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21/12/2018 Para uma demarcação entre ciência e pseudociência

Crítica
14 de Julho de 2017 ⋅ Filosofia da ciência

Para uma demarcação entre ciência e


pseudociência
James Ladyman
Tradução de Hélio S. C. Carneiro

“Uma das características mais salientes da nossa cultura é que há muita treta”.
Harry Frankfurt (2005, 1)

A pseudociência é um fenômeno complexo como a ciência e, como a treta,1 pode ser


sofisticada e artisticamente elaborada. É social, política e epistemicamente importante
fazer a taxonomia desses fenômenos, e o presente capítulo oferece uma modesta
contribuição para tal projeto. Argumentarei, primeiro, que o conceito de pseudociência é
diferente dos conceitos de não-ciência, de má ciência e de fraude científica; em segundo
lugar, que o conceito de pseudociência é útil e importante, havendo necessidade de sua
elaboração teórica; e, terceiro, que é possível fazer progresso nesse sentido com base na
célebre abordagem de Harry Frankfurt da treta. Falar tretas, segundo Frankfurt, é muito
diferente de mentir. Similarmente, a pseudociência é diferente da fraude científica. O
pseudocientista, como quem fala tretas, tem menor contato com a verdade e está menos
preocupado com ela do que o fraudolento ou o mentiroso. Considerarei a diferença entre
as abordagens da ciência e da pseudociência que se focam no produto e as que se focam
no produtor, e esboçarei uma abordagem em termos da organização social e das relações
dos produtores, de sua relação com o produto, bem como da confiabilidade do processo
de produção.

Como a pseudociência difere da não-ciência, da má


ciência e da fraude científica
“A ciência muitas vezes erra, e […] a pseudociência pode por acaso tropeçar na
verdade”.

Karl Popper (1963, 33)

Por ora, vamos tomar o conceito de ciência como dado. A física e a biologia são muito
diferentes de várias maneiras, mas são ambas indubitavelmente ciências. Claramente, há
muita atividade intelectual que não é científica, como o caso da filosofia política ou da
crítica literária (embora ambas possam se aproveitar da ciência, especialmente a
primeira). Alguma dessa atividade pode ter como objetivo a aquisição de conhecimento, e

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pode até basear-se na recolha de evidências empíricas, como é o caso da história, por
exemplo. O conceito de não-ciência não implica juízo de valor acerca do seu objeto, e
não é particularmente pejorativo descrever algo como não-científico. Em contraste, dado
que, segundo o Oxford English Dictionary, “pseudo” significa “falso, fingido, falsificado,
espúrio, farsa; aparente, mas não real, falsa ou erroneamente chamado ou representado,
falsamente, de modo espúrio”, é bastante claro que o termo “pseudociência” tem uma
carga normativa. Contudo, uma distinção importante entre dois usos é feita pelo
dicionário em questão: o primeiro, um substantivo contável, envolve ou um sentido
derivativo do segundo, ou o que é erroneamente considerado ciência ou baseado no
método científico. O segundo, um substantivo incontável, é o que se finge que é ciência.
Abaixo será defendido que é este segundo sentido, ou o primeiro sentido deste derivado,
que os filósofos da ciência normalmente têm em mente quando utilizam o termo, e que a
ciência equivocada ou algo ser confundido com ciência não resultam em pseudociência
em nenhum sentido interessante ou importante.

A história da ciência está repleta de erros e falsidades, ainda que consideremos que só
começou na Revolução Científica. Por exemplo, a luz não é composta de corpúsculos
como Isaac Newton acreditava, as substâncias inflamáveis não contêm flogisto e a taxa de
expansão do universo não está diminuindo como pensava a ortodoxia em cosmologia até
aos anos 1990. Nenhum dos cientistas responsáveis por promulgar essas crenças falsas
parece merecer ser chamado de pseudocientista, e não seria apropriado chamar cada
teoria científica errônea de pseudociência. Parece claro que a conotação de fraude, ou de
algum tipo de fingimento, é essencial para os usos contemporâneos do termo
“pseudociência”, ou que ao menos isso deveria fazer parte de qualquer classificação do
conceito a ser proposta. Nem mesmo a má ciência divulgada como boa é necessariamente
apropriadamente descrita como pseudociência. Por exemplo, a herança lamarckista pode
ter sido recentemente recuperada em alguma medida, mas a ideia básica de que as
características fenotípicas adquiridas não são herdadas está correta. Os jogadores
profissionais de tênis desenvolvem ossos muito mais pesados e músculos maiores num
braço e num ombro, mas os seus filhos não têm nenhuma variação desse tipo. Nos anos
1920, William McDougall afirmou que os descendentes dos ratos que aprenderam o
arranjo de um labirinto particular eram capazes de percorrê-lo mais rapidamente do que
os descendentes dos ratos que não aprenderam o arranjo do labirinto. Oscar Werner Tiegs
e Wilfred Eade Agar e seus colaboradores mostraram que o trabalho de McDougall era
baseado em maus controles experimentais, coisa que fez tal trabalho ser má ciência, mas
não uma fraude ou baseado em algum tipo de fingimento. De modo mais prosaico, um
estudante universitário de física incompetente que chega à resposta errada ao determinar
experimentalmente a aceleração devido à gravidade não é considerado um
pseudocientista, e nem é o seu relatório laboratorial considerado pseudociência.

Assim, a pseudociência não é apenas não-ciência, e nem é simplesmente má ciência.


Talvez a ideia de fraude ou fingimento seja o único ingrediente que falta para a
pseudociência, como o dicionário sugere. Afinal, os pseudocientistas frequentemente
fingem que algumas crenças são sustentadas por evidência científica ou por teorização
científica quando não o são, exatamente como os fraudadores fazem. Claramente, nem
toda a não-ciência ou a má ciência é fraude científica, de modo que talvez este último seja
o único conceito adicional de que precisamos. A fraude científica certamente existe e
pode ser extremamente prejudicial, e, dado que os resultados falsos e a ciência muito má
não resultam em fraude sem ter havido a falsificação de dados ou a intenção de enganar
sobre como se chegou a certos resultados, parece que fizemos a conexão com a segunda
definição de pseudociência contida no dicionário.

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Entretanto, isso não será adequado por pelo menos duas razões. Primeiro, a intenção
deliberada de enganar acerca de fatos explicitamente expressados sobre o mundo
(normalmente incluindo dados experimentais) é uma condição necessária para a fraude
científica, mas não para a pseudociência. Por exemplo, é famosa a posição de Karl
Popper (1963) de que, embora a psicologia freudiana ou alderiana e o marxismo tenham
sido defendidos como científicos por muitos dos seus respectivos partidários, todas essas
teorias são de fato pseudocientíficas. Ainda assim, não está claro se algum partidário, ou
até mesmo a maioria deles, era desprovido de sinceridade. É absurdo sugerir que as
obsessivas pesquisas de toda uma vida de Sigmund Freud não são uma tentativa genuína
de abordar os profundos problemas da compreensão da mente e personalidade humanas,
da motivação e das formas bizarras de comportamento patológico e autodestrutivo que
chamaram a sua atenção.2 Similarmente, Frederick Engels certamente acreditava na sua
famosa afirmação de que, assim como Charles Darwin havia compreendido a evolução
biológica, Karl Marx havia descoberto as leis da evolução das sociedades humanas.
Assim, os pseudocientistas não têm de ser desonestos acerca das suas crenças explícitas
que formam o objeto da pseudociência, ainda que sejam enganadores ou que estejam
enganados de outras formas. Nem toda a pseudociência é fraude científica. Por outro
lado, os fraudadores científicos tencionam enganar os outros sobre a verdade (ou sobre o
que pensam ser a verdade). Portanto, nem toda a pseudociência é fraude científica,
embora algo da primeira possa envolver a segunda.

Também parece incorreto chamar de pseudociência a maioria dos exemplos de fraude


científica, uma vez que isso oferece um diagnóstico errado do problema. Na fraude
científica, não é a metodologia anunciada, a natureza do assunto e o tipo de teorias que
estão em questão, e nem são os princípios básicos sobre os quais a disciplina se baseia
que são problemáticos. A farsa da pseudociência é mais profunda do que a mera
falsificação de resultados; é a própria natureza do empreendimento e dos seus métodos
que se finge falsamente serem científicos. Além disso, é claramente possível utilizar a
fraude científica para estabelecer uma teoria que está na continuidade com a ciência
estabelecida, que é de esperar e que não apresenta uma ameaça à ortodoxia, e que é
efetivamente verdadeira. Considere um cientista que se apressa a publicar resultados
preliminares e que afirma que ocorreu uma ampla verificação com mais dados quando na
verdade não ocorreu. Os resultados podem estar corretos e mais dados poderiam tê-los
sustentado caso fossem coletados, mas isso ainda assim é um caso de fraude científica.
Portanto, a fraude científica enquanto tal não é pseudocientífica, muito embora, como foi
mencionado, ambas possam se sobrepor em alguns casos.

Por que precisamos do conceito de pseudociência


“A demarcação entre ciência e pseudociência não é meramente um problema da
filosofia de poltrona: se trata de algo de vital relevância social e política”.

Imre Lakatos (1977, 1)

A pseudociência não é o mesmo que a não-ciência, que a má ciência ou que a fraude


científica, muito embora todas possam ter sobreposições e, em particular, a fraude
científica é, no geral, bem diferente da pseudociência. Quando a teoria do desígnio
inteligente (DI) é descrita como pseudocientífica, pode haver a sugestão de
desonestidade, uma vez que alguns defensores do DI foram anteriormente defensores do
criacionismo da Terra jovem; consequentemente, parece que promovem o DI não porque
representa as suas crenças, mas antes porque pensam que isso irá enfraquecer a
hegemonia da biologia evolucionista na educação científica e ceder espaço para os
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interesses religiosos que são a sua principal preocupação. Contudo, este tipo de
enganação não é necessário, como vimos. Nem todos os defensores da homeopatia a
promovem sem acreditarem na sua eficácia (e nem mesmo provavelmente a maioria, e
talvez até nenhum o faça). E mesmo assim a homeopatia é um exemplo paradigmático de
pseudociência. Ela nem é simplesmente má ciência, e nem é fraude científica, mas antes
algo que se afasta profundamente dos métodos e teorias científicos, ao mesmo tempo em
que é descrita (muitas vezes sinceramente) como científica por alguns dos seus adeptos.3

Assim, uma taxonomia completa requer um conceito que é distinto da não-ciência, da má


ciência e da pseudociência. Mas vale a pena, na prática, ter o conceito de pseudociência?
Seria isso social, política e/ou epistemicamente importante, como disse Imre Lakatos?
Certamente, a julgar pelo tanto que a palavra “pseudociência” é utilizada, muitos
cientistas e autores de ciência pensam que o conceito é importante. No entanto, o perigo
de usar palavras para expressar juízos de valor fortes é que a motivação para condenar
algo faz muitas vezes as pessoas usar a palavra tornando-a uma expressão generalista
utilizada para expressar desaprovação mesmo quando não seleciona nenhuma categoria
real no mundo. Por exemplo, termos como “conservador” e “progressista” são
frequentemente utilizados para criticar no discurso político público, mesmo quando não
selecionam necessariamente categorias genuínas, uma vez que as categorias de crenças e
de indivíduos aos quais tais termos se referem são incrivelmente diversos e muitas vezes
contraditórios. Termos como “ciência judia” também são claramente espúrios. Se referem
a algo apenas por ostensão ou estipulação — como quando se diz que “a relatividade
especial é ciência judia” — e não porque há alguma categoria assim no mundo. Os
cientistas são um importante setor da sociedade, e têm interesses especiais e objetivos
próprios como todas as outras pessoas, e, sendo assim, o mero fato de o termo
“pseudociência” parecer indispensável para eles e para os seus aliados culturais não é
suficiente para estabelecer que vale a pena utiliza-lo. A seção anterior estabeleceu que há
um espaço lógico para um conceito distinto dos outros conceitos discutidos e que
acomoda certos exemplos paradigmáticos de pseudociência, mas não que utilizar o
conceito de pseudociência é teoricamente ou praticamente valioso.

Larry Laudan (1982) argumenta que é um erro se ocupar com a pseudociência a nível
abstrato, bem como caracterizá-la e mostrar como difere da ciência em termos de critérios
gerais relacionados aos tipos de teorias que utiliza ou aos métodos por ela empregados.
Em vez disso, defende, deveríamos nos concentrar em avaliar afirmações de primeira
ordem sobre o mundo de modo particular e considerar se as evidências as sustentam.
Segundo essa visão, as crenças acerca da eficácia dos tratamentos médicos heterodoxos
ou acerca da idade e da geologia da Terra que são consideradas pseudocientíficas não
devem ser objeto de desconfiança por esta razão, mas antes porque não há evidência a seu
favor. Argumenta-se, então, que, para combater o que chamamos de “pseudociência”, não
necessitamos de qualquer noção do tipo, mas simplesmente da ideia de crenças que não
estão de acordo com os fatos e evidências. Mas confrontar a pseudociência dessa maneira
é problemático: isso consome muito tempo e muitos recursos, não é útil quando se
envolve em debates públicos que operam a um nível geral e é demasiado detalhado para o
público cientificamente iletrado.

Há considerações pragmáticas, mas note-se também que Laudan não mostra que um tipo
genuíno não é selecionado pelo termo “pseudociência”. Como se fez notar, o fato de uma
palavra ser usada por um grupo para rotular uma categoria não implica que exista uma
categoria genuína. Contudo, do mesmo modo, o fato de um grupo às vezes utilizar mal
um termo não implica que ele seja desprovido de significado ou inútil, como Laudan
parece supor.4 No entanto, talvez o seu ceticismo acerca do valor do termo
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“pseudociência” seja apenas o correlato de sua atitude similar em relação ao termo


“ciência”. O muito esforço usado na busca de critérios de demarcação para este último
termo não produziu uma definição sobre a qual haja ampla concordância.

No caso de Laudan, o seu estudo alargado da história da ciência e dos seus métodos o
convenceu de que a ciência mudou tanto que nenhum conjunto de características estáveis
pode ser identificado. Métodos estatísticos, por exemplo, são essenciais para a ciência, e
formação alargada neles faz parte da educação dos cientistas em diversas áreas; ainda
assim, antes do século XX, esses métodos mal existiam. As técnicas de medição e os
critérios para boas explicações que temos atualmente são muito diferentes dos do século
XVIII. Entretanto, até mesmo Thomas Kuhn enfatiza cinco critérios centrais de acordo
com os quais todas as teorias científicas podem ser julgadas:

1. Precisão — adequação empírica com experimentação e observação


2. Consistência — tanto internamente quanto externamente com outras teorias
3. Âmbito — amplas implicações para fenômenos além daqueles que a teoria foi inicialmente
concebida para explicar
4. Simplicidade — a explicação mais simples é preferível
5. Fecundidade — devem resultar novos fenômenos ou novas relações entre fenômenos

Infelizmente, Kuhn não pensa que todo cientista concordará sobre como pesar esses
critérios quando as teorias se saem bem em alguns dos critérios e mal em outros. Além
disso, não pensa que concordarão nem mesmo sobre como as teorias se saem em um
único critério, uma vez que isso envolve juízo, crenças de fundo e valores epistêmicos.
Segundo Kuhn, então, não há uma única medida para cada critério e nem uma única
maneira de lhes atribuir mais ou menos peso de modo a produzir uma classificação de
teorias. Isso é similar à abordagem de Pierre Duhem (1954) acerca do problema da
escolha de teorias, que consistia em negar que há uma regra que determina qual conjunto
de teorias empiricamente equivalentes deve ser escolhido, baseada nas virtudes de teorias
que vão além da conformidade com os dados. Duhem estava bem confiante de que
existiam tais virtudes (e.g., a simplicidade) e que elas são pesadas entre si nos juízos
sobre qual teoria escolher. Contudo, pensava que a escolha certa era uma questão de
“bom senso” irredutível que não poderia ser formalizada. Duhem difere de Kuhn ao estar
convencido de que todos os juízos desse tipo eram temporários, durando apenas até ao
momento em que mais evidências empíricas ficavam disponíveis.5

À luz desses argumentos acerca da demarcação entre a ciência e a não-ciência e da


contestada natureza do método científico, não é imediatamente óbvio que até mesmo o
termo “ciência” seja útil, dado que a ciência é tão heterogênea e contesta-se se algumas
de suas partes são realmente científicas; considere, por exemplo, o ceticismo sobre as
ciências sociais ou sobre a teoria das cordas. Talvez seja melhor fazer uma
desambiguação entre, por exemplo, ciências médicas, ciências físicas, ciências da vida e
assim por diante, e não usar o termo “ciência” de todo em todo.

No entanto, o fato de a ciência evoluir e de ser difícil captar a sua natureza numa
definição pode ser superado pela simplicidade teórica e pela utilidade do conceito de
ciência. Além disso, há também continuidade na ciência com o passar do tempo, e não
temos nenhuma dificuldade em entender as teorias e modelos de Newton, bem como os
problemas que ele se propôs a resolver, nem leis fenomenais como as de Boyle e de
Kepler. Podemos ficar razoavelmente confiantes de que os grandes cientistas do passado
considerariam as nossas teorias e o nosso conhecimento experimental atuais como a
realização das suas ambições. Robert Boyle reconheceria a química moderna pelo seu
sucesso empírico, mesmo que considerasse muito dela desconcertante; e,

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presumivelmente, consideraríamos igualmente fácil convencer Robert Hooke do nosso


conhecimento da microbiologia. O nosso entendimento do arco-íris e da formação do
sistema solar continua fundamentalmente relacionado às explicações desses fenômenos
dadas por Descartes. Todo, ou quase todo, o conhecimento empírico estabelecido do
passado foi retido no que foi à parte isso uma mudança radical de teoria. A gravitação
newtoniana é um limite de baixa energia da relatividade geral, por exemplo. Uma
semelhança familiar certamente existe entre as ciências, e o sucesso de áreas como a
termodinâmica e a biofísica mostra que a ciência como um todo tem uma grande
continuidade e unidade.

Como o conceito de ciência, o conceito de pseudociência é útil porque faz a taxonomia


dos fenômenos de modo razoavelmente preciso e sem muito erro. Isso é tudo o que pode
ser exigido de qualquer conceito do tipo. Por exemplo, vários ramos do charlatanismo e
da publicidade da banha da cobra têm em comum o fato de imitarem teorias e explicações
científicas e de frequentemente empregarem termos científicos, ou termos que soam
como científicos, como se estivessem conectados ao conhecimento científico. Ser capaz
de utilizar o conceito de pseudociência é importante para avançar a compreensão pública
da ciência e para garantir que as políticas públicas e a saúde pública estejam sendo
orientadas por ciência genuína.

É um fato conhecido dos filósofos, senão frustrante, que conceitos importantes e até
mesmo fundamentais, como o de conhecimento, resistem à análise de condições
necessárias e suficientes. Caso tivéssemos concluído as nossas investigações preliminares
sobre o conceito de pseudociência a identificando com os conceitos de má ciência ou de
fraude científica, não teríamos feito mais do que adiar uma definição completa até o
próprio conceito de ciência ser explicado, uma vez que tanto a má ciência quanto a fraude
científica são definidas negativamente em relação à ciência. A pseudociência certamente
tem de envolver também alguma forma de imitação da ciência ou de algumas das suas
características ou aparência. O que é distintivo da pseudociência também pode ser
esclarecido ao se considerar outro caso de um conceito intimamente relacionado à
propagação de falsidades, mas que acaba por ser curiosamente singular e que
similarmente acaba por enfraquecer a busca genuína da verdade.

Sobre a pseudociência e a treta


“A treta é uma maior inimiga da verdade do que as mentiras”.

Harry Frankfurt (2005, 61)

A célebre investigação de Frankfurt sobre a treta parece motivada pela sua percepção de
que é importante para as nossas vidas, e não apenas pelo seu interesse intelectual. A
citação acima pode ser apropriadamente aplicada à pseudociência: a pseudociência é uma
maior inimiga do conhecimento do que a fraude científica. Frankfurt sublinha um aspecto
muito importante sobre como a treta difere das mentiras: as últimas são projetadas para
nos enganar sobre a verdade, ao passo que a primeira não está preocupada com a verdade
de todo em todo. Essa distinção é nitidamente análoga à distinção entre a pseudociência e
a fraude científica. Como uma primeira aproximação, podemos dizer que a pseudociência
está para a fraude científica como que a treta para a mentira.

Essa é apenas uma primeira aproximação porque normalmente supomos que quem fala
tretas sabe o que está fazendo, ao passo que, como foi apontado, muitos pseudocientistas
estão ao que parece genuinamente buscando a verdade. Contudo, é possível que alguém

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involuntariamente incorra em treta, e a pseudociência é frequentemente semelhante a


isso. Ainda que a representação de primeira ordem que um pseudocientista faz de si
próprio seja a de alguém que sinceramente busca a verdade, pode-se argumentar que, num
sentido mais profundo, ele não se importa realmente com a verdade porque não dá
atenção às evidências. Uma certa quantidade de autoengano por parte de seus defensores
explica como a pseudociência está frequentemente desconectada de uma busca pela
verdade, mesmo quando os seus adeptos pensam o contrário. Isso é importante porque
significa que o que faz uma atividade estar conectada à verdade ou não depende de mais
do que as intenções individuais dos seus praticantes. Retornaremos a isso.

Note-se que a analogia entre a mentira e a fraude científica reside, não obstante, no fato
de que, como vimos, a fraude científica pode envolver a propagação de afirmações que
são verdadeiras. Afinal de contas, as mentiras podem acabar se revelando verdadeiras.
Grosso modo, alguém conta uma mentira quando ele ou ela diz algo que acredita ser
falso, com a intenção de fazer com que a audiência acredite no que ele ou ela pensa ser
uma crença falsa acerca tanto de uma questão factual quanto do que ele ou ela acredita
sobre tal questão. Se o mentiroso está enganado sobre a questão factual, acabando, então,
inadvertidamente falando a verdade, ele ainda assim mente. A fraude científica sempre
envolve a mentira, até mesmo quando acaba sustentando afirmações verdadeiras, porque
a fraude consiste na falsificação dos dados ou da metodologia citados para sustentar
aquelas afirmações.

A analogia entre a treta e a pseudociência é bastante apropriada. Ambas parecem captar


algo importante que as distingue da propagação de afirmações falsas, e, de algumas
maneiras, mais perigosas do que ela. A razão pela qual a pseudociência é tão perigosa é
análoga à razão pela qual Frankfurt pensa que a treta é mais perigosa que a mentira,
nomeadamente, porque sendo as mentiras afirmações directas sobre a realidade, podemos
provar, com suficiente escrutínio, que são mentiras, ao passo que a treta e a pseudociência
resistem à refutação por não fazerem afirmações precisas de todo em todo. Elas nos
desconectam progressivamente da verdade de uma maneira mais pérfida do que as
mentiras, pois podemos acabar não apenas com crenças falsas, mas sem crença nenhuma.
De fato, enfraquecem o hábito de nos certificarmos que os nossos pensamentos sejam
determinados e tenham contato com a realidade. Abordagens negativas da pseudociência
a definem em termos de ela não ser ciência, mas a analogia com a treta mostra que a
pseudociência possui uma natureza positiva semelhante à natureza da treta, consistindo na
produção de ruído epistêmico que só superficialmente se assemelha a proposições e
crenças.

Contudo, uma diferença importante entre a treta e a pseudociência é que a última, mas
não a primeira, frequentemente expressa afirmações factuais de algum tipo. Considere,
por exemplo, explicações pseudocientíficas de tratamentos médicos originais, havendo
muitas variedades exóticas, bem como variedades mais convencionais como a
homeopatia: não importa quanta tagarelice e quanto barulho as cerquem, essas
explicações claramente afirmam que os tratamentos são eficazes. No entanto, pode-se
dizer que essas afirmações factuais falsas (ou ao menos duvidosas) não são o que faz com
que a pseudociência seja o que é. Introduzamos uma distinção que também se aplica às
teorias da treta, da ciência e da pseudociência, nomeadamente, a distinção entre produtor
e produto. Podemos claramente oferecer explicações que se focam nos textos ou nas
teorias que são produzidas ou nos estados mentais e nas atitudes das pessoas que os
produzem.

Muitas pessoas procuraram demarcar a ciência da pseudociência em termos do produto.


De modo mais influente, Popper argumentou que alegações genuinamente científicas
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devem ser testáveis, no sentido de serem falsificáveis, e que as afirmações centrais de


várias supostas pseudociências são infalsificáveis. Esta condição é muito popular nas
discussões contemporâneas sobre a pseudociência. O problema é que “a testabilidade, a
revisibilidade e a falsificabilidade são requisitos extremamente fracos” (Laudan 1982, 18)
— ao menos, isto é, se a testabilidade em princípio é tudo o que se exige. Por exemplo,
imagine um culto pseudocientífico que constrói uma teoria elaborada acerca de uma
intervenção alienígena prevista para o ano 3000. Isso é testável, mas ainda assim é
pseudocientífico. Obviamente, não é testável por um longo período de tempo, e então
pode-se argumentar que seja testável apenas em princípio e não na prática. Contudo, não
é possível determinar o limite de quando exatamente precisamos ser capazes de realizar
um teste, e não queremos excluir testes propostos em algumas partes da ciência que no
momento não são testáveis na prática, uma vez que já houve vários casos no passado que
subsequentemente acabaram sendo testados através de meios que se pensava serem
impossíveis.6 Além disso, a exigência de testabilidade ou falsificabilidade é muito forte,
ao menos quando aplicada a proposições individuais, porque as hipóteses científicas de
nível superior não têm consequências empíricas diretas. Assim, há várias afirmações
científicas que não são falsificáveis, pelo menos diretamente. Por exemplo, o princípio da
conservação de energia não implica nada até que acrescentemos hipóteses sobre quais são
os tipos de energia. De fato, a ideia da testabilidade em princípio é bastante instável, dado
que, se não mantivermos fixo o resto da ciência e da tecnologia, as proposições que são
testáveis se modificam.

Há algo correto sobre os critérios da testabilidade e da falsificabilidade, mas essa não é


uma coisa que será encontrada apenas na sua aplicação às teorias e proposições. Antes de
tratarmos disso, é importante notar que é possível dar à noção de testabilidade uma leitura
indutivista que é convincente em certos casos. Rudolf Carnap (1966) argumentou contra
as teorias das forças vitais na biologia devido ao fato de não fazerem previsões definidas
e precisas, e muitas pessoas afirmam que a relatividade geral e/ou a eletrodinâmica
quântica são as teorias científicas mais bem-sucedidas de todos os tempos, não apenas
porque fazem previsões muito precisas, mas também porque foram confirmadas
experimentalmente. O sucesso previsível original e preciso é uma diferença crucial entre
a ciência e a pseudociência, mas isso é muitas vezes negligenciado devido à ênfase dada à
falsificabilidade. A pseudociência pode ser caracterizada negativamente na medida em
que não faz previsões precisas e cuidadosas, enquanto a ciência no geral o faz. O ponto é
que este critério levanta problemas a algumas áreas das ciências sociais e da física
teórica.

É importante distinguir frases que fazem afirmações factuais sobre o mundo das que não
o fazem. Tanto quem fala treta como quem faz pseudociência produz frases com a
intenção de convencer a sua audiência de que alguma afirmação factual está sendo feita,
quando na realidade não está. Por exemplo, um político, ao lhe ser perguntado como
alcançará um certo objetivo à luz de uma dada crítica, pode responder: “o importante é
assegurar que, seguindo adiante, criemos processos robustos que entregarão os serviços
que o povo corretamente espera serem da melhor qualidade, e é por isso que dei passos
no sentido de garantir que as nossas políticas responderão às necessidades existentes”.
Ele é bem-sucedido em usar o tempo disponível, utiliza seu tom de voz e a sua expressão
facial para passar uma impressão possivelmente falsa dos seus estados afetivos e valores,
e acaba não dizendo nada (ou ao menos nada além das banalidades esperadas). A função
deste tipo de treta, como diz Frankfurt, não é originar crenças na audiência, pelo menos
crenças sobre o assunto em questão, mas antes provocar crenças sobre o próprio político e
os seus bons serviços.

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Similarmente, uma explicação pseudocientífica de um tratamento médico bizarro pode se


referir ao balanceamento da matriz energética como se um determinado conceito da física
estivesse envolvido, quando, efetivamente, a descrição não tem significado científico. As
palavras pseudocientíficas frequentemente combinam termos genuinamente científicos
com termos não-científicos. Um palestrante que usa o termo inventado “torpedos de
fóton”, por exemplo, sugere que tem uma teoria perspicaz e razoável e que a sua
audiência pode pressupor que as suas afirmações causais são verdadeiras: a saber, o
cristal irá melhorar uma coluna ruim ou a nave espacial terá os seus motores
desabilitados. O ponto aqui é que, para muitas pessoas, os termos científicos são
indistinguíveis dos termos pseudocientíficos. A pessoa leiga não tem maneira de saber
que um termo como “densidade de fluxo magnético” é genuíno, enquanto “ressonância
do campo mórfico de energia” não o é.

Em todo caso, Popper sabia que a falsificabilidade do produto não é suficiente para
distinguir a ciência da pseudociência, pois ele caracteriza a pseudociência tanto em
termos dos seus produtores como dos seus produtos. Apesar de argumentar que as teorias
psicanalíticas são infalsificáveis, aceita que as teorias marxistas fazem previsões sobre
fenômenos, mas insiste que o marxismo é uma pseudociência porque os marxistas vivem
modificando o produto para torná-lo compatível com os novos dados e se recusam a
aceitar a falsificação dos seus principais compromissos. No entanto, Popper foi
muitíssimo criticado por fazer exigências desarrazoadas aos produtores do conhecimento
científico, exigências essas que não são satisfeitas na história da ciência. Os cientistas
individuais podem muito bem teimosamente se apegar às suas teorias e continuarem a
responder ao fracasso com modificações de componentes periféricos, trabalhando duro
para encaixar os fatos nos seus quadros de referência. Isso é necessário porque as teorias
requerem grandes esforços e a exploração de vários becos sem saída, e a persistência e o
comprometimento são necessários.

Não obstante, há algo de correto na ênfase na testabilidade empírica. Assim como o aval
coletivo na matemática exige uma prova geralmente aceita, também na ciência o aval
coletivo requer que as teorias passem por testes rigorosos de adequação empírica que são
aceitos até mesmo pelos seus oponentes na comunidade científica. O atomismo triunfou
no século XIX tardio porque foi bem-sucedido em várias frentes ao prever com sucesso
quantidades que os seus críticos diziam que jamais seria capaz de prever. A pseudociência
não tem qualquer análogo do tipo na sua história. A lição dessa falha das abordagens do
método científico que se focam em teorias, propondo critérios de testabilidade, por
exemplo, é que deixam de fora as atitudes dos produtores relativas a tais teorias. Mas o
problema de prescrever, em vez disso, os estados mentais e as atitudes dos produtores
individuais é que essa abordagem negligencia o fato de a ciência ser um empreendimento
coletivo; a maneira como os cientistas individuais pensam e se comportam está
condicionada em uma maior medida pelas suas interações com os seus pares e os seus
respectivos trabalhos. A confiabilidade da ciência como um meio de produzir
conhecimento sobre o mundo não será encontrada no conteúdo das suas teorias, e nem em
um modelo da mente científica ideal, mas antes nas propriedades emergentes da
comunidade científica e nas interações entre os seus membros, bem como nas interações
entre eles e os seus produtos.

Na ciência, as teorias e as proposições formam hierarquias e redes de relações que, por


meio do uso da matemática, fornecem várias aplicações concretas e previsões específicas.
Cientistas de todos os tipos colaboram rotineiramente de modos altamente produtivos nas
aplicações da engenharia, da medicina ou da tecnologia, ou simplesmente ao coletarem
dados. Essa unidade da prática científica e das suas teorias está ausente na pseudociência.

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21/12/2018 Para uma demarcação entre ciência e pseudociência

Temos as unidades comuns de medida, a conservação de energia e a segunda lei da


termodinâmica, e as análises dimensionais reduzem todas as quantidades das ciências
físicas à mesma base fundamental. A teoria atômica da matéria e a tabela periódica são
usadas em todas as ciências, do estudo das estrelas e galáxias ao estudo do clima, dos
seres vivos e da geologia. Em todo lugar na ciência encontramos pessoas trabalhando
para conectar os limites entre os níveis de organização, entre diferentes domínios e entre
diferentes regimes. A ciência é imensamente colaborativa e envolve ricos
relacionamentos entre experimentadores, teorizadores, engenheiros, estatísticos e assim
por diante. A pseudociência é largamente baseada em figuras de culto e redes cuja
estrutura relacional envolve muito bate-papo, mas carece de integração com a matemática
substancial, as intervenções materiais e a tecnologia que caracterizam a ciência.

O método científico está conectado de maneira confiável à verdade das teorias


produzidas. No mínimo dos mínimos, a confiabilidade é um sinal de conhecimento
genuíno, se é que não o define completamente. Há dois tipos de confiabilidade em
epistemologia: acreditar no que é verdadeiro e não acreditar no que é falso. Estes dois
objetivos estão claramente em tensão entre si, dado que é fácil alcançar o segundo
objetivo ao ser altamente cético, o que tem como resultado não conseguir alcançar o
primeiro. Similarmente, a credulidade faz com que se adquira várias crenças verdadeiras,
mas também várias crenças falsas. O conhecimento confiável precisa evitar os dois tipos
de erro, que são análogos aos erros estatísticos de Tipo I e de Tipo II, ou falsos positivos e
falsos negativos. Suponha, por exemplo, que alguém se submeteu a uma avaliação
médica: um resultado falso positivo em um teste indica que o paciente tem a doença
quando não a tem, e um resultado falso negativo indica que o paciente não a tem quando
a tem.

A confiabilidade no conhecimento significa o que os epistemólogos chamam de


“sensibilidade” e “segurança”. A primeira significa que não acreditaríamos em algo caso
não fosse verdadeiro, e a segunda que em circunstâncias diferentes, mas similares,
continuaríamos acreditando em algo que fosse verdadeiro. Similarmente, se o teste é
positivo, a “sensibilidade” significa que seria negativo quando a pessoa não tivesse a
doença, e a “segurança” significa que o teste continuaria sendo positivo ainda que tivesse
ocorrido poucos minutos mais cedo ou mais tarde, ou ainda que tivesse sido aplicado por
um técnico diferente, e assim por diante. O conhecimento é diferente da mera crença
porque não é acidental ou aleatório que acreditamos na verdade quando sabemos. O
matemático não calha simplesmente a acreditar no teorema de Pitágoras; acredita de uma
maneira que está intimamente conectada à sua verdade. De modo semelhante, muitas das
nossas crenças sensoriais básicas sobre o mundo contam como conhecimento porque
somos dotados da capacidade de chegar a essas crenças confiavelmente nos tipos de
circunstâncias em que são formadas, e são razoavelmente consideradas seguras e
sensíveis nos sentidos acima. Bird (2007) argumentou que o progresso da ciência deveria
ser entendido em termos do crescimento do conhecimento, e não meramente em termos
do aumento das crenças verdadeiras. Sem explicar ou endossar sua abordagem, ele está
sem dúvida tocando em algo importante, e a pseudociência, na medida em que envolve
crenças sobre o mundo, simula não apenas as crenças verdadeiras, mas também o
conhecimento.

Espero ter mostrado que a investigação seminal de Frankfurt sobre a treta se aplica à
pseudociência porque a) como a treta, a pseudociência é largamente caracterizada não por
um desejo de enganar acerca de como as coisas são (como ocorre na fraude científica),
mas por não dizer praticamente nada sobre como as coisas são; e b) oferece uma distinção

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útil entre a definição de treta/pseudociência em termos do produtor ou em termos do


produto, ou ambos.

Conclusão
A pseudociência é atraente para as pessoas por duas razões. Primeiro, a desconfiança
geral que algumas pessoas têm em relação aos cientistas e à ciência enquanto instituição.
A confiança na ciência sempre foi parcial e contestada, e os abusos do conhecimento
científico e o poder da ciência tornam essa reação compreensível em vários casos. A
desconfiança foi e continua sendo gerada pela pseudociência e pela fraude científica no
seio da ciência convencional, levando alguns à conclusão de que a distinção entre ciência
e pseudociência é como a distinção entre ortodoxo e heterodoxo, se tratando apenas de
uma questão de poder e autoridade. Alguns exemplos cruciais de falsidade na ciência
convencional refletiram e indiretamente desculparam ideologias sociais prejudiciais sobre
o sexo e a raça. Abusos espantosos na ciência médica deram ao público razão para
duvidar de que a medicina convencional sempre tem em mente o melhor interesse público
em mente.7 Na psiquiatria, há não muito tempo, as mulheres no Reino Unido eram
encarceradas pelo que agora é considerado nada mais do que um interesse saudável pelo
sexo. Até 1973, a Associação Psiquiátrica Americana considerava a homossexualidade
uma doença mental. E certamente alguns pesquisadores médicos são corrompidos por
interesses corporativos, exagerando a eficácia de tratamentos potencialmente lucrativos
ou minimizando ou negando seus efeitos negativos.

A segunda razão para a influência contínua da pseudociência é que muitas pessoas sofrem
de padecimentos e moléstias a respeito dos quais a ciência médica pouco pode fazer,
quando o pode, ou para os quais o tratamento apropriado exigiria muitos recursos. As
pessoas podem até mesmo ter muito a ganhar ao acreditar nas soluções pseudocientíficas
dos seus problemas. Trabalhos sobre o efeito de placebo mostram que podem ter razão ao
dizer que a pseudociência as “ajuda”, muito embora, é claro, o tipo de terapia furada
escolhida seja mais ou menos irrelevante, por mais que alguns possam preferir um
embrulho pseudocientífico em vez de sobrenatural.

A fraude científica, a corrupção científica e a ciência ideologicamente enviesada são as


grandes amigas da pseudociência, pois ajudam a criar o clima epistêmico de ceticismo e
desconfiança na autoridade epistêmica na qual podem florescer. Precisamos da autoridade
epistêmica porque ninguém pode conferir tudo si mesmo e porque muitos de nós carecem
do conhecimento e/ou dos poderes intelectuais para seguir o raciocínio da ciência, da
matemática e da medicina. A pseudociência desprovida de confiabilidade pode parecer
dotada de autoridade, mas está cheia de treta.

James Ladyman
Extraído de Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem, org. Massimo Pigliucci e
Maarten Boudry (Chicago: The University of Chicago Press, 2013) cap. 3, pp. 45–59. Revisão da tradução de
Desidério Murcho.

Referências
Bird, A. 2007. “What Is Scientific Progress?” Nous 41:64–89.
Carnap, Rudolf. 1966. “The Value of Laws: Explanation and Prediction.” In Philosophical
Foundations of Physics, org. Martin Gardner, 12–16. Nova Iorque: Basic Books.
Cioffi, Frank. 1999. Freud and the Question of Pseudoscience. Peru, IL: Open Court.
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Duhem, Pierre Maurice Marie. 1954. The Aim and Structure of Physical Theory, trad. Philip
P. Wiener. Princeton, NJ: Princeton University Press.
Frankfurt, Harry G. 2005. On Bullshit. Princeton, NJ: Princeton University Press.
Ivanova, Milena. (2010). “Pierre Duhem’s Good Sense as a Guide to Theory Choice.”
Studies in History and Philosophy of Science pt. A41 (1): 58–64.
Lakatos, Imre. 1977. “Science and Pseudoscience.” In Philosophical Papers, vol. 1.
Cambridge: Cambridge University Press.
Laudan, Larry. 1982. “Commentary: Science at the Bar—Causes for Concern.” Science,
Technology and Human Values 7 (41): 16–19.
Popper, Karl. 1963. Conjectures and Refutations. Londres: Routledge and Kegan Paul.

Notas
1. Apesar de “treta” ser comumente utilizada no Brasil como gíria, cujo significado é algo
como “briga”, “confusão”, etc., há ainda outra definição para a palavra que capta muito bem
o significado da palavra “bullshit”. Por exemplo, o Dicionário Online de Português tem o
seguinte como um dos significados de “treta”, que casa muito bem com o significado de
“bullshit”: “Ação ardilosa feita com o objetivo de enganar, de iludir; artimanha: conseguiu o
emprego na base da treta”. (https://www.dicio.com.br/treta/) ↩
2. Isso não quer dizer que Freud não cometeu alguma fraude científica, na medida em que ele
inventou afirmações de sucesso clínico e estudos que não existiam (ver Cioffi 1999). ↩
3. É importante notar que pode haver uma boa quantidade de fraude científica associada à
pseudociência, dado que a tentação de forjar resultados para substanciar o que os
pseudocientistas talvez acreditem sinceramente ser a verdade pode ser muito grande. Neste
respeito, no entanto, ela não é diferente da ciência. ↩
4. Ver o capítulo 2 do presente volume, onde Martin Mahner argumenta que o conceito de
pseudociência carece de condições necessárias e suficientes, mas que pode ser individuado
como um conceito agregado, como o conceito de espécie em biologia. Ver também o
capítulo 1, por Massimo Pigliucci, para um argumento semelhante. ↩
5. Ver Ivanova (2010). ↩
6. O experimento de Michaelson-Morley é um bom exemplo, pois se acreditava que tal
precisão era inatingível. ↩
7. Tenho em mente o experimento de Tuskgee e outros onde os pacientes eram na realidade
contaminados com sífilis. ↩

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