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O PODER EM FOUCAULT

CRÍTICA À PSICANÁLISE COMO DISPOSITIVO DE PODER

Maria Fernanda Guita Murad

Foucault em seu estudo sobre o poder, concebe este como sendo intrínseco ao
saber. O poder é tratado pelo autor como capaz de explicar a produção de saber. O
saber, por sua vez, é visto como uma forma de exercício do poder. Define como a
arqueologia do saber a constituição dos saberes privilegiando as interrelações
discursivas e sua articulação com as instituições, ou seja, como os saberes aparecem e se
transformam. Trata-se de uma análise sobre o porquê dos saberes, explicando sua
existência e transformações como “peça” de relações de poder. Define, então, como
genealogia do poder o saber utilizado como dispositivo político, a serviço do poder, ou
seja, através de análises históricas sobre o poder este é analisado como instrumento
fundamental na produção de saberes.

Conforme o autor, não existiria tampouco um único poder exclusivo e


centralizado no Estado, mas uma série de poderes locais, específicos a pequenas
áreas de ação como as instituições, que se articulariam ao Estado, numa rede
capilar de interrelações. O próprio Estado seria mais um instrumento específico de um
sistema de poderes, onde os demais o ultrapassam e o complementam. As condições de
possibilidade de saberes específicos como a medicina, a psiquiatria, a criminologia se
referem justamente à existência de poderes circunscritos. Trata-se de uma dinâmica do
poder que se estende por toda a sociedade e suas instituições, atingindo de forma
concreta o indivíduo, no seu corpo, sendo caracterizada como um micropoder. Em
realidade poderíamos nos arriscar a falar, a partir dessa concepção de poder do autor,
que em realidade só existiriam micropoderes. Os poderes não estão localizados em
nenhum ponto específico da estrutura social, mas funcionam como uma rede de
dispositivos e mecanismos, presentes em todas as relações humanas como uma
prática.

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Foucault chamará de microfísica do poder a essa relação de poder que
constitui uma rede de interrelações que se expande de uma extremidade a outra da
sociedade, se deslocando no espaço social e que denuncia e valoriza a força que existe
em cada sujeito, presente na relação do indivíduo consigo mesmo, na relação entre os
indivíduos, na relação entre estes e as instituições e entre as instituições e o Estado. O
poder também é visto como podendo ser exercido a partir dos indivíduos em
direção ao Estado e não mais exclusivamente com o sentido de dominação que
tinha anteriormente.

Além disso, o avanço no estudo de Foucault sobre o poder consiste em não


haver necessariamente uma dependência entre os poderes periféricos e o poder do
Estado, existe uma possibilidade de autonomia onde os micropoderes podem estar ou
não ligados ao Estado. A interrelação de que trata o autor possibilita o exercício do
poder em várias direções, do macro para o microsistema ou vice-versa, mas não
pressupõe uma ligação obrigatória entre os sistemas. Foucault se insurge contra a
idéia de que o Estado seria a única fonte de poder.

Contudo, Foucault se interessa particularmente pela investigação dos


procedimentos técnicos de poder que realizam um controle que chegará a incidir
sobre o próprio corpo dos indivíduos. Seriam dispositivos de controle que atuariam
sobre os gestos, hábitos, discurso e atitudes. Foucault faz uma análise ascendente das
relações de poder para estudar esta questão. Através de uma genealogia do poder, o
autor procura saber como esses micropoderes, com tecnologia e história
específicas, relacionadas com a produção de determinados saberes, sobre a
loucura, a sexualidade, o criminoso, se relacionam com o poder do Estado.

Conforme o autor, não existe o poder e sim relações de poder, estas são
lutas de forças, onde se entende como força as resistências do sujeito contra a
submissão da subjetividade. Não há poder sem resistência. O poder só se exerce sobre
sujeitos livres, onde a liberdade é condição de existência do poder. Viver em sociedade
é viver em relações de poder. O poder para Foucault é uma prática social,
constituída historicamente, implica a relação entre os sujeitos, jamais sendo
tratado como um elemento isolado.

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O poder que Foucault destaca não é guerreiro nem jurídico, não está no nível
da violência nem do direito, não se trata de um procedimento repressivo ou de um
castigo. Foucault enfatiza o aspecto de positividade do poder como transformador
e produtor de diferenças. Essa positividade das relações de poder não se refere ao
conceito de bom, mas sim ao aspecto de ato, à produção de novos sentidos. Assim como
a negatividade se refere à paralisação das relações de poder pela existência da
dominação. As relações de poder promovem estratégias de produção de verdades, e
ao mesmo tempo possibilitam sua reformulação em novas verdades. É o que o autor
denominou de jogos de verdade, ou seja, um conjunto de procedimentos pelos quais
a verdade é instituída e desinstituída pelos sujeitos por meio de suas práticas.

O autor irá dizer que o exercício do poder se refere à ordem do “governo”.


Trata-se do governo dos homens uns pelos outros. Governo é utilizado para designar
a maneira de dirigir a conduta dos indivíduos. Defende a “arte” de governar. A
arte de governar implica em dobrar as forças sobre si, numa relação consigo
mesmo, para então exercer o poder sobre o outro.

Foucault analisa as tecnologias específicas de controle que ocorreriam


nas prisões (Panopticon) e nas demais instituições como os hospitais, o exército, a
escola etc. A esse tipo de poder o autor chamou de poder disciplinar. Não se trata de
um aparelho e sim de um dispositivo, ou seja, são métodos que permitem o controle
das operações do corpo, que asseguram a sujeição constante de suas forças lhes
impondo uma relação de docilidade-utilidade. É um poder que não atua do
exterior, mas trabalha o corpo dos homens manipulando e produzindo seu
comportamento.

Contudo, o autor irá ressaltar que as estratégias do poder disciplinar também


têm um aspecto de positividade, pois o poder é sempre produtor de individualidade, já
que concebido como relação de poder. O saber científico é um resultado do poder
disciplinar; a pedagogia é efeito da escola, a criminologia é efeito da prisão, a
psiquiatria é efeito dos asilos. Os domínios do saber se formaram a partir de
práticas disciplinares. Para a arqueologia do saber todo conhecimento é decorrente
de condições políticas. São as relações de poder que irão constituir o sujeito do
conhecimento. Todo saber tem sua gênese nas relações de poder. O que faz a

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genealogia do poder é considerar o saber como peça de um dispositivo político que
se articula com a estrutura econômica.

Conforme Foucault, podemos entender como dispositivo um conjunto


heterogêneo que inclui discursos, instituições, organizações arquitetônicas, regras,
leis, decisões administrativas e enunciados científicos, formando uma rede entre si.
O dispositivo tem sempre uma função estratégica dominante, onde cada efeito
decorrente exigirá uma rearticulação desses elementos heterogêneos.

Foucault ao longo de sua obra também irá tratar a psicanálise, em alguns de


seus estudos, como um saber que conteria um dispositivo de controle como já se referira
à psiquiatria ou à criminologia. Já em outras passagens de seus textos, valoriza o saber
psicanalítico enquanto este fez ver na experiência da loucura o vazio que porta o sujeito.
Contudo, essas colocações não parecem contraditórias, mas sim certo alerta sobre
o saber/poder que o psicanalista tem nas mãos.

O autor, como mencionamos, num certo momento de sua obra, incluirá a


psicanálise como um dispositivo de poder. Em “Sobre a História da Sexualidade”
(1978) refere-se à psicanálise como fazendo parte da maquinaria da confissão. Faz,
ainda, uma outra crítica, considerando que Freud teria colocado sobre a questão da
sexualidade a verdade do homem. Descreve que houve um refinamento das técnicas
de confissão. Conforme o autor:

“Por confissão entendo todos esses procedimentos pelos quais se


incita o sujeito a produzir sobre sua sexualidade um discurso de
verdade que é capaz de ter efeitos sobre o próprio sujeito.”
(FOUCAULT, 1978, p. 264).

Em “Nietzsche, Freud e Marx” (1967), o autor numa abordagem mais


favorável da psicanálise, comentando sobre uma nova hermenêutica, afirma que Freud e
os demais autores não deram um sentido novo a coisas que não tinham sentido, mas sim
mudaram a natureza do signo e modificaram a maneira como deveria ser
interpretado. Acerca da interpretação em psicanálise comenta a respeito:

“...quanto mais longe vamos na interpretação ao mesmo tempo mais


nos aproximamos de uma região absolutamente perigosa, na qual a

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interpretação vai encontrar não só seu ponto de retrocesso, mas onde
ela própria vai desaparecer como interpretação, ocasionando talvez o
desaparecimento do próprio intérprete” (FOUAULT, 1967, p.45).

Sobre a clínica psicanalítica, o essencial da interpretação seria sua


inconclusão. Conforme o autor, Freud não interpreta signos, mas interpretações,
revela os fantasmas, um núcleo que já é ele próprio uma interpretação. Esta leitura
de Foucault corrobora o pensamento de Freud, onde a profundidade é da ordem
da exterioridade e a arqueologia de que se trata refere-se a algo que se tornará
vivo no campo transferencial.

Em “A Loucura, a Ausência da Obra” (1964), o autor fala que a experiência


da loucura foi deslocada para uma forma específica de interdito da linguagem,
uma linguagem excluída e que isso só se produziu com Freud:

“...ela consiste em submeter uma palavra, aparentemente conforme o


código reconhecido, a um outro código cuja chave é dada nesta
palavra mesma; de tal forma que esta é desdobrada no interior de si:
ela diz o que ela diz, mas ela acrescenta um excedente mudo que
enuncia silenciosamente o que ela o diz e o código segundo o qual
ela diz”. (FOUCAULT, 1964, p.214).

Conforme o autor, depois de Freud a loucura ocidental tornou-se uma não


linguagem, uma linguagem dupla, uma matriz da linguagem que não diz nada, pois
consiste numa: “Dobra do falado que é uma ausência de obra”. (id., p.216).
Foucault ressalta que será preciso um dia fazer justiça à Freud pois ele não fez
falar a loucura, ao contrário, ele esvaziou dela o Logos desarrazoado, a dessecou,
fez remontar as palavras até sua fonte, região branca da autoimplicação onde nada
é dito.

Em “Lacan o „Liberatore‟ da Psicanálise” (1981), Foucault retoma sua


concepção mais favorável da psicanálise e descreve o texto de Lacan como sendo de um
hermetismo que levaria o leitor a descobrir-se como sujeito do desejo. Fala que a
obscuridade de tais escritos remete a própria complexidade do sujeito, e o trabalho para
compreendê-los seria um trabalho a ser realizado sobre si mesmo.

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Em “Entrevista com Michel Foucault” (1984), já numa fase final de seus
estudos, o autor volta a referir-se à psicanálise como uma técnica de trabalho de si
sobre si, fundada na confissão, concluindo:

“Nesse sentido é igualmente uma técnica de controle, dado que ela


cria um personagem estruturando-se em torno de seus desejos
sexuais”. (FOUCAULT, 1984, p.342)

Vemos, portanto, vários momentos da obra de Foucault em que este ora


enaltece a psicanálise e ora a coloca como um dispositivo de poder. Estas concepções
se mesclam por toda sua obra o que faz crer que não se tratam de contradições.
Conforme Foucault, o poder se configura em ato e, portanto, é visto como positividade,
no sentido de produtor de individualidade. O autor também é contundente quando
afirma que toda relação humana é uma relação de poder e que poder e saber estão
mutuamente ligados. Não seria a psicanálise diferente disso. Sendo assim, como
podemos entender as observações de Foucault a partir do que chamamos de lugar
do analista? Como a situação analítica poderia transformar-se num dispositivo de
dominação?

Sabemos que a função desejo do analista implica no posicionamento do


analista enquanto objeto causa de desejo, objeto “a”, e não como objeto parcial. É
nessa vertente que deve ser trabalhada a relação transferencial. Conforme Lacan,
ao referir-se ao sujeito suposto saber, no Seminário 17, O Avesso da Psicanálise (1969-
1970), é no analisante que é colocado o saber, é por isso que a palavra lhe é dada tão
livremente. Contudo, para o analisante, na relação transferencial, é o analista quem
detém o saber sobre ele e, portanto, o analisante confere ao mesmo o poder de
tratá-lo.

A responsabilidade do analista começa, portanto, na transferência, na


medida em que é o analista, como lugar do objeto causa de desejo, que funda o
sujeito que se dirige a ele. Por outro lado, a escolha voluntária ou involuntária da
interpretação por parte do analista, a partir do discurso do paciente, constitui
também sua responsabilidade. Conforme Lacan é na função do corte que reside na

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interpretação, que se encontra o objetivo final da análise. Lacan, no Seminário 10, A
Angústia (1962-1963), inclui a angústia do analista como uma via involuntária por onde
também poderá incidir a função do corte como interpretação.

Sabemos também, que o contrato de análise pressupõe alguns dispositivos,


como preço, local, regra da associação livre, uso ou não do divã entre outros. O saber
psicanalítico, seu discurso, com sua teoria e técnica também integra esse conjunto. Há,
portanto, no campo da psicanálise como em qualquer outro, saberes que suscitam
a relação de poder como esta é entendida por Foucault. É inevitável que o analista
exerça certo poder em relação ao analisante seja a partir de que lugar ele ocupe.

Contudo, é no risco do analista ao movimentar-se enquanto sujeito,


deslocando-se da função de desejo do analista, e aí permanecer na posição de
objeto parcial, não retornando ao lugar de objeto causa de desejo, mas ao
contrário, agindo como detentor de um saber real, saindo do discurso do analista e
permanecendo no discurso do mestre, é nesse risco que residiria o elemento mais
grave dentre os que compõem o dispositivo de poder.

Portanto, é fundamental que nós psicanalistas estejamos atentos a essa


questão, para repensarmos o lugar do saber da psicanálise enquanto um saber
contingente que emerge da experiência clínica. A partir de um saber constituído, é
nos reveses do discurso analítico que novos saberes se constituem. Essa
possibilidade é valiosa para o surgimento do sujeito em análise.

Sendo assim, mesmo que a responsabilidade do analista inclua aspectos


subjetivos deste, que as interpretações e construções sejam escolhidas por este, que
enquanto objeto causa de desejo, seja responsável pelo sujeito que emerge na
transferência, que se preserve sempre a possibilidade de reinvenção da posição do
sujeito, com novos caminhos que impliquem num bem dizer o sintoma. O objeto da
psicanálise trata-se de um desobjeto, do “a”, e se assim for levada a cabo a situação
analítica poderá ser uma relação de poder, mas nunca de dominação.
A responsabilidade dos artigos assinados é dos seus autores.

Rio, 08 de dezembro de 2010.

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Referências bibliográficas:

1- FOUCAULT, M (1964) “A Loucura, a Ausência da Obra” in Ditos e Escritos,


v. I, ed. Forense Universitária, RJ.

2- _____________(1965) “ Filosofia e Psicologia” in Ditos e Escritos, v. I, ed.


Forense Universitária, RJ.

3-______________(1967) “Nietzsche, Freud e Marx” in Ditos e Escritos, v. II, ed.


Forense Universitária,RJ.

4-______________(1978) “Não ao Sexo Rei” in Microfísica do Poder, Graal ed.,


RJ.

5-______________(1978) “Sobre a História da Sexualidade” in Microfísica do


Poder, Graal ed., RJ.

6-______________(1981) “Lacan o „Libertatore‟ da Psicanálise” in Ditos e


Escritos, v.V, ed. Forense Universitária, RJ.

7- _____________(1983) “O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si” in Ditos e


Escritos, v. V, ed. Forense Universitária, RJ.

8-_____________(1983) O sujeito e o Poder, in Rabinow, P e Dreyfus, Foucault,


Uma Trajetória Filosófica, 1995, ed. Forense Universitária, RJ.

9-_____________(1984) “Entrevista com Michel Foucault” in Ditos e


Escritos, v.V, ed. Forense Universitária, RJ.

10-_____________(1984) “A Ética do Cuidado de Si com Prática de


Liberdade” in Ditos e Escritos, v. V, ed. Forense Universitária, RJ.

11-LACAN, J (1969-1970) O Seminário, livro 17, o avesso da psicanálise, JZ, RJ.

12-_________.(1962-1963) O Seminário, livro 10, A Angústia, JZ, RJ.

13- MACHADO, R.(1979) Introdução in Microfísica do Poder, Graal ed., RJ.