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PESOS DE TEAR COM GRAFITOS PROVENIENTES

DO SÍTIO DA RAPOSA (PEROVISEU)

Marcos Osório
Município do Sabugal e Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades
de Coimbra e do Porto

I | Contextualização da descoberta

As escavações de emergência efectuadas no sítio da Raposa (Peroviseu,


Fundão)1, no âmbito do acompanhamento arqueológico da construção do
canal condutor geral da Cova da Beira (3º troço: Monte do Bispo - Capinha),
coordenadas por Elizabete Robalo, possibilitaram a identificação de alguns
testemunhos de uma construção interpretada como um casal rústico,
associado a uma represa de água com paredão e uma levada de irrigação
aberta na rocha, que fornecia água ao edificado. Foi possível identificar
alguns alinhamentos de paredes dessa construção, apenas nas sondagens 1
e 4, permitindo fazer a estimativa de um mínimo de 16 metros de extensão
edificada. Não sabemos qual a natureza dos compartimentos definidos por
estes muros, mas teriam provavelmente funções domésticas e artesanais,
incluindo a moagem de cereais e a confecção de tecidos, de vincada
componente agrícola, à semelhança dos outros núcleos habitacionais da
mesma cronologia conhecidos pelo vale da ribeira da Meimoa (Carvalho,
2007: 202-225).
Os resultados destes trabalhos arqueológicos foram apresentados no
colóquio Os segredos do subsolo no Concelho do Fundão (Fevereiro de 2011) e
encontram-se publicados no número anterior desta revista (Robalo, Osório
e Santos, 2011/2012: 22-36), para a qual remetemos, com respeito à descrição
detalhada da intervenção e das suas conclusões.
Pela análise dos materiais, especialmente da fíbula de tipo Aucissa, dos
fragmentos de Terra Sigillata de fabrico hispânico, das cerâmicas cinzentas
finas e das cerâmicas pintadas de tradição indígena, julga-se que a sua
ocupação se estendeu desde o séc. I a.C. ao séc. I d.C.
Entre o espólio exumado no local, incluem-se também 20 pesos de
tear de barro (e mais 6 pequenos fragmentos), de diferentes tamanhos e
morfologias, dos quais 4 possuíam grafito, correspondente a 20%2, o que é

1   A estação arqueológica da Raposa localiza-se na freguesia de Peroviseu, concelho do


Fundão e distrito de Castelo Branco, estando o local assinalado na carta militar nº 235 (1:25.000),
segundo as coordenadas UTM 29TPE 630,50/ 4452,74, a cerca de 535 metros de altitude.
2   Dado o estado fragmentado de alguns exemplares recolhidos e a reduzida área de escav-

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verdadeiramente notável num assentamento rural de pequenas dimensões Alguns caracteres encontram-se esbatidos, devido ao desgaste da peça, e o
e com reduzida área escavada. Este número razoável de pondera descobertos rasgo é pouco profundo.
mostra a importância da actividade têxtil no sítio da Raposa. O texto está completo, gravado em duas linhas, permitindo, apesar do
Estes pondera mereciam naturalmente um estudo mais detalhado e daí mau estado de conservação do objecto, a sua leitura integral. Os caracteres
a necessidade desta publicação posterior. Por isso, abordaremos neste texto são irregulares e gravados com traço bastante fino, faltando a primeira e a
cada peso grafitado em pormenor e retiraremos seguidamente algumas última letra da linha 1ª. A escrita é conforme as regras cursivas: o B escreve-
conclusões sócio-económicas da sua análise conjunta. se como um D, os AA não têm hastes horizontais, o O não é perfeitamente
circular, nem fechado superiormente, sendo gravado também de cima para
baixo.
II. Descrição dos pesos de tear
N.º 3. Fragmento superior de uma peça de cerâmica de tendência
N.º 1. Peça de cerâmica de morfologia paralelipipédica e de secção tronco-piramidal e de secção quadrangular, com um orifício de suspensão
sub-rectangular, de pasta medianamente fina e porosa, de cor vermelho- cilíndrico. Fabrico de pasta grosseira de cor vermelha-acastanhada, bem
alaranjada, com um orifício de suspensão cilíndrico. Apresenta as faces cozida, apresentando a superfície razoavelmente alisada e as arestas pouco
bastante degradadas e as arestas gastas. Na tipologia estabelecida para os gastas. Aproxima-se da tipologia definida para os pesos de Conimbriga
pesos de tear de Conimbriga, enquadra-se no Grupo I e classe B – uma das correspondente ao Grupo VI e possivelmente à classe B.
formas mais frequentes nas colecções desta cidade romana.
[II]X OF(ficina) / [...] R vel BII (?) - «Da oficina de (...)»
IIX OF(f)ICIN[a] / SABIN(a)II - «Da oficina de Sabina».
Altura das letras: O = 0,7; F = 1,1; I = 0,7.
Altura das letras: 1: 0,9-1 (O= 0,7); 2: 0,6-0,8 (A= 1; II= 0,4-0,5).
O grafito foi gravado imediatamente abaixo do orifício de suspensão,
A inscrição foi gravada imediatamente abaixo do orifício de suspensão, antes da cozedura e com recurso a um objecto aguçado. O rasgo é fino e pouco
antes da cozedura e com recurso a um objecto aguçado. O texto está profundo. Os caracteres estão deficientemente gravados e pouco claros.
completo, dividido em duas linhas, e em razoável estado de conservação Devido às escoriações sofridas na superfície do peso, apenas se visualizam
para permitir a sua leitura integral. As letras foram gravadas de forma 3 ou 4 letras, que se resumem à abreviatura da palavra “ex officina” e às
irregular e apressadamente. O rasgo é profundo e largo em algumas letras e últimas letras do provável antropónimo, já ilegível. A escrita é coerente
mais fino e suave nas restantes, havendo exemplares de reduzido tamanho, com as regras cursivas, mas os caracteres são irregulares no tamanho e na
como por exemplo os II finais. A escrita segue as regras cursivas: o B escreve- gravação: o F é bastante assimétrico, tendo a haste inferior maior do que a
se como um D, os AA não têm hastes horizontais, o O não é perfeitamente superior, e o O é aberto na parte inferior, tendo sido gravado (ao contrário
circular, nem fechado superiormente, e foi gravado de cima para baixo, dos grafitos anteriores) de baixo para cima. As restantes letras são muito
como é habitual. difíceis de interpretar. O espaço truncado é insuficiente para caberem as
letras do nome SABINA3 e parece ler-se no final da linha um B e dois I, não
N.º 2. Peça de cerâmica de morfologia paralelipipédica, com ligeira tendo correspondência directa com os outros exemplares recolhidos, mas
tendência tronco-piramidal, de secção subquadrangular, com um orifício sendo uma marca distinta.
de suspensão cilíndrico. Fabrico de pasta medianamente fina e porosa,
de cor vermelha-alaranjada, com manchas acinzentadas de combustão, N.º 4. Peça de cerâmica de morfologia paralelipipédica e de secção
apresentando o topo bastante danificado e a base já sem arestas. Na tipologia sub-rectangular, de pasta grosseira de cor creme-alaranjada (com manchas
estabelecida para os pesos de Conimbriga, corresponde ao Grupo II, classe B. de combustão), apresentando a superfície gasta, especialmente as arestas
laterais. Pertence ao tipo de pesos de Conimbriga do Grupo I, classe A.
[II]X OF(f)ICIN[a] / SABINAII - «Da oficina de Sabina». Possui ainda, sob o orifício de suspensão cilíndrico, descaída para o lado
direito, uma cavidade oval (0,8X1,8 cm) aberta na face (que não atravessa
Altura das letras: 1: 0,6-0,7 (X = 1,1); 2: 0,6-0,9 (S = 1,5; I = 0,3). completamente a peça), de natureza desconhecida.

A inscrição foi gravada imediatamente abaixo do orifício de suspensão, AV(itae) - «Da Avita»
antes da cozedura e provavelmente com recurso a um objecto aguçado.

3   Nos grafitos anteriores, «SABINA» foi gravada em cerca de 4,5 cm de extensão, inex-
ação do assentamento, nada invalida que não houvesse mais pesos grafitados. istentes na fractura observável no peso.

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Altura das letras: A = 1,4; V =1,2. Portugal geralmente mencionam apenas o nome do proprietário da olaria,
por extenso ou em abreviatura, e só muito raramente são acompanhados
A abreviatura foi gravada no topo do peso, como é mais usual, num da expressão ex officina – que é mais frequente noutro tipo de produções
espaço com a dimensão de 6,5 X 4,5 cm, provavelmente com recurso a um cerâmicas. Sem esta menção explícita, poderíamos pensar que as marcas
objecto aguçado, antes da cozedura. Os caracteres estão bem desenhados e esgrafitadas identificavam meramente algum operário fabril ou até o artesão
centrados no topo, com rasgo profundo e constante. As letras da inscrição têxtil. Em Conimbriga apenas foi identificado um pondus com a abreviatura
resumem-se às iniciais do antropónimo e lêem-se perfeitamente. A escrita de officina (Alarcão et alii, 1979: 79, n.º 301.1), por isso estas três referências
é de tipo actuária e os caracteres são regulares: o A apresenta a haste da Raposa são bastante significativas.
horizontal, embora descaída para a direita. Os nomes legíveis que se observam nestes pesos identificam pessoas do
sexo feminino e uma outra indeterminada (peso n.º 3), o que vem corroborar
a ideia, já anteriormente defendida (Correia, 1994b), da propriedade
IV. Análise comparativa dos pesos em relação aos feminina de grande parte das oficinas de olaria, considerando que a
exemplares de Conimbriga menção a mulheres em grafitos de cerâmica de construção é quase superior
aos homens. Em Conimbriga estão inventariados pelo menos dez nomes
N.º MORFOLOGIA ORIFÍCIO
DIÂMETRO DO DIMENSÕES (cm)
PESO (g)
femininos distintos e perceptíveis (Alarcão et alii, 1979: 65-79), podendo este
ORIFÍCIO (cm) ALT. LARG. ESP.
número ser superior, tendo em conta a grande quantidade de abreviaturas
Grupo I,
1
classe B
ÚNICO 1,1 11 6,7 - 7,4 5 - 6,5 830
e siglas indefinidas.
2
Grupo II,
ÚNICO 0,8 12 7 6 772 Faltam-nos dados que permitam localizar estas olarias e saber se as
classe B

Grupo VI,
peças da Raposa provinham de núcleos locais ou de oficinas distantes,
3 ÚNICO 1 - 1,2 [8] 6,8 5,5 [460]
classe B
por exemplo da sede da civitas Igaeditanorum. Na tentativa de resolver esta
Grupo I,
4
classe A
ÚNICO 1,2 - 1,5 14,5 7,7 4,7 900 questão, procurámos saber junto de José Luís Cristóvão, arqueólogo do
Município de Idanha-a-Nova, se tinham sido recolhidos nas escavações
Tendo em conta os estudos realizados com os inúmeros pesos de tear de Idanha-a-Velha pesos de tear com marcas de oficina semelhantes a
descobertos nas escavações de Conimbriga, recorremos a este trabalho como estas, e obtivemos da sua parte a gentil informação de que os exemplares
fonte de análise comparativa. descobertos na capital dos igaeditani apresentam apenas sinais esquemáticos.
Neste quadro verificamos que não existem semelhanças morfológicas Este facto leva-nos a descartar a hipótese de uma proveniência distante,
entre os 4 pesos, havendo apenas a presença repetida de 2 exemplares desde o principal centro urbano deste território. O mais certo é que seja
enquadrados no Grupo I de Conimbriga, de tendência paralelipipédica e de uma produção confinada à bacia da ribeira da Meimoa, embora não
secção rectangular, que é dos mais comuns aí descobertos, com cerca de tenhamos notícia do achado de outras peças grafitadas semelhantes a estas
uma centena e meia de exemplares (Alarcão et alii, 1979: 57). na região (Rosa e Salvado, 2004: 33; Ângelo e Ribeiro, 2008; e Rosa e Bizarro,
Os pesos da Raposa apresentam apenas um único orifício: em Conimbriga 2011/2012). Apenas nas escavações de Terlamonte (Covilhã) há a indicação
estes são igualmente mais numerosos do que os de orifício duplo. Também do achado de um peso de tear com o nexo VA (Carvalho, 2006: 536).
nas dimensões se aproximam razoavelmente dos exemplares de Conimbriga, Dois destes pesos foram feitos na oficina de Sabina, que se identifica
sendo apenas ligeiramente superiores à sua média de alturas, que ronda os como Sabinae ou Sabine (por lapso de gravação) e outro terá vindo da olaria
8,5 a 11 cm (Idem, 1979: 57), e mais pesados do que as 400 g médias das peças de Avita, interpretação mais provável para a sigla AV. Poderíamos ainda
descobertas nessa cidade romana. propor os nomes Avnia, Avelea, Avelia (também conhecidos na região:
Ferreira, 2004: 211) ou Avrelia, mas dada a frequência daquele antropónimo
na epigrafia hispânica (Untermann, 1965: 65-66, mapa 14; Abascal Palazón,
V. Estudo interpretativo dos grafitos 1994: 292-295) e do seu aparecimento em outros pondera já publicados (por
exº em Conimbriga: Alarcão et alii, 1979: 65, n.º 197.1; Correia, 1994a), não
Os grafitos produzidos na cerâmica romana são uma importante fonte tivemos relutância em assumir esta hipótese. O grafito até está abreviado,
de informação sobre a onomástica, o nível cultural das populações e as suas exactamente por ser sobejamente conhecido na altura.
condições de trabalho (Alarcão et alii, 1979: 54). A antroponímia grafitada é latina, mas enquanto Avita é bastante
O traço fino e profundo dos grafitos da Raposa é revelador da sua popular em ambientes indígenas, Sabina está mais ligada a gentilícios
gravação ante coctvram, provando que são marcas de oficina aplicadas no clássicos, de origem itálica, embora sendo também bastante comum nesta
fabrico das peças, ao contrário dos rasgos superficiais que se observam região4. Ambos antropónimos aparecem repetidamente em marcas e grafitos
quando são feitos após a cozedura.
Os pondera grafitados semelhantes a estes que têm sido publicados em 4   É conhecida uma Sabina, mãe de uma Avita, numa epígrafe funerária encontrada a pou-
cos 4 km deste núcleo romano, em Alcaria (Ferreira, 2004: 60), o que não deixa de ser uma

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de Conimbriga (Alarcão et alii, 1979: 65-79). cavidade natural.
Os pesos procedem, portanto, de duas diferentes oficinas de olaria, A análise paleográfica destas marcas de oficina sugere uma datação
que talvez não fossem contemporâneas, como se depreende das diferenças do primeiro século da nossa era, em conformidade com a cronologia dos
de grafia entre o pondus de Avita (letra actuária cuidada) e os da Sabina restantes materiais aqui recolhidos. Porém, a análise paleográfica do quarto
(cursiva e apressada). A gravação da letra ‘A’ com haste horizontal descaída grafito, especialmente o desenho descaído da haste horizontal do ‘A’,
ou sem haste, como ocorre de forma distinta num e noutro peso, pode ser aponta para uma datação mais tardia. Por outro lado, a referência explícita
um indicador precisamente desse desfasamento cronológico. Quanto ao à officina, em três deles, não parece concordar com ambientes sócio-
quarto peso, com o antropónimo ilegível, poderá ter sido produzido numa culturais ainda incipientemente romanizados, como se poderia deduzir da
outra oficina distinta destas. análise cronológica e tipológica dos materiais, mas revela um manifesto
Alguns investigadores calculam que seriam necessários cerca de 10 a 12 desenvolvimento económico e civilizacional. Por isso, eles devem provir da
pesos para confeccionar tecido suficiente para vestuário (Alarcão et alii, 1979: fase mais recente e última de ocupação do edificado, algures nos finais do
55), mas há quem proponha maior quantidade de peças. Os 20 exemplares séc. I d.C.
presentes na Raposa poderiam então explicar-se pela existência de mais do Apesar das várias interrogações colocadas neste texto, é notável a
que um tear neste casal ou então por se tratar de peças já inutilizadas e quantidade de informação sobre a ocupação romana da região do Fundão
substituídas. que estes meros artefactos de barro esgrafitados nos deixaram. Talvez com
A disparidade de grafitos e de morfologias destes pesos, à semelhança futuras descobertas em escavações do período romano no Município do
daquilo que se passa em Conimbriga, demonstra que se usavam peças de Fundão se possam dar mais achegas a estas problemáticas, por agora ainda
formato bastante diferenciado e de distintas oficinas num mesmo atelier de não esclarecidas.
tecelagem (Alarcão et alii, 1979: 63). Sendo assim, supõe-se que os pesos de
barro empregues num tear poucas vezes provinham da mesma fornada e
raramente ostentavam marcas de oficina comuns.
Mas existem outras questões de carácter técnico que necessitam de Bibliografia
ser ponderadas para esta problemática, como, por exemplo, saber se a
totalidade dos exemplares fabricados na mesma oficina eram grafitados ou ABASCAL PALAZÓN, Juan Manuel (1994) - Los nombres personales en las inscripciones
se só excepcionalmente os proprietários assinavam o seu produto, sendo latinas de Hispania. Murcia: Universidad, Secretariado de Publicaciones; [Madrid]: Universidad
Complutense (Arqueología; I. Anejos de Antigüedad y cristianismo; 2).
essa a explicação para a maioria dos pesos romanos anepígrafos que são
ALARCÃO, Jorge; ETIENNE, Robert; ALARCÃO, Adília Moutinho e PONTE, Salete da (1979)
recolhidos.
- Fouilles de Conimbriga - VII - Trouvailles diverses, conclusions générales. Paris: M.A.F.P. /
Os pesos grafitados descobertos nestas escavações provêm apenas das M.M.C.
sondagens 1 e 2, e nenhum exemplar foi recolhido na sondagem 4, para ÂNGELO, Maria João; RIBEIRO, Carla Alegria (2008) - Torre dos Namorados [Quintas da
onde se prolongava a edificação (estampa 1). Torre, Vale Prazeres, Fundão]. Ebvrobriga. Fundão. 5, p. 27-52.

Na primeira sondagem foi detectada a esquina da construção, enquanto ETIENNE, Robert; FABRE, Georges; LÉVÊQUE, Pierre e LÉVÊQUE, Monique (1976) - Fouilles
de Conimbriga – II - Epigraphie et sculture. Paris: M.A.F.P. / M.M.C.
na segunda foram identificadas marcas que testemunham o provável alicerce
de uma parede perpendicular do edifício, que delimitava uma depressão CARVALHO, Pedro C.; RIBEIRO, Carla Alegria; SILVA, Ricardo Costeira da; ALMEIDA,
Sara Oliveira (2002) - Povoamento rural romano ao longo da Ribeira da Meimoa – Fundão (1.ª
topográfica. Devido à inclinação do terreno, preservou-se aí um interessante campanha de prospecção intensiva). Conimbriga. Coimbra. 41, p. 127-152.
depósito estratigráfico com cinzas e carvões, progressivamente arrastado
CARVALHO, Pedro C. (2006) - Cova da Beira. Ocupação e exploração do território na época romana.
pela erosão e pelos trabalhos agrícolas, marcando o nível de abandono do Dissertação de Doutoramento na área de História, especialidade de Arqueologia. Coimbra:
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
habitat, onde foram exumados diversos materiais.
A maior concentração de pesos de tear nesta sondagem 2 (num total de CARVALHO, Pedro C. (2007) - Cova da Beira. Ocupação e exploração do território na época romana
(Conimbriga; anexo 4). Fundão/Coimbra.
12 elementos em 30 m2 de área), dois deles grafitados, poderia ser explicada
CORREIA, Virgílio Hipólito (1994a) - Marca grafitada de “Allia Avita” sobre um peso de Tear,
por aí se encontrar instalado o espaço de tecelagem. Contudo, devemos ter
de Conimbriga. Ficheiro epigráfico. Coimbra. 47:210
em conta que também se recolheram 9 pesos e mais alguns fragmentos na
CORREIA, Virgílio Hipólito (1994b) - Marca grafitada de “Bovtia” sobre um peso de Tear, de
sondagem 1, entre os quais os dois exemplares da oficina da Sabina (estampa Conimbriga Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 47:211.
1), que sugerem uma utilização conjunta. Sendo assim, estes poderiam
CORREIA, Vírgilio Hipólito (2005) - Grafitos oficinais sobre talhas, de Conimbriga. Ficheiro
encontrar-se provavelmente in situ, no local da sua primitiva utilização, ao Epigráfico. Coimbra. 78:356.
passo que os outros dois, recolhidos no dito nível de abandono detectado ENCARNAÇAO, José d’; SILVA, José Rafael Correia da (1995) - Peso de tear com grafito.
mais a sul, na sondagem 2, estariam inutilizados e entulhados na referida Ficheiro Epigrafico. Coimbra. 50:229.

ENCARNAÇÃO, José d’ (2006), Epigrafia. As pedras que falam. Coimbra: Imprensa da


Universidade.
coincidência deveras assinalável.

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ENCARNAÇAO, José d’ (2009) - A epigrafia do momento: grafitos... a comunicação sedutora!
In ANGELI BERTINELLI, Maria Gabriella; DONATI, Angela (eds.) - Opinione pubblica e
forme di comunicazione a Roma. Il linguaggio dell’epigrafia.

FERNANDES, Luís da Silva (2000) - Peso de tear epigrafado de Tomar (Conventus Scallabitanus).
Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 59:274.

FERNANDES, Luís da Silva (2003) - Pesos de tear com marca da uilla de Cardais, Tomar
(Conuentus Scallabitanus). Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 72-73:323.1-323.7.

FERREIRA, Ana Paula Ramos (2004) - Epigrafia funerária romana da Beira Interior: inovação ou
continuidade? (Trabalhos de Arqueologia; 34). Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p.
60.

LEMOS, Francisco Sande, ENCARNAÇÃO, José d’ (1993) - Marca sabini numa tijoleira de
Braga (Conventus bracaraugustanus). Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 45:205.

REIS, Maria Pilar; RUIVO, José da Silva (2005) - Marca grafitada de Casa, sobre um peso de tear
de Conimbriga. Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 78:353.

ROBALO, Elisabete; OSÓRIO, Marcos; SANTOS, Bruno (2011/2012) – Resultados da escavação


do habitat romano da Raposa (Fundão). Eburobriga. Fundão. 7, p. 22-36.

ROSA, João Mendes; SALVADO, Pedro Miguel (2004) – A história milenar do Fundão: os elos
perdidos. Ebvrobriga. Fundão. 1, p. 28-34.

ROSA, João Mendes; BIZARRO, Joana (2011) – Marca grafitada Firmus do Ervedal (Conventus
Emeritensis). Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 92:412.

ROSA, João Mendes; BIZARRO, Joana (2011/2012) – Intervenção arqueológica no Ervedal:


balanço e resultados. Ebvrobriga. Fundão. 7, p. 6-22.

RUIVO, José da Silva (2005a) - Marca grafitada de Arcea, sobre um peso de tear de Conimbriga.
Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 78:351.

RUIVO, José da Silva (2005b) - Marca grafitada IA, sobre um peso de tear de Conimbriga.
Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 78:352.

RUIVO, José da Silva (2005c) - Marca grafitada de Iulia, sobre um peso de tear de Conimbriga.
Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 78:354

RUIVO, José da Silva (2005d) - Marca de L. Allivs Avitvs, impressa num tijolo de Conimbriga.
Ficheiro Epigráfico. Coimbra. 78:355.

UNTERMANN, Jürgen (1965) - Elementos de un atlas antroponímico de la Hispania antigua. Madrid:


Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Instituto Español de Prehistoria (Bibliotheca
praehistorica Hispana; 7).

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Sinagoga e Judaria de Tomar (Séc. XV):
um microcosmos cultural

Salete da Ponte
Professora jubilada pelo Instituto Politécnico de Tomar

Rui Ferreira
Assistente Técnico da Direcção Geral do Património Cultural

resumo

Propusemo-nos apresentar neste evento turístico, algo mais do que a


Sinagoga de Tomar, o único templo judaico coevo da presença da comunidade
hebraica até à expulsão, pelo rei D. Manuel I. Delineamos o bairro judaico ou
a judiaria, na área do concelho da Vila de Tomar, usando certas ferramentas
de abordagem territorial (geo-topografia; paisagem natural e humana), com
relevância para as várias fontes de estudo arqueo-histórico.
Este “território” (espaço judaico), delimitado dentro de outro
“território” (Concelho da Vila), permite uma nova abordagem de interligação
e segregação dos espaços (abertos e fechados), com diferentes actores e
agentes sociais, no desenvolvimento multifacetado da Vila quatrocentista
de Tomar.
Palavras-Chave: Vila de Tomar; Sinagoga Geminada; mikvé; mercado;
cemitério;

Abstract
Estampa 1 – Planta das sondagens e das estruturas arqueológicas identificadas no sítio da
Raposa, assinalando o local de achado dos pesos grafitados.
For this conference we proposed to present something further
than Tomar Synagogue, the sole coeval Jewish temple that held a Hebrew
community till their expulsion during King Manuel I realm.
We outlined the Jewish quarter or “judiaria”, within the village of Tomar
boundaries, using territorial assessment tools such as geo-topography and
the natural and human prospects, bearing the many archaeo-historical
study sources.
Considering a “territory” (the Jewish space), confined by
another “territory” (the village of Tomar), allowed a new approach on
interconnections and segregations of these various spaces, either secluded
or frank, with several players and social characters that had a role on the
broad growth of Tomar by the dawn of the 15 th century
Keywords: Village of Tomar; Twin set Sinagoga ; mikvé; market; cemetery;

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INTRODUÇÃO emprazavam casas de cristãos. Porém, os traços de miscigenação de padrões
e práticas civilizacionais multimodais, no “reino das três religiões” (Coelho,
O programa de desenvolvimento político-social do reino de Portugal1, 2008: p. 79), são “aparentemente” ténues na fisionomia e onomástica do
incrementado pela dinastia de Avis, concorreu para a organização comunal actual tecido urbano.
dos judeus, em torno da sua Sinagoga, “sede do governo da comunidade O fenómeno de crescimento demográfico, no século XV, provocaria
judaica” (Simik, 2009: p. 7). Tal facto, propiciou o estabelecimento das a agudização de conflitos sociais no interior do tecido social, motivada
comunidades judaicas urbanas, em diversas cidades do reino, ora numa pelos privilégios concedidos à comunidade judaica, sobretudo de natureza
“rua específica”, ora em várias judarias ou bairros, formando a comuna jurídico-administrativa e social.
judaica2. É certo que os encargos tributários da comuna hebraica eram bastante
No “palimpsesto” do edifício de prestígio quatrocentista, que é a Sinagoga significativos, mas nada comparáveis ao apoio fiduciário que concediam à
de Tomar, emergem memórias e incisões de um microcosmos espacial, social Coroa em troca de privilégios consignados em cartas régias.
e cultural bem diferenciado do espaço do Concelho da Vila, em que se Procurar-se-á reconstituir o arranjo urbanístico e perimetral da comuna
integram na mancha arquitectada do casario urbano. judaica nesta época, tendo por base a documentação arqueo-histórica até ao
Digamos que o espaço dinâmico da Vila de Tomar (vila de cima e vila momento disponível, mas também atendendo à morfologia específica deste
de baixo), entre o Séc. XIV e o Séc. XV, envolvia uma “diversidade cultural” “vale encaixado”, e atravessado pelo rio Nabão (afluente do rio Zêzere),
(cristãos; judeus e mouros), estando as minorias, na maioria dos casos, para além de antigos meandros hídricos e de poços/nascentes naturais
instaladas em zonas específicas (judarias e mourarias3), do tecido polinuclear existentes no espaço urbano, designado de Vila de Baixo.
urbano; por outro lado, nem sempre são detectáveis certas ambiências e Propor-se-á também uma área perimetral plausível, sobre a delimitação
imaterialidades espaciais, ainda impregnadas no actual tecido vivencial deste bairro judaico, estando ou não circunscrito, de forma real e simbólica,
urbano. por alguma “peça construtiva” identificadora do poder religioso da
Os monarcas portugueses até ao édito de 1496 (D. Manuel I), comunidade cristã (edifício de prestígio religioso – igreja cristã).
consignaram, em documentação régia, direito de protecção às minorias Questionar-se-á onde poderia ser o mercado judeu , como núcleo
– os “seus” judeus e mouros, permitindo, assim, a coexistência de três vital da específica dieta alimentar da comunidade judaica, regularmente
comunidades civilizacionais. Todavia, as fortes pulsões, rejeições e pressões designada por Kasher, em hebraico, ou Kosher (em iídiche, dialecto judaico).
sociais, entre cristãos e judeus, são já notadas nos reinados de D. Pedro e D. Por último propor-se-á, como hipótese de reflexão, o local de
Fernando, pelas “queixas levadas a Cortes”, assumindo estas proporções enterramento ou almocávar judaico, que ocuparia um espaço “cerco” da sua
bem gravosas, no reinado de D. João I (Coelho, 2008: p. 81). Sinagoga.
Procurar-se-á, nesta “magma de interacção cultural”, evidenciar a
segregação espacial e física da comunidade judaica, a par da impregnação
de vivências multimodais, entre o poder reinante e a elite judaica. Microcosmos Urbano (século XV)
É sabido que os judeus, no tempo do Infante D. Henrique (Grão-Mestre
da Ordem de Cristo), exerceram uma acção relevante no meio urbano A paisagem humanizada da sub-região médio-tagana, na qual se integra
tomarense, sobretudo nos domínios económico, fiscal, social e cultural. Tomar , conserva morfologias geo-antrópicas provenientes de correntes
A ampliação da malha urbana da Vila de Baixo (Sécs. XIV-XV), migratórias pós-reconquista4 (finais do Séc. XII), que visavam o repovoamento
resultante do crescimento económico e consequente aumento demográfico “do espaço adquirido ao espaço ocupado” (Conde, 2000: pp. 53-118), bem
do centro urbano de Tomar medieval, são factores determinantes para o como traços evidentes da presença e integração de muçulmanos vencidos e
poder crescente da classe minoritária judaica (Ponte, 2009: 100). Além do desapossados dos seus bens imóveis5. Além do mais, a toponímia de vários
mais os judeus abastados, ocupavam edifícios da Ordem de Cristo, ou então lugares do mundo rural do Médio Tejo, reporta-se aos “nomes próprios dos
povoadores6”.
Digamos que a paisagem rural e urbana tomarense apresenta,
1   Cf. Ferro 1979: p. 36 – “ as comunidades judaicas são um corpo vivo, administrativo e
religiosamente independente, directamente ligado ao rei, teoricamente desligado do concelho entre os séculos XIV e XV, uma dinâmica mercantil e um crescimento
onde reside, mas na prática, intimamente a ele associado”
económico, devido às significativas alterações do quadro político e jurídico-
2   A comuna judaica nos espaços urbanos, de pequena dimensão, era formada por uma
única judiaria; nas cidades de maior dimensão (ex: Porto ou Lisboa), e consequentemente com
administrativo, consignadas pelas chancelarias régias.
um número significativo de indivíduos, a população judaica repartia-se por várias judiarias,
na “malha do concelho cristão”. A comuna ou aljama era constituída por uma dezena de judeus,
como seu centro cultual e civil – a Sinagoga. A primeira referencia documental à Comuna de
4  A expressão Galegos – designação étnica – conserva-se sob a forma toponímica de Gale-
Judeus de Tomar é de 27 de Dezembro 1384. Doação do serviço real dos judeus de Tomar a
gos, Galeguia, Galega e Galego das Cabras (nota 147) –Cf. Conde, 2000: p. 58.
João Rodrigues, criado do mestre da Ordem de Cristo (A.N.T.T., Chancelaria de D. João I, livro
1, fl. 71v.) 5   O movimento colonizador dos cristãos incluía a presúria das propriedades muçulmanas.
3   Ocupavam áreas específicas, sobretudo fora dos centros urbanos (arrabaldes), estando 6   Concelhos de Tomar, Ferreira do Zêzere, Torres Novas, Entroncamento, Abrantes, Mação
sujeitos, como grupo vencido, ao domínio politico do reino de Portugal. e Gavião – CF. Conde, 2000: pp. 58-59.

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Esta abordagem conceitual do universo rural tomarense, permite- As “casas” no seu interior eram preenchidas por quintais, jardins
nos realçar o carácter físico do território, evidenciando a complexidade e e espaços internos, podendo ter apenas um piso térreo, ou então, um
dimensão do microcosmos urbano na era quatrocentista. (sobradado) ou dois andares. A estrutura urbana quatrocentista da Vila era
É nosso propósito valorizar as diversas interfaces físicas, morfológicas “acompanhada de hortas, quintais e jardins com abundância e variedade
e antrópicas do meio urbano ocupado e vivido pela comunidade hebraica. de plantas e árvores frescas e proveitosas”9, sendo delimitada por uma
Encontramos porém, sérias dificuldades em caracterizar, com rigor, a paisagem verdejante variada, com “predomínio dos olivedos, que cobriam
paisagem histórica do mundo urbano de Tomar, devido à escassez e natureza as encostas das colinas, e continuavam até umas quatro léguas além de
das fontes arqueo-históricas medievas (documentos das chancelarias régias; Tomar” (Conde, 1996: nota 5)10.
posturas municipais, entre outras). A morfologia quatrocentista da Vila de Baixo, permite-nos, ainda hoje,
A toponímia remanescente do espaço urbano e rural, sobretudo a reconhecer algumas daquelas ambiências plásticas, quer pelo traçado das
micro toponímia, é mencionada na documentação de “carácter económico ruas, quer por alguns dos “edifícios da Vila” (religiosos, políticos, sociais).
e administrativo” (Conde, 2000: p. 125)7, fornecendo-nos algumas pistas Os edifícios singulares (igrejas) pontificados em diferentes e
plausíveis para a ténue caracterização morfológica da paisagem histórica da dominantes “espaços topográficos” da estrutura urbana, constituíam índices
Vila de Baixo (Tomar). de demarcação e consequente proibição de ocupação daqueles “territórios”,
pela comunidade hebraica.
a) Morfologia urbana A morfologia histórica da Vila de Baixo (últimas décadas de trezentos
A paisagem urbana da Vila de Baixo é descrita pelos viajantes medievos - finais de quatrocentos) é suficientemente reveladora de um sistema de
quatrocentistas, que passavam por Tomar, em direcção a Santarém ou “dialéctica vivencial de coexistência”, entre cristãos e judeus, expressa
Lisboa (Conde, 1996: p. 65). pela tolerância encapotada e pelo estigma de segregação religiosa. Estes
A beleza pétrea e o poder simbólico da fortaleza templária dominavam, “territórios” minoritários estavam perfeitamente definidos e “encravados
do topo da sua colina, o fértil e aprazível vale do Nabão, com o seu casario, entre freguesias”, quer para a moirama (arrabaldes, mourarias), quer para a
e o núcleo industrial de moinhos e lagares. comunidade hebraica (judiarias ou bairros judaicos).
A estrutura urbana da Vila, em função da praça nuclear e do principal A Sinagoga de Tomar situada no centro da judiaria, teria certamente
eixo viário que a cruzam, representava o modelo-padrão de cidade nos finais o seu almocávar (cemitério). Este deveria estar localizado, pelo menos, a
da Idade Média (Séc. XV). Este centro urbano define-se pela regularidade do “cinquenta passos da última casa da judiaria”, muitas vezes fora da área
casario e dos arruamentos (“bem arruada”)8, em função das características perimetral do “bairro judaico”.
físico-morfológicas do terreno (orografia, hidrografia e edafologia), sendo
desprovida de muralhas. b) “Bairro judaico” ou Judiaria (juderia)
Os edifícios de prestígio político, religioso e social, dominam O núcleo da Sinagoga e os edifícios envolventes (Fig. 1) definiam a
estrategicamente as “casas” e os espaços abertos (praças e rossios), através estrutura orgânica e espacial da Judiaria de Tomar, constituindo uma certa
da sua volumetria, nobilidade, e simbolismo. “autonomia” jurídico-administrativa dentro da própria cidade medieva.
O espaço físico da Vila de Baixo obedece a um padrão geométrico O bairro judaico ocupava, preferencialmente a zona entre a Rua Direita
ordenado, de feição ortogonal, com o entrecruzamento de ruas rectilíneas, da Várzea Grande (actual rua Infantaria 15), e a Rua dos Moinhos, em direcção
“demarcando blocos rectangulares de casas” (Gaspar, 1969:pp.202-203), ao Rio Grande de Tomar (rio Nabão); a rua de S. João e a da Calça Perra
apresentando características formais específicas. O traçado urbano é gizado “fechavam”, dos lados norte-sul, a área habitada pela comunidade judaica
em função do “sitio” e no “sítio”, ou seja, é uma estrutura regular e territorial, (Ponte, 1992: pp. 96-97).
em volta da “praça medieval”. Esta comuna ocuparia uma área aproximada de três hectares,
O eixo viário urbano ancorado ao centro cívico da Vila de Baixo, é encontrando-se, tal como a generalidade das judiarias, bem próxima
o elemento estruturador da malha conceptual, que se traduz no traçado dos principais eixos de circulação de pessoas, bens e produtos desta Vila
físico de ruas e na geografia construtiva de quarteirões (edifícios notáveis quatrocentista.
e edifícios vernáculos). Constituía a “cabeça viária” fundamental de Os principais eixos urbanos consistiam na Corredoura (actual rua
circulação nas ruas tardo-medievais, mas também lhe cabia o papel indutor Serpa Pinto), a Rua Direita dos Açougues, a Rua dos Moinhos e o caminho
de ligação entre o mundo urbano e o universo diversificado da sub-região da Riba Fria, via de ligação entre a Vila de Cima (do castelo) e a Vila de
médio-tagana. Baixo, permitindo ainda o acesso mais direto ao Arrabalde de S. Martinho,
a poente do Castelo de Tomar.

7   Este autor cita fontes documentais compulsadas e publicadas nestes últimos anos por
outros investigadores, sobre as paisagens históricas da sub-região do Médio Tejo. 9   Fr. Isidoro de Barreira descreve deste modo as paisagens e os ambientes que serviam de
barreira entre o mundo urbano e o rural.
8   Fr. Isidoro de Barreira (1618) faz uma descrição minuciosa da paisagem urbana deste
centro urbano. 10   O autor refere-se ao testemunho de Hieronymus Münzer [1494-1495].

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A Corredoura desempenhava assim o papel privilegiado de estruturação (Rua da Esnoga) nem tão pouco de uma “espécie de porta em arco”, do lado
e polarização do espaço urbano da Vila, articulando-se com os restantes da Rua dos Moinhos (Simões, 1943: p. 46, nota 12).
eixos viários secundários. Era a principal via de ligação entre a colina castelã, Poder-se-á questionar: A medida de encerramento de “portas” desta
tendo de permeio o núcleo habitacional do Pé da Costa e as margens do Rio judiaria, aplicar-se-ia unicamente à Rua da Esnoga ou a todo o bairro judaico?
Grande; aquela artéria, ao cruzar-se com a Rua Direita dos Açougues, unia Julgamos que a existência de “antigas marcas pétreas”, nas “extremas” da
a Várzea Pequena (lado setentrional) ao Rossio da Vila, do lado meridional Rua da Esnoga, poderá induzir a presença física de “portas” nos terminais
(Várzea Grande, actual Largo 5 de Outubro). O Rossio da Vila era o “espaço da Rua de Maria Dona, protegendo o tardoz do quarteirão central do bairro
periférico onde rurais e urbanos podiam fazer as suas permutas (Conde, judaico. Porém, as fontes medievas são omissas em relação a esta situação
1996: p. 91, nota 67). concreta, assim como ao processo de deslocação forçada dos judeus que
É nesta malha urbanística medieva que se desenhava o bairro residiam em zonas próprias, consignadas especificamente para o exercício
judaico, acompanhando o florescimento económico da Vila, nas áreas e de certas actividades mercantis e artesanais (Ponte, 2009: p. 102).
artérias urbanas de maior fulgor comercial e artesanal. Esta “teia” seguia É de salientar, no entanto, que alguns desses judeus, os mais poderosos
o modelo-padrão de “zonagem e segregação”, onde a Sinagoga representa e influentes na estrutura orgânica do reino, através da Casa do Infante,
o pólo aglutinador e condensador da comunidade judaica e dos vários vivessem fora da Comuna, convivendo, assim, “paredes meias com a maioria
equipamentos urbanos. da população cristã14.
Por circunstâncias várias a ruptura de relacionamento urbano entre A Sinagoga, como já foi referido, era o centro da vida comunitária,
cristãos e judeus, face ao estatuto privilegiado que estes últimos mantinham representando para a Comunidade Judaica a casa de oração, de convívio,
com a autoridade monárquica, traduziu-se efectivamente na criação do seu de tribunal, de câmara de vereação e de escola (genesim). Representava
próprio arruamento, actual Rua Dr. Joaquim Jacinto (antiga Rua da Esnoga, também um factor de crescimento urbanístico da Vila, sobretudo no tempo
depois Rua Nova). do Infante D. Henrique, quando depois empossado para o cargo de Grão-
A antiga Rua da Esnoga, artéria “nobre” do bairro judaico, ligava, em Mestre da Ordem de Cristo, sediada em Tomar.
direcção ao rio, a Rua Direita dos Açougues ao Rossio da Várzea Grande A Sinagoga da judiaria de Tomar, mandada construir pelo Infante
(Ponte, 2009: p. 102). D. Henrique, entre os reinados de D. Duarte e D. Afonso V (Ponte, 2009:
A paisagem antrópica deste bairro “fechado”, dentro da “área do p. 103, nota 20), era frequentada tanto por homens como mulheres. As
concelho” da Vila, “só começou a ter valor histórico” (Simões, 1943: p. 36), estruturas arqueológicas identificadas em 198515 (Figs. 3a-3b), permitiram-
a partir dos primeiros registos documentais (Séc. XIV)11. A sua importância nos assegurar que estávamos perante uma Sinagoga Geminada, que ocuparia
sócio-económica está umbilicalmente relacionada com o desenvolvimento aproximadamente uma área de 400 m2; mais, foi possível definir a “sinagoga
progressivo desta Vila medieva, sobretudo no reinado de D. Afonso V das judias” (Ponte, 2000: p. 153), como um espaço distinto do dos homens,
(1438-1481). Na verdade, a protecção dos monarcas conheceu avanços e ora articulando-se a cotas negativas (subsolo), ora a positivas (edificado).
recuos, consoante a “gravidade” das queixas cristãs sobre as prerrogativas A identificação de estruturas arqueológicas do mikveh (balneário para as
e “liberdades de postura” social no espaço físico do concelho. Estes conflitos abluções de purificação ritual das judias), permitiu caracterizar o edifício
sociais geraram certa instabilidade urbana, que culminara na intolerância desta Sinagoga (sinagoga dos homens e sinagoga das mulheres).
religiosa, e consequente édito de expulsão (1497), decretado por D. Manuel. Ora, o esquema descritivo e a representação gráfica do construído (Figs.
Por esse facto, a comunidade judaica é instada a morar num arruamento 4 e 5), assegura-nos uma visão aproximada de relevância arquitectónica
próprio (Fig. 2), com as “portas que se encerravam ao toque das avé- e simbólica do corpo central da “Sinagoga dos homens”, em relação
marias e se abriam ao nascer do sol12. Santos Simões, em 1943, refere-se à distribuição diferenciada e hierarquizada dos espaços circundantes
ao testemunho oral do Sr. Elisiário13, morador na Rua Nova (antiga Rua (sinagoga das judias; escola, casa do hazan).
da Esnoga), que ainda subsistiam marcas de trancas, “precisamente nas É um edifício gótico com fachada virada a norte, e cujo corpo central
esquinas das ruas Direita e dos Moinhos”13, no tempo do seu falecido pai, ou casa de oração é de planta quadrangular, com uma elevada abobada
“há cerca de 30 anos”. de arestas sem nervuras, em tijolo, assente em quatro pilares centrais
Hoje em dia não restam vestígios de trancas na dita rua “trancada” monocilíndricos e doze mísulas parietais (Garcez Teixeira, 1925). Foram
descobertas, há pouco mais de 90 anos, oito bilhas de barro embutidas e de
gargalo para baixo, nos quatro cantos superiores da abóbada de arestas, que
11   Documento epigráfico: lápide funerária achada em Faro e dedicada ao judeu Rab Joseph
de Tomar, falecido a 23 de Janeiro de 1317; documento paleográfico com a primeira menção à serviriam para uma adequada correcção acústica. Porém, Samuel Schwarz,
Comuna de Tomar (27 de Dezembro de 1384), referindo-se à “doação do serviço real dos judeus
de Tomar a João Rodrigues, criado do mestre da Ordem de Cristo”.
12   Frase constante no preâmbulo “A Judiaria de Tomar” (Mª José F. Tavares), do livro 14   As judiarias de Évora, Lisboa e Trancoso, entre outras, seguiam esta prática, conforme
Tomar e a sua Judiaria , de J. M. S. Simões (1943, Tomar (Reedição 1992). documentação régia da época dos reinados de D. Duarte e D. Afonso V.
13   O seu pai de 99 anos já falecido referia-se frequentemente à existência de vestígios físi- 15   Notícia da descoberta pela arqueóloga Salete da Ponte, no periódico Cidade de Tomar, de
cos nas extremas da antiga Rua da Esnoga. 4 de Abril de 1985.

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em 1939, interpreta a localização das ditas infusas, não como um inusitado rodas”, quer de “fontes e poços” (Conde, 1996: p. 138, nota 203)17 existentes
sistema acústico adoptado na arquitectura hebraica, mas mais como um por toda a malha urbanística da Vila.
meio eficaz de armazenamento dos valiosos manuscritos, preservando- O plano urbanístico quatrocentista, e o “assento” organizado de
os das condições ambientais específicas do “lugar”. Habitualmente estruturas económicas da Vila (lagares, açougues, saboarias, poiais, bancas
eram arquivados em esconderijos apropriados (grenizoth), ou seja, eram ou tabuleiros, entre outros), concorreram para uma coexistência de certos
conservados num subpiso térreo, como na Sinagoga del Transito, em Toledo sectores sócio-profissionais , com interesses comuns, mas diferenciados
(Rosal, 1988). São várias as questões em aberto relacionadas com os espaços pelas leis canónicas e mosaicas (cristãos e judeus).
de circulação de passagem comum (judeus e judias), e as ligações internas As leis mosaicas determinam, para a comunidade hebraica, uma
entre os vários corpos espaciais da Sinagoga Geminada, que deverão ser alimentação própria, regulada por um conjunto de preceitos rigorosos, ditos
equacionadas, não pontualmente mas como um complexo arquitectónico Kasher (Kosher), o que faz pressupor a existência de um mercado próprio.
multifuncional (Ponte, 2009: pp.107-108). Referimo-nos mais concretamente Estas regras dietéticas estão directamente relacionadas com a natureza, o
à casa do hazan e à escola (genesim), que ocupariam o lado oriental da “casa tipo e a confecção dos alimentos.
de oração”, munido de acessos internos de ligação para o piso térreo ou Além do mais, a existência de vários topónimos relacionados com
“lojas” (logea), e para o primeiro andar ou “casa sobradada”. São ainda actividades de natureza económica, como sejam a rua e travessa dos
evidentes vestígios físicos dessas “lojas” com arcaria quatrocentista in situ, Moinhos, dos Oleiros, dos Açougues, entre outros espaços (azinhagas,
e outras peças pétreas (umbrais, vergas), e outras ao gosto circunstancial de chãos, travessas de uso comum), permitem, “no contexto da Vila, situar
recriações e interpretações ambientais. aquelas actividades industriais”, em espaços periféricos e “contíguos ao
Digamos que a estrutura orgânica da “casa de oração” aparenta a ribeiro da Riba Fria e ao Rio Grande de Tomar, na Várzea Grande, Ribeira,
ambiência cultural da conhecida cripta da Colegiada de Ourém. Ambas e junto aos moinhos e lagares” (Conde, 1996: p. 104).
as construções parecem sugerir modelos tradicionais batalhinos, onde o Não menos reveladora é a onomástica das famílias judaicas de Tomar
gosto requintado e peculiar de motivos estilísticos dos capiteis aponta para (Chaveirol, Sapaia, Alfangi, Rondim, Maçarel, Alcaide, Alfandarim, Da Alva,
a presença da escola de artífices e construtores da Batalha, nos inícios de Barzelai, Muala, Tovi, Da Faia, Grevi, Fasquia, Pichel, Naar, Matutel, Aziz, Levi,
Quatrocentos (Ponte, 1994: p. 29). Capaio, Rina, Salomão, Santa, Adia, Baruc, Adida, Abravez, Cassuto, Arrondina)18,
A investigação arqueológica recente ainda não localizou o espaço que marcam uma dupla origem (Tavares, 2009: p. 57): hebraica ou hebraica-
exacto do mercado judaico, dito “açougue” ou “carniçaria”16, correspondente sefardita e toponímica (hebraicos arabizados).
a uma estrutura fechada para abastecimento exclusivo da comunidade As fontes escritas medievas dão-nos conta da estratificação social da
hebraica, segundo as normas e práticas moisaicas. No entanto, na área comunidade judaica. Os Sapaios constituíam a mais poderosa família hebraica
ocupada pela judiaria, certamente existiriam “tendas”, “alpendres” ou tomarense, ocupando-se de actividades como a medicina, ourivesaria e
bancas de venda de especiarias naturais, e de certos produtos alimentares arrendamento das rendas públicas. Este pequeno grupo de elite, constituído
(legumes, frutos), provenientes das “casas con sua quintã”, mas também dos por mercadores ricos, rendeiros e físicos, distinguia-se dos hebreus de
“chãos, “terrenos”, “logradouros” e “chousos” ou “pátios” (Conde, 1999: condição média, graças às mercês ou cartas régias de privilégios, e ao poder
pp. 129-130). Este autor pormenoriza, no espaço urbano da Vila de Tomar, económico confortável de que desfrutavam nesta cidade quatrocentista. A
várias fruteiras (Conde, 1996: pp-136-138, notas 201 e 202) existentes nos classe média ocupava-se essencialmente da actividade comercial, de média
quintais apensos às casas individualizadas, inclusive no bairro judaico. A e pequena escala, bem como da indústria artesanal (tecelagem, tinturaria,
área ocupada pelos quintais oscilava entre os 50m2 e os 100m2, resolvendo, alfaiataria, sapataria, ferraria, latoaria, entre outras), e ainda da agricultura.
assim, o “problema dos despejos domésticos” (Ponte e Miranda, 2003a: p. Rastreada a documentação medieva quatrocentista, as profissões
8; id. Ibidem., 2003b: pp. 481-500). exercidas pela comunidade judaica de Tomar, vão desde os mais poderosos
A documentação compulsada por Sílvio Conde (1996: p. 138, nota 202) (administradores da fazenda régia, de bens da nobreza e da igreja, rendeiros
refere-se ainda à vedação murada de alguns destes quintais urbanos (um dos direitos reais, banqueiros, médicos, físicos), passando pelos mercadores
deles sediado na antiga Rua da Esnoga , e outro na Cerca), para impedir “as e pelos comerciantes de grosso trato, até aos mais humildes mestres ou
entradas abusivas a pessoas ou a animais”. artífices hebreus (Ponte, 2004: pp. 35-36).
O cultivo de produtos alimentares, nesta espécie de “canteiros Além das habitações outros edifícios importantes existiriam na judiaria
urbanos”, atingia “resultados bastante satisfatórios”, graças aos “cuidados de Tomar, como a Cadeia e o “Concelho”, obrigatoriamente no interior do
de adubação e de rega” dos seus moradores; a água para a rega era obtida bairro judaico. No entanto, nem a arqueologia, nem a documentação escrita
a partir do próprio rio, quer por meio de “engenhosos sistemas de açudes e coeva faz qualquer menção à sua existência.

17   No edifício nºs 89/91 da antiga Rua da Judiaria (Ponte e Miranda, 2003b) foram identifi-
cados alicerces de uma casa quatrocentista , com um poço entulhado, com ocupações até aos
finais do Séc. XVIII/inícios do XIX.
16   Local onde se vendiam as carnes dos animais para consumo , segundo os “preceitos
religiosos hebraicos” 18   Cf. CONDE 1996.

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Desconhece-se também a localização do cemitério, dito almocávar, Enumeraremos, nesse sentido os seguintes objectos de estudo:
(almocakué)19, macaber ou “adro dos judeus”, espaço onde enterravam os a. levantamento geo-topográfico (orográfico, hidrográfico) da sub-
seus mortos e lhes prestavam culto (Tavares, 1989). Estaria fora da área bacia do vale do rio Nabão;
perimetral do bairro judaico, pelo menos, “cinquenta passos da última b. levantamento arquitectónico (edifícios de prestigio e “casas” de
casa da judiaria” (Miguel, 2007: p. 57). O cemitério, na maioria das vezes, matriz popular);
“ficava num espaço do arrabalde do concelho, no exterior da comuna”, c. rastreio de fontes historiográficas, arqueológicas, etnográficas,
como em Lisboa, Évora, Guarda e Montemor-o-Novo, distando cerca de um epigráficas, entre outras);
quilometro da judiaria. d. levantamento e caracterização da paisagem verde urbana (desde
quintais a azinhagas);
e. rastreio onomástico da comunidade hebraica de Tomar, e suas
Propósitos Finais ramificações familiares;
f. rastreio de toponímia e micro-toponímia na área do concelho da
Em epílogo, a Sinagoga Geminada e a sua judiaria evidenciam na Vila de Tomar e no mundo rural;
tessitura social do concelho da Vila de Tomar, maioritariamente cristã, g. rastreio de contratos comerciais e de práticas de tributação à
diferenças culturais bastante significativas, sobretudo nos comportamentos comunidade judaica, e consequente conhecimento sobre as áreas e redes de
sociais e vivências religiosas. Tal facto, motivou vários conflitos e represálias influências entre as comunidades judaicas, nomeadamente a de Tomar e o
dos cristãos aos judeus, sobretudo durante o Séc. XV, devido à politica de poder régio;
privilégios e de prerrogativas régias, de que eram alvo pelo poder executivo h. rastreio prosopográfico das famílias de mercadores judeus com
real. Ora, a protecção real era-lhes concedida em troca de dinheiro, através influência no Concelho da Vila de Tomar, e alargando o seu leque de acção
de concessão de privilégios e doações de bens. aos restantes concelhos cristãos do reino.
O Infante D. Henrique, 1º Grão-Mestre da Ordem Militar dos
Cavaleiros de Cristo (1420-1460), com sede na Vila de Tomar, relança este Como é evidente, será de rara importância a conjugação de excertos
espaço urbano, no novo figurino europeu de “cidade urbanística”; mais, a arquitectónicos e arqueológicos detectados ou reaproveitados, em obras de
Ordem de Cristo torna-se um verdadeiro foco de polarização nos domínios valorização dum espaço, que tanto no passado como nos dias de hoje, foi
da economia, da cultura, num forte empenhamento nas Descobertas e na construído e renovado.
Expansão além-mar, com o precioso financiamento judaico. Por fim, na mesma linha de reflexão sobre o avanço de um Estudo
Digamos que a Vila de Tomar, na era de quatrocentos, e sob a égide Integrado da Judiaria e a sua Sinagoga de Tomar, lembraremos, mais uma
do Infante, apresentava um manancial de edifícios jurídico-administrativos, vez, quão “necessário e urgente” se revela a salvaguarda e revitalização
económicos, sociais e religiosos, dos quais se vislumbram memorias do edifício da Sinagoga Geminada (Ponte, 2009: pp. 108-114), onde o rigor
vestigiais das Boticas do Infante (tardoz do edifício da edilidade), Sinagoga científico deverá ser o pólo aglutinador dos múltiplos agentes culturais.
Geminada, Paços da Ribeira (praceta Alves Redol), com vestígios dos Estaus,
Saboarias, Tercenas e Cubos, para alem dos edifícios de vulto mandados
construir no Convento de Cristo: Claustro do Cemitério, Claustro da Bibliografia
Lavagem e Paços Mestrais ou Paços Antigos (Paços do Infante). ALVES, Tarcínio, (1973): “A judiaria de Castelo Branco”, in Reconquista (22/12/1973);
É neste contexto de desenvolvimento urbanístico da Vila de Tomar,
BARNAVI, É., (1992): História Universal dos Judeus. Dal Gênese ao Fim do Séc. XX. Ed. Hachette
que enquadramos durante o Séc. XV, a Judiaria e a sua Sinagoga Geminada, Louvre;
segundo a documentação científica disponível. BETTHENCOURT, C., (1903): Inscriptiones hebraiques du Portugal, Lisbonne, p. 7;
É essencial para um conhecimento integrado e mais alargado da
COELHO, Mª Helena da Cruz (2008): “A construção histórica da multiculturalidade” in Raízes
comunidade judaica de Tomar, proceder a um rastreamento exaustivo e Estruturas. Vol.1. Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME);
de todos os dados arqueo-históricos referentes aos Sécs. XIV-XV, não CONDE, M. S. A., (1996): Tomar Medieval. O espaço e os homens (Patrimonia Histórica), Cascais,
ignorando, todavia, os antecedentes ao edito de expulsão, e as consequentes p. 55;
conversões e diáspora daquela comunidade minoritária. Para tal, urge a CONDE, M. S. A., (1999): Horizontes do Portugal Medieval. Estudos Históricos (Patrimonia
aplicação de uma Estratégia e Planeamento Integrado, com objectivos precisos Histórica), Cascais;

e uma metodologia rigorosa e detalhada na universalidade dos vários CONDE, M. S. A. (2000) − “Uma Paisagem Humanizada. O médio Tejo nos finais da Idade
Média”. In Patrimonia Histórica. Cascais. 2 vols.;
campos de investigação científica.
DIAZ ESTEBÁN, F., (1991): “Lápides judias em Portugal”, Estudos Orientais (O legado
cultural de judeus e mouros), Lisboa, 2, pp. 207-215 (p. 209);
19  Componentes de almocakué [al (o) + mons (monte, campo) + kakué (mortos), segundo o
reverendo cónego Tarcísio Alves (1973), sobre “a judiaria de Castelo Branco”, in Reconquista
(22/12/1973).

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FIG.3a

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FIG.3b

FIG.4

FIG.5