
Finalmente, a maneira pela qual se dividem hoje as opiniões relativamente à
atual luta empreendida pelos gregos em prol de sua independência, oferece ainda
exemplo mais evidente desse espírito de inconsequência. Nesta conjuntura, os homens
que pretendem restituir às ideias teológicas sua antiga influência, verificam
involuntariamente a decadência delas, em seu próprio espírito, não temendo
pronunciar, a favor do maometismo, um voto que, nos tempos de esplendor do antigo
sistema, atrairia sobre eles a acusação de sacrilégio.
(Para compreender todo o alcance deste fato, basta recordar que o próprio Papa
se pronunciou neste sentido, recusando formalmente à mocidade da nobreza romana
permissão para socorrer os gregos).
Seguindo a série de observações que acaba de ser indicada, cada leitor pode
facilmente acrescentar-lhe novos fatos, que se multiplicam diariamente. Por assim
dizer, os reis não praticam um único ato, não dão um só passo tendente à restauração
do antigo sistema, que não seja imediatamente seguido de outro dirigido em sentido
contrário; e muita vez a mesma disposição legal contém ambos.
Esta incoerência radical é o que há de mais próprio para tornar evidente o
absurdo de um plano que não é compreendido nem mesmo por aqueles que o
executam com maior ardor. Mostra claramente quanto é completa e irrevogável a ruína
do antigo sistema. É desnecessário entrar aqui em maiores particularidades a este
respeito.
Não menos viciosa do que a dos reis, se bem que a outros respeitos, é a
maneira pela qual os povos têm compreendido, até o presente, a reorganização da
sociedade. Seu erro é apenas mais desculpável, pois eles se enganam na busca do novo
sistema, para o qual os impele a marcha da civilização, cuja natureza não foi ainda
bem claramente determinada, enquanto os reis prosseguem uma empresa que o exame
um pouco atento do passado demonstra ser completamente absurda. Numa palavra: os
reis estão em contradição com os fatos e os povos com os princípios, que são sempre
mais difíceis de discernir. Mas é muito mais importante desarraigar o erro dos povos
do que o dos reis, porque é o único a oferecer obstáculo essencial à marcha da
civilização, além de dar certa consistência ao erro dos monarcas.
A opinião dominante no espírito dos povos, relativa à maneira pela qual a
sociedade deve ser reorganizada, tem, como traço característico, uma profunda
ignorância das condições fundamentais a serem preenchidas por qualquer sistema
social a fim de ter verdadeira consistência, Essa opinião limita-se a apresentar, como
princípios orgânicos, os princípios críticos que serviram para destruir o sistema feudal
e teológico, ou, em outros termos, a tomar simples modificações desse sistema como
bases do que é necessário instituir.
De fato, examinem-se, com atenção, as doutrinas hoje em voga entre os povos,
enunciadas nos discursos de seus partidários mais capazes e nos escritos que as
expõem mais metodicamente. Depois de consideradas em si, observe-se
historicamente sua formação sucessiva, e reconhecer-se-á haverem sido concebidas
com um espírito puramente crítico, que não poderia servir de base a uma
reorganização.
O governo que, em qualquer estado de coisas regular, é a cabeça da sociedade
o guia e o agente da ação geral, fica sistematicamente despojado, por essas doutrinas,
de qualquer princípio de atividade. Privado de toda participação na vida do conjunto
do corpo social, fica reduzido a um papel absolutamente negativo. Considera-se até
toda a ação do corpo social sobre seus membros, como devendo ser estritamente
limitada à manutenção da tranquilidade pública, o que nunca foi, em nenhuma
sociedade ativa, senão um problema subalterno, cuja importância o desenvolvimento
da civilização reduziu singularmente, tornando a ordem muito fácil de ser mantida.
O governo não é mais concebido como a cabeça da sociedade, destinada a
enfeixar e dirigir, para um objetivo comum, todas as atividades individuais. É
representado como um inimigo natural, acampado no meio do sistema social, e contra
o qual a sociedade deve fortalecer-se, a fim de assegurar as garantias conquistadas,
conservando-se em relação a ele em estado permanente de desconfiança e hostilidade
defensiva, prestes a manifestar-se ao primeiro sinal de ataque.
Se do conjunto passarmos às particularidades, o mesmo espírito se apresenta
mais claramente ainda. Bastará indicá-la aqui nos pontos principais, quanto ao
espiritual e ao temporal.
O princípio desta doutrina, sob o ponto de vista espiritual, é o dogma da
liberdade ilimitada de consciência. Examinado no mesmo sentido em que foi
primitivamente concebido, vale dizer, como tendo um destino crítico, este dogma não
é mais elo que a tradução de importante fato geral: a decadência das crenças
teológicas.
Tendo resultado dessa decadência, esse dogma, por uma reação necessária,
contribuiu poderosamente para acelerá-la e propagá-la; mas, deve-se a isto haver sido,
pela natureza das coisas, sua influência limitada. Está na linha dos progressos do
espírito humano, enquanto considerado simplesmente como arma de combate contra o
sistema teológico, mas desvia-se dela, e perde todo valor, logo que se pretende ver
nele uma das bases da grande reorganização social reservada à nossa época. Neste
caso, torna-se tão nocivo quanto foi útil, porque se transforma em obstáculo para essa
reorganização.
De fato, proclamando a soberania de cada razão individual, a essência desse
dogma é impedir o estabelecimento uniforme de qualquer sistema de ideias gerais, sem
o qual, entretanto, não há sociedade, pois, qualquer que seja o grau de instrução a que
possa algum dia chegar a massa dos homens, é evidente que a maior parte das ideias
gerais, destinadas a se tornarem comuns, só poderá ser admitida por eles em confiança,
e não por demonstrações. Assim, esse dogma só é aplicável, por sua natureza, às ideias
que devem desaparecer, porque então elas se tornam indiferentes; e, de fato, ele nunca
lhes foi aplicado, a não ser no momento em que começavam a decair a fim de
apressar-lhes a queda.
Aplicá-la ao novo sistema, como ao antigo, e, com mais forte razão, ver nele
um princípio orgânico, é cair na mais estranha contradição; e se tal erro pudesse
perdurar, a reorganização da sociedade jamais seria possível.
Não há liberdade de consciência em astronomia, física, química, fisiologia,
porquanto cada indivíduo consideraria absurdo não aceitar, em confiança, os
princípios estabelecidos, nessas ciências, pelos homens competentes. Se o mesmo não
se dá em política, é porque, tendo-se desacreditado os antigos princípios, e não estando
ainda formados os novos, não há, verdadeiramente falando, neste intervalo, princípios
estabelecidos. Mas, converter este fato transitório em dogma absoluto e eterno, fazer
dele um princípio fundamental, é evidentemente proclamar que a sociedade deve ficar
sempre sem doutrinas gerais. Deve convir-se que tal dogma merece, efetivamente, as
censuras de anarquia, que lhe são dirigidas pelos melhores defensores do sistema
teológico.
O dogma da soberania popular corresponde, sob o ponto de vista temporal, ao
que acaba de ser examinado, e não é mais do que a sua aplicação política. Foi criado
para combater o princípio do direito divino, base política geral do antigo sistema,
pouco tempo depois de haver sido o dogma da liberdade de consciência proclamado
para destruir as ideias teológicas, sobre as quais o referido princípio se baseava.
O que foi dito em relação a um é aplicável ao outro. O dogma antifeudal, como
o antiteológico, terminou seu destino crítico, termo natural de sua carreira. O primeiro
não pode mais ser a base política da reorganização social, como o segundo não pode
ser a sua base moral. Nascidos ambos para destruir, são igualmente impróprios para
fundar.
Se um desses dogmas, em vez de um princípio orgânico, somente apresenta a
infalibilidade individual para substituir a infalibilidade papal, o outro, da mesma
forma, substitui o arbítrio dos reis pelo dos povos, ou antes, dos indivíduos. Tende,
portanto, para o desmembramento geral do político, levando a confiar o poder às
classes menos civilizadas, como o primeiro tende para o completo isolamento dos
espíritos, investindo os homens menos esclarecidos de um direito de controle absoluto
sobre o sistema de ideias gerais estabelecidos pelos espíritos superiores para servir de
guia à sociedade.
É fácil aplicar a cada uma das ideias particulares, de que se compõe a doutrina
dos povos, o exame que acaba de ser esboçado em relação aos dois dogmas
fundamentais. Verificar-se-á sempre resultado idêntico. Ver-se-á que todas essas
ideias, como as duas mais importantes, nada mais são do que o enunciado dogmático
de um fato histórico correspondente, relativo à decadência do sistema feudal e
teológico. Reconhecer-se-á, igualmente, que todas têm um destino puramente crítico,
seu único valor, tornando-as absolutamente inaplicáveis à reorganização da sociedade.
Deste modo, o exame aprofundado da doutrina dos povos confirma o que o
ponto de vista filosófico devia fazer prever: máquinas de guerra não poderiam, por
estranha metamorfose, transformar-se repentinamente em instrumentos de construção.
Esta doutrina, puramente crítica em seu conjunto e em suas particularidades, teve a
maior importância para auxiliar a marcha natural da civilização, enquanto a ação
principal consistia na luta contra o antigo sistema. Mas, concebida como devendo
presidir à reorganização social, é de insuficiência absoluta. Coloca, de modo forçoso, a
sociedade num estado de anarquia legalmente constituída, no temporal e no espiritual.
Sem dúvida, estava de acordo com a fraqueza humana que os povos
começassem por adotar, como orgânicos, os princípios críticos, com os quais se
haviam familiarizado pela sua aplicação contínua. Mas a prolongação de tal erro não
deixa de ser o maior obstáculo à reorganização da sociedade.
Depois de ter considerado, separadamente, as duas maneiras diversas pelas
quais os povos e os reis concebem esta reorganização, se compararmos uma com a
outra veremos que cada uma delas, por vícios que lhe são próprios, é igualmente
incapaz de colocar a sociedade numa direção verdadeiramente orgânica, e impedir,
assim, para o futuro, a reprodução das tempestades que constantemente
acompanharam, até o presente, a grande crise que caracteriza a época atual. Ambas são
anárquicas no mesmo grau, uma por sua natureza íntima, a outra por suas
consequências inevitáveis.
A única diferença existente entre elas, neste ponto, é que, na opinião dos reis, o
governo se constitui propositadamente em oposição direta e contínua à sociedade, ao
passo que, na opinião dos povos, é a sociedade que se organiza sistematicamente em
estado de permanente hostilidade ao governo.
Estas duas opiniões opostas e igualmente viciosas tendem, pela natureza das
coisas, a se fortalecerem mutuamente, e, por consequência, a alimentarem
indefinidamente a fonte das revoluções.
De um lado, as tentativas dos reis para reconstruir o sistema feudal e teológico,
provocam, necessariamente, da parte dos povos, a explosão dos princípios da doutrina
crítica, com toda a sua temível energia. Sem essas tentativas é evidente que essa
doutrina já teria perdido sua maior atividade, visto não possuir mais objetivo, desde
que a adesão solene dos reis a seu princípio fundamental [o dogma da liberdade de
consciência] e às suas principais consequências, comprovou claramente a ruína
irrevogável do antigo sistema. Mas os esforços para ressuscitar o direito divino
despertam a soberania popular e lhe dão vigor.
Por outro lado, em consequência mesmo de achar-se o antigo sistema mais do
que suficientemente modificado, de modo a permitir que se trabalhe de maneira direta
na formação do novo, a preponderância ainda concedida pelos povos aos princípios
críticos impele os reis, como é natural, a tentarem sufocar, pela restauração do antigo
sistema, uma crise que, do modo pelo qual se apresenta, parece não oferecer outra
saída a não ser a dissolução da ordem social. Este prolongamento do reinado da
doutrina crítica, numa época em que uma doutrina orgânica se torna necessária à
sociedade, é precisamente o que dá alguma força à opinião dos reis. De fato, se esta
opinião não é realmente mais orgânica do que a dos povos, dada a impossibilidade
absoluta de realizar-se, ela o é pelo menos em teoria, o que lhe dá uma relação
incompleta com as necessidades da sociedade, à qual é absolutamente imprescindível
um sistema qualquer.
Acrescente-se a este quadro exato a influência das diversas facções a cujos
projetos esse estado de coisas apresenta campo tão amplo e tão favorável; examinem-
se seus esforços para impedir o esclarecimento da questão, a fim de desviar os reis e os
povos de se entenderem e reconhecerem seus erros mútuos, e ter-se-á justa ideia da
triste situação em que se acha atualmente a sociedade.
Todas as considerações precedentemente expostas provam que o meio de sair,
afinal, deste deplorável círculo vicioso, origem inesgotável das revoluções, não
consiste no triunfo da opinião dos reis, nem no da opinião dos povos, tais como se
manifestam atualmente. Não há outro meio senão a formação e a adoção geral, pelos
povos e pelos reis, da doutrina orgânica, única em condições de tirar aos reis a direção
retrógrada, e aos povos a direção crítica.
Só essa doutrina pode terminar a crise colocando a sociedade inteira na senda
do novo sistema, cujo estabelecimento a marcha da civilização, desde a sua origem,
preparou e conduz hoje a substituir o sistema feudal e teológico.
Pela adoção unânime de tal doutrina, o que as opiniões atuais dos povos e dos
reis oferecem de razoável será satisfeito; o que encerram de vicioso e discordante será
suprimido. Sendo dissipados os justos receios dos reis sobre a dissolução da sociedade,
nenhum motivo legítimo os levará a se oporem à expansão do espírito humano.
Voltando suas vistas para a formação do novo sistema, os povos não se irritarão mais
contra o sistema feudal e teológico, e o deixarão extinguir-se calmamente, seguindo o
curso natural das coisas.
Depois de se ter verificado a necessidade da adoção de uma nova doutrina
verdadeiramente orgânica, se se examinar a oportunidade de sua instituição, bastam as
considerações seguintes para demonstrar que, enfim, chegou o momento de começar,
sem perda de tempo, essa grande operação.
Observando com exatidão, o estado atual das nações mais adiantadas, é
impossível não se ficar surpreendido com o seguinte fato singular e quase
contraditório: embora não existam ainda outras ideias políticas senão as que se referem
à doutrina retrógrada ou à doutrina crítica, nenhuma delas, contudo, possui mais,
atualmente, quer entre os reis, quer entre os povos, uma preponderância verdadeira;
nenhuma exerce uma ação bastante poderosa para dirigir a sociedade. Essas duas
doutrinas que, sob o ponto de vista teórico, se alimentam mutuamente, como acima
evidenciamos, não são mais, entretanto, empregadas senão em se limitarem, ou antes,
em se anularem reciprocamente na direção geral dos negócios.
O grande movimento político determinado, há trinta anos, pela atividade das
ideias críticas, tirou-lhes a principal influência. De outra parte, o último golpe dado no
antigo sistema, barrou-lhes o curso natural; destruiu, quase completamente, a causa
geral que lhes havia proporcionado as simpatias populares. De outra parte, a aplicação
das novas opiniões à reorganização da sociedade pôs em completa evidência seu
caráter anárquico. Depois desta experiência decisiva, não há mais, nos povos,
verdadeira paixão crítica. Por conseguinte, quaisquer que sejam as aparências, já não
pode haver verdadeira paixão retrógrada nos reis, pois são reconhecidas por eles a
decadência do sistema feudal e teológico e a necessidade de abandoná-lo.
A verdadeira atividade, quer numa, quer noutra direção, acha-se atualmente
fora do poder e fora da sociedade. Servem-se ambos, na prática, da opinião retrógrada
ou da opinião crítica, de maneira essencialmente passiva, isto é, como aparelho
defensivo. Empregam mesmo, sucessivamente, uma e outra opinião, e quase no
mesmo grau, com a única diferença compreensível: como meio de raciocínio, os povos
estão ainda ligados à doutrina crítica, porque experimentam mais completamente a
necessidade de desprezar o antigo sistema: e os reis se prendem à doutrina retrógrada,
porque sentem mais profundamente a necessidade de uma ordem social, sei a qual for.
Esta observação pode ser facilmente verificada e esclarecida pelo simples fato
da existência e do crédito de uma espécie de opinião bastarda. Que nada mais é do que
uma mistura das ideias retrógradas com as ideias críticas. É evidente que esta opinião,
sem influência alguma na origem da crise, tornou-se hoje dominante, tanto entre os
governados, como entre governantes. Os dois partidos ativos reconhecem o seu
império da maneira menos equívoca pela estrita obrigação em que ambos se
encontram de adotar sua linguagem.
O êxito de tal opinião evidencia claramente dois fatos muito importantes para o
conhecimento exato da nossa época. Prova, em primeiro lugar, que a insuficiência da
doutrina crítica, para corresponder às grandes necessidades atuais da sociedade, é tão
profunda e tão universalmente sentida quanto à incompatibilidade do sistema teológico
ou feudal relativamente ao estado atual da civilização. Em segundo lugar, garante que
nem a opinião crítica, nem a retrógrada, podem obter mais ascendência real. De fato,
quando uma delas parece prestes a adquirir preponderância, a disposição geral dos
espíritos torna-se logo favorável à outra, até que esta, iludida por uma aparente
aprovação, tenha adquirido bastante atividade para dar lugar aos mesmos alarmas, e,
por conseguinte, a experimentar, por sua vez, a mesma decepção.
(O mérito da opinião intermediária, ou antes, contraditória, consiste
precisamente em servir de órgão a esta disposição. É evidente, além disto, que, por sua
natureza, se ressente de nulidade orgânica, pois nada possui que lhe seja próprio, e só
se compõe de máximas opostas, que se anulam reciprocamente. Ela não pode chegar,
como a experiência já tem suficientemente confirmado, senão a fazer oscilar a marcha
dos acontecimentos entre a tendência crítica e a retrógrada, sem imprimir-lhe jamais
qualquer caráter determinado. Esta conduta indecisa é certamente indispensável na
situação política atual, até o estabelecimento de uma doutrina verdadeiramente
orgânica para prevenir as violentas desordens, a que a sociedade ficaria exposta, pela
preponderância do partido retrógrado ou do partido crítico, Neste sentido, todos os
homens sensatos devem apressar-se a secundá-la. Mas se tal política torna menos
tempestuosa a época revolucionária, não é menos incontestável que tende diretamente
a prolongar-lhe a duração, Com efeito, uma opinião que arvora a inconsequência em
sistema e conduz a impedir cautelosamente a extinção total das duas doutrinas
extremas, a fim de poder opô-las sempre uma à outra, impede necessariamente que o
corpo social chegue a um estado fixo. Numa palavra, esta política é razoável e útil
hoje, admitida simplesmente como provisória; mas torna-se absurda e perigosa se se
quiser considerá-la definitiva. Tais são os motivos pelos quais não fiz acima qualquer
menção dessa maneira de ver no exame das opiniões existentes sobre a organização
social).
Estas oscilações sucessivas se efetuam ora num sentido, ora noutro, conforme a
marcha natural dos acontecimentos manifeste especialmente ou o absurdo do antigo
sistema, ou o perigo da anarquia. Tal é, neste momento, o mecanismo da política
prática, e tal será inevitavelmente enquanto as ideias sobre a reorganização da
sociedade não forem fixadas, enquanto não se formar uma opinião capaz de preencher
simultaneamente as duas condições prescritas por nossa época, e que, até agora,
pareceram contraditórias: o abandono do antigo sistema e o estabelecimento de uma
ordem regular e estável. Esta anulação recíproca das duas doutrinas opostas, evidente
até nas opiniões, é sobretudo incontestável nos atos. Examinem-se, com efeito, todos
os acontecimentos de alguma importância, que se têm desenrolado há dez anos, seja
com a tendência crítica, seja com a tendência retrógrada, e reconhecer-se-á que jamais
proporcionaram qualquer progresso real ao sistema correspondente, e o seu resultado
tem sido sempre o de impedir a preponderância do sistema oposto.
Assim, em resumo, nem a opinião dos reis, nem a dos povos, pode, de modo
algum, satisfazer à necessidade fundamental de reorganização que caracteriza a época
atual; o que estabelece a necessidade de uma nova doutrina geral. Mas o triunfo de
uma ou de outra é hoje igualmente impossível, e nenhuma delas pode ter mais
verdadeira atividade, de onde resulta que os espíritos estão suficientemente preparados
para receberem a doutrina orgânica.
O destino da sociedade, chegada à sua madureza, não é habitar eternamente o
velho e mesquinho pardieiro, que construiu em sua infância, como pensam os reis;
nem viver eternamente sem abrigo, depois de tê-lo abandonado, como pensam os
povos, mas construir, com o auxílio da experiência adquirida e com os materiais que
acumulou, o edifício mais apropriado às suas necessidades e ao seu bem-estar. Tal é a
grande e nobre empresa reservada à geração atual.

Exposição Geral

Estando demonstrado ser vicioso o espírito segundo o qual foi concebida, até o
presente, a reorganização da sociedade, quer pelos povos, quer pelos reis, daí se deve
concluir necessariamente que ambos procederam mal na formação do plano de
reorganização. E a única explicação possível de semelhante fato; mas cumpre
estabelecer esta assertiva de maneira direta, especial e precisa.
A insuficiência da opinião dos reis e dos povos tem demonstrado a necessidade
de uma nova doutrina, verdadeiramente orgânica, única em condições de terminar a
terrível crise que atormenta a sociedade. De igual forma, o exame da maneira de
proceder, que conduziu, de uma e de outra parte, a esses resultados imperfeitos,
mostrará qual a marcha que deve ser adotada para a formação e o estabelecimento da
nova doutrina, e quais as forças sociais próprias para dirigirem esse grande trabalho.
O vício geral da marcha seguida pelos povos e pelos reis, na pesquisa do plano
de reorganização, consiste em que ambos têm feito, até agora, ideia extremamente
falsa da natureza desse trabalho e, por consequência, confiaram essa importante
missão a homens necessariamente incompetentes. Tal é a causa primária das
aberrações fundamentais, verificadas no capítulo precedente.
Embora esta causa seja tão verdadeira para os reis, quanto para os povos, é
todavia inútil considerá-la especialmente em relação aos primeiros, porque, nada tendo
inventado, e tendo-se limitado a reproduzir para o novo estado social a doutrina antiga,
sua incompetência para conceberem uma verdadeira reorganização ficou, só por isto,
suficientemente demonstrada. De outro lado, pela mesma razão, a marcha deles,
embora tão absurda, em princípio, quanto a dos povos, devia ser naturalmente mais
metódica, por ter sido traçada de antemão na maior minúcia, Tendo-se em vista que só
os povos produziram uma espécie de doutrina nova, é sua maneira de proceder que
principalmente se torna necessário examinar, a fim de aí descobrir a origem dos vícios
de tal doutrina. Além disto, tornar-se-á fácil para todos aplicar, em seguida, aos reis,
com as modificações convenientes, as observações gerais feitas a respeito dos povos.
A multiplicidade das pretensas constituições, engendradas pelos povos, desde o
começo da crise, e a excessiva minúcia de redação que, mais ou menos, se encontra
em todas, bastariam, só por si, para mostrar, com plena evidência, a todos os espíritos
capazes de julgá-las, quanto a natureza e a dificuldade da formação de um plano de
reorganização foram desconhecidas até o presente.
Quando a sociedade estiver verdadeiramente organizada, será objeto de
profundo assombro, para nossos descendentes, o fato da produção, num intervalo de
trinta anos, de dez constituições, sempre proclamadas, sucessivamente, eternas e
irrevogáveis, contendo algumas mais de duzentos artigos muito minuciosos, sem levar
em conta as leis orgânicas que com elas se relacionam. Tal verbiagem seria, em
política, a vergonha do espírito humano, se, no progresso natural das ideias, não fosse
uma transição inevitável para a verdadeira doutrina final.
Não é assim que caminha, nem pode caminhar a sociedade. A pretensão de
construir, de um jato, em alguns meses, ou mesmo em alguns anos, toda a economia de
um sistema social, em seu desenvolvimento completo e definitivo, é extravagante
quimera, absolutamente incompatível com a fraqueza do espírito humano.
Observe-se, com efeito, a maneira pela qual ele procede em casos análogos,
infinitamente mais simples. Quando uma ciência qualquer se reconstitui, segundo nova
teoria, já suficientemente preparada, o princípio geral se produz, se discute e se
estabelece em primeiro lugar; depois, por longo encadeamento de trabalhos, é que se
chega a formar, para todas as suas partes, uma coordenação que ninguém, no começo,
estaria em condições de conceber, nem mesmo o criador do princípio.
Foi assim, por exemplo, depois que Newton descobriu a lei da gravitação
universal. Tornou-se necessário cerca de um século de trabalhos muito difíceis,
realizados por todos os geômetras da Europa, para dar à astronomia-física a
constituição que devia resultar dessa lei.
Nas artes, o mesmo sucede. Para não citar mais de um exemplo, quando a força
elástica do vapor d’água foi concebida como novo motor aplicável às máquinas,
tornou-se necessário igualmente quase um século para desenvolver a série de reformas
industriais que eram as consequências mais diretas dessa descoberta.
Se tal é, evidentemente, a marcha necessária e invariável do espírito humano
nas revoluções que, apesar de sua importância e de sua dificuldade, não são,
entretanto, senão particulares, quanto deve parecer frívola a marcha presunçosa que
tem sido seguida, até o presente, na revolução mais geral, mais importante e mais
difícil de todas: a que tem por fim a refusão completa do sistema social!
Se destas comparações indiretas, mas decisivas, se passar às comparações
diretas, o resultado será o mesmo.
Estude-se a fundação do sistema feudal e teológico, revolução absolutamente
da mesma natureza que a da época atual. Muito ao contrário de ter sido feita a sua
constituição de um só jato, não tomou a forma própria e definitiva senão no século XI,
vale dizer, mais de cinco séculos depois de haver geralmente triunfado a doutrina
cristã na Europa ocidental, e do completo estabelecimento dos povos do Norte no
império do Ocidente.
Impossível seria conceber que qualquer homem de gênio pudesse traçar, no
século v, de modo minucioso, o plano dessa constituição, embora o princípio
fundamental, de que foi apenas o necessário desenvolvimento, estivesse desde então
solidamente estabelecido, tanto no atinente ao temporal, quanto ao espiritual. Sem
dúvida, em consequência do progresso do saber e do caráter mais simples e mais
natural do novo sistema, sua organização total deve fazer-se com muito maior rapidez.
Mas, como a marcha da sociedade é necessariamente, no fundo, sempre idêntica,
apresentando maior ou menor rapidez, visto depender da natureza permanente da
constituição humana, essa grande experiência não prova menos ser absurdo querer
improvisar, até nas menores particularidades, o plano completo da reorganização
social.
Se houvesse necessidade de confirmar-se esta conclusão, ela o seria,
observando-se a maneira pela qual se estabeleceu espontaneamente a doutrina crítica
adotada pelos povos. Esta doutrina não é mais, evidentemente, senão o
desenvolvimento geral e a aplicação completa do direito individual de exame
estabelecido, como princípio, pelo protestantismo. Ora, tornaram-se necessários quase
dois séculos, após a instituição desse princípio, para que dele fossem deduzidas todas
as consequências importantes, e para que se formasse a respectiva teoria. É
incontestável que a resistência do sistema feudal e teológico muito influiu na lentidão
dessa marcha; mas não é menos evidente que não podia ser a sua causa única, e essa
lentidão dependeu, em grande parte, da própria natureza do trabalho. Ora, o que é
verdadeiro acerca de uma doutrina puramente crítica, deve sê-lo, com mais forte razão,
relativamente a uma doutrina orgânica.
Cumpre, portanto, concluir, desta primeira ordem de considerações, que os
povos não compreenderam, até o presente, o grande trabalho da reorganização social.
Procurando-se verificar em que foi desconhecida a natureza desse trabalho,
reconhece-se que foi por ter sido considerado, como puramente prático, um
empreendimento essencialmente teórico.
A formação de qualquer plano de organização social compõe-se,
necessariamente, de duas séries de trabalhos, inteiramente distintas, tanto por seu
objetivo, quanto pelo gênero de capacidade que exigem. Uma, teórica ou espiritual,
tem por fim o desenvolvimento da ideia-mãe do plano, isto é, do novo princípio
segundo o qual as relações sociais devem ser coordenadas, e a formação do sistema de
ideias gerais destinado a servir de guia à sociedade. A outra série, prática ou temporal,
determina o modo de distribuição do poder e o conjunto de instituições administrativas
mais conformes com o espírito do sistema, tal como foi determinado pelos trabalhos
teóricos. Sendo a segunda série baseada na primeira, da qual é apenas a consequência
e a realização, é por esta que, necessariamente, deve começar o trabalho geral. Ela é a
sua alma, a parte mais importante e mais difícil, embora somente preliminar.
Por não terem adotado esta divisão fundamental, ou, em outros termos, por
terem fixado exclusivamente sua atenção sobre a parte prática, é que os povos foram
naturalmente levados a conceber a reorganização social consoante à doutrina viciosa
examinada no capítulo precedente. Todos os seus erros são a consequência desse
grande desvio primitivo. Pode-se estabelecer esta filiação com facilidade. Em primeiro
lugar, desta infração à lei natural do espírito humano resultou que, julgando construir
um novo sistema social, ficaram os povos encerrados no antigo. Isto era natural,
porque o alvo e o espírito do novo sistema não estavam determinados. Será sempre
assim, até que esta condição indispensável seja previamente preenchida. Qualquer
sistema social, quer seja feito para um pugilo de homens, quer para alguns milhões,
tem por finalidade definitiva dirigir para um objetivo geral de atividade todas as forças
particulares, porquanto só há sociedade onde se exerce uma ação geral e combinada.
Em qualquer outra hipótese, há apenas aglomeração de certo número de indivíduos
sobre o mesmo solo. É isto que distingue a sociedade humana da dos outros animais
que vivem em grupos.
Desta consideração, resulta que o estabelecimento claro e preciso do objetivo
da atividade é a primeira condição e a mais importante de uma verdadeira ordem
social, pois fixa o sentido em que deve ser concebido todo o sistema.
Por outro lado, há apenas duas metas de atividade possíveis, tanto para uma
sociedade, por mais numerosa que seja, como para um indivíduo isolado. Estas vêm a
ser: a ação violenta sobre o resto da espécie humana, isto é, a conquista, e a ação sobre
a natureza a fim de modificá-la em proveito do homem, ou seja, a produção.
Qualquer sociedade que não fosse claramente organizada para um desses fins,
não seria mais do que uma associação bastarda e sem características. No antigo
sistema, o objetivo era militar; em o novo, é industrial.
O primeiro passo a dar na reorganização social era, portanto, a proclamação
deste novo objetivo. Por não tê-lo dado, não se saiu ainda do antigo sistema, mesmo
depois de se ter crido haver-se afastado dele o mais possível. Ora, é claro que esta
estranha lacuna de nossas pretensas constituições decorreu de se ter querido organizar
o sistema em suas minúcias, antes de se lhe ter concebido o conjunto. Em outros
termos: essa lacuna resultou da preocupação exclusiva com a parte regulamentar da
reorganização, sem que fosse resolvida a parte teórica, e sem que se houvesse mesmo
pensado em instituí-la.
Como consequência inevitável deste primeiro erro, tomaram-se; por alteração
total do antigo sistema meras modificações. U fundo conservou-se essencialmente
intacto; todas as alterações interessaram unicamente à forma. Houve apenas a
preocupação de fracionar os antigos poderes e de promover a oposição recíproca de
seus diferentes ramos. As discussões sobre este assunto toram consideradas, e o são
ainda hoje, como o sublime da política, da qual não constituem, entretanto, senão
minudência muito subalterna. A direção da sociedade e a natureza dos poderes foram
concebidas como sendo sempre as mesmas.
Alem disto, é essencial notar que as discussões sobre a divisão dos poderes, as
únicas que hajam sido entabuladas, foram, por outra consequência do desvio primitivo,
as mais superficiais possíveis. Perdeu-se de vista a grande divisão em poder espiritual
e poder temporal, o mais importante aperfeiçoamento que o antigo sistema introduziu
na política geral. Tendo dirigido toda a atenção para a parte pratica da reorganização
social, chegou-se naturalmente à monstruosidade de uma constituição sem poder
espiritual, que, se pudesse perdurar, seria verdadeira e imensa retrogradação para a
barbárie. Só se cogitou do poder temporal. Nada mais se viu além da sua divisão em
poder legislativo e poder executivo, o que é, evidentemente, apenas uma subdivisão.
Para guiar seu espírito nas modificações do antigo sistema feudal e teológico,
os povos foram necessariamente levados a conceber, como orgânicos, os princípios
críticos que haviam servido para lutar contra o antigo sistema, desce a época em que
sua decadência se tornara sensível, e, por isto mesmo, era destinado a modificá-lo.
Cumpre notar, a este respeito, que, desconhecendo a divisão em série teórica e prática,
no trabalho geral de reorganização, verificaram os povos involuntariamente a
necessidade desta lei, ditada pela imperiosa natureza das coisas, subordinando-se a ela
em suas tentativas de modificação do antigo sistema.
Tal é o encadeamento rigoroso de consequências, derivado do erro
fundamental de se ter considerado como puramente pratica a obra essencialmente
teórica da reorganização social, Foi assim que os povos chegaram gradualmente a
considerar como um verdadeiro sistema social novo, produto da civilização
aperfeiçoada, o que nada mais era do que o antigo sistema despojado pela doutrina
crítica de tudo quanto constituía seu vigor, e reduzido à miserável situação de
esqueleto descarnado. Tal a verdadeira origem aos erros capitais assinalados no
capítulo precedente.
Como a necessidade de uma verdadeira reorganização se faz sempre sentir, o
que ocorrerá inevitavelmente ate que haja sido satisfeita, os espíritos dos povos se
agitam e se esgotam em procurar novas combinações. Detidos, porém, por um destino
inflexível, no círculo estreito onde sua marcha viciosa primitivamente os colocou, e da
qual a civilização os impele de modo vão a sair, é em novas modificações do antigo
sistema, isto é, em aplicações ainda mais completas da doutrina crítica, que acreditam
encontrar o termo de seus esforços. Destarte, de modificação em modificação, isto é,
destruindo cada vez mais o sistema feudal e teológico, sem nunca substituí-lo, os
povos marcham a largos passos para completa anarquia, única saída natural de tal
caminho.
Esta conclusão prova evidentemente a necessidade urgente e inevitável de
adotar-se, para o grande trabalho de reorganização social, a marcha tão claramente
ditada pela natureza do espírito humano. E o único meio de escapar às desastrosas
consequências que ameaçam os povos por terem seguido marcha diferente.
Como esta asserção é fundamental, porque determina a verdadeira diretriz dos
grandes trabalhos políticos que devem ser empreendidos agora, não será excessivo
esclarecê-la bem. É, portanto, vantajoso recordar sumariamente as diretas
considerações filosóficas sobre as quais se fundamenta, embora pudéssemos
considerá-la como suficientemente demonstrada, pelo exame que acaba de ser
esboçado sobre o caminho errado seguido, até o presente, pelos povos.
É pouco honroso para a razão humana, sejamos obrigados a provar
metodicamente, quanto ao empreendimento mais geral e mais difícil, a necessidade de
uma divisão hoje universalmente reconhecida como indispensável nos casos menos
complicados. Admite-se, como verdade elementar, que a exploração de uma simples
manufatura, a construção de uma estrada, de uma ponte, a navegação de um navio,
etc., devem ser dirigidas por conhecimentos teóricos preliminares, e quer-se admitir
que a reorganização da sociedade seja questão puramente prática, que se pode confiar
a rotineiros.
Qualquer operação humana completa, desde a mais simples até a mais
complicada, executada por um só indivíduo, ou por muitos, compõe-se
inevitavelmente de duas partes, ou, em outros termos, dá lugar a duas ordens de
considerações: uma teórica, outra prática; uma de concepção, outra de execução. A
primeira necessariamente precede a segunda, que é destinada a dirigir. Em outras
palavras, nunca há ação sem especulação preliminar. Na operação que parece mais
puramente de rotina pode ser observada esta análise, não há diferença senão em ser a
sua teoria bem ou mal concebida. O homem que pretende, em qualquer questão, não
seja seu espírito dirigido por teorias, limita-se, como se sabe, a não admitir os
progressos teóricos, feitos por seus contemporâneos, mantendo teorias obsoletas,
muito depois de haverem sido substituídas. Assim, por exemplo, aqueles que afetam
orgulhosamente não crer na medicina, de ordinário se entregam, com estúpida
sofreguidão, ao charlatanismo mais grosseiro.
Na primeira infância do espírito humano, os trabalhos teóricos e os trabalhos
práticos são executados pelo mesmo indivíduo em todas as operações, o que não
impede que, mesmo naquela época, sua distinção, embora menos evidente, não fosse
muito real. Bem cedo essas duas ordens de trabalhos começaram a separar-se,
exigindo capacidades e culturas diferentes, e, de algum modo, opostas. À medida que a
inteligência coletiva e individual da espécie humana se desenvolve, esta divisão se
evidencia e se generaliza cada vez mais, e torna-se a fonte de novos progressos.
Pode medir-se verdadeiramente, sob o aspecto filosófico, o grau de civilização
de um povo pelo da divisão da teoria e da prática, combinado com o grau de harmonia
entre elas existente. De fato, o grande meio de civilização é a separação dos trabalhos
e a convergência dos esforços.
Pelo estabelecimento definitivo do cristianismo, a divisão da teoria e da prática
foi constituída de maneira regular e completa para os atos gerais da sociedade, como já
o era em todas as operações particulares. Foi vivificada e consolidada pela criação de
um poder espiritual, distinto e independente do temporal, e que mantinha com ele as
relações naturais de uma autoridade teórica com uma autoridade prática, relações
modificadas de acordo com o caráter especial do antigo sistema. Esta grande e bela
concepção foi a principal causa do vigor e da consistência admiráveis que distinguiram
o sistema feudal e teológico nos seus tempos de esplendor.
A queda inevitável desse sistema fez momentaneamente perder de vista essa
importante divisão. A filosofia superficial e crítica do século passado desconheceu-lhe
o valor. Mas é evidente que deve ser preciosamente conservada, com todas as outras
conquistas que o espírito humano fez sob a influência do antigo sistema, e não
poderiam perecer com ele. Ela deve figurar em primeira linha, entre poderes espiritual
e temporal de natureza diversa, no sistema a ser hoje estabelecido. Sem dúvida, a
sociedade não poderia ser menos completamente organizada no século XIX do que o
era no século XI.
(Esta grande questão, relativa à divisão entre o poder espiritual e o temporal,
será mais tarde objeto de um trabalho especial).
Se é preciso reconhecer a necessidade da divisão em trabalhos teóricos e
práticos para as operações políticas diárias e comuns, com quanto mais fundado
motivo essa divisão, exigida principalmente pela fraqueza do espírito humano, não
será indispensável na vasta empresa da reorganização total da sociedade? É a primeira
condição para tratar esta grande questão da única maneira proporcionada à sua
importância.
O que indica a observação filosófica, está confirmado pela experiência direta.
Nunca se introduziu qualquer inovação importante na ordem social, sem que os
trabalhos relativos à sua concepção hajam precedido os que tinham por finalidade
imediata pô-la em ação e lhe haviam servido simultaneamente de guia e apoio. A
história apresenta a este respeito duas experiências decisivas,
A primeira refere-se à formação do sistema teológico e feudal, acontecimento
que deve ser hoje, para nós, fonte inesgotável de instrução. O conjunto de instituições
pelo qual este sistema se constituiu completamente, no século XI, tinha sido
evidentemente preparado pelos trabalhos teóricos feitos nos séculos precedentes sobre
o espírito desse sistema, e datam da elaboração do cristianismo pela escola de
Alexandria.
O estabelecimento do poder pontifício, como suprema autoridade europeia, era
a consequência necessária do desenvolvimento anterior da doutrina cristã. A
instituição geral do feudalismo, fundada sobre a reciprocidade de obediência do fraco
e sua proteção pelo forte, era simplesmente a aplicação dessa doutrina à
regulamentação das relações sociais no estado da civilização dessa época. Quem não
vê que uma e outra instituição não poderiam realizar-se sem o desenvolvimento
preliminar da teoria cristã?
A segunda experiência, ainda mais palpável, porque se acha quase sob os
nossos olhos, atinge a própria marcha das modificações realizadas pelos povos no
antigo sistema, desde o começo da crise atual. É claro que foram fundadas
inteiramente sobre o desenvolvimento e o arranjo sistemáticos impressos pela filosofia
do século XVIII aos princípios críticos. Estes trabalhos, embora de um gênero de
teoria subalterna, considerados como críticos, tinham tão manifesto caráter teórico,
eram tão distintos dos trabalhos práticos subsequentes, que nenhum dos homens, que
para eles concorreram, compreendia, de modo claro e amplo, as modificações que
deviam produzir na geração seguinte. Esta reflexão deve ter impressionado todo
aquele que haja comparado atentamente os trabalhos deles com as modificações
práticas que lhes sucederam. E, todavia, se se tentar suprimir as ideias tiradas dos
filósofos do século XVIII, nos escritos e discursos dos homens mais capazes dentre os
que dirigiram os trabalhos de nossas pretensas constituições, ver-se-á que deles nada
restará.
Examinando a questão que nos preocupa, sob o ponto de vista histórico, pode
ser facilmente elucidada pelas considerações seguintes, que nos limitaremos a indicar
aqui, antes de desenvolvê-las alhures.
A sociedade está hoje desorganizada, sob os pontos de vista espiritual e
temporal. A anarquia espiritual precedeu e produziu a temporal. Atualmente, o mal-
estar depende mesmo da primeira causa, muito mais do que da segunda. Por outro
lado, o estudo atento da marcha da civilização prova estar a reorganização espiritual da
sociedade mais preparada hoje do que sua reorganização temporal. Assim sendo, a
primeira série de esforços diretos para terminar a época revolucionária deve ter por
objeto reorganizar o poder espiritual. Até o presente, no entanto, a atenção jamais se
fixou senão sobre a reforma do poder temporal.
De todas as considerações anteriores, torna-se evidentemente forçoso concluir
que há absoluta necessidade de separar os trabalhos teóricos da reorganização social,
adequada à nossa época, dos trabalhos práticos; isto é, faz-se mister conceber e
executar os que se referem ao espírito da nova ordem social, ao sistema de ideias
gerais que lhe deve corresponder, isoladamente dos que têm por objetivo o sistema de
relações sociais e o modo administrativo que das mesmas deve resultar. Nada se
poderá fazer de essencial e sólido, quanto à parte prática, enquanto a teórica não
estiver estabelecida ou, pelo menos, muito adiantada.
Proceder de outro modo, seria construir sem bases, fazer passar a forma antes
do fundo; seria, numa palavra, prolongar o erro fundamental cometido pelos povos, e
acaba de ser apontado como a origem de todas as suas aberrações, obstáculo que
cumpre destruir, antes de tudo, a fim de que o seu desejo de ver a sociedade
reorganizada, de modo proporcional ao estado presente dos conhecimentos, possa
enfim ser realizado.
Tendo estabelecido a natureza dos trabalhos preliminares que devem ser
executados para que a organização do novo sistema social se funde em bases sólidas, é
fácil determinar quais as forças sociais destinadas a desempenhar essa importante
missão.
É o que resta fixar antes de expor o plano dos trabalhos a efetuar. Estando
agora demonstrado que a maneira pela qual os povos procederam, até aqui, para a
formação do plano de reorganização, é radicalmente viciosa, seria supérfluo, sem
dúvida, insistir muito para fazer sentir que os homens a quem foi confiado esse grande
trabalho eram absolutamente incompetentes. De fato, é claro ser um erro a
consequência inevitável do outro. Tendo os povos ignorado a natureza do trabalho,
não podiam deixar de enganar-se na escolha dos homens chamados para executá-la.
Justamente por terem sido esses homens apropriados a esse trabalho, tal como os
povos o concebiam, não podem ser capazes de dirigi-la da maneira pela qual deve ser
concebido. A incapacidade de tais mandatários, ou melhor, sua incompetência, foi o
que devia ser, porque ninguém é próprio para duas coisas absolutamente opostas.
É principalmente a classe dos legistas que tem fornecido os elementos
encarregados de dirigir os trabalhos das pretensas constituições estabelecidas pelos
povos há trinta anos. A natureza das coisas investiu-os necessariamente dessa função,
dada a maneira pela qual foi até agora concebida.
De fato, como, até o presente, não se tratou, para os povos, senão de modificar
o antigo sistema, e como os princípios críticos destinados a dirigir tais modificações
estavam plenamente estabelecidos, a eloquência devia ser a faculdade especialmente
posta em jogo nesse trabalho, e é sobretudo pelos legistas que esta faculdade é
habitualmente cultivada. Embora tal faculdade seja apenas subalterna, pois se propõe
unicamente a fazer triunfar determinada opinião, sem participar de sua formação e de
seu exame, é, por esta mesma razão, eminentemente própria para a propagação. Não
foram os legistas que combinaram os princípios da doutrina crítica, mas os
metafísicos, que, aliás, formam, sob o ponto de vista espiritual, a classe
correspondente à deles sob o aspecto temporal. Mas foi pelos legistas que tais
princípios foram divulgados. Por eles foi principalmente ocupado o cenário político,
durante todo o tempo da luta imediata contra o sistema feudal e teológico. A eles,
portanto, devia caber naturalmente a direção das modificações a serem introduzidas
nesse sistema, consoante à doutrina crítica, que somente eles estavam habituados a
manejar.
O mesmo não poderia evidentemente suceder em relação aos trabalhos
verdadeiramente orgânicos, cuja necessidade acaba de ser demonstrada. Não é mais a
eloquência, isto é, a faculdade de persuasão, que deve estar principalmente em
atividade; é o raciocínio, vale dizer, a faculdade de exame e coordenação. Pelo mesmo
motivo, sendo os legistas geralmente os homens mais capazes, sob o primeiro ponto de
vista, são também os mais incapazes, sob o segundo. Tendo por profissão procurar
meios para persuadir qualquer opinião, quanto mais habilidade adquirirem, pelo
exercício, neste gênero de trabalho, mais impróprios se tornam para coordenar uma
teoria segundo seus verdadeiros princípios.
Não se trata, pois, no caso, de vã questão de amor-próprio; tudo se reduz à
relação necessária e exclusiva, que existe entre cada espécie de capacidade e cada
natureza de trabalho. Os legistas dirigiram a formação do plano de reorganização,
quando concebida num espírito absolutamente vicioso. Fizeram o que deviam fazer.
Chamados para modificar, para criticar, modificaram e criticaram. Seria injusto
censurá-los pelos defeitos de uma orientação que não escolheram e não lhes cabia
retificar. Sua influência foi útil, e até indispensável, tanto quanto o foi essa própria
orientação. Cumpre, entretanto, reconhecer, ao mesmo tempo, que essa influência deve
cessar, quando uma orientação inteiramente oposta vier a prevalecer. É, sem dúvida,
grande absurdo pretender realizar a reorganização da sociedade, concebendo-a como
assunto puramente prático, e sem que nenhum dos trabalhos teóricos necessários seja
previamente executado. Mas seria ainda absurdo maior a singular esperança de ver
efetuar-se verdadeira reorganização por uma assembleia de oradores, estranhos a
qualquer ideia teórica positiva, e escolhidos, sem nenhuma condição determinada de
capacidade, por homens que, na mor parte, são ainda mais incompetentes.
(Muito longe estou de concluir, das considerações precedentes, que a classe
dos legistas não deva mais ter agora atividade política. Quis unicamente estabelecer
que a sua ação deve mudar de caráter. Conforme aos raciocínios que acabo de expor, o
estado atual da sociedade exige deixe a suprema direção dos espíritos de pertencer aos
legistas; mas isto não quer dizer sejam eles menos necessários, por sua natureza, para
secundar, sob pontos de vista muito importantes, a nova direção geral a ser
estabelecida por outros. Em primeiro lugar, em virtude de seus meios de persuasão e
do hábito, que ainda conservam, mais do que qualquer outra classe, de se colocarem
nos pontos de vista políticos, devem concorrer poderosamente para a adoção da
doutrina orgânica. Em segundo lugar, os legistas, e, sobretudo, dentre eles, os que
houverem feito um estudo profundo do direito positivo, possuem exclusivamente a
capacidade regulamentadora que é uma das grandes capacidades necessárias à
formação do novo sistema social, e será posta em jogo logo que a parte puramente
espiritual do trabalho geral da reorganização estiver terminada, ou mesmo
suficientemente adiantada).
A natureza dos trabalhos a executar indica, por si mesma, o mais claramente
possível, a que classe compete empreendê-los. Sendo teóricos esses trabalhos, é claro
que os homens, cuja profissão consiste em formar combinações teóricas, seguidas
metodicamente, isto é, os cientistas ocupados com os estudos das ciências de
observação, são os únicos cujo gênero de capacidade e de cultura intelectual preenche
as condições necessárias.
Seria evidentemente monstruoso que, quando a necessidade mais urgente da
sociedade exige um trabalho geral de primeira ordem, em importância e dificuldade,
não fosse esse trabalho dirigido pelas mais poderosas forças intelectuais existentes,
aquelas cuja maneira de proceder é universalmente reconhecida como a melhor.
Encontram-se, indubitavelmente, nas outras partes da sociedade homens de
capacidade teórica igualou mesmo superior à do maior número dos cientistas, porque a
classificação real dos indivíduos está longe de ser, em tudo, conforme à classificação
natural ou fisiológica. Mas, em um trabalho tão essencial, são as classes que devem ser
consideradas, e não os indivíduos. Além disto, mesmo para estes, só a educação, isto é,
o sistema de hábitos intelectuais, que resulta do estudo das ciências de observação,
pode desenvolver, de modo conveniente, sua capacidade teórica natural. Em uma
palavra, todas as vezes que, em qualquer direção particular, a sociedade necessita de
trabalhos teóricos, é reconhecido que é à classe correspondente de sábios que deve
dirigir-se; portanto, o conjunto do corpo científico é que é convocado para dirigir os
trabalhos teóricos gerais, cuja necessidade acaba de ser verificada.
(Entre os cientistas, compreendemos aqui, conforme ao uso habitual, os
homens que, sem consagrarem sua vida à cultura especial de qualquer ciência de
observação, possuem a capacidade científica e fazem do conjunto dos conhecimentos
positivos um estudo bastante profundo para se compenetrarem de seu espírito e se
familiarizarem com as principais leis dos fenômenos naturais. É, sem dúvida, a esta
classe de cientistas, ainda pouco numerosa, que está reservada a atividade essencial na
formação da nova doutrina social. Os outros estão demasiadamente absorvidos por
suas ocupações particulares, e mesmo muito afetados ainda por certos hábitos
intelectuais viciosos, que resultam hoje de sua especialidade, a fim de poderem ser
verdadeiramente ativos no estabelecimento da ciência política. Mas, nem por isto,
deixarão de preencher, nesta grande fundação, papel muito importante, embora
passivo, qual seja o de juízes naturais dos trabalhos. Os resultados obtidos pelos
homens que seguirem a nova direção filosófica não terão valor e influência, enquanto
não forem adotados pelos cientistas especializados, como tendo o mesmo caráter de
seus trabalhos habituais. Entendi dever dar este esclarecimento a fim de prevenir a
objeção que se apresentará naturalmente ao espírito da mar parte dos leitores. Mas,
além disto, é evidente que esta distinção entre a parte da classe científica que deve ser
ativa e a que deve ser simplesmente passiva na elaboração da doutrina orgânica, é
muito secundária, e em nada afeta a asserção fundamental estabelecida no texto).
Aliás, a natureza das coisas, convenientemente interrogada, previne, a este
respeito, qualquer divagação, pois impede, de modo absoluto, a liberdade de escolha,
indicando, sob vários pontos de vista distintos, a classe dos cientistas como a única
própria para executar o trabalho teórico da reorganização social.
No sistema a constituir o poder espiritual ficará nas mãos dos cientistas e o
temporal pertencerá aos chefes dos trabalhos industriais. Estes dois poderes devem,
pois, proceder naturalmente para a formação desse sistema, como procederão, quando
estiver instituído, para a sua aplicação cotidiana, salvo a importância superior do
trabalho que é necessário executar hoje.
Há, neste trabalho, uma parte espiritual que deve ser tratada em primeiro lugar,
e uma parte temporal que o será consecutivamente. Compete aos cientistas, portanto,
empreenderem a primeira série de trabalhos, e aos industriais mais importantes
organizarem, de acordo com as bases estabelecidas, o sistema administrativo. Tal é a
marcha simples indicada pela natureza das coisas, a qual ensina que as próprias
classes, que são os elementos dos poderes de um novo sistema e devem, um dia, ser
colocadas à sua frente, são as que podem constituí-lo, porque só elas são capazes de
bem compreender-lhe o espírito e são levadas nesse sentido pelo impulso combinado
de seus hábitos e interesses.
Outra consideração torna ainda mais palpável a necessidade de confiar-se aos
sábios positivos o trabalho teórico da reorganização social.
Foi observado, no capítulo precedente, que a doutrina crítica produziu, na
maior parte dos cérebros, e tende a fortalecer neles cada vez mais, o hábito de se
constituir em árbitro supremo das ideias políticas gerais. Este estado anárquico das
inteligências, arvorado em princípio fundamental, é evidente obstáculo à
reorganização da sociedade. Em vão formariam, portanto as capacidades realmente
competentes a verdadeira doutrina orgânica, destinada a terminar a crise atual, se, por
sua situação antecedente, não possuíssem, de fato, o poder reconhecido de
constituírem autoridade. Seu trabalho, sem esta condição, submetido ao controle
arbitrário e vaidoso de uma política de inspiração, nunca poderia ser uniformemente
adotado. Ora, se lançarmos um olhar sobre a sociedade reconheceremos, desde logo,
que essa influência espiritual se acha hoje exclusivamente nas mãos dos cientistas. Só
eles exercem, em matéria teórica, uma autoridade que não é contestada. Por
conseguinte, além de serem os únicos competentes para formar a nova doutrina
orgânica, só eles possuem a força moral necessária para determinar a sua admissão. A
quaisquer outros seriam insuperáveis os obstáculos opostos pelo preconceito crítico da
soberania moral, concebida como direito inato em todo indivíduo. A única alavanca
que possa derrubar tal preconceito acha-se na mão dos cientistas. É hábito contraído,
pouco a pouco, nela sociedade, desde a fundação das ciências positivas, submeter-se às
decisões dos cientistas, em todas as ideias teóricas particulares, hábito que estenderão
facilmente às ideias teóricas gerais, quando forem encarregados de coordená-las.
Possuem, assim, os cientistas hoje, com exclusão de qualquer outra classe, os
dois elementos fundamentais do governo moral: a capacidade e a autoridade teórica.
Um último caráter essencial, não menos próprio da força científica do que os
precedentes, merece ainda ser indicado.
A crise atual é evidentemente comum a todos os povos da Europa ocidental,
embora nem todos dela participem em grau equivalente. É tratada, entretanto, por
qualquer desses povos como se fora simplesmente nacional. Mas a uma crise europeia
é evidentemente necessário um tratamento europeu.
Este isolamento dos povos é uma consequência inevitável da queda do sistema
teológico e feudal, pois, em virtude dela, se dissolveram os laços espirituais que o
aludido sistema havia estabelecido entre os povos da Europa, e que, em vão, se tentou
fossem substituídos por um estado de oposição hostil recíproca, disfarçado sob o nome
de "equilíbrio europeu". A doutrina crítica é incapaz de restabelecer a harmonia que
destruiu em seu antigo princípio fundamental; e, pelo contrário, a afasta. Em primeiro
lugar, tende, por natureza, ao isolamento, e, em segundo lugar, os povos não se
poderiam entender completamente sobre os próprios princípios dessa doutrina, porque
cada qual deles pretende, de acordo com ela, modificar o antigo sistema em graus
diferentes.
Só a verdadeira doutrina orgânica pode produzir essa união, tão
imperiosamente reclamada pelo estado da civilização europeia. Deve ela forçosamente
determiná-la, apresentando, a todos os povos da Europa ocidental, o sistema de
organização social, para o qual todos são chamados atualmente, e de que cada um
deles gozará de maneira completa, em época mais ou menos próxima, segundo o
estado especial de suas luzes.
Cumpre observar, além disto, que essa união será mais perfeita do que a
produzida pelo antigo sistema, a qual somente existia sob o ponto de vista espiritual,
ao passo que agora deve igualmente ocorrer sob o ponto de vista temporal, de sorte
que os povos são chamados a formar verdadeira sociedade geral completa e
permanente.
E, de fato, se fosse oportuno empreender aqui tal exame, fácil seria mostrar que
cada um dos povos da Europa ocidental está colocado, pelo feitio particular de seu
estado de civilização, nas condições mais favoráveis para tratar de tal ou qual parte do
sistema geral; donde resulta a utilidade imediata de sua cooperação. Ora, daí se segue
que esses povos devem igualmente trabalhar em comum para o estabelecimento do
novo sistema.
Considerando a nova doutrina orgânica sob este ponto de vista, é claro que a
força destinada a formá-la e estabelecê-la a qual deve satisfazer à condição de
determinar a combinação dos diferentes povos civilizados, tem de ser uma força
europeia. Ora, tal é ainda a propriedade especial, não menos exclusiva do que todas as
precedentemente enumeradas, da força científica.
É evidente que só os cientistas formam verdadeira coligação, compacta, ativa,
cujos membros se entendem e se correspondem com facilidade, de maneira contínua,
de um extremo ao outro da Europa. Isto se dá em consequência de serem eles
unicamente, em nossos dias, os que têm ideias comuns, linguagem uniforme e um alvo
de atividade geral e permanente. Nenhuma outra classe possui esta poderosa
vantagem, porque nenhuma outra preenche tais condições integralmente. Os próprios
industriais, tão fortemente levados à união, pela natureza de seus trabalhos e de seus
hábitos, deixam-se ainda dominar, em demasia, pelas inspirações hostis de um
patriotismo selvagem, para que uma verdadeira combinação europeia possa
estabelecer-se, desde já, entre eles. É à ação dos cientistas que está reservado
promovê-la.
É, sem dúvida, supérfluo demonstrar que a ligação atual dos sábios será muito
mais intensa, quando dirigirem seus esforços gerais para a formação da nova doutrina
social. Esta consequência é evidente, pois a força de um laço social é necessariamente
proporcionada à importância da finalidade da associação.
Para bem apreciar, em toda a sua extensão, o valor desta força europeia,
peculiar aos cientistas, cumpre comparar o procedimento dos reis com o dos povos,
sob o aspecto que nos ocupa.
Foi acima notado que, dirigindo-se segundo um plano absurdo em princípio, os
reis procedem na sua execução de maneira muito mais metódica que os povos, porque
a linha que seguem está toda descrita, no passado, da maneira mais pormenorizada.
Destarte, sob o ponto de vista que consideramos, os reis combinam seus esforços em
toda a Europa, enquanto os povos se isolam. Por este único fato, os reis têm uma
vantagem relativa sobre os povos, contra a qual estes não podem lutar de nenhum
modo, o que a torna de extrema importância.
Os chefes da opinião dos povos não têm outro recurso senão o de clamarem
contra esta superioridade de posição, que, por isto, não deixa de existir. Proclamam,
em tese geral, que os diferentes Estados não têm direito algum de intervir nas reformas
sociais uns dos outros. Ora, este princípio, que nada mais é do que a aplicação da
doutrina crítica às relações exteriores, mostra-se absolutamente falso, como todos os
outros dogmas que a compõem; é, como eles, a generalização viciosa de um fato
transitório: a dissolução dos laços que existiam entre as nações europeias sob a
influência do antigo sistema.
É claro que os povos da Europa ocidental, pela conformidade e encadeamento
de sua civilização, considerada, quer no seu desenvolvimento sucessivo, quer no seu
estado atual, formam uma grande nação, cujos membros têm reciprocamente direitos,
menos amplos, sem dúvida, mas da mesma natureza que os das diferentes partes de um
Estado único.
Além disto, vê-se que essa ideia crítica, fosse embora verdadeira, não atinge o
seu alvo, e até o repele, pois tende a impedir a união dos povos. Como uma força
somente pode ser contida por outra, os povos estarão evidentemente, sob o ponto de
vista europeu, em estado de inferioridade relativamente aos reis, enquanto a força dos
cientistas, única europeia, não presidir ao grande trabalho da reorganização social. Só
ela pode ser, para os povos, o equivalente real da Santa Aliança, exceto a
superioridade necessária de uma coligação espiritual sobre uma coligação puramente
temporal.
Em última análise, portanto, a necessidade de confiar aos cientistas os
trabalhos teóricos preliminares, reconhecidos indispensáveis para reorganizar a
sociedade, acha-se solidamente fundamentada em quatro considerações distintas, cada
uma das quais bastaria, só por si, para estabelecê-la: 1ª - os cientistas, por seu gênero
de capacidade e de cultura intelectual, são os únicos competentes para executarem
esses trabalhos; 2ª - esta função lhes é destinada pela natureza das coisas, por
constituírem o poder espiritual do sistema a organizar; 3ª - só eles, exclusivamente,
possuem a autoridade moral hoje necessária para determinar a adoção da nova
doutrina orgânica, quando estiver formada; 4ª - finalmente, de todas as forças sociais
existentes, a dos cientistas é a única europeia. Este conjunto de provas deve, sem
dúvida, colocar a grande missão teórica dos cientistas ao abrigo de toda incerteza e de
toda contestação.
Resulta de tudo quanto precede que os erros capitais cometidos pelos povos, na
sua maneira de conceberem a reorganização da sociedade, são oriundos da marcha
viciosa segundo a qual procederam nessa reorganização; que o vício de tal marcha
consiste em ter sido a reorganização social considerada como operação puramente
prática, quando, de fato, é essencialmente teórica; que a natureza das coisas e as
experiências históricas mais convincentes provam a necessidade absoluta de dividir o
trabalho total da reorganização em duas séries, uma teórica, outra prática, das quais a
primeira deve ser previamente executada, estando destinada a servir de base à
segunda; que a realização preliminar dos trabalhos teóricos exige seja posta em
atividade nova força social, distinta das que até hoje ocuparam a cena e são
absolutamente incompetentes; que, por algumas razões muito decisivas, enfim, esta
nova força deve ser a dos cientistas afeitos aos estudos das ciências de observação.
O conjunto destas ideias pode ser considerado como tendo tido por finalidade
levar gradativamente o espírito dos homens meditativos ao prisma elevado, do qual se
pode abranger, num só golpe de vista geral, os vícios da marcha seguida até o presente
para reorganizar a sociedade, e o caráter da que deve ser hoje adotada. Tudo se reduz,
em última análise, a estabelecer, para a política, pela força combinada dos cientistas
europeus, uma teoria positiva distinta da prática, tendo por objetivo a concepção do
novo sistema social, correspondente ao estado atual dos conhecimentos.
Ora, refletindo sobre isto, ver-se-á que esta conclusão se resume numa única
ideia: os cientistas devem elevar hoje a política à categoria das ciências de observação.
Tal é o ponto de vista culminante e definitivo em que nos devemos colocar.
Deste ponto de vista será fácil condensar, em uma série de considerações muito
simples, a substância de tudo quanto foi dito desde o começo deste opúsculo. Resta
fazer esta importante generalização, a única que pode fornecer os meios de ir mais
longe, permitindo tornar o pensamento mais rápido.
Pela própria natureza do espírito humano, cada ramo de nossos conhecimentos
está necessariamente sujeito, em sua marcha, a passar sucessivamente por três estados
teóricos diferentes: o estado teológico ou fictício, o metafísico ou abstrato, e, enfim, o
científico ou positivo.
No primeiro, ideias sobrenaturais servem para ligar o pequeno número de
observações isoladas de que se compõe então a ciência. Em outros termos, os fatos
observados são explicados, isto é, vistos a priori de conformidade com fatos
inventados. Este estado é necessariamente o de qualquer ciência no seu berço. Por
mais imperfeito que seja, é o único modo de ligação possível nessa época. Fornece,
por conseguinte, o único instrumento por cujo intermédio se pode raciocinar sobre os
fatos, mantendo a atividade do espírito que, acima de tudo, tem necessidade de um
ponto de ligação, seja qual for. Numa palavra, é indispensável para permitir que a
ciência progrida.
O segundo estado é unicamente destinado a servir de meio de transição do
primeiro para o terceiro. Seu caráter é bastardo, liga os fatos segundo ideias que não
são mais de todo sobrenaturais, mas não são ainda inteiramente naturais. Em uma
palavra, essas ideias são abstrações personificadas, nas quais o espírito pode ver, à
vontade, ou o nome místico de uma causa sobrenatural, ou o enunciado abstrato de
uma simples série de fenômenos, segundo o estado teológico ou científico de que mais
se aproxima. Este estado metafísico supõe que, tornando-se mais numerosos, os fatos
ao mesmo tempo se tenham aproximado de acordo com analogias mais amplas.
O terceiro estado é o modo definitivo de qualquer ciência, não se destinando os
dois primeiros senão a prepará-la gradualmente. Os fatos se ligam então segundo
ideias ou leis gerais de ordem inteiramente positiva, sugeridas ou confirmadas pelos
próprios fatos, e que muitas vezes mesmo não são mais do que simples fatos bastante
gerais para se tornarem princípios. Trata-se, sempre, de reduzi-las ao menor número
possível, mas sem criar qualquer hipótese que não possa, algum dia, ser verificada pela
observação, considerando-os, em todos os casos, apenas como um meio de expressão
geral para os fenômenos.
Os homens, familiarizados com a marcha das ciências, podem facilmente
verificar a exatidão deste resumo histórico geral em relação às quatro ciências
fundamentais, hoje positivas: a astronomia, a física, a química e a fisiologia, assim
como nas ciências que com elas se relacionam. Mesmo aqueles que somente têm
considerado as ciências em seu estado atual podem fazer esta verificação no tocante a
fisiologia que, embora já se tenha tornado enfim tão positiva como as outras três,
existe ainda sob as três formas nas diversas classes de espírito desigualmente
contemporâneas. Este fato é sobretudo evidente na parte desta ciência que considera os
fenômenos especialmente chamados morais, concebidos por uns como o resultado de
uma ação sobrenatural contínua, por outros, como os efeitos incompreensíveis da
atividade de um ser abstrato, e por outros, finalmente, como dependendo de condições
orgânicas suscetíveis de demonstração, e além das quais nada se poderia alcançar.
Considerando a política uma ciência, e aplicando-se-lhe as observações
precedentes, reconhece-se que já passou pelos dois primeiros estados e está agora apta
a atingir o terceiro.
A doutrina dos reis representa o estado teológico da política. E, efetivamente,
em ideias teológicas que está fundada em última análise. Expõe as relações sociais
como baseadas na ideia sobrenatural do direito divino. Explica as transformações
políticas sucessivas da espécie humana através de uma direção sobrenatural imediata,
exercida de maneira contínua, desde o primeiro homem até a época atual. Foi assim a
política exclusivamente concebida até que o antigo sistema começou a declinar.
A doutrina dos povos exprime o estado metafísico da política. Funda-se
inteiramente na suposição abstrata e metafísica de um contrato social primitivo,
anterior a todo desenvolvimento das faculdades humanas pela civilização. Os meios
habituais de raciocínio que emprega são os direitos, considerados como naturais e
comuns a todos os homens, no mesmo grau, e garantidos pelo referido contrato. Tal é
a doutrina primitivamente crítica, tirada em sua origem, da teologia, a fim de lutar
contra o antigo sistema, e que, em seguida, foi considerada como orgânica. Foi
Rousseau principalmente quem a resumiu sob forma sistemática, numa obra que serviu
e ainda serve de base às considerações correspondentes sobre a organização social.
A doutrina científica da política encara, enfim, o estado social, sob o qual a
espécie humana sempre tem sido encontrada pelos observadores, como a consequência
inevitável de sua organização. Concebe a finalidade deste estado como resultante da
posição que o homem ocupa no sistema natural, tal como está fixado pelos fatos e sem
ser considerado suscetível de explicação. Vê, efetivamente, resultar desta relação
fundamental a tendência constante do homem para atuar sobre a natureza, a fim de
modificá-la em seu proveito. Considera, em seguida, a ordem social como tendo por
finalidade desenvolver coletivamente esta tendência natural, regularizá-la e dispô-la a
fim de que a ação útil seja a maior possível. Isto posto, ensaia ligar às leis
fundamentais da organização humana, por observações diretas sobre o
desenvolvimento coletivo da espécie, a marcha por ela seguida e os estados
intermediários pelos quais foi obrigada a passar antes de atingir este estado definitivo.
Dirigindo-se de acordo com esta série de observações, considera os aperfeiçoamentos
reservados a cada época como resultantes, ao abrigo de qualquer hipótese, do grau de
desenvolvimento a que chegou a espécie humana. Concebe, em seguida, para cada
grau de civilização, as combinações políticas como tendo unicamente por finalidade
facilitar os passos que tendem a ser dados depois de haverem sido determinados com
precisão.
Tal é o espírito da doutrina positiva que se trata de estabelecer agora, tendo por
alvo fazer a aplicação dela ao estado atual da espécie humana civilizada, não
considerando os estados anteriores senão como necessários para serem observados a
fim de estabelecer as leis fundamentais da ciência.
É fácil explicar simultaneamente por que a política não se pôde tornar mais
cedo uma ciência positiva, e por que pode sê-lo agora. Duas condições fundamentais,
distintas, embora inseparáveis, eram para isto indispensáveis.
Em primeiro lugar, era necessário que todas as ciências particulares se
tornassem sucessivamente positivas; porque o conjunto não poderia ser positivo
quando todos os elementos não o eram. Esta condição está hoje preenchida.
As ciências tornaram-se positivas, umas após as outras, na ordem em que era
natural que essa revolução se operasse. Esta ordem é a do grau de complicação maior
ou menor de seus fenômenos, ou, em outros termos, de sua relação mais ou menos
íntima com o homem. Assim os fenômenos astronômicos em primeiro lugar, como
sendo os mais simples, e, em seguida, sucessivamente, os físicos, os químicos e os
fisiológicos, foram considerados através de teorias positivas; estes últimos, em época
muito recente. A mesma reforma só em último lugar podia efetuar-se em relação aos
fenômenos políticos, que são os mais complicados, pois dependem de todos os outros.
Mas, evidentemente, é tão necessário que se efetue hoje, quanto seria impossível
realizar-se antes.
Em segundo lugar, era preciso que o sistema social preparatório, onde a ação
sobre a natureza resumia o alvo indireto visado pela sociedade, chegasse à sua
derradeira fase.
De um lado, a teoria não podia realmente estabelecer-se até então, porque
ficaria mais adiantada do que a prática. Sendo destinada a dirigi-la, não poderia
antecipá-la a ponto de perdê-la de vista. Por outro lado, não teria tido antes uma base
experimental suficiente. Era mister o estabelecimento de um sistema de ordem social,
admitido por uma população muito numerosa e composta de várias grandes nações, e
toda a duração possível deste sistema, a fim de que uma teoria se pudesse formar sobre
essa longa experiência.
Esta segunda condição está agora satisfeita, tanto quanto a primeira. O sistema
teológico, destinado a preparar o espírito humano para o sistema científico, chegou ao
termo de sua carreira, o que é incontestável, porquanto o sistema metafísico, cuja
única finalidade é destruir o sistema teológico, tem geralmente obtido preponderância
entre os povos. A política científica, portanto, deve naturalmente estabelecer-se,
porque, atenta a impossibilidade absoluta de prescindir-se de uma teoria, seria
necessário supor, se tal não ocorresse, que a política teológica se reconstituísse, pois,
de fato, a política metafísica não é, propriamente falando, uma verdadeira teoria, mas
uma doutrina crítica, unicamente própria para uma transição.
Em resumo, jamais houve revolução moral, a um tempo mais inevitável, mais
amadurecida e mais urgente do que a que deve agora elevar a política à categoria das
ciências de observação através dos esforços combinados dos cientistas europeus. Só
esta revolução poderá fazer intervir, na grande crise atual, uma força verdadeiramente
preponderante, única em condições de regulá-la e de preservar a sociedade das
terríveis e anárquicas explosões que a ameaçam, colocando-a na verdadeira rota do
sistema social aperfeiçoado, que o nível de sua civilização imperiosamente reclama.
Para pôr em atividade, o mais rapidamente possível, as forças científicas
destinadas a desempenhar esta salutar missão, era necessário apresentar o programa
geral dos trabalhos teóricos a serem executados para a reorganização da sociedade,
elevando a política à categoria das ciências de observação. Ousei conceber esse plano
e proponho-o solenemente aos cientistas da Europa.
Profundamente convencido de que, quando esta discussão for empreendida, o
meu plano, adotado ou rejeitado, conduzirá necessariamente à formação do plano
definitivo, não temo convocar os cientistas europeus, em nome da sociedade,
ameaçada de longa e terrível agonia, da qual somente sua interferência pode preservá-
la, a emitirem pública e livremente sua opinião fundamentada relativamente ao quadro
geral de trabalhos orgânicos, que lhes submeto.
Este programa se compõe de três séries de trabalhos.
A primeira tem por fim a formação do sistema de observações históricas sobre
a marcha geral do espírito humano, destinado a ser a base positiva da política, de
maneira a fazer-lhe perder completamente o caráter teológico e metafísico a fim de
imprimir-lhe o caráter científico,
A segunda série visa a fundar o sistema completo de educação positiva, que
convém à sociedade regenerada, constituindo-se para agir sobre a natureza, ou, em
outros termos, ela se propõe a aperfeiçoar tal ação naquilo que depende das faculdades
do agente.
A terceira, enfim, consiste na exposição geral da ação coletiva que, no estado
atual de todos os seus conhecimentos, podem os homens civilizados exercer sobre a
natureza, a fim de modificá-la, em seu proveito, dirigindo todas as suas forças para
este alvo e não considerando as combinações sociais senão como meios de atingi-lo.

Primeira série de trabalhos

A condição fundamental a preencher, para tratar a política de maneira positiva,


consiste em determinar, com precisão, os limites em que estão encerradas, pela
natureza das coisas, as combinações de ordem social. Em outros termos, cumpre que,
na política, a exemplo das outras ciências, o papel da observação e o da imaginação se
tornem perfeitamente distintos, e que o segundo seja subordinado ao primeiro.
Para expor, com toda a clareza, esta ideia capital, é necessário comparar o
espírito geral da política positiva com o da política teológica e o da política metafísica.
A fim de simplificar esse paralelo, devem-se englobar estas últimas em uma só e
mesma consideração, o que não poderia alterar os resultados, porquanto, como ficou
demonstrado no capítulo precedente, a segunda é, no fundo, simples modificação da
primeira, da qual só difere essencialmente por um caráter menos pronunciado.
O estado teológico e o estado metafísico de qualquer ciência têm, por comum
característica, a predominância da imaginação sobre a observação. A única diferença
entre eles existente, sob este ponto de vista, é que a imaginação se exerce, no primeiro,
sobre seres sobrenaturais, e, no segundo, sobre abstrações personificadas.
A consequência necessária e constante desse estado do espírito humano é
persuadir o homem que, sob todos os aspectos, é o centro do sistema natural e, por
conseguinte, dotado de poder de ação indefinida sobre os fenômenos. Esta persuasão
resulta evidentemente, de maneira direta, da supremacia exercida pela imaginação, que
se combina com a inclinação orgânica, em virtude da qual o homem é levado, quase
sempre, a formar ideias exageradas sobre a sua importância e o seu poder. Esta ilusão
é o traço característico mais evidente dessa infância da razão humana.
Consideradas sob o ponto de vista filosófico, as revoluções que fizeram as
diferentes ciências passar ao estado positivo tiveram, como efeito geral, estabelecer,
em sentido inverso, essa ordem primitiva de nossas ideias.
O caráter fundamental dessas revoluções foi transferir para a observação a
preponderância até aí exercida pela imaginação. As consequências foram, portanto,
igualmente invertidas. O homem foi deslocado do centro da natureza para colocar-se
na ordem que efetivamente nela ocupa. De igual modo, sua ação ficou circunscrita aos
limites reais, e reduzida a modificar, mais ou menos, uns pelos outros, certo número de
fenômenos que lhe cabe observar.
Basta indicar o apanhado histórico precedente para que seja logo verificado,
em relação às ciências atualmente positivas, por todos quantos têm noções claras a
respeito.
Assim, em astronomia, o homem começou por considerar os fenômenos
celestes, senão como submetidos à sua influência, pelo menos como tendo, com todas
as particularidades de sua existência, relações diretas e íntimas. Foi necessário todo o
poder das demonstrações mais fortes e múltiplas para que se resignasse a ocupar
simplesmente uma posição subalterna e imperceptível no sistema geral do universo.
Assim também, em química, julgou a princípio poder modificar, a seu talante, a
natureza íntima dos corpos, antes de limitar-se a observar os efeitos da ação recíproca
das diferentes substâncias terrestres. Igualmente, em medicina, foi depois de haver
muito tempo esperado corrigir à vontade as perturbações de seu organismo, e de
resistir mesmo indefinidamente às causas de destruição, que o homem reconheceu,
enfim, ser nula a sua ação quando não concorria com a do organismo, e, com mais
forte razão, quando lhe era oposta.
A política, como as outras ciências, não escapou a esta lei fundada sobre a
natureza das coisas. O estado em que sempre permaneceu até o presente, e em que
ainda se acha, corresponde, com perfeita analogia, ao estado onde se encontravam a
astrologia relativamente à astronomia, a alquimia em relação à química, e a pesquisa
da panaceia universal em relação à medicina.
Em primeiro lugar, de acordo com o capítulo anterior, é evidente que a política
teológica e a política metafísica, consideradas quanto à sua maneira de proceder,
concordam em fazer predominar a imaginação sobre a observação. Sem dúvida, não se
poderia afirmar que a observação não tenha sido, até agora, empregada em política
teórica, mas só o tem sido de maneira subalterna, sempre às ordens da imaginação,
como o estava em química, por exemplo, na época da alquimia.
Esta preponderância da imaginação devia ter, necessariamente, em relação à
política, consequências análogas às que acima foram descritas com referência às outras
ciências. É o que facilmente se pode verificar por observações diretas sobre o espírito
comum da política teológica e da política metafísica, consideradas sob o aspecto
teórico.
O homem acreditou até o presente no poder ilimitado de suas combinações
políticas para o aperfeiçoamento da ordem social. Em outros termos, a espécie humana
foi considerada, ate aqui, em política, como não tendo impulso próprio, podendo
receber sempre passivamente o impulso que qualquer legislador, investido de
suficiente autoridade, lhe queira dar.
Por uma consequência necessária, o absoluto sempre reinou e reina ainda na
política teórica, quer teológica, quer metafísica. O alvo comum, a que elas se propõem,
é estabelecer, cada uma a seu modo, o tipo eterno da ordem social mais perfeita, sem
terem em vista qualquer estado de civilização determinado.
Ambas pretendem ter achado exclusivamente um sistema de instituições que
atinge esse objetivo. A única diferença que, a este respeito, as distingue, e que a
primeira proíbe formalmente qualquer modificação importante no plano que traçou, ao
passo que a segunda permite o exame, desde que seja encaminhado no mesmo sentido.
Com esta exceção, o caráter de ambas é igualmente absoluto.
Este caráter absoluto é ainda mais evidente em suas aplicações à política
pratica. Quer a política teológica, quer a metafísica, vê, em seu sistema de instituições,
uma espécie de panaceia universal, aplicável, com segura infalibilidade, a todos os
males políticos de qualquer natureza e qualquer que seja o grau atual de civilização do
povo ao qual se destina o remédio. Assim, também, ambas julgam os regimes dos
diferentes povos, nas diversas épocas da civilização, considerando unicamente sua
maior ou menor conformidade ou oposição com o tipo invariável de perfeição que
criaram. Citarei um exemplo recente e palpável: os partidários da política teológica e
os da política metafísica proclamaram, alternadamente e quase ao mesmo tempo, a
organização social da Espanha superior à das nações europeias mais adiantadas, sem
que uns e outros tivessem em conta a inferioridade atual dos espanhóis, no tocante à
civilização, relativamente aos franceses e aos ingleses, acima dos quais os colocaram
quanto ao regime político. Tais Julgamentos, que seria fácil multiplicar, mostram, com
evidência, quanto é próprio do espírito da política teológica e da política metafísica
fazerem abstração completa do estado de civilização.
Convém notar a este respeito, para acabar de caracterizá-las, que se combinam,
em geral, por motivos diferentes, para fazer coincidir a perfeição da organização social
com um estado de civilização muito imperfeito. Vê-se mesmo que os partidários mais
consequentes da política metafísica, tais como Rousseau, que a coordenou, foram
levados até ao ponto de considerar o estado social como a degeneração de um estado
natural criado por sua imaginação, e que não é mais do que a reprodução metafísica da
ideia teológica relativa à degradação da espécie humana pelo pecado original.
Este resumo exato confirma haver a preponderância da imaginação sobre a
observação produzido, em política, resultados perfeitamente semelhantes aos que
havia engendrado nas outras ciências, antes de se tornarem positivas. A pesquisa
absoluta do melhor governo possível, abstraindo-se o estado de civilização, é
evidentemente idêntica à investigação de um tratamento geral, aplicável a todas as
enfermidades e a todos os temperamentos.
Procurando reduzir o espírito da política teológica e metafísica à sua mais
simples expressão, vê-se, pelo que precede, limitar-se a duas considerações essenciais.
Relativamente à maneira de proceder, consiste na predominância da imaginação sobre
a observação. No que tange às ideias gerais, destinadas a dirigirem os trabalhos,
consiste, de um lado, em considerar a organização social de maneira abstrata, vale
dizer, como independente do estado da civilização, e, por outro lado, em encarar a
marcha da civilização como não estando sujeita a nenhuma lei.
Tomando-se este espírito em sentido inverso, deve achar-se, necessariamente, o
da política positiva, pois que a mesma oposição se observa, conforme ao que acima
ficou estabelecido, entre o estado conjetural e o estado positivo de todas as outras
ciências. Por esta operação intelectual, não se fará senão ampliar, no futuro, a analogia
observada no passado. Efetuando-se a operação, chega-se aos seguintes resultados:
Em primeiro lugar, para tornar positiva a ciência política, é necessário fazer
preponderar nela, como nas outras ciências, a observação sobre a imaginação. Em
segundo lugar, para que esta condição fundamental possa ser preenchida, cumpre
conceber, de um lado, a organização social como intimamente ligada ao estado da
civilização e determinada por ele; de outro lado, faz-se mister considerar a marcha da
civilização como sujeita a uma lei invariável, fundada sobre a natureza das coisas. A
política não poderá tornar-se positiva, ou o que significa a mesma coisa, a observação
não poderá preponderar nela sobre a imaginação, enquanto estas duas últimas
condições não forem preenchidas. Mas é claro que, reciprocamente, se elas o forem, se
a teoria política for completamente estabelecida nesse espírito, a imaginação se achará,
de fato, subordinada à observação, e a política será positiva. Assim sendo, é a essas
duas condições que tudo se reduz em última análise.
São estas, portanto, as duas ideias capitais que devem presidir aos trabalhos
positivos sobre a política teórica. Dada sua extrema importância, é indispensável
considerá-las mais minuciosamente. Não se trata aqui de estabelecer sua demonstração
que será precisamente o resultado dos trabalhos a efetuar. Trata-se, simplesmente, de
apresentar um enunciado assaz completo dessas ideias, a fim de que os espíritos
capazes de julgá-las possam fazer uma espécie de verificação antecipada, comparando-
as com os fatos geralmente conhecidos; verificação suficiente para se convencerem da
possibilidade de tratar a política pelo modo por que são tratadas as ciências de
observação. Nosso fito principal será atingido, se tivermos feito nascer tal convicção.
A civilização consiste, verdadeiramente falando, de uma parte, no
desenvolvimento do espírito humano, e de outra, no desenvolvimento da ação do
homem sobre a natureza, que é a consequência do primeiro. Em outros termos, os
elementos de que se compõe a ideia de civilização vêm a ser: as ciências, as belas-
artes e a indústria, sendo tomada esta última expressão no seu sentido mais lato,
sentido que sempre lhe tenho dado.
Considerando a civilização sob este ponto de vista preciso e elementar, é fácil
reconhecer que o estado da organização social é essencialmente dependente do estado
da civilização e deve ser considerado como sua consequência, enquanto a política de
imaginação o considera como isolado dela, e mesmo inteiramente independente.
O estado da civilização determina forçosamente o da organização social, quer
no espiritual quer no temporal, sob os dois pontos de vista mais importantes. Em
primeiro lugar, determina a sua natureza, porque fixa o alvo da atividade social; além
disto, prescreve sua forma essencial, porque cria e desenvolve as forças da sociedade,
temo orais e espirituais, destinadas a dirigir essa atividade geral. De fato, é claro que a
atividade coletiva do corpo social, não sendo mais do que a resultante das atividades
individuais de todos os seus membros dirigidas para um alvo comum, não poderia ser
de natureza diversa da atividade de seus elementos, evidentemente determinados pelo
estado mais ou menos avançado das ciências, das belas-artes e da indústria.
É ainda mais palpável haver impossibilidade de conceber a existência
prolongada de um sistema político que não investisse do poder supremo as forças
sociais preponderantes, cuja natureza é invariavelmente determinada pelo estado da
civilização. O que o raciocínio indica, a experiência confirma.
Todas as variedades de organização social que têm existido até o presente,
foram apenas modificações, mais ou menos amplas, de um sistema único: o sistema
militar e teológico. A formação primitiva deste sistema foi evidente e necessária
consequência do estado imperfeito da civilização nessa época. Estando a indústria na
infância, a sociedade devia naturalmente tomar a guerra por alvo de atividade,
sobretudo se se considerar que esta situação facilitava os seus meios, impondo ao
mesmo tempo a sua lei pelos estimulantes mais enérgicos que atuam sobre o homem: a
necessidade de exercer suas faculdades e a de viver.
De igual modo, é claro que o estado teológico, no qual então se achavam todas
as teorias particulares, imprimia forçosamente o mesmo caráter às ideias gerais,
destinadas a servir de laço social. O terceiro elemento da civilização, as belas-artes,
era então predominante, e foi ele, de fato, que fundou, de maneira regular, essa
primeira organização. Se não se houvesse desenvolvido, seria impossível imaginar
como a sociedade teria podido organizar-se.
Se observarmos, em seguida, as modificações sucessivas que este sistema
primitivo sofreu até a época atual, e que foram tomadas pelos metafísicos como outros
tantos sistemas diferentes, achar-se-á o mesmo resultado. Em todas elas se verão
efeitos inevitáveis da extensão, sempre crescente, adquirida pelo elemento científico e
pelo industrial, quase nulos em sua origem. f: assim que a passagem do politeísmo ao
teísmo, e, mais tarde, a reforma do protestantismo, foram produzidas principalmente
pelos progressos contínuos, embora lentos, dos conhecimentos positivos, ou, em
outros termos, pela ação exercida sobre as antigas ideias gerais pelas ideias
particulares, que haviam cessado, pouco a pouco, de ser da mesma natureza que elas.
Assim também, sob o aspecto temporal, a passagem do estado romano ao feudalismo,
e, mais claramente ainda, a decadência deste pela emancipação das comunas e suas
consequências, devem ser essencialmente atribuídas à importância progressiva do
elemento industrial. Em resumo, todos os fatos gerais atestam a estreita dependência
da organização social relativamente à civilização.
Os melhores espíritos, os que estão mais próximos do estado positivo da
política, começam a entrever hoje este princípio fundamental. Sentem ser absurdo
conceber isoladamente o sistema político, fazendo derivar dele as forças da sociedade,
da qual, pelo contrário, ele recebe as suas, sob pena de nulidade. Numa palavra: já
admitem que a ordem política é simplesmente, e não poderia deixar de sê-lo, a
expressão da ordem civil, o que significa, em outros termos, que as forças sociais
preponderantes acabam, necessariamente, por se tornar dirigentes. Daí, não há mais do
que um passo para se chegar a reconhecer a subordinação do sistema político
relativamente à civilização. Porque, se é claro ser a ordem política a expressão da
ordem civil, é pelo menos tão evidente que a própria ordem civil nada mais é do que a
expressão do estado da civilização.
A organização social reage, indubitavelmente, por seu turno, de maneira
inevitável e mais ou menos enérgica, sobre a civilização, mas esta influência que é
simplesmente secundária, apesar de sua grande importância, não deve levar a inverter
a ordem natural da dependência. A prova de que esta ordem é realmente tal qual acaba
de ser indicada, pode tirar-se dessa própria reação, convenientemente considerada. De
fato, a experiência constante demonstra que, se a organização social é constituída em
sentido contrário ao da civilização, esta acaba sempre por prevalecer.
Deve admitir-se, portanto, como uma das duas ideias fundamentais que fixam o
espírito da política positiva, que a organização social não deve ser considerada, quer
no presente, quer no passado, isoladamente do estado da civilização, do qual deve ser
tida como consequência necessária. Se, para facilitar o estudo, se julga algumas vezes
útil examiná-los separadamente, esta abstração deve ser concebida sempre como
simplesmente provisória, e não deve jamais fazer perder de vista a subordinação
estabelecida pela natureza das coisas.
A segunda ideia fundamental consiste em que os progressos da civilização se
desenvolvem segundo uma lei necessária.
A experiência do passado prova, da maneira mais decisiva, que a civilização
está sujeita, em seu desenvolvimento progressivo, a natural e irrevogável marcha,
derivada das leis da organização humana, e se torna, por sua vez, a lei suprema de
todos os fenômenos políticos. Não podem, evidentemente, ser expostos aqui, com
precisão, os caracteres dessa lei e sua verificação pelos fatos históricos, mesmo os
mais sumários. Não se trata agora senão de apresentar algumas considerações sobre
esta ideia fundamental.
Uma primeira consideração deve levar a reconhecer a necessidade de admitir
essa lei para a explicação dos fenômenos políticos.
Todos os homens que possuem certo conhecimento dos fatos históricos mais
notáveis, quaisquer que sejam, aliás, suas opiniões especulativas, convirão que,
considerada em seu conjunto, a espécie humana policiada tem feito, em civilização,
progressos ininterruptos, desde os mais remotos tempos históricos até os nossos dias.
Nesta proposição o termo "civilização" é compreendido como acima foi explicado,
abrangendo ainda, como consequência, a organização social.
Não se pode levantar qualquer dúvida razoável sobre este grande fato,
relativamente ao período decorrido desde o século XI até o presente, isto é, desde a
introdução das ciências de observação na Europa pelos árabes e a libertação das
comunas. Mas não é menos incontestável em relação à época precedente. Os sábios já
reconhecem hoje muito bem que as pretensões dos eruditos acerca dos conhecimentos
científicos muito adiantados dos antigos carecem de qualquer fundamento real. Está
provado que os árabes os excederam.
O mesmo sucedeu, e ainda mais claramente com a indústria, pelo menos em
tudo quanto exige verdadeira capacidade e não é o efeito de circunstâncias puramente
acidentais. Quando mesmo se excetuassem as belas-artes, esta exclusão, que se explica
de maneira muito natural, deixaria à proposição uma generalidade suficiente. Quanto à
reorganização social, enfim, é da maior evidência que fez, no mesmo período,
progressos de primeira ordem pelo estabelecimento do cristianismo e pela formação do
regime feudal, muito superior às organizações gregas e romanas.
É, portanto, certo que a civilização progrediu continuamente sob todos os
pontos de vista.
Por outro lado, sem adotar, relativamente ao passado, o espírito de cego e
injusto denegrimento, introduzido gela metafísica, não se pode deixar de reconhecer
que, em consequência do estado de infância em que se tem aqui mantido a política, as
combinações práticas, que foram dirigidas sobre a civilização, não eram sempre as
mais próprias para fazê-la progredir, e muitas vezes mesmo tendiam muito mais a opor
obstáculos à sua marcha do que a favorecê-la.
Houve épocas em que a principal ação política foi combinada em sentido
inteiramente estacionário: foram, em geral, as de decadência dos sistemas, como, por
exemplo, as do Imperador Juliano, de Felipe II e dos jesuítas, e, finalmente, a de
Bonaparte. Que se observe, além disto: de conformidade com a explanação
precedente, não regular a organização social, de nenhum modo, a marcha da
civilização, da qual, pelo contrário, é o produto.
A cura frequente de doenças, sob a influência de tratamentos evidentemente
viciosos, levou os médicos a conhecerem a ação poderosa que todo corpo vivo exerce
espontaneamente para corrigir as perturbações acidentais de seu organismo. Assim
também o progresso da civilização, através de combinações políticas desfavoráveis,
prova claramente estar ela sujeita a uma marcha natural, independente de todas as
combinações, dominando-as. Se não se admitisse este princípio, não haveria outro
recurso, para explicar tal fato e compreender como a civilização quase sempre
aproveitou os erros cometidos em vez de ser por eles retardada, a não ser recorrendo a
uma direção sobrenatural, imediata e contínua, a exemplo da política teológica.
Além disto, convém observar a tal respeito que muita vez se consideraram
como desfavoráveis à marcha da civilização causas que só o eram na aparência. A
razão principal deste fato é que mesmo os melhores espíritos não tomaram até o
presente, em consideração uma das leis essenciais dos corpos organizados, que se
aplica tanto à espécie humana, agindo coletivamente, quanto a um indivíduo isolado.
Esta lei consiste na necessidade das resistências até certo grau para que todas as forças
se desenvolvam plenamente. Mas esta observação em nada afeta a consideração
precedente, porquanto, se os obstáculos são necessários a fim de que as forças se
desenvolvam, não as produzem.
A conclusão deduzida desta primeira consideração reforçar-se-ia muito se
tivesse em conta a identidade notável observada no desenvolvimento da civilização de
diferentes povos, entre os quais não se pode razoavelmente supor qualquer
comunicação política. Essa identidade somente podia ser produzida pela influência de
uma marcha natural da civilização, uniforme para todos os povos, pois deriva das leis
fundamentais da organização humana comuns a todos. Assim, por exemplo, só desta
maneira se podem explicar a grande semelhança com que são reproduzidos em nossos
dias, pelas nações selvagens da América setentrional, os costumes dos primeiros
tempos da Grécia, descritos por Homero, e o feudalismo observado entre os malaios,
com o mesmo caráter essencial que teve, na Europa, no século XI, etc.
Uma segunda consideração pode tornar muito fácil o reconhecimento da
existência de uma lei natural, que preside ao desenvolvimento da civilização. Se
admitirmos, conforme o apanhado acima apresentado, que o estado do regime social
deriva necessariamente do da civilização correspondente, poderemos separar, de
nossas observações, este elemento complexo, e o que verificamos em outros regimes
não lhe será menos aplicável como consequência.
Reduzindo, assim, a questão a seus termos mais simples, torna-se fácil perceber
estar a civilização sujeita a uma marcha determinada e invariável.
Uma filosofia superficial, que faria deste mundo um teatro de milagres,
exagerou prodigiosamente a influência do acaso, isto é, das causas isoladas, nos
problemas humanos. Este exagero é evidente, sobretudo nas ciências e nas artes. Entre
outros exemplos notáveis, não há quem não conheça a singular admiração manifestada
por vários homens de talento ao pensarem na lei da gravitação universal, revelada a
Newton pela queda de uma maçã.
É hoje geralmente reconhecido, por todos os homens sensatos, que o acaso não
tem senão parte infinitamente pequena nas descobertas científicas e industriais, e só
desempenha papel essencial nas descobertas sem qualquer importância. Mas a este
erro sucedeu outro, que, muito menos desarrazoado em si, apresenta, todavia, os
mesmos inconvenientes. O papel do acaso foi transferido ao gemo, com caráter pouco
mais ou menos semelhante. Esta transformação não explica melhor os atos do espírito
humano.
A história dos conhecimentos humanos prova, entretanto, da maneira mais
evidente, e os melhores espíritos já o reconheceram, que nas ciências e nas artes todos
os trabalhos se encadeiam, quer na mesma geração, quer de uma geração a outra, de
modo tal que as descobertas de uma geração preparam as da seguinte, como foram
preparadas pela precedente. Verificou-se que o poder do gênio isolado, é muito menor
do que se havia suposto. O homem mais justamente ilustrado por grandes descobertas
deve, quase sempre, a mair parte de seus sucessos a seus predecessores na carreira por
ele percorrida. Numa palavra, o espírito humano segue, no desenvolvimento das
ciências e das artes, determinada marcha, superior às maiores forças intelectuais, que
só aparecem, por assim dizer, como instrumentos destinados a produzir, em tempo
dado, as descobertas sucessivas.
Limitando-nos a considerar as ciências, que se podem seguir com mais
facilidade, desde tempos remotos, vemos, de fato, que as grandes épocas históricas de
cada uma delas, isto é, sua passagem pelos estados teológico, metafísico, e,
finalmente, positivo, são rigorosamente determinadas. Estes três estados se sucedem
necessariamente, de acordo com esta ordem fundada sobre a natureza do espírito
humano. A transição de um ao outro se faz segundo marcha, cujos trâmites principais
são análogos para todas as ciências, e dos quais nenhum homem de gênio poderia
transpor um só intermediário essencial.
Se, desta divisão geral, se passa às subdivisões do estado científico ou
definitivo, observa-se ainda a mesma lei. Assim, por exemplo, a grande descoberta da
gravitação universal foi preparada pelos trabalhos dos astrônomos e geômetras dos
séculos XV e XVII, principalmente pelos de Kleper e Huyghens, sem os quais teria
sido impossível e não poderiam deixar de produzi-la cedo ou tarde.
Não poderia, portanto, ser duvidoso, de conformidade com o que precede, estar
a marcha da civilização, considerada em seus elementos, sujeita a uma lei natural e
constante, que domina todas as divergências humanas particulares. Como o estado da
organização social acompanha necessariamente o da civilização, a esta última, por
conseguinte, considerada tanto em seu conjunto quanto em seus elementos, se aplica a
mesma conclusão.
As duas considerações acima enunciadas bastam, não para demonstrar
completamente a marcha necessária da civilização, mas para fazer verificar sua
existência, e mostrar ser possível determinar, com precisão, todos os seus atributos,
estudando-a pela observação profunda do passado, e criar, assim, a política positiva.
Trata-se agora de fixar exatamente o objetivo prático desta ciência, seus pontos
de contato gerais com as necessidades sociais, e, principalmente, com a grande
reorganização que tão imperiosamente reclama o estado atual do corpo social.
Para isto, cumpre precisar, antes de tudo, os limites que circunscrevem toda
ação política real.
A lei básica, que rege a marcha natural da civilização, prescreve rigorosamente
todos os estados sucessivos pelos quais a espécie humana está sujeita a passar em seu
desenvolvimento geral. Por outro lado, esta lei resulta necessariamente da tendência
instintiva da espécie humana para aperfeiçoar-se. Por consequência, acha-se tanto
acima de nossa dependência quanto os instintos individuais, cuja combinação produz
essa tendência permanente.
Como nenhum fenômeno conhecido autoriza a pensar esteja a organização
humana sujeita a qualquer mudança essencial, a marcha da civilização, que dela
deriva, é, portanto, no fundo, essencialmente inalterável. Em termos mais precisos,
nenhum dos graus intermediários, que ela determina, pode ser transposto, e nenhum
passo verdadeiramente retrógrado pode ser dado.
A marcha da civilização é apenas mais ou menos modificável, em sua
velocidade, dentro de certos limites, por várias causas físicas e morais suscetíveis de
apreciação. Entre essas causas estão as combinações políticas. Tal é o único sentido
em que pode o homem influir sobre a marcha de sua própria civilização.
Esta ação, relativamente à espécie, é inteiramente análoga à que nos é
permitida no tocante ao indivíduo, analogia resultante da identidade de origem.
Podemos, por meios convenientes, acelerar ou retardar, até certo ponto, o
desenvolvimento de um instinto individual; mas não podemos destruí-lo, nem
desnaturá-lo. O mesmo se dá com o instinto da espécie, guardada a proporção, quanto
aos limites, da sua vida comparativamente com a do indivíduo.
A marcha natural da civilização determina, portanto, para cada época,
independentemente de qualquer hipótese, os aperfeiçoamentos que deve experimentar
o estado social, quer em todos os seus elementos, quer em seu conjunto. Só esses se
podem executar, e se executam necessariamente, com o auxílio das combinações feitas
pelos filósofos e pelos estadistas, ou apesar de tais combinações.
Todos os homens que exerceram uma ação real e durável sobre a espécie
humana, quer no temporal, quer no espiritual, foram guiados e sustentados por esta
verdade fundamental, que o instinto ordinário do gênio lhes fez entrever, embora não
estivesse ainda estabelecida por uma demonstração metódica. Em cada época,
perceberam quais as transformações que tendiam a efetuar-se, de acordo com o estado
da civilização, e as proclamaram, propondo a seus contemporâneos as doutrinas, ou as
instituições correspondentes. Sempre que seu plano estava em plena conformidade
com a verdadeira situação, as mudanças se fizeram ou se consolidaram quase
imediatamente. Novas forças sociais que, havia muito, se desenvolviam em silêncio,
apareceram repentinamente sobre a cena política, e com todo vigor juvenil, atendendo
ao seu apelo.
Tendo sido a história escrita e estudada, até o presente, de modo superficial,
tais coincidências e efeitos tão notáveis, ao invés de instruírem os homens, como seria
natural, apenas os surpreenderam. Estes fatos mal observados contribuem mesmo para
manter ainda a crença teológica e metafísica do poder indefinido e criador dos
legisladores sobre a civilização. Eles alimentam esta ideia supersticiosa em espíritos
que estariam dispostos a rejeitá-la se não parecesse apoiada na observação. Resulta
este desastroso efeito de que, nos grandes acontecimentos, só se vêm os homens, e
nunca as circunstâncias que os impelem com força irresistível.
Em lugar de reconhecer-se a influencia preponderante da civilização,
consideram-se os esforços desses homens previdentes como as verdadeiras causas dos
aperfeiçoamentos realizados, os quais se teriam dado, um pouco mais tarde, sem a sua
intervenção. Não se leva em conta a enorme desproporção da pretensa causa com o
efeito, desproporção que tornaria a explicação muito mais ininteligível do que o
próprio fato. Apegam-se ao aparente e desprezam o real, que está atrás. Em uma
palavra, tomam-se os atores pela peça, segundo a engenhosa expressão de Mme de
Staël.
Este erro é absolutamente idêntico ao dos índios, atribuindo a Cristóvão
Colombo o eclipse que ele havia previsto.
Em geral, quando o homem parece exercer uma grande ação, não é, de todo,
pelas suas próprias torças, que são extremamente pequenas. São sempre forças
exteriores que atuam para ele, segundo leis sobre as quais nada pode. Todo seu poder
reside em sua inteligência, que o coloca em estado de conhecer essas leis pela
observação, prevendo seus efeitos, e, por consequência, fazendo-as concorrer para o
fim a que se propõe, desde que as empregue de maneira adequada à sua natureza. Uma
vez produzida a ação, a ignorância das leis naturais leva o espectador, e algumas vezes
o próprio ator, a atribuírem ao poder do homem o que só é devido à sua previdência.
Estas observações gerais se aplicam a uma ação filosófica, assim como, e pelos
mesmos motivos, a uma ação física, química e fisiológica. Qualquer ação política é
seguida de efeito real e duradouro, quando se exerce no sentido da força da
civilização, quando se propõe a operar mudanças impostas por essa força. A ação é
nula, ou pelo menos efêmera, em qualquer outra hipótese.
O caso mais vicioso é, incontestavelmente, aquele em que o legislador, quer
temporal, quer espiritual, atua, deliberadamente ou não, num sentido retrógrado,
porque se coloca, então, em oposição ao que só poderia constituir a sua força. Mas a
marcha da civilização é de tal modo o regulador exato da ação política, que esta se
torna ainda nula quando pretende adiantar-se mais do que lhe é permitido, apesar da
tendência progressiva que, neste caso, milita a seu favor.
A experiência prova, de fato, que o legislador, qualquer que seja o poder de
que se suponha investido, fracassa inevitavelmente se empreende realizar
aperfeiçoamentos que estão na linha dos progressos naturais da civilização, muito
acima, porém, de sua época. Assim foi, por exemplo, que as grandes tentativas de José
II, para civilizar a Áustria, mais do que comportava, então, o seu estado, se tornaram
completamente nulas, como nulos foram os imensos esforços de Bonaparte para fazer
a França retrogradar ao regime feudal, embora ambos estivessem armados dos mais
amplos poderes arbitrários.
Conclui-se das considerações precedentemente indicadas, que a verdadeira
política, a política positiva, não deve mais pretender governar seus fenômenos, como
as outras ciências não dirigem os que lhes são próprios. Elas renunciaram a esta
ambiciosa quimera, que lhes caracterizou a infância, para se limitarem a observar os
seus fenômenos e a ligá-los, A política deve fazer o mesmo. Deve preocupar-se
unicamente em coordenar todos os fatos particulares, relativos à marcha da civilização,
reduzi-los ao menor número possível de fatos gerais, cujo encadeamento deve pôr em
evidência a lei natural dessa marcha, apreciando em seguida a influência das diversas
causas que podem modificar-lhe a velocidade.
A utilidade prática desta política de observação pode ser agora facilmente
precisada.
A sã política não poderia ter por objetivo fazer marchar a espécie humana, que
se move por impulso próprio, segundo uma lei tão necessária quanto a da gravitação,
embora mais modificável. Ela tem por finalidade facilitar sua marcha, esclarecendo-a.
Há grande diferença entre obedecer à marcha da civilização, sem dela nos
darmos conta, e obedecer-lhe com conhecimento de causa. As mudanças que ela
determina não ocorrem menos no primeiro caso do que no segundo, mas se fazem
esperar mais tempo, e, sobretudo, somente se operam depois de terem produzido, na
sociedade, funestos abalos, mais ou menos graves, conforme a natureza e a
importância dessas mudanças. Ora, os atritos de toda espécie, que daí resultam para o
corpo social, podem ser evitados, em grande parte, por meios fundados sobre o
conhecimento exato das alterações que tendem a efetuar-se.
Esses meios consistem em fazer com que os aperfeiçoamentos, uma vez
previstos, se pronunciem de maneira direta, em vez de se esperar que apareçam, pela
força exclusiva das coisas, através de todos os obstáculos engendrados pela ignorância.
Em outros termos, o objetivo essencial da política prática é, propriamente, evitar as
revoluções violentas, oriundas dos entraves mal-entendidos opostos à marcha da
civilização, e reduzi-las, o mais rapidamente possível, a simples movimento moral, tão
regular como o que agita suavemente a sociedade em tempos normais, embora mais
vivo. Ora, para atingir essa finalidade é evidentemente indispensável conhecer, com a
maior precisão possível, a tendência atual da civilização a fim de fazer conformar-se
com ela a ação política.
Seria quimérico, sem dúvida, esperar que movimentos, comprometendo mais
ou menos as ambições e os interesses de classes inteiras, se possam operar de maneira
perfeitamente calma. Mas não é menos certo que, até agora, se tem dado, a esta causa,
demasiada importância, como explicação das revoluções tempestuosas, cuja violência
tem decorrido, em grande parte, da ignorância das leis naturais que regulam a marcha
da civilização.
É muito frequente ver-se atribuir ao egoísmo o que essencialmente não provém
senão da ignorância, e este erro funesto contribui para manter a irritação entre os
homens em suas relações privadas e gerais. Mas, no caso atual, é evidente que os
homens, impelidos até agora a se colocarem, de fato, em oposição à marcha da
civilização, não teriam tentado fazê-lo se essa oposição tivesse sido solidamente
demonstrada. Ninguém é tão insensato que se coloque, conscientemente, em
insurreição contra a natureza das coisas. Ninguém se compraz em exercer uma ação
que reconhece ser claramente efêmera, Assim, as demonstrações da política de
observação são suscetíveis de atuar sobre as classes, cujos preconceitos e interesse
levariam a lutar contra a marcha da civilização.
Sem dúvida, não se deve exagerar a influência da inteligência sobre o
procedimento dos homens, mas, certamente, a força de demonstração tem importância
muito superior à que lhe tem sido até aqui atribuída. A história do espírito humano
prova ter essa força muitas vezes determinado, só por si, transformações nas quais teve
de lutar contra as maiores resistências humanas reunidas. Para citar, apenas, o exemplo
mais notável, foi unicamente o poder das demonstrações positivas que fez adotar a
teoria do movimento da Terra, a qual tinha de vencer não só a resistência do poder
teológico, muito forte ainda nessa época, mas, principalmente, o orgulho da espécie
humana inteira, apoiado nos motivos mais verossímeis que uma ideia falsa jamais teve
a seu favor.
Experiências tão decisivas deveriam esclarecer-nos sobre a força preponderante
que resulta das verdadeiras demonstrações. É principalmente por não ter sido jamais
utilizada essa força em política que os homens de Estado se têm deixado arrastar a tão
grandes aberrações praticas. Apareçam as demonstrações e as aberrações cessarão
imediatamente. Além disto, porém, considerando apenas os interesses, é fácil
compreender que a política positiva deve fornecer os meios de evitar as revoluções
violentas.
Com efeito, se os aperfeiçoamentos necessários à marcha da civilização têm de
combater certas ambições e certos interesses, alguns dentre eles existem que lhes são
favoráveis. A par disto, pelo próprio fato de terem esses aperfeiçoamentos chegado à
sua maturidade, as forças reais em seu favor são superiores às forças opostas, embora a
aparência nem sempre o indique. Ora, mesmo que se duvidasse, relativamente a estas
últimas, pudesse o conhecimento positivo da marcha da civilização ser útil para dispô-
las a sofrer com resignação uma lei inevitável, sua importância não poderia,
evidentemente, ser posta em dúvida.
Guiadas por este conhecimento, percebendo claramente o alvo que são
destinadas a atingir, as classes ascendentes poderão para ele dirigir-se de maneira
direta, em vez de se fatigarem em tateamentos e desvios. Combinarão, com segurança,
os meios de anular previamente todas as resistências e de facilitar a seus adversários a
transição para a nova ordem de coisas. Em uma palavra, a civilização triunfará de
maneira tão rápida e calma quanto o permitir a natureza das coisas.
Em resumo: a marcha da civilização não se executa, verdadeiramente falando,
seguindo uma linha reta. Compõe-se de uma série de oscilações progressivas, mais ou
menos extensas e mais ou menos lentas, aquém e além de uma linha média,
comparáveis às que apresenta o mecanismo da locomoção. Ora, essas oscilações
podem tornar-se mais curtas e rápidas através de combinações políticas fundadas sobre
o conhecimento do movimento médio, que tende sempre a predominar. Tal é a
utilidade prática permanente desse conhecimento. Tem, evidentemente, tanto maior
importância quanto as mudanças exigidas pela marcha da civilização são elas próprias
mais relevantes. Essa utilidade é, portanto, do mais alto grau, porque a reorganização
social, única em condições de terminar a crise atual, é a mais completa de todas as
revoluções que tem a espécie humana experimentado.
O dado fundamental da política prática geral, seu ponto de partida positivo, é,
pois, a determinação da tendência da civilização, a fim de adaptar-lhe a ação política,
tornando, por esta razão, tão suaves e tão curtas quanto possível as crises inevitáveis a
que está sujeita a espécie humana nessas passagens sucessivas pelos diferentes estados
de civilização.
Boas inteligências, pouco familiarizadas, porém, com a maneira de proceder
conveniente ao espírito humano, reconhecendo, embora, a necessidade de determinar
essa tendência da civilização, a fim de dar base sólida e positiva às combinações
políticas, poderiam pensar não ser, entretanto, indispensável, para fixá-la, estudar a
marcha geral da civilização, desde sua origem, bastando considerá-la em seu estado
atual. Esta ideia é natural, à vista da maneira estreita pela qual a política tem sido
considerada até hoje. Mas é fácil demonstrar-lhe a falsidade.
A experiência provou que, enquanto o espírito do homem se subordina a uma
direção positiva, há muitas vantagens, e nenhum inconveniente, em que ele se eleve ao
mais alto grau de generalidade possível, porque é infinitamente mais fácil descer do
que subir. Na infância da fisiologia positiva, começou-se por acreditar que, para
conhecer a organização humana, bastava estudar o homem unicamente, o que era um
erro completamente idêntico ao de que aqui se trata. Reconheceu-se depois que, para
formar ideias bem nítidas e convenientemente extensas da organização humana, era
indispensável considerar o homem como um termo da série animal; e, do mesmo
modo, sob um ponto de vista ainda mais geral, como fazendo parte do conjunto dos
corpos organizados. A fisiologia só se constituiu definitivamente depois que a
comparação das diferentes classes de seres vivos foi amplamente estabelecida, e
começou a ser empregada, com regularidade, no estudo do homem.
Há, em política, diversos estados de civilização, assim como há organizações
diversas em fisiologia. Apenas, os motivos que obrigam a considerar as diferentes
épocas da civilização são ainda mais diretos do que os que levaram os fisiologistas a
estabelecer a comparação de todos os organismos.
Sem dúvida, um estudo do estado presente da civilização, considerado em si
mesmo, independente dos que o precederam, é próprio para fornecer materiais muito
úteis à formação da política positiva, desde que os fatos sejam observados de maneira
filosófica. É mesmo certo que foi por estudos desse gênero que os verdadeiros homens
de Estado puderam, até o presente, modificar as doutrinas conjeturais, que dirigiam o
seu espírito, de modo a torná-las menos discordantes das necessidades reais da
sociedade. Não é menos evidente, porém, que tal estudo é de insuficiência completa
para formar uma verdadeira política positiva.
É impossível ver nesses estudos outra coisa senão materiais. Numa palavra, a
observação do estado atual da civilização, considerado isoladamente, não pode mais
determinar a tendência atual da sociedade, como não poderia determiná-la o estudo de
qualquer época isolada.
A razão disto é que, para se estabelecer uma lei, não basta um termo, sendo
necessários pelo menos três, a fim de que a ligação descoberta pela comparação dos
dois primeiros, e verificada pelo terceiro, possa servir para achar o seguinte, objetivo
de toda lei.
Quando, seguindo uma instituição e uma ideia social, ou antes, um sistema de
instituições e uma doutrina completa, desde a sua origem até a época atual, se verifica
que, a partir de certo momento, seu império foi sempre diminuindo ou aumentando,
pode prever-se, com plena certeza, segundo a série de observações, a sorte que lhe está
reservada. No primeiro caso, verificar-se-á que caminham em sentido contrário ao da
civilização, donde resultará estarem destinadas a desaparecer. No segundo, ao invés,
concluir-se-á que devem acabar prevalecendo.
A época da queda ou a do triunfo poderão mesmo ser calculadas, pouco mais
ou menos, pela extensão e pela velocidade das variações observadas. Tal estudo é,
portanto, evidentemente, uma fonte fecunda de instrução positiva.
Mas, que poderá ensinar a observação isolada de um único estado, no qual tudo
está confundido, as doutrinas, as instituições, as classes que descem, e as doutrinas, as
instituições, as classes que sobem, sem contar com a ação efêmera que só se prende à
rotina do momento? Que sagacidade humana poderia, em agrupamento tão
heterogêneo, não expor-se a tomar uns pelos outros esses elementos opostos? Como
discernir as realidades silenciosas em meio dos fantasmas que se agitam na cena? É
claro que, no meio dessa desordem, o observador somente poderia caminhar como
cego, se não fosse guiado pelo passado, que, só ele, pode ensinar-lhe a dirigir seu olhar
de maneira a ver as coisas como realmente são.
A ordem cronológica das épocas não é a sua ordem filosófica. Em lugar de
dizer: o passado, o presente e o futuro, cumpre dizer: - o passado, o futuro e o
presente. Não é, de fato, senão quando, pelo passado, se concebeu o futuro, que se
pode voltar utilmente ao presente, que não é mais do que um ponto, de modo a
compreender seu verdadeiro caráter.
Estas considerações, aplicáveis a qualquer época, o são, com muito maior
razão, à época atual. Hoje, três sistemas diferentes coexistem no seio da sociedade: o
teológico e feudal, o científico e industrial, e, enfim, o transitório e bastardo dos
metafísicos e legistas. Está absolutamente acima das forças do espírito humano
estabelecer, no meio de tal confusão, uma análise clara e exata, uma estatística real e
precisa do corpo social, sem ser esclarecido pelo facho do passado.
Facilmente se poderia demonstrar que excelentes espíritos, destinados, por sua
capacidade, a se elevarem a uma política verdadeiramente positiva, se suas faculdades
tivessem sido mais bem dirigidas, ficaram mergulhados na metafísica por terem
considerado isoladamente o estado atual das coisas, ou unicamente por não terem
ampliado suficientemente a série de observações.
Assim, o estudo - e o estudo tão profundo, tão completo quanto possível - de
todos os estados por que passou a civilização desde sua origem até o presente; sua
coordenação, seu encadeamento sucessivo, sua composição em fatos gerais, capazes
de se tornarem princípios, pondo em evidência as leis naturais do desenvolvimento da
civilização, o quadro filosófico do futuro social, tal como deriva do passado, isto é, a
determinação do plano geral de reorganização, destinado à época atual; a aplicação,
enfim, desses resultados ao estado presente das coisas de modo a determinar a direção
que deve ser impressa à ação política a fim de facilitar a transição definitiva para o
novo estado social. Tal é o conjunto dos trabalhos próprios a estabelecer, para a
política, uma teoria positiva que possa corresponder às necessidades imensas e
urgentes da sociedade.
Esta é a primeira série de pesquisas teóricas que ouso propor às forças
combinadas dos cientistas europeus.
Tendo todas as considerações, até agora expostas, indicado suficientemente o
espírito da política positiva, sua comparação com a política teológica e metafísica pode
adquirir maior precisão.
Comparando-as, em primeiro lugar, sob o ponto de vista mais importante, em
relação às exigências atuais da sociedade, explica-se facilmente a superioridade da
política positiva. Esta superioridade resulta de que descobre o que as outras inventam.
A política teológica e a metafísica imaginam o sistema que convém ao estado
atual da civilização, de acordo com a condição absoluta de ser o melhor possível. A
política positiva determina-o pela observação, unicamente como devendo ser aquele
que a marcha da civilização tende a produzir. De conformidade com esta maneira
diferente de proceder, seria impossível que a política de imaginação achasse a
verdadeira reorganização social, e a política de observação não a encontrasse: Uma faz
os maiores esforços para inventar o remédio, sem considerar a doença. A outra,
persuadida de que a principal causa da cura é a força vital do doente, limita-se a
prever, pela observação, o termo natural da crise, a fim de facilitá-la, afastando os
obstáculos suscitados pelo empirismo.
Em segundo lugar, só a política científica pode apresentar aos homens uma
teoria sobre a qual seja possível entenderem-se, o que, em certo sentido, é a condição
mais importante.
A política teológica e a metafísica, procurando o melhor governo possível,
levam a discussões intermináveis, porque essa questão não pode ser julgada. O regime
político deve estar e esta necessariamente em consonância com o estado da civilização,
o melhor, para cada época, e o que mais se conforma com ela. Não ha, portanto, nem
poderia haver regime político absolutamente preferível a todos os outros. Ais
instituições boas para uma época podem ser, e são mesmo, na maior parte das vezes,
mas para outra, e reciprocamente.
Assim, por exemplo, a escravidão, que é hoje uma monstruosidade, em sua
origem era certamente uma instituição muito bela, pois tinha por fim impedir o forte
de degolar o fraco; era um intermediário inevitável no desenvolvimento geral da
civilização. Assim também, em sentido inverso, a liberdade que, em proporção
razoável, é tão útil a um indivíduo e a um povo que tenham atingido certo grau de
instrução e contraído alguns hábitos de previdência - porque permite o
desenvolvimento de suas faculdades - é muito nociva àqueles que não tenham ainda
preenchido essas duas condições e têm, de modo indispensável, necessidade, tanto por
eles, como pelos outros, de serem mantidos em tutela.
E, pois, evidente que não poderia haver acordo sobre a questão absoluta do
melhor governo possível. Não poderia haver outro expediente a fim de restabelecer a
harmonia senão o de abolir inteiramente o exame do plano convencional, como o fez a
política teológica, mais consequente do que a metafísica, porque, tendo durado, teve
de preencher as condições de sua permanência.
Sabe-se que a metafísica, dando livre curso à imaginação, foi levada até o
ponto de pôr em dúvida, e mesmo negar formalmente, a utilidade do estado social para
a felicidade do homem, o que evidencia a sua impossibilidade de opinar sobre tais
questões.
Na política científica, pelo contrário, sendo o objetivo prático determinar o
sistema que a marcha da civilização tende hoje a produzir, de conformidade com o que
o passado demonstra, a questão é toda positiva, e pode ser inteiramente julgada pela
observação. O mais livre exame pode e deve ser concedido, sem que tenhamos de
temer as divagações. Ao cabo de certo tempo, todos os espíritos competentes, e, depois
deles, todos os outros, devem, por fim, concordar sobre as leis naturais da marcha da
civilização, e sobre o sistema que dela resulta, quaisquer que tenham podido ser
anteriormente suas opiniões especulativas, assim como se acabou por chegar a um
acordo a propósito das leis do sistema solar, das da organização humana, etc.
Enfim, a política positiva é a única via pela qual a espécie humana possa sair
do arbitrário, no qual ficará mergulhada enquanto ainda dominarem a política
teocrática e a política metafísica.
O absoluto, na teoria, conduz necessariamente, na prática, ao arbitrário.
Enquanto a espécie humana for considerada como não possuindo impulso próprio,
devendo recebê-lo do legislador, existe forçosamente o arbítrio no mais alto grau e sob
o aspecto mais essencial, apesar das declamações mais eloquentes. Assim o exige a
natureza das coisas.
Estando a espécie humana então entregue à discrição do legislador, que lhe
determina o melhor governo possível, pode o arbítrio restringir-se às minúcias, mas
evidentemente não poderia ser eliminado do conjunto. Seja embora o legislador
supremo, único ou múltiplo, hereditário ou eletivo, nada se altera a este respeito. Se
fosse possível substituir-se a sociedade inteira ao legislador, o mesmo ocorreria.
Apenas sendo então o arbítrio exercido por toda a sociedade sobre si mesma, os
inconvenientes se tornariam maiores do que nunca.
A política científica, ao contrário, exclui radicalmente o arbítrio, porque faz
desaparecer o absoluto e o vago, que o produziram e o mantêm. Nesta política, a
espécie humana é considerada como sujeita a uma lei natural de desenvolvimento,
suscetível de ser determinada pela observação, e que prescreve, para cada época, da
maneira menos equívoca, a ação política que pode ser exercida. O arbítrio cessa,
portanto, necessariamente. O governo das coisas substitui o dos homens. É então, que
há verdadeiramente lei, em política, no sentido real e filosófico ligado a esta expressão
pelo ilustre Montesquieu.
Qualquer que seja a forma de governo, em suas particularidades, o arbítrio não
pode reaparecer, ao menos quanto ao fundo. Em política tudo está fixado, de acordo
com uma lei verdadeiramente soberana, reconhecida como superior a todas as forças
humanas, pois deriva, em última análise, da natureza de nossa organização, sobre a
qual não se poderia exercer nenhuma ação. Em uma palavra, esta lei exclui, com a
mesma eficácia, o arbítrio teológico, ou o direito divino dos reis, e o arbítrio
metafísico, ou a soberania do povo.
Se alguns espíritos pudessem ver, no império supremo de tal lei, uma
transformação do arbítrio existente, deveriam também deplorar o despotismo não
menos real, porém ainda mais análogo, por ser mais modificável, exercido pelas leis
da organização humana, da qual a da civilização não é mais do que o resultado.
O que precede conduz naturalmente a determinar, com exatidão, os domínios
respectivos da observação e da imaginação em política. Esta determinação acabará por
esboçar o espírito geral da nova política.
É necessário, para isto, distinguir duas ordens de trabalhos: uns, que compõem
propriamente a ciência política, são relativos à formação do sistema que convém à
época atual; os outros se referem à sua propagação.
Nos primeiros, é claro que a imaginação só deve desempenhar papel
absolutamente subalterno, sempre subordinado à observação, como nas outras
ciências. Quanto ao estudo do passado, pode e deve ser empregado para inventar
meios provisórios de unir os fatos, até que as ligações definitivas ressaltem
diretamente aos próprios fatos, o que é necessário ter sempre em vista. Este emprego
da imaginação não se deve estender senão aos fatos secundários, sem o que seria
evidentemente vicioso.
Em segundo lugar, a determinação do sistema, segundo o qual a sociedade é
hoje levada a se reorganizar, deve deduzir-se, quase totalmente, da observação do
passado. Este estudo determinará não só o conjunto de tal sistema, mas também as
partes mais importantes, até um grau de precisão de que os cientistas se admirarão
provavelmente quando puserem mãos à obra. É certo, todavia, que a precisão obtida
por este método não desceria inteiramente até o ponto em que o sistema poderá ser
confiado aos industriais, para que o ponham em atividade por suas combinações
práticas, segundo o plano indicado no capítulo antecedente.
Assim, sob este segundo aspecto, a imaginação deverá ainda preencher, na
política científica, uma função secundária, que consistirá em levar até o grau de
precisão necessária o esboço do novo sistema, cujo plano geral e os traços
característicos a observação tiver determinado.
Mas há outro gênero de trabalhos, igualmente indispensáveis ao êxito
definitivo da grande empresa da reorganização, embora subordinados aos precedentes,
e nos quais a imaginação readquire seu pleno exercício. Na determinação do novo
sistema, é necessário fazer abstração das vantagens ou dos inconvenientes a ele
peculiares. A questão principal, ou única, deve ser: Qual será, de acordo com a
observação do passado, o sistema social destinado a ser estabelecido hoje pela marcha
da civilização? Se se der demasiada importância à excelência do sistema, confundir-
se-á tudo e não se atingirá o alvo.
Devemos limitar-nos, em tese geral, a conceber a ideia positiva de bondade,
como estando confundida, em sua origem, com a de adaptação ao estado da
civilização. Assim obteremos, certamente, o melhor sistema praticável em nossos dias,
ao procurar o que mais se conforma com o estado da civilização. Não sendo a ideia de
bondade por si mesma positiva, e somente podendo tornar-se tal por suas relações com
o estado de civilização, é este unicamente o que se deve tomar por alvo direto das
pesquisas, sem o que a política não se tornará positiva. A indicação das vantagens do
novo sistema, de sua superioridade sobre os precedentes, sob este aspecto, deve ser
coisa inteiramente secundária, sem nenhuma influência na direção dos trabalhos.
É incontestável que, por este modo de proceder, se fundará com certeza uma
política realmente positiva, e verdadeiramente em harmonia com as grandes exigências
da sociedade. Mas, se é com esse espírito que o novo sistema deve ser determinado, é
claro não ser sob tal forma que deve ser apresentado à sociedade a fim de obter sua
adoção definitiva, porquanto esta forma está muito longe de ser a mais apropriada para
provocar essa adesão.
Para que um novo sistema social se estabeleça, não basta haja sido concebido
convenientemente; é ainda necessário que a sociedade, em geral, se apaixone por
constituí-la. Esta condição não é só indispensável a fim de vencer as resistências, mais
ou menos fortes, que o novo sistema deve encontrar nas classes em decadência. É
indispensável, principalmente, para satisfazer essa necessidade moral de exaltação,
inerente ao homem, quando entra em nova carreira. Sem tal exaltação, ele não poderia
vencer sua inércia natural, nem sacudir o jugo, tão poderoso, dos antigos hábitos; e isto
é necessário para deixar a todas as suas faculdades, em seu novo emprego, livre e
pleno desenvolvimento.
Evidenciando-se sempre tal necessidade nos casos menos complicados, seria
contraditório que não se manifestasse nas transformações mais completas e mais
importantes, nas que devem modificar mais profundamente a existência humana. Toda
a história depõe a favor desta verdade.
Isto posto, é claro que a maneira pela qual o novo sistema poderá e deverá ser
conhecido e apresentado pela política científica, não é, de modo algum, própria para
preencher diretamente esta condição indispensável.
A massa dos homens jamais se apaixonará por um sistema qualquer, provando-
se-lhe que é aquele cujo estabelecimento a marcha da civilização preparou desde sua
origem e que ela apresenta hoje para dirigir a sociedade. Tal verdade está ao alcance
de número muito pequeno de espíritos, e exige, mesmo de sua parte, uma série
demasiadamente longa de operações intelectuais para que possa jamais apaixonar.
Somente, entre os cientistas, produzirá essa convicção profunda e tenaz, resultado
necessário das demonstrações positivas, convicção que oferece mais resistência, mas,
por isto mesmo, também menos atividade do que a persuasão, viva e envolvente,
produzida pelas ideias desencadeadas pelas paixões. O único meio de se obter este
último efeito consiste em oferecer aos homens o quadro animado dos melhoramentos
que deve proporcionar à condição humana o novo sistema, considerado sob todos os
diversos pontos de vista, fazendo abstração de sua necessidade e oportunidade. Só esta
perspectiva pode levar os homens a fazerem em si próprios a revolução moral
necessária a fim de que o novo sistema possa estabelecer-se. Só ela pode recalcar o
egoísmo, que se tornou predominante pela dissolução do antigo sistema, e que, ao
serem as ideias esclareci das pelos trabalhos científicos, será o grande e único
obstáculo para o triunfo do novo sistema. Somente ela pode, enfim, tirar a sociedade
da apatia, e imprimir-lhe, ao mesmo tempo, essa atividade que deve tornar-se
permanente num estado social que manterá todas as faculdades do homem em ação
contínua.
Eis, portanto, uma espécie de trabalhos onde a imaginação deve desempenhar
papel preponderante. Sua ação não poderá apresentar nenhum inconveniente, pois se
exercerá na direção estabelecida pelos trabalhos científicos e terá por finalidade, não a
invenção do sistema a ser constituído, mas a adoção daquele que tiver sido
determinado pela política positiva. Assim lançada, deve a imaginação ficar
inteiramente entregue a si mesma. Quanto mais franca e livre for a sua marcha, mais
completa e salutar será a ação indispensável que deve exercer.
Tal a parte especial reservada às belas-artes no empreendimento geral da
reorganização da sociedade. Concorrerão, assim, para esse grande objetivo todas as
forças positivas: a dos cientistas para determinar o plano do novo sistema; a dos
artistas para provocar a adoção universal desse plano; a dos industriais para pôr o
sistema em atividade imediata, pelo estabelecimento das instituições práticas
necessárias. Estas três grandes forças se combinarão entre si a fim de constituírem o
novo sistema, como o farão, quando estiver formado, para sua aplicação diária.
Assim, em última análise, a política positiva investe a observação da
supremacia concedida à imaginação pela política conjetural na determinação do
sistema social conveniente à época que atravessamos. Mas, ao mesmo tempo, confia à
imaginação novo papel, bem superior, hoje, ao que desempenha na política teológica e
metafísica, onde, embora soberana, definha em círculo de ideias gastas e de quadros
monótonos, desde que a espécie humana se aproximou do estado positivo.
Depois de ter esboçado o espírito geral da política positiva, é útil lançar um
golpe de vista sumário sobre as principais tentativas feitas, até este momento, no
intuito de elevar a política à classe das ciências de observação. Daí resultará a dupla
vantagem de verificar, pelo que ocorreu, a maturidade desse cometimento e de
esclarecer ainda o espírito da nova política, apresentando-o sob vários pontos de vista
distintos dos precedentemente indicados.
É a Montesquieu que deve ser ligado o primeiro esforço direto para tratar a
política sob o prisma de uma ciência de fatos e não de dogmas. Tal é, evidentemente, o
verdadeiro objetivo do Espírito das Leis, aos olhos de quem quer que tenha
compreendido esse trabalho. O admirável início onde a ideia geral de lei foi, pela
primeira vez, exposta de maneira verdadeiramente filosófica, bastaria para provar esse
desígnio. É claro que Montesquieu se propôs essencialmente a ligar, tanto quanto
possível, sob certo número de pontos principais, todos os fatos políticos de que tinha
conhecimento, e a evidenciar as leis de seu encadeamento.
Se se tratasse de apreciar aqui o mérito desse trabalho, cumpriria julgá-lo
segundo a época de sua execução. Ver-se-ia, assim, que demonstra, da maneira mais
formal, a superioridade filosófica de Montesquieu sobre todos os seus
contemporâneos. Ter-se libertado do espírito crítico, no tempo em que exercia, mesmo
nos cérebros mais fortes, o império mais despótico; ter sentido profundamente o vazio
da política metafísica e absoluta; ter reconhecido a necessidade de desvencilhar-se
dela, no momento preciso em que tomava, nas mãos de Rousseau, sua forma
definitiva, são provas decisivas dessa superioridade.
Mas, apesar da capacidade de primeira ordem de que deu provas Montesquieu,
e que será cada vez mais reconhecida, é evidente estarem seus trabalhos bem longe de
ter elevado a política à categoria de ciência positiva. Não satisfizeram, de modo
algum, às condições fundamentais indispensáveis, acima expostas, para que pudesse
essa finalidade ser neles atingida.
Montesquieu não percebeu o grande fato geral, que domina todos os
fenômenos políticos, dos quais é o verdadeiro regulador: o desenvolvimento natural da
civilização. Resultou disto que suas pesquisas não poderiam ser empregadas, na
formação da política positiva, a não ser como materiais, como coleção de observações
e de apanhados, porque as ideias gerais, que lhe serviram para ligar os fatos, não são
positivas.
Apesar dos esforços evidentes de Montesquieu para libertar-se da metafísica,
não o conseguiu, e foi dela, incontestavelmente, que deduziu sua concepção principal.
Esta concepção tem o duplo defeito de ser dogmática, em lugar de ser histórica, isto é,
de não levar em conta a sucessão necessária dos diversos estados políticos; e, em
segundo lugar, de dar importância exagerada a um fato secundário: a forma de
governo. Mais ainda: o papel preponderante que Montesquieu fez esta ideia
desempenhar é de pura imaginação, contradizendo o conjunto das observações mais
conhecidas. Numa palavra, os fatos políticos não foram verdadeiramente ligados por
Montesquieu, como devem sê-lo em qualquer ciência positiva. Foram unicamente
aproximados, segundo vistas hipotéticas, contrárias, na maior parte das vezes, às suas
relações reais.
A única parte importante dos trabalhos teóricos de Montesquieu, que esteia
verdadeiramente numa direção positiva, é a que tem por objetivo determinar a
influência política das circunstâncias físicas locais, atuando de maneira contínua, e
cujo conjunto pode ser designado pelo nome de clima. Mas é fácil perceber que,
mesmo sob este aspecto, as ideias emitidas por Montesquieu somente podem ser
empregadas depois de totalmente refundidas, em consequência do vício geral que
caracteriza sua maneira de proceder.
É, com efeito, bem reconhecido hoje, por todos os observadores, que
Montesquieu exagerou muito, sob vários aspectos, a influência dos climas. Tal
exagero era inevitável.
O clima exerce, sem dúvida, sobre os fenômenos políticos, uma ação bem real,
que é muito importante conhecer. Mas esta ação é indireta e secundária. Limita-se a
acelerar ou a retardar, até certo ponto, a marcha natural da civilização, que não pode,
de modo algum, ser desnaturada por tais modificações.
Esta marcha, com exceção da velocidade, permanece efetivamente a mesma,
no fundo, em todos os climas, porque depende de leis mais gerais, as leis da
organização humana, essencialmente uniformes nas diversas localidades. Se, portanto,
a influência sobre os fenômenos políticos é apenas modificadora, no tocante à marcha
natural da civilização, que conserva seu caráter de lei suprema, é claro que essa
influência não poderia ser estudada com proveito e convenientemente apreciada, a não
ser depois de determinada essa lei. Se se quisesse considerar a causa indireta e
subordinada antes da causa direta e principal, essa infração à natureza do espírito
humano daria, como resultado inevitável, uma ideia absolutamente falsa da influência
da primeira, deixando-a confundir-se com a segunda. Foi o que sucedeu a
Montesquieu.
A reflexão precedente, sobre a influência do clima, é, evidentemente, aplicável
à influência de todas as outras causas que podem modificar a marcha da civilização em
seu movimento sem alterá-la em sua essência. Esta influência só poderá ser
determinada com exatidão, quando as leis naturais da civilização forem estabelecidas,
fazendo-se nelas, previamente, abstração de todas essas modificações.
Os astrônomos começaram por estudar as leis dos movimentos planetários,
fazendo abstração das perturbações. Quando estas leis foram descobertas, as
modificações puderam ser determinadas e mesmo, reduzidas ao princípio que só havia
sido estabelecido inicialmente para o movimento principal. Se se tivesse querido,
desde logo, explicar essas irregularidades, é claro que nenhuma teoria exata poderia
jamais ter sido formada. O mesmo se dá, de modo absoluto, no caso presente.
A insuficiência da política de Montesquieu verifica-se claramente em suas
aplicações às necessidades sociais.
A necessidade de uma reorganização social, nos países mais civilizados, era tão
real na época de Montesquieu, quanto o é hoje, porque o sistema feudal e teológico já
estava destruído em suas bases fundamentais. Os acontecimentos que se desenrolaram
depois, apenas tornaram essa necessidade mais sensível e mais urgente, completando a
destruição do antigo sistema.
Montesquieu, todavia, não apresentou, como objetivo prático para seus
trabalhos. a concepção de um novo sistema social. Como não havia ligado os fatos
políticos de acordo com uma teoria capaz de evidenciar a necessidade de um sistema
novo no estado atingido pela sociedade, teoria ao mesmo tempo capaz de determinar o
caráter geral desse sistema, teve de limitar-se, e se limitou, quanto à prática, a indicar
melhoramentos de minúcias, conformes à experiência, e que não eram senão simples
modificações, mais ou menos importantes, do sistema teológico feudal.
Sem dúvida, assim procedendo, Montesquieu deu prova de prudente reserva,
encerrando suas ideias práticas nos limites que os fatos lhe impunham, em
consequência do modo imperfeito pelo qual os havia estudado, quando lhe teria sido,
pelo contrário, tão fácil inventar utopias. Evidenciou, porém, ao mesmo tempo, de
maneira decisiva, a insuficiência de uma teoria que não podia corresponder às
necessidades mais essenciais da prática.
Em resumo, Montesquieu sentiu a necessidade de tratar a política com o
mesmo método das ciências de observação, mas não concebeu o trabalho geral que lhe
deve imprimir tal caráter. Nem por isto suas pesquisas deixaram de ter a maior
importância. Facilitaram ao espírito humano os meios de combinar as ideias políticas,
apresentando-lhe grande série de fatos ligados por uma teoria que, muito distante ainda
do estado positivo, estava, entretanto, mais próxima dele do que todas as outras
precedentemente criadas.
A concepção geral do trabalho adequado para elevar a política à classe das
ciências de observação foi descoberta por Condorcet. Foi ele o primeiro a ver
claramente estar a civilização sujeita a uma marcha progressiva, na qual todos os
passos são rigorosamente encadeados uns aos outros, segundo leis naturais, que a
observação filosófica do passado pode descobrir, e determinam, para cada época, de
maneira inteiramente positiva, os aperfeiçoamentos que o estado social deve
experimentar, quer em suas partes, quer em seu conjunto, Condorcet não só concebeu,
por isto, o meio de dar à política uma verdadeira teoria positiva, mas tentou
estabelecê-la, escrevendo a obra intitulada Esboço de um quadro histórico dos
progressos do espírito humano, cujo título e a sua introdução bastariam para assegurar
a seu autor a honra de ter criado esta grande ideia filosófica.
Se esta descoberta capital até hoje se conservou inteiramente estéril, se ainda
não produziu quase nenhuma impressão, se ninguém seguiu a senda indicada por
Condorcet, e, numa palavra, se a política não se tornou positiva, cumpre atribuir o fato,
em grande parte, a que o esboço por ele traçado foi realizado em sentido
absolutamente contrário à finalidade de tal trabalho. Desconheceu completamente as
suas condições mais essenciais, e, de tal modo, que a obra precisa ser refundida em sua
totalidade. É o que importa estabelecer.
Em primeiro lugar, a distribuição das épocas, num trabalho desta natureza, é a
parte mais importante do plano ou, para melhor dizer, constitui, só por si, o próprio
plano, considerado em sua maior generalidade, porque fixa o modo principal de
coordenação dos fatos observados. Ora, a distribuição adotada por Condorcet é
absolutamente viciosa, porquanto nem mesmo satisfaz a mais palpável das condições:
a de apresentar uma série homogênea.
Nota-se que Condorcet não sentiu, de nenhum modo, a importância de uma
disposição filosófica das épocas da civilização. Não viu que essa disposição deve ser o
objeto de um primeiro trabalho geral, o mais difícil dentre os que a formação da
política positiva deve ocasionar. Acreditou poder coordenar convenientemente os
fatos, tomando, quase ao acaso, para origem de cada época, um acontecimento notável,
ora industrial, ora científico, ora político. Assim procedendo, não saía do círculo dos
historiadores literatos.
Era-lhe impossível formar uma verdadeira teoria, isto é, estabelecer entre os
fatos um encadeamento real, porquanto os que deviam servir para ligar todos os outros
estavam isolados entre si. Sendo os naturalistas, de todos os cientistas, os que têm de
formar as classificações mais extensas e mais difíceis, foi em suas mãos que o método
geral das classificações pôde fazer seus maiores progressos. O princípio fundamental
desse método acha-se estabelecido desde que existem, em botânica e em zoologia,
classificações filosóficas, isto é, fundadas em relações reais, e não em aproximações
artificiais. Consiste ele em que a ordem de generalidade dos diferentes graus de
divisão seja, tanto quanto possível, exatamente conforme à das relações observadas
entre os fenômenos a classificar. Desta maneira, a hierarquia das famílias, dos gêneros,
etc., não é senão o enunciado de uma série coordenada de fatos gerais, repartida em
diferentes ordens de subdivisões, cada vez mais particulares. Numa palavra: a
classificação é, neste caso, a simples expressão filosófica da ciência, cujos progressos
acompanham. Conhecer a classificação é conhecer a ciência, pelo menos em sua parte
mais importante.
Este princípio é aplicável a qualquer ciência. Constituindo-se, portanto, a
ciência política, na época em que ele foi descoberto, empregado e solidamente
verificado, deve aproveitar-se desta ideia filosófica achada pelas demais ciências,
tomando-a por guia em sua distribuição das diversas épocas da civilização. Os motivos
para dispor, na história geral da espécie humana, as diferentes épocas da civilização de
acordo com as suas relações naturais, são absolutamente semelhantes aos dos
naturalistas para colocar em ordem, segundo a mesma lei, as organizações animais e
vegetais. Apenas, nessa história, apresentam ainda mais força.
Com efeito, se uma boa coordenação dos fatos é muito importante em qualquer
ciência, é tudo na ciência política, que, sem essa condição, faltaria inteiramente a seu
objetivo prático. Este objetivo é, como se sabe, determinar, pela observação do
passado, o sistema social que a marcha da civilização tende hoje a produzir. Ora, essa
determinação somente pode resultar de boa coordenação dos estados anteriores,
fazendo ressaltar a lei de tal marcha. E claro, portanto, que os fatos políticos, por mais
importantes que sejam, só têm valor prático real por sua coordenação, enquanto, nas
outras ciências, o conhecimento dos fatos tem, o mais das vezes, por si mesmo,
primordial utilidade, independente do modo de seu encadeamento.
As diversas épocas da civilização, por conseguinte, em vez de serem
distribuídas sem ordem, segundo acontecimentos mais ou menos importantes, como
fez Condorcet, devem ser dispostas de conformidade com o princípio filosófico já
reconhecido por todos os cientistas como devendo presidir a quaisquer classificações.
A divisão principal das épocas deve apresentar o esboço mais geral da história da
civilização. As divisões secundárias, qualquer que seja o grau a que se julgue
conveniente levá-las, devem oferecer apanhados sucessivamente cada vez mais
precisos dessa mesma história. Em uma palavra, o índice das épocas deve ser
determinado de modo a oferecer, só por si, a expressão abreviada do conjunto do
trabalho. Sem isto, não se faria senão um trabalho puramente provisório, apresentando
apenas um valor de materiais, por maior que fosse a perfeição com que viesse a ser
executado.
Basta dizer que tal divisão não poderia ser inventada, e, mesmo em seu mais
alto grau de generalidade, somente pode resultar de um primeiro esboço do quadro, de
um primeiro apanhado sobre a história geral da civilização. Sem dúvida, por mais
importante, por mais indispensável que seja essa maneira de proceder, para a formação
da política positiva, seria impraticável e seria necessário resignar-se a não fazer a
princípio senão trabalho simplesmente provisório, se tal trabalho já não se encontrasse
suficientemente preparado. Mas as histórias escritas até hoje e sobretudo as que têm
sido publicadas há cerca de meio século, embora muito longe de serem concebidas
com espírito conveniente, apresentam, pouco mais ou menos, o equivalente dessa
coleção preliminar de materiais. Podemos, pois, ocupar-nos diretamente de uma
coordenação definitiva.
Apresentei, no capítulo precedente, mas somente sob o aspecto espiritual, um
apanhado geral que me parece preencher as condições acima expostas para a divisão
principal do passado. É o resultado de um primeiro estudo filosófico sobre o conjunto
da história da civilização. Creio que esta história pode ser dividida em três grandes
épocas ou estados de civilização, cujo caráter é perfeitamente distinto, tanto no
temporal quanto no espiritual. Abrangem a civilização considerada a um tempo em
seus elementos e em seu conjunto, o que é, evidentemente, de acordo com os pontos
de vista acima indicados, uma condição indispensável.
A primeira é a época teológica e militar.
Neste estado da sociedade, todas as ideias teóricas, tanto gerais quanto
particulares, são de ordem puramente sobrenatural. A imaginação domina franca e
completamente a observação, à qual é interdito todo direito de exame. Assim também
todas as relações sociais, quer particulares, quer gerais, são franca e completamente
militares. A sociedade tem por fim de atividade, único e permanente, a conquista. Não
há indústria senão a indispensável à existência da espécie humana. A escravidão pura e
simples dos produtores é a principal instituição.
Tal é o primeiro grande sistema social, produzido pela marcha natural da
civilização. Existiu, em seus elementos, a partir da primeira formação das sociedades
regulares e permanentes. Só se estabeleceu, em seu conjunto, após longa série de
gerações.
A segunda época é a época metafísica e legista. Seu caráter geral é não ter
nenhum bem acentuado. É intermediária e bastarda, opera uma transição.
Esta época foi caracterizada, no capítulo precedente, sob o ponto de vista
espiritual. A observação é sempre dominada pela imaginação, mas é admitida para
modificá-la em certos limites. Estes limites são, em seguida, recuados sucessivamente,
até que a observação conquiste, enfim, o direito de exame sobre todos os pontos. Ela o
obtém, a princípio, sobre todas as ideias teóricas particulares e, pouco a pouco, pelo
uso que faz desse direito, acaba por adquiri-lo também sobre as ideias teóricas gerais,
o que é o termo natural da transição. Esta época é a da crítica e da argumentação.
Sob o aspecto temporal, a indústria ganhou maior extensão sem ser ainda
predominante. Por consequência, a sociedade não é mais francamente militar, e não é
ainda claramente industrial, quer nos seus elementos, quer em seu conjunto. As
relações sociais particulares são modificadas. A escravidão individual não é mais
direta; o produtor, ainda escravo, começa a obter alguns direitos da parte do militar. A
indústria faz novos progressos, que levam, enfim, à abolição total da escravatura
individual. Após esta emancipação, os produtores ficam ainda sujeitos ao arbítrio
coletivo. Entretanto, as relações sociais gerais logo começam também a modificar-se.
Os dois objetivos da atividade, a conquista e a produção, são conduzidos em pé de-
igualdade. A indústria é, a princípio, cuidada e protegida como recurso militar. Mais
tarde, sua importância aumenta, e a guerra, por sua vez, acaba por ser concebida
sistematicamente, como meio de favorecer a indústria, o que constitui a última fase
deste regime intermediário.
A terceira época, enfim, é a época científica e industrial. Todas as ideias
teóricas particulares tornaram-se positivas, e as ideias gerais tendem a sê-lo. A
observação dominou a imaginação quanto às primeiras, e a destronou, sem ter ainda
hoje tomado o seu lugar quanto às segundas.
No temporal, a indústria tornou-se preponderante. Todas as relações
particulares estabeleceram-se pouco a pouco sobre bases industriais. A sociedade,
considerada coletivamente, tende a organizar-se de igual maneira, tendo por alvo de
atividade, único e permanente, a produção.
Numa palavra, esta última época já se definiu quanto aos elementos, e está
prestes a começar quanto ao conjunto. Seu ponto de partida direto data da introdução
das ciências positivas, na Europa, pelos árabes, e da emancipação das comunas, mais
ou menos no século XI.
Para evitar qualquer obscuridade na aplicação deste apanhado geral, cumpre
não perder jamais de vista que a civilização deve progredir nos elementos espirituais e
temporais do estado social, antes de progredir no conjunto. Por conseguinte, as três
grandes épocas sucessivas começaram necessariamente mais cedo para os elementos
do que para o conjunto, o que poderia ocasionar alguma confusão, se não se tivesse
percebido, antes de tudo, esta diferença inevitável.
Tais são, portanto, os caracteres principais das três épocas em que se pode
dividir toda a história da civilização, desde o tempo em que o estado social começou a
tomar verdadeira consistência até o presente. Ouso propor aos cientistas esta primeira
divisão do passado, a qual me parece preencher as importantes condições de uma boa
classificação do conjunto dos fatos políticos.
Se for adotada, será necessário achar, pelo menos, uma subdivisão, para que
seja possível executar convenientemente um primeiro esboço do grande quadro
histórico. A divisão principal facilitará a descoberta das que lhe deverão suceder,
fornecendo os meios de considerar os fenômenos, ao mesmo tempo, de maneira geral e
positiva. É claro, também, que essas diversas subdivisões, segundo o princípio
fundamental das classificações, deverão ser inteiramente concebidas com o mesmo
espírito que a divisão principal, e não apresentar apenas um simples desenvolvimento
da mesma.
Depois de ter examinado o trabalho de Condorcet, quanto à distribuição das
épocas, cumpre-nos considerá-lo em relação ao espírito que presidiu à sua execução.
Condorcet não viu que o primeiro efeito direto de um trabalho para a formação
da política positiva devia ser, necessariamente, fazer desaparecer de modo irrevogável
a filosofia crítica do século XVIII, dirigindo-se todas as forças dos pensadores para a
reorganização da sociedade - fim prático desse trabalho. Não reconheceu, por
consequência, que a condição preliminar mais indispensável, a preencher por quem
quisesse executar essa importante empresa, era despojar-se, tanto quanto possível, dos
preconceitos críticos que essa filosofia havia introduzido em todas as cabeças. Em vez
disto, deixou-se dominar cegamente por esses preconceitos e condenou o passado em
lugar de observá-lo; e, por conseguinte, sua obra foi simplesmente longa e fatigante
declamação, da qual não resulta, em realidade, nenhuma instrução positiva.
A admiração e a censura dos fenômenos devem ser afastadas, com igual
severidade, de toda a ciência positiva, porque qualquer preocupação desse gênero tem
por efeito direto e inevitável obstar ou alterar o exame. Os astrônomos, os físicos, os
químicos e os fisiologistas não admiram nem censuram seus fenômenos respectivos;
observam-nos, embora tais fenômenos possam fornecer ampla matéria às
considerações de um e outro gênero, como tem havido disto muitos exemplos. Os
cientistas deixam com razão esses efeitos aos artistas, em cujo domínio cabem
realmente.
Sob este ponto de vista, o mesmo que ocorre nas outras ciências deve dar-se na
política. Apenas, nesta última, a reserva é muito mais necessária, precisamente porque
é aí mais difícil e altera mais profundamente o exame, porquanto, nesta ciência, os
fenômenos interessam bem mais de perto às paixões do que em qualquer outra. Sob
este aspecto exclusivo, portanto, o espírito crítico, a que Condorcet se deixou arrastar,
é diretamente contrário ao que deve predominar na política científica, quando mesmo
todas as censuras por ele dirigidas ao passado fossem exatamente fundamentadas. Há,
porém, mais.
Como já foi observado neste capítulo, as combinações práticas dos homens de
estado não têm, sem dúvida, sido sempre concebidas de modo conveniente, e muitas
vezes até foram dirigidas em sentido contrário ao da civilização. Precisando-se esta
observação, vê-se que se limita, em todos os casos, ao fato de haverem os estadistas
procurado prolongar, além de seu termo natural, doutrinas e instituições que já não se
achavam em harmonia com o estado da civilização, e, em realidade, este erro parecerá
muito tolerável, considerando-se que, até agora, não houve nenhum meio positivo para
reconhecê-lo. Mas, transferir para sistemas inteiros de instituições e de ideias o que
não é relativo senão a fatos secundários; mostrar, por exemplo, não haver sido mais do
que um obstáculo à civilização o sistema feudal e teológico, cuja instituição, ao
contrário, foi o maior progresso provisório da sociedade, e sob cuja feliz influência
conseguiu a civilização tantas conquistas definitivas; representar, durante longa série
de séculos, as classes que dirigiam o movimento geral empenhadas em manter uma
conspiração permanente contra a espécie humana - este modo de ver, tão absurdo em
seu princípio, como revoltante em suas consequências, é um resultado insensato da
filosofia do século passado [XVIII], a cujo império é deplorável que um homem como
Condorcet não haja conseguido subtrair-se.
Este absurdo, oriundo da impossibilidade de perceber, em todas as suas partes
principais, o encadeamento natural dos progressos da civilização, torna evidentemente
impossível a sua explicação. O trabalho de Condorcet, por conseguinte, apresenta uma
contradição geral e contínua. De um lado, proclama altamente que o estado da
civilização no século XVIII é, sem comparação, superior, sob vários pontos de vista,
ao que era na origem. Mas esse progresso total somente poderia ser a soma dos
progressos parciais, realizados pela civilização em todos os estados intermediários
precedentes. Ora, por outro lado, examinando sucessivamente esses diversos estados,
Condorcet os apresenta quase sempre como tendo sido, sob os aspectos mais
essenciais, épocas de retrogradação. Houve, portanto, milagre perpétuo, e a marcha
progressiva da civilização torna-se um eleito sem causa.
Um espírito absolutamente oposto deve dominar na verdadeira política
positiva.
As instituições e as doutrinas devem considerar-se como tendo sido, em todas
as épocas, tão perfeitas quanto comportava o estado da civilização, o que não poderia
ser de outro modo, pelo menos ao cabo de certo tempo, pois são necessariamente
determinadas por ele. A par disto, em seu período de pleno vigor, sempre tiveram
caráter progressivo, e não apresentaram, em caso algum, caráter retrógrado, porque
não teriam podido subsistir contra a marcha da civilização, da qual hauriam todas as
suas forças. Apenas, em suas épocas de decadência tiveram, frequentemente, caráter
estacionário, o que por si mesmo se explica, em parte pela repugnância à destruição,
tão natural nos sistemas políticos, como nos indivíduos, e, em parte, pelo estado de
infância em que a política tem permanecido até hoje.
Cumpre considerar sob o mesmo prisma as paixões desenvolvidas, nas diversas
épocas, pelas classes dirigentes. Nas quadras de sua virilidade, as forças sociais
preponderantes são necessariamente generosas, porque não têm mais o que adquirir, e
ainda não temem perder. Só quando sua decadência se manifesta é que se tornam
egoístas, porquanto todos os seus esforços têm por objetivo conservar um poder cujas
bases se acham destruídas.
Estes diversos apanhados estão evidentemente de acordo com as leis da
natureza humana, e são eles que permitem explicar de maneira satisfatória os
fenômenos políticos. Em última análise, por conseguinte, em lugar de vermos, no
passado, um tecido de monstruosidades, devemos ser levados, em tese geral, a
considerar a sociedade como tendo sido, na mair parte das vezes, tão bem dirigida, sob
todos os pontos de vista, quanto a natureza das coisas o permitia.
Se, a princípio, parece que alguns fatos particulares contradizem este fato geral,
é sempre mais filosófico procurar restabelecer a ligação do que dispensá-la,
proclamando a realidade desta oposição, segundo exame superficial. Seria, em
verdade, afastar-se inteiramente de toda subordinação científica bem entendida, fazer
reger o fato mais importante e mais frequentemente verificado, por um fato secundário
e menos frequente.
Além disto, é evidente que se deve evitar, tanto quanto possível, todo exagero
no emprego dessa ideia geral, como de qualquer outra.
Achar-se-á, sem dúvida, certa semelhança entre o espírito da política positiva,
considerado sob este aspecto, e o famoso dogma teológico e metafísico do otimismo.
A analogia é real no fundo. Mas há a diferença incomensurável, que se nota entre um
fato geral observado e uma ideia hipotética e de pura invenção, A distância é ainda
mais evidente nas consequências.
O dogma teológico e metafísico que proclama, de maneira absoluta, tudo ser
tão bom quanto pode sê-la, tende a tornar a espécie humana estacionária, tirando-lhe
toda perspectiva de melhoramento real. A ideia positiva, segundo a qual, para um
tempo durável, a organização da sociedade é sempre tão perfeita quanto comporta, em
cada época, o estado da civilização, longe de sopitar o desejo de melhorias, ao
contrário, imprime-lhe um impulso prático mais eficaz, dirigindo para sua verdadeira
finalidade - o aperfeiçoamento da civilização - esforços que seriam estéreis se fossem
dirigidos imediatamente sobre a organização social. Aliás, como não há nesta ideia
nada de místico, nem de absoluto, leva o homem a restabelecer a harmonia entre o
regime político e o estado da civilização, no caso previsto de ser essa relação
necessária momentaneamente perturbada. Ela somente esclarece tal operação,
advertindo não tomar, nessa ligação, o efeito pela causa.
É útil observar, a propósito desta analogia, não ser a única vez que a filosofia
positiva se apodera, através de conveniente transformação, de uma ideia geral
primitivamente criada pela filosofia teológica e metafísica. As verdadeiras ideias
gerais nunca perdem seu valor como meio de raciocínio, por mais viciosos que sejam
os seus acessórios. A marcha geral do espírito humano consiste em apropriá-las a seus
diferentes estados, transformando seu caráter. É o que se pode verificar em todas as
revoluções que têm feito passar os diversos ramos de nossos conhecimentos ao estado
positivo.
Assim, por exemplo, a doutrina mística da influência dos números, surgida na
escola pitagórica, foi reduzida pelos geômetras a esta ideia simples e positiva:
fenômenos pouco complicados são suscetíveis de ser reduzidos a leis matemáticas. Da
mesma forma ainda: a doutrina das causas finais foi convertida pelos fisiologistas no
princípio das condições de existência. As duas ideias positivas diferem, extremamente,
sem dúvida, das duas ideias teológicas e metafísicas. Mas, nem por isto, deixam estas
de ser o germe evidente das primeiras. Uma operação filosófica, bem dirigida, bastou
para dar caráter positivo a esses dois apanhados hipotéticos, produtos do gênio na
infância da razão humana. Esta transformação, aliás, não alterou, e mesmo aumentou
seu valor como meio de raciocínio.
Idênticas reflexões aplicam-se exatamente às duas ideias políticas gerais, uma
positiva, a outra fictícia, acima comparadas.
Antes de deixar o exame do trabalho de Condorcet, convém deduzir dele um
terceiro ponto de vista sob o qual pode ser apresentado o espírito da política positiva.
Muito se tem censurado Condorcet por haver ousado terminar a sua obra por
um quadro do futuro. Esta concepção ousada é, pelo contrário, a única vista filosófica
de real importância introduzida por Condorcet na execução de seu trabalho, e deverá
ser preciosamente conservada em a nova história da civilização, da qual o referido
quadro é evidentemente a conclusão natural.
O que se podia, com razão, increpar a Condorcet era, não ter querido
determinar o futuro, mas tê-la determinado mal. Isto resultou de ser absolutamente
vicioso seu estudo do passado, de acordo com o.s motivos precedentemente indicados.
Tendo Condorcet coordenado mal o passado, dele não resultava o futuro. Esta
insuficiência da observação o reduziu a compor o futuro essencialmente de
conformidade com a sua imaginação, e, por uma consequência necessária, a concebê-
la mal. Mas este insucesso, cuja causa é sensível, não prova que, com o auxílio de um
passado bem coordenado, não se possa, de fato, determinar com segurança o aspecto
geral do futuro social.
Esta ideia só parece estranha, porque ainda não se tem o hábito de considerar a
política como verdadeira ciência. Realmente, se fosse como tal considerada, a
determinação do futuro, pela observação filosófica do passado, pareceria, pelo
contrário, ideia muito natural, com a qual todos os homens estão familiarizados
relativamente às outras classes de fenômenos.
Toda ciência tem por finalidade a previsão, porquanto o uso geral das leis
estabelecidas, de acordo com a observação dos fenômenos, é prever-lhes a sucessão.
Realmente, todos os homens, por menos adiantados que se suponham, fazem
verdadeiras predições, sempre fundadas sobre o mesmo princípio: o conhecimento do
futuro pelo do passado. Todos predizem, por exemplo, os efeitos gerais da gravidade
terrestre, e uma série de outros fenômenos bastante simples e frequentes para que sua
ordem de sucessão se torne sensível ao espectador menos capaz e menos atento. A
faculdade de previsão, em cada indivíduo, tem por medida sua ciência. A previsão do
astrônomo, que prediz, com perfeita precisão, o estado do sistema solar com grande
número de anos de antecedência, é absolutamente da mesma natureza que a do
selvagem que prediz o próximo nascer do sol. Só há diferença na extensão de seus
conhecimentos.
É, portanto, evidentemente muito conforme a natureza do espírito humano que,
em política, a observação do passado possa desvendar o futuro, como se dá em
astronomia, física, química e fisiologia.
Tal determinação deve mesmo ser considerada como alvo direto da ciência
política, a exemplo das outras ciências positivas. De fato, é claro que a indicação do
sistema social a que a marcha da civilização conduz hoje o escol da espécie humana, e
que constitui o verdadeiro objetivo prático da política positiva, não é outra coisa senão
uma determinação geral do próximo futuro da sociedade tal como resulta do passado.
Em resumo, Condorcet foi o primeiro a conceber a verdadeira natureza do
trabalho geral, que deve elevar a política à categoria das ciências de observação; mas o
executou de maneira absolutamente viciosa, sob os aspectos mais essenciais. A
finalidade a que se propôs não foi atingida, em primeiro lugar, quanto à teoria, e, por
consequência, quanto à prática também. Este trabalho, portanto, deve ser concebido de
novo, em sua totalidade, de acordo com vistas verdadeiramente filosóficas,
considerando-se a tentativa de Condorcet apenas como tendo assinalado o objetivo real
da política científica.
A fim de completar o exame sumário dos esforços feitos até aqui para elevar a
política à categoria das ciências positivas, resta considerar duas outras tentativas, que
não estão, como as duas precedentes, na verdadeira linha dos progressos do espírito
humano em política; mas apresentam utilidade em ser assinaladas.
A necessidade de tornar positiva a ciência social é tão real hoje, chegou este
grande cometimento de tal modo à sua maturidade, que vários espíritos superiores
ensaiaram atingir essa meta, tratando a política como uma aplicação de outras ciências
já positivas, no domínio das quais julgaram poder fazê-la entrar. Como essas tentativas
eram, por sua natureza, inexequíveis, foram muito mais projetadas do que seguidas.
Bastará, por conseguinte, considerá-las do ponto de vista mais geral.
A primeira consistiu nos esforços feitos para aplicar à ciência social a análise
matemática em geral, e, especialmente, a parte que se relaciona com o cálculo das
probabilidades. Esta direção foi encetada por Condorcet (Semelhante projeto, da parte
de Condorcet, prova, segundo o exame precedente, que estava muito longe de ter
concebido, de modo nítido, a importância capital da história da civilização, pois, se
tivesse percebido claramente, na observação filosófica do passado, o meio de tornar
positiva a ciência social, não o teria procurado alhures), e principalmente por ele
seguida.
Outros geômetras acompanharam suas pegadas e participaram de suas
esperanças, sem nada acrescentarem de verdadeiramente essencial a seus trabalhos,
pelo menos sob o aspecto filosófico. Todos concordaram em considerar esta maneira
de proceder como a única que pudesse imprimir à política um caráter positivo.
As considerações expostas neste capítulo parecem-me estabelecer
suficientemente que tal condição não é, de modo algum, necessária para que a política
se torne uma ciência positiva. Ainda mais: essa maneira de considerar a ciência social
é puramente quimérica e, por consequência, completamente viciosa, como é fácil
reconhecê-lo.
Se se tratasse aqui de fazer um exame minucioso dos trabalhos deste gênero
executados até hoje, logo se verificaria que não acrescentaram, em realidade, nenhuma
noção de alguma importância ao conjunto das ideias adquiridas. Ver-se-ia, por
exemplo, que os esforços dos geômetras para elevar o cálculo das probabilidades
acima de suas aplicações naturais, não chegaram senão a apresentar, relativamente à
teoria da certeza, como termo de longo e penoso trabalho algébrico, algumas
proposições quase triviais, cuja justeza é percebida à primeira vista, com perfeita
evidência, por qualquer homem de bom-senso. Mas devemos limitar-nos a examinar a
tentativa em si e em sua maior generalidade.
Em primeiro lugar, as considerações pelas quais vários fisiologistas, e,
sobretudo, Bichat, mostraram, em geral, a radical impossibilidade de fazer qualquer
aplicação real e importante da análise matemática aos fenômenos dos corpos
organizados, aplicam-se, de maneira direta e especial, aos fenômenos morais e
políticos, que são apenas um caso particular dos primeiros.
Estas considerações estão fundadas em que a mais indispensável condição
preliminar, a fim de que os fenômenos sejam suscetíveis de se reduzirem a leis
matemáticas, é que seus graus de quantidade sejam fixos. Ora, em todos os fenômenos
fisiológicos, cada efeito, parcial ou total, está sujeito a imensas variações de
quantidade, que se sucedem com a maior rapidez, e de modo completamente irregular,
sob a influência de uma série d.e causas diversas que não comportam qualquer
avaliação precisa.
Esta extrema variabilidade é um dos grandes característicos dos fenômenos
próprios aos corpos organizados; constitui uma de suas diferenças mais acentuadas em
face dos fenômenos dos corpos brutos. Ela evidentemente interdiz qualquer esperança
de jamais submetê-las a verdadeiros cálculos, tais, por exemplo, como os dos
fenômenos astronômicos, que são, de todos, os mais apropriados para servir de tipo
nas comparações deste gênero.
Isto posto, concebe-se facilmente que essa variabilidade perpétua de efeitos,
dependendo da excessiva complicação das causas que concorrem para produzi-las,
deve ser a maior possível nos fenômenos morais e políticos da espécie humana, os
quais constituem a classe mais complicada dos fenômenos fisiológicos. São, de fato,
de todos os fenômenos, aqueles cujos graus de quantidade apresentam as variações
mais extensas, mais multiplicadas e mais irregulares.
Se se pesarem convenientemente estas considerações, creio não se hesitará em
afirmar, sem temer formar ideia muito fraca do alcance do espírito humano, que, não
só no estado atual de nossos conhecimentos, mas no mais alto grau de perfeição que
possam atingir, toda grande aplicação do cálculo à ciência social é e será
necessariamente impossível.
Em segundo lugar, admitida a hipótese de poder realizar-se essa esperança,
continuaria incontestável que, para chegar até esse ponto, a ciência política deve
primeiro ser estudada de maneira direta, isto é, ocupando-se unicamente em coordenar
a série dos fenômenos políticos.
De fato, por mais alta que seja a importância da análise matemática,
considerada em suas verdadeiras aplicações, cumpre não perder de vista que é uma
ciência puramente instrumental ou de método. Em si mesma, nada ensina de real; só se
torna fecunda fonte de descobertas positivas quando aplicada aos fenômenos
observados. Na esfera dos fenômenos que comportam essa aplicação, ela nunca
poderia ocorrer imediatamente, supondo sempre, na ciência correspondente, um grau
preliminar de cultura e aperfeiçoamento, cujo termo natural é o conhecimento das leis
precisas, descobertas pela observação, relativamente à quantidade dos fenômenos.
Logo que tais leis são descobertas, por mais imperfeitas que sejam, a análise
matemática torna-se aplicável. Desde então, pelos poderosos meios de dedução que
apresenta, permite reduzir essas leis a um número mui pequeno, muitas vezes a uma
só, fazendo entrar nelas, da maneira mais precisa, uma série de fenômenos que, a
princípio, pareciam não poder conter.
Numa palavra, a matemática estabelece, na ciência, uma coordenação perfeita,
que não poderia ser obtida, no mesmo grau, por qualquer outra via. Mas é evidente que
qualquer aplicação da análise matemática, tentada antes de haver sido preenchida esta
condição preliminar da descoberta de certas leis calculáveis, seria absolutamente
ilusória: ao invés de tornar positivo qualquer ramo de nossos conhecimentos,
terminaria simplesmente por mergulhar de novo o estudo da natureza no domínio da
metafísica, transportando para as abstrações o papel exclusivo das observações,
Assim, por exemplo, concebe-se tenha a análise matemática sido aplicada, com
grande êxito, à astronomia, quer geométrica, quer mecânica, à ótica, à acústica, e,
muito recentemente, à teoria do calor, pois os progressos da observação levaram essas
diversas partes da física a estabelecer, entre os fenômenos, algumas leis precisas de
quantidade.
Antes dessas descobertas, no entanto, tal aplicação não teria tido nenhuma base
real, nenhum ponto de partida positivo. Assim também os químicos que acreditam
mais firmemente, hoje, na possibilidade de aplicar, algum dia, de maneira ampla e ao
mesmo tempo positiva, a análise matemática aos fenômenos químicos, não cessam,
por isto, de estudá-los diretamente, convencidos de que só longa série de pesquisas,
observações e experiências poderá desvendar as leis numéricas sobre as quais deve ser
fundada essa aplicação para ter realidade.
A condição indispensável, que acaba de ser indicada, é tanto mais difícil de
preencher, exige um grau prévio de cultura e aperfeiçoamento tanto maior, na ciência
correspondente, quanto mais complicados forem seus fenômenos, Foi assim que a
astronomia se tornou, pelo menos na parte geométrica, um ramo das matemáticas
aplicadas, antes da ótica, esta antes da acústica, e a teoria do calor em último lugar.
Por esta mesma razão, a química está, ainda hoje, muito longe deste estado, se é que
algum dia deve alcançá-la.
Julgando, de acordo com estes princípios incontestáveis, a aplicação do cálculo
aos fenômenos fisiológicos em geral, e, em particular, aos fenômenos sociais da
espécie humana, vê-se logo que, admitindo mesmo a possibilidade de tal aplicação, ela
não dispensaria, de modo algum, o estudo direto dos fenômenos, prescrevendo-o, pelo
contrário, como condição prévia.
Além disto, se se considerar atentamente a natureza desta condição,
reconhecer-se-á que exige, na física dos corpos organizados, em geral, e sobretudo na
física social, um grau de aperfeiçoamento que, quando mesmo não fosse quimérico,
evidentemente só poderia ser atingido depois de séculos de cultura. A descoberta de
leis precisas e calculáveis, em fisiologia, representaria um grau de adiantamento muito
superior ao que imaginam os próprios fisiologistas capazes de conceber as esperanças
mais ousadas nos destinos futuros desta ciência. Realmente, pelos motivos acima
indicados, esse estado de perfeição deve ser tido como absolutamente quimérico,
incompatível com a natureza dos fenômenos, e inteiramente desproporcionado com o
verdadeiro alcance do espírito humano.
As mesmas razões se aplicam, evidentemente, e com mais força ainda, à
ciência política, dado o maior grau de complicação de seus fenômenos. Imaginar que
seria possível um dia descobrir algumas leis de quantidade entre os fenômenos desta
ciência, seria supô-la aperfeiçoada de tal modo que, mesmo antes de ter chegado a este
ponto, tudo quanto houvesse de verdadeiramente interessante a descobrir estaria
completamente obtido, numa proporção que excede de muito todos os desejos que
razoavelmente podemos formar. A análise matemática, portanto, não se tornaria
aplicável senão na época em que sua aplicação não poderia ter mais qualquer
importância real.
Resulta das considerações precedentes que, de um lado, a natureza dos
fenômenos políticos veda absolutamente qualquer esperança de jamais se lhes aplicar a
análise matemática, e de outro, que essa aplicação, supondo-a possível, de modo
algum poderia servir para elevar a política ao estado das ciências positivas, pois
exigiria, a fim de ser aplicável, já estivesse a ciência criada.
Os geômetras não prestaram bastante atenção, até o presente, à grande divisão
fundamental de nossos conhecimentos positivos em estudo dos corpos brutos e estudo
dos corpos organizados. Esta divisão, que o espírito humano deve aos fisiologistas,
está hoje estabelecida sobre bases inabaláveis, e se confirma cada vez mais, à medida
que é mais meditada. Limita, de maneira precisa e irrevogável, as verdadeiras
aplicações das matemáticas, em sua maior extensão possível. Pode estabelecer-se,
como princípio, que a análise matemática nunca ampliará seu domínio além da física
dos corpos brutos, cujos fenômenos são os únicos a oferecerem o grau de
simplicidade, e, por consequência, de fixidez necessário para serem reduzidos a leis
numéricas.
Se considerarmos quanto à marcha da análise matemática se torna embaraçosa,
mesmo nas aplicações mais simples, quando se quer aproximar suficientemente o
estado abstrato do estado concreto; quanto este embaraço aumenta à medida que os
fenômenos se complicam, compreender-se-á que a esfera de suas atribuições reais é,
antes, muito mais exagerada do que diminuída pelo princípio precedente.
O projeto de tratar a ciência social como uma aplicação das matemáticas, a fim
de torná-la positiva, originou-se do preconceito metafísico segundo o qual, fora das
matemáticas, não pode existir verdadeira certeza. Este preconceito era natural na época
em que tudo o que era positivo se achava no domínio das matemáticas aplicadas, e em
que, por conseguinte, tudo quanto elas não abrangiam era vago e conjetural. Mas,
desde a formação de duas grandes ciências positivas, a química, e, sobretudo, a
fisiologia, nas quais a análise matemática não desempenha papel algum, e, nem por
isto, deixam de ser reconhecidas como sendo tão certas quanto às outras, tal
preconceito seria absolutamente indesculpável.
Não é como sendo aplicações da análise matemática que a astronomia, a ótica,
etc., são ciências positivas e certas. Este caráter lhes advém de si mesmas; resulta de
serem fundadas em fatos observados, e não podia resultar senão disto, porque a análise
matemática, isolada da observação da natureza, só tem caráter metafísico. É certo,
unicamente, que, nas ciências às quais as matemáticas não são aplicáveis, deve ter-se
muito mais em vista a observação direta; as deduções não podem ser tão prolongadas
com segurança, porque os meios de raciocínio são muito menos perfeitos. A não ser
isto, a certeza é, igualmente, completa, desde que não sejam excedidos os limites
convenientes. Obtém-se, sem dúvida, menos coordenação, mas suficiente, todavia,
para as necessidades reais das aplicações da ciência.
A pesquisa quimérica de uma perfeição impossível não teria outro resultado
senão o de retardar, necessariamente, os progressos do espírito humano, consumindo,
em pura perda, grandes forças intelectuais, e desviando os esforços dos cientistas de
sua verdadeira direção de eficácia positiva. Tal o julgamento definitivo que acredito
poder fazer dos ensaios realizados e a realizar a fim de aplicar a análise matemática à
física social.
Uma segunda tentativa, infinitamente menos viciosa em sua natureza do que a
precedente, mas igualmente impraticável, é a que teve por objeto tornar positiva a
ciência social, levando-a a ser essencialmente simples consequência direta da
fisiologia. Cabanis é o autor desta concepção, que foi principalmente seguida por ele.
Constitui o verdadeiro objetivo filosófico de seu célebre trabalho sobre as Relações do
físico e do moral do homem, aos olhos de todos quantos hajam considerado a doutrina
geral exposta no aludido trabalho como orgânica, e não puramente crítica.
As considerações apresentadas, neste capítulo, sobre o espírito da política
positiva, provam, no presente ensaio como no precedente, que esse espírito era
necessariamente mal concebido. Trata-se, porém, agora de indicar, com precisão, o
vício respectivo. Este consiste em que tal maneira de proceder anula a observação
direta do passado social, que deve servir de base fundamental à política positiva.
A superioridade do homem sobre os outros animais não podendo ter e não
tendo, realmente, outra causa senão a perfeição relativa de sua organização, tudo o que
tem feito a espécie humana e tudo quanto pode fazer deve, sem dúvida, ser
considerado, em última análise, como consequência necessária de sua organização,
modificada, em seus efeitos, pelas circunstâncias exteriores. Neste sentido, a física
social, isto e, o estudo do desenvolvimento coletivo da espécie humana, é realmente
um ramo da fisiologia, vale dizer, do estudo do homem, concebido em toda a sua
extensão. Em outros termos, a história da civilização não é nada mais do que a
continuação e o complemento indispensável da história natural do homem.
Mas, tanto importa bem conceber e jamais perder de vista esta incontestável
filiação, quanto seria mal-entendido concluir daí não ser necessário estabelecer divisão
acentuada entre a física social e a fisiologia propriamente dita.
Quando os fisiologistas estudam a história natural de uma espécie animal
dotada de sociabilidade, a dos castores, por exemplo, com razão compreendem nela a
história da ação coletiva exercida pela comunidade. Não julgam necessário estabelecer
uma linha de demarcação entre o estudo dos fenômenos sociais da espécie e o dos
fenômenos relativos ao indivíduo isolado. Essa falta de precisão não apresenta, no
caso, nenhum inconveniente real, embora as duas ordens de fenômenos sejam
distintas. Porque sendo a civilização das espécies sociais mais inteligentes
interrompida quase em sua origem, principalmente pela imperfeição de sua
organização, e, secundariamente, pela preponderância da espécie humana, o espírito
não experimenta nenhuma dificuldade, num encadeamento tão pouco prolongado, a
fim de ligar diretamente todos os fenômenos coletivos aos fenômenos individuais.
Assim, o motivo geral que faz estabelecer as divisões, a fim de facilitar o estudo, isto
é, a impossibilidade, para a inteligência humana, de seguir uma cadeia de deduções
demasiado extensa, não existe então.
Suponha-se, pelo contrário, que a espécie dos castores venha a ser mais
inteligente, que sua civilização possa desenvolver-se livremente, de tal sorte que haja
encadeamento contínuo do progresso de uma geração para outra, e logo se sentirá a
necessidade de tratar separadamente a história dos fenômenos sociais da espécie.
Poder-se-á ainda, para as primeiras gerações, ligar este estudo ao dos fenômenos do
indivíduo. Mas, quanto mais longe da origem mais difícil se tornará estabelecer essa
dedução, e haverá, por fim, impossibilidade total de segui-la. É precisamente o que
ocorre no mais alto grau, em relação ao homem.
Sem dúvida, os fenômenos coletivos da espécie humana têm como causa
derradeira, tal qual os seus fenômenos individuais, a natureza especial de sua
organização. Mas o estado da civilização humana, em cada geração, só depende
imediatamente do estado da geração precedente, e só produz imediatamente o da
seguinte. E possível acompanhar, com toda a precisão suficiente, este encadeamento, a
partir da origem, ligando, de maneira direta, cada termo ao precedente e ao seguinte.
Estaria, ao contrário, absolutamente acima das forças de nosso espírito ligar um termo
qualquer da série ao ponto de partida primitivo, suprimindo todas as relações
intermediárias.
A temeridade de tal tentativa, no estudo da espécie, poderia ser comparada, no
estudo do indivíduo, à de um fisiologista que, considerando serem os diversos
fenômenos das idades sucessivas unicamente a consequência e o desenvolvimento
necessário da organização primitiva, se esforçasse por deduzir a história de uma época
qualquer da vida, do estado do indivíduo, em seu nascimento, determinado com grande
precisão, e se julgasse, por isto, dispensado de examinar diretamente as diversas idades
a fim de conhecer, com exatidão, o desenvolvimento total.
O erro é mesmo muito maior, relativamente à espécie, do que o seria em
relação ao indivíduo, tendo-se em vista que, no primeiro caso, os termos sucessivos a
coordenar são ao mesmo tempo mais complicados e bem mais numerosos do que no
segundo.
Se nos obstinássemos a seguir esta marcha impraticável, além de não
podermos, de modo algum, estudar a história da civilização de maneira conveniente,
seríamos inevitavelmente levados a cair em erros capitais. Com efeito, na
impossibilidade absoluta de religar diretamente os diversos estados de civilização ao
ponto de partida primitivo e geral, estabelecido pela natureza especial do homem,
seríamos logo compelidos a fazer depender imediatamente de circunstâncias orgânicas
secundárias o que é uma consequência remota das leis fundamentais da organização.
Foi assim, por exemplo, que vários fisiologistas de valor foram levados a
atribuir, aos caracteres nacionais, importância evidentemente exagerada na explicação
dos fenômenos políticos. Atribuíram-lhes diferenças de povo a povo, que só
dependem, em quase todos os casos, de épocas desiguais de civilização. Disto resultou
o desastroso efeito de considerar invariável o que é certamente apenas momentâneo.
Tais desvios, de que seria fácil multiplicar os exemplos, derivando todos do mesmo
vício primitivo na maneira de proceder, confirmam claramente a necessidade de
separar o estudo dos fenômenos sociais do dos fenômenos fisiológicos comuns.
Os geômetras, que se têm elevado a ideias filosóficas, concebem, em tese geral,
todos os fenômenos do universo, tanto os dos corpos organizados como os dos corpos
brutos, como dependendo de pequeno número de leis comuns imutáveis. Os
fisiologistas observam a este respeito, com justa razão, que, mesmo quando, algum
dia, todas essas leis venham a ser conhecidas perfeitamente, a impossibilidade de
deduzir, de maneira contínua, obrigaria a conservar, entre o estudo dos corpos vivos e
o dos corpos inertes, a mesma divisão que se acha hoje fundada sobre a diversidade
das leis. Um motivo, exatamente semelhante, se aplica, diretamente, à divisão entre a
fisiologia da espécie e a do indivíduo. A distância é, sem dúvida, muito menor, pois só
se trata de uma divisão secundária, ao passo que a outra é principal. Mas há
igualmente impossibilidade de deduzir, conquanto não seja no mesmo grau.
A insuficiência total desta maneira de proceder verifica-se facilmente se, em
lugar de considerá-la apenas em relação à teoria da política positiva, a
considerássemos relativamente à finalidade prática atual desta ciência, a saber - a
determinação do sistema segundo o qual deve a sociedade ser hoje reorganizada.
Pode determinar-se, sem dúvida, segundo as leis fisiológicas, qual é, em geral,
o estado de civilização mais conforme a natureza da espécie humana. Mas, de acordo
com o que precede, é claro que não se poderia ir mais longe por esse meio. Ora, esta
noção isolada é de pura especulação, e não pode chegar, na prática, a nenhum
resultado real e positivo, porquanto não permite, de nenhum modo, conhecer, de
maneira positiva, a que distância a espécie humana se encontra atualmente desse
estado, nem a marcha que deve seguir para chegar até ele, nem, enfim, o plano geral
da organização social correspondente. Estas determinações indispensáveis só podem
evidentemente resultar de um estudo direto da história da civilização.
Se, apesar disso, quisermos empregar esforços para dar existência prática a este
apanhado especulativo e necessariamente incompleto, não conseguiremos evitar cair
logo no absoluto, porque faremos consistir, então, toda aplicação real da ciência na
formação de um tipo invariável de perfeição vaga, sem nenhuma distinção de épocas, à
moda da política conjetural.
As condições, segundo as quais a excelência desse tipo se encontra fixada, são
certamente de ordem muito mais positiva do que as que servem de guias à política
teológica e metafísica. Mas esta modificação não muda o caráter absoluto inerente a
tal questão, em qualquer sentido que possa ser tratada. A política nunca poderia,
portanto, tornar-se verdadeiramente positiva por este modo de proceder.
Nestas circunstâncias, quer sob o aspecto teórico, quer sob o prático, é
igualmente vicioso conceber a ciência social como simples consequência da fisiologia.
A verdadeira relação direta entre o conhecimento da organização humana e a ciência
política, tal como a caracterizou este capítulo, consiste em que a primeira deve
fornecer a segunda seu ponto de partida,
Cabe à fisiologia, exclusivamente, estabelecer, de maneira positiva, as causas
que tornam a espécie humana suscetível de uma civilização constantemente
progressiva, enquanto o estado do planeta por ela habitado não apresentar um
obstáculo insuperável a esse progresso. Só ela pode traçar o verdadeiro caráter e a
marcha geral necessária dessa civilização. Somente ela, enfim, permite esclarecer a
formação das primeiras agregações de homens e conduzir a história da infância de
nossa espécie até a época em que chegou a dar expansão à sua civilização, criando
uma linguagem.
É neste termo que finaliza naturalmente o papel das considerações fisiológicas
diretas na física social; esta deve então fundamentar-se unicamente na observação
imediata dos progressos da espécie humana. Mais adiante, a dificuldade de deduzir
tornar-se-ia logo muito grande, porque, a partir dessa época, a marcha dá civilização
adquire repentinamente muito maior rapidez, de modo que os termos a coordenar se
multiplicam bruscamente. Por outro lado, as funções que a fisiologia deve preencher
no estudo do passado social já não seriam mais necessárias; não teria mais a utilidade
de suprir a falta de observações diretas, porque, a datar do estabelecimento de uma
língua, existem dados imediatos sobre o desenvolvimento da civilização de sorte a não
haver lacuna no conjunto das considerações positivas.
Cumpre acrescentar ao que precede, para ter um esboço completo do
verdadeiro papel da fisiologia na física social que, como bem pressentiu Condorcet,
sendo o desenvolvimento da espécie apenas o resultante dos desenvolvimentos
individuais que se encadeiam de uma geração a outra, deve apresentar,
necessariamente, traços gerais de conformidade com a história natural do indivíduo.
Por esta analogia, o estudo do homem isolado fornece ainda certos meios de
verificação e raciocínio para o estudo da espécie, distintos dos que acabam de ser
indicados, tendo, embora menos importantes, a vantagem de se estender a todas as
épocas.
Em resumo, conquanto a fisiologia da espécie e a do indivíduo sejam duas
ciências absolutamente da mesma ordem, ou, antes, duas porções distintas de uma
ciência única, nem por isto é menos indispensável concebê-las e tratá-las
separadamente. É necessário que a primeira tome sua base e seu ponto de partida na
segunda, a fim de tornar-se verdadeiramente positiva. Mas deve, em seguida, ser
estudada de maneira isolada, apoiando-se na observação direta dos fenômenos sociais.
Era natural que se procurasse fazer a física social entrar inteiramente no
domínio da fisiologia, quando não se via outro meio de lhe imprimir caráter positivo.
Mas este erro já não seria mais tolerável, quando é fácil compreender a possibilidade
de tornar positiva a ciência política, baseando-a na observação imediata do passado
social.
Em segundo lugar, no momento em que o estudo das funções intelectuais e
afetivas saiu do domínio da metafísica para entrar no da fisiologia, era muito difícil
evitar qualquer exagero na delimitação da verdadeira esfera fisiológica, e não
compreender também nela o exame dos fenômenos sociais. A época das conquistas
não pode ser a dos limites precisos.
Cabanis, que foi um dos principais cooperadores desta grande revolução, é
particularmente desculpável por se ter iludido a tal respeito. Mas hoje, quando severa
análise pode e deve suceder ao arrastamento do primeiro impulso, nada pode mais
impedir que se desconheça a necessidade de uma separação indispensável exigida pela
fraqueza do espírito humano.
Nenhum motivo real poderá mais induzir a isolar dos outros, no estudo do
indivíduo, os fenômenos especialmente chamados morais. A revolução que os ligou
entre si, deve ser considerada como o passo mais essencial que a psicologia deu, até
aqui, sob o ponto de vista fisiológico.
Pelo contrário, considerações da maior importância demonstram a absoluta
necessidade de separar o estudo dos fenômenos coletivos da espécie humana do estudo
dos fenômenos individuais, estabelecendo, além disto, entre estas duas grandes seções
da fisiologia total, sua relação natural. Tentar o desaparecimento desta indispensável
separação, seria cair em erro análogo, embora inferior, ao que apresenta o estudo dos
corpos vivos como uma consequência e um apêndice do estudo dos coro os inertes,
erro tão justamente combatido pelos verdadeiros fisiologistas.
Tais são as quatro tentativas principais, feitas até o presente, com o intuito de
elevar a política à classe das ciências de observação, e cujo conjunto atesta, da maneira
mais decisiva, a necessidade e a maturidade desta grande empresa. O exame especial
de cada uma delas confirma, sob um ponto de vista distinto, os princípios
anteriormente expostos neste capítulo sobre o verdadeiro meio de imprimir à política
um caráter positivo, e, por conseguinte, de acentuar, com segurança, a concepção geral
do novo sistema social, a única que pode terminar a crise atual da Europa civilizaria.
Podemos, portanto, considerar como estabelecido, a priori e a posteriori, por
demonstrações reais, que, para atingir esse alvo capital, cumpre ver, na ciência
política, uma física particular, fundada na observação direta dos fenômenos relativos
ao desenvolvimento coletivo da espécie humana, tendo, como objeto, a coordenação
do passado social, e, como resultado, a determinação do sistema que a marcha da
civilização tende hoje a produzir.
Esta física social é, evidentemente, tão positiva como qualquer outra ciência de
observação. Sua certeza intrínseca é também real.
(É sem dúvida. supérfluo determo-nos em refutar as observações infinitamente
exageradas que alguns autores, e principalmente Volney, apresentaram sobre a certeza
dos fatos históricos. Quando mesmo se concedesse a essas objeções toda a amplitude
que lhes deram esses escritores, não atingiriam, de modo algum, os fatos de certo grau
de importância e generalidade, únicos a ser considerados no estudo da civilização).
Satisfazendo as leis por ela descobertas ao conjunto dos fenômenos
observados, sua aplicação merece inteira confiança.
Esta ciência possui, além disto, como todas as outras, meios gerais de
verificação, mesmo independentemente de sua relação necessária com a fisiologia.
Tais meios se baseiam no fato segundo o qual, no estado presente da espécie humana,
considerada em seu conjunto, todos os graus de civilização coexistem sobre os
diversos pontos do globo, desde o dos selvagens da Nova Zelândia até o dos franceses
e ingleses. Por conseguinte, o encadeamento estabelecido segundo a sucessão dos
tempos pode ser verificado pela comparação dos lugares.
À primeira vista esta nova ciência parece reduzida à simples observação, e
completamente crivada no recurso nas experiências, o que não a impediria de ser
positiva, como o prova a astronomia. Mas, em fisiologia, independentemente nas
experiências sobre os animais, os casos patológicos são, em realidade, um equivalente
das experiências diretas sobre o homem, porque alteram a ordem habitual dos
fenômenos.
Assim também, e por motivo semelhante, as épocas múltiplas em que as
combinações políticas tenderam, mais ou menos, a deter o desenvolvimento da
civilização, devem ser consideradas como fornecendo à física social verdadeiras
experiências, ainda mais próprias do que a observação pura a fim de descobrir ou
confirmar as leis naturais que presidem à marcha coletiva ela espécie humana.
Se, como ouso esperar, as considerações apresentadas neste capítulo fizerem
sentir aos sábios a importância e a possibilidade de estabelecer-se uma política
positiva, nas condições acima indicadas, apresentarei, então, com maior
desenvolvimento, minha opinião sobre a maneira de executar esta primeira série de
trabalhos. Mas, ao terminar, julgo útil lembrar, antes de tudo, a necessidade de dividi-
la em duas ordens: uma de trabalhos gerais, outra de trabalhos particulares.
A primeira ordem deve ter por objeto estabelecer a marcha geral da espécie
humana, fazendo-se abstração de quaisquer causas que possam modificar a velocidade
de sua civilização, e, por conseguinte, de todas as diversidades observadas de povo a
povo, por maiores que possam ser. Na segunda ordem, dever-se-á estimar a influência
dessas causas modificadoras, e, consequentemente, formar-se o quadro definitivo onde
cada povo ocupará o lugar especial correspondente a seu desenvolvimento próprio.
Uma e outra classe de trabalhos, e principalmente a última, são, além disto,
suscetíveis, em sua execução, de vários graus de generalidade, cuja necessidade será
provavelmente reconhecida pelos cientistas. A obrigação de tratar da primeira, antes
da segunda, fundamenta-se em um princípio evidente, tão aplicável à fisiologia da
espécie como à do indivíduo, cujas idiossincrasias não devem ser estudadas senão após
a instituição das leis gerais. Cumpriria renunciar absolutamente à pretensão de obter
qualquer noção clara, se esta regra fosse violada.
A possibilidade de proceder desta maneira resulta de existir hoje grande
número de pontos particulares bem esclarecidos a fim de que possamos ocupar-nos
diretamente de uma coordenação geral. Os fisiologistas não esperaram que todas as
funções especiais fossem conhecidas a fim de formarem ideia do conjunto da
organização. O mesmo deve dar-se na física social.
Precisando mais as considerações precedentes, vê-se tenderem a estabelecer
que, na formação da ciência política, é necessário proceder do geral para o particular.
Ora, se se examinar este preceito de maneira direta, é fácil reconhecer-lhe a justeza.
A marcha seguida pelo espírito humano na pesquisa das leis que regem os
fenômenos naturais apresenta, sob o ponto de vista que nos ocupa, importante
diferença, conforme estuda a física dos corpos brutos, ou a dos organizados. Na
primeira, reconhecendo o homem que constitui parte imperceptível de uma série
imensa de fenômenos, dos quais não lhe é dado esperar, sem louca presunção,
perceber jamais o conjunto, vê-se obrigado, logo que começa a estudá-los com espírito
positivo, a considerar primeiro os fatos mais particulares, a fim de elevar-se
gradualmente, em seguida, à descoberta de algumas leis gerais, que se tornam mais
tarde o ponto de partida de suas pesquisas.
Na física dos corpos organizados, ao contrário, sendo o próprio homem o tipo
mais completo do conjunto dos fenômenos, suas descobertas positivas começam
necessariamente pelos fatos mais gerais, que lhe fornecem depois uma luz
indispensável para esclarecer o estudo de um gênero de particularidades, cujo
conhecimento preciso, por sua natureza, lhe é para sempre interdito. Em uma palavra,
em ambos os casos, o espírito humano procede do conhecido para o desconhecido;
mas, no primeiro, eleva-se a princípio do particular para o geral, porque o
conhecimento das particularidades lhe é mais imediato do que o do conjunto,
enquanto, no segundo, começa a descer do geral ao particular, porque conhece mais
diretamente o todo do que as partes. O aperfeiçoamento de cada uma das duas ciências
consiste essencialmente, sob o aspecto filosófico, em permitir-lhe adotar o método da
outra, sem que este, no entanto, se torne jamais tão apropriado como o seu método
primitivo.
Depois de ter considerado esta lei do ponto de vista mais elevado da filosofia
positiva, pode-se verificá-la facilmente observando a marcha que tem seguido, até
hoje, o desenvolvimento das ciências naturais, desde o momento em que cada uma
delas cessou, de modo definitivo, de ter caráter teológico ou metafísico.
Com efeito, examinando esse desenvolvimento, no estudo dos corpos brutos,
primeiro quanto às suas divisões principais, vê-se que a astronomia, a física e a
química começaram por ser absolutamente isoladas umas das outras, aproximando-se,
em seguida, sob pontos de vista cada vez mais numerosos, de tal modo que, enfim, se
pode perceber nelas, atualmente, uma tendência manifesta a fim de não formarem mais
do que um só corpo de doutrina. Assim também, considerando-as separadamente
vemos cada uma nascer do estudo de fatos a princípio incoerentes, e chegar, por graus,
às generalidades atualmente conhecidas.
Somente na astronomia, e em algumas secções da física terrestre, o espírito
humano conseguiu seguir até aqui, sob pontos de vista fundamentais, a marcha oposta.
Na astronomia, pode mesmo dizer-se não haver sido a marcha primitiva alterada pela
lei da gravitação universal, a não ser sob um aspecto realmente secundário, quanto ao
conjunto dos fenômenos, embora principal no que nos diz respeito. Com efeito, esta lei
não abrange ainda, e provavelmente jamais abrangerá, em suas aplicações, os fatos
astronômicos mais gerais, que consistem nas relações dos diferentes sistemas solares,
de que não temos até agora qualquer conhecimento. Esta observação, referindo-se ao
ramo mais perfeito da física inorgânica, oferece notável verificação do princípio que
exponho.
Se se examinar agora a parte deste princípio, que se relaciona com o estudo dos
corpos vivos, sua confirmação é também evidente. Em primeiro lugar, o encadeamento
geral das funções, de que se compõe uma organização, é certamente mais conhecido
hoje do que a ação parcial de cada órgão; e, assim também, sob um ponto de vista mais
extenso, o estudo das relações gerais, que existem entre as diversas organizações, quer
animais, quer vegetais, está, sem dúvida, mais adiantado do que o de cada organização
particular. Em segundo lugar, os principais ramos de que se compõe hoje a física
orgânica foram a princípio confundidos, e só em virtude dos progressos da fisiologia
positiva foram analisados, com precisão, os diferentes pontos de vista gerais sob os
quais um como vivo pode ser considerado, de modo a se fundar sobre essas distinções
uma divisão racional da ciência. Isto é mesmo de tal modo exato que, tendo-se em
conta a época recente em que a física dos corpos organizados se tornou
verdadeiramente positiva, a distribuição de suas partes principais não está ainda
estabelecida de maneira perfeitamente clara.
O fato é mais sensível ainda, passando-se das ciências aos cientistas, porquanto
estes estão evidentemente menos especializados, em seus trabalhos, do que os
cientistas afeitos ao estudo dos corpos brutos.
Podemos, portanto, considerar como estabelecido, pela observação e pelo
raciocínio, que o espírito humano procede principalmente do particular para o geral, na
física inorgânica, e, pelo contrário, do geral para o particular na física orgânica. Pelo
menos, é incontestavelmente seguindo esta marcha que se efetuam, durante muito
tempo, os progressos da ciência, desde o momento em que adquire o caráter positivo.
Se a segunda parte desta lei foi desconhecida até agora, se se julgou que, em qualquer
ordem de pesquisas, o espírito humano procedia sempre e necessariamente do
particular para o geral, este erro se explica de maneira muito natural, considerando
que, tendo-se desenvolvido primeiro a física dos corpos brutos, é sobre a observação
da marcha que lhe é própria que tiveram de ser primitivamente fundados os preceitos
da filosofia positiva. Mas, a persistência de tal erro deixaria hoje de ser desculpável,
quando a observação filosófica se pode fazer sobre as duas ordens de ciências naturais.
Aplicando à física social, que não é mais do que um ramo da fisiologia, o
princípio que acabo de estabelecer, ele demonstra, evidentemente, a necessidade de
começar, no estudo do desenvolvimento da espécie humana, pela coordenação dos
fatos mais gerais, para descer depois, gradualmente, a um encadeamento cada vez mais
preciso. Mas, a fim de não deixar nenhuma incerteza sobre este ponto essencial,
convém verificar o princípio de maneira direta neste caso particular.
Todos os trabalhos históricos escritos até hoje, mesmo os mais recomendáveis,
não tiveram, em essência, e necessariamente não deveriam ter, senão o caráter de
anais, isto é, de descrição e disposição cronológica de certa série de fatos particulares,
mais ou menos importantes e mais ou menos exatos, mas sempre isolados entre si.
Sem dúvida, as considerações relativas à coordenação e à filiação dos fenômenos
políticos não foram neles inteiramente desprezadas, sobretudo a partir de meio século.
É claro, entretanto, não haver esta mistura de pontos de vista modificado ainda o
caráter desse gênero de composição, que não cessou de ser literário.
(Só se trata aqui de estabelecer um fato, e não julgá-la. Estou, além disto, muito
convencido da utilidade e mesmo da necessidade absoluta desta classe de escritos.
como trabalho preliminar. Sem dúvida, não suporão que penso pudesse haver história
sem anais. Mas é igualmente certo que anais não são a história, assim como coleções
de observações meteorológicas não constituem a física).
Não existe, até hoje, verdadeira história, concebida com espírito científico, isto
é, tendo por fim a: pesquisa das leis que presidem ao desenvolvimento social da
espécie humana, o que é precisamente o objeto da série de trabalhos considerada neste
capítulo.
A distinção precedente basta para explicar por que se julgou até agora quase
universalmente, que, em história, era necessário proceder do particular para o geral, e
por que, pelo contrário, se deve hoje proceder do geral para o particular, sob pena de
não se obter qualquer resultado. Porque, quando se trata unicamente de redigir, com
exatidão, anais gerais da espécie humana, cumpre, evidentemente, começar formando
os anais dos diferentes povos, e estes somente podem ser fundados nas crônicas de
províncias e de cidades, ou mesmo sobre simples biografias. De igual modo, mas sob
outro aspecto, para formar os anais completos de qualquer fração de população, é
indispensável reunir uma série de documentos separados, relativos a cada um dos
pontos de vista sob os quais ela deve ser considerada. É assim que se deve
necessariamente proceder para chegar a compor os fatos gerais, que são os materiais
da ciência política, ou antes, o objeto sobre o qual se dirigem suas combinações.
Marcha inteiramente oposta, porém, se torna indispensável, logo que se chega à
formação direta da ciência, isto é, ao estudo do encadeamento dos fenômenos. De fato,
por sua própria natureza, todas as classes de fenômenos sociais se desenvolvem
simultaneamente, e sob a influência uns dos outros, de tal sorte que é absolutamente
impossível explicar-se a marcha seguida por qualquer deles sem ter previamente
concebido, de maneira geral, a progressão do conjunto.
Todos reconhecem hoje, por exemplo, ser a ação recíproca dos diversos
Estados europeus demasiadamente importante para que suas histórias possam ser
verdadeiramente separadas. Mas a mesma impossibilidade não é menos clara em
relação às diversas ordens de fatos políticos, que se observam em uma sociedade
única. Os progressos de uma ciência ou de uma arte não estão em conexão evidente
com os progressos das outras ciências ou das outras artes? O aperfeiçoamento do
estudo da natureza, e o da ação sobre ela, não se prendem um ao outro? Ambos não
estão estreitamente ligados ao estado da organização social e reciprocamente? Para
conhecer, portanto, com precisão, as leis reais do desenvolvimento particular do ramo
mais simples do corpo social, cumpriria necessariamente obter, ao mesmo tempo,
idêntica precisão para todos os outros, o que é manifesto absurdo.
Deve-se, por conseguinte, procurar, ao contrário, primeiramente conceber, em
sua maior generalidade, o fenômeno do desenvolvimento da espécie humana, isto é,
observar e encadear entre si os progressos mais importantes que ela tem feito
sucessivamente nas principais direções diferentes. Procurar-se-á, em seguida, dar
gradativamente a este quadro uma precisão cada vez maior, subdividindo sempre mais
e mais os intervalos de observação e as classes dos fenômenos a observar. De igual
modo, sob o ponto de vista prático, o aspecto do futuro social, determinado primeiro
de maneira geral, como resultado de um primeiro estudo do passado, tornar-se-á cada
vez mais pormenorizado à medida que o conhecimento da marcha anterior da espécie
humana mais se desenvolver.
A última perfeição da ciência que, verossimilmente, nunca será atingida de
maneira completa, consistiria, sob o aspecto teórico, em fazer conceber com exatidão,
desde a origem, a filiação dos progressos de uma geração a outra, quer para o conjunto
do corpo social, quer para cada ciência, cada arte, e cada setor da organização política;
e, sob o aspecto prático, em determinar rigorosamente, em todas as suas
particularidades essenciais, o sistema que a marcha natural da civilização deve tornar
dominante.
Tal é o método estritamente ditado pela natureza da física social.

QUARTO OPÚSCULO
(Novembro de 1825)

CONSIDERAÇÕES FILOSÓFICAS SOBRE AS CIÊNCIAS E OS


CIENTISTAS

Estudando-se, em seu conjunto, o fenômeno do desenvolvimento do espírito


humano, quer peio método racional, quer pelo empírico, descobre-se, através de todas
as irregularidades aparentes, uma lei fundamental a que se acha necessária e
invariavelmente sujeita a sua marcha. Esta lei consiste em que o sistema intelectual do
homem, considerado em todas as suas partes, tomou sucessivamente três caracteres
distintos: o teológico, o metafísico e, finalmente, o positivo ou físico. Assim, o homem
começou por conceber os fenômenos de todos os gêneros como devidos à influência
direta e contínua de agentes sobrenaturais; considerou-os, em seguida, como
produzidos por diversas forças abstratas inerentes aos corpos, mas distintas e
heterogêneas; limitou-se, por fim, a considerá-los como sujeitos a certo número de leis
naturais invariáveis, que nada mais são do que a expressão geral das relações
observadas em seu desenvolvimento.
Todos os que conhecem bastante o estado do espírito humano, nas diversas
épocas da civilização, podem verificar facilmente a exatidão desse fato geral. Uma
observação muito simples pode confirmá-lo, agora que a revolução de nossas ideias
está quase totalmente terminada. A educação do indivíduo, enquanto espontânea,
apresenta necessariamente as mesmas fases principais que a da espécie, e
reciprocamente. Ora, hoje, quem quer que esteja ao nível de seu século, verificará com
facilidade em si mesmo que foi teológico em sua infância, metafísico em sua
mocidade, e físico em sua virilidade.
A história das ciências prova diretamente que o mesmo se deu com o conjunto
do gênero humano, Mas, além disto, é possível explicar por que a formação das ideias
humanas teve de necessariamente seguir tal marcha.
Para compreendê-la, de maneira clara e completa, cumpre considerar essa lei,
como todos os outros fatos sociais, sob um duplo ponto de vista: o aspecto físico da
necessidade, vale dizer, como decorrente das leis naturais da organização humana, e o
aspecto moral de sua indispensabilidade, isto é, como sendo o único modo adequado
ao desenvolvimento do espírito humano.
Sob o primeiro aspecto, a lei é fácil de conceber. Uma inclinação natural e
irresistível leva o gênero humano a ser teologista antes de tornar-se físico. A ação
pessoal do homem sobre os outros seres é a única por ele compreendida, pelo
sentimento que dela possui. É, portanto, levado a representar, de maneira análoga, a
reação sobre de exercida pelos corpos exteriores, bem como a que exercem
reciprocamente, e da qual de modo direto só consegue ver os resultados. É assim, pelo
menos, que deve concebê-los, enquanto os progressos da observação ainda não
fizeram reconhecer diferenças muito notáveis entre a marcha de tais fenômenos e a dos
seus.
Se, mais tarde, modifica suas concepções a esse respeito, será unicamente
porque, desenganado, pela experiência e reflexão, de suas ilusões primitivas, renuncia
completamente a penetrar no mistério do modo de produção dos fenômenos, dos quais
sua própria natureza lhe impede ter jamais qualquer conhecimento, limitando-se a
observar-lhes as leis efetivas. Porque, se ainda hoje, com todas as noções positivas
adquiridas, quiséssemos tentar conceber, para o mais simples fenômeno, através de
que poder o fato que chamamos causa engendra o que chamamos efeito, seríamos
inevitavelmente levados a realizar imagens semelhantes às que serviram de base às
primeiras teorias humanas, como Barthez mui judiciosamente notou, ampliando uma
ideia de Hume.
O homem começa, portanto, necessariamente, por ver todos os corpos, que
atraem sua atenção, como outros tantos seres vivos, com vida análoga à sua, mas, em
geral, superior, em virtude da ação mais poderosa da maior parte deles. Em seguida, o
desenvolvimento de suas observações o faz converter esta primeira hipótese em outra,
menos durável, de uma natureza morta, dirigida por um número maior ou menor de
agentes sobre-humanos, invisíveis, distintos e independentes uns dos outros, cujo
caráter e autoridade correspondem à espécie e à extensão dos fenômenos atribuídos à
sua influência.
Esta teoria, que a princípio só se aplicava aos fenômenos dos corpos exteriores,
estende-se mais tarde até os do homem e da sociedade, quando a contemplação se
volta para eles. É então que começa a filosofia teológica a tomar verdadeira
consistência e a influir poderosamente sobre os progressos do espírito humano. Mas o
aperfeiçoamento inevitável e contínuo dos conhecimentos naturais não tarda a
modificar tal sistema e acaba por destruí-lo.
Propriamente falando, o homem nunca foi completamente teológico. Houve
sempre alguns fenômenos, bastante simples e regulares, para que ele não os
considerasse, mesmo no começo de seu evolver como sujeitos a leis naturais,
conforme muito bem explicou Adam Smith.
(Veja-se, em suas Obras Póstumas, o "Ensaio Filosófico sobre a História da
Astronomia". Esta obra, muito pouco divulgada na Europa, e geralmente mal
apreciada, possui caráter mais positivo do que as outras produções da filosofia
escocesa, com exceção das de Hume. Muito notável para sua época, esta obra ainda
hoje poderia ser meditada com grande proveito).
Apenas, esses fenômenos não eram, a princípio, nem os mais numerosos, nem
os mais importantes, e muito peio contrário. Quanto aos outros, pode-se dizer que o
homem só recorreu às explicações teológicas durante o tempo em que as concepções
físicas não eram possíveis, porque, logo que o foram, a elas se ateve exclusivamente.
A primeira influência dos progressos da observação foi levar o espírito humano
a reduzir continuamente o número dos agentes sobrenaturais, atribuindo a um só as
funções que, a princípio, exigiam vários, à medida que as relações dos fenômenos
adquiriram maior generalidade, Este efeito, levado a seu último grau, acabou por
simplificar o sistema teológico a ponto de reduzi-lo à unidade.
Desde essa época, a ação contínua do mesmo princípio, que havia
primitivamente levado o espírito humano do fetichismo ao politeísmo, e, depois, do
politeísmo ao teísmo, levou-o a restringir a intervenção direta da grande causa
sobrenatural a limites cada vez mais estreitos, reservando-a sempre para a direção dos
fenômenos cujas leis positivas eram desconhecidas. Quanto aos outros, permitindo a
descoberta de suas leis prevê-los com maior precisão, e, por consequência, atuar sobre
eles com mais eficácia do que as teorias teológicas especiais, o homem deixou,
progressivamente, de empregá-las em suas especulações habituais, servindo-se sempre
mais das leis, que satisfaziam melhor às suas grandes necessidades de previsão e ação.
Enfim, quando as concepções naturais adquiriram amplitude e generalidade suficientes
(isto é, em nossos dias), quando abraçaram, em alguns pontos principais, todas as
ordens de pesquisas realmente acessíveis a nossos meios, o espírito humano,
estendendo, por analogia, a todos os fenômenos, mesmo aos desconhecidos, o que só
estava verificado para certo número, considerou-os todos como sujeitos a leis físicas
invariáveis, cuja descoberta, cada vez mais precisa, é doravante o único alvo razoável
de nossos trabalhos especulativos. Então, o método teológico, que até aí não havia
cessado inteiramente de estar em uso, foi considerado como não podendo mais ser
empregado em nossas pesquisas, e o método positivo começou a dirigir inteira e
exclusivamente a atividade de nossa inteligência.
Depois de ter concebido esta grande revolução como fato inevitável, cumpre
explicar por que a marcha aludida foi indispensável ao desenvolvimento da razão
humana.
A filosofia positiva tem obtido, já agora, tal ascendente sobre os espíritos, que
se custa a conceber, para qualquer época, a utilidade e, com mais fone razão, a
necessidade da filosofia teológica e da metafísica, como meios de pesquisas. São
quase universalmente consideradas, mormente a primeira, como aberrações do espírito
humano, mesmo pelo pequeno número daqueles que concebem essas aberrações como
inevitáveis. E necessário, portanto, retificar as ideias sobre este ponto essencial, sem
cujo esclarecimento não se poderia compreender a lei da sucessão das três filosofias, a
não ser de maneira muito imperfeita, que limitaria singularmente o alcance e o valor
de suas aplicações.
Importa, sem dúvida, verificar que, até os nossos dias, o espírito humano não
se manteve em estado de demência, e empregou constantemente, em cada época, o
método mais favorável a seus progressos, como abrangendo, pelo menos, o conjunto
de sua marcha.
E, sem dúvida, hoje incontestável que a observação dos fatos é a única base
sólida dos conhecimentos humanos. Tomando este princípio em seu maior rigor, pode-
se mesmo dizer que qualquer proposição não redutível ao simples enunciado de um
fato, particular ou geral, não poderia apresentar qualquer sentido real e inteligível. Não
é menos certo, porem, que o desenvolvimento da capacidade de imaginação deve
preceder o da faculdade de observação, As mesmas causas que determinam esta ordem
na educação individual, torna-na ainda mais indispensável na da espécie.
O método positivo é o mais seguro em sua marcha, e mesmo o único seguro;
mas e, ao mesmo tempo, o mais lento e, por esta razão, não era, de modo algum,
conveniente à infância do espírito humano. Se esta desvantagem era evidente, mesmo
quando nossa inteligência se achava desde muito em plena atividade, pode-se bem
avaliar o que teria sido na época de nossos primeiros esforços. A simples possibilidade
de tal método supõe previamente uma série de observações tanto mais longa quanto as
primeiras leis naturais são sempre aquelas cuja descoberta exige mais tempo. Ora, por
outro lado, o empirismo absoluto é impossível por mais que se tenha sustentado o
contrario. O homem é incapaz, por natureza, não só de combinar fatos e deles deduzir
algumas consequências, mas, simplesmente, até mesmo de observa-los com atenção e
retê-los com segurança, se não os ligar logo a alguma explicação. Numa palavra, não
pode haver observações seguidas sem uma teoria qualquer, assim como não haverá
teoria positiva sem observações concatenadas.
E, portanto, evidente que as faculdades humanas permaneceriam
necessariamente em indefinido embotamento, se fosse necessário esperar, para
raciocinar sobre os fenômenos, que a sua ligação e o seu modo de exploração
ressaltassem de sua própria observação. Os primeiros progressos do espírito humano,
portanto, somente poderiam ser produzidos pelo método teológico, o único cujo
desenvolvimento pode ser espontâneo. Só ele tinha a importante propriedade de
oferecer-nos, desde o começo, uma teoria provisória, vaga e arbitrária, em verdade,
mas direta e fácil, que agrupou imediatamente os primeiros fatos, com cujo auxílio
pudemos, cultivando nossa capacidade de observação, preparar a época de uma
filosofia completamente positiva.
Se fosse possível entrar aqui em algumas minúcias sobre este grande assunto,
ver-se-ia claramente que não só a filosofia teológica, tomada em seu conjunto, foi
indispensável para preparar o desenvolvimento ao método positivo, mas também que
os diferentes aperfeiçoamentos por ela experimentados, e que foram, aliás, produzidos
pelos progressos da observação, contribuíram poderosamente para acelerar estes
últimos, graças a uma reação necessária. Para citar unicamente o fato mais notável
deste gênero, é evidente que, sem a passagem do politeísmo ao teísmo, as teorias
naturais jamais teriam podido adquirir verdadeira extensão.
Esta admirável simplificação da filosofia teológica reduziu, em cada caso
particular, a ação do grande poder sobrenatural a certa direção geral, cujo caráter era
necessariamente vago. Por isto, o espírito humano ficou plenamente autorizado, e
mesmo fortemente empenhado em estudar, como meio de ação desse poder, as leis
físicas de cada fenômeno. Antes desta época, ao contrário, encontrando a inteligência,
que tendia para as pesquisas positivas, a respeito de todos os fenômenos, mesmo os
mais simples, explicações teológicas especiais e muito minuciosas, qualquer cientista
era inevitavelmente considerado ímpio.
A necessidade da marcha por nós examinada torna-se ainda mais clara se
considerarmos que, enquanto a filosofia teológica era a única primitivamente possível,
era também a única apropriada à natureza das pesquisas que deviam absorver, a
princípio, o espírito humano.
Foi apenas pela experiência fundada no próprio exercício de suas faculdades
que o homem chegou a conhecer-lhes o verdadeiro alcance. Na origem encontramo-lo
constantemente inclinado a exagerá-lo. Essa tendência é, nesse período, singularmente
fortalecida pela ignorância das leis naturais, a qual o leva à esperança de exercer sobre
o exterior uma ação por assim dizer arbitrária. Neste estado da inteligência, as
pesquisas sobre a natureza íntima dos seres, a origem e o fim do universo e de todos os
seus fenômenos, parecem as únicas dignas de ocupar fortemente o espírito humano.
Na realidade, só elas podem interessá-lo. A princípio, estranhamos encontrar essa
temeridade ligada a tão profunda ignorância; mas, refletindo a respeito, reconhecemos
ser impossível conceber motivo algum bastante enérgico para levar a inteligência
humana, em sua primeira fase, às pesquisas puramente teóricas, mantendo-as nessa
direção sem o atrativo poderoso que lhe inspiram, principalmente então, essas grandes
questões, nas quais se acham compreendidas todas as outras, mesmo sem as
esperanças quiméricas a elas ligadas, de poder indefinido.
Kepler sentiu verdadeiramente esta necessidade quanto à Astrologia em relação
à Astronomia, e Bertholet fez a mesma observação quanto à Alquimia em relação à
Química.
Mas, qualquer que seja o valor desta explicação, basta este fato incontestável
para claramente mostrar a que ponto a filosofia teológica é a única adaptada ao estado
primitivo do espírito humano. E na verdade, o primeiro caráter da filosofia positiva é,
a rigor, considerar como necessariamente insolúveis, para o homem, todas essas
grandes questões. Obstando à nossa inteligência fazer qualquer indagação sobre as
causas primárias e finais dos fenômenos, circunscreve o campo de seus trabalhos à
descoberta de suas relações atuais. É, portanto, evidente que, mesmo quando a escolha
fosse possível, no começo, entre os dois métodos, o espírito humano não teria hesitado
em rejeitar com desdém aquele que, pela humildade de suas promessas, assim como
pela lentidão de seus processos, corresponde tão mal à amplitude e à vivacidade de
nossas primitivas necessidades intelectuais.
As reflexões precedentes provam, portanto, que, considerando-se apenas as
condições filosóficas do desenvolvimento do espírito humano, devia ele empregar,
necessariamente, por longo tempo, o método teológico, antes de orientar-se pelo
método positivo. Esta obrigação, porém, ainda se torna mais notável se se levarem
também em conta as condições políticas, não menos indispensáveis do que as
primeiras à educação intelectual da espécie humana.
Só por abstração, aliás necessária, é que se pode estudar o desenvolvimento
espiritual do homem, separadamente do seu desenvolvimento temporal, ou seja, o do
espírito humano sem o da sociedade, porque esses dois desenvolvimentos, se bem que
distintos, não são independentes; exercem, ao contrário, um sobre o outro, influência
contínua, indispensável a ambos.
Não basta sentir, de maneira geral, que a cultura de nossa inteligência só é
possível na sociedade e pela sociedade; cumpre, além disto, reconhecer que a natureza
e a extensão das relações sociais determinam, em cada época, o caráter e a rapidez de
nossos progressos espirituais, e reciprocamente. Todos sabem hoje, por exemplo, ser
impossível conceber no espírito humano algum progresso real e durável nesse estado
da sociedade em que cada indivíduo é constantemente obrigado a prover por si mesmo
sua subsistência, porquanto a separação entre a teoria e a prática, causa geral de nosso
aperfeiçoamento, não poderia então existir em grau algum.
Entre os povos pastores, porém, e mesmo entre os povos agricultores, cujo
modo de existência faz, entretanto, desaparecer esse primeiro obstáculo, esta condição
fundamental está muitas vezes bem longe de ser preenchida. Cumpre, além disto, que
a organização social esteia bastante adiantada a fim de permitir o estabelecimento
regular de uma classe de homens que, dispensados dos cuidados da produção material
e dos da guerra, possam entregar-se, de maneira contínua, à contemplação da natureza.
Numa palavra, sob este ponto de vista, como sob muitos outros não menos
importantes, a formação dos conhecimentos humanos supõe, previamente, um estado
social já muito complicado. Ora, por outro lado, nenhuma sociedade real e compacta
pode formar-se e manter-se sem influência de um sistema de ideias, canaz de dominar
a oposição das tendências individuais, tão pronunciadas a princípio, e de fazê-las
concorrer para uma ordem constante. Esta função capital somente podia, portanto, ser
desempenhada por uma teoria filosófica que fosse dispensada, por sua natureza, dessa
lenta elaboração preliminar, necessária ao desenvolvimento dos conhecimentos reais, e
que exige a duração prolongada de uma ordem política regular e completa.
Tal é o admirável característico da filosofia teológica e exclusivo dela. É a ela
que se deve, pela força das coisas, o estabelecimento primitivo de toda organização
social. Sem a poderosa e feliz influência que só ela pode exercer sobre os espíritos na
infância dos povos, não se conseguiria conceber qualquer classificação permanente,
capaz de comportar e secundar, até certo ponto, o progresso das faculdades humanas.
Sob o ponto de vista, que aqui nos ocupa, que outro ascendente, diverso do das
doutrinas teológicas, teria podido, no meio de uma população de guerreiros e escravos,
permitir e manter a existência de uma corporação unicamente consagrada aos trabalhos
intelectuais, e, com mais forte razão, assegurar-lhe a preponderância, indispensável às
suas primeiras operações, bem como à estabilidade social?
Tendo-se em vista, por conseguinte, as condições, quer morais, quer políticas,
do desenvolvimento do espírito humano, reconhece-se que devia necessariamente
começar pela filosofia teológica, antes de chegar à filosofia positiva. Ê fácil verificar,
com a mesma certeza, que ele só conseguiu passar de uma a outra empregando a
filosofia metafísica.
As concepções teológicas e as concepções positivas têm um caráter
demasiadamente diverso, demasiadamente oposto mesmo, para que o nosso espírito,
que só caminha por graus quase insensíveis, possa passar, sem intermediários, de umas
às outras. Esses intermediários indispensáveis foram e deviam ser as concepções
metafísicas que, dependendo simultaneamente da teologia e da física, antes, sendo
apenas a primeira modificada pela segunda, são, por natureza, eminentemente próprias
para essa operação, na qual consiste toda a sua utilidade.
Apresentando-se diretamente na origem primeira de todos os fenômenos,
ocupa-se a filosofia teológica essencialmente em descobrir-lhes as causas geradoras,
enquanto a filosofia positiva, evitando qualquer pesquisa da causa, que proclama
inacessível ao espírito humano, trata unicamente de descobrir a lei, isto é, as relações
constantes de semelhança e de sucessão que os fatos têm entre si. Entre estes dois
pontos de vista, interpõe-se naturalmente o ponto de vista metafísico, que considera
cada fenômeno como produzido por uma força abstrata que lhe é própria. Este método
é precioso pela facilidade que proporciona para raciocinar sobre os fenômenos, sem
atender diretamente às causas sobrenaturais, as quais o espírito humano pôde, destarte,
eliminar pouco a pouco de suas combinações.
Foi, efetivamente, por tal processo que essa mudança se operou em todas as
direções intelectuais. Quando os progressos da observação levaram o homem a
generalizar e simplificar suas concepções teológicas, substituiu ele, em cada fenômeno
particular, o agente sobrenatural primitivo por uma entidade correspondente, a cuja
consideração se consagrou desde então exclusivamente. Essas entidades eram, a
princípio, espécies de emanações do poder supremo: mas, graças à indeterminação de
seu caráter, acabaram por espiritualizar-se a ponto de não serem mais consideradas
senão como os nomes abstratos dos fenômenos, à medida que o progresso dos
conhecimentos naturais fez sentir o vazio desse gênero ele explicação, e permitiu ao
mesmo tempo, substituí-lo por outro. Deste modo a metafísica foi um meio de
transição, a um tempo natural e indispensável da teologia para a física. Seu triunfo é,
de um lado, um sinal infalível, e de outro, a causa direta da decadência da primeira e
da elevação da segunda.
Se as diversas considerações precedentes provam claramente que as teorias
teológicas e metafísicas foram, para o espírito humano, uma preliminar indispensável,
mostram, com a mesma evidência, que essas doutrinas não puderam ter qualquer outro
destino natural, porquanto seu desenvolvimento nada mais foi do que uma tendência
contínua e progressiva para as teorias positivas. Por isto mesmo que foram apropriadas
para dirigir a infância da razão humana, são necessariamente impotentes para lhe
servirem de guias quando atinge sua maturidade. Quando o espírito humano abandona
realmente uma teoria, nunca mais se volta para ela. O vigor e a influência de um
método medem-se pelo número e pela importância de suas aplicações: aqueles que
nada mais produzem deixam logo, absolutamente, de ser empregados.
Ora, como, pelo menos, há dois séculos os métodos teológicos e metafísicos,
que haviam presidido aos primeiros ensaios de nossa inteligência, se tornaram
inteiramente estéreis; como as descobertas mais amplas e mais importantes, as que
mais honram o espírito humano, foram, desde essa época, unicamente devidas ao
emprego do método positivo, é evidente, só por este fato, que a ele pertencerá,
doravante, a direção exclusiva do pensamento humano.
(No fim do século XVI, Bacon já comparava as ideias teológicas a virgens
consagradas ao Senhor, que se tornaram estéreis, Em nossos dias, teria certamente
estendido sua comparação às ideias metafísicas, cuja esterilidade não é menos
manifesta).
Sem desconhecer os importantes e inumeráveis serviços de todo gênero
prestados pela teologia e pela metafísica, não se pode dissimular que o nosso espírito
não é destinado a compor indefinidamente teogonias, nem a contentar-se sempre com
logomaquias. O conhecimento mais exato e mais completo possível das leis da
natureza, e, por consequência, a pesquisa da ação que a espécie humana está destinada
a exercer sobre o mundo exterior, tais os verdadeiros e constantes objetivos dos
esforces do gênio humano, quando sua educação preliminar se acha terminada.
A filosofia positiva é, portanto, o estado definitivo do homem, e não deve
cessar senão com a atividade de nossa inteligência, O atrativo que ela nos inspira, sua
perfeita adaptação à natureza de nossas necessidades espirituais são de tal ordem que,
logo que começa a formar-se pela descoberta de algumas grandes leis, os espíritos
mais fortes renunciam, com singular facilidade, sobre os pontos correspondentes, às
esperanças tão sedutoras da ciência sublime e absoluta, que lhes davam a teologia e a
metafísica para procurar, com ardor, a pura satisfação intelectual inerente aos
conhecimentos reais e precisos.
Não é hoje, sem dúvida, que se torna necessário insistir muito para verificar
uma tendência manifestada a cada momento, e de mil modos, mesmo nas inteligências
menos esclarecidas. Por toda parte onde as concepções positivas puderam ser postas
em concorrência com as concepções místicas e vagas, o enfado inspirado por estas não
tarda a manifestar-se.
(A linguagem que, examinada historicamente, apresenta um quadro fiel das
revoluções do espírito humano, oferece-nos desta um testemunho muito sensível. A
palavra ciências, que a princípio só fora aplicada às especulações teológicas e
metafísicas, e mais tarde às pesquisas de pura erudição que engendraram, hoje só
designa, quando está isolada, mesmo na acepção vulgar, os conhecimentos positivos.
Quando empreendemos dar-lhe outro significado, somos obrigados, para ser
entendidos, a recorrer a perífrases, cujo emprego mostra bem que, aos olhos do
público atual, é nisto unicamente que consiste o verdadeiro saber).
Resulta, pois, de todas as considerações acima indicadas, a demonstração,
simultaneamente teórica e experimental do fato geral enunciado a princípio: o espírito
humano, por sua natureza, passa sucessivamente, em todas as direções em que se
exerce, por três estados teóricos diferentes: o estado teológico, o estado metafísico e o
estado positivo. O primeiro é provisório, o segundo transitório e o terceiro definitivo.
Esta lei fundamental deve ser hoje, em minha opinião, o ponto de partida de
qualquer pesquisa filosófica sobre o homem e sobre a sociedade.
Conservando ainda as doutrinas teológicas e metafísicas alguma atividade, ou
pelo menos acentuada influência, é evidente que esta importante revolução não está
terminada. Em que ponto se encontra? Que resta fazer para realizá-la? Eis o que nos
cumpre examinar.
Não cabe aqui explicar por que encadeamento de trabalhos esta grande
transformação se operou. Basta notar, de fato, para fixar as ideias, que, ao movimento
determinado no espírito humano pelos preceitos de Bacon, pelas concepções de
Descartes e pelas descobertas de Galileu (movimento que não era mais do que o
resultado final e inevitável de todos os trabalhos anteriores), é que se deve atribuir a
origem direta de uma filosofia verdadeiramente positiva, isto é, de todo desprendida de
qualquer aliança teológica e metafísica, que mais ou menos havia alterado, até então, o
caráter das teorias naturais.
Foi durante os dois séculos decorridos, depois dessa memorável época, que os
diversos ramos de nossos conhecimentos chegaram, enfim, ao estado positivo. Mas, se
importa pouco, para a nossa atual finalidade, examinar por que meios se produziu essa
passagem, é, pelo contrário, muito essencial observar atentamente em que ordem
nossas diferentes classes de ideias passaram por tal mudança, porquanto esta noção é
indispensável para completar o conhecimento da lei precedentemente exposta.
Marcha muito simples e muito natural se manifesta a este respeito.
Nossas diversas concepções tornaram-se sucessivamente positivas na mesma
ordem que haviam seguido para se tornarem primeiro teológicas, e, mais tarde,
metafísicas. Esta ordem é a do grau de facilidade que apresenta o estudo dos
fenômenos correspondentes.
É determinada por sua complicação maior ou menor, por sua independência
mais ou menos completa, por seu grau de especialidade, e por sua relação mais ou
menos direta com o homem, quatro motivos que, embora tendo cada qual uma
influência distinta, são, no fundo, inseparáveis. Ora, a este respeito, eis a classificação
ditada pela natureza dos fenômenos, tal como a conhecemos hoje.
Os fenômenos astronômicos são, a um tempo, os mais simples, os mais gerais,
e os mais distanciados do homem; influem sobre todos os outros, sem serem por eles
influenciados, pelo menos em grau sensível para nós; obedecem apenas a uma única
lei, a mais universal da natureza - a da gravitação.
Depois deles, vêm os fenômenos da física terrestre propriamente dita, que se
complicam com os precedentes, e, além disto, seguem leis especiais, mais limitadas
em seus resultados. Em seguida, os fenômenos químicos, que dependem de uns e de
outros, e nos quais se percebe mais uma nova série de leis, a das afinidades, cujos
efeitos são menos extensos.
Finalmente, os fenômenos fisiológicos, onde se observam todas as leis da
física, quer celeste, quer terrestre, e da química, modificadas, porém, por outras que
lhes são próprias, e cuja influência é ainda mais limitada.
Resulta desta simples exposição que as concepções humanas, sob qualquer das
três formas gerais precedentemente assinaladas - teológica, metafísica e positiva -
puderam tomar uma extensão bastante grande, relativamente aos fenômenos que as
antecedem nesta escala enciclopédica, sem serem ainda desenvolvidas relativamente
aos seguintes, por serem os primeiros independentes dos segundos, enquanto, ao
contrário, elas não puderam começar a formar-se, em relação a estes, sem já terem
adquirido certa consistência no tocante aos outros, cuja influência deve
inevitavelmente ser levada em conta em qualquer teoria.
Esta classificação fixa, portanto, de maneira irresistível, a ordem do
desenvolvimento de cada uma das três filosofias. Os fatos estão de acordo com este
princípio, como é fácil verificar; isto se torna principalmente simples em relação à
filosofia positiva, cuja formação, além de muito recente, sendo naturalmente morosa,
apresenta intervalos mais distintos.
Observando, sob este aspecto, a marcha do espírito humano desde dois séculos,
vê-se que, efetivamente, a astronomia foi a primeira ciência que se tornou positiva:
depois dela, a física; em seguida a química e, finalmente, em nossos dias, a fisiologia.
Tal é o estado presente do desenvolvimento intelectual.
A fim de reconhecer, com toda a precisão necessária, a verdadeira época a que
chegou, agora, esta grande revolução, cumpre, na última ciência [a fisiologia]
distinguir a secção relativa às funções intelectuais e afetivas da que compreende as
outras funções orgânicas.
Só depois de todos os outros, os fenômenos morais saíram do domínio da
teologia e da metafísica, para entrar no da física. Sem dúvida, nada era mais natural,
segundo a escala enciclopédica acima estabelecida. Mas, se esta circunstância
inevitável torna, a seu respeito, a transformação menos sensível, não é, por isto, menos
real, embora ainda despercebida pela maioria dos espíritos. Todos os que estão
verdadeiramente ao nível de seu século sabem, de fato, que os fisiologistas consideram
hoje os fenômenos morais absolutamente da mesma forma que os outros da
animalidade.
Trabalhos muito extensos foram empreendidos nesta direção e prosseguidos
com ardor, desde mais de vinte anos; nasceram concepções positivas, mais ou menos
fecundas; formaram-se espontaneamente escolas para desenvolvê-las e propagá-las;
numa palavra, todas as manifestações da atividade humana fizeram-se sentir, em grau
não equívoco, em relação à fisiologia moral.
É inútil tomar aqui partido pró ou contra qualquer das diversas opiniões, que
pretendem hoje ter a primazia, a respeito da espécie, do número, da extensão e da
influência recíproca dos órgãos assinaláveis para as diferentes funções, quer
intelectuais, quer afetivas. Sem dúvida, a ciência não achou ainda, sob este aspecto,
suas bases definitivas, e só estabeleceu solidamente algumas generalidades
insuficientes, conquanto muito preciosas. Mas, o próprio fato dessa diversidade de
teorias, que indica a incerteza inevitável em qualquer ciência nascente, demonstra
claramente que a grande revolução filosófica se efetuou neste ramo de nossos
conhecimentos, como em todos os outros, pelo menos nos espíritos que formam a
vanguarda do gênero humano, e, cedo ou tarde, são seguidos pela massa. Com efeito,
nas divergências que ocorrem, o método positivo é reconhecido, de uma parte e de
outra, como o único instrumento admissível; a formação de uma teoria física, que
consiste, no caso, na combinação do ponto de vista anatômico com o ponto de vista
fisiológico, é considerada por todas as opiniões como o único objetivo razoável; a
teologia e a metafísica são, de comum acordo, eliminadas da questão, ou, pelo menos,
não desempenham nela qualquer papel importante; e, seja qual for o resultado final da
discussão, não pode senão diminuir ainda mais a atividade de ambas. Numa palavra,
estando os debates doravante circunscritos ao campo da ciência, a filosofia não se
interessa mais por eles.
Tenho insistido especialmente sobre este último fato filosófico, primeiro,
porque é ainda apenas notado e mesmo muitas vezes contestado, mas, principalmente,
porque, para quem compreendeu bem a minha classificação das ciências, esta última
observação apresenta, simultaneamente, nova prova irrecusável, embora indireta, e um
resumo muito preciso do conjunto da grande transformação intelectual.
Depois de haver assim estabelecido, pelos fatos, a que ponto chegou agora a
formação da filosofia positiva, cumpre examinar o que resta ainda fazer a fim de
completá-la.
A série natural dos fenômenos fornece, por assim dizer, ela própria, resposta a
esta questão.
As quatro grandes classes de observações precedentemente estabelecidas não
abrangem, pelo menos explicitamente, todos os aspectos sob os quais podem ser
considerados os seres existentes. Falta, sem dúvida, o ponto de vista social para os
seres que são suscetíveis de sociabilidade, e, sobretudo, para o homem; mas vê-se,
com a mesma clareza, ser esta a única lacuna.
Possuímos, assim, uma física celeste, uma física terrestre, quer mecânica, quer
química, uma física vegetal e uma física animal; falta-nos ainda uma última, a física
social, a fim de completar o sistema de nossos conhecimentos naturais.
Uma vez preenchida esta condição, poderemos, pelo resumo geral de todas as
nossas diversas noções, construir, enfim, uma verdadeira filosofia positiva, capaz de
satisfazer todas as necessidades reais de nossa inteligência. Desde então, o pensamento
humano não será mais obrigado a recorrer, sobre ponto algum, ao método teológico ou
ao metafísico; e havendo eles perdido sua última utilidade, não terão ambos mais do
que uma existência histórica. Numa palavra, o gênero humano terá terminado
inteiramente sua educação intelectual e poderá daí por diante seguir diretamente seu
destino definitivo.
Tais as importantes considerações que devo agora desenvolver.
O quadro atual não me permite caracterizar suficientemente o espírito
particular e o método especial deste último ramo da filosofia natural. Limito-me a
dizer aqui, para evitar qualquer equívoco, que entendo por física social a ciência que
tem por objeto próprio o estudo dos fenômenos sociais (Sendo os fenômenos sociais
humanos, estão, sem dúvida, compreendidos entre os fisiológicos. Mas, embora, por
esta razão, deva a física social necessariamente ter por ponto de partida a fisiologia
individual, e manter-se com ela em contínua relação, não pode, por isto, deixar de ser
concebida e cultivada como ciência inteiramente distinta, em consequência da
influência progressiva das gerações humanas umas sobre as outras. Esta influência
que, em física social, é a matéria preponderante, não poderia ser convenientemente
estudada sob o aspecto puramente fisiológico), considerados com o mesmo espírito
que os fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos, isto é, sujeitos a leis
naturais invariáveis, cuja descoberta é o objetivo especial de suas pesquisas.
Ela se propõe, portanto, a explicar diretamente, com a maior precisão possível,
o grande fenômeno do desenvolvimento da espécie humana, considerado em todas as
suas partes essenciais, isto é, descobrir por que encadeamento necessário de
transformações sucessivas o gênero humano, partindo de um estado apenas superior ao
das sociedades dos grandes macacos, chegou gradualmente ao ponto em que se acha
hoje a Europa civilizada. O espírito desta ciência consiste, sobretudo, em ver, no
estudo profundo do passado, a verdadeira explicação do presente e a manifestação
geral do futuro. Considerando sempre os fatos sociais, não como objetos de admiração
ou de crítica, mas como assuntos de observação, preocupa-se unicamente em
estabelecer suas relações mútuas, e em apreender a influência exercida por cada um
deles sobre o conjunto do desenvolvimento humano. Em suas relações com a prática,
afastando das diversas instituições qualquer ideia absoluta de bem ou de mal,
considera-as como constantemente relativas a determinado estado da sociedade e
variáveis com ele; e, ao mesmo tempo, concebe-as como podendo sempre
estabelecerem-se espontaneamente pela força exclusiva dos antecedentes, livre de
qualquer intervenção política direta.
Suas pesquisas de aplicação reduzem-se, portanto, a evidenciar, de
conformidade com as leis naturais da civilização, combinadas com a observação
imediata, as diversas tendências próprias a cada época, Esses resultados gerais tornam-
se, por sua vez, o ponto de partida positivo dos trabalhos dos estadistas, os quais só
têm, por assim dizer, como objetivo real, descobrir e instituir as formas práticas
correspondentes a esses dados fundamentais, a fim de evitar, ou pelo menos suavizar,
quanto possível, as crises mais ou menos graves que um desenvolvimento espontâneo
determina quando não é previsto. Numa palavra, nesta ordem de fenômenos, como em
qualquer outra, a ciência conduz à previdência, e a previdência permite regularizar a
ação, A esta descrição, necessariamente muito imperfeita, do caráter dá física social,
cumpre acrescentar, para que este esboço possa ter alguma utilidade, a indicação
sumária do princípio fundamental que distingue o método positivo peculiar a esta
ciência. Consiste em que, na pesquisa das leis sociais, o espírito deve
indispensavelmente proceder do geral para o particular, isto é, começar por conceber,
em seu conjunto, o desenvolvimento total da espécie humana, não distinguindo nele, a
princípio, mais do que um número muito pequeno de estados sucessivos, e descer em
seguida, gradualmente, multiplicando os intermediários, a uma precisão sempre
crescente, cujo limite natural consistiria em não colocar mais de uma única geração de
intervalo na coordenação dos termos dessa grande série.
Esta marcha é essencialmente comum a todas as partes da física dos corpos
organizados, mas é particularmente indispensável na física social.
(Além disto, seria fácil compreender mui claramente, pelo próprio fato, em que
consiste a física social, se se considerasse como irrevogavelmente estabelecida a lei
fundamental acima exposta, porquanto, nesta hipótese, a ciência já realmente teria
começado. A descoberta desta lei, se se admitir sua exatidão, seria um primeiro passo
direto em física social, pois apresenta um primeiro encadeamento natural, o mais geral
possível, dos fenômenos sociais).
Tal é, pois, tanto quanto posso aqui indicar, a natureza da nova ciência física,
destinada a completar o sistema de nossos conhecimentos positivos. Depois desta
definição, que me pareceu indispensável para fixar as ideias, é fácil explicar por que
este último ramo da filosofia natural não se pôde formar até agora e por que deve hoje
inevitavelmente começar.
Considerando mesmo as teorias sociais apenas sob o ponto de vista puramente
filosófico, deviam conservar, por mais tempo do que as outras, o caráter teológico e o
caráter metafísico, segundo a lei de formação acima estabelecida, pois seus fenômenos
ocupam, evidentemente, a última classe em nossa escala enciclopédica, como sendo
simultaneamente os mais complicados, os mais particulares, os mais diretos para o
homem, e os que dependem de todos os outros.
Seria, sem dúvida, impossível conceber que o espírito humano se elevasse a
ideias positivas, sobre os fenômenos sociais, sem ter previamente adquirido
conhecimento bastante extenso das leis fundamentais da organização humana. Ora,
este conhecimento supõe, de sua parte, a descoberta preliminar das principais leis do
mundo inorgânico. E estas, além disto, influem também, diretamente, sobre o caráter e
as condições de existência das sociedades humanas.
Os leitores, habituados à consideração das leis naturais, reconhecerão
facilmente todo o alcance e toda a força desta universal e profunda relação. Para
indicar aqui, simplesmente, o caso mais decisivo, aquele em que a relação é menos
aparente, é fácil reconhecer exercerem os fenômenos astronômicos, por sua extrema
generalidade, influencia preponderante sobre os sociais. Suas leis não poderiam sofrer
a menor mudança sem determinarem profunda alteração no modo de existência e de
desenvolvimento das sociedades humanas. Quem não vê, por exemplo, dever o
movimento da terra, a princípio desconhecido e mais tarde descoberto, influir, no mais
alto grau, sobre todo o nosso sistema intelectual? Pode mesmo dizer-se que as mais
simples circunstâncias de forma ou de posição, insignificantes na ordem astronômica,
têm importância suprema na ordem política.
Suponha-se, por exemplo, uma variação de alguns graus na obliquidade da
eclíptica, que estabelecesse nova distribuição de climas; um aumento ou pequena
diminuição na distância da terra ao sol, que modificasse a duração do ano e a
temperatura do globo, e, por consequência, verossimilmente a duração da vida
humana, e uma serie de modificações análogas, cuja importância astronômica fosse
quase nula, e reconhecer-se-á, que, ao contrário, o desenvolvimento humano não
poderia mais ser concebido, de nenhum modo, tal como ocorreu.
E fácil multiplicar infinitamente, e em todos os gêneros, tais hipóteses, próprias
para evidenciar as relações efetivas das diversas ordens de fenômenos. Farão elas
sentir que as condições de existência das sociedades humanas estão em relação
necessária e continua, não só com as leis de nossa organização, o que é evidente, mas
também com todas as leis físicas ou químicas de nosso planeta e com as do sistema
solar, de que faz parte. Esta relação é de tal modo íntima que, se alguma mudança
notável sobreviesse a uma só dessas inúmeras influências de qualquer espécie, sob
cujo império absoluto nossas sociedades subsistem, a marcha do gênero humano seria
profundamente alterada mesmo imaginando-se apenas variações que não lhe
comprometessem a existência.
É, portanto, evidente que não podiam os fenômenos sociais ser, por sua
natureza, reduzidos a teorias positivas, antes de ser essa revolução efetuada nos
fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos. Como, relativamente a estes
últimos, a transformação só se realizou em nossos dias, sendo ainda apenas sentida em
relação aos fenômenos morais, cuja teoria é a mais diretamente indispensável à física
social, concebe-se facilmente por que esta ciência não foi possível até o presente.
Esta explicação adquire novo grau de clareza, considerando-se outra
circunstância inteiramente particular aos fenômenos sociais. De fato, para que se
tornasse possível seu estudo positivo, era evidentemente necessário que a marcha da
espécie humana estivesse bastante adiantada, a fim de manifestar, por si mesma, aos
observadores, algumas leis naturais de sucessão. Procurando medir o alcance desta
condição, parece-me que a base experimental da física social não teria tido uma
extensão suficiente se não tivesse podido abranger a totalidade do desenvolvimento
que ocorreu, ate agora, no gênero humano. Esta conjetura será rigorosamente
demonstrada para todos os que admitirem a lei acima exposta, porquanto esta lei não
podia ser desvendada senão depois que a revolução, a que ela se refere, tivesse sido
efetivamente experimentada de modo completo pelo espírito humano em relação à
maior parte de nossas ideias, o que nos reconduz exatamente à época assinalada ha
pouco por outros motivos.
As mesmas considerações que explicam o que impediu, até agora, o método
positivo de estender-se às teorias sociais, provam, de modo não menos forte, que esta
última parte da grande renovação intelectual deve necessariamente efetuar-se agora.
O espírito humano tende constantemente para a unidade de método e de
doutrina; tal é, para ele, o estado regular e permanente: qualquer outro somente pode
ser transitório. É impossível que empregássemos habitualmente certo método na
maioria de nossas combinações e não acabássemos por abandona-lo de modo absoluto,
ou por estendê-lo a todas as outras. Este último caso é o único presumível
relativamente aos métodos, cuja superioridade foi estabelecida pela experiência.
Haveria, portanto, contradição em pensar que o espírito humano, acostumado agora a
raciocinar de maneira positiva sobre todos os fenômenos astronômicos, físicos,
químicos e fisiológicos, devesse continuar a raciocinar sempre teologicamente e
metafisicamente ao tratar dos fenômenos sociais.
Quem tem estudado o caráter intelectual do homem compreenderá que não
pode ser assim. Sucederá, portanto, inevitavelmente - ou a astronomia, a física, a
química e a fisiologia se tornarão metafísicas, ou mesmo teológicas, o que seria
absurdo supor, ou a política se tornará positiva, o que é, por conseguinte, indubitável.
Um filósofo do século XIX, que, mais ao que qualquer outro, aprofundou a
natureza do antigo estado do gênero humano, De Maistre, sentiu a necessidade desta
alternativa de maneira muito convincente. Viu muito bem que o desenvolvimento das
ciências naturais tendia a radicalmente destruir o império da teologia e da metafísica e
compreendeu que, para ser verdadeiramente consequente em seu pesar pela decadência
do antigo sistema intelectual e social, devia ousadamente remontar até esses antigos
tempos nos quais havia unidade no espírito humano através de uma subordinação
uniforme de todas as nossas concepções à filosofia sobrenatural. (Veja-se, entre outras,
nas Soirées de Saint-Petersbourg, uma comparação muito notável entre o caráter da
ciência antiga e o da moderna).
Sem dúvida todas as ciências positivas não puderam formar-se
simultaneamente, devendo ter existido períodos mais ou menos longos durante os
quais o espírito humano empregava, ao mesmo tempo, os três métodos, cada um para
certa ordem de ideias.
(Esta confusão passageira e inevitável é a principal dificuldade que pode
experimentar a verificação da lei acima exposta. Mas, observando-se que os três
métodos nunca foram empregados simultaneamente para a mesma ordem de ideias, a
dificuldade desaparecerá, desde que se tenha em vista a ordem enciclopédica
precedentemente estabelecida. A existência deste estado misto é, aliás, a única objeção
séria feita até hoje, que me conste, contra esta lei fundamental. Mesmo assim, esta
objeção só foi apresentada por espíritos infelizmente estranhos, por sua educação, às
ciências positivas, embora em si mesmos muito superiores).
Erigindo a filosofia metafísica, segundo o seu costume, em princípio imutável
um estado essencialmente passageiro, daí deduziu a máxima de uma partilha
fundamental e absoluta entre o método teológico e o método positivo, sob os nomes
abstratos de fé e de razão. Mas a experiência prova claramente que essa doutrina nunca
serviu senão para ampliar o domínio da razão à custa do domínio da fé, o que era,
aliás, o destino natural desse princípio de transição, que por muito tempo foi útil.
Apesar dessa imensa trégua, entre a teologia e a física, tendeu esta sempre e cada vez
mais a invadir o sistema inteiro de nossas ideias, e sua força aumentou, por isto, na
proporção das conquistas já efetuadas. Como não lhe resta hoje mais do que apoderar-
se das ideias sociais, é, pois, evidente que deve acabar por abarcá-las também em seu
domínio e muito em breve mesmo, se se levar em conta o imenso poder que lhe dá seu
domínio exclusivo sobre todas as nossas demais classes de ideias.
A consequência tirada desta consideração de unidade torna-se ainda mais
sensível, examinando-se a formação da teoria teológica ou metafísica relativa aos
fenômenos sociais.
A filosofia superficial do século XVIII representou geralmente a doutrina
social teológica como obra de legisladores incrédulos, que apenas viram nela um
instrumento de domínio. Sem insistir aqui sobre o absurdo chocante de tal suposição,
que hoje já não se tem necessidade de refutar, a experiência nos mostra, de
conformidade com a ordem geral de formação estabelecida no início deste opúsculo,
que a filosofia teológica se estendeu aos fenômenos sociais e pôde, por consequência,
tornar-se um meio de organização, unicamente em virtude do império, que a princípio
havia adquirido ao explicar todos os fenômenos dos corpos exteriores e do próprio
homem. Esta explicação é a primeira origem e a condição fundamental do ascendente
geral obtido pelo sistema teológico. A mesma relação se observa sempre nas diversas
formas que ele toma sucessivamente. Não é evidente, por exemplo, que logo que o
espírito humano pôde elevar-se à ideia de uma grande causa sobrenatural única,
produzindo todos os fenômenos do mundo exterior e os do homem, não deixaria de
aplicar a mesma doutrina à direção da sociedade? Tal ainda se deu quando as
concepções humanas se tornaram metafísicas. Ao operar-se essa transformação para as
ideias astronômicas, físicas, químicas e fisiológicas, teria sido possível prever que não
tardaria a estender-se às ideias políticas. Há uma conexão profunda, embora indireta,
entre as concepções de Aristóteles sobre a física celeste e terrestre, as doutrinas
escolásticas da Idade Média e o Contrato Social de Rousseau; é o mesmo espírito,
abrangendo nova ordem de ideias. Assim, havendo as teorias sociais estado sempre, de
fato, em relação íntima e necessária com as dos outros fenômenos, as mudanças
ocorridas até aqui nas primeiras, tendo constantemente seguido as experimentadas
pelas segundas, o mesmo deve dar-se (e com mais forte razão, em face da maior
discordância) com a transformação que fez estas passarem ao estado positivo, e, por
consequência, não pode deixar de manifestar-se também na doutrina relativa aos
fenômenos políticos.
Todos os sintomas, gerais ou particulares, que podem assinalar tal revolução, já
se pronunciaram, efetivamente, com energia suficiente para não deixar qualquer
dúvida sobre a sua próxima realização.
A preponderância total obtida, no século passado, pela metafísica, no tocante às
ideias sociais, é sinal irrecusável da decadência completa da teologia. Por outro lado, a
profunda repugnância que se manifesta geralmente pela política metafísica, desde a
experiência da revolução francesa - mas que, no entanto, não levou de novo os
espíritos às doutrinas teológicas - é indício não menos certo da próxima formação da
política positiva, única em condições de determinar um acordo universal da parte das
inteligências que se tornam tão rebeldes ao poder das abstrações quanto à autoridade
dos oráculos e não querem mais ceder senão à força dos fatos.
Podemos mesmo acrescentar que tentativas diretas, mais ou menos completas,
já foram concebidas pelos pensadores mais distintos, a fim de satisfazerem esta nova
necessidade do espírito humano. Tal é, em essência, o caráter dos trabalhos do grande
Montesquieu. Em primeiro lugar, em sua obra sobre os Romanos, e principalmente,
depois, no Espírito das Leis, esforçou-se por ligar, uns aos outros, os fenômenos
políticos e descobrir as leis de seu encadeamento.
Esta tentativa era, sem dúvida, muito prematura para alcançar bom êxito; mas o
fato em si prova claramente a tendência do espírito humano. Mais tarde, Condorcet
elevou-se, no mesmo sentido, à concepção direta e definitiva, propondo-se a estudar o
desenvolvimento sucessivo da espécie humana; e, embora a execução desse projeto
tenha radicalmente falhado, não deixa, por isto, de evidenciar quanto sua necessidade
fora reconhecida.
Devem ser considerados, sob o mesmo ponto de vista, os esforços tentados na
Inglaterra, durante o século passado, para aperfeiçoar a natureza da história, dando-lhe
caráter explicativo e científico, em vez do cunho descritivo ou literário, que até então
tinha tido. Na Alemanha, os trabalhos de Kant (Em pequena obra escrita em 1784,
cujo próprio título é notável - "Introdução a uma história geral da espécie humana”,
estabeleceu Kant formalmente deverem os fenômenos sociais ser considerados tão
redutíveis a leis naturais quanto todos os outros do universo) e de Herder sobre a
filosofia da história, e posteriormente a formação, entre os jurisconsultos, de uma
escola que concebe a legislação como determinada sempre necessariamente pelo
estado da civilização, manifestam, com a mesma evidência, a tendência geral de nosso
século para as doutrinas positivas em política.
Um gosto exclusivo pelas obras que mostram, mais ou menos, este caráter, se
pronuncia dia a dia mais, e, o que constitui observação muito decisiva, domina mesmo
o espírito de partido. Os homens que mais se esforçam em restabelecer a teologia em
seu antigo império, cedendo sem sentir ao gênio do século, honram-se em empregar
principalmente, no estabelecimento de suas opiniões, a autoridade dos conceitos
positivos.
(Se, por exemplo, o livro Du Pape tem grande valor filosófico, como não se
pode duvidar, deve-o essencialmente ao fato de ter-se esmerado seu autor, tanto
quanto pôde, por uma contradição fundamental, em empregar, em seus raciocínios,
apenas o método positivo, fazendo somente uso secundário das considerações hauridas
na filosofia teológica ou metafísica).
Chegou, portanto, enfim a época em que, como último resultado de todos os
trabalhos anteriores, o espírito humano pode completar o conjunto da filosofia natural,
reduzindo os fenômenos sociais, como todos os outros, a teorias positivas. As diversas
tentativas preliminares, que rapidamente acabamos de indicar, bastam para assinalar
esta operação e torná-la imediatamente praticável, ficando, entretanto, inteiramente
reservada ao século XIX pela marcha natural do nosso desenvolvimento intelectual.
Quando este trabalho estiver terminado, ou, antes, quando estiver bastante
adiantado para que o espírito humano possa, daí por diante, ser considerado
irrevogavelmente lançado nesta nova direção, poderemos, enfim, e deveremos mesmo
proceder à construção de um sistema geral dos conhecimentos humanos, cujos
elementos serão todos então desenvolvidos.
Antes e depois da Enciclopédia do século XVIII, uma série de tentativas foi
feita neste sentido, e nenhuma delas teve bom êxito. Diariamente vemos nascer novas,
que não têm melhor sucesso, e somente servem para mostrar a necessidade
profundamente sentida por nossa inteligência de por ordem e unidade em suas
aquisições. O fracasso de todos esses esforços resulta de que não tendo os diversos
conhecimentos humanos apresentado todos, até agora, o mesmo caráter, foi
necessariamente impossível combiná-los em um sistema único.
Pôde-se construir, em outras épocas, uma enciclopédia teológica ou metafísica,
e, efetivamente, todos os sistemas filosóficos gregos, por exemplo, eram, para sua
época, outras tantas enciclopédias. Poder-se-á construir, mais tarde, uma enciclopédia
positiva, quando a física social houver adquirido alguma consistência. Mas querer,
como se tem sempre pretendido até aqui, formar uma enciclopédia no mesmo tempo
teológica, metafísica e positiva, é querer compor um conjunto com elementos que
mutuamente se excluem.
Não é de admirar que empresas tão mal concebidas hajam acabado por
desacreditar tal projeto perante os bons espíritos. Mas o mesmo não poderá suceder
quando, afinal, a ciência social tornar-se positiva e a teologia e a metafísica forem
expelidas de seu derradeiro asilo, sendo o sistema de nossas ideias constituído por
elementos homogêneos. Bastará, então, resumir os conhecimentos relativos às diversas
ordens de fenômenos para imediatamente descobrir-lhes o encadeamento natural, e
formar, portanto, a verdadeira filosofia positiva, bem mais completa e bem melhor
concatenada do que jamais puderam sê-lo a metafísica, e mesmo a teológica, que,
provisórias por sua natureza, não foram, em nenhuma época, rigorosamente universais.
Este vasto cometimento, que o século atual verá sem dúvida realizar-se, deve
ser considerado como o último ato e o objetivo final da grande revolução iniciada por
Bacon, Descartes e Galileu. É indispensável por ser a única base espiritual possível do
novo estado social, para o qual a espécie humana tende hoje tão fortemente, porque só
por sua força total é que uma doutrina pode chegar a dirigir a sociedade.
Enquanto as concepções positivas se conservarem isoladas entre si, enquanto
não se apresentarem, ao espírito, como as diversas partes de um sistema único e
completo, poderão conservar uma importância muito grande nos casos particulares,
poderão até mesmo lutar, com vantagem, contra a autoridade política da teologia e da
metafísica, mas não poderão substituí-las na direção suprema da ordem social. O
aperfeiçoamento de nossos conhecimentos exige, sem dúvida, de modo indispensável,
que se estabeleça, no seio da ciência, permanente divisão de trabalho, e mesmo que a
especialização das pesquisas de cada cientista seja levada tão longe quanto possível.
Mas é incontestável que a massa da sociedade, a qual carece continuamente de todos
esses resultados ao mesmo tempo, não pode e nem deve perturbar-se com esse
mecanismo interior. Para adotar, como guias habituais exclusivamente as doutrinas
científicas, ela precisa encará-las apenas como ramos diversos de um só e mesmo
tronco.
Esta condição não é menos indispensável, no que toca ao próprio corpo
científico, para a unidade e homogeneidade de sua ação política, sempre muito fraca
enquanto não for concentrada. Por conseguinte, enquanto este estado de coisas
subsistir, a teologia e a metafísica, apesar de sua evidente decrepitude, conservarão
ainda, em virtude apenas de sua generalidade, legítimas pretensões à soberania moral.
Esta última consideração me leva, por outro caminho, à necessidade da física
social. Nos motivos precedentemente empregados para demonstrá-la, evitei de
propósito o ponto de vista da organização social, a fim de fixar toda a atenção sobre o
movimento filosófico que devia, só por si, determinar essa mudança. Mas a conclusão
deduzida desta ordem única de considerações é singularmente robustecida se, como é
indispensável, forem consideradas as grandes necessidades políticas da sociedade
atual, Limitar-me-ei aqui a uma simples indicação sobre essa parte Importante da
matéria, de que tratarei, mais tarde, de maneira especial.
A sociedade acha-se hoje evidentemente, sob o ponto de vista moral, em
verdadeira e profunda anarquia, reconhecida por todos os observadores, quaisquer que
sejam as suas opiniões especulativas.
Esta anarquia provém, em última análise, da ausência de qualquer sistema
preponderante, capaz de reunir todos os espíritos em uma só comunhão de ideias. As
concepções positivas adquiriram suficiente extensão para anular, de fato, a influência
política da teologia, e mesmo da metafísica, sem se terem tornado ainda bastante
gerais para substituí-las na direção espiritual da sociedade. Resulta desta oposição
fundamental e contínua que, já não possuindo qualquer laço real, os espíritos divergem
sobre todos os pontos essenciais com o descomedimento que deve produzir a
individualidade não controlada. Daí, a ausência completa da moral pública, seguida do
transbordamento universal do egoísmo e da preponderância de considerações
puramente materiais, tendo por última consequência inevitável a corrupção erigida em
sistema de governo, como único meio de ordem, aplicável a uma população que se
tornou surda a qualquer apelo feito em nome de uma ideia geral, e unicamente sensível
à voz do interesse privado.
Para terminar radicalmente esta desordem que, se se pudesse prolongar, não
teria outra saída senão a completa dissolução das relações sociais, o único meio é
destruí-la em seu princípio, levando, por um processo qualquer, o sistema intelectual à
unidade. Ora, isto só se pode fazer de duas maneiras: ou restituindo à filosofia
teológica (porque é inútil falar da metafísica, que será sempre mera transição) toda a
influência, que perdeu; ou completando a filosofia positiva, de modo a torná-la capaz
de substituir definitivamente a teologia.
É a estes simples termos que se reduz hoje a grande questão social. Se se
considera, portanto, como demonstrada, a impossibilidade de restabelecer a teologia
em toda a plenitude de seu antigo poder (e certamente ninguém duvida mais disto) não
há outra solução admissível a não ser a formação definitiva da filosofia positiva. Não
se trata de examinar aqui se isto é vantajoso ou não, se é difícil ou fácil, se deve exigir
muito ou pouco tempo. Todas essas questões ociosas são afastadas pela decisão fatal
da observação: não há mais outra saída para a sociedade: cumpre, portanto, pôr
imediatamente mãos à obra. E, além disto, as outras considerações, já indicadas,
mostram que esta última revolução, que deve afinal restabelecer na sociedade unia:
ordem estável, longe de ser tão superior às forças atuais do espírito humano, como se
imagina, está de tal modo preparada pelos antecedentes que se tornou inevitável.
Assim, a formação da física social que, sob o ponto de vista puramente
intelectual, já foi demonstrada como indispensável para atingir-se um sistema
filosófico completo, não é menos necessária, sob o aspecto político, para produzir uma
educação social inteiramente homogênea, que possa servir de base a uma hierarquia
fixa e regular. Estas duas grandes condições são evidentemente a consequência uma da
outra, porque a educação e a filosofia estão em relação íntima e necessária, dada a
impossibilidade de educar uma sociedade a não ser sob a influência do sistema de
ideias preponderantes.
A educação social foi a princípio teológica, e mais tarde metafísica, porque a
filosofia foi sucessivamente uma e outra. Hoje é simultaneamente teológica, metafísica
e positiva, porquanto a filosofia apresenta ao mesmo tempo estes três caracteres,
relativamente às diversas ordens de ideias; ou, antes, não há hoje nem educação, nem
filosofia reais pelo motivo de existirem três, que se excluem mutuamente. Enfim, na
futura era social, em que a espécie humana entrará dentro em breve, a filosofia, e, por
consequência, a educação geral devem tornar-se inteiramente positivas.
Estas duas grandes operações, a primeira das quais deve servir de base à
segunda, correspondem à mesma necessidade fundamental ela civilizado atual,
considerada sob ou as faces diferentes: a necessidade de uma doutrina e de uma
direção.
Quanto a mim, este trabalho já foi empreendido, porque considero a física
social como tendo já um começo de existência, e este ponto de vista dominará sempre
em minhas considerações filosóficas. Mas não peço aos leitores que partilhem
imediatamente de minha convicção a este respeito. Desejo apenas chamar toda a sua
atenção para esta marcha natural e contínua do espírito humano, que o impele cada vez
mais para a filosofia positiva.
Espero fazer-lhes sentir que chegou a época em que esta revolução deve
inevitavelmente estender-se às teorias sociais, e provar-lhes, enfim, que sua realização
é o único meio real de restabelecer na sociedade uma ordem moral, sem pretender
entabular qualquer discussão ociosa sobre o grau preciso de oportunidade, nem sobre
os pormenores dessa mudança.
As considerações aqui apresentadas levam naturalmente a considerar as
ciências sob novo ponto de vista. Não são unicamente, a meu ver, a base racional da
ação do homem sobre a natureza. Sua importância, sob este aspecto, conquanto, sem
dúvida, muito grande, é apenas indireta e secundária. Ela não explica suficientemente
o interesse profundo que o espírito humano, por admirável instinto, sempre ligou às
suas teorias mais abstratas, sem qualquer objetivo de utilidade material, interesse que
subsiste hoje em toda sua força, apesar da viciosa preponderância concedida desde três
séculos ao ponto de vista puramente prático.
Considero as ciências, antes de tudo, mesmo em seu estado atual, como tendo
por destino direto e principal satisfazerem a essa necessidade básica, experimentada
por nossa inteligência, de um sistema de concepções positivas sobre as diferentes
ordens de fenômenos que podem ser objeto de nossas observações.
Consideradas no passado, as ciências libertaram o espírito humano da tutela
sobre ele exercida pela teologia e pela metafísica, tutela que, indispensável à sua
infância, tendia em seguida a prolongá-la indefinidamente. Encaradas no presente,
devem servir, quer por seus métodos, quer por seus resultados gerais, para determinar
a reorganização das teorias sociais. Vistas no futuro, serão, depois de sistematizadas, a
base espiritual permanente da ordem social, enquanto durar sobre o globo a atividade
de nossa espécie,
Este resumo geral apresenta a existência social dos cientistas sob um ponto de
vista que se afasta das ideias correntes. Resta-me, portanto, desenvolvê-lo para ter um
primeiro esboço completo da grande revolução moral que tende hoje a realizar-se no
gênero humano.
A história política dos cientistas, considerada em seu conjunto, apresenta três
grandes épocas, que correspondem exatamente ao estado a princípio teológico, em
seguida, metafísico, e, finalmente, positivo, da filosofia humana, assunto de nosso
primeiro artigo. Devo limitar-me aqui a uma exposição sumária desta nova série de
fatos gerais.
O primeiro sistema social, em que o espírito humano pôde começar a fazer
progressos reais e duráveis, teve como caráter fundamental a confusão do poder
temporal com o espiritual ou, mais exatamente, a subordinação completa de um em
relação ao outro. Em termos mais precisos: esse sistema consistiu, essencialmente, na
preponderância geral e absoluta de uma casta sábia, organizada sob a influência da
filosofia teológica.
Toda sociedade primitiva, enquanto seu desenvolvimento é indígena e
espontâneo, manifesta uma tendência natural para tal organização. Mas este regime
não pôde estabelecer-se completamente e adquirir grande consistência senão nos
países em que, por uma combinação favorável de circunstâncias de clima e de posição,
que não cabe aqui explicar, a filosofia teológica pôde adquirir desde logo todo o seu
desenvolvimento, obtendo, como consequência, ascendente irresistível sobre as outras
partes do sistema social. Essas condições foram realizadas no Egito, na Caldéia, no
Indostão, no Tibete, na China e no Japão, podendo acrescentar-se o Peru, e,
provavelmente, também, o México, algumas gerações antes da descoberta da América.
Considerando este estado da sociedade simplesmente sob o ponto de vista
abstrato, admira-se sobretudo esse profundo caráter de unidade e entrelaçamento que
domina então completamente no sistema intelectual. Nunca, desde essa época, o
espírito de conjunto se manifestou no mesmo grau, e somente poderá ser reencontrado
no futuro, pela construção direta da filosofia positiva.
A homogeneidade das concepções humanas, uniformemente teológicas então
foi, sem dúvida, a causa primeira dessa sistematização absoluta. Mas esta causa, que
foi universal, não produziu por toda parte efeito semelhante, pelo menos em grau tão
acentuado. Era necessária, além disto, a organização do corpo científico peculiar a esse
estado social.
Somente pelo fato da existência de uma casta de sábios, podemos afirmar que
se havia estabelecido, desde então, entre a teoria e a prática, uma divisão regular e
permanente; mas, em primeiro lugar, essa divisão era incompleta sob um aspecto
muito importante, pois não se estendia às combinações sociais. Em segundo lugar, não
existia qualquer distribuição determinada de trabalho no domínio da teoria. Tal é a
natureza especial desta primeira organização científica.
A universalidade elos conhecimentos, que é agora tão justamente considerada
como ambiciosa quimera, era então, pelo contrário, o caráter dominante dos membros
da corporação espiritual. Nas classes superiores da hierarquia, cada ministro do culto
era simultaneamente astrônomo (ou, antes, astrólogo), físico, médico, até engenheiro,
e também legislador e estadista. Numa palavra, os nomes de sacerdote, de filósofo e
sábio, que, mais arde, tomaram acepções tão diversas, eram então rigorosamente
sinônimos; a combinação desses três caracteres é evidenciada na pessoa de Moisés,
que se pode considerar como o tipo mais conhecido desse primeiro estágio do espírito
humano.
E fácil compreender esse estado de universalidade, porque depende
diretamente das mesmas causas que determinaram a preponderância da casta sábia, e
é, pelo menos, tão inevitável. Se uma combinação qualquer de circunstâncias físicas
permitiu às concepções humanas, em certos países, um desenvolvimento bastante
célere para que se pudessem sistematizar muito rapidamente sob a forma teológica,
resultou evidentemente dessa mesma celeridade que, na época de coordenação, os
diversos ramos dos conhecimentos não eram ainda bastante extensos para exigirem ou
admitirem uma divisão real e estável.
Mas esta universalidade de trabalhos não coincide unicamente, por uma relação
necessária, com a supremacia social da casta sábia: é também o seu maior
sustentáculo. O crédito obtido pelos padres, como astrônomos, médicos e engenheiros,
é a base de sua autoridade política; e, reciprocamente, o poder de que gozam é uma
condição indispensável ao desenvolvimento de suas especulações científicas.
E na própria natureza desta organização espiritual que se deve procurar a
verdadeira e fundamental explicação do vigor e da consistência admiráveis que sempre
tão fortemente caracterizaram este sistema social primitivo, em comparação com todos
os que existiram depois. Numa ordem em que tudo se liga de tal maneira que, para
atacar qualquer parte, seria necessário abalar diretamente o conjunto, deve espantar-
nos essa energia de resistência que, até aqui, constantemente superou a ação de todas
as forças conhecidas? Este estado social deve, por isto, ser considerado como a
verdadeira época do triunfo do sistema teológico. Qualquer que haja sido o poder real,
demonstrado mais tarde por este sistema, pode dizer-se, sem exagero, que após essa
época ele entrou em decadência contínua. Até aí é que deveria a espécie humana
remontar se pudesse retroceder.
Reconhecendo que o regime teocrático era, ao mesmo tempo, a consequência
necessária e a condição indispensável dos primeiros progressos do espírito humano,
não se pode dissimular tender, pela sua natureza, a tornar-se obstáculo permanente e
quase invencível a progressos mais extensos.
Quer haja uma incompatibilidade necessária entre a extrema solidez do sistema
social e sua perfectibilidade; quer a combinação dessas duas grandes propriedades
tivesse sido apenas superior aos meios que o homem pôde empregar até aqui, é certo
haverem os povos mais fortemente organizados acabado por ser quase estacionários.
Foi o que ocorreu em todos os países onde a teocracia havia podido estabelecer-se
completamente. E a explicação disto é fácil.
Somente pela separação dos trabalhos há aperfeiçoamento possível para o
espírito humano. O próprio sistema teocrático só tinha valor, sob o ponto de vista
intelectual, por ter sido o único meio de organizar, sobre bases regulares e estáveis, um
começo de divisão entre a teoria e a prática. Mas esta primeira divisão que, uma vez
fixada, era, pelo caráter do sistema, irrevogável, precisava ser impelida muito mais
longe a fim de permitir indefinidamente o desenvolvimento das faculdades humanas.
Tal era o vício radical desse regime primitivo.
As diversas ordens de nossas concepções não podem, por sua natureza,
desenvolver-se com a mesma rapidez. Estabeleci acima a sucessão necessária que
constantemente se manifesta em sua formação.
Vê-se, por isto, que essa organização científica, em virtude da qual todas as
diversas teorias são cultivadas simultaneamente pelos mesmos espíritos, não deve
tardar a opor-se fortemente ao aperfeiçoamento de nossos conhecimentos, pois só
comporta os progressos que podem ser simultâneos para todas as partes do sistema
intelectual. Esta conclusão é singularmente robustecida se, com o ponto de vista
puramente filosófico, se combina o ponto de vista político da fusão do poder temporal
com o espiritual, que caracteriza esta primeira época social. Com efeito, somente por
esta causa, qualquer aperfeiçoamento importante das teorias humanas se torna
impossível, porque tende à inversão total e imediata da ordem política. Que progressos
importantes poderiam ser esperados num regime em consequência do qual toda
descoberta essencial deve necessariamente ser encarada não só como um ato d.e
impiedade, mas ainda uma sedição direta?
A filosofia teológica era, em seus primeiros tempos, e foi mesmo até o
presente, a única em condições de dirigir a sociedade. Por conseguinte, enquanto o
poder temporal não foi mais do que uma derivação do espiritual, e enquanto, mesmo,
as teorias físicas e as doutrinas sociais não se separaram completamente, as primeiras
não teriam podido sair do estado teológico sem destruir as bases da sociedade.
Se, portanto, os progressos do espírito humano não foram possíveis na origem
senão mediante o primeiro grau da divisão do trabalho, regularizado pelo regime
teocrático, é evidente que os progressos ulteriores exigiram, de modo não menos
indispensável, uma divisão muito mais particularizada, que só pôde efetuar-se sob um
regime completamente diverso.
Era necessário, acima de tudo, que a cultura do espírito humano se tornasse
independente da direção imediata da sociedade, a fim de que a divisão e o
aperfeiçoamento de nossos conhecimentos pudessem verificar-se sem comprometer a
existência da ordem política.
O desenvolvimento natural das diversas teorias acabaria, sem dúvida, por
determinar espontaneamente esta separação, mesmo nas teocracias, embora, pelos
motivos precedentes, tal modificação devesse ser nelas consideravelmente retardada.
Parece impossível, de fato, que, ao cabo de certo tempo, por mais lentos que se
presumam os progressos, a dificuldade sempre crescente de abranger, de modo
contínuo, em toda a sua extensão, o sistema universal das ideias humanas, não
conduza a uma especialização cada vez maior. Pode-se mesmo observar, nas castas
sábias das diversas teocracias, alguns ensaios de uma divisão aperfeiçoada.
Mas a marcha dos acontecimentos não permitiu a nenhuma teocracia conhecida
existência bastante prolongada para que nela se pudesse observar o desenvolvimento
de tal revolução. Felizmente, para a civilização humana, a nova organização científica
se estabeleceu por via muito mais rápida.
Foi na Grécia que se realizou essa modificação tão indispensável aos destinos
futuros do espírito humano. Dado o modo pelo qual os conhecimentos foram levados
do Egito e do Oriente para essa região, aí se encontraram, desde o começo,
inteiramente desligados da ordem social. A atividade militar, para a qual tendiam
necessariamente as sociedades gregas, aí tornava impossível o estabelecimento
duradouro da teocracia pura.
Ao mesmo tempo, outras causas opunham poderosos obstáculos ao livre e
pleno desenvolvimento da atividade militar de modo a absorver exclusivamente, como
em Roma, todas as grandes forças intelectuais. Por este feliz conjunto de
circunstâncias, a separação entre a teoria e a prática foi imediatamente muito mais
completa do que nas teocracias, e mesmo a teoria pôde livremente subdividir-se.
Formou-se uma classe de homens tão puros de qualquer ambição política quanto
afastados de toda ocupação material, devotando-se a uma existência inteiramente
filosófica.
Partindo dos primeiros conhecimentos de toda espécie acumulados pelas castas
sacerdotais, sua finalidade única e constante foi cultivar, tão completamente quanto
possível, o domínio do espírito humano. Esta memorável revolução, na organização do
corpo científico, é resumida, aos olhos do observador, pela distinção nítida
estabelecida, desde esse momento, entre o nome de filósofo e o de sacerdote. A este
novo estado corresponde, abstratamente, o caráter metafísico que começa então a
manifestar-se de modo claro no sistema intelectual.
Na origem desta segunda organização só houve progresso real no fato de
tornar-se a existência da corporação espiritual puramente especulativa e
completamente desligada de qualquer interferência na direção dos negócios públicos.
Além disto, os primeiros sábios da Grécia não introduziram mais especialidades em
suas pesquisas teóricas do que as castas sacerdotais, exceto quando, desde o começo,
assinalaram às belas-artes, como mais desenvolvidas, um domínio inteiramente
separado. Mas, apesar desta confusão, ainda inevitável na época, a grande condição
estava preenchida, e a divisão dos conhecimentos humanos não tardou a estabelecer-se
gradualmente, por si mesma, à medida que o seu desenvolvimento se tornava mais
extenso.
Os filósofos haviam, a princípio, esperado poder consagrar-se conjuntamente
ao aperfeiçoamento das concepções sobre o homem moral e a sociedade e ao das
teorias relativas aos fenômenos físicos. A continuação de seus trabalhos tornou, por
fim, evidente a necessidade de uma separação total entre essas duas ordens de
pesquisas. Os primeiros ensaios para aperfeiçoar as teorias sociais, onde já se pode
observar uma tendência vaga para despojá-las do caráter teológico, fizeram, porém,
compreender ser tal transformação ainda muito superior às forças do espírito humano.
As escolas filosóficas, cujas especulações haviam tomado mais particularmente
tal diretriz, reconheceram que, sob este aspecto, e sobretudo no tocante às
necessidades da organização social, era impossível ir além dessa grande generalização
da doutrina teológica, a que já havia chegado, desde muito, a classe superior das
hierarquias sacerdotais. Desde então, sendo os conhecimentos relativos ao mundo
exterior e ao homem físico suscetíveis, por sua natureza, de aperfeiçoamento mais
rápido, e, ao mesmo tempo, estando ligados, não menos diretamente, à ordem política,
foram inteiramente separados das doutrinas sociais. Estas continuaram teológicas,
enquanto as outras se tornaram metafísicas, aproximando-se, por consequência, mais
do estado positivo.
Foi assim que se estabeleceu, pouco a pouco, uma organização espiritual
completamente diversa da organização das castas sacerdotais. Os nomes de sábio e de
filósofo, que, a princípio, separando-se do de padre, tinham permanecido equivalentes
entre si, se tornaram, por seu turno, perfeitamente distintos um do outro. O primeiro só
se aplicou, desde então, aos pensadores entregues à cultura dos conhecimentos físicos,
e cuja existência isolada, mesmo especulativamente, do movimento da sociedade, foi
ainda mais exclusivamente teórica do que a dos primeiros sábios da Grécia.
(Nessa época, pode ver-se em Arquimedes o tipo perfeito da classe científica
propriamente dita. A atividade tão exclusivamente especulativa dessa classe é, sem
dúvida, bem caracterizada pelo quadro que traçam os historiadores da morte sublime
desse grande homem; mas o é ainda mais profundamente pela admirável ingenuidade
com que se desculpa, perante a posteridade, de haver momentaneamente sacrificado
seu gênio a descobertas de utilidade material).
O segundo designou apenas os que se ocupavam, com exclusividade, dos
estudos morais e sociais, e, daí por diante, se esforçaram em participar sempre, cada
vez mais, do governo espiritual. Numa palavra, a distinção foi, desde essa época,
essencialmente a mesma que subsiste ainda hoje. As duas classes estavam de tal modo
separadas, que não tardaram a tornar-se rivais nas últimas épocas da filosofia grega.
Foi nas proximidades do século de Alexandre que a separação começou a
pronunciar-se com clareza, sendo profundamente caracterizada por duas grandes séries
de trabalhos: os de Aristóteles, com direção especialmente científica, e os de Platão,
com orientação filosófica propriamente dita.
A formação do museu de Alexandria, tão diferente das antigas escolas gregas, é
um testemunho irrecusável de tal separação, ao mesmo tempo em que poderosamente
contribuiu para desenvolvê-la.
Foi através dessa separação que se realizaram todos os progressos ulteriores do
espírito humano. As ciências, inteiramente isoladas, puderam desde então estender-se,
subdividir-se, aperfeiçoar-se, tornando-se, pouco a pouco, positivas, de metafísicas
que eram no começo desse período, sem perturbarem a economia social.
Concentrando suas forças sobre um ponto único, pôde a filosofia determinar,
na massa das nações policiadas, a passagem do politeísmo para o teísmo, e
desenvolver assim, em toda a sua energia, o poder das doutrinas teológicas para
civilizar o gênero humano.
Esta organização espiritual, nascida na Grécia, foi o primeiro fundamento do
sistema social, estabelecido doze séculos após, tendo por caráter básico a admirável
separação do poder espiritual relativamente ao temporal, que o tornou tão superior ao
sistema teocrático. O germe dessa separação existia, sem dúvida, na atividade
puramente especulativa das seitas filosóficas no seio das populações gregas. Mas, para
que pudesse desenvolver-se, era mister, primeiro, que a separação entre as ciências e a
filosofia permitisse a esta última tender livremente para a reunião das diversas escolas
num teísmo comum. Atingido este alvo, a divisão não exigiu mais do que uma grande
condição temporal a fim de começar diretamente a determinar uma nova organização
social. Consistia essa condição na decadência do sistema de conquista, produzida pela
reunião de todo o mundo civilizado sob um domínio único, resultante da
preponderância de Roma. Quando estas duas bases fundamentais foram assentadas, a
marcha dos acontecimentos pode acelerar ou retardar o desenvolvimento do sistema
social da Idade Média, mas este deveu necessariamente acabar por constituir-se.
Se a origem inicial deste sistema deve ser atribuída à organização do espírito
humano na Grécia, descobre-se também nela a causa primitiva da decadência que
experimentou durante os quatro últimos séculos. Pela separação absoluta estabelecida
entre as ciências e a filosofia, não pôde o sistema teológico relacionar-se com os
conhecimentos especiais senão no estado em que se achavam quando ele tomou seu
caráter definitivo. Era-lhe necessariamente impossível prestar-se a seus progressos
ulteriores. Quando estes começaram a tornar-se positivos, a incompatibilidade
intelectual entre a teologia e a física não tardou a revestir um caráter político e a
pronunciar-se, mais ou menos abertamente, como hostilidade fundamental entre o
poder espiritual e a classe científica, primitivamente constituída fora do sistema social.
(Alguns pensadores, muito ilustres, que sentem a verdadeira causa da
decadência do sistema teológico, desejariam, hoje, a fim de restaurá-lo, refundi-lo com
as ciências. Mas é desconhecer a observação fundamental, que acabo de indicar.
Mesmo se a heterogeneidade radical da teologia e da física não tornasse sua
combinação absolutamente impossível, seria necessário, para efetuá-la, poder
recomeçar sucessivamente, em sentido inverso, todas as modificações sobrevindas,
desde Pia tão, na organização espiritual da sociedade. Sem dúvida, a Europa atual não
poderia de novo tornar-se egípcia).
Tal é o grande cisma originário que se tornou, mais tarde, o modo geral da
desorganização desse regime.
Platão proibia a entrada, em sua escola, a todos os homens estranhos à
geometria, a única ciência que possuía, então, caráter pronunciado. Durante cerca de
um século, seus discípulos tiveram grande papel no aperfeiçoamento deste ramo de
nossos conhecimentos. Mas imperiosa necessidade manifestou logo plenamente a
impossibilidade de conciliar tal ordem de pesquisas com os trabalhos filosóficos, que
esta seita considerava justamente como os mais importantes a serem por ela
empreendidos, e como lhe sendo especialmente destinados por sua constituição
primitiva. Tornou-se, por isto, pouco e pouco e para sempre, perfeitamente estranha ao
movimento científico. Arquimedes, Apolônio e Hiparco, os três grandes matemáticos
da antiguidade, não eram certamente adeptos de Platão.
Durante muito tempo, a oposição fundamental entre as ciências e a filosofia
não foi bastante profunda para que sua rivalidade pudesse comprometer o sistema
teológico. Quando começou a fazer-se sentir, foi perigosa para as próprias ciências,
antes de sê-lo para a teologia. Santo Agostinho tenta, em verdade, refutar os
raciocínios dos astrônomos de Alexandria sobre a esfericidade da Terra e tal
empreendimento, por parte de tão grande espírito, mostra claramente até que ponto
havia chegado, naquela época, o isolamento entre a filosofia e as ciências. Mas, ao
mesmo tempo, reconhece-se que esta discussão era, para ele, puramente filosófica, e,
como membro do poder espiritual, não lhe atribuía, de modo algum, a grande
importância daquela que foi determinada mais tarde pelas descobertas de Copérnico e
Galileu.
A reorganização do estado social, sob a influência do teísmo, era uma operação
muito importante para não atrair, quase exclusivamente, todas as forças intelectuais, e
exigir acima de tudo a atenção e a estima da sociedade. Por isto mesmo, durante sua
longa duração, as ciências foram, comparativamente, muito abandonadas, pelo menos
no Ocidente.
(Considera-se comumente esta espécie de abandono das ciências como uma
consequência das invasões dos bárbaros; mas é, evidentemente, muito anterior.
Manifestou-se desde os primeiros séculos do cristianismo, pelo estado de torpor em
que caiu o museu de Alexandria. Veem-se mesmo sinais muito claros desta tendência
a partir do momento em que o platonismo começou a triunfar sobre as outras seitas
filosóficas. O afastamento e mesmo a animosidade recíproca, entre os homens de
ciências e os filósofos propriamente ditos, desenvolveram-se, desde então, sempre
cada vez mais).
Além disto, a própria lentidão de seus progressos permitia facilmente aos
membros do poder espiritual manterem-se ao seu nível, sem que o seu caráter
teológico fosse de modo algum alterado.
Mas, quando a natureza do sistema social foi definitivamente desenvolvida
pelos trabalhos do grande Papa Hildebrando e de seus primeiros sucessores, então o
germe da dissolução que o sistema continha desde o seu nascimento começou logo a
tornar-se sensível. Voltando-se as principais forças do espírito humano e a atenção
pública pouco a pouco para as ciências, determinaram grandes e rápidos progressos
nessa direção. Desde esse momento, o poder espiritual não tardou a declinar,
mormente quando o caráter positivo de nossos conhecimentos começou a acentuar-se.
Em vão o clero testemunhou, a princípio, empenho muito honroso em
apoderar-se do novo domínio intelectual. Vontades individuais, ou mesmo coletivas,
por mais poderosas que fossem, não podiam prevalecer contra a inflexível natureza das
coisas, a qual estabelecia uma incompatibilidade absoluta entre a teologia e a física.
Nem também podiam prevalecer contra esse caráter de isolamento das ciências, tão
profundamente impresso pela filosofia teológica da Idade Média, desde a sua origem,
e que desde então se tinha desenvolvido continuamente.
Acabou-se por sentir geralmente que a cultura dos conhecimentos positivos não
podia pertencer, de pleno direito, senão a espíritos que lhes fossem inteiramente
devotados e não tivessem de sustentar doutrinas heterogêneas.
(Mais tarde, a nova série de esforços - tentados, com tanta perseverança e
habilidade, pelos jesuítas, para se apoderarem do domínio das ciências, e que não teve
melhor resultado do que a antiga, tornou ainda mais sensível a impossibilidade radical
de semelhante empresa).
Os grandes estorços do clero, nos séculos XII e XIII, a fim de apoderar-se das
teorias naturais em seu nascimento, foram singularmente favoráveis a seus progressos,
porque essa corporação era, então, a única cujos membros pudessem entregar-se, sem
obstáculos, à atividade especulativa. Mas não mudaram nem podiam mudar o caráter
sacerdotal. Se alguns eclesiásticos se votaram inteiramente a essa nova classe de
trabalhos, deixaram de ser padres para se tornarem cientistas, sem que, por isto, a
oposição natural dos dois sistemas intelectuais diminuísse de qualquer modo. Somente
como físicos são hoje citados Alberto Magno e Rogério Bacon, sem que ninguém se
recorde de haver sido um arcebispo e o outro monge.
A incompatibilidade das teorias naturais e da filosofia teológica não tardou a
manifestar-se claramente, pouco tempo depois desses dois homens ilustres, pela
lentidão com que geralmente o clero se entregou a este novo estudo, e mesmo pela
espécie de aversão instintiva que em breve lhe inspirou. Observa-se um sinal sensível
dessas disposições na obrigação em que os reis se julgaram de logo instituir, e cada
vez mais, um ensino especial das ciências, sob sua proteção imediata, e de todo
independente da autoridade eclesiástica. E dessa época que datam a primeira extensão
da metafísica às ideias morais e sociais, e também as primeiras tentativas diretas de
oposição às doutrinas do clero. Pela influência destas diversas ordens de fatos, a
separação e a oposição entre a ciência e a teologia foram, daí por diante, aos olhos de
todos, plena e irrevogavelmente estabelecidas. As lutas, ainda mais perceptíveis, que
ocorreram depois, não fizeram senão desenvolver continuamente tal antagonismo.
Não cabe entrar aqui em particularidades de exposição. Basta haver verificado
que, desde a época em que a filosofia teológica da Idade Média chegou a produzir, por
inteiro, a organização social correspondente, sua atividade foi essencialmente
defensiva; uma nova ordem espiritual nasceu pelo desenvolvimento das teorias
naturais, atraindo, quase sempre desde então, as grandes forças intelectuais; os
conhecimentos positivos penetraram, cada vez mais, na educação geral; os sábios,
numa palavra, mantidos fora do poder espiritual, adquiriram, pouco a pouco, todo o
império sucessivamente perdido pelo clero.
Que lhes resta fazer para constituírem, por seu turno, um novo poder espiritual
a seu modo não menos poderoso do que o antigo? Cumpre-lhes completar o sistema
dos conhecimentos naturais, formando a física social e, por conseguinte, realizar
diretamente a construção final da filosofia positiva.
Será assim, e somente assim, que, assumindo um caráter inteiramente geral,
poderá a ciência tornar-se apta a suprir a impotência da teologia quanto ao governo
moral da sociedade.
Este esboço do futuro das Ciências leva a considerar uma terceira organização
do corpo científico, que corresponde ao estado positivo da filosofia, como a
organização grega a seu estado metafísico, e como a organização egípcia, ou asiática, a
seu estado teológico.
Tendo os cientistas conseguido, enfim, construir sua filosofia própria,
incorporar-se-ão, de novo, à sociedade, para serem seus diretores espirituais de
maneira absolutamente diversa da teocrática. Resta-me indicar o trabalho interior que
se deve efetuar, para esta finalidade, na classe científica. Os limites deste escrito só me
permitem apresentar mui sumariamente esta importante exposição. Voltarei, mais
tarde, de maneira especial, sobre cada uma de suas partes essenciais.
É sobretudo, o sistema intelectual positivo que exige e provoca a divisão do
trabalho. Desde sua origem, o estudo das teorias naturais se foi constantemente
subdividindo, cada vez mais, entre os diversos espíritos que com ele se ocupam. E só
pelo seu indefinido acréscimo continuará, necessariamente, a subdividir-se sempre
mais. Não se trata, portanto, da questão de imprimir aos sábios o caráter de
generalidade, que ainda lhes falta, através de uma universalidade de trabalhos análoga
à das castas sacerdotais, e que seria evidentemente impossível, dada a extensão atual
de cada ordem de conhecimentos, admitindo-se mesmo pudesse tal projeto ser tentado.
É, pelo contrário, por uma aplicação mais completa do princípio da divisão do
trabalho, que esse indispensável aperfeiçoamento pode ser obtido. Trata-se unicamente
de confiar o estudo social e a filosofia, que se tornaram positivos, a uma nova secção
do corpo científico. Esta classe será distinta de todas as outras, mas somente tanto
quanto estas o são entre si. Será continuamente levada, pela natureza de suas
doutrinas, a manter-se com elas em relação direta e contínua, como elas o serão,
reciprocamente, a seu respeito, por uma educação geral que precederá, para cada uma,
à educação especial.
Observando-se a formação interna do corpo científico, pode verificar-se que,
sob o aspecto da organização, como sob o das doutrinas, só se trata de levar a seu
completo desenvolvimento uma revolução que se ampliou sempre progressivamente
até hoje. Isto é fácil de conceber segundo a ordem enciclopédica acima estabelecida.
De fato, as diversas classes de cientistas, conquanto todas especiais, não o são
no mesmo grau. Os geômetras são naturalmente os mais especiais, porque a sua
ciência não se apoia em nenhuma outra, sendo, pelo contrário, a base de toda a
filosofia natural. Quando se passa aos astrônomos, encontra-se já maior generalidade
nos conhecimentos, porque, além do estudo direto dos fenômenos que consideram,
estão necessariamente sujeitos ao emprego contínuo das ciências matemáticas. Os
físicos, propriamente ditos, são ainda menos especiais, já que a natureza de seus
estudos exige um recurso permanente aos métodos matemáticos e um conhecimento
direto das leis gerais do sistema do mundo.
Por motivo semelhante, os químicos que preenchem as condições impostas
pela natureza dos fenômenos por eles estudados, possuem necessariamente um grau de
generalidade ainda maior. Por fim, os fisiologistas, ocupados com fenômenos cujas
leis se entrelaçam com as de todos os outros, são naturalmente os menos
especializados dentre todos os cientistas, sendo obrigados a possuir um conhecimento,
pelo menos geral, das ciências matemáticas, astronômicas, físicas e químicas.
Os cientistas em física social não farão mais do que se elevar, necessariamente,
na mesma direção, a um grau imediatamente superior ao dos fisiologistas. Estudando
uma classe de fenômenos que, por sua natureza, dependem das leis de todos os
precedentes, terão indispensavelmente necessidade de uma educação preliminar que os
familiarize com o conhecimento dos métodos e dos resultados principais de todas as
outras ciências positivas, única base racional de seus trabalhos próprios. Tendo, assim,
constantemente sob os olhos o conjunto dos conhecimentos físicos, serão
inevitavelmente levados a construir diretamente a filosofia positiva, logo que sua
ciência especial houver feito suficientes progressos, de forma a não absorver
exclusivamente toda a sua atividade.
(Além disto, para terminar esta questão de universalidade, sobre a qual tanto se
tem discutido, seria mister, ao que me parece, distinguir entre a universalidade ativa e
a passiva. A primeira conduz à aspiração de aperfeiçoar, ao mesmo tempo, todos os
ramos dos conhecimentos humanos: é evidentemente absurda e quimérica. Limitando-
se à cultura especial de uma única ciência, consiste a segunda em possuir suficientes
noções exatas sobre todas as outras, para bem compreender-lhes o espírito e sentir-lhes
profundamente as relações com aquela de que se ocupa com exclusividade. Esta
universalidade é, não só possível, mas indispensável mesmo em qualquer grau; existe,
de fato, mais ou menos, nas diversas classes de cientistas, conforme ao que acabo de
expor, e deve desenvolver-se completamente entre os que se dedicarem à física social).
Ao mesmo tempo em que se formar esta nova classe de cientistas, operar-se-á
também no corpo científico uma subdivisão importante, indispensável à precisão de
seu caráter filosófico e, por consequência, à firmeza de sua ação política. Consistirá
em um novo e último aperfeiçoamento: a divisão geral entre a teoria e a prática. Esta
divisão é ainda incompleta, porque o caráter de engenheiro foi sempre, mais ou menos,
contundido com o de cientista, que, mesmo hoje, o altera profundamente. Na origem
das teorias naturais, esta confusão era, sem dúvida, inevitável; ao mesmo tempo era
indispensável, a fim de tornar apreciável sua importância aos espíritos ainda muito
rudes para compreenderem toda a utilidade teórica não suscetível de ser materializada
imediatamente. Hoje, porém, esta relação direta e permanente não é mais necessária. É
principalmente por sua importância filosófica que deverão as ciências ser doravante
julgadas. Longe, portanto, de terem os cientistas de restringir seu profundo sentimento
da dignidade teórica, devem, pelo contrário, resistir obstinadamente a todas as
tentativas, que poderiam ser feitas, tendo-se em vista o espírito demasiadamente
prático do século atual, a fim de reduzi-las às simples funções de engenheiros. Mas é
sobretudo por doutrinas apropriadas que podem extinguir, em definitivo, pretensões
que necessariamente conservarão certa legitimidade, enquanto as relações entre a
teoria e a prática não forem regularmente organizadas por um sistema de concepções
adaptado, de modo especial, a este destino.
Tal sistema só os cientistas podem construí-la, porque deve derivar de seus
conhecimentos positivos sobre a relação entre o mundo exterior e o homem. Esta
grande operação é indispensável a fim de constituir a classe dos engenheiros como
corporação distinta, servindo de intermediária permanente e regular, entre os cientistas
e os industriais, para todos os trabalhos particulares.
(Pode facilmente reconhecer-se no corpo científico, tal como existe hoje, certo
número de engenheiros distintos dos cientistas propriamente ditos. Esta classe
importante teve necessariamente de formar-se por último, quando a teoria e a prática,
partindo de pontos tão opostos, avançaram bastante, ambas, para se darem as mãos, É
isto que torna seu caráter distinto ainda tão pouco acentuado. Quanto às suas doutrinas
próprias, que lhe devem dar existência claramente especial, não é fácil indicar-lhes a
verdadeira natureza, porquanto delas até hoje só há alguns rudimentos. Só conheço a
concepção do ilustre Monge sobre a geometria descritiva, que possa dar ideia exata
dessas doutrinas, por ser a teoria geral imediata das artes de construção. É uma série de
concepções análogas, relativas a todas as outras grandes operações práticas,
racionalmente analisadas, o que deve formar o corpo da doutrina peculiar aos
engenheiros, Esta formação supõe, naturalmente, já esteja a elaboração da filosofia
positiva adiantada, até certo ponto, porque qualquer aplicação às artes exige
ordinariamente a combinação de conhecimentos que se relacionam, ao mesmo tempo,
com vários pontos de vista científicos. O estabelecimento da classe dos engenheiros,
com seu caráter próprio, apresenta importância tanto maior quanto essa classe será,
sem dúvida, o agente direto e necessário da coligação entre os cientistas e os
industriais, única através da qual poderá diretamente começar o novo sistema social).
Tais são, portanto, em resumo, as diversas doutrinas necessárias para completar
a organização moderna do corpo científico, e já haviam sido por mim indicadas como
indispensáveis para terminar a formação do sistema intelectual apropriado ao novo
estado do espírito humano.
Esses trabalhos, sem dúvida, não serão executados pelos cientistas atuais, cujas
forças estão irrevogavelmente empenhadas em pesquisas muito importantes, que seria
absurdo e funesto tentar interromper, Mas, por sua natureza, esses trabalhos somente
poderiam ser empreendidos, com utilidade, por espíritos educados sob a influência dos
diversos métodos positivos, não só familiarizados com os principais resultados de
todas as ciências físicas, mas ainda sujeitos à sanção direta e contínua do corpo
científico existente,
É sobretudo a formação, mais ou menos rápida, dessa nova classe de cientistas,
que naturalmente determinará a velocidade dos trabalhos complementares, destinados
a investir, por fim, o sistema positivo da supremacia espiritual que a marcha invariável
do gênero humano lhe assinala no futuro,
Quando esses diversos trabalhos estiverem bastante adiantados, para tomarem
caráter irrevogável, ver-se-á a educação social cair, espontaneamente e para sempre,
nas mãos dos cientistas. Tudo já se acha preparado para esta grande revolução.
Os conhecimentos naturais se tornaram, enfim, aos olhos de todos e se
tornarão, cada vez mais, o objetivo principal do ensino. Se o sistema regular de
instrução pública não corresponde suficientemente a esta premente necessidade dos
espíritos atuais, estes procuram dar-lhe satisfação fora e conseguem aí encontrá-la,
Continuando os governos a secundar, como fizeram desde a origem, esta
tendência universal, criam com tal intuito uma série de novos estabelecimentos
especiais. Desde os graus superiores da instrução teórica até os mais simples
rudimentos, destinados às inteligências menos cultivadas, esforçam-se, por todos os
meios à sua disposição, em imprimir aos espíritos o caráter positivo.
(Ao que me parece, não se tem considerado, sob o ponto de vista conveniente e
com toda a atenção necessária, a série de esforços feitos, particularmente nos últimos
trinta anos, pelos diversos governos europeus a fim de propagarem, em todas as
classes da sociedade, a instrução científica através de instituições especiais,
independentes das universidades regulares. Tal movimento acentuou-se primeiro pela
fundação de uma escola (Escola Politécnica) que apresentou a inovação filosófica de
um estabelecimento de instrução teórica, de alto grau de generalidade, cujo caráter
positivo é, todavia, absolutamente isento de qualquer mescla teológica e metafísica.
Este movimento continuou, depois, ininterruptamente, com intensidade sempre
crescente. Neste momento, a classe operária é imediatamente chamada a dele
participar pelas instituições de que foram zelosos defensores, em França, o Sr. Charles
Dupin, e, na Inglaterra, o Dr. Birbeck, e que os governos poderosamente animam.
Estabelecimentos semelhantes vão ser criados mesmo na Rússia; existem já na Áustria
e na Prússia, e dentro de alguns anos se multiplicarão por toda a Europa. Sua
influência não deixará de determinar a fundação de instituições análogas e mais
elevadas para as classes superiores da indústria, como se pode começar a observar na
Inglaterra. É, talvez, por esta via direta que a educação social poderá ser inteiramente
regenerada, quando se formarem as doutrinas necessárias, porquanto seria
provavelmente muito embaraçoso refundir as universidades, partindo do seu estado
atual).
Numa palavra, as medidas políticas que, em verdade, podem contribuir para
esta regeneração já se acham essencialmente desenvolvidas. Só falta a grande
condição filosófica, sem a qual todos esses esforços parciais, por mais persistentes que
sejam, não poderiam dar qualquer resultado muito importante, ou seja, a formação das
doutrinas gerais positivas, acima indicadas.
O conjunto das considerações apresentadas neste capítulo pode ser encarado
como um primeiro esboço da questão do poder espiritual, tratada unicamente do ponto
de vista filosófico. Depois de ter, assim, assentado, previamente, os princípios da
discussão, poderemos agora examinar de modo direto, em todas as suas partes, esta
grande questão, a mais fundamental que se possa hoje agitar. Tal será o objeto de um
novo trabalho.

QUINTO OPÚSCULO
(Março de 1826)

CONSIDERAÇÕES SOBRE O PODER ESPIRITUAL

Os diversos sistemas sociais, estabelecidos na antiguidade, tiveram, como


caráter comum, a confusão do poder espiritual com o temporal, quer um deles fosse
completamente subordinado ao outro, quer estivessem ambos nas mesmas mãos, o que
ocorreu com maior frequência. Sob este aspecto, tais sistemas devem ser distinguidos
em duas grandes classes, de acordo com aquele dos dois poderes que era
predominante.
Nos povos onde, pela natureza do clima e da localidade, a filosofia teológica
pôde formar-se rapidamente, enquanto o desenvolvimento da atividade militar
permaneceu restrito, como no Egito e em quase todo o Oriente, o poder temporal foi,
apenas, uma derivação c um apêndice do espiritual, regulador supremo e contínuo de
toda a organização social, até nas menores particularidades. Ao contrário, nos países
onde, por influência oposta de circunstâncias físicas, a atividade humana cedo se
voltou essencialmente para a guerra, o poder temporal não tardou a dominar o
espiritual, e a empregá-lo regularmente como instrumento e auxiliar. Tais foram, sem
grandes discrepâncias, os sistemas sociais da Grécia e de Roma, apesar de suas
importantes diferenças.
Não cabe aqui explicar por que essas duas organizações foram necessárias aos
países e às épocas em que se estabeleceram, nem como concorreram, cada qual a seu
modo, para o aperfeiçoamento geral da espécie humana. Só as mencionamos agora
para mostrar, com precisão, a diferença política mais importante que existiu, ao longo
da duração do sistema teológico e militar, entre os caracteres que apresentou na
antiguidade e os que tomou na Idade Média.
Nesta última época, não só o sistema teológico-militar experimentou imenso
aperfeiçoamento, pela fundação do catolicismo e do feudalismo, mas, além disto, a
grande modificação política resultante desse estabelecimento, isto é, a divisão regular
entre o poder espiritual e o temporal, deve ser considerada como tendo melhorado
extremamente a teoria geral da organização social em toda a duração possível da
espécie humana, e sob qualquer regime que deva subsistir. Por esta admirável divisão,
as sociedades humanas puderam naturalmente estabelecer-se em escala muito maior,
graças à possibilidade de reunir, sob um mesmo governo espiritual, populações muito
numerosas e variadas de modo a exigirem diversos governos temporais distintos e
independentes. Em uma palavra, pôde-se assim conciliar, em grau até então quimérico,
as vantagens opostas da centralização e da difusão políticas. Tornou-se mesmo
possível conceber, sem absurdo, em futuro longínquo, mas inevitável, a reunião de
todo o gênero humano, ou, pelo menos, de toda a raça branca, em uma única
comunidade universal, o que implicaria contradição, enquanto os poderes espiritual e
temporal estivessem confundidos. Em segundo lugar, no interior de cada sociedade
particular, o grande problema político, que consiste em se conciliar a subordinação ao
governo, necessária à manutenção da ordem pública, com a possibilidade de se lhe
retificar a conduta, quando se torna viciosa, foi resolvido, tanto quanto podia sê-lo,
pela separação legal, estabelecida entre o governo moral e o governo material. A
submissão pôde deixar de ser servil, tomando o caráter de assentimento voluntário, e a
admoestação pôde deixar de ser hostil, ao menos dentro de certos limites, apoiando-se
num poder moral legitimamente constituído. Antes desta época, não havia alternativa
entre a submissão mais abjeta e a revolta direta, e tais são ainda as sociedades como
todas aquelas organizadas sob o ascendente do maometismo, onde os dois poderes se
acham legalmente confundidos desde a origem.
Assim, em resumo, pela divisão fundamental organizada na Idade Média, entre
o poder espiritual e o temporal, as sociedades humanas puderam ser, ao mesmo tempo,
mais extensas e melhor ordenadas, combinação que todos os legisladores, e mesmo
todos os filósofos da antiguidade, haviam proclamado ser impossível.
Embora haja o sistema católico e feudal produzido, tanto quanto comportava a
época em que dominou, todas as vantagens gerais que acabo de apontar como
inerentes à divisão dos dois poderes, e haja assim contribuído, mais poderosamente do
que todos os sistemas anteriores, para o aperfeiçoamento da humanidade, cumpre não
deixar de reconhecer que sua decadência era, ao mesmo tempo, de todo inevitável e
rigorosamente indispensável.
Demonstrei precedentemente (Vide: Considerações filosóficas sobre as
ciências e os cientistas) que a filosofia teológica e o poder moral, nela baseado, não
podiam e não deviam ter, por sua natureza, senão um império provisório, mesmo no
estado mais perfeito que puderam atingir, isto é, o catolicismo. Estabeleci que depois
de haverem dirigido o gênero humano, em sua educação preliminar, deviam
necessariamente ser substituídos, em sua virilidade, por uma filosofia positiva e um
poder espiritual correspondente. É muito mais fácil fazer uma demonstração análoga a
respeito do poder temporal que, fundando-se primitivamente na superioridade militar,
deve, por fim, ser essencialmente ligado à preeminência industrial no modo de
existência para o qual tendem, cada vez mais, as sociedades modernas.
Destarte, por mais elevado que fosse o valor do sistema católico-feudal, para a
época de seu triunfo, o desenvolvimento da espécie humana, na dupla direção
científica e industrial, devia necessariamente acabar por destruí-lo, e tanto mais
rapidamente quanto este sistema, mais do que qualquer outro, favoreceu tal
desenvolvimento. Provei mesmo que, sob o ponto de vista espiritual, podia notar-se,
na primeira fase deste sistema, o germe de sua destruição que se desenvolveu
imediatamente após a época do seu maior esplendor. Esta observação, que é fácil
estender à ordem temporal (pois a abolição da escravatura e a emancipação das
comunas quase coexistiram com o estabelecimento completo do feudalismo), é
evidente manifestação da natureza provisória do sistema social da Idade Média.
Não faço aqui o histórico da formação desse regime nem de sua dissolução.
Mas, para colocar em toda a sua evidência o estado moral da sociedade de nossos dias,
que é o assunto próprio deste opúsculo, devo lançar uma vista geral sobre a maneira
pela qual se operou a desorganização espiritual desse sistema e as principais
consequências que engendrou.
A destruição de um sistema social e a formação de outro são, por natureza,
duas operações muito complicadas, exigindo muito tempo para serem levadas a efeito.
Primeiro, a instituição de uma nova ordem política supõe a destruição prévia da ordem
precedente, quer para tornar possível a reorganização, afastando os obstáculos que a
impediam, quer para fazer sentir, convenientemente, a sua necessidade pela
experiência dos inconvenientes da anarquia. Mas pode mesmo dizer-se, sob o ponto de
vista puramente intelectual, que o espírito humano, em consequência da fraqueza de
seus meios, não poderia elevar-se à concepção clara de um novo sistema social
enquanto o anterior não fosse quase inteiramente dissolvido. Seria fácil verificar, por
numerosos exemplos, esta deplorável necessidade.
Todas as vezes que a espécie humana é levada a passar de um regime político
para outro, apresenta-se, pela própria natureza das coisas, uma época inevitável de
anarquia, pelo menos moral, cuja duração e intensidade são determinadas pela
extensão e importância da reforma. Este caráter anárquico devia desenvolver-se
necessariamente no mais alto grau, durante o período de desorganização do sistema
católico e feudal, já que se tratava, então, da maior revolução que jamais se pôde
verificar na espécie humana: a transição direta do estado teológico e militar para o
estado positivo e industrial. Relativamente a ela, todas as revoluções anteriores foram
apenas simples modificações. Foi também o que ocorreu nos séculos XVI, XVII e
XVIII, durante os quais essa desorganização se efetuou.
Em todo o curso deste período, que se pode, com todo direito, qualificar de
revolucionário, todas as ideias antissociais foram agitadas e transformadas em dogmas,
a fim de serem empregadas, de maneira contínua, na demolição do sistema católico e
feudal, e reunir, contra ele, todas as paixões anárquicas que fermentam no coração
humano, e são, nos tempos normais, comprimidas pela preponderância de um regime
social completo.
Assim, o dogma da liberdade ilimitada de consciência foi criado, a princípio,
para destruir o poder teológico; em seguida o da soberania do povo para derrubar o
poder temporal; e, por fim, o da igualdade, para dissolver a antiga classificação social,
sem falar das ideias secundárias, menos importantes, que constituem a doutrina crítica,
dentre as quais cada uma procurava demolir uma peça correspondente do antigo
sistema político.
Tudo o que se desenvolve com espontaneidade é necessariamente legítimo
durante certo tempo, uma vez que satisfaz, por isto mesmo, alguma necessidade social.
Estou muito longe, também, de desconhecer a utilidade e mesmo a absoluta
necessidade da doutrina crítica nos três últimos séculos. Creio, além disto, que essa
doutrina subsistirá inevitavelmente, apesar de todas as aparências contrárias, até o
estabelecimento direto de um novo sistema social, e que exercerá, durante todo esse
tempo, uma influência indispensável, e só então a existência do antigo sistema poderá
ser tida como irrevogavelmente extinta. Mas, se, neste sentido, a ação da doutrina
crítica deve ser considerada ainda necessária, em certo grau, ao desenvolvimento da
civilização, não deixa de ser hoje, sob um aspecto muito mais importante, o principal
obstáculo ao estabelecimento da nova ordem política, cujo preparo a princípio
facilitou.
Por uma fatalidade irresistível, os diversos dogmas de que se compõe a
doutrina crítica não puderam adquirir toda a energia que lhes era necessária para
preencherem completamente seu destino natural, a não ser tomando um caráter
absoluto, que os tornou necessariamente hostis, não apenas ao sistema que tinham de
destruir, mas relativamente a qualquer sistema social. Por isto, desde que a demolição
da antiga ordem política se consumou suficientemente, a influência dos princípios
críticos determinou, na sociedade, uma disposição, ora involuntária ora refletida, para
repelir qualquer organização verdadeira. Ao mesmo tempo, o hábito contraído, durante
três séculos, de aplicar essa doutrina a todas as questões sociais, levou naturalmente os
espíritos a tomá-la como base da reorganização, quando as catástrofes determinadas
pela destruição do antigo regime puseram em evidência a necessidade de retomar à
ordem.
Manifestou-se, então, o estranho fenômeno (inexplicável para os que não
acompanharam o desenvolvimento histórico) da desordem moral e política erigida em
sistema, e apresentada como o termo da perfeição social. E, de fato, cada um dos
dogmas da doutrina crítica, quando tomado em sentido orgânico, leva a estabelecer
exatamente, como princípio, sob o aspecto correspondente, que a sociedade não deve
ser organizada.
Seria fácil demonstrar, a propósito de cada um dos dogmas políticos modernos,
que este juízo nada tem de exagerado. Mas não me proponho a empreender agora o
exame direto e completo da doutrina crítica. Só o esbocei aqui para designar
claramente o ponto de vista sob o qual considero essa teoria. Devo limitar-me, para
minha finalidade atual, a considerá-la em seu princípio mais importante, isto é, na
parte relativa à lei fundamental da divisão entre o poder espiritual e o temporal.
Dentre todos os preconceitos revolucionários, produzidos durante os três
últimos séculos pela decadência do antigo sistema social, o mais antigo, o mais
arraigado, o mais universalmente difundido e o fundamento geral de todos os outros, é
o princípio segundo o qual não deve existir na sociedade poder espiritual, ou, o que
vem a dar no mesmo, a opinião que subordina completamente esse poder ao temporal.
Os reis e os povos que lutam, mais ou menos abertamente em relação a todas as outras
partes da doutrina crítica, estão de perfeito acordo quanto a este ponto de partida.
Nos países onde o protestantismo triunfou, esse aniquilamento ou essa
absorção do poder espiritual foi regular e ostensivamente proclamado. Mas, o mesmo
princípio, em última análise, não deixou de ser menos realmente estabelecido, posto
que de maneira mais indireta, nos países que continuaram a intitular-se católicos, nos
quais se viu o poder temporal submeter completamente à sua dependência a hierarquia
espiritual, e o próprio clero prestar-se voluntariamente a essa transformação,
apressando-se em relaxar os laços que o ligavam a seu governo central a fim de
nacionalizar-se. Em resumo, a fim de tornar sensível, por um único fato recente, toda a
força e universalidade de tal opinião, bastará recordar que alguns filósofos, muito
recomendáveis, ao tentarem lutar em nossos dias contra tal preconceito, não
encontraram, em seu próprio partido, senão antagonistas obstinados.
Depois da explicação geral que acima formulei, não temo me acusem,
relativamente a esta ideia-mãe da doutrina crítica, assim como em relação a todas as
outras, de desconhecer-lhes a utilidade e mesmo a necessidade temporárias a fim de
operar a transição do antigo sistema social para o novo.
Pensando, porém, que, se a demolição do primeiro sistema teve de começar
pela ordem espiritual, a mesma marcha deve, necessariamente, ser seguida no
estabelecimento do segundo, sou levado a examinar diretamente este princípio
fundamental da doutrina crítica, a fim de chamar a atenção dos espíritos, tanto quanto
me for possível, para as verdadeiras noções elementares da política geral, esquecidas
há três séculos, no que elas têm de aplicável ao estado atual da sociedade.
Tal o objetivo deste opúsculo, em que tratarei de demonstrar a necessidade da
instituição de um poder espiritual, distinto e independente do temporal, e de
determinar os principais caracteres da nova organização moral apropriada às
sociedades modernas.
Devo, antes de tudo, preparar os espíritos sensatos de modo a se colocarem
num ponto de vista muito pouco acorde com os hábitos atuais. Com este fim, creio
dever indicar diversas observações que, sem tratarem ainda da questão em si mesma,
me parecem próprias para atrair a atenção sobre este assunto, fazendo sentir, de
maneira empírica, que a tendência universal dos publicistas e dos legisladores
modernos para uma organização política desprovida de poder espiritual deixa, na
ordem social, imensa e funesta lacuna.
A experiência do passado poderia evidenciar, de duas maneiras diversas, a
necessidade da divisão entre o poder espiritual e o temporal: seja comparando o estado
da espécie humana, sob o domínio do catolicismo e do feudalismo, com aquele em que
a mantinham as organizações, essencialmente temporais, da Grécia e de Roma; seja
mostrando os inconvenientes que produziu, desde o começo do século XVI, a
supressão do poder espiritual, ou, o que é politicamente equivalente, sua usurpação
pelo poder temporal.
Embora fosse possível tirar, da primeira classe de observações, esclarecimentos
essenciais, diretamente aplicáveis à questão atual, a grande diversidade das épocas,
entretanto, os complicaria em demasia, para que pudessem produzir o sentimento de
evidência que, sobretudo, quero aqui determinar; além disto, já indiquei
suficientemente as bases de tal comparação no início deste opúsculo.
Assim, limitar-me-ei exclusivamente, no que se segue, à segunda espécie de
fatos, cujo testemunho, mais direto e mais sensível, deve ser mais decisivo. Resta-me,
pois, considerar sumariamente, nas sociedades modernas, as principais espécies de
inconvenientes políticos que se podem atribuir, com certeza, à dissolução do poder
espiritual.
Um exame desta importância exigiria, naturalmente, desenvolvimentos muito
extensos. Mas, o leitor, uma vez colocado no ponto de vista conveniente, poderá,
facilmente, suprir, por ele mesmo, as minúcias que me são aqui interditas.
A fim de não introduzir, nesta série de observações, senão fatos suscetíveis de
determinar uma convicção clara e irresistível, afasto de propósito a consideração das
grandes catástrofes, se bem que remontem, em última análise, à desorganização
espiritual da sociedade, porque, apesar desta origem, sua reprodução, de ora em diante,
pode, com razão, ser considerada impossível. Limito-me a examinar o estado habitual
dos povos civilizados, nos três últimos séculos, e tal como subsiste ainda hoje.
Se se consideram, em primeiro lugar, as relações políticas mais gerais, vê-se
que, enquanto o sistema católico conservou grande vigor, as relações de Estado com
Estado foram submetidas, em toda a Europa cristã, a uma organização regular e
permanente, capaz de manter, habitualmente, entre eles, certa ordem voluntária, e de
imprimir-lhes, quando as circunstâncias o exigiram, uma atividade coletiva, como na
vasta e importante operação das cruzadas. Numa palavra, foi possível contemplar
então o que De Maistre chama, com tão profunda justeza, o milagre da monarquia
europeia. Sem dúvida, tendo-se em vista o estado da civilização nessa época, esse
governo era muito incompleto. Mas sob este aspecto, como sob o ponto de vista
nacional, o governo mais imperfeito não é, afinal, muito preferível à anarquia? Que
aconteceu, a este respeito, desde a absorção do poder papal?
As diversas potências europeias entraram, umas em relação às outras, no estado
selvagem; os reis fizeram gravar em seus canhões a inscrição, desde então exatamente
verdadeira: ultima ratio regum.
Que expediente se imaginou para preencher o vazio imenso que deixava, a este
respeito, a anulação do poder espiritual? Devemos, sem dúvida, fazer justiça aos
esforços muito apreciáveis dos diplomatas para produzir e manter, na falta de um laço
efetivo, o que se chamou o equilíbrio europeu; mas, não se pode deixar de sorrir ante a
esperança de formar, por semelhante meio, um verdadeiro governo de Estados. É
evidente que esse sistema de equilíbrio, considerado em sua duração total, ocasionou
mais guerras do que as tem impedido.
O abalo produzido pela revolução francesa o reduziu a pó, e cada Estado
permaneceu na intranquilidade contínua de uma invasão geral por parte de alguma
potência. N o momento em que escrevo este opúsculo, a Europa inteira não está
prestes a recear, posto que erradamente, sem dúvida, ver todo o sistema de relações
exteriores comprometido pela morte de um só homem?
Ao que precede, cumpre acrescentar que, segundo observação mui judiciosa de
De Maistre, a ação do poder espiritual, no tocante ao que considero, deve ser julgada
não só pelo bem apreciável que produz, mas principalmente pelo mal que evita, o que
não é tão fácil verificar. Um exemplo memorável, indicado por esse filósofo, pode
tornar evidente a importância de tal observação.
Na formação do sistema colonial, que se seguiu à descoberta da América, duas
nações eminentemente rivais, podendo cada uma invejar à outra as mais importantes
possessões coloniais do globo, e que estavam, em imensa extensão, em contato
perpétuo, jamais tiveram, por este motivo, uma só guerra, ao passo que todas as outras
potências europeias se disputavam, com o mais obstinado encarniçamento, algumas
possessões quase insignificantes. Como se produziu tão grande resultado? Por um
único ato do poder espiritual, apesar de abalado em sua existência. Bastou simples
bula de Alexandre VI que, desde a origem, equitativamente traçou uma linha geral de
demarcação entre as possessões coloniais da Espanha e as de Portugal.
Repito: tudo o que sucedeu devia suceder, e de certo estou também muito longe
de queixar-me esterilmente do passado. Mas seja-me permitido notar, com o grande
Leibniz, o fato da importante lacuna deixada na organização europeia pela dissolução
inevitável do antigo poder espiritual, e daí concluir que, quanto a este primeiro
aspecto, o estabelecimento de um novo governo moral é imperiosamente reclamado
pelo estado presente das nações civilizadas.
Lançando agora os olhos sobre a organização interior de cada povo, a mesma
necessidade se torna ainda mais sensível, por uma série de motivos, dentre os quais me
limito a indicar os mais gerais.
A decadência da filosofia teológica e do poder espiritual correspondente deixou
a sociedade sem qualquer disciplina moral. Daí, esta série de consequências que
assinalo na ordem em que se encadeiam reciprocamente:
1ª - A mais completa divagação das inteligências. Tendendo cada qual a
formar, por suas próprias forças, um sistema de ideias gerais, sem preencher qualquer
das condições indispensáveis para isto, tornou-se pouco a pouco rigorosamente
impossível obter, nas massas, entre apenas dois espíritos, um acordo real e durável
sobre qualquer questão social, mesmo muito simples. Se esta anarquia se pudesse
limitar ao que tem de ridículo, o mal seria sem importância, e a sátira bastaria para
reduzi-lo a seus limites convenientes. Mas a facilidade que daí resulta de conceber,
como pouco mais ou menos plausíveis, o pró e o contra sobre a maior parte dos pontos
cuja fixidez interessa tão eminentemente à boa ordem, produz efeitos de gravidade
muito diversa.
Para convenientemente reconhecer a profundidade e o caráter universal desta
anarquia intelectual, cumpre notar não existir ela hoje somente entre os partidários da
doutrina crítica, em cujo espírito está constituída como dogma fundamental; mas, o
que é muito mais decisivo, podemos percebê-la também, embora naturalmente em
grau muito menor, entre os partidários da doutrina retrógrada, onde é, em contradição
com sua tendência, um resultado involuntário da marcha geral e irresistível do espírito
humano.
Antes de tudo, observa-se, entre eles, uma primeira grande divisão, que
degenera muita vez em oposição direta, entre os defensores do catolicismo e os do
feudalismo. Além disto, considerando apenas os primeiros, cujas opiniões são
necessariamente mais compactas, reconhece-se que, se convergem sobre grande
número de pontos, para poderem ser considerados como formando uma escola única,
não deixam de apresentar, por isto, sobre questões fundamentais, divergências mui
essenciais, que acabariam por conduzi-los, na prática, a resultados inteiramente
incoerentes, se o atual estado da sociedade permitisse ampla aplicação de suas
doutrinas.
É o que pode patentear um exame atento das teorias produzidas, neste sentido,
pelos principais pensadores - De Maistre, De la Mennais, De Bonald e d'Eiktein. Suas
diversas opiniões manifestam, cada qual, no fundo, grau muito evidente de
individualismo sobre os pontos mais importantes.
(O filósofo mais consequente, entre todos os que escrevem, hoje, nesta direção,
De la Mennais, acaba de ser levado recentemente a uma infração solene de seus
princípios fundamentais, invocando formalmente a liberdade dos cultos).
2ª - A falta quase total de moral pública. De um lado, já não sendo o destino de
cada indivíduo, na sociedade, determinado por nenhuma das máximas geralmente
respeitadas, e devendo as instituições práticas conformar-se com esta situação dos
espíritos, o surto das ambições particulares não é mais, de fato, contido senão pelo
poder irregular e fortuito das circunstâncias exteriores, próprias aos diversos
indivíduos. Por outro lado, procurando em vão o sentimento social, quer na razão
privada, quer nos preconceitos públicos, noções exatas e fixas sobre o que constitui o
bem geral em cada caso que se apresenta, acaba por degenerar, pouco a pouco, em
vaga intenção filantrópica, incapaz de exercer qualquer ação real sobre a conduta da
vida. Por esta, dupla influência, cada indivíduo, nas grandes relações sociais, é
gradualmente levado a considerar-se o centro, e como só a noção do interesse
particular permanece clara no meio de todo este caos moral, o egoísmo puro torna-se
naturalmente o único móvel bastante enérgico para dirigir a existência ativa.
Este resultado, tifo sensível hoje na moral pública, estende-se mesmo, até certo
ponto, à moral privada. Esta depende, felizmente, de muitas outras condições além das
opiniões preestabelecidas. O instinto natural, que fala muito mais claramente neste
caso do que no precedente; o poder sempre crescente dos hábitos de ordem e de
trabalho, que tendem tão fortemente a afastar a ideia do vício; a melhoria geral das
condições, produzida pelo desenvolvimento contínuo da indústria, que torna as
tentações menos vivas e menos frequentes; o abrandamento universal dos costumes,
resultante do aperfeiçoamento da civilização; todas estas causas devem, sem dúvida,
contrabalançar extremamente a imoralidade que a ausência de princípios fixos de
conduta tende hoje a produzir.
A falta de organização, entretanto, produz, mesmo sob este aspecto, efeitos
incontestáveis, embora mais difíceis de distinguir. Que cada qual, consultando sua
experiência cotidiana, e afastando previamente os casos grosseiros, nos quais a
evidência do mal é muito palpável para não ser sufocado em seu germe, examine se a
vida real não se ressente do estado flutuante em que se encontra hoje a maior parte das
ideias de dever, seja na convivência entre familiares, seja nas relações habituais e
mútuas dos superiores e inferiores, seja nas relações recíprocas dos produtores e
consumidores, etc.
Além disto, uma observação indireta pode dispensar, até certo ponto, a
verificação imediata, relativa a este assunto. É o fato da preponderância obtida quase
geralmente, pelo menos na prática, por teorias morais que pretendem explicar todos os
sentimentos do homem atribuindo-os exclusivamente ao interesse pessoal.
Se, quando consideradas especulativamente, o instinto moral repele essas
teorias, no mundo real tornam-se o modo permanente de explicação, e ainda mantêm,
entre os filósofos, um crédito que não é senão um índice muito fiel do verdadeiro
estado da sociedade. A opinião dominante hoje, entre eles, de que a legislação penal é,
em última análise, o único meio eficaz de assegurar a moralidade nas classes
inferiores, confirma claramente esta observação.
3ª - A preponderância social, concedida cada vez mais, há três séculos, ao
ponto de vista puramente material, é ainda uma consequência evidente da
desorganização espiritual dos povos modernos. Tendo o poder prático, desde o século
XVI, anulado ou subalternizado, cada vez mais, o poder teórico, o mesmo espírito
insinuou-se em igual proporção em todos os elementos da sociedade. Chegou-se, em
tudo, pouco a pouco, a considerar, quase exclusivamente, a utilidade imediata ou, pelo
menos, a colocá-la em primeiro plano. Assim, por exemplo, na apreciação racionar das
ciências, ignorou-se mais e mais sua importância filosófica, e só foram avaliadas em
razão de seus serviços práticos.
Este espírito, essencialmente material, é sobretudo sensível na Inglaterra, onde,
por um concurso de causas especiais, essa espécie de organização social provisória,
formada desce o século XVI, adquiriu maior consistência do que no continente;
domina muito mais ainda nos Estados Unidos, onde a desorganização espiritual foi
levada muito mais longe do que em qualquer outra parte.
Quando a marcha dos acontecimentos trouxe a época das constituições, o
mesmo caráter se pronunciou de maneira eminentemente notável nesta nova esfera de
atividade. A atenção voltou-se exclusivamente para a parte material deste grande
trabalho. Preocupam-se, diretamente, em refundir todas as instituições práticas;
chegaram até a regulamentar, na menor minúcia, as formas das assembleias
deliberativas, sem cogitar de estabelecer previamente novas doutrinas sociais, sem ter
ao menos tentado determinar, com exatidão, o espírito do novo sistema político. Hoje
mesmo, quando, graças à experiência, a sociedade entra em melhores vias, pelo menos
no sentido de ter renunciado definitivamente às constituições metafísicas, é de recear
que a influência dos mesmos hábitos ainda embarace, por muito tempo, a verdadeira
reorganização.
E, sem dúvida, pelo restabelecimento de uma ordem moral que deve
necessariamente começar essa vasta operação, sendo a reorganização dos espíritos, ao
mesmo tempo, mais urgente e estando mais amadurecida do que a regulamentação das
relações sociais. E provável, todavia, que a disposição, ainda muito pronunciada nos
povos, de pedir imediatamente instituições, ou, em outros termos, de querer reconstruir
o poder temporal antes do espiritual, será, a princípio, poderoso obstáculo à adoção
desta marcha natural, única eficaz.
4ª - Devo, por fim, indicar, como derradeira consequência geral da dissolução
do poder espiritual, o estabelecimento dessa espécie de autocracia moderna, que não
possui nenhuma analogia exata na história e se pode designar, na falta de expressão
mais justa, pelo nome de ministerialismo ou de despotismo administrativo. Seu caráter
orgânico próprio é a centralização do poder, levada, de modo crescente, além de todos
os limites razoáveis, sendo seu meio geral de ação a corrupção sistematizada. Uma e
outra resultam, inevitavelmente, da desorganização moral da sociedade.
Uma lei natural, muito conhecida em política, estabelece formalmente que o
único meio de não ser o homem governado, é governar-se a si mesmo. E aplicável às
massas como aos indivíduos, às coisas como às pessoas. Significa, em sua acepção
mais lata, que, quanto menos energia tiver o governo moral em uma sociedade, mais
indispensável se tornara adquira intensidade o governo material a fim de impedir a
completa decomposição do corpo social. Como se conceberia, por exemplo, numa
população tão extensa como a da França, onde nenhum laço moral combina
suficientemente as diversas partes, não se dissolvesse a nação em comunidades
parciais, cada vez mais restritas, se, na falta de espírito comum, um poder temporal
central não mantivesse todos os elementos sociais em dependência imediata e
contínua? Tal efeito não seria mais do que a continuação da influência do mesmo
princípio, o qual, como acima indique, decompôs em nacionalidades independentes a
antiga sociedade europeia. Por isto a centralização temporal se efetuou de maneira
crescente, à medida que a desorganização moral se manifestou mais completa e mais
sensível. A mesma causa, que tornava indispensável esse resultado, tendia, sob outro
aspecto, a engendrá-lo inevitavelmente, pois a anulação do poder espiritual destruiu a
única barreira legal capaz de conter as usurpações do poder temporal.
Quanto à corrupção, erigida em meio permanente de governo, esta deplorável
consequência resulta, mais claramente ainda do que a anterior, do aniquilamento do
poder espiritual. Poder-se-ia pressenti-la, vendo nascer esse vergonhoso regime no
país onde a degradação da autoridade moral foi mais fortemente constituída de
maneira legal. Mas é fácil nos darmos conta disto diretamente.
Numa população onde o concurso indispensável dos indivíduos à ordem
pública não pode mais ser determinado pelo assentimento voluntário e moral, por
todos conferido a uma doutrina social comum, não resta outro expediente, para manter
qualquer harmonia, senão a triste alternativa da força ou da corrupção. O primeiro
meio é incompatível com a natureza da civilização moderna, desde que o caráter
temporal da sociedade deixou de ser acentuadamente militar para apresentar-se
essencialmente industrial. A riqueza que, pela instituição da propriedade, era, a
princípio, a medida regular da força, por ser seu resultado permanente, tornou-se, cada
vez mais, nos séculos modernos, sua origem principal e constante. Seria, sob este
aspecto, designada muito exatamente pelo nome de força virtual. Daí resultou,
insensivelmente, que, como meio de disciplina, a violência acabou por transformar-se
em corrupção. O estado atual das sociedades repele tanto o primeiro processo, quanto
se presta ao segundo, desde que a desorganização moral começou a pronunciar-se
claramente.
Os governos somente poderiam atuar sobre os indivíduos empregando, em
maior escala, os mesmos processos que estes reconhecessem, entre eles, como os mais
eficazes para influir cotidianamente uns sobre os outros. Assim sendo, quando o
interesse pessoal é considerado, nas relações privadas, como o único móvel em cuja
energia se possa depositar confiança suficiente, podemos estranhar seja o poder central
levado a empregar igual meio de ação?
Este resultado desolador não deve ser atribuído nem aos governantes, nem aos
governados; provém de suas falhas mútuas, ou, mais exatamente, é a consequência
penosa, mas felizmente momentânea, do estado passageiro de anarquia em que
necessariamente devia achar-se a sociedade, durante a transição do sistema teológico e
militar para o positivo e industrial.
Se o quadro, que acabo de esboçar, dos efeitos gerais gradualmente produzidos,
desde o século XVI, pela desorganização moral da sociedade, for julgado conforme a
observação, e, se os fatos forem reconhecidos como derivados da causa que lhes
assinalo, como tenho firme esperança, farão, sem dúvida, compreender que o
estabelecimento de um novo poder espiritual é de importância ainda maior, sob o
aspecto nacional, do que sob o europeu.
Para impedir, tanto quanto possível, qualquer interpretação inexata de meu
pensamento, declaro aqui, sob o primeiro aspecto, como já o fiz sob o segundo, que,
em minha opinião, esse estado de anarquia, cujas funestas consequências deploro
como todos os verdadeiros observadores, foi não só o resultado inevitável da
decadência do antigo sistema social, mas ainda uma condição indispensável para o
estabelecimento do novo. Retomando, sob este último aspecto, o exame direto dos
quatro fatos gerais, acima expostos, eu poderia provar, a propósito de cada um deles,
que, se cada qual apresenta uma monstruosidade revoltante, quando o concebemos
como estado permanente (ao qual conduz, a rigor, a doutrina crítica, tomada em
sentido orgânico), o mesmo não se dá quando o consideramos como estado puramente
transitório. Limito-me a indicar este novo exame quanto ao primeiro fato, base de
todos os outros.
A profunda anarquia hoje reinante nas inteligências acha-se não somente
motivada, no passado, pela decadência necessária do antigo sistema social, mas será,
além disto, ainda inevitável, e mesmo indispensável, até o momento em que as
doutrinas destinadas a servir de fundamento à nova organização forem suficientemente
constituídas. De um lado, enquanto perdurar essa espécie de interregno moral, haverá,
por este fato, impossibilidade de disciplinar as inteligências. Por outro lado, se, antes
do fim desta época, se tentasse determinar diretamente a união dos espíritos, como, por
falta de doutrinas convenientes, só se poderia conseguir tal objetivo por meios
materiais e arbitrários, sucederia, necessariamente, que o livre surto do pensamento,
sendo impedido a uns para formarem as doutrinas, a outros para se porem em
condições de adotá-las, a própria operação da reorganização ficaria detida.
Tenho, assim, a convicção de apreciar mais do que ninguém todo o valor real
da doutrina crítica, mas peço não se iludam mais sobre a sua verdadeira natureza.
Chegou a época em que nos podemos dar racionalmente conta da marcha seguida; a
rotina pura não é mais indispensável. E possível manter nos princípios críticos toda a
influência que ainda devem exercer durante certo tempo, sem que sejamos, por isto,
obrigados a concebê-las como orgânicos, e adormecermos assim em uma segurança
fictícia relativamente aos graves e diversos perigos que ameaçariam a sociedade por
um prolongamento vicioso da atual anarquia. Se esta disposição intelectual excede,
talvez, o alcance da maioria dos espíritos, tal deve ser, pelo menos a meu ver, o ponto
de vista doravante habitual aos pensadores que querem consagrar suas forças à grande
operação social do século XIX.
Pelo conjunto das considerações indicadas até aqui, espero ter suficientemente
preparado todos os leitores que raciocinam, a verem tratar diretamente esta questão
básica do poder espiritual, cujo despertar inspira hoje tantos temores pueris e
quiméricos. Posso, portanto, proceder, sem hesitação, ao exame imediato do problema.
A divisão atual das opiniões, relativamente ao princípio fundamental da
necessidade de um poder espiritual, apresenta ao observador imparcial um contraste
singular e mesmo penoso. De um lado, os que tomam a causa da verdadeira liberdade
e da civilização, aqueles que, em uma palavra, se declaram como tendo especialmente
uma tendência progressista, e a possuem efetivamente até certo ponto, dominados pelo
desejo, legítimo em si, mas de nenhum modo racional de evitar, a todo custo, a
teocracia, seguem para isto um caminho que, se pudesse ser percorrido até o fim,
conduziria inevitavelmente, para não cair em completa anarquia, ao despotismo mais
degradante: o da força desprovida de qualquer autoridade moral. De outro lado, os que
são acusados de tendência retrógrada, e verdadeiramente merecem, de algum modo, tal
acusação, não em suas intenções filosóficas, mas nas consequências inevitáveis que
decorreriam da completa aplicação de suas doutrinas, são, no fundo, os únicos cujas
teorias realçam convenientemente a dignidade humana, constituindo a superioridade
moral como o corretivo e o regulador da força ou da riqueza.
Pelas diversas considerações acima feitas, procurei demonstrar que o estado
social das nações mais civilizadas reclama hoje, imperiosamente, a formação de nova
ordem espiritual, como o primeiro e o mais importante meio de terminar o período
revolucionário, iniciado no século XVI, e chegado, há trinta anos, a seu derradeiro
termo. Trata-se, agora, de examinar, de maneira direta, a natureza da organização
espiritual peculiar às sociedades modernas.
Uma questão de tal modo fundamental, que se liga intimamente a todas as altas
questões políticas, só poderia ser convenientemente tratada em obra especial,
dirigindo-se apenas aos espíritos mais severos. Mas, embora as indicações muito
sumárias, às quais estou aqui adstrito, sejam, sem dúvida, insuficientes para
aprofundar, como convém, este problema, contribuirão, todavia, para talvez chamar
sobre este assunto a atenção dos homens sérios, o que é, atualmente, meu objetivo
essencial.
Para ter-se um esboço completo da nova ordem moral, é mister considerar
separadamente as funções que o poder espiritual deve desempenhar, abstraindo sua
constituição própria, e, em seguida, considerar o caráter geral de sua organização para
exatamente corresponder à natureza da civilização moderna.
As explicações seguintes são exclusivamente consagradas ao primeiro gênero
de considerações, reduzindo-se, em essência, à análise dos diversos e principais
aspectos sob os quais a sociedade precisa de um governo espiritual. Mais tarde,
examinarei a segunda parte da questão.
Esta divisão é determinada pela marcha natural da razão pública, que, sem
dúvida, chegará a sentir fortemente a necessidade de um novo poder moral, antes de
claramente compreender sua verdadeira organização. Depois de haver assim indicado,
em seu conjunto, a nova ordem espiritual, para a qual tendem as sociedades modernas,
considerarei, num último trabalho, a marcha geral segundo a qual deve efetuar-se, pela
natureza das coisas, este grande movimento de reconstrução, partindo do ponto a que
hoje chegou.
Seria, antes de tudo, fácil formar-se empiricamente uma ideia muito clara das
atribuições do poder espiritual moderno, observando, com atenção, as do clero católico
no apogeu de seu vigor e de sua completa independência, isto é, desde
aproximadamente os meados do século XI até fins do XIII. Sem dúvida, as bases
filosóficas destes dois poderes (o católico e o científico) e as relações sociais
correspondentes, em consequência de suas maneiras próprias de influenciar, são de
natureza inteiramente diversa, e mesmo, sob muitos aspectos, absolutamente oposta.
Mas, quanto à amplitude e à intensidade de ação, o que é aqui o ponto principal a
determinar, pode dizer-se que a cada um dos aspectos sociais que constituíam, para o
clero católico, matéria a ser estatuída, corresponde, em o novo sistema político, uma
atribuição análoga para o poder espiritual moderno.
É mesmo verossímil que, devendo o novo sistema estabelecer-se de modo
muito mais pacífico do que o antigo, e numa época mais esclarecida, onde sua
natureza podendo ser melhor apreciada previamente, deve, só por isto, ser melhor
compreendida, a intervenção do poder espiritual será, neste caso, mais explícita e
completa, porque encontrará menos resistência no poder temporal correspondente.
No entanto, por mais preciosa que seja esta comparação, pelo grau de precisão
que comporta e seria muito difícil obter de qualquer outra maneira, somente poderá ser
proveitosa aos espíritos capazes de fazer abstração da extrema diversidade dos dois
estados de civilização, ou melhor, de não lhe conceder senão a sua justa parte de
influência. É necessário, ao mesmo tempo, que tais espíritos hajam estudado o passado
com disposições suficientemente libertas dos preconceitos viciosos, hoje inspirados
quase sempre pela doutrina crítica contra o regime espiritual da Idade Média.
Esta aproximação levaria, portanto, quase inevitavelmente, a maior parte dos
leitores a falsas aplicações, que dariam ideia muito errônea de minha opinião. Assim,
apesar de ter julgado conveniente indicá-la àqueles que a podem utilizar, farei sem
deter-me mais sobre este ponto, uma exposição direta, considerando imediatamente as
funções do poder espiritual moderno.
Conquanto possa ser útil e mesmo necessário, em certos casos, considerar a
ideia de sociedade, fazendo abstração da de governo, é universalmente reconhecido
que estas duas ideias são efetivamente inseparáveis, isto é, que a existência durável de
qualquer associação real supõe necessariamente uma influência constante, ora diretora,
ora repressiva, exercida, dentro de certos limites, pelo conjunto sobre as partes, a fim
de fazê-las concorrer para a ordem geral, de que tendem sempre, por natureza, a se
afastar mais ou menos, e da qual se afastariam indefinidamente se fosse possível
deixá-las entregues a seus impulsos próprios. Esta influência total compõe-se de duas
espécies de ações, material uma e moral outra, inteiramente heterogêneas, quer em
suas bases, quer em seus modos, embora sempre coexistentes.
A primeira refere-se imediatamente aos atos, para determinar uns e impedir
outros: fundamenta-se, afinal, na força, ou, o que significa o mesmo, na riqueza que se
tornou o seu equivalente entre os povos modernos, à medida que os progressos da
civilização transferiram para a preeminência industrial o poder civil, primitivamente
conferido à superioridade militar.
A segunda consiste em regular as opiniões, as inclinações, as vontades, numa
palavra, as tendências. Tem por base a autoridade moral, que resulta, em última
análise, da superioridade da inteligência e das luzes. É assim que, para a manutenção
da ordem social, concorrem duas diferentes espécies de direção sobre as quais se
baseia qualquer sociedade.
Desde que a civilização progrediu suficientemente para que esses dois ramos
gerais do governo pudessem ser atribuídos a classes diferentes, o que ocorreu na Idade
Média, a distinção entre eles tornou-se sensível a todos os observadores, e foram
criados, para designá-la, os nomes de poder temporal e poder espiritual, que, por isso
mesmo, convém manter, ao menos provisoriamente, para o novo estado da sociedade,
embora sua estrutura lembre ainda, essencialmente, o estado social em que se
formaram.
O poder espiritual tem, como destino próprio, o governo da opinião, isto é, o
estabelecimento e a manutenção dos princípios que devem presidir às diversas relações
sociais. Esta função geral se divide em tantas partes quantas são as classes distintas de
relações, porque não há, por assim dizer, nenhum fato social em que o poder espiritual
não exerça certa influência, quando está bem organizado, isto é, quando guarda exata
harmonia com o estado de civilização correspondente.
Sua atribuição principal é, portanto, a direção suprema da educação, quer geral,
quer especial, mas, sobretudo, da primeira, tomando esta palavra em sua acepção mais
ampla, fazendo-a significar o sistema completo de ideia e de hábitos, necessário ao
preparo dos indivíduos para a ordem social em que têm de viver, e para adaptar, tanto
quanto possível, cada um deles à função particular que aí deve desempenhar.
É nesta grande função social que a ação do poder espiritual se torna mais
nítida, porque lhe pertence exclusivamente, enquanto, em todos os outros casos, sua
influência se entrelaça, mais ou menos, com a do poder temporal. É por este meio que
prova, de maneira decisiva, suas forças, e, ao mesmo tempo, estabelece os
fundamentos mais sólidos de sua autoridade geral. A educação abrange mesmo o
conjunto das funções nacionais do ceder espiritual, se se compreendesse nelas, a
exemplo de alguns filósofos, além do preparo da mocidade, a ação, tão importante,
exercida sobre os homens adultos, seu complemento necessário e sua consequência
inevitável.
Esta segunda classe de funções espirituais consiste em representar
continuamente, na vida ativa, quer aos indivíduos, quer às massas, os princípios de que
foram imbuídos, a fim de lhes recordar sua observância, quando dela se afastarem,
enquanto os meios morais forem eficazes para isto.
(Além destas duas ordens de funções, o poder espiritual exerce ainda,
evidentemente, como corporação sábia. influência consultiva, direta ou indireta, em
todas as operações sociais. Mas este último gênero de atribuições, que se tenta agora
conceber como muito amplo, e mesmo como principal, raciocinando de acordo com a
educação tão viciosa e tão incompleta que se tem sob os olhos, entra essencialmente
numa ou noutra das duas precedentes ordens de funções quando se considera um
sistema social bem organizado, e foi por isto que não fiz, neste esboço sumário,
menção expressa a seu respeito. Quando a educação é o que deve ser, quase nunca
sucede que os indivíduos ou as massas tenham realmente, necessidade, na prática, de
princípios gerais diversos daqueles em que foram educados; é necessário, somente,
que se lhes recorde, ou se lhes explique a aplicação, porque tendem, naturalmente, a
esquecê-las e a compreendê-las mal. Quando as necessidades gerais ou particulares da
sociedade exigem, de fato, novos princípios, cumpre ao poder espiritual (que deve
fornecê-las regularmente, como classe encarregada da cultura dos conhecimentos
teóricos) introduzi-las, convenientemente, no sistema da educação).
Tais são, sumariamente, as funções gerais do poder espiritual, considerado em
uma nação isolada. Mas as relações de povo para povo lhe assinalam nova classe de
atribuições, que são apenas a consequência das precedentes, transpostas para maior
escala.
Considerada abstratamente, a jurisdição do poder espiritual não comportaria,
em sua circunscrição territorial, outros limites que não os do globo habitável, se todas
as frações da espécie humana chegassem, pouco mais ou menos, ao mesmo estado de
civilização, pois a associação espiritual é evidentemente suscetível, por sua natureza,
de uma extensão indefinida. Considerada, porém, na realidade, abrange unicamente
todos os povos (como, por exemplo, os da Europa) cujo estado social é assaz
semelhante para que possa existir, entre eles, certo grau de comunidade permanente,
mas nos quais a diversidade é, todavia, bastante grande para exigir vários governos
temporais, distintos e independentes uns dos outros. Logo que esta semelhança existe,
entretanto, estabelecem-se, inevitavelmente, relações contínuas, de onde resultam, ao
mesmo tempo, a possibilidade e a necessidade de certa direção comum, destinada a
regularizá-las, sujeitando-as a princípios gerais e uniformes.
Não nos devemos admirar de que os filósofos católicos vissem, neste governo
europeu, a atribuição principal e característica do poder espiritual, pois ela era a mais
notável e a mais clara, como lhe pertencendo completa e exclusivamente. Sem dúvida,
em cada estado social determinado, a associação de um número qualquer de homens
sob um mesmo regime espiritual precede sempre, necessariamente, sua reunião sob um
mesmo governo temporal. Isto é tão verdadeiro na ordem nacional, quanto na
europeia. Mas esta verdade é infinitamente mais fácil de ser verificada no segundo
caso do que no primeiro, porque, na ordem nacional, os dois poderes coexistem
constantemente, enquanto na ordem europeia, pela natureza das coisas, a associação
espiritual esteve sempre em pleno vigor muito tempo antes de qualquer começo de
associação temporal, a tal ponto que, no antigo sistema político, a primeira pôde existir
sozinha, e é mesmo ainda incerto se a segunda venha a existir, jamais, em qualquer
sistema que seja.
Tal é, pois, o segundo grande objetivo incontestável do exercício do poder
espiritual: a reunião de todos os povos europeus, e, em geral, do maior número
possível de nações, em uma só comunhão moral. Esta última função, que completa o
quadro de suas atribuições, reduz-se, como as precedentes, ao estabelecimento
contínuo de um sistema de educação uniforme para as diversas populações, e da
influência regular que é a sua consequência necessária. É por aí que o poder espiritual
se acha investido, em relação aos diferentes povos e a seus chefes temporais, da parte
de autoridade indispensável a fim de serem levados, voluntária, ou involuntariamente,
a submeter-lhe à arbitragem suas contestações, e a receber dele um impulso comum
nos casos que exigem ação coletiva.
Assim, em resumo, a vida dos indivíduos e a dos povos se compõem,
alternadamente, de especulação e de ação, ou, em outros termos, de tendências e
resultados. Estas duas ordens de fatos se entrelaçam de mil maneiras na existência real.
O poder espiritual tem por objeto próprio e exclusivo a regulamentação imediata da
primeira, e o poder temporal a da segunda.
Cada um dos dois poderes age legitimamente todas as vezes que se limita
estritamente à sua esfera natural de atividade, pelo menos tanto quanto a distinção é
humanamente possível. Quando um deles usurpa, além desse limite, qualquer função
do outro, há abuso, o que não quer dizer que tais usurpações, em um sentido ou em
outro, não selam, ou não se possam tornar, momentaneamente inevitáveis e
indispensáveis, em certas circunstâncias, sem por isto constituírem jamais o estado
normal.
Tal é a ordem padrão para a qual devem sempre tender as combinações
políticas, embora seja de antemão indubitável que a deficiência da organização
humana, quer sob o aspecto da inteligência, quer sob o das paixões, nos impede
absolutamente a esperança, neste caso, como em qualquer outro, de obter jamais êxito
completo.
(Na ordem filosófica, a influência espiritual e a influência temporal serão
sempre, por sua natureza, perfeitamente distintas; mas, na ordem política, a distinção,
mesmo aproximativa, não é sempre possível. porque existe uma série de casos
secundários de governo, que não cabe aqui indicar, nos quais não se poderia evitar que
essas influências se achem reunidas, quase igualmente, nas mesmas mãos. O princípio
fundamental da separação dos dois poderes exige simplesmente que jamais a posse
simultânea de ambos, em alto grau, possa existir em nenhum indivíduo, nem em
qualquer classe, o que é não só muito praticável, mas mesmo inevitável, desde longa
série de séculos, e principalmente no sistema social moderno).
Depois de haver estabelecido, para fixar as ideias, a definição geral do poder
espiritual, em qualquer tipo de sociedade, torna-se fácil, especializando as
considerações anteriores, verificar que esse poder, convenientemente reorganizado,
não tem influência menor a exercer no sistema de civilização moderna do que no da
Idade Média. Não devo aqui ocupar-me particularmente com este último, a cujo
respeito envio os leitores aos trabalhos dos filósofos católicos, e sobretudo aos de De
Maistre, que, em seu Tratado do Papa, apresentou a exposição mais metódica, - mais
profunda e mais exata da antiga organização espiritual.
(Os filósofos da escola retrógrada, e particularmente De Maistre, que pode hoje
ser tido como seu chefe, têm apresentado, defendendo o sistema católico, algumas
considerações gerais muito importantes acerca do poder espiritual, considerado em
qualquer sociedade. Mas a estas concepções abstratas (embora suscetíveis de fornecer
úteis indicações aos que desejam tratar. sob seu verdadeiro ponto de vista, esta questão
fundamental) faltam simultaneamente precisão e generalidade necessárias para
estabelecer uma opinião metódica. Nota-se nelas, constantemente, essa inconsequência
radical que consiste em aplicar diretamente às sociedades modernas as considerações
hauridas apenas na observação das sociedades da Idade Média, tão essencialmente
diferentes. Além disto, ligadas, como sempre o são, ao projeto de restauração de um
sistema cujo aniquilamento, já quase inteiramente consumado, é, doravante,
irrevogável, essas ideias, no estado atual dos espíritos, tendem antes a fortalecer o
preconceito geral contra qualquer poder espiritual, do que a destruí-lo. Pode-se mesmo
observar que o sentimento involuntário, embora muito incompleto dessa desarmonia
total com o seu século, inspira a esses filósofos uma espécie de hesitação e timidez
sobre este assunto que se faz sentir até em seus julgamentos sobre o passado. Esses
trabalhos, por conseguinte, sob o ponto de vista filosófico, têm apenas uma utilidade
essencialmente histórica, como eminentemente próprios para demonstrar,
meridianamente, o verdadeiro caráter geral do antigo sistema e fazer apreciar, com
elevação, os imensos benefícios que o gênero humano lhe deve. A este respeito, as
concepções da escola retrógrada conservam todo o seu valor, como sendo plena e
diretamente aplicáveis a uma ordem de fatos para a qual, ou antes, segundo a qual
foram sistematizadas. Mas, relativamente à reorganização moral das sociedades atuais,
a questão deve ser considerada, apesar de todos esses trabalhos, como absolutamente
intacta. Além disto, a influência política da escola retrógrada, sob este ponto de vista
capital, não deixa de ser hoje muito útil e mesmo necessária, durante certo tempo,
conquanto de maneira indireta e de algum modo negativa. Isto porque, de uma parte,
ela apresenta obstáculo indispensável, preservando a sociedade da preponderância
total das doutrinas críticas, que impediam qualquer organização efetiva. Ao mesmo
tempo atua como estimulante, não menos essencial, para constranger a civilizarão
moderna a produzir, enfim, o sistema moral que lhe é próprio, e dar-lhe toda a
consistência que deve possuir, a fim de poder substituir o antigo. Neste sentido a
influência da escola retrógrada é exatamente tão necessária como a da escola crítica,
embora de maneira diversa, e deve naturalmente subsistir durante o mesmo tempo).
Trata-se essencialmente de apresentar aqui o poder espiritual no estado social
peculiar às nações modernas, e que considero como caracterizado, sob o aspecto
temporal, pela completa preponderância da atividade industrial.
Na ordem positiva, a organização social, encarada, quer em seu conjunto, quer
em suas particularidades, consiste especialmente na regulamentação da divisão do
trabalho, tomando-se esta última expressão, não no sentido infinitamente limitado que
lhe deram os economistas (Tendo sido os economistas levados, pela natureza
imperfeita das pesquisas que a marcha geral do espírito humano lhes havia destinado,
a considerar o estado social sob um prisma muito incompleto, compreende-se,
facilmente, que não deviam perceber, senão em suas aplicações menos desenvolvidas e
menos importantes. o princípio da divisão do trabalho, do qual são, verdadeiramente
falando, os inventores. Deve notar-se, para honra de Adam Smith, não apenas haver
sido o primeiro a conceber este grande princípio, de maneira clara e positiva, mas
também quem o apresentou sob um ponto de vista muito mais elevado do que todos os
seus sucessores), mas em sua acepção mais ampla, vale dizer, aplicada a todas as
diversas classes de trabalhos coexistentes, sejam teóricos, sejam práticos, classes que
podem ser concebidas como concorrendo a um mesmo objetivo final, abrangendo
tanto as especialidades nacionais, quanto as individuais. A separação e a
especialização, cada vez maiores, das atividades particulares, quer de indivíduo a
indivíduo, quer de povo a povo, constituem, efetivamente, o meio geral de
aperfeiçoamento da espécie humana, e, por uma reação necessária e contínua, são
também o seu resultado permanente.
(As considerações indicadas neste parágrafo e no seguinte são, por sua
natureza, aplicáveis tanto à ordem teórica, quanto à ordem prática, mas julguei dever
aplicá-las aqui essencialmente à última, a fim de deduzir daí, mais claramente, a
necessidade do poder espiritual, que é agora o meu principal objetivo).
É através dessa separação que a sociedade tende naturalmente a tornar-se cada
vez mais extensa, devendo acabar por abranger, cedo ou tarde, a totalidade do gênero
humano, se a duração assinalada, pelo conjunto das leis do mundo, à atividade
progressiva de nossa espécie for suficientemente prolongada. Todos os progressos
reais que se têm verificado e se poderão verificar na organização social podem ser
considerados, deste ponto de vista, como tendo tido, ou devendo ter, por último
resultado, estabelecer melhor distribuição do trabalho. Na verdade, a ordem social
seria evidentemente perfeita, quer sob o aspecto do bem-estar particular, quer sob o da
boa harmonia do conjunto, s.e cada indivíduo ou cada povo pudesse, em todos os
casos, entregar-se exclusivamente ao gênero preciso de atividade para o qual fosse
mais apropriado, seja por suas disposições naturais, seja por seus antecedentes, seja
ainda, pelas circunstâncias especiais em que se ache colocado, o que, considerado por
outro prisma, seria exatamente uma perfeita divisão do trabalho. Sem dúvida, tal
ordem não poderia existir completamente em nenhuma época. Mas o gênero humano
tende continuamente a aproximar-se dela, cada vez mais, sem que se possa determinar
a que distância dela ficará para sempre.
É sobretudo no estado social que se pronuncia, cada vez mais, nos povos
modernos, que essa tendência se torna mais direta e mais sensível, porquanto a
atividade industrial, comparada com a militar, se caracteriza por uma admirável
propriedade: seu livre e pleno desenvolvimento em um indivíduo, ou em um povo, não
supõe necessariamente pressão contra outros indivíduos ou contra outros povos, e, ao
contrário, não só admite o concurso universal, mas até o provoca inevitavelmente,
dentro de certos limites. Disto resulta, naturalmente, que os homens e as nações se
acham sempre impelidos a formar associações cada vez mais amplas e mais pacíficas.
Mas, se a divisão do trabalho, encarada sob este primeiro aspecto, é a causa
geral do aperfeiçoamento humano (A imperfeição da linguagem obriga-me a empregar
as palavras aperfeiçoamento e desenvolvimento, das quais a primeira, e mesmo a
segunda, conquanto mais clara, recorda ordinariamente ideias de bem absoluto e de
melhoramento indefinido que não tenho a intenção de exprimir. Estas palavras
apresentam, para mim, a simples finalidade científica de designar, em física social,
certa sucessão de estados do gênero humano, efetuando-se segundo leis determinadas;
trata-se de um uso exatamente análogo ao que delas fazem os fisiologistas no estudo
do indivíduo, para indicar uma série de transformações a que não ligam, normalmente,
qualquer ideia necessária de melhoramento ou de deterioração contínuos) e do
desenvolvimento do estado social, quando considerada sob outro aspecto, não menos
natural, apresenta uma tendência contínua para a deterioração e para a dissolução, que
acabaria por interromper todo progresso se não fosse constantemente combatida por
uma ação sempre crescente do governo, sobretudo espiritual.
Com efeito, resulta necessariamente desta especialização, sempre progressiva,
que cada indivíduo e cada povo se acham habitualmente colocados num ponto de vista
cada vez mais estreito, e animados por interesses cada vez mais particulares. Se,
portanto, por um lado, o espírito se aguça, por outro se enfraquece (Alguns
economistas, e, entre outros, Say, perceberam este efeito inevitável da divisão do
trabalho, levado muito longe, mas unicamente nos mesmos casos subalternos que
tinham sido o assunto exclusivo de suas observações), e, igualmente, o que a
sociabilidade ganha em extensão, perde em energia.
Daí, cada qual, homem ou povo, tornar-se cada vez mais inadequado a
compreender, por suas próprias faculdades, a relação de sua ação especial com o
conjunto da ação social, que, ao mesmo tempo, se complica sempre mais e mais; por
outro lado, sente-se progressivamente levado a isolar sua causa particular da causa
comum, que é dia a dia menos perceptível de modo preciso. Estes inconvenientes da
divisão do trabalho tendem, sem dúvida, pela natureza das coisas, a aumentar
continuamente, tanto quanto as suas vantagens. Estas seriam anuladas pelos primeiros
se os inconvenientes pudessem ter curso completamente livre. Daí, a necessidade
absoluta de ação contínua, produzida por duas forças, uma moral, outra física, tendo
por missão especial repor constantemente, no ponto de vista geral, os espíritos sempre
naturalmente dispostos à divergência, e fazer entrar na linha do interesse comum
atividades que, sem cessar, tendem a afastar-se dele. Ao mesmo tempo em que tal
intervenção é indispensável, torna-se possível e mesmo inevitável, porque o
desenvolvimento natural das diversas desigualdades, resultado forçoso da divisão do
trabalho, tende a estabelecer, por si mesmo, a hierarquia, quer espiritual, quer
temporal, necessária a este gênero de ação. Tal é o ponto de vista, verdadeiramente
elementar, da teoria geral do governo. Todo o seu artifício consiste assim, em cada
época, em regularizar essa hierarquia espontânea que se forma no interior da
sociedade, de modo a atenuar, tanto quanto possível, a influência funesta da divisão do
trabalho relativamente à sua influência útil.
Estas considerações aplicam-se, especialmente, ao sistema da civilização
moderna, tanto quanto as de natureza oposta, precedentemente indicadas. Sendo o
estado social moderno aquele onde a divisão do trabalho é levada mais longe, e onde
deve experimentar, mais do que em nenhum outro, acréscimos contínuos, quer entre os
indivíduos, quer entre os povos, os inconvenientes ligados a essa divisão são aí,
necessariamente, mais pronunciados, assim como suas vantagens. E tão inferior, sob o
aspecto dos inconvenientes, ao estado social das nações da antiguidade, quanto lhe é
superior sob o aspecto das vantagens, o que fornece ampla matéria à discussão para os
que querem louvar ou censurar, em sentido absoluto, um ou outro, o que podem fazer
indiferentemente, segundo o ponto de vista em que se colocam.
Quem não tem, com efeito, observado, em relação à generalidade de espírito e
à energia política, serem os povos antigos (Observando, nos povos antigos, o caráter
especial da sociedade, cumpre necessariamente ter em vista apenas as classes entre as
quais existia uma sociedade real, isto é, os homens livres, sendo os escravos
geralmente considerados como uma espécie de animais domésticos. Com esta
restrição, que mostra, aliás, haver a condição do gênero humano, considerado em
massa, experimentado, desde essa época, imensa melhoria, a observação indicada no
texto permanece incontestável) tão superiores aos modernos quanto lhes são inferiores
no tocante à extensão dos conhecimentos e à universalidade das relações sociais?
Vê-se, pelo que precede, não haver nada acidental nesta oposição, cuja origem
importa, sem dúvida, aprofundar, a fim de excluir radicalmente as tentativas viciosas
tendo por objeto combinar, em a nova ordem social, dois gêneros de preeminências
que se excluem mutuamente.
Seja como for, a última ordem de considerações, acima indicada (que explica a
função geral do governo, concebido em seu destino mais amplo, e, sobretudo, no
sistema da civilização moderna), aplica-se evidentemente, de maneira especial, ao
poder espiritual, para mostrar que, em o novo estado da sociedade, a ação deste poder
deve ter, pela natureza das coisas, mais extensão e menos intensidade do que em todos
os estados anteriores. Porque, de fato, as desvantagens gerais da divisão do trabalho
crescem inevitavelmente cada vez mais, pela mesma necessidade que produz o
desenvolvimento gradual da civilização. A sociedade precisa, pois, dia a dia mais,
sobretudo nos povos modernos, sentir a influência dessa corporação especulativa que,
fazendo da consideração do ponto de vista geral sua especialidade própria e
permanente, está destinada a lembrá-la constantemente aos indivíduos e aos povos.
Desinteressada, ao mesmo tempo, pela natureza do seu caráter e pela independência de
sua posição social nesse movimento prático de que resultam tantos motivos de
divergência e de isolamento, essa corporação especulativa é eminentemente apta para
identificar seu interesse particular com o comum, do qual pode ser considerada como o
órgão próprio no maior número de casos. Mas, para completar este esboço geral, é
indispensável distinguir com maior precisão, no desenvolvimento contínuo da ação
total do governo, a direção espiritual e a direção temporal da sociedade.
Observando, de maneira suficientemente profunda, o mecanismo das
sociedades humanas, reconhece-se, como acima indiquei, haver, em cada sistema
político, a formação do poder espiritual precedido sempre necessariamente o
desenvolvimento do poder temporal, mesmo nos sistemas em que esses dois poderes
estavam reunidos nas mesmas mãos.
É assim que, para tomar o exemplo mais decisivo, a constituição romana era,
em sua origem, tão essencialmente teocrática quanto à dos etruscos, e, embora mais
tarde revestisse caráter muito diferente, foi sempre na sua autoridade de corporação
sacerdotal que os patrícios viram a base fundamental de seu poder. De fato, geralmente
a associação espiritual, baseada na comunhão das doutrinas e na homogeneidade dos
sentimentos que delas resulta, deve, pela natureza das coisas, preceder a associação
temporal, fundada na conformidade dos interesses; esta não pode existir sem a outra
(não podendo os interesses serem, jamais, por si mesmos, bastante conformes para
dispensar certa similitude de princípios), ao passo que se concebe a possibilidade de
associar-se somente por esta última condição, desde que a oposição dos interesses não
seja extrema, embora não haja sociedade verdadeiramente completa e estável, quer
entre indivíduos, quer entre povos, a não ser quando as duas condições são
simultaneamente preenchidas até certo grau.
A medida que a civilização se desenvolve, cada uma das duas espécies de
associação aumenta em extensão, diminuindo em energia, como já expliquei. Mas a
diferença primitiva, inerente à sua natureza íntima, faz-se sempre sentir entre elas sob
o aspecto de não conseguir a associação temporal absolutamente manter-se sozinha,
sem o concurso do poder espiritual, ao passo que a associação espiritual pode, a rigor,
subsistir, até certo ponto, por si mesma, sem o auxílio do poder temporal. Destarte, o
poder espiritual aumenta seu domínio, enquanto a sociedade se complica, ao passo que
o poder temporal vê o seu diminuir. Com efeito, só se governa temporalmente o que
não se pode governar espiritualmente; isto é, não se dirige pela força senão o que não
pode ser suficientemente dirigido pela opinião. Ora, à medida que os homens se
civilizam, tornam-se por um lado mais sensíveis aos motivos morais, e, por outro,
mais dispostos à conciliação amigável dos interesses.
É por isto que a ação do poder temporal decresce continuamente, e deve ser
menor em o novo estado social do que em todos os anteriores, ao passo que a ação do
poder espiritual aumenta e deve ser maior no sistema da civilização moderna do que
em qualquer outro.
Vê-se, por isto, quanto é profundamente viciosa a disposição das doutrinas
críticas, aceitas hoje por quase todos os cérebros, disposição que leva a conceber a
nova ordem social desprovida de poder espiritual, quando, pelo contrário, este poder
deve necessariamente exercer, na ordem social nova, muito maior ação política, em
sua esfera natural de atividade, do que a exercera, em sua própria esfera, o poder
temporal. Este tende a tornar-se cada vez menos importante, e a reduzir-se cada vez
mais, pelo menos enquanto a civilização for ascendente, a uma hierarquia puramente
civil, conquanto, verossimilmente, este último efeito não deva ser absolutamente
completo em época alguma.
Depois de ter assim concebido a ação geral do poder espiritual moderno,
contemplando, no seu conjunto, suas diversas funções, quer nacionais, quer europeias,
é necessário completar este esboço considerando-as em suas principais
particularidades.
A primeira divisão deste conjunto de funções, aquela a que julgo dever limitar-
me aqui, consiste, como disse, em distinguir, no poder espiritual, duas grandes classes
de atribuições: umas nacionais, outras europeias.
(Na alternativa forçada de empregar uma ou outra destas duas expressões:
europeias e universais, para designar esta parte das funções do poder espiritual que se
exerce sobre as relações de povo a povo, devo preferir a primeira como mais precisa,
e, além disto, consagrada pelo passado, embora seja, verossimilmente, ao mesmo
tempo, muito ampla e muito restrita, mas sem prejudicar, por isto, a extensão territorial
que comportar, em qualquer época, a jurisdição do poder espiritual).
Consideremos antes as primeiras
Vimos que, sob este aspecto, a ação do poder espiritual consiste essencialmente
em estabelecer, pela educação, as opiniões e os hábitos que devem dirigir os homens
na vida ativa, e, em seguida, manter, por uma influência moral, regular e contínua,
exercida quer sobre os indivíduos, quer sobre as classes, a observação prática dessas
regras fundamentais.
(A fim de simplificar, tanto quanto possível, este sumário exame, devo evitar
fazê-lo recair sobre os pontos que não são geralmente contestados, embora pudesse ser
útil apresentá-las mais racionalmente do que costumam ser concebidos. É por isto que
continuo aqui a só considerar, na educação, a parte social, e, de modo algum, a
instrução teórica geral ou especial que deve presidir à atividade industrial. Esta última
espécie de preparo constitui evidentemente uma atribuição essencial do poder
espiritual sobre cuja necessidade não insisto, pois, segundo me parece, por ninguém é
posta em dúvida).
Trata-se, portanto, de examinar os motivos principais que, em oposição aos
preconceitos atuais, exigem, em o novo estado social, um governo moral atuando
sobre as ideias, sobre as inclinações e sobre a conduta, quer na ordem individual, quer
na coletiva.
O dogmatismo é o estado normal da inteligência humana, aquele para o qual
tende, por sua natureza, continuamente e em todos os gêneros, mesmo quando mais
parece afastar-se dele. O ceticismo é, na verdade, simplesmente um estado de crise,
resultado inevitável do interregno intelectual que sobrevém, necessariamente, todas as
vezes que o espírito humano é levado a mudar de doutrinas. E, ao mesmo tempo, o
ceticismo o meio indispensável empregado, quer pelo indivíduo, quer pela espécie, a
fim de permitir a transição de um dogmatismo para outro, o que constitui a única
utilidade fundamental da dúvida.
Este princípio, que se verifica em todas as ordens de ideias, é aplicável, com
mais forte razão, às ideias sociais, que são simultaneamente as mais complicadas e as
mais importantes. Os povos modernos têm obedecido a esta imperiosa lei de nossa
natureza até no seu período revolucionário, porquanto todas as vezes em que foi
necessário agir realmente, mesmo só para destruir, foram inevitavelmente levados a
dar uma forma dogmática a ideias puramente críticas por sua essência.
Nem o homem, nem a espécie humana são destinados a consumir a vida em
atividade esterilmente raciocinante, dissertando continuamente sobre a conduta que
devem ter. É à ação que se destina essencialmente a totalidade do gênero humano,
exceto uma partícula imperceptível, votada principalmente, por sua natureza, à
contemplação. E, todavia, qualquer ação supõe princípios prévios de direção, que os
indivíduos ou as massas não têm nem capacidade, nem tempo de estabelecer, ou
apenas de verificar, a não ser pela própria aplicação, na maioria dos casos.
Tal é, sob o simples aspecto intelectual, a consideração fundamental que
motiva, de maneira decisiva, a existência de uma classe que, eminentemente atuante na
ordem especulativa, de modo permanente e exclusivo se ocupa em fornecer, a todas as
outras, regras gerais de conduta que não podem dispensar, nem são capazes de
formular; e, uma vez admitidas, lhes permitem empregar toda a sua capacidade de
raciocínio em aplicá-las judiciosamente, na prática, servindo-se, para isto, das luzes da
classe contemplativa, quando a dedução ou a interpretação apresentam excessiva
dificuldade.
Esta necessidade de uma direção espiritual mostra-se não menos clara, se,
deixando de considerar o homem somente como inteligente, passarmos a considerá-lo
também sob o aspecto moral; porque, mesmo admitindo que cada indivíduo ou cada
corporação pudesse formar, só por suas faculdades, o plano de conduta mais
conveniente, quer ao seu próprio bem-estar, quer à boa harmonia do conjunto, seria
certo que devendo essa doutrina achar-se muita vez em oposição, num grau qualquer,
com os impulsos mais enérgicos da natureza humana, não exerceria, por si mesma,
quase nenhuma influência sobre a vida real. Tem, portanto, necessidade de ser
vivificada, por assim dizer, por uma força moral, regularmente organizada, que,
lembrando-a sempre a cada um, em nome de todos, lhe imprima toda a energia
resultante dessa adesão universal, única em condições de superar, ou mesmo
contrabalançar suficientemente, o poder das inclinações antissociais, naturalmente
preponderante na constituição do homem.
Quaisquer que possam ser os progressos da civilização, será sempre exato que,
se o estado social é, a certos respeitos, um estado contínuo de satisfação individual, é
também, sob outros aspectos, não menos necessários, um estado contínuo de sacrifício.
Em termos mais precisos: há, para cada indivíduo, em qualquer ato particular, certo
grau de sacrifício, sem o qual não poderia manter-se, tendo-se em vista a oposição das
tendências individuais, absolutamente inevitáveis em qualquer proporção que seja.
A intensidade relativa da primeira ordem de sensações pode, sem dúvida,
aumentar, e aumenta, de fato, constantemente, o que constitui o melhoramento
progressivo das condições humanas, mas a ordem contrária subsiste sempre,
necessariamente, e mesmo sua intensidade absoluta cresce também, sem cessar, por
este ardor dia a dia maior dos desejos que nossa organização invariavelmente liga ao
acréscimo dos prazeres, como compensação inevitável e corretivo indispensável.
A maior perfeição social imaginável consistiria evidentemente em
desempenhar cada um sempre, no sistema geral, a função particular para a qual é mais
próprio. Ora, mesmo neste estado extremo, puramente fictício (embora dele nos
aproximemos continuamente) os homens teriam necessidade de um governo moral,
porque nenhum poderia espontaneamente conter seus impulsos pessoais nos limites
relativos à sua própria condição. A natureza e a sociedade assinalarão, com efeito,
eternamente, aos diversos indivíduos, de comum acordo, papéis muito desigualmente
satisfatórios. As aptidões naturais e os destinos sociais apresentam uma variedade
infinita, seja quanto ao gênero, seja quanto à intensidade. Ao contrário, os pendores
habitualmente predominantes são mais ou menos os mesmos, sob estes dois aspectos,
para todos os homens, ou pelo menos são, em todos, bastante enérgicos para
inspirarem, a cada um, o desejo espontâneo de todos os prazeres que pode observar
nos outros, qualquer que seja a diferença das condições.
Daí, portanto, a necessidade de desenvolver, por uma ação especial, a
moralidade natural do homem, a fim de reduzir, tanto quanto possível, os impulsos de
cada um à medida reclamada pela harmonia geral, habituando todos, desde a infância,
à subordinação voluntaria do interesse particular ao interesse comum, e reproduzindo
sempre na vida ativa, com o ascendente necessário, a consideração do ponto de vista
social.
Sem esta salutar influência, que sufoca o mal em sua origem, sendo a
sociedade constantemente obrigada a agir materialmente sobre os indivíduos, quer pela
violência direta, quer pelo interesse, a fim de reprimir, em seu efeito, tendências que
ela houvesse deixado desenvolverem-se livremente, a manutenção da ordem se
tornaria logo impossível quando essa disciplina temporal chegasse ao último grau de
exagero que comporta. Mas, felizmente, pela natureza das coisas, a concepção
absoluta de tal modo de governo, ao mesmo tempo bárbaro e ilusório, não é e não
pode ser senão simples hipótese. Na realidade, a repressão temporal nunca foi e nunca
será mais do que o complemento da repressão espiritual, que não poderia, em qualquer
época, bastar completamente ao que exige a sociedade. Se, consoante à marcha natural
da civilização, a primeira diminui continuamente, é com a condição inevitável do
aumento da segunda na mesma proporção.
Por conseguinte, quer sob o aspecto intelectual, quer sob o moral, está provado
que, em qualquer sociedade regular, as noções de bem ou de mal, destinadas a dirigir a
conduta de cada um nas diversas relações sociais (e mesmo na vida puramente
individual, no que pode influir sobre tais relações) devem reduzir-se ao que é prescrito
ou proibido por preceitos positivos, estabelecidos e mantidos por uma autoridade
espiritual convenientemente organizada, constituindo o conjunto de tais preceitos a
doutrina social diretora.
(Nos raciocínios precedentes, considerei, de modo especial, a ação do governo
mais como repressiva, do que como diretora, a fim de melhor adaptar a demonstração
aos hábitos hoje, de maneira tão geral, dominantes nas especulações políticas. Mas as
mesmas razões se aplicam, evidentemente, com muito mais força ainda, quando não
nos limitamos a conceber o governo em sua missão passiva, tendo por finalidade a
manutenção da ordem, e o consideramos em sua missão ativa, como encarregado de
fazer concorrer para o mesmo escopo geral todas as atividades parciais, o que é, a meu
ver, a sua principal função, sobretudo no sistema social próprio dos povos modernos.
Os leitores, que houverem bem compreendido as duas classes de considerações acima
indicadas, aplicá-las-ão facilmente a este novo aspecto da questão.)
Assim se explica a velha experiência do gênero humano, da qual a filosofia
católica, por seu conhecimento profundo, embora essencialmente empírico, de nossa
natureza (que a caracteriza tão eminentemente), sistematizou o resultado geral,
apresentando diretamente como uma virtude fundamental, base imutável e necessária
da felicidade privada ou pública, a fé, isto é, a disposição a admitir espontaneamente,
sem demonstração prévia, os dogmas proclamados por uma autoridade competente, o
que é, com efeito, a condição geral indispensável para permitir o estabelecimento e a
manutenção de uma verdadeira comunhão intelectual e moral.
Em princípio, toda ação do indivíduo sobre a doutrina reguladora limita-se, no
estado normal, a deduzir dela a regra prática aplicável a cada caso particular,
consultando o órgão espiritual em todas as questões duvidosas. Mas, quanto à própria
construção da doutrina, sob qualquer aspecto em que seja considerada, ninguém tem
outro direito legítimo senão o de solicitar a sua retificação parcial, quando a
experiência houver verificado que, sob qualquer aspecto, não preenche
suficientemente seu objetivo prático. Ao poder espiritual, assim advertido, cumpre
naturalmente efetuar, na doutrina, as modificações convenientes depois de haver
verificado a sua necessidade. Tal é, pelo menos, a ordem regular.
Em qualquer outra hipótese, a sociedade deve ser considerada como se achando
em verdadeiro estado de revolução, mais ou menos completo. Este estado, necessário
também em certas épocas, embora transitório, está sujeito a regras especiais de
natureza inteiramente diversa, das quais, por consequência, não tenho de me ocupar
aqui, pois me refiro unicamente ao estado normal.
(O desenvolvimento inevitavelmente gradual da razão pública relativamente ao
sentimento da necessidade de reorganização, apresenta, como é natural, um estado
passageiro, já atingido por certo número de espíritos, estado em que se admite a
necessidade de uma doutrina social, desconhecendo ainda a importância de uma classe
investida de autoridade conveniente, tendo por missão especial e permanente vivificá-
la. Mas esta semiconvicção, politicamente estéril, porque se reduz a desejar o fim, sem
querer o meio, não poderá deixar de completar-se rapidamente, quando estiver bem
difundida. Com efeito, depois de haver realmente compreendido a necessidade
intelectual, moral e política de uma doutrina geral, não se pode tardar a sentir que
qualquer doutrina supõe fundadores. E, além disso, exige imperiosamente, sobre cada
um desses três aspectos, intérpretes que, aliás, aparecem espontaneamente; deste
modo, a ideia de "função" e a de "órgão" são, pela natureza das coisas, tão
inseparáveis, na física social, quanto em fisiologia).
As duas ordens de considerações gerais, acima indicadas, aplicam-se
especialmente ao estado social para o qual tendem os povos modernos, porquanto,
nesse novo estado, caracterizado por uma separação mais completa e sempre crescente
das diversas funções, cada indivíduo é apto apenas a conceber espontaneamente,
qualquer que seja a sua capacidade, uma parte infinitamente pequena da doutrina de
que tem necessidade para sua conduta, quer industrial, quer social. Ao mesmo tempo,
tornando-se mais parcial seu interesse próprio, tende naturalmente a afastar-se do
interesse comum na maior parte dos casos, embora em menor grau.
A tendência evidente das sociedades modernas para um estado essencialmente
industrial e, por conseguinte, para uma ordem política onde o poder temporal
pertencerá, de modo fixo, às forças industriais preponderantes, começa hoje a ser
geralmente sentida e a marcha natural das coisas a manifestará dia a dia mais.
O arrastamento inevitável produzido pelo sentimento de uma verdade tão
importante, embora parcial, dispõe os espíritos a desconhecerem, ou mesmo ã
descurarem a reorganização moral da sociedade, tendendo a manter o hábito produzido
pela doutrina crítica, e especialmente alimentado pela economia política, da
predominância do ponto de vista puramente material nas considerações sociais.
Considerando muito exclusivamente as imensas vantagens morais e políticas,
incontestavelmente peculiares ao modo de existência industrial, acabaram por exagerá-
las a ponto de conceber que dispensam quase inteiramente a verdadeira organização
espiritual, ou, pelo menos, que esta não terá mais do que uma importância secundária,
quando as relações sociais se tornarem puramente industriais, ao invés de serem
alteradas em seu caráter, como ainda o são, pelas instituições e pelos hábitos derivados
dos antecedentes militares da sociedade.
Quanto a nós, que não devemos considerar este grande fato como artistas
destinados a se apaixonarem pelo que o seu aspecto pode oferecer de atraente à
imaginação humana, mas como observadores que, sem se permitirem admirá-lo ou
maldizê-lo, admitem-no como um dado fundamental em todas as especulações
políticas modernas, devemos esforçar-nos, tanto quanto possível, em estudá-lo sob
todas as suas faces. Ora, nesta disposição racional, pode-se facilmente verificar que a
influência reguladora e diretriz do poder espiritual não é menos necessária, na ordem
das relações industriais, do que o foi na das relações militares, embora não o seja
inteiramente de igual maneira. Limito-me aqui, sobre este assunto, a algumas
indicações gerais, que completarei e desenvolverei, se a controvérsia vier a exigi-lo.
Supondo, o que aliás é absolutamente impossível, que a ordem temporal
correspondente a este novo estado da sociedade possa estabelecer-se completamente
sem a intervenção do poder espiritual, continua verdadeiro que, privada dessa
influência conservadora, tal ordem não poderia de modo algum manter-se. Se é certo
que, além das causas gerais de desordem, inerentes a toda sociedade, e que exigem um
governo moral, o sistema militar apresenta outras que lhe são próprias, o mesmo é
também incontestável no sistema puramente industrial: somente essas causas especiais
não são as mesmas nos dois casos, e, por conseguinte, não têm absolutamente a mesma
intensidade.
(Em obra recentemente publicada, verificando, por observações muito
luminosas sobre os diversos estados sucessivos da civilização, a tendência das
sociedades atuais, sob o aspecto temporal, para o estado puramente industrial, soube
Dunoyer precaver-se contra o exagero vulgar que induz a conceber este novo modo de
existência como dotado de perfeição absoluta, Consagrou o último capítulo de seu
livro à análise conscientemente severa dos principais inconvenientes peculiares à
sociedade industrial. Conquanto esta enumeração seja concebida com um fito diferente
do que tenho em vista em minhas considerações atuais, e executada num espírito
também inteiramente diverso, a ela remeto o leitor a fim de suprir, imediatamente, aos
desenvolvimentos em que não posso entrar aqui).
Os interesses individuais são indubitavelmente mais conciliáveis, por sua
natureza, em o novo modo de existência do que no antigo. Mas esta feliz
particularidade, que torna mais fácil estabelecer a regra geral, não a dispensa de
nenhum modo, pois a oposição, por se tornar menos forte, não desapareceu e é até
mais extensa visto se multiplicarem os contatos. Assim, para escolher o exemplo mais
importante, se bem que a hostilidade entre patrões e operários substitua
vantajosamente, na ordem social, a que existia entre guerreiros e escravos, não deixa
de ser, por isto, menos real. Esperar-se-ia em vão anulá-la através de instituições
temporais que, ligando mais intimamente os interesses materiais dessas duas classes,
diminuíssem a ação arbitrária por elas exercida reciprocamente.
Jamais um estado fixo será solidamente estabelecido sobre o simples
antagonismo físico, único que tais instituições podem regulamentar. Embora, sem
dúvida, muito úteis, serão sempre insuficientes, porque deixarão necessariamente
subsistir o desejo e mesmo a possibilidade dos patrões abusarem de sua posição, para
reduzir os salários e o trabalho, e, nos operários, o intuito de obterem, pela violência, o
que a vida laboriosa não lhes pode proporcionar. A solução desta grave dificuldade
exige, de modo indispensável, a influência contínua de uma doutrina moral, impondo
aos patrões e aos operários deveres mútuos, consoante às suas relações recíprocas.
Ora, esta doutrina não pode, evidentemente, ser fundada e mantida senão por
uma autoridade espiritual, colocada num ponto de vista bastante geral para abranger o
conjunto dessas relações, e, ao mesmo tempo, bastante desinteressada no movimento
prático para não ser habitualmente suspeitada de parcialidade por qualquer das duas
classes antagônicas entre as quais deve interpor-se. Observações análogas podem ser
feitas sobre as outras grandes relações industriais, como as dos agricultores e dos
fabricantes, e de uns e de outros com os comerciantes, ou de todos com os banqueiros.
É claro que, nessas diversas relações, os interesses absolutamente entregues a si
mesmos, sem nenhuma outra disciplina, além da que resulta de seu próprio
antagonismo, acabam sempre por atingir o grau de oposição direta.
(A crise comercial e manufatureira que, neste momento, [maio de 1826], aflige
o país onde a atividade industrial se acha mais desenvolvida, crise que pode assumir,
em qualquer instante, caráter político mais ou menos grave, é muito própria para
mostrar, aos observadores imparciais, a necessidade de certa ação governamental,
exerci da sobre as relações industriais, como ocorreu, no passado, relativamente às
relações militares. Sem dúvida, tais inconvenientes são, por sua natureza, passageiros.
Mas a ordem social e a felicidade individual reclamam, de comum acordo contra a
renovação sempre iminente dessas oscilações funestas, garantias mais diretas, mais
explícitas, numa palavra, mais regulares, que não deixam seja cada qual juiz em causa
própria, e exigem a consideração espontânea e permanente de um ponto de vista geral
da parte de espíritos habitualmente colocados num ponto de vista muito particular).
Daí resulta, pois, a necessidade fundamental de uma regra ética e, por
consequência, de uma autoridade espiritual, indispensáveis ambas para conter tais
interesses nesses limites, onde, em vez de lutar, convergem, limites de que tentam
incessantemente sair. Seria, aliás, fácil estabelecer que esta ação moral, considerada
sob seus dois aspectos, deve ainda desempenhar um papel indispensável e principal no
estabelecimento das instituições temporais destinadas a completar a regularização das
relações sociais. Seria contar demasiadamente com o poder das demonstrações da
economia política, para provar a conformidade necessária dos diversos interesses
industriais, esperar possa jamais bastar para discipliná-los.
(O vício fundamental da economia política, encarada como teoria social,
consiste diretamente em que, por haver verificado, sob alguns aspectos particulares,
que estão muito longe de ser os mais importantes, a tendência espontânea e
permanente das sociedades humanas para certa ordem necessária, se julga autorizada a
concluir daí ser inútil regularizá-la por instituições positivas, enquanto esta grande
verdade política, concebida em seu conjunto, somente prova a possibilidade da
organização, ao mesmo tempo que leva a apreciar-lhe dignamente a importância
capital).
Quando mesmo se concedesse a essas demonstrações toda a latitude lógica,
aliás muito exagerada, que lhes atribuíram os economistas, continuaria certo que o
homem não se conduz unicamente, nem mesmo principalmente, por cálculos, e, em
segundo lugar, não é sempre, nem mesmo com muita frequência, suscetível de calcular
com justeza. A fisiologia do século XIX, confirmando, ou antes, explicando a
experiência universal, demonstrou positivamente a frivolidade dessas teorias
metafísicas, que representam o homem como um ser essencialmente calculista,
impelido pelo único móvel do interesse pessoal.
A moral, portanto, quer individual, quer pública, será necessariamente
flutuante e sem força, enquanto se estabelecer, como ponto de partida, para cada
indivíduo ou cada classe, a consideração exclusiva da utilidade particular. É, todavia,
ao que conduz, inevitavelmente, por sua natureza, o espírito industrial, como qualquer
outro espírito puramente temporal, quando se desenvolve isoladamente e sem ter
sofrido a influência ética reguladora, que só se pode encontrar na ação de um poder
espiritual convenientemente organizado.
Se fosse possível conceber estar a sociedade inteiramente entregue, de maneira
exclusiva, ao impulso diretamente determinado apenas pela atividade temporal, a nova
ordem política (se lhe pudéssemos dar este nome) não teria outra vantagem real sobre
a antiga (também considerada na mesma hipótese abstrata) senão a de substituir a
conquista pelo monopólio, e o despotismo baseado no direito do mais forte pelo do
mais rico.
Tais seriam as consequências extremas, mas rigorosas, de uma organização
social puramente temporal, se esta hipótese pudesse jamais realizar-se. Felizmente,
porém, por mais falhos que possam ser nossos esboços políticos, a natureza das coisas
preserva a sociedade da influência absoluta de suas próprias aberrações, e a ordem
final, que se estabelece por si mesma, é sempre superior àquela que as combinações
humanas haviam previamente construído.
A necessidade de uma ordem espiritual, em o novo estado social, manifesta-se
não só nas relações entre indivíduos ou entre classes, mas ainda na moral
simplesmente pessoal. Uma consideração geral, haurida no estudo da natureza
humana, mostra, em primeiro lugar, como a maior parte dos filósofos de todos os
tempos observou, que o fundamento mais sólido das virtudes sociais se encontra no
hábito das virtudes individuais, visto ser por elas que o homem fornece a prova mais
decisiva de sua força de resistência aos impulsos viciosos de suas inclinações
orgânicas. Mas, independentemente deste motivo universal, a influência inevitável que
os atos puramente relativos ao indivíduo exercem, de modo indireto, sobre o conjunto,
num sistema qualquer de relações sociais, acentua-se de maneira especial no sistema
moderno, e exige, por conseguinte, sob um novo aspecto, a regulamentação moral da
sociedade.
Para não citar senão um único exemplo, é geralmente reconhecido, desde os
trabalhos de Malthus, que a tendência constante da população para crescer mais
rapidamente do que os meios de subsistência, tendência que é, sobretudo, própria das
sociedades industriais, exige, no instinto mais enérgico do homem, certa repressão
permanente, que não poderia, sem dúvida, ser produzida em grau suficiente a não ser
por uma autoridade moral, qualquer que possa ser, aliás, a influência incontestável dos
meios temporais para conter esse instinto nos limites convenientes.
Encarei até aqui, pelo motivo geral acima enunciado, apenas a ação preventiva
ou repressiva do poder espiritual em o novo sistema de relações sociais. Sua
importância é ainda mais sensível, considerando-se aí também a ação diretora. Quando
mesmo se admitisse hipoteticamente que, em o novo estado social, a manutenção da
ordem possa ocorrer espontaneamente, sem qualquer influência reguladora especial,
continuaria incontestável que, para agir coletivamente, como a natureza do sistema
exige em grande número de casos, os indivíduos e as classes têm necessidade de ser
dirigidos por dogmas comuns, estabelecidos pelo poder espiritual na educação social e
em seguida constantemente por ele reproduzidos na vida real. A necessidade de
doutrina é tanto maior, sob este aspecto, quanto, sendo necessariamente, neste sistema,
a classificação dos indivíduos infinitamente mais móvel do que no antigo, cada qual se
acha nele naturalmente menos preparado para o destino particular que deve
desempenhar. Quando as condições eram essencialmente hereditárias, a educação
doméstica podia ser considerada, por assim dizer, como um preparo suficiente. O
mesmo não sucede, quando as condições tendem essencialmente a dividir-se de
conformidade com as aptidões individuais.
A educação pública, quer geral, quer especial, adquire, então, muito mais
importância, como único meio racional de determinar essas aptidões, originariamente
tão pouco acentuadas na maior parte dos casos, desenvolvendo-as, ao mesmo tempo,
convenientemente. A ação do poder espiritual torna-se, assim, indispensável para
estabelecer e manter uma classificação social de conformidade com o espírito do
sistema.
Que se pense na multidão de vocações frustradas e nas falsas posições hoje
resultantes da falta de direção intelectual e moral; que se procure calcular as
deploráveis consequências daí decorrentes, quer para os indivíduos, quer para a
sociedade, e se compreenderá a importância da consideração precedente.
Tais são, em resumo, as principais classes de motivos que reservam ao poder
espiritual moderno ampla e fundamental influência, examinando-o unicamente em
suas atribuições nacionais. As mesmas considerações gerais são exatamente aplicáveis
à ação necessária que o poder espiritual deve exercer para regular as relações de povo
a povo. Julgo, portanto, estar dispensado de indicar aqui explicitamente essa extensão,
que qualquer leitor atento poderá desenvolver facilmente, mantendo-se no ponto de
vista fundamental determinado pelos raciocínios precedentes.
Toda a diferença radical, entre os dois casos, consiste na maior generalidade da
segunda ordem de relações sociais. Mas se esta distinção mostra a ação reguladora do
poder espiritual, como necessariamente menos intensa na ordem europeia do que na
ordem nacional, apresenta-a, ao mesmo tempo, como ainda mais propriamente
indispensável (guardada a proporção da importância das relações), e, sobretudo, como
menos suscetível de ser substituída por qualquer outra influência.
As relações entre povos, tendo ao mesmo tempo muito mais extensão e bem
maior continuidade na civilização moderna do que na da Idade Média, a sua
regulamentação se torna tanto mais necessária. A atividade coletiva da sociedade
europeia, que só existia no antigo sistema, em intervalos muito distanciados, deve
tornar-se, em o novo, senão rigorosamente contínua, pelo menos extremamente
frequente. E determinada, seja pelas operações de utilidade comum, que exigem o
concurso de dois ou de maior número de povos, seja pela influência de conjunto, em
parte repressiva, que as nações mais civilizadas devem exercer sobre as que o são
menos, no interesse comum de umas e outras. Estes diversos motivos serão mesmo
bastante poderosos, talvez, para provocar a formação de certo grau de soberania
temporal, estendendo-se simultaneamente sobre vários dentre os povos mais
adiantados. Mas, o que é evidentemente incontestável, em qualquer hipótese, é
exigirem diretamente o estabelecimento de uma doutrina social comum às diversas
nações, e, por conseguinte, de uma soberania espiritual, capaz de manter essa doutrina,
organizando uma educação europeia, e de aplicá-la, em seguida, convenientemente,
nas relações efetivas. Até lá, a ordem europeia estará constantemente ameaçada,
apesar da ação simultaneamente despótica e insuficiente (embora hoje provisoriamente
indispensável) exercida pela coligação imperfeita dos antigos poderes temporais, a
qual não poderia oferecer nenhuma garantia sólida de segurança, pois está, por sua
natureza íntima, sempre pronta a dissolver-se.
(De La Mennais demonstrou de modo muito claro que, por seu caráter
puramente temporal, e pela heterogeneidade radical de seus elementos daí
necessariamente resultante, a instituição da Santa Aliança não pode apresentar nem
fixidez real, nem eficácia suficiente, mesmo sob o aspecto simplesmente passivo, e,
com mais forte razão, sob o aspecto ativo. Este filósofo provou vitoriosamente que tal
instituição é, em absoluto, incapaz, por sua natureza, de oferecer à Europa moderna o
equivalente real da ação geral exercida, na Idade Média, pelo antigo poder espiritual,
só podendo esta ação ser verdadeiramente substituída por uma influência espiritual.
Mas não se deve, por isto, deixar de conceber a formação da Santa Aliança como
resultado obrigatório da inevitável desorganização do antigo sistema social, que
exigiu, sobretudo na ordem europeia, a absorção momentânea do poder espiritual pelo
temporal; e, ao mesmo tempo, como meio indispensável, embora muito imperfeito, de
manter, na Europa, certa ordem provisória, enquanto perdurar o interregno moral. O
estado revolucionário não deve ser julgado pelas mesmas regras do normal. Podemos
mesmo acrescentar que o estabelecimento da Santa Aliança, considerada como
substituindo o equilíbrio europeu propriamente dito, indica o sentimento vago e
incompleto, em verdade, mas real, da necessidade de uma reorganização europeia, ao
mesmo tempo em que a prepara, a certos respeitos, habituando os povos -
contraditoriamente aos preconceitos críticos - a conceberem esta ordem de relações
como sujeita a uma ação direta e permanente de governo).
Julgo dever assinalar aqui, como no caso precedente, embora mais
rapidamente, as falsas concepções políticas que o esboço incompleto do futuro
temporal da sociedade tende hoje a produzir, representando as relações entre os povos
como suficientemente regularizadas, pelo fato único de haverem as diversas nações
chegado à vida puramente industrial.
Sem dúvida, este novo modo de existência tem a feliz propriedade de facilitar a
associação moral das nações, assim como a dos indivíduos ou das classes; mas, não a
dispensa no primeiro, nem no segundo caso, e a torna mesmo mais necessária, à
medida que o novo modo de existência multiplica e estende as relações.
Admitamos, por um instante, possa a ordem temporal europeia perder
inteiramente o caráter militar para tomar a feição puramente industrial, sem ser essa
mudança precedida e provocada por uma reorganização espiritual conveniente, o que
certamente envolve contradição. Mesmo nessa hipótese abstrata, é incontestável que
esse sistema não poderia ter nenhuma solidez se as diversas nações fossem entregues,
de maneira fixa, unicamente aos impulsos temporais, sem subordiná-los a nenhuma
doutrina moral comum, estabelecida e mantida por um poder espiritual qualquer,
porque, concebido como base única e direta de um plano de conduta, o interesse
particular pode ainda menos servir para solidamente fundar a moral dos povos do que
para estabelecer a dos indivíduos e das classes. Com efeito, supondo mesmo sempre
que a conduta possa ser exclusivamente ou principalmente dirigida pelo cálculo (o que
não é verdade, tanto para as nações, quanto para os indivíduos), a relação do bem-estar
de cada um com o de todos é, certamente, e ao mesmo tempo, menos real e menos
perceptível na ordem europeia do que na ordem nacional.
É bem difícil, e, por consequência, infinitamente raro, que a felicidade real de
um indivíduo possa harmonizar-se, de modo completo, com uma conduta antissocial
fortemente pronunciada; isto é muito mais fácil, e, por conseguinte, muito mais
comum para uma nação, mesmo no sistema industrial, como a experiência o tem
demasiadamente provado, desde a fundação do sistema colonial e protecionista, ainda
sustentado pela opinião dominante. Assim também, sob o aspecto intelectual, um
indivíduo poderia, a rigor, deixando de ser ativo, colocar-se no ponto de vista nacional,
e dele assenhorear-se, até certo ponto, se tivesse a força cerebral suficiente; mas isto é
muito difícil, quando se torna necessário elevar-se até o ponto de vista europeu, e uma
organização social que exigisse tal esforço, de modo permanente, em número muito
grande de homens, ou apenas nos chefes das ordens temporais da nação, seria
evidentemente impossível.
As teorias exageradas dos economistas, sobre a identidade, necessária e
constante, dos interesses individuais, peculiares às diversas nações, por mais que
fossem de exatidão absoluta, seriam inevitavelmente ainda mais impotentes para
regularizar as relações dos povos do que as dos indivíduos com o auxílio da simples
convicção que pudessem produzir.
Em vão, os povos mais adiantados tendem hoje, mais ou menos fortemente, a
sair do regime protecionista. Mesmo que este resultado fosse jamais completo, o
espírito de hostilidade industrial não deixaria de reproduzir-se sob novas formas, que
saberia criar, se fosse possível continuasse cada nação indefinidamente a não admitir
outra regra de conduta a não ser a satisfação do seu próprio interesse, sem reconhecer
nenhum dever moral para com as outras.
O único poder verdadeiramente capaz de conter, nos limites necessários, essa
rivalidade natural dos povos, e de utilizá-la, reduzindo-a, pelo menos regularmente, à
legítima emulação, é o de uma doutrina geral sobre as relações efetivas das nações,
estabelecida e proclamada habitualmente por uma autoridade espiritual que, falando a
cada povo em nome de todos, encontre nesse assentimento universal o apoio
necessário para fazer admitir suas decisões.
Assim, como resultado final de todas as considerações precedentes, verifica-se,
pelas minúcias, esta proposição fundamental, acima estabelecida de conformidade com
uma visão de conjunto: o estado social, para o qual tendem os povos modernos, exige,
assim como o da Idade Média, quer sob o ponto de vista ativo, quer sob o passivo, e
por motivos, uns gerais, outros especiais, uma organização espiritual (isto é, intelectual
e moral) tanto europeia quanto nacional.
Examinarei, mais tarde, com o mesmo espírito, sob seus aspectos principais, a
natureza dessa organização, que, por uma abstração necessária, tive de deixar até agora
indeterminada, a fim de não tornar impraticável uma demonstração já tão
profundamente complexa. Esta nova exposição, além de sua extrema importância
própria, talvez dissipe, na maioria dos espíritos, a obscuridade inevitavelmente
peculiar a este ponto de vista abstrato. Destruirá, sobretudo, as falsas interpretações,
que, em geral, somos levados a conceber nos hábitos atuais, sempre que se trata do
poder espiritual. Tais são, pelo menos, minhas esperanças.

SEXTO OPÚSCULO
(Agosto de 1828)
EXAME DO TRATADO DE BROUSSAIS SOBRE "A IRRITAÇÃO"

Desde fins do século XVI, o espírito humano passa por uma revolução geral e
contínua, tendo por objeto principal a refusão gradual e completa de todo o sistema
dos conhecimentos humanos, estabelecido, desde então, sobre suas verdadeiras bases:
a observação e o raciocínio. Esta revolução fundamental, preparada pelos trabalhos
sucessivos de todos os séculos anteriores, sobretudo a partir dos árabes, foi
definitivamente determinada e diretamente iniciada pelo grande e novo impulso que à
razão humana imprimiram, ao mesmo tempo, as concepções de Descartes, os preceitos
de Bacon e as descobertas de Galileu. Desde essa memorável época, o espírito
humano, em todos os ramos de nossos conhecimentos, tendeu constantemente, e cada
vez mais, a emancipar-se de todo, e para sempre, do império antes exercido pela
teologia e pela metafísica, subordinando inteiramente a imaginação à observação;
numa palavra, sua tendência foi constituir o sistema definitivo da filosofia positiva.
Os diversos ramos dos conhecimentos humanos não participaram todos desta
importante renovação com a mesma rapidez. Experimentaram-na sucessivamente,
conforme o grau de complicação e de dependência mútua dos fenômenos por eles
considerados. Sendo a fisiologia, de todas as partes da filosofia natural, a que estuda os
fenômenos mais complicados e menos independentes, devia necessariamente
permanecer mais tempo do que qualquer outra sob a tutela das ficções teológicas e das
abstrações metafísicas. Também não foi senão na segunda metade do último século, e
depois de se haverem tornado ciências positivas a astronomia, a física e a química, que
a fisiologia começou a experimentar, por seu turno, esta grande e salutar
transformação através dos imortais trabalhos de Haller, Charles Bonnet, Daubenton,
Spallanzani, Víc-D'Azyr, Chaussier, Bichat, Cuvier, Pinel, Cabanis, etc.
Mas, para que esta revolução fosse completa e eficaz, fazia-se mister se
estendesse também aos fenômenos intelectuais e afetivos. Estes, necessariamente,
deveriam dela participar mais tarde do que os outros fenômenos dos animais, à vista de
sua maior complexidade e à vista da ligação imediata das teorias teológicas e
metafísicas que, na parte a eles atinentes, se entrelaçavam com a constituição da
sociedade. Por- isto mesmo, as memórias publicadas, no começo deste século, por
Cabanis, sobre as relações do físico e do moral, foram a primeira grande tentativa
direta para fazer entrar definitivamente no domínio da fisiologia positiva esse estudo,
até então exclusivamente entregue aos métodos teológicos e metafísicos. O impulso
dado ao espírito humano por essas memoráveis pesquisas jamais diminuiu. Os
trabalhos de Gall e de sua escola o fortaleceram de modo singular, e, sobretudo,
imprimiram a esta nova e última parte da fisiologia um alto caráter de precisão,
fornecendo-lhe uma base determinada de discussão e de investigação. Podemos hoje
dizer que esta revolução, conquanto ainda não se tenha tornado popular, está, em
definitivo, consumada em todos os espíritos verdadeiramente ao nível de seu século,
pois todos consideram o estudo das funções intelectuais e afetivas como
inseparavelmente ligado ao estudo de todos os outros fenômenos fisiológicos, e como
devendo ser prosseguido pelos mesmos métodos e com o mesmo espírito.
Alguns homens, entretanto, desconhecendo a este respeito a direção atual e
irrevogável do espírito humano, tentaram, nestes últimos dez anos, transplantar para o
nosso meio a meta física alemã, e constituir, sob o nome de psicologia, uma pretensa
ciência completamente independente da fisiologia, superior a ela, e à qual caberia com
exclusividade o estudo dos fenômenos especialmente chamados morais.
Embora essas tentativas retrógradas não sejam capazes de deter o
desenvolvimento dos conhecimentos reais, porquanto o entusiasmo passageiro, que
ainda despertam, só decorre essencialmente de circunstâncias estranhas e fortuitas, é
certo que exercem uma influência funesta, retardando, em muitos cérebros, o
desenvolvimento do verdadeiro espírito filosófico, e consumindo, em pura perda,
grande atividade intelectual.
Esta situação foi profundamente sentida por Broussais. Sem exagerar o mal, ele
compreendeu dignamente quanto importa opor-se à direção vaga e quimérica para a
qual se procura hoje arrastar a mocidade francesa. Julgou, por isto, dever interromper
seus grandes trabalhos de patologia geral, para evidenciar o vazio e a nulidade da
psicologia. Tal é o objetivo geral e essencial de sua nova obra, como ele expõe
claramente em prefácio muito notável, onde não teme mostrar-se superior às piedosas
acusações de materialismo nas quais os nossos psicólogos, a exemplo dos nossos
teólogos, seus predecessores, têm envolvido seus adversários.
Sob este aspecto, independentemente do alto mérito de seu trabalho, Broussais,
ao publicá-lo, praticou verdadeiro ato de coragem, digno do reconhecimento de todos
os bons espíritos. Seu valor somente pode ser bem compreendido pelos que sabem
quanto os cientistas atuais, embora sentindo, relativamente às teorias metafísicas, o
profundo desprezo que necessariamente elas devem inspirar a todas as inteligências
afeitas a estudos positivos, evitam cuidadosamente opor-se, através de discussões
públicas, ao império que tais teorias pretendem exercer em nossos dias.
A obra de Broussais atinge plenamente o principal objetivo a que se propõe o
autor. Entrando na discussão mais profundamente do que nenhum fisiologista o fez até
aqui, examinou diretamente o pretenso método de observação interior, preconizado
pelos psicólogos, como base da ciência do homem.
O ascendente que adquiriram, desde Bacon, as ciências positivas é hoje de tal
importância, que os psicólogos, a fim de reerguerem a metafísica que se desmorona, se
viram na necessidade de apresentar seus trabalhos como também fundados na
observação. Para este efeito, imaginaram uma distinção entre os fatos exteriores,
domínio das ciências comuns, e os fatos interiores ou de consciência, próprios à
psicologia.
Broussais fez ver quanto é frívola essa pretensa distinção. No quinto capítulo
da primeira parte, apresenta uma análise fisiológica, singularmente notável por sua
profundeza e finura, do estado de um espírito que medita sobre seus próprios atos.
Essa análise evidencia perfeitamente a impossibilidade de chegar-se, por esse modo
ilusório de exploração, a qualquer descoberta real. Lamento não poder citar dessa
análise senão alguns passos:
"Examinemos, agora - diz ele - o que podem os psicologistas encontrar em sua
consciência, ao procederem a essa espécie de investigação. Estão certos de aí
encontrar sensações provenientes das vísceras, que incessantemente correspondem
com o cérebro - não só a fome, os desejos venéreos, o frio, o calor, a dor localizada, ou
o prazer, atribuídos a qualquer parte do corpo, mas ainda observarão uma série de
sensações vagas, indeterminadas, que ora os inclinam à tristeza, ora à alegria, algumas
vezes à ação, outras ao repouso, um dia à esperança, outro ao desespero, e mesmo ao
horror da existência. Aí acharão tudo isto, sem suspeitarem de onde vem, porque os
fisiologistas são os únicos que possam esclarecê-los a esse respeito. Se tomam todas
essas sensações interiores por outras tantas revelações da divindade, a que chamam
consciência, podem aumentar sua riqueza, ingerindo, à maneira dos orientais, certa
dose de ópio combinada com aromáticos".
Por maior que seja a superioridade com que Broussais tratou desta questão,
poderia, a meu ver, abordar o assunto de maneira ainda mais direta, provando logo que
essa observação interior é necessariamente impossível.
Com efeito: o homem pode observar o que lhe é exterior, pode observar certas
funções de qualquer de seus órgãos que não seja o órgão pensante; pode mesmo, até
certo ponto, observar-se sob o aspecto das diversas paixões que experimenta, porque
os órgãos cerebrais, de que elas dependem, são distintos do órgão observador
propriamente dito, e ainda assim isto supõe que o estado da paixão não seja muito
pronunciado. Mas é evidentemente impossível ao homem observar-se em seus
próprios atos intelectuais, porque, sendo o órgão observado e o órgão observador,
neste caso, idênticos - por quem seria feita a observação?
A ilusão dos psicólogos, a este respeito, é análoga à dos antigos físicos, que
julgavam explicar a visão, dizendo que os raios luminosos traçavam sobre a retina
imagens dos objetos exteriores. Os fisiologistas fizeram judiciosamente notar que, se
as impressões luminosas atuassem como imagens sobre a retina, seria necessário outro
olho para vê-las.
O mesmo sucede com a pretensa observação interior da inteligência. Para que
fosse possível, seria mister que o indivíduo se pudesse dividir em dois, um dos quais
pensaria e o outro, durante esse tempo, o observaria pensar. O homem, por
conseguinte, não poderia observar diretamente suas operações intelectuais; somente
pode observar os seus órgãos e resultados.
Sob o primeiro aspecto, entra-se na fisiologia; sob o segundo, sendo as ciências
os grandes resultados da inteligência humana, entra-se na filosofia das diversas
ciências, a qual não é separável das próprias ciências. Sob nenhum aspecto há lugar
para a psicologia, ou o estudo direto da alma, independentemente de qualquer
consideração exterior.
No paralelo, aliás tão satisfatório e tão decisivo que Broussais estabelece entre
a fisiologia e a psicologia, era de desejar que houvesse feito sentir mais vivamente a
inferioridade desta última, que, mesmo sendo admitidos seus pretensos métodos
próprios de exploração, só considera o homem adulto e perfeitamente sadio, fazendo
total abstração dos animais e mesmo do homem no estado de desenvolvimento
imperfeito e de organização anormal; ao passo que, em dada consideração fisiológica,
o ponto de vista do homem, no estado normal, acha-se sempre admiravelmente
combinado com o do conjunto da série animal e com o do estado patológico. Esta
oposição que Broussais apenas indica parcialmente, apresentada com a clareza e o
vigor de exposição que o distinguem, teria formado útil contraste com essa elevação
de vistas, essa profundeza de concepção que tão singularmente se atribuem os nossos
psicólogos.
Negligência mais grave, cometida por Broussais, consiste em não haver
assinalado bem expressamente a enorme diferença existente entre a doutrina
fisiológica sobre o homem intelectual e moral e as teorias dos metafísicos do século
passado, que só viam em nossa inteligência a ação dos sentidos externos, pondo de
parte toda predisposição dos órgãos cerebrais internos. A crítica, muito motivada,
dessa ideologia de Condillac e de Helvetius é apenas o que empresta algum
fundamento à influência da psicologia atual, que nada mais faz, aliás, do que
vulgarizar, em declamações obscuras e enfáticas, o que os fisiologistas, tais como
Charles Bonnet, Cabanis, e principalmente Gall e Spurzheim, haviam exposto desde
muito tempo, sobre esse assunto, de maneira muito mais clara e, sobretudo, muito mais
exata. Broussais apressar-se-á, sem dúvida, em tirar este único recurso à psicologia, ou
ao que ele tão judiciosamente chama de antologia. Indico-lhe com plena confiança este
importante melhoramento para uma segunda edição, que uma obra como a sua não
deixará de merecer brevemente. A negligência que lhe noto não decorre, certamente,
senão da evidente precipitação com que sua obra foi composta, porquanto os
psicólogos não poderão dizer que, em qualquer parte, ele se mostre partidário formal
da metafísica do século XVIII.
O exame geral da obra de Broussais se presta a uma última consideração
filosófica de grande importância: é que o autor não circunscreveu, com mais exatidão
do que os fisiologistas seus predecessores, o verdadeiro campo da fisiologia.
Quando Cabanis, em primeiro lugar, reivindicou diretamente o estudo dos
fenômenos morais como pertencentes ao domínio da fisiologia, não separou, com o
devido cuidado, ou antes, erradamente confundiu o estudo do homem individual e o da
espécie humana, considerada em seu desenvolvimento coletivo. Ambos os estudos lhe
pareceram que deviam, sem separação, fazer igualmente parte de uma única ciência: a
fisiologia. Esta confusão foi mantida por Gall e Spurzheim e subsiste ainda no espírito
de quase todos os fisiologistas que se apegam seriamente à parte de sua ciência
relativa aos fenômenos morais. Broussais nada tentou para eliminá-la, embora pareça,
em alguns passos de sua obra, ter-lhe sentido o vício principal.
De fato, é claro que o estudo do indivíduo e o da espécie, embora tendo, por
sua natureza, relações de tal modo íntimas que possam ser consideradas como duas
partes de uma ciência única, no entanto são, um e outro, bastante distintos, e sobretudo
bastante extensos para que devam ser cultivados separadamente, e concebidos, por
conseguinte, como formando duas ciências: a fisiologia propriamente dita e a física
social. A segunda se baseia, sem dúvida, sobre a primeira, que lhe fornece seu ponto
de partida positivo e é seu guia permanente. Ela, porém, não deixa de ser, por este fato,
uma ciência à parte, tendo suas observações próprias na história do desenvolvimento
da sociedade humana e seus métodos especiais. Haveria impossibilidade absoluta de
considerá-la unicamente como dedução direta da ciência do indivíduo, a menos que
não se trate dos animais, cujo desenvolvimento social é de tal modo limitado que não
exige estudo distinto.
Se a fisiologia não está ainda completa e definitivamente constituída, se o
campo dessa ciência não está ainda exatamente determinado, a causa principal disto é
não estar ainda tal separação regularmente estabelecida e unanimemente aceita. Este
estado flutuante da ciência, mesmo nos espíritos mais elevados, prolongando-se,
poderia unicamente dar motivo real e duradouro à crítica e às pretensões dos
psicólogos, embora seja, aliás, evidente que o estudo dos fenômenos sociais não
pertence mais a seus métodos metafísicos do que o dos fenômenos individuais.
Tais as principais reflexões filosóficas que me sugere a obra de Broussais,
considerada sob o aspecto do objetivo geral que o autor se propôs.
Apesar das observações que julguei dever apresentar a este respeito, esta obra é
perfeitamente digna de seu ilustre autor. Para honra de um público que se procura hoje
fazer retrogradar para a metafísica, espero obtenha esta obra um sucesso proporcional
à sua importância. Deve ela contribuir poderosamente para secundar a marcha natural
do espírito humano, desacreditando, de um modo geral, as especulações vagas e
quiméricas que retardam os progressos dos conhecimentos reais.
Desde as memórias de Cabanis e os trabalhos de Gall e Spurzheim, não
apareceu nenhuma obra tão própria para fazer sentir o vazio e a nulidade dessa ciência
ilusória de abstrações personificadas, que Cuvier tão bem caracterizou, dizendo
empregar metáforas em lugar de raciocínios, e que o próprio Broussais, com tanta
felicidade, definiu como "um jogo de imaginação quase análogo à poesia".
Broussais faz apreciar, em seu justo valor, esse aglomerado de opiniões
incoerentes, necessariamente variáveis, não só entre os indivíduos, mas no mesmo
indivíduo, conforme as disposições diversas que sua organização experimenta. Tende
eminentemente a fazer desaparecer, para sempre, esse espírito místico, tão lisonjeiro
para a ignorância orgulhosa, espírito que inspira instintiva repugnância por qualquer
estudo especial e positivo, apresentando algumas abstrações, vazias de sentido, como
dominando todos os conhecimentos reais, tendendo a lançar-nos de novo no estado de
infância, ao restabelecer, entre nós, sob nova forma, o império das concepções
teológicas.
Broussais pode ser considerado como o fundador da patologia positiva, isto é,
da ciência que liga as perturbações dos fenômenos vitais à lesão dos órgãos ou dos
tecidos. Desde a época em que a fisiologia começou a constituir uma verdadeira
ciência, isto é, em meados do último século, muitos dos que cooperaram para este
grande movimento do espírito humano, e, sobretudo, Morgagni e Bonnet, se haviam
entregue a importantes trabalhos sobre as sedes das doenças. Mas tais trabalhos não
mudavam o espírito geral da patologia, que continuava a representar o maior número
das doenças, mais consideráveis, como independentes de qualquer alteração do estado
normal dos órgãos. Tais pesquisas não podiam mesmo ter muito grande influência
sobre a ciência, antes que a distinção fundamental, entre os órgãos e os tecidos, devida
ao gênio de Bichat, se estabelecesse, pois é principalmente pelos tecidos e não pelos
órgãos, que as lesões devem ser estudadas.
Partindo da anatomia geral, fundada por Bichat, constituiu Broussais a
patologia sobre suas verdadeiras bases, fazendo-a consistir no exame das alterações de
que são suscetíveis os diversos tecidos, e dos fenômenos que delas resultam. Foi o
primeiro a reconhecer claramente e a proclamar, alto e bom som, não serem quase
todas as doenças admitidas senão sintomas, não podendo haver perturbação de funções
sem lesão de órgãos, ou, antes, de tecidos.
Se Broussais se tivesse limitado a estabelecer este principio geral, teria, sem
dúvida, evitado a maior parte das críticas de que foram objeto os seus trabalhos, mas
não teria operado, no sistema da ciência, a importante renovação nele produzida por
sua escola, da qual decorre ser a metafísica expulsa de seu último asilo. Era
indispensável, para isto, não só representar, em geral, qualquer enfermidade como
dependendo, ou devendo depender de alguma lesão orgânica - proposição que, por sua
natureza, era pouco contestável - mas ainda determinar a sede precisa de cada uma das
doenças, que se consideravam como não tendo uma sede especial.
Foi o que Broussais executou, principalmente reduzindo as seis pretensas
febres essenciais a inflamações da membrana mucosa do estômago e do intestino,
descuradas até então pelos médicos. Não me cumpre examinar se, mais tarde,
Broussais exagerou a influência da gastrite e da gastrenterite sobre a produção dos
diversos sintomas mórbidos, o que era quase inevitável. Mas os espíritos imparciais,
que foram levados a censurar tais exageros, devem ter em vista a necessidade
filosófica, em que se achava Broussais, de designar um órgão para cada afecção
reconhecida, a fim de estabelecer a discussão sobre uma base positiva. Deve-se
considerar que, mesmo que ele se tivesse enganado sobre a sede real de tal ou qual
doença, era preferível para a patologia e até para a terapêutica, conceber uma sede
diferente da verdadeira, a não conceber nenhuma. Broussais terá, por este modo,
colocado definitivamente os espíritos no verdadeiro caminho da observação, onde,
mesmo combatendo suas ideias, só se pode servir aos progressos da ciência.
A primeira parte da obra atualmente publicada por Broussais é um tratado da
irritação. Pode ser considerado como uma exposição das generalidades mais elevadas
da doutrina do autor. Nunca se concebeu, de maneira tão direta e tão satisfatória, a
relação fundamental entre a fisiologia e a patologia, relação cujo profundo sentimento
é o que melhor caracteriza o espírito de Broussais.
Partindo da grande verdade geral, entrevista por Brown, segundo a qual a vida
só se mantém pela excitação, verdade de que Broussais se apropriou pelo importante
uso que dela fez, representa todas as enfermidades como consistindo essencialmente
no excesso ou na falta da excitação dos diversos tecidos acima ou abaixo do grau que
constitui o estado normal. Esta concepção lança grande luz sobre a natureza das
doenças, mostrando-as como produzidas por simples mudança de intensidade na ação
dos próprios estimulantes, indispensáveis à manutenção da saúde.
Depois de ter estabelecido que, na maior parte das vezes, há antes excesso do
que falta na excitação dos órgãos, e que mesmo a deficiência na ação dos estimulantes
de um órgão determina, de ordinário, a irritação de outros, como, por exemplo, o
estômago relativamente ao cérebro; Broussais distingue três graus na excitação
anormal dos órgãos: a superexcitação propriamente dita, a subinflamação e a
inflamação. Expõe os caracteres destes três estados nos principais sistemas orgânicos,
e sobretudo no sistema nervoso, que ele mostra, de acordo com a maioria dos
fisiologistas atuais, ser o agente geral das simpatias. Broussais leva mesmo a análise
fisiológica dos diversos tecidos mais longe do que se tem feito, porque considera os
elementos orgânicos de que são compostos todos os tecidos, e os reduz a três: a
fibrina, a gelatina e a albumina, em cada um dos quais examina os fenômenos da
irritação. Esta maneira de ver deve introduzir, mais tarde, grande e preciosa
simplicidade nas primeiras bases da fisiologia e da patologia.
Não devo deixar de assinalar, na doutrina fisiológica de Broussais, como
aperfeiçoamento considerável, a ausência dessas propriedades vitais, admitidas, ou
antes, mantidas por Bichat, e que deixavam às ideias fundamentais da fisiologia certo
caráter metafísico. Broussais substituiu-as pela propriedade uniforme da irritabilidade,
que existe em todos os tecidos, mas se manifesta, em cada um, por fenômenos
diferentes. Esta concepção tende a purificar a fisiologia do resto de metafísica que
Bichat havia sido obrigado a conservar nela. Ao mesmo tempo, imprime
definitivamente à física dos corpos vivos um caráter nitidamente distinto do da física
dos corpos inorgânicos, porque o ponto de vista da irritação abrange tudo quanto há de
peculiar ao estado da vida. Esta condição não era menos indispensável para constituir
uma verdadeira fisiologia positiva, e não tinha sido ainda suficiente e exatamente
preenchida pelos fisiologistas, que se haviam esforçado em desembaraçar inteiramente
sua ciência das concepções metafísicas.
Esta primeira parte da obra de Broussais está cheia de pontos de vista elevados
e novos. Só lhe censurarei certa obscuridade na exposição, sobretudo uma ausência
quase total de método na coordenação das ideias. A mistura, muito pouco cuidada, das
concepções fisiológicas com as patológicas, introduz uma espécie de confusão que
deve tornar difícil apreender, mesmo no caso de um leitor atento e instruído, o espírito
geral desse notável trabalho; mas este inconveniente pode ser corrigido em nova
edição, se Broussais, como não duvido, reconhecer a necessidade de amadurecer mais
suas principais concepções, determinando, com maior precisão, seu caráter, e medindo
mais exatamente o alcance de cada uma delas.
Não se deve perder de vista o grave motivo geral que determinou a composição
desta obra: a necessidade de combater a ontologia, que pretende apoderar-se, de novo,
do espírito da geração atual. Devemos desculpar, por esta razão, um vício de método
que o autor teria certamente evitado se houvesse podido empregar na meditação de seu
trabalho todo o tempo necessário. Broussais, todavia, não deve esquecer conter esta
obra as principais ideias-mães de um tratado geral da vida, considerada quer no estado
normal, quer no patológico. Para glória sua, deve elevar, ele mesmo, este monumento
necessário aos progressos ulteriores da ciência.
Fazendo novas meditações acerca de seu trabalho, Broussais, sem dúvida,
também reconhecerá que, ao tratar do sistema nervoso, não atribuiu bastante
importância à distinção fundamental entre os dois sistemas nervosos: o cerebral e o
dos gânglios. Não consagrou bastante atenção aos caracteres próprios deste último,
tanto sob o ponto de vista fisiológico, como sob o patológico.
Seria igualmente de desejar tivesse Broussais tomado mais em consideração a
anatomia comparada, e houvesse empreendido explicitamente lançar suas vistas para a
organização humana em harmonia com o conjunto da série animal, condição
atualmente indispensável a toda grande concepção fisiológica, e que ele, sem dúvida,
preencheu implicitamente.
Pouco tenho a dizer quanto à segunda parte da obra, que trata da loucura. E
uma aplicação muito natural dos princípios estabelecidos na primeira parte, relativos à
irritação especial do cérebro. Esta aplicação, muito bem feita, lança muita luz sobre os
próprios princípios. A execução dela é muito mais satisfatória do que a da parte
precedente. Nada acrescenta de muito capital ao estado presente deste importante ramo
da patologia; mas os conhecimentos adquiridos até aqui sobre este assunto são aí
resumidos com uma clareza e uma perfeição de método muito superiores às que
apresentam todos os tratados existentes, e isto é prestar à ciência um serviço muito
importante. Não há leitura mais adequada para preservar ou curar da contaminação das
doutrinas psicológicas.
Quanto ao que é pessoal do autor no fundo das ideias, notei que, colocando,
com todos os fisiologistas atuais, a sede da loucura no cérebro, Broussais caracteriza,
de maneira muito mais precisa do que eles o fizeram, o estado de irritação cerebral que
determina a alienação. Apresenta, também, considerações novas e mui judiciosas
relativas às indicações que se podem esperar das necropsias. Faz sentir que o estado de
inflamação, que desorganiza os tecidos, e, por conseguinte, deixa, após a morte, os
únicos traços sensíveis que se observam ordinariamente, sendo apenas o mais alto grau
do estado de irritação que perturba as funções normais, é muito possível que essa
perturbação ocorra em virtude de uma superexcitação, sem que se descubram, depois
da morte, as alterações inflamatórias. Broussais destrói assim, indiretamente, a única
objeção razoável, levantada contra a patologia positiva, pelos patologistas metafísicos
da escola de Mompilher, que, na carência, em certos casos, de lesões cadavéricas,
concluíram pela manutenção da teoria das doenças chamadas essenciais.
As pessoas que, sob a influência de prevenções vulgares, a que os sábios
deveriam ser indenes, apresentam Broussais como subordinando tudo ao estômago, na
economia animal, terão, lendo esta obra, uma ideia mais justa do alcance e da elevação
de seu espírito. Ele expõe, em toda a sua intensidade, a grande influência simpática
exercida pelas vísceras digestivas sobre todos os órgãos, e particularmente sobre o
cérebro, influência que nem sempre foi convenientemente apreciada pelos fisiologistas
consagrados, de modo especial, ao estudo do sistema nervoso. Não se percebe, porém,
em sua obra, a este respeito, o vestígio de qualquer preocupação; ele nada expõe que
esteja além das observações mais verificadas.
Tratando das monomanias, Broussais acha e aproveita a ocasião para prestar
digna homenagem aos importantes trabalhos de Galle Spurzheim e da escola
frenológica sobre o cérebro. Devo felicitá-lo por este ato de justiça que é, ao mesmo
tempo, um ato de coragem, porque esta é necessária, ainda hoje, aos cientistas para se
pronunciarem publicamente a favor de doutrinas tão contrárias às opiniões oficiais.
Nesta doutrina, por mais imperfeita que ainda seja, Broussais viu a imensa luz que
projeta sobre o conhecimento do homem. Parece que reconheceu quanto esta
importante reforma favorece a revolução geral do espírito humano para o
estabelecimento de uma filosofia inteiramente positiva.
Broussais apresenta, entretanto, algumas objeções à atual doutrina de Gall. Na
maioria, pareceram-me pouco fundadas. Uma só é verdadeiramente sólida: é a censura
de não tomar em consideração a extrema influência exercida sobre o cérebro pelas
vísceras digestivas e geradoras. E certo que esta influência, consideravelmente
exagerada pelos fisiologistas antes de Gall e Spurzheim, foi demasiadamente
descurada pela escola frenológica, e, sob este ponto de vista, as ideias fundamentais da
nova doutrina do cérebro têm necessidade de ser submetidas a uma elaboração mais
completa.
Relativamente ao tratamento efetivo da loucura, as considerações apresentadas
por Broussais pouco acrescentam à massa dos conhecimentos adquiridos; mas a
terapêutica dessa afecção é concebida e exposta de maneira bem mais racional do que
em qualquer dos tratados existentes. O autor considera o tratamento usual
demasiadamente inativo. Pensa, com razão, que fortes sangrias, praticadas a propósito,
no começo da enfermidade, podem curar com presteza uma loucura incipiente, como
sucede com uma peripneumonia ou com uma gastrite agudas.
Broussais insiste justamente, como todos os autores que escreveram depois de
Pinel, sobre a importância do tratamento moral. Mas é de admirar que, recomendando
ele para isto, como primeira condição indispensável, o regime das casas de saúde, não
assinale a extrema negligência com que é geralmente atendida, nesses
estabelecimentos, esta parte tão essencial da medicação.
Broussais não pôde, sem dúvida, observar com suficiente cuidado a maneira
pela qual são geralmente mantidos tais estabelecimentos: julgou-os constituídos e
administrados como deveriam e poderiam ser. Se os houvesse estudado por si mesmo,
ter-se-ia convencido de que, apesar das promessas de seus diretores, toda a parte
intelectual e efetiva do tratamento aí se acha, de fato, por eles entregue à ação
arbitrária de agentes subalternos e grosseiros, cuja conduta agrava, quase sempre, a
enfermidade que deveriam contribuir para curar.
Tais são as principais considerações que eu devia apresentar aqui sobre a nova
obra de Broussais. Não tive a pretensão de torná-la conhecida, mas unicamente de bem
caracterizar-lhe o espírito e de fazer sentir a todos os que se interessam pelos
progressos das ciências fisiológicas, a necessidade de estudá-la. Esforcei-me por atrair
a atenção pública para esta obra por ser um trabalho capaz de concorrer para o
desenvolvimento geral da razão humana, e opor-se, eficazmente, à direção mística que
alguns escritores, estranhos ao verdadeiro espírito do século, empreendem hoje
imprimir ao estudo do homem.
A publicação deste importante escrito deve consolidar a glória de Broussais e
fazer apreciar todo o alcance de suas concepções. Até aqui, ele só era essencialmente
conhecido como reformador em patologia e em terapêutica. Agora se revela
fisiologista e filósofo e prova haver unidade em seu espírito, porque suas ideias de
aplicação se ligam a concepções teóricas impregnadas do mesmo caráter. Em resumo,
mostra-se destinado, pelo conjunto de seus trabalhos, a figurar, na posteridade, como
um dos homens que mais eficazmente contribuíram, quer de modo direto, quer
indireto, para a formação e triunfo da filosofia positiva, termo geral e definitivo da
grande evolução do espírito humano.

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